Onde é mesmo que fica o Brasil?
Para a maioria da imprensa estrangeira, se não estamos no melhor dos mundos, estamos fora do pior deles, pois o Brasil é um dos únicos países em que a pobreza está diminuindo, apesar das fragilidades e distâncias sociais continuarem de monta. Por outro lado, na imprensa brasileira, o presidente Lula ora aparece como um parvo, ora como um monstro, ora como apequenado. O caso Sarney – agora em vias de ser remetido a um sussurro obsequioso por ter se enredado no caso Arthur Virgílio – começa a ceder passo ao caso da ex-secretária da Receita Federal versus a ministra chefe da Casa Civil.
O artigo é de Flávio Aguiar.
Depois que os portugueses chegaram ao futuro Brasil, formaram-se duas visões complementares sobre a nova terra. Algumas descrições cobriam a “nova” terra com sinais paradisíacos, a partir mesmo da própria carta redigida por Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel. O clima ameno, as populações nativas num estado semelhante ao que Adão e Eva deveriam estar ao sair do Éden bíblico, as frutas suculentas e estranhas para os europeus, entre muita outra coisa, por exemplo. Tudo isso foi estudado no notável “Visão paraíso. Os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil”, de Sérgio Buarque de Hollanda.
Por outro lado, motivos infernais também passaram a “povoar” a nova terra: seus jaguares, suas jibóias e sucuris gigantescas, o fumo por parte dos nativos, sua “indolência” na descrição dos europeus, tudo isso eram “coisas do demônio”. Também a situação social entrou nessa classificação, consagrando e criando a dicotomia. André João Antonil (pseudônimo do padre toscano João Antonio Andreoni) escreveu em seu livro “Cultura e opulência do Brasil por suas Drogas e Minas” que nossa terra era “o inferno dos negros, o purgatório dos brancos e o paraíso dos mulatos e das mulatas”. Na verdade, o que Antonil apontava era a formação de uma nova população mestiça em todas as classes sociais, mais afeita às coisas da terra do que os europeus recém-chegados (que tinham a idéia de voltar à sua terra de origem) e do que os africanos escravizados ou seus descendentes. Mas a dicotomia pegou: Brasil, paraíso e inferno simultaneamente. Até mesmo porque na cosmogonia medieval (ainda viva nos tempos coloniais e até hoje, aqui e ali) a saída do inferno ficava no sopé do monte do paraíso terreal.
Hoje, ressalvadas as proporções, tem-se a mesma impressão sobre o Brasil, lendo-se a mídia convencional estrangeira ou a nossa, nacional. Para aquela, se não estamos no melhor dos mundos, estamos fora do pior deles, pois o Brasil é um dos únicos países em que a pobreza está diminuindo ao invés de aumentar, e apesar das fragilidades e distâncias sociais continuarem de monta. Digamos que na imprensa internacional o Brasil é descrito como atravessando um ciclo virtuoso, com a melhora da situação social fortalecendo a democracia e vice-versa. Não que não haja problemas referidos, é óbvio. Mas a moldura é aquela. E isso vale para jornais e publicações que vão da centro-direita à centro-esquerda (para usar uma classificação vigente nas próprias publicações européias, pelo menos).
Já entrando pela nossa congênere nacional, quanto ao Brasil só dá m... , para referir uma palavra do calão que serve como autêntico eufemismo para o que descreve do nosso país. O presidente Lula ora aparece como um parvo, ora como um monstro, ora como apequenado, ora como onipotente. O caso Sarney – agora em vias de ser remetido a um sussurro (silêncio seria demais de vergonhoso) obsequioso por ter se enredado no caso Arthur Virgílio – começa a ceder passo ao caso da ex-secretária da Receita Federal versus a ministra chefe da Casa Civil. E isso é o de menos. Dá-se ao contrário: não é que não haja virtudes a se referir sobre o país. Mas elas são sistematicamente escamoteadas. E isso vale para toda a nossa imprensa convencional (com exceção de Carta Capital e mais alguma que agora me escape), da direita à direita, porque todas as outras estão neste canto do ringue, acuadas ou desferindo murros à esquerda e à esquerda.
Brasil, paraíso, inferno, inferno, paraíso: a dicotomia continua. Mas o interessante é que na última moldura política a nossa extrema esquerdireita também entrou em ação. Refiro-me aos internautas que, propondo-se de esquerda, ativam ou repetem toda a cantilena da direita. Recentemente, por exemplo, recebi num de meus endereços da internete interessante mensagem do sr. Pedro Porfírio, ativíssimo crítico do governo Lula, pretendendo-se pela esquerda, contra Sarney e sua “defesa pelo governo”. Vem até uma convocatória para manifestações nacionais, no dia 15/08, contra Sarney, etc. Pois na mensagem consta um libelo contra Sarney, o governo e seus programas sociais, assinado pelo General de Exército Gilberto Barbosa de Figueiredo, presidente do Clube Militar.
Pasmo, não pude deixar de ler, entre outras bobagens, que o programa Bolsa Família é “o maior programa de compra de votos do mundo”, que o governo quebra “o espírito combativo que era marca do movimento estudantil”, que “eliminou-se toda a possibilidade de agitações de rua indesejáveis” (por um momento pensei que o general e o Pedro Porfírio estavam se referindo ao golpe de 64, mas não, era ao governo Lula mesmo).
Confesso que o nojo subiu-me à cabeça. Já andava cansado de ler em comentários de leitores nas páginas na internete dos jornais tradicionais a defesa dos golpistas de Honduras. Mas agora que se queira misturar tantos alhos e bugalhos numa pretensa crítica “avançada” ou “progressista” ao governo Lula, foi demais.
Diz-me com quem andas, e dir-te-ei quem és. Aconselho esses notáveis escribas e políticos que enveredem pelo mesmo caminho a visitar o site do Clube Militar (www.clubemilitar.com.br) . Lá encontrarão, entre pressurosas defesas do golpe em Honduras, esta interessante manifestação do seu general presidente sobre um brasileiro ilustre, feita em 26 de janeiro de 2007 e também publicada na revista do Clube, n* 424, de abril daquele ano, durante um almoço que homenageava este personagem de nossa história:
“a [sua] luta continua sendo uma batalha em prol da democracia, na medida em que representa a verdade contra a mentira, a dignidade contra a infâmia, a honradez contra a vilania, o patriotismo contra a traição”.
O patriota em questão, também homenageado na ocasião por discurso do ex-senador Jarbas Passarinho, era o Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-comandante do DOI-CODI, em São Paulo.
Fonte: http://www.cartamaior.com.br
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Alerta Palestina !!! Alerta Palestina!!!
Além de não ajudar, agora a Cáritas quer criminalizar os refugiados
Vou relatar um fato muito grave que aconteceu ontem a tarde e peço muita atenção a todos que se solidarizam com a causa dos refugiados palestinos.
A cáritas convocou o Hossam na data de ontem para lá comparecer, sob o pretexto de fazer um reembolso de remédios que o Hossam comprou para sua mãe nesses três meses em que ela esteve entre nós. Foram para lá o Hossam, a Huda, a Aysha e eu, como testemunha. Chegando lá, o que se viu foram tentativas por parte da Cáritas de justificar o injustificável, a mesma ladainha de sempre que os refugiados já estão cansados de ver e ouvir pessoalmente ou através de declarações da entidade na imprensa. Todas as argumentações das duas funcionárias da Cáritas, Shirley e Elisa, eram no sentido de desqualificar as reclamações dos refugiados, mas em nenhum momento se dignaram a perguntar como estava a saúde dos familiares dos palestinos.
Em dado momento, a Aysha irritou-se com a Shirley e segurou-lhe pela blusa, não chegando a consumar-se uma agressão física, mas, mesmo assim, imediatamente a Shirley, foi para outra sala e telefonou para a polícia. Chamei um advogado amigo meu e fomos todos para a delegacia e foi feito um boletim de ocorrência contra a Aysha, constando artigo 21 no B.O.
É importante frisar que a Aysha foi incluida juntamente com a Sra. Nuzha e seu sobrinho de 09 anos de idade no programa de reunião familiar da ACNUR, está há três meses no Brasil sem que até agora tenham ficado prontos os documentos dos três, previstos no Estatuto do Refugiado, não fala nada de português, teve a noticia da morte de seu marido em Gaza quando estava recem chegada em Mogi, perdeu sua irmã Nuzha que faleceu no último dia 27/07 por pura negligência da Cáritas, seu sobrinho tem passado por crises violentas de asma, com o conhecimento e negligência da Cáritas que não tem lhe prestado a assistência devida, não receberam até o momento nenhum pagamento do auxilio subsistência previsto no convênio de reassentamento. A Nuzha era cirurgiada da coluna vertebral e por isso precisava de um colchão ortopédico, mas recebeu da cáritas um colchão de espuma, o que a obrigava a dormir no chão, o que pode ter causado a água nos pulmões que provocou o agravamento dos seus problemas de saúde que a levou à morte.
Foi uma cena fabricada pela cáritas essa de hoje, na tentativa de criminalizar os refugiados palestinos.
Sendo assim, daqui em diante, sabemos que armadilhas como essa são armadas para gerar argumentos contra os palestinos, em represália à ampla cobertura que tem sido dada nos jornais sobre a negligência da Cáritas/ACNUR em relação aos refugiados. A sociedade está de olho!
Mauro Rodrigues - 11.08.2009
Fonte: http://liberdadepalestina.blogspot.com
Vou relatar um fato muito grave que aconteceu ontem a tarde e peço muita atenção a todos que se solidarizam com a causa dos refugiados palestinos.
A cáritas convocou o Hossam na data de ontem para lá comparecer, sob o pretexto de fazer um reembolso de remédios que o Hossam comprou para sua mãe nesses três meses em que ela esteve entre nós. Foram para lá o Hossam, a Huda, a Aysha e eu, como testemunha. Chegando lá, o que se viu foram tentativas por parte da Cáritas de justificar o injustificável, a mesma ladainha de sempre que os refugiados já estão cansados de ver e ouvir pessoalmente ou através de declarações da entidade na imprensa. Todas as argumentações das duas funcionárias da Cáritas, Shirley e Elisa, eram no sentido de desqualificar as reclamações dos refugiados, mas em nenhum momento se dignaram a perguntar como estava a saúde dos familiares dos palestinos.
Em dado momento, a Aysha irritou-se com a Shirley e segurou-lhe pela blusa, não chegando a consumar-se uma agressão física, mas, mesmo assim, imediatamente a Shirley, foi para outra sala e telefonou para a polícia. Chamei um advogado amigo meu e fomos todos para a delegacia e foi feito um boletim de ocorrência contra a Aysha, constando artigo 21 no B.O.
É importante frisar que a Aysha foi incluida juntamente com a Sra. Nuzha e seu sobrinho de 09 anos de idade no programa de reunião familiar da ACNUR, está há três meses no Brasil sem que até agora tenham ficado prontos os documentos dos três, previstos no Estatuto do Refugiado, não fala nada de português, teve a noticia da morte de seu marido em Gaza quando estava recem chegada em Mogi, perdeu sua irmã Nuzha que faleceu no último dia 27/07 por pura negligência da Cáritas, seu sobrinho tem passado por crises violentas de asma, com o conhecimento e negligência da Cáritas que não tem lhe prestado a assistência devida, não receberam até o momento nenhum pagamento do auxilio subsistência previsto no convênio de reassentamento. A Nuzha era cirurgiada da coluna vertebral e por isso precisava de um colchão ortopédico, mas recebeu da cáritas um colchão de espuma, o que a obrigava a dormir no chão, o que pode ter causado a água nos pulmões que provocou o agravamento dos seus problemas de saúde que a levou à morte.
Foi uma cena fabricada pela cáritas essa de hoje, na tentativa de criminalizar os refugiados palestinos.
Sendo assim, daqui em diante, sabemos que armadilhas como essa são armadas para gerar argumentos contra os palestinos, em represália à ampla cobertura que tem sido dada nos jornais sobre a negligência da Cáritas/ACNUR em relação aos refugiados. A sociedade está de olho!
Mauro Rodrigues - 11.08.2009
Fonte: http://liberdadepalestina.blogspot.com
O perigo da utopia - Por José Luís Fiori
O perigo da utopia - José Luís Fiori
Se as utopias de esquerda levaram - em muitos casos - ao totalitarismo, a utopia liberal e sua permanente negação do papel do poder e da preparação para a guerra, na história do capitalismo e das relações internacionais, leva, com freqüência, os intelectuais e dirigentes destes países mais fracos, à uma posição de servilismo internacional.
Data: 11/08/2009
"...a geopolítica do equilibro de poderes e a prática do imperialismo explícito deixaram de fazer sentido devido a uma série de novos fatos históricos [...], esta abordagem das relações internacionais não tem mais espaço no mundo em que vivemos, do pós-colonialismo, da globalização, do sistema político global, e da democracia [...] com a globalização, todos os mercados estão abertos e é inimaginável que um país recuse vender a outro, por exemplo, petróleo a preço de mercado..[...] Resulta ainda daqueles fatos que a guerra entre grandes países tambem não faz mais sentido [...] No século XX, as guerras entre as grandes potências não faziam sentido porque todas as fronteiras já estavam definidas?"
LUIZ CARLOS BRESSER PEREIRA, "O mundo menos sombrio", Jornal de Resenhas, nº 1, 2009, USP, p:7.
Na segunda metade do Século XX, em particular depois de 1968, tornou-se lugar comum a crítica dos "novos filósofos" europeus, que associavam a utopia socialista ao totalitarismo. Mas não se ouviu o mesmo tipo de reflexão, depois da década de 80, quando a utopia liberal se tornou hegemônica e suas idéias tomaram conta do mundo acadêmico e político. Logo depois da Guerra Fria, Francis Fukuyama popularizou a utopia do "fim da história" e da vitória da "democracia, do mercado e da paz". E apesar dos acontecimentos que seguiram, suas idéias seguem influenciando intelectuais e governantes, sobretudo na periferia do sistema mundial.
Basta ver a confusão causada pelo anúncio recente da decisão norte-americana de ampliar sua presença militar na América do Sul. Com a instalação ou ampliação de sete bases militares no território colombiano, que deverão servir de "ponto de apoio para transporte de cargas e soldados no continente e fora dele".( FSP,5/8/09) O governo norte-americano justificou sua decisão com objetivos "de caráter humanitário e de combate ao narcotráfico". A mesma explicação que foi dada pelo governo americano, por ocasião da reativação da sua IV Frota Naval, na zona da América do Sul, no ano de 2008 : "uma decisão administrativa, tomada com objetivos pacíficos, humanitários e ecológicos" (FSP, 9/0708).
Uma das funções dos diplomatas é participar deste jogo retórico que às vezes soa até um pouco divertido. E cabe aos jornalistas o acompanhamento destes debates sobre distâncias, raio de ação dos aviões, ameaça das drogas, etc. Todavia os intelectuais têm a obrigação de transcender este mundo da retórica e dos números imediatos, e também, o mundo das fantasias utópicas, o que as vezes não acontece, e não se trata - evidentemente - de um problema de ignorância. Pense-se, por exemplo, na utopia liberal do "fim das guerras" que já não fariam mais sentido entre os grandes países, e contraponha-se este tese com a história passada e a história do próprio século XX e XXI.
Segundo a pesquisa e os dados do historiador e sociólogo norte-americano, Charles Tilly: "de 1480 a 1800, a cada dois ou três anos iniciou-se em algum lugar um novo conflito internacional expressivo; de 1800 a 1944, a cada um ou dois anos; a partir da Segunda Guerra Mundial, mais ou menos, a cada quatorze meses. A era nuclear não diminuiu a tendência dos séculos antigos a guerras mais freqüentes e mais mortíferas [ alias] , desde 1900, o mundo assistiu a 237 novas guerras, civis e internacionais.. [enquanto.] o sangrento século XIX contou 205 guerras" (Charles Tilly, Coerção, capital e Estados europeus , Edusp, 1996, p. 123 e 131.) Mesmo na década de 1990, durante os oito anos da administração Clinton, que foi transformado na figura emblemática da vitória da democracia, do mercado e da paz, os EUA mantiveram um ativismo militar muito grande. E ao contrário da impressão generalizada, "os Estados Unidos se envolveram em 48 intervenções militares, muito mais do que em toda a Guerra Fria, período em que ocorreram 16 intervenções militares". (Bacevich, 2002: p:143). E mais recentemente, os "fracassos" militares dos EUA, no Iraque e no Afeganistão - ao contrário do que dizem - aumentaram a presença militar dos EUA na Ásia Central e o cerco da Rússia e da China, envolvendo, portanto, preparação para a guerra entre três grandes potências.
Em tudo isto, fica clara a dificuldade intelectual dos liberais conviverem de forma inteligente, com o fato de que as guerras são uma dimensão essencial e co-constitutiva do sistema mundial em que vivemos, e que portanto não é sensato pensar que desaparecerão. Ao contrário do que pensam os liberais, a associação entre a "geopolítica do equilíbrio de poderes" e as guerras, não se restringe ao século XIX, ( já havia sido identificada na Grécia), e o sonho do "governo mundial" das grandes potências, já existe pelo menos desde o Congresso de Viena, em 1815, sem que isto tenha impedido o aumento do numero dos estados e das guerras nacionais.
Neste tipo de sistema mundial, por outro lado, é muito difícil acreditar na possibilidade do "fim do imperialismo", e ainda menos, neste início do século XXI, em que as grandes potências - velhas e novas - se lançam sobre a África, e sobre a América Latina, disputando palmo a palmo o controle monopólico dos seus mercados e das fontes de energia e matérias primas estratégicas. E soa quase ingênua a crença liberal nos "mercados abertos", num mundo em que todas as grandes potências impedem o acesso às tecnologias de ponta, não aceitam a venda de suas empresas estratégicas, e protegem de forma cada vez mais sofisticada seus produtores industriais e seus mercados agrícolas.
Neste ponto, chama atenção a facilidade com que os economistas liberais confundem os mercados de petróleo, armas e moedas, por exemplo, com os mercados de chuchu, queijos e vinhos. Em tudo isto, o importante é que a utopia liberal também pode ter conseqüências nefastas, sobretudo para os países que não estão situados nos primeiros escalões da hierarquia de poder do sistema mundial. Se as utopias de esquerda levaram - em muitos casos - ao totalitarismo, a utopia liberal e sua permanente negação do papel do poder e da preparação para a guerra, na história do capitalismo e das relações internacionais, leva, com freqüência, os intelectuais e dirigentes destes países mais fracos, à uma posição de servilismo internacional.
Fonte: Agência Carta Maior
Se as utopias de esquerda levaram - em muitos casos - ao totalitarismo, a utopia liberal e sua permanente negação do papel do poder e da preparação para a guerra, na história do capitalismo e das relações internacionais, leva, com freqüência, os intelectuais e dirigentes destes países mais fracos, à uma posição de servilismo internacional.
Data: 11/08/2009
"...a geopolítica do equilibro de poderes e a prática do imperialismo explícito deixaram de fazer sentido devido a uma série de novos fatos históricos [...], esta abordagem das relações internacionais não tem mais espaço no mundo em que vivemos, do pós-colonialismo, da globalização, do sistema político global, e da democracia [...] com a globalização, todos os mercados estão abertos e é inimaginável que um país recuse vender a outro, por exemplo, petróleo a preço de mercado..[...] Resulta ainda daqueles fatos que a guerra entre grandes países tambem não faz mais sentido [...] No século XX, as guerras entre as grandes potências não faziam sentido porque todas as fronteiras já estavam definidas?"
LUIZ CARLOS BRESSER PEREIRA, "O mundo menos sombrio", Jornal de Resenhas, nº 1, 2009, USP, p:7.
Na segunda metade do Século XX, em particular depois de 1968, tornou-se lugar comum a crítica dos "novos filósofos" europeus, que associavam a utopia socialista ao totalitarismo. Mas não se ouviu o mesmo tipo de reflexão, depois da década de 80, quando a utopia liberal se tornou hegemônica e suas idéias tomaram conta do mundo acadêmico e político. Logo depois da Guerra Fria, Francis Fukuyama popularizou a utopia do "fim da história" e da vitória da "democracia, do mercado e da paz". E apesar dos acontecimentos que seguiram, suas idéias seguem influenciando intelectuais e governantes, sobretudo na periferia do sistema mundial.
Basta ver a confusão causada pelo anúncio recente da decisão norte-americana de ampliar sua presença militar na América do Sul. Com a instalação ou ampliação de sete bases militares no território colombiano, que deverão servir de "ponto de apoio para transporte de cargas e soldados no continente e fora dele".( FSP,5/8/09) O governo norte-americano justificou sua decisão com objetivos "de caráter humanitário e de combate ao narcotráfico". A mesma explicação que foi dada pelo governo americano, por ocasião da reativação da sua IV Frota Naval, na zona da América do Sul, no ano de 2008 : "uma decisão administrativa, tomada com objetivos pacíficos, humanitários e ecológicos" (FSP, 9/0708).
Uma das funções dos diplomatas é participar deste jogo retórico que às vezes soa até um pouco divertido. E cabe aos jornalistas o acompanhamento destes debates sobre distâncias, raio de ação dos aviões, ameaça das drogas, etc. Todavia os intelectuais têm a obrigação de transcender este mundo da retórica e dos números imediatos, e também, o mundo das fantasias utópicas, o que as vezes não acontece, e não se trata - evidentemente - de um problema de ignorância. Pense-se, por exemplo, na utopia liberal do "fim das guerras" que já não fariam mais sentido entre os grandes países, e contraponha-se este tese com a história passada e a história do próprio século XX e XXI.
Segundo a pesquisa e os dados do historiador e sociólogo norte-americano, Charles Tilly: "de 1480 a 1800, a cada dois ou três anos iniciou-se em algum lugar um novo conflito internacional expressivo; de 1800 a 1944, a cada um ou dois anos; a partir da Segunda Guerra Mundial, mais ou menos, a cada quatorze meses. A era nuclear não diminuiu a tendência dos séculos antigos a guerras mais freqüentes e mais mortíferas [ alias] , desde 1900, o mundo assistiu a 237 novas guerras, civis e internacionais.. [enquanto.] o sangrento século XIX contou 205 guerras" (Charles Tilly, Coerção, capital e Estados europeus , Edusp, 1996, p. 123 e 131.) Mesmo na década de 1990, durante os oito anos da administração Clinton, que foi transformado na figura emblemática da vitória da democracia, do mercado e da paz, os EUA mantiveram um ativismo militar muito grande. E ao contrário da impressão generalizada, "os Estados Unidos se envolveram em 48 intervenções militares, muito mais do que em toda a Guerra Fria, período em que ocorreram 16 intervenções militares". (Bacevich, 2002: p:143). E mais recentemente, os "fracassos" militares dos EUA, no Iraque e no Afeganistão - ao contrário do que dizem - aumentaram a presença militar dos EUA na Ásia Central e o cerco da Rússia e da China, envolvendo, portanto, preparação para a guerra entre três grandes potências.
Em tudo isto, fica clara a dificuldade intelectual dos liberais conviverem de forma inteligente, com o fato de que as guerras são uma dimensão essencial e co-constitutiva do sistema mundial em que vivemos, e que portanto não é sensato pensar que desaparecerão. Ao contrário do que pensam os liberais, a associação entre a "geopolítica do equilíbrio de poderes" e as guerras, não se restringe ao século XIX, ( já havia sido identificada na Grécia), e o sonho do "governo mundial" das grandes potências, já existe pelo menos desde o Congresso de Viena, em 1815, sem que isto tenha impedido o aumento do numero dos estados e das guerras nacionais.
Neste tipo de sistema mundial, por outro lado, é muito difícil acreditar na possibilidade do "fim do imperialismo", e ainda menos, neste início do século XXI, em que as grandes potências - velhas e novas - se lançam sobre a África, e sobre a América Latina, disputando palmo a palmo o controle monopólico dos seus mercados e das fontes de energia e matérias primas estratégicas. E soa quase ingênua a crença liberal nos "mercados abertos", num mundo em que todas as grandes potências impedem o acesso às tecnologias de ponta, não aceitam a venda de suas empresas estratégicas, e protegem de forma cada vez mais sofisticada seus produtores industriais e seus mercados agrícolas.
Neste ponto, chama atenção a facilidade com que os economistas liberais confundem os mercados de petróleo, armas e moedas, por exemplo, com os mercados de chuchu, queijos e vinhos. Em tudo isto, o importante é que a utopia liberal também pode ter conseqüências nefastas, sobretudo para os países que não estão situados nos primeiros escalões da hierarquia de poder do sistema mundial. Se as utopias de esquerda levaram - em muitos casos - ao totalitarismo, a utopia liberal e sua permanente negação do papel do poder e da preparação para a guerra, na história do capitalismo e das relações internacionais, leva, com freqüência, os intelectuais e dirigentes destes países mais fracos, à uma posição de servilismo internacional.
Fonte: Agência Carta Maior
terça-feira, 11 de agosto de 2009
“Foda-se a Copa do Mundo de 2010”: Futebol para as pessoas, não para o mercado - ANA
“Foda-se a Copa do Mundo de 2010”: Futebol para as pessoas, não para o mercado
Ativistas Reclamam as Ruas da cidade de Johanesburgo para o futebol
Neste domingo, 2 de agosto, na zona de Newtown, em Johanesburgo, meia dúzia de anarquistas, incluindo membros da Frente Anarquista Comunista Zabalaza, participou de um “torneio” de futebol de “seis de cada lado” inspirado no Reclaim the Streets! (Reclame as Ruas!). Eles foram convidados pelos organizadores para formar um time anarquista.
O torneio de futebol fez parte do Recess: Street Credit, evento cultural e de exibição artística que coincidiu com a reunião anual da “11ª Escola de Inverno do Khanya College”. O evento foi realizado na Rua Henry Nxumalo em Newtown, abaixo da rodovia M1 – somente a poucas centenas de metros de distância da Delegacia Central de Polícia de Johanesburgo – quando ativistas e aficionados futebolistas fecharam a rua com fita plástica e começaram a jogar bola.
De acordo com o chamado para participar no evento, o torneio tinha a “intenção de romper com o fluxo normal do tráfego de veículos motorizados no quarteirão, tomando a rua para finalidades criativas e políticas. Os times foram cuidadosamente selecionados, com uma pequena representação de um extenso corpo social-político de organizações e coletivos”, pretendendo “trazer e juntar uma variedade de ativistas culturais e sociais-políticos, com a intenção de desenvolver trabalhos em rede, engajamento político e diversão”.
Infelizmente nem todos os oito times convidados para participar do acontecimento apareceram, mas o Siyaphambili Youth Project e o time Círculo-A estavam presentes, juntamente com outros dois times.
A atmosfera do torneio era totalmente contra a Copa do Mundo de 2010, que é visto por muitos ativistas como exclusiva aos ricos. O SYP tinha em seu uniforme as letras que compunham a frase “FODA-SE 2010”, que estava pintado nas costas das suas camisetas.
O Círculo-A perdeu de 5 a 3 para um time de jovens boleiros, o quarto e o quinto gol foram marcados nos últimos dois minutos num contra-ataque, quando o time anarquista buscava “desesperadamente” a vitória. O Círculo-A talvez pudesse ter jogado melhor, mas alguns dos craques anarquistas de Soweto que eram aguardados para reforçar o time não puderem comparecer porque não conseguiram levantar a tempo o dinheiro necessário para o transporte.
No final do evento houve um bate-papo para que o torneio se torne o começo de uma liga de futebol “seis de cada lado” do movimento social.
Tradução > Marcelo Yokoi
agência de notícias anarquistas-ana
entre velhas páginas
uma folha ainda verde
da casa antiga
Alice Ruiz
Ativistas Reclamam as Ruas da cidade de Johanesburgo para o futebol
Neste domingo, 2 de agosto, na zona de Newtown, em Johanesburgo, meia dúzia de anarquistas, incluindo membros da Frente Anarquista Comunista Zabalaza, participou de um “torneio” de futebol de “seis de cada lado” inspirado no Reclaim the Streets! (Reclame as Ruas!). Eles foram convidados pelos organizadores para formar um time anarquista.
O torneio de futebol fez parte do Recess: Street Credit, evento cultural e de exibição artística que coincidiu com a reunião anual da “11ª Escola de Inverno do Khanya College”. O evento foi realizado na Rua Henry Nxumalo em Newtown, abaixo da rodovia M1 – somente a poucas centenas de metros de distância da Delegacia Central de Polícia de Johanesburgo – quando ativistas e aficionados futebolistas fecharam a rua com fita plástica e começaram a jogar bola.
De acordo com o chamado para participar no evento, o torneio tinha a “intenção de romper com o fluxo normal do tráfego de veículos motorizados no quarteirão, tomando a rua para finalidades criativas e políticas. Os times foram cuidadosamente selecionados, com uma pequena representação de um extenso corpo social-político de organizações e coletivos”, pretendendo “trazer e juntar uma variedade de ativistas culturais e sociais-políticos, com a intenção de desenvolver trabalhos em rede, engajamento político e diversão”.
Infelizmente nem todos os oito times convidados para participar do acontecimento apareceram, mas o Siyaphambili Youth Project e o time Círculo-A estavam presentes, juntamente com outros dois times.
A atmosfera do torneio era totalmente contra a Copa do Mundo de 2010, que é visto por muitos ativistas como exclusiva aos ricos. O SYP tinha em seu uniforme as letras que compunham a frase “FODA-SE 2010”, que estava pintado nas costas das suas camisetas.
O Círculo-A perdeu de 5 a 3 para um time de jovens boleiros, o quarto e o quinto gol foram marcados nos últimos dois minutos num contra-ataque, quando o time anarquista buscava “desesperadamente” a vitória. O Círculo-A talvez pudesse ter jogado melhor, mas alguns dos craques anarquistas de Soweto que eram aguardados para reforçar o time não puderem comparecer porque não conseguiram levantar a tempo o dinheiro necessário para o transporte.
No final do evento houve um bate-papo para que o torneio se torne o começo de uma liga de futebol “seis de cada lado” do movimento social.
Tradução > Marcelo Yokoi
agência de notícias anarquistas-ana
entre velhas páginas
uma folha ainda verde
da casa antiga
Alice Ruiz
A alienação pela alienação. Por que somos otários! – Por Provos Brasil

A alienação pela alienação. Por que somos otários! – Por Provos Brasil
O que faço?
Nada que ouço me consola! A desforra - queria pendurá-los, castrá-los e por que não amaldiçoá-los!
A quem imploro! Continuo querendo a desforra! A vingança! A anarquia! A matança! A herança!
A quem choro! Continuo vendo o descaso, a esmola, que jamais me consola!
A que hora! Talvez agora, que novamente nos ignora, sobre as vestes dos Eleitos!
Eleitos agora! Eleitos outrora, que jamais foi minha hora, que assistem agora nossas desgraças de outrora!
A maldição não chegou, a vingança não se consolidou, o carrasco triunfou, já que minha hora chegou!
A sensação do descaso, dos que nada valem, para os pares que não sobrarem!
Um tiro, só um! No meio da cara do canalha, que nada fala, quando todos se calam por falta da fala da indignação que não se abala!
Usurpam das nossas mentes, que não sentem, e mentem as mentes dos descontentes que também não sente por algo presente!
Uma hora! Uma carta! Uma morte! Não tenho outra sorte, pois só a morte que resolve!
Provos Brasil – psicografia do caos!
Se ninguém se mexer - Escrito por Eduardo Guimarães
Se ninguém se mexer
Estamos assistindo a um fenômeno assustador. O Poder Legislativo federal está paralisado exclusivamente pelos tais recortes de jornal num momento em que todos os países do mundo, do mais rico ao mais pobre, fazem de tudo para superar a crise econômica.
E o que faz o Brasil? Mergulha numa discussão inútil sobre práticas do Legislativo que sempre existiram e que não será com sua paralisia que deixarão de existir. Com isso, jornais, tevês e a oposição ao governo do país impedem que o Congresso trabalhe.
Resultado: o marco regulatório do pré-sal, por exemplo – matéria do interesse maior de todos os brasileiros –, deverá ficar indefinido até o fim do governo Lula, segundo estimativas da oposição.
Além disso, as famílias Frias, Marinho, Civita e Mesquita arrogaram para si o poder inimaginável de escolherem quem presidirá as duas Casas do Congresso.
Quem lhes delegou esse poder? Quantos votos essas famílias receberam para exercer um poder ditatorial como esse?
E o pior é que não é “só” isso. A mesma imprensa que paralisa o Legislativo, que impede que o Brasil funcione normalmente (num momento delicado como este por que passa o planeta Terra) e que detém o poder de nomear e derrubar os presidentes da Câmara e do Senado, ainda mata ou adoece pessoas com seu poder de alarmar a sociedade, como ficou patente no ano passado na questão da febre amarela e agora no caso da gripe “suína”.
Pergunto-me, então: se o próprio grupo político e o governo federal, que têm sido os alvos principais desse poder discricionário da mídia, não se mexem para reagir a essa barbaridade apesar de terem poder de sobra para tanto, o que é que um mero caixeiro-viajante vai querer fazer?
E mais uma pergunta: por que eu teria que fazer alguma coisa se os que têm muito mais condições para reagir, não fazem nada?
Bem, primeiro porque levei mais de uma centena de outros cidadãos a fundarem comigo uma ONG (o Movimento dos Sem Mídia) justamente para reagir aos abusos da mídia, e, em segundo, porque alguém tem que pôr o guiso nesse gato antes que ele incendeie a casa toda.
Dessa maneira, comunico que o Movimento dos Sem Mídia, por meu intermédio, voltará a se manifestar ao Ministério Público Federal no que tange duas questões cruciais para o país.
A primeira questão é a da representação que a ONG que presido fez ao MPF no ano passado por conta do alarmismo da mídia na questão da febre amarela.
Por inação do Ministério da Saúde, que não forneceu as informações requisitadas pelo Ministério Público para julgar a procedência da denúncia do MSM apesar de aquela Procuradoria ter feito o pedido ao MS duas vezes, o alarmismo voltou agora na questão da gripe suína.
Há farto material para juntar aos autos no MPF, inclusive denúncia do ombudsman da Folha de São Paulo em artigo de sua autoria que leva o sugestivo título de “No Limite da Irresponsabilidade”, no qual denuncia que seu jornal promoveu o alarmismo do qual é acusado pelo MSM.
Esse material será juntado ao processo na próxima terça-feira e, posteriormente, será reproduzido aqui.
A segunda questão sobre a qual o Movimento dos Sem Mídia irá se manifestar ao Ministério Público Federal e à Polícia Federal é a da ficha policial falsa que a mesma Folha de São Paulo divulgou contra a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e que o jornal, apesar de perícias que provam a falsidade do documento, insiste em coonestar.
Há que investigar quem enviou a falsificação ao jornal e qual sua participação no processo fraudulento e difamatório contra uma autoridade federal.
Apesar de a prerrogativa de processar os difamadores caber exclusivamente à vítima da difamação, a falsificação de documento público é crime que qualquer cidadão pode denunciar e, portanto, é isso o que o MSM fará.
Houve alguma demora para agirmos devido às férias do diretor jurídico do MSM. Com seu retorno, as duas ações supra mencionadas serão retomadas ainda nesta semana, sendo que a representação relativa à ministra Dilma Rousseff talvez não fique pronta esta semana, mas, com certeza, ficará até a próxima.
Por fim, devo fazer uma denúncia. Quando anunciei que faria uma representação ao MPF por conta da ficha falsa da ministra Dilma, recebi ameaça via comentário postado neste blog.
Faço uma sugestão aos que me ameaçaram anteriormente: não percam seu tempo fazendo ameaças. Partam diretamente para a retaliação que me prometeram em caso de eu levar o assunto adiante. Não tenho medo de vocês.
Escrito por Eduardo Guimarães
Fonte: http://edu.guim.blog.uol.com.br/
Estamos assistindo a um fenômeno assustador. O Poder Legislativo federal está paralisado exclusivamente pelos tais recortes de jornal num momento em que todos os países do mundo, do mais rico ao mais pobre, fazem de tudo para superar a crise econômica.
E o que faz o Brasil? Mergulha numa discussão inútil sobre práticas do Legislativo que sempre existiram e que não será com sua paralisia que deixarão de existir. Com isso, jornais, tevês e a oposição ao governo do país impedem que o Congresso trabalhe.
Resultado: o marco regulatório do pré-sal, por exemplo – matéria do interesse maior de todos os brasileiros –, deverá ficar indefinido até o fim do governo Lula, segundo estimativas da oposição.
Além disso, as famílias Frias, Marinho, Civita e Mesquita arrogaram para si o poder inimaginável de escolherem quem presidirá as duas Casas do Congresso.
Quem lhes delegou esse poder? Quantos votos essas famílias receberam para exercer um poder ditatorial como esse?
E o pior é que não é “só” isso. A mesma imprensa que paralisa o Legislativo, que impede que o Brasil funcione normalmente (num momento delicado como este por que passa o planeta Terra) e que detém o poder de nomear e derrubar os presidentes da Câmara e do Senado, ainda mata ou adoece pessoas com seu poder de alarmar a sociedade, como ficou patente no ano passado na questão da febre amarela e agora no caso da gripe “suína”.
Pergunto-me, então: se o próprio grupo político e o governo federal, que têm sido os alvos principais desse poder discricionário da mídia, não se mexem para reagir a essa barbaridade apesar de terem poder de sobra para tanto, o que é que um mero caixeiro-viajante vai querer fazer?
E mais uma pergunta: por que eu teria que fazer alguma coisa se os que têm muito mais condições para reagir, não fazem nada?
Bem, primeiro porque levei mais de uma centena de outros cidadãos a fundarem comigo uma ONG (o Movimento dos Sem Mídia) justamente para reagir aos abusos da mídia, e, em segundo, porque alguém tem que pôr o guiso nesse gato antes que ele incendeie a casa toda.
Dessa maneira, comunico que o Movimento dos Sem Mídia, por meu intermédio, voltará a se manifestar ao Ministério Público Federal no que tange duas questões cruciais para o país.
A primeira questão é a da representação que a ONG que presido fez ao MPF no ano passado por conta do alarmismo da mídia na questão da febre amarela.
Por inação do Ministério da Saúde, que não forneceu as informações requisitadas pelo Ministério Público para julgar a procedência da denúncia do MSM apesar de aquela Procuradoria ter feito o pedido ao MS duas vezes, o alarmismo voltou agora na questão da gripe suína.
Há farto material para juntar aos autos no MPF, inclusive denúncia do ombudsman da Folha de São Paulo em artigo de sua autoria que leva o sugestivo título de “No Limite da Irresponsabilidade”, no qual denuncia que seu jornal promoveu o alarmismo do qual é acusado pelo MSM.
Esse material será juntado ao processo na próxima terça-feira e, posteriormente, será reproduzido aqui.
A segunda questão sobre a qual o Movimento dos Sem Mídia irá se manifestar ao Ministério Público Federal e à Polícia Federal é a da ficha policial falsa que a mesma Folha de São Paulo divulgou contra a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e que o jornal, apesar de perícias que provam a falsidade do documento, insiste em coonestar.
Há que investigar quem enviou a falsificação ao jornal e qual sua participação no processo fraudulento e difamatório contra uma autoridade federal.
Apesar de a prerrogativa de processar os difamadores caber exclusivamente à vítima da difamação, a falsificação de documento público é crime que qualquer cidadão pode denunciar e, portanto, é isso o que o MSM fará.
Houve alguma demora para agirmos devido às férias do diretor jurídico do MSM. Com seu retorno, as duas ações supra mencionadas serão retomadas ainda nesta semana, sendo que a representação relativa à ministra Dilma Rousseff talvez não fique pronta esta semana, mas, com certeza, ficará até a próxima.
Por fim, devo fazer uma denúncia. Quando anunciei que faria uma representação ao MPF por conta da ficha falsa da ministra Dilma, recebi ameaça via comentário postado neste blog.
Faço uma sugestão aos que me ameaçaram anteriormente: não percam seu tempo fazendo ameaças. Partam diretamente para a retaliação que me prometeram em caso de eu levar o assunto adiante. Não tenho medo de vocês.
Escrito por Eduardo Guimarães
Fonte: http://edu.guim.blog.uol.com.br/
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Grupo de anarquistas de Pittsburgh chama atenção na medida em que a cúpula do G-20 se aproxima - ANA
Grupo de anarquistas de Pittsburgh chama atenção na medida em que a cúpula do G-20 se aproxima
Eles talvez não acreditem na autoridade ou em tarefas delegadas, mas no sábado (1) um grupo de anarquistas abrigou um piquenique perfeitamente organizado – até a última tigela de salada de massas.
O piquenique realizado pelo Pittsburgh Organizing Group atraiu cerca de 50 pessoas para o Parque Schenley, onde os membros rapidamente dissiparam o mito de que anarquismo é caos.
“Nós não somos contra a organização”, disse Alex Bradley, 29, de Bloomfield, ao lado de uma mesa de piquenique meticulosamente forrada com xícaras, guardanapos, bandejas de bolacha, saladas e melancia. “O fato de não termos autoridade não significa que nós não possamos realizar um piquenique juntos”.
Embora este não ter sido o primeiro piquenique do grupo, o evento desse ano gerou um burburinho porque os membros do grupo estão se opondo a próxima cúpula do G-20, encontro que será realizado em setembro e trará para Pittsburgh líderes de todo o mundo.
O grupo, conhecido como POG, não está planejando nenhum protesto contra a reunião do G-20, mas seus membros podem muito bem apoiar o Projeto de Resistência ao G-20 de Pittsburgh, uma coalizão de grupos que está planejando diversas marchas durante a semana do encontro.
Mel Packer do Point Breeza trouxe uma bandeja de charutos de folha de uva e, embora não sendo um componente oficial do POG, expressou apoio aos seus membros, que são pessoas jovens que “querem construir um mundo melhor”.
“Tudo isto é parte de um cenário maior que está tentando conduzir a um mundo mais justo”, disse Packer, 64 anos, antigo presidente do Centro Thomas Merton em Garfield. “Você tem que olhar para si, no espelho, e dizer: ‘O que faço para fazer deste mundo um lugar melhor’?”
Assim como piqueniques de verão tradicionais, o evento de ontem incluiu uma brincadeira com balão d’água e uma corrida de três pernas. O piquenique também contou com um jogo onde os times respondiam questões sobre a história do anarquismo colocadas pelo estudante da Universidade de Pittsburgh, Kenyon Zimmer, de Bloomfield. O anarquismo sustenta que todas as formas de autoridade governamental são desnecessárias e advoga uma sociedade baseada sobre a cooperação voluntária, autogestionada.
Joanna Tamburino, que foi escolhida por consenso para falar com os repórteres, contou que os membros dos grupos se voluntariaram para assumir as diferentes atividades para o piquenique.
“As pessoas que escolheram as tarefas”, disse Tamburino, 30 anos, advertindo que o POG não tem nenhum papel de liderança como um presidente ou vice-presidente. “Não há delegações de tarefas. É um mito que as tarefas precisam ser delegadas.”
Tamburino também explicou que estava bem ciente das piadas sobre os anarquistas.
“Como um anarquista arma um piquenique?” ela disse. “Já escutei todos os tipos de piadas. Mas os anarquistas são como qualquer outra pessoa. Gostamos de piquenique, brincamos, jogamos... Não somos alienígenas”.
Fonte: Pittsburgh Tribune-Review
Tradução > Marcelo Yokoi
agência de notícias anarquistas-ana
Profundo silêncio.
Na escuridão da floresta
Dançam vaga-lumes.
Eusébio de Souza Sanguini
Eles talvez não acreditem na autoridade ou em tarefas delegadas, mas no sábado (1) um grupo de anarquistas abrigou um piquenique perfeitamente organizado – até a última tigela de salada de massas.
O piquenique realizado pelo Pittsburgh Organizing Group atraiu cerca de 50 pessoas para o Parque Schenley, onde os membros rapidamente dissiparam o mito de que anarquismo é caos.
“Nós não somos contra a organização”, disse Alex Bradley, 29, de Bloomfield, ao lado de uma mesa de piquenique meticulosamente forrada com xícaras, guardanapos, bandejas de bolacha, saladas e melancia. “O fato de não termos autoridade não significa que nós não possamos realizar um piquenique juntos”.
Embora este não ter sido o primeiro piquenique do grupo, o evento desse ano gerou um burburinho porque os membros do grupo estão se opondo a próxima cúpula do G-20, encontro que será realizado em setembro e trará para Pittsburgh líderes de todo o mundo.
O grupo, conhecido como POG, não está planejando nenhum protesto contra a reunião do G-20, mas seus membros podem muito bem apoiar o Projeto de Resistência ao G-20 de Pittsburgh, uma coalizão de grupos que está planejando diversas marchas durante a semana do encontro.
Mel Packer do Point Breeza trouxe uma bandeja de charutos de folha de uva e, embora não sendo um componente oficial do POG, expressou apoio aos seus membros, que são pessoas jovens que “querem construir um mundo melhor”.
“Tudo isto é parte de um cenário maior que está tentando conduzir a um mundo mais justo”, disse Packer, 64 anos, antigo presidente do Centro Thomas Merton em Garfield. “Você tem que olhar para si, no espelho, e dizer: ‘O que faço para fazer deste mundo um lugar melhor’?”
Assim como piqueniques de verão tradicionais, o evento de ontem incluiu uma brincadeira com balão d’água e uma corrida de três pernas. O piquenique também contou com um jogo onde os times respondiam questões sobre a história do anarquismo colocadas pelo estudante da Universidade de Pittsburgh, Kenyon Zimmer, de Bloomfield. O anarquismo sustenta que todas as formas de autoridade governamental são desnecessárias e advoga uma sociedade baseada sobre a cooperação voluntária, autogestionada.
Joanna Tamburino, que foi escolhida por consenso para falar com os repórteres, contou que os membros dos grupos se voluntariaram para assumir as diferentes atividades para o piquenique.
“As pessoas que escolheram as tarefas”, disse Tamburino, 30 anos, advertindo que o POG não tem nenhum papel de liderança como um presidente ou vice-presidente. “Não há delegações de tarefas. É um mito que as tarefas precisam ser delegadas.”
Tamburino também explicou que estava bem ciente das piadas sobre os anarquistas.
“Como um anarquista arma um piquenique?” ela disse. “Já escutei todos os tipos de piadas. Mas os anarquistas são como qualquer outra pessoa. Gostamos de piquenique, brincamos, jogamos... Não somos alienígenas”.
Fonte: Pittsburgh Tribune-Review
Tradução > Marcelo Yokoi
agência de notícias anarquistas-ana
Profundo silêncio.
Na escuridão da floresta
Dançam vaga-lumes.
Eusébio de Souza Sanguini
Os espiões anti-povo - Marcelo Salles
OS ESPIÕES ANTI-POVO
Por Marcelo Salles, 08.08.2009
Bom livro esse Ministério do Silêncio, de Lucas Figueiredo (Record). Trata da história do Serviço Secreto brasileiro, desde sua formulação, com Washington Luís, até o governo Lula. Na última página, a 542, o autor assinala: “(…) os movimentos sociais continuam sendo um fantasma para o Serviço“.
Desde o início ligado aos militares, o Serviço, como era chamado pelos funcionários, pautava suas ações pela doutrina anti-comunista e anti-povo. Uma doutrina que foi elaborada pelo governo dos EUA, sobretudo após a II Guerra Mundial. O Serviço teve muitos nomes, sendo o mais tenebroso deles o SNI (Serviço Nacional de Informações), que durante a ditadura civil-militar de 1964 foi responsável pela perseguição, espionagem, tortura e morte de muitos brasileiros.
Ministério do Silêncio mostra, com farta documentação, a presença do governo estadunidense na implementação do Serviço Secreto brasileiro. Os militares, na época, investiam na estruturação da Escola Superior de Guerra (ESG). “Durante mais de dez anos, uma equipe militar dos EUA ficou baseada no RIo para ajudar na fixação da escola. E por duas décadas a ESG manteve um oficial americano dentro de sua sede, na Fortaleza de São João, na Praia Vermelha” (página 56). O alto comando da ESG, Golbery do Couto e Silva à frente, foi quem planejou o SNI.
Vernon Walters, coronel da CIA, esteve por aqui. Primeiro, operacionalizando o golpe. Depois, ”ajudando” o SNI. Por fim, dizendo o que ia ao ar na Globo.
Mais abaixo o autor indica o tamanho do problema. A doutrina capitalista estadunidense influenciava, e muito, a formação dos militares brasileiros. “Em seus manuais [da ESG], a população brasileira era descrita como potencial inimigo da pátria”.
A conquista da instituição Forças Armadas foi a condição para a conquista do Estado brasileiro. E para manter a dominação, 3 ministérios eram essenciais: Defesa (que detém a força bruta), Educação (formação) e Comunicações (informação). Os outros vinham depois, sem prejuízo da exploração das riquezas nacionais.
Outro trecho importante do livro – e que sublinha o poder da mídia – é um informe de João Batista Figueiredo, que foi presidente e chefe do SNI. O homem fez uma precisa análise de mídia, comentando a inclinação ideológica de uma reportagem considerando até os gestos do Cid Moreira.
Conhecer a história do Brasil pela via do Serviço é muito interessante, também, porque revela o poder que os militares sempre tiveram no Brasil. Todos os presidentes, sem exceção, guardavam especial preocupação. Agradar aos militares poderia decidir a sorte de um governo.
Entre os exemplos citados em Ministério do Silêncio, estão o grampo do BNDES e o chamado caso Waldomiro Diniz, ambos com potencial para derrubar os presidentes FHC e Lula, respectivamente. Outro, clássico, foi a bomba no Riocentro.
Difícil ir contra um órgão que pode fazer gravações escondidas, explodir bombas e atuar contra o próprio povo sem nenhuma forma de controle externo. Por essas e outras, deduz-se da leitura, o governo Lula não teria aberto os arquivos da ditadura, como exigem os defensores dos direitos humanos. E olha que o Lula era o inimigo número 1 do Serviço.
Fonte: http://www.fazendomedia.com
Por Marcelo Salles, 08.08.2009
Bom livro esse Ministério do Silêncio, de Lucas Figueiredo (Record). Trata da história do Serviço Secreto brasileiro, desde sua formulação, com Washington Luís, até o governo Lula. Na última página, a 542, o autor assinala: “(…) os movimentos sociais continuam sendo um fantasma para o Serviço“.
Desde o início ligado aos militares, o Serviço, como era chamado pelos funcionários, pautava suas ações pela doutrina anti-comunista e anti-povo. Uma doutrina que foi elaborada pelo governo dos EUA, sobretudo após a II Guerra Mundial. O Serviço teve muitos nomes, sendo o mais tenebroso deles o SNI (Serviço Nacional de Informações), que durante a ditadura civil-militar de 1964 foi responsável pela perseguição, espionagem, tortura e morte de muitos brasileiros.
Ministério do Silêncio mostra, com farta documentação, a presença do governo estadunidense na implementação do Serviço Secreto brasileiro. Os militares, na época, investiam na estruturação da Escola Superior de Guerra (ESG). “Durante mais de dez anos, uma equipe militar dos EUA ficou baseada no RIo para ajudar na fixação da escola. E por duas décadas a ESG manteve um oficial americano dentro de sua sede, na Fortaleza de São João, na Praia Vermelha” (página 56). O alto comando da ESG, Golbery do Couto e Silva à frente, foi quem planejou o SNI.
Vernon Walters, coronel da CIA, esteve por aqui. Primeiro, operacionalizando o golpe. Depois, ”ajudando” o SNI. Por fim, dizendo o que ia ao ar na Globo.
Mais abaixo o autor indica o tamanho do problema. A doutrina capitalista estadunidense influenciava, e muito, a formação dos militares brasileiros. “Em seus manuais [da ESG], a população brasileira era descrita como potencial inimigo da pátria”.
A conquista da instituição Forças Armadas foi a condição para a conquista do Estado brasileiro. E para manter a dominação, 3 ministérios eram essenciais: Defesa (que detém a força bruta), Educação (formação) e Comunicações (informação). Os outros vinham depois, sem prejuízo da exploração das riquezas nacionais.
Outro trecho importante do livro – e que sublinha o poder da mídia – é um informe de João Batista Figueiredo, que foi presidente e chefe do SNI. O homem fez uma precisa análise de mídia, comentando a inclinação ideológica de uma reportagem considerando até os gestos do Cid Moreira.
Conhecer a história do Brasil pela via do Serviço é muito interessante, também, porque revela o poder que os militares sempre tiveram no Brasil. Todos os presidentes, sem exceção, guardavam especial preocupação. Agradar aos militares poderia decidir a sorte de um governo.
Entre os exemplos citados em Ministério do Silêncio, estão o grampo do BNDES e o chamado caso Waldomiro Diniz, ambos com potencial para derrubar os presidentes FHC e Lula, respectivamente. Outro, clássico, foi a bomba no Riocentro.
Difícil ir contra um órgão que pode fazer gravações escondidas, explodir bombas e atuar contra o próprio povo sem nenhuma forma de controle externo. Por essas e outras, deduz-se da leitura, o governo Lula não teria aberto os arquivos da ditadura, como exigem os defensores dos direitos humanos. E olha que o Lula era o inimigo número 1 do Serviço.
Fonte: http://www.fazendomedia.com
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Besançon, Cidade Libertária - ANA

Besançon, Cidade Libertária
Para comemorar o 200º aniversário do nascimento de Pierre-Joseph Proudhon na cidade francesa de Besançon, o grupo anarquista local (que leva o nome de Proudhon) organizou uma jornada de estudos (“Colóquio”) sobre este que é considerado por muitos como o pai do anarquismo. Celebrou-se no dia 29 de maio com a participação de estudiosos da vida e obra deste genial filho de Besançon. Antes de começar as atividades, foi mencionada e destacada a figura de Jean Preposiet, recentemente falecido, catedrático de Filosofia, historiador do anarquismo francês e pai de nosso companheiro Bruno.
O “Colóquio” iniciou com a intervenção de Michael Paraire, que esboçou as teorias de Proudhon, enfatizando sua faceta de teórico revolucionário totalmente original em sua época. Em seguida, René Berthier, dissertou sobre as teorias econômicas de Proudhon, sobretudo suas diferenças com Marx. Daniel Colson realizou um brilhante discurso sobre a atualidade de Proudhon. Após uma simpática refeição, a jornada continuou com a participação de Edward Castelton, que desenvolve as idéias de Proudhon, sobretudo sobre os paradoxos de seu pensamento. Por fim, Archibald Zurvan, traçou uma maravilhosa e documentada panorâmica do pensamento do homenageado. Após as intervenções se seguiu um animado debate do público (havia mais de uma centena de participantes) que durou até a entrada da noite.
No dia seguinte, 30 de maio, foi inaugurado o 66º Congresso da Federação Anarquista francófona (FA). Durante três dias, cerca de 160 delegados que representavam o enorme conjunto de grupos espalhados por toda a França debateram uma interessante ordem do dia, rica em colocações libertárias, expressão da atividade dos grupos que compõe a FA.
O Congresso começou com uma série de pontos de caráter interno, como aprovação da gestão das diferentes comissões da FA. Os informes eram conhecidos de antemão pelos grupos; é o momento das perguntas e do trabalho das comissões revisoras de contas. A FA tem diferentes realidades. Conta com um semanário (Le Monde Libertaire), uma editora (Les Editions du Monde Libertaire), uma emissora de rádio (Radio Libertaire, que pode escutar pela internet: www.federation-anarchiste.org/rl) e uma livraria – e distribuidora – em Paris (Publico), isto fora as publicações e as livrarias que alguns grupos possuem. Por exemplo, o grupo Proudhon de Besançon conta com a estupenda livraria "L'Autodidacte".
O prato forte do Congresso foram os debates sobre as próximas campanhas a serem realizadas pelo conjunto da Federação e a aprovação das moções apresentadas sobre os problemas atuais enfrentados pela militância anarquista... Chama a atenção à extrema educação e fraternidade dos companheiros nos debates. Ninguém falava se não estivesse no uso da palavra e os membros da mesa, quando intervinham nos debates, pediam antes a palavra e desciam da tribuna para falar, para que não exercessem em nenhum momento a mais leve autoridade. Foram aprovadas campanhas e, após debates enriquecedores, três moções. Também se discutiu amplamente sobre a desaceleração e sobre a estratégia da FA, embora em ambos os casos não foram alcançados acordos (que, obviamente, são tomados por unanimidade).
Talvez o ponto mais delicado do Congresso foi dedicado à possibilidade de comprar um local, em Paris, situado junto à livraria Publico. Em todo momento a discussão, embora tensa, transcorreu pelas veredas do respeito e companheirismo, sem palavras grossas, insultos e desqualificações. No final não houve acordo.
A última sessão foi dedicada ao nomeamento do/as companheiro/as para os cargos de responsabilidade (jornal, emissora etc.). Presume-se exercer por um ano (máximo dois) e se pede que o/as companheiro/as levem ao menos quatro anos de militância.
Tanto o Congresso como o “Colóquio” foram celebrados no teatro Bacchus, um antigo convento convertido recentemente em sala de apresentações. Numa das salas foi instalada uma exposição sobre vigilância e controle policial e, numa das noites, três companheiros (vozes, violões e flauta) nos deleitaram com um recital de canção francesa.
Há de ressaltar o estupendo trabalho que fez o grupo Proudhon que organizou tudo, da acolhida às comidas; tudo estava ao ponto no momento preciso. Um luxo de grupo e companheiros encantadores.
Alfredo G.
Fonte: Tierra y Libertad
Tradução > Marcelo Yokoi
agência de notícias anarquistas-ana
ao amanhecer
pendurado no varal
descansa o orvalho.
Mary Leiko Fukai Tera
O papel das universidades frente à crise - Por Eduardo Sá
O papel das universidades frente à crisePor Eduardo Sá, 07.08.2009
A Seção Sindical dos Docentes da UFRJ, em comemoração aos seus trinta anos, realizou o seminário Universidade, crise e alternativas na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro. O evento contou com a participação de representantes de diversas universidades da América Latina, entre os dias 30 de junho e 02 de julho.
O Fazendo Media conferiu a conferência de abertura, realizada pelo professor Francisco de Oliveira, sociólogo renomado em São Paulo, autor de diversos livros e um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. Na ocasião, Chico de Oliveira, como é conhecido, fez algumas análises sobre a crise atual e o papel da universidade nesse cenário. A seguir, algumas das respostas dadas aos participantes, muitos deles professores, e ao repórter:
Em sua reflexão sobre a educação brasileira você aponta que, apesar de ter sido formada pela Igreja, com o desenvolvimento ela se tornou ampla, laica, pública e gratuita. Porém, não se democratizou. Qual o momento atual?
Eu estou falando da educação superior, a fundamental é tarefa do Estado também, mas é muito mal cuidada e a educação dos níveis intermédios é basicamente privada. A superior é basicamente pública através das universidades estatais e em geral de boa qualidade, mas ela não resistiu ao processo de crescimento da população brasileira e de aquisição da cidadania.
Ela precisa se democratizar no sentido de não só dar entrada às novas gerações e as gerações mais pobres da sociedade brasileira, mas de dar poder interno a essas novas classes sociais que estão entrando na universidade; senão ela não é democrática.
Agora a USP está sofrendo uma crise pavorosa, o conselho universitário reage, que é o órgão de cabeça da universidade, reprimindo. Então, sem democratizar a universidade brasileira, não é que vai deixar de produzir o conhecimento, ela vai se tornar exclusiva de grupos e dedicada a transformar seu conhecimento em lucro das empresas privadas.
É preciso que a sociedade esteja dentro da universidade e discutindo o seu destino, discutindo as suas verbas, discutindo o orçamento. Sem o orçamento não há democracia, isso de que eu fico só de ouvinte, não, eu quero ajudar a decidir sobre as verbas da universidade.
As universidades de São Paulo têm 10% da receita de impostos do estado, isso não pode ser decidido por um grupo pequeno de professores. Isso tem que ser votado como se faz na república, infelizmente a república deforma tudo, mas o orçamento público é votado na Câmara de Deputados e no Senado. O orçamento devia também ser submetido a instâncias parecidas com essas, melhor ainda, melhoradas ainda mais em sua representatividade.
Sobre as fundações privadas na universidade pública…
Isso tem tudo para desfazer as universidades públicas que foram criadas numa enorme luta. Aqui no Rio não sei como é, mas no estado de São Paulo 10% do ICMS é destinado às três universidades estaduais. Nós sabemos que o ICMS é o imposto mais regressivo, porque são os pobres que pagam, por ser um imposto indireto sobre as mercadorias.
As fundações privadas dentro da USP, como aqui na UFRJ, são um escárnio à contribuição que as massas populares dão à formação desse fundo que sustenta as universidades. Elas privatizam mesmo, privatizam exatamente no sentido etimológico da palavra: privar não quer dizer privado, privar quer dizer privar o outro, tirar o outro do seu culto.
É isso que as fundações privadas fazem, porque elas retiram orçamentos do controle público e usam como se fosse dinheiro privado, isso é uma afronta até no mundo do setor privado. Nem o setor privado no capitalismo contemporâneo tem mais o direito de gerir o seu recurso como se fosse privado.
Não tem mais sentido nem é mais correto, por quê? Porque é o dinheiro público que sustenta o capitalismo privado, talvez os políticos mineiros da velha geração, que ensinou muita safadeza ao Brasil, tivessem razão: fora do estado não há salvação, diziam eles. Por isso Sarney emprega até o trineto, o trineto ainda não nasceu, mas vai nascer e já está empregado no Senado.
A luta é contra isso, o Brasil transformou- se, mudou extraordinariamente, conservou o ranço de privatismo na coisa pública que é preciso eliminar. Temos por onde começar? Começamos pela universidade pública, porque isso restaura a república e a democracia dentro das universidades públicas.
Qual o papel do intelectual hoje?
Um intelectual quem o melhor definiu foi Sartre. O intelectual, a partir do exemplo do Zola, é aquele que se mete onde não foi chamado. Zola era um escritor já de êxito e não passava daquilo, até que chegou o caso Dreyfus e ele se transformou em outra coisa e deu a marca do intelectual moderno. Ele tinha competência para tratar daquele caso? Não, ele não era jurista, não era de lei, não era do estado, se meteu onde não foi chamado. O intelectual que a universidade deve criar é o de se meter onde não é chamado e a sociedade brasileira é capaz disso.
Como é que se faz isso? Fazendo seminários como esse, parece irrelevante, parece pequeno, podia ter muito mais gente nesse auditório, mas é fazendo isso que a gente faz o papel do intelectual moderno: metendo o bedelho como cidadão a partir de suas posições na sociedade, é assim que se faz. Parece pouco, é muito pouco, mas sem substituirmos aquilo que a universidade deve fazer, e cada um de nós que toma essa responsabilidade.
Uma professora UFF, preocupada com o distanciamento e desconhecimento da história por parte dos seus alunos, perguntou sobre a importância da memória do país às novas gerações.
Isso tem nos clássicos de Frankfurt, que já disseram: isso é a indústria cultural. Quando eles juntaram esses dois termos, aí decifrou a charada. Quando o entretenimento se transforma numa indústria o resultado é diferente dos dois e transforma-se nessa completa, pertinente, reiterada, presentificação do futuro: não há mais futuro, o futuro é agora.
Essa presentificação descarta aquilo que era informação, que não chega a se transformar em conhecimento, por isso que as gerações têm muita informação mas não têm conhecimento. É culpa deles? Não, evidentemente é o sistema que descarta exatamente a experiência humana, porque a luta de classes só se faz através da experiência de classes.
Assim como a luta da universidade só se faz através da experiência da universidade, a presentificação significa descartá-las e substituir sempre por aquilo que parece novo, mas na verdade não é novo. Você vai encontrar esse problema pela frente mesmo estando entre estudantes de serviço social, mas é isso que se tem que fazer: chamar o passado e trazê-lo para o presente para esclarecer o presente. Esse é o sinal da modernidade, quando o homem se erige em juiz do passado, do presente e do futuro.
É a gente que diz como vai ser o futuro, isso é exercício de Nostradamus? Não, isso é um exercício do poder político cidadão. O futuro será como a gente pensa? Certamente não, ou eu diria mais radicalmente: felizmente não. Porque se o futuro fosse essa previsão dos meios de comunicação não haveria lutas de classe nem luta social.
Se o futuro fosse previsível as classes dominantes saberiam como evitá-lo, felizmente as revoluções são irrupções históricas que nenhuma ciência, nem social nem física, é capaz de prever. Esse é o terreno onde se move a nossa luta.
E o individualismo que impera nos dias de hoje?
Todos os dias é essa noção de individualismo, é ideologicamente muito forte, ela governa praticamente. Mas como algumas categorias de ideologia, ela é inteiramente vazia, por quê? Basta abrir os jornais, especialmente nos domingos, quando os jornais se transformam em folhas de propaganda. Compare todas as ofertas de automóveis, esse nicho da escolha individual, são praticamente iguais, não há quase nenhuma diferença, só a diferença, permita-me a brincadeira, do saiote escocês: o escocês da tradição usa saiote, ele é mulher? Não, ele é homem.
É assim a oferta de carros, todos marcam a sua diferença, tem alguma diferença? Nenhuma. É isso que nos introjetam todos os dias através dessa propaganda maciça e isso é uma vitória dos EUA, infelizmente. Foi um pensador revolucionário italiano, que acabou seus dias na cadeia fascista, quem anunciou que a vitória americana vinha pelo cinema e pelo automóvel. Gramsci, quem disse isso, e os frankfurteanos arredondaram quando juntaram dois termos: indústria é uma coisa, cultura é outra, quando junta os dois transforma os dois e o resultado não é nada parecido nem com indústria nem com cultura.
É a indústria cultural, que nos submete todos os dias e é preciso gritar e lutar contra isso para um longo caminho. Vocês podem me dizer que eu sou adepto de uma teoria que nega o indivíduo, não. Só que para Marx o indivíduo está no fim e não no começo, é para construir um indivíduo livre e despojado de todos os seus constrangimentos que se empreende um longo caminho das transformações e das revoluções. Mas isso é uma construção histórica e social.
Fonte: http://www.fazendomedia.com/
A Seção Sindical dos Docentes da UFRJ, em comemoração aos seus trinta anos, realizou o seminário Universidade, crise e alternativas na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro. O evento contou com a participação de representantes de diversas universidades da América Latina, entre os dias 30 de junho e 02 de julho.
O Fazendo Media conferiu a conferência de abertura, realizada pelo professor Francisco de Oliveira, sociólogo renomado em São Paulo, autor de diversos livros e um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. Na ocasião, Chico de Oliveira, como é conhecido, fez algumas análises sobre a crise atual e o papel da universidade nesse cenário. A seguir, algumas das respostas dadas aos participantes, muitos deles professores, e ao repórter:
Em sua reflexão sobre a educação brasileira você aponta que, apesar de ter sido formada pela Igreja, com o desenvolvimento ela se tornou ampla, laica, pública e gratuita. Porém, não se democratizou. Qual o momento atual?
Eu estou falando da educação superior, a fundamental é tarefa do Estado também, mas é muito mal cuidada e a educação dos níveis intermédios é basicamente privada. A superior é basicamente pública através das universidades estatais e em geral de boa qualidade, mas ela não resistiu ao processo de crescimento da população brasileira e de aquisição da cidadania.
Ela precisa se democratizar no sentido de não só dar entrada às novas gerações e as gerações mais pobres da sociedade brasileira, mas de dar poder interno a essas novas classes sociais que estão entrando na universidade; senão ela não é democrática.
Agora a USP está sofrendo uma crise pavorosa, o conselho universitário reage, que é o órgão de cabeça da universidade, reprimindo. Então, sem democratizar a universidade brasileira, não é que vai deixar de produzir o conhecimento, ela vai se tornar exclusiva de grupos e dedicada a transformar seu conhecimento em lucro das empresas privadas.
É preciso que a sociedade esteja dentro da universidade e discutindo o seu destino, discutindo as suas verbas, discutindo o orçamento. Sem o orçamento não há democracia, isso de que eu fico só de ouvinte, não, eu quero ajudar a decidir sobre as verbas da universidade.
As universidades de São Paulo têm 10% da receita de impostos do estado, isso não pode ser decidido por um grupo pequeno de professores. Isso tem que ser votado como se faz na república, infelizmente a república deforma tudo, mas o orçamento público é votado na Câmara de Deputados e no Senado. O orçamento devia também ser submetido a instâncias parecidas com essas, melhor ainda, melhoradas ainda mais em sua representatividade.
Sobre as fundações privadas na universidade pública…
Isso tem tudo para desfazer as universidades públicas que foram criadas numa enorme luta. Aqui no Rio não sei como é, mas no estado de São Paulo 10% do ICMS é destinado às três universidades estaduais. Nós sabemos que o ICMS é o imposto mais regressivo, porque são os pobres que pagam, por ser um imposto indireto sobre as mercadorias.
As fundações privadas dentro da USP, como aqui na UFRJ, são um escárnio à contribuição que as massas populares dão à formação desse fundo que sustenta as universidades. Elas privatizam mesmo, privatizam exatamente no sentido etimológico da palavra: privar não quer dizer privado, privar quer dizer privar o outro, tirar o outro do seu culto.
É isso que as fundações privadas fazem, porque elas retiram orçamentos do controle público e usam como se fosse dinheiro privado, isso é uma afronta até no mundo do setor privado. Nem o setor privado no capitalismo contemporâneo tem mais o direito de gerir o seu recurso como se fosse privado.
Não tem mais sentido nem é mais correto, por quê? Porque é o dinheiro público que sustenta o capitalismo privado, talvez os políticos mineiros da velha geração, que ensinou muita safadeza ao Brasil, tivessem razão: fora do estado não há salvação, diziam eles. Por isso Sarney emprega até o trineto, o trineto ainda não nasceu, mas vai nascer e já está empregado no Senado.
A luta é contra isso, o Brasil transformou- se, mudou extraordinariamente, conservou o ranço de privatismo na coisa pública que é preciso eliminar. Temos por onde começar? Começamos pela universidade pública, porque isso restaura a república e a democracia dentro das universidades públicas.
Qual o papel do intelectual hoje?
Um intelectual quem o melhor definiu foi Sartre. O intelectual, a partir do exemplo do Zola, é aquele que se mete onde não foi chamado. Zola era um escritor já de êxito e não passava daquilo, até que chegou o caso Dreyfus e ele se transformou em outra coisa e deu a marca do intelectual moderno. Ele tinha competência para tratar daquele caso? Não, ele não era jurista, não era de lei, não era do estado, se meteu onde não foi chamado. O intelectual que a universidade deve criar é o de se meter onde não é chamado e a sociedade brasileira é capaz disso.
Como é que se faz isso? Fazendo seminários como esse, parece irrelevante, parece pequeno, podia ter muito mais gente nesse auditório, mas é fazendo isso que a gente faz o papel do intelectual moderno: metendo o bedelho como cidadão a partir de suas posições na sociedade, é assim que se faz. Parece pouco, é muito pouco, mas sem substituirmos aquilo que a universidade deve fazer, e cada um de nós que toma essa responsabilidade.
Uma professora UFF, preocupada com o distanciamento e desconhecimento da história por parte dos seus alunos, perguntou sobre a importância da memória do país às novas gerações.
Isso tem nos clássicos de Frankfurt, que já disseram: isso é a indústria cultural. Quando eles juntaram esses dois termos, aí decifrou a charada. Quando o entretenimento se transforma numa indústria o resultado é diferente dos dois e transforma-se nessa completa, pertinente, reiterada, presentificação do futuro: não há mais futuro, o futuro é agora.
Essa presentificação descarta aquilo que era informação, que não chega a se transformar em conhecimento, por isso que as gerações têm muita informação mas não têm conhecimento. É culpa deles? Não, evidentemente é o sistema que descarta exatamente a experiência humana, porque a luta de classes só se faz através da experiência de classes.
Assim como a luta da universidade só se faz através da experiência da universidade, a presentificação significa descartá-las e substituir sempre por aquilo que parece novo, mas na verdade não é novo. Você vai encontrar esse problema pela frente mesmo estando entre estudantes de serviço social, mas é isso que se tem que fazer: chamar o passado e trazê-lo para o presente para esclarecer o presente. Esse é o sinal da modernidade, quando o homem se erige em juiz do passado, do presente e do futuro.
É a gente que diz como vai ser o futuro, isso é exercício de Nostradamus? Não, isso é um exercício do poder político cidadão. O futuro será como a gente pensa? Certamente não, ou eu diria mais radicalmente: felizmente não. Porque se o futuro fosse essa previsão dos meios de comunicação não haveria lutas de classe nem luta social.
Se o futuro fosse previsível as classes dominantes saberiam como evitá-lo, felizmente as revoluções são irrupções históricas que nenhuma ciência, nem social nem física, é capaz de prever. Esse é o terreno onde se move a nossa luta.
E o individualismo que impera nos dias de hoje?
Todos os dias é essa noção de individualismo, é ideologicamente muito forte, ela governa praticamente. Mas como algumas categorias de ideologia, ela é inteiramente vazia, por quê? Basta abrir os jornais, especialmente nos domingos, quando os jornais se transformam em folhas de propaganda. Compare todas as ofertas de automóveis, esse nicho da escolha individual, são praticamente iguais, não há quase nenhuma diferença, só a diferença, permita-me a brincadeira, do saiote escocês: o escocês da tradição usa saiote, ele é mulher? Não, ele é homem.
É assim a oferta de carros, todos marcam a sua diferença, tem alguma diferença? Nenhuma. É isso que nos introjetam todos os dias através dessa propaganda maciça e isso é uma vitória dos EUA, infelizmente. Foi um pensador revolucionário italiano, que acabou seus dias na cadeia fascista, quem anunciou que a vitória americana vinha pelo cinema e pelo automóvel. Gramsci, quem disse isso, e os frankfurteanos arredondaram quando juntaram dois termos: indústria é uma coisa, cultura é outra, quando junta os dois transforma os dois e o resultado não é nada parecido nem com indústria nem com cultura.
É a indústria cultural, que nos submete todos os dias e é preciso gritar e lutar contra isso para um longo caminho. Vocês podem me dizer que eu sou adepto de uma teoria que nega o indivíduo, não. Só que para Marx o indivíduo está no fim e não no começo, é para construir um indivíduo livre e despojado de todos os seus constrangimentos que se empreende um longo caminho das transformações e das revoluções. Mas isso é uma construção histórica e social.
Fonte: http://www.fazendomedia.com/
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
São Paulo livre dos ativistas?
São Paulo livre dos ativistas?
O capitalismo criou uma indústria para lucrar com o homem fora do trabalho e controlá-lo; mas existem outros tipos de lógica repressiva, que tentam reprimir antecipadamente o que só de modo muito remoto põe em xeque o sistema. Por Douglas Anfra
«São poucos, porém são… Abrem sulcos escuros
no rosto mais fero e no lombo mais forte.
Serão talvez os potros de bárbaros átilas;
ou os arautos negros que nos manda a Morte.
[…]
Há golpes tão fortes na vida … Eu não sei!»
César Vallejo (poeta que dá nome à rua onde ocorreram os principais incidentes do despejo da favela Real Parque)
O Estadão chama a Paulista livre dos grevistas: advertência a todos os movimentos sociais
O Estadão [designação corrente do jornal O Estado de S. Paulo] já pedia a “Paulista livre dos grevistas” no ano passado, pois, se o PSDB [Partido da Social-Democracia Brasileira, do antigo presidente Fernando Henrique Cardoso, cujo símbolo é o tucano] é deles e São Paulo é do PSDB, nada mais justo que a Avenida Paulista ser considerada dos tucanos do PIG (batizado pelo jornalista Paulo Henrique Amorim de Partido da Imprensa Golpista), e que possa ser um dia rebatizada de Avenida da Imprensa Golpista que, somada à Avenida Roberto Marinho, poderia ser uma segunda homenagem aos apoiadores da ditadura capitalista monopolista. (Veja aqui.)
E agora, finalmente, regozijam-se em seu editorial com uma punição que chamam de exemplar sofrida pela APEOESP [Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo] por causa de um ato com 10 mil pessoas em 5 de outubro de 2005. A multa inicialmente era de 156 mil, mas quando o sindicato recorreu, a multa subiu e desceu entre os juízes estabilizando em 1,6 milhão. Neste mesmo texto exemplar notamos o apelo do Estadão que reflete de todo o PIG:
“a decisão da 4ª Câmara de Direito Privado do TJSP deve servir de advertência a todos os movimentos sociais, organizações não-governamentais e entidades corporativas que insistem em bloquear ruas e avenidas importantes da cidade para realizar passeatas e atos de protesto, dificultando o tráfego e prejudicando a circulação dos paulistanos.” (Veja aqui.)
Podemos notar algo de mais profundo quando olhamos o conjunto desta manifestação de asco pelos que se insurgem em prol do direito da normalidade dos negócios da cidade. Prerrogativa dos que chamam a ordem pública para a anulação de direitos dos que se manifestam, onde sua ordem reflete não apenas o trânsito dos carros e a avidez por lucro segundo um tipo de espírito capitalista desumano, que defende o direito de ir e vir apenas do cidadão de automóvel. Neste sentido parece estar pressuposto um conjunto de modificações políticas que inviabilizem as diversas formas de associação, lazer público e protesto.
Sindicatos
Tal modo de tentar quebrar um sindicato não é novidade, iniciou-se com Fernando Henrique Cardoso, que utilizou intervenção do exército nas refinarias no começo dos anos 90 para pôr fim à greve dos petroleiros. Enquanto fazia isto, iniciava o processo de privatização das refinarias, que posteriormente gerou a base financeira dos investidores brasileiros da bolsa que brincavam de banco imobiliário (como o PIG), enquanto entubavam o povo boliviano com o gasoduto e quebravam o monopólio estatal do petróleo que constava da constituição de 1988.
No final da greve, junto com o então ministro do TST, Almir Pazzianoto, aplicaram uma multa que destruiu a capacidade de mobilização de uma das maiores federações de sindicatos brasileiras. Golpe de mestre de um antigo estudioso de sociologia que estudou também os trabalhadores junto com Florestan:
“Foi o TST que declarou a greve ilegal — e que puniu os 21 sindicatos com uma multa de R$ 100 mil por cada dia dos 21 em que a decisão foi desrespeitada. Houve quem achasse que iria acabar em pizza — mas o fato é que a decisão está sendo cumprida à risca. Cada Sindipetro está devendo R$ 2,1 milhões — e a cobrança judicial, além de determinar o bloqueio das contribuições sindicais (R$ 80 mil mensais no caso de Cubatão) e das contas bancárias, ainda determinou a penhora de todos os bens. Os petroleiros lutaram, e continuam lutando, para livrar-se do pagamento da dívida — uma decisão que consideram política e que não reconhecem. No plano estritamente financeiro, para driblar o confisco, reduziram as contribuições sindicais descontadas em folha pela Petrobrás a simbólicos R$ 0,1. Passaram, então, a recolher os 3% de praxe no boca a boca nas portas das refinarias — e daí o “mendigando” de Averaldo. Não recolhem os R$ 80 mil, ouvem alguns desaforos, mas têm conseguido arrecadar entre R$ 50 mil e R$ 60 mil, o que permite pagar a folha dos 47 funcionários e dos 14 demitidos em conseqüência da greve.
No plano político, os petroleiros tentaram uma anistia via Congresso. Conseguiram a unanimidade da Câmara e a quase unanimidade no Senado — mas amargaram o veto implacável do presidente Fernando Henrique Cardoso. Têm como último recurso a derrubada desse veto via Congresso e o julgamento de um recurso extraordinário que impetraram junto ao Supremo Tribunal Federal. “É tudo que nos resta”, diz Averaldo, consciente de que os bens penhorados, incluindo a bela sede avaliada em quase R$ 2 milhões, podem realmente ir à praça, para serem vendidos em leilão.” (Veja aqui.)
Este caminho parece estar sendo seguido por seu amigo Serra, que foi presidente da UNE [União Nacional de Estudantes]. Tudo bem, sabemos que a UNE é o que é. Sabemos que uma das primeiras medidas do Serra quando presidente dela foi acabar com o alojamento para militantes em encontros na sede da UNE do Rio (esquerda mesmo, ele nunca foi, nem quando era da Ação Popular). Mas ele sabe o que é Movimento Estudantil, foi cassado e fugiu para o Chile, viu a destruição da Frente Popular que o hospedou e fugiu outra vez para a França, e hoje ajuda a desmobilizar estudantes e a classe trabalhadora. Após aprender a lição de Pinochet, seu ataque agora é contra a APEOESP [Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo] e o sindicato dos Trabalhadores da USP [Universidade de São Paulo] com pesadas multas e perseguição política.
Um grande sindicato como a APEOESP, mesmo recuadinho na direção, ainda tem capacidade de mobilização e militantes de base tão bons e imaginativos como o prof. Tonhão, demitido e abandonado pela entidade, mas que deixou seu exemplo e um grande número de associados, por isso, este sindicato ainda apresenta uma possibilidade de movimento que deve ser reprimida.
Junto com esta carga violenta vem o “interdito proibitório”, recurso jurídico do direito civil utilíssimo aos patrões exploradores, afinal, que coisa pode ser melhor que um mandato de reintegração de posse preventivo, isto é, sem que se tenha tomado posse ou existido qualquer indício material de ameaça? Este recurso serve para combater o sindicato antes de qualquer ação que ele faça, pois presume graciosamente que este possa vir a agir de modo radical, a ocupar, a mudar o sentido do uso político de um bem determinado privado ou público, comparando qualquer serviço ao serviço privado bancário.
Esta jurisprudência, que só muito forçosamente pode ser aplicada a outros contextos, é outra das grandes ameaças aos sindicatos de hoje, que faz os escritores do editorial dos jornais e seus amigos dormirem cada vez mais felizes e tranqüilos, pois os protege inclusive contra seus próprios funcionários ao pressupor que estes possam vir a agir algum dia. A ordem está garantida aos patrões e as únicas greves serão de pijama. Mas, do modo como a coisa anda, tais questões não poderão ser discutidas nos bares ou mesmo em casa de pijamas.
Repressão das associações, da juventude e do lazer
O jovem é o mais velho exemplar da humanidade. Pesa-lhe a herança dos conhecimentos acumulados; pesa-lhe o desafio do que não foi conquistado; a inadequação entre o idealismo e o egoísmo prático.
Paulo Mendes Campos
Como vimos, para os sindicatos: multas, quebras, perseguição e interdito proibitório, enquanto para os jovens que podem se indispor com o controle e se insurgir: toques de recolher e até proibição do lazer, pois nada aberto sobrará, pois bares fecham pela lei do Psiu. Só aos boys, Patis e Mauricinhos sobrará a liberdade de lazer, ao entrar em eventos bem pagos e no Rio de Janeiro, como exemplo, até mesmo o baile funk no morro é proibido.
Hoje os espaços sociais de produção do prazer ou lazer são restritos a áreas privadas que detém um progressivo monopólio privado do lazer. O lazer passa a ser proibido em áreas públicas. Todos deverão ficar em silêncio ou ir para a igreja.
Quebra-se até mesmo o tênue equilíbrio da periferia, onde muitas pessoas desde a juventude à velhice vagam tendo de ir atrás de “corres” e “fitas” sem emprego e sem transporte, orbitando entre o boteco, a igreja, o campinho de futebol e o baile. Quando não a “boca”, ou “biqueira”, serve de mediação de conflitos (onde ocorre o “debate”) e de possibilidade de um bico para arranjar um “trocadinho” para consumir o que a TV diz que é bom. E por que não, talvez um carrinho que dê a chance de dar um role por ali mesmo, onde muitas vezes falta o “buzão” [autocarro]?
Nesta mudança das formas de convívio, apesar de ter restado à escola ser o palco das primeiras atividades de socialização (ou talvez das únicas dentro da lei), a escola cada vez mais deixa de se parecer com o cárcere para se tornar efetivamente um, graças aos convênios entre a Secretaria de Segurança Pública e a Secretaria da Educação, pois se deu certo na USP manter a Polícia Militar, por que não abrir espaço à repressão em todas as escolas do estado? A PM protege a instituição contra o aluno e o professor, como aqueles professores perseguidos nominalmente pelas delegacias de ensino e às vezes expressamente pelo palácio dos Bandeirantes (Sede do governo do estado). Muitas escolas até mesmo mandam espiões para as reuniões de professores em greve, como vi pessoalmente em ato da APEOESP.
Se observamos a periferia, mesmo os campinhos de futebol, muitas vezes áreas “nobres” das periferias em pontos planos, estáveis e elevados, são os primeiros locais tomados pela especulação imobiliária quando ela chega, impossibilitando até mesmo estas áreas de lazer, que definem um dos únicos espaços de utilidade pública nestes locais. Os CEUs se tornam progressivamente escolas e deixam de ser palco de atividades esportivas e culturais. Mesmo o grafite e as atividades de hip hop só se tornam possíveis em espaços cooptados nas áreas centrais da cidade. Grafiteiros deixam os muros para as galerias e quem freqüenta depois estes espaços? Novamente, só Patis e Mauricinhos melhor ou pior intencionados.
Do mesmo modo, quaisquer aglomerações parecem estar sendo vigiadas e reprimidas, mesmo as torcidas organizadas, como ocorre com a contenção de todas as reuniões de pessoas que possam vir a se politizar. Um exemplo é a situação que passaram os membros do movimento da Rua São Jorge quando jogados pela polícia no meio da torcida rival.
Com efeito, não negamos que a “sublimação repressiva” exista, isto é, que haja uma quantidade socialmente segura de prazer e lazer que o sistema repressivo capitalista permita para manter as pessoas felizes num nível administrado, nem que as regras de repressão como a que vige sobre as drogas e outras formas de entorpecimento tenham validade maior ou menor conforme a classe social dos envolvidos.
Os filósofos Theodor Adorno, Herbert Marcuse e Guy Debord escreveram muitas páginas sobre como o capitalismo cria uma indústria para lucrar com o homem fora do trabalho e controlá-lo. Fazer com que ele se sinta passivo e contemplativo, numa relação quase ritual com o que lhe daria prazer, permitindo que o sistema o fisgasse em valores políticos e sociais, assim como criasse uma estrutura que o tornasse cada vez mais pacato.
O que queremos afirmar é que outros tipos de lógica repressiva existem, que convivem e agem de modo adiantado, tentando reprimir antecipadamente o que somente de modo muito remoto possa pôr em xeque qualquer princípio do sistema, seja este material ou moral, como atesta a proibição da maconha, inofensiva até para Fernando Henrique Cardoso, na prestigiosa e tradicionalmente liberal PUC [Universidade Católica].
É igualmente claro que os trabalhadores da bolsa, investidores, gestores de empresas, trabalhadores da noite e turistas continuarão num ritmo acelerado e consumindo drogas estimulantes ilícitas, até mesmo porque o ritmo da vida urbana exige que estejam despertos, ativos e disponíveis a qualquer momento para um turno de extração de mais-valia ininterrupto.
No entanto, as ferramentas de escape e anestesia envolvidas na socialização do prazer podem pressupor um desejo ambíguo, manifesto algumas vezes na realização da esperança, do fim da dor, da comunhão ou mesmo… do comunismo, enquanto outras vezes diga respeito à autodestruição que talvez nos seduza ao reduzir-nos apenas ao prazer autodestrutivo, quando o torpor anula o desprazer e o sofrimento, dando boas vindas ao esquecimento do que se sofre. No entanto, tudo isto são mercadorias com valor agregado.
A Parada Gay e a Virada Cultural sobraram como as únicas aglomerações para o lazer públicas e gratuitas, e não só permitidas, como fomentadas pela Prefeitura [Câmara Municipal]. No entanto, como Kassab e Serra notaram, às vezes juntar as pessoas e deixá-las livres pode dar errado, e é por isso que mantêm a restrição dos ônibus durante a noite. Mesmo assim, ao tentar passear em meio à multidão, notaram que a recepção pode ser diversa, como quando foi “Comparado ao franzino Smeagol, de “O Senhor dos Anéis”. Ou chamado de lindo. Vaiado. Aplaudido. E até sob rajadas de “vinho químico” (álcool com sabor artificial), o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), se submeteu à crítica popular ao se aventurar, à meia-noite de ontem, pelo viaduto do Chá em plena Virada.” A solução? Serra disse que proibiria o vinho barato dos bacantes ano que vem, será que isto bastaria? (Veja aqui.)
Uma exceção da Virada Cultural se mostrou quando a política do gozo consentido teve limites: no show do Racionais Mcs. Pois quando a população pobre e jovem veio ao centro de fato, fora do horário de trabalho, apanharam todos, patrícias, playboys e periféricos, quando estes presenciaram uma das poucas e legítimas expressões atuais da cultura da periferia que desceu até o centro. Foi ali que notamos o quanto o lazer é restrito, até o ponto em que signifique algo atual e de fato potencialize o aspecto político do conflito social que vivemos.
A Parada Gay passa por mais pontos que o protesto, pelos mesmos hospitais, mas é tolerada, desde que seu público, além da opção sexual, consuma. É o comércio que permite que a questão sexual exista para a prefeitura. São Paulo sente falta de um carnaval de rua, isto parece transparecer na Parada Gay, entristecida pelas cenas de violência, quando notamos o que é reservado socialmente para a diferença sexual, quando não é restrita ao consumo em locais isolados e tolerados. Mesmo assim, temos de notar, a Parada é mais tolerada pelo Estadão e o PIG do que os ativistas. Mas apesar de sabermos de seus limites (como quando prenderam José Maria do PSTU [dirigente do principal partido trotskista]), a Parada Gay não era a representação de um movimento social?
Na verdade as pessoas são contidas de diversas formas ao serem induzidas a circular num espaço pré-determinado e controlado, seguro, ou mesmo terem barrada a capacidade de expressão e circulação. Isto se dá inclusive ao se restringir os ônibus em determinados horários em que os habitantes de bairros de periferia não possam fazer o impensável e sair da periferia para o centro, onde restam as poucas áreas de lazer, e fazer como fariam na Virada Cultural, e por que não?
Eles fizeram, e fazem, mas pouco depois notaram que os bares passaram a fechar. Então passaram a andar por aí com um destes vinhos químicos, ruins mas baratos, e conversar e questionar, afinal, por que não há ônibus à noite para os bairros de São Paulo? Por que as únicas “baladas” abertas são, apesar de caras, tão lotadas [cheias] por não conseguir comportar o volume de pessoas expulsas dos bares do centro de São Paulo?
Também a classe média, formada entre outros de estudantes universitários, pode não notar, mas faz uma certa função de “bandeirante” (como disse a socióloga Nahema), expulsando estes habitantes indesejados do centro, pois eles expandem a faixa de consumo de uma região, aumentando o preço da habitação, dos bares e casas noturnas, ajudando a expulsar os moradores de áreas como a do centro.
Junto com estes, o Estadão, como bom xerife do PIG, que já ameaçou dizendo que não há espaço para o Capital e os ativistas na mesma avenida, sabe muito bem como resolver a querela caso tenham pensamentos infelizes e lutem pelo direito de ir e vir daqueles que não têm carro ou são menores de idade: restrição da circulação por idade e porrada.
A destruição do gozo ou a destruição pelo gozo?
Vivo condenado a fazer o que não quero
Então bem comportado às vezes eu me desespero
Se faço alguma coisa sempre alguém vem me dizer
Que isso ou aquilo não se deve fazer
Roberto Carlos
É preferível destruir-se para o patrão, para anular o vazio do desamparo, para a polícia ou para o crack? O PIG, sabemos, opta pelo patrão e sugere o que fazer com as pessoas que não têm onde gozar e onde ir. Enfim, para onde vão as pessoas, quando albergues para moradores de rua fecham e bairros como a Luz e favelas são destruídos para a construção de prédios onde ninguém mora, prédios úteis somente para a especulação imobiliária expandir a acumulação, como ontem foi o Real Parque e hoje acontece em Paraisópolis? O que oferecer para a população de rua, quando toda a imprensa quer que esta desapareça, sendo que eles não têm para onde ir?
Sem qualquer diminutivo, querem que desapareçam, que sejam aniquilados, e estes parecem preferir muitas vezes se aniquilar sozinhos enquanto esperam que a Polícia Militar os liquide, pois os albergues se tornaram hospícios para poucos habitantes e os moradores de rua estão entregues ao vazio. E os jovens, o que o crime não oferece na rua, o Estado abriga na Febem [instituição oficial para acolhimento de menores, onde vigora um estilo prisional], que se lotará mais ainda com o toque de recolher por faixa etária.
Coisa radical, sem dúvida, mas para quem tem recursos materiais de sobra, o lazer aparece como um evento da natureza, uma contemplação de obras, filmes, música com moderada interação, de tal modo que muitas vezes pode resultar no tédio e na busca de prazeres imaginariamente radicais, que envolvam a transgressão que se vê radical. Mesmo que estes, por sua vez, mantenham respeitosamente as coisas em seu lugar, como o sadomasoquismo, que brinca com as imagens do poder mantendo, ao seu final, tudo como está.
Mesmo estes prazeres fixos na imagem pornográfica ou contemplativa dos produtos da indústria cultural em jogos eletrônicos, filmes e demais produtos, podem ser proibidos, isto é, mesmo expulsando as pessoas que podem consumir da rua para a intimidade dos lares, a internet, última bóia salva-vidas de liberdade de expressão formal e comunista nos produtos partilhados, pode deixar de existir graças ao projeto Azeredo, proibindo downloads e uploads, escaneamento de livros úteis aos demais e filmes raros que só possuiriam legendas devido ao esforço altruísta de interessados digitais.
Até a partilha digital se torna alvo da fronteira do Capital na intimidade do que em si não seria proibido, exceto pelo ato de dividir. Ao mesmo tempo, querem controlar a informação, proibindo que mesmo expressões voluntárias de repúdio político ou que formulações de contestação se manifestem, quando os servidores se dispõem a entregar os IPs para autoridades defensoras de direitos autorais e a polícia. Considerado tudo isto, que restará fazer, quando até reclamar se tornará ilegal?
Quando acabarem com a expressão da insatisfação, São Paulo ficará livre dos ativistas?
Fonte: http://passapalavra.info/
O capitalismo criou uma indústria para lucrar com o homem fora do trabalho e controlá-lo; mas existem outros tipos de lógica repressiva, que tentam reprimir antecipadamente o que só de modo muito remoto põe em xeque o sistema. Por Douglas Anfra
«São poucos, porém são… Abrem sulcos escuros
no rosto mais fero e no lombo mais forte.
Serão talvez os potros de bárbaros átilas;
ou os arautos negros que nos manda a Morte.
[…]
Há golpes tão fortes na vida … Eu não sei!»
César Vallejo (poeta que dá nome à rua onde ocorreram os principais incidentes do despejo da favela Real Parque)
O Estadão chama a Paulista livre dos grevistas: advertência a todos os movimentos sociais
O Estadão [designação corrente do jornal O Estado de S. Paulo] já pedia a “Paulista livre dos grevistas” no ano passado, pois, se o PSDB [Partido da Social-Democracia Brasileira, do antigo presidente Fernando Henrique Cardoso, cujo símbolo é o tucano] é deles e São Paulo é do PSDB, nada mais justo que a Avenida Paulista ser considerada dos tucanos do PIG (batizado pelo jornalista Paulo Henrique Amorim de Partido da Imprensa Golpista), e que possa ser um dia rebatizada de Avenida da Imprensa Golpista que, somada à Avenida Roberto Marinho, poderia ser uma segunda homenagem aos apoiadores da ditadura capitalista monopolista. (Veja aqui.)
E agora, finalmente, regozijam-se em seu editorial com uma punição que chamam de exemplar sofrida pela APEOESP [Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo] por causa de um ato com 10 mil pessoas em 5 de outubro de 2005. A multa inicialmente era de 156 mil, mas quando o sindicato recorreu, a multa subiu e desceu entre os juízes estabilizando em 1,6 milhão. Neste mesmo texto exemplar notamos o apelo do Estadão que reflete de todo o PIG:
“a decisão da 4ª Câmara de Direito Privado do TJSP deve servir de advertência a todos os movimentos sociais, organizações não-governamentais e entidades corporativas que insistem em bloquear ruas e avenidas importantes da cidade para realizar passeatas e atos de protesto, dificultando o tráfego e prejudicando a circulação dos paulistanos.” (Veja aqui.)
Podemos notar algo de mais profundo quando olhamos o conjunto desta manifestação de asco pelos que se insurgem em prol do direito da normalidade dos negócios da cidade. Prerrogativa dos que chamam a ordem pública para a anulação de direitos dos que se manifestam, onde sua ordem reflete não apenas o trânsito dos carros e a avidez por lucro segundo um tipo de espírito capitalista desumano, que defende o direito de ir e vir apenas do cidadão de automóvel. Neste sentido parece estar pressuposto um conjunto de modificações políticas que inviabilizem as diversas formas de associação, lazer público e protesto.
Sindicatos
Tal modo de tentar quebrar um sindicato não é novidade, iniciou-se com Fernando Henrique Cardoso, que utilizou intervenção do exército nas refinarias no começo dos anos 90 para pôr fim à greve dos petroleiros. Enquanto fazia isto, iniciava o processo de privatização das refinarias, que posteriormente gerou a base financeira dos investidores brasileiros da bolsa que brincavam de banco imobiliário (como o PIG), enquanto entubavam o povo boliviano com o gasoduto e quebravam o monopólio estatal do petróleo que constava da constituição de 1988.
No final da greve, junto com o então ministro do TST, Almir Pazzianoto, aplicaram uma multa que destruiu a capacidade de mobilização de uma das maiores federações de sindicatos brasileiras. Golpe de mestre de um antigo estudioso de sociologia que estudou também os trabalhadores junto com Florestan:
“Foi o TST que declarou a greve ilegal — e que puniu os 21 sindicatos com uma multa de R$ 100 mil por cada dia dos 21 em que a decisão foi desrespeitada. Houve quem achasse que iria acabar em pizza — mas o fato é que a decisão está sendo cumprida à risca. Cada Sindipetro está devendo R$ 2,1 milhões — e a cobrança judicial, além de determinar o bloqueio das contribuições sindicais (R$ 80 mil mensais no caso de Cubatão) e das contas bancárias, ainda determinou a penhora de todos os bens. Os petroleiros lutaram, e continuam lutando, para livrar-se do pagamento da dívida — uma decisão que consideram política e que não reconhecem. No plano estritamente financeiro, para driblar o confisco, reduziram as contribuições sindicais descontadas em folha pela Petrobrás a simbólicos R$ 0,1. Passaram, então, a recolher os 3% de praxe no boca a boca nas portas das refinarias — e daí o “mendigando” de Averaldo. Não recolhem os R$ 80 mil, ouvem alguns desaforos, mas têm conseguido arrecadar entre R$ 50 mil e R$ 60 mil, o que permite pagar a folha dos 47 funcionários e dos 14 demitidos em conseqüência da greve.
No plano político, os petroleiros tentaram uma anistia via Congresso. Conseguiram a unanimidade da Câmara e a quase unanimidade no Senado — mas amargaram o veto implacável do presidente Fernando Henrique Cardoso. Têm como último recurso a derrubada desse veto via Congresso e o julgamento de um recurso extraordinário que impetraram junto ao Supremo Tribunal Federal. “É tudo que nos resta”, diz Averaldo, consciente de que os bens penhorados, incluindo a bela sede avaliada em quase R$ 2 milhões, podem realmente ir à praça, para serem vendidos em leilão.” (Veja aqui.)
Este caminho parece estar sendo seguido por seu amigo Serra, que foi presidente da UNE [União Nacional de Estudantes]. Tudo bem, sabemos que a UNE é o que é. Sabemos que uma das primeiras medidas do Serra quando presidente dela foi acabar com o alojamento para militantes em encontros na sede da UNE do Rio (esquerda mesmo, ele nunca foi, nem quando era da Ação Popular). Mas ele sabe o que é Movimento Estudantil, foi cassado e fugiu para o Chile, viu a destruição da Frente Popular que o hospedou e fugiu outra vez para a França, e hoje ajuda a desmobilizar estudantes e a classe trabalhadora. Após aprender a lição de Pinochet, seu ataque agora é contra a APEOESP [Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo] e o sindicato dos Trabalhadores da USP [Universidade de São Paulo] com pesadas multas e perseguição política.
Um grande sindicato como a APEOESP, mesmo recuadinho na direção, ainda tem capacidade de mobilização e militantes de base tão bons e imaginativos como o prof. Tonhão, demitido e abandonado pela entidade, mas que deixou seu exemplo e um grande número de associados, por isso, este sindicato ainda apresenta uma possibilidade de movimento que deve ser reprimida.
Junto com esta carga violenta vem o “interdito proibitório”, recurso jurídico do direito civil utilíssimo aos patrões exploradores, afinal, que coisa pode ser melhor que um mandato de reintegração de posse preventivo, isto é, sem que se tenha tomado posse ou existido qualquer indício material de ameaça? Este recurso serve para combater o sindicato antes de qualquer ação que ele faça, pois presume graciosamente que este possa vir a agir de modo radical, a ocupar, a mudar o sentido do uso político de um bem determinado privado ou público, comparando qualquer serviço ao serviço privado bancário.
Esta jurisprudência, que só muito forçosamente pode ser aplicada a outros contextos, é outra das grandes ameaças aos sindicatos de hoje, que faz os escritores do editorial dos jornais e seus amigos dormirem cada vez mais felizes e tranqüilos, pois os protege inclusive contra seus próprios funcionários ao pressupor que estes possam vir a agir algum dia. A ordem está garantida aos patrões e as únicas greves serão de pijama. Mas, do modo como a coisa anda, tais questões não poderão ser discutidas nos bares ou mesmo em casa de pijamas.
Repressão das associações, da juventude e do lazer
O jovem é o mais velho exemplar da humanidade. Pesa-lhe a herança dos conhecimentos acumulados; pesa-lhe o desafio do que não foi conquistado; a inadequação entre o idealismo e o egoísmo prático.
Paulo Mendes Campos
Como vimos, para os sindicatos: multas, quebras, perseguição e interdito proibitório, enquanto para os jovens que podem se indispor com o controle e se insurgir: toques de recolher e até proibição do lazer, pois nada aberto sobrará, pois bares fecham pela lei do Psiu. Só aos boys, Patis e Mauricinhos sobrará a liberdade de lazer, ao entrar em eventos bem pagos e no Rio de Janeiro, como exemplo, até mesmo o baile funk no morro é proibido.
Hoje os espaços sociais de produção do prazer ou lazer são restritos a áreas privadas que detém um progressivo monopólio privado do lazer. O lazer passa a ser proibido em áreas públicas. Todos deverão ficar em silêncio ou ir para a igreja.
Quebra-se até mesmo o tênue equilíbrio da periferia, onde muitas pessoas desde a juventude à velhice vagam tendo de ir atrás de “corres” e “fitas” sem emprego e sem transporte, orbitando entre o boteco, a igreja, o campinho de futebol e o baile. Quando não a “boca”, ou “biqueira”, serve de mediação de conflitos (onde ocorre o “debate”) e de possibilidade de um bico para arranjar um “trocadinho” para consumir o que a TV diz que é bom. E por que não, talvez um carrinho que dê a chance de dar um role por ali mesmo, onde muitas vezes falta o “buzão” [autocarro]?
Nesta mudança das formas de convívio, apesar de ter restado à escola ser o palco das primeiras atividades de socialização (ou talvez das únicas dentro da lei), a escola cada vez mais deixa de se parecer com o cárcere para se tornar efetivamente um, graças aos convênios entre a Secretaria de Segurança Pública e a Secretaria da Educação, pois se deu certo na USP manter a Polícia Militar, por que não abrir espaço à repressão em todas as escolas do estado? A PM protege a instituição contra o aluno e o professor, como aqueles professores perseguidos nominalmente pelas delegacias de ensino e às vezes expressamente pelo palácio dos Bandeirantes (Sede do governo do estado). Muitas escolas até mesmo mandam espiões para as reuniões de professores em greve, como vi pessoalmente em ato da APEOESP.
Se observamos a periferia, mesmo os campinhos de futebol, muitas vezes áreas “nobres” das periferias em pontos planos, estáveis e elevados, são os primeiros locais tomados pela especulação imobiliária quando ela chega, impossibilitando até mesmo estas áreas de lazer, que definem um dos únicos espaços de utilidade pública nestes locais. Os CEUs se tornam progressivamente escolas e deixam de ser palco de atividades esportivas e culturais. Mesmo o grafite e as atividades de hip hop só se tornam possíveis em espaços cooptados nas áreas centrais da cidade. Grafiteiros deixam os muros para as galerias e quem freqüenta depois estes espaços? Novamente, só Patis e Mauricinhos melhor ou pior intencionados.
Do mesmo modo, quaisquer aglomerações parecem estar sendo vigiadas e reprimidas, mesmo as torcidas organizadas, como ocorre com a contenção de todas as reuniões de pessoas que possam vir a se politizar. Um exemplo é a situação que passaram os membros do movimento da Rua São Jorge quando jogados pela polícia no meio da torcida rival.
Com efeito, não negamos que a “sublimação repressiva” exista, isto é, que haja uma quantidade socialmente segura de prazer e lazer que o sistema repressivo capitalista permita para manter as pessoas felizes num nível administrado, nem que as regras de repressão como a que vige sobre as drogas e outras formas de entorpecimento tenham validade maior ou menor conforme a classe social dos envolvidos.
Os filósofos Theodor Adorno, Herbert Marcuse e Guy Debord escreveram muitas páginas sobre como o capitalismo cria uma indústria para lucrar com o homem fora do trabalho e controlá-lo. Fazer com que ele se sinta passivo e contemplativo, numa relação quase ritual com o que lhe daria prazer, permitindo que o sistema o fisgasse em valores políticos e sociais, assim como criasse uma estrutura que o tornasse cada vez mais pacato.
O que queremos afirmar é que outros tipos de lógica repressiva existem, que convivem e agem de modo adiantado, tentando reprimir antecipadamente o que somente de modo muito remoto possa pôr em xeque qualquer princípio do sistema, seja este material ou moral, como atesta a proibição da maconha, inofensiva até para Fernando Henrique Cardoso, na prestigiosa e tradicionalmente liberal PUC [Universidade Católica].
É igualmente claro que os trabalhadores da bolsa, investidores, gestores de empresas, trabalhadores da noite e turistas continuarão num ritmo acelerado e consumindo drogas estimulantes ilícitas, até mesmo porque o ritmo da vida urbana exige que estejam despertos, ativos e disponíveis a qualquer momento para um turno de extração de mais-valia ininterrupto.
No entanto, as ferramentas de escape e anestesia envolvidas na socialização do prazer podem pressupor um desejo ambíguo, manifesto algumas vezes na realização da esperança, do fim da dor, da comunhão ou mesmo… do comunismo, enquanto outras vezes diga respeito à autodestruição que talvez nos seduza ao reduzir-nos apenas ao prazer autodestrutivo, quando o torpor anula o desprazer e o sofrimento, dando boas vindas ao esquecimento do que se sofre. No entanto, tudo isto são mercadorias com valor agregado.
A Parada Gay e a Virada Cultural sobraram como as únicas aglomerações para o lazer públicas e gratuitas, e não só permitidas, como fomentadas pela Prefeitura [Câmara Municipal]. No entanto, como Kassab e Serra notaram, às vezes juntar as pessoas e deixá-las livres pode dar errado, e é por isso que mantêm a restrição dos ônibus durante a noite. Mesmo assim, ao tentar passear em meio à multidão, notaram que a recepção pode ser diversa, como quando foi “Comparado ao franzino Smeagol, de “O Senhor dos Anéis”. Ou chamado de lindo. Vaiado. Aplaudido. E até sob rajadas de “vinho químico” (álcool com sabor artificial), o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), se submeteu à crítica popular ao se aventurar, à meia-noite de ontem, pelo viaduto do Chá em plena Virada.” A solução? Serra disse que proibiria o vinho barato dos bacantes ano que vem, será que isto bastaria? (Veja aqui.)
Uma exceção da Virada Cultural se mostrou quando a política do gozo consentido teve limites: no show do Racionais Mcs. Pois quando a população pobre e jovem veio ao centro de fato, fora do horário de trabalho, apanharam todos, patrícias, playboys e periféricos, quando estes presenciaram uma das poucas e legítimas expressões atuais da cultura da periferia que desceu até o centro. Foi ali que notamos o quanto o lazer é restrito, até o ponto em que signifique algo atual e de fato potencialize o aspecto político do conflito social que vivemos.
A Parada Gay passa por mais pontos que o protesto, pelos mesmos hospitais, mas é tolerada, desde que seu público, além da opção sexual, consuma. É o comércio que permite que a questão sexual exista para a prefeitura. São Paulo sente falta de um carnaval de rua, isto parece transparecer na Parada Gay, entristecida pelas cenas de violência, quando notamos o que é reservado socialmente para a diferença sexual, quando não é restrita ao consumo em locais isolados e tolerados. Mesmo assim, temos de notar, a Parada é mais tolerada pelo Estadão e o PIG do que os ativistas. Mas apesar de sabermos de seus limites (como quando prenderam José Maria do PSTU [dirigente do principal partido trotskista]), a Parada Gay não era a representação de um movimento social?
Na verdade as pessoas são contidas de diversas formas ao serem induzidas a circular num espaço pré-determinado e controlado, seguro, ou mesmo terem barrada a capacidade de expressão e circulação. Isto se dá inclusive ao se restringir os ônibus em determinados horários em que os habitantes de bairros de periferia não possam fazer o impensável e sair da periferia para o centro, onde restam as poucas áreas de lazer, e fazer como fariam na Virada Cultural, e por que não?
Eles fizeram, e fazem, mas pouco depois notaram que os bares passaram a fechar. Então passaram a andar por aí com um destes vinhos químicos, ruins mas baratos, e conversar e questionar, afinal, por que não há ônibus à noite para os bairros de São Paulo? Por que as únicas “baladas” abertas são, apesar de caras, tão lotadas [cheias] por não conseguir comportar o volume de pessoas expulsas dos bares do centro de São Paulo?
Também a classe média, formada entre outros de estudantes universitários, pode não notar, mas faz uma certa função de “bandeirante” (como disse a socióloga Nahema), expulsando estes habitantes indesejados do centro, pois eles expandem a faixa de consumo de uma região, aumentando o preço da habitação, dos bares e casas noturnas, ajudando a expulsar os moradores de áreas como a do centro.
Junto com estes, o Estadão, como bom xerife do PIG, que já ameaçou dizendo que não há espaço para o Capital e os ativistas na mesma avenida, sabe muito bem como resolver a querela caso tenham pensamentos infelizes e lutem pelo direito de ir e vir daqueles que não têm carro ou são menores de idade: restrição da circulação por idade e porrada.
A destruição do gozo ou a destruição pelo gozo?
Vivo condenado a fazer o que não quero
Então bem comportado às vezes eu me desespero
Se faço alguma coisa sempre alguém vem me dizer
Que isso ou aquilo não se deve fazer
Roberto Carlos
É preferível destruir-se para o patrão, para anular o vazio do desamparo, para a polícia ou para o crack? O PIG, sabemos, opta pelo patrão e sugere o que fazer com as pessoas que não têm onde gozar e onde ir. Enfim, para onde vão as pessoas, quando albergues para moradores de rua fecham e bairros como a Luz e favelas são destruídos para a construção de prédios onde ninguém mora, prédios úteis somente para a especulação imobiliária expandir a acumulação, como ontem foi o Real Parque e hoje acontece em Paraisópolis? O que oferecer para a população de rua, quando toda a imprensa quer que esta desapareça, sendo que eles não têm para onde ir?
Sem qualquer diminutivo, querem que desapareçam, que sejam aniquilados, e estes parecem preferir muitas vezes se aniquilar sozinhos enquanto esperam que a Polícia Militar os liquide, pois os albergues se tornaram hospícios para poucos habitantes e os moradores de rua estão entregues ao vazio. E os jovens, o que o crime não oferece na rua, o Estado abriga na Febem [instituição oficial para acolhimento de menores, onde vigora um estilo prisional], que se lotará mais ainda com o toque de recolher por faixa etária.
Coisa radical, sem dúvida, mas para quem tem recursos materiais de sobra, o lazer aparece como um evento da natureza, uma contemplação de obras, filmes, música com moderada interação, de tal modo que muitas vezes pode resultar no tédio e na busca de prazeres imaginariamente radicais, que envolvam a transgressão que se vê radical. Mesmo que estes, por sua vez, mantenham respeitosamente as coisas em seu lugar, como o sadomasoquismo, que brinca com as imagens do poder mantendo, ao seu final, tudo como está.
Mesmo estes prazeres fixos na imagem pornográfica ou contemplativa dos produtos da indústria cultural em jogos eletrônicos, filmes e demais produtos, podem ser proibidos, isto é, mesmo expulsando as pessoas que podem consumir da rua para a intimidade dos lares, a internet, última bóia salva-vidas de liberdade de expressão formal e comunista nos produtos partilhados, pode deixar de existir graças ao projeto Azeredo, proibindo downloads e uploads, escaneamento de livros úteis aos demais e filmes raros que só possuiriam legendas devido ao esforço altruísta de interessados digitais.
Até a partilha digital se torna alvo da fronteira do Capital na intimidade do que em si não seria proibido, exceto pelo ato de dividir. Ao mesmo tempo, querem controlar a informação, proibindo que mesmo expressões voluntárias de repúdio político ou que formulações de contestação se manifestem, quando os servidores se dispõem a entregar os IPs para autoridades defensoras de direitos autorais e a polícia. Considerado tudo isto, que restará fazer, quando até reclamar se tornará ilegal?
Quando acabarem com a expressão da insatisfação, São Paulo ficará livre dos ativistas?
Fonte: http://passapalavra.info/
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Estamos sendo envenenados! Por Marcelo Salles
Estamos sendo envenenados!
Por Marcelo Salles, 05.08.2009
Um dos maiores problemas da atualidade, no Brasil e no mundo, é a falta de segurança alimentar. A negligência do poder público, a desinformação e a falta de fiscalização social permitem que empresas sem escrúpulos lucrem com o envenenamento de terras, rios, plantas, bichos e seres humanos. Pior, aproveitando-se de governos corruptos e/ou incompetentes, as empresas passam a controlar a própria semente, fonte da vida, determinando quem pode ou não plantar. Isto é feito por uma combinação macabra: uma mesma empresa produz a semente e o agrotóxico necessário para que ela germine. A explosão de câncer nos últimos anos está diretamente ligada a isso, não tenho dúvidas. E numa total inversão da realidade, essas empresas passam a imagem de que são boazinhas, que respeitam a natureza e promovem o desenvolvimento. Fazem isso comprando as corporações de mídia e jornalistas que ocupam postos-chave (que perderiam influência com a democratização da mídia). Gente que passa a ser cúmplice do genocídio. Gente que joga no lixo o juramento do jornalista profissional: “A Comunicação é uma missão social. Por isto, juro respeitar o público, combatendo todas as formas de preconceito e discriminação, valorizando os seres humanos em sua singularidade e na luta por sua dignidade”. Quantos mais terão que morrer - como aconteceu com os cigarros - para que alguma coisa seja feita?
Segue abaixo a nota enviada pelo MST, que chama a atenção para este problema e avisa: o Brasil ultrapassou os EUA e já é o maior consumidor de veneno do mundo. A íntegra do documento pode ser lido aqui.
[neste outro link - clique aqui - está a cartilha divulgada pelo Ministério da Agricultura, que explica a importância dos alimentos orgânicos, critica os transgênicos e fala sobre a adoção, em 2010, do selo SISORG, que vai garantir a naturalidade dos alimentos. É uma iniciativa importante, que precisa se manter firme diante das pressões que hão de vir. As ilustrações são do Ziraldo]
Agronegócio transforma o Brasil no maior consumidor de venenos do mundo – 03/08/2009
A partir de informações publicadas pela Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef) – organização patronal que reúne empresas do agronegócio como Basf, Bayer, Down Agrosciences, Dupont, Monsanto e Syngenta – elaboramos um resumo sobre o consumo de venenos na agricultura brasileira.
Os dados são preocupantes. Enquanto as transnacionais exultam com seus lucros, o Brasil ocupa o posto de maior consumidor de venenos do mundo. A posição, antes ocupada pelos Estados Unidos, foi assumida em 2008, ano em que o mercado de agrotóxicos movimentou sete bilhões de dólares.
Foi no ano passado também que uma série de decisões judiciais – obtidas após recursos movidos por empresas de agrotóxicos – impediu a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de realizar a reavaliação de 14 ingredientes ativos (utilizados em mais de 200 agrotóxicos).
Esse cenário contribuiu para o Brasil continuar a produzir e importar agrotóxicos proibidos em diversos países do mundo. Segundo informações do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas da Fundação Oswaldo Cruz, o que não é vendido União Européia, Estados Unidos, Canadá, Japão e China, acaba vindo para o mercado brasileiro.
Neste ano de 2009, a Avisa retomou os processos de reavaliação de 13 substâncias. Porém, os interesses das empresas de agrotóxicos mostram que mais uma vez será árdua a tarefa do órgão. Dentre os dados recolhidos de informações da Andef, está o que a associação chama de “Desafios Estratégicos para a Indústria de Defensivos Agrícolas”, uma lista com oito itens que tem como ponto de destaque a necessidade de “agilizar processo de registro de novos produtos”. Percebe-se também que as indústrias de veneno estão preocupadas com os consumidores. Em quarto lugar, vemos que um dos desafios apontados é o de “esclarecer para a sociedade que alimentos ‘convencionais’ [sic] do agronegócio são mais saudáveis”.
Fonte: http://www.fazendomedia.com/
Por Marcelo Salles, 05.08.2009
Um dos maiores problemas da atualidade, no Brasil e no mundo, é a falta de segurança alimentar. A negligência do poder público, a desinformação e a falta de fiscalização social permitem que empresas sem escrúpulos lucrem com o envenenamento de terras, rios, plantas, bichos e seres humanos. Pior, aproveitando-se de governos corruptos e/ou incompetentes, as empresas passam a controlar a própria semente, fonte da vida, determinando quem pode ou não plantar. Isto é feito por uma combinação macabra: uma mesma empresa produz a semente e o agrotóxico necessário para que ela germine. A explosão de câncer nos últimos anos está diretamente ligada a isso, não tenho dúvidas. E numa total inversão da realidade, essas empresas passam a imagem de que são boazinhas, que respeitam a natureza e promovem o desenvolvimento. Fazem isso comprando as corporações de mídia e jornalistas que ocupam postos-chave (que perderiam influência com a democratização da mídia). Gente que passa a ser cúmplice do genocídio. Gente que joga no lixo o juramento do jornalista profissional: “A Comunicação é uma missão social. Por isto, juro respeitar o público, combatendo todas as formas de preconceito e discriminação, valorizando os seres humanos em sua singularidade e na luta por sua dignidade”. Quantos mais terão que morrer - como aconteceu com os cigarros - para que alguma coisa seja feita?
Segue abaixo a nota enviada pelo MST, que chama a atenção para este problema e avisa: o Brasil ultrapassou os EUA e já é o maior consumidor de veneno do mundo. A íntegra do documento pode ser lido aqui.
[neste outro link - clique aqui - está a cartilha divulgada pelo Ministério da Agricultura, que explica a importância dos alimentos orgânicos, critica os transgênicos e fala sobre a adoção, em 2010, do selo SISORG, que vai garantir a naturalidade dos alimentos. É uma iniciativa importante, que precisa se manter firme diante das pressões que hão de vir. As ilustrações são do Ziraldo]
Agronegócio transforma o Brasil no maior consumidor de venenos do mundo – 03/08/2009
A partir de informações publicadas pela Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef) – organização patronal que reúne empresas do agronegócio como Basf, Bayer, Down Agrosciences, Dupont, Monsanto e Syngenta – elaboramos um resumo sobre o consumo de venenos na agricultura brasileira.
Os dados são preocupantes. Enquanto as transnacionais exultam com seus lucros, o Brasil ocupa o posto de maior consumidor de venenos do mundo. A posição, antes ocupada pelos Estados Unidos, foi assumida em 2008, ano em que o mercado de agrotóxicos movimentou sete bilhões de dólares.
Foi no ano passado também que uma série de decisões judiciais – obtidas após recursos movidos por empresas de agrotóxicos – impediu a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de realizar a reavaliação de 14 ingredientes ativos (utilizados em mais de 200 agrotóxicos).
Esse cenário contribuiu para o Brasil continuar a produzir e importar agrotóxicos proibidos em diversos países do mundo. Segundo informações do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas da Fundação Oswaldo Cruz, o que não é vendido União Européia, Estados Unidos, Canadá, Japão e China, acaba vindo para o mercado brasileiro.
Neste ano de 2009, a Avisa retomou os processos de reavaliação de 13 substâncias. Porém, os interesses das empresas de agrotóxicos mostram que mais uma vez será árdua a tarefa do órgão. Dentre os dados recolhidos de informações da Andef, está o que a associação chama de “Desafios Estratégicos para a Indústria de Defensivos Agrícolas”, uma lista com oito itens que tem como ponto de destaque a necessidade de “agilizar processo de registro de novos produtos”. Percebe-se também que as indústrias de veneno estão preocupadas com os consumidores. Em quarto lugar, vemos que um dos desafios apontados é o de “esclarecer para a sociedade que alimentos ‘convencionais’ [sic] do agronegócio são mais saudáveis”.
Fonte: http://www.fazendomedia.com/
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Moscardos Morais – Friedrich Nietzsche
Moscardos Morais – Esses moralistas a que falta o amor do conhecimento e que apenas conhecem o prazer de infligir dor – eles têm o espírito e o enfado dos habitantes das cidadezinhas; sua distração, cruel e lastimável, é vigiar bastante o próximo e, despercebidamente, esconder uma agulha de modo que ele nela se fira. Eles retêm a má-criação de meninos que não podem estar contentes sem caçar e maltratar alguma coisa viva ou morta.
Friedrich Nietzsche
• Citação retirada do livro Aurora (Cia. Das Letras – Paulo César de Souza)
Friedrich Nietzsche
• Citação retirada do livro Aurora (Cia. Das Letras – Paulo César de Souza)
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
"Companheiro" era um infiltrado do FBI - ANA
"Companheiro" era um infiltrado do FBI
[Recentemente foi descoberto um agente secreto do FBI que se infiltrou e espionou as comunidades anarquistas e anti-guerra nas cidades de Tacoma e Olympia, localizadas no Estado de Washington. Nos últimos dois anos o militar participou de reuniões, eventos e ações organizadas pelos ativistas em ambas as cidades levantando informações sobre ele/as. Suspeita-se que exista uma grande rede de espionagem em todo Estados Unidos mirando anarquistas, ecologistas radicais, ativistas anti-guerra, entre outros dissidentes. A seguir um texto escrito por um companheiro estadunidense que também pode servir de alerta para comunidades anarquistas fora daquele país.]
Um aviso aos companheiro/as anarquistas
A caça às bruxas continua. A Limpeza Vermelha e o McCartismo, muitos diriam, são relíquias dolorosas, e pertencem ao passado. Infelizmente, como o programa jornalístico independente Democracy Now! (Democracia Já!) divulgou, isto não é verdade.
O Governo Federal dos Estados Unidos, uma entidade que somente existe para receber ordens do setor privado (veja o desastre do setor da saúde), ainda está tentado criminalmente encontrar terroristas insanos que bombardeiam as pessoas, vivem nas florestas, e aspiram um mundo de caos, que também se auto-referem como anarquistas. Para o desalento deles, isto é, na verdade, um tanto difícil de encontrar.
Esta não é a hora e nem o lugar em que tratarei sobre violência; que é uma discussão muito válida. Mas não hesitaria em afirmar que o/as anarquistas são estatisticamente muito menos violentos que os chefes de estado, corporações ou a maioria dos outros grupos.
Infelizmente para o/as anarquistas, isto não é uma relíquia, e devemos ser cauteloso/as e vigilantes em relação ao que fazemos e com quem nos juntamos.
Brendan Maslauskas Dunn, anarquista e ativista antimilitarista, descobriu que um companheiro era na verdade um espião militar, assim como o Democracy Now! contou. Ele descobriu que seu amigo “John Jacob” era na verdade um espião chamado John Taylor, um espião militar que atuava via The Freedom of Information Act¹ (Ato pela Liberdade de Informação).
Qual era a missão do John Taylor? Maslauskas Dunn disse que ele fazia parte de um enorme projeto do FBI para monitorar os meios anarquistas a fim de encontrar motivos para dar batidas policiais nos Infoshops, ou nas casas do/as ativistas.
Segundo Maslaukas, entre outras ações realizadas, “a polícia colocou uma câmera, uma câmera de vigilância, na rua que dá para o centro comunitário do/as anarquistas em Tacoma, chamado Pitch Pipe Infoshop”.
Mais perturbador, a polícia planejava fazer uma batida na casa onde Maslauskas e outro/as ativistas vivem na tentativa de encontrar explosivos, drogas, e outras armas.
Companheiro/as, espalhem essa mensagem, especialmente em Tacoma e Olympia. Neste ponto, não sabemos empiricamente o quão meticulosa permanece esta operação. Então, tome cuidado com as novas pessoas dentro de seus próprios meios locais, mantenha suas orelhas e seus olhos abertos, e divulgue a informação para que companheiro/as anarquistas possam ficar atento/as. Com o capital global enfrentando crises, é muito provável que a caça às bruxas se intensifique.
Alex Bradshaw
[1] Lei que permite espionagem sem mandado judicial nos Estados Unidos, criada pelo ex-presidente estadunidense George W. Bush.
Tradução > Marcelo Yokoi
agência de notícias anarquistas-ana
Terreiro do sítio -
Rebrilham na escuridão
olhos de coruja.
Regina Alonso
[Recentemente foi descoberto um agente secreto do FBI que se infiltrou e espionou as comunidades anarquistas e anti-guerra nas cidades de Tacoma e Olympia, localizadas no Estado de Washington. Nos últimos dois anos o militar participou de reuniões, eventos e ações organizadas pelos ativistas em ambas as cidades levantando informações sobre ele/as. Suspeita-se que exista uma grande rede de espionagem em todo Estados Unidos mirando anarquistas, ecologistas radicais, ativistas anti-guerra, entre outros dissidentes. A seguir um texto escrito por um companheiro estadunidense que também pode servir de alerta para comunidades anarquistas fora daquele país.]
Um aviso aos companheiro/as anarquistas
A caça às bruxas continua. A Limpeza Vermelha e o McCartismo, muitos diriam, são relíquias dolorosas, e pertencem ao passado. Infelizmente, como o programa jornalístico independente Democracy Now! (Democracia Já!) divulgou, isto não é verdade.
O Governo Federal dos Estados Unidos, uma entidade que somente existe para receber ordens do setor privado (veja o desastre do setor da saúde), ainda está tentado criminalmente encontrar terroristas insanos que bombardeiam as pessoas, vivem nas florestas, e aspiram um mundo de caos, que também se auto-referem como anarquistas. Para o desalento deles, isto é, na verdade, um tanto difícil de encontrar.
Esta não é a hora e nem o lugar em que tratarei sobre violência; que é uma discussão muito válida. Mas não hesitaria em afirmar que o/as anarquistas são estatisticamente muito menos violentos que os chefes de estado, corporações ou a maioria dos outros grupos.
Infelizmente para o/as anarquistas, isto não é uma relíquia, e devemos ser cauteloso/as e vigilantes em relação ao que fazemos e com quem nos juntamos.
Brendan Maslauskas Dunn, anarquista e ativista antimilitarista, descobriu que um companheiro era na verdade um espião militar, assim como o Democracy Now! contou. Ele descobriu que seu amigo “John Jacob” era na verdade um espião chamado John Taylor, um espião militar que atuava via The Freedom of Information Act¹ (Ato pela Liberdade de Informação).
Qual era a missão do John Taylor? Maslauskas Dunn disse que ele fazia parte de um enorme projeto do FBI para monitorar os meios anarquistas a fim de encontrar motivos para dar batidas policiais nos Infoshops, ou nas casas do/as ativistas.
Segundo Maslaukas, entre outras ações realizadas, “a polícia colocou uma câmera, uma câmera de vigilância, na rua que dá para o centro comunitário do/as anarquistas em Tacoma, chamado Pitch Pipe Infoshop”.
Mais perturbador, a polícia planejava fazer uma batida na casa onde Maslauskas e outro/as ativistas vivem na tentativa de encontrar explosivos, drogas, e outras armas.
Companheiro/as, espalhem essa mensagem, especialmente em Tacoma e Olympia. Neste ponto, não sabemos empiricamente o quão meticulosa permanece esta operação. Então, tome cuidado com as novas pessoas dentro de seus próprios meios locais, mantenha suas orelhas e seus olhos abertos, e divulgue a informação para que companheiro/as anarquistas possam ficar atento/as. Com o capital global enfrentando crises, é muito provável que a caça às bruxas se intensifique.
Alex Bradshaw
[1] Lei que permite espionagem sem mandado judicial nos Estados Unidos, criada pelo ex-presidente estadunidense George W. Bush.
Tradução > Marcelo Yokoi
agência de notícias anarquistas-ana
Terreiro do sítio -
Rebrilham na escuridão
olhos de coruja.
Regina Alonso
A escola como instrumento do capitalismo - Por Cléber Araújo
A escola como instrumento do capitalismo
Por Cléber Araújo, 03.08.2009
Neste artigo queremos refletir sobre um tema que, nos últimos anos, tem pautado os meios de comunicação no tocante à educação escolar: o sistema de cotas para alunos da rede de ensino público, negros e mestiços, beneficiando o ingresso nas universidades públicas, tem sido motivo de muitas discussões.
O principal argumento de quem se manifesta contra é a afirmação de que o sistema de cotas é um tiro que vai sair pela culatra, que esse é um projeto que reforça e estimula o racismo. Já quem se manifesta a favor do projeto justifica que o sistema de cotas é uma questão de justiça com os que têm menos oportunidade na sociedade.
A indagação que faço é diferente. Não me questiono se é justo ou injusto o sistema de cotas tão polemizado. A pergunta que constantemente me faço é: por que os jovens da rede de ensino público, principalmente os das comunidades carentes, normalmente não alcançam sucesso nos processos de vestibular? Conseqüentemente essa pergunta conduz a outras. Será que a capacidade cognitiva desses jovens é inferior? Será que é uma questão de puro desinteresse? Ou será que o verdadeiro problema está na instituição escolar?
Os sintomas da mazela que afligem a educação pública podem ser percebidos, não só mediante o massivo fracasso nos vestibulares, mas ao longo de todo o processo de escolarização, através das reprovações e desistências constatadas. Na verdade, é uma minoria que consegue concluir o ensino médio e prestar o vestibular.
Analisando o histórico da educação escolar fica claro que o problema não está no aluno, mas no sistema de relação cultural imposto pela instituição escola.
Voltando um pouco no tempo podemos entender o contexto do fracasso escolar da classe popular.
Na década de sessenta uma série de estudos foram realizadas nos EUA para diagnosticar as causas do fracasso escolar das crianças da classe popular. O motivo que levou a essa série de estudos foram as reivindicações da classe popular em busca da igualdade social.
Os estudos realizados tinham como método pesquisas comparativas entre crianças da classe elitizada (dominante) e da classe popular (dominada). Essas pesquisas evidenciaram que, de fato, as repetições e as desistências nas escolas aconteciam em grande escala na camada popular.
Como justificativa para essa fatalidade elaboraram a ideologia do dom, que consiste na capacidade intelectual do indivíduo. Ou seja, a oportunidade que a escola dá é igual para todos, o que vai definir o desempenho do aluno é o dom; inteligência, aptidão e talento individual. Dessa forma, não seria da escola a responsabilidade pelo fracasso do aluno, mas da falta dessas características no aluno. Assim, seria da responsabilidade da escola lidar com as indiferenças, preparando os mais capacitados para exame vestibulares e os menos dotados de capacidade intelectual para cursos técnicos. Apesar de cientificamente essa ideologia ser contestada, ela permanece muito presente em nossa sociedade.
Interessante que chegaram a utilizar o contexto da ideologia do dom para defender as diferenças sociais, com o argumento que a posição social do individuo é determinada pela sua inteligência e aptidão. Será que ainda hoje essa ideologia não é defendida?
Outra pesquisa apresentou como causa para o fracasso escolar da classe popular a ideologia da deficiência cultural. Nessa ideologia, o que determina o desenvolvimento escolar são as diferenças sociais, ou melhor, a forma de socialização da criança dentro do contexto social em que vive que permite o desenvolvimento de hábitos, conhecimentos, habilidades e atitudes que influenciarão diretamente no rendimento escolar.
Na verdade, o que é defendido pela ideologia da deficiência cultural é a superioridade da cultura da classe dominante. O grande argumento dos partidários dessa ideologia é que o meio cultural em que vivem as crianças da classe dominada é deficiente, privado e carente de cultura; tendo como conseqüência a falta de estímulos necessários para o aprendizado.
Assim como na ideologia do dom, a ideologia da deficiência cultural aponta como responsável para o fracasso escolar o aluno, isentando a escola de culpa. Dentro do contexto dessa ideologia, a escola desempenha o papal de tratar (curar) a patologia da deficiência cultural. É importante ressaltar que a ideologia da deficiência cultural foi facilmente incorporada e difundida pelos países capitalistas.
Uma terceira explicação elaborada para tentar explicar o fracasso na escola, da classe popular, partiu da ideologia das diferenças culturais. Tal ideologia, diferentemente da ideologia da deficiência cultural, não qualifica as diferentes culturas como superior ou inferior, mas apenas reconhece as diversidades de culturas; diferentes uma das outras, porém, igualmente estruturadas, coerentes e complexas. Diferente das outras duas ideologias apresentadas, essa ideologia diagnosticou como principal causa do fracasso escolar a postura da escola como instituição a serviço da sociedade capitalista, que assume e valoriza a cultura da classe dominante. Dentro desse sistema, o aluno da classe dominada tem que se adequar aos costumes culturais (linguagem, normas, hábitos, conhecimentos) da classe dominante, que são apresentados como certos e, ao mesmo tempo, descobre que os seus costumes culturais são considerados errados e insuficientes para o convívio social. Esse processo de marginalização cultural adotado como metodologia de ensino nas escolas é o que ocasiona o fracasso escolar.
Por ser uma instituição que pertence e presta serviços ao sistema capitalista, a escola desenvolve metodologias e práticas de ensino que favorecem a classe dominante da sociedade. As três teorias apresentaram fatores que estão fortemente presentes no nosso sistema educacional. A aptidão intelectual é uma ideologia que ainda influencia a divisão de turmas nos colégios, turmas fracas e fortes; que determina quem vai fazer faculdade e vai obter o sucesso profissional e quem vai ser apenas mais uma peça de troca no mercado de trabalho.
A questão cultural é o que mais implica para o sucesso e o fracasso do aluno. O fato de a escola assumir a cultura da classe dominante – inclusive a linguagem – como padrão, fortalece a idéia preconceituosa de que a cultura da classe dominada é inferior. Dentro da sala de aula, a escolha por uma cultura é a prática perfeita da marginalização. A criança da classe dominante, ao iniciar seu estudo, dá seqüência ao que já foi aprendido no meio familiar e social. Numa situação contrária a essa, a criança da classe dominada, dentro da escola, tem que aprender uma nova linguagem, novos hábitos e costumes para ser aceito socialmente e, o pior, descobre que a sua cultura, tudo o que ele é, não é aceito pela sociedade. O que desenvolve nessa criança o sentimento de inferioridade e não o aprendizado.
Então, o que devemos cobrar dos nossos governantes são mais do que cotas para ingressar na faculdade. Não que essas iniciativas não sejam válidas, claro que são. Mas como foi citado, apenas uma minoria da nossa classe consegue concluir o segundo grau e com algumas deficiências. O que devemos esperar, ou melhor, cobrar das autoridades é uma educação digna para nossas crianças e adolescentes, para que no futuro elas possam conquistar, verdadeiramente, a igualdade social.
* Este artigo tem como fundamentação teórica o livro “LINGUAGEM E ESCOLA Uma perspectiva social” da autora Magda Soares.
Fonte: http://www.fazendomedia.com/
Por Cléber Araújo, 03.08.2009
Neste artigo queremos refletir sobre um tema que, nos últimos anos, tem pautado os meios de comunicação no tocante à educação escolar: o sistema de cotas para alunos da rede de ensino público, negros e mestiços, beneficiando o ingresso nas universidades públicas, tem sido motivo de muitas discussões.
O principal argumento de quem se manifesta contra é a afirmação de que o sistema de cotas é um tiro que vai sair pela culatra, que esse é um projeto que reforça e estimula o racismo. Já quem se manifesta a favor do projeto justifica que o sistema de cotas é uma questão de justiça com os que têm menos oportunidade na sociedade.
A indagação que faço é diferente. Não me questiono se é justo ou injusto o sistema de cotas tão polemizado. A pergunta que constantemente me faço é: por que os jovens da rede de ensino público, principalmente os das comunidades carentes, normalmente não alcançam sucesso nos processos de vestibular? Conseqüentemente essa pergunta conduz a outras. Será que a capacidade cognitiva desses jovens é inferior? Será que é uma questão de puro desinteresse? Ou será que o verdadeiro problema está na instituição escolar?
Os sintomas da mazela que afligem a educação pública podem ser percebidos, não só mediante o massivo fracasso nos vestibulares, mas ao longo de todo o processo de escolarização, através das reprovações e desistências constatadas. Na verdade, é uma minoria que consegue concluir o ensino médio e prestar o vestibular.
Analisando o histórico da educação escolar fica claro que o problema não está no aluno, mas no sistema de relação cultural imposto pela instituição escola.
Voltando um pouco no tempo podemos entender o contexto do fracasso escolar da classe popular.
Na década de sessenta uma série de estudos foram realizadas nos EUA para diagnosticar as causas do fracasso escolar das crianças da classe popular. O motivo que levou a essa série de estudos foram as reivindicações da classe popular em busca da igualdade social.
Os estudos realizados tinham como método pesquisas comparativas entre crianças da classe elitizada (dominante) e da classe popular (dominada). Essas pesquisas evidenciaram que, de fato, as repetições e as desistências nas escolas aconteciam em grande escala na camada popular.
Como justificativa para essa fatalidade elaboraram a ideologia do dom, que consiste na capacidade intelectual do indivíduo. Ou seja, a oportunidade que a escola dá é igual para todos, o que vai definir o desempenho do aluno é o dom; inteligência, aptidão e talento individual. Dessa forma, não seria da escola a responsabilidade pelo fracasso do aluno, mas da falta dessas características no aluno. Assim, seria da responsabilidade da escola lidar com as indiferenças, preparando os mais capacitados para exame vestibulares e os menos dotados de capacidade intelectual para cursos técnicos. Apesar de cientificamente essa ideologia ser contestada, ela permanece muito presente em nossa sociedade.
Interessante que chegaram a utilizar o contexto da ideologia do dom para defender as diferenças sociais, com o argumento que a posição social do individuo é determinada pela sua inteligência e aptidão. Será que ainda hoje essa ideologia não é defendida?
Outra pesquisa apresentou como causa para o fracasso escolar da classe popular a ideologia da deficiência cultural. Nessa ideologia, o que determina o desenvolvimento escolar são as diferenças sociais, ou melhor, a forma de socialização da criança dentro do contexto social em que vive que permite o desenvolvimento de hábitos, conhecimentos, habilidades e atitudes que influenciarão diretamente no rendimento escolar.
Na verdade, o que é defendido pela ideologia da deficiência cultural é a superioridade da cultura da classe dominante. O grande argumento dos partidários dessa ideologia é que o meio cultural em que vivem as crianças da classe dominada é deficiente, privado e carente de cultura; tendo como conseqüência a falta de estímulos necessários para o aprendizado.
Assim como na ideologia do dom, a ideologia da deficiência cultural aponta como responsável para o fracasso escolar o aluno, isentando a escola de culpa. Dentro do contexto dessa ideologia, a escola desempenha o papal de tratar (curar) a patologia da deficiência cultural. É importante ressaltar que a ideologia da deficiência cultural foi facilmente incorporada e difundida pelos países capitalistas.
Uma terceira explicação elaborada para tentar explicar o fracasso na escola, da classe popular, partiu da ideologia das diferenças culturais. Tal ideologia, diferentemente da ideologia da deficiência cultural, não qualifica as diferentes culturas como superior ou inferior, mas apenas reconhece as diversidades de culturas; diferentes uma das outras, porém, igualmente estruturadas, coerentes e complexas. Diferente das outras duas ideologias apresentadas, essa ideologia diagnosticou como principal causa do fracasso escolar a postura da escola como instituição a serviço da sociedade capitalista, que assume e valoriza a cultura da classe dominante. Dentro desse sistema, o aluno da classe dominada tem que se adequar aos costumes culturais (linguagem, normas, hábitos, conhecimentos) da classe dominante, que são apresentados como certos e, ao mesmo tempo, descobre que os seus costumes culturais são considerados errados e insuficientes para o convívio social. Esse processo de marginalização cultural adotado como metodologia de ensino nas escolas é o que ocasiona o fracasso escolar.
Por ser uma instituição que pertence e presta serviços ao sistema capitalista, a escola desenvolve metodologias e práticas de ensino que favorecem a classe dominante da sociedade. As três teorias apresentaram fatores que estão fortemente presentes no nosso sistema educacional. A aptidão intelectual é uma ideologia que ainda influencia a divisão de turmas nos colégios, turmas fracas e fortes; que determina quem vai fazer faculdade e vai obter o sucesso profissional e quem vai ser apenas mais uma peça de troca no mercado de trabalho.
A questão cultural é o que mais implica para o sucesso e o fracasso do aluno. O fato de a escola assumir a cultura da classe dominante – inclusive a linguagem – como padrão, fortalece a idéia preconceituosa de que a cultura da classe dominada é inferior. Dentro da sala de aula, a escolha por uma cultura é a prática perfeita da marginalização. A criança da classe dominante, ao iniciar seu estudo, dá seqüência ao que já foi aprendido no meio familiar e social. Numa situação contrária a essa, a criança da classe dominada, dentro da escola, tem que aprender uma nova linguagem, novos hábitos e costumes para ser aceito socialmente e, o pior, descobre que a sua cultura, tudo o que ele é, não é aceito pela sociedade. O que desenvolve nessa criança o sentimento de inferioridade e não o aprendizado.
Então, o que devemos cobrar dos nossos governantes são mais do que cotas para ingressar na faculdade. Não que essas iniciativas não sejam válidas, claro que são. Mas como foi citado, apenas uma minoria da nossa classe consegue concluir o segundo grau e com algumas deficiências. O que devemos esperar, ou melhor, cobrar das autoridades é uma educação digna para nossas crianças e adolescentes, para que no futuro elas possam conquistar, verdadeiramente, a igualdade social.
* Este artigo tem como fundamentação teórica o livro “LINGUAGEM E ESCOLA Uma perspectiva social” da autora Magda Soares.
Fonte: http://www.fazendomedia.com/
Por que a vida no Oriente Médio continua encalhada na Idade Média? Robert Fisk
Por que a vida no Oriente Médio continua encalhada na Idade Média?
Robert Fisk, The Independent, UK
Por que o mundo árabe – falemos terrivelmente claramente – é tão atrasado? Por que tantos ditadores, tão ralos direitos humanos, tanta 'segurança' e tortura, tantos analfabetos?
Por que esse mundo destroçado, tão rico em petróleo, tem, em tempos de computador, tantos milhões de analfabetos, mal nutridos, além de tantos corruptos? Sim, eu sei da história do colonialismo ocidental, as conspirações sinistras do Ocidente, o argumento árabe de que não se depõem xeiques e reis e autocratas, além de imans e emires, quando "o inimigo está à porta". Há verdade nisso, mas não suficiente verdade.
O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (UNDP) aí está com mais um relatório, o quinto – feito por analistas e especialistas árabes, observem bem –, que denuncia o espantoso estado de atraso em que vive parte significativa do Oriente Médio. Fala da "fragilidade das estruturas políticas, sociais, econômicas e ambientais da Região (...), da vulnerabilidade à intervenção do exterior". Mas será que a desertificação explicaria o analfabetismo – maior entre as mulheres –, ou o Estado árabe o qual, o relatório admite, muitas vezes "é mais ameaça à segurança humana, do que instrumento para prover segurança"?
Rami Khouri, jornalista árabe, escreveu muito claramente, semana passada: "Como enfrentar as causas ocultas de nossa mediocridade e implantar mudanças reais ancoradas em cidadania sólida, economia produtiva e Estado estável continua a ser o enigma que continua a desafiar três gerações de árabes". O PIB real per capita na Região – um dos indicadores que mais chocaram Khouri – cresceu apenas 6,4% entre 1980 e 2004. Apenas 0,5% ao ano, taxa menor que a de 198 dos 217 países analisados no CIA World Factbook em 2008. Isso, para uma população árabe – 150 milhões em 1980 –, que chegará a 400 milhões em 2015.
Vejo, eu mesmo, quase tudo isso. A primeira vez em que estive no Oriente Médio, em 1976, já havia gente demais. As ruas malcheirosas, tão cheias que mal se pode andar nelas, do Cairo, já estavam sempre cheias, dia e noite, com quase um milhão de sem-tetos, muitos dos quais viviam nos grandes cemitérios otomanos. As casas árabes são imaculadamente limpas, mas as ruas são imundas, muitas vezes repugnantes, sujeira e lixo espalhados pelas calçadas. Mesmo no belo Líbano, onde há uma espécie de democracia e cujo povo está entre os mais cultos e bem educados de todo o Oriente Médio, o fenômeno é o mesmo. Nas vilas das montanhas do sul, as casas, sempre, rigorosa e perfeitamente limpas. Mas por que as ruas e os arredores das vilas são sempre tão sujos?
Suspeito que haja, sim, algum problema com a cabeça dos árabes: eles não se sentem donos dos próprios países. Constantemente expostos a efusões de entusiasmo em nome de uma "unidade" árabe ou nacional, acho que não sentem que pertencem à terra ou que a terra é sua, como os ocidentais sentimos. Quase sempre, ou muitas vezes, impedidos de eleger quem os represente realmente – até no Líbano, exceto no contexto das tribos ou do sectarismo – as pessoas sentem-se "descartadas", sentem-se excluídas, excetuadas. A rua, o país, como entidade territorial física pertence a outro, a alguém, não ao povo, aos habitantes. E, claro, no instante em que um movimento brota e – caso ainda mais grave – torna-se popular, introduzem-se novas leis de exceção que imediatamente tornam ilegal o movimento, ou o declaram "terrorista". Assim, a responsabilidade por cuidar dos jardins, dos arredores das cidades e das ruas é sempre transferida, sempre é de algum outro.
Os funcionários do Estado – que trabalham diretamente para o Estado e suas autarquias corruptas – também sentem que sua existência depende da mesma corrupção sobre a qual viceja o próprio Estado. A população torna-se parte da corrupção de todos. Nunca esqueço de um árabe dono de terras, há anos, reclamando das campanhas anti-corrupção de seu governo. "Antigamente, era pagar a propina ao funcionário certo, e consertavam o telefone, as bombas d'água voltavam a funcionar, voltávamos a ter energia elétrica" – dizia ele. "Hoje em dia, Mr. Robert, não posso subornar qualquer um, nem consigo subornar todos nem sei a quem subornar. Então... nada funciona!"
Desde o primeiro relatório do UNDP, de 2002, a coisa era já deprimente. Identificavam-se três principais obstáculos ao desenvolvimento humano no mundo árabe: o crescente "déficit" de liberdade, de direitos para as mulheres e de conhecimento. George W Bush – aquele, o da liberdade eterna, democracia eterna etc. etc. além de guerra eterna e eterno massacre no Iraque –, por exemplo, foi sensível a essas dificuldades. Até Hosni Mubarak do Egito (aquele, o do sucesso eleitoral superior a 90%), compreensivelmente irritado por estar ouvindo sermão do homem que rebatizou o "terror", disse a Tony Blair em 2004 que a modernização teria de considerar "as tradições e a cultura da Região".
Alguma solução para a guerra árabe-israelense resolverá todos esses problemas? Talvez, sim, alguns deles. Sem o constante desafio da crise, seria cada vez mais difícil renovar as leis de exceção, não aprovar constituições, negar qualquer legalidade ou constitucionalidade, distrair as populações porque, se não forem distraídas, há risco de que se ponham a exigir mudanças políticas radicais. Às vezes, temo que os problemas tenham-se aprofundado demais, que, como onde há esgoto que vaza há muito tempo, toda a terra em que pisam os povos árabes esteja infiltrada de problemas, porosa, frágil, e que sobre ela já nada se possa construir.
Foi para mim enorme alegria, há alguns meses, em palestra na Universidade do Cairo – aquela, a mesma na qual Barack Obama praticou diplomacia soft com o mundo muçulmano –, descobrir tantos alunos brilhantes, muitas moças nas classes e o quanto são mais bem-educados e mais bem formados, hoje, em comparação ao que vi em visitas anteriores. Mesmo assim, muitos, muitos, só pensam em mudar-se para o Ocidente. O Corão é documento preciosíssimo – mas um Green Card também é. E quem os poderia culpar, se Cairo está cheia de engenheiros pós-graduados que ganham a vida dirigindo táxis?
Quanto ao equilíbrio, sim, uma paz séria entre palestinos e israelenses, sim, ajudaria muito a reequilibrar os espantosos desequilíbrios que atacam como praga a sociedade árabe. Quem já não tenha energia para protestar contra a escandalosa injustiça que é aquela guerra, talvez reencontre forças para lutar contra outras escandalosas injustiças. Uma delas, por exemplo, a violência doméstica, a qual – apesar de os povos árabes serem, sim, muito ligados à família – é mais disseminada na sociedade árabe do que os ocidentais talvez saibam (ou os árabes admitam).
De qualquer modo, estou convencido, sim, de que, militarmente, temos de sair de lá. Temos de desocupar o Oriente Médio. Temos de sair de lá.
Façam o que for preciso. Temos de sair de lá. Mandem para lá professores, economistas, agrônomos. Mas não soldados. Os soldados têm de voltar para casa. Não defendem nada e ninguém, no Oriente Médio. Não nos defendem. Espalham, lá, caos idêntico e alimentam a mesma injustiça que fazem engordar as Al-Qaedas do mundo. Não, os árabes – ou, fora do mundo árabe, os iranianos ou os afegãos – não gerarão democracias eco-amantes, gênero-igualitárias, as risonhas e festejantes democracias que todos gostaríamos de ver (ou de ser). Mas, livres da "nossa" tutela, os árabes desenvolverão suas sociedades, em benefício das pessoas que as constituem. Talvez, assim, os árabes convençam-se de que são donos da terra onde vivem.
Fonte: http://www.novae.inf.br
Robert Fisk, The Independent, UK
Por que o mundo árabe – falemos terrivelmente claramente – é tão atrasado? Por que tantos ditadores, tão ralos direitos humanos, tanta 'segurança' e tortura, tantos analfabetos?
Por que esse mundo destroçado, tão rico em petróleo, tem, em tempos de computador, tantos milhões de analfabetos, mal nutridos, além de tantos corruptos? Sim, eu sei da história do colonialismo ocidental, as conspirações sinistras do Ocidente, o argumento árabe de que não se depõem xeiques e reis e autocratas, além de imans e emires, quando "o inimigo está à porta". Há verdade nisso, mas não suficiente verdade.
O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (UNDP) aí está com mais um relatório, o quinto – feito por analistas e especialistas árabes, observem bem –, que denuncia o espantoso estado de atraso em que vive parte significativa do Oriente Médio. Fala da "fragilidade das estruturas políticas, sociais, econômicas e ambientais da Região (...), da vulnerabilidade à intervenção do exterior". Mas será que a desertificação explicaria o analfabetismo – maior entre as mulheres –, ou o Estado árabe o qual, o relatório admite, muitas vezes "é mais ameaça à segurança humana, do que instrumento para prover segurança"?
Rami Khouri, jornalista árabe, escreveu muito claramente, semana passada: "Como enfrentar as causas ocultas de nossa mediocridade e implantar mudanças reais ancoradas em cidadania sólida, economia produtiva e Estado estável continua a ser o enigma que continua a desafiar três gerações de árabes". O PIB real per capita na Região – um dos indicadores que mais chocaram Khouri – cresceu apenas 6,4% entre 1980 e 2004. Apenas 0,5% ao ano, taxa menor que a de 198 dos 217 países analisados no CIA World Factbook em 2008. Isso, para uma população árabe – 150 milhões em 1980 –, que chegará a 400 milhões em 2015.
Vejo, eu mesmo, quase tudo isso. A primeira vez em que estive no Oriente Médio, em 1976, já havia gente demais. As ruas malcheirosas, tão cheias que mal se pode andar nelas, do Cairo, já estavam sempre cheias, dia e noite, com quase um milhão de sem-tetos, muitos dos quais viviam nos grandes cemitérios otomanos. As casas árabes são imaculadamente limpas, mas as ruas são imundas, muitas vezes repugnantes, sujeira e lixo espalhados pelas calçadas. Mesmo no belo Líbano, onde há uma espécie de democracia e cujo povo está entre os mais cultos e bem educados de todo o Oriente Médio, o fenômeno é o mesmo. Nas vilas das montanhas do sul, as casas, sempre, rigorosa e perfeitamente limpas. Mas por que as ruas e os arredores das vilas são sempre tão sujos?
Suspeito que haja, sim, algum problema com a cabeça dos árabes: eles não se sentem donos dos próprios países. Constantemente expostos a efusões de entusiasmo em nome de uma "unidade" árabe ou nacional, acho que não sentem que pertencem à terra ou que a terra é sua, como os ocidentais sentimos. Quase sempre, ou muitas vezes, impedidos de eleger quem os represente realmente – até no Líbano, exceto no contexto das tribos ou do sectarismo – as pessoas sentem-se "descartadas", sentem-se excluídas, excetuadas. A rua, o país, como entidade territorial física pertence a outro, a alguém, não ao povo, aos habitantes. E, claro, no instante em que um movimento brota e – caso ainda mais grave – torna-se popular, introduzem-se novas leis de exceção que imediatamente tornam ilegal o movimento, ou o declaram "terrorista". Assim, a responsabilidade por cuidar dos jardins, dos arredores das cidades e das ruas é sempre transferida, sempre é de algum outro.
Os funcionários do Estado – que trabalham diretamente para o Estado e suas autarquias corruptas – também sentem que sua existência depende da mesma corrupção sobre a qual viceja o próprio Estado. A população torna-se parte da corrupção de todos. Nunca esqueço de um árabe dono de terras, há anos, reclamando das campanhas anti-corrupção de seu governo. "Antigamente, era pagar a propina ao funcionário certo, e consertavam o telefone, as bombas d'água voltavam a funcionar, voltávamos a ter energia elétrica" – dizia ele. "Hoje em dia, Mr. Robert, não posso subornar qualquer um, nem consigo subornar todos nem sei a quem subornar. Então... nada funciona!"
Desde o primeiro relatório do UNDP, de 2002, a coisa era já deprimente. Identificavam-se três principais obstáculos ao desenvolvimento humano no mundo árabe: o crescente "déficit" de liberdade, de direitos para as mulheres e de conhecimento. George W Bush – aquele, o da liberdade eterna, democracia eterna etc. etc. além de guerra eterna e eterno massacre no Iraque –, por exemplo, foi sensível a essas dificuldades. Até Hosni Mubarak do Egito (aquele, o do sucesso eleitoral superior a 90%), compreensivelmente irritado por estar ouvindo sermão do homem que rebatizou o "terror", disse a Tony Blair em 2004 que a modernização teria de considerar "as tradições e a cultura da Região".
Alguma solução para a guerra árabe-israelense resolverá todos esses problemas? Talvez, sim, alguns deles. Sem o constante desafio da crise, seria cada vez mais difícil renovar as leis de exceção, não aprovar constituições, negar qualquer legalidade ou constitucionalidade, distrair as populações porque, se não forem distraídas, há risco de que se ponham a exigir mudanças políticas radicais. Às vezes, temo que os problemas tenham-se aprofundado demais, que, como onde há esgoto que vaza há muito tempo, toda a terra em que pisam os povos árabes esteja infiltrada de problemas, porosa, frágil, e que sobre ela já nada se possa construir.
Foi para mim enorme alegria, há alguns meses, em palestra na Universidade do Cairo – aquela, a mesma na qual Barack Obama praticou diplomacia soft com o mundo muçulmano –, descobrir tantos alunos brilhantes, muitas moças nas classes e o quanto são mais bem-educados e mais bem formados, hoje, em comparação ao que vi em visitas anteriores. Mesmo assim, muitos, muitos, só pensam em mudar-se para o Ocidente. O Corão é documento preciosíssimo – mas um Green Card também é. E quem os poderia culpar, se Cairo está cheia de engenheiros pós-graduados que ganham a vida dirigindo táxis?
Quanto ao equilíbrio, sim, uma paz séria entre palestinos e israelenses, sim, ajudaria muito a reequilibrar os espantosos desequilíbrios que atacam como praga a sociedade árabe. Quem já não tenha energia para protestar contra a escandalosa injustiça que é aquela guerra, talvez reencontre forças para lutar contra outras escandalosas injustiças. Uma delas, por exemplo, a violência doméstica, a qual – apesar de os povos árabes serem, sim, muito ligados à família – é mais disseminada na sociedade árabe do que os ocidentais talvez saibam (ou os árabes admitam).
De qualquer modo, estou convencido, sim, de que, militarmente, temos de sair de lá. Temos de desocupar o Oriente Médio. Temos de sair de lá.
Façam o que for preciso. Temos de sair de lá. Mandem para lá professores, economistas, agrônomos. Mas não soldados. Os soldados têm de voltar para casa. Não defendem nada e ninguém, no Oriente Médio. Não nos defendem. Espalham, lá, caos idêntico e alimentam a mesma injustiça que fazem engordar as Al-Qaedas do mundo. Não, os árabes – ou, fora do mundo árabe, os iranianos ou os afegãos – não gerarão democracias eco-amantes, gênero-igualitárias, as risonhas e festejantes democracias que todos gostaríamos de ver (ou de ser). Mas, livres da "nossa" tutela, os árabes desenvolverão suas sociedades, em benefício das pessoas que as constituem. Talvez, assim, os árabes convençam-se de que são donos da terra onde vivem.
Fonte: http://www.novae.inf.br
Intelectuais italianos a favor dos imigrantes - Por Emir Sader
Intelectuais italianos a favor dos imigrantes
Intelectuais italianos, liderados por Dario Fo, Antonio Tabucchi, Andrea Camillieri, Giani Amelio, Dacia Maraini, Wu Ming e 34 outros mil, lançaram manifesto na defesa dos imigrantes: "Em virtude de uma decisão política, vinda de uma maioria efêmera, as crianças nascidas de mulheres estrangeiras em situação irregular serão durante toda as suas vidas filhos de ninguém. Elas serão tiradas de suas mães e colocadas nas mãos do Estado. Nem o fascismo foi tão longe".
Emir Sader
Data: 02/08/2009
O Senado italiano aprovou a uma lei sobre segurança e a imigração, que cria o delito de imigração clandestina passível de uma multa de até 10 mil euros além da expulsão imediata. A estadia nos centros de detenção para estrangeiros em situação considerada irregular poderá chegar a 6 meses, ao invés dos 2 meses de hoje.
A nova lei torna obrigatória a apresentação de uma permissão de estadia ou de um passaporte para declarar o nascimento de uma criança para seu registro civil. A lei visa principalmente cerca de 500 mil mulheres imigrantes que trabalham como empregadas domésticas.
Intelectuais italianos, liderados por Dario Fo, Antonio Tabucchi, Andrea Camillieri, Giani Amelio, Dacia Maraini, Wu Ming e 34 outros mil, lançaram manifesto na defesa dos imigrantes:
“À cultura democrática européia e aos jornais que a expressam:
As coisas que acontecem na Itália sempre tiveram, para o bem e para o mal, uma influência extraordinária sobre toda a sociedade européia, desde o Renascimento italiano até a era do fascismo. Mas essas coisas nem sempre foram conhecidas a tempo.
Neste momento os jornais europeus estão muito atentos a alguns aspectos da crise que afeta o nosso país. Nós estimamos, no entanto, que é dever de todos nós que vivemos na Itália atrair a atenção da opinião pública européia sobre outros aspectos ignorados. Trata-se de certas iniciativas políticas e legislativas italianas que, se não logramos nos contrapor-nos a elas, arriscam de desfigurar a fisionomia da Europa e fazer recuar a causa dos direitos humanos no mundo inteiro.
O governo Berlusconi, invocando a segurança, impôs ao Parlamento, sobre o qual ele exerce um controle absoluto, a adoção de medidas discriminatórias em relação em relação aos imigrantes como as que vimos na Europa desde a época das leis raciais.
O objeto passivo da discriminação mudou. Não se trata mais dos judeus, mas dos imigrantes em situação irregular , isto é, centenas de milhares de pessoas. As disposições previstas pelas leis raciais, como a proibição dos casamentos mistos, não mudaram. Por essa proibição, impede-se, por critérios de nacionalidade, o exercício de um direito fundamental, como é o de se casar sem interdições de tipo étnico ou religioso. Um direito fundamental que se tira não apenas de estrangeiros, mas também de italianos.
Por uma disposição que afeta ainda mais a dignidade humana, introduziu-se a proibição das mulheres estrangeiras em situação irregular de declarar as crianças a que elas deram à luz. Assim, em virtude de uma decisão política, vinda de uma maioria efêmera, as crianças nascidas de mulheres estrangeiras em situação irregular serão durante toda as suas vidas filhos de ninguém. Elas serão tiradas de suas mães e colocadas nas mãos do Estado. Nem o fascismo foi tão longe. As leis raciais instauradas por esse regime em 1938 não privavam as mães judias de seus filhos, nem as obrigava a abortar para evitar que tenham confiscadas suas crianças pelo Estado.
Nós não nos dirigiríamos à opinião pública européia se a gravidade dessas medidas não fosse tal que ela supera as fronteiras nacionais e não exigisse uma reação responsável de todas as pessoas que acreditam em um humanismo comum. A Europa não pode aceitar que um dos seus países fundadores retroceda a um nível primitivo de vida em comum, em contradição com as leis internacionais assim como com as garantias e a cultura jurídica sobre as que se fundamenta a construção política européia.
É do interesse – e tem a ver também com a honra – de todos nós europeus que isso não aconteça.
A cultura democrática européia deve tomar consciência da patologia que vem da Itália e se mobilizar para impedir que isso se expanda pela Europa.
Cada um de nós deve escolher a melhor forma de se manifestar e de se fazer valer sua oposição.”
Fonte: Agência Carta Maior
Intelectuais italianos, liderados por Dario Fo, Antonio Tabucchi, Andrea Camillieri, Giani Amelio, Dacia Maraini, Wu Ming e 34 outros mil, lançaram manifesto na defesa dos imigrantes: "Em virtude de uma decisão política, vinda de uma maioria efêmera, as crianças nascidas de mulheres estrangeiras em situação irregular serão durante toda as suas vidas filhos de ninguém. Elas serão tiradas de suas mães e colocadas nas mãos do Estado. Nem o fascismo foi tão longe".
Emir Sader
Data: 02/08/2009
O Senado italiano aprovou a uma lei sobre segurança e a imigração, que cria o delito de imigração clandestina passível de uma multa de até 10 mil euros além da expulsão imediata. A estadia nos centros de detenção para estrangeiros em situação considerada irregular poderá chegar a 6 meses, ao invés dos 2 meses de hoje.
A nova lei torna obrigatória a apresentação de uma permissão de estadia ou de um passaporte para declarar o nascimento de uma criança para seu registro civil. A lei visa principalmente cerca de 500 mil mulheres imigrantes que trabalham como empregadas domésticas.
Intelectuais italianos, liderados por Dario Fo, Antonio Tabucchi, Andrea Camillieri, Giani Amelio, Dacia Maraini, Wu Ming e 34 outros mil, lançaram manifesto na defesa dos imigrantes:
“À cultura democrática européia e aos jornais que a expressam:
As coisas que acontecem na Itália sempre tiveram, para o bem e para o mal, uma influência extraordinária sobre toda a sociedade européia, desde o Renascimento italiano até a era do fascismo. Mas essas coisas nem sempre foram conhecidas a tempo.
Neste momento os jornais europeus estão muito atentos a alguns aspectos da crise que afeta o nosso país. Nós estimamos, no entanto, que é dever de todos nós que vivemos na Itália atrair a atenção da opinião pública européia sobre outros aspectos ignorados. Trata-se de certas iniciativas políticas e legislativas italianas que, se não logramos nos contrapor-nos a elas, arriscam de desfigurar a fisionomia da Europa e fazer recuar a causa dos direitos humanos no mundo inteiro.
O governo Berlusconi, invocando a segurança, impôs ao Parlamento, sobre o qual ele exerce um controle absoluto, a adoção de medidas discriminatórias em relação em relação aos imigrantes como as que vimos na Europa desde a época das leis raciais.
O objeto passivo da discriminação mudou. Não se trata mais dos judeus, mas dos imigrantes em situação irregular , isto é, centenas de milhares de pessoas. As disposições previstas pelas leis raciais, como a proibição dos casamentos mistos, não mudaram. Por essa proibição, impede-se, por critérios de nacionalidade, o exercício de um direito fundamental, como é o de se casar sem interdições de tipo étnico ou religioso. Um direito fundamental que se tira não apenas de estrangeiros, mas também de italianos.
Por uma disposição que afeta ainda mais a dignidade humana, introduziu-se a proibição das mulheres estrangeiras em situação irregular de declarar as crianças a que elas deram à luz. Assim, em virtude de uma decisão política, vinda de uma maioria efêmera, as crianças nascidas de mulheres estrangeiras em situação irregular serão durante toda as suas vidas filhos de ninguém. Elas serão tiradas de suas mães e colocadas nas mãos do Estado. Nem o fascismo foi tão longe. As leis raciais instauradas por esse regime em 1938 não privavam as mães judias de seus filhos, nem as obrigava a abortar para evitar que tenham confiscadas suas crianças pelo Estado.
Nós não nos dirigiríamos à opinião pública européia se a gravidade dessas medidas não fosse tal que ela supera as fronteiras nacionais e não exigisse uma reação responsável de todas as pessoas que acreditam em um humanismo comum. A Europa não pode aceitar que um dos seus países fundadores retroceda a um nível primitivo de vida em comum, em contradição com as leis internacionais assim como com as garantias e a cultura jurídica sobre as que se fundamenta a construção política européia.
É do interesse – e tem a ver também com a honra – de todos nós europeus que isso não aconteça.
A cultura democrática européia deve tomar consciência da patologia que vem da Itália e se mobilizar para impedir que isso se expanda pela Europa.
Cada um de nós deve escolher a melhor forma de se manifestar e de se fazer valer sua oposição.”
Fonte: Agência Carta Maior
O heroismo do Estadão não foi bem assim - Argemiro Ferreira
O heroismo do Estadão não foi bem assim
A mesma mídia covarde que hoje apregoa compromisso com a liberdade de imprensa – em ataques torpes ao governo Lula e especialmente a outros governos do continente, como o da Venezuela – acovardava-se durante a ditadura. Em 1973, recebeu uma lição de coragem cívica, dada por Gasparian, Opinião e o advogado Adauto Lúcio Cardoso. O Estadão ainda exerceu resistência à censura. Mas não é justo esquecer que quando Fernando Gasparian, diretor de Opinião, impetrou mandado de segurança contra a censura em 1973, o mesmo Estadão, através de seu diretor Ruy Mesquita, ficou atemorizado, negando-se a ser parte da causa. O artigo é de Argemiro Ferreira.
Argemiro Ferreira
Data: 02/08/2009
Nunca é demais lembrar a resistência de O Estado de S.Paulo (e Jornal da Tarde) à censura – com os versos de Camões, as receitas de bolo e as fotos de flores. É justo lembrá-la em livro, como fez no 40° aniversário do AI-5, em dezembro do ano passado, o jornalista José Maria Mayrink, que escreveu "Mordaça no Estadão", sobre aqueles tempos difíceis que viveu.
Mas não é justo esquecer que quando Fernando Gasparian, diretor de Opinião, decidiu impetrar mandado de segurança contra a censura em 1973, o mesmo Estadão, através de seu diretor Ruy Mesquita, ficou atemorizado, negando-se a ser parte da causa. Eu entenderia se a razão tivesse sido apenas o fato de ser Opinião um semanário alternativo, menor, enquanto o Estadão era um dos jornalões tradicionais do país, muito conhecido até no exterior. Mas Gasparian disse então a Ruy Mesquita que, se o Estadão preferisse não entrar junto com Opinião, estaria bem: entraria sozinho e o semanário, nanico, se somaria apenas depois à iniciativa.
Essa história, com mais detalhes, foi contada pelo próprio Gasparian e está no livro "Opinião x Censura – Momentos da luta de um jornal pela independência", de J. A. Pinheiro Machado (editora L&PM, 1978). O motivo real dos Mesquita (o irmão Júlio estava então fora do país), além do medo de represálias, era o fato de já ter a promessa do general Ernesto Geisel de que a censura do Estadão seria levantada.
Adauto Cardoso, um herói esquecido
O episódio teve ainda outro herói: Adauto Lúcio Cardoso, jurista da UDN, conspirador no golpe de 1964 e ex-presidente da Câmara (em 1966, até renunciar em protesto pela cassação dos mandatos de seis deputados da oposição), ideologicamente mais afinado com o Estadão do que com Opinião. Nomeado para o Supremo, votara a favor de habeas corpus para Vladimir Palmeira e Darcy Ribeiro. Mas em 1971 aposentou-se, envergonhado com uma decisão que mantivera restrições à liberdade de imprensa.
Cardoso tinha prometido só voltar ao STF para defender a causa da liberdade de imprensa. Assim, ao ser procurado em 1973, concordou em ser o advogado de Opinião no caso. Como Estadão e Veja estavam também sob censura, explicou a Gasparian: a causa ganharia força se um deles (ou os dois) se somasse a ela. O dono de Opinião não tinha ilusões sobre os Civita, mas procurou Ruy Mesquita.
Ficou desapontado com a resposta negativa. Naqueles dias o Estadão, que participara do complô do golpe, apostava na troca de generais, a se consumar no Planalto. O então presidente, Garrastazu Médici, tinha Orlando Geisel à frente do ministério do Exército – uma garantia de que só um grave acidente de percurso seria capaz de impedir em 1974 a ascensão do irmão dele, o também general Ernesto Geisel.
Poupar o Estadão e esquecer o resto?
Um amigo comum do jornal e do futuro presidente, segundo Gasparian, já tinha assegurado aos Mesquita que o novo governo ia tirar a censura do Estadão. De fato, isso ocorreria em 1975. Mas as vítimas menores – Opinião, O São Paulo, Tribuna da Imprensa, Movimento, etc – continuariam sob a mesma censura implacável. Ao confiar em Geisel, a família Mesquita ficou indiferente à sorte dos demais.
Toda a prática da censura, explicitamente proibida na Constituição então em vigor, foi exposta – até com as minúcias ridículas e grotescas – na petição do mandato de segurança levada ao Tribunal Federal de Recursos, a 10 de maio de 1973, pelo advogado Adauto Lúcio Cardoso. Ao final, por 6 votos contra 5, o TFR decidiu: a censura prévia feita no Opinião pela Polícia Federal violava a Constituição.
Consumada a decisão judicial, no entanto, a Polícia Federal avisou a redação de Opinião pelo telefone: “Não publiquem o jornal sem obedecer à censura. Se isso acontecer, temos ordem para apreender a edição”. Na manhã seguinte o general-presidente Garrastazu Médici, em simples despacho, mandou a PF ignorar a Justiça e manter a censura no jornal, com base no AI-5. Eis a íntegra do despacho, de 20 de junho:
Despacho do Presidente – Processo 5005/73
"Diante do exposto neste processo pelo Senhor Ministro da Justiça:
1. Ratifico o despacho exarado em 30 de março de 1971, na exposição de motivos n° 165 B, de 20 de março daquele ano, no qual adotei em defesa da revolução, com fundamento no artigo 9 do Ato Institucional n° 5, as medidas previstas no art. 152, parágrafo 2°, letra E, da Emenda Constitucional b. 1;
2. Tendo a decisão proferida no mandato de segurança impetrado pela Editora Inúbia Ltda. Afirmado não existir nos autos provas de imposição de censura por ato do Presidente da República, reitero a autorização de que a Polícia Federal estabeleça censura quanto ao período OPINIÃO.
(a) Emilio Garrastazu Médici – Presidente da República"
Um detalhe escabroso de tudo isso é que o tal despacho citado no ítem 1 (de 30 de março de 1971) teria sido secreto, nunca fora revelado. Assim, o mandado de segurança de Opinião tivera no mínimo o mérito de forçar a ditadura ou a revelar a existência de “despachos secretos” (como sabemos, havia também “decretos secretos”), ou a fabricar um às pressas (e a posteriori), na obsessão de forjar cobertura jurídica para invalidar a decisão do TFR.
A mesma mídia covarde que hoje apregoa compromisso com a liberdade de imprensa – em ataques torpes ao governo Lula e especialmente a outros governos do continente, como o da Venezuela – acovardava-se então. Em 1973, recebeu uma lição de coragem cívica, dada por Gasparian, Opinião e o advogado Adauto Lúcio Cardoso. O Estadão, pelo menos, ainda noticiou o fato discretamente em sua primeira página do dia seguinte. O resto da mídia, nem isso.
Blog de Argemiro Ferreira
Fonte: Agência Carta Maior
A mesma mídia covarde que hoje apregoa compromisso com a liberdade de imprensa – em ataques torpes ao governo Lula e especialmente a outros governos do continente, como o da Venezuela – acovardava-se durante a ditadura. Em 1973, recebeu uma lição de coragem cívica, dada por Gasparian, Opinião e o advogado Adauto Lúcio Cardoso. O Estadão ainda exerceu resistência à censura. Mas não é justo esquecer que quando Fernando Gasparian, diretor de Opinião, impetrou mandado de segurança contra a censura em 1973, o mesmo Estadão, através de seu diretor Ruy Mesquita, ficou atemorizado, negando-se a ser parte da causa. O artigo é de Argemiro Ferreira.
Argemiro Ferreira
Data: 02/08/2009
Nunca é demais lembrar a resistência de O Estado de S.Paulo (e Jornal da Tarde) à censura – com os versos de Camões, as receitas de bolo e as fotos de flores. É justo lembrá-la em livro, como fez no 40° aniversário do AI-5, em dezembro do ano passado, o jornalista José Maria Mayrink, que escreveu "Mordaça no Estadão", sobre aqueles tempos difíceis que viveu.
Mas não é justo esquecer que quando Fernando Gasparian, diretor de Opinião, decidiu impetrar mandado de segurança contra a censura em 1973, o mesmo Estadão, através de seu diretor Ruy Mesquita, ficou atemorizado, negando-se a ser parte da causa. Eu entenderia se a razão tivesse sido apenas o fato de ser Opinião um semanário alternativo, menor, enquanto o Estadão era um dos jornalões tradicionais do país, muito conhecido até no exterior. Mas Gasparian disse então a Ruy Mesquita que, se o Estadão preferisse não entrar junto com Opinião, estaria bem: entraria sozinho e o semanário, nanico, se somaria apenas depois à iniciativa.
Essa história, com mais detalhes, foi contada pelo próprio Gasparian e está no livro "Opinião x Censura – Momentos da luta de um jornal pela independência", de J. A. Pinheiro Machado (editora L&PM, 1978). O motivo real dos Mesquita (o irmão Júlio estava então fora do país), além do medo de represálias, era o fato de já ter a promessa do general Ernesto Geisel de que a censura do Estadão seria levantada.
Adauto Cardoso, um herói esquecido
O episódio teve ainda outro herói: Adauto Lúcio Cardoso, jurista da UDN, conspirador no golpe de 1964 e ex-presidente da Câmara (em 1966, até renunciar em protesto pela cassação dos mandatos de seis deputados da oposição), ideologicamente mais afinado com o Estadão do que com Opinião. Nomeado para o Supremo, votara a favor de habeas corpus para Vladimir Palmeira e Darcy Ribeiro. Mas em 1971 aposentou-se, envergonhado com uma decisão que mantivera restrições à liberdade de imprensa.
Cardoso tinha prometido só voltar ao STF para defender a causa da liberdade de imprensa. Assim, ao ser procurado em 1973, concordou em ser o advogado de Opinião no caso. Como Estadão e Veja estavam também sob censura, explicou a Gasparian: a causa ganharia força se um deles (ou os dois) se somasse a ela. O dono de Opinião não tinha ilusões sobre os Civita, mas procurou Ruy Mesquita.
Ficou desapontado com a resposta negativa. Naqueles dias o Estadão, que participara do complô do golpe, apostava na troca de generais, a se consumar no Planalto. O então presidente, Garrastazu Médici, tinha Orlando Geisel à frente do ministério do Exército – uma garantia de que só um grave acidente de percurso seria capaz de impedir em 1974 a ascensão do irmão dele, o também general Ernesto Geisel.
Poupar o Estadão e esquecer o resto?
Um amigo comum do jornal e do futuro presidente, segundo Gasparian, já tinha assegurado aos Mesquita que o novo governo ia tirar a censura do Estadão. De fato, isso ocorreria em 1975. Mas as vítimas menores – Opinião, O São Paulo, Tribuna da Imprensa, Movimento, etc – continuariam sob a mesma censura implacável. Ao confiar em Geisel, a família Mesquita ficou indiferente à sorte dos demais.
Toda a prática da censura, explicitamente proibida na Constituição então em vigor, foi exposta – até com as minúcias ridículas e grotescas – na petição do mandato de segurança levada ao Tribunal Federal de Recursos, a 10 de maio de 1973, pelo advogado Adauto Lúcio Cardoso. Ao final, por 6 votos contra 5, o TFR decidiu: a censura prévia feita no Opinião pela Polícia Federal violava a Constituição.
Consumada a decisão judicial, no entanto, a Polícia Federal avisou a redação de Opinião pelo telefone: “Não publiquem o jornal sem obedecer à censura. Se isso acontecer, temos ordem para apreender a edição”. Na manhã seguinte o general-presidente Garrastazu Médici, em simples despacho, mandou a PF ignorar a Justiça e manter a censura no jornal, com base no AI-5. Eis a íntegra do despacho, de 20 de junho:
Despacho do Presidente – Processo 5005/73
"Diante do exposto neste processo pelo Senhor Ministro da Justiça:
1. Ratifico o despacho exarado em 30 de março de 1971, na exposição de motivos n° 165 B, de 20 de março daquele ano, no qual adotei em defesa da revolução, com fundamento no artigo 9 do Ato Institucional n° 5, as medidas previstas no art. 152, parágrafo 2°, letra E, da Emenda Constitucional b. 1;
2. Tendo a decisão proferida no mandato de segurança impetrado pela Editora Inúbia Ltda. Afirmado não existir nos autos provas de imposição de censura por ato do Presidente da República, reitero a autorização de que a Polícia Federal estabeleça censura quanto ao período OPINIÃO.
(a) Emilio Garrastazu Médici – Presidente da República"
Um detalhe escabroso de tudo isso é que o tal despacho citado no ítem 1 (de 30 de março de 1971) teria sido secreto, nunca fora revelado. Assim, o mandado de segurança de Opinião tivera no mínimo o mérito de forçar a ditadura ou a revelar a existência de “despachos secretos” (como sabemos, havia também “decretos secretos”), ou a fabricar um às pressas (e a posteriori), na obsessão de forjar cobertura jurídica para invalidar a decisão do TFR.
A mesma mídia covarde que hoje apregoa compromisso com a liberdade de imprensa – em ataques torpes ao governo Lula e especialmente a outros governos do continente, como o da Venezuela – acovardava-se então. Em 1973, recebeu uma lição de coragem cívica, dada por Gasparian, Opinião e o advogado Adauto Lúcio Cardoso. O Estadão, pelo menos, ainda noticiou o fato discretamente em sua primeira página do dia seguinte. O resto da mídia, nem isso.
Blog de Argemiro Ferreira
Fonte: Agência Carta Maior
Assinar:
Postagens (Atom)


