quinta-feira, 19 de agosto de 2010

EUA fez ameaças contra tupamaros para resgatar agente da polícia americana em 1970 - Por David Brooks

EUA fez ameaças contra tupamaros para resgatar agente da polícia americana em 1970
Há 40 anos, o governo dos EUA incitou o uruguaio a ameaçar de morte prisioneiros tupamaros e seus familiares para conseguir o resgate do assessor policial estadunidense Dan Mitrione, revelam documentos secretos divulgados na semana passada pela primeira vez.
Por David Brooks

Há 40 anos, o governo dos EUA incitou o uruguaio a ameaçar de morte prisioneiros `tupamaros` e seus familiares para conseguir o resgate do assessor policial estadunidense Dan Mitrione, revelam documentos secretos divulgados na semana passada pela primeira vez.

O National Security Archive (NSA), organização independente de investigação, divulgou documentos que demonstram que o governo de Richard Nixon enviou uma mensagem ao seu embaixador no Uruguai, Charles Adair, recomendando que "ameaçasse matar (Raúl) Sendic (recém-detido na época) e outros prisioneiros chave do MLN (Movimento de Libertação Nacional) se Mitrione fosse assassinado". O mensageiro, enviado pelo secretário de Estado, William Rogers, sublinhava que se "isso não fosse considerado, o governo uruguaio deveria ser abordado imediatamente".

A mensagem urgente era para responder ao últimato emitido pelos tupamaros que executariam Dan Mitrione, diretor da Oficina de Segurança Pública da Agência de Desenvolvimento Internacional dos EUA (USAID), ao meio-dia de 9 de agosto de 1970, a quem haviam sequestrado dez dias antes, se 150 dos tupamaros detidos não fossem liberados pelo governo. Momentos depois de receber o mensageiro, o embaixador Adair reportou ao Departamento de Estado: "uma ameaça foi feita a esses prisioneiros para avisá-los que integrantes do `Esquadrão da Morte` tomariam uma ação com os familiares dos prisioneiros se Mitrione fosse assassinado".

O cadáver de Mitrione foi achado na manhã de 10 de agosto quando as exigência dos tupamaros não foram cumpridas pelo governo uruguaio. Carlos Osorio, diretor do projeto da região da NSA, comentou que "os documentos revelam que os EUA foram até o limite da ética" num esforço para salvar Mitrione, um aspecto do caso que permaneceu oculto em documentos secretos durante anos. Deveria haver uma desclassificação plena para estabelecer a verdade sobre a política norte-americana com o Uruguai nos anos 60 e 70".

Osorio indicou que os documentos norte-americanos oferecem "provas irrefutáveis" de que os "esquadrões da morte" eram uma polícia do governo uruguaio e portanto constituiriam provas chaves nos casos sobre esses eventos perante os tribunais uruguaios.

Clara Aldrighi, professora de história da Universidade da República no Uruguai, que colaborou com a NSA na análise dos documentos, afirmou que "depois da morte de Dan Mitrione o governo uruguaio acionou os esquadrões da morte ilegais para caçar a matar os rebeldes". Reiterou também que o governo uruguaio deveria desclassificar seus documentos oficiais sobre esse período de sua história.

Um dos documentos difundidos na semana passada no site da NSA é o primeiro reconhecimento oficial dos EUA detectado até agora sobre a existência dos "esquadrões da morte"uruguaios e, assim, prova que Washington sabia de sua existência.

A história de Mitrione foi a base para o filme Estado de Sitio, de Costa-Gavras, que mostra o apoio norte-ameriacno a uma ditadura que torturava, com um assessor dos EUA que treinava as forças de segurança com técnicas de "interrogação" e anti-rebeldia. Ele foi chefe de polícia de Richmond, Indiana, e depois agente do FBI. Em meados dos anos 60 foi contratado pela USAID para capacitar policiais no Brasil e no Uruguai, países onde se empregou a tortura, entre outras violações de direitos humanos, por governos ditatoriais. Segundo alguns historiadores especializados no tema, Mitrione mostrou técnicas de tortura a oficias uruguaios. Foi através de Mitrione que a USAID impulsionou a consolidação da Direção Nacional de Informação e Inteligência, o DNII, que se encarregou de operações anti-rebeldia no Uruguai. Quando o filme Estado de Sitio estreou, não foi exibido em Richmond, onde vive a família de Mitrione.

Para ver os documentos oficiais e outros relacionados com o caso relacionado aos arquivos do governo do Uruguai divulgados na semana passada, veja a página da NSA na internet: www.gwu.edu/~nsarchiv/

Com informações do La Jornada. Tradução de André Rossi.
Fonte: http://www.revistaforum.com.br/

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

New Model Army vai fazer dois shows diferentes em SP no mês de setembro

New Model Army vai fazer dois shows diferentes em SP no mês de setembro


O New Model Army volta ao Brasil em setembro para duas apresentações em comemoração aos 30 anos de carreira. Nos dias 17 e 18 daquele mês, no Citibank Hall de São Paulo, a banda punk vai relembrar suas origens e trajetória em duas noites com repertórios diferentes.

O grupo vai tocar músicas de todos os seus 13 álbuns de estúdio, dividindo o set list de mais de 50 músicas em dois dias. Os shows serão separados em dois atos cada dia: a primeira parte será acústica, com aproximadamente 50 minutos e, após o intervalo, entram as guitarras em mais 1h40 de show.

Os ingressos custam R$ 80 (pista) R$ 150 (camarote) por dia, ou R$ 126 (pista) e R$ 290 (camarote) para as duas noites --há meia-entrada para os dois setores. Os bilhetes começam a ser vendidas para o público em geral a partir do dia 23 de agosto, mas clientes Credicard, Citibank e Diners já podem comprar no site www.ticketsforfun.com.br, pelo telefone 4003-5588 ou na bilheteria do Citibank Hall.

Composto atualmente por Justin Sullivan (vocal, guitarra e gaita), Peter Nelson (baixo e vocal), Dean White (teclado e guitarra), Michael Dean (bateria e percussão) e Marshall Gill (guitarra), o grupo ficou famoso com "51st State of America". Sullivan e companhia também criaram grandes sucessos como "The Price", "No Rest", "The Hunt" (regravada pelo Sepultura) e "Here Comes The War".

NEW MODEL ARMY EM SP
Quando: 17 e 18/09, a partir das 22h
Onde: Citibank Hall (av. Jamaris, 213, Moema)
Quanto: R$ 80 (pista) R$ 150 (camarote) por dia, ou R$ 126 (pista) e R$ 290 (camarote) para as duas noites --há meia-entrada para os dois setores
Ingressos: www.ticketsforfun.com.br, pelo telefone 4003-5588 ou na bilheteria do Citibank Hall
Censura: 16 anos; jovens de 14 e 15 anos podem entrar acompanhados dos pais ou responsáveis legais
Fonte: UOL

Breve artigo a respeito do relatório sobre terrorismo do Departamento de Estado dos Estados Unidos - ANA

Breve artigo a respeito do relatório sobre terrorismo do Departamento de Estado dos Estados Unidos

Precisamente hoje encontramos uma nota no site de noticias la rebelión, onde se reproduz parte de um documento emitido pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos a propósito do Terrorismo em diferentes países. O dito documento (reproduzimos parte dele no final deste texto) sugere que o EPR (Exército Popular Revolucionário) e a FLA (Frente de Libertação Animal) sejam os dois grupos ou organizações no México que colocam em perigo ou representem um risco para a segurança nacional.

Tanto o governo do México como o dos Estados Unidos desempenham um papel importante na transmissão e manipulação das informações à opinião pública e à sociedade em geral, com a finalidade de esconder a realidade de um crescimento, tanto em qualidade como em quantidade, de ações diretas e grupos de afinidades no México. Para eles qualquer ataque cometido é de um único grupo, embora nas reivindicações se constate que são diferentes organizações ou células as que levam à prática esta luta.

O relatório aponta que apenas 6 as ações foram realizadas durante o ano, quando por outro lado, em sites de informação como liberación.total.net, são documentadas a efervescência de novos grupos e o aumento rápido de ações de sabotagem.

No México atuam por volta de 15 grupos ou células de ação, alguns destes grupos têm reclamado apenas um ato ou dois, embora os que têm sido mais ativos sejam: a Frente de Libertação da Terra (FLT), Células Autônomas da Revolução Imediata/Praxedis G. Guerrero (CARI/PGG), Frente Subversiva de Libertação Global (FSLG), Ação Anarquista Anônima (AAA) e a Frente de Libertação Animal (FLA). Cada uma destas organizações utilizou políticas de lutas diversas, ainda que afins em algumas reivindicações.

As ações realizadas pelos grupos de ação no México são diversas e se espalharam para várias partes do país. Toluca, Tijuana, Guadalajara, San Luis Potosi, Leon, Estado do México e o Distrito Federal são os locais com a principal e permanente presença de grupos de ação. Ações que vão desde ataques incendiários, sabotagem com explosivos, expropriações e rajadas de armas contra unidades policiais, entre outras coisas, que põem em evidência e contradizem os esforços do governo para minimizar a guerra social que está cada vez mais aguda, tanto no México como no mundo.

No entanto, se o modo de se organizar entre um grupo e outro são semelhantes, bem como o seu modo de operar, não é porque tudo pertença a um só e mesmo grupo dividido em células, mas porque esta maneira de ação é uma forma organizativa muito utilizada em todo o mundo, desde tempos históricos (por assim dizer), por exemplo: com o grupo Bandeira Negra da Rússia e o Culmine da Argentina, estes últimos reunidos sob o conceito de afinidade tanto nas idéias como nas práticas, a operatividade era a mesma, deixar e retirar-se sem ser visto pelo inimigo, além de utilizar materiais não especializados e de fácil obtenção.

Mais recentemente tivemos grupos como Angry Brigade, da Inglaterra, que utilizavam a mesma operatividade; realizavam atentados contra propriedades de gente poderosa e corpos policiais durante os anos 80, sem esquecer as muitas ações que grupos anarquistas têm posto em prática contra o poder e que por decisão própria não reivindicaram com nenhum nome. A esta forma organizativa informal ácrata, o anarquista italiano Alfredo Maria Bonanno (atualmente com 73 anos de idade, preso depois de um assalto na Grécia) tem vindo a agregar-lhe um toque teórico que sintetiza toda esta forma de operatividade dos núcleos autônomos informais anarquistas de ação.

Ainda que para muito/as esta forma de organização para a ação anarquista tenha em Bonanno o seu criador ou principal teórico, após um par de transcrições de conferências como, “A tensão anarquista”, esta configuração de organização e ação já se vinha praticando na Itália durante os chamados “Anos de chumbo”, nos anos 70. Atualmente os muitos grupos de ação que operam em todo o mundo organizam-se através de modo semelhante, se bem que, alguns, variem nos conceitos, reivindicações e práticas, a operatividade é a mesma, chegar ou atacar e retirar-se.

A seguir um parágrafo da nota escrita pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, o relatório para os diversos países sobre “Terrorismo 2009”, onde eles apontam o Exército Popular Revolucionário e a Frente de Libertação Animal, como duas organizações mexicanas que significariam um risco para a segurança nacional.

“Apesar dos incidentes de terrorismo doméstico, que não se incrementaram no ano passado, o México recebeu ameaças de um grupo já ativo anteriormente, e foi testemunha da aparição de um novo elemento. O Exército Popular Revolucionário (EPR) interrompeu as conversações com o governo em abril e ameaçou voltar a empregar medidas violentas para forçar uma resposta para as suas reivindicações acerca de uma investigação do governo sobre a desaparição de dois dos seus membros. Em 2009, não houve atos de terrorismo atribuídos ao EPR. De maio a agosto, a Frente de Libertação Animal se responsabilizou pelo ataque a bancos e recintos comerciais em toda a Cidade do México, usando bombas de gás propano. Três bombas foram descobertas sem explodir, embora outras três causaram danos materiais em propriedade, mas sem vítimas.”

O poder oculta o que não quer que se veja. A expansão da guerra social. De nós depende que a revolta continue de pé.

Anarquistas anônimo/as

Tradução > Liberdade à Solta

agência de notícias anarquistas-ana
As águas do mar
e o vento nos arvoredos
dissolvem meu pranto

Antônio Gonçalves Hudson

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Projeto Vigilante espiona milhares de pessoas nos EUA - Por CMI.

Projeto Vigilante espiona milhares de pessoas nos EUA.

Nos EUA existe um grupo de vigilantes chamado Project Vigilant (Projeto Vigilante). São centenas de hackers e experts em segurança/inteligência que, de forma secreta, vem espionando por mais de uma década o tráfego de 12 provedoras de internet nos EUA, criando perfis de pessoas suspeitas e denunciando-as ao FBI. Um de seus voluntários é Adrian Lamo, o hacker que entregou ao FBI e ao Exército dos EUA o soldado Bradley Manning, acusado de ter vazado documentos que comprovam crimes de guerra no Iraque para o site Wikileaks.

No domingo, 1 de Agosto, na Conferência de Segurança Defcon, o diretor executivo do Projeto Vigilante, Chet Uber, disse que foi ele quem convenceu Adrian Lamo a entregar o soldado Bradley Manning ao FBI. Uber disse que Lamo trabalha desde 2009 como analista de "caracterização de adversário" para o Projeto Vigilante. Essa declaração desmente a história que Lamo vinha contando de que nunca tinha trabalhado como informante para o FBI ou outra agência do governo.

De acordo com Chet Uber o Projeto Vigilante conta com cerca de 600 pessoas e ele espera conseguir ter pelo menos 1200 voluntários até 2012 e essa era uma das razões dele estar falando do projeto na conferência Defcon. De acordo com o artigo do site Salon alguns dos participantes do Projeto Vigilante são: Mark Rasch (que foi chefe da Unidade de Crimes da Internet do Departamento da Justica por 9 anos); Kevin Manson, (oficial aposentado da Homeland Security); George Johnson (que desenvolve ferramentas de segurança em troca de informações sensíveis entre agências federais para o Pentágono); Ira Winkler (ex-oficial da Agência Nacional de Segurança - NSA); e Suzanne Gorman (ex-chefe de segurança da Bolsa de Valores de Nova York).

Uma dos diversos métodos para conseguir informações do Projeto Vigilante inclui a coleta de informações de uma dúzia de prestadoras de serviços de Internet (ISPs) dos EUA. Uber se recusou a nomear essas ISPs, mas disse que por causa da política de EULA (End User License Agreement ou em português - Contrato de Licença do Usuário Final) que permite o compartilhamento das atividades dos usuários de Internet com terceiros, eles foram capazes de coletar os dados de forma legal. Com o acesso a tudo o que trafega por essas 12 provedoras eles são capazes de elaborar relatórios para as agências federais. No comunicado de imprensa do Projeto Vigilante diz que a organização tem acesso a mais de 250 milhões de endereços de IP e que podem "desenvolver relatos sobre qualquer nome, apelido na internet ou endereço de IP".

O Projeto Vigilante também conta com a colaboração de pessoas "comuns", tipo aquelas que você deixa entrar na sua casa sem nenhuma desconfiança como o cara que vem arrumar o encanamento da cozinha ou algo de errado com o seu modem. Essas pessoas também colaboram com os relatórios feitos para as agências federais dos EUA.

Na verdade, esse Projeto Vigilante é apenas uma organização de frente criada pela empresa BBHC Glboal LLC. Quando Chet Uber fez o seu anúncio na Defcon para "aliviar a barra" de Lamo (colocando a culpa nele próprio em convencer Lamo a entregar o soldado Bradley Manning aos federais) e conseguir mais voluntários para projeto, o site da BBHC mudou para outra página. Agora tem uma página estática com a famosa frase do filme Matrix da pílula azul e vermelha e se você clica na vermelha te leva para um site Drupal - terrívelmente feito de última hora - com apenas duas publicações. Sendo que uma delas é um artigo que começa explicando que Chet Uber não é a BBHC Global ou Projeto Vigilante e a BBHC Global e Vigilantes não são Chet Uber...

Parece que não gostaram da atenção dada ao projeto por causa da fala de Chet Uber na Defcon. Entretanto, eles não negam a existência de tal projeto e parecem estar bastante otimistas com a possibilidade de conseguirem mais vigilantes. Poucos meios dos EUA deram importância para o assunto e parece que o governo não acredita que deve uma explicação ao povo norte-americano, pois não houve nenhum comentário das agências que utilizam o trabalho dos vigilantes. E há uma explicação para isso, este trabalho ajuda essas agências, já que não precisam mais passar pela burocracia jurídica necessária para conseguir espionar os cidadãos norte-americanos. E o mais assustador é que, aparentemente, nada disso fere a lei, já que os vigilantes conseguem legalmente essas informações e passam elas para as agências sem pedir nada em troca, simplesmente um trabalho de um "bom cidadão" como eles mesmos pregam.

Fonte: http://midiaindependente.org/

2011, uma odisseia cultural - por Leonardo Brant

2011, uma odisseia cultural - por Leonardo Brant

Época de eleição é sempre bom motivo para fazer um balanço sobre as políticas de cultura. E assim tem sido há pelo menos três eleições, sobretudo a memorável eleição de Lula para o primeiro mandato. Como forma de representar as demandas reunidas naquela época publicamos o manifesto “1% para a cultura”, que influenciou tanto os programas de governos de alguns presidenciáveis, quanto o primeiro momento da gestão Gilberto Gil.

Por conta do saudosismo e da vontade incessante de aprimorar a relação entre Estado, cultura, mercado e sociedade, sentimos a necessidade de retomar este debate. Fabio Maciel, presidente do Instituto Pensarte, Ricardo Albuquerque e Px Silveira, vice-presidentes, chegaram a mim no início deste ano, com uma provocação ainda mais interessante: discutir esses temas junto com todas as redes culturais, formada por artistas, articuladores, agentes e gestores de todo o país.

São reivindicações para todos os indivíduos, que pressupõem a ampla participação cidadã. Queremos mudar, antes de qualquer coisa, a nossa atitude em relação à cultura. E alcançar, a partir da ação conjunta, articulada, um novo patamar para a cultura na sociedade.

Partimos do cidadão para alcançar um Estado desejável, ciente da importância das políticas culturais para o desenvolvimento humano e sustentável. Rascunhamos 12 pontos interdependentes de valorização da agenda cultural, com objetivo de influenciar positiva e concreta e diretamente a vida de todos. E queremos discuti-los com você leitor, cidadão, partícipe dos movimentos e redes culturais do Brasil:

1. Memória. Cultivar a memória é um ato de cidadania. Conhecer o passado, a partir de diversos pontos de vista, é um direito de todos nós. E também um dever. O Estado deve valorizar todas as formas de preservação e memória, tornando-a viva e presente em nosso cotidiano, auxiliando na constituição de um novo mito fundador, pertencente ao conjunto da população brasileira.

2. Identidade. A identidade é um direito inerente ao cidadão. A ele cabe a autonomia e o livre arbítrio, necessários para cultivar e desenvolver a sua própria identidade, de acordo com os mais diversos elementos culturais produzidos pela humanidade. O Estado deve garantir acesso a todas as culturas e suas manifestações. E deve preservar os grupos culturais autóctones, promovendo sua cultura e protegendo-a dos efeitos da pós-modernidade.

3. Educação. Devemos encorajar as práticas culturais no processo de aprendizado e formação do indivíduo, reforçando tanto a dimensão cultural da educação quanto a função educativa da cultura. A escola é um espaço público, de natureza cultural, pertencente à comunidade. Apropriar-se desse espaço é direito e dever do cidadão e do Estado. A partir daí, devemos ressignificar o conceito de desenvolvimento, a partir dos aspectos culturais.

4. Cidadania. Participar da vida política da sociedade é um ato cultural. O Estado deve ser estimulador, garantidor e regulador dessa participação. Não basta ter direito à informação e à arte. É preciso garantir o multiprotagonismo e cidadania plena, com enfoque na cidadania cultural.

5. Diversidade. A celebração de outras culturas, olhares, crenças, modos de vida e realidades diferentes dos nossos é fundamental para o processo de formação do indivíduo, para a compreensão do mundo e a manutenção da paz. O cidadão deve buscar canais de informação alternativos e diversos. O Estado deve garantir a manutenção desses canais.

6. Diálogo. A verdade está escondida por trás dos processos de mediação social, sobretudo das indústrias culturais, como televisão, rádio, jornais, cinema e internet. Cabe ao cidadão a busca incessante da verdade. Ao Estado cabe garantir o controle social da informação e a regulação dos mercados de mídia, com o objetivo de garantir a constituição de um imaginário diverso e livre de domínios, controles privados e governamentais.

7. Infraestrutura. Devemos criar, ativar e promover espaços de convivência cultural. Escolas, bibliotecas, teatros, telecentros, centros culturais, praças públicas, são espaços coletivos de natureza cultural e devem ser ocupados pelo cidadão, geridos pelas comunidades, reconhecidos, estimulados e financiados pelo Estado.

8. Acesso. Devemos ter acesso irrestrito ao conhecimento produzido pela humanidade. Este aceso pode ser facilitado por cada um de nós e deve ser incentivado pelo Estado, sobretudo aos que detém dificuldades impostas pela condição econômica ou por dificuldade de locomoção ou acessibilidade.

9. Orçamento. O consumo responsável é arma essencial para o desenvolvimento sustentável. Consumir cultura é uma das maneiras de financiar o setor cultural. O Estado deve financiar quem faz cultura. Fomentar a pesquisa e as atividades de base, incentivar o empreendedorismo e dar crédito facilitado e barato para a indústria cultural. O PEC 150 é um avanço mínimo e urgente.

10. Mercado. O comportamento cultural das pessoas dita os rumos do mercado. O desenvolvimento do setor cultural é fator fundamental para a inserção de novos protagonistas no sistema econômico.

11. Arte. Arte é algo inerente a todos os cidadãos. Devemos encorajar a nós mesmos, nossos filhos, amigos e familiares a desenvolver atividades artísticas, desenvolvendo as mais diversas linguagens, técnicas e formas de expressão. O Estado deve financiar a pesquisa e o desenvolvimento da arte na sociedade.

12. Futuro. A atividade cultural é transformadora. Só a partir dela podemos alterar as rotas e caminhos individuais, de uma realidade social ou de toda uma civilização. Um futuro baseado na convivência pacífica e sustentabilidade depende da garantia dos direitos e liberdades culturais e de acesso econômico e cultural.

Fonte: http://www.culturaemercado.com.br/

A guerra no Afeganistão: ecos do Vietnã - Noam Chomsky - La Jornada

A guerra no Afeganistão: ecos do Vietnã

Os fuzileiros estão enfrentando um problema que sempre espreitou os conquistadores, e que é muito familiar para os Estados Unidos, desde o Vietnã. Em 1969, Douglas Pike, o mais importante acadêmico governamental nos assuntos do Vietnã lamentou que o inimigo – a Frente de Libertação Nacional (FLN) – era o único partido político verdadeiramente baseado nas massas no Vietnã do Sul”. Qualquer esforço para competir politicamente com esse inimigo seria como um conflito entre uma sardinha e uma baleia, reconheceu Pike.

Noam Chomsky - La Jornada

O War Logs (bússolas da guerra), um arquivo de documentos militares confidenciais que abarcam seis anos da guerra do Afeganistão, publicados na internet pela organização Wikileaks relatam uma luta inflamada e cada dia mais encarniçada, na perspectiva dos Estados Unidos. E, para todos os afegãos, um horror crescente.

Os War Logs, por mais valiosos que sejam, podem contribuir para a doutrina prevalente de que as guerras são algo mau só se não são exitosas – algo assim como o que os nazis sentiram depois de Stalingrado.

No mês passado ocorreu o fiasco do general Stanley A. McChrystal, obrigado a se retirar do comando das forças dos Estados Unidos no Afeganistão e substituído por seu superior, o general David H. Petraeus. Uma provável consequência é um relaxamento das normas de combate, de forma que se torne mais fácil matar civis, e uma prolongamento da guerra à medida que Petraeus use sua influência para conseguir este resultado no Congresso.

O Afeganistão é a principal guerra em curso do presidente Obama. A meta oficial é nos proteger da AlQaeda, uma organização virtual, sem base específica – uma rede de redes e uma resistência sem líderes, como foi chamada na literatura profissional. Agora, ainda mais do que antes, a AlQaeda consiste em facções relativamente independentes, associadas frouxamente ao redor do mundo.

A CIA calcula que entre 50 e 100 ativistas da AlQaeda talvez estejam no Afeganistão, e nada indica que os talibãs desejem repetir o erro de dar refúgio a AlQaeda. Por outro lado, o talibã parece estar bem estabelecido em seu vasto e árduo território, uma grande parte dos territórios pashtun.

Em fevereiro, no primeiro exercício da nova estratégia de Obama, os fuzileiros estadunidenses conquistaram Marja, um distrito menor na província de Helmand, principal centro da insurgência.

Uma vez ali, informa Richard A. Oppel Jr., do The New York Times, “os fuzileiros se chocaram com uma identidade talibã tão dominante que o movimento se assemelha mais a uma organização política numa região de um só partido, com uma influência que abarca a todos...”.

“Temos que reavaliar nossa definição da palavra 'inimigo', disse o general de brigada Larry Nicholson, comandante da brigada expedicionária de fuzileiros na província Helmand. A maioria das pessoas aqui identifica a si mesmas como talibã... Temos que reajustar nossa forma de pensar, de forma que não pareça que estamos expulsando os talibãs de Marja, mas que estejamos tratando de expulsar o inimigo.

Os fuzileiros estão enfrentando um problema que sempre espreitou os conquistadores, e que é muito familiar para os Estados Unidos, desde o Vietnã. Em 1969, Douglas Pike, o mais importante acadêmico governamental nos assuntos do Vietnã lamentou que o inimigo – a Frente de Libertação Nacional (FLN) – era o único partido político verdadeiramente baseado nas massas no Vietnã do Sul”.

Qualquer esforço para competir politicamente com esse inimigo seria como um conflito entre uma sardinha e uma baleia, reconheceu Pike. Em consequência, devíamos superar a força política do FLN recorrendo a nossa vantagem comparativa, a violência – com resultados horrendos.

Outros enfrentaram problemas similares: os russos, por exemplo, no Afeganistão, durante os anos 80, quando ganharam todas as batalhas mas perderam a guerra.

Escrevendo a respeito de outra invasão estadunidense – a das Filipinas em 1989 -, Bruce Cumings, historiador especialista em Ásia na Universidade de Chicago fez uma observação hoje aplicável ao Afeganistão: “quando um fuzileiro vê que sua rota é desastrosa, muda de curso, mas os exércitos imperiais afundam suas botas em areias movediças e seguem marchando, ainda que seja em círculos, enquanto os políticos enfeitam o livro de frases dos ideais estadunidenses”.

Depois do triunfo de Marja, esperava-se que as forças lideradas pelos Estados Unidos atacariam a importante cidade de Kandahar, onde, segundo uma pesquisa do exército estadunidense, a operação militar é rechaçada por 95% da população e onde 5 em cada 6 consideram os talibãs como nossos irmãos afegãos – mais uma vez, ecos de conquistas prévias. Os planos sobre Kandahar foram postergados, e isso foi parte dos antecedentes para a saída de McChrystal.

Dadas essas circunstâncias não é de se estranhar que as autoridades dos Estados Unidos estejam preocupadas com que o apoio popular à guerra no Afeganistão seja ainda mais erodido. Em maio passado a Wikileaks publicou um memorando da CIA acerca de como manter o apoio da Europa à guerra: o subtítulo do memorando era: porque contar com a apatia talvez não seja suficiente.

O perfil discreto da missão no Afeganistão permitiu aos líderes franceses e alemães desprezarem a oposição popular e aumentarem gradualmente suas contribuições às tropas da Força de Assistência à Segurança Nacional (ISAF), assinala o memorando. Berlim e Paris mantêm o terceiro e quarto níveis mais altos de tropas na ISAF, em que pese a oposição de 80% dos pesquisados alemães e franceses a maiores envios de forças. É necessário, em consequência, dissimular as mensagens para impedir ou ao menos conter uma reação negativa.

O memorando da CIA deve nos fazer recordar que os Estados têm um inimigo interno: sua própria população, que deve ser controlada quando a política do Estado tem oposição no povo. As sociedades democráticas dependem não da força, mas da propaganda, manipulando o consenso mediante uma ilusão necessária e uma super-simplificação emocionalmente poderosa, para citar o filósofo favorito de Obama, Reinhold Niebuhr.

A batalha para controlar o inimigo interno, então, segue sendo altamente pertinente – de fato, o futuro da guerra no Afeganistão pode depender dela.

Tradução: Katarina Peixoto
Fonte: Carta Maior

sábado, 14 de agosto de 2010

A Globo continua a mesma. Mas o país mudou...- por Idelber Avelar

A Globo continua a mesma. Mas o país mudou...

O show de grosseria com Dilma e o show de subserviência com Serra foram indicação de que tudo continua o mesmo na Globo, mas tudo mudou no mundo que a rodeia. O seu poder de moldar a realidade nem de longe é o mesmo.

Por Idelber Avelar
William Bonner e Fátima Bernardes com certeza não terão percebido a ironia involuntária, mas os grotescos espetáculos das entrevistas (agressiva e mal educada) com Dilma Rousseff e (subserviente e omissa) com José Serra marcaram a “maioridade”, por assim dizer, o vigésimo-primeiro aniversário da manipulação mãe de todas, a fabricação de outro debate Lula x Collor (diferente do debate que aconteceu) nas salas de edição de vídeo das Organizações Globo em 1989. O show de grosseria com Dilma e o show de subserviência com Serra foram indicação de que tudo continua o mesmo na Globo, mas tudo mudou no mundo que a rodeia. O seu poder de moldar a realidade nem de longe é o mesmo.

Aqui, como em qualquer outro campo, não convém ceder ao otimismo exagerado. De todos os conglomerados máfio-midiáticos do país, a Globo é o única que mantém inegável capilaridade nacional e poderes de fogo e de barganha. Não é absurdo supor que ela foi a principal causadora da ida das eleições de 2006 para o segundo turno, com as bombásticas fotos ilegalmente obtidas de um delegado da Polícia Federal, cuja exibição exigiu que o Jornal Nacional ignorasse o maior acidente aéreo da história do Brasil.

Mas de 1989 a 2006 a 2010 o país cumpriu um ciclo, amadureceu e não é absurdo supor também que, para a maioria dos telespectadores da entrevista com Dilma Rousseff, tenha sido William Bonner quem “pagou o mico”, pareceu sem argumentos, desequilibrado e anti-jornalístico. Dilma, que havia conseguido no debate da Band um 0 x 0 que já havia estado, para ela, de bom tamanho, deu um salto no JN: educada e ao mesmo tempo firme (para lidar com tantas interrupções), amparada nos números, sabendo diferenciar fatos de factoides, a candidata marcou—e acho que pouca gente comentou isso—uma data histórica para a mulher brasileira na política.

Foi o dia em que uma candidata a presidente enfrentou ao vivo a oposição do conglomerado midiático, temperado com sexismo, respondeu à altura e deixou o atacante dando vexame, ao ponto de que a co-âncora tenha tido que lhe dar um cala a boca, com um gesto que nitidamente dizia deixe que eu a interrompo agora, você está fazendo papelão.

O fato dos co-âncoras serem um casal (o casal da TV brasileira) acrescentava um delicioso toque de ironia ao momento. Se essa não foi uma noite histórica na luta contra o sexismo na política, não sei o que foi. Portanto, ao se criticar a Globo e notar o vexame de Bonner, não há que se perder de vista o que disse NPTO no Twitter: De qualquer maneira, para quem viu 89, ver agora o JN com os caras ao vivo, sem edição, é um progresso imenso. A Globo não mudou nada mas, no mundo ao seu redor, esse “progresso imenso” fez com que o embate desta vez se desse em condições muito mais favoráveis. O jogo está longe de ter terminado, mas as trapalhadas da candidatura Serra são tais que já há indícios (não no JN, claro, mas na GloboNews) de que a própria Globo está pronta para desembarcar. É claro que, se há uma coisa que a história recente ensina, é que é sempre bom estar atento e forte.

Fonte: http://www.revistaforum.com.br

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

4º Seminário Latino-Americano de Anistia e Direitos Humanos

4º Seminário Latino-Americano de Anistia e Direitos Humanos



De 16 a 18 de Agosto de 9h às 18h
No Auditório Nereu Ramos

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Estado Assassino: Israel: nada de novo no front oriental - Por Uri Avnery

Israel: nada de novo no front oriental - Por Uri Avnery

Pessoas dotadas de audição política sensível surpreenderam-se na semana passada com duas palavras que, parece, escaparam por acidente dos lábios de Benjamin Netanyahu: “front oriental”.

Há muito tempo, as mesmas palavras andavam em todas as bocas, parte do vocabulário diário da ocupação. Nos últimos anos, ficaram esquecidas, cobertas de pó no fundo do quintal político.

A expressão “front oriental” nasceu depois da Guerra dos Seis Dias. Era usada como muro de arrimo para sustentar a doutrina estratégica segundo a qual o rio Jordão seria “fronteira de segurança” de Israel. A teoria rezava que seria possível que três exércitos árabes – do Iraque, da Síria e da Jordânia – se reunissem a leste do Jordão, cruzassem o rio e ameaçassem a existência de Israel. Israel teria de contê-los antes de entrarem no país. Portanto, o vale do Jordão teria de ser base permanente do exército de Israel, os soldados não poderiam arredar pé de lá.

Para começar, essa teoria sempre foi muito duvidosa. Para participar de tal ofensiva, o exército do Iraque teria de reunir-se, atravessar o deserto, acampar na Jordânia, em operação logística demorada e complexa, o que daria ao exército de Israel tempo de sobra para atacar os iraquianos, muito antes de alcançarem a margem do rio Jordão. Quanto aos sírios, seria muito mais fácil atacarem Israel nas Colinas de Golã, em vez de mover seus exércitos para o sul, para atacar pelo leste. E a Jordânia sempre foi parceiro secreto – mas leal – de Israel (menos durante o curto episódio da Guerra dos Seis Dias).

Em anos recentes, essa teoria tornou-se muito evidentemente ridícula. Os EUA invadiram o Iraque, derrotaram e desmontaram o glorioso exército de Saddam Hussein - o qual, como logo se constatou, não passava de tigre de papel. O reino da Jordânia assinou tratado de paz oficial com Israel. A Síria não perde ocasião de demonstrar que anseia pela paz, bastando para isso que Israel devolva as Colinas de Golã. Em resumo, Israel não tem o que temer dos vizinhos orientais.

Volta no tempo
Sim, as coisas podem mudar. Mudam os regimes, mudam as alianças. Mas é impossível imaginar situação na qual três assustadores exércitos cruzem o Jordão rumo a Canaã, como os filhos de Israel na história bíblica. Sobretudo, a ideia de ataque por terra, como a blitzkrieg dos nazistas na Segunda Guerra Mundial, já é história. Em todas as guerras presentes e futuras, fator dominante serão os mísseis de longo alcance. Pode-se imaginar os soldados israelenses em espreguiçadeiras no vale do Jordão, assistindo ao voo dos mísseis pelo céu, em todas as direções.

Assim sendo, como essa ideia estúpida voltou à vida?

Talvez ajude voltar 43 anos no tempo para entender como nasceu toda essa conversa.

Apenas seis semanas depois da Guerra dos Seis Dias, foi lançado o “Plano Allon”, apresentado ao governo por Yigal Allon, então ministro do Trabalho. Não foi adotado oficialmente, mas influenciou profundamente as lideranças políticas israelenses. Jamais se publicou qualquer mapa autorizado do plano, mas todos os principais pontos logo se tornaram conhecidos. Allon propunha anexar a Israel o vale do rio Jordão e a margem ocidental do Mar Morto. O que restava da Cisjordânia teria apenas enclaves cercados por território israelense, exceto um estreito corredor, próximo de Jericó, que ligaria a Cisjordânia ao reino da Jordânia. Allon também propunha que se anexassem a Israel algumas áreas na margem ocidental, ao norte do Sinai (“a passagem de Rafah”) e o sul da Faixa de Gaza (“o Bloco Katif”).

Não importava ao plano Allon que a margem ocidental do rio Jordão (hoje chamada “Cisjordânia”) fosse devolvida à Jordânia ou que se tornasse entidade palestina separada. Certa vez ataquei Allon, da tribuna da Knesset e acusei-o de tentar obstruir o estabelecimento de um Estado palestino, que eu defendia, e depois de eu estar voltar ao meu assento, Allon mandou-me um bilhete: “Sou favorável a um Estado palestino na Cisjordânia. Por que eu seria menos progressista que você?”.

O plano foi implantado como imperativo militar, mas por motivos muito diferentes.

Lugar ideal
Naquele tempo, eu me encontrava com Allon bem regularmente, e tive, portanto, oportunidade de conhecer sua linha de pensamento. Allon fora um dos principais comandantes da guerra de 1948, considerado estrategista especialista, mas, sobretudo, era membro destacado do movimento dos kibbutz, que, naquele tempo, tinha enorme influência no país.

Imediatamente depois de a Cisjordânia ter sido tomada, o pessoal do movimento dos kibbutz instalou-se por lá, à procura de áreas adequadas para a moderna agricultura intensiva. Naturalmente, foram atraídos pelo vale do rio Jordão. Do ponto de vista deles, era o local ideal para implantar novos kibbutz. Havia muita água, o terreno era plano e perfeitamente adequado para o moderno maquinário agrícola. E, mais importante, não era área densamente povoada.

Nada disso se encontrava em outras áreas da Cisjordânia: eram densamente povoadas, com topografia montanhosa e água escassa. Na minha opinião, todo o plano Allon foi fruto da ganância dos agricultores; a teoria militar não passou de um pretexto de segurança militar. E, de fato, o resultado imediato foi que se estabeleceram muitos kibbutz e moshav (povoados cooperativos) no vale. Passaram-se anos antes que se abrissem os limites do Plano Allon e se estabelecessem assentamentos por toda a Cisjordânia.

Muro da Separação
Do Plano Allon nasceu o bicho-papão do “front oriental” que, desde então, apavora todos os que trabalham pela paz. Como fantasma, ele vai e vem, aparece e desaparece, materializa-se e some, ora sob uma forma, ora sob outra.

Ariel Sharon exigiu a anexação do “vale expandido”. O vale, propriamente dito, parte da Grande Fenda Sírio-Africana, os 120 km de comprimento (do Mar da Galileia ao Mar Morto), mas uma faixa de cerca de apenas 15 km de largura. Sharon exigia quase obsessivamente a adição também “das costas da montanha”, o que significava a face oriental das montanhas centrais da Cisjordânia, o que teria ampliado consideravelmente o terreno.

Quando Sharon encampou o projeto do Muro da Separação, previa-se que separasse a Cisjordânia, não apenas de Israel propriamente dita, mas também do vale do Jordão. Assim se teria criado o que se chamava “Plano Allon-plus”. O muro cercaria toda a Cisjordânia, sem o corredor de Jericó. Esse plano ainda não foi implementado, por causa da oposição internacional e por falta de fundos.

Desde o acordo de Oslo, quase todos os sucessivos governos israelenses têm insistido que o vale do rio Jordão deve permanecer em mãos israelenses em qualquer futuro acordo de paz. Essa exigência apareceu sob os mais diversos disfarces: às vezes, fala-se de “fronteira de segurança”, às vezes de “estações de alerta”, às vezes de “instalações militares”, às vezes de “empréstimo de longo prazo”, variando conforme variem os talentos criativos de sucessivos primeiros-ministros. O denominador comum não varia: o vale deve permanecer sob controle israelense.

E agora aparece Netanyahu e ressuscita a expressão “front oriental”.

Argumentos ridículos
Que front oriental? O que estaria ameaçando Israel, do lado de nossos vizinhos orientais? Onde está Saddam Hussein? Onde está Hafez al-Assad? Mahmoud Ahmadinejad, talvez, estaria despachando colunas blindadas da Guarda Revolucionária para as passagens do Jordão?

Bem... O problema é o seguinte: mais dia, menos dia, os norte-americanos sairão do Iraque. Então lá brotará outro Saddam Hussein, que dessa vez será xiita, que se aliará ao Irã xiita e aos traidores turcos. E quem pode confiar no rei da Jordânia, que abomina Netanyahu? Coisas terríveis acontecerão, se Israel não tomar conta, imediatamente, da Cisjordânia!

É ridículo. É manifestamente cômico. Então, qual o real objetivo de Netanyahu?

Um passo para o fracasso
O mundo inteiro discute hoje a exigência dos norte-americanos de que se iniciem imediatamente “conversações diretas” entre Israel e a Autoridade Nacional Palestina. Alguém pode, de repente, supor que a paz do mundo dependa de converter “conversações indiretas” e “conversações diretas”. Nunca se consumiram tantas palavras de tão solene hipocrisia em assunto tão trivial. As “conversações indiretas” já se arrastam há vários meses. Seria errado dizer que até agora deram em quase nada. De fato, deram em nada, nada absoluto. Assim sendo, o que acontecerá se, em vez de falarem em salas separadas, sentarem todos numa mesma sala? Não há como errar. Outra vez, o resultado será zero, zero absoluto. Enquanto os EUA não decidirem que têm de decidir e impor uma solução, não haverá solução.

Assim sendo, por que Barack Obama insiste?

Há uma explicação: porque, em todo o Oriente Médio, as políticas de Obama fracassaram. Obama precisa urgentemente de algum grande sucesso. Prometeu sair do Iraque e não consegue sair. A guerra no Afeganistão vai de mal a pior: sai um general, chega outro, e a vitória cada dia mais impossível, hoje ainda mais distante que ontem. Já se pode imaginar o último norte-americano pendurado ao último helicóptero que decola do telhado da embaixada dos EUA em Cabul.

Mas o conflito Israel-Palestina aqui está, inalterado. Aqui, também, Obama está a um passo do fracasso. Esperou conseguir muito sem investir coisa alguma e foi facilmente derrotado pelo lobby de Israel. Para encobrir a vergonha, precisa mostrar algo que o público ignorante engula como uma grande vitória dos EUA. O reinício de “conversações diretas” está proposto como essa grande vitória.

Netanyahu, por sua vez, está bem satisfeito com as coisas no pé em que estão. Israel clama por conversações diretas, os palestinos recusam. Israel estende a mão, os palestinos dão-lhe as costas. Mahmoud Abbas exige que Israel estenda a suspensão da construção nas colônias exclusivas para judeus e que declare, inicialmente, que as negociações basear-se-ão nas fronteiras de 1967.

Limpeza étnica
Mas os EUA estão pressionando furiosamente Abbas. E Netanyahu teme que Abbas ceda. Então, Netanyahu declara que não pode suspender a construção nas colônias porque, nesse caso – Deus nos proteja! – sua coalizão de governo se desintegraria. E, caso isso não baste, há também o “front oriental”. O governo de Israel está comunicando aos palestinos que não desistirá do vale do Jordão.

Para dar ênfase à sua posição, Netanyahu já começou a remover a população de palestinos que permanecia no vale, alguns milhares. Povoados inteiros estão sendo erradicados. Começou essa semana, em Farasiya – onde foram destruídas todas as casas e todos os poços e encamentos de água.

É limpeza étnica pura e simples, muito semelhante à operação que também está em andamento contra os beduínos no Neguev. A mensagem de Netanyahu é clara: que Abbas pense duas vezes antes de aceitar as tais “conversações diretas”.

O vale do Jordão desce até um dos pontos mais baixos da superfície da Terra, o Mar Morto, 400 metros abaixo do nível do mar. A ressurreição do "front oriental" pode indicar o ponto mais baixo da política de Netanyahu, com a intenção clara de matar, de vez, qualquer chance de paz que ainda houver.

*Uri Avnery é jornalista e pacifista israelense, ex-membro da Knesset (parlamento). Artigo publicado em Tlaxcala. Tradução de Caia Fitipaldi.
Fonte: Opera Mundi

Lançamento do Fanzine “Visual Agression # 4” dia 14/08/2010



Lançamento do Fanzine “Visual Agression # 4” dia 14/08/2010

Do sempre batalhador Ricardo Thrasher

Compareçam, prestigiem a Cena, apóiem as Bandas Independentes, leiam Fazines e serão livres da alienação.

Objetivo Irã: os riscos de uma Terceira Guerra Mundial - Por Michel Chossudovsky

Objetivo Irã: os riscos de uma Terceira Guerra Mundial
As consequências de um ataque mais amplo por parte dos EUA, da OTAN e de Israel contra o Irã são de grande alcance. A guerra e a crise econômica estão intimamente relacionadas. A economia de guerra é financiada por Wall Street que, por sua vez, se ergue como credor da administração dos EUA. Por sua vez, “a luta pelo petróleo” no Oriente Médio e Ásia Central serve diretamente aos interesses dos gigantes do petróleo anglo-estadunidense. Os EUA e seus aliados estão “batendo os tambores da guerra” na altura de uma depressão econômica mundial, para não mencionar a catástrofe ambiental mais grave na história da humanidade.
O artigo é de Michel Chossudovsky, diretor do Centro para Investigação sobre a Globalização.

Centro para a Investigação da Globalização (Global Research on Globalization)
A humanidade está numa encruzilhada perigosa. Os preparativos de guerra para atacar o Irã estão em estágio avançado. Sistemas de alta tecnologia, incluindo armas nucleares, estão totalmente desenvolvidos. Esta aventura militar está colocada sobre o tabuleiro de xadrez do Pentágono desde meados da década de 1990. Primeiro o Iraque, depois o Irã, segundo documentos desclassificados de 1995, do Comando Central dos EUA.

A escalada é parte da agenda militar. Além do Irã, próximo objetivo junto com a Síria e o Líbano, esse desdobramento estratégico ameaça também a Coréia do Norte, a China e a Rússia. Desde 2005, os EUA e seus aliados, incluídos aqui os Estados Unidos da OTAN e Israel, estão envolvidos numa ampla atividade e no armazenamento de sistemas de armas avançados.

Os sistemas de defesa aéreos dos EUA, os países membros da OTAN e Israel estão totalmente integrados. Trata-se de uma tarefa coordenada pelo Pentágono, pela OTAN e pela Força de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês), com a participação ativa de militares de vários países da OTAN e não só, incluindo os estados árabes de primeira linha (os membros da OTAN do Mediterrâneo e a Iniciativa de Cooperação de Istambul), Arábia Saudita, Japão, Coréia do Sul, Índia, Indonésia, Singapura, Austrália, entre outros. A OTAN se compõe de 28 estados membros. Outros 21 países são membros do Conselho da Aliança Euro-Atlântica (EAPC); o Diálogo Mediterrânico e a Iniciativa de Cooperação de Istambul contam com dez países árabes e Israel.

O papel do Egito, dos Estados do Golfo e da Arábia Saudita (dentro de uma aliança militar ampliada) é de particular relevância. O Egito controla o trânsito de barcos de guerra e de barcos petroleiros pelo Canal de Suez. Arábia Saudita e os Estados do Golfo ocupam a costa ocidental do sul do Golfo Pérsico, o estreito de Ormuz e o Golfo de Omã.

Em princípios de junho deste ano o Egito informou que permitiu a onze barcos dos EUA e de Israel passar pelo Canal de Suez, numa aparente sinalização ao Irã. Em 12 de junho, vozes da imprensa regional informaram que os sauditas haviam dado a Israel autorização para sobrevoar seu espaço aéreo (Mirak Weissbach Muriel, Israel Insane War on Iran Must Be Prevented, Global Research, 31 de julho de 2010). Na doutrina militar consagrada após o 11 de setembro, o estabelecimento massivo de armamento militar se definiu como parte da chamada Guerra Global contra o terrorismo, dirigido para organizações terroristas não estatais, como a Al Qaeda e os chamados Estados patrocinadores do terrorismo, entre eles o Irã, Síria, Líbano e Sudão.

A criação de novas bases militares dos EUA, o armazenamento de armas avançadas, incluindo as armas nucleares táticas, etc. foram levadas a cabo como parte da preventiva doutrina militar defensiva debaixo do guarda chuva da "Guerra Global contra o Terrorismo".

Guerra e crise econômica
As consequências de um ataque mais amplo por parte dos EUA, da OTAN e de Israel contra o Irã são de grande alcance. A guerra e a crise econômica estão intimamente relacionadas. A economia de guerra é financiada por Wall Street que, por sua vez, se ergue como credor da administração dos EUA.

Os produtores de armas dos EUA são os destinatários de bilhões de dólares do Departamento de Defesa do país, pelos contratos de aquisição de sistemas de armas avançadas.

Por sua vez, “a luta pelo petróleo” no Oriente Médio e Ásia Central serve diretamente aos interesses dos gigantes do petróleo anglo-estadunidense. Os EUA e seus aliados estão “batendo os tambores da guerra” na altura de uma depressão econômica mundial, para não mencionar a catástrofe ambiental mais grave na história da humanidade. Por amarga ironia, a British Petroleum, uma das maiores jogadoras do tabuleiro de xadrez geopolítico da Ásia Central no Médio Oriente, antigamente conhecida como Anglo-Persian Oil, causou a terrível catástrofe ecológica no Golfo do México.

Meios de desinformação
A opinião pública, influenciada pelo barulho dos meios de comunicação, oferece apoio tático, indiferente ou ignorante dos possíveis impactos daquilo que se mantém propositalmente como um fator punitivo da operação dirigida contra as instalações nucleares do Irã em lugar de uma guerra total.

Os preparativos de guerra incluem o aumento da atividade dos fabricantes de armas nucleares dos EUA e de Israel. Neste contexto, as consequências devastadoras de uma guerra nuclear são banalizadas ou simplesmente não se mencionam. A crise “real” que ameaça a humanidade é o “aquecimento global” e não a guerra.

A guerra contra o Irã é apresentada à opinião pública como um tema banal entre tantos outros. Não é apresentado como uma ameaça à Mãe Terra, como é o caso do aquecimento global. Não se noticia com destaque. O fato de que um ataque contra o Irã poderia levar a uma potencial escalada e o desencadear uma guerra global não é motivo de preocupação.

Culto à morte e a destruição
A máquina global de matar é sustentada pelo culto à morte e pela destruição que impregnam muitos dos filmes de Hollywood, e por não mencionar as guerras no horário nobre. E também pelas séries de televisão sobre delinquência.

Este culto à matança está respaldado pela CIA e pelo Pentágono, que apóia, financiando, produções de Hollywood como instrumento de propaganda de guerra.

O ex-agente da CIA Bob Baer disse: "Existe uma simbiose entre a CIA e Hollywood e revelou que o ex-diretor da CIA, George Tenet, se encontra atualmente em Hollywood, conversando com os estúdios. (Matthew Alford and Robie Graham, “Lights, Camera Covert Action: The Deep Politics of Hollywood”, Global Research, 31 de janeiro de 2009).

A máquina de matar se desenvolveu em nível global dentro do marco de estrutura de comando de combate unificado. E é mantida habitualmente por instituições de governo, meios corporativos, altos funcionários e intelectuais que se colocam à disposição de uma Nova Ordem Mundial a partir de um grupo de pensadores de Washington e dos institutos de investigação de estudos estratégicos, como instrumento indiscutível da paz e da prosperidade mundial. É a cultura da morte e da violência gravando-se na consciência humana.

A guerra está amplamente aceita como parte de um projeto social: a Pátria tem que ser defendida e protegida.

A violência legitimada e as execuções extrajudiciais contra os terroristas são mantidas nas democracias ocidentais como instrumentos necessários de segurança nacional.

Uma “guerra humanitária” é sustentada pela chamada comunidade internacional. Não é condenada como um ato criminoso. Seus principais idealizadores são recompensados por suas contribuições à paz mundial. Em relação ao Irã, o que se está desenvolvendo é a legitimação direta de uma guerra em nome de uma idéia ilusória de segurança mundial.

Um ataque aéreo “preventivo” contra o Irã levaria a uma escalada. Na atualidade existem três teatros de guerra no Oriente Médio e Ásia Central: Iraque, Afeganistão/Paquistão e Palestina.

Se o Irã se tornar objeto de um ataque “preventivo” por forças aliadas, toda a região, desde o Mediterrâneo Oriental até a fronteira da China com o Afeganistão e o Paquistão poderia arder em chamas, o que nos conduz, potencialmente, a um cenário de Terceira Guerra Mundial.

A guerra se estenderia ao Líbano e a Síria. É muito pouco provável que se os ataques, caso se concretizassem, ficassem circunscritos a instalações nucleares do Irã, como afirmam as declarações oficiais dos EUA e da OTAN. O mais provável será um ataque aéreo tanto a infraestruturas militares como civis, sistemas de transporte, fábricas e edifícios públicos.

O Irã, com dez por cento estimados do petróleo mundial, ocupa o terceiro lugar em reservas de gás, depois da Arábia Saudita (25%) e o Iraque (11%), pelo tamanho de suas reservas. Em comparação, os EUA têm menos de 2,8% das reservas mundiais de petróleo. (Cf. Eric Waddell, The Battle for Oil, Global Research, dezembro de 2004).

É de grande importância o recente descobrimento no Irã, nas regiões de Soumar e Halgan, das segundas maiores reservas mundiais conhecidas que se estimam em 12,4 bilhões de pés cúbicos. Apontar as armas ao Irã não só consiste em recuperar o controle anglo-estadunidense sobre o petróleo e a economia de gás, incluindo-se as rotas de oleodutos, mas também questiona a influência da China e da Rússia na região.

O ataque planificado contra o Irã faz parte de um mapa global coordenado de orientação militar. É parte da “longa guerra do Pentágono”, uma proveitosa guerra sem fronteiras, um projeto de dominação mundial, uma sequencia de operações militares.

Os planificadores militares dos EUA e da OTAN têm previsto diversos cenários da escalada militar. E são também muito conscientes das implicações geopolíticas, como por exemplo, saber que a guerra poderá se estender para além da região do Oriente Médio e da Ásia Central. Os efeitos econômicos sobre os mercados do petróleo, etc. são também analisados. Enquanto o Irã, a Síria e o Líbano são os objetivos imediatos, China, Rússia, Coréia do Norte, sem contar Venezuela e Cuba, são também objeto de ameaça dos EUA.

Está em jogo a estrutura das alianças militares. As atividades militares da OTAN-EUA-Israel, incluindo manobras e exercícios realizados na Rússia e suas fronteiras próximas com a China têm uma relação direta com a guerra proposta contra o Irã. Estas ameaças veladas, incluindo o seu calendário, constituem um claro aviso aos antigos poderes da época da Guerra Fria, para evitar que possam ou venham a interferir em um ataque dos EUA ao Irã.

Guerra Mundial
O objetivo estratégico em médio prazo é chegar ao Irã e neutralizar seus aliados, através da diplomacia dos tiros de canhão. O objetivo militar em longo prazo é dirigir-se diretamente à China e a Rússia.

Ainda que o Irã seja o objetivo imediato, o desdobramento militar não se limita ao Oriente Médio e a Ásia Central. Uma agenda militar global está estabelecida. O avanço das tropas de coalizão e os sistemas de armas avançadas dos EUA, da OTAN e seus sócios, está se configurando de forma simultânea em todas as principais regiões do mundo.

As recentes ações dos militares dos EUA em frente as costas da Coréia do Norte em forma de manobras são parte de um desenho global. Os exercícios militares, simulações de guerra, o deslocamento de armas, etc. dos EUA, da OTAN e seus aliados que se estão realizando simultaneamente nos principais pontos geopolíticos, visam principalmente a Rússia e a China.

-A península da Coréia, o Mar do Japão, o estreito de Taiwan, o Mar Meridional da China, ameaçam a China.

- O deslocamento de mísseis Patriot para Polônia, o Centro de Alerta próximo à República Checa, ameaça a Rússia.

- Avanços navais na Bulgária, na Romênia e Mar Negro, ameaçam a Rússia.

- Avanços de tropas da OTAN e dos EUA na Geórgia também.

- Um deslocamento naval de grande dimensão no Golfo Pérsico, incluindo-se submarinos israelenses, dirigidos contra o Irã.

Ao mesmo tempo, o Mediterrâneo Oriental, o Mar Negro, o Caribe, América Central e região andina da América do Sul, são as zonas de militarização em curso. Na América Latina e no Caribe, as ameaças se dirigem à Venezuela e a Cuba.

“Ajuda militar” dos EUA
Por sua vez, transferências de armas em grande escala foram feitas sob a bandeira norte americana como “ajuda militar” a países selecionados, incluindo-se cinco bilhões de dólares num acordo de armamento com a Índia que se destina a melhorar as capacidades bélicas da Índia contra a China. (Huge U.S – Índia Arms Deal To Contain China, Global Times, 13 de julho de 2010).

“Isto (a venda de armas) significa melhorar as relações entre Washington e Nova Delhi e, de forma deliberada ou não terá o efeito de conter a influência da China na região”. (Citado em Rick Rozoff, Confronting both China and Russia: U.S. Risks Military Clash With China in Yellow Sea, Global Research, 16 de julho de 2010).

Os EUA conseguiram acordos de cooperação militar com alguns países do sul da Ásia Oriental, como Singapura, Vietnã e Indonésia, incluindo sua “ajuda militar”, assim como a participação em manobras militares, sempre dirigidas pelos Estados Unidos, na órbita do Pacífico (julho/agosto de 2010). Esses acordos são de apoio às implementações de armas dirigidas contra a República Popular da China. (Cf. Rick Rozoff, op. Cit.)

Do mesmo modo e mais diretamente relacionado ao ataque planificado contra o Irã, os EUA estão armando os Estados do Golfo (Bahrein, Kuwait, Qatar e os Emirados Árabes Unidos) com o interceptador de mísseis terra-ar Patriot Advanced Capability-3 (THAAD), assim como os baseados nos modelos de mísseis mar-3, interceptadores instalados em barcos de guerra de classe Aegis no Golfo Pérsico. (Cf. Rick Rozoff, NATO’s Role in the Military Encirclement of Iran, 10 de fevereiro de 2010).

Calendário de provisão e armazenamento militar
No que diz respeito à transferência de armas dos EUA para sócios e aliados, o crucial é o momento da entrega e do seu desdobramento. O lançamento de uma operação militar dos EUA ocorrerá, uma vez que esses sistemas de armas estejam em seu lugar mediante o desenvolvimento efetivo da aplicação e da capacitação do pessoal preparado. (Por exemplo, a Índia)

Estamos falando de um desenho militar mundial cuidadosamente coordenado e controlado pelo Pentágono, com a participação de forças armadas combinadas de mais de quarenta países. Esse desdobramento militar mundial é, com certeza, o maior desdobramento de sistema de armas avançados da história.

Por sua vez, os EUA e seus aliados têm estabelecido novas bases militares em diferentes partes do mundo. “A superfície da terra está estruturada como se fosse um enorme campo de batalha” (Cf. Jules Dufour, The Worldwide Network of US Military Bases, Investigación Global, 01 de julho de 2007).

O Comando Unificado da estrutura geográfica dividida em comandos de combate tem como base uma estratégia de militarização em nível global. “Os militares norte americanos têm bases em 63 países. E novas bases foram construídas a partir do 11 de setembro de 2001 em sete países. No total, existem 255.065 militares dos EUA distribuídos por todo o mundo”. (Cf. Jules Dufour, op. Cit.)

O cenário da Terceira Guerra Mundial
Esse desdobramento militar se produz em várias regiões e ao mesmo tempo sob a coordenação dos comandos regionais dos EUA com a participação de aliados no armazenamento de arsenais norte americanos, inclusive antigos inimigos, como o Vietnã e o Japão.

O contexto atual se caracteriza por uma acumulação militar global controlada por uma superpotência mundial que está utilizando seus aliados para desencadear numerosas guerras regionais.

A diferença que se estabelece com a Segunda Guerra Mundial, que foi também uma conjunção de distintas guerras regionais, é que com a tecnologia de comunicações e sistemas de armas da década de 1940, não havia estratégia em “tempo real” para coordenar as ações militares entre grandes regiões geográficas.

A guerra mundial se apóia num desdobramento coordenado de uma só potência militar dominante, que supervisiona as ações de seus aliados e sócios.

Com exceção de Hiroshima e Nagasak, a Segunda Guerra Mundial se caracterizou pelo uso de armas convencionais. A planificação de uma guerra mundial se baseia na militarização do espaço ultra terrestre.

Se uma guerra contra o Irã se inicia, não somente o uso de armas nucleares, mas toda uma gama de novos sistemas de armas avançadas, incluindo armas eletrônicas e técnicas de modificação ambiental, seria utilizada.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas
O Conselho de Segurança da ONU aprovou em princípios de junho último uma quarta rodada de sanções de grande alcance contra a República Islâmica do Irã, que incluem o embargo de armas e “controles financeiros mais estritos”.

Em amarga ironia, esta resolução foi aprovada poucos dias depois da negativa pura e simples do mesmo Conselho de Segurança em adotar uma moção de condenação ao Estado de Israel em seu ataque à Frota pela Liberdade em Gaza em águas internacionais.

Tanto a China quanto a Rússia, pressionados pelos EUA, têm apoiado o regime de sanções do Conselho de Segurança das Nações Unidas em seu próprio prejuízo. Suas decisões no CS contribuem para enfraquecer sua própria aliança militar, a Organização de Cooperação de Xangai (OCS), onde o Irã tem o estatuto de observador. A resolução do Conselho de Segurança congela os respectivos acordos de cooperação militar e econômica da China e da Rússia com o Irã. Isto tem graves repercussões no sistema de defesa aérea do Irã que, em parte, depende da tecnologia e da experiência russas. A Resolução do Conselho de Segurança outorga, de fato, “luz verde” para liberar uma guerra preventiva contra o Irã.

A inquisição estadunidense: construção de um consenso político para a guerra
Em coro, os meios de comunicação ocidentais têm qualificado o Irã como uma ameaça à segurança mundial por seu suposto (inexistente) programa de armas nucleares. Fazendo eco com as declarações oficiais, os meios de comunicação estão exigindo agora a aplicação de bombardeios punitivos dirigidos contra o Irã, a fim de salvaguardar a integridade de Israel.

Esse mesmos meios de comunicação fazem soar os tambores de guerra. O propósito é incutir na mente das pessoas, a partir da repetição de notícias até a exaustão, a idéia de que a ameaça iraniana é real e que a República islâmica deve ser “banida”.

O processo de criação de um consenso para fazer a guerra é similar ao da Inquisição espanhola. Requer e exige submissão à idéia de que a guerra é uma tarefa humanitária.

Contudo, conhecida e documentada, a verdadeira ameaça à segurança global vem da aliança EUA-OTAN-Israel; na verdade, a realidade por um ambiente inquisitorial é exatamente o seu oposto: os belicistas parecem estar comprometidos com a paz, enquanto as vítimas da guerra se apresentam como protagonistas do conflito.

Considerando que em 2006 quase dois terços dos norte americanos se opunham a uma ação militar contra o Iraque, uma recente pesquisa feita em 2010 pela Reuter-Zogby, indica que 56% dos estadunidenses são favoráveis a uma ação militar da OTAN contra o Irã. A construção de um consenso político que se nutre de uma mentira não pode, contudo, confiar somente na posição oficial daqueles que são a fonte da própria mentira.

Os movimentos pacifistas nos EUA, que em parte têm sido infiltrados e cooptados, assumiram uma posição fragilizada em relação ao Irã. O movimento contra a guerra está dividido. A ênfase se coloca contra as guerras que estão em andamento (Afeganistão e Iraque) ao invés de se oporem vigorosamente a guerras que estão sendo preparadas e que se encontram sobre o tabuleiro de xadrez do Pentágono.

Desde a posse de Barack Obama, o movimento contra a guerra perdeu muito da sua força. Por outro lado, aqueles que se opõem ativamente às guerras no Afeganistão e no Iraque, não se opõem necessariamente à realização de “bombardeios punitivos” contra o Irã, nem consideram essas ações como atos de guerra. Guerra esta que poderia ser o prelúdio da Terceira Guerra Mundial.

A escalada de protestos contra a guerra em relação ao Irã tem sido mínima em comparação com as enormes manifestações que precederam os bombardeios de 2003 e a invasão do Iraque.

Mas a verdadeira ameaça à segurança do mundo vem da aliança EUA-OTAN-Israel. À operação Irã, não se opuseram, no âmbito diplomático, tanto a China quanto a Rússia, sendo que conta também com o apoio dos governos dos estados árabes de primeira linha que integram o diálogo OTAN - Mediterrâneo. Conta também com o apoio tácito da opinião pública ocidental.

Fazemos aqui um apelo às pessoas de todos os países, nas Américas, Europa Ocidental, Turquia, Israel, em todo o mundo, a levantarem-se contra este projeto militar, contra os seus governos que apóiam a ação militar no Irã, a levantarem-se contra os meios de comunicação que servem para dissimular as devastadoras conseqüências de uma guerra contra o Irã. Esta guerra será uma insanidade.

A Terceira Guerra Mundial é terminal. Albert Einstein sabia dos perigos da guerra nuclear e da extinção da vida na terra, que já começou com a contaminação radioativa resultante do urânio empobrecido. “Não sei com que armas se fará a luta numa III Guerra Mundial, mas na IV Guerra Mundial se lutará com paus e pedras”. Os meios de comunicação, os intelectuais, os cientistas e os políticos, em coro, ofuscam a verdade não contada, ou seja, que a guerra que utiliza ogivas nucleares destrói a humanidade e que este complexo processo de destruição gradual já começou.

Quando a mentira se converte em verdade, já não há volta atrás. Quando a guerra se invoca como uma “tarefa humanitária”, a justiça e todo o sistema jurídico internacional são tomados ao contrário: o pacifismo e o movimento contra a guerra são criminalizados. Opor-se à guerra se converte num ato criminoso.

A mentira deve ser exposta como aquilo que é e o que faz: sanciona a matança indiscriminada de homens, mulheres e crianças. Destrói famílias e pessoas. Destrói o compromisso das pessoas com os seus semelhantes. Impede as pessoas de expressarem sua solidariedade pelos que sofrem. Defende a guerra e o estado policial como a única saída. Destrói o internacionalismo.

Impedir a mentira significa impedir um projeto criminoso de destruição global. Nela, a busca do benefício é a força primordial. Este benefício, movendo a agenda militar, destrói os valores humanos e transforma as pessoas em zumbis inconscientes. Vamos inverter essa maré.

Desafio aos criminosos de guerra em seus altos cargos e em suas poderosas corporações, bem como aos grupos de pressão que os apóiam: fim da inquisição dos Estados Unidos da América. Fim da cruzada militar EUA-OTAN-Israel.Fechem as fábricas de armas e as bases militares. Retirada das tropas dos campos de guerra. Os membros das Forças Armadas devem desobedecer às ordens e negarem-se a participar de uma guerra criminosa.

(*) Michel Chossudovsky é laureado autor, professor (emérito) de Economia na Universidade de Ottawa e diretor do Centro para Investigação sobre a Globalização (CRG), Montreal. É autor de ‘La Globalización de la Pobreza y el Nuevo Orden Mundial’ (2003) e de ‘La guerra de América contra el terrorismo’ (2005). Também é colaborador da Enciclopédia Britânica. Seus escritos são publicados em mais de vinte idiomas.
Tradução do espanhol de Izaías Almada.
Fonte: Carta Maior

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Jello Biafra & The Guantanamo School Of Medicine - 05.11 e 06.11 em São Paulo

Jello Biafra & The Guantanamo School Of Medicine - 05.11 e 06.11 em São Paulo


Tour do álbum: The Audacity Of Hype



Esse álbum é facilmente encontrado na:

www.sensorialdiscos.com.br tel.: 11 3333 1914
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rua 24 de maio, 116 sobreloja 8 galeria Presidente
Centro São Paulo cep 01041-000 SP

Nunca é demais repetir: O povo judeu é uma invenção!

Nunca é demais repetir: O povo judeu é uma invenção!
O historiador israelense Shlomo Sand, autor do best seller “Quando e como se inventou o povo judeu” está irritando profundamente os hebreus espalhados pelo mundo. É que a tese principal de seu livro assegura que “o povo judeu é uma invenção”.

Shlomo Sand é professor de História da Universidade de Tel Aviv. O seu livro se mantém há dois anos em primeiro lugar na lista dos mais vendidos.

Ele acusa os protestantes e os atuais “judeus”de deturpar a Bíblia ao querer transformar “um livro de teologia em livro de história”.

Shlomo afirma também, através de documentos, que nunca existiu um exílio judaico durante o Império Romano. Por uma simples razão: os romanos nunca exilaram povos. E que mesmo os assírios e babilônios, ao contrário dos mitos inventados, o máximo que fizeram foi exilar algumas elites.

Em sua obra o historiador afirma que os atuais judeus são antigos pagãos de regiões distantes que se converteram ao judaísmo e, portanto, não descendem dos antigos judeus; e que os palestinos árabes são os únicos descendentes dos antigos judeus.

Shlomo Sand tem recebido inúmeras ameaças de morte,mas continua dando aulas na Universidade de Tel Aviv.

Por: Georges Bourdoukan (http://blogdobourdoukan.blogspot.com)

terça-feira, 10 de agosto de 2010

[Holanda] Renata Zelazna está livre! - por ANA

[Holanda] Renata Zelazna está livre!

A jovem anarquista vegana polonesa Renata Zelazna que estava em prisão preventiva na Holanda desde abril de 2010, acusada de tentativa de assassinato, foi liberada na quinta-feira (5), depois que as autoridades holandesas, num julgamento, a condenaram a 117 dias de prisão e uma multa de 300 euros, mas como ela já tinha passado mais do que esse tempo na carceragem, foi imediatamente liberada.

Entenda o caso
Renata foi para a Holanda estudar veterinária no início deste ano e em abril foi presa, após reclamar cara a cara com os proprietários de um empreendimento vizinho ao seu apartamento por causa do barulho do bate-estaca, da contaminação com amianto e as rachaduras nas paredes do prédio. Depois deste protesto ela retornou ao seu apartamento, mas pouco tempo depois a polícia sem nenhum mandato invadiu a sua moradia ameaçando-a. Renata estava segurando uma faca, cortando legumes, a partir daí a polícia manipulou os fatos, acusando a jovem anarquista de tentativa de homicídio.

Mais infos: www.free-renata-zelazna.webs.com

agência de notícias anarquistas-ana
A serra silencia
só se ouve agora
o grito do pardal

Rosalva

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Straight Edge também é Zine: Political Straight Edge # 1



Vida longa ao zine feito pelo Edi da banda XPositive YouthX que destaco a entrevista com a lenda vida do SXE litorâneo Leonardo Cantinfras o homem de hum milhão de bandas.

Como sempre o povo brasileiro demonstra o seu carinho por FHC.



Alguns cadáveres ambulantes insistem em não deitar!
O nosso bravo “entregador do Brasil” ainda gosta de se sentir intelectual!

Provos Brasil

Reportagem em Gaza - por Sara Roy

Reportagem em Gaza - por Sara Roy

Estive em Gaza em 2009, minha primeira visita desde último ataque israelense ao território. Fiquei petrificada ante o que vi, em local que conheço muito bem há mais de 25 anos: a terra devastada, em frangalhos, a vida das pessoas tão gravemente ameaçada. Gaza decai sob o peso de uma sempre continuada devastação, incapaz de funcionar normalmente. O vácuo que ameaça de todos os lados vai-se enchendo de desespero e ausências que minam até os raros, últimos atos de resistência e otimismo que ainda encontram alguma via de expressão. O que mais me impressionou foi a candura desse povo, mais da metade do qual são crianças, e a obscenidade, a indecência, o crime que é aquele tipo de punição coletiva infindável.

O desmonte, o desmanche da economia e da sociedade em Gaza foram deliberados, resultado de uma política de Estado – conscientemente planejada, implementada e imposta. Embora a maior parcela de responsabilidade por esse crime caiba a Israel, os EUA e a União Europeia, dentre outros, também são culpados, assim como também é culpada a Autoridade Palestina na Cisjordânia. São todos cúmplices na ruína dessa bela terra. E assim como a desgraça de Gaza foi conscientemente orquestrada, assim também estão sendo conscientemente criados os obstáculos para impedir qualquer recuperação.

Gaza tem longa história de sujeição, que assumiu novas dimensões depois da vitória eleitoral do Hamás, em janeiro de 2006. Imediatamente depois daquelas eleições, Israel e alguns países doadores suspenderam contatos com a Autoridade Palestina; imediatamente depois, a ajuda direta também foi suspensa, e veio o boicote financeiro internacional imposto à Autoridade Palestina. Naquele momento, Israel, que já estava confiscando os impostos e taxas que recolhe mensalmente em nome da Autoridade Palestina e não repassa, efetivamente pôs fim à possibilidade de os habitantes de Gaza trabalharem em Israel; e reduziu drasticamente o comércio externo de Gaza.

Com a escalada da violência de israelenses e palestinos, que levou à morte de dois soldados israelenses e à captura do soldado Gilad Shalit em junho de 2006, Israel fechou todas as fronteiras de Gaza, autorizando a entrada, exclusivamente, de alguns produtos para finalidades humanitárias, o que marcou o início do sítio, que chega hoje ao 4º ano de duração.

A captura de Shalit precipitou assalto militar massivo de Israel contra Gaza no final de junho de 2006, a chamada “Operação Chuvas de Verão” , que visou especificamente a infraestrutura, para tentar desestabilizar o governo liderado pelo Hamás: foram atacados os prédios públicos, os ministérios da Autoridade Palestina; começaram os racionamentos de combustível, eletricidade, água; e os serviços de esgotos foram reduzidos. Essa operação-guerra quase corpo a corpo, diária, durou até outubro de 2006.

Em junho de 2007, depois de o Hamás chegar ao poder na Faixa de Gaza (o que aconteceu depois de meses de violência interna e de uma tentativa de golpe do partido Fatah contra o governo do Hamás) e da dissolução do governo de unidade nacional, a Autoridade Palestina efetivamente se partiu em duas: formou-se em Gaza um governo de facto, liderado pelo Hamás – e rejeitado com estardalhaço por Israel e pelo ocidente; e formou-se na Cisjordânia o governo oficialmente reconhecido, liderado pelo presidente Mahmoud Abbas. O boicote contra a Cisjordânia da Autoridade Palestina foi levantado, mas o boicote contra Gaza foi intensificado.

Para aumentar ainda mais a miséria de Gaza, o gabinete de segurança de Israel decidiu, em 19/9/2007, declarar a Faixa “entidade inimiga”, controlada por “organização terrorista”. Depois dessa decisão, Israel impôs novas sanções, entre as quais o banimento quase completo de qualquer comércio, controle absoluto sobre os movimentos de ir e vir da maioria dos gazenses, inclusive dos trabalhadores. No outono de 2008, foram proibidas todas as importações de combustível para Gaza. Essas políticas contribuíram para transformar os habitantes de Gaza, de povo com direitos políticos e nacionais, em “problema humanitário” – casos de pobreza e miséria pelos quais se responsabiliza hoje a comunidade internacional.

Não bastasse os principais países doadores internacionais, sobretudo os EUA e a União Europeia, terem participado do regime de sanções contra Gaza, eles também privilegiaram a Cisjordânia em seu trabalho programático. As estratégias dos doadores são agora de apoiar e fortalecer a fragmentação e o isolamento da Cisjordânia e da Faixa de Gaza – objetivo político de Israel desde o processo de Oslo – e de dividir os palestinos em duas entidades distintas, oferecendo com prodigalidade para um dos lados, ao mesmo tempo em que o outro lado é privado de tudo e criminalizado.

Esse comportamento dos principais países doadores reflete mudança significativa no modo como veem e abordam o conflito Israel-Palestina: a antiga posição, de oposição à ocupação israelense, está sendo trocada por uma nova posição, de apoio à ocupação e, portanto, de reconhecimento.

É o que se vê na ampla e não criticada aceitação da política colonialista israelense e no aprofundamento da separação de Cisjordânia e Gaza, com completo isolamento de Gaza. Essa mudança no modo de pensar dos países doadores também pode ser observada na nenhuma disposição de nenhum desses doadores para confrontar nem a anexação de facto de terras palestinas nem o novo movimento dos israelenses para reformular o conflito – que passa a estar centrado exclusivamente em Gaza… sendo Gaza identificada exclusivamente ao Hamás e, portanto, apresentada como ‘terrorista’ e excluída do mundo ‘civilizado’.

Dentro do paradigma “anexação (da Cisjordânia)/‘terroristização’ (da Faixa de Gaza)” qualquer resistência pelos palestinos, estejam na Cisjordânia ou em Gaza, à ocupação repressiva por Israel, incluindo qualquer tentativa significativa de reativar a vida econômica, são hoje consideradas por Israel e por alguns dos países doadores como movimentos ilegítimos e ilegais.

Nesse contexto o regime de sanções contra Gaza pode ser argumentalmente justificado – regime de sanções que jamais foi mitigado desde o final da guerra. O comércio normal (do qual a microscópica economia de Gaza depende desesperadamente) continua proibido; importações e exportações tradicionais praticamente já sumiram de Gaza. De fato, com pequenas e muito específicas exceções, nenhum material de construção e nenhuma matéria prima entram legalmente na Faixa, desde 14/6/2007. De fato, segundo a Anistia Internacional, apenas 41 caminhões carregados com materiais de construção entraram legalmente em Gaza, entre o fim do ataque israelense em meados de janeiro/2009 e dezembro/2009. Isso, em condições em que o setor industrial de Gaza precisaria de 55 mil caminhões carregados de materiais para reconstruções urgentes e indispe nsáveis. Além disso, no ano que decorreu a partir da proibição, as importações de diesel e gasolina de Israel para Gaza para uso privado ou comercial só foram autorizadas em pequenas quantidades e só em quatro ocasiões (embora a Agência para Socorro Humanitário da ONU [ing. United Nations Relief and Works Agency, UNRWA] receba fornecimento periódico de diesel e petróleo). Em agosto passado, 90% da população de Gaza vivia sob racionamento de eletricidade (cortada por 4-8 horas/dia), e os 10% restantes viviam sem nenhuma eletricidade – realidade que não foi alterada até hoje.

O bloqueio de Gaza provocou também o colapso praticamente total do setor privado. Pelo menos 95% dos estabelecimentos industriais de Gaza (3.750 empresas) foram destruídas ou forçadas a fechar ao longo dos últimos quatro anos, o que implicou perda de entre 100 mil e 120 mil postos de trabalho. As 5% restantes operam com 20-50% da capacidade. As amplas restrições ao comércio também contribuíram para a erosão continuada do setor agrícola de Gaza – agravada ainda mais pela destruição de 5 mil acres de terra agricultável e 305 poços de irrigação, durante o ataque israelense de dez.-jan.2009. Essas perdas incluem a destruição de 140.965 pés de oliveiras, 136.217 limoeiros, 22.745 outras árvores frutíferas, 10.365 tamareiras e outras 8.822 árvores e arbustos.

As terras antes irrigadas estão hoje secas; e o subsolo, contaminado por esgotos e água salgada, torna os campos praticamente imprestáveis. Inúmeras tentativas, de agricultores de Gaza, para replantar ao longo do ano passado, falharam, quase sempre por causa do esgotamento e da contaminação dos solos, com altos níveis de nitratos. O setor agrícola de Gaza também foi muito duramente prejudicado pela zona ‘neutra’ criada por Israel no norte e a leste de Gaza (e pelo Egito, na fronteira sul), exatamente onde estão as terras mais férteis da Faixa. A zona mede oficialmente 300m de largura por 55km de comprimento; mas, segundo a ONU, fazendeiros com terras localizadas a 1.000m da fronteira tem sido afastados a tiros pelo exército israelense. Aproximadamente 30-40% de toda a terra agricultável de Gaza está confinada nessa zona ‘neutra”. O setor agrícola de Gaza vive hoje situação de colapso total.

Distorções assim tão profundas na economia e no desejo da sociedade de Gaza – ainda que se recriem as melhores condições possíveis – exigem décadas para que sejam corrigidas. A economia depende hoje largamente dos empregos no setor público, das organizações de ajuda humanitária e das atividades do contrabando, o que comprova a crescente informalização da economia. Ainda antes do ataque israelense do ano passado, o Banco Mundial já constatava uma redistribuição de riqueza em Gaza, do setor privado formal, para os operadores do mercado negro.

Há inúmeros exemplos, mas um, particularmente ilustrativo, é o setor bancário. Poucos dias depois de Gaza ser declarada “entidade inimiga”, os bancos israelenses anunciaram a intenção de encerrar todas as transações diretas com bancos sediados em Gaza e só negociar com as instituições irmãs em Ramallah, na Cisjordânia. Nesses termos, os bancos sediados em Ramallah tornaram-se responsáveis pela transferência de moeda para as subsidiárias na Faixa de Gaza. Mas as regulações israelenses proíbem transferência de grandes quantidades de moeda sem prévia aprovação pelo ministério da Defesa e outras agências do aparelho de segurança israelense. Consequentemente, ao longo dos dois últimos anos, o setor bancário de Gaza enfrenta sérios problemas para atender às necessidades de dinheiro de seus clientes. Essa situação, po r sua vez, fez surgir um setor bancário informal que, hoje, é em larga medida controlado por gente ligada ao governo do Hamás, o que converteu o próprio Hamás em principal agente de intermediação das finanças em Gaza. Consequentemente, esses agentes de troca de moeda, que podem facilmente gerar capitais, são, de fato, mais fortes do que o sistema bancário formal, que não troca moeda nem gera capitais nem os faz girar.

Outro exemplo da informalidade econômica crescente em Gaza é a economia dos túneis, que começou a emergir há muito tempo, como primeira resposta ao bloqueio, e criou uma linha vital de abastecimento para uma população que vivia numa prisão a céu aberto. Segundo economistas locais, cerca de 2/3 da atividade econômica em Gaza é hoje orientada para o contrabando de bens que entram em (mas não saem). Mesmo essa última linha vital de abastecimento pode ser diminuída em breve, se o Egito – com a colaboração de engenheiros do governo dos EUA – concluir as obras de construção de uma muralha de aço, parte dela enterrada até o subsolo, ao longo da fronteira com Gaza, numa tentativa para conter o contrabando e o ir e vir de pessoas. Se a muralha chegar a ser completada, terá cerca de 8 km de comprimento e 15m de profundidade.

Os túneis, que Israel tolera em nome de manter inalteráveis as regras do bloqueio, são também importante fonte de renda para o governo do Hamás e as empresas associadas a ele, o que efetivamente enfraquece as modalidades tradicionais e formais de negócios e qualquer possibilidade de reconstruir um setor viável de comércio e negócios. Desse modo, o bloqueio de Gaza levou a um processo lento mas regular pelo qual se substituiu o setor formal de negócios por outro, quase totalmente marginal e paralelo, um mercado negro, que resiste e rejeita qualquer tipo de registros, regulação ou transparência e que, desgraçadamente, tem o máximo interesse em que as coisas mantenham-se exatamente como estão hoje.

Pelo menos duas novas classes econômicas emergiram em Gaza, fenômeno que teve antecedentes no período de Oslo: uma dessas classes tornou-se extraordinariamente rica, em boa parte por causa da economia de mercado negro dos túneis; a outra é constituída de alguns empregados do setor públicos, pagos (pela Autoridade Palestina na Cisjordânia) para não trabalhar (para o governo do Hamás). Assim, não apenas muitos trabalhadores de Gaza foram forçados a parar de produzir por ação de pressões externas; há hoje, além disso, uma nova categoria de pessoas recompensadas por não produzir – o que não deixa de ser espantosa ilustração-exemplo da realidade cada dia mais distorcida na qual a população de Gaza tem de sobreviver. Tudo isso levou a disparidades econômicas visíveis e monstruosas entre os que têm e os que não têm – como se constata no consumismo pervertido, em restaurantes e shopping-centers, nos quais só pisam os que têm.

Praticamente não há atividade produtiva na economia de Gaza, onde se vê uma espécie de consumismo do desespero entre pobres e ricos, mas que, no caso dos pobres, não supre sequer as necessidades mais básicas. Ainda não apareceram bilhões da ajuda internacional oferecida; e a imensa maioria dos gazenses vivem em situação de miséria absoluta. A combinação de um setor privado esgotado e economia estagnada levou a altíssimas taxas de desemprego (31,6% na cidade de Gaza; 44,1% em Khan Younis). Segundo a Câmara de Comércio Palestina, o desemprego real já se aproxima de 65%. Pelo menos 75% das 1,5 milhão de pessoas que vivem em Gaza dependem hoje de ajuda humanitária para suprir necessidades básicas de sobrevivência; há dez anos, eram 30%.

Relatórios da ONU mostram que o número de habitantes de Gaza que vivem hoje nas condições mais abjetas de pobreza – os que absolutamente não conseguem alimentar a família – triplicou e já atinge 300 mil, aproximadamente 20% da população.

O acesso a quantidades de comida suficientes para matar a fome continua a ser problema crítico, e parece estar tornando-se mais agudo depois de suspenso o ataque israelense contra Gaza, de setembro de 2009 até o início de janeiro de 2010: estatísticas mostram que Israel só permite que os palestinos recebam nunca mais (e às vezes menos) de 25% do que seriam necessário para suprir sua carência alimentar; em vários momentos, essa porcentagem desceu a 16% do mínimo necessário para não morrer de fome ou por efeitos da desnutrição.

Nas duas últimas semanas de janeiro, esses índices desceram: entre 16 e 29 de janeiro, entraram em Gaza, em média, 24,5 caminhões de comida e suprimentos, por dia. Dado que seriam necessários 400 caminhões/dia para alimentar a população, Israel permitiu que chegasse a Gaza apenas 6% da comida necessária, nesse período de duas semanas.

São números obscenos. Gaza precisa de aproximadamente 240 mil caminhões de comida e suprimentos por ano para “suprir as necessidades da população e responder ao esforço de reconstrução”, segundo a Federação Palestina das Indústrias. Segundo a FAO e o programa World Food, “Há provas de que a população de Gaza está sendo mantida em plano mínimo, segundo padrões humanitários.” Em Gaza se registram os mais baixos índices da relação peso/idade – indicador de desnutrição crônica, já detectada entre crianças com menos de 5 anos, cuja incidência subiu de 8,2% em 1996, para 13,2% em 2006.

A agonia de Gaza não termina aí. Segundo dados da Anistia Internacional, 90-95% da água obtida do aquífero Gaza é “imprópria para beber”. Praticamente todos os depósitos subterrâneos de água em Gaza estão contaminados com nitratos, em quantidades muito superiores às admitidas pela OMS – em algumas áreas os números são seis vezes superiores ao padrão máximo admitido –, ou são águas salobras. Gaza já não tem nenhuma fonte regular de água limpa. Segundo relatório de um país doador, “Em nenhum outro lugar do mundo há tantas pessoas expostas a tão altos níveis de nitratos por períodos tão longos de tempo. Jamais se viu situação semelhante e não há estudos que nos ajudem a entender os danos que sofrerão essas pessoas expostas, por tanto tempo, ao envenenamento por nitrato” – o que é ainda mais perigoso no caso das crianças.

Segundo Desmond Travers, um dos co-autores do Relatório Goldstone, “se essas questões não forem discutidas e essa situação corrigida, em breve Gaza será diagnosticada como área não habitável, pelos padrões da Organização Mundial de Saúde”.

É possível que altos níveis de contaminação por nitratos tenham contribuído para alterações chocantes na taxa de mortalidade infantil entre palestinos na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. A taxa de mortalidade infantil, amplamente usada como indicador de saúde das populações, não se alterara desde 1990 até recentemente. Hoje dá sinais de aumento. Isso, porque as causas de mortes de crianças mudaram: de doenças infecciosas e diarreias, para prematuridade, baixo peso ao nascer e malformações congênitas. São sinais alarmantes (e discrepantes na Região), porque as taxas de mortalidade infantil estão em declínio em praticamente todo o mundo em desenvolvimento, inclusive, por exemplo, no Iraque.

O povo de Gaza sabe hoje que foi abandonado. Disseram-me alguns, na rua, que a única vez que chegaram a ter esperança de serem ajudados foi quando estavam sob bombardeio, porque então, pelo menos, o mundo tinha notícias de Gaza e talvez prestasse atenção. Gaza é hoje lugar onde a miséria é fantasiada de sobrevivência e caridade é bom negócio.

Contudo, apesar dos esforços de Israel e do ocidente para mostrar Gaza como paraíso de terroristas, a população resiste. Talvez resistam, sobretudo, contra a possibilidade de render-se, não a Israel, mas ao ódio. Há tanta gente que ainda fala de paz, de tentar resolver os conflitos… Seja como for, hoje, em Gaza, nada disso é motivo para otimismo. Tudo, em Gaza, é motivo para desespero.

Sara Roy é pesquisadora sênior do Centro de Estudos do Oriente Médio, da Universidade de Harvard. Seu novo livro, Hamas and Social Islam in Palestine (Princeton University Press, 2010) está no prelo. Esta reportagem foi publicada em fevereiro de 2010
Fonte: http://www.outraspalavras.net/