segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O Pato de Botas - por Laerçon






Fonte: http://bocasujafanzine.blogspot.com/

[EUA] Entrevista com Mumia Abu-Jamal: “Sou um jornalista fora da lei” - ANA

[EUA] Entrevista com Mumia Abu-Jamal: “Sou um jornalista fora da lei”

[O jornalista Mumia Abu-Jamal continua preso no corredor da morte há quase 30 anos. Em 29 de agosto de 2010, a representante dos Repórteres sem Fronteiras em Washington DC, Clothilde Le Coz, o entrevistou no locutório número 17 da prisão da Pensilvânia, em Waynesburg, Condado de Greene.]

Pergunta > Como jornalista preso, de que tratam suas últimas observações e investigações?
Mumia Abu-Jamal < A população prisional estadunidense é a mais importante no mundo. Este ano, pela primeira vez em 38 anos, se reduziu. Algumas prisões como na Califórnia ou Michigan aceitam menos presos dado que estão super povoadas. Os financiamentos dos Estados são limitados e se libera alguns presos em função da situação econômica. Nos Estados Unidos, as prisões são grandes e o número de presos é imenso.

É impressionante ver quanto dinheiro o governo estadunidense gasta com tudo isto e até que ponto somos invisíveis. Ninguém o sabe. A maioria da população não se interessa pelo tema. Quando ocorre qualquer drama na prisão, alguns jornalistas dizem e acreditam que sabem de quem estão falando. Mas não é fiel a realidade: é puro sensacionalismo. Podem ser encontrados bons artigos, mas não refletem o que ocorre realmente. O que escrevo é o que tenho visto com meus próprios olhos e o que tem me sido dito. É verídico.

Meus artigos falam da realidade. Fundamentalmente, tratam todos do corredor da morte e da prisão. Eu gostaria que não fosse assim. Faz um ano e meio que estão ocorrendo uma série de suicídios entre os condenados a morte. Dei a informação com exclusividade sobre um suicídio porque ocorreu em meu bloco. Mas segue sendo invisível. Necessito escrever. Há milhões de histórias para contar e personagens excepcionais aqui. Entre as que decidi contar, elejo as mais importantes, comovedoras, frágeis… Decido escrevê-las, mas deve-se ter certa responsabilidade quando se conta este tipo de histórias. Espero que possam mudar o curso das coisas para as pessoas das quais eu falo.

Pergunta > Acredita que o fato de ser jornalista tem influenciado o curso de seu caso?
Mumia < Ser “A Voz dos sem voz” influiu de forma considerável. Na realidade, esta expressão foi tirada de um artigo do Philadelphia Inquirer publicado depois de minha detenção em 1981. Quando era adolescente, era um jornalista radical que trabalhava para a edição nacional do jornal dos Black Panthers. O FBI vigiava minhas publicações desde que tinha 14 anos. Ser jornalista foi meu primeiro trabalho. Sou muito mais famoso que outros detidos nos Estados Unidos pelo que escrevo. Se a situação fosse distinta, o tribunal federal de apelações quem sabe não haveria criado uma lei especial que influísse diretamente sobre minha condenação.

A maioria dos homens e das mulheres que se encontram no corredor da morte não são famosos. O fato de que siga escrevendo deve de ser algo que os juízes levaram em consideração e pelo qual mudaram a lei para que não me pudessem julgar novamente. Creio que pensavam: “Tu és um falador, não terás outro julgamento”. Se espera algo mais de um tribunal federal. E agora, por culpa de meu caso, outros doze podem ser prejudicados.

Pergunta > O que pensas da cobertura midiática de seu caso?
Mumia < Um dia li que já não estava no corredor da morte. Enquanto o lia, estava sentado aqui. Não saí nunca deste corredor, nem um segundo. Como sou do mesmo âmbito, muitos jornalistas não queriam cobrir meu caso por medo de que os criticassem. Tinham que se enfrentar das críticas segundo as que haviam sido parciais e às vezes seus redatores chefes os proibiam de cobrir o caso. Desde o princípio do mesmo, aos mais suscetíveis de cobri-lo, foi se proibido de fazê-lo. A maioria dos jornalistas com os que trabalhei já não exercem a profissão. Estes estão aposentados e ninguém os dá a mínima importância. Mas a imprensa teria que ter certa influência neste assunto. Milhões de pessoas viram o que ocorreu na prisão de Abu Ghraib. Seu diretor, que sorria nas fotos que foram publicadas, trabalhava aqui antes de ir para lá.

No corredor da morte, existem indivíduos sem nenhuma qualificação que podem decidir sobre a vida ou a morte de um detido. Por não sei que motivo, tem o poder de decidir a seu bel prazer se alguém come ou não. E ninguém questiona este poder. Há regras informais. Esses indivíduos podem converter a vida de alguém em um inferno com um simples gesto. Quando escolho as histórias que vou contar, não me falta inspiração nunca. Para um escritor, este é um ambiente rico. Não importa o que dizem meus detratores, sou jornalista. Este país seria muito pior sem jornalistas. Mas para muitos deles, sou um jornalista fora da lei. Antes da prisão, quando trabalhava para várias emissoras de rádio, conheci gente que vinha de todas as partes e apesar dos conflitos com alguns redatores chefes, exercia a profissão mais bonita.

Pergunta > O apoio que lhe tem sido dado na Europa é diferente do que tem nos Estados Unidos. Como explicas e acreditas que a mobilização internacional possa seguir te ajudando?
Mumia < Sim, segue sendo útil. No que diz respeito à pena de morte, a mobilização européia pode ter um impacto nos Estados Unidos. Os países estrangeiros, Europa em particular, estão marcados por uma história peculiar quanto a repressão. Sabem mais profundamente eles o que é a prisão. Sabem o que são a prisão, o corredor da morte e os campos de concentração. Nos Estados Unidos, pouca gente viveu esta experiência. Explica como as diferentes culturas aprendem o mundo. Na Europa, a idéia da pena de morte é um anátema.

O 11 de setembro de 2001 mudou muitas coisas nos Estados Unidos. Os opositores ao poder, os que discutiam sua legitimidade já não tem mais importância. Também mudou a imprensa. O que era aceitável chegou a ser inadmissível. Creio que o 11 de setembro modificou as formas de pensar na opinião pública e também os limites de tolerância dos meios de comunicação. Por exemplo, quando estavam ocorrendo os fatos do 11 de setembro em Manhattan e em Washington DC, a prisão fechou durante o dia inteiro aqui, na Pensilvânia. E estávamos totalmente isolados.

Pergunta > Para obter apoio, seria útil ter uma foto sua, atualmente, neste corredor da morte. O que você acha?
Mumia < Ter uma imagem pública só ajuda em parte. A essência de uma imagem é a propaganda. Assim que as fotos não são tão importantes. O que conta é a personalidade. E faço tudo o que posso. Em 1986, as autoridades penitenciarias confiscaram os gravadores dos jornalistas e só podiam ter um papel e uma caneta na mão. Agora que um artigo é o único vetor para lhe dar algum sentido à situação, o seu autor pode convertê-lo em um monstro ou em um modelo.

Pergunta > Se a Corte Suprema aceitar em lhe conceder um novo julgamento, só se revisaria sua pena e não sua condenação. Como imagina o fato de seguir em prisão perpétua se não lhe executarem?
Mumia < Na Pensilvânia, a prisão perpétua é uma execução em fogo lento. Segundo a lei do Estado, existem três graus de assassinatos. O primeiro se castiga com prisão perpétua ou pena de morte. O segundo e o terceiro grau com prisão perpétua. Não se sai daqui. E nesta prisão, temos a taxa de condenação juvenil à prisão perpétua mais elevada dos Estados Unidos. Mas eu gostaria de acrescentar que na Filadélfia, ocorreram dois casos na mesma época que o meu nos quais as pessoas foram julgadas pelo assassinato de um policial. A do primeiro caso foi absolvida. A segunda, ainda que tenha sido gravada com uma câmara de vigilância, não foi condenada a morte.

Pergunta > E como consegue “fugir” deste lugar?
Mumia < Eu escrevi sobre História, uma das minhas paixões. Eu gostaria muito de escrever a respeito de outras coisas. Meus últimos trabalhos tratam da guerra, mas também escrevo sobre cultura e música. Tenho um tempo interior que tento manter através da poesia e da percussão. Poucas coisas podem ser comparadas com o prazer que sinto aprendendo música. É como aprender um novo idioma. E constantemente eu me desafio a escrever em outro idioma! Uma professora de música vem aqui a cada semana e me ensina. Um mundo novo se oferece a mim e agora o conheço um pouco mais. A música é uma das coisas mais bonitas que o ser humano já criou. O melhor de nossas vidas.

• Para apoiar Mumia Abu-Jamal entrar em contato com Law Offices of Robert R. Bryan 2088 Union Street, Suite 4, San Francisco, CA 94123-4117 http://www.MumiaLegalDefense.org ou http://es.rsf.org/petition-mumia-abu-jamal,37071.html

Tradução > Juvei

agência de notícias anarquistas-ana
Ruídos nas ramas.
Trêmulo, meu coração detem-se
e chora na noite...

Matsuo Bashô

Henry Charles Bukowski - o merecedor de impropérios - por Pree Leonel

Henry Charles Bukowski - o merecedor de impropérios - por Pree Leonel

Há quem ame Henry Charles Bukowski Jr. Há também quem o odeie. O “velho safado” – senhor cuja obra de cunho obsceno revelou ao universo literário um outro tipo de leitor, tão libertário e indecente quanto o próprio autor – obviamente tinha conhecimento das antagônicas impressões que causava, enquanto vivo. E apostava nas temáticas mais polêmicas, mesmo assim.

Porres sensacionais, ceticismos, machismos, relacionamentos baratos, sexo fácil, linguagem informal ou chula, referências aos subempregos exercidos, solidão, humor-negro, pontuação desajustada e xingamentos: tudo estava em pauta para o autor alemão. Qualquer fosse o foco de Bukowski, o estilo parecia agradar a nova massa dos alternativos e intelectuais dos anos 60, já entorpecidos pela geração beatnick, antes prestigiada por obras como “On the road”, de Jack Kerouac.

Não que o autor tenha vivido conforme os preceitos beat. Não foi o caso. A geração apenas tomou para si emprestadas as palavras do beberão simpático. Para Charles, sobraram apenas as garrafas vazias da geração que nascia – e alguma irritação decorrente das gratuitas comparações ou co-relações dedicadas ao seu estilo sobre aquela tribo.

E, claro, assunto de fácil acesso às mesas dos bares universais – residência de bêbados não comedidos, intelectuais de plantão ou puritanos frustrados – as impressões acerca do velho acabaram por alcançar novos ângulos, além dos contos, romances e poesias. Estendem-se elas, hoje, a discussões ousadas sobre ser o homem Bukowski merecedor da empatia universal literária ou não.

Sua obra foi alvo de ofensiva por parte de feministas do mundo todo. Do outro lado de Los Angeles, mulheres queimavam seus livros, em protesto, já na década de 60, após suas primeiras publicações. Chamavam o beberrão de chauvinista, vagabundo. Despejar-lhe um par de injúrias auto-inflamantes parecia justo frente ao cenário vulgar emprestado ao mundo pelo autor. Ainda no século atual, esposas indignadas pela veia Bukowskiniana de seus maridos modificam suas expressões faciais ao ouvirem o nome do velho, e acreditam que Charles nada mais quis senão chocar.

Não sabiam elas, no entanto, ser Henry Chinaski (alter ego adotado por Bukoswki em suas narrativas) um desconectado por natureza, desobediente aos padrões eternos que regiam a terra celibatária. É que o homem já havia descoberto as limitações do então sonho americano. Fora atormentado por um pai azedo, rígido e infeliz e por uma doença que lhe deformou o rosto, transformando-o em um jovem de poucos amigos, outsider. O álcool, os livros e a escrita cínica, sem amarras, se tornaram, assim, sua companhia – talvez suas muletas.

Dessa forma, as descrições do então jovem Charles, grande parte delas de cunho pessoal, eram também experimentações livres de temas que ofereciam à sua estranha vida um ar discutivelmente cômico. Discutivelmente porque – é aí que a problemática provinciana mora – não tinha pudores de atravessar a linha e os limites impostos por sua sociedade sobre o que seria bonito ser dito ou feito.

De outro lado, com uma garrafa de gim na mão (e um misto-quente na outra), Charles não se preocupava e queria mesmo era avacalhar com os conceitos de classe, gênero, e comportamento do homem médio, de forma a instigar, sim, a repulsa, a nostalgia, a melancolia, o nojo, o apreço ou a raiva de seus leitores, através de sua auto-exposição.

“Bebi e fiquei mais bêbado que um gambá no purgatório. Estive até com uma faca de açougueiro na garganta, uma noite, na cozinha; mas aí pensei, calma (...). Quando voltei a mim, estava na sala do meu apartamento, cuspindo no tapete e queimando meus pulsos com cigarros, dando risadas. Louco como uma lebre”.

Pois bem. Sóbrio ou não, o escritor tanto se expôs que foi presenteado com a eternidade. Antologias, poemas, cartas e contos foram lançados postumamente, de forma a concretizar seu papel já reservado na história. Uma das últimas publicações, aliás, é creditada a Matthias Schultheiss, quadrinista alemão que publicou, em 2008, as histórias do velho safado em quadrinhos. Jaz ali um universo obrigatoriamente coberto de prostitutas e marginais que são engolidos pela solidão das capitais. Chama-se “Delírios Cotidianos”

Tais homenagens e tributos ainda provocam polêmicas no momento em que se analisa Charles enquanto pessoa – característica que caminhará eternamente ao lado de sua assinatura. Mas o mundo tem tratado de separar as coisas. Fala-se agora do homem Bukowski e de um outro homem, diferente daquele outro: o literário Bukowski. Quem ama não consegue fazer a distinção de uma coisa e outra, mas espera que, quem o odeie, o faça. Talvez não dê certo, visto que Henry se diferencia exatamente por tornar esta tarefa difícil.

Com mais de 50 publicações espalhadas pelo globo, no entanto, já não se sabe de feministas que continuem a queimar suas obras. Talvez em algum vilarejo ainda provinciano, localizado em algum local inóspito e frio do globo ocular. A realidade atual fala por si mesma e, pelo contrário, catapulta Charles ao mundo como um dos autores mais imitados – exaustivamente, talvez – da América.

A tendência-Bukowski-de-ser chegou até mesmo a terras de língua portuguesa, sendo representada por autores brasileiros como Clarah Averbuck, especialmente em “Máquina de Pinball” (Editora Conrad, 2002), seu primeiro romance, transcrito e transformado em filme no ano de 2008. Talvez Fernanda Young, outra ousada escritora brasileira, se intimidaria com a comparação. Mas depois da publicação de “Tudo o que você não soube” (Editora Ediouro, 2007) é de se ter dúvidas que nos restem dúvidas. E porque não citar o próprio Daniel Galera, no que tange seus brilhantes momentos de ousadia suja em “Até o dia em que o cão morreu” (Cia das Letras, 2007)?

Enfim. Além de herdeiros literários (e vários pseudos destes, vale lembrar), o escritor, falecido em 1994 após ser diagnosticado com leucemia (não, ele não morreu de cirrose), deixou em seu túmulo a grafia “Don't try” (“nem tente”, em português), uma referência, percebam, bastante cool a “Roll the dices”, poesia marcante do velho insóbrio que fala sobre ir adiante. Pois bem. Ele foi. E continua indo.

“If you're going to try, go all the way. Otherwise, don't even start” (“Se você for tentar, vá até o fim. Do contrário, nem tente”). Roll the dices, de Charles Bukowski.

Fonte: http://obviousmag.org

domingo, 5 de setembro de 2010

Por dentro e por fora - Por Paulo Arantes

Por dentro e por fora

Uma tribuna para livres manifestações de desassossego, fonte primária na identificação de temas e problemas para uma pauta menos óbvia, em torno da qual também propomos nos encontrar. E quando falamos em encontro, é encontro mesmo: mera verificação mútua de pontos de vista e conhecimento pessoal, pois idéias não nascem em árvores. Em que resultará, se resultar, não sabemos. Por Paulo Arantes

“Por dentro e por fora é uma série de artigos de debate sobre as lutas e os movimentos sociais, da iniciativa conjunta de Paulo Arantes e do coletivo Passa Palavra. Série aberta a um amplo leque de colaboradores individuais, convidados ou espontâneos, mais ou menos empenhados (ou ex-empenhados) nas lutas concretas, que ajude a aprofundar diagnósticos sobre a sociedade que vivemos, a cruzar experiências, a abrir caminhos - e cujos critérios seletivos serão apenas a relevância e a qualidade dos textos propostos.” Passa Palavra

“Ele pensava dentro de outras cabeças;
e na sua, outras, além dele, pensavam.
Este é o verdadeiro pensamento”.
Brecht

Não é de hoje que a Teoria Crítica no Brasil bateu no teto. Sinal de que pelo menos houve progresso. Até o momento em que as idéias novas começaram a escassear. E os derradeiros movimentos anticapitalistas, a perder fôlego. Literalmente, aliás: militantes extenuados, de tanto ralar e moer no aspro, penam em dobro para formular o conhecimento acumulado na mais cruel adversidade. Houve, sim, avanço no último período. Hoje sabemos muito mais sobre as mutações da sociedade brasileira e as grandes manobras do capital do que os corações veteranos que nos precederam. E no entanto não é menos forte o sentimento de pensamento paralisado. Em todas as frentes em que pensar é decisivo, da organização da luta propriamente dita à invenção cultural autônoma.

Se esta sensação for mesmo um horizonte comum, faz todo o sentido a pergunta: o que afinal nos fará voltar a pensar? Como não há resposta de mão única, muito menos ao alcance da mão, não custa imaginar um ou dois passos de desafogo, ligeiramente heterodoxos. Daí a proposta de uso e destino deste espaço, que passamos a encaminhar.

À primeira vista, a iniciativa está longe de ser inédita. Uma tribuna para livres manifestações de desassossego, fonte primária na identificação de temas e problemas para uma pauta menos óbvia, em torno da qual também propomos nos encontrar, digamos daqui a um ano, ou o tempo que for necessário, maior ou menor, para que o consenso a respeito amadureça. E quando falamos em encontro, é encontro mesmo: mera verificação mútua de pontos de vista e conhecimento pessoal, pois idéias não nascem em árvores. Em que resultará, se resultar, não sabemos. Se vingar, pouca coisa não há de ser. Modéstia à parte, é que há muita gente boa envolvida. Aqui a novidade desta convocação: além da conjugação de teoria e prática, conhecimento e interesse emancipatório, aprofundamento de diagnósticos e fortalecimento de experiências autônomas, o pressentimento de que há muita gente pensando por fora, seja lá o que isto queira dizer, por enquanto.

Mas onde estão e quem são, socialmente falando? Nos movimentos é claro, mas não necessariamente. Precisamos mais do que nunca dos avulsos e independentes, como também dos ressabiados e dos rescaldados, tanto dos desmobilizados quanto dos que ainda não arriscaram a travessia da fronteira de classe, mas se encontram nas cercanias (num e noutro sentido). É o caso, por exemplo, dos chamados “assessores técnicos”, cujo saber tornou-se hoje oxigênio indispensável para qualquer retomada do trabalho de base nos movimentos populares – uma das acepções do que estamos entendendo por pensamento. É o caso também, por outro exemplo, de pessoas nascidas e criadas nas periferias dos grandes centros urbanos, que têm acessado certos espaços de estudo novos e protagonizado novas experiências de resistência, se apropriando e produzindo críticas originais.

Como estamos falando de Teoria Crítica, é preciso registrar que quase todos têm passagem pela Universidade, nem que seja pelas beiradas ou apenas em situações de combate, mas de formas consistentes. Sem ambição de carreira (era só o que faltava), têm vivido da mão para a boca nas uni-esquinas, nas ONGs e projetos sociais da vida, ou nas franjas profissionalizadas de movimentos sociais diversos. Alguns raros conseguem “ensinar” sem precisar vender a alma para a plataforma Lattes. Aos que mantêm um pé na academia, a bolsa é um alívio com data de validade, depois é o purgatório social e intelectual que se sabe. Em suma, com ou sem militância orgânica, classe média ou nova plebe urbana, são todos intelectuais por assim dizer precarizados. Ainda sem chegar ao extremo de viver praticamente em estado de secessão, como os radicais russos do século XIX, seja em razão de criativas estratégias de sobrevivência, seja mesmo pela capacidade intelectual cultivada, não são movidos a ideologias de granito, mas a análises específicas e percepções inéditas do descalabro da atualização capitalista em curso no país.

Quanto ao saber local, é outra herança sem testamento. No caso do triste fim das interpretações clássicas do Brasil, para ficar no exemplo mais aberrante, quando muito alimentam uma pequena indústria cultural do comentário elegante, nos lembrando de tempos em tempos – e os de hoje são de discreta euforia – que as raízes do Brasil continuam vivíssimas. Enfim, uma escalada da sofisticação, contra o pano de fundo da qual se destacará ainda mais o brutalismo da ralé intelectual com a qual contamos para voltar a pensar. Mas agora, contra o Brasil – por que não? Será preciso lembrar que na tradição dos oprimidos a famigerada “construção interrompida”, que hoje se presume retomada, é inteiramente outra?

Como pensar por fora exige uma certa folga – em todos os sentidos – não prescrevemos nenhum gênero fixo para as contribuições. Por razões óbvias, eventuais pseudônimos não serão postos em dúvida. Assinatura coletiva pode ser um atalho expressivo. Como é preciso sentir o drama, depoimentos de engajamentos e desengajamentos também serão bem-vindos, sobretudo para governo dos que razoavelmente ainda hesitam no limiar da Crítica meramente crítica, como se dizia nos tempos do jovem Marx. Até programas de transição serão aceitos, desde que expostos como se fossem alheios.

Fonte: http://passapalavra.info/

sábado, 4 de setembro de 2010

70 anos de América Latina - por André Rossi

70 anos de América Latina - por André Rossi

Neste 3 de setembro aniversaria um importante nome do jornalismo e da literatura latino-americanos: o uruguaio Eduardo Galeano completa 70 anos de vida. E, com a data, celebra-se também sua importante contribuição para o imaginário social dos povos da América Latina, além do marcante papel na luta contra o regime militar uruguaio, que durou de 1973 a 1984.

“Para os que concebem a História como uma disputa, o atraso e a miséria da América Latina são o resultado de seu fracasso. Perdemos, outros ganharam. Mas acontece que aqueles que ganharam, ganharam graças ao que nós perdemos: a história do subdesenvolvimento da América Latina integra, como já se disse, a história do desenvolvimento do capitalismo mundial”, escreveu Galeano em 1971, no livro As Veias Abertas da América Latina, que fala sobre o processo de exploração colonial pelo qual passou o continente americano desde sua descoberta até o neo-colonialismo da Revolução Industrial. Anos mais tarde, em 1976, deixou o Uruguai rumo ao exílio na Espanha após ter seu nome incluído em uma lista de execuções do regime militar, liderado pelo ditador Jorge Videla.

Para falar sobre vida e obra do jornalista uruguaio, Fórum entrevistou o professor Alexandre Borges, mestre e doutorando em Ciências da Comunicação pela ECA-USP. Especialista em Jornalismo Internacional, Borges é o idealizador do site www.latinoamericano.jor.br.

Fórum - Na sua opinião, qual a importância de Eduardo Galeano para o jornalismo e literatura latino-americanos?
Alexandre Barbosa - Galeano foi além do jornalismo e da literatura. Muitos, tanto na academia quanto no jornalismo, enxergam sua obra apenas do ponto de vista literário. De fato, ele escreveu obras belíssimas, como Palavras Andantes e Memórias do Fogo. Esta última, uma crônica da história latino-americana contada de maneira poética. Porém, mesmo na literatura e principalmente no jornalismo, Galeano é essencial para a construção de um pensamento de resistência latino-americana. Sua obra mais conhecida, As Veias Abertas da América Latina, é uma leitura que não pode faltar na vida de qualquer cidadão deste continente.

Fórum - De que maneira ele contribuiu para o imaginário histórico do continente latino-americano?
Barbosa - Enquanto a indústria jornalística insistia na visão de que as alianças com os países centrais do capitalismo eram uma alternativa para o atraso da região, Galeano mostrou como a riqueza da Europa e dos EUA foi construída com base na exploração dos recursos naturais e humanos da América Latina. A cidade boliviana de Potosí, que tem mina de estanho e prata, hoje é uma região pobre, que enriqueceu os cofres dos países ibéricos. A miséria da América Central é a riqueza dos comerciantes norte-americanos.

Como a escrita de Galeano tem forte apelo de denúncia, seu texto flui e serve de inspiração para os movimentos que hoje pregam uma nova ordem da política e da economia latino-americana. Ao ler a obra de Galeano, é possível entender melhor como funcionam os governos de Evo Morales e Rafael Correa. Quem leu As Veias Abertas da América Latina jamais teria coragem de criticar a ação boliviana de nacionalização dos recursos minerais.

Fórum - Galeano participou ativamente de movimentos culturais contrários à ditadura uruguaia de 1973. Para você, qual obra dele melhor representa a resistência contra o regime militar?
Barbosa - Galeano e outros da classe artística e jornalística podem ser considerados parte de um movimento que Michael Löwy chamou de Romantismo Revolucionário que, entre outras características, entende as manifestações artísticas como instrumentos de denúncia, resistência e revolução.

Há contos e crônicas belíssimas de Galeano sobre a ditadura uruguaia. Recomendo a leitura de um texto sobre os desenhos que a filha de um preso levava para o pai no cárcere. O guarda proibia imagens e desenhos de pássaros, pois eles eram sinônimos de liberdade. Um dia, a filha desenhou uma árvore com frutas e o desenho passou. O pai elogiou o desenho e filha confidenciou-lhe que os pássaros estavam escondidos entre as folhas...

Fórum - Hoje em dia, Eduardo Galeano figura como um dos maiores nomes da literatura na América Latina, ao lado de Gabriel García Marquez e outros. O que ainda podem fazer para estabelecer um ponto de reflexão nos povos do continente contra a dominação cultural e ideológica?
Barbosa - É essencial seguir estudando as obras desses dois autores. Além de As Veias Abertas da América Latina, um latino-americano não pode se considerar latino-americano sem ler Cem Anos de Solidão, de García Marquez. Um curso sobre América Latina tem de incluir uma discussão sobre “As Veias Abertas” e um debate sobre a metáfora da cíclica história do continente que está encarnada em “Cem Anos”.

Tanto Galeano quanto Gabo continuam fortes em suas posições. Continuam a defender a América Latina e suas lutas. Gabo mantém a FPNI (Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano), que incentiva a construção de um jornalismo que tenha olhar latino-americano. A última obra de Galeano, Espelhos, se dedica às histórias esquecidas não só da América Latina, mas de todo o mundo.

Foto: Flickr http://www.flickr.com/photos/marielademarchi/2858983926/sizes/l/in/photostream/
Leia também: Eduardo Galeano, o caçador de vozes.

Fonte: http://www.revistaforum.com.br/

Charge do Dia!



Por Carlos Latuff

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Charge do dia!



Fonte: http://dalciomachado.blogspot.com/

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A arte para o povo: pinturas em murais eternizaram heróis da revolução mexicana - por Marisol Rueda

A arte para o povo: pinturas em murais eternizaram heróis da revolução mexicana - por Marisol Rueda


Próximo ao centro histórico da Cidade do México se ergue imponente uma estrutura de 65 metros de altura feita de pedra e chiluca, mineral originário do país. No início pensado para ser o palácio legislativo do governo de Porfírio Diaz – vigente por 35 anos – o prédio mais tarde se transformou em depósito dos restos mortais de quatro heróis da Revolução Mexicana: Francisco I Madero, Venustiano Carranza, Plutarco Elias Calles e Francisco Villa. O Monumento à Revolução, finalizado em 1938, se converteu então em um grande símbolo iconográfico da luta armada.

Monumento à Revolução Mexicana serviu de mausoléu para heróis do periodo

Outros exemplos como esse podem ser vistos pelo México, comprovando que, por meio da arte, os heróis mexicanos se transformaram em ícones. O escritor José Vasconcelos, renomado ministro da Educação em 1921, impulsionou esse fenômeno levando a arte para as ruas. O que se percebia era que, além de uma revolução social, era preciso uma revolução cultural, em que a arte e a literatura estivessem ao alcance do povo. Desde que assumiu o cargo de ministro, Vasconcelos fez com que grandes artistas tivessem acesso aos muros dos edifícios públicos, criando assim o Movimento Muralista, datado do princípio do século XX. “Assim era inaugurada a era Modernista, quando artistas se comunicavam com um público de gostos homogêneos” afirma o artista Felipe Ehrenberg.

Durante as décadas seguintes, artistas como Diego Rivera, Jose Clemente Orozco e David Alfaro Siqueiros transformaram paredes públicas em grandes telas, onde foram reproduzidos os principais momentos históricos da revolução.

No mural intitulado “Do Porifiriato à Revolução”, que se encontra no Museu Nacional de História da Cidade do México, Siqueiros contrapõe a ditadura de Porfírio Dias ao movimento revolucionário de forma inovadora. No início, o artista quis usar somente um terço do espaço, mas mudou de ideia e percebeu que precisava criar uma grande pintura documental sobre o grande movimento social e político mexicano do século XX.

“Do Porifiriato à Revolução” é o primeiro mural em superfície plana que compõe uma unidade sem solução de continuidade. Em um dos ângulos da parte central, a obra mostra um grupo de camponeses vestidos com mantas e sombreiros, enquanto seguram fuzis e cartucheiras ao redor dos dorsos. Pode-se distinguir os rostos de alguns dos líderes revolucionários, como Emiliano Zapata, Francisco I Madeiro e Venustiano Carranza, entre a multidão.


Um dos ângulos do mural “Do Porifiriato à Revolução”, de David Alfaro Siqueiros

Em outro ângulo, a pintura expõe um grupo de mulheres com o rosto doente. Perto, Porfírio Diaz assume a pose de quem controla o destino do país, rodeado por assessores que adulam o homem com sombreiro e luvas de seda. Próximo, mulheres exibindo sinuosas curvas em vestidos franceses, jovens “Marias Antonietas” alheias ao que acontecia na sociedade mexicana naquela época.

“A pintura sempre refletiu os movimentos sociais. Os artistas que se sensibilizam com as grandes rupturas históricas se sentem totalmente influenciados por essa forma na hora de criar”, assinala Moisés Rosas, diretor do Museu de Estanquillo da Cidade do México.

É uma forma de refletir o que somos como povo e nos entendermos, afirma Leo Mendoza, roteirista de cinema.

Nos murais, os artistas mexicanos mostraram a ousadia dos revolucionários, os abusos da classe governante e a interpretação visual da história da revolução. Pela primeira vez o povo teve acesso à arte e se viu refletido nas paredes de prédios públicos. “Saltamos de uma pintura afrancesada para uma totalmente realista, de denúncia, que fala do aparecimento das massas na sociedade” explica Rosas.

Além de ser afrancesada, a arte colonialista copiava paisagens; os elementos principais eram a vegetação e a natureza, deixando de fora individuo e sociedade. O surgimento do movimento armado no México deu início à uma arte onde a sociedade passou a ser preponderante.


Mural “O Sangue dos Mártires Revolucionários Fertilizando a Terra”, de Diego Rivera

Diego Rivera
A corrente tradicional do paisagismo evoluiu para o muralismo, que se viu diretamente refletido em gerações de pintores. O paisagista José Maria Velasco, por exemplo, foi mestre do pintor conhecido como Dr Atl e este por sua vez, ensinou Siqueiros e Jose Clemente Orozco que revolucionaram a pintura do país. Outro grande muralista influenciado pela revolução foi Diego Rivera, que após estudar na França, viajou ao México em 1920 para unir-se ao movimento artístico em desenvolvimento.

“As artes se encarregam de expressar o que o imaginário popular odeia e ama” afirma Ehrenberg. Assim o fez Rivera, que criou pinturas cheias de significado para o mexicano. Ele pintou diversos muros no Ministério de Educação Pública e imprimiu imagens de banhistas, tecelãs e lavadeiras em afrescos. Rivera dirigia o sindicato revolucionário de operários, técnicos, pintores e escultores, cujo lema era “o artista vestirá um macacão, subirá no andaime, trabalhará em equipe, reafirmará seu oficio, tomará partido na luta de classes”.

Na pintura do mexicano, a revolução e a arte foram unificados, o que faria com que sua obra transcendesse e chegasse a ser a mais celebrada no México. Entre seus murais sobre a revolução, estão os da Universidade Autônoma de Chapingo, intitulado “A Divisão de Terras” e “O Sangue dos Mártires Revolucionários Fertilizando a Terra”.

Fonte: Opera Mundi

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Estado Assassino: Duas ou três coisas sobre Israel

Estado Assassino: Duas ou três coisas sobre Israel

Soldados de Israel posam ao lado de um professor palestino morto por eles quando defendia seus alunos

Limpeza Étnica – Já está decidido. Os arquivos sobre a invasão e ocupação da Palestina pelos euro-sionistas e que ficaram 50 anos ocultos não serão dados a publico conforme determina a lei.
O governo de Israel decidiu prorrogar por mais 20 anos a abertura desses arquivos “por serem delicados”.
Historiadores dizem que o temor se prende ao fato de os arquivos demonstrarem que houve limpeza étnica de palestinos.

Wikipédia – Sionistas querem reescrever a Wikipédia. Eles dizem que estão perdendo “a guerra das comunicações” . Quem se habilitar deve entrar em contato com o governo de Israel que será regiamente pago.

Indenização – Agora que já se sabe que o neto de Hitler virou judeu e vive em Israel (AQUI ) será que ele está reivindicando o direito às régias indenizações que a Alemanha está pagando aos judeus que teriam realizado trabalho escravo durante a segunda grande guerra?

Por Georges Bourdoukan
Fonte: http://blogdobourdoukan.blogspot.com/

Os EUA, o Chá e o 11/09: modernidade e regressão - por Cristina Soreanu Pecequilo (*)

Os EUA, o Chá e o 11/09: modernidade e regressão

Embora o Partido do Chá não constitua um partido oficial, represente a maioria ou detenha uma face única, sua mobilização social atrai segmentos diversos. A sua atração reside na externalização de problemas ao outro, o governo, as instituições públicas ou o diferente, sintetizado em um discurso composto pelos “antis” e pelos “prós”: anti-Estado, anti-impostos, anti-minorias, anti-direitos civis e sociais, pró-armas, pró-vida, pró-religião. O espírito é conservador, o que gera posições paradoxais: critica-se a reforma da saúde e do sistema financeiro como intrusivas, mas, ao mesmo tempo silencia-se ou apóia-se o Ato Patriota que, mais do que estes ajustes, é contrário às liberdades individuais.
O artigo é de Cristina Soreanu Pecequilo.

Para o Brasil e os Estados Unidos (EUA), o mês de setembro representa a reta final de campanhas eleitorais. Enquanto no Brasil aproxima-se o pleito presidencial, governos estaduais, senadores, deputados federais e estaduais de outubro, nos EUA observa-se o primeiro teste da Presidência Obama nas eleições de meio de mandato para o Legislativo e comando dos estados. Em setembro, ainda, os norte-americanos são lembrados de sua vulnerabilidade, confrontados pelas imagens daquela manhã do dia 11 em Nova Iorque e Washington. Porém, hoje mais do que Bin Laden, o grande personagem do pleito de novembro nos EUA parece ser o chá.

Fonte de um dos protestos mais significativos que antecedeu a Revolução de 1776, quando os colonos se recusaram a pagar impostos à metrópole britânica sobre o comércio deste bem, preferindo arremessar o produto ao mar, o chá ressurgiu no encerramento da primeira década do século XXI associado ao movimento libertário, a grande força das eleições de 2010. Por que trazer de volta estas raízes? Não estaria esta “mitologia libertária” dissociada do presente e futuro norte-americano atualmente uma potência hegemônica e não mais uma pequena colônia?

A razão para a discussão reside na redefinição dos EUA como nação, associada à reorganização de seus grupos de interesse. O fator chave deste processo é o declínio gradual da hegemonia Anglo Saxã, Branca e Protestante (WASP) que dominou a política desde os princípios da construção do país e que se encontra, desde meados dos anos 1990, pressionada pela ascensão de um país multicultural, multiracial, multi étnica e diversa religiosamente. Esta ascensão resulta da evolução da imigração, dos casamentos interraciais e da mudança do eixo sócio-econômico, caracterizado pela crise do paradigma produtivo e do American Way of Life, o empobrecimento da classe média, aumento da linha da pobreza e a concentração de renda no topo.

A alteração quantitativa e qualitativa do perfil populacional tem promovido o rearranjo das forças políticas, que se refletiu na eleição de Barack Obama em 2008. Este teria sido um momento definidor da disputa pela hegemonia interna entre o “velho e o novo” devido ao mandato popular conquistado pelo presidente. A representatividade do “novo” levaria à reavaliação do curso político do país e a formação de coalizões progressistas para a atualização estrutural da sociedade, economia e estratégia. Para muitos, era um momento comparável, só que em tempos de paz, ao da Guerra da Secessão (1861/1865) e da união nacional promovida por Abraham Lincoln entre os EUA capitalista moderno do Norte e o Sul agrário atrasado. Esta eleição, porém, foi apenas uma batalha dentro da guerra em curso, cujos sinais já se faziam presentes em 1994 quando o governo democrata de Bill Clinton foi colocado em xeque pela vitória republicana nas eleições de meio de mandato em 1994, a “Revolução do Contrato com a América”. Ao “Contrato” se seguiria a “Revolução Estratégica” preventiva e unilateral de W. Bush em 2001 e as pressões pela unanimidade e do medo pós-11/09.

E onde entra o chá em toda história? O “Partido do Chá” (Tea Party), que nos remete ao século XVIII, ligado ao Movimento Libertário, é no presente uma das grandes forças políticas em ação. Pode-se sugerir que o Movimento Libertário é minoritário, vide a votação irrelevante conquistada por Ron Paul, seu candidato à Presidência em 2008 e a quase ausência de seus membros no Legislativo e governos estaduais. A política, assim, continuaria polarizada entre os partidos Republicano e Democrata. Todavia, dada a natureza fragmentada do sistema político norte-americano que permite que o governo seja muito permeável aos grupos de interesse não se pode subestimar o impacto deste movimento e seu potencial de crescimento.

Embora o Partido do Chá não constitua um partido oficial, represente a maioria ou detenha uma face única, sua mobilização social atrai segmentos diversos. A sua atração reside na externalização de problemas ao outro, o governo, as instituições públicas ou o diferente, sintetizado em um discurso composto pelos “antis” e pelos “prós”: anti-Estado, anti-impostos, anti-minorias, anti-direitos civis e sociais, pró-armas, pró-vida, pró-religião. O espírito é conservador, o que gera posições paradoxais: critica-se a reforma da saúde e do sistema financeiro como intrusivas, mas, ao mesmo tempo silencia-se ou apóia-se o Ato Patriota que, mais do que estes ajustes, é contrário às liberdades individuais (a lógica, contudo, é a mesma de 11/09, para preservar a República, é preciso combater seus excessos e inimigos, independente dos meios). A política externa é secundária, alternando, dependendo do momento e de quem discursa posturas unilaterais, isolacionistas e intervencionistas, sob o manto do nacionalismo e do messianismo.

A força desta pauta, maximizada pela lenta recuperação econômica e disputas no topo do poder, levou ao crescimento das mobilizações e uma instrumentalização de seu vigor por republicanos que não encontram espaço entre as linhas tradicionais dominadas por Bush filho e seus aliados (e que também não querem a ela se associar por causa do fracasso da administração). A expectativa dos “novos neoconservadores” é conseguir visibilidade e massa populacional significativa para serem reconhecidos como relevantes na reorganização da direita. As eleições de meio de mandato de 2010 são o primeiro teste desta tática tanto para os que visam a presidência em 2012, como para os que apostaram neste referencial para eleger-se para o Legislativo ou governos estaduais.

Dentre os nomes conhecidos que se aliaram ao “Chá” encontram-se Sarah Palin, ex-candidata a Vice-Presidente ao lado de John McCain e Mitt Romney, que pleiteara nas primárias a indicação em 2008. Esta não é a única instrumentalização no Movimento, uma vez que parte de suas lideranças deseja usufruir da máquina do Partido Republicano para chegar a Washington apesar de suas críticas “ao sistema”.

Pode-se discordar do projeto desta corrente, como um exemplo de regressão, mas não se deve ignorar sua ressonância e as pressões que exerce sobre o centro moderado e sua capacidade de causar ruídos. Na mídia conservadora, suas aparições são cada vez mais frequentes, alternando-se com a desconstrução da imagem de Obama, que, para 20% da população é muçulmano (sem deixar de mencionar que 30% acreditam que os democratas instauraram o socialismo nos EUA).

Estes não são fenômenos recentes, mas contínuos, que se alimentam da crise, do vácuo da modernidade e do dissenso aparecendo sob formas diversas: enclaves por motivações religiosas e políticas (recusa ao reconhecimento do poder constituído do Estado), atentados contra clínicas de família para planejamento familiar e saúde da população mais pobre (e não só de aborto), preconceito contra imigrantes (legais e ilegais, vide a Lei do Arizona), formação de milicias, oposição aos direitos das minorias (contra a ação afirmativa, legislação sobre crimes de ódio, igualdade), alteração de curriculos escolares (banimento da teoria da evolução), corte no financiamento de ensino e pesquisa de temas polêmicos (células tronco), críticas ao Estado secular, uma mescla de isolacionismo e intervenção, dentre outros.

Diante destas manifestações, o 9º “aniversário” de 11/09 deve servir como uma lembrança das consequências do fundamentalismo, independente de sua origem e agenda. Mais ainda, é uma data que precisa nos remeter a outra praticamente esquecida em 2010, simbólica destas raízes de fragmentação: o 19/04/1995 e os 15 anos do atentado terrorista doméstico de Oklahoma City. Neste cenário, o ideal seria, principalmente à sombra das eleições, que a mobilização social e partidária pró-Obama detivesse a mesma vitalidade e pragmatismo que seus adversários demonstram em formar frentes políticas na defesa de seus interesses e conquista de poder.

(*) Doutora em Ciência Política e Professora de Relações Internacionais

Fonte: Carta Maior

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Um pouco sobre “classe” por Noam Chomsky

Por que você atribui tanto ônus à classe das pessoas educadas?

Porque a responsabilidade é ligada ao privilégio. Se você é mais privilegiado, é mais responsável. Tome novamente a Alemanha, os nazistas, talvez o pior período da história. Algum pobre diabo que tenha sido mandado para a frente oriental e tenha cometido atrocidades era alguém que não teve escolha. Se discordasse, seria morto pelo comandante. Mas Martin Heidegger tinha opções. Não era obrigado a escrever livros e artigos que apresentavam razões elaboradas e complicadas para o apoio aos nazistas.

As pessoas que estão em lugares como o MIT têm escolha. Têm privilégios, têm educação, têm instrução. Isso acarreta responsabilidade. Alguém que trabalha cinqüenta horas por semana para alimentar a família, chega em casa exausto à noite e liga a televisão tem muito menos opções. Tecnicamente, essa pessoa tem escolhas, mas é muito mais difícil exercê-las, e portanto ela tem menos responsabilidade. Isso é apenas elementar. As pessoas que têm privilégios, educação e instrução também são as que tomam decisões, seja no governo, nos negócios ou nas instituições doutrinárias. Sim, claro, elas são as responsáveis, muito mais do que aquelas que não têm opção.

Retirado do livro Ambições Imperiais de Noam Chomsky – Ediouro 2006

Visual Agression Attack – Covil III6 Zero dia 18/09/2010

Visual Agression Attack – Covil III6 Zero dia 18/09/2010


Nosso grande amigo Ricardo Thrasher fazendo a correria total!

Pessoas assim que fazem a diferença, proporcionando alegrias para muitos!

Thrasheira total!

Iraque: mais um país destruído pelos Estados Unidos!

Iraque: mais um país destruído pelos Estados Unidos!

O maior império destruidor do mundo os Estados Unidos saem do Iraque após sete anos de mortes e destruição.

Mais um país que fora destruído por nada, por uma mentira e por um simples fato o Petróleo.

Quem perde? Os iraquianos e a humanidade!

Provos Brasil

Por que Ocidente não ajuda o Paquistão - por Tariq Ali

Por que Ocidente não ajuda o Paquistão - por Tariq Ali
Um desastre de proporções bíblicas: as enchentes provocadas por pesadas chuvas de monções durante o mês passado, já afetaram mais de 17,2 milhões de pessoas e mataram mais de 1.500, segundo os órgãos paquistaneses que trabalham no que deveria ser o atendimento aos flagelados. Esse ano, as chuvas não pararam, razão pela qual as enchentes alcançaram as proporções que se veem. Quase 2 mil mortos e mais de 20 milhões de desabrigados. Os desastres provocados pelo homem – a guerra no Afeganistão, que respinga também no Paquistão – não bastaram. Agora, o país enfrenta também tragédias naturais. Seria difícil para praticamente qualquer governo, mas, no Paquistão, o governo está virtualmente paralisado.

Ao longo dos últimos 60 anos, a elite paquistanesa jamais conseguiu construir qualquer infraestrutura social para os paquistaneses. É defeito estrutural profundo que afeta duramente a maioria da população. Hoje, os líderes paquistaneses seguem cegamente os ditames neoliberais do FMI, como único meio de manter o fluxo de empréstimos para o país. Se para pouco servem nos bons tempos, esses empréstimos são absolutamente inúteis quando o país enfrenta a mais terrível crise humanitária das últimas décadas.

A resposta do Ocidente foi contida. Nem se pode dizer que tenha sido generosa, o que provocou pânico em Islamabad e levou jornalistas pró-EUA no país a dizer que, se não chegasse ajuda imediata, os terroristas tomariam conta do país. É completo nonsense. O Exército Paquistanês controla tudo. Grupos religiosos e outros reúnem doações em dinheiro e ajudam alguns desabrigados. Tudo normal.

Desde o 11 de Setembro, uma onda sinistra de islamofobia cresce na Europa e em partes dos EUA. Recente pesquisa de opinião na Grã-Bretanha “multicultural” revelou que, perguntados sobre o primeiro pensamento que lhes ocorria ao ouvir a palavra “Islã”, mais de 50% dos entrevistados responderam “terrorista”. E não é diferente na França, Alemanha, Holanda e Dinamarca.

Esse modo de tratar o Islã como o “outro” eterno tem a ver com as guerras no Iraque e no Afeganistão, mas é atitude tão errada quanto o antissemitismo que desencadeou preconceitos e genocídio na primeira metade do século 20. Um milhão de iraquianos morreram desde que o Iraque foi ocupado: quem liga? Civis afegãos morrem todos os dias: a culpa é deles. Paquistaneses afogam-se nas enchentes. Indiferença. Por isso, com certeza, a resposta de solidariedade ao Paquistão foi tão limitada.

Zardari junta-se ao Clube dos Sapatados, aberto por Bush
Outra das razões é doméstica. Muitos cidadãos de origem paquistanesa com os quais falei nas últimas semanas relutam em mandar dinheiro, porque temem que tudo acabe nos grandes bolsos dos corruptos que governam o Paquistão. Logo que as enchentes começaram, o presidente partiu para a Europa. Tinha de vistoriar propriedades; seu filho tinha de ser coroado futuro líder do Paquistão em Birmingham, Inglaterra.

A televisão europeia mostrava imagens de um país que se afogava, e o presidente estava a caminho, para férias em seu castelo do século 16, no interior da França. A coroação em Birmingham foi adiada. Foi demais, até para os legalistas. Zardari pronunciou um discurso impressionante, e um ancião da Caxemira, enfurecido pela quantidade de palavras sem qualquer conexão com a realidade, levantou-se e jogou um de seus sapatos contra o presidente-empresário, chamando-o de “corrupto e ladrão”. Zardari abandonou o recinto, furioso. O maior jornal do Paquistão escreveu em manchete: “Zardari junta-se ao Clube dos Sapatados, com Bush”.

Alguns manifestantes ergueram sapatos contra imagens de Zardari, outros levavam cartazes em que se lia “Milhares de mortos. O presidente tira férias” e “Os Zardaris passeiam pela Inglaterra, enquanto o Paquistão morre afogado?” Nada disso ajuda a recolher dinheiro para ajudar os flagelados.

A televisão europeia mostrava imagens de um Paquistão que tentava sobreviver à crise dos seus mais pobres, enquanto um helicóptero da Força Aérea francesa transportava o homem mais rico do Paquistão para sua mais extravagante propriedade, um castelo francês do século 16, Manoir de la Reine Blanche, com seus dois hectares de parques, lagos e florestas. Construído originalmente para a viúva do rei Philippe VI, é hoje propriedade do ‘herdeiro’ de milhares de paquistaneses mortos. Como é possível que tenha comprado um castelo na França? No Paquistão, todos sabem: com o suborno que lhe pagam empresas que investem no Paquistão.

No Paquistão, o grupo Jang, maior império de mídia do país, foi instruído pelo governo a não divulgar, pela rede GeoTV, imagens do incidente da sapatada. O grupo ignorou as instruções e, além das imagens, entrevistou o homem que atirara o sapato.

Não conseguiram dominar o YouTube. Mas os homens de Zardari tiraram do ar a rede GeoTV e outra rede, ARY, na região de Karachi e em partes de Sind. E centenas de jiyalas de Zardari – do partido de Zardari – reuniram-se à frente da sucursal da rede em Karachi, jogando pedras e sapatos. Reagiam contra a decisão do canal Geo de noticiar o incidente da sapatada.

Jornais do grupo Jang ardem, em chamas, por toda a cidade de Karachi. Não se vê nem sinal da polícia. Reação do grupo: os canais de televisão passaram a exibir clips de discursos de Benazir Bhutto defendendo a liberdade de expressão. As enchentes continuam…

Tradução: Caia Fittipaldi, Vila Vudu
Fonte: http://www.outraspalavras.net/

Surrealismo: o mundo imaginário de Ben Goossens - por Diana Guerra

Surrealismo: o mundo imaginário de Ben Goossens - por Diana Guerra

Tourmented

O manifesto lançado por André Breton em Outubro de 1924 ainda continua vivo e em constante mutação. Desta vez é Ben Goossens que, através da fotografia, explora o subconsciente com imagens surrealistas. Aquilo que Breton escreveu e Salvador Dali concretizou na pintura é agora retomado por este designer belga que trabalhou durante quase toda a sua vida profissional no mundo publicitário. Curiosamente foi a área que vive da aparência que o levou à introspecção e descoberta onírica, resultando na produção de imagens compostas e com uma aura mística.

Depois de se ter retirado do mundo publicitário, Goossens empenhou-se exaustivamente nestas fotomontagens surrealistas, que nos trazem também reminiscências de um conterrâneo seu, René Magritte. O que começou por ser um passatempo criativo tornou-se inesperadamente num trabalho premiado em várias competições internacionais de fotografia, tendo ganho medalhas de ouro e prata no Trierenberg Super Circuit, um dos concursos mais prestigiados de fotografia mundialmente.

Com 35 anos de trabalho em publicidade, 15 dos quais usando o Photoshop, Goossens vê estas fotografias experimentais como uma continuidade do seu trabalho profissional. O fingimento e perfeição inalienáveis do mundo das vendas tornaram-se na desconstrução surrealista com imagens alegóricas e segundos sentidos que nos transmitem, quer sentimentos de frustração, quer pura passividade comtemplativa.

As técnicas do automatismo e a inspiração na psicanálise de Freud podem ter décadas de existência, mas Goossens acrescenta-lhe uma temática contemporânea e um domínio preciso do Photoshop. Céus melancólicos, ponteiros que marcam a passagem do tempo e os tons cinzentos, azuis e castanhos levam-nos para o mundo dos sonhos, onde todas as coisas são possíveis, desde que existam dentro da nossa cabeça. Feche os olhos e deixe-se entrar no inconsciente de Goossens.

Revenge of the ants.

Only OPENS, when open for fantasy.

She walks alone

Stairway to heaven.

The land of antopictica (2)

Ben Goossens
Fonte: http://obviousmag.org/

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A neutralidade da internet em risco

A neutralidade da internet em risco

O acordo entre a Verizon e a Google para um uso da Internet a duas velocidades pode significar o fim da rede como é atualmente. Para Josh Silver, da Free Press, a Google junta-se às fileiras das más empresas que fazem tudo para lucrar às custas do consumidor.
Por Redação:30 de agosto de 2010

Os gigantes das telecomunicações (nos Estados Unidos) e da internet, Verizon e Google, parecem ter chegado a um acordo para impor um sistema por níveis para ter acesso à rede. O negócio permitiria que a Verizon cobrasse por um acesso mais rápido aos conteúdos online em aparelhos de internet móvel, o que representa uma violação do conceito de neutralidade que significa um acesso igual a todos os serviços. O acordo surge de reuniões a portas fechadas entre a Comissão Federal de Comunicações (FCC) e as gigantes das telecomunicações para a criação de novas regulamentações.

Juan Gonzalez: Hoje começamos com notícias acerca do acordo entre as gigantes da internet e das telecomunicações, Google e Verizon, que muitos receiam que possa acabar com a internet como a conhecemos. Foi noticiado que as duas empreas teriam chegado a um acordo para impor um sistema nivelado de acesso à internet, o que permitiria à Verizon cobrar por um acesso mais rápido aos conteúdos através dos aparelhos portatéis. Isto representa uma violação da neutralidade da net – um acesso igual a todos os conteúdos.

Ambas as empresas negaram que estariam a chegar a tal acordo que levaria a uma “internet de duas categorias.” Em declarações, tanto a Google como a Verizon, reiteraram o compromisso de uma Internet aberta.

Amy Goodman: Entretanto, a FCC cancelou as reuniões à porta fechada com as duas gigantes para a criação de novas regulamentações e prometeu procurar mais opiniões. O presidente da FCC, Julius Genachowski, disse: “Qualquer resultado, qualquer acordo que não preserve a liberdade e abertura da internet para consumidores e empreendedores será inaceitável.”

Para entender melhor esta questão, é nosso convidado, a partir de Chicopee, Massachusetts, a presença de Josh Silver, o diretor-executivo da Free Press, (freepress.net), uma organização para a reforma dos media nacionais.

Bem-vindo ao Democracy Now!, Josh.

JOSH SILVER: Obrigado.

AMY GOODMAN: Quais são as suas principais preocupações e quais são as últimas novidades acerca do eventual acordo?

JOSH SILVER: Bom, antes de responder a essa questão, queria voltar a esta ideia de neutralidade da internet sobre a qual muitos norte-americanos, espectadores e ouvintes do vosso programa, provavelmente pensarão: “isto é para aficionados (geeks).” A razão pela qual a neutralidade importa – tem sido a lei desde que a internet foi criada há quarenta anos – é o fato de este princípio declarar que qualquer conteúdo está disponível a qualquer velocidade, seja a ABC News a enviá-lo ou o Democracy Now!, seja ainda o vídeo do casamento do vosso primo. E o cerne da questão é compreender que à medida que a velocidade da internet aumenta, iremos ver os média todos – televisão, rádio, serviços telefónicos, tecnologias emergentes – a serem acessíveis através da net. Qualquer sítio poderá tornar-se uma rede de televisão ou de rádio. É uma mudança das regras do jogo que alarga o acesso e a distribuição dos conteúdos. Então, quando há alterações de políticas, como o acordo Google-Verizon que iremos abordar hoje, temos um efeito profundo sobre se esta oportunidade revolucionária será aproveitada ou deitada ao lixo.

Agora, com este negócio entre a Google e a Verizon, damos um passo atrás. Primeiro, os EUA estão colocados atrás de outros países no que diz respeito à velocidade e acesso à internet. Passamos de quarto para 22º nos último dez anos, devido a políticas falhas, o mesmo tipo de políticas que nos levou à crise financeira, o mesmo tipo de políticas que nos levou ao derrame do Golfo do México, uma espécie de "dizer governamental": “Força, indústria. Façam aquilo que quiserem.” E adivinhem? Os consumidores ficaram com a parte má do negócio.

Em abril deste ano, aconteceu uma coisa espantosa. Devido às medidas da FCC da era Bush, a actual FCC ficou desprovida de toda a autoridade para regular não apenas a internet mas também todos os seus fornecedores – uma distinção importante. Já não podem dizer: “Verizon, AT&T, isso não é justo. Não podem escalonar os preços. Não podem bloquear indiscriminadamente os conteúdos.” E isto surge nos bastidores de um presidente – Barack Obama – que, durante a campanha disse: “Eu sou um firme defensor da neutralidade da internet,” e depois designou como presidente da FCC, que ainda mantém o cargo, Julius Genachowski, que, como disse, admitiu ser um apoiador da neutralidade. Mas tudo começou a ficar muito estranho.

Durante os últimos meses, o presidente Genachowski chamou os líderes da indústria ao seu gabinete, sem grupos de interesse público, e declarou: “Não vou mexer uma palha para reaver a autoridade da minha agência, mesmo sendo uma coisa fácil de fazer. Em vez disso, vou pedir aos agentes do ramo para chegar a um acordo e criar um compromisso com o qual todos possamos viver. Não vou preocupar-me assim tanto com os grupos de interesse público.” Pelo menos foi o que deu a entender.

Estamos assim num limbo, onde o presidente da FCC não faz nada. Ele não luta pela autoridade da sua agência, que é necessária para proteger a neutralidade da rede, trazer concorrência e fazer baixar os preços, e proporcionar banda larga universal para cada americano. E temos a Google e a Verizon que, no meio disto tudo, anunciaram esta semana um acordo surpreendente – havia rumores acerca do mesmo, mas ninguém pensou que fosse acontecer tão cedo – um acordo que essencialmente diz o seguinte: “Ok, não haverá problema se bloquearmos ou abrandarmos alguns conteúdos no espaço wireless. E nas ligações fixas às casas e às empresas, poderemos arranjar qualquer coisa como `serviços administrados`, os quais permitem discriminar os conteúdos conforme a nossa vontade.” E parte do mais extraordinário, a Google, que nos últimos cinco anos, durante esta épica batalha pela neutralidade, colocou-se do lado dos grupos de interesse público e de outras companhias como a Skype, a Amazon e eBay, entre outras, para apoiar a neutralidade e os consumidores.

JUAN GONZALEZ: Josh, quero interrompê-le por um instante. Antes de irmos ao acordo Google-Verizon, queria recuar um bocadinho e falar sobre o problema da neutralidade, como referiu. O argumento das empresas de telecomunicações tem sido – e também as empresas de cabo – “Ei, estes são os nossos cabos. Por que razão não se deve cobrar mais àqueles que enchem a rede e que a usam mais?

JOSH SILVER: Bem, eis o problema, Juan. Nos EUA, temos um mercado incrivelmente não competitivo. Como resultado, pagamos – o consumidor americano paga – muito mais dinheiro por serviços bem mais lentos que em países como a Dinamarca, o Japão, a França ou a Inglaterra. Portanto, o que temos é um mercado sem concorrência, com dois ou três fornecedores de 97 ou 98% do mercado nacional. Assim os consumidores não têm escolhas. Se, digamos, que o seu servidor Verizon está bloqueando ou abrandando o tráfego, e você não gosta, não tem escolha. Este é o problema número um. Número dois, perder a neutralidade permitirá a estas empresas priorizar algum tráfego – por exemplo, vídeo – e `despriorizar` outro. Desta forma, a internet tornar-se-ia como a televisão por cabo, na qual a Verizon, a AT&T, a Comcast e a Time Warner decidem o que é rápido, quanto custa e quem é lento. Surgem então exactamente o mesmo problema que com o cabo, falta de acesso e distribuição para pessoas comuns.

JUAN GONZALEZ: Acha que poderá ter havido alguma ingenuidade ou erros por parte dos defensores dos consumidores nesta aliança que tem existido desde há vários anos com empresas como as Google e eBays deste mundo; que havia uma sensação de que eles iriam agir corretamente no que diz respeito à neutralidade? O preço que aceitaram foi aparentemente oferecido pela Verizon e agora estão dispostos a abandonar aqueles grupos e avançar para um acordo com as empresas de telecomunicações?

JOSH SILVER: Penso que não. Na altura foi com certeza uma decisão táctica esperta. Recorda, tínhamos um candidato presidencial Obama que dizia literalmente, “Eu não vou pôr em causa a neutralidade da internet.” São palavras fortes. De repente, temos estas poderosas figuras da indústria a dizerem o mesmo e concordarem com a política que o interesse público queria. Todos pensaram que, quando o Julius Genachowski assumiu a presidência da FCC, depressa aprovaria uma norma e resolver o assunto, concretizando as promessas do presidente. É um testemunho do lóbi massivo por parte das empresas de telefone e cabo que aconteceu e que explica o porquê deste presidente da comissão não fazer nada, o que não deixa de ser surpreendente. Todos julgámos que não haveria problema algum nos dias de hoje. Ninguém esperava o caso judicial que em Abril retirou autoridade à agência. Agora muitos não referem o facto de que seria muito fácil para o presidente Genachowski – ele tem os votos – afastar aquilo que se chama a reclassificação da autoridade da agência, ele poderia restabelecê-la e o assunto estaria resolvido.

E o mais alarmante, Juan, é o facto de estarmos a assistir ao mesmo tipo de regulamentação e medidas que vimos antes da crise financeira, e o mesmo tipo de supervisão que vimos no derrame petrolífero. É o mesmo, dinheiro na política que controla os corredores de Washington. Em algum momento teremos de parar, porque se não conseguimos lidar com este problema e com o do financiamento das campanhas, se não conseguimos assegurar qualidade no jornalismo e acesso à informação, não temos democracia. Não funcionará. E essas são as duas questões da nossa democracia. Felizmente, há sempre algo que se pode fazer, no problema da internet em particular. Pode ir a savetheinternet.com. Pode agir e juntar-se a milhões de pessoas que percebem o que está a acontecer e estão a envolver-se.

JUAN GONZALEZ: E a maioria democrata no Congresso? Há alguma esperança de que intervenha, corrija o que se passa e imponha limites a estes acordos?

JOSH SILVER: A razão pela qual o Congresso não pode agir é a mesma pela qual a lei dos cuidados de saúde está cheia de lacunas. A indústria das telecomunicações está em segundo lugar, sendo apenas batida pela indústria farmacêutica, em gastos públicos. Eles controlam Washington, e isso é bem sabido na cidade. O fato é que houve apenas um voto republicano contra a FCC ter poderes sobre os fornecedores de internet. E tivemos 74 democratas dizendo não a estes mesmo poderes. São pessoas que estão agindo conforme o que as empresas mandam. Então, se deixamos isto ao Congresso, poderemos estar certos de que, a haver legislação, também esta estará cheia de lacunas e os consumidores pagarão por isso.

AMY GOODMAN: Finalmente, a Google está negando tudo isto. Dizem: “não tivemos conversações nenhumas com a Verizon acerca de pagamentos para transporte de tráfego da Google. Permanecemos comprometidos como sempre para manter uma internet aberta.” A sua resposta, Josh Silver?

JOSH SILVER: São negativas falsas, mas esperadas. É de notar que são também muito opacas. São declarações curtas e mensagens no Twitter. O que a Google está realmente dizendo é: “Não queremos vender cigarros a meninos de 9 anos, mas queremos ter a possibilidade de vender cigarros a meninos 9 anos caso decidamos nesse sentido.” Esta é a analogia que podemos usar.

AMY GOODMAN: E o slogan da Google: “Não faças mal”?

JOSH SILVER: Penso que está acabado. A era da Google que não fazia mal terminou com este acordo. Agora, há a possibilidade de ele mudarem os termos do acordo que tem ainda de ser anunciado, mas se forem avante com isto, a Google juntar-se-á às fileiras das más empresas que fazem tudo para lucrar à custa do consumidor.

AMY GOODMAN: Josh Silver, presidente e director-executivo da Free Press (freepress.net) queremos agradecer-lhe por teres estado connosco.

Traduzido de Democracy Now. Veja o vídeo desta entrevista (em inglês).

Tradução de Sofia Gomes para o Esquerda.net. Foto por http://www.flickr.com/photos/sinistraeliberta/.
Fonte:http://www.revistaforum.com.br/

Cinco anos da tragédia de New Orleans e do fracasso da FEMA

Cinco anos da tragédia de New Orleans e do fracasso da FEMA

Carlos Drummond De Campinas (SP)

Cinco anos depois de New Orleans ser arrasada pelo furacão Katrina e, na sequência, virtualmente abandonada pelo governo de George Walker Bush, a cidade dos Estados Unidos se reergue lentamente e, em grande medida, por esforço próprio. O governo Obama prometeu auxílio, mas até agora nenhuma mudança fundamental ocorreu no sistema institucional de ações emergenciais em catástrofes do gênero. O desmonte ou enfraquecimento extremo do aparelho do estado americano nos anos do primado neoliberal incluiu o esfrangalhamento da agência ambiental FEMA (Federal Emergency Management Agency), fato que agravou em muito as consequências do desastre de 2005.

O virtual aniquilamento da agência ambiental não resultou, no entanto, da incompetência do Estado, conforme a interpretação liberal. A falta de eficiência existiu, não como fruto natural do aparelho público, mas em decorrência da inanição financeira e do raquitismo político impostos pela supremacia do dinheiro à lógica de funcionamento de todas as instituições não privadas.

As agências regulatórias já tiveram mais poder e efetividade de ação. A própria FEMA, no início do milênio, era uma agência eficiente. Até que Bush decidiu, em 2000, entregá-la a um cupincha político sem experiência em catástrofes naturais e outros tipos de desastre. O posto foi apenas um trampolim para ele lançar-se, dois anos depois, à montagem de um promissor escritório de lobby de empresas especializadas na atuação em desastres e grandes projetos de reconstrução. Longe de ser um gesto isolado, a demissão parece ter funcionado como uma senha. Quatro anos mais tarde, dois terços dos principais quadros da FEMA haviam saído para trabalhar nessas empresas ou em escritórios de lobby.

As imagens dos mortos e dos trinta mil desabrigados em desespero no ginásio Superdome retrataram com força o fracasso completo da FEMA, mas a história recente mostra que a decadência de todo o aparato regulatório americano foi um desastre previsível a partir do estrangulamento desse sistema, ditado pelo interesse privado. O mesmo que proporcionou gordo faturamento às empresas especializadas em desastres e aos escritórios de lobby quando News Orleans submergiu.
Carlos Drummond é jornalista.
carlos_drummond@terra.com.br
Fonte: Terra Magazine

domingo, 29 de agosto de 2010

DENÚNCIA: SÍTIO CALDEIRÃO, O ARAGUAIA DO CEARÁ – UMA HISTÓRIA QUE NINGUÉM CONHECE PORQUE JAMAIS FOI CONTADA

DENÚNCIA: SÍTIO CALDEIRÃO, O ARAGUAIA DO CEARÁ – UMA HISTÓRIA QUE NINGUÉM CONHECE PORQUE JAMAIS FOI CONTADA
“As Vítimas do Massacre do Sítio Caldeirão têm direito inalienável à Verdade, Memória, História e Justiça!” Otoniel Ajala Dourado

O MASSACRE DELETADO DOS LIVROS DE HISTÓRIA
No município de CRATO, interior do CEARÁ, BRASIL, houve um crime idêntico ao do “Araguaia”, foi a CHACINA praticada pelo Exército e Polícia Militar em 10.05.1937, contra a comunidade de camponeses católicos do SÍTIO DA SANTA CRUZ DO DESERTO ou SÍTIO CALDEIRÃO, cujo líder religioso era o beato “JOSÉ LOURENÇO GOMES DA SILVA”, paraibano negro de Pilões de Dentro, seguidor do padre CÍCERO ROMÃO BATISTA, encarados como “socialistas periculosos”.

O CRIME DE LESA HUMANIDADE
O crime iniciou-se com um bombardeio aéreo, e depois, no solo, os militares usando armas diversas, como metralhadoras, fuzis, revólveres, pistolas, facas e facões, assassinaram na “MATA CAVALOS”, SERRA DO CRUZEIRO, mulheres, crianças, adolescentes, idosos, doentes e todo o ser vivo que estivesse ao alcance de suas armas, agindo como juízes e algozes. Meses após, JOSÉ GERALDO DA CRUZ, ex-prefeito de Juazeiro do Norte/CE, encontrou num local da Chapada do Araripe, 16 crânios de crianças.

A AÇÃO CIVIL PÚBLICA PROPOSTA PELA SOS DIREITOS HUMANOS
Como o crime praticado pelo Exército e Polícia Militar do Ceará é de LESA HUMANIDADE / GENOCÍDIO é IMPRESCRITÍVEL conforme legislação brasileira e Acordos e Convenções internacionais, a SOS DIREITOS HUMANOS, ONG com sede em Fortaleza – CE, ajuizou em 2008 uma Ação Civil Pública na Justiça Federal contra a União Federal e o Estado do Ceará, requerendo: a) que seja informada a localização da COVA COLETIVA, b) a exumação dos restos mortais, sua identificação através de DNA e enterro digno para as vítimas, c) liberação dos documentos sobre a chacina e sua inclusão na história oficial brasileira, d) indenização aos descendentes das vítimas e sobreviventes no valor de R$500 mil reais, e) outros pedidos

A EXTINÇÃO SEM JULGAMENTO DE MÉRITO DA AÇÃO
A Ação Civil Pública foi distribuída para o Juiz substituto da 1ª Vara Federal em Fortaleza/CE e depois, para a 16ª Vara Federal em Juazeiro do Norte/CE, e lá em 16.09.2009, extinta sem julgamento do mérito, a pedido do MPF.

RAZÕES DO RECURSO DA SOS DIREITOS HUMANOS PERANTE O TRF5
A SOS DIREITOS HUMANOS apelou para o Tribunal Regional da 5ª Região em Recife/PE, argumentando que: a) não há prescrição porque o massacre do SÍTIO CALDEIRÃO é um crime de LESA HUMANIDADE, b) os restos mortais das vítimas do SÍTIO CALDEIRÃO não desapareceram da Chapada do Araripe a exemplo da família do CZAR ROMANOV, que foi morta no ano de 1918 e a ossada encontrada nos anos de 1991 e 2007;

A SOS DIREITOS HUMANOS DENUNCIA O BRASIL PERANTE A OEA
A SOS DIREITOS HUMANOS, como os familiares das vítimas da GUERRILHA DO ARAGUAIA, denunciou no ano de 2009, o governo brasileiro na Organização dos Estados Americanos – OEA, pelo DESAPARECIMENTO FORÇADO de 1000 pessoas do SÍTIO CALDEIRÃO.

QUEM PODE ENCONTRAR A COVA COLETIVA
A “URCA” e a “UFC” com seu RADAR DE PENETRAÇÃO NO SOLO (GPR) podem localizar a cova coletiva, mas não o fazem porque para elas, os fósseis de peixes do “GEOPARK ARARIPE” são mais importantes que as vítimas do SÍTIO CALDEIRÃO.

A COMISSÃO DA VERDADE
A SOS DIREITOS HUMANOS em julho de 2010 passou a receber apoio da OAB/CE pelo presidente da entidade Dr. Valdetário Monteiro, nas buscas da COVA COLETIVA das vítimas do Sítio Caldeirão, e continua pedindo aos internautas divulguem a notícia, bem como a envie para seus representantes no Legislativo, solicitando um pronunciamento exigindo do Governo Federal a localização da COVA COLETIVA das vítimas do SÍTIO CALDEIRÃO.

Paz e Solidariedade,
Dr. Otoniel Ajala Dourado
OAB/CE 9288 – 85 8613.1197
Presidente da SOS – DIREITOS HUMANOS
Editor-Chefe da Revista SOS DIREITOS HUMANOS
Membro da CDAA da OAB/CE
www.sosdireitoshumanos.org.br
sosdireitoshumanos@ig.com.br
http://revistasosdireitoshumanos.blogspot.com

sábado, 28 de agosto de 2010

Charge do dia!


Fonte: http://blogdolute.blogspot.com/

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Genocídio: Ibama apreende 1,4 t de barbatanas de tubarão irregulares no Pará

Ibama apreende 1,4 t de barbatanas de tubarão irregulares no Pará

O Ibama no Pará apreendeu 1,4 tonelada de barbatanas de tubarão obtidas, segundo o órgão, por meio da pesca predatória.

A apreensão ocorreu na quinta-feira (26) em uma empresa exportadora de Belém. A carne, avaliada em R$ 80 mil, iria para Hong Kong (China), onde a barbatana tem a fama de, quando ingerida, provocar efeitos afrodisíacos. A empresa também foi multada em R$ 128 mil.

Segundo os fiscais, ela não conseguiu comprovar que, originalmente, o resto da carne dos tubarões dos quais as barbatanas foram cortadas também foi comercializado.

Isso caracteriza uma prática chamada de "finning", na qual apenas as barbatanas (de maior valor comercial) são cortadas, e o animal é jogado de volta na água.

Alguns conseguem sobreviver, ainda que temporariamente.

A exploração predatória de tubarões por parte de outra empresa de Belém levou uma ONG a entrar com uma ação pedindo indenização de R$ 1,3 bilhão pelos supostos danos ambientais.

Essa outra empresa comercializou ilegalmente 24 toneladas de barbatanas, referentes a aproximadamente 280 mil tubarões, segundo estimativa da ONG.

Seguindo essa proporção, para obter a 1,4 tonelada apreendida foi preciso matar mais de 16 mil tubarões.

Fonte: Bol notícias

A sina do esquecimento brasileiro!