Mirar Battisti, acertar a multidão – por Giuseppe Cocco
No dia 1º de março de 2009 faleceu em Paris, Giancarlo Santilli. Tinha 57 anos e morreu de câncer. A história de Giancarlo é exemplar para abrir mais uma pequena janela na incrível cobertura que a grande mídia brasileira está fazendo no caso de Cesare Battisti, dedicada a “sentenciá-lo” como se fosse "terrorista" – ou tentando talvez impor ao STF o ponto de vista do governo italiano. Em matéria publicada em 1º de março de 2009, O Estado de São Paulo – para citar apenas um órgão de imprensa – afirma o contrário de todas as evidências: "STF vai extraditar Battisti, se seguir rito" [1], lê-se logo no título. Não se sabe que critérios dariam tanta segurança aos jornalistas João Bosco Rabello e Felipe Recondo para afirmar tal coisa, pois o STF recusou a extradição de todos os italianos refugiados no Brasil, a partir de acusações relacionadas a eventos dos movimentos da década de 1970 [2]. O que a mídia deveria constatar, se fosse isenta, é que uma decisão diferente do STF seria uma ruptura com sua própria jurisprudência: uma ruptura que não teria explicações jurídicas, mas sim políticas. Mas lembremos das manchetes produzidas logo depois da concessão, pelo ministro Tarso Genro, de refúgio a Battisti. Falavam em "dois pesos e duas medidas" entre a decisão relativa ao “terrorista” (Battisti) e a “deportação” (inventada) dos atletas de Cuba! Está fartamente demonstrado, hoje que os atletas voltaram a Cuba porque quiseram fazê-lo. Exatamente o que se sabia, à época. Exatamente o contrário do que os jornais publicavam. O vexame e a falta de profissionalismo, aparentemente, não são suficiente para que se peça desculpas. A hipocrisia da mídia conservadora combina-se à histeria da cruzada de um colunista e do editor de um semanário que se pretende alternativa à mídia de mercado. Já vimos em outros momento que o conhecimento deles da história política da Itália contemporânea é simplório e redutor. Mas há uma “outra” linha de argumentação capital nessa Carta. Sempre com o objetivo de defender “pela esquerda” a extradição de Battisti, Mino Carta e Walter Maierovitch recorrem sistematicamente a entrevistas ou citações dos que eles chamam de “magistrados vermelhos” italianos. A mobilização das entrevistas desses magistrados rossi se faz, em primeiro lugar, com o objetivo de confundir as tradicionais clivagens políticas e, em segundo lugar, os campos de atuação. Mistura-se luta contra o terrorismo e repressão dos crimes de colarinho branco, pelo simples fato de os ditos magistrados “vermelhos” atuarem na repressão da corrupção e/ou da máfia e outras formas do crime organizado italiano. Superficialmente, esta confusão parece proposital e instrumental. Mas, se olharmos com mais cuidado, podemos ver que Carta e Maierovitch incorrem, de fato, num embaralhamento político e teórico.
Nesta justiça de justiceiros, os derrotados não teriam jamais qualquer direito; mas, pela ousadia de ter enfrentado o poder, a punição eterna e eternamente “atualizada”. Esse é o substrato dos argumentos de Maierovitch e Carta
Em primeiro lugar, i magistrati rossi, os “magistrados vermelhos” dos quais tanto se orgulham Mino e Walter não são problema para quem defenda o refúgio para Battisti e a anistia para os anos 1970. O problema está no fato que o cromatismo político aqui invocado é absurdo. Por que esses magistrados italianos haveriam de ser "vermelhos", se o partido de referência (o Partito Democrático, PD) não o é mais, há muito tempo? Porque, nos dizem, assim os chamam os berlusconianos. Mas então, por que os supostos "vermelhos" estão do mesmo lado de Berlusconi na perseguição dos ex-militantes dos 1970 ? A tinta pega somente de um lado? Será, para comparar com o Brasil, que o PPS de Roberto Freire [3], fiel aliado do PSDB, seria "vermelho"? O que Mino e Walter não querem entender – ou não podem – é que a esquerda italiana sumiu do mapa; o PD é como se fosse um grande PPS. Aqueles magistrados “vermelhos” são problema – que deveria fazer avermelhar as caras – para Mino e Walter, tanto quanto são problema também os ex-comunistas que votam com os fascistas, com os "leguistas" xenófobos, e com o partido de Berlusconi (que mudou as leis para escapar à cadeia), contra os militantes da década de 1970. Por trás dos fogos de artifício e frases rápidas, e de referências a combates contra a máfia e o colarinho branco, é Walter que deve explicar (e explicar-se) essa sagrada união, com todas a promiscuidades que ela implica com os crimes do colarinho branco. A tese em que Carta Capital funda-se é simplória e historicamente insustentável: a Itália seria democrática, naqueles anos; a resistência teria sido terrorismo. Por esse tipo de justiça de justiceiros, os derrotados não teriam jamais qualquer direito, além de punição eterna e eternamente “atualizada”, pela ousadia de ter enfrentado o poder. Esse é o substrato dos argumentos de Maierovitch e Carta. Em segundo lugar, as posições de Mino e Maierovitch derivam de um outro viés, particularmente problemático e com relação ao qual o caso Battisti e um revelador eficaz.
Da mesma maneira que o fizeram os magistrados ligados ao que era a esquerda italiana, Carta e Maierovitch aplicam uma visão política fundamentalmente conservadora. Segundo eles, a Itália era e é uma democracia. Essa democracia foi perturbada pela violência do terrorismo (na década de 1970). Sua repressão permitiu a manutenção da democracia. Essa repressão não pode prever nenhum reconhecimento da revolta, nem abrir mão da perseguição (se cometidos no Brasil, os supostos crimes de Battisti já estariam prescritos). Mino e Walter enxergam a Lei como um mecanismo acima do conflito social, algo que seria primeiro, anterior à legitimidade e à sua produção. Para eles, a “lei” tem princípios próprios: divinos. Eles acreditam mesmo que a magistratura e a “judicialização” dos direitos e da sociedade civil sejam um avanço democrático. Pensam que um dos problemas do Brasil – e, mais em geral, das democracias – seja mesmo a impunidade, a falta de um rigoroso respeito à Lei. Para eles, o vigor da Lei (a força da Lei) seria o fato do rigor da Lei.
Há três séculos, Jefferson frisou: “O espírito de resistência ao poder é tão valioso em determinadas ocasiões que eu desejo que ele seja sempre mantido vivo. Ele será muitas vezes exercido mesmo quando é um erro, mas isso é melhor de que não ser exercido nunca”
Ou seja, a violência, a violação dos direitos seriam sempre a conseqüência do não respeito da ordem e da Lei. Mas isso é – inclusive desde o ponto de vista liberal – completamente falso: a força da Lei está na existência de contra-poderes. A dinâmica desses contra-poderes atravessa, e ao mesmo tempo é atravessada, pela realidade que eles enfrentam. A Lei sem legitimidade e sem contraditório não é nada de mais do que a Lei da força, a efetividade que constrói sua própria e exclusiva legitimidade, legitimidade da opressão. Esse tipo de postura ignora, por um lado, que a legitimidade da Lei está na democracia como espaço do contraditório, do conflito e, em última instância, no poder constituinte: a legitimidade capaz de construir sua própria legitimidade. O consenso que forma o alicerce da república deve necessariamente construir-se pelo reconhecimento do conflito. Algo que Thomas Jefferson explicitava nesses termos: “O espírito de resistência ao poder é tão valioso em determinadas ocasiões que eu desejo que ele seja sempre mantido vivo. Ele será muitas vezes exercido mesmo quando é um erro, mas isso é melhor de que não ser exercido nunca” [4]. Por outro lado, essa visão “judiciária” da transformação social é incapaz de ver que, no Brasil,lei da força sobrevive, desde sempre, dentro da força da lei. Quando o campo foi para as cidades e as transformou em metrópoles monstruosas, o crime do poder tornou-se o principal mecanismo de regulação biopolítica das populações. A violência endêmica, em todas as suas formas e, sobretudo, nas formas supostamente mais “organizadas”, constitui a face visível de um poder cujos tratos tecnocráticos nem conseguem mascarar o horrível rosto neoescravagista. A única paz que esse poder pode proporcionar é, na realidade, a paz do medo. É exatamente o que podemos observar de maneira nítida nesses dias: o presidente do STF, Gilmar Mendes, ergue-se como defensor das liberdades dos presos nas operações da Policia Federal contra banqueiros, empresários, comerciantes (quer dizer contra uma elite que até hoje era intocada). Ao mesmo tempo ameaça com o rigor da Lei as lutas do MST. A Lei é a mesma, mas, para os ricos (banqueiros), clamam-se as garantias constitucionais ao passo que, para os pobres sem-terra, pede-se o rigor punitivo da Constituição. É por isso que um movimento de democratização não deve nunca cair na armadilha de pensar que seus problemas serão resolvidos pela magistratura, pela polícia ou, mais em geral, pela ampliação dos poderes do Estado. É por isso que a elite está sempre pronta a organizar uma CPI (quando o governo não é completamente controlado por ela) ou uma frente parlamentar contra a corrupção. A corrupção do poder (dos ricos) é usada contra toda tentativa de constituição da potência (dos pobres). A denuncia retórica da impunidade da elite (dos ricos) serve para chamar para mais punição contra os pobres.
A indecência dos que pedem “rigor” aparece clamorosamente quando lembramos os editoriais redigidos quando da prisão de Daniel Dantas. Nesses, assumiam-se com veemência posições de defesa das garantias constitucionais — e, pois, da “tibieza”...
Num país como o Brasil, marcado pelo excesso de punição e por níveis iníquos de desigualdade, esses senhores cujo poderio tem origem na vergonha da escravidão e se consolidou na não menos vergonhosa ditadura militar denunciam – por exemplo em editorial de O Globo de 28 de fevereiro de 2008) as “várias distorções existentes na Constituição de 1988)” [5]. Assim, continua o mesmo editorial, “já passou da hora de agentes públicos deixarem de ser tíbios (...)” para enfim esclarecer:
“Este é o pano de fundo da correta iniciativa do presidente do STF, Gilmar Mendes, de alertar para a ilegalidade na atuação de organizações de sem-terra – MST à frente – e, em especifico, na transferência de recursos públicos para esses grupos, que vivem na semi-clandestinidade e atuam ao arrepio da lei, com a conivência dos agentes públicos”. O ódio racista e de classe contra os pobres, e o cinismo diante de um “social” que significa miséria e violência, não são os únicos elementos indignos desse tipo de jornalismo escancaradamente anti-democrático – o mesmo que os escravocratas mobilizavam contra os abolicionistas. A indecência e a ausência de qualquer ética aparecem clamorosamente quando comparamos esse editorial com o tom dos editoriais de há alguns poucos meses, quando da prisão do banqueiro Daniel Dantas. Nesses, assumiam-se com veemência posições de defesa das garantias (e, pois, da tibieza) constitucionais. Em julho de 2008, durante a operação Satiagraha, o mesmo Gilmar Mendes e a mesma imprensa defendiam a necessidade de a magistratura ser – para usar os termos de O Globo — “tíbia” com o banqueiro Daniel Dantas. Os editoriais de O Globo (todos no mesmo mês de julho) são ilustrativos e repetitivos: “A Polícia Federal não pode agir como policia política, acima das instituições” (dia 10); “Defesa do Direito” (é o título dia 12); “Estado Policial” (título do dia 15); “Cultura da tutela” (título do dia 16) e, enfim, no dia 17, denunciava-se “o atropelamento de direitos individuais garantidos pela Constituição (...)”. A Folha de São Paulo foi no mesmo tom. Inicialmente, tentou jogar acusações para cima do governo, tentando semear duvidas: “História das trevas: governo que se afirma paladino da República no caso Dantas é o mesmo que, em surdina, facilita e conduz fusão de teles” recita o editorial do 16 de julho de 2008. “Poder em descrédito” foi o título do editorial do 20 de julho de 2008. Já no dia 12 de setembro, o editorial da mesma Folha deixa de lado as ambigüidades e titula “Grampo controlado”. Em entrevista à Folha (em 29 de setembro de 2008), é o próprio Gilmar Mendes que faz a síntese: “no plano institucional, tenho a impressão de que há algum tempo o Brasil denuncia o descontrole dessas áreas (grampo telefônico)”. E, o que está fora de controle é “o aparato policial”. No caso Satiagraha, a defesa do estado de direito não atrapalha, diz Gilmar Mendes, “o combate à impunidade”. Umas três semana antes, o editorial de O Globo (7 de setembro de 2008) [6] antecipava-se, ao uníssono com Gilmar: “Vinte e três anos depois a redemocratização, este é um daqueles momentos em que a sociedade se depara com os limites estabelecidos pelo estado de direito com o objetivo de protegê-la”.
Gilmar Mendes cobra e limita a operação da polícia e dos magistrados, no caso Dantas; e cobra mais inquéritos e mais repressão de polícia e magistrados contra os sem-terra. Tudo no mesmo dia e na mesma ...Folha! A força da lei é na realidade a lei da força
Estamos, plenamente, no campo do indigno: o mesmo jornal (O Globo), como já citamos, que convoca “os agentes públicos (a) deixarem de ser tíbios” [7] com as lutas sociais e mais em geral contra os pobres (os informais, as favelas, as invasões) escreveu no editorial de 7 de setembro de 2008: “Alegar que se trata de uma tibieza da legislação brasileira é não conhecer os termos de alguns desses inquéritos (está se falando da operação Satiagraha) e a visível fragilidade de certas acusações”. No combate aos movimentos e aos pobres, a propaganda da oligarquia (e de uma oposição sem projeto) acusam “as várias distorções existentes na Constituição”. Ou seja: “em nome do ’social’ relaxa-se diante da favelização, da desordem urbana generalizada, de homicídios, de agressões a preceitos constitucionais (...).” [8] Quando se trata do colarinho braço, os Torquemada da luta contra os marajás e a corrupção tem a preocupação oposta: “É preciso combater a cultura salvacionista que considera a Constituição impeditiva da moralização do poder público”. Como isso se traduz? De maneira tão nítida quanto as afirmações da “literatura” que citamos acima. É só ler, mesmo que de forma distraída, os noticiários do 5 de março de 2009. “Mendes orienta tribunais a priorizar questão fundiária” e, na mesma página, “Juiz De Sanctis – aquele que emitiu dois mandados de prisão contra Daniel Dantas - é alvo de mais um processo administrativo” [9]. O presidente do STF, Gilmar Mendes cobra e limita a operação da polícia e dos magistrados, no caso Dantas; e cobra mais inquéritos e mais repressão de polícia e magistrados contra os sem-terra. Tudo no mesmo dia e na mesma ...Folha! A força da lei é na realidade a lei da força. Há também uma tradução meramente jornalística dessa postura ultra-conservadora de uma elite que ainda não acertou as contas com suas origens escravocratas (apesar de ter tido a ilusão que a tecnocracia “tucana” lhe forneceria algo como um laissez passer que limpasse as mãos secularmente sujas do sangue das senzalas...). O Globo está sempre à frente: em 5 de março de 2009, podemos ver a mais nova cobertura da violência urbana. “Barbárie na Niemeyer” é a manchete, ilustrada por duas fotos em primeira página (com mais duas páginas inteiras na abertura do “caderno Rio” [10]).
As fotos e os artigos falam do ferimento de um “empresário e sua namorada” por um grupo de “marginais”. No mesmo dia, a notícia do assassinato do líder de uma ocupação de terras conduzida por 200 famílias na Zona Oeste do Rio de Janeiro está relegada na página 16, na rubrica “notas”. São 19 linhas ao todo!
Na tristeza da morte de Giancarlo Santilli, temos a possibilidade de falar de um caso tão exemplar quanto o de Battisti, sem correr o risco de criar mais problemas para a vítima
A vergonha desse jornalismo é a mesma que Primo Levi tratava como a vergonha de ser um homem — ou seja de pactuar com a segregação, a desigualdade e a violência insuportável que o poder exerce para regular a população pobre. Essa vergonha se traduz no paradoxo dos que continuam presos do esquema político e mental do poder. Pensam que o combate à violência da desigualdade – ou seja, a uma violência provocada pela ausência de liberdade material e efetiva – passe pela redução da liberdade. Como dizia Spinoza, “sabemos que as guerras, o desrespeito ou a violação das leis não são atribuíveis à malvadez dos súditos, mas à má constituição do governo”. O problema não está em aumentar a autoridade do Estado, mas sim em potencializar a democracia. “Se em um Estado, escreveu Spinoza, reina mais do que num outro a malvadez, e perpetram-se mais crimes do que num outro, isso é devido com certeza ao fato que esse Estado não procurou o suficientemente a concórdia e não ordenou com sagacidade os direitos (...)”. Então, só a liberdade funda a paz e, com ela, o melhor governo. A liberdade da qual falamos é própria dinâmica da constituição: o direito à rebelião, que Jefferson escreveu na Constituição norte-americana. E na Itália: qual paz foi imposta com a repressão dos movimentos da década de 1970, e é atualizada pelo conluio da toda a classe política na perseguição, mais de trinta anos depois, de Battisti e Giancarlo Santilli? É a paz de Gomorra [11], de uma violência social proporcional à violência do poder — ou seja, à inexistência de uma norma consensual que evite a guerra. A destruição dos direitos civis abre-se no direito de guerra. Por isso, o pensamento de um Walter Maierovitch, de um Gilmar Mendes e da mídia oligárquica se entrecruzam na cruzada contra o refugio para Battisti e na criminalização dos sem-terra: para eles, a multidão que não tem medo dá medo! Na tristeza da morte de Giancarlo Santilli, temos a possibilidade de falar de um caso tão exemplar quanto o de Battisti, sem correr o risco de criar mais problemas para a vítima: Giancarlo foi operário da Fiat de Turim, militante da Autonomia Operária. Participou das grandes greves autônomas e das lutas contra a reestruturação, na segunda metade dos anos 1970. Giancarlo participou assim de um vasto e profundo momento de constituição da liberdade e, pois, da paz, na Itália dos 1970. Foi demitido dia 9 de outubro de , com outros 60 operários (delegados sindicais e militantes de base) da Fiat. Foi demissão política. A direção da empresa disse-o formalmente: os demitidos tiveram"que caracterizava prestações de trabalho que não atendiam os princípios da diligência, correção e boa fé e [foram demitidos] por ter tido comportamento não compatível com os princípios da convivência civil no lugares de trabalho". A demissão daqueles 61, pela Fiat, foi investida política direta contra as organizações autônomas dos operários; foi ataque à autonomia, quer dizer, ao processo constituinte. Na demissão, foram cúmplices os principais sindicatos e o Partido Comunista Italiano. Isso aconteceu poucos meses depois de duas tragédia. Primeiro, o seqüestro e o homicídio de Aldo Moro – uma prática de luta (armada) que se declarava antagonista mas reproduzia especularmente o modo de funcionamento do Estado. Um ano depois, a demissão em massa de 40 mil operários da mesma Fiat. Já estávamos então nos anos 1980, e a ofensiva neoliberal se generalizara. O Partido Comunista e os sindicatos só sobreviveriam, dali em diante, aparelhados para participar da co-gestão do sistema de proteção do desemprego mais injusto, mais corporativo e excludente, em todos os países desenvolvidos: a Cassa Integrazione Guadagni —uma instituição herdada do fascismo, e que só protege os trabalhadores das grandes empresas industriais. Em 1981, Giancarlo foi acusado de ser responsável moral por uma ação durante a qual um segurança da Fiat foi ferido mortalmente. Refugiou-se na França de Mitterand. Seu processo é exemplar do modo de funcionamento da justiça italiana: condenado em primeira instância a 22 anos de prisão por "concurso moral" naquele assassinato, foi depois absolvido em apelação. Mais tarde, foi novamente condenado pela Corte de Cassação (algo como o STF). Na França, onde Giancarlo viveu 29 anos de exílio, tornou-se sociólogo de muito prestígio – por suas análises da reestruturação da Fiat – e passou a trabalhar na RATP, a empresa pública do metrô de Paris. Foi diretor da linha 1, Château de Vincennes-La Défense.
Quantas vezes os patrões da grande mídia brasileira, os editorialistas, Gilmar Mendes, Carta e Maierovitch terão andado em metrô, em Paris, sem saber que sua segurança e conforto estavam entregues à competência e aos saberes diligentes do operário "terrorista" Giancarlo Santilli!
[1] Em http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090301/not_imp331378,0.php
[2] O STF recusou quatro pedidos anteriores, reconhecendo cada vez com mais propriedade e lucidez a natureza política dos crimes imputados.
[3] Não por acaso, em artigo publicado na Folha de São Paulo (Tendências e Debates, 8 de Janeiro de 2009), Roberto Freire enfatiza o "esforço de reinvenção da esquerda italiana corporificado pelo Partito Democrático (PD), o herdeiro mais importante do velho PCI". Que capacidade de antecipação! Hoje, início de março de 2009, o PD vive caos total, rachado, à beira da implosão.
[4] “Carta a Abigail Adams”, apud Michael Hardt, “Thomas Jefferson, or the transition of democracy”, in “Michael Hardt presents Thomas Jefferson, The declaration of Independence, Verso, London-New York, 2007.
[5] O título é de um cinismo escancarado: “Tudo pelo ‘social’”.
[6] “País que se deseja”, deixamos de lado a questão de saber quem é o sujeito desse “se”.
[7] No citado editorial do 28 de fevereiro de 2009.
[8] Editorial O Globo, 28 de fevereiro de 2009.
[9] Folha de São Paulo, p. A8, 5 de março de 2009.
[10] P. 13-4. Nem vamos comentar o tratamento meio aprovador do espancamento dos suspeito pelos narcotraficantes da Rocinha na página 14.
[11] Estamos falando do filme-documentário sobre a violência na região de Napoli, do livro homonimo de Saviano.
quarta-feira, 18 de março de 2009
terça-feira, 17 de março de 2009
"A Igreja Católica sempre legitimou a violência dos Estados"... Michel Onfray
"A Igreja Católica sempre legitimou a violência dos Estados"
A polêmica sobre a decisão do arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, que excomunhou os médicos que realizaram o aborto no episódio da menina estuprada pelo pai ganhou repercussão internacional. Para o filósofo francês Michel Onfray, decisão é coerente com pensamento oficial da Igreja Católica de hoje. "A ideologia da Igreja é reacionária, conservadora e insuportável. A Igreja apresenta indignações seletivas. Durante e após a II Guerra Mundial, ela excomungou todos os comunistas e nunca excomungou um único nazista", critica Onfray.
Marta Fantini
Data: 16/03/2009
O filósofo francês Michel Onfray, iniciador da Universidade Popular de Caen , autor de 51 livros, traduzidos em mais de 20 línguas, e de uma coleção de 12 CDs, aposta na Filosofia como meio de vencer o lado irrracional do ser humano: "Apesar do sofrimento da existência humana, que sempre existiu e existirá, é preciso viver em pé, com dignidade e não ajoelhado. O filósofo tem a obrigação de construir um movimento universal de elevação da condição humana".
Por ocasião da sua passagem por Bordeaux, para o lançamento de seu último livro, "Contra-história da Filosofia: as radicalidades existenciais" , Michel Onfray nos concedeu uma entrevista sobre o lastimável episódio do aborto terapêutico, ocorrido em Recife.
Marta Fantini: O sofrimento de uma família, que deveria permanecer na esfera privada, acabou se tornando um evento midiático de repercursão internacional, devido a uma punição da Igreja Católica que parece sair das "entranhas da Idade Média": a excomunhão.
Michel Onfray: A decisão parece da Idade Média, mas ela está inscrita no corpus do pensamento oficial da Igreja de hoje. Não se pode ignorá-la: a Igreja diz claramente que o aborto é proibido, que é um pecado e o clero aplica o que a Igreja professa. Na minha opinião, não há incoêrencia entre a excomunhão, que é insignificante, e a ideologia da Igreja, que é reacionária, conservadora e insuportável.
A Igreja apresenta indignações seletivas. Durante e após a II Guerra Mundial, ela excomungou todos os comunistas e nunca excomungou um único nazista. Hitler nunca foi excomungado assim como os ideólogos do nazismo e os membros do partido. A Igreja somente demonstra o que ela foi e é, colocando-se sempre ao lado dos fortes, dos poderosos, da colaboração. Ela não resiste. Ela não se preocupa com os pobres. Ela não demonstrou misericórdia a este ser frágil que foi violentado pelo padrasto. Ela não apoiou esta menina. Ao contrário, ela ainda a afligiu, considerando-a até culpada e responsável.
Eu li na imprensa francesa que, para o bispo de Recife, o estrupo é menos grave que o aborto. Quando alguém lhe perguntou porque o padastro não foi excomungado, ele respondeu que "dar a morte é mais grave". Dar a morte a um feto é mais grave que o estupro e a pedofilia? O feto é um ser potencialmente vivo que está programado para se tornar uma pessoa, mas não é uma pessoa. Antes que se torne um ser humano, pode-se praticar o aborto, e sobretudo, nestas condições, parece-me um ato evidente.
MF : Como explicar esta insistência em preservar a vida se, por outro lado, a Igreja sempre legitimou a violência dos Estados?
MO: Ela pretende defender a vida, mas ela não a defende. Onde está a dignidade nesta aventura? O que se pode chamar de vida? Onde ela se encontra? Numa manifestação biológica? Neste caso a simples ejaculação, na hora da masturbação, é um genocídio! É preciso parar com isso. O espermatozóide é matéria viva. Neste caso, ela deveria excomungar todos os homens que se masturbam, pois os espermatozóides vão terminar no fundo de um vaso sanitário e não na destinação prevista que é a fecundação do óvulo! É um delírio total esta posição da Igreja que se diz defensora da vida e, ao mesmo tempo, justifica a pena de morte no "Catecismo da Igreja Católica".
Eu até ganhei uma caixa de champanhe numa aposta com alguém que não acreditava que isso fosse possível! No "Catecismo da Igreja Católica" está escrito, explicitamente, que, em alguns casos extremos, pode-se aplicar a pena de morte. Sinto muito, é uma questão de princípio: não se defende a pena de morte quando se é cristão. E ainda querem que acreditemos que defendem a vida quando se defende, ao mesmo tempo, a pena de morte?
A Igreja defendeu a vida ao dar a bênção às bombas atômicas que explodiram em Hirocsima e Nagasaki? Ela defendeu a vida ao dar a bênção às armas que serviram para assassinar os republicanos espanhóis durante a Guerra da Espanha?. A Igreja pretende defender a vida, mas o que ela defende é o poder em vigor. Na verdade, o que fascina a Igreja é a morte. É a morte que lhe interessa.
MF: O que a imprensa francesa não citou, nos inúmeros artigos sobre este trágico evento, é que a Igreja, no Brasil, enfrenta uma queda de braço com o Estado. A República democrática brasileira se moderniza: a pesquisa sobre as células troncos foi liberada, a legalização do aborto está em discussão, a população se beneficia da distribuição gratuita de preservativos e pílulas do dia seguinte. Como explicar que esta Igreja, que não consegue acompanhar a evolução dos costumes morais e o progresso da Ciência, está se tornando cada vez mais fundamentalista?
MO : A questão não é o que ela está se tornando, o problema é que ela sempre foi e é fundamentalista. Acredito que, ultimamente, a Igreja está tentando colocar as coisas no seu eixo original. Com o recente retorno do islamismo, no mercado intelectual, ideológico e espiritual, ela diz que nem tudo está perdido para as religiões. Ela constata que, finalmente, ainda existem pessoas que acreditam em Deus e que em nome de Alá são capazes de morrer por ele, de lutar por ele, de viver por ele, que se comportam, na existência de uma vida cotidiana, de acordo com os preceitos que teriam sido ditados por ele. Penso que a Igreja está numa lógica de reconquista e que é o momento ideal de avançar seus peões. O papa Bento XVI, começou a avançá-los, por exemplo, com a reabilitação dos bispos negacionistas. Quando percebeu que esta estratégia estava provocando muito debate na imprensa internacional, ele recuou.
Acredito que há uma espécie de desejo de reconquistar a fé em escala planetária. Eu li no Le Figaro, o único jornal disponível no hotel, uma página inteira consagrada ao Papa e à carta que ele enviou aos bispos. Ele cita que o desejo de São Pedro era fazer proselitismo. O cristianismo e o número 1 dos cristãos, Bento XVI, concluem: se o Islã faz proselitismo e obtem resultados positivos, porque a Igreja Católica também não o faria? É uma maneira de reconquistar o terreno perdido, em todos os países.
É o que aconteceu na Itália. Recentemente, houve uma eleição ultra politizada, uma espécie de referendum sobre a questão do aborto, do reembolso deste tipo de intervenção, de células troncos, etc. A Igreja pediu a abstenção. Uma boa tática que se revelaria na hora da contagem dos votos, uma prova que a abstenção seria a Igreja, com um número considerável de vozes. A era de João Paulo II, da mediatização do tipo «rock star» e das viagens planetárias, terminou. O eucumenismo, da época em que se dançava com os aborígines, na Austrália, como pretexto de comunhão com o sagrado, tudo isso acabou. O único objetivo da Igreja atual é o retorno à antiga boa fé católica apostólica romana. Neste período de niilismo generalizado, ela se impõe uma posição mais rígida. A suspensão da excomunhão dos bispos negacionistas, o que se passou na Itália e no Brasil, são, para mim, sinais convergentes.
MF : Com a crise, o fundamentalismo pode piorar no seio das três grandes religiões monoteístas? A micro resistência, à qual você sempre faz alusão, não seria uma esperança como foi a Teoria da Libertação ou os Movimentos Pastorais na América Latina?
MO: As microresistências são a única solução possível. Eu penso que há cristãos que não estão de acordo com esta opção de direita à extrema direita da Igreja. Na “Golias”, uma excelente revista, publicada por católicos franceses de esquerda, pode-se encontrar artigos extremamente inteligentes. No último número, por exemplo, publicaram análises interessantes sobre o caso do bispos negacionistas. Há sempre uma categoria de católicos de esquerda com a qual se pode contar. Há sempre alguém que não aceita o inaceitável, que não se submete. Há esta esperança e há também a esperança no avanço do combate ateu.
Nos Estados Unidos e na Inglaterra as obras sobre o ateísmo fazem muito sucesso. «O Tratado da Ateologia» foi best seller na Austrália, Espanha e Itália, quer dizer, se fizermos avançar o combate ateu, obteremos soluções. Evidentemente, sem repetir o erro do «ser ateu» do século XIX: anticlerical , mas fabricante de uma espécie de igreja atéia, de clero ateu. Seria o pior que poderia acontecer, ou seja, querer destruir, utilizando os mesmos métodos. É preciso avançar argumentos, debater questões como as dos tratamentos paliativos, da eutanásia… A França está com muito atraso em relação a estes assuntos. Porque a eutanásia não avança, mas sim os tratamentos paliativos? Porque o lobby cristão é potente para interferir nas decisões dos deputados e dos senadores e impedir que a lei sobre a eutanásia seja votada.
MF: Seus livros estão traduzidos em mais de vinte línguas e a venda de seus CDs atingiram 50 mil exemplares. Parece-me um número impressionante, em se tratando de conteúdo filosófico. Este sucesso seria a prova que a Filosofia preenche um vazio deixado pela religião que já não satisfaz a busca espiritual do ser humano do século XXI ?
MO: Minha proposta é sair da era religiosa e teológica para entrar na era filosófica. É preciso parar de projetar a vida em universos inexistentes para construir a sua existência. Devemos nos contentar com este mundo real, examinar o que podemos fazer de nossas existências nesta vida que é pós moderna, pós industrial, pós fascista, pós comunista e pós cristã, seguramente. O que podemos fazer num período de niilismo? Somente a Filosofia poderá trazer as respostas. Gostaria que os livros de catecismo fossem substituídos, nas escolas, por ateliers de Filosofia, gostaria que todos nós refletíssemos juntos para, pelo menos, provocar a vontade de adquirir conhecimento. Sobretudo para aqueles que ficaram às margens, pois um dia, alguém disse que a Filosofia não era para eles; que ela foi feita para a elite, para a aristocracia e quem não fizesse parte dela, não teria direito a ela.
O desejo da filosofia é o desejo da sabedoria, da necessidade de ética, de reflexão e de moral. Almejo uma Filosofia que esclareça, que simplifique sem se empobrecer. Quando me deparo, nos meus cursos da Universidade Popular de Caen, com anfiteatros lotados, com mais de mil pessoas, com transmissão em vídeo no saguão, para aqueles que não conseguiram entrar, eu constato que é possível, que a Filosofia poderá vencer o irracional.
Marta Fantini é produtora e apresentadora do programa “Le Brésil en Noir & Blanc”, na Rádio Campus Bordeaux, França.
fonte: Agência Carta Maior
A polêmica sobre a decisão do arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, que excomunhou os médicos que realizaram o aborto no episódio da menina estuprada pelo pai ganhou repercussão internacional. Para o filósofo francês Michel Onfray, decisão é coerente com pensamento oficial da Igreja Católica de hoje. "A ideologia da Igreja é reacionária, conservadora e insuportável. A Igreja apresenta indignações seletivas. Durante e após a II Guerra Mundial, ela excomungou todos os comunistas e nunca excomungou um único nazista", critica Onfray.
Marta Fantini
Data: 16/03/2009
O filósofo francês Michel Onfray, iniciador da Universidade Popular de Caen , autor de 51 livros, traduzidos em mais de 20 línguas, e de uma coleção de 12 CDs, aposta na Filosofia como meio de vencer o lado irrracional do ser humano: "Apesar do sofrimento da existência humana, que sempre existiu e existirá, é preciso viver em pé, com dignidade e não ajoelhado. O filósofo tem a obrigação de construir um movimento universal de elevação da condição humana".
Por ocasião da sua passagem por Bordeaux, para o lançamento de seu último livro, "Contra-história da Filosofia: as radicalidades existenciais" , Michel Onfray nos concedeu uma entrevista sobre o lastimável episódio do aborto terapêutico, ocorrido em Recife.
Marta Fantini: O sofrimento de uma família, que deveria permanecer na esfera privada, acabou se tornando um evento midiático de repercursão internacional, devido a uma punição da Igreja Católica que parece sair das "entranhas da Idade Média": a excomunhão.
Michel Onfray: A decisão parece da Idade Média, mas ela está inscrita no corpus do pensamento oficial da Igreja de hoje. Não se pode ignorá-la: a Igreja diz claramente que o aborto é proibido, que é um pecado e o clero aplica o que a Igreja professa. Na minha opinião, não há incoêrencia entre a excomunhão, que é insignificante, e a ideologia da Igreja, que é reacionária, conservadora e insuportável.
A Igreja apresenta indignações seletivas. Durante e após a II Guerra Mundial, ela excomungou todos os comunistas e nunca excomungou um único nazista. Hitler nunca foi excomungado assim como os ideólogos do nazismo e os membros do partido. A Igreja somente demonstra o que ela foi e é, colocando-se sempre ao lado dos fortes, dos poderosos, da colaboração. Ela não resiste. Ela não se preocupa com os pobres. Ela não demonstrou misericórdia a este ser frágil que foi violentado pelo padrasto. Ela não apoiou esta menina. Ao contrário, ela ainda a afligiu, considerando-a até culpada e responsável.
Eu li na imprensa francesa que, para o bispo de Recife, o estrupo é menos grave que o aborto. Quando alguém lhe perguntou porque o padastro não foi excomungado, ele respondeu que "dar a morte é mais grave". Dar a morte a um feto é mais grave que o estupro e a pedofilia? O feto é um ser potencialmente vivo que está programado para se tornar uma pessoa, mas não é uma pessoa. Antes que se torne um ser humano, pode-se praticar o aborto, e sobretudo, nestas condições, parece-me um ato evidente.
MF : Como explicar esta insistência em preservar a vida se, por outro lado, a Igreja sempre legitimou a violência dos Estados?
MO: Ela pretende defender a vida, mas ela não a defende. Onde está a dignidade nesta aventura? O que se pode chamar de vida? Onde ela se encontra? Numa manifestação biológica? Neste caso a simples ejaculação, na hora da masturbação, é um genocídio! É preciso parar com isso. O espermatozóide é matéria viva. Neste caso, ela deveria excomungar todos os homens que se masturbam, pois os espermatozóides vão terminar no fundo de um vaso sanitário e não na destinação prevista que é a fecundação do óvulo! É um delírio total esta posição da Igreja que se diz defensora da vida e, ao mesmo tempo, justifica a pena de morte no "Catecismo da Igreja Católica".
Eu até ganhei uma caixa de champanhe numa aposta com alguém que não acreditava que isso fosse possível! No "Catecismo da Igreja Católica" está escrito, explicitamente, que, em alguns casos extremos, pode-se aplicar a pena de morte. Sinto muito, é uma questão de princípio: não se defende a pena de morte quando se é cristão. E ainda querem que acreditemos que defendem a vida quando se defende, ao mesmo tempo, a pena de morte?
A Igreja defendeu a vida ao dar a bênção às bombas atômicas que explodiram em Hirocsima e Nagasaki? Ela defendeu a vida ao dar a bênção às armas que serviram para assassinar os republicanos espanhóis durante a Guerra da Espanha?. A Igreja pretende defender a vida, mas o que ela defende é o poder em vigor. Na verdade, o que fascina a Igreja é a morte. É a morte que lhe interessa.
MF: O que a imprensa francesa não citou, nos inúmeros artigos sobre este trágico evento, é que a Igreja, no Brasil, enfrenta uma queda de braço com o Estado. A República democrática brasileira se moderniza: a pesquisa sobre as células troncos foi liberada, a legalização do aborto está em discussão, a população se beneficia da distribuição gratuita de preservativos e pílulas do dia seguinte. Como explicar que esta Igreja, que não consegue acompanhar a evolução dos costumes morais e o progresso da Ciência, está se tornando cada vez mais fundamentalista?
MO : A questão não é o que ela está se tornando, o problema é que ela sempre foi e é fundamentalista. Acredito que, ultimamente, a Igreja está tentando colocar as coisas no seu eixo original. Com o recente retorno do islamismo, no mercado intelectual, ideológico e espiritual, ela diz que nem tudo está perdido para as religiões. Ela constata que, finalmente, ainda existem pessoas que acreditam em Deus e que em nome de Alá são capazes de morrer por ele, de lutar por ele, de viver por ele, que se comportam, na existência de uma vida cotidiana, de acordo com os preceitos que teriam sido ditados por ele. Penso que a Igreja está numa lógica de reconquista e que é o momento ideal de avançar seus peões. O papa Bento XVI, começou a avançá-los, por exemplo, com a reabilitação dos bispos negacionistas. Quando percebeu que esta estratégia estava provocando muito debate na imprensa internacional, ele recuou.
Acredito que há uma espécie de desejo de reconquistar a fé em escala planetária. Eu li no Le Figaro, o único jornal disponível no hotel, uma página inteira consagrada ao Papa e à carta que ele enviou aos bispos. Ele cita que o desejo de São Pedro era fazer proselitismo. O cristianismo e o número 1 dos cristãos, Bento XVI, concluem: se o Islã faz proselitismo e obtem resultados positivos, porque a Igreja Católica também não o faria? É uma maneira de reconquistar o terreno perdido, em todos os países.
É o que aconteceu na Itália. Recentemente, houve uma eleição ultra politizada, uma espécie de referendum sobre a questão do aborto, do reembolso deste tipo de intervenção, de células troncos, etc. A Igreja pediu a abstenção. Uma boa tática que se revelaria na hora da contagem dos votos, uma prova que a abstenção seria a Igreja, com um número considerável de vozes. A era de João Paulo II, da mediatização do tipo «rock star» e das viagens planetárias, terminou. O eucumenismo, da época em que se dançava com os aborígines, na Austrália, como pretexto de comunhão com o sagrado, tudo isso acabou. O único objetivo da Igreja atual é o retorno à antiga boa fé católica apostólica romana. Neste período de niilismo generalizado, ela se impõe uma posição mais rígida. A suspensão da excomunhão dos bispos negacionistas, o que se passou na Itália e no Brasil, são, para mim, sinais convergentes.
MF : Com a crise, o fundamentalismo pode piorar no seio das três grandes religiões monoteístas? A micro resistência, à qual você sempre faz alusão, não seria uma esperança como foi a Teoria da Libertação ou os Movimentos Pastorais na América Latina?
MO: As microresistências são a única solução possível. Eu penso que há cristãos que não estão de acordo com esta opção de direita à extrema direita da Igreja. Na “Golias”, uma excelente revista, publicada por católicos franceses de esquerda, pode-se encontrar artigos extremamente inteligentes. No último número, por exemplo, publicaram análises interessantes sobre o caso do bispos negacionistas. Há sempre uma categoria de católicos de esquerda com a qual se pode contar. Há sempre alguém que não aceita o inaceitável, que não se submete. Há esta esperança e há também a esperança no avanço do combate ateu.
Nos Estados Unidos e na Inglaterra as obras sobre o ateísmo fazem muito sucesso. «O Tratado da Ateologia» foi best seller na Austrália, Espanha e Itália, quer dizer, se fizermos avançar o combate ateu, obteremos soluções. Evidentemente, sem repetir o erro do «ser ateu» do século XIX: anticlerical , mas fabricante de uma espécie de igreja atéia, de clero ateu. Seria o pior que poderia acontecer, ou seja, querer destruir, utilizando os mesmos métodos. É preciso avançar argumentos, debater questões como as dos tratamentos paliativos, da eutanásia… A França está com muito atraso em relação a estes assuntos. Porque a eutanásia não avança, mas sim os tratamentos paliativos? Porque o lobby cristão é potente para interferir nas decisões dos deputados e dos senadores e impedir que a lei sobre a eutanásia seja votada.
MF: Seus livros estão traduzidos em mais de vinte línguas e a venda de seus CDs atingiram 50 mil exemplares. Parece-me um número impressionante, em se tratando de conteúdo filosófico. Este sucesso seria a prova que a Filosofia preenche um vazio deixado pela religião que já não satisfaz a busca espiritual do ser humano do século XXI ?
MO: Minha proposta é sair da era religiosa e teológica para entrar na era filosófica. É preciso parar de projetar a vida em universos inexistentes para construir a sua existência. Devemos nos contentar com este mundo real, examinar o que podemos fazer de nossas existências nesta vida que é pós moderna, pós industrial, pós fascista, pós comunista e pós cristã, seguramente. O que podemos fazer num período de niilismo? Somente a Filosofia poderá trazer as respostas. Gostaria que os livros de catecismo fossem substituídos, nas escolas, por ateliers de Filosofia, gostaria que todos nós refletíssemos juntos para, pelo menos, provocar a vontade de adquirir conhecimento. Sobretudo para aqueles que ficaram às margens, pois um dia, alguém disse que a Filosofia não era para eles; que ela foi feita para a elite, para a aristocracia e quem não fizesse parte dela, não teria direito a ela.
O desejo da filosofia é o desejo da sabedoria, da necessidade de ética, de reflexão e de moral. Almejo uma Filosofia que esclareça, que simplifique sem se empobrecer. Quando me deparo, nos meus cursos da Universidade Popular de Caen, com anfiteatros lotados, com mais de mil pessoas, com transmissão em vídeo no saguão, para aqueles que não conseguiram entrar, eu constato que é possível, que a Filosofia poderá vencer o irracional.
Marta Fantini é produtora e apresentadora do programa “Le Brésil en Noir & Blanc”, na Rádio Campus Bordeaux, França.
fonte: Agência Carta Maior
segunda-feira, 16 de março de 2009
A grande mídia e o golpe de 64 - por Venício A. de Lima
A grande mídia e o golpe de 64
Ao se aproximar os 45 anos do 1º de abril de 1964 e diante de tentativas recentes de revisar a história da ditadura e reconstruir o seu significado através, inclusive, da criação de um vocabulário novo, é necessário relembrar o papel – para alguns, decisivo – que a grande mídia desempenhou na preparação e sustentação do golpe militar. A análise é de Venício A. de Lima.
Venício A. de Lima
Data: 13/03/2009
No debate contemporâneo sobre a relação entre história e memória, argumenta-se com propriedade que a história não só é construída pela ação de seres humanos em situações específicas como também por aqueles que escrevem sobre essas ações e dão significado a elas. Sabemos bem disso no Brasil.
Ao se aproximar os 45 anos do 1º de abril de 1964 e diante de tentativas recentes de revisar a história da ditadura e reconstruir o seu significado através, inclusive, da criação de um vocabulário novo, é necessário relembrar o papel – para alguns, decisivo – que a grande mídia desempenhou na preparação e sustentação do golpe militar.
Referência clássica
A participação ativa dos grandes grupos de mídia na derrubada do presidente João Goulart é fato histórico fartamente documentado. Creio que a referência clássica continua sendo a tese de doutorado de René A. Dreifuss (infelizmente, já falecido), defendida no Institute of Latin American Studies da University of Glasgow, na Escócia, em 1980 e publicada pela Editora Vozes sob o título “1964: A Conquista do Estado” (7ª. edição, 2008).
Através das centenas de páginas do livro de Dreifuss o leitor interessado poderá conhecer quem foram os conspiradores e reconstruir detalhadamente suas atividades, articuladas e coordenadas por duas instituições, fartamente financiadas por interesses empresariais nacionais e estrangeiros (“o bloco multinacional e associado”): o IBAD, Instituto Brasileiro de Ação Democrática e o IPES, Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais.
No que se refere especificamente ao papel dos grupos de mídia, sobressai a ação do GOP, Grupo de Opinião Pública ligado ao IPES e constituído por importantes jornalistas e publicitários. O capítulo VI sobre “a campanha ideológica”, traz ampla lista de livros, folhetos e panfletos publicados pelo IPES e uma relação de jornalistas e colunistas a serviço do golpe em diferentes jornais de todo o país. Além disso, Dreyfuss afirma (p. 233):
O IPES conseguiu estabelecer um sincronizado assalto à opinião pública. Através de seu relacionamento especial com os mais importantes jornais, rádios e televisões nacionais, como: os Diários Associados, a Folha de São Paulo, o Estado de São Paulo (...) e também a prestigiosa Rádio Eldorado de São Paulo. Entre os demais participantes da campanha incluíam-se (...) a TV Record e a TV Paulista (...), o Correio do Povo (RS), O Globo, das Organizações Globo (...) que também detinha o controle da influente Rádio Globo de alcance nacional. (...) Outros jornais do país se puseram a serviço do IPES. (...) A Tribuna da Imprensa (Rio), as Notícias Populares (SP).
Vale lembrar às gerações mais novas que o poder relativo dos Diários Associados no início dos anos 60 era certamente muito maior do que o das Organizações Globo neste início de século XXI. O principal biógrafo de Assis Chateaubriand afirma que ele foi “infinitamente mais forte do que Roberto Marinho” e “construiu o maior império de comunicação que este continente já viu”.
A visão do USIA
Há outro estudo, menos conhecido, que merece ser mencionado. Trata-se de pesquisa realizada por Jonathan Lane, Ph. D. em Comunicação por Stanford, ex-funcionário da USIA, United States Information Agency no Brasil, publicado originalmente no Journalism Quarterly, (hoje Journalism & Mass Communication Quarterly), em 1967, e depois no Boletim n. 11 do Departamento de Jornalismo da Bloch Editores, em 1968, (à época, editado por Muniz Sodré) sob o título “Função dos Meios de Comunicação de Massas na Crise Brasileira de 1964”.
Lane enfatiza a liberdade de imprensa existente no país e a pressão exercida pelo governo sobre os meios de comunicação utilizando os recursos a seu dispor (empréstimos, licenças para importação de equipamentos, publicidade, concessões de radiodifusão e “recursos de partidos comunistas”). A grande mídia, no entanto, resiste, até porque “o governo não é a única fonte de subsídio com que contam os jornais. Existem outras, interesses conservadores, econômicos e políticos que controlam bancos ou dispõem de outros capitais para influenciar os jornais” (p. 7).
O autor, curiosamente, não menciona o IBAD ou o IPES e conclui que as ações do governo João Goulart e da “esquerda” retratadas nos meios de comunicação provocaram um “desgaste da antiga ordem baseada na hierarquia e na disciplina” que se tornou “psicologicamente insuportável” para os chefes militares e para a elite política, levando, então, ao golpe.
O artigo de Lane, no entanto, traz um importante conjunto de informações para se identificar a atuação da grande mídia. Tomando como exemplo a cidade do Rio de Janeiro - “o centro de comunicações mais importante” – afirma:
“Apesar das armas à disposição do governo, Goulart passou um mau bocado com a maior parte da imprensa. A maioria dos proprietários e diretores dos jornais mais importantes são homens (e mulheres) de linhagem e posição social, que freqüentam os altos círculos sociais de uma sociedade razoavelmente estratificada. Suas idéias são classicamente liberais e não marxistas, e seus interesses conservadores e não revolucionários” (p. 7).
No que se refere aos jornais, Lane chama atenção para a existência dos “revolucionários”, de circulação reduzida, como Novos Rumos, Semanário e Classe Operária (comunistas) e Panfleto (Brizolista). O mais importante jornal de “propaganda esquerdista” era Última Hora, “porta-voz do nacionalismo-esquerdista desde o tempo de Vargas”. Já “no centro, algumas apoiando Jango, outras censurando-o, estavam os influentes Diário de Notícias e Correio da Manhã”. E continua:
“Enfileirados contra (Jango) razoavelmente e com razoável (sic) constância, encontravam-se O Jornal, principal órgão da grande rede de publicações dos Diários Associados; O Globo, jornal de maior circulação da cidade; e o Jornal do Brasil, jornal influente que se manteve neutro por algum tempo, porém opondo forte resistência a Goulart mais para o fim. A Tribuna da Imprensa, ligada ao principal inimigo político de Goulart, o governador Carlos Lacerda, da Guanabara (na verdade, a cidade do Rio de Janeiro), igualmente se opunha ferrenhamente a Goulart” (pp. 7-8).
Quanto ao rádio e à televisão, Lane explica:
“Cerca de metade das estações de televisão do país são de propriedade da cadeia dos Diários Associados, que também possui muitas emissoras radiofônicas e jornais em várias cidades. (...) Os meios de comunicação dos Diários Associados, inclusive rádio e tevê, empenharam-se numa campanha coordenada contra a agitação esquerdista, embora não contra Goulart pessoalmente, nos últimos meses que antecederam ao golpe” (p. 8).
Participação ativa
A pequena descrição aqui esboçada de dois estudos que partem de perspectivas teóricas e analíticas radicalmente distintas não deixa qualquer dúvida sobre o ativo envolvimento da grande mídia na conspiração golpista de 1964.
A relação posterior com o regime militar, sobretudo a partir da vigência da censura prévia iniciada com o AI-5, ao final de 1968, é outra história. Recomendo os estudos de Beatriz Kushnir, “Cães de Guarda – Jornalistas e censores do AI-5 à Constituição de 1988” (Boitempo, 2004) e de Bernardo Kucinski, “Jornalistas e Revolucionários nos tempos da imprensa alternativa” (EDUSP, 2ª. edição 2003).
As Organizações Globo merecem, certamente, um capítulo especial. Elio Gaspari refere-se ao “mais poderoso conglomerado de comunicações do país” como “aliado e defensor do regime” (Ditadura Escancarada, Cia. das Letras, 2004; p. 452).
Em defesa da democracia
Não são poucos os atores envolvidos no golpe de 1964 – ou seus herdeiros – que continuam vivos e ativos. A grande mídia brasileira, apesar de muitas e importantes mudanças, continua basicamente controlada pelos mesmos grupos familiares, políticos e empresariais.
O mundo mudou, o país mudou. Algumas instituições, no entanto, continuam presas ao seu passado. Não nos deve surpreender, portanto, que eventualmente transpareçam suas verdadeiras posições e compromissos, expressos em editoriais, notas ou, pior do que isso, disfarçados na cobertura jornalística cotidiana.
Tudo, é claro, sempre feito “em nome e em defesa da democracia”.
Por todas essas razões, lembrar e discutir o papel da grande mídia na preparação e sustentação do golpe de 1964 é um dever de todos nós.
Fonte: Agência Carta Maior
Ao se aproximar os 45 anos do 1º de abril de 1964 e diante de tentativas recentes de revisar a história da ditadura e reconstruir o seu significado através, inclusive, da criação de um vocabulário novo, é necessário relembrar o papel – para alguns, decisivo – que a grande mídia desempenhou na preparação e sustentação do golpe militar. A análise é de Venício A. de Lima.
Venício A. de Lima
Data: 13/03/2009
No debate contemporâneo sobre a relação entre história e memória, argumenta-se com propriedade que a história não só é construída pela ação de seres humanos em situações específicas como também por aqueles que escrevem sobre essas ações e dão significado a elas. Sabemos bem disso no Brasil.
Ao se aproximar os 45 anos do 1º de abril de 1964 e diante de tentativas recentes de revisar a história da ditadura e reconstruir o seu significado através, inclusive, da criação de um vocabulário novo, é necessário relembrar o papel – para alguns, decisivo – que a grande mídia desempenhou na preparação e sustentação do golpe militar.
Referência clássica
A participação ativa dos grandes grupos de mídia na derrubada do presidente João Goulart é fato histórico fartamente documentado. Creio que a referência clássica continua sendo a tese de doutorado de René A. Dreifuss (infelizmente, já falecido), defendida no Institute of Latin American Studies da University of Glasgow, na Escócia, em 1980 e publicada pela Editora Vozes sob o título “1964: A Conquista do Estado” (7ª. edição, 2008).
Através das centenas de páginas do livro de Dreifuss o leitor interessado poderá conhecer quem foram os conspiradores e reconstruir detalhadamente suas atividades, articuladas e coordenadas por duas instituições, fartamente financiadas por interesses empresariais nacionais e estrangeiros (“o bloco multinacional e associado”): o IBAD, Instituto Brasileiro de Ação Democrática e o IPES, Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais.
No que se refere especificamente ao papel dos grupos de mídia, sobressai a ação do GOP, Grupo de Opinião Pública ligado ao IPES e constituído por importantes jornalistas e publicitários. O capítulo VI sobre “a campanha ideológica”, traz ampla lista de livros, folhetos e panfletos publicados pelo IPES e uma relação de jornalistas e colunistas a serviço do golpe em diferentes jornais de todo o país. Além disso, Dreyfuss afirma (p. 233):
O IPES conseguiu estabelecer um sincronizado assalto à opinião pública. Através de seu relacionamento especial com os mais importantes jornais, rádios e televisões nacionais, como: os Diários Associados, a Folha de São Paulo, o Estado de São Paulo (...) e também a prestigiosa Rádio Eldorado de São Paulo. Entre os demais participantes da campanha incluíam-se (...) a TV Record e a TV Paulista (...), o Correio do Povo (RS), O Globo, das Organizações Globo (...) que também detinha o controle da influente Rádio Globo de alcance nacional. (...) Outros jornais do país se puseram a serviço do IPES. (...) A Tribuna da Imprensa (Rio), as Notícias Populares (SP).
Vale lembrar às gerações mais novas que o poder relativo dos Diários Associados no início dos anos 60 era certamente muito maior do que o das Organizações Globo neste início de século XXI. O principal biógrafo de Assis Chateaubriand afirma que ele foi “infinitamente mais forte do que Roberto Marinho” e “construiu o maior império de comunicação que este continente já viu”.
A visão do USIA
Há outro estudo, menos conhecido, que merece ser mencionado. Trata-se de pesquisa realizada por Jonathan Lane, Ph. D. em Comunicação por Stanford, ex-funcionário da USIA, United States Information Agency no Brasil, publicado originalmente no Journalism Quarterly, (hoje Journalism & Mass Communication Quarterly), em 1967, e depois no Boletim n. 11 do Departamento de Jornalismo da Bloch Editores, em 1968, (à época, editado por Muniz Sodré) sob o título “Função dos Meios de Comunicação de Massas na Crise Brasileira de 1964”.
Lane enfatiza a liberdade de imprensa existente no país e a pressão exercida pelo governo sobre os meios de comunicação utilizando os recursos a seu dispor (empréstimos, licenças para importação de equipamentos, publicidade, concessões de radiodifusão e “recursos de partidos comunistas”). A grande mídia, no entanto, resiste, até porque “o governo não é a única fonte de subsídio com que contam os jornais. Existem outras, interesses conservadores, econômicos e políticos que controlam bancos ou dispõem de outros capitais para influenciar os jornais” (p. 7).
O autor, curiosamente, não menciona o IBAD ou o IPES e conclui que as ações do governo João Goulart e da “esquerda” retratadas nos meios de comunicação provocaram um “desgaste da antiga ordem baseada na hierarquia e na disciplina” que se tornou “psicologicamente insuportável” para os chefes militares e para a elite política, levando, então, ao golpe.
O artigo de Lane, no entanto, traz um importante conjunto de informações para se identificar a atuação da grande mídia. Tomando como exemplo a cidade do Rio de Janeiro - “o centro de comunicações mais importante” – afirma:
“Apesar das armas à disposição do governo, Goulart passou um mau bocado com a maior parte da imprensa. A maioria dos proprietários e diretores dos jornais mais importantes são homens (e mulheres) de linhagem e posição social, que freqüentam os altos círculos sociais de uma sociedade razoavelmente estratificada. Suas idéias são classicamente liberais e não marxistas, e seus interesses conservadores e não revolucionários” (p. 7).
No que se refere aos jornais, Lane chama atenção para a existência dos “revolucionários”, de circulação reduzida, como Novos Rumos, Semanário e Classe Operária (comunistas) e Panfleto (Brizolista). O mais importante jornal de “propaganda esquerdista” era Última Hora, “porta-voz do nacionalismo-esquerdista desde o tempo de Vargas”. Já “no centro, algumas apoiando Jango, outras censurando-o, estavam os influentes Diário de Notícias e Correio da Manhã”. E continua:
“Enfileirados contra (Jango) razoavelmente e com razoável (sic) constância, encontravam-se O Jornal, principal órgão da grande rede de publicações dos Diários Associados; O Globo, jornal de maior circulação da cidade; e o Jornal do Brasil, jornal influente que se manteve neutro por algum tempo, porém opondo forte resistência a Goulart mais para o fim. A Tribuna da Imprensa, ligada ao principal inimigo político de Goulart, o governador Carlos Lacerda, da Guanabara (na verdade, a cidade do Rio de Janeiro), igualmente se opunha ferrenhamente a Goulart” (pp. 7-8).
Quanto ao rádio e à televisão, Lane explica:
“Cerca de metade das estações de televisão do país são de propriedade da cadeia dos Diários Associados, que também possui muitas emissoras radiofônicas e jornais em várias cidades. (...) Os meios de comunicação dos Diários Associados, inclusive rádio e tevê, empenharam-se numa campanha coordenada contra a agitação esquerdista, embora não contra Goulart pessoalmente, nos últimos meses que antecederam ao golpe” (p. 8).
Participação ativa
A pequena descrição aqui esboçada de dois estudos que partem de perspectivas teóricas e analíticas radicalmente distintas não deixa qualquer dúvida sobre o ativo envolvimento da grande mídia na conspiração golpista de 1964.
A relação posterior com o regime militar, sobretudo a partir da vigência da censura prévia iniciada com o AI-5, ao final de 1968, é outra história. Recomendo os estudos de Beatriz Kushnir, “Cães de Guarda – Jornalistas e censores do AI-5 à Constituição de 1988” (Boitempo, 2004) e de Bernardo Kucinski, “Jornalistas e Revolucionários nos tempos da imprensa alternativa” (EDUSP, 2ª. edição 2003).
As Organizações Globo merecem, certamente, um capítulo especial. Elio Gaspari refere-se ao “mais poderoso conglomerado de comunicações do país” como “aliado e defensor do regime” (Ditadura Escancarada, Cia. das Letras, 2004; p. 452).
Em defesa da democracia
Não são poucos os atores envolvidos no golpe de 1964 – ou seus herdeiros – que continuam vivos e ativos. A grande mídia brasileira, apesar de muitas e importantes mudanças, continua basicamente controlada pelos mesmos grupos familiares, políticos e empresariais.
O mundo mudou, o país mudou. Algumas instituições, no entanto, continuam presas ao seu passado. Não nos deve surpreender, portanto, que eventualmente transpareçam suas verdadeiras posições e compromissos, expressos em editoriais, notas ou, pior do que isso, disfarçados na cobertura jornalística cotidiana.
Tudo, é claro, sempre feito “em nome e em defesa da democracia”.
Por todas essas razões, lembrar e discutir o papel da grande mídia na preparação e sustentação do golpe de 1964 é um dever de todos nós.
Fonte: Agência Carta Maior
terça-feira, 10 de março de 2009
Collor, Sarney, Renan rumo à modernidade. Por Provos Brasil
Collor, Sarney, Renan rumo à modernidade. Por Provos Brasil
Como acreditar em um Senado com essas figuras? Como acreditar que esse país pode dar certo com esses homens? Como pensar no futuro com tamanho atraso?
O Brasil continua a passos largos para seu fim. Temos um corpo político que não possui a menor credibilidade que seja, e como miséria pouca é bobagem, somos obrigados a engolir a seco e com areia essas figuras que já deveriam ter se retirado da cena política brasileira há muito tempo.
Tempos atrás o Sarney disse que não queria assumir a presidência do Senado, já que não tinha tempo, pois estava escrevendo suas memórias e não tinha tempo. Agora ele tem, ou tem alguma coisa além do “tempo” que interessa mais essas pessoas? Pergunto aqui neste espaço, o que o Sarney fez de bom para o Brasil ou para o Maranhão? Absolutamente nada, tenho 38 anos, e neste período todo Sarney estava entrelaçado com o poder político, e nada, absolutamente nada.
O Estado do Maranhão ocupa a pior posição do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e o cara já foi presidente do Brasil, me digam o que esse cara fez pelo país?
Fernando Collor - não podemos dizer nada deste cara, sua história recente diz por si só. O cara renunciou para não ser caçado pelos mesmos que agora o apoiaram, acho que isso diz bem o que é a política brasileira e suas personalidades. O cara vai assumir a Comissão de Infraestrutura do Senado, isso é um absurdo.
Renan mais uma figura política que nada fez, e nunca fará ao Brasil. Esse é mais um grande exemplo de como funcionam as coisas na política. Lembre-se, ele foi acusado de usar dinheiro de Empreiteira para pagar as contas da sua amante. Que coisa mais edificante para esses homens, a votação de cassação ficou em 40 para Renan e 35 para a cassação e outros seis nobres senadores não votaram, e assim segue a vida deste país que uma hora vai acabar.
Provos Brasil
provos.brasil@gmail.com
Como acreditar em um Senado com essas figuras? Como acreditar que esse país pode dar certo com esses homens? Como pensar no futuro com tamanho atraso?
O Brasil continua a passos largos para seu fim. Temos um corpo político que não possui a menor credibilidade que seja, e como miséria pouca é bobagem, somos obrigados a engolir a seco e com areia essas figuras que já deveriam ter se retirado da cena política brasileira há muito tempo.
Tempos atrás o Sarney disse que não queria assumir a presidência do Senado, já que não tinha tempo, pois estava escrevendo suas memórias e não tinha tempo. Agora ele tem, ou tem alguma coisa além do “tempo” que interessa mais essas pessoas? Pergunto aqui neste espaço, o que o Sarney fez de bom para o Brasil ou para o Maranhão? Absolutamente nada, tenho 38 anos, e neste período todo Sarney estava entrelaçado com o poder político, e nada, absolutamente nada.
O Estado do Maranhão ocupa a pior posição do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e o cara já foi presidente do Brasil, me digam o que esse cara fez pelo país?
Fernando Collor - não podemos dizer nada deste cara, sua história recente diz por si só. O cara renunciou para não ser caçado pelos mesmos que agora o apoiaram, acho que isso diz bem o que é a política brasileira e suas personalidades. O cara vai assumir a Comissão de Infraestrutura do Senado, isso é um absurdo.
Renan mais uma figura política que nada fez, e nunca fará ao Brasil. Esse é mais um grande exemplo de como funcionam as coisas na política. Lembre-se, ele foi acusado de usar dinheiro de Empreiteira para pagar as contas da sua amante. Que coisa mais edificante para esses homens, a votação de cassação ficou em 40 para Renan e 35 para a cassação e outros seis nobres senadores não votaram, e assim segue a vida deste país que uma hora vai acabar.
Provos Brasil
provos.brasil@gmail.com
segunda-feira, 9 de março de 2009
Excomunguem-se!
Excomunguem-se!
Cristina Moreno de Castro
Uma menina de nove anos, baixinha, magrinha, abusada sexualmente pelo padrasto durante três anos.
Engravida. Pior: de gêmeos.
Os médicos atestam que, se ela não abortar, correrá sérios riscos de morte, inclusive porque seu útero, muito menor que de uma mulher adulta, provavelmente estouraria com o peso dos gêmeos.
Ou ela aborta da gravidez criminosamente provocada, ou muito provavelmente morre.
A legislação brasileira, ainda atrasada, já prevê aborto em duas circunstâncias:
- se a mãe estiver correndo risco de morte
- se a gravidez for decorrente de estupro.
[Estupro, pra quem não se toca, é uma das piores e maiores agressões, físicas e psicológicas, a que uma mulher pode ser submetida. Piora em grau de perversidade se for feito contra uma criança de nove anos, evidentemente sem condições de se defender de seu agressor.]
Ou seja, o aborto da menina de nove anos era garantido pelas duas condições legais.
Era, antes de tudo, garantido pelo bom senso de se preservar uma vida, já por demais fragilizada.
Por isso, autorizados pela mãe da criança, médicos de Pernambuco procederam com a cirurgia e hoje a menina passa bem (fisicamente, é claro. Para curar as feridas psicológicas, ainda é preciso um bom acompanhamento e carinho familiar).
Tudo ia bem no desfecho desse conto de fadas cruel da vida real.
Até que um arcebispo, saído diretamente da Idade Média, decidiu excomungar médicos e mãe por terem salvado a vida da criança estuprada.
Ameaçou até entrar na justiça contra o "crime" cometido por eles.
Esqueceu-se que vive num Estado laico, protegido por leis que respeitam a garantia à vida de quem já nasceu.
Por outro lado, embora o padrasto estuprador e pedófilo tenha cometido um crime gravíssimo, não pode ser excomungado, pelas regras da Igreja Católica, segundo o mesmo arcebispo.
Guardemos o nome do arcebispo: José Cardoso Sobrinho.
Ele não fala por todos os católicos. Mas ganha o apoio em sua posição da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (que realiza a elogiável campanha da fraternidade) e de um chefe do Vaticano (Estado hoje regido por um papa conservador, retrógrado e que discorda diametralmente de posições históricas como a do papa João XXIII e do São Tomás de Aquino, que contribuíram para o avanço da humanidade).
Minha pergunta é: que igreja é esta e pelas regras de qual deus ela é regida?
Ou, muito melhor: quem são os homens da Terra, muito pouco humanos, que decidiram essas regras e esses critérios, os transformaram em política de um Estado chamado Vaticano, e alardearam estarem representando uma entidade divina e benevolente?
Encontremos esses homens, mesmo os já defuntos, e julguemo-los por crime contra a vida humana. E que aqueles que, como o médico (católico) que salvou a vida da criança, acreditam em princípios de fé cristã muito diferentes dos dogmas normatizados pelos homens da Igreja, desvencilhem-se da instituição que fala por eles como inquisitores – os mesmos que, lixando-se para a vida das mulheres, queimavam-nas nas fogueiras por crimes sem provas.
Excomunguem-se!
---------------------------------------------------------
P.S. Corre uma campanha na internet chamada "Eu também quero ser excomungado". Para aderir a ela, basta mandar um e-mail para arcebispo@arquidioceseolindarecife.org.br. E quem não for irônico que me perdoe.
fonte: www.novae.inf.br
Cristina Moreno de Castro
Uma menina de nove anos, baixinha, magrinha, abusada sexualmente pelo padrasto durante três anos.
Engravida. Pior: de gêmeos.
Os médicos atestam que, se ela não abortar, correrá sérios riscos de morte, inclusive porque seu útero, muito menor que de uma mulher adulta, provavelmente estouraria com o peso dos gêmeos.
Ou ela aborta da gravidez criminosamente provocada, ou muito provavelmente morre.
A legislação brasileira, ainda atrasada, já prevê aborto em duas circunstâncias:
- se a mãe estiver correndo risco de morte
- se a gravidez for decorrente de estupro.
[Estupro, pra quem não se toca, é uma das piores e maiores agressões, físicas e psicológicas, a que uma mulher pode ser submetida. Piora em grau de perversidade se for feito contra uma criança de nove anos, evidentemente sem condições de se defender de seu agressor.]
Ou seja, o aborto da menina de nove anos era garantido pelas duas condições legais.
Era, antes de tudo, garantido pelo bom senso de se preservar uma vida, já por demais fragilizada.
Por isso, autorizados pela mãe da criança, médicos de Pernambuco procederam com a cirurgia e hoje a menina passa bem (fisicamente, é claro. Para curar as feridas psicológicas, ainda é preciso um bom acompanhamento e carinho familiar).
Tudo ia bem no desfecho desse conto de fadas cruel da vida real.
Até que um arcebispo, saído diretamente da Idade Média, decidiu excomungar médicos e mãe por terem salvado a vida da criança estuprada.
Ameaçou até entrar na justiça contra o "crime" cometido por eles.
Esqueceu-se que vive num Estado laico, protegido por leis que respeitam a garantia à vida de quem já nasceu.
Por outro lado, embora o padrasto estuprador e pedófilo tenha cometido um crime gravíssimo, não pode ser excomungado, pelas regras da Igreja Católica, segundo o mesmo arcebispo.
Guardemos o nome do arcebispo: José Cardoso Sobrinho.
Ele não fala por todos os católicos. Mas ganha o apoio em sua posição da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (que realiza a elogiável campanha da fraternidade) e de um chefe do Vaticano (Estado hoje regido por um papa conservador, retrógrado e que discorda diametralmente de posições históricas como a do papa João XXIII e do São Tomás de Aquino, que contribuíram para o avanço da humanidade).
Minha pergunta é: que igreja é esta e pelas regras de qual deus ela é regida?
Ou, muito melhor: quem são os homens da Terra, muito pouco humanos, que decidiram essas regras e esses critérios, os transformaram em política de um Estado chamado Vaticano, e alardearam estarem representando uma entidade divina e benevolente?
Encontremos esses homens, mesmo os já defuntos, e julguemo-los por crime contra a vida humana. E que aqueles que, como o médico (católico) que salvou a vida da criança, acreditam em princípios de fé cristã muito diferentes dos dogmas normatizados pelos homens da Igreja, desvencilhem-se da instituição que fala por eles como inquisitores – os mesmos que, lixando-se para a vida das mulheres, queimavam-nas nas fogueiras por crimes sem provas.
Excomunguem-se!
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P.S. Corre uma campanha na internet chamada "Eu também quero ser excomungado". Para aderir a ela, basta mandar um e-mail para arcebispo@arquidioceseolindarecife.org.br. E quem não for irônico que me perdoe.
fonte: www.novae.inf.br
quinta-feira, 5 de março de 2009
Sinais de implosão - Rumo à desintegração do sistema global por Jorge Beinstein
Sinais de implosão - Rumo à desintegração do sistema global por Jorge Beinstein
Setembro de 2008 foi um ponto de inflexão no processo recessivo que se iniciara nesse ano nos Estados Unidos: estalou o sistema financeiro e a recessão começou a estender-se rapidamente a nível planetário. Ao mesmo tempo, evidenciavam-se sintomas muito claros de transição global para a depressão e a sua chegada começou a ser admitida em princípios de 2009. Agora assistimos a um encadeamento internacional de quedas produtivas e financeiras. Ele é acompanhado por uma mistura de pessimismo e impotência diante da provável transformação da onda depressiva em colapso geral, ao mais alto nível das elites dirigentes. As declarações de George Soros e Paul Volkcker na Universidade de Columbia a 21 de Fevereiro de 2009 assinalaram uma ruptura radical [1] , muito mais séria do que a de Alan Greenspan dois anos atrás quando anunciou a possibilidade de os Estados Unidos entrarem em recessão. Volcker admitiu que esta crise é muito mais grave que a de 1929. Isso significa que a mesma carece de referências na história do capitalismo. O desaparecimento de paralelismos em relação a crises anteriores refere-se também (e principalmente) aos remédios conhecidos. Porque 1929 e a depressão que se seguiu estão associados à utilização com êxito dos instrumentos keynesianos, à intervenção maciça do Estado como salvador supremo do capitalismo. E o que estamos a presenciar agora é a mais completa ineficácia dos Estados dos países centrais para superar a crise. Na realidade, a avalanche de dinheiro que eles lançam sobre os mercados para auxiliar bancos e algumas empresas transnacionais não só não trava o desastre em curso como também está a criar as condições para futuras catástrofes inflacionárias, as próximas bolhas especulativas.
IMPLOSÃO CAPITALISTA?
Soros, por sua vez, confirmou aquilo que já era evidente: o sistema financeiro mundial desintegrou-se, ao que acrescentou a descoberta de semelhanças entre a situação actual e aquela vivida durante o derrube da União Soviética. Quais são esses paralelismos? Como sabemos, o sistema soviético começou a desmoronar-se em fins dos anos 1980 para finalmente implodir em 1991. O fenómeno foi geralmente atribuído à degradação da sua estrutura burocrática o que o tornava em princípio intransferível para o capitalismo que também alberga uma vasta burocracia (ainda que não hegemónica como no caso soviético). Mas existe um processo, uma doença que não é património exclusivo dos regimes burocráticos, que se desenvolveu no capitalismo tal como nas civilizações anteriores à modernidade: trata-se da hipertrofia parasitária, do domínio esmagador de formas sociais parasitárias que depredam as forças produtivas até um ponto tal em que o conjunto do sistema fica paralisado, não pode reproduzir-se mais e finalmente morre afogado no seu próprio apodrecimento. Ao longo do século XX o capitalismo impulsionou estruturas parasitárias como o militarismo e sobretudo as deformações financeiras que marcaram a sua cultura, seu desenvolvimento tecnológico, seus sistemas de poder. As últimas três décadas assistiram à aceleração do processo — adornado com o discurso da reconversão neoliberal, do reinado absoluto do mercado. Talvez o seu ponto mais alto tenha sido alcançado durante o último lustro do século XX, em plena expansão das bolhas bursáteis e quando o poder militar dos Estados Unidos parecia ser imbatível. Mas na primeira década do século XXI começou o desmoronamento do sistema. O Império afundou no pântano de duas guerras coloniais, sua economia degradou-se velozmente e bolhas financeiras de todo tipo (imobiliárias, comerciais, de endividamento, etc) povoaram o planeta. O capitalismo financiarizado havia entrado numa fase de expansão vertiginosa esmagando com o seu peso todas as formas económicas e políticas. Em 2008 os Estados centrais (o G7) dispunham de recursos fiscais num montante da ordem de 10 milhões de milhões de dólares contra 600 milhões de milhões em produtos financeiros derivados registados pelo Banco da Basiléia (BIS), ao que é necessário acrescentar outros negócios financeiros. Segundo alguns peritos, actualmente a massa especulativa global supera os 1000 milhões de milhões (cerca de 20 vezes o Produto Bruto Mundial). Essa montanha financeira não é uma realidade separada, independente da chamada economia real ou produtiva. Foi engendrada pela dinâmica do conjunto do sistema capitalista: pelas necessidades de rentabilidade das empresas transnacionais, pelas necessidades de financiamento dos Estados. Não é uma rede de especuladores autistas lançados numa espécie de auto-desenvolvimento suicida e sim a expressão radicalmente irracional de uma civilização em decadência (tanto a nível produtivo como político, cultural, ambiental, energético, etc). Há mais de quatro década o capitalismo global com eixo nos países centrais suporta uma crise crónica de superprodução, acumulando sobrecapacidade produtiva perante uma procura global que crescia mas cada vez menos. A droga financeira foi a sua tábua de salvação, melhorando lucros e impulsionando o consumo nos países ricos, ainda que a longo prazo tenha envenenado totalmente o sistema.
Foi posto em moda lançar a culpa da crise nos chamados especuladores financeiros. Segundo nos explicam altos dirigentes políticos e peritos mediáticos, as turbulências chegarão ao seu fim quando a "economia real" impuser a sua cultura produtiva submetendo às regras do bom capitalismo as redes financeiras hoje fora de controle. Contudo, em meados da década actual, nos Estados Unidos mais de 40% dos lucros das grandes corporações provinha dos negócios financeiro [2] . Na Europa a situação era semelhante. Na China, no momento do maior auge especulativo (fins de 2007), só a bolha bursátil movia fundos quase equivalentes ao PIB desse país [3] , alimentada por empresários privados e públicos, altos burocratas, profissionais, etc. Não se trata por conseguinte de duas actividades, uma real e outra financeira, claramente diferenciadas, e sim de um só conjunto heterogéneo, real, de negócios. É esse conjunto que agora está a desinchar velozmente, a implodir depois de haver chegado ao seu máximo nível de expansão possível nas condições históricas concretas do mundo actual. Sob a aparência imposta pelos meios globais de comunicação de uma implosão financeira que afecta negativamente o conjunto das actividades económica (algo assim como uma chuva tóxica a atacar as pradarias verdes) surge a realidade do sistema económico global como totalidade a contrair-se de maneira caótica.
SINAIS
As declarações de Soros e Volcker foram efectuadas poucos dias antes de o governo norte-americano ter dado a conhecer os números oficiais definitivos da queda do Produto Interno Bruto no último trimestre de 2008 em relação a igual período de 2007: a primeira estimativa oficial que fixara a referida queda em 3,8% verificou-se ser uma mentira grosseira. Agora verifica-se que a contracção chegou aos 6,2% [4] — isso já não é recessão e sim depressão. O Japão por sua vez teve no mesmo período uma descida do PIB da ordem dos 12% e em Janeiro de 2009 as suas exportações caíram 45% em comparação com o mesmo mês do ano anterior [5] . Na Europa a situação é semelhante ou talvez pior. Após o derrube financeiro da Islândia, a ameaça da bancarrota económica em vários países da Europa do Leste como a Polónia, Hungria, Ucrânia, Letónia, Lituânia, etc, ameaça de maneira directa os sistemas bancários credores da Suíça e da Áustria, que poderiam fundir-se como o da Islândia. Enquanto isso, os grandes países industriais da região, como Alemanha, Inglaterra ou França, vão passando da recessão à depressão. Os prognósticos sobre a China anunciam para 2009 uma redução da sua taxa de crescimento à metade do de 2088. Suas exportações de Janeiro foram 17,5% inferiores às de Janeiro do ano anterior [6] . Esta brusca deterioração do centro vital do seu sistema económico não tem perspectivas de recuperação enquanto durar a depressão global, pelo que o seu ritmo de crescimento geral continuará a descer. Que Soros e Volcker abram a expectativa de um colapso do sistema económico mundial não significa que o mesmo se produza de modo inevitável. Afinal de contas, uma das principais características de uma decadência civilizacional como a que estamos a presenciar é a existência de uma profunda crise de percepção nas elites dominantes. Contudo, a acumulação de dados económicos negativos e a sua projecção realista para os próximos meses estão a indicar que a grande catástrofe anunciada por eles tem probabilidades de realização muito altas. Para esse desenlace contribuem a impotência comprovada dos supostos "factores de controle" do sistema (governos, bancos centrais, FMI, etc) e a rigidez política do Império. Ao ampliar, por exemplo, a guerra no Afeganistão — preservando assim o poder do Complexo Industrial Militar, gigante parasitário cujos gastos reais actuais (aproximadamente pouco mais de um milhão de milhões de dólares por ano) equivale a 80% do défice fiscal dos Estados Unidos. A estes sintomas económicos e políticos devemos acrescentar a crise energética e alimentar dela derivada, que certamente voltarão a manifestar-se mal se detenha o processo inflacionário (e talvez antes). Tudo isso num contexto de crise ambiental que passou a ser um factor actual de crise (já não é mais uma ameaça quase intangível localizada num futuro longínquo). E por trás dessas crises parciais encontramos a presença da crise do sistema tecnológico moderno, incapaz de superar – como componente motriz da civilização burguesa – os bloqueios energéticos e ambientais criados pelo seu desenvolvimento depredador.
DESINTEGRAÇÃO, IMPLOSÃO E DISJUNÇÃO
A desintegração-implosão do sistema global não significa a sua transformação num conjunto de subsistemas capitalistas ou blocos regionais com relações mais ou menos fortes entre si, alguns prósperos, outros declinantes (a unipolaridade estado-unidense convertendo-se em multipolaridade, "disjunção" ordenada em torno de novos ou velhos pólos capitalistas). A economia mundial está altamente transnacionalizada, forma um denso emaranhado de negócios produtivos, comerciais e financeiros que penetra profundamente as chamadas "estruturas nacionais", investimentos e dependências comerciais atam-nas de maneira directa ou indirecta aos núcleos decisivos do sistema global.
Em termos gerais, para um país ou uma região, a ruptura dos seus laços globais ou o seu enfraquecimento significativo implica uma enorme ruptura interna, o desaparecimento de sectores económicos decisivos com as consequências sociais e políticas que daí decorrem. Além disso, até agora o sistema global estava organizado de maneira hierárquica tanto no seu aspecto económico como político-militar (unipolaridade) devido ao fim da Guerra Fria e da transformação dos Estados Unidos no senhor do planeta. Não só no espaço de concentração das decisões comerciais e financeiras (isso já ocorria há mais de seis décadas) como também das grandes decisões políticas. O afundamento do centro do mundo [7] em meio à depressão económica internacional significa o desencadear de uma cadeia global de crises (económicas, políticas, sociais, etc) de intensidade crescente. Recentemente Zbigniew Brzezinski pôs de lado as suas tradicionais reflexões sobre política internacional para alertar acerca da possibilidade de agravamento dos conflitos sociais dentro dos Estados Unidos que, segundo ele, poderia derivar em distúrbios violentos generalizados [8] . Por sua vez, e a partir de uma perspectiva ideológica oposta, Michael Klare descreveu o mapa dos protestos populares que atravessa todos os continentes, países ricos e pobres, do Norte e do Sul, iniciados em 2008 como consequência da crise alimentar num amplo leque de países periféricos mas que começam a desenvolver-se globalmente em resposta ao agravamento da depressão económica [9] : a multiplicação de crises de governabilidade aguarda-nos a curto prazo. A hipótese da implosão capitalista abre o espaço para a reflexão e a acção quanto ao horizonte pós capitalista, onde se misturam velhas e novas ideias, ilusões fracassadas e densas aprendizagens democráticas do século XX, travões conservadores legitimando ensaios neocapitalistas e visões renovadas do mundo a pressionar grandes inovações sociais.
A agonia da modernidade burguesa com os seus perigos de barbárie senil — mas ruptura de bloqueios ideológicos, de estruturas opressivas e de esperança na regeneração humanista das relações sociais.
02/Março/2009
Notas
(1) "Soros sees no bottom for world financial 'collapse' ", Reuters. Sat Feb 21, 2009. David Randall and Jane Merrick, "Brown flies to meet President Obama for economy crisis talks" , The Independent , Sunday, 22 February 2009.
(2) US Economic Report for the President, 2008.
(3) Em Agosto de 2007 a capitalização das bolsas chinesas superava o valor do Produto Interno Bruto do ano 2006. Dong Zhixin, "China stock market capitalization tops GDP", Chinadaily ( http://www.chinadaily.com.cn/china/2007-08/09/content_6019614.htm )
(4)Cotizalia.com, 27 febrero 2009, "El PIB de EEUUse hunde un 6,2% en el cuarto trimestre".
(5) BBC News, 25-2-2009, "Japan exports drop 45 % to new low".
(6) "China's export down 17.5% in January", Xinhua, 2009-02-11.
(7) Jorge Beinstein, "El hundimiento del centro del mundo. Estados Unidos entre la recesión y el colapso". Rebelión, 8-5-2008 ( http://www.rebelion.org/noticia.php?id=67099 ).
(8) "Brzezinski: 'Hell, There Could Be Even Riots' ", FinkelBlog – 20/02/2009 - brzezinski-hell-there-could-be-even-riots ).
(9, Michael Klare, "A planet at the brink?", Asia Times, 28 de Fevereiro de 2009.
[*] jorgebeinstein@gmail.com
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
04/Mar/09
Setembro de 2008 foi um ponto de inflexão no processo recessivo que se iniciara nesse ano nos Estados Unidos: estalou o sistema financeiro e a recessão começou a estender-se rapidamente a nível planetário. Ao mesmo tempo, evidenciavam-se sintomas muito claros de transição global para a depressão e a sua chegada começou a ser admitida em princípios de 2009. Agora assistimos a um encadeamento internacional de quedas produtivas e financeiras. Ele é acompanhado por uma mistura de pessimismo e impotência diante da provável transformação da onda depressiva em colapso geral, ao mais alto nível das elites dirigentes. As declarações de George Soros e Paul Volkcker na Universidade de Columbia a 21 de Fevereiro de 2009 assinalaram uma ruptura radical [1] , muito mais séria do que a de Alan Greenspan dois anos atrás quando anunciou a possibilidade de os Estados Unidos entrarem em recessão. Volcker admitiu que esta crise é muito mais grave que a de 1929. Isso significa que a mesma carece de referências na história do capitalismo. O desaparecimento de paralelismos em relação a crises anteriores refere-se também (e principalmente) aos remédios conhecidos. Porque 1929 e a depressão que se seguiu estão associados à utilização com êxito dos instrumentos keynesianos, à intervenção maciça do Estado como salvador supremo do capitalismo. E o que estamos a presenciar agora é a mais completa ineficácia dos Estados dos países centrais para superar a crise. Na realidade, a avalanche de dinheiro que eles lançam sobre os mercados para auxiliar bancos e algumas empresas transnacionais não só não trava o desastre em curso como também está a criar as condições para futuras catástrofes inflacionárias, as próximas bolhas especulativas.
IMPLOSÃO CAPITALISTA?
Soros, por sua vez, confirmou aquilo que já era evidente: o sistema financeiro mundial desintegrou-se, ao que acrescentou a descoberta de semelhanças entre a situação actual e aquela vivida durante o derrube da União Soviética. Quais são esses paralelismos? Como sabemos, o sistema soviético começou a desmoronar-se em fins dos anos 1980 para finalmente implodir em 1991. O fenómeno foi geralmente atribuído à degradação da sua estrutura burocrática o que o tornava em princípio intransferível para o capitalismo que também alberga uma vasta burocracia (ainda que não hegemónica como no caso soviético). Mas existe um processo, uma doença que não é património exclusivo dos regimes burocráticos, que se desenvolveu no capitalismo tal como nas civilizações anteriores à modernidade: trata-se da hipertrofia parasitária, do domínio esmagador de formas sociais parasitárias que depredam as forças produtivas até um ponto tal em que o conjunto do sistema fica paralisado, não pode reproduzir-se mais e finalmente morre afogado no seu próprio apodrecimento. Ao longo do século XX o capitalismo impulsionou estruturas parasitárias como o militarismo e sobretudo as deformações financeiras que marcaram a sua cultura, seu desenvolvimento tecnológico, seus sistemas de poder. As últimas três décadas assistiram à aceleração do processo — adornado com o discurso da reconversão neoliberal, do reinado absoluto do mercado. Talvez o seu ponto mais alto tenha sido alcançado durante o último lustro do século XX, em plena expansão das bolhas bursáteis e quando o poder militar dos Estados Unidos parecia ser imbatível. Mas na primeira década do século XXI começou o desmoronamento do sistema. O Império afundou no pântano de duas guerras coloniais, sua economia degradou-se velozmente e bolhas financeiras de todo tipo (imobiliárias, comerciais, de endividamento, etc) povoaram o planeta. O capitalismo financiarizado havia entrado numa fase de expansão vertiginosa esmagando com o seu peso todas as formas económicas e políticas. Em 2008 os Estados centrais (o G7) dispunham de recursos fiscais num montante da ordem de 10 milhões de milhões de dólares contra 600 milhões de milhões em produtos financeiros derivados registados pelo Banco da Basiléia (BIS), ao que é necessário acrescentar outros negócios financeiros. Segundo alguns peritos, actualmente a massa especulativa global supera os 1000 milhões de milhões (cerca de 20 vezes o Produto Bruto Mundial). Essa montanha financeira não é uma realidade separada, independente da chamada economia real ou produtiva. Foi engendrada pela dinâmica do conjunto do sistema capitalista: pelas necessidades de rentabilidade das empresas transnacionais, pelas necessidades de financiamento dos Estados. Não é uma rede de especuladores autistas lançados numa espécie de auto-desenvolvimento suicida e sim a expressão radicalmente irracional de uma civilização em decadência (tanto a nível produtivo como político, cultural, ambiental, energético, etc). Há mais de quatro década o capitalismo global com eixo nos países centrais suporta uma crise crónica de superprodução, acumulando sobrecapacidade produtiva perante uma procura global que crescia mas cada vez menos. A droga financeira foi a sua tábua de salvação, melhorando lucros e impulsionando o consumo nos países ricos, ainda que a longo prazo tenha envenenado totalmente o sistema.
Foi posto em moda lançar a culpa da crise nos chamados especuladores financeiros. Segundo nos explicam altos dirigentes políticos e peritos mediáticos, as turbulências chegarão ao seu fim quando a "economia real" impuser a sua cultura produtiva submetendo às regras do bom capitalismo as redes financeiras hoje fora de controle. Contudo, em meados da década actual, nos Estados Unidos mais de 40% dos lucros das grandes corporações provinha dos negócios financeiro [2] . Na Europa a situação era semelhante. Na China, no momento do maior auge especulativo (fins de 2007), só a bolha bursátil movia fundos quase equivalentes ao PIB desse país [3] , alimentada por empresários privados e públicos, altos burocratas, profissionais, etc. Não se trata por conseguinte de duas actividades, uma real e outra financeira, claramente diferenciadas, e sim de um só conjunto heterogéneo, real, de negócios. É esse conjunto que agora está a desinchar velozmente, a implodir depois de haver chegado ao seu máximo nível de expansão possível nas condições históricas concretas do mundo actual. Sob a aparência imposta pelos meios globais de comunicação de uma implosão financeira que afecta negativamente o conjunto das actividades económica (algo assim como uma chuva tóxica a atacar as pradarias verdes) surge a realidade do sistema económico global como totalidade a contrair-se de maneira caótica.
SINAIS
As declarações de Soros e Volcker foram efectuadas poucos dias antes de o governo norte-americano ter dado a conhecer os números oficiais definitivos da queda do Produto Interno Bruto no último trimestre de 2008 em relação a igual período de 2007: a primeira estimativa oficial que fixara a referida queda em 3,8% verificou-se ser uma mentira grosseira. Agora verifica-se que a contracção chegou aos 6,2% [4] — isso já não é recessão e sim depressão. O Japão por sua vez teve no mesmo período uma descida do PIB da ordem dos 12% e em Janeiro de 2009 as suas exportações caíram 45% em comparação com o mesmo mês do ano anterior [5] . Na Europa a situação é semelhante ou talvez pior. Após o derrube financeiro da Islândia, a ameaça da bancarrota económica em vários países da Europa do Leste como a Polónia, Hungria, Ucrânia, Letónia, Lituânia, etc, ameaça de maneira directa os sistemas bancários credores da Suíça e da Áustria, que poderiam fundir-se como o da Islândia. Enquanto isso, os grandes países industriais da região, como Alemanha, Inglaterra ou França, vão passando da recessão à depressão. Os prognósticos sobre a China anunciam para 2009 uma redução da sua taxa de crescimento à metade do de 2088. Suas exportações de Janeiro foram 17,5% inferiores às de Janeiro do ano anterior [6] . Esta brusca deterioração do centro vital do seu sistema económico não tem perspectivas de recuperação enquanto durar a depressão global, pelo que o seu ritmo de crescimento geral continuará a descer. Que Soros e Volcker abram a expectativa de um colapso do sistema económico mundial não significa que o mesmo se produza de modo inevitável. Afinal de contas, uma das principais características de uma decadência civilizacional como a que estamos a presenciar é a existência de uma profunda crise de percepção nas elites dominantes. Contudo, a acumulação de dados económicos negativos e a sua projecção realista para os próximos meses estão a indicar que a grande catástrofe anunciada por eles tem probabilidades de realização muito altas. Para esse desenlace contribuem a impotência comprovada dos supostos "factores de controle" do sistema (governos, bancos centrais, FMI, etc) e a rigidez política do Império. Ao ampliar, por exemplo, a guerra no Afeganistão — preservando assim o poder do Complexo Industrial Militar, gigante parasitário cujos gastos reais actuais (aproximadamente pouco mais de um milhão de milhões de dólares por ano) equivale a 80% do défice fiscal dos Estados Unidos. A estes sintomas económicos e políticos devemos acrescentar a crise energética e alimentar dela derivada, que certamente voltarão a manifestar-se mal se detenha o processo inflacionário (e talvez antes). Tudo isso num contexto de crise ambiental que passou a ser um factor actual de crise (já não é mais uma ameaça quase intangível localizada num futuro longínquo). E por trás dessas crises parciais encontramos a presença da crise do sistema tecnológico moderno, incapaz de superar – como componente motriz da civilização burguesa – os bloqueios energéticos e ambientais criados pelo seu desenvolvimento depredador.
DESINTEGRAÇÃO, IMPLOSÃO E DISJUNÇÃO
A desintegração-implosão do sistema global não significa a sua transformação num conjunto de subsistemas capitalistas ou blocos regionais com relações mais ou menos fortes entre si, alguns prósperos, outros declinantes (a unipolaridade estado-unidense convertendo-se em multipolaridade, "disjunção" ordenada em torno de novos ou velhos pólos capitalistas). A economia mundial está altamente transnacionalizada, forma um denso emaranhado de negócios produtivos, comerciais e financeiros que penetra profundamente as chamadas "estruturas nacionais", investimentos e dependências comerciais atam-nas de maneira directa ou indirecta aos núcleos decisivos do sistema global.
Em termos gerais, para um país ou uma região, a ruptura dos seus laços globais ou o seu enfraquecimento significativo implica uma enorme ruptura interna, o desaparecimento de sectores económicos decisivos com as consequências sociais e políticas que daí decorrem. Além disso, até agora o sistema global estava organizado de maneira hierárquica tanto no seu aspecto económico como político-militar (unipolaridade) devido ao fim da Guerra Fria e da transformação dos Estados Unidos no senhor do planeta. Não só no espaço de concentração das decisões comerciais e financeiras (isso já ocorria há mais de seis décadas) como também das grandes decisões políticas. O afundamento do centro do mundo [7] em meio à depressão económica internacional significa o desencadear de uma cadeia global de crises (económicas, políticas, sociais, etc) de intensidade crescente. Recentemente Zbigniew Brzezinski pôs de lado as suas tradicionais reflexões sobre política internacional para alertar acerca da possibilidade de agravamento dos conflitos sociais dentro dos Estados Unidos que, segundo ele, poderia derivar em distúrbios violentos generalizados [8] . Por sua vez, e a partir de uma perspectiva ideológica oposta, Michael Klare descreveu o mapa dos protestos populares que atravessa todos os continentes, países ricos e pobres, do Norte e do Sul, iniciados em 2008 como consequência da crise alimentar num amplo leque de países periféricos mas que começam a desenvolver-se globalmente em resposta ao agravamento da depressão económica [9] : a multiplicação de crises de governabilidade aguarda-nos a curto prazo. A hipótese da implosão capitalista abre o espaço para a reflexão e a acção quanto ao horizonte pós capitalista, onde se misturam velhas e novas ideias, ilusões fracassadas e densas aprendizagens democráticas do século XX, travões conservadores legitimando ensaios neocapitalistas e visões renovadas do mundo a pressionar grandes inovações sociais.
A agonia da modernidade burguesa com os seus perigos de barbárie senil — mas ruptura de bloqueios ideológicos, de estruturas opressivas e de esperança na regeneração humanista das relações sociais.
02/Março/2009
Notas
(1) "Soros sees no bottom for world financial 'collapse' ", Reuters. Sat Feb 21, 2009. David Randall and Jane Merrick, "Brown flies to meet President Obama for economy crisis talks" , The Independent , Sunday, 22 February 2009.
(2) US Economic Report for the President, 2008.
(3) Em Agosto de 2007 a capitalização das bolsas chinesas superava o valor do Produto Interno Bruto do ano 2006. Dong Zhixin, "China stock market capitalization tops GDP", Chinadaily ( http://www.chinadaily.com.cn/china/2007-08/09/content_6019614.htm )
(4)Cotizalia.com, 27 febrero 2009, "El PIB de EEUUse hunde un 6,2% en el cuarto trimestre".
(5) BBC News, 25-2-2009, "Japan exports drop 45 % to new low".
(6) "China's export down 17.5% in January", Xinhua, 2009-02-11.
(7) Jorge Beinstein, "El hundimiento del centro del mundo. Estados Unidos entre la recesión y el colapso". Rebelión, 8-5-2008 ( http://www.rebelion.org/noticia.php?id=67099 ).
(8) "Brzezinski: 'Hell, There Could Be Even Riots' ", FinkelBlog – 20/02/2009 - brzezinski-hell-there-could-be-even-riots ).
(9, Michael Klare, "A planet at the brink?", Asia Times, 28 de Fevereiro de 2009.
[*] jorgebeinstein@gmail.com
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
04/Mar/09
quarta-feira, 4 de março de 2009
Crise longa e profunda atuará como um "tsunami darwinista" Entrevisa com José Luís Fiori
Crise longa e profunda atuará como um "tsunami darwinista"
A atual crise econômica mundial não tem nenhuma solução técnica possível, e tampouco tem alguma solução política à vista. Ainda assistiremos a infinitas tentativas e erros, e a uma luta contínua e prolongada em torno de cada uma destas iniciativas. Tudo indica que será uma crise longa e profunda que atuará como um “tsunami darwinista”, liquidando os mais fracos em todos os níveis. E o que é mais chocante é que esta mesma crise acabará provocando no final uma gigantesca transferência e centralização de riqueza e poder. A análise é de José Luís Fiori, em entrevista ao jornal do Corecon RJ.
Marcelo Cajueiro - Corecon RJ
“A crise enfraquecerá países que estavam ascendendo nas duas últimas décadas e desafiando de alguma forma a ordem internacional estabelecida”, diz José Luís Fiori, em entrevista ao Jornal dos Economistas, do Conselho Regional de Economia (Corecon) do Rio de Janeiro. Na entrevista, o professor titular do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), analisa os possíveis impactos políticos e geopolíticos da crise econômica mundial e detalha algumas das idéias aprsentadas no livro "O Mito do Colapso do Poder Americano", escrito em parceria com Carlos Medeiros e Franklin Serrano.
As primeiras medidas da administração Obama para combater a crise econômica, somadas às iniciativas da administração Bush, serão suficientes para debelar a crise?
JOSÉ LUÍS FIORI: Eu acho que é rigorosamente impossível responder a sua pergunta, neste momento. O Senado americano acaba de aprovar um pacote fiscal de estímulo a produção e ao emprego de cerca de 800 bilhões de dólares, enquanto o secretário do tesouro do governo Obama, Thimothy Geithner, anunciava medidas que podem chegar aos 2 trilhões de dólares para reativar os mercados de crédito e tentar recuperar o insolvente sistema financeiro americano. Mas não existe nenhuma teoria, nem claridade sobre quando, onde e como serão gastos estes recursos, nem muito menos, se a sua utilização produzirá os efeitos desejados. Os economistas e as autoridades governamentais americanas, e de todo o mundo, estão num vôo cego, mesmo quando não o reconheçam, ou não possam reconhecê-lo.
No meio desta confusão, acho que só existem três coisas que podem ser afirmadas com algum grau de certeza: a primeira, é que faça o que faça o governo americano, será absolutamente decisivo para a evolução da crise em todo mundo; a segunda, é de que, neste momento, todos os governos envolvidos estão fazendo a mesma aposta e adotando as mesmas estratégias monetárias e fiscais, e aprovando “pacotes” sucessivos ( e até agora impotentes) de ajuda à estabilização e reativação do sistema financeiro, e de estímulo à produção e ao emprego, junto um aumento generalizado – mas ainda disfarçado - das barreiras protecionistas. E todos os governos estão se propondo aumentar o rigor da regulação dos seus agentes e mercados financeiros. A terceira coisa que se pode afirmar com toda certeza é que ninguém, absolutamente ninguém sabe se estas políticas darão certo.
Este novo consenso poderia ser considerado uma vitória do pensamento keynesiano, e uma retirada definitiva da ortodoxia monetarista e neo-liberal ?
JLF: Não creio. Nada do que está acontecendo tem a ver com qualquer tipo de vitória ou derrota teórica. Trata-se de uma reação emergencial e pragmática frente à ameaça de colapso do poder dos estados e dos bancos, e como conseqüência, dos sistemas de produção e emprego. Foi uma mudança de rumo inesperada e inevitável, que foi imposta pela força dos fatos, independente da ideologia econômica dos governantes que estão aplicando as novas políticas, e que na sua maioria ainda eram ortodoxos e liberais até ante-ontem. É como se estivéssemos assistindo a versão invertida da famosa frase a Sra Thatcher: “there is no alternative”.
Só que agora, do meu ponto de vista, esta nova convergência aconteceu sem maiores discussões teóricas ou ideológicas e sem nenhum entusiasmo político, ao contrário do que aconteceu com a “virada” liberal-conservadora dos anos 80/ 90, que atravessou todos os países e todos os planos da vida social e econômica. A ideologia econômica liberal não previu e não consegue explicar a crise que ela provocou, e como conseqüência não tem nada para dizer nem propor neste momento. Por isto mesmo, as idéias ortodoxas e liberais saíram do primeiro plano, mas não morreram nem desapareceram, pelo contrário, permanecem atuantes em todos as frentes e trincheiras de resistência às políticas estatizantes que estão em curso. Uma resistência que tem crescido a cada hora que passa, dentro e fora dos EUA, apesar de que ainda não tenha sido devidamente identificada e diagnostica.
E os keynesianos?
JLF: Do meu ponto de vista, os keynesianos também não têm uma teoria capaz de dar conta da complexidade desta nova situação mundial, e por isto tampouco sabem o que vem pela frente, nem conseguem antecipar se as “políticas keynesianas” que estão em curso, alcançarão os resultados propostos. Além disto, um grande numero considera insuficientes os recursos que tem sido desembolsados, e criticam a forma como vem sendo feita a limpeza dos ativos podres do bancos, que em geral é considerada pouco ousada e pouco precisa, além de ser perversa ao premiar com recursos públicos o setor financeiro responsável pela crise.
O problema é que, na maioria das vezes, os keynesianos tem uma enorme dificuldade de tratar com os interesses e as lutas do mundo real. E compartilham com os liberais uma espécie de “erro inverso”: os liberais acreditam na possibilidade e na eficácia da eliminação do poder político e do estado do mundo dos mercados; enquanto os keynesianos acrediatm na possibilidade e na eficácia da intervenção corretiva do estado no mundo econômico. Mas estão sempre imaginando um estado homogêneo e onisciente, capaz de formular políticas econômicas sábias, justas e eficazes, desde que não sejam “atrapalhadas” pelo mundo real. Ou seja, em última instância, ortodoxos e keynesianos compartilham a mesma dificuldade de entender e incluir nos seus modelos, projeções e recomendações, as contradições e as lutas políticas próprias do mundo econômico.
E o que você vê quando olha para esta crise através desta “janela” do poder?
JLF: Não é muita coisa o que se possa dizer sem um estudo mais detido dos interesses e conflitos em curso entre grupos sociais e estados e economias nacionais, nas principais regiões do mundo, coisa que não fiz nem encontrei ainda nas análises de outros autores. Mas assim mesmo, a vôo de passaro, é possível ver que esta crise envolve interesses e poderes nacionais e internacionais, econômicos e políticos, gigantescos e contraditórios. Por isto mesmo, não tem nenhuma solução técnica possível, e do meu ponto de vista tampouco tem nenhuma solução política à vista. Ainda assistiremos infinitas tentativas e erros, e uma luta contínua e prolongada em torno de cada uma destas iniciativas. Portanto, tudo indica que será uma crise longa e profunda que atuará como um “tsunami darwinista”, liquidando os mais fracos em todos os níveis.
E o que é mais chocante é que esta mesma crise acabará provocando no final uma gigantesca transferência e centralização de riqueza e poder. Sobretudo por se tratar de uma crise que apareceu como culminação de um longo período de 30 anos onde também ocorreu, por outro caminho, uma enorme concentração e centralização de poder e capital. Por fim, na hora da volta do sol poucos estarão na praia, e com certeza quem estará na frente serão os EUA. Mas o que é mais surpreendente é que apesar de que a crise não tenha sido provocada intencionalmente, ela também enfraquecerá países que estavam ascendendo nas duas últimas décadas e desafiando de alguma forma a ordem internacional estabelecida. É como se a crise recolocasse todos os “sublevados” no “seu devido lugar”, como costumam dizer os “donos do poder”, em todas as latitudes do mundo.
Mas você acha que tudo isto acontecerá sem que haja resistência?
JLF: Não, não acho. Do meu ponto de vista haverá resistência e haverá desintegração social mesmo que elas não assumam a forma de uma resistência consciente. E se a crise se prolongar por muito tempo, deverão se multiplicar as rebeliões e as guerras civis, sobretudo nas zonas de fratura do sistema mundial. E não é impossível que algumas destas rebeliões se recoloquem objetivos socialistas. Mas com certeza não haverá uma mudança de “modo de produção” em escala mundial, nem tampouco uma “superação’ hegeliana do sistema inter-estatal capitalista. Pelo contrário, do meu ponto de vista, nesta hora de “estreitamento de oportunidades” haverá uma fuga para frente e uma intensificação da corrida imperialista que já estava em curso nestes últimos 20 anos.
Sua visão não é excessivamente pessimista?
JLF: Não creio, creio que é apenas uma leitura capitalista do próprio capitalismo, com suas lutas de poder e suas contradições político-econômicas que atravessam e dão ritmo ao movimento cíclico e expansivo de acumulação e destruição periódica do próprio capital.
Agora bem, mudando um pouco de assunto, quais são as suas expectativas com relação à política externa dos Estados Unidos, sob a presidência de Obama?
JLF: Se só nos fixarmos nas pessoas e seus discursos, creio que não haveria muito que esperar de novo da política externa do governo Obama. As figuras centrais que estão no comando da política externa, como no caso da política econômica, são conhecidos que já governaram durante os oito anos da administração Clinton que promoveu cerca de 48 intervenções militares ao redor do mundo, ao contrário do que se imagina que foi a década de 90. Por outro lado, os programas de campanha da sra. Hillary como o do próprio Obama foram explicitamente intervencionistas e comprometidos com a manutenção do poder global dos EUA.
Porque não há que esquecer que os EUA tem uma infra-estrutural global de poder militar pela qual devem zelar, seja qual for o seu governo. São os seus acordos militares com cerca de 130 países, são suas 700 bases militares situadas ao redor de todo o mundo e são finalmente seus mais de meio milhão de soldados servindo ou lutando fora do território americano. Os EUA devem enfrentar dificuldades e contradições crescentes para administrar este poder global, mas não há a menor possibilidade que os americanos recuem abandonem estas posições de poder, por sua própria conta, com ou sem Barak Obama.
Mas então não se deve esperar nenhuma com relação a era Bush? E de onde poderiam vir?
JLF: Com certeza haverá mudanças, e o mais provável é que elas vão crescendo com o tempo e pragmaticamente. Mas neste ponto é necessário ter em conta que os revezes do período Bush aumentaram as divisões internas e criaram uma verdadeira fratura exposta e permanente dentro do sociedade e da elite norte-americana, Deste ponto de vista, a eleição e o próprio governo Obama podem e devem ser considerados como um momento importante, mas absolutamente inicial ou incipiente de um longo processo de realinhamento interno de forças e interesses dentro do establishment norte-americano, como ocorreu no início dos anos 50, e na década de 70, depois das Guerras da Coréia e do Vietnã. São momentos em que se formam novas coalizões de poder e podem se definir novas estratégias internacionais. Mas estes processos de realinhamento são lentos, e neste novo contexto internacional, dependerão muito da evolução das situações de poder, guerra e competição econômica, nos vários tabuleiros geopolíticos ao redor do mundo.
Tendo em vista que muitos destes conflitos regionais não têm perspectiva de solução a curto prazo, devido ao grande numero de interesses envolvidos e apoiados por potências rivais e com capacidade militar de impor sua posição dentro de cada uma destas regiões. De qualquer maneira, não há duvida, que frente a uma quadro de tamanha complexidade foi um grande passo a frente o afastamento do fanatismo religioso do comando da política externa americana, e sua substituição por um projeto de experimentação progressivo e realista de soluções negociadas, sempre que possível, com as várias potências envolvidas em cada um destes conflitos mais quentes que deverão ir sendo administrados. Mesmo sem ter uma solução definitiva.
Esta crise atual pode representar o fim da era norte-americana e a inauguração de um novo ciclo hegemônico?
JLF: Para te responder esta pergunta, preciso fazer antes uma breve digressão teórica. Eu não leio a história do sistema mundial como uma sucessão de ciclos hegemônicos, uma espécie de ciclos biológicos dos estados que nascem, crescem, dominam o mundo, e depois decaem e são substituídos por um novo estado que percorreria o mesmo ciclo anterior até chegar à sua própria hora da decadência. Do meu ponto de vista, a melhor analogia para pensar o sistema mundial é como um “universo em expansão" contínua, onde todas os estados que lutam pelo "poder global" – em particular, a potência líder ou hegemônica – constituem um núcleo inseparável, complementar e competitivo, em permanente estado de preparação para a guerra. Por isto, são estados que estão sempre criando, ao mesmo tempo, ordem e desordem, expansão e crise, paz e guerra. E as potências que uma vez ocupam a posição de liderança, não desaparecem, nem são derrotadas por seu “sucessor”.
Elas permanecem e tendem mais bem a se fundir com as forças ascendentes criando blocos cada vez mais poderosos de poder, como aconteceu, por exemplo, no caso da Holanda, Grã Bretanha e Estados Unidos, que na verdade foram alargando sucessivamente as fronteiras do poder anglo-saxônico. Além disto, neste sistema inter-estatal capitalista em que vivemos, crises econômicas e guerras não são, necessariamente, um anúncio do "fim" ou do "colapso" dos estados e das economias envolvidas.
Pelo contrário, na maioria das vezes fazem parte de um mecanismo essencial da acumulação do poder e da riqueza dos estados envolvidos dentro do sistema inter-estatal capitalista. Agora bem, do meu ponto de vista, as crises e guerras que estão em curso neste início do século XXI ainda fazem parte de uma transformação estrutural, de longo prazo, que começou na década de 1970 e que aponta, neste momento, para um aumento da "pressão competitiva" mundial e para uma nova “explosão expansiva" do sistema mundial - como a que ocorreu nos longos séculos XVI e XIX – que contará com um papel decisivo do poder americano.
Mas não foi exatamente na década de 70 que se começou a falar em “crise da hegemonia americana”?
JLF: Exatamente, foi na década de 70 que se começou a falar da crise da hegemonia do poder americano, e do início do fim da “era americana”. E no entanto, a resposta que os EUA deram à sua própria crise teve um papel decisivo na transformação de longo prazo da economia e da política mundial. Basta dizer que foram estas mudanças lideradas pelos EUA que trouxeram de volta ao sistema mundial, depois de 1991, as duas velhas potências do século XIX, a Alemanha e a Rússia, além de trazer para dentro do do sistema, a China, a Índia, e quase todos os principais concorrentes dos Estados Unidos, deste início de século. A crise de liderança dos Estados Unidos, depois de 2003, serviu apenas para dar uma maior visibilidade a este processo que já estava em curso, com novas e velhas potências regionais atuando de forma cada vez mais “desembaraçada”, na defesa dos seus interesses nacionais e na reivindicação de suas “zonas de influência”.
Você acha então que os EUA estão criando seus próprios coveiros?
JLF: Em parte apenas, porque, de fato, a política expansiva dos EUA, desde 1970 ativou e aprofundou as contradições do sistema mundial, derrubou instituições e regras, fez guerras e acabou fortalecendo os estados e as economias que hoje estão disputando com os Estados Unidos, as supremacias regionais, ao redor do mundo. Mas ao mesmo tempo, e é isto que às vezes é esquecido pelos teóricos dos ciclos hegemônicos, estas mesmas competições e guerras, cumpriram e seguem cumprindo um papel decisivo, na reprodução e na acumulação do poder e do capital norte-americano, que também necessita manter-se em estado de acumulação permanente, utilizando-se desta concorrência, destas guerras e destas crises para reproduzir sua posição, no topo da hierarquia mundial.
Você acha que a atual crise econômica afetará a centralidade do dólar como moeda de referência internacional?
JLF: Não creio que o papel internacional do dólar seja afetado ou alterado como conseqüência desta crise. Basta você olhar para a chamada “fuga para o dólar” que se acelerou depois de setembro de 2008, como resposta à crise financeira americana. Este processo fica ininteligível enquanto não se entenda o funcionamento do sistema monetário internacional que meu colega Franklin Serrano apelidou - já faz alguns anos - de sistema “dólar-flexível”. Desde a década de 1970, os EUA se transformaram no “mercado financeiro do mundo”, e o seu Banco Central (FED), passou a emitir uma moeda nacional de circulação internacional, sem base metálica, administrada através das taxas de juros do próprio FED, e dos títulos emitidos pelo Tesouro americano, que atuam em todo mundo, como lastro do sistema “dólar-flexível”.
Por isto, como diz Serrano, a quase totalidade dos passivos externos americanos é denominada em dólares e praticamente todas as importações de bens e serviços dos EUA são pagas exclusivamente em dólar, configurando um caso único em que um país devedor determina a taxa de juros de sua própria “dívida externa”. Uma mágica poderosa e uma circularidade imbatível, porque se sustenta no poder político e econômico norte-americano. Agora mesmo, por exemplo, para enfrentar a crise, o Tesouro americano emitirá novos títulos, mas estes títulos serão comprados pelos governos e investidores de todo mundo, porque seguem sendo uma aplicação segura para todo o mundo e inclusive a China, como diz influente economista Yuan Gangming, ao garantir que “é bom para a China investir muito nos EUA; porque não há muitas outras opções para suas reservas internacionais de quase US$ 2 trilhões, e as economias da China e dos EUA são interdependentes”.
Depois da polarização EUA/URSS e da dominação isolada dos EUA, o que vem agora? A China poderá ocupar o vácuo de poder deixado por um EUA economicamente debilitado?
JLF: Como eu já disse, apesar da violência desta crise financeira, e dos seus efeitos em cadeia sobre a economia mundial, não deverá haver uma “sucessão chinesa” na liderança política e militar do sistema mundial. Pelo contrário, do ponto de vista estritamente econômico, o mais provável é que ocorra um aprofundamento da fusão financeira em curso desde a década de 90, entre a China e os Estados Unidos. Assim mesmo, do ponto de vista geopolítico, eu acho que o que assistiremos nas próximas décadas, será uma competição intensa dentro de um “núcleo central” do SM constituído pelos Estados Unidos, a China, e a Rússia. A Rússia, graças às suas reservas energéticas, ao seu arsenal atômico, e ao tamanho das suas perdas territoriais e populacionais depois de 1991.
Se for assim, se estará constituindo um novo “núcleo central” do sistema mundial composto por três “estados continentais”, que detém isoladamente um quarto da superfície da Terra, e mais de um terço da população mundial. Nesta nova “geopolítica das nações”, a União Européia terá um papel secundário, ao lado dos Estados Unidos, enquanto não dispuser de um poder unificado, com capacidade de iniciativa estratégica autônoma. E a Índia, Irã, Brasil e África do Sul deverão aumentar o seu poder regional, em escalas diferentes, mas não serão poderes globais, ainda por muito tempo. Mas é muito difícil de prever os caminhos do futuro, depois da era imperialista em que estamos submersos.
Fonte: www.cartamaior.com.br
A atual crise econômica mundial não tem nenhuma solução técnica possível, e tampouco tem alguma solução política à vista. Ainda assistiremos a infinitas tentativas e erros, e a uma luta contínua e prolongada em torno de cada uma destas iniciativas. Tudo indica que será uma crise longa e profunda que atuará como um “tsunami darwinista”, liquidando os mais fracos em todos os níveis. E o que é mais chocante é que esta mesma crise acabará provocando no final uma gigantesca transferência e centralização de riqueza e poder. A análise é de José Luís Fiori, em entrevista ao jornal do Corecon RJ.
Marcelo Cajueiro - Corecon RJ
“A crise enfraquecerá países que estavam ascendendo nas duas últimas décadas e desafiando de alguma forma a ordem internacional estabelecida”, diz José Luís Fiori, em entrevista ao Jornal dos Economistas, do Conselho Regional de Economia (Corecon) do Rio de Janeiro. Na entrevista, o professor titular do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), analisa os possíveis impactos políticos e geopolíticos da crise econômica mundial e detalha algumas das idéias aprsentadas no livro "O Mito do Colapso do Poder Americano", escrito em parceria com Carlos Medeiros e Franklin Serrano.
As primeiras medidas da administração Obama para combater a crise econômica, somadas às iniciativas da administração Bush, serão suficientes para debelar a crise?
JOSÉ LUÍS FIORI: Eu acho que é rigorosamente impossível responder a sua pergunta, neste momento. O Senado americano acaba de aprovar um pacote fiscal de estímulo a produção e ao emprego de cerca de 800 bilhões de dólares, enquanto o secretário do tesouro do governo Obama, Thimothy Geithner, anunciava medidas que podem chegar aos 2 trilhões de dólares para reativar os mercados de crédito e tentar recuperar o insolvente sistema financeiro americano. Mas não existe nenhuma teoria, nem claridade sobre quando, onde e como serão gastos estes recursos, nem muito menos, se a sua utilização produzirá os efeitos desejados. Os economistas e as autoridades governamentais americanas, e de todo o mundo, estão num vôo cego, mesmo quando não o reconheçam, ou não possam reconhecê-lo.
No meio desta confusão, acho que só existem três coisas que podem ser afirmadas com algum grau de certeza: a primeira, é que faça o que faça o governo americano, será absolutamente decisivo para a evolução da crise em todo mundo; a segunda, é de que, neste momento, todos os governos envolvidos estão fazendo a mesma aposta e adotando as mesmas estratégias monetárias e fiscais, e aprovando “pacotes” sucessivos ( e até agora impotentes) de ajuda à estabilização e reativação do sistema financeiro, e de estímulo à produção e ao emprego, junto um aumento generalizado – mas ainda disfarçado - das barreiras protecionistas. E todos os governos estão se propondo aumentar o rigor da regulação dos seus agentes e mercados financeiros. A terceira coisa que se pode afirmar com toda certeza é que ninguém, absolutamente ninguém sabe se estas políticas darão certo.
Este novo consenso poderia ser considerado uma vitória do pensamento keynesiano, e uma retirada definitiva da ortodoxia monetarista e neo-liberal ?
JLF: Não creio. Nada do que está acontecendo tem a ver com qualquer tipo de vitória ou derrota teórica. Trata-se de uma reação emergencial e pragmática frente à ameaça de colapso do poder dos estados e dos bancos, e como conseqüência, dos sistemas de produção e emprego. Foi uma mudança de rumo inesperada e inevitável, que foi imposta pela força dos fatos, independente da ideologia econômica dos governantes que estão aplicando as novas políticas, e que na sua maioria ainda eram ortodoxos e liberais até ante-ontem. É como se estivéssemos assistindo a versão invertida da famosa frase a Sra Thatcher: “there is no alternative”.
Só que agora, do meu ponto de vista, esta nova convergência aconteceu sem maiores discussões teóricas ou ideológicas e sem nenhum entusiasmo político, ao contrário do que aconteceu com a “virada” liberal-conservadora dos anos 80/ 90, que atravessou todos os países e todos os planos da vida social e econômica. A ideologia econômica liberal não previu e não consegue explicar a crise que ela provocou, e como conseqüência não tem nada para dizer nem propor neste momento. Por isto mesmo, as idéias ortodoxas e liberais saíram do primeiro plano, mas não morreram nem desapareceram, pelo contrário, permanecem atuantes em todos as frentes e trincheiras de resistência às políticas estatizantes que estão em curso. Uma resistência que tem crescido a cada hora que passa, dentro e fora dos EUA, apesar de que ainda não tenha sido devidamente identificada e diagnostica.
E os keynesianos?
JLF: Do meu ponto de vista, os keynesianos também não têm uma teoria capaz de dar conta da complexidade desta nova situação mundial, e por isto tampouco sabem o que vem pela frente, nem conseguem antecipar se as “políticas keynesianas” que estão em curso, alcançarão os resultados propostos. Além disto, um grande numero considera insuficientes os recursos que tem sido desembolsados, e criticam a forma como vem sendo feita a limpeza dos ativos podres do bancos, que em geral é considerada pouco ousada e pouco precisa, além de ser perversa ao premiar com recursos públicos o setor financeiro responsável pela crise.
O problema é que, na maioria das vezes, os keynesianos tem uma enorme dificuldade de tratar com os interesses e as lutas do mundo real. E compartilham com os liberais uma espécie de “erro inverso”: os liberais acreditam na possibilidade e na eficácia da eliminação do poder político e do estado do mundo dos mercados; enquanto os keynesianos acrediatm na possibilidade e na eficácia da intervenção corretiva do estado no mundo econômico. Mas estão sempre imaginando um estado homogêneo e onisciente, capaz de formular políticas econômicas sábias, justas e eficazes, desde que não sejam “atrapalhadas” pelo mundo real. Ou seja, em última instância, ortodoxos e keynesianos compartilham a mesma dificuldade de entender e incluir nos seus modelos, projeções e recomendações, as contradições e as lutas políticas próprias do mundo econômico.
E o que você vê quando olha para esta crise através desta “janela” do poder?
JLF: Não é muita coisa o que se possa dizer sem um estudo mais detido dos interesses e conflitos em curso entre grupos sociais e estados e economias nacionais, nas principais regiões do mundo, coisa que não fiz nem encontrei ainda nas análises de outros autores. Mas assim mesmo, a vôo de passaro, é possível ver que esta crise envolve interesses e poderes nacionais e internacionais, econômicos e políticos, gigantescos e contraditórios. Por isto mesmo, não tem nenhuma solução técnica possível, e do meu ponto de vista tampouco tem nenhuma solução política à vista. Ainda assistiremos infinitas tentativas e erros, e uma luta contínua e prolongada em torno de cada uma destas iniciativas. Portanto, tudo indica que será uma crise longa e profunda que atuará como um “tsunami darwinista”, liquidando os mais fracos em todos os níveis.
E o que é mais chocante é que esta mesma crise acabará provocando no final uma gigantesca transferência e centralização de riqueza e poder. Sobretudo por se tratar de uma crise que apareceu como culminação de um longo período de 30 anos onde também ocorreu, por outro caminho, uma enorme concentração e centralização de poder e capital. Por fim, na hora da volta do sol poucos estarão na praia, e com certeza quem estará na frente serão os EUA. Mas o que é mais surpreendente é que apesar de que a crise não tenha sido provocada intencionalmente, ela também enfraquecerá países que estavam ascendendo nas duas últimas décadas e desafiando de alguma forma a ordem internacional estabelecida. É como se a crise recolocasse todos os “sublevados” no “seu devido lugar”, como costumam dizer os “donos do poder”, em todas as latitudes do mundo.
Mas você acha que tudo isto acontecerá sem que haja resistência?
JLF: Não, não acho. Do meu ponto de vista haverá resistência e haverá desintegração social mesmo que elas não assumam a forma de uma resistência consciente. E se a crise se prolongar por muito tempo, deverão se multiplicar as rebeliões e as guerras civis, sobretudo nas zonas de fratura do sistema mundial. E não é impossível que algumas destas rebeliões se recoloquem objetivos socialistas. Mas com certeza não haverá uma mudança de “modo de produção” em escala mundial, nem tampouco uma “superação’ hegeliana do sistema inter-estatal capitalista. Pelo contrário, do meu ponto de vista, nesta hora de “estreitamento de oportunidades” haverá uma fuga para frente e uma intensificação da corrida imperialista que já estava em curso nestes últimos 20 anos.
Sua visão não é excessivamente pessimista?
JLF: Não creio, creio que é apenas uma leitura capitalista do próprio capitalismo, com suas lutas de poder e suas contradições político-econômicas que atravessam e dão ritmo ao movimento cíclico e expansivo de acumulação e destruição periódica do próprio capital.
Agora bem, mudando um pouco de assunto, quais são as suas expectativas com relação à política externa dos Estados Unidos, sob a presidência de Obama?
JLF: Se só nos fixarmos nas pessoas e seus discursos, creio que não haveria muito que esperar de novo da política externa do governo Obama. As figuras centrais que estão no comando da política externa, como no caso da política econômica, são conhecidos que já governaram durante os oito anos da administração Clinton que promoveu cerca de 48 intervenções militares ao redor do mundo, ao contrário do que se imagina que foi a década de 90. Por outro lado, os programas de campanha da sra. Hillary como o do próprio Obama foram explicitamente intervencionistas e comprometidos com a manutenção do poder global dos EUA.
Porque não há que esquecer que os EUA tem uma infra-estrutural global de poder militar pela qual devem zelar, seja qual for o seu governo. São os seus acordos militares com cerca de 130 países, são suas 700 bases militares situadas ao redor de todo o mundo e são finalmente seus mais de meio milhão de soldados servindo ou lutando fora do território americano. Os EUA devem enfrentar dificuldades e contradições crescentes para administrar este poder global, mas não há a menor possibilidade que os americanos recuem abandonem estas posições de poder, por sua própria conta, com ou sem Barak Obama.
Mas então não se deve esperar nenhuma com relação a era Bush? E de onde poderiam vir?
JLF: Com certeza haverá mudanças, e o mais provável é que elas vão crescendo com o tempo e pragmaticamente. Mas neste ponto é necessário ter em conta que os revezes do período Bush aumentaram as divisões internas e criaram uma verdadeira fratura exposta e permanente dentro do sociedade e da elite norte-americana, Deste ponto de vista, a eleição e o próprio governo Obama podem e devem ser considerados como um momento importante, mas absolutamente inicial ou incipiente de um longo processo de realinhamento interno de forças e interesses dentro do establishment norte-americano, como ocorreu no início dos anos 50, e na década de 70, depois das Guerras da Coréia e do Vietnã. São momentos em que se formam novas coalizões de poder e podem se definir novas estratégias internacionais. Mas estes processos de realinhamento são lentos, e neste novo contexto internacional, dependerão muito da evolução das situações de poder, guerra e competição econômica, nos vários tabuleiros geopolíticos ao redor do mundo.
Tendo em vista que muitos destes conflitos regionais não têm perspectiva de solução a curto prazo, devido ao grande numero de interesses envolvidos e apoiados por potências rivais e com capacidade militar de impor sua posição dentro de cada uma destas regiões. De qualquer maneira, não há duvida, que frente a uma quadro de tamanha complexidade foi um grande passo a frente o afastamento do fanatismo religioso do comando da política externa americana, e sua substituição por um projeto de experimentação progressivo e realista de soluções negociadas, sempre que possível, com as várias potências envolvidas em cada um destes conflitos mais quentes que deverão ir sendo administrados. Mesmo sem ter uma solução definitiva.
Esta crise atual pode representar o fim da era norte-americana e a inauguração de um novo ciclo hegemônico?
JLF: Para te responder esta pergunta, preciso fazer antes uma breve digressão teórica. Eu não leio a história do sistema mundial como uma sucessão de ciclos hegemônicos, uma espécie de ciclos biológicos dos estados que nascem, crescem, dominam o mundo, e depois decaem e são substituídos por um novo estado que percorreria o mesmo ciclo anterior até chegar à sua própria hora da decadência. Do meu ponto de vista, a melhor analogia para pensar o sistema mundial é como um “universo em expansão" contínua, onde todas os estados que lutam pelo "poder global" – em particular, a potência líder ou hegemônica – constituem um núcleo inseparável, complementar e competitivo, em permanente estado de preparação para a guerra. Por isto, são estados que estão sempre criando, ao mesmo tempo, ordem e desordem, expansão e crise, paz e guerra. E as potências que uma vez ocupam a posição de liderança, não desaparecem, nem são derrotadas por seu “sucessor”.
Elas permanecem e tendem mais bem a se fundir com as forças ascendentes criando blocos cada vez mais poderosos de poder, como aconteceu, por exemplo, no caso da Holanda, Grã Bretanha e Estados Unidos, que na verdade foram alargando sucessivamente as fronteiras do poder anglo-saxônico. Além disto, neste sistema inter-estatal capitalista em que vivemos, crises econômicas e guerras não são, necessariamente, um anúncio do "fim" ou do "colapso" dos estados e das economias envolvidas.
Pelo contrário, na maioria das vezes fazem parte de um mecanismo essencial da acumulação do poder e da riqueza dos estados envolvidos dentro do sistema inter-estatal capitalista. Agora bem, do meu ponto de vista, as crises e guerras que estão em curso neste início do século XXI ainda fazem parte de uma transformação estrutural, de longo prazo, que começou na década de 1970 e que aponta, neste momento, para um aumento da "pressão competitiva" mundial e para uma nova “explosão expansiva" do sistema mundial - como a que ocorreu nos longos séculos XVI e XIX – que contará com um papel decisivo do poder americano.
Mas não foi exatamente na década de 70 que se começou a falar em “crise da hegemonia americana”?
JLF: Exatamente, foi na década de 70 que se começou a falar da crise da hegemonia do poder americano, e do início do fim da “era americana”. E no entanto, a resposta que os EUA deram à sua própria crise teve um papel decisivo na transformação de longo prazo da economia e da política mundial. Basta dizer que foram estas mudanças lideradas pelos EUA que trouxeram de volta ao sistema mundial, depois de 1991, as duas velhas potências do século XIX, a Alemanha e a Rússia, além de trazer para dentro do do sistema, a China, a Índia, e quase todos os principais concorrentes dos Estados Unidos, deste início de século. A crise de liderança dos Estados Unidos, depois de 2003, serviu apenas para dar uma maior visibilidade a este processo que já estava em curso, com novas e velhas potências regionais atuando de forma cada vez mais “desembaraçada”, na defesa dos seus interesses nacionais e na reivindicação de suas “zonas de influência”.
Você acha então que os EUA estão criando seus próprios coveiros?
JLF: Em parte apenas, porque, de fato, a política expansiva dos EUA, desde 1970 ativou e aprofundou as contradições do sistema mundial, derrubou instituições e regras, fez guerras e acabou fortalecendo os estados e as economias que hoje estão disputando com os Estados Unidos, as supremacias regionais, ao redor do mundo. Mas ao mesmo tempo, e é isto que às vezes é esquecido pelos teóricos dos ciclos hegemônicos, estas mesmas competições e guerras, cumpriram e seguem cumprindo um papel decisivo, na reprodução e na acumulação do poder e do capital norte-americano, que também necessita manter-se em estado de acumulação permanente, utilizando-se desta concorrência, destas guerras e destas crises para reproduzir sua posição, no topo da hierarquia mundial.
Você acha que a atual crise econômica afetará a centralidade do dólar como moeda de referência internacional?
JLF: Não creio que o papel internacional do dólar seja afetado ou alterado como conseqüência desta crise. Basta você olhar para a chamada “fuga para o dólar” que se acelerou depois de setembro de 2008, como resposta à crise financeira americana. Este processo fica ininteligível enquanto não se entenda o funcionamento do sistema monetário internacional que meu colega Franklin Serrano apelidou - já faz alguns anos - de sistema “dólar-flexível”. Desde a década de 1970, os EUA se transformaram no “mercado financeiro do mundo”, e o seu Banco Central (FED), passou a emitir uma moeda nacional de circulação internacional, sem base metálica, administrada através das taxas de juros do próprio FED, e dos títulos emitidos pelo Tesouro americano, que atuam em todo mundo, como lastro do sistema “dólar-flexível”.
Por isto, como diz Serrano, a quase totalidade dos passivos externos americanos é denominada em dólares e praticamente todas as importações de bens e serviços dos EUA são pagas exclusivamente em dólar, configurando um caso único em que um país devedor determina a taxa de juros de sua própria “dívida externa”. Uma mágica poderosa e uma circularidade imbatível, porque se sustenta no poder político e econômico norte-americano. Agora mesmo, por exemplo, para enfrentar a crise, o Tesouro americano emitirá novos títulos, mas estes títulos serão comprados pelos governos e investidores de todo mundo, porque seguem sendo uma aplicação segura para todo o mundo e inclusive a China, como diz influente economista Yuan Gangming, ao garantir que “é bom para a China investir muito nos EUA; porque não há muitas outras opções para suas reservas internacionais de quase US$ 2 trilhões, e as economias da China e dos EUA são interdependentes”.
Depois da polarização EUA/URSS e da dominação isolada dos EUA, o que vem agora? A China poderá ocupar o vácuo de poder deixado por um EUA economicamente debilitado?
JLF: Como eu já disse, apesar da violência desta crise financeira, e dos seus efeitos em cadeia sobre a economia mundial, não deverá haver uma “sucessão chinesa” na liderança política e militar do sistema mundial. Pelo contrário, do ponto de vista estritamente econômico, o mais provável é que ocorra um aprofundamento da fusão financeira em curso desde a década de 90, entre a China e os Estados Unidos. Assim mesmo, do ponto de vista geopolítico, eu acho que o que assistiremos nas próximas décadas, será uma competição intensa dentro de um “núcleo central” do SM constituído pelos Estados Unidos, a China, e a Rússia. A Rússia, graças às suas reservas energéticas, ao seu arsenal atômico, e ao tamanho das suas perdas territoriais e populacionais depois de 1991.
Se for assim, se estará constituindo um novo “núcleo central” do sistema mundial composto por três “estados continentais”, que detém isoladamente um quarto da superfície da Terra, e mais de um terço da população mundial. Nesta nova “geopolítica das nações”, a União Européia terá um papel secundário, ao lado dos Estados Unidos, enquanto não dispuser de um poder unificado, com capacidade de iniciativa estratégica autônoma. E a Índia, Irã, Brasil e África do Sul deverão aumentar o seu poder regional, em escalas diferentes, mas não serão poderes globais, ainda por muito tempo. Mas é muito difícil de prever os caminhos do futuro, depois da era imperialista em que estamos submersos.
Fonte: www.cartamaior.com.br
segunda-feira, 2 de março de 2009
Palestina: uma questão de justiça – Igor Fuser 27/02/2009
Palestina: uma questão de justiça – Igor Fuser 27/02/2009
Sem justiça, não pode existir paz. Nem aqui, nem na Palestina
Uma maré de solidariedade ao povo palestino percorre o mundo nos últimos dois meses. Como em outros tempos o repúdio à intervenção dos EUA no Vietnã ou a campanha pelo fim do apartheid na África do Sul, a condenação dos crimes contra a humanidade cometidos por Israel em Gaza se tornou uma dessas causas capazes de unir, no mesmo sentimento, as pessoas que compartilham uma noção essencial de justiça, acima das fronteiras étnicas e religiosas. É inaceitável a indiferença ou a conivência com o massacre de civis, a destruição de suas casas, a opressão cotidiana em Gaza e Cisjordânia, a intransigência de Israel em perpetuar a ocupação ilegal que se prolonga desde 1967. O PT, fiel à sua tradição internacionalista e aos seus valores humanistas, manifestou-se nesse episódio do lado certo, somando sua voz aos que defendem o fim imediato da ocupação e a criação de um Estado palestino soberano, viável e em bases dignas.
Em artigo divulgado no espaço virtual petista (www.pt.org.br), o economista Paul Singer, um veterano lutador do povo brasileiro, também defende o fim dos ataques em Gaza, mas critica os termos em que tem se expressado o repúdio geral à conduta de Israel. Na sua opinião, é necessário condenar em igual medida a violência praticada por israelenses e por palestinos. Suas ponderações, embora expressem uma aspiração sincera pela paz, têm como fio condutor um raciocínio equivocado, muito presente na cobertura da mídia: o de abordar o conflito a partir de uma suposta simetria entre palestinos e israelenses. Trata-se de uma ideia simples e elegante – por isso mesmo, tentadora. Diante de dois povos em luta pelo mesmo território, cada qual com seus argumentos, a atitude mais sensata seria a equidistância. Assim, o PT é criticado por tomar partido, em lugar de simplesmente se ater a uma defesa (abstrata) da paz, do diálogo, da compreensão mútua.
Um mínimo de reflexão sobre o conflito israelense-palestino e suas raízes históricas já é suficiente para demonstrar o quanto é falaciosa a crença de que os motivos dos dois lados se equivalem. O Estado de Israel foi criado com base no confisco das terras dos palestinos e na negação dos seus direitos. A violência está embutida no projeto sionista desde a sua concepção, no final do século XIX, quando Theodor Herzl formulou a palavra-de-ordem de “uma terra sem povo” (a Palestina) “para um povo sem terra” (os judeus). Estava lançada ali a semente da “limpeza étnica” que acompanhou a fundação do Estado de Israel, em 1948, quando 700 mil árabes, moradores da região desde tempos imemoriais, foram obrigados a abandonar seus lares, conforme o relato incontestado de historiadores israelenses como Benny Morris e Tom Segev. Hoje os refugiados que vivem fora da Palestina são 4,2 milhões, na sua maioria abrigados precariamente em acampamentos nos países árabes. Outros 1,5 milhão de refugiados sobrevivem nos territórios ocupados, em condições sub-humanas. Os palestinos são proibidos de retornar para sua terra de origem. Já os judeus, nascidos em qualquer parte do mundo, têm assegurado o direito de imigrar para Israel, onde recebem automaticamente cidadania e todo tipo de ajuda.
Os palestinos fizeram imensas concessões em nome da paz. Em 1993, nos Acordos de Oslo, seu principal líder, Yasser Arafat, reconheceu a existência de Israel nas suas fronteiras oficiais. Em troca, obteve uma limitada autonomia administrativa nas cidades palestinas e o compromisso da abertura de negociações com vistas à criação de um Estado Palestino em uma área – Cisjordânia e Gaza – equivalente a apenas 25% da Palestina original. Na época, o Hamas era uma força política minoritária, isolada em sua rejeição ao diálogo. Nos quinze anos que se passaram, as promessas israelenses foram rasgadas, uma a uma. A instalação de colonos judeus nos territórios ocupados se acelerou, em vez de se interromper, e a população desses assentamentos mais do que dobrou. A vida cotidiana nos territórios ocupados se tornou um inferno, com as centenas de postos militares de controle, o impedimento do trabalho em Israel e, finalmente, a construção do “muro da vergonha”.
Nesse contexto, como é possível imaginar qualquer tipo de equilíbrio entre opressores e oprimidos? No título do seu artigo, o companheiro Paul Singer afirma que “não basta condenar os massacres, é preciso ir às causas”. Qual será o motivo que leva as forças de ocupação israelense a praticar diariamente a violência contra os moradores de Gaza e Cisjordânia? A explicação lógica, apontada por jornalistas como o inglês Robert Fisk e o israelense Uri Avnery, é o intuito de tornar a vida dos palestinos tão insuportável que uma parcela cada vez maior deles acabe optando pelo exílio, enquanto os restantes se resignariam a uma semi-autonomia sob o jugo israelense.
Quanto à cota de truculência que cabe aos palestinos, qualquer julgamento ético deve levar em conta a tradição filosófica ocidental, consagrada desde o Iluminismo, que reconhece o direito de revolta contra a opressão, a tirania. Nelson Mandela escreveu que “é sempre o opressor, e não o oprimido, quem determina a forma da luta”. A violência palestina, em escala muito menor que a dos israelenses, surge como uma reação à injustiça primordial que é a usurpação dos direitos. E é importante assinalar que os foguetes artesanais disparados pelos palestinos contra o território israelense constituem, do ponto de vista militar, a única arma ao alcance do Hamas, além dos homens-bombas – recurso desesperado que, felizmente, parece ter caído em desuso. O fato é que, nos doze meses que antecederam as recentes atrocidades de Israel em Gaza, não ocorreu nenhuma vítima israelense em conseqüência de ataques do Hamas. Nenhuma, nem mesmo um ferido. Já os israelenses, usando aqueles disparos inúteis como pretexto, mataram entre dezembro e janeiro mais de 1.300 pessoas, das quais dois terços eram não combatentes e um terço tinha menos de 18 anos.
O jornalista israelense Gideon Levy perguntou ao final de 2006, num contexto semelhante ao atual: se o Hamas não tivesse disparado nenhum foguete, o que teria acontecido? Israel teria levantado o bloqueio a Gaza? Teria libertado algum dos 11 mil prisioneiros palestinos? É claro que não. A conclusão de Levy: “Se os habitantes de Gaza tivessem permanecido tranquilos, como Israel gostaria, sua causa teria desaparecido da agenda, aqui e no resto do mundo.”
O Hamas não é uma “organização terrorista”, como a definiu George W. Bush, e sim uma força política legítima, com grande representatividade nos territórios ocupados. Seus dirigentes chegaram ao “governo” palestino por escolha da população, em eleições democráticas. Recrimina-se ao Hamas o não-reconhecimento de Israel. E Israel por acaso reconhece o direito dos palestinos a construir seu próprio Estado, tal como prescrevem as resoluções das Nações Unidas?
Na realidade, pouco importa se o Hamas reconhece ou não o Estado de Israel. A existência desse país – o único, no mundo inteiro, em que a cidadania está condicionada a critérios étnicos e religiosos – é um fato consumado que a imensa maioria dos palestinos admite ser impossível reverter, conforme mostram as pesquisas de opinião. Raríssimos entre eles apoiariam uma guerra para destruir Israel, o que seria, aliás, uma opção moralmente injustificável. Expulsar os israelenses da Palestina seria uma atrocidade tão brutal quanto foi a expulsão dos palestinos, 60 anos atrás.
A roda da história não retrocede e hoje já não se discute a ilegitimidade do empreendimento sionista e sim questões bem concretas: a volta de Israel às suas fronteiras de 1967, o desmantelamento das colônias ilegais na Cisjordânia, o Estado Palestino com capital em Jerusalém Oriental, o retorno negociado dos refugiados que queiram regressar. Cogita-se cada vez mais, entre os opositores da ocupação, em agregar um tópico até agora excluído das conversações – o pagamento de reparações que aliviem ao menos simbolicamente os danos incalculáveis que o projeto sionista impôs à população palestina. Israel deve desculpas pelo mal que fez e continua fazendo.
Estarão os israelenses dispostos a impor um fim à conduta criminosa dos seus governantes? O apoio maciço aos partidos reacionários nas recentes eleições sugere que não. Seria ingênuo apostar que a pura força dos argumentos possa convencer o Estado sionista a abrir mão da intransigência e da brutalidade. Israel só aceitará negociações sérias mediante fortes pressões. O presidente estadunidense Barack Obama possui cacife político suficiente para imprimir um novo rumo no Oriente Médio, mas não parece interessado nisso. Os brasileiros engajados na luta pela paz devem, portanto, pensar em atitudes efetivas de pressão para obrigar Israel a seguir o caminho da legalidade internacional. O rompimento das relações diplomáticas, a exemplo do que fez a Venezuela, seria uma medida contundente. O boicote econômico, defendido pela escritora canadense Naomi Klein, também merece o apoio de quem pretende batalhar pela paz não só com boas intenções, mas com iniciativas práticas.
Singer defende, com muita ênfase, o direito dos israelenses a “uma vida em paz”, e deixa implícito que o mesmo vale para os palestinos. No mundo real, essa expressão não possui o mesmo significado para os dois povos. Na chocante assimetria que marca a situação no Oriente Médio, o exercício do direito à segurança depende de pressupostos diversos, conforme o lado em que cada um se encontre. Se para os israelenses, cidadãos de um Estado consolidado que conta até mesmo com bombas nucleares em seu arsenal, “uma vida em paz” equivale simplesmente ao fim das hostilidades, para os palestinos, tratados como intrusos em sua própria terra, esse ideal é inseparável de outro sonho – o de uma vida com justiça. Sem justiça, não pode existir paz. Nem aqui, nem na Palestina.
Igor Fuser é jornalista e professor, doutorando em Ciência Política na USP e autor do livro Petróleo e Poder – O envolvimento militar dos Estados Unidos no Golfo Pérsico (Unesp, 2008).
Sem justiça, não pode existir paz. Nem aqui, nem na Palestina
Uma maré de solidariedade ao povo palestino percorre o mundo nos últimos dois meses. Como em outros tempos o repúdio à intervenção dos EUA no Vietnã ou a campanha pelo fim do apartheid na África do Sul, a condenação dos crimes contra a humanidade cometidos por Israel em Gaza se tornou uma dessas causas capazes de unir, no mesmo sentimento, as pessoas que compartilham uma noção essencial de justiça, acima das fronteiras étnicas e religiosas. É inaceitável a indiferença ou a conivência com o massacre de civis, a destruição de suas casas, a opressão cotidiana em Gaza e Cisjordânia, a intransigência de Israel em perpetuar a ocupação ilegal que se prolonga desde 1967. O PT, fiel à sua tradição internacionalista e aos seus valores humanistas, manifestou-se nesse episódio do lado certo, somando sua voz aos que defendem o fim imediato da ocupação e a criação de um Estado palestino soberano, viável e em bases dignas.
Em artigo divulgado no espaço virtual petista (www.pt.org.br), o economista Paul Singer, um veterano lutador do povo brasileiro, também defende o fim dos ataques em Gaza, mas critica os termos em que tem se expressado o repúdio geral à conduta de Israel. Na sua opinião, é necessário condenar em igual medida a violência praticada por israelenses e por palestinos. Suas ponderações, embora expressem uma aspiração sincera pela paz, têm como fio condutor um raciocínio equivocado, muito presente na cobertura da mídia: o de abordar o conflito a partir de uma suposta simetria entre palestinos e israelenses. Trata-se de uma ideia simples e elegante – por isso mesmo, tentadora. Diante de dois povos em luta pelo mesmo território, cada qual com seus argumentos, a atitude mais sensata seria a equidistância. Assim, o PT é criticado por tomar partido, em lugar de simplesmente se ater a uma defesa (abstrata) da paz, do diálogo, da compreensão mútua.
Um mínimo de reflexão sobre o conflito israelense-palestino e suas raízes históricas já é suficiente para demonstrar o quanto é falaciosa a crença de que os motivos dos dois lados se equivalem. O Estado de Israel foi criado com base no confisco das terras dos palestinos e na negação dos seus direitos. A violência está embutida no projeto sionista desde a sua concepção, no final do século XIX, quando Theodor Herzl formulou a palavra-de-ordem de “uma terra sem povo” (a Palestina) “para um povo sem terra” (os judeus). Estava lançada ali a semente da “limpeza étnica” que acompanhou a fundação do Estado de Israel, em 1948, quando 700 mil árabes, moradores da região desde tempos imemoriais, foram obrigados a abandonar seus lares, conforme o relato incontestado de historiadores israelenses como Benny Morris e Tom Segev. Hoje os refugiados que vivem fora da Palestina são 4,2 milhões, na sua maioria abrigados precariamente em acampamentos nos países árabes. Outros 1,5 milhão de refugiados sobrevivem nos territórios ocupados, em condições sub-humanas. Os palestinos são proibidos de retornar para sua terra de origem. Já os judeus, nascidos em qualquer parte do mundo, têm assegurado o direito de imigrar para Israel, onde recebem automaticamente cidadania e todo tipo de ajuda.
Os palestinos fizeram imensas concessões em nome da paz. Em 1993, nos Acordos de Oslo, seu principal líder, Yasser Arafat, reconheceu a existência de Israel nas suas fronteiras oficiais. Em troca, obteve uma limitada autonomia administrativa nas cidades palestinas e o compromisso da abertura de negociações com vistas à criação de um Estado Palestino em uma área – Cisjordânia e Gaza – equivalente a apenas 25% da Palestina original. Na época, o Hamas era uma força política minoritária, isolada em sua rejeição ao diálogo. Nos quinze anos que se passaram, as promessas israelenses foram rasgadas, uma a uma. A instalação de colonos judeus nos territórios ocupados se acelerou, em vez de se interromper, e a população desses assentamentos mais do que dobrou. A vida cotidiana nos territórios ocupados se tornou um inferno, com as centenas de postos militares de controle, o impedimento do trabalho em Israel e, finalmente, a construção do “muro da vergonha”.
Nesse contexto, como é possível imaginar qualquer tipo de equilíbrio entre opressores e oprimidos? No título do seu artigo, o companheiro Paul Singer afirma que “não basta condenar os massacres, é preciso ir às causas”. Qual será o motivo que leva as forças de ocupação israelense a praticar diariamente a violência contra os moradores de Gaza e Cisjordânia? A explicação lógica, apontada por jornalistas como o inglês Robert Fisk e o israelense Uri Avnery, é o intuito de tornar a vida dos palestinos tão insuportável que uma parcela cada vez maior deles acabe optando pelo exílio, enquanto os restantes se resignariam a uma semi-autonomia sob o jugo israelense.
Quanto à cota de truculência que cabe aos palestinos, qualquer julgamento ético deve levar em conta a tradição filosófica ocidental, consagrada desde o Iluminismo, que reconhece o direito de revolta contra a opressão, a tirania. Nelson Mandela escreveu que “é sempre o opressor, e não o oprimido, quem determina a forma da luta”. A violência palestina, em escala muito menor que a dos israelenses, surge como uma reação à injustiça primordial que é a usurpação dos direitos. E é importante assinalar que os foguetes artesanais disparados pelos palestinos contra o território israelense constituem, do ponto de vista militar, a única arma ao alcance do Hamas, além dos homens-bombas – recurso desesperado que, felizmente, parece ter caído em desuso. O fato é que, nos doze meses que antecederam as recentes atrocidades de Israel em Gaza, não ocorreu nenhuma vítima israelense em conseqüência de ataques do Hamas. Nenhuma, nem mesmo um ferido. Já os israelenses, usando aqueles disparos inúteis como pretexto, mataram entre dezembro e janeiro mais de 1.300 pessoas, das quais dois terços eram não combatentes e um terço tinha menos de 18 anos.
O jornalista israelense Gideon Levy perguntou ao final de 2006, num contexto semelhante ao atual: se o Hamas não tivesse disparado nenhum foguete, o que teria acontecido? Israel teria levantado o bloqueio a Gaza? Teria libertado algum dos 11 mil prisioneiros palestinos? É claro que não. A conclusão de Levy: “Se os habitantes de Gaza tivessem permanecido tranquilos, como Israel gostaria, sua causa teria desaparecido da agenda, aqui e no resto do mundo.”
O Hamas não é uma “organização terrorista”, como a definiu George W. Bush, e sim uma força política legítima, com grande representatividade nos territórios ocupados. Seus dirigentes chegaram ao “governo” palestino por escolha da população, em eleições democráticas. Recrimina-se ao Hamas o não-reconhecimento de Israel. E Israel por acaso reconhece o direito dos palestinos a construir seu próprio Estado, tal como prescrevem as resoluções das Nações Unidas?
Na realidade, pouco importa se o Hamas reconhece ou não o Estado de Israel. A existência desse país – o único, no mundo inteiro, em que a cidadania está condicionada a critérios étnicos e religiosos – é um fato consumado que a imensa maioria dos palestinos admite ser impossível reverter, conforme mostram as pesquisas de opinião. Raríssimos entre eles apoiariam uma guerra para destruir Israel, o que seria, aliás, uma opção moralmente injustificável. Expulsar os israelenses da Palestina seria uma atrocidade tão brutal quanto foi a expulsão dos palestinos, 60 anos atrás.
A roda da história não retrocede e hoje já não se discute a ilegitimidade do empreendimento sionista e sim questões bem concretas: a volta de Israel às suas fronteiras de 1967, o desmantelamento das colônias ilegais na Cisjordânia, o Estado Palestino com capital em Jerusalém Oriental, o retorno negociado dos refugiados que queiram regressar. Cogita-se cada vez mais, entre os opositores da ocupação, em agregar um tópico até agora excluído das conversações – o pagamento de reparações que aliviem ao menos simbolicamente os danos incalculáveis que o projeto sionista impôs à população palestina. Israel deve desculpas pelo mal que fez e continua fazendo.
Estarão os israelenses dispostos a impor um fim à conduta criminosa dos seus governantes? O apoio maciço aos partidos reacionários nas recentes eleições sugere que não. Seria ingênuo apostar que a pura força dos argumentos possa convencer o Estado sionista a abrir mão da intransigência e da brutalidade. Israel só aceitará negociações sérias mediante fortes pressões. O presidente estadunidense Barack Obama possui cacife político suficiente para imprimir um novo rumo no Oriente Médio, mas não parece interessado nisso. Os brasileiros engajados na luta pela paz devem, portanto, pensar em atitudes efetivas de pressão para obrigar Israel a seguir o caminho da legalidade internacional. O rompimento das relações diplomáticas, a exemplo do que fez a Venezuela, seria uma medida contundente. O boicote econômico, defendido pela escritora canadense Naomi Klein, também merece o apoio de quem pretende batalhar pela paz não só com boas intenções, mas com iniciativas práticas.
Singer defende, com muita ênfase, o direito dos israelenses a “uma vida em paz”, e deixa implícito que o mesmo vale para os palestinos. No mundo real, essa expressão não possui o mesmo significado para os dois povos. Na chocante assimetria que marca a situação no Oriente Médio, o exercício do direito à segurança depende de pressupostos diversos, conforme o lado em que cada um se encontre. Se para os israelenses, cidadãos de um Estado consolidado que conta até mesmo com bombas nucleares em seu arsenal, “uma vida em paz” equivale simplesmente ao fim das hostilidades, para os palestinos, tratados como intrusos em sua própria terra, esse ideal é inseparável de outro sonho – o de uma vida com justiça. Sem justiça, não pode existir paz. Nem aqui, nem na Palestina.
Igor Fuser é jornalista e professor, doutorando em Ciência Política na USP e autor do livro Petróleo e Poder – O envolvimento militar dos Estados Unidos no Golfo Pérsico (Unesp, 2008).
Entrevista: Noam Chomsky a Isto É.
"Capitalismo só existe no terceiro mundo"
Intelectual americano critica protecionismo dos EUA e diz que o poder do capital é imposto à força nos países pobres
por Maíra Magro
Ele foi considerado o intelectual mais importante do mundo pelo jornal The New York Times. Em 2005, ficou no topo da lista dos principais acadêmicos do planeta, segundo pesquisa feita pelas influentes revistas Foreign Policy, dos Estados Unidos, e Prospect, da Inglaterra. Aos 80 anos, Noam Chomsky, americano descendente de judeus russos, é reconhecido também como o papa da linguística moderna, por ter revolucionado a área com suas pesquisas sobre aquisição de linguagem. Professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) há mais de meio século, Chomsky é também filósofo e comentarista político. A decisão de nadar contra o pensamento político dominante veio com a guerra do Vietnã, nos anos 60. Publicou mais de 70 livros e mil artigos. Em geral, obras de repercussão mundial sobre atentados terroristas, neoliberalismo e política internacional. Um dos maiores críticos da política internacional americana, Chomsky está lançando no Brasil Estados fracassados: o abuso do poder e o ataque à democracia (Bertrand, 349 págs., R$ 45), no qual argumenta que os Estados Unidos assumiram as características de um Estado fracassado e padecem de um déficit democrático. Nesta entrevista concedida à ISTOÉ, o intelectual diz que não vê perspectivas de mudanças com o presidente Barack Obama, mas deposita um mar de esperanças na América do Sul: "Neste momento, é a região mais interessante do mundo."
ISTOÉ - Barack Obama pode mudar o que o sr. chama de "Estado fracassado"?
Noam Chomsky - Possibilidades sempre existem, mas não há nada que aponte para isso. As nomeações têm sido basicamente do lado dos falcões (defensores da guerra), e as ações também. Obama intensificou a guerra no Afeganistão, aumentou os ataques ao Paquistão e rejeitou os apelos dos presidentes desses países para eliminar os bombardeios que atingem alvos civis.
Quanto à questão de Israel e da Palestina, ele já deixou bem claro que não tem a intenção de buscar um acordo. Em sua primeira declaração sobre política internacional, afirmou que a responsabilidade primária dos Estados Unidos é proteger a segurança de Israel, e não a dos palestinos, que são os que precisam de proteção.
ISTOÉ - O sr. está dizendo que Obama é igual a George W. Bush?
Chomsky - Para começar, há uma distinção entre o primeiro e o segundo mandato de Bush. O primeiro foi muito arrogante e agressivo, desconsiderou as leis internacionais e foi tão abusivo que se distanciou de países aliados. O segundo mandato amaciou a retórica e as ações, que estavam causando danos demais aos interesses dos Estados Unidos. É possível que Obama dê continuidade às políticas do segundo mandato. Em alguns aspectos, Obama ainda é mais agressivo, como no Paquistão e no Afeganistão, que, pelo que vejo, são suas principais preocupações internacionais.
ISTOÉ - Os Estados Unidos são uma democracia fracassada?
Chomsky - Se você comparar as eleições de 2008 com as de um dos países mais pobres do hemisfério, a Bolívia, o processo é radicalmente diferente. Você pode gostar ou não das políticas do presidente Evo Morales, mas elas vêm da população. Ele foi escolhido por um eleitorado popular que traçou suas próprias políticas. As questões são muito significativas: controle dos recursos naturais, direitos culturais... A população não se envolveu apenas no dia das eleições, essas lutas estão ocorrendo há anos. Isso é uma democracia. Os Estados Unidos são exatamente o oposto. O melhor comentário sobre as eleições foi feito pela indústria da publicidade, que deu à campanha de Obama o prêmio de melhor campanha de marketing do ano.
ISTOÉ - Alguns presidentes sul-americanos são chamados de populistas.
Chomsky - Populista quer dizer alguém atento à opinião popular.
ISTOÉ - Mesmo quando a distribuição de recursos não é sustentável?
Chomsky - Distribuição de recursos tem a ver com política econômica. Nos Estados Unidos, o país mais rico do mundo, a política econômica é definida por instituições financeiras, por pessoas que levaram o país à ruína e estão levando boa parte do mundo à ruína. Isso não é populismo, é política econômica destinada a enriquecer um setor bem pequeno. Você pode até discutir se a forma que Evo Morales distribui recursos é correta, mas chamar isso de populismo é usar palavras feias para políticas que desagradam aos ricos.
ISTOÉ - O presidente Hugo Chávez acaba de passar por um referendo que permite sua reeleição ilimitada. Isso é aceitável em uma democracia?
Chomsky - Você acha que os Estados Unidos foram um Estado fascista até 1945, quando tínhamos a mesma regra?
O presidente (Franklin) Roosevelt foi eleito quatro vezes seguidas. Eu, pessoalmente, não aprovo, mas não posso dizer que isso seja incompatível com a democracia, a não ser que você diga que os Estados Unidos nunca foram uma democracia. Isso é uma hipocrisia total. Isso vale também para outras democracias parlamentaristas, em que o primeiro-ministro pode ser reeleito de forma indefinida.
ISTOÉ - O sr. avalia o governo Chávez positivamente?
Chomsky - A pergunta que importa é: o que os venezuelanos pensam do governo? Em pesquisas feitas pelo Latinobarômetro, uma organização chilena muito respeitada, desde a eleição de Chávez, a Venezuela fica no topo ou perto do topo de uma lista de países quanto ao apoio popular ao governo e à democracia.
ISTOÉ - O sr. acha que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva representou alguma mudança para o Brasil?
Chomsky - De forma geral, suas políticas têm sido bastante construtivas. A disposição inicial de aceitar a disciplina das instituições financeiras internacionais foi questionável. Até havia justificativa para isso, mas ele poderia ter escolhido políticas alternativas que teriam estimulado mais a economia. Acho também que as políticas poderiam dar mais apoio a organizações como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Mas, em geral, o País parece estar andando na direção certa. A disposição de lidar com os problemas internos de desigualdade extrema, da fuga de capital, entre outros, está pelo menos na agenda. Além disso, há a tendência de integração regional e independência. A União de Nações Sul- Americanas (Unasul) é um exemplo, mas existem muitos outros, e a integração é um pré-requisito para a independência. De maneira geral, isso torna a América do Sul, do meu ponto de vista, o lugar mais interessante do mundo atualmente.
ISTOÉ - E qual o papel do Brasil?
Chomsky - O Brasil tem um papel central na integração regional, pois é o país mais rico e poderoso da região. O presidente Lula tem tomado uma posição muito boa, garantindo que países que os EUA tentam arruinar, principalmente a Bolívia e a Venezuela, estejam integrados ao sistema. O Brasil também está aumentando as relações com outros países do Sul. Mas a dependência das exportações agrícolas é uma forma questionável de desenvolvimento. Deveria haver tentativas de desenvolvimento que não dependessem tanto de exportações, como a da soja.
ISTOÉ - Como o sr. vê o ressurgimento de medidas protecionistas nos Estados Unidos e na União Européia?
Chomsky - Antes de falar sobre isso, temos que eliminar uma grande quantidade de mitologia. Os Estados Unidos, o país mais rico do mundo, sempre foram altamente protecionistas. Sua economia avançada depende crucialmente do setor estatal. Se você pensa em computadores, internet, tecnologia da informação, laser, tudo isso foi financiado pelo Estado. Você não pode falar em livre mercado porque eles não acreditam nisso.
ISTOÉ - O capitalismo está entrando em colapso com a crise?
Chomsky - O único lugar onde o capitalismo existe é nos países do Terceiro Mundo, onde ele é imposto à força.
ISTOÉ - Os anticapitalistas têm algum modelo para oferecer?
Chomsky - Existem diversas pessoas propondo coisas interessantes, basta ver o encontro em Belém (Fórum Social Mundial). Elas não são totalmente novas, vêm dos movimentos dos trabalhadores no século XIX. São propostas de se democratizar a sociedade inteira. Isso significa o controle democrático da manufatura, das finanças, dos sistemas de informação, e por aí em diante.
ISTOÉ - Vê algo de positivo no papel dos Estados Unidos atualmente?
Chomsky - Sim. Mas não se deve esperar que os países mais poderosos sejam agentes da moralidade. Não faz sentido ficar elogiando esses países pelas coisas decentes que fazem. Os Estados Unidos deveriam, por exemplo, ter um papel fundamental na reconstrução de Gaza depois das terríveis agressões feitas junto com Israel - foi um ataque em conjunto, pois eles estavam usando armas dos EUA, é claro. A estrangulação de Gaza pelos Estados Unidos e Israel, apoiada pela União Européia, começou imediatamente após as eleições, que foram reconhecidas como livres e justas, mas os Estados Unidos não gostaram do resultado e punem as pessoas. É uma boa indicação da aversão extrema que as elites ocidentais nutrem pela democracia.
ISTOÉ - O sr. concorda que os intelectuais de hoje são menos engajados que nos anos 60 e 70, por exemplo?
Chomsky - Não concordo com isso. É uma ilusão pensar que intelectuais eram diferentes no passado. De modo geral, os intelectuais são altamente fisubordinados ao poder. Isso também era verdade nos anos 60. Veja, por exemplo, a guerra do Vietnã, que era uma questão importantíssima na época. Se você olhar o The New York Times ou outro jornal importante nos quais intelectuais se expressavam, a crítica mais forte que poderá encontrar da guerra é - bem, estou citando a crítica mais extrema - de que a guerra começou com esforços de fazer o bem, mas se transformou em um desastre com custos muito altos para nós mesmos.
ISTOÉ - O sr. dedicou a vida a pensar as questões mais importantes do mundo. Como se sente hoje?
Chomsky - Há passos em direção a um mundo mais livre, justo e democrático. Isso não cai do céu como um presente, vem da luta popular engajada. E, sim, ela tem sido muito bemsucedida. Então, na medida em que sou parte dela, eu me sinto feliz. Os movimentos populares que se desenvolveram a partir dos anos 60 tiveram um impacto muito significativo no mundo, de diversas formas. Veja um exemplo óbvio, das últimas eleições nos Estados Unidos: o Partido Democrata tinha dois candidatos, uma mulher e um afro-americano. Isso seria inconcebível 20 anos atrás.
Fonte: Revista IstoÉ!
Intelectual americano critica protecionismo dos EUA e diz que o poder do capital é imposto à força nos países pobres
por Maíra Magro
Ele foi considerado o intelectual mais importante do mundo pelo jornal The New York Times. Em 2005, ficou no topo da lista dos principais acadêmicos do planeta, segundo pesquisa feita pelas influentes revistas Foreign Policy, dos Estados Unidos, e Prospect, da Inglaterra. Aos 80 anos, Noam Chomsky, americano descendente de judeus russos, é reconhecido também como o papa da linguística moderna, por ter revolucionado a área com suas pesquisas sobre aquisição de linguagem. Professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) há mais de meio século, Chomsky é também filósofo e comentarista político. A decisão de nadar contra o pensamento político dominante veio com a guerra do Vietnã, nos anos 60. Publicou mais de 70 livros e mil artigos. Em geral, obras de repercussão mundial sobre atentados terroristas, neoliberalismo e política internacional. Um dos maiores críticos da política internacional americana, Chomsky está lançando no Brasil Estados fracassados: o abuso do poder e o ataque à democracia (Bertrand, 349 págs., R$ 45), no qual argumenta que os Estados Unidos assumiram as características de um Estado fracassado e padecem de um déficit democrático. Nesta entrevista concedida à ISTOÉ, o intelectual diz que não vê perspectivas de mudanças com o presidente Barack Obama, mas deposita um mar de esperanças na América do Sul: "Neste momento, é a região mais interessante do mundo."
ISTOÉ - Barack Obama pode mudar o que o sr. chama de "Estado fracassado"?
Noam Chomsky - Possibilidades sempre existem, mas não há nada que aponte para isso. As nomeações têm sido basicamente do lado dos falcões (defensores da guerra), e as ações também. Obama intensificou a guerra no Afeganistão, aumentou os ataques ao Paquistão e rejeitou os apelos dos presidentes desses países para eliminar os bombardeios que atingem alvos civis.
Quanto à questão de Israel e da Palestina, ele já deixou bem claro que não tem a intenção de buscar um acordo. Em sua primeira declaração sobre política internacional, afirmou que a responsabilidade primária dos Estados Unidos é proteger a segurança de Israel, e não a dos palestinos, que são os que precisam de proteção.
ISTOÉ - O sr. está dizendo que Obama é igual a George W. Bush?
Chomsky - Para começar, há uma distinção entre o primeiro e o segundo mandato de Bush. O primeiro foi muito arrogante e agressivo, desconsiderou as leis internacionais e foi tão abusivo que se distanciou de países aliados. O segundo mandato amaciou a retórica e as ações, que estavam causando danos demais aos interesses dos Estados Unidos. É possível que Obama dê continuidade às políticas do segundo mandato. Em alguns aspectos, Obama ainda é mais agressivo, como no Paquistão e no Afeganistão, que, pelo que vejo, são suas principais preocupações internacionais.
ISTOÉ - Os Estados Unidos são uma democracia fracassada?
Chomsky - Se você comparar as eleições de 2008 com as de um dos países mais pobres do hemisfério, a Bolívia, o processo é radicalmente diferente. Você pode gostar ou não das políticas do presidente Evo Morales, mas elas vêm da população. Ele foi escolhido por um eleitorado popular que traçou suas próprias políticas. As questões são muito significativas: controle dos recursos naturais, direitos culturais... A população não se envolveu apenas no dia das eleições, essas lutas estão ocorrendo há anos. Isso é uma democracia. Os Estados Unidos são exatamente o oposto. O melhor comentário sobre as eleições foi feito pela indústria da publicidade, que deu à campanha de Obama o prêmio de melhor campanha de marketing do ano.
ISTOÉ - Alguns presidentes sul-americanos são chamados de populistas.
Chomsky - Populista quer dizer alguém atento à opinião popular.
ISTOÉ - Mesmo quando a distribuição de recursos não é sustentável?
Chomsky - Distribuição de recursos tem a ver com política econômica. Nos Estados Unidos, o país mais rico do mundo, a política econômica é definida por instituições financeiras, por pessoas que levaram o país à ruína e estão levando boa parte do mundo à ruína. Isso não é populismo, é política econômica destinada a enriquecer um setor bem pequeno. Você pode até discutir se a forma que Evo Morales distribui recursos é correta, mas chamar isso de populismo é usar palavras feias para políticas que desagradam aos ricos.
ISTOÉ - O presidente Hugo Chávez acaba de passar por um referendo que permite sua reeleição ilimitada. Isso é aceitável em uma democracia?
Chomsky - Você acha que os Estados Unidos foram um Estado fascista até 1945, quando tínhamos a mesma regra?
O presidente (Franklin) Roosevelt foi eleito quatro vezes seguidas. Eu, pessoalmente, não aprovo, mas não posso dizer que isso seja incompatível com a democracia, a não ser que você diga que os Estados Unidos nunca foram uma democracia. Isso é uma hipocrisia total. Isso vale também para outras democracias parlamentaristas, em que o primeiro-ministro pode ser reeleito de forma indefinida.
ISTOÉ - O sr. avalia o governo Chávez positivamente?
Chomsky - A pergunta que importa é: o que os venezuelanos pensam do governo? Em pesquisas feitas pelo Latinobarômetro, uma organização chilena muito respeitada, desde a eleição de Chávez, a Venezuela fica no topo ou perto do topo de uma lista de países quanto ao apoio popular ao governo e à democracia.
ISTOÉ - O sr. acha que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva representou alguma mudança para o Brasil?
Chomsky - De forma geral, suas políticas têm sido bastante construtivas. A disposição inicial de aceitar a disciplina das instituições financeiras internacionais foi questionável. Até havia justificativa para isso, mas ele poderia ter escolhido políticas alternativas que teriam estimulado mais a economia. Acho também que as políticas poderiam dar mais apoio a organizações como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Mas, em geral, o País parece estar andando na direção certa. A disposição de lidar com os problemas internos de desigualdade extrema, da fuga de capital, entre outros, está pelo menos na agenda. Além disso, há a tendência de integração regional e independência. A União de Nações Sul- Americanas (Unasul) é um exemplo, mas existem muitos outros, e a integração é um pré-requisito para a independência. De maneira geral, isso torna a América do Sul, do meu ponto de vista, o lugar mais interessante do mundo atualmente.
ISTOÉ - E qual o papel do Brasil?
Chomsky - O Brasil tem um papel central na integração regional, pois é o país mais rico e poderoso da região. O presidente Lula tem tomado uma posição muito boa, garantindo que países que os EUA tentam arruinar, principalmente a Bolívia e a Venezuela, estejam integrados ao sistema. O Brasil também está aumentando as relações com outros países do Sul. Mas a dependência das exportações agrícolas é uma forma questionável de desenvolvimento. Deveria haver tentativas de desenvolvimento que não dependessem tanto de exportações, como a da soja.
ISTOÉ - Como o sr. vê o ressurgimento de medidas protecionistas nos Estados Unidos e na União Européia?
Chomsky - Antes de falar sobre isso, temos que eliminar uma grande quantidade de mitologia. Os Estados Unidos, o país mais rico do mundo, sempre foram altamente protecionistas. Sua economia avançada depende crucialmente do setor estatal. Se você pensa em computadores, internet, tecnologia da informação, laser, tudo isso foi financiado pelo Estado. Você não pode falar em livre mercado porque eles não acreditam nisso.
ISTOÉ - O capitalismo está entrando em colapso com a crise?
Chomsky - O único lugar onde o capitalismo existe é nos países do Terceiro Mundo, onde ele é imposto à força.
ISTOÉ - Os anticapitalistas têm algum modelo para oferecer?
Chomsky - Existem diversas pessoas propondo coisas interessantes, basta ver o encontro em Belém (Fórum Social Mundial). Elas não são totalmente novas, vêm dos movimentos dos trabalhadores no século XIX. São propostas de se democratizar a sociedade inteira. Isso significa o controle democrático da manufatura, das finanças, dos sistemas de informação, e por aí em diante.
ISTOÉ - Vê algo de positivo no papel dos Estados Unidos atualmente?
Chomsky - Sim. Mas não se deve esperar que os países mais poderosos sejam agentes da moralidade. Não faz sentido ficar elogiando esses países pelas coisas decentes que fazem. Os Estados Unidos deveriam, por exemplo, ter um papel fundamental na reconstrução de Gaza depois das terríveis agressões feitas junto com Israel - foi um ataque em conjunto, pois eles estavam usando armas dos EUA, é claro. A estrangulação de Gaza pelos Estados Unidos e Israel, apoiada pela União Européia, começou imediatamente após as eleições, que foram reconhecidas como livres e justas, mas os Estados Unidos não gostaram do resultado e punem as pessoas. É uma boa indicação da aversão extrema que as elites ocidentais nutrem pela democracia.
ISTOÉ - O sr. concorda que os intelectuais de hoje são menos engajados que nos anos 60 e 70, por exemplo?
Chomsky - Não concordo com isso. É uma ilusão pensar que intelectuais eram diferentes no passado. De modo geral, os intelectuais são altamente fisubordinados ao poder. Isso também era verdade nos anos 60. Veja, por exemplo, a guerra do Vietnã, que era uma questão importantíssima na época. Se você olhar o The New York Times ou outro jornal importante nos quais intelectuais se expressavam, a crítica mais forte que poderá encontrar da guerra é - bem, estou citando a crítica mais extrema - de que a guerra começou com esforços de fazer o bem, mas se transformou em um desastre com custos muito altos para nós mesmos.
ISTOÉ - O sr. dedicou a vida a pensar as questões mais importantes do mundo. Como se sente hoje?
Chomsky - Há passos em direção a um mundo mais livre, justo e democrático. Isso não cai do céu como um presente, vem da luta popular engajada. E, sim, ela tem sido muito bemsucedida. Então, na medida em que sou parte dela, eu me sinto feliz. Os movimentos populares que se desenvolveram a partir dos anos 60 tiveram um impacto muito significativo no mundo, de diversas formas. Veja um exemplo óbvio, das últimas eleições nos Estados Unidos: o Partido Democrata tinha dois candidatos, uma mulher e um afro-americano. Isso seria inconcebível 20 anos atrás.
Fonte: Revista IstoÉ!
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