domingo, 16 de maio de 2010

Nacionalismo e Internacionalismo - José Carlos Mariátegui*

Nacionalismo e Internacionalismo - José Carlos Mariátegui*

"A história contemporânea nos ensina, a cada passo, que a nação não é uma abstração, não é um mito; e que a civilização, a humanidade, tampouco são. A evidência da realidade nacional não contraria a evidência da realidade internacional."

Os limites entre nacionalismo e internacionalismo ainda não estão muito esclarecidos, apesar da convivência já velha entre ambas as idéias. Os nacionalistas condenam integralmente a tendência internacionalista. Porém, na prática, fazem-lhe algumas concessões, às vezes encobertas, às vezes explícitas. O fascismo, por exemplo, colabora com a Sociedade das Nações. Pelo menos não se desertou desta sociedade que se alimenta do pacifismo e do liberalismo wilsoniano.

Acontece, na verdade, que nem o nacionalismo nem o internacionalismo seguem uma linha ortodoxa ou mesmo intransigente. Entretanto, não se pode assinalar matematicamente onde se encerra o nacionalismo e onde começa o internacionalismo. Elementos de uma idéia, certas vezes, mesclados à outra.

A causa desta obscura demarcação teórica e prática resulta muito clara. A história contemporânea nos ensina, a cada passo, que a nação não é uma abstração, não é um mito; e que a civilização, a humanidade, tampouco são. A evidência da realidade nacional não contraria a evidência da realidade internacional. A incapacidade de compreender e admitir esta segunda e superior realidade é uma simples miopia, é uma limitação orgânica. As inteligências envelhecidas, mecanizadas na contemplação da antiga perspectiva nacional, não sabem distinguir a nova, a vasta, a complexa perspectiva internacional. Repudiam-na e a negam porque não podem adaptar-se a ela. O mecanismo desta atitude é o mesmo daquela que rechaça automaticamente e aprioristicamente a física einsteniana.

Os internacionalistas - exceto alguns ultraístas, alguns românticos, pitorescos e inofensivos – comportam-se com menos intransigência. Como os relativistas ante a física de Galileu, os internacionalistas não contradizem toda a teoria nacionalista. Reconhecem que corresponde à realidade, porém somente na primeira aproximação. O nacionalismo apreende uma parte da realidade, porém, nada mais que uma parte. A realidade é muito mais ampla, menos finita. Em uma palavra, o nacionalismo é válido como afirmação, mas não como negação. No capítulo atual da história tem o mesmo valor do provincianismo, do regionalismo em capítulos pretéritos. É um regionalismo de novo estilo.

Porque ainda em nossa época se exacerba e se superestima este sentimento que, por toda sua existência histórica, deveria ter voltado um pouco mais passivo e menos ardente? A resposta é fácil. O nacionalismo é uma face, um lado do vasto fenômeno reacionário. A reação é denominada sucessiva ou simultaneamente de chauvinismo, fascismo, imperialismo, etc. Não é por acaso que os monarquistas da L’Action Française são, ao mesmo tempo, agressivamente jingoístas** e militaristas. Opera-se, atualmente, um complicado processo de ajustamento, de adaptação das nações e seus interesses a uma convivência solidária. Não é possível que esse processo se realize sem uma extrema resistência de mil paixões centrífugas e de mil interesses segregacionistas. A vontade de dar aos povos uma disciplina internacional acaba por provocar um clamor extremado do sentimento nacionalista que, romântica e anacronicamente, resultaria no isolamento dos interesses da própria nação dos do resto do mundo.

Os partidários desta reação qualificam o internacionalismo de utopia. Mas, evidentemente, os internacionalistas são mais realistas e menos românticos do que parecem. O internacionalismo não é unicamente uma idéia, um sentimento; é, sobretudo, um feito histórico. A civilização ocidental internacionalizou e solidarizou a vida na maior parte da humanidade. As idéias, as paixões propagam-se veloz, fluida e universalmente.

A cada dia é maior a rapidez com que se difundem correntes do pensamento e da cultura. A civilização tem dado ao mundo um novo sistema nervoso.

Transmitidas por cabos, pelas ondas hertzianas, pela imprensa, etc. Toda grande emoção humana percorre instantaneamente o mundo. O hábito regional decai pouco a pouco. A vida tende à uniformidade, à unidade. Adquire o mesmo estilo em todos os grandes centros urbanos. Buenos Aires, Quebec, Lima copiam a moda de Paris, seus alfaiates e estilistas imitam os modelos de Paquín***; esta solidariedade, esta uniformidade não são exclusivamente ocidentais. A civilização européia atrai, gradualmente, à sua órbita e aos seus costumes todos os povos e todas as raças. É uma civilização dominadora que não tolera a existência de nenhuma civilização concorrente ou rival. Uma de suas características essenciais é sua força de expansão. Nenhuma cultura jamais conquistou uma extensão tão vasta da Terra. Um inglês que se instala em um canto da África, leva consigo o telefone, o automóvel, o pólo. Juntamente com as máquinas e as mercadorias, deslocam-se as idéias e as emoções ocidentais. Aparecem estranha e insolitamente vinculadas a história e o pensamento dos mais diversos povos.

Todos estes fenômenos são absoluta e inconfundivelmente novos. Pertencem exclusivamente à nossa civilização que, desse ponto de vista, não se parece a nenhuma das civilizações anteriores. E com esses feitos, coordenam-se outros. Os Estados europeus acabam de constatar e reconhecer, na conferência de Londres, a impossibilidade de restaurar suas economias e produções respectivas sem um pacto de assistência mútua. Por conta de sua interdependência econômica, os povos não podem, como antes, atacarem-se e se ofenderem impunemente. Não por sentimentalismo, mas sim por exigência de seu próprio interesse, os vencedores tem que renunciar ao prazer de sacrificar os vencidos.

O internacionalismo não é uma corrente novíssima. Há um século, aproximadamente, percebe-se, na civilização européia, a tendência a preparar uma organização internacional da humanidade. Tampouco é o internacionalismo uma corrente exclusivamente revolucionária. Há um internacionalismo socialista e um internacionalismo burguês, o que não tem nada de absurdo nem de contraditório. Quando se averígua sua origem histórica, o internacionalismo provém de uma idéia liberal, é consequência dela. A primeira grande incubadora dos embriões internacionalistas foi a escola de Manchester. O Estado liberal emancipou a indústria e o comércio das travas feudais e absolutistas. Os interesses capitalistas se desenvolveram independentemente do crescimento da nação. A nação, finalmente, não mais podia contê-los dentro de suas fronteiras. O capital se desnacionalizava. A indústria se lançava à conquista de mercados estrangeiros. A mercadoria não conhecia limites e batalhava para circular livremente através de todos os países. A burguesia fez-se, então, livre-cambista. A liberdade de mercado, como idéia e como prática, foi um passo ao internacionalismo, no qual o proletariado já reconhecia um dos seus fins, um de seus ideais. As fronteiras econômicas se debilitaram. E este acontecimento fortaleceu a esperança de anular um dia as fronteiras políticas.

Somente a Inglaterra, o único país onde se realizou plenamente a idéia liberal e democrática, entendida e classificada como idéia burguesa, chegou ao livre mercado. A produção, devido à sua anarquia, sofreu uma grave crise, que provocou uma reação contras as medidas livre-cambistas. Os Estados voltaram a fechar suas portas à produção estrangeira para defender sua própria produção. Veio um período protecionista, durante o qual se reorganizou a produção sobre novas bases. A disputa dos mercados e das matérias-primas adquiriu um duro caráter nacionalista. Porém, a função internacional da nova economia voltou a encontrar sua expressão. Desenvolveu-se, gigantescamente, a nova forma do capital, o capital financeiro, a finança internacional. A seus bancos e consórcios confluíram poupanças de distintos países para serem investidas internacionalmente. A guerra mundial rasgou parcialmente este tecido de interesses econômicos. Logo, a crise pós-guerra revelou a solidariedade econômica das nações, a unidade moral e orgânica da civilização.

A burguesia liberal, hoje e ontem, trabalha para adaptar suas formas políticas à nova realidade humana. A Sociedade das Nações é um esforço, certamente vão, para resolver a contradição entre a economia internacionalista e a política nacionalista da sociedade burguesa. A civilização não se resigna a morrer deste choque, desta contradição. Por isso, cria todos os dias organismos de comunicação e de coordenação internacionais. Além das duas Internacionais dos trabalhadores, existem outras Internacionais de outras hierarquias. A Suíça aloja as “centrais” de mais de oitenta associações internacionais, Paris foi, não faz muito tempo, a sede de um congresso internacional de professores de dança. Os bailarinos discutiram, longamente, seus problemas em diversos idiomas. Unia-os, acima das fronteiras, o internacionalismo do fox-trot e do tango.

* Publicado originalmente em Mundial: Lima, dez de outubro de 1924. Sobre esse tema, revisar “Nacionalismo y Vanguardismo” em “Perunicemos al Perú”, págs. 72-79, vol. 11. Desta série popular de obras completas.

** De acordo com o Moderno Dicionário da língua portuguesa Michaelis, jingoísmo significa “patriotismo belicoso”.

*** Jeanne Beckers, mais conhecida como Madame Paquin, nasceu em Saint Denis, França, em 1869 e foi uma das primeiras estilistas da história da moda com forte influência da art deco nas suas criações, do início do século XX.

Tradução: André Lima Sousa e Carla Benitez Martins.
José Carlos Mariátegui* Postado: Site Enlace
Fonte:http://blog.zequinhabarreto.org.br/

Estudantes param em Puerto Rico - Por Latuff

Virada Cultural deixa rap de lado - Por: Jéssica Santos de Souza, Rede Brasil Atual

Virada Cultural deixa rap de lado

Para o escritor e rapper Ferréz, organização do evento mostra preconceito contra os gêneros musicais vindos das regiões periféricas - e pobres - das cidades. Ele critica ainda o despreparo da polícia para lidar com o público
Por: Jéssica Santos de Souza, Rede Brasil Atual


São Paulo - Neste fim de semana acontece mais uma edição da Virada Cultural em São Paulo, evento promovido desde 2005 que reúne variadas atrações culturais por 24 horas, principalmente na região central da capital. Mas quem gosta de rap vai acabar se decepcionando.

Neste ano, inicialmente, nenhuma atração do gênero musical estava marcada para o Centro, onde estão os palcos principais. As poucas apresentações programadas haviam sido deslocadas para os Centros de Educação Unificados (CEUs), situados em bairros periféricos. Apenas poucos dias antes da virada, houve mudanças na programação que levaram uma apresentação à região.

Para o escritor e rapper Ferréz, a exclusão das manifestações de Hip Hop vem dos dois lados já que o movimento também tem deixado a Virada Cultural de lado. "A atual gestão já cometeu gafes de apagar desenhos dos Gêmeos, já baniu apresentações de rap, portanto a nossa forma de mostrar a ignorância deles é não participando em nada, nem na parte literária e nem shows", critica, em entrevista à Rede Brasil Atual.
O coordenador de programação da Virada Cultural, José Mauro Gnaspini, ponderou durante a coletiva de lançamento da programação que há, nesta edição, atividades relacionadas ao grafite, à dança de rua e a DJs, que têm relação com o Hip Hop. Apenas os shows de rap é que enfrentam resistência, segundo o coordenador.

"O Hip Hop é uma expressão muito importante da cultura paulistana. A gente sabe disso e apanhamos bastante por tentar fazer”. Gnaspini referiu-se ao show do Racionais MCs em 2007, na Praça da Sé, que acabou em confusão. O incidente prejudicou a imagem do gênero perante os organizadores.

Em 2008, um palco exclusivo chegou a ser dedicado a manifestações culturais de Hip Hop em um espaço cercado, próximo ao Terminal Dom Pedro II. Gnaspini disse, em entrevista para o Último Segundo, que a experiência não foi positiva. "A preocupação era tão grande que havia um pente fino da polícia. Lá era o único lugar da festa em que havia revista corporal para quem entrava. Apesar da melhor das intenções, acabamos segregando de novo."

Para Ferréz, o tratamento demonstra apenas o despreparo da polícia e até preconceito contra o movimento. Isso porque apresentações de outros gêneros também terminam em confusão, mas apenas o rap é taxado como problemático. "Não acredito que a policia esteja preparada para nada, falta mais escola, treinamento", critica. "Desde a ditadura, a policia está aí só para reprimir, não tem nada de comunitária, foi criada para reprimir e até hoje pouca coisa mudou", desabafa.

Rap na Virada
Os grupos Instituto e Z'africa Brasil estarão no palco da praça Julio Prestes, no domingo (16), às 6h da manhã. Thaíde e Cabal se apresentam em uma pista black e soul montada próximo à rua Santa Efigênia.

Nos CEUs há as apresentações de Emicida (Vila Curuçá, domingo às 18h), Rappin Hood (Lajeado, domingo às 17h), Thaíde (Parque São Carlos, sábado às 17h) e Nelson Triunfo (Sapopemba, domingo às 16h).

No sábado (15) à noite, a opção é o Espaço +Soma, com o show de Akira Presidente e Kamau. Também se apresentarão A Filial, Rincón Sapiência, Stefanie e Akin no que a casa chama de "Viradão do Rap". Os shows serão gratuitos.

Serviço:
Virada Cultural 2010
Das 18h de sábado (15) ás 18 de domingo (16)
Programação Completa no site oficial

"Viradão do Rap"
Local: Espaço +Soma (Espaço Cultural/Loja/Café)
Rua Fidalga 98 - Vila Madalena - São Paulo - SP
Informações - 11 3031-7995
Fonte: http://www.novae.inf.br

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Breve História Ilustrada da Humanidade

Breve História Ilustrada da Humanidade

Por maior que seja o esforço em contar a história da humanidade, esta é tão extensa, complexa e recheada de detalhes que torna esta tarefa quase impossível. A proposta que aqui fica é a de contar essa história com imagens.

Para mim, a viagem ao longo do tempo foi tremendamente interessante por dois motivos:
- Nunca encontrei um resumo tão bom
- Julgo ser capaz de identificar quatro tendências que se repetem ciclicamente ao longo do tempo: Guerra, Mulheres, Sexo e Intrigas.

Será dos meus olhos?











Publicado em http://obviousmag.org/

Grécia e FMI plano A e B - Por Latuff


"O capitalismo de desastre é uma resposta à crise" - Instituto Humanitas/Unisinos (IHU On-line)


"O capitalismo de desastre é uma resposta à crise"

O capitalismo de desastre não é um novo tipo de capitalismo, um novo sistema, " mas é um sistema aperfeiçoado”, explica Vânia Cury, professora de História da UFF, comentando um livro recente de Naomi Klein. Em entrevista a IHU On-Line, Vânia analisa o livro “A doutrina do choque: a Ascensão do Capitalismo de Desastre” e reflete sobre situações de conflito que permeiam a atualidade. “Essa exploração das situações de crise afetam as coletividades humanas, nos paralisa diante do medo, e nos torna impotentes diante da realidade”.

Instituto Humanitas/Unisinos (IHU On-line)

Data: 14/05/2010
Conheça o site do Instituto Humanitas/Unisinos

Criado pela jornalista e ativista canadense, Naomi Klein, o conceito de capitalismo de desastre revê questões relacionadas à obtenção de lucro em meio à calamidade. Segundo a professora do Instituto de Economia da Universidade do Rio de Janeiro, Vânia Cury, “essa exploração das situações de crise afetam as coletividades humanas, nos paralisa diante do medo, e nos torna impotentes diante da realidade”. Em conversa, por telefone, com a IHU On-Line, Vânia analisa o recente livro de Naomi Klein “A doutrina do choque: a Ascensão do Capitalismo de Desastre” e reflete sobre situações de conflito que permeiam a atualidade.

Segundo a professora, as pessoas já estão prontas para mudar em relação à situação do capitalismo atual e têm muita vontade de fazer isso. “A grande contribuição do livro de Naomi Klein, a meu ver, é exatamente essa. Embora ela faça um relato que pode nos parecer extremamente pessimista, dadas as condições que ela analisa o desenvolvimento do capitalismo, mostra também que há diversas formas de reação se esboçando no mundo. Elas são muito fragmentadas, estão desconectadas e espalhadas, mas há sim algumas iniciativas que vão sendo feitas no sentido de reunir essas forças e dar a elas uma consistência mais forte e mais integrada”, diz.

Vânia Maria Cury possui graduação em História pela Universidade Federal Fluminense, mestrado e doutorado em História pela Universidade Federal Fluminense. Atualmente, é professora aposentada da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Para começar, a senhora pode nos explicar qual a ideia do termo “Capitalismo de desastre”?

Vânia Cury – O termo foi cunhado pela jornalista Naomi Klein, que desenvolve uma análise muito profunda e bem detalhada no livro “A doutrina do choque: a Ascensão do Capitalismo de Desastre”, publicado recentemente. Ela mostra que, na fase atual em que o capitalismo se encontra, o que acontece é uma exploração das situações de crise, de calamidade pública e de desastre, que ameaçam e afetam coletividades humanas para que o capital tire proveito do medo, que toma conta das pessoas e grupos sociais, para obter lucros cada vez maiores.

Um dos exemplos que Naomi usa é o tsunami, que arrasou uma parte significativa das praias do sudeste asiático. O que se viu foi que a recuperação daquelas regiões afetadas pela onda foi totalmente determinada pelos interesses lucrativos dos grandes grupos econômicos que ali se instalaram imediatamente após a catástrofe. Eles vêm para reconstruir e reorganizar tudo o que foi destruído. Neste caso, foi um desastre natural, mas Naomi trata também de desastres provocados pelo homem, como guerras, conflitos e rebeliões. Outro exemplo que ela usa e trata detalhadamente é o furacão Katrina, nos Estados Unidos, que também provocou uma desorganização muito grave na cidade de Nova Orleans, afetando sobretudo os bairros de população negra e pobre. Lá, também, da mesma forma que em outras oportunidades analisadas em seu livro, a recuperação é pautada pelos interesses lucrativos daqueles que irão explorar novas condições originadas pelo desastre.

O Katrina fez com que grande parte dos terrenos que foram afetados acabasse resultando na expulsão da população que lá morava originalmente. Essas áreas foram reformuladas com a sua conveniente transformação em bairros de classe média, que foram programados e reconstruídos segundo os interesses do capital imobiliário local e que trouxeram lucros espetaculares.

IHU On-Line – Isso aconteceu também em países como o Haiti, que viveu intervenções de diversos países em função dos terremotos de janeiro deste ano?

Vânia Cury – Naomi Klein não aborda o caso do Haiti em seu livro, mas aborda em seu site, onde mantém atualizadas todas as suas opiniões, pesquisas, entrevistas e trabalhos. Naomi é uma ativista política e uma intelectual incansável. E faz este paralelo com o terremoto no Haiti. Ela considera não o desastre em si como uma manifestação do desejo do grande capital nas suas mais variadas formas, mas mostra que a recuperação, mais uma vez no caso do Haiti, terá, na sua dianteira, interesses econômicos solidamente organizados que irão determinar a maneira pela qual essa recuperação vai se dar, trazendo para eles lucros fabulosos. Isso tudo sempre em detrimento dos reais interesses da população que vivia no local afetado pelo desastre.

A mesma coisa Naomi faz com relação às grandes áreas litorâneas do sudeste asiático. Estas tinham uma ocupação circular de pequenas comunidades de pescadores artesanais, com famílias muito pobres e que subsistiam de pequenas atividades e foram subitamente deslocadas do seu habitat natural. Esse habitat foi transformado em reservas para a construção de grandes resorts, clubes e parques temáticos, que trarão lucros fabulosos para os investidores da área de turismo e imobiliário. Essas populações perdem completamente seu meio de vida tradicional e são jogadas novamente nas periferias das grandes cidades. São, mais uma vez, expropriadas das suas condições de vida bastante antigas.

IHU On-Line – O Brasil vive ou já viveu dentro dessa ideia de capitalismo de desastre?

Vânia Cury – Seguindo a linha de análise de Naomi Klein, sim. Ela analisa todo o período de ditaduras militares na América Latina como uma das estratégias mais clássicas e passíveis de serem estudadas da doutrina do choque, do capitalismo de desastre. Neste caso, não é o desastre natural, mas o desastre causado política e militarmente, mas pode ser uma guerra, tal qual aconteceu no Iraque. Ela passa boa parte do livro mostrando como a guerra também facilita o controle, pelo grande capital, de áreas que até então ele não controlava. No caso das ditaduras latino-americanas, aconteceu a mesma coisa. Aquela situação de choque, de medo coletivo e social imposto pela força militar, repressão, prisão, tortura e exílio, enfraquece a resistência da população e facilita, portanto, que o capital assuma o controle de uma série de atividades e situações que até então não controlava, muitas vezes, por força da resistência popular.

IHU On-Line – Naomi vê bastante a questão dos Estados Unidos. Podemos dizer que o ápice desta ideia de “Capitalismo de desastre” vem do governo Bush?

Vânia Cury – Não há dúvida nenhuma de que o governo Bush é o ápice de uma situação que, no entanto, ele não criou. Ele apenas se aproveita, recrudesce, leva a extremos essa condição de doutrina do choque, tanto internamente, quando ele, em nome das leis de segurança nacional da preservação dos direitos dos EUA, que foram agredidos pelo 11 de setembro, usa esse ataque terrorista para desencadear uma reação violenta e de repressão aos direitos sociais, de organização e liberdade, que a população americana sempre valorizou muito em sua história. Essa era a imagem que eles vendiam para o mundo, de um país democrático e radicalmente livre, onde ditaduras não floresceram, regimes de exceção nunca tiveram lugar.

No entanto, a partir de 11 de setembro de 2001, todas essas virtudes do regime democrático norte-americano foram colocadas em cheque pelo advento de uma nova doutrina de segurança nacional, que colocava a proteção ao Estado acima de todas as formas de proteção e liberdade do indivíduo. Isso é algo novo na história dos EUA. Se pegarmos os dois séculos que o país tem de história da construção de uma cultura democrática, o paradigma do que é um Estado de direito no ocidente, essas situações de exceção criadas por Bush realmente tiveram um impacto extraordinário na história recente do país.

IHU On-Line – No caso de Santa Catarina, depois das chuvas e do próprio ciclone Catarina, bilhões de reais saíram dos cofres públicos e se somaram com as doações de solidariedade popular foram investidos na reconstrução da infraestrutura da cidade. Este é um exemplo de “Capitalismo de desastre”?

Vânia Cury – Sim, e esta é mais uma manifestação da doutrina do choque. Diante do choque, da calamidade e do desnorteamento que abala todos os seres humanos, essas empresas e os interesses capitalistas rapidamente assumem o controle e passam a tirar todas as vantagens daquela situação. Se pararmos para pensar, lembraremos, na nossa história, várias situações em que esse fenômeno está acontecendo, tanto no Brasil como fora dele. "Diante

IHU On-Line – Como a questão da sociedade do medo vai ao encontro da ideia de capitalismo de desastre?

Vânia Cury – Naomi Klein considera que essas questões andam juntas, porque ao incutir o medo nas pessoas, e esse medo é muito maior quando assume uma proporção coletiva, ele pode ser muito vantajoso para os interesses particulares, seja de uma empresa ou indivíduo. Sabemos que os ditadores, que atuaram amedrontando as pessoas, tiraram grandes proveitos dessa situação. O medo é uma forma de paralisação, e a paralisia nos deixa impotentes diante da realidade. Não conseguimos reagir, e quando isso acontece abrimos o campo para que aquele que consegue reagir ocupe todos os espaços. Essas duas questões não andam separadas, por isso Naomi diz que há todo um trabalho ideológico permanente sendo colocado para as pessoas. Ela usa o exemplo das gripes e o medo que as pessoas ficam de contrair uma doença. Voltamos a uma época de epidemias assustadoras, que matam em massa. Naomi afirma que isso tudo vai deixando as pessoas extremamente vulneráveis e, ao se tornarem assim, abrem o flanco para que os altos interesses capitalistas envolvidos assumam o controle da situação.

IHU On-Line – Depois da crise financeira, muito se falou em crise do capitalismo. O capitalismo de desastre é um novo capitalismo, em sua opinião?

Vânia Cury – Na verdade o capitalismo de desastre faz parte da crise. Não acredito que exista um novo capitalismo, o capitalismo é o mesmo. Ele vai amadurecendo, avançando sobre áreas que antes não controlava. Este não é um novo sistema, é um sistema aperfeiçoado. O capitalismo de desastre é uma resposta à crise. Ele começou a viver, nos anos 1990, o excesso de neoliberalismo e de desregulamentação, que acabou gerando uma crise de proporções extraordinárias. Quando se chega a uma situação de impasse, a saída é não reformar o capitalismo, não fazê-lo retroceder aos limites antigos, fazer com que ele seja controlado pelo Estado, regido pelos interesses sociais. Isso não aconteceu, o que houve diante da crise que se colocou pelo excesso de desregulamentação do capital foi reforçar essa desregulamentação, usando a doutrina do choque. Este é um instrumento para a exacerbação e aprofundamento da lógica perversa do desenvolvimento capitalista, tal qual vínhamos vivendo desde os anos 1980.

IHU On-Line – Em relação à ideia de crise do capitalismo, podemos dizer que as crises sociais facilitam a adoção de medidas econômicas impopulares? A senhora pode nos dar exemplos disso?

Vânia Cury – Com certeza. A crise pensada nesse sentido, não uma crise social, mas uma crise de desastre, como coloca Naomi Klein, seja um desastre natural, manifestações brutas da natureza que o homem não consegue controlar, ou provocado, como rebeliões, golpes de Estado e guerras, como vimos no Afeganistão e no Oriente Médio. Nestas situações, temos a repetição do padrão, diante da instabilidade causada pelo evento, seja natural ou provocado, o capitalismo redobra seu esforço para ampliar o controle que exerce sobre aquela sociedade. O remédio que é dado pelo sistema dominante aos sintomas da crise é sempre mais do mesmo. Ao invés de tentar dar outra solução, criar uma contrapartida ao modelo que está sendo implementado, o que se faz é aumentar o grau de vulnerabilidade da sociedade para impor medidas mais duras daquele mesmo remédio que já se tomava anteriormente.

IHU On-Line – Então, hoje as catástrofes naturais são “desculpas” para impor um reordenamento a partir da violência do Estado?

Vânia Cury – Desculpas não, são oportunidades primorosas enxergadas por esses grupos capitalistas dominantes altamente relacionados dentro dos Estados modernos. Naomi mostra isso com clareza nos Estados Unidos. Lá se tem o complexo industrial militar, a indústria petrolífera e de guerra, que hoje são forças fantásticas dentro do Estado americano, que conduzem e controlam grande parte da política dos EUA. Eles se relacionam com o mundo, baseados, fundamentalmente, na expansão dos interesses desses grandes grupos econômicos.

IHU On-Line – A senhora acha que as pessoas estão prontas para lutar por mudanças em relação à situação do capitalismo atual?

Vânia Cury – Acho que as pessoas têm muita vontade de fazer isso. A grande contribuição do livro de Naomi Klein, a meu ver, é exatamente essa. Embora ela faça um relato que pode nos parecer extremamente pessimista, dadas as condições que ela analisa o desenvolvimento do capitalismo, mas mostra também que há diversas formas de reação se esboçando no mundo. Elas são variadas, infelizmente não temos hoje, na visão dela, um elemento que seja capaz de reunir todos esses esforços. Eles são muito fragmentados, estão desconectados e espalhados pelo mundo, mas há sim algumas iniciativas que vão sendo feitas no sentido de reunir essas forças e dar a elas uma consistência mais forte e mais integrada.

Um dos veículos de instrumento para isso tem sido o Fórum Social Mundial, um espaço de debate, discussão, para onde são levadas essas demandas sociais. Há outros movimentos, como a Via Campesina, por exemplo, e o próprio Movimento dos Trabalhadores Sem Terra do Brasil que têm muita importância lá fora, só não têm aqui, pois são criminalizados pela imprensa. Existem movimentos jovens, como o Creative Commons, no Brasil, e grupos se criando a partir da Internet. Naomi acha que, talvez, vá demorar um tempo, mas já podemos ver que há formas de resistências sendo montadas, há grupos interessados em reagir contra essa situação, mas, para saber onde isso dará, teremos que esperar. A Internet é uma das formas mais importantes de resistência e organização desses movimentos, tanto no plano local quanto no mundial, que pretendem interferir nos rumos da humanidade.

IHU On-Line – A partir dessa análise do livro de Naomi Klein, que cultura é gerada?

Vânia Cury – Acho que é uma forma de enfrentamento, e talvez uma das mais interessantes. Este é um dos calcanhares de Aquiles do Estado atual de organização da economia, pois, até agora, apesar de todas as tentativas que estão sendo feitas, não se mostrou viável uma forma de controle dessas redes sociais que vão se formando na Internet. Talvez esse seja um caminho interessante mesmo, não sei como isso irá evoluir, mas não tenho dúvida de que ele é um ponto de atrito e conflito para ordem dominante.

IHU On-Line – A senhora concorda com a ideia de que "se o clima fosse um banco, ele seria salvo"?

Vânia Cury – Acho que é bem provável, pois não há nenhum setor que tenha recebido mais apoio e cuidados no mundo hoje do que o setor financeiro. Nunca falta dinheiro, nunca há entraves de tipo jurídico, todos sempre estão dispostos a acudir as finanças, coisas que não vemos acontecer com relação ao ambiente, ao clima e aos recursos naturais, dos quais a nossa vida depende diariamente. Quando acontece algo com o sistema financeiro, todos ajudam. É como se pensassem: “Se isso falhar, estaremos mortos”. E se esse sistema falhar é pouco provável que toda a humanidade esteja morta. Esse é o poder que o setor financeiro tem de tornar os seus interesses os mais importantes do mundo. Eles exercem esse poder de várias maneiras, inclusive pelas chantagens. Através de ataques especulativos, eles podem jogar um país na miséria. Inclusive já fizeram isso, no passado, com a Argentina, Rússia, México, Ásia e tentaram fazer com o Brasil. Eles prometem, cumprem, tiram todos os recursos de uma vez, fazem jogatina na bolsa, ameaçam com ataques especulativos, e colocam os governos em uma situação de muita fragilidade. Não se pode correr o risco de levar o país à bancarrota. Toda vez que se provoca esse risco, se coloca uma situação de miséria social e desagregação política muito graves.

IHU On-Line – A senhora acredita que um novo modelo econômico mais sustentável terminaria com essa ideia de “Capitalismo de desastre”?

Vânia Cury – Acredito que sim. Se esse modelo fosse implantado com mais responsabilidade, com maior controle da sociedade sobre a origem e destino do dinheiro, acho que estaríamos muito mais livres dessas situações tão incômodas que vêm se repetindo. Nas últimas décadas, isso vem se tornando repetitivo, toda hora há uma calamidade, uma catástrofe e isso é muito grave. É uma sequência que começa a despertar nossa reflexão. Naomi Klein e outros pensadores começam a desvendar as questões que surgem.

Fonte: www.cartamaior.com.br

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Freegans fazem festas gratuitas na cidade de Nova Iorque - Por ANA

[EUA] Freegans fazem festas gratuitas na cidade de Nova Iorque

Num apartamento de um velho prédio no Harlem, um cheiro delicioso vem de uma cozinha pequena onde há panelas recheadas com vegetais cozidos sobre o fogão.

Rostos amigáveis entram e saem da cozinha, cada um trazendo mais comida para adicionar a refeição. Esta festa está sendo preparada pelos Freegans, que coletaram todos os ingredientes de sacolas e latas de lixo na noite anterior – grátis.

Apesar de tudo, parece vir direto de um show de culinária caseira, fresco e delicioso. Na mesa da sala de jantar tinham 5 enormes filões de pão intocados. Isto era mais parecido com um jantar de Ação de Graças do que sobras de lixo.

“Nós sempre tomamos sopa”, uma Freegan contou-me enquanto ela derramava canecas de feijão numa vasilha grande. “É um tipo de comida bem comum”.

“Fregan Festeja” acontecem uma vez por mês, usualmente após um “Turismo pelo lixo” nos depósitos de entulho. Na cidade de Nova Iorque, onde a produção e desperdício são enormes, Freegans ganham a vida rejeitando a sociedade consumista usando a comida jogada fora pelos grandes supermercados.

Mas o Freeganismo é mais do que uma maneira de sobreviver de comida grátis. Pegue Marsha Hinds, como exemplo. Hinds é membro do Freegan há poucos anos mas ela tem vivido livremente por sua própria conta na maior parte de sua vida.

Moradora de 20 anos do Crown Heights, Brooklyn, ela está desempregada mas é capaz de pagar um aluguel mensal de 900 dólares.

“Quando eu estava empregada fazendo edições ou digitando trabalhos. Eu guardava aproximadamente 80% da minha renda anual. Agora eu tenho mais ou menos 40 mil dólares guardados, dinheiro suficiente para viver por dois anos sem trabalhar”, conta Hinds.

Hinds explica que comida não é a única coisa que obtém sem custo.

“Eu amo coisas grátis. Especialmente livros grátis. Eu tenho sido uma caçadora pela maior parte da minha vida – eu pego de tudo, até mesmo micro-ondas, sapatos ou roupas”.

Um dos passatempos favoritos de Hinds é procurar no Booxcrossing.com, um site que permite as pessoas ao redor do mundo trocar livros e é de acesso livre, claro. A loja Brooklyn Free, na Grand Street entre a Bedford e Berry, é um outro lugar onde velhos e usados podem ser doados e qualquer um pegá-los gratuitamente. Existe até mesmo um grupo libertário de bicicleta, 123 Bicicleta Coletiva, que conserta bicicletas grátis.

Dentro do apartamento do Gio Andollo no Harlem, onde a festa acontece tem vários sofás e parte do mobiliário que ele diz que “foram provavelmente encontrados na rua”, mas foram deixados pelos moradores anteriores. Antes de mudar-se para Nova Iorque em setembro, Andollo morou em Orlando, Florida, onde ele esteve envolvido com o “Comida Sim, Bombas Não”, uma organização que compartilha refeições vegans e vegetarianas em protestos e eventos.

Até mesmo em Orlando, ele não era estranho ao mergulho nas latas de lixo.

“Nós costumávamos sempre encontrar seis pacotes de cervejas ou Gatorades que foram jogados fora somente por que uma garrafa estava quebrada”, explica Andollo num dos seus primeiros dias de procura. “Nós voltamos para casa sem mesmo saber o que fazer com todas elas- tudo grátis, bebidas fechadas que costumam custar de 2 a 3 dólares cada”.

E alguns estudantes da Universidade de Nova Iorque estão mudando para o estilo de vida dos Freegan. Um aluno graduado matriculado no programa de representação artística na Tisch Escola de Artes, Aidan Nolan, disse que Freeganismo era muito mais atrativo para ele depois da economia insatisfatória.

Ele conta que está olhando o mundo de uma forma diferente: “vendo uma maçã com um amassado não significa que todas as maçãs são ruins”.

Lecia Bushak

Tradução > Luis, A Vingança!

agência de notícias anarquistas-ana
pousada na lama,
a borboleta amarela,
com calor, se abana

Alaor Chaves

Gustavo e Otávio - os gêmeos grafiteiros - Por Sérgio Coletto

Gustavo e Otávio - os gêmeos grafiteiros - Por Sérgio Coletto

Ao caminhar pelas ruas não se surpreenda se encontrar nos muros, edifícios e até mesmo vagões de trem, representações humanas de pele amarelada envolvidas em inusitadas fantasias e situações. Aliás, se surpreenda sim! Esse é o objetivo dos artistas Gustavo e Otávio, conhecidos mundialmente como Os Gêmeos – ou pela famosa assinatura “osgemeos”.

Os irmãos brasileiros, nascidos em São Paulo, começaram como representantes do hip hop no final dos anos 80, mas hoje suas obras não têm mais ligação com o movimento, apesar de ainda participarem de alguns eventos. Já não são mais apenas simples devotos da militância: hoje suas críticas sociais carregam traços mais afinados e uma gama de materiais novos, além de incluir em suas galerias novos suportes, como esculturas e automóveis.

Conhecidos por suas grandes intervenções urbanas, suas obras retratam o onírico surgindo em meio ao real: personagens que carregam consigo a dura realidade do cotidiano de uma cidade envoltos numa eterna influência folclórica, como se lendas, sonhos e histórias populares guiassem a vida dos cidadãos em pleno século XXI.

O trabalho d’Os Gêmeos já ultrapassou as barreiras do grafite nas ruas e chegou a museus do mundo inteiro. Nas exposições, além dos painéis, encontram-se esculturas gigantescas, carros e instrumentos musicais (que funcionam!) customizados. E não são para desbravar só com os olhos: na maioria das obras, sempre é possível uma interação: pode-se tocar, manusear e, nas peças maiores, como barcos, caixas e túneis, a entrada é permitida e incentivada.

Frequentemente mencionados com louvor, como grandes representantes da arte contemporânea, Os Gêmeos impressionam pela imponência e riqueza de detalhes. Suas esculturas, na maioria das vezes muito altas, são à base de material reciclado, como latas, papelões, lascas de madeira e retalhos. Tudo trabalhado de forma tão delicada que um universo de detalhes se abre perante os olhos: a face, a posição dos braços e até mesmo as estampas das roupas das personagens estão cravados de expressões que dão uma riqueza inestimável às obras.

Em países como os Estados Unidos, Espanha, Portugal, Grécia, Brasil e Chile, é comum se deparar com obras de até 6 metros de altura ao sair do metrô, caminhar pela calçada ou olhar pela janela do carro.

E você, já se deparou com alguma hoje?


Fonte: http://obviousmag.org/

Sobre mídia e política - Por Marcelo Salles

Sobre mídia e políticaPor Marcelo Salles, 13.05.2010

1) Sinais das ruas: em La Paz, 2009, um muro próximo à Plaza España exclama: “Acorda! É hora de sonhar”. Em Brasília, 2010, um ônibus da linha 16, que liga a Asa Norte à Esplanada dos Ministérios, carrega num banco a inscrição, feita à caneta: “A mídia é uma máfia”.

2) As corporações de mídia divulgaram, com ares de espanto, que policiais deixaram um bandido fugir, no Rio de Janeiro. As imagens foram repetidas ad infinitum, de modo a culpar os policiais por deixar fugir o pé de chinelo. Queriam o quê? Que os caras atirassem para matar? Que sentassem o dedo com a rua cheia de gente?

3) Aconteceu numa cidade latino-americana. João nasceu e foi criado num condomínio de gente rica, desses que tem tudo: escola, igreja, mercado, clube, shopping, cinema. João não conheceu a desigualdade social e não conviveu com a diversidade cultural que marca sua cidade. Na sua opinião os pobres são um estorvo. As favelas, antros de marginais. Um dia, João virou prefeito dessa cidade e passou a administrá-la de acordo com suas convicções. Teve o apoio das corporações de mídia e dos empreiteiros. Aqueles convencem a população de que os pobres não são humanos, enquanto estes lucram com choques de ordem e despejos violentos. O sonho de João é transformar a cidade toda num grande condomínio, onde todos os seres considerados humanos são felizes.

4) Eleições: erra, e erra feio, quem considera Serra e Dilma a mesma coisa. Serra representa o projeto demotucano, todo o receituário neoliberal, Estado mínimo, alinhamento automático da política externa aos EUA, centralização das verbas publicitárias nas corporações de mídia, violência e criminalização contra pobres e movimentos sociais. Dilma representa o Estado indutor da economia, política externa multilateral, descentralização das verbas publicitárias e negociação com os movimentos sociais. Entre outras diferenças, como por exemplo o crescimento econômico (na era Lula o PIB teve média duas vezes maior que na era FHC). O governo Lula pode não ter avançado tanto quanto nós gostaríamos, mas daí a dizer que Serra e Dilma dão no mesmo é fazer o jogo da direita. É nivelar por baixo. A esquerda pode e deve apresentar uma plataforma programática para essas eleições. Alguns itens que considero fundamentais: Democratização dos Meios de Comunicação; Reforma Agrária; Imposto sobre Grandes Fortunas; Lei de Remessa de Lucros; Erradicação do Analfabetismo; Políticas de combate ao racismo, ao preconceito de gênero e à homofobia. Levantar essas bandeiras é a melhor forma de elevar o nível do debate e conscientizar a população.

5) Vocação de berço: Adriane Galisteu, num programa de televisão, afirmou: “Quando eu era criança meu sonho era ser caixa de supermercado. É porque eu pensava que aquele dinheiro era todo dela”.

6) Alguém já disse que o Brasil não vai dar certo enquanto pagar mil reais para um professor e 25 mil para um juiz. Vou complementar: e 100 mil para um leitor de teleprompter.

7) Aviso aos anti-flamenguistas: não comemorem antes do tempo.

Fonte: http://www.fazendomedia.com

Você sabe o valor da leitura? - Por Dinha [*]

Você sabe o valor da leitura?

Quando então aprendi a ler, o mundo se abriu de uma vez. E era pequeno demais para mim. Por Dinha [*]

Quem de nós sabe o valor da leitura? Posso dizer que sei. Ainda pequena, vivi as histórias de lobo e fantasma, de riso e de solidão, através das incansáveis narrativas de meu irmão, apenas dois anos mais velho que eu. Foi no espanto dessas histórias que eu, pela primeira vez, conheci o gosto de aventura em lugares distantes, com pessoas longínquas, em situações inusitadas, vampiro sonhando manhãs de sol.

Eu lia sem ler, ouvindo apenas - e vendo em meu irmão o brilho de entusiasmo e a satisfação em contar histórias, que só os grandes contadores de história têm. Quando, aos sete anos, entrei na escola, e as letrinhas juntaram-se em palavras e em sílabas - para mim, algumas delas nunca foram sílabas, foram sempre cachorros latindo, amigos se cumprimentando, reis ascendendo aos tronos, sapos, macacos e sherazades, explosões de significados, amor descoberto aos poucos.

Quando então aprendi a ler, o mundo se abriu de uma vez. E era pequeno demais para mim: o córrego [riacho] sujo, o barraco apertado e suspenso, para driblar as enchentes, a comida contada. Iniciada a leitura, apenas o amor da mãe prosseguiu (tão imenso quanto as esperanças que ela depositou em mim). Todo o resto perdeu a cor, dissipou-se, precisou ser reescrito.

Empodeirada de leitura, ganhei o mundo, estudei na melhor universidade do país, tornei-me poeta e professora. E se o mundo não me ganhou, foi porque desenvolvi meu senso crítico, fortaleci meu senso de proteção e encontrei alguém que me ajuda a ressignificar o mundo, cotidianamente.

Espalha-Leitura
Eu sei o valor da leitura e sei que no Brasil ele ainda é pequeno.

Embora os governos invistam minimamente em programas como o “Minha Biblioteca”, que distribui títulos, gratuitamente, a alunos da rede municipal, ou o “Uma biblioteca em cada município”, do governo federal, o acesso aos livros em nosso país, especialmente nas periferias das grandes cidades, permanece escasso. No Parque Bristol, zona Sul de São Paulo, por exemplo, a biblioteca pública mais próxima fica a R$2,70 de distância, 30 minutos de ônibus, ou uma hora e meia a pé. E pode custar o dobro, se o leitor desejar voltar para casa após o passeio. Na Cidade Tiradentes, uma imensa área residencial, com alto índice de vulnerabilidade social, na Zona Leste de São Paulo, há apenas uma biblioteca e ela é comunitária - só existe enquanto o Núcleo Força Ativa, um grupo organizado da região, puder mantê-la. Como no Parque Bristol, que também tem sua biblioteca comunitária, o acesso a esse bem cultural depende não da ação obrigatória do governo, mas da boa vontade e da insistência política de cidadãs e cidadãos comuns.

Gente comum, esforços incomuns

Um amplo coletivo começou a ser formado em 2006, durante um encontro sobre bibliotecas comunitárias, no Itaú Cultural. Lá estavam eu, duas professoras universitárias - uma das quais era, na época, doutoranda pela Universidade de São Paulo e cuja tese abordava o tema das bibliotecas comunitárias, enquanto prática social no Brasil -, o Núcleo Cultural Força Ativa e outras organizações sociais envolvidas com o tema. A minha função, na ocasião, era apresentar a Livro-pra-que-te-quero (nossa biblioteca, gerida pelo Poder e Revolução, o “arquipélago urbano”) e as nossas estratégias de “espalha-leitura”.

Tempos depois, uma das professoras nos procurou para conhecer melhor a nossa experiência e certificar-se de que ela se encaixava em seu estudo acerca das bibliotecas comunitárias.

Aparentemente, ela gostou tanto do que viu, ali e em outros tantos espaços pelo país afora, que entendeu ser importante a realização de um encontro nacional de bibliotecas comunitárias, enquanto estratégia de fortalecimento destas iniciativas, de modo a aumentar sua visibilidade e promover trocas capazes de aumentar o acesso aos livros no país e contribuir para a formação de leitores. A seu convite, foi formado, então, um coletivo com vistas ao planejamento e execução deste encontro.

Primeiro Encontro Nacional de Bibliotecas Comunitárias
De 2009 até agora, muitos esforços foram demandados, por parte de todos, para que um encontro entre as bibliotecas comunitárias do país fosse realizado: foram feitas muitas reuniões de planejamento, viagens com gastos do próprio bolso, articulações comunitárias, um projeto foi escrito, um plano de trabalho desenhado, uma rede virtual foi criada e segue funcionando no endereço eletrônico http://www.rbbconexoes.ning.com.br. Além disso, foram feitos vários contatos com possíveis parceiros e patrocinadores da idéia. Muitos domingos de sol foram adiados, em nome desta possibilidade.

Entretanto, apesar da organização popular em torno da construção deste encontro, apesar de este ter sido um sonho sonhado junto, a realidade esbarrou no preço, na pouca importância que a leitura, estrategicamente, parece ter neste país, e o evento ainda não aconteceu.

Para que ele ocorra, esta luta precisa prosseguir. Por isso, convidamos a tod@s a que engrossem as fileiras em torno da batalha, ora travada, para que os livros, enquanto direito, como bens culturais que são, estejam acessíveis a todos e a todas e para que este encontro, enquanto estratégia de reforço nesta batalha, possa efetivamente acontecer.

Você, sabe o valor da leitura?

[*] Dinha é membro do Núcleo Poder e Revolução, professora da rede pública municipal da cidade de São Paulo, mestranda em Estudo Comparados de Literatura de Língua Portuguesa (FFLCH/USP) e autora do livro De passagem mas não a passeio (Global Editora, 2008).

Fonte: http://passapalavra.info/

quarta-feira, 12 de maio de 2010

[França] Marcha antifascista em Paris reúne mais de 700 pessoas - ANA

[França] Marcha antifascista em Paris reúne mais de 700 pessoas

[A seguir comunicado da rede de coletivos que organizou a marcha antifascista neste último sábado, 9 de maio, em Paris. Um fim de semana de mobilização antifascista bem sucedida.]

Neste sábado, 9 de maio, ao apelo de uma quinzena de organizações, mais de 700 antifascistas desfilaram nas ruas de Paris, de Belleville à Praça de Châtele. A passeata começou com uma vibrante homenagem aos FTP-MOI, acompanhada de fotos dos fuzilados em grandes cartões vermelhos.

Depois de muito tempo, a extrema-direita radical tenta, com mais ou menos sucesso, reunir-se em 9 de maio nas ruas de Paris, sob o pretexto da morte de um dos seus militantes em 1994. Após 7 anos, nós nos mobilizamos contra esta presença na rua.

Hoje, nós estamos de novo mobilizados para não deixar o campo livre, para lembrar que estes fascistas são os mesmos que atacam e agridem há muito tempo jovens, estrangeiros, indocumentados e o movimento social…

Junto ao metrô Arts et Métiers, o coletivo de organizações quis lembrar aos eleitores que, atualmente, a extrema-direita eleitoral e radical cresce com a crise econômica. Os planos de demissões, o emprego precário ou desemprego impõem ao movimento antifascista que dê uma resposta anticapitalista efetiva.

Antes de se dispersarem, os manifestantes foram convidados a jogar 200 rosas no rio Sena, em memória das vítimas do Estado francês, de 17 de Outubro de 1961.

A nossa manifestação foi o auge de um fim de semana de mobilização contra a extrema-direita e suas idéias. Na véspera, mais de 120 pessoas participaram no debate "Como lutar contra a extrema-direita no campo social" organizado na Feira do Livro Libertário [de Paris].

Este debate foi uma oportunidade para um público de todas as idades discutir a situação da extrema-direita francesa, de conversar como podemos articular a luta antifascista com as lutas sociais. Karim Shafi, ator de Chauny, aproveitou a oportunidade para recordar as agressões racistas realizadas pelos nazi-skins na cidade, enquanto Didier Bernard, sindicalista na Continental, aproveitou a ocasião para denunciar as tentativas de recuperação das lutas dos trabalhadores pela extrema-direita .

As forças antifascistas mobilizadas neste final de semana em Paris não ficarão por aí!

Paris, sábado,10 de Maio de 2010.

Vídeo:

› http://www.lepost.fr/article/2010/05/11/2068846_marche-antifasciste-du-9-mai-2010.html

Tradução > Liberdade à Solta

agência de notícias anarquistas-ana
árvore morta
no galho seco
uma orquídea

Alexandre Brito

Neoliberalismo: a propaganda - Por Carla Luciana Silva

Neoliberalismo: a propaganda - Por Carla Luciana Silva


Veja: Indispensável para o neoliberalismo
Carla Luciana Silva

A professora do curso de História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) Carla Luciana Silva passou meses dedicando-se a leitura paciente de pilhas de edições antigas da revista Veja. A análise tornou-se uma tese de doutorado, defendida na Universidade Federal Fluminense, e agora, em livro. “Veja: o indispensável partido neoliberal (1989-2002)” (Edunioeste, 2009, 258 páginas) é o registro do papel assumido pela principal revista do Grupo Abril na construção do neoliberalismo no país.

A hipótese defendida pela professora Carla é que a revista atuou como agente partidário que colaborou com a construção da hegemonia neoliberal no Brasil. Carla deixa claro que a revista não fez o trabalho sozinha, mas em consonância com outros veículos privados. Porém, teve certo protagonismo, até pelo número médio de leitores que tinha na época – 4 milhões, afirma Carla em seu livro.

“A revista teve papel privilegiado na construção de consenso em torno das práticas neoliberais ao longo de toda a década. Essas práticas abrangem o campo político, mas não se restringem a ele. Dizem respeito às técnicas de gerenciamento do capital, e à construção de uma visão de mundo necessária a essas práticas, atingindo o lado mais explícito, produtivo, mas também o lado ideológico do processo”, afirma trecho do livro.

O livro pode ser adquirido diretamente com a autora, através do email carlalssilva@uol.com.br

Sobre o título do livro, porque “indispensável”? É uma brincadeira com o slogan da Veja ou reflete a importância da revista para o avanço do neoliberalismo no Brasil?
O título é uma alusão ao slogan da revista e ao mesmo tempo nos lembra que ela foi um sujeito político importante na construção do neoliberalismo. A grande imprensa brasileira foi indispensável para que o neoliberalismo tenha sido construído da forma que o foi. A Veja diz ser indispensável para o país que queremos ser. A pergunta é: quem está incluído nesse “nós” oculto? A classe trabalhadora é que não.

Quais os interesses defendidos por Veja?
Os interesses são os dominantes como um todo, mais especificamente os da burguesia financeira e dos anunciantes multinacionais. Em que pese o discurso de defesa da liberdade de expressão articulado à publicidade, o que importa pra revista são os interesses em torno da reprodução capitalista. A revista busca se mostrar como independente, o que se daria através de sua verba publicitária. É fato que a revista tem uma verba invejável, mas isso não a transforma no Quarto Poder, que vigiaria os demais de forma neutra. Ao mesmo tempo em que ela é portadora de interesses sociais, faz parte da sociedade, a sua vigilância é totalmente delimitada pela conjuntura e correlação de forças específica. O exemplo mais claro são as denúncias de corrupção e forma ambígua com que Veja tratou o governo Collor, o que discuto detidamente no livro.

Isso significa defender atores e grupos específicos? E, ao longo dos anos, estes atores mudam?
Essa pergunta é mais difícil de responder, requer uma leitura atenta, a cada momento histórico especifico. A revista não é por definição, governista [no período estudado]. Ela é defensora de programas de ação. No período analisado (1989-2002), sua ação esteve muito próxima do programa do Fórum Nacional [www.forumnacional.org.br] de João Paulo dos Reis Velloso. Ela busca convencer não apenas seus leitores comuns, mas a sociedade política como um todo e também os gerentes capitalistas.

E que relação Veja estabelece com grupos estrangeiros?
Essa é outra pergunta que requer atenção e mais estudos. O Grupo Abril não é um grupo “nacional”. Suas empresas têm participação direta de capital e administração estrangeira. Primeiro, é importante ter claro que o Grupo Abril não se restringe a suas publicações. A editora se divide em várias empresas, sendo que a Abril é majoritariamente propriedade do grupo Naspers, dono do Buscapé [site de comparação de preços] e de empresas espalhadas pelo mundo todo, da Rússia à Tailândia. Essa luta pela abertura de capital [no setor das comunicações] foi permanente ao longo dos anos 1990 e a Abril foi o primeiro grande conglomerado [de comunicação] brasileiro a abrir seu capital legalmente. É bom lembrar que o grupo tem investido bastante também na área da educação, e por isso a privatização do ensino continua sendo uma meta a atingir.

Aconteceram várias edições do “Fórum Nacional” no período em que faz sua análise. Por que Veja defendeu com tanto afinco as resoluções, especialmente econômicas, saídas desse Fórum?
O Fórum Nacional tem vários títulos. Eles [os integrantes do Fórum] foram se colocando ao longo dos anos, desde 1988, como intelectuais que pensam o Brasil e defendem programas de ação – as formas específicas de construção de um projeto sócio-econômico, que mudaram ao longo dessas duas décadas. Não existe um vínculo orgânico da revista com o Fórum, ao menos não o comprovamos, mas existe uma afinidade de programa de ação. A tentativa de reforma da Constituição em 1993 foi um bom exemplo, conforme desenvolvo no livro.

No livro, você aponta que a Veja “comprou” as idéias no Fórum Nacional, transformando-as numa verdadeira cartilha econômica para salvar o Brasil no começo dos anos 90. Quais seriam os principais tópicos desta “cartilha”?
O Fórum Nacional surgiu em 1988 como uma forma de organizar o pensamento e ação dominante. Ele se constituiu um verdadeiro aparelho privado de hegemonia, buscando apontar caminhos para a forma da hegemonia nos anos 1990. E existe até hoje, fazendo o mesmo. Portanto, ele não é apenas uma fórmula econômica, mas de economia política. Tratou de temas relevantes como “modernidade e pobreza”, “Plano Real”, “Segurança”, “estratégia industrial”, “política internacional”, sempre trazendo intelectuais considerados “top” do pensamento hegemônico para ver, a partir de suas pesquisas, quais caminhos deveriam ser seguidos, não apenas pelos governos, mas também pela sociedade política, ditando os rumos da economia.

Essa “cartilha” econômica foi atualizada? Você se recorda de alguma campanha recente em que a revista tenha tomado a frente?
A atualização é constante, mas não é uma cartilha. O Fórum e a revista são independentes um do outro, ao que parece, não há um vinculo orgânico. Mas Veja assumiu várias campanhas, sendo a principal delas a manutenção do programa econômico de Fernando Henrique durante todo o governo Lula. A blindagem feita ao presidente Lula da Silva foi imensa, especialmente se compararmos com o que foi feito do caso do mensalão ao que ocorreu no governo Fernando Collor. O que explica isso parece ser claramente a política econômica [de FHC e reproduzida por Lula] que garantiu lucros enormes aos bancos e a livre circulação de capitais, além de outras políticas complementares.

Qual foi a importância da revista para a corrente neoliberal desde Collor? Dá para mensurar?
Foi muito importante, mas não dá pra mensurar. É importante que tenhamos claro que o neoliberalismo não é uma cartilha, por mais que se baseie em documentos como o Consenso de Washington, por exemplo. Ele não foi “aplicado”. Foi construído como projeto de hegemonia desde os anos 1980. A grande imprensa participou da efetivação de padrões de consenso fundamentais: as privatizações, o ataque ao serviço público, a suposta falência do Estado. É importante olharmos hoje, pós crise de 2008, para ver que muitos desses preceitos são defendidos como saída da crise.

Qual a importância de Veja para as privatizações?
Difícil medir dessa forma. Posso falar da importância das privatizações para Veja: elas precisavam acontecer de qualquer forma. E isso era um compromisso com o projeto que representava e com os seus interesses capitalistas específicos, do Grupo Abril. É bom lembrar que a criação de consenso em torno desse ideal foi importante para que o grupo pudesse abrir seu capital oficialmente ao capital externo.

Veja deixa de ser neoliberal para ser neoconservadora? Digamos assim, amplia sua atuação do debate econômico, fundamental à implantação do neoliberalismo, e passar a fazer campanhas também em outras pautas conservadoras?
Não vejo essa distinção. Neoliberalismo foi um projeto de hegemonia, uma forma de estabelecer consenso em torno de práticas sociais específicas. A forma do capitalismo imperialista, portanto, não se restringe à economia. A política conservadora sempre esteve presente no neoliberalismo, haja visto a experiência de [Ronald] Reagan [presidente dos Estados Unidos] e [Margareth] Thatcher [primeira-ministra da Grã-Bretanha], a destruição do movimento sindical, a imposição do chamado pensamento único. Por esse caminho chegou-se a dizer que a história tinha acabado e que a luta de classes não fazia mais sentido. Os movimentos sociais foram duramente reprimidos e, além disso, se buscou construir consenso em torno de sua falência, o que foi acompanhado pelo transformismo dos principais partidos de esquerda, especialmente no Brasil. O que vemos hoje é a continuidade dessa política. Os dados dos movimentos sociais denunciam permanentemente o quanto tem aumentado a sua criminalização ao passo que os incentivos ao grande capital do agrobusiness só aumenta.

Existem diferenças muito contundentes entre a Veja de 89, a de 2002 e a de hoje?
Há diferenças claro. Havia, em 1989, um grau um pouco mais elevado de compromisso com notícias, com investigações jornalísticas, o que parece ter se perdido totalmente ao longo dos anos. A revista se tornou uma difusora de propagandas, tanto de governos como de produtos (basta ver as capas sobre Viagra ou cirurgias plásticas).

Já nos primeiros capítulos do livro, você chama atenção para o fato de Veja ser muito didática e panfletária quanto ao liberalismo. Ela deixou de fazer apologia ao neoliberalismo de maneira tão clara?
Teria que analisar mais detidamente. Essa é uma coisa importante: sentar e ler detidamente, semanas a fio, pra podermos concluir de forma mais segura a posição da revista.

Em algum momento do período analisado a revista foi muito atacada por alguma cobertura específica?
Sim, a revista teve embates, especialmente com a IstoÉ e, posteriormente, com a Carta Capital. Essas revistas talvez tenham ajudado a tirar uma ou outra assinatura de Veja em conjunturas especiais. O caso Collor não é simples como parece. A revista Veja fazia campanha nas capas mostrando o movimento das ruas e dentro do editorial ia dizendo que o governo deveria ser mantido em nome da governabilidade. Foi quando isso se tornou insustentável que ela defendeu a renuncia do presidente (e não o impeachment). Mas depois, construiu uma bela campanha publicitária. A Abril colocou luzes verde amarela em seus prédios, lançou boton comemorativo, pra construir memória, dizer que foi ela que derrubou o Collor. O importante é a gente perceber que não é esse o movimento mais importante. O importante é a gente ter instrumentos contra hegemônicos que nos permitam construir uma visão efetivamente critica do que está acontecendo. É importante ressaltar que ela [Veja] sempre fala como se fosse a porta-voz dos interesses da nação, do país, da sociedade, e como se não fosse ela portadora de interesses de classe.

Fonte: http://www.estadoanarquista.org/blog/

terça-feira, 11 de maio de 2010

Cadeia de exploração, sofrimento e danos ambientais: Entenda a ligação entre a tragédia ambiental no Golfo do México e o consumo de carne - Por ANDA

Cadeia de exploração, sofrimento e danos ambientais

Entenda a ligação entre a tragédia ambiental no Golfo do México e o consumo de carne

Por Rachel Siqueira (da Redação-EUA)

Vazamento de petróleo está ligado aos nossos hábitos alimentares (Foto: i Online)

Depois da trágica explosão de plataformas petrolíferas na costa do golfo e do derramamento de óleo resultante, que continua a se espalhar, muitas pessoas estão procurando respostas. Como é que este desastre ocorre – e como podemos evitar que catástrofes semelhantes se repitam no futuro? A culpa pode estar na escolha que fazemos quanto ao que colocar em nossos pratos.

Mais de um terço dos combustíveis fósseis produzidos nos Estados Unidos é usado para criar animais explorados e destinados ao consumo humano. Enormes quantidades de grãos e soja são cultivados para a alimentação destes animais e são transportados para processadores em caminhões de 18 rodas, que de maneira assustadora consomem combustível e poluem.

Mais energia é então utilizada ao operar os feed mills (processo e/ou uma combinação de processos utilizados para produzir um alimento processado para animais) e fazendas de animais, além do transporte dos animais para abate, por longas distâncias, na operação dos matadouros e mais.

É preciso cerca de 10 vezes mais combustíveis fósseis – sem contar a significante necessidade de muito mais terra e água – para produzir carne que produzir alimentos veganos. A produção de carne é, também, uma das principais fontes de poluição da água nos Estados Unidos. Todos nós podemos ajudar a frear o apetite dos Estados Unidos por petróleo, conservar recursos e reduzir a poluição, aderindo à alimentação vegana. Para saber mais, visite www.GoVeg.com.

Fonte: The News Star
Fonte: http://www.anda.jor.br/

O Brasil deve produzir a bomba atômica? - Por Breno Altman

O Brasil deve produzir a bomba atômica?

A revista alemã Der Spiegel, em sua edição mais recente, traz artigo intitulado “O Brasil está desenvolvendo a bomba atômica?”. O autor do texto, Hans Rühle, sem qualquer prova concreta ou evidência honesta, especula que o país estaria trabalhando em um projeto militar secreto para a fabricação de armas nucleares.

A leviandade da matéria não surpreende. A publicação que a abriga fez fama pelo reacionarismo editorial e o descompromisso com a verdade. Uma notória fonte de inspiração, aliás, para suas congêneres mundo afora. Além do mais, não é de se espantar que, às vésperas da viagem do presidente Lula ao Irã, seja dada a largada para uma campanha de desprestígio contra o líder brasileiro.

Mas as aleivosias do jornalista germânico também são um bom motivo para rediscutir a questão atômica. Afinal, por que o Brasil, entre outras nações, não deveria ter o direito de possuir seu próprio arsenal nuclear? Por que apenas alguns países, em flagrante desequilíbrio das relações internacionais, exercem o monopólio atômico?

Nem haveria o que discutir se estivesse em curso um processo de desarmamento generalizado. O país que rompesse esse tipo de acordo, é evidente, deveria ser tratado como um pária e exemplarmente punido. Não é essa, porém, a situação em que vivemos, profundamente injusta e desigual. A propriedade de armas atômicas continua a ser instrumento fundamental de hegemonia.

Não é à toa o esforço das grandes potências, particularmente dos Estados Unidos, para impedir que novos sócios sejam aceitos no clube da bomba. Regras de controle mais rigoroso têm sido discutidas, inclusive sobre processos de enriquecimento do urânio para fins pacíficos, através de métodos que deitariam por terra a autodeterminação nacional.

Um dos exemplos mais relevantes de submissão a essa política foi a assinatura, pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1998, do Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Até então, o tema vinha sendo abordado de forma soberana, com erros e acertos, através de cláusulas constitucionais ou acordos regionais. Após a aceitação do TNPL, no entanto, o Brasil abdicou de sua independência atômica.

Tal decisão veio na esteira de outras semelhantes, que levaram ao sucateamento das forças armadas e à renúncia a construir uma estratégia autônoma de defesa. A concepção que orientou tais atitudes, afinal, reserva ao Brasil e à América Latina o papel de coadjuvantes no bloco sob comando norte-americano. Ou alguém se esquece, por exemplo, do entusiasmo de Fernando Henrique com a Área de Livre Comércio das Américas, a falecida Alca?

A consequência militar dessa visão foi se comportar como apêndice do Departamento de Defesa dos EUA, cuja proposta era transformar os exércitos ao sul em estruturas policiais dedicadas a combater o narcotráfico e o terrorismo. Com essas tarefas, seus contingentes poderiam ser fortemente reduzidos, além de ter seu armamento reconfigurado para uso tático.

A derrota desse ponto de vista, com a emergência de uma orientação integracionista entre países latino-americanos, cobra a elaboração de uma nova doutrina de segurança. A modernização das forças armadas no subcontinente, alcunhada de “corrida armamentista” por veículos mortos de amor pela Casa Branca, é um passo nessa direção.

Não é possível o desenvolvimento de um bloco político-econômico que pretenda romper com a asfixia da dependência sem que seja capaz de se defender contra seus inimigos potenciais. A América Latina, afinal, apresenta um dos maiores inventários de riquezas energéticas e naturais do planeta. A maneira como forem exploradas e controladas terá um peso decisivo nas próximas décadas.

A existência de um forte dispositivo dissuasório é a única garantia histórica para a paz e a soberania. No caso latino-americano, isso pressupõe a renovação combinada, ainda que desigual, das distintas forças armadas, apontando para a integração militar da região. Isso significa instituições comuns, exercícios conjuntos, indústria própria de armamentos, centros integrados de estratégia e comando.

Esses passos, no entanto, seriam insuficientes sem a resolução do desequilíbrio nuclear. Obviamente que não se trata, nessa conjuntura, de romper unilateralmente os pactos internacionais e iniciar a fabricação da bomba. Mas é necessário desmascarar tanto o cinismo quanto a acomodação e estabelecer, de imediato, abordagem diferente acerca dessa agenda.

O Brasil e seus aliados, inclusive externos ao bloco regional, têm o direito de declarar um ultimato pela eliminação de todas as ogivas nucleares em prazo determinado - entre cinco e dez anos, por exemplo. Caso esse objetivo não fosse alcançado, estariam extintas as obrigações das nações signatárias com o Tratado de Não-Proliferação.

O que não se pode, de toda maneira, é admitir a supremacia atômica como normal e razoável. Muito menos aceitar mecanismos imperialistas de contenção da capacidade tecnológica ou defensiva de nações livres.

*Breno Altman é jornalista e diretor editorial do Opera Mundi
Fonte: http://operamundi.uol.com.br/

Polícia apreende hambúrgueres vencidos em restaurante do McDonald´s de SP

Polícia apreende hambúrgueres vencidos em restaurante de SP

Foram encontrados 520 hambúrgueres; 270 com validade vencida.
Gerente do McDonald's do Jabaquara foi preso em flagrante.

Policiais da 1ª Delegacia de Saúde Pública apreenderam nesta segunda-feira (10) 520 hambúrgueres impróprios para consumo em uma loja do McDonald´s, na região do Jabaquara, Zona Sul da capital. Desse total, 270 estavam com prazo de validade vencido em 9 de abril e as outras 250 unidades não tinham a procedência informada. “Até para mim foi uma surpresa. São 40 kg de carne”, disse o delegado Marcelo Jacobucci.

O gerente do restaurante de fast-food, que foi preso em flagrante, responderá por crime contra as relações do consumidor e contra a saúde pública. Ele pagou fiança de R$ 1.500. A loja fica na Avenida Engenheiro Armando de Arruda Pereira.

A assessoria de imprensa do McDonald´s informou em nota nesta tarde que "a empresa está colaborando com os órgãos competentes para a apuração dos fatos e reitera que segue procedimentos internacionais de segurança alimentar".

De acordo com o delegado, os hambúrgueres estavam acondicionados na mesma câmara fria onde ficavam outros alimentos próprios para o consumo. “O produto para descarte tem que estar identificado, mas ele estava misturado aos outros. Ele até pode estar na câmara fria (por ser perecível), mas em local reservado e com identificação visível”, completou Jacobucci.

O delegado contou que o gerente da loja tentou explicar a irregularidade, alegando “sabotagem” por parte de algum funcionário ou ex-funcionário. Ainda nesta segunda, Jacobucci afirmou que mandaria um ofício à Vigilância Sanitária, pedindo para que ela fiscalize a loja onde os 520 hambúrgueres foram encontrados.

A investigação na 1ª Delegacia de Saúde Pública começou há dois meses. Jacobucci contou que a incursão na loja da Zona Sul foi a primeira realizada desde então. De acordo com ele, as denúncias são que a rede tem filiais vendendo produtos fora da validade. “Uma mulher até esteve aqui para denunciar isso”, afirmou ele, sobre uma possível vítima. Segundo o delegado, as investigações continuam, mas ele não revelou os próximos passos da equipe.

Fonte: algum lugar da rede!

Florianópolis viverá uma nova Revolta da Catraca? [*] - Por Passa Palavra

Florianópolis viverá uma nova Revolta da Catraca? [*]

Mais uma vez a prefeitura e os empresários do transporte coletivo de Florianópolis subestimaram a organização popular e resolveram aumentar ainda mais a tarifa do transporte público. Mas o que parece se esboçar na cidade é uma resistência de proporções muito maiores do que se viu nos anos posteriores a 2005. Por Passa Palavra

A partir da 0h deste domingo, 09 de maio, as tarifas do transporte público de Florianópolis sofreram um novo reajuste, passando de R$ 2,80 para R$ 2,95 em dinheiro e de R$ 2,20 para R$ 2,38 no cartão. Os novos valores da tarifa social são de R$ 1,60 no cartão e R$ 1,95 em dinheiro. Mais uma vez a população é desafiada a se organizar e resistir, lutando pela revogação do aumento e por mudanças efetivas no sistema de transporte da cidade, que há anos tem sido alvo de protestos, debates e a elaboração de projetos pelos movimentos da cidade, em especial o Movimento Passe Livre.

A reação ao anúncio do aumento não poderia ter sido melhor: na quinta-feira, poucas horas depois do prefeito anunciar o reajuste, uma reunião foi convocada às pressas pelo Diretório Central dos Estudantes da UFSC e pelo Grêmio do Colégio Aplicação. O chamado foi atendido por dezenas de pessoas que reorganizaram a Frente de Luta pelo Transporte Público.

Já na sexta-feira, um ato com centenas de pessoas saiu pela manhã do campus da UFSC em caminhada até o centro, encontrando estudantes de escolas do centro e de outras regiões da cidade, reunindo cerca de 500 pessoas em frente ao Terminal do Centro (Ticen). De lá a manifestação partiu para a sede do Sindicato das Empresas de Transporte Urbano de Florianópolis (Setuf), rapidamente ocupado com a reivindicação de que a planilha de custos das empresas fosse entregue à população. Nenhum dos responsáveis pelo órgão se apresentou para atender os manifestantes, que tentaram adentrar pacificamente nas salas administrativas do prédio e foram violentamente atacados por funcionários e seguranças do Setuf, que usaram de cadeiras e pedaços de ferro, além de socos e pontapés, para agredir os manifestantes. A violência dos funcionários do órgão gerou um princípio de confusão que acabou por causar pequenos ferimentos em ambos os lados.

Depois do incidente a manifestação caminhou até o prédio de atendimento da Secretaria Municipal de Transportes, mas o encontrou com as portas fechadas para a população. Os manifestantes resolveram então voltar para frente do Ticen e bloquearam por alguns minutos a entrada dos ônibus no terminal, sofrendo com a repressão da polícia, que usou armas de choque (tasers) nos manifestantes. O protesto terminou por volta das 14h em frente a prefeitura, que também estava de portas fechadas e recebeu a manifestação com a Guarda Municipal usando spray de pimenta.

No sábado, 08 de maio, mais uma grande reunião da Frente foi realizada e um calendário com diversas mobilizações para esta semana foi aprovado (veja aqui a agenda completa das mobilizações). Além de diversos atos descentralizados em todas as regiões da cidade, duas grandes manifestações ocorrerão no centro: uma na segunda (10/05) e outra na quinta (13/05), ambas com concentração às 17h em frente ao Ticen; na quarta-feira, uma grande assembléia convocatória para o grande ato de quinta será realizada a partir das 11h30, também na frente do Ticen.

O que parece se esboçar na cidade é uma resistência de proporções muito maiores do que se viu nos anos posteriores a 2005 - ano em que a cidade viveu a segunda Revolta da Catraca. A presença massiva de novos militantes, com destaque especial para os estudantes secundaristas, a disposição e revolta evidentes e a apropriação do movimento pelas diferentes pessoas e organizações que o compõem, dando voz a todos e garantindo pluralidade e autonomia nas diferentes ações, são apenas os primeiros indícios do que pode estourar nos próximos dias em Florianópolis.

As grandes assembléias de rua, inseridas num modelo de organização baseado na ação direta e no protagonismo popular, com uma estrutura horizontal que consegue ao mesmo tempo criar diversidade e unidade na ação, indicam as possibilidades de que novas formas de resistência e de organização podem ser gestadas durante o processo, ampliando a criatividade e massificando as intervenções do movimento.

Certamente, ainda é muito cedo para saber se nos próximos dias as manifestações irão ganhar corpo e uma ampla adesão popular, que ultrapasse o meio estudantil e possa criar chances efetivas de vitória. As dificuldades de superar a dispersão e fragmentação das diferentes lutas, bem como de enfrentar a dura repressão policial e a criminalização da resistência, são enormes. Mas o quadro apresentado, se ainda não nos permite sonhar alto, exige que sejamos otimistas.

A vitória desta luta depende de toda população de Florianópolis, da união prática em torno desta bandeira e da radicalidade que o movimento em gestação puder adquirir. Passa Palavra

Fotos: Pira.
[*] Revolta da Catraca foi uma revolta popular vitoriosa contra aumentos nas tarifas de ônibus de Florianópolis em 2004 e 2005. Em 2004, por conta de um reajuste de 15,6%concedido pela Prefeitura e pelas empresas de ônibus, através do Conselho Municipal dos Transportes, milhares de pessoas saíram às ruas entre os dias 28 de junho e 8 de julho. Já no ano de 2005, os protestos duraram de 30 de maio à 21 de junho, quando a Prefeitura revogou aumento de 8,8%.

A radicalidade das manifestações foi fruto do desgaste do modelo de transporte perante a população, que sofria com aumentos intensos (quase 200% desde 1996) e a complexidade do novo Sistema Integrado de Transportes. A agressiva reação policial contribuiu significativamente para o acirramento da rebeldia popular, acabando por fazer com que mais e mais pessoas participassem das manifestações como forma de repudiar a violência contra os e as manifestantes.

Iniciados pela então Campanha pelo Passe Livre (futuro Movimento Passe Livre), os protestos logo foram abraçados por diversos setores da sociedade. Terminais de ônibus e principais vias da cidade foram ocupados; manifestantes abriam as portas traseiras para usuários entrarem sem pagar a tarifa ou simplesmente pulavam catracas; estudantes e associações de bairro organizavam passeatas e debates. Tudo isso num clima de democracia direta, sem o tradicional protagonismo partidário de mobilizações populares. (Retirado de: http://tarifazero.org/2009/07/22/revolta-da-catraca/)

Fonte: http://passapalavra.info/