sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Ainda acerca da crise económica. 1) o declínio dos Estados Unidos - por João Bernardo

Ainda acerca da crise económica. 1) o declínio dos Estados Unidos

A administração Obama permanece de olhos postos nos principais países emergentes, especialmente na China. Porém, como esperar uma ajuda desse lado se a economia norte-americana e as novas economias em ascensão revelam não só situações distintas ou até opostas, mas tendências divergentes? Por João Bernardo

Em Fevereiro de 2009, aquando do lançamento deste site, publiquei o artigo Perspectivas do capitalismo na actual crise económica, que diferiu do que era então hábito escrever acerca desse tema na extrema-esquerda. Defendi que não se tratava de uma crise global do capitalismo mas de uma crise no interior do capitalismo, motivada por uma deslocação dos centros de hegemonia económica. Observando o que se passou no ano e meio seguinte, parece-me que a minha análise e as minhas previsões foram confirmadas. (Devo prevenir os leitores de que, consoante o uso português, chamo mil milhões ao que os brasileiros chamam bilhão, ou seja, 109, e bilião ao que no Brasil se chama trilhão, um milhão de milhões, ou seja, 1012.)

Crise no, e não do, capitalismo
É frequente que os jornalistas e mesmo alguns comentadores um pouco mais sérios comparem a recessão iniciada nos Estados Unidos em Dezembro de 2007 com a grande depressão da década de 1930. Enquanto de 1990 até 2006 o output [1] mundial cresceu a uma taxa anual de cerca de 3%, nos últimos meses de 2008 e em 2009 as principais instituições económicas emitiram uma sucessão de previsões cada uma mais pessimista do que a anterior. No final de 2008 o Fundo Monetário Internacional previu que a economia mundial cresceria 2,2% em 2009, o que equivale a menos de metade da taxa de crescimento de 2007, e em Janeiro de 2009 o prognóstico baixou para um crescimento de 0,5%, o número mais baixo nos últimos sessenta anos. Em Abril, porém, já não foi um crescimento reduzido que o Fundo anunciou para o ano de 2009, mas uma diminuição de 1,3% do output global, enquanto a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) preveniu, na mesma ocasião, que a economia mundial se contrairia 2,7% em 2009. O optimismo, aliás muito relativo, regressou em 2010, com as previsões sucessivamente corrigidas num sentido mais elevado ao longo do primeiro semestre do ano, e em Abril o Fundo Monetário Internacional noticiou que o output global atingira o nível em que se havia situado antes do início da recessão. Em Julho o Fundo, que antes considerara que a economia mundial cresceria 4,2% em 2010, passou a admitir um crescimento de 4,6%.

«A crise mata-nos»
De 1990 até 2006 o volume do comércio mundial cresceu a uma taxa anual superior a 6%, mais do dobro do crescimento do output mundial. Depois, embora com um pequeno atraso, o comércio mundial acompanhou a crise. No primeiro semestre de 2008 o crescimento do comércio mundial obedeceu a uma taxa anualizada de 20%, em termos de dólar, mas a progressão foi menor no segundo semestre e, de acordo com o Fundo Monetário Internacional, em Setembro o comércio mundial entrara já em retracção. Tudo somado, em 2008 o comércio mundial declinou mais rapidamente do que o output mundial, e no começo de 2009 estava a contrair-se a um ritmo sem precedentes desde o pós-guerra. Segundo o Banco Mundial, o valor em dólares do comércio mundial em Maio de 2009 foi cerca de 1/3 inferior ao que havia sido um ano antes.

Mas esta perspectiva global é ilusória. A depressão da década de 1930 atingiu todo o planeta, salvo duas excepções: a Palestina, que de 1933 em diante a Agência Judaica inundou de capitais germânicos, devidos ao Acordo de Transferência que descrevi brevemente num artigo deste site; e a União Soviética, onde os planos quinquenais stalinianos se revelaram a fórmula adequada àquelas circunstâncias sociais e àquela situação económica, malgrado tudo o que posteriormente se pretendeu. A actual recessão, no entanto, não é mundial e, pelo contrário, dividiu os países num grupo declinante, que não consegue ultrapassar as dificuldades económicas, parecendo às vezes sair de uma situação grave para cair noutra pior; e num grupo em ascensão, no qual se depositam hoje as esperanças do capitalismo mundial. Esta crise consiste, antes de mais, numa reordenação interna dos centros de crescimento económico. Vejamos o declínio dos Estados Unidos.

A recessão
Formalmente, a recessão iniciou-se nos Estados Unidos no último mês de 2007 e terminou no segundo trimestre de 2010, mas, como sempre sucede nos processos económicos e sociais, as cadeias de causas e consequências impossibilitam o estabelecimento de limites rigorosos. Durante a década de 2000 o Produto Interno Bruto (PIB) real norte-americano cresceu a uma taxa média anual de 1,9%, enquanto havia crescido a uma taxa média anual de 3,9% ao longo das seis décadas anteriores. Pior do que a década de 2000 só a famigerada década de 1930, quando o crescimento médio anual foi 0,9%. E, para me reportar ao plano em que a crise se desencadeou, as dívidas das firmas financeiras norte-americanas aumentaram continuamente durante as duas décadas anteriores a 2008, passando de 39% do PIB para 111%. Os acontecimentos de 2007 e 2008 vinham já a ser preparados desde há algum tempo.

«Redução de preço. Execução de hipoteca. Propriedade do banco»
E foram preparados igualmente no mercado imobiliário. De 1965 até 1997 a percentagem de famílias norte-americanas proprietárias da sua residência mantivera-se em 64%. A taxa máxima foi atingida em 2006, com 69%, e ainda no final de 2008 67,5% das famílias eram proprietárias das suas casas. Mas a posse das residências serviu para aumentar as dívidas. Em 1989, 47% dos agregados familiares de «classe média» contraíram uma hipoteca, e a percentagem passou para cerca de 60% em 2007. Nestas circunstâncias, qualquer variação no preço das habitações teria efeitos ampliados sobre o endividamento e a capacidade de consumo das famílias e, por aí, sobre o ritmo de crescimento de toda a economia. Até que o desastre aconteceu. Os preços das habitações caíram tanto e tão depressa que, segundo estimativas do Deutsche Bank, no final do primeiro trimestre de 2009, 27% dos agregados familiares com hipotecas tinham dívidas hipotecárias superiores ao valor da residência.

Precipitada pela crise das hipotecas, a crise financeira norte-americana provocou, por seu turno, uma crise na construção de casas. Todavia, o facto de os preços das casas em Janeiro de 2009 estarem 29% abaixo do nível máximo que antes haviam atingido levou a uma reanimação do mercado imobiliário. A construção de casas subiu à taxa anual de 23,4% no terceiro trimestre de 2009, ajudada por um crédito fiscal de 8.000 dólares concedido pelo governo a quem comprasse casa nova. Porém, a venda de casas novas caiu 3,6% em Setembro de 2009 e, após ter subido 6,2% em Outubro, desceu 11,3% em Novembro e de novo 11% em Janeiro de 2010, continuando a descer em seguida, o que revela a fragilidade do actual mercado imobiliário norte-americano, incapaz de se sustentar depois de terminado o prazo para beneficiar daquele crédito fiscal. Em Maio de 2010 a compra de casas novas caiu 33% relativamente ao mês anterior.

Ao mesmo tempo, e dado o facto de os departamentos de crédito ao consumidor serem os mais rentáveis, quando não os únicos rentáveis, das três empresas automobilísticas norte-americanas, a crise financeira acarretou uma crise no fabrico de automóveis. Como tive ocasião de indicar em Perspectivas do capitalismo na actual crise económica, os departamentos de crédito ao consumidor da General Motors e da Ford colocavam estas companhias industriais entre as maiores instituições financeiras do país, o que contribuiu para contagiar alguns ramos cruciais da indústria com as calamidades do sector financeiro. No primeiro trimestre de 2009 a produção industrial caiu a uma taxa anualizada superior a 20%, mas no segundo trimestre houve uma relativa melhoria nas despesas das empresas, que desceram só 8,9% em comparação com uma queda de 39,2% no primeiro trimestre. Afinal, em Setembro de 2009 o output industrial estava 15% mais baixo do que no começo da recessão, em Dezembro de 2007.

Do mesmo modo que a data inicial da recessão não pode ser assinalada com precisão, também o seu termo estatístico não corresponde a qualquer robustecimento efectivo da economia dos Estados Unidos. Durante uma crise, com o declínio da actividade produtiva os stocks vão-se esgotando, e o final da crise ocorre com a reposição dos stocks. Ora, já em meados de 2009 os indicadores económicos haviam apontado para uma estabilização da situação e no final de Setembro desse ano a Reserva Federal declarou que estava a ocorrer a retoma [recuperação] da economia do país. Com efeito, o crescimento recomeçou nos meados de 2009 e acelerou-se bastante nos últimos meses do ano. Tudo somado, de acordo com os dados oficiais, o PIB cresceu apenas 0,4% em 2008 e o seu declínio acumulado foi de 3,7% desde o final de 2007. Em 2009 a economia retraiu-se 2,4%, embora com uma melhoria no segundo trimestre, quando se contraiu a uma taxa anualizada de 1%. Porém, no terceiro trimestre de 2009 o PIB já cresceu a uma taxa anualizada de 3,5% relativamente ao trimestre anterior, sendo o primeiro aumento desde o segundo trimestre de 2008; e no último trimestre o output cresceu a uma taxa anualizada de 5,7%. Em Maio de 2010 a OCDE pôde prever para esse ano um crescimento de 3,2%, o que mostra que os negócios haviam corrido melhor do que se esperara, porque em Março do ano anterior a OCDE havia previsto um declínio de 4% da economia norte-americana em 2009 e um crescimento zero em 2010.

No entanto, a retoma da actividade económica nos Estados Unidos sustenta-se em bases precárias, que em boa medida decorrem de fragilidades mais antigas.

O desemprego
A taxa de desemprego é um indicador crucial, porque revela a relação entre a actividade das empresas e o comportamento do consumo particular. Não só os desempregados ganham menos, ou não ganham nada, como o desemprego pressiona à baixa dos salários dos que estão empregados. Nos Estados Unidos, entre o terceiro trimestre de 2008 e idêntico período de 2009 as remunerações dos trabalhadores aumentaram apenas 1,6%, a taxa mais baixa desde que este dado começou a ser corigido.

Ora, entre 1940 e 1999 o número de norte-americanos empregados fora do sector agrícola cresceu a uma taxa média decenal de 27%, mas na década de 2000 caiu 0,8% e em 2009 caiu 3,6%. Isto significa que, enquanto entre Dezembro de 1999 e Dezembro de 2009 a população dos Estados Unidos aumentou cerca de 30 milhões, surgiram só 400.000 novos empregos. E apesar de a economia se ter expandido na segunda metade de 2009, perderam-se nesse período 800.000 postos de trabalho. Em Setembro de 2009 o emprego era 15% inferior ao que fora em Dezembro de 2007, no início da recessão. Aliás, a taxa de 10,2% de desempregados em Novembro de 2009 chegaria quase aos 18% se fosse levado em conta o subemprego. Por cada novo emprego que se oferece há mais de seis desempregados a candidatar-se, e em Março de 2010, além dos 15 milhões de norte-americanos sem trabalho, outros 9 milhões laboravam contra a vontade em part-time. Além disto, a taxa de 9,5% de desempregados em Junho de 2010 deveu-se sobretudo ao facto de muita gente ter desistido definitivamente de procurar emprego e, assim, desaparecer das estatísticas.

Apercebemo-nos melhor da gravidade da situação ao sabermos que as empresas com menos de 500 empregados foram responsáveis por 64% dos novos postos de trabalho criados entre 1993 e o terceiro trimestre de 2008. Mas enquanto as grandes empresas obtêm só 30% do seu financiamento a partir dos bancos, as pequenas empresas obtêm 90%, sendo elas as que mais sofrem com a redução do crédito e mais dificuldades sentem nas actuais circunstâncias. No começo de 2010 a administração Obama anunciou que, de acordo com as suas previsões, durante este ano seriam criados apenas 95.000 postos de trabalho mensalmente e a taxa de desemprego permaneceria em 2011 acima dos 9%.

Ao invés do que imaginam os revolucionários de campus universitário, não é nos períodos de crise económica que se geram e alastram grandes lutas, porque a subida do desemprego, aumentando a concorrência dos trabalhadores no mercado de trabalho, refreia a contestação. A tal ponto os administradores das empresas conhecem este efeito suscitado pelo medo de perder o emprego, que muitas vezes despedem [demitem] mais pessoal do que seria estritamente necessário. Apesar disto, fico perplexo ao saber que, segundo o FBI, a venda de armas de fogo subiu 31% no período entre Novembro de 2008 e Janeiro de 2009 relativamente a igual período um ano antes. Quem estava a ter medo de quem?

Limitando-me ao plano estritamente económico, uma parcela do desemprego, denominada friccional, é pouco significativa porque resulta da mobilidade da força de trabalho e da deslocação de empresas de um lugar para outro, fazendo-se sentir apenas a curto prazo. Verdadeiramente grave é o desemprego a longo prazo porque, além de reflectir uma crise séria na actividade produtiva e de ter efeitos especialmente negativos sobre os rendimentos familiares, leva o desempregado a esquecer gradualmente muitas das suas qualificações e impede-o de adquirir qualificações novas. Se uma crise consiste numa destruição de capital, então o desemprego a longo prazo consiste numa destruição das qualificações do trabalhador, com efeito de ricochete sobre a produtividade geral. É preferível para o capitalismo reduzir as horas de trabalho do que reduzir os postos de trabalho. Nesta perspectiva é especialmente grave o facto de no final de 2009 cerca de 6 milhões de norte-americanos, o que correspondia a 40% dos cerca de 15 milhões de desempregados, estarem sem trabalho há 27 semanas ou mais, a mais alta taxa desde 1948, quando começou a ser elaborado este tipo de estatística. E o record foi batido em meados de 2010, com um período médio de desemprego de mais de 35 semanas. Ultrapassado um certo limite, muitos desempregados desistem e deixam de procurar trabalho, sendo então esquecidos pela estatística oficial que, se os incluísse, apresentaria uma taxa de desemprego muito superior. Eles representam uma perda absoluta na produtividade geral.

Contrariamente ao que é comum pensar na extrema-esquerda, o crescimento da produtividade leva ao aumento do emprego. É certo que, por um lado, as inovações tecnológicas deixam sem ocupação muitos profissionais ligados às tecnologias caducas e fazem com que se percam postos de trabalho nos ramos que expandiram a automatização. Por outro lado, todavia, o aumento da produtividade suscita o desenvolvimento económico e a criação de novas oportunidades de investimento e de novos ramos de actividade, com a consequente multiplicação do emprego. Dois séculos de história do capitalismo demonstram que o crescimento da produtividade gera muitíssimo mais empregos do que aqueles que destrói. No entanto, esta compensação pode demorar. Durante algum tempo o acréscimo da produtividade pode conviver com uma redução do emprego, e o desfasamento [a defasagem] será tanto mais prolongado quanto mais lento for o ritmo daquele acréscimo. Ora, não parece que os Estados Unidos estejam aptos a conseguir um arranque da produtividade tal que absorva a enorme quantidade de desempregados.

O consumo particular e o endividamento
O desemprego elevado e persistente somou-se à crise das hipotecas desencadeada em 2007, tendo como resultado uma redução do consumo particular. Esta situação é especialmente grave porque desde há bastante tempo o consumo particular tem sido o motor da economia norte-americana. As despesas de consumo e os investimentos em habitação aumentaram de 67% do PIB em 1980 para 75% em 2007 e foram responsáveis, logo antes da recessão, por mais de 70% das despesas totais, e por 77% do crescimento económico entre 2000 e 2007.

Ora, o salário mediano dos trabalhadores norte-americanos, avaliado em termos reais, manteve-se praticamente sem alterações desde a década de 1970, por isso o nível de consumo elevado implicou uma alta taxa de endividamento. O aumento salarial que deve acompanhar o crescimento da produtividade assumiu a forma perversa de um aumento do crédito. Em 1945 o crédito ao consumo nos Estados Unidos aproximou-se de 5,7 milhares de milhões de dólares, subindo para cerca de 43 milhares de milhões de dólares em 1955 e chegando a 100 milhares de milhões em 1966, 500 milhares de milhões em 1984 e 1 bilião em 1994. O crédito ao consumo atingiu o nível máximo em Julho de 2008, alcançando quase 2,6 biliões de dólares.

Em 2007 a dívida dos agregados familiares aproximava-se de 100% do PIB. Isto significa que a taxa de poupança dos agregados familiares, que em 1980 havia sido de 10% do rendimento disponível, caiu para próximo de zero em 2007, enquanto a taxa de endividamento familiar subiu de 67% do rendimento disponível para 138%. Richard Berner, um dos directores e dos principais economistas da firma financeira Morgan Stanley, calculou que nos dez anos anteriores a 2009 a proporção dos rendimentos familiares destinada ao serviço da dívida aumentou de 12% para 14%.

«Liquidação. Tudo a 5 dólares»
A situação atingiu um ponto crítico durante o ano de 2008, quando a riqueza líquida dos agregados familiares caiu 18%, uma descida sem precedentes, correspondente a uma perda de 11,2 biliões de dólares. Nestas condições, o volume do crédito ao consumo diminuiu 4,4% em 2009 e, correlativamente, a taxa de poupança familiar subiu, passando para 5% do rendimento disponível no segundo trimestre de 2009, uma mudança considerável depois de ter estado próxima de zero. Mas note-se que esta taxa mantinha-se ainda abaixo da média de 7% posterior à segunda guerra mundial. Importa, no entanto, considerar que, como cada aumento de 1% na taxa de poupança corresponde a uma redução anual da procura no montante aproximado de 109 milhares de milhões de dólares, as despesas de consumo desceram em 2008 para 70% do PIB. É significativo também saber que o número de cartões de crédito em circulação diminuiu de quase 1/5 no primeiro trimestre de 2010, enquanto o não pagamento das dívidas em cartão de crédito atingiu o nível sem precedentes de 13%.

A maior parte do endividamento nos Estados Unidos é interna, quer dizer, cidadãos do país devem a outros cidadãos, o que não evita riscos elevados, porque se as dívidas internas não forem respeitadas isto provoca reacções negativas em cadeia. No entanto, como a crise do sistema financeiro norte-americano teve repercussões em todo o mundo, os problemas mais graves devem-se ao endividamento externo.

O endividamento externo
Além do endividamento dos agregados familiares, há que considerar o endividamento das empresas e a dívida pública. Nos Estados Unidos as dívidas do sector privado, que em 1950 equivaliam a cerca de 50% do PIB, atingiram quase 300% no auge anterior à crise, e a dívida pública federal bruta corresponde a 85% do PIB. Usando outro critério e excluindo as instituições financeiras e o governo federal, a dívida norte-americana no começo de 2009 correspondeu a cerca de 190% do PIB, a taxa mais elevada desde a década de 1930.

A balança de conta corrente, que mede o equilíbrio entre o que um país recebe do estrangeiro e os pagamentos que efectua ao exterior, tivera um excedente de 0,4% do PIB em 1980, mas entrou em défice em 1992 e o saldo negativo acentuou-se especialmente a partir de 1997, atingindo em 2006 um máximo de 804 milhares de milhões de dólares, correspondente a 6% do PIB. Apesar do declínio gradual do dólar a partir de 2002, o défice em conta corrente continuara a aumentar. Este défice destinou-se sobretudo a financiar o consumo e não o investimento produtivo interno, ou seja, não reflectiu qualquer aumento da taxa de investimento, mas uma descida da taxa de poupança. Em vez de servir directamente para as empresas norte-americanas expandirem as suas operações, o afluxo de capitais estrangeiros serviu, em boa medida, para a população do país ampliar o seu consumo, e só por aí se activou a economia, o que indica uma estrangulação da produtividade.

Ora, como é o sistema bancário a converter o afluxo das poupanças externas em crédito aos consumidores privados, a partir de certo ponto o endividamento destes consumidores pôs em risco o valor das suas garantias e, por aí, acarretou a crise do sistema bancário, o que não aconteceria se tivesse sido maior a percentagem do crédito dirigido para o investimento produtivo interno. E apesar de o Fundo Monetário Internacional ter previsto, em meados de 2009, que nesse ano e em 2010 o défice em conta corrente seria inferior a 3% do PIB, o certo é que no final de 2009 ele atingira já os 12%, a percentagem máxima desde a segunda guerra mundial, e era ainda de cerca de 9% nos meados de 2010. Nessa ocasião previa-se que em 2010 o défice chegasse a 1,3 biliões de dólares.

As hesitações da administração Obama
Chegou-se assim a uma situação duplamente grave, porque as despesas particulares diminuíram mas o défice em conta corrente permanece elevado. A administração Obama hesita perante esta contradição.

Por um lado, a administração continua a estimular o consumo, e as despesas de consumo subiram 3,4% no terceiro trimestre de 2009, em boa medida graças aos subsídios governamentais para a compra de automóveis novos. Nesse mesmo período a taxa global de poupança caiu para 10% do PIB, metade do que havia sido dez anos antes, porque embora os agregados familiares passassem a poupar mais, as despesas governamentais actuaram em sentido contrário. De qualquer modo, no final de 2009 a dívida dos agregados familiares, avaliada em percentagem dos rendimentos familiares, mantinha-se 30% acima do que fora uma década antes. Mas a fragilidade da retoma do consumo fica ilustrada ao verificarmos, como já referi, a persistente queda da compra de casas novas depois de encerrado o crédito fiscal destinado a estimular este tipo de aquisições.

O comércio externo poderia compensar a redução do mercado interno e contribuir para reequilibrar a balança de pagamentos, mas não é isto que acontece. No começo da década de 1950 os Estados Unidos foram responsáveis por 18% das exportações mundiais, e esta percentagem caiu para 8% em 2009. Simetricamente, a percentagem do consumo industrial interno satisfeita por importações, que fora de 31% em 1998, aumentou para 37% em 2008, segundo Dan Meckstroth, economista-chefe da Manufacturers Alliance, uma organização de pesquisa económica sustentada por médias e grandes companhias.

E assim, enquanto, por um lado, toma medidas de estímulo do consumo, a administração Obama pretende, por outro lado, aumentar as exportações do país. Larry Summers, director do Conselho Económico Nacional (o gabinete económico do presidente), declarou em Julho de 2009 que «a reconstrução da economia americana deve orientar-se mais para as exportações e menos para o consumo» e, no seu discurso sobre o Estado da União em Janeiro de 2010, o presidente Obama fixou o objectivo de duplicar as exportações norte-americanas nos próximos cinco anos.


Estas intenções não têm correspondido à realidade porque, se o défice dos Estados Unidos passou de 6% do PIB em 2006 para cerca de 2,8% no segundo trimestre de 2009 (numa taxa anualizada), isto não se deveu a qualquer aumento das exportações, que entre o último trimestre de 2007 e o segundo trimestre de 2009 caíram 215 milhares de milhões de dólares (a uma taxa anualizada e em dólares de 2005), mas ao facto de as importações terem descido mais ainda, num montante de 440 milhares de milhões de dólares. Para ultrapassar estas dificuldades, a administração Obama parece contar mais com as pressões diplomáticas exercidas sobre a China do que com uma reanimação da actividade industrial e um aumento da produtividade. Essas pressões batem à porta errada, todavia, porque enquanto para o Canadá e o México, que são os dois maiores mercados de exportação dos Estados Unidos, as exportações desceram 14% entre Outubro de 2008 e Outubro de 2009, cresceram 13% para a China, que é o terceiro maior mercado das exportações norte-americanas. No final de 2007, pela primeira vez mais de 50% das exportações dirigiram-se para os países emergentes e a percentagem tem vindo a aumentar. De qualquer modo, Mohamed El-Erian, da PIMCO, uma empresa de gestão de fundos, observou que a transição de uma expansão económica baseada no consumo para outra baseada na exportação levaria a uma taxa de crescimento baixa durante um longo período, acompanhada por um desemprego elevado.

Não parece desenhar-se uma saída clara, e embora a situação dos Estados Unidos tenha melhorado, não creio que esteja a edificar uma base sólida para retomar o crescimento. A administração Obama permanece de olhos postos nos principais países emergentes, especialmente na China. Porém, como esperar uma ajuda desse lado se a economia norte-americana e as novas economias em ascensão revelam não só situações distintas, mas tendências divergentes? Ultimamente, nos debates económicos em língua inglesa tem-se falado muito de decoupling, a acção de desenganchar ou desengatar, como quando se separam dois vagões de caminhos-de-ferro [estradas de ferro], por exemplo. Será que os países emergentes com maior taxa de crescimento seguirão velozmente pela via principal enquanto os Estados Unidos se encaminham para uma via de garagem?

Nota
[1] Em economia, o termo output denota o conjunto dos bens e serviços produzidos numa empresa, num país ou num grupo de países.

Esta série inclui os seguintes artigos
1) O declínio dos Estados Unidos
2) A nova hegemonia
3) A China em primeiro plano
4) O problema da produtividade
5) Transnacionalização e espaços nacionais
6) A crise do neoliberalismo
7) Uma crise de regulação
8) A crise de regulação na zona do euro

Fonte: http://passapalavra.info/

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Espetáculo primitivo de crueldade/EUA: Ursos são acorrentados e perseguidos por cães, durante “prática esportiva” - por ANDA

Espetáculo primitivo de crueldade/EUA: Ursos são acorrentados e perseguidos por cães, durante “prática esportiva” - por ANDA

Carolina do Sul é o único estado do mundo a permitir a tortura de ursos como uma prática legal

Por Fernanda Franco (da Redação)

Uma terrível tradição popular sanguinária e cruel praticada nos tempos da Roma Antiga ainda permanece viva no estado da Carolina do Sul, nos EUA.

Uma investigação feita recentemente pela Humane Society revelou e registrou quatro “modalidades” do chamado “bear baying” (“perseguir ursos com latidos”, em tradução livre), na Carolina do Sul. Os caçadores que participam desse espetáculo repugnante de crueldade chamam essa prática de “exercício de treino” para seus cães usados nas perseguições, alegando que isso ensinaria aos cachorros como agir quando encontrarem um urso num ambiente selvagem.

De acordo com reportagem da AP e matéria feita pela Animals Change, “bear baying” é um “esporte” em que ursos são acorrentados em postes enquanto cães latem e rosnam, fazendo com que os ursos, assustados e intimidados, equilibrem-se apenas em suas patas traseiras. Mas por que forçar um urso a se equilibrar nas patas traseiras? Porque assim ficam mais vulneráveis para serem mortos por caçadores.

Os ursos submetidos a essa tortura sofrem muito, como é possível ver neste vídeo produzido pela Humane Society. Para a HSUS, essa prática cruel não passa de um show de covardia, em que animais acorrentados são cercados por curiosos sádicos: “Quando o animal fica com a boca espumando e com as mandíbulas trêmulas, é sinal de que está apavorado. Eles têm alguns dentes e garras arrancados, para que não possam se defender”.

Segundo a Humane Society, três cães que são treinados para a caça correm para perto do urso, latindo furiosamente. Alguns chegam a morder suas pernas ou face. Outros pulam sobre o urso, que por sua vez fica em pé, equilibrando-se nas suas patas traseiras, tentando proteger o corpo do ataque. A agressão continua por quatro horas, depois de cerca de 300 cães terem atacado o pobre urso.

Crueldade está dentro da legalidade
Enquanto os caçadores justificam essa prática absurda como algo necessário para treinar as habilidades de seus cães (que também são vítimas, por sua vez), esse espetáculo sanguinário e absolutamente cruel acaba sendo recebido como diversão, como é o caso das rinhas de galos e das touradas. Os participantes admitem isso com orgulho.

Curiosamente, conforme bem observa a “World Society for Protection of Animals” (Sociedade Mundial de Proteção aos Animais), a prática do “bear baying” é bem semelhante à prática paquistanesa do “bear baiting”, na qual cães tentam derrubar um urso (cujos dentes e garras são anteriormente cortados ou arrancados) mordendo seu focinho e flanco. No entanto, há duas diferenças. No Paquistão, o “bear baiting” é considerado entretenimento, mas é ilegal, diferentemente do “bear baying” na Carolina do Sul.

A Carolina do Sul tem a desonra de ser o único estado onde a prática de “bear baying” é legal. Embora a luta entre animais seja proibida no estado, há uma exceção para o “bear baying”.

Felizmente, a investigação do HSUS ajudou a alertar a sociedade para pedir o fim dessa atrocidade. Joe Lourie, senador da Carolina do Sul, pretende fazer um projeto de lei para proibir essa prática. “Tenho acompanhado as reportagens que denunciam essa prática bárbara. Isso precisa ser proibido”, diz Lourie. “A Carolina do Sul não pode continuar com a marca de ser o único estado a torturar ursos com cães por esporte”.

Agora cabe às pessoas da Carolina do Sul decidir se querem finalmente caminhar para frente, em direção ao século 21, e banir definitivamente uma prática tão primitiva e cruel.

Assine aqui a petição pelo fim da tortura de ursos na Carolina do Sul.

Nota da Redação (por Lilian Garrafa): Atos de crueldade e brutalidade em cadeia colocam o ser humano no ápice de sua covardia e incapacidade de compaixão. Enquanto lutamos pela proibição de uma atividade que já é suficientemente cruel por caçar animais e explorar cães violentamente, os covardes caçadores superam os limites do que se imaginaria desumano e submetem os animais a uma sádica tortura sem lhes proporcionar qualquer chance de defesa ou fuga. As provas da estupidez estão registradas, o que mais é preciso para que a punição a estes criminosos seja dada?
Fonte: http://www.anda.jor.br/

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Arriando a bandeira do século americano - por Chalmers Johnson

Arriando a bandeira do século americano - por Chalmers Johnson

Em 1962, a historiadora Barbara Tuchman publicou um livro acerca do início da Primeira Guerra Mundial e o intitulou As armas de agosto ( The Guns of August ) . Chegou a ganhar um Pulitzer. Ela estava, é claro, recordando eventos que haviam ocorrido quase 50 anos antes e tinha à sua disposição documentos e informação não disponíveis aos que participaram da guerra. Eles atuaram, como disse o secretário de Defesa da era vietnamita Robert McNamara, no calor da guerra.

Então, como estamos nós neste agosto de 2010, com as armas pipocando numa guerra no Afeganistão enquanto tentamos nos safar de outra no Iraque? Onde estamos, enquanto impomos sanções sobre o Irã e a Coréia do Norte (e ameaçamos pior do que isso), enquanto mandamos nossas mais recentes maravilhas em armamentos, mecanismos automáticos equipados com bombas e mísseis, sobre as fronteiras tribais do Paquistão, Iêmen e quem sabe onde mais, encarregados de infindáveis "matanças dirigidas" que, em épocas mais duras, chamávamos de assassinatos? Onde exatamente estamos, enquanto continuamos a fortificar a maior parte do globo mesmo quando nosso país está incapacitado de pagar por serviços básicos?

Gostaria de ter uma bola de cristal em que pudesse espreitar para ver o que os historiadores dirão de nossas próprias armas em agosto de 2060. O calor da guerra, afinal de contas, é apenas uma metáfora para o que poderia ser chamado de "as brumas do futuro", a inabilidade dos humanos para descortinar o que o mundo virá a ser. Permitam-me não obstante tentar oferecer alguns vislumbres do que essa paisagem enevoada alguns anos no futuro poderá revelar, e mesmo arriscar algumas predições sobre as possibilidades que aguardam a América ainda imperial.

Começarei perguntando: Que danos sucederão aos Estados Unidos se realmente decidirmos, contra todas as probabilidades, fechar os milhares e milhares de bases, grandes e pequenas, que guarnecemos ao longo do mundo? O que ocorreria se realmente desmantelássemos nosso império e voltássemos para casa? Hordas como as de Genghis Khan desceriam sobre nós? Pouco provável. Não é nem mesmo concebível uma invasão por terra ou por mar aos EUA.

Ataques como o do 11 de setembro iriam se acelerar? Parece-me muito mais provável que, à medida em que nossa presença no estrangeiro encolhesse, a possibilidade de ataques assim encolheriam também.

Os vários países que invadimos, algumas vezes ocupamos, e tentamos colocar no caminho da justiça e da democracia degenerariam em "estados falidos"? Possivelmente alguns, e evitar ou controlar isso deveria ser a função das Nações Unidas ou dos estados vizinhos. (É bom lembrar que o regime cambojano assassino de Pol Pot acabou chegando ao fim não por nossa causa, mas por causa do vizinho Vietnam.)

Império cambaleante
Em outras palavras, os piores medos que se poderia ouvir em Washington – se alguém se preocupasse minimamente em imaginar o que aconteceria se começássemos a desmontar nosso império – se mostrariam apenas quimeras. Seriam, na verdade, notavelmente parecidas com as funestas previsões nos anos 70 sobre os estados em toda a Ásia, então na África, e assim por diante caindo, como dominós, sob a dominação comunista se não ganhássemos a guerra no Vietnam.

Como seria o mundo então se os EUA perdessem globalmente o controle – os maiores medos e as mais profundas reflexões de Washington acerca de nossa pretensiosa auto-apreciação – como está efetivamente acontecendo agora apesar de nossos melhores esforços? Como seria o mundo se os EUA apenas desistissem? O que nos aconteceria se não fôssemos mais a "única superpotência" ou a autonomeada polícia do mundo?

Na verdade, ainda seríamos um grande e poderoso estado-nação com uma miríade de problemas internos e externos. Uma crise de drogas e imigração em nossa fronteira sul, custos de saúde subindo, um sistema de educação se enfraquecendo, uma população envelhecendo, uma infraestrutura envelhecendo, uma recessão sem fim – nenhum dos quais terá solução no futuro próximo, e nenhum dos quais tem possibilidade de ser atacado de modo sério e bem sucedido enquanto continuarmos a gastar nossa riqueza em exércitos, armamentos, guerras, ocupação global e subornos a ditadores insignificantes.

Mesmo sem nossa interferência, o Oriente Médio continuaria a exportar petróleo, e se a China estivesse comprando uma parcela cada vez maior do que permanece inexplorado naqueles países, talvez isso nos estimulasse a uma conservação maior e nos levasse mais rapidamente à era das energias alternativas.

Potência emergente
Enquanto isso, se desmantelarmos ou não nosso império, a China se tornará (se já não é) a próxima superpotência mundial. Ela, também, enfrenta uma série de problemas internos, incluindo muitos dos mesmos que temos. Entretanto, tem uma economia em crescimento, uma balança de pagamentos favorável frente ao resto do mundo (particularmente os EUA, que está atualmente enfrentando um déficit comercial anual com a China de US$ 227 mil milhões) e um governo e uma população determinados a transformar o país num estado poderoso e economicamente dominante.

Cinqüenta anos atrás, quando comecei minha carreira acadêmica como especialista em China e Japão, fiquei fascinado pela história moderna desses países. Meu primeiro livro tratou do modo como a invasão japonesa da China nos anos 30 impulsionou Mao Tse Tung e o Partido Comunista Chinês rumo ao poder, graças à resistência nacionalista aos invasores estrangeiros. Incidentalmente, não é difícil encontrar exemplos deste processo, no qual um grupo político local chega ao poder porque lidera a resistência a tropas estrangeiras. No período imediato à Segunda Guerra Mundial, isso ocorreu no Vietnam, na Indonésia e na Malásia; com o colapso da União Soviética em 1991, ao longo de toda a Europa Oriental; e hoje certamente esta acontecendo no Afeganistão e provavelmente no Iraque também.

Quando começou a Revolução Cultural na China em 1966, perdi temporariamente o interesse no estudo do país. Eu pensava que sabia para onde a desastrosa reviravolta interna estava levando a China, e assim me voltei para o Japão, que estava então sendo bem conduzido em sua surpreendente recuperação da Segunda Guerra Mundial, graças ao crescimento econômico dirigido pelo estado, mas não de sua propriedade.

Esse padrão de desenvolvimento econômico, algumas vezes chamado de "estado desenvolvimentista", difere fundamentalmente tanto do controle da economia nos moldes soviéticos quanto da abordagem laissez-faire dos EUA. A despeito do sucesso do Japão, lá pelos anos 90 sua burocracia crescentemente esclerosada havia levado o país a um prolongado período de deflação e estagnação. Ao mesmo tempo, a Rússia pós-soviética, por um curto período atrelada ao aconselhamento econômico norte-americano, viu-se cativa dos rapaces oligarcas que desmantelaram o comando da economia somente para enriquecerem a si próprios.

Na China, o líder do Partido Comunista Deng Xiaoping e seus sucessores puderam observar os acontecimentos no Japão e na Rússia, aprendendo com ambos. Eles claramente adotaram os aspectos efetivos dos dois sistemas para sua economia e sua sociedade.Com um pouco de sorte, na economia e em outros setores, e como continuação de sua atual liderança bem informada e racional, a China continuou a prosperar sem ameaçar nem seus vizinhos nem os EUA.

Imaginar que a China quereria iniciar uma guerra com os EUA – ainda que sobre uma questão tão profundamente emocional quanto o status político de Taiwan – seria projetar para o país uma direção muito diferente daquela na qual está rumando atualmente.

Arriando a bandeira no século americano
Daqui a 35 anos, terá terminado oficialmente o século em que a América terá sido o chefão (1945-2045); sua época pode, de fato, estar acabando neste momento. Estamos começando a parecer cada vez mais uma versão gigante da Inglaterra no final de seu período imperial, na medida em que começamos a enfrentar, ainda que necessariamente não os resolvendo, o envelhecimento de nossa infraestrutura, nossa influência internacional declinante e nossa economia decadente. Poderia, até onde sabemos, ser ainda o século de Hollywood daqui a décadas, de modo que ainda pudéssemos agitar a superfície da cena cultural, do mesmo modo que a Inglaterra fez nos anos 60 com os Beatles e Twiggy. Turistas iriam sem dúvida visitar algumas de nossas maravilhas naturais e talvez algumas de nossas cidades menos imundas, em parte porque as taxas de câmbio do dólar possivelmente estariam favoráveis a eles.

Se, todavia, decidíssemos desmantelar nosso império de bases militares e redirecionar nossa economia para indústrias produtivas, e não mais destrutivas; se mantivéssemos nossas forças armadas voluntárias principalmente para defender nossas próprias costas (e talvez para serem usadas sob o comando das Nações Unidas); se começássemos a investir em nossa infraestrutura, educação, saúde pública e poupança, então poderíamos ter a possibilidade de nos reinventar como uma nação normal e produtiva. Infelizmente, não vejo isso acontecendo. Escrutinando este nebuloso futuro, simplesmente não consigo imaginar os EUA desmantelando voluntariamente seu império, o que não significa que, como todas as fortificações imperiais, nossas bases não acabem algum dia.

Ao invés disso, prevejo os EUA à deriva, da mesma forma que a administração Obama parece estar à deriva na guerra do Afeganistão. A opinião corrente entre os economistas hoje é que o alto desemprego deve permanecer por mais uma década. Acrescente-se a isso o baixo investimento e a contenção de gastos (exceto talvez os gastos do governo) e eu temo que T.S. Elliot tivesse razão quando escreveu: "É assim que o mundo termina, não com um estrondo, mas com um gemido".

Tenho sido sempre um analista político e não um ativista. Esta é uma das razões porque por um breve tempo tornei-me consultor do principal ramo analítico da CIA, e porque eu agora prefiro sair da Agência. Não somente a CIA perdeu sua razão de ser ao permitir que sua coleta de inteligência se contaminasse politicamente, mas suas operações clandestinas criaram um clima de impunidade no qual os EUA podem assassinar, torturar e aprisionar pessoas à vontade em todo o mundo.

Da mesma forma que perdi o interesse na China quando a liderança daquela país se dirigiu de maneira tão cega para o caminho errado durante a Revolução Cultural, temo estar perdendo o interesse em continuar a analisar e dissecar as perspectivas para os EUA nos próximos anos. Aplaudo os esforços de jovens jornalistas de dizerem as coisas como elas são, e os dos acadêmicos em juntarem informações que um dia capacitarão historiadores a descrever onde e quando nos perdemos. Admiro especialmente as percepções do lado de dentro, como aquelas dos ex-militares como Andrew Bacevich e Chuck Spinney. E reverencio os homens e mulheres dispostos a arriscar suas carreiras, salários, liberdade e mesmo vida para protestar – como os padres e freiras do SOA Watch, que fazem piquetes regulares na School of the Americas e chamam atenção para a presença de bases militares e o mau comportamento americano na América do Sul.

Estou também impressionado com Pfc. Bradley Manning, se ele é na realidade a pessoa responsável pela potencial liberação ao público de 92 mil documentos secretos sobre a guerra no Afeganistão. Daniel Ellsberg estava há tempo esperando que alguém fizesse o que ele próprio fez quando liberou os Documentos do Pentágono durante a guerra do Vietnam. Ele deve ter se surpreendido com a resposta a este chamado – e de maneira tão improvável.

Meu próprio papel nesses últimos 20 anos foi o de Cassandra, a quem os deuses concederam a dádiva de prever o futuro, mas também amaldiçoaram com o fato de que ninguém acreditaria nela. Eu gostaria de ser mais otimista sobre o que está reservado para os EUA. Mas não há um só dia em que nossas próprias armas de agosto não continuem a me assombrar.

[*] Autor de Blowback (2000), The Sorrows of Empire (2004), Nemesis: The Last Days of the American Republic (2006), Dismantling the Empire: America's Last Best Hope (2010) e outros livros .
O original encontra-se em www.tomdispatch.com/... . Tradução de RMP.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

Uma reflexão do nosso imortal Steve Biko!

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O magnífico Metrô de São Paulo só a dinastia do PSDB acredita nisso!

O magnífico Metrô de São Paulo só a dinastia do PSDB acredita nisso!



Foto: algum lugar na rede!

PM Press: editora independente e anarquista - por ANA

PM Press: editora independente e anarquista

[Ramsey Kanaan é co-fundador da PM Press, uma das mais interessantes editoras do mundo libertário hoje em dia. Powell's Chris Faatz encontrou com ele no mês passado e o entrevistou. Reproduzimos a seguir esta conversa.]

Chris Faatz > Ramsey, quais são as origens da PM Press? Pelo que sei você foi um dos fundadores da AK Press. Você pode falar um pouco sobre esta experiência? Como a AK Press influenciou a fundação da PM?

Ramsey Kanaan < Pelos meus pecados, eu sou/fui, de fato, o fundador da AK. Na verdade a AK foi nomeada dessa forma por causa da minha mãe – Ann Kanaan – embora freqüentemente eu tivesse o hábito de falar para os companheiros que minha mãe se chamava Kalashnikov. Passei grande parte das três décadas (comecei jovem, aos 13 anos) com a AK, e quando ela ficou maior do que eu, nós a estruturamos como uma cooperativa de trabalhadores no Reino Unido. Então quase tudo que aprendi sobre publicação, distribuição, propaganda, escrever, editar, trabalho cooperativo, administrar um negócio, etc., etc., foi feito através da rubrica da AK.

A maioria das coisas foi inventada na medida em que íamos desenvolvendo o trabalho. Estou muito orgulhoso das coisas que fizemos com/na AK – e a PM foi iniciada por mim e outro membro da AK, Craig O'Hara. Somos agora muito sortudos por podermos fazer ainda mais com a PM. Mesmos fins, meios similares, somente tomando um alcance mais amplo de formatos, gêneros e plataformas, para levar as idéias lá fora, e esperançosamente, para que os companheiros possam interagir com elas.

Faatz > Olhando atentamente o teu catálogo e os livros que você já publicou, fica bem aparente que a PM opera desde uma perspectiva radical, libertária, até mesmo anarquista. Que tipo de mercado você encontra para este tipo de material?

Kanaan < Bem, há o mercado que já existe – basicamente o que restou do “movimento” dos anos 60, somado às ultimas gerações de jovens ativistas, que vieram através do punk, do movimento por outra globalização, e por aí vai. O desafio, penso eu, sempre foi apreender não somente a melhor maneira de informar “o movimento”, mas apreender a melhor forma de levar as idéias para todas as pessoas. Realmente, como ativamente contribuir para construir um “movimento” que esteja genuinamente disposto a desmontar o Capital e o Estado.

Não há um caminho “correto”. Em termos de idéias, estamos explorando todos os aspectos da arte, da cultura, da ficção, da música, do vídeo, dos textos acadêmicos e dos manifestos inspiradores, para que as palavras, os sons, e as imagens possam ser levadas além... e esperançosamente, construir uma audiência.

Faatz > Resumidamente, como você definiria o anarquismo para aqueles que estão curiosos?

Kanaan < Isto dependeria do público é claro. Para aqueles que não são muito bem versados em teoria política (ou prática), eu definiria o anarquismo pela noção senso comum de que as pessoas são mais capazes de organizar suas próprias vidas sem o estorvo da hierarquia, da autoridade, estado, capitalismo, etc. É uma forma particular de organização horizontal, oposta às organizações verticais, social e economicamente. Para os mais sofisticados, a resposta rápida seria de que o anarquismo é a auto-emancipação da classe trabalhadora.

Faatz > Dito isto, todo mundo que sabe alguma coisa sobre anarquismo tem um livro ou texto introdutório para recomendar a amigos e colegas de trabalho que pensam que anarquia é desordem, caos, e um mundo sem escrúpulos. Um dos meus favoritos é o “Anarquismo” do Daniel Guerin. Qual que você recomendaria? Da lista da PM, qual seria o mais indicado para as pessoas que querem conhecer mais sobre a forma de política libertária?

Kanaan < Guerin é certamente um dos meus favoritos. Assim como o Mulher à Beira do Tempo de Marge Piercy. E Anarquia em Ação do Colin Ward. Com relação ao que a PM publicou, o monumental Exigindo o Impossível de Peter Marshall é uma introdução de 1000 páginas ao largo rio da anarquia. O livro de Stuart Christie e Albert Meltzer, As Comportas da Anarquia, é uma fantástica introdução ao bom e velho anarquismo classista. E o Por Todas as Pessoas de John Curl é uma maravilhosa escavação da ocultada história dos movimentos e trabalhos cooperativos na América do Norte.

Faatz > É engraçado você ter mencionado a novela Mulher à Beira do Tempo. Em se tratando de ficção, eu amo o “Os Despossuídos” da Ursula Leguin. Quais outras incursões literárias às idéias libertárias que você pode recomendar?

Kanaan < A trilogia Marte, e o “Os Anos do Arroz e do Sal” de Kim Stanley Robinson deveriam ser lidos. Stanley Robson é um socialista utópico, o que é absolutamente perfeito para mim. Notícias de Lugar Nenhum de William Morris não somente representa uma sociedade socialista, mas os processos e armadilhas para se chegar lá.

Faatz > Você não publica somente livros. Quais outros materiais que você também disponibiliza?

Kanaan < A nossa intenção é levar as idéias lá fora. Fazemos isso através de vários gêneros de livros (arte gráfica, quadrinhos, ficção, não-ficção, etc.), formatos de livros (nossos títulos estão todos disponíveis em cópia impressa e em todos os diversos formatos eletrônicos) e lançando DVDs e CDs (novamente, ambos em cópia impressa e eletronicamente) – documentários, música, narrações. Tudo que os companheiros estiverem envolvidos.

Faatz > Falando de música, você publicou alguns livros substanciais sobre as políticas da música. Você poderia dizer alguma coisa sobre eles?

Kanaan < Tenho interesse em trazer ao público os potenciais emancipatórios, ou elementos, em todas as formas de cultura. Como cresci escutando música punk (e também música folk) é de alguma forma mais fácil começar com o que você já conhece. Nós publicamos o “A História do Crass”, sem dúvida a biografia definitiva (baseada em entrevistas com todos os membros da banda) do grupo que não somente criou o gênero conhecido agora como anarco-punk, mas revolucionou uma geração – e continua a revolucionar quase trinta anos após a banda ter acabado. E com o “Vida Sóbria para a Revolução” nós estamos examinando o objetivo radical da cena “straight-edge” – uma subcultura musical que se abstém do uso de drogas, álcool e tabaco. Muitas vezes puritanamente conservador, é claro, mas novamente contendo todos os tipos de idéias, ações e aderências revolucionárias.

Faatz > Quais são as diretrizes para escolher os materiais que você publica? Qual é, brevemente, o objetivo?

Kanaan < Temos dois critérios. Primeiro e antes de tudo, tudo o que publicamos tem que ser bom! Partimos do princípio de que o material esteja, amplamente falando, deixando/adicionando alguma coisa para o mundo. Mas tem que ter qualidade, tanto o material como o visual. O segundo critério no qual temos que pensar é se temos a capacidade de vendê-lo. O que, infelizmente, não é o caso para tudo que queremos fazer.

Faatz > Vi o lançamento de três livros do Paul Goodman. O que provocou o interesse sobre ele, e porque você escolheu publicá-lo nestes tempos?

Kanaan < Goodman é uma das muitas grandes figuras (escritores/autores/palestrantes/ativistas) que não somente tiveram um grande impacto em seu tempo (no caso de Goodman, seu Absurdo Crescente vendeu um milhão de cópias no começo dos anos 60), mas cujas vozes/idéias são tão relevantes hoje como foram ontem. Traçando a Fronteira Mais uma Vez (uma coleção de seus escritos anarquistas) e o Nova Reformação (seu último livro de crítica social, publicado em 1970, na altura de sua desilusão com o movimento da década de 60 que ele mesmo ajudou a parir) estão publicados agora. O Paul Goodman Reader sairá em poucos meses – a coleção definitiva, reunindo a vasta extensão de seus escritos (e ficções e poesias), seguida de uma coleção de palestras e conferências que nunca foram publicadas antes.

Faatz > Você também está publicando um livro do Gustav Landauer. Quem foi Landauer, e porque você acha que ele é importante nos tempos de hoje?

Kanaan < Landauer foi o anarquista alemão mais conhecido, e foi criminalmente negligenciado fora do universo germanófano. Como Goodman, eles escreveu bastante sobre política, atualidades, arte, literatura, e – juntamente com seu amigo bom amigo Martin Buber – propagou um espiritualismo judaico secular. Ele esteve ativo no levante/comuna bávara de 1920, foi capturado e assassinado. Esta é a maior coleção de seus escritos políticos que foi traduzido e publicado em inglês. Estamos bastante entusiasmados! E como os companheiros irão descobrir, seus escritos oferecem muito mais do que somente uma curiosidade histórica.

Faatz > Por fim, um dos livros mais animadores e impressionantes que eu já vi é o Exigindo o Impossível: Uma História do Anarquismo do Peter Marshall. Como é que foi a resposta gerada por este monumental livro de 840 páginas?

Kanaan > Por enquanto ele está vendendo bem, e começou a ganhar uma maior atenção nas resenhas – também deveria, naturalmente. Vendeu 1000 cópias nos primeiros meses de publicação, e as vendas parecem estar melhorando, portanto estamos muito contentes.

Faatz < Muito obrigado, Ramsey, pela disposição.

PM Press: http://www.pmpress.org/

Tradução > Marcelo Yokoi

agência de notícias anarquistas-ana
Árvore amiga
enfeita meus cabelos
com flores amarelas

Rosalva

Entenda a decadência do PIG - Por Eduardo Guimarães

Entenda a decadência do PIG

Nos mais de 1300 dias decorridos desde a segunda posse de Lula na Presidência, cada um deles foi dedicado pela mídia (Globo, Folha, Veja, Estadão e ramificações) à destruição da imagem de seu governo, com uma sucessão de campanhas acusatórias nos veículos de comunicação supra mencionados, compreendidos por televisões, rádios, jornais, revistas e portais de internet.

Uma busca no Google das palavras “Dilma, governo Lula, dossiê, FHC”, por exemplo, redunda em 603 mil resultados. Essas palavras remetem ao pseudo dossiê que o PT teria feito sobre os gastos de FHC com despesas da família presidencial durante o governo tucano.

O leitor pode escolher qualquer um dos muitos escândalos forjados e alardeados pela mídia desde que Lula chegou à Presidência e usar palavras-chaves do assunto para buscar no Google que encontrará centenas de milhares de matérias da grande mídia, todas elas dando de barato que Lula, Dilma ou o PT eram realmente culpados.

Como se não fosse suficiente, neste ano passaram até a falsificar pesquisas eleitorais para tentar eleger José Serra, que, desde que disputou a eleição presidencial de 2002 com Lula, converteu-se em um novo Fernando Henrique Cardoso, o político que, antes de Serra, foi o que teve mais meios de comunicação a seu serviço desde que decidiu disputar a Presidência da República em 1994.

O governo FHC foi uma época de escuridão da democracia brasileira. Ao poder do Estado, somou-se o Quarto Poder, o poder discricionário de uma imprensa que criava crises ininterruptas para os adversários do PSDB, estivesse o partido no governo ou na oposição.

Esse fenômeno foi desencadeado pela anomalia que, em pleno século XXI, mantém o Brasil como o sétimo país mais desigual em um mundo com cerca de duas centenas de Estados soberanos. É o fenômeno pelo qual uma elite de ascendência indo-européia se tornou dona de pelo menos 30% do PIB. Uma elite que não congrega mais do que cinco mil famílias, conforme detectou o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Ipea.

Esse poder de uma elite étnica e geográfica ganhou nova roupagem a partir de meados do século XX graças ao fenômeno da comunicação de massas, que, diante da inevitabilidade da democracia, permitiu àquelas elites direcionarem o voto popular.

Esse processo de utilização da imprensa como arma da aristocracia dominante para eleger governos submissos chegou ao ápice em 1964, com um golpe militar forjado nas páginas dos mesmos Globos, Folhas, Vejas e Estadões já mencionados. Golpistas e imprensa atuaram em absoluta consonância para destituir um governo legitimamente eleito e implantarem uma ditadura de vinte anos no Brasil.

No pós-redemocratização, a partir de 1989, com a primeira eleição legítima para presidente da República em mais de duas décadas, o poder midiático novamente continuou elegendo seus candidatos até 1998, quando o candidato de plantão da elite indo-européia, Fernando Henrique Cardoso, praticou um dos maiores estelionatos eleitorais da história, que, inclusive, quatro anos depois sepultou o poder daquela elite de eleger governos nacionais.

FHC elegeu-se em 1998 prometendo manter o dólar valendo cerca de R$ 1,20 e pregando que, se Lula vencesse, desvalorizaria uma moeda que já não valia mais nada em meio a um processo de destruição econômica do país, o qual o mesmo FHC endividaria até o pescoço com o FMI, o Clube de Paris e o governo americano no ano seguinte.

A mídia supra descrita passou 1998 inteiro referendando o discurso tucano e fustigando a oposição petista. Inventaram mais um escândalo para Lula, referente a propina que teria recebido na forma de um automóvel Ômega, e pregando que sua eleição traria de volta uma inflação que já voltava sozinha por conta da débâcle econômica do país.

Ao fim do segundo governo tucano, a população assistiu, bestificada, a uma mídia que se calava enquanto o país, além da crise econômica, mergulhava em um racionamento de energia draconiano que multiplicou várias vezes as contas de luz e fez indústrias irem à beira da falência por falta de energia para produzir.

A partir dali, a mídia perdeu o poder de conduzir o eleitorado como gado. Passou 2002 inteiro repercutindo o discurso do medo de José Serra, com George Soros dizendo que era “Serra ou o caos” e tudo mais, mas o povo deu uma descomunal banana para Globos, Folhas, Vejas, Estadões e penduricalhos e elegeu o primeiro presidente oriundo do operariado.

Ocorre que esse poder aristocrático formado pela promiscuidade entre a elite indo-européia, a imprensa e o Estado acabou sofrendo uma sangria de recursos muito grande a partir da eleição de Lula. FHC doou aos grupos de comunicação já mencionados parte da roubalheira da privataria tucana nas comunicações e lhes entregava verbas públicas à farta. Lula pôs um freio no escândalo.

De 500 veículos de comunicação que dividiam toda a descomunal verba de publicidade oficial até 2002, hoje essas verbas são distribuídas a mais de cinco mil veículos – e acho que esse número pode estar defasado. Diante disso, a mídia que descrevi desencadeou uma guerra contra o governo Lula e, depois, contra a sua candidata a sucedê-lo.

Também porque a mídia precisa ter o que vender aos políticos de direita – se não tiver poder para influir nos processos eleitorais, não terá como barganhar para que o governo de São Paulo, por exemplo, compre milhares de assinaturas de uma Folha ou de um Estadão ou os livros escolares de geografia com mapas contendo dois Paraguais como os que a Veja editou e vendeu a Serra nos últimos anos, durante o seu mandato de governador.

Pela terceira vez no século XXI, Globos, Folhas, Vejas e Estadões vão perdendo uma eleição presidencial junto com um seu candidato tucano. Aliás, a preocupação com essa enorme derrota já está produzindo efeito. Com exceção da Globo, que continua tentando eleger Serra, os outros parecem estar desembarcando de sua candidatura como se nunca a tivessem integrado.

Fonte: http://www.blogcidadania.com.br

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Horário Eleitoral - por Bessinha

A Globalização da revolução - Por Victor J. Sanz

A Globalização da revolução

Institucionalizada pelos atenienses, a democracia tem perdido seu significado e valor nas mãos de séculos de incontáveis tiranos que a corromperam por completo. Seu significado inicial, claro e direto que diz “o poder do povo” tem pouco significado hoje. A palavra se enfraqueceu, ficou ultrapassada. Todo cidadão, isto é, aqueles que não eram escravos ou estrangeiros, podia representar-se no governo da cidade.

A representação cidadã é hoje em dia pouco menos que uma ilusão, quase um mito. A chamada democracia é atualmente um eufemismo com poderosos efeitos sedativos sobre uma população sonolenta. Os chamados governos democráticos mantém seus súditos em estado hipnótico, fazendo-os crer que seus interesses como cidadãos, estão representados e protegidos por um grupo de pessoas que pouco ou nada tem em comum com eles.

Para isto, os usurpadores das democracias modernas se serviram de poderosas armas de controle da sociedade. Tradicionalmente utilizou-se a fé e a bala contra o povo, e mais recentemente, a palavra.

Com a fé, em franco e claro retrocesso, e a bala destinada a democratizar distantes países ricos em recursos naturais, a palavra se tornou uma forte arma para usurpar as democracias ocidentais. A palavra foi moldada à imagem e semelhança do capitalismo globalizador, que a converteu na mais eficaz das armas já usadas contra o povo. Os meios de comunicação de massa tornaram-se a ultima etapa de aperto do pescoço do povo com a corda do capitalismo.

Agora já não precisam ameaçar-nos com deuses que estão nos céus nem sequer com balas que levam gravada a palavra “democracia”. A palavra é agora a droga que se força o povo a consumir até deixar completamente anulada sua capacidade de pensar por si mesmo. Lança-se um slogan que é repetido por quase todos os meios, e a sensação estereofônica adquire uma nova dimensão com um efeito demolidor da vontade do individuo, e afinal, em sua liberdade. Cada qual é livre para pensar o que eu lhe inculto, se diria que repitam até a saciedade. Em uma espécie de Admirável Mundo Novo, que Huxley teria reescrito o sistema totalitário que é o capitalismo, pensa por nos, consome por nós, fala por nós, vive por nós. Tudo por nós, mas nada para nós. Sem nós. (observe neste mesmo texto que a palavra “nós” perde seu significado depois de tanta repetição. Tome-se este como um bom exemplo das práticas globalizadoras do capitalismo).

Como povo, nos roubaram a palavra e a puseram a seu serviço, contra nós e contra a democracia. Servem-se dela para nos usar, nos manipular, para nos transformar em um número de uma grande lista de escravos ou estrangeiros a quem permitem uma representação e uma participação direta nisto que só eles chamam de democracia.

Não é a democracia o sistema que se coloca contra o povo, não é a democracia o sistema de governo que prega o interesse privado de alguns poucos e atenta contra o interesse geral. Como temos permitido que se continue utilizando o termo “democracia” para definir justamente o contrário?

Mas ainda há esperança, ainda temos algo a fazer pelo povo pisoteado. Como se tivesse passado despercebido, depositaram em nossas mãos um tipo de poder que emana de nós: o dinheiro, seu dinheiro, o alimento desta fera voraz, devoradora de homens e corruptoras de almas que é o capitalismo. O circulo formado pela corda ao redor do nosso pescoço só se fechará se deixarmos escapar este poder. O circulo só se fechará se consumimos e devolvemos ao circuito financeiro todo o dinheiro que esperam que geremos.

Além do essencial, não consuma.

Além de uma vida digna e suficiente, não consuma.

Além de preservar o planeta, não consuma.

Além do que seja moral, não consuma.

Além do que te satisfaz, não consuma.

Além do que consideraria justo e racional para teu vizinho, não consuma.

Se não consumirmos além disto, essa máquina que nos degrada como pessoas se deterá, cedo ou tarde. Todo cárcere precisa de seus presos, todo supermercado precisa de seus clientes, todo capitalismo precisa de suas vitimas.

Ficou demonstrado então que não vivemos em uma democracia, vivemos como aqueles escravos ou estrangeiros que esperavam em Atenas uma liberação que não chega, que temos que sair procurando onde quer que esteja. Juntos podemos encontrar. Outro mundo é possível.

* Texto originalmente publicado no site http://impresionesmias.wordpress.com/
Fonte: Opera Mundi

domingo, 22 de agosto de 2010

Ferreira Gullar descreve a triste experiência de assistir uma tourada

Ferreira Gullar descreve a triste experiência de assistir uma tourada

O último golpe atingiu-lhe o coração. Estrebucha e morre.
Indignado, resmungo: “Coisa bárbara!”

O parlamento da Catalunha aprovou lei proibindo as touradas na região, mais precisamente em La Monumental, a praça de touros de Barcelona, onde, pela primeira e única vez, assisti a uma tourada.

Até então, de touradas, só sabia o que vi no filme “Sangue e Areia” (1941), com Tyrone Power, que assistira, ainda menino, com meu pai, no cinema Olímpia, em São Luís. Nele, as touradas eram apenas parte de uma história romântica. Mais tarde conheceria algumas gravuras de Picasso que, em vez do romantismo do filme, mostrava o que há de brutal nas corridas de touros.

Assim que, tourada de verdade, só vi mesmo em Barcelona, em companhia do poeta João Cabral, que era então cônsul do Brasil na Espanha. Convidou-me para almoçar naquele domingo e, em seguida, irmos assistir a uma tourada. Aceitei o convite com muito interesse, na expectativa de viver uma experiência única, já que, por iniciativa própria, eu jamais entraria em uma “plaza de toros”.

Fomos. Mal me sentei na arquibancada, fui tomado por uma espécie de euforia, diante daquela arena ainda vazia onde haveria de desenrolar-se um espetáculo de vida e morte. Enquanto isso, João Cabral me informava acerca das touradas, contando-me que o touro era mantido por dois dias num cubículo escuro sob as arquibancadas, donde seria trazido, ao começar a tourada, para a arena.

Foi então que homens montados a cavalo entraram, sob o soar de clarins, um “frisson” percorreu aquela massa de espectadores e eis que de um dos portões sai um touro negro aos galopes.
Invade a arena mas logo se detém, como que surpreso diante daquela situação inusitada. Não estava entendendo nada: “que faço aqui, diante de tanta gente?” -terá ele se perguntado, sem imaginar que, de fato, havia sido posto ali para morrer.

Como hipnotizado, eu o seguia com os olhos, temendo pelo que haveria de ocorrer. Os homens montados nos cavalos correm agora em direção ao touro que se mantém parado, indeciso, perplexo talvez.

Tenta afastar-se mas é cercado e decide reagir: acomete sobre um dos cavaleiros, que o atinge com uma bandarilha, no dorso, à altura do cangote. Ele, enfurecido, volta-se contra o agressor mas é atingido por outra bandarilha, lançada pelo outro cavaleiro. O sangue desce-lhe das feridas. Assisto àquilo, chocado, com pena do animal.

Não me lembro se, àquela altura, o toureiro já estava presente na arena. De qualquer modo, vejo-o agora aproximar-se do touro e desafiá-lo. Provoca-o, agitando a capa vermelha, onde traz escondida uma espada. O animal, sangrando muito, encara-o e parece hesitar, se avança sobre ele ou não. Talvez não saiba direito quem o feriu, bem pode ter sido aquele sujeito que parece bailar a sua frente.

Está furioso, atordoado e certamente não entende por que o agridem daquela maneira, se nenhum mal lhes fez. Detém-se e o encara. Menos cauteloso, agora, ataca-o, tentando atingi-lo com os chifres, mas vê que se enganou, investiu contra a capa com que se protege e o engana. “Hijo de puta!” Deveria balbuciar, se falasse espanhol e touro não fosse, mas gente. Igual àquela gente que se diverte com seu desespero.

Recua estrategicamente e tenta atingir o toureiro, numa investida fulminante e vã: sente uma dor funda, a vista se lhe turva, perde forças e cai sobre as patas dianteiras, soltando golfadas de sangue. O último golpe de espada atingiu-lhe o coração. Estrebucha, estica as pernas e morre, diante da multidão que aplaude entusiasticamente o toureiro. Este, sorridente, saca de uma faca, aproxima-se do touro morto, corta-lhe uma das orelhas e a exibe, vitorioso, para o público, que então delira. Indignado, resmungo: “Coisa bárbara!”.

João Cabral, surpreso com minha reação, defende a tourada, que seria a vitória da inteligência sobre a força bruta. “Nada disso”, respondo. “É a vitória da covardia e do sadismo sobre um animal indefeso”.

A esta altura, estamos de novo em sua sala. João me acha demasiado ingênuo para compreender a significação das touradas. Sirvo-me de vinho, e ele, usando a toalha da mesa como uma capa de toureiro, movimenta-se na sala, a desafiar a fúria de um touro imaginário. Era o poeta acostumado a tourear palavras.

Fonte: Folha de São Paulo
Retirado: http://www.anda.jor.br/

IPEA desmonta farsa do jornal "O Globo" - Redação - Carta Maior

IPEA desmonta farsa do jornal "O Globo"

O IPEA está entalado na garganta das organizações Globo desde setembro de 2007, quando a diretoria comandada por Marcio Pochmann tomou posse. A partir daquela data, o Instituto aprofundou seu caráter público, realizou um grande concurso para a contratação de mais de uma centena de pesquisadores, editou dezenas livros e abriu seu raio de ação para vários setores da sociedade, em todas as regiões do país. O jornal O Globo enviou esta semana uma série de perguntas ao IPEA para, supostamente, esclarecer irregularidades na instituição. Temendo manipulação, a direção do instituto decidiu divulgar as perguntas e as respostas à toda sociedade.
Redação - Carta Maior

O jornal ‘O Globo’ procurou a diretoria do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), nesta semana, para supostamente esclarecer irregularidades na conduta da instituição.

Trata-se de manobra pré eleitoral.
Sem a menor noção de como levar a disputa presidencial para um segundo turno, as Organizações Globo tentam o tapetão da calúnia contra qualquer área do governo. Se colar, colou.

O IPEA está entalado na garganta dos Marinho desde setembro de 2007, quando a diretoria comandada por Marcio Pochmann tomou posse. A partir daquela data, o Instituto aprofundou seu caráter público, realizou um grande concurso para a contratação de mais de uma centena de pesquisadores, editou dezenas livros e abriu seu raio de ação para vários setores da sociedade, em todas as regiões do país. O IPEA é hoje uma usina de idéias sobre as várias faces do desenvolvimento.

‘O Globo’ e a grande imprensa não perdoaram a ousadia. Deflagraram uma campanha orquestrada, acusando a nova gestão de perseguir pesquisadores e de estimular trabalhos favoráveis ao governo. Uma grossa mentira.

O Globo deve publicar a tal “matéria”, repleta de “denúncias” neste domingo. O questionário abaixo foi remetido para a diretoria do IPEA. Sabendo das previsíveis manobras do jornal da família Marinho, o instituto decidiu responder na íntegra às perguntas, diretamente em seu site. Se a “reportagem” do jornal quiser, acessa www.ipea.gov.br e pega lá as respostas. Aqui vão elas na íntegra para Carta Maior.

O Ipea responde à sociedade
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) é uma fundação pública federal vinculada à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Há 46 anos, suas atividades de pesquisa fornecem suporte técnico e institucional às ações governamentais para a formulação e reformulação de políticas públicas e programas de desenvolvimento brasileiros.

O Ipea tem como missão "Produzir, articular e disseminar conhecimento para aperfeiçoar as políticas públicas e contribuir para o planejamento do desenvolvimento brasileiro."

Dessa forma, o Instituto torna públicos à sociedade esclarecimentos decorrentes de questionamentos feitos pelo jornal O Globo entre 19 e 20 de agosto.

Este comunicado tem como objetivo preservar a reputação desta Instituição e de seus servidores e colaboradores, que por meio dos questionamentos do diário, estão sendo vítimas de ilações, inclusive de caráter pessoal.

Dado o teor desses questionamentos, o Instituto sente-se na obrigação de publicar perguntas e respostas, na íntegra e antecipadamente, para se resguardar.

E coloca-se à disposição para dirimir quaisquer dúvidas posteriores.

Assessoria de Imprensa e Comunicação

O GLOBO: Sobre o aumento de gastos com viagens/diárias/passagens na atual gestão: Segundo levantamento feito no Portal da Transparência do governo federal, os gastos com diárias subiram 339,7%, entre 2007 e 2009, chegando no ano passado a R$ 588,3 mil. Este ano já foram gastos mais R$ 419 mil com diárias, 71% do total de 2009. Os gastos com passagens subiram 272,6% entre 2007 e 2009, chegando no ano passado a R$ 1,2 milhão. Qual a justificativa para aumentos tão expressivos?
IPEA: A justificativa é o incremento das atividades do Ipea e de seus focos de análise, instituídos pelo planejamento estratégico iniciado em 2008, que estabeleceu sete eixos voltados para a construção de uma agenda de desenvolvimento para o país. Para atender a esses objetivos foram incorporados 117 novos servidores, mediante concurso público realizado em 2008. O Plano de Trabalho para o exercício de 2009 contemplou 444 metas – publicadas no Diário Oficial da União. O cumprimento dessas metas condicionou a participação dos servidores da casa em seminários , congressos, oficinas e treinamentos, bem como em reuniões de trabalho. Além disso, o Ipea passou a realizar inúmeras atividades, como cursos de formação em regiões anteriormente pouco assistidas do ponto vista técnico-científico.

O GLOBO: Além disso, o Ipea tem gastos expressivos com a contratação da Líder Taxi Aéreo: entre 2007 e 2010, foi pago R$ 1,9 milhão à empresa pelo Ipea. Como são usados exatamente os serviços da Líder? Só em viagens no Brasil ou também no exterior?
IPEA: O Ipea nunca utilizou os serviços de táxi aéreo de qualquer empresa, sejam em voos nacionais ou internacionais. Os deslocamentos dos servidores – inclusive presidente e diretores – são efetuados em vôos de carreira. As despesas constantes no Portal Transparência se referem à locação de salas de um imóvel do qual a empresa é proprietária e onde localiza-se a unidade do Ipea no Rio de Janeiro, desde 1980. Tal despesa é estabelecida por meio do Contrato 06/2009, firmado nos termos da Lei 8.666/93.

O GLOBO: O Ipea inaugurou este ano escritórios em Caracas e Luanda. Qual a função desses escritórios?
IPEA: São representações para apoiar a articulação de projetos de cooperação entre o Ipea e países em desenvolvimento. No caso de Caracas, os grandes temas envolvidos são macroeconomia e financiamento de investimento, acompanhamento e monitoramento de políticas públicas.

No caso de Luanda, os objetivos da missão são auxiliar na avaliação dos investimentos em infraestrutura, no processo de acompanhamento e monitoramento de políticas públicas, com destaque para as políticas sociais.

O objetivo dessas missões é de prestar apoio técnico a instituições e/ou organismos governamentais de outros países. Esses projetos fazem parte de um processo amplo do Ipea de fomentar a cooperação internacional. Foram firmados acordos de cooperação técnica com diferentes instituições e países, como Unctad (Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento), OMPI (Organização Mundial de Propriedade Intelectual), OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), Federal Reserve Bank of Atlanta (Estados Unidos) e outras instituições na Suécia, Argentina, Burundi, Angola, Venezuela, Cuba etc.

O GLOBO: Quantos funcionários tem cada um? Qual é o gasto com essas bases no exterior?
IPEA: Cada país terá apenas um representante, que deverá promover a articulação/coordenação dos diferentes projetos. Os gastos se resumem aos salários correntes dos representantes, enquanto servidores do Ipea.

O GLOBO: Existem planos para montar outras?
IPEA: Há negociações ainda em fases iniciais.

O GLOBO: Onde ficam localizadas (endereços)? Temos a informação de que o escritório de Caracas funciona nas dependências da PDVSA. Procede?
IPEA: Sim. Nos acordos de cooperação estabelecidos, os países receptores devem fornecer escritório e moradia aos representantes do Ipea. No caso de Caracas, o governo venezuelano indicou a instalação da missão em edifício da estatal – que está cedendo apenas o espaço físico. No caso de Luanda, o governo angolano sinalizou a instalação da missão em edifício de um ministério. Não nos cabe questionar que ferramentas institucionais cada país utiliza para o cumprimento desse apoio à instalação das representações.

O GLOBO: Qual a relação direta entre os escritórios e a missão do Ipea?
IPEA: A realização de missão no exterior se fundamenta na competência do Ipea que lhe foi atribuída pelo presidente da República (art. 3º, anexo I do Decreto n.º 7.142, de 29 de março de 2010) de “promover e realizar pesquisas destinadas ao conhecimento dos processos econômicos, sociais e de gestão pública brasileira”. Além disso, a cooperação entre países conforma estratégia para a inserção internacional e passa a figurar dentre os princípios que regem as relações internacionais brasileiras, nos termos do artigo 4º da Constituição Federal, que estabelece que o Brasil recorrerá à “cooperação entre os povos para o progresso da humanidade”.

O GLOBO: Qual a justificativa para tantas viagens da diretoria a Caracas e Cuba, por exemplo? O DO registra pelo menos 15 viagens entre 2009 e 2010.
IPEA: As viagens estão relacionadas à consolidação de acordos de cooperação que o Ipea realiza visando ao avanço socioeconômico dos países em desenvolvimento. As viagens não ocorrem apenas para estes países, mas também para instituições dos países desenvolvidos (OCDE, Federal Reserve de Atlanta) e das Nações Unidas (UNCTAD, CEPAL), como os Estados Unidos e França, que, até o momento, nunca foram objeto de questionamentos ou justificativas.

O GLOBO: Os gastos com bolsistas também cresceram substancialmente nos últimos anos. Entre 2005 e 2009, o aumento desses gastos chega a 600%. Essa modalidade de contratação consumiu, entre 2008 e 2010, R$ 14,2 milhões do Orçamento do Ipea. Qual a justificativa para um aumento tão grande no número de bolsistas, só estudantes mais de 300?
IPEA: O Ipea aprimorou e ampliou seu programa de bolsas, incrementando seu relacionamento técnico com diversas instituições de estudos e pesquisas. Destaca-se o ProRedes, que organizou 11 redes de pesquisa entre 35 instituições em todo Brasil. Da mesma forma, por meio desse programa, foi lançado, em 2008, o Cátedras Ipea, com o objetivo de incentivar o debate sobre o pensamento econômico-social brasileiro.

A partir deste ano, este programa conta com a parceria e recursos da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Os bolsistas são selecionados por meio de chamadas públicas e desde o início do programa há participação de aprovados de todas as regiões do País. O crescimento no número de bolsas concedidas expressa a ampliação dos temas estudados no Instituto. Desde sua instituição, o Ipea atua na formação de quadros para as atividades de planejamento de políticas públicas.

O GLOBO: Entre os pesquisadores bolsistas aparece o nome de (*)1, que mantém um relacionamento com o diretor (*)1. Ela recebeu R$ 100 mil entre 2009 e 2010, por meio dessas bolsas de pesquisa, ao mesmo tempo em que ocupa um cargo de secretária na prefeitura de Foz de Iguaçu. Como o Ipea justifica a contratação?
IPEA: O nome referido não consta em nossa lista de bolsistas. A referida pesquisadora não foi contratada pelo Instituto nesta gestão. O desembolso citado – R$ 95 mil – trata-se de apoio a evento técnico-científico: 13º Congresso Internacional da “Basic Income Earth Network” (BIEN - Rede Mundial de Renda Básica). A liberação dos recursos foi efetuada em conta institucional-pesquisador, sujeita à prestação de contas dos recursos utilizados.

A seleção do referido evento, conforme chamada pública, foi realizada por comitê de avaliação, composto por pesquisadores, que considera as propostas de acordo com critérios pré-estabelecidos. Os diretores do Ipea não têm qualquer influência sobre as recomendações deste comitê.

O lançamento e resultados da seleção são divulgados no Diário Oficial da União e estão disponíveis no sítio do Instituto. Destaca-se ainda que tal sistemática é a mesma adotada em instituições como CNPq, Capes, FAPESP e todas as agências de fomento.

As chamadas são abertas à participação de pesquisadores vinculados a instituições públicas ou privadas sem fins lucrativos, de reconhecido interesse público, que desenvolvam atividades de planejamento, pesquisa socioeconômica e ambiental e/ou que gerenciem estatísticas.

Vale ressaltar que o referido evento contou ainda com patrocínio de instituições como Fundação Ford, FAPESP, Corecon SP e RJ, Petrobras, Caixa, BNDES, Fundação Friedrich Ebert, e a Capes.

O GLOBO: Os gastos com comunicação social também tiveram aumento substancial. No Orçamento de 2010 estão previstos R$ 2,3 milhões para esse fim (rubrica 131). No ano passado não apareciam despesas nessa rubrica. No momento, o Ipea tem contratos com empresas de comunicação e marketing que somam R$ 4,5 milhões. Qual a justificativa para gastos tão elevados?
IPEA: Os contratos com ‘empresas de comunicação e marketing’ se referem a trabalhos de editoração digital e gráfica (revisão, diagramação e impressão) do trabalho produzido na casa (livros, boletins, revistas etc.) e de seu respectivo material de apoio (cartazes, fôlderes, banners, hot sites etc.). O Ipea não faz uso de inserções publicitárias de qualquer tipo. O orçamento previsto, portanto, contempla o crescimento substancial da produção intelectual do Instituto – de 102 títulos, em 2007, para 219, em 2009, num total de 14,6 mil páginas (dados c onstantes no Relatório de Atividades Executivo 2009 e disponíveis no sítio do Ipea na internet) –, além do cumprimento de um dos termos de sua missão: disseminar conhecimento. Razão para ‘justificativas’ haveria se, mesmo com a entrada de 117 novos servidores em 2009, o Instituto não vivenciasse crescimento de sua produção.

O GLOBO: Tenho um levantamento que mostra que atualmente existem 33 pessoas lotadas na Ascom do Ipea. Solicito indicar quantos jornalistas/assessores de imprensa e quais as outras funções.
IPEA: A Assessoria de Imprensa e Comunicação do Instituto possui oito jornalistas/assessores de imprensa. Os demais são pessoal de apoio para as atividades que estão sob jurisdição da Ascom: Editorial, Livraria, Eventos e Multimídia, em Brasília e no Rio de Janeiro.

O GLOBO: Sobre as obras da nova sede do Ipea, apuramos que já foram gastos mais de R$ 1 milhão no projeto e existe no orçamento de 2010 uma dotação de R$ 15 milhões para a obra, mas o Ipea ainda não tem a posse legal do terreno onde será construída a nova sede. Qual a justificativa para os gastos sem garantia do terreno? Gostaria também de esclarecimentos sobre a forma de contratação do escritório de arquitetura que elaborou o projeto.
IPEA: Os gastos do projeto de planejamento e construção de uma nova sede para o Ipea, em Brasília, foram realizados conforme planejamento autorizado em lei no Plano Plurianual 2008-2011. Todas as contratações obedecem rigorosamente aos preceitos da Lei de Licitações e Contratos, Lei nº 8.666 de 21 de junho de 1993, bem como aos princípios constitucionais previstos no caput do art. 37 da Carta Magna: legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Quanto ao terreno, órgãos do governo do Distrito Federal asseguram-no como de destinação exclusiva à construção da sede do Ipea.

O GLOBO: O enquadramento de onze técnicos de Planejamento e Pesquisa, com mais de uma década de serviços prestados ao Ipea, no Quadro Suplementar do Plano de Carreira, o que praticamente congela a situação funcional dessas técnicos, com prejuízos financeiros e na carreira. Considerando que a base jurídica está sendo questionada internamente e já é objeto de ações na Justiça, solicito a justificativa do Ipea para a decisão. Como são técnicos remanescentes da administração anterior, questiono se não se caracteriza, no caso, algum tipo de perseguição política ou tentativa de esvaziamento do grupo de pesquisadores não alinhado com a nova linha do Ipea.
IPEA: Não há ‘perseguição’ de qualquer natureza, em absoluto. A atual administração age com base no estrito cumprimento da Lei 11.890/2008, que criou o Plano de Carreira e Cargos para a Instituição, com a inserção do cargo de Planejamento e Pesquisa na Carreira de Planejamento e Pesquisa, representando um marco na história da Instituição.

A referida lei determinou o enquadramento dos servidores na carreira, processo que foi realizado individualmente, resgatando-se o histórico funcional de cada um dos servidores. Isso permitiu o enquadramento de 277 (95,5%) dos 290 TPPs ativos. No que diz respeito aos servidores inativos, todos os 282 foram posicionados na Tabela de Subsídio. No total foram enquadrados 97,7% do total.

Os servidores que atenderam aos pré-requisitos estabelecidos na lei – e referenciados no Parecer da Procuradoria Federal do Ipea – para inserção na Carreira de Planejamento e Pesquisa ou posicionamento na tabela de subsídio foram imediatamente enquadrados ou posicionados na tabela remuneratória pertinente.

A atual direção, buscando esgotar as possibilidades de análise de viabilidade quanto ao enquadramento dos servidores que não cumpriram os referidos requisitos constantes na lei, encaminhou os seus processos para análise da Secretaria de Recursos Humanos do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, que corroborou, com posicionamento de sua Consultoria Jurídica, pelo enquadramento em Quadro Suplementar dos referidos servidores.

(1) Os nomes foram omitidos pelo Ipea para preservar as pessoas citadas.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Charge do dia!



Fonte: http://dalciomachado.blogspot.com/

Colômbia: acordo militar com os EUA é inconstitucional - Por Natasha Pitts

Colômbia: acordo militar com os EUA é inconstitucional

Corte Constitucional colombiana divulgou esta semana o resultado da sentença sobre a inconstitucionalidade do acordo militar que permitia aos Estados Unidos operar em sete bases colombianas, desde 30 de outubro de 2009. O acordo, que já se encontra sem efeito desde o dia 17 de agosto, precisará ser aprovado pelo Congresso Nacional para que seja afirmada ou negada sua validade. Na avaliação da Corte, acordo "afeta de maneira evidente a soberania nacional".
Natasha Pitts

Conforme previsto, a Corte Constitucional colombiana divulgou terça-feira (17) o resultado da sentença sobre a inconstitucionalidade do acordo militar que permitia aos Estados Unidos operar em sete bases colombianas, desde 30 de outubro de 2009. O acordo, que já se encontra sem efeito deste ontem, precisará ser aprovado pelo Congresso Nacional para que seja afirmada ou negada sua validade.

No início de outubro de 2009, o Conselho de Estado já havia alertado o governo colombiano para a necessidade de que o ‘Acordo Complementar para a Cooperação e Assistência Técnica em Defesa e Segurança’ fosse renegociado, já que afetava de maneira evidente a soberania nacional. Além disso, emitiu um conceito em que recomendou que os trâmites fossem resolvidos junto ao Congresso da República.

Mesmo com todas as orientações e recomendações e ignorando o Conselho de Estado, o governo de Álvaro Uribe passou por cima da Constituição colombiana e firmou o contrato com o governo estadunidense, dando o aval para a entrada de cerca de 800 militares, 600 civis, além de navios e aviões do exército dos EUA.

"Desta forma se comprova que sim, tinham fundamento os questionamentos que amplos setores democráticos da população colombiana e estadunidense vinham fazendo sobre o acordo militar e sobre a forma mansa com que o governo de Uribe, com seu então ministro de Defesa hoje presidente, Juan Manuel Santos, pretendia renunciar à soberania nacional", reflete a Coalizão Colômbia Não Bases, que nasceu para combater a instalação de bases militares no território colombiano.

Pela junção de todas as ilegalidades, a presidente da Corte Constitucional, Mauricio González, declarou que o acordo é contrário às praxes constitucionais e por não ter sido avalizado pelo Congresso não pode surtir efeitos na ordem jurídica interna do país até que seja sanada a exigência. Conforme acrescentou a Coalizão Colômbia Não Bases em notícia publicada ontem, como o acordo já vinha sendo executado "deverão ser retiradas as tropas e equipes estrangeiras das bases militares colombianas".

O acordo foi devolvido ao presidente Juan Manuel Santos e a partir da data da liberação da sentença o governo terá um ano para retificá-lo e para que o mesmo tramite junto ao Congresso. No caso de ser enviado e aprovado pelo Congresso, de maioria oficialista, deverá ser submetido a um novo exame do tribunal.

Ciente do resultado da sentença, o governo nacional, por meio do ministro de Defesa, Rodrigo Rivera, anunciou que acata a sentença e "estudará detalhadamente dita decisão à luz das normas do direito internacional, dos acordos vigentes e das demais normas aplicáveis".

Segundo informações da agência AFP, durante pronunciamento, o governo nacional deixou claro que a decisão da Corte "não afeta os acordos previamente subscritos e vigentes com os Estados Unidos", os quais "se vêm cumprindo e seguirão sendo cumpridos de boa fé".

Após a liberação da sentença, o advogado Luis Guillermo Pérez, do Coletivo jurídico José Alvear Restrepo Cajar, ONG que havia pedido por própria conta a declaração de inconstitucionalidade, reforçou a postura de que os colombianos precisam "resolver o conflito por seus próprios meios". O advogado também relembrou que a ocupação estadunidense no país nunca havia sido analisada de modo adequado e criticou o fato de a população ignorar o que os militares faziam na região.

(*) Jornalista da Adital
Fonte: Carta Maior

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Como é bom ver isso!

Como é bom ver isso!

Esse humilde blog segue a máxima “o melhor governo é aquele que não governa”, já que estamos há anos e anos fartos de destes ladrões e safados que assolam o Brasil.

Nós aqui até vemos com “bons olhos” a idéia da “ficha limpa”, mas como sabemos que aqui no Brasil o judiciário movido a grana pode tudo, com recursos e mais recursos e agora será uma enxurrada de liminares e mais liminares para safar os canalhas e corruptos que infectam esse país do discurso pronto.

Esquerda ou Direita pouca importa os canalhas estão dos dois lados e ainda alguns aparecem do meio dos dois e para infelicidade geral da nação ainda pipocam safados desta fusão também!

A mídia brasileira sempre foi um lixo, os chamados “grandes” sempre seguiram as regras do poder e as segue até hoje, o beco sem saída que os “grandes” se meteram é a prova mais provada da incompetência geral da elite brasileira, elite sim, ou dos Fanzines saíram dos porões da burguesia?

Provos Brasil