domingo, 12 de setembro de 2010

A essência das candidaturas excêntricas - por Danilo Mekari

A essência das candidaturas excêntricas - por Danilo Mekari

Com chances reais de serem eleitos, alguns candidatos sem-proposta ganham espaço na mídia. É um sinal de que, para ganhar votos, mais vale ser e agir como uma celebridade do que expor propostas políticas – tudo isso com o aval dos partidos, que veem neles uma chance de ouro para eleger seus representantes

Tetraneto do Zumbi dos Palmares, Nelson Mandela, Barack Obama e Bin Laden. A semelhança entre esses nomes que remetem a pessoas de diferentes continentes é bem simples: uma vaga na Câmara dos Deputados do Brasil.
Tais candidatos buscam se eleger como deputados federais – com exceção de Adolphino Rosário Cruz, quer dizer, Nelson Mandela, que concorre a deputado estadual. Os partidos e apelidos variam, mas um detalhe que se torna cada vez mais regular nas eleições legislativas do país é a presença de figuras cômicas e esdrúxulas como uma ferramenta eficaz para galgar votos na legenda dos partidos ou até mesmo ser eleito representante do povo brasileiro.
Nessa lista ainda entram outros personagens, de ex-jogadores de futebol a artistas (a maioria em decadência) que, para se elegerem, contam muito mais com sua popularidade país afora do que com propostas políticas. Nesse sentido, a campanha televisiva de Tiririca virou referência justamente por questionar o papel do deputado federal, no que o debochado cantor responde: “Não sei, mas vote em mim que eu te conto!”.
Há uma importante questão a ser levantada: qual é a legitimidade desses candidatos? Estão corretos em sua tentativa, já que, na teoria, a política deve ser feita pelo povo? Ou expõe de maneira sarcástica a situação da política no Brasil?
Para a cientista política Maria do Socorro Braga, professora da Universidade Federal de São Carlos, essas candidaturas são uma estratégia dos partidos para ganhar votos e, consequentemente, um maior espaço na Câmara e nas Assembléias. “É uma forma de atingir diferentes públicos, principalmente o popular, ou seja, os setores mais humildes que se identificam com essas pessoas. Esse é o objetivo dos partidos”, argumenta. E arremata: “A questão de que a política deve ser feita pelo povo não deixa de ter um certo sentido, mas a verdade é que isso não passa de uma estratégia das lideranças partidárias para atrair votos dos setores populares para tais candidaturas”.

Cantar ou legislar?
Recentemente essa estratégia vem sendo adotada em maior número e grau. É o caso de Suéllem Rocha, conhecida como Mulher Pêra, que só pensou em se candidatar a deputada federal após ser convidada pelas lideranças do PTN (Partido Trabalhista Nacional). “Recebi o convite do presidente do partido. Como faço shows pelo Brasil inteiro, fiz uma enquete perguntando em quem a galera votaria. E ninguém sabia responder, não tinham um candidato em mente. Aí perguntei: se me candidatar, vocês votam em mim? Todo mundo me apoiou”, conta a dançarina. Ela ainda revelou que, se eleita, não deixará os palcos de lado: “Sempre gostei de cantar. Vou tentar medir os dois lados. Se não der, eu paro, vou fazer o quê?”. Pára de cantar ou de ser deputada? “Paro de cantar”.
A candidatura de Mulher Pêra à Câmara dos Deputados evidencia um sintoma da atual prática política brasileira: há um número considerável de candidatos que, ao invés de expor suas propostas, pensam antes em ser eleitos para então se sustentar em alguma plataforma política. “Hoje, existe a dificuldade para o próprio candidato em eleger uma bandeira específica a qual representar. Está havendo uma redução dessa defesa de programas políticos, principalmente para deputados estaduais e federais”, reconhece Socorro.

A televisão tem culpa
O horário eleitoral gratuito foi criado nos primeiros anos da ditadura militar, em 1965, com o objetivo de permitir que os candidatos concorrentes apresentem seus projetos políticos dentro das programações de televisão e rádio. Mas, na prática, a concorrência está longe de ser justa – os partidos têm diferentes tempos de exposição, que variam conforme a representatividade no legislativo e de acordo com as coligações partidárias estabelecidas.
O que vemos nessas propagandas eleitorais é uma miscelânea de nomes, números e pessoas – no punhado de segundos a que têm direito, parece que todos repetem a mesma frase. Segundo a professora, entretanto, as estratégias podem variar: “Alguns partidos concentram o tempo que têm naqueles candidatos considerados puxadores de votos. Outros se vêem obrigados a encurtar o texto de apresentação, que na maioria das vezes vai ser só uma propaganda de seu número e também dos candidatos majoritários – ‘vote em deputado tal, porque juntos vamos governar o país. Com Serra presidente, Alckmin governador e Quércia senador’. Ele usa o seu próprio tempo para propagar outras candidaturas”.
Se o tempo televisivo não permite ao candidato expor suas idéias políticas de um jeito mais claro e objetivo, existem outros meios para que ele possa fazê-lo; atualmente, a criação de blogs e sites em torno das candidaturas é uma maneira eficaz e propícia para a divulgação de projetos. Manter-se refém dos poucos intervalos televisivos significa falar seu nome e número para o eleitor, e só. “Em termos de qualidade para a democracia brasileira, o advento do horário eleitoral gratuito foi importante e é preciso que ele continue, pois é dada a mesma oportunidade para pequenos e grandes partidos, todos tem um espaço”, opina Socorro. “Mas é claro que essa igualdade acaba sendo diluída quando você vai desenvolver os programas; obviamente, quem tem mais recursos acaba tendo programas mais elaborados, com mais tempo; isso vira uma bola de neve e vai ajudando a criar uma espécie de cartel entre quatro ou cinco partidos que controlam tudo”.

Obama brasileiro
A importância que os candidatos dão à sua própria imagem refere-se muito ao curto espaço de tempo que eles têm na televisão. E para chamar a atenção vale de tudo: desde nomes e apelidos esquisitos até criar identidades com pessoas mundialmente conhecidas. O baiano Ananias Rodrigues da Silva resolveu aproveitar sua semelhança com o atual presidente americano para se candidatar a deputado federal pelo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro). Obama Brasil, seu apelido, revela que virou candidato “por causa do negócio de ser sósia do Obama. A gente aproveitou o nome e lançou a candidatura”. E continua: “Se você não tem nome, até você fazer um é difícil. Trabalhando com um nome conhecido fica muito mais fácil, né?”.
O Obama brasileiro acredita que a política de seu país tem se destacado nos últimos anos, mas que, mesmo assim, muita gente ainda não a leva a sério. Mas não especificou quais são as suas propostas: “Tenho que pensar num trabalho para o Brasil. Nós temos um trabalho de reforma da saúde e da educação – percebemos que se faz, mas o crescimento não está de acordo com o que poderia ser”.
Segundo ele, a semelhança com o presidente americano não é apenas física. Com voz grave e séria, revelou que “quando o Obama apareceu, eu fui ver a história dele e percebi que é parecida com a minha. Ele era presidente de associação, coisa que também sou há muitos anos; sou presidente de um trabalho religioso há muito tempo, assim como ele; Obama tem duas filhas, eu também tenho duas filhas; ele tem um trabalho social, foi criado sem pai nem mãe... Ele é um cara que não desiste, e eu também sou um cara que não desiste. Então eu pensei em fazer essa história de sósia, porque a semelhança é muito grande”. Quando perguntado sobre as chances de ser eleito, Obama Brasil demonstrou um dos porquês do apelido: “Se você entra numa guerra, quer sair como vencedor, né?”.

Reforma política?
Se a televisão tem papel fundamental para o surgimento e expansão desse tipo de candidatura – ou melhor, o pouco tempo na televisão –, o que precisa ser feito para inverter essa lógica de eleger um candidato por sua popularidade e não por suas propostas? Para Socorro, “a questão da representatividade é o princípio que vai balizar essa discussão, e todo o argumento é nesse sentido: quanto maior é a representatividade, maior o tempo na TV, maior os recursos etc. E acabamos tendo um debate reduzido às grandes organizações; os pequenos partidos têm maior dificuldade em aparecer”. A professora não acredita que tal questão possa ser pautada numa eventual reforma política. “A reforma depende muito da vontade política dos grupos que estão no poder e não me parece que eles têm muito interesse em fazer uma mudança profunda. Vai ser pontual de novo”.

Até que ponto o crescimento em número dessas candidaturas excêntricas é uma forma de protesto aos políticos e à política de “antigamente”? Uma enxurrada de candidaturas sem referências políticas, muito menos propostas inteligíveis, é um evidente sintoma de que esse modo de organização democrática está doente.

Danilo Mekari integra a equipe do Le Monde Diplomatique Brasil
Fonte: Le Monde Brasil

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Afeganistão: soldados matavam civis “por esporte”

Afeganistão: soldados matavam civis “por esporte”
(Chico Villela) Além de matar civis escolhidos ao acaso, costumavam posar para fotos ao lado dos cadáveres, e um dos soldados euamericanos colecionava um dedo de cada vítima como lembrança.

O coletivo Wikileaks de denúncias de atos aéticos e criminosos de governos e corporações revelou recentemente cerca de 75 mil registros militares e diplomáticos da guerra do Afeganistão. Uma das revelações mais impactantes foi a da existência de comandos da CIA/Pentágono, Task Force 373, dedicados a assassinatos de inimigos.

A Task Force 373 deriva de um grupo de elite, Joint Special Operations Command, JSOC, formado em 1980 no âmbito do Comando de Operações Especiais das forças armadas dos EUA. Suas atribuições incluíam harmonização de técnicas e equipamentos, e planejamento e treinamento para operações especiais. Com a chegada dos neocons fascistas e seus representantes Cheney-Bush, comandos do JSOC foram transformados em comandos de assassinatos de “inimigos” mundo afora, sob controle direto do gabinete do você-presidente. Este ano, BHObama estendeu seu direito de morte a cidadãos do país “suspeitos” de terrorismo.

No Afeganistão, os comandos da Task Force 373 só agem à noite, apoiados por armamento pesado e helicópteros, e seu resultado registrado até então era de algumas dezenas de combatentes e milhares de civis inocentes mortos, a maioria de mulheres e crianças.

Agora surge numa base militar da província sulista de Kandahar uma notícia paralela, divulgada em primeira mão no mundo pelo jornal inglês Guardian. Cinco soldados da brigada de infantaria de combate Ramrod, com apoio de outros sete, dedicavam-se a assassinar civis escolhidos ao acaso. As acusações oficiais vão além: posavam para fotos ao lado dos cadáveres e um deles colecionava um dedo de cada vítima como lembrança.

A história teve início com a chegada do sargento Calvin Gibbs, vindo do Iraque. Gibbs em pouco tempo convenceu alguns colegas ao falar sobre o prazer que sentia quando assassinava civis indefesos no Iraque durante patrulhas. Os assassinos também foram acusados por colega, que foi severamente agredido por eles, de fumarem haxixe apreendido com um civil morto. Segundo o denunciante, a posse e o uso da droga eram comuns entre eles, e a denúncia foi detonada após surpreender os soldados fumando haxixe no contêiner que lhe servia de casa.

A cena militar, mesmo restrita, expõe o padrão ético e moral que reina entre as tropas de combate do império decadente. A questão tem de ser vista desde a origem. As forças armadas dos EUA são profissionalizadas, e o recruta enxerga o serviço militar como carreira para a vida. As compensações são atraentes: pagamentos sólidos, assistência médica e psicológica, moradia, possibilidade de estudar, etc.

Um mote recorrente no país é de que os soldados são em maioria pessoas que, ou não tiveram outras chances, ou ‘não deram certo’ na sociedade. O nível de formação e informação é mínimo. E a brutalidade das guerras de invasão do império, ou pedem soldados empedernidos, ou tornam seus combatentes insensíveis à maioria dos temas éticos e sociais da época.

Outra explicação para a miséria moral das forças euamericanas é que, com falta de tropas nos muitos teatros de guerras de agressão pelo mundo afora, as exigências para o recrutamento têm sido drasticamente rebaixadas. Há notícias de centenas de skinheads que entram atualmente para as tropas com o intuito de praticar suas inclinações de selvageria e violência na guerra. Também imigrantes vêem uma chance de regularizar sua situação no país e tornarem-se cidadãos.

Mais um troféu legítimo para o governo BHObama pós-Cheney-Bush. As penas possíveis, se condenados em corte marcial, será a morte ou a prisão perpétua. O que não deixa de ser ironia: a morte sistemática de civis pela Task Force 373 em quase nada difere da campanha dos assassinos em foco. Talvez o prazer seja menor…

Fonte: http://novae.inf.br/

Charge do dia!


Fonte: http://blogdolute.blogspot.com/

Matança autorizada: Lobos estão sendo cruelmente mortos nos EUA - por Giovanna Chinellato

Matança autorizada
Lobos estão sendo cruelmente mortos nos EUA - Por Giovanna Chinellato (da Redação)

Agências do governo estão buscando novas alternativas para impedir a matança ou o deslocamento de lobos em Northern Rockies e Great Lakes, nos EUA, apesar de duas ações da Corte que restauraram o status de espécie ameaçada em todos os estados exceto Alasca e Minnesota.

Várias propostas incluem matar filhotes nas tocas, cirurgicamente esterilizar lobos adultos e permitir que caçadores diminuam o número de predadores.

Apesar de serem envenenados à quase extinção nos outros 48 estados, os lobos ressurgiram significativamente nas últimas décadas sob proteção do Ato de Espécies Ameaçadas. Mas os caçadores estão novamente ameaçando acabar com a espécie.

Segundo o portal MSNbc, oficiais da Vida Selvagem justificam a matança dizendo que sem a caça, eles precisariam de outras medidas para eliminar o “problema” das matilhas.

“Conforme aumenta o número de lobos, a caça e o deslocamento de animais também vão aumentar. É bem lógico”, disse Mark Collinnge, diretor de serviços da vida selvagem de Idaho, o ramo do Departamento de Agricultura dos EUA que extermina covardemente os lobos, normalmente atirando neles de um helicóptero.

Mas conservacionistas e defensores dos animais acreditam que a resposta à superpopulação de lobos é cruel demais. Eles lembram que a espécie em geral continua sob risco de extinção.

“As atitudes que eles vêm tomando é um tremendo retrocesso, voltando à época em que a mesma agência estava sufocando filhotes com gás em suas tocas e mandando iscas envenadas, ou colocando armadilhas”, disse Michael Robinson do Centro de Diversidade Biológica.

No mínimo 1.700 lobos agora habitam Idaho, Montana e Wyomind. Existem mais de 4.000 em Michigan, Wisconsin e Minnesota. Novas populações estão tomando Oregon e Washington, e lobos foram vistos no Colorado, Utah e Nova Inglaterra.

Alguns dos habitats mais remotos estão ficando saturados de lobos. Como resultado, as matilhas precisam ir para áreas agrícolas ou residenciais onde animais domésticos são isca fácil.

Uma das propostas mais cruéis- enterrar filhotes vivos nas tocas e então envenená-los com monóxido de carbono – seria usada em casos em que o resto da matilha tivesse sido morto por caçar animais de fazenda, dizem os oficiais.

Práticas mais comuns envolvem, ainda, atirar os animais de um helicóptero, o que tende a acontecer cada vez mais.
Fonte: http://www.anda.jor.br/

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Eleições 2010: Vote Varg Vikernes



Fonte: http://www.hornsup.net/

Vergonha brasileira: Primus tocará na Argentina e não no Brasil, cadê os organizadores brazucas?

Vergonha brasileira: Primus tocará na Argentina e não no Brasil, cadê os organizadores brazucas?

PRIMUS IN SOUTH AMERICA: Buenos Aires Show Announced For December 3rd!
December 3, 2010
Estadio Cubierto Malvinas Argentinas, Gutemberg 360, Buenos Aries, Argentina.

Tickets On Sale September 10th

Charge do Dia!



Fonte: http://chargesbruno.blogspot.com/

O nacionalismo voltou - por Antonio Luiz M.C.Costa

O nacionalismo voltou

Os industriais brasileiros mostram-se incomodados com a concorrência dos produtos da China há tempos, mas a recente manifestação de Benjamin Steinbruch, dono da CSN, presidente em exercício da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, ex-controlador da Vale e herdeiro do Grupo Vicunha, sugere que a preocupação mudou de patamar.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, publicada em 22 de agosto, apela ao governo para restringir os investimentos chineses em setores estratégicos – nomeadamente, em reservas minerais e terras. Segundo Steinbruch, seu grupo, encarregado da execução (muito atrasada) da estrada de ferro Transnordestina, quis comprar terras para plantar grãos no trajeto da ferrovia e encontrou grandes propriedades tocadas por chineses no interior do Piauí e de Pernambuco. Teme que a China compre reservas de minério no Brasil e, sendo o principal cliente do setor, quebre os competidores ao fixar o preço que lhe convém. E reclama que a concorrência dos chineses é desleal, porque possuem apoio maciço de seu governo: “É o Estado, não a iniciativa privada”, cita o jornal. É provável que fale não só em seu nome, mas também no de outros industriais – e a preocupação não é de todo descabida.

O governo brasileiro estava disposto a atender parcialmente à queixa: no dia seguinte, o presidente Lula aprovou um parecer da Advocacia-Geral da União (AGU) que esperava por uma decisão há dois anos, devido ao receio do governo de afugentar investidores em tempo de crise mundial. Com isso, aprovou limitações à compra de terras por estrangeiros, que ficarão limitadas a 50 módulos de exploração indefinida (250 a 5 mil hectares, dependendo da região) e não poderão ocupar mais que 25% da área de um dado município. Reverteu-se decisão de FHC, que, em 1998, com base em parecer da mesma AGU e a justificativa de atrair investimentos externos, liberou totalmente a compra de terras por estrangeiros, sujeita a restrições desde 1971.

Naquela mesma época, estavam sendo liberados ou facilitados os investimentos estrangeiros em mineração, petróleo, infraestrutura e indústrias estratégicas, como parte da panaceia neoliberal então na moda. Os investimentos seriam feitos por países que estão entre os principais importadores dos insumos que produzimos – embora então se pensasse mais nos EUA e na União Europeia – ou nossos principais concorrentes, como o Canadá. Também se combinava uma abertura comercial quase irrestrita com a supervalorização do real, abrindo caminho à perda de competitividade e inundação de produtos importados, já então chineses em boa parte. Mas a mídia se mostrava mais eufórica que preocupada. Os trabalhadores das ex-estatais e os empresários nacionais que se queixavam eram vistos como dinossauros condenados à extinção por incapacidade de se adaptar a uma evolução inevitável, determinada pela ordem natural das coisas e não por uma opção política. Como nos anos 1930, voltou-se a afirmar o liberalismo dogmático à maneira de Eugênio Gudin.

Oportunidade
As coisas mudaram, provavelmente, porque é mais difícil a empresários e banqueiros brasileiros se associar lucrativamente aos chineses que aos estadunidenses e europeus, tanto por falta de familiaridade quanto pela presença mais direta e visível do Estado nos empreendimentos chineses, mesmo privados. É uma maneira curiosa de adquirir consciência nacional pelas vias tortas, por parte de uma elite que sempre se identificou mais com seus supostos iguais do Hemisfério Norte do que com seu próprio povo. Mas não deixa de ser uma oportunidade para discutir e afirmar estratégias de planejamento e defesa de interesses nacionais, pois não dá para aceitar o capital de olhos azuis e rejeitar o de olhos puxados.

O papel do Estado chinês não serve de pretexto. É preciso aceitar como fato da vida que a versão liberal anglo-saxônica é apenas uma das variedades do capitalismo e que mesmo essa depende de forte sustentação governamental na forma de subsídios e programas governamentais, ainda que menos visíveis, e de obediência a uma estratégia nacional, ainda que menos dirigida. As siderúrgicas e montadoras dos EUA, bem como grande parte de sua agricultura, não existiriam sem proteção e apoio ativo de Tio Sam, que garante os investimentos de suas transnacionais no exterior com o poder de seus porta-aviões. E estas – e até seus clientes e parceiros – têm de se conformar com orientações e restrições do Departamento de Estado, como é mais notório no que se refere a negócios com Cuba, Irã e Venezuela.

É outro incontornável fato da vida que a China será a grande potência industrial de boa parte do século XXI, assim como os Estados Unidos o foram na maior parte do século XX e o Reino Unido no século XIX. Se o crescimento de sua economia e a presença no comércio exterior do Brasil prejudicaram alguns setores, beneficiaram outros – e ao menos nestes anos de crise profunda do capitalismo europeu e norte-americano e do ponto de vista da grande maioria dos trabalhadores brasileiros o saldo pareceu positivo.

Armadilha
Foi em grande parte graças ao mercado chinês que o tsunami de Wall Street bateu como mera marolinha na Avenida Paulista. Segundo a economista Maria da Conceição Tavares, o crescimento asiático deve continuar a blindar o Brasil da crise mundial: “Não há nenhuma armadilha no modelo, porque o País não está parado, dependente de exportações primárias, como é o caso da Venezuela. Estamos aproveitando um ciclo de longo prazo de alta nos produtos. A China está obrigada a crescer rápido ainda por muitos anos e não vai parar de crescer pelo menos nas próximas três décadas”. Observa ainda que a relação do Brasil com a China é mais favorável que com os EUA, visto que ela não é um concorrente em matérias-primas.

É bom ser cauteloso com previsões tão peremptórias: nos anos 1970 e 1980, também se acreditava que o Japão estava obrigado a crescer por décadas. Mais cedo ou mais tarde, a China vai desacelerar, à medida que seu crescimento depender cada vez mais do consumo interno que do mercado externo, mais do aumento de produtividade que da expansão quantitativa, mais da inovação própria que da assimilação das estrangeiras. Essa mudança de qualidade deve ser acompanhada de turbulências – a inquietação trabalhista nas indústrias chinesas já é bem visível – e não se pode garantir, a priori, que Pequim saberá administrá-las sem crises imprevistas. Seria arriscado apostar tudo na continuidade de seu crescimento e não é realmente necessário.

De janeiro a julho, as vendas de manufaturados brasileiros para a América Latina e o Caribe cresceram 37,3% em relação ao ano anterior, apesar da concorrência chinesa. As exportações de peças e veí-culos para a União Europeia cresceram 17,8%, apesar da má conjuntura econômica da região. São principalmente veículos e eletroeletrônicos de transnacionais que usam o Brasil como plataforma de exportação e aviões e peças da Embraer, mas mostram que o agronegócio não é o nosso destino inevitável. O crescimento da chamada classe C e a melhora de seu poder aquisitivo nos últimos anos estimulam empresas nacionais a surgir e crescer para atender o mercado popular interno e lhes dão escala para desafiar os chineses ao menos nos países vizinhos, dados a maior proximidade geográfica e cultural e os acordos comerciais dentro da Unasul. A China não poderá continuar a concorrer em toda a gama de produtos, até porque os salários e benefícios estão crescendo e obrigando a deslocar sua produção para artigos de maior valor agregado.

Dona do mundo
Ao contrário da Inglaterra do século XIX ou dos EUA do século XX, a China de hoje não está em um patamar qualitativamente muito superior ao do Brasil em desenvolvimento tecnológico e industrial. Por opção estratégica que o Brasil já tentou, mas abandonou prematuramente na era Collor-FHC, os chineses têm uma indústria de bens de capital mais completa e independente, e um sistema mais amplo de apoio estatal e de proteção à indústria nacional. Têm também investimentos maiores e mais consistentes em infraestrutura, educação e pesquisa, mas isso é um avanço relativamente recente.

Nada que o Brasil não tenha condições de emular, se o fizer de maneira consciente e continuada. Os dois países são comparáveis em desenvolvimento geral e problemas sociais, e o Brasil tem algumas vantagens, como maior abundância relativa de recursos naturais (água e energia, para começar), mais unidade nacional e cultural e um sistema de saúde e previdência mais abrangente, por longe que esteja do ideal. Há nisso um lado negativo, que é o desestímulo à poupança interna popular, mas também um fator de estabilidade social – e econômica, na medida em que ajuda a garantir a sustentação do mercado interno mesmo em tempos difíceis.

Não há como disputar com a China em economias de escala: o tamanho da população economicamente ativa e do mercado de consumo é insuperável. Sendo as outras coisas iguais, o Brasil dificilmente conseguiria manter lucrativamente uma indústria tão diversificada e verticalizada quanto a China, assim como é difícil ao Chile ser competitivo em tantos setores quanto o Brasil, ou a Coreia do Sul em tantos quanto o Japão. Tendemos a ser um pouco menos industrialmente autossuficientes e nos concentrar em menos setores. Por outro lado, a indústria chinesa, por sua enorme dimensão, necessita muito mais do exterior para conseguir insumos e clientes. Ambos têm de minimizar sua dependência externa e a solução, nos dois casos, está em ofensivas diplomáticas para diversificar e garantir fornecedores e mercados.

Hoje, os EUA têm 19% da produção industrial mundial, a China 15,6% e o Japão, 15,4%. A ordem deve mudar e a China superar os EUA em mais alguns anos, mas nada indica que ela, ou qualquer outro país, chegará a representar metade ou mais das manufaturas mundiais, como chegaram a ser os EUA e a Inglaterra em seus respectivos auges. Ao longo deste século, nenhuma nação será economicamente “dona do mundo”: haverá espaço para manobra e o Brasil estará mais próximo da igualdade com as grandes potências do que jamais esteve em sua história. Já em 2011, deverá ser o sétimo PIB do mundo (superando a Itália, depois da Espanha e Canadá) e em 2014, o quinto (ultrapassando Reino Unido e França), segundo The Economist.

Simbiose
Apesar da parcial complementaridade entre China e Brasil, a simbiose não convém a nenhum deles. Para um pequeno país africano, talvez não haja alternativa a médio prazo a especializar-se em produtos agrícolas e minerais e deixar os chineses investir à vontade e o controlar grande parte de sua economia, mas o Brasil tem como controlar quanto, onde e como o capital chinês (ou de outras potências) é aplicado em sua economia, garantir que sirva a seus interesses pelo menos tanto quanto aos dos investidores estrangeiros e evitar pôr todos os ovos na mesma cesta.

O Brasil não tem como deixar de ser um grande exportador de produtos agrícolas e minerais ou, de preferência, de seus derivados mais ou menos elaborados. Mas também tem como investir em infraestrutura e tecnologia para competir internacionalmente em um bom número de setores industriais de ponta para conquistar clientes globais à China e outros concorrentes. Em outros tantos, pode ao menos defender o mercado interno e latino-americano. Desde que não tenha medo de formular políticas industriais e planejar o seu futuro: deixá-lo ao sabor do livre mercado será apenas colocá-lo, como sempre, à mercê do planejamento estrangeiro.

Historiadores, políticos e economistas desenvolvimentistas muitas vezes tiveram de lamentar que o Estado brasileiro não tenha sido mais protecionista nem tenha conseguido evitar que muitos de seus setores mais importantes caíssem sob o controle das potências dominantes dos dois últimos séculos, o que limitou as opções de desenvolvimento do País e nossos interesses econômicos. Corremos o risco de cair em outra forma de subdesenvolvimento – ou no desenvolvimento dependente, como preferia FHC antes de pedir a todos que esquecessem o que escreveu? Veremos, mas as condições são melhores que nunca para que deixemos de repetir os mesmos erros.

*Antonio Luiz M.C.Costa é editor de internacional de CartaCapital e também escreve sobre ciência e ficção científica.
Fonte: Opera Mundi

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Sobre mentes e corações - Por Georges Bourdoukan

Sobre mentes e corações - Por Georges Bourdoukan

Cristãos estadunidenses vão queimar exemplares do Alcorão.

Não, eles não são fundamentalistas e nem terroristas.

São cidadãos comuns que aprenderam, graças à mídia e à industria de entretenimento, que os muçulmanos sãos maus.

O que mais uma vez confirma o que já foi disto neste blog.

Os Estados Unidos são a pior ditadura que já surgiu sobre a face da terra.

E por que pouca gente se dá conta disso?

Simples.
Eles dominam globalmente a mídia e a indústria de entretenimento, cuja função básica tem sido destruir mentes e conquistar corações.

Eles determinam todos os nossos movimentos, gostos e sonhos.

Determinam o que vamos comer, o que devemos sonhar e como devemos amar.

Transformaram a diversidade em unidade - à sua imagem e semelhança.

Fora desse contexto, somos todos alienígenas.

Por isso, não se deve entender que a queima de um livro sagrado para um bilhão e 500 milhões de fieis esteja fora do contexto.

Que seja um ato isolado de alguns poucos.

Nada disso, queimar livros sagrados, que não os seus, para eles é um ato corriqueiro e exemplo a ser seguido.

É o preço que se paga quando se permite o domínio de uma ideologia que tenta sobreviver a qualquer custo, mesmo a custa da destruição da diversidade e do planeta.

Como disse Kant: "Minha dúvida é sobre o que podemos esperar conseguir com a razão, quando retirados todos os elementos e toda a assistência da experiência".

Por Georges Bourdoukan (http://blogdobourdoukan.blogspot.com/)

Charge do Dia!



Fonte: http://chargesbruno.blogspot.com/

O crack e o leite das crianças em São Paulo - por João Paulo Cechinel Souza

O crack e o leite das crianças em São Paulo

Na Prefeitura de São Paulo, desde 2004 existe um projeto urbanístico (“Projeto Nova Luz”), que, financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), prevê o investimento de fábulas orçamentárias em obras na região do Parque da Luz, no Centro Histórico da cidade de São Paulo, com um total orçado (e liberado pelo BID) em torno de 100 milhões de dólares. Até hoje, uma ínfima quantidade desses recursos foram aplicados. Não tivesse transformado a revitalização num espetáculo hollywoodiano, a então gestão Serra-Kassab não passaria tamanha vergonha.
O artigo é de João Paulo Cechinel Souza (*)

A dependência ao crack recentemente ganhou notoriedade junto às autoridades brasileiras, principalmente, em se tratando do período eleitoral, daqueles aspirantes ao cargo presidencial. Diversas estratégias foram e vêm sendo anunciadas nos últimos meses e anos, incluindo ampliação do número de leitos para dependentes químicos e o respectivo aumento de verbas para prevenção e tratamento de indivíduos nessa condição.

Na Prefeitura de São Paulo, desde 2004 existe um projeto urbanístico (“Projeto Nova Luz”), que, financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), prevê o investimento de fábulas orçamentárias em obras na região do Parque da Luz, no Centro Histórico da cidade de São Paulo, com um total orçado (e liberado pelo BID) em torno de 100 milhões de dólares. Para quem não conhece ou não sabe, foi no Parque da Luz que teve início o consumo de crack na cidade, ainda na década de 90, caracterizando posteriormente a chamada “Cracolândia”, devido ao grande número de dependentes que até hoje circulam por aquelas imediações.

Contudo, do total aprovado pelo BID para a recuperação da região, apenas 4% foram efetivamente utilizados. Sobre o restante, até hoje incidem multas e taxas diversas, como ocorre com todos os empréstimos do BID – que deverão ser debitados na conta da Prefeitura Municipal em algum momento.

Não tivesse transformado a revitalização num espetáculo hollywoodiano, a então gestão Serra-Kassab não passaria tamanha vergonha. Admitindo publicamente que não pretendiam dar seguimento às iniciativas de revitalização com inclusão social levadas a cabo pela gestão anterior (Marta Suplicy), teve início a “primeira fase” do projeto: a repressão policial – que durou três anos. Somente com o forte estímulo da administração estadual, já sob comando de Serra, algumas reformas isoladas foram realizadas, num segundo momento do projeto.

Mesmo se pretendendo (ou parecendo) bem-intencionado, um projeto dessa magnitude urbanística e, principalmente, humana, carente desde a base de elementos para participação popular e coletiva na tomada de decisões acerca das obras, sem contar a absoluta falta de perspectiva de integração dos habitantes (fixos ou não) a projetos de inclusão social, somente poderia ter o desfecho que teve: o “efeito bilhar”. Os grupamentos humanos que por ali existiam à época do início da repressão policial, assustados pela truculência institucional e agredidos em sua integridade física e psíquica pelo crack, acabaram por se dividir em subgrupos menores e espalharam o problema por toda a cidade.

Disseminado o problema e constatado o consumo dessa substância junto aos extratos sociais mais abastados, Serra planejou então formar as unidades para internação e tratamento dos dependentes químicos – e utiliza isso, hoje, em sua campanha eleitoral, como estratégia universal e única para quaisquer tipos de dependências (química ou não). Infelizmente, a única clínica desse tipo inaugurada até hoje possui dificuldades imensas para receber cidadãos encaminhados por outras localidades.

Afora isso, essa ideia completa a constatação maior, fruto de observação macroestrutural, de que as políticas públicas do Sistema Único de Saúde, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), implantadas no resto do país, ganham características e nomes diferentes em São Paulo, não oferecem as melhorias esperadas (e constatadas em outros Estados) e ainda são brindadas com os vícios administrativos malufistas da época do Plano de Atendimento à Saúde (PAS).

Centrados em sua malfadada campanha eleitoral e em promessas alheias aos anseios do povo, Serra e o demotucanato paulista se esqueceram de garantir o básico aos cidadãos que lamentavelmente dependem do atendimento público à saúde no Estado e no Município de São Paulo. Tivessem dado alguma importância real às vidas dos indivíduos sob sua tutela, entre outros problemas já levantados em artigos anteriores (“O sucateamento da saúde pública em São Paulo” – primeira parte ; e segunda parte) não teriam deixado acabar o leite artificial fornecido aos filhos de mães portadoras do HIV há quase dois meses, numa ação que passa longe da má administração – e se caracteriza, isso sim, como atitude criminosa e hedionda.

Entretanto, para o paraíso midiático do demotucanato – ou Partido da Imprensa Golpista, PiG, segundo Paulo Henrique Amorim – talvez seja mais importante fingir que tais questões simplesmente não existem e trabalhar para que os eleitores também finjam nunca terem passado ou presenciado aberrações como as apresentadas neste e nos outros artigos citados. Na antevéspera da eleição, tenham certeza, o PiG encontrará detalhes do pagamento, no valor de 30 moedas de prata, efetuado por Dilma para que Judas denunciasse Jesus. Isso sim terá valor – e audiência.

(*) João Paulo Cechinel Souza – médico especialista em Clínica Médica, residente em Infectologia no Instituto de Infectologia Emílio Ribas (São Paulo) e colaborador da Carta Maior
Fonte: http://www.cartamaior.com.br

terça-feira, 7 de setembro de 2010

PALESTINA / ISRAEL: A farsa em Washington - por Alain Gresh

A farsa em Washington

O ceticismo é geral e a paz entre israelenses e palestinos está longe de qualquer horizonte palpável. Apenas os protagonistas da última cúpula de Washington querem fingir acreditar nela, e têm boas razões para isso
por Alain Gresh

Quem ainda acredita no processo de paz entre palestinos e israelenses? Em 23 de agosto de 2010, o jornal britânico Financial Times publicou um editorial entitulado One final act in the Middle East farce (“Um último ato na farsa do Oriente Médio”). Nada mais adequado. O ceticismo é geral. Estamos longe das ilusões que haviam acompanhado a Cúpula de Annapolis, em 2007, que previa a criação de um Estado palestino antes do final de 2008. Apenas os protagonistas da cúpula que começou em 2 de setembro em Washington querem fingir acreditar nela, e todos têm boas razões para tanto:

— O rei Abdala 2º da Jordânia e o presidente egípcio Hosni Moubarak, porque ambos precisam convencer de que suas opiniões sobre a evolução rumo à paz estão corretas, no exato momento em que a sua prática autoritária visa impedir todo debate e todo avanço da oposição nos dois pleitos que serão realizados no Egito e na Jordânia em novembro.

— O presidente Barack Obama, que não cumpriu as promessas do seu discurso no Cairo, em 4 de junho de 2009, e que, envolvido num conflito difícil no Oriente Médio, quer tranquilizar seus aliados árabes sem desagradar seu aliado israelense.

— A União Europeia, covarde demais para definir uma política inovadora e que simplesmente quer que as pessoas acreditem que as centenas de milhões de euros derramados sobre a Autoridade Palestina servem para outra coisa e não para financiar a ocupação.

— O presidente palestino Mahmoud Abbas, cuja legitimidade vem sendo mais e mais contestada, inclusive pelos seus próprios súditos, e que quer mostrar que a sua opção por uma negociação pode dar resultados. Tanto que não há realmente outra escolha, já que toda a estrutura da Autoridade Palestina depende das benesses internacionais: dezenas de milhares de funcionários vivem graças a esse dinheiro. E tanto pior para os palestinos que criticam a retomada das negociações: eles não têm nem mesmo o direito de se expressar, como confirma Benjamin Bartheno diário Le Monde de 27 de agosto (“A autoridade palestina censura os opositores das negociações com Israel”). Não é apenas o Hamas que tem práticas autoritárias, mas as dos “nossos” aliados não nos incomodam.

— O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, que obteve o queria, negociações sem condições prévias, ou seja, com o prosseguimento da colonização, sobretudo em Jerusalém Leste (e em outros lugares, conforme comprovam estudos recentes) e com a demolição das casas palestinas. Ou, em outras palavras, escritas por Akiva Eldar no diário Haaretz de 23 de agosto (“With a victory like this...” / “Com uma vitória como essa...”), essas negociações abrem-se com condições prévias: aquelas ditadas por Israel.

Para resumir o espírito da reunião de Washington, vale lembrar uma anedota que contavam na União Soviética durante os últimos anos do período de Brejnev:

Em 1918, um trem no qual Lênin está instalado fica bloqueado pela neve. Lênin desce do trem, profere um discurso sobre o proletariado e a revolução mundial, mobiliza todos os viajantes que desobstruem a via, e o trem segue caminho.

Em 1936, um trem no qual Stalin está instalado fica bloqueado pela neve. Stalin desce do trem, manda fuzilar quinze pessoas a esmo, e todos os viajantes aterrorizados se mobilizam, desobstruindoa via. O trem segue caminho.

Em 1978, um trem no qual Brejnev está instalado fica bloqueado pela neve. Brejnev não se mexe. Os seus conselheiros o veem sentado, simplesmente sacudindo o corpo para frente e para trás. Um deles ousa finalmente perguntar-lhe por quê. E Brejnev responde: “Vamos fazer de conta que o trem está se movimentando”.

Em Washington, os protagonistas fazem o mesmo: fazem de conta que a paz está a caminho...

Alain Gresh é jornalista, do coletivo de redação de Le Monde Diplomatique (edição francesa).
Fonte: http://diplomatique.uol.com.br/

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O Pato de Botas - por Laerçon






Fonte: http://bocasujafanzine.blogspot.com/

[EUA] Entrevista com Mumia Abu-Jamal: “Sou um jornalista fora da lei” - ANA

[EUA] Entrevista com Mumia Abu-Jamal: “Sou um jornalista fora da lei”

[O jornalista Mumia Abu-Jamal continua preso no corredor da morte há quase 30 anos. Em 29 de agosto de 2010, a representante dos Repórteres sem Fronteiras em Washington DC, Clothilde Le Coz, o entrevistou no locutório número 17 da prisão da Pensilvânia, em Waynesburg, Condado de Greene.]

Pergunta > Como jornalista preso, de que tratam suas últimas observações e investigações?
Mumia Abu-Jamal < A população prisional estadunidense é a mais importante no mundo. Este ano, pela primeira vez em 38 anos, se reduziu. Algumas prisões como na Califórnia ou Michigan aceitam menos presos dado que estão super povoadas. Os financiamentos dos Estados são limitados e se libera alguns presos em função da situação econômica. Nos Estados Unidos, as prisões são grandes e o número de presos é imenso.

É impressionante ver quanto dinheiro o governo estadunidense gasta com tudo isto e até que ponto somos invisíveis. Ninguém o sabe. A maioria da população não se interessa pelo tema. Quando ocorre qualquer drama na prisão, alguns jornalistas dizem e acreditam que sabem de quem estão falando. Mas não é fiel a realidade: é puro sensacionalismo. Podem ser encontrados bons artigos, mas não refletem o que ocorre realmente. O que escrevo é o que tenho visto com meus próprios olhos e o que tem me sido dito. É verídico.

Meus artigos falam da realidade. Fundamentalmente, tratam todos do corredor da morte e da prisão. Eu gostaria que não fosse assim. Faz um ano e meio que estão ocorrendo uma série de suicídios entre os condenados a morte. Dei a informação com exclusividade sobre um suicídio porque ocorreu em meu bloco. Mas segue sendo invisível. Necessito escrever. Há milhões de histórias para contar e personagens excepcionais aqui. Entre as que decidi contar, elejo as mais importantes, comovedoras, frágeis… Decido escrevê-las, mas deve-se ter certa responsabilidade quando se conta este tipo de histórias. Espero que possam mudar o curso das coisas para as pessoas das quais eu falo.

Pergunta > Acredita que o fato de ser jornalista tem influenciado o curso de seu caso?
Mumia < Ser “A Voz dos sem voz” influiu de forma considerável. Na realidade, esta expressão foi tirada de um artigo do Philadelphia Inquirer publicado depois de minha detenção em 1981. Quando era adolescente, era um jornalista radical que trabalhava para a edição nacional do jornal dos Black Panthers. O FBI vigiava minhas publicações desde que tinha 14 anos. Ser jornalista foi meu primeiro trabalho. Sou muito mais famoso que outros detidos nos Estados Unidos pelo que escrevo. Se a situação fosse distinta, o tribunal federal de apelações quem sabe não haveria criado uma lei especial que influísse diretamente sobre minha condenação.

A maioria dos homens e das mulheres que se encontram no corredor da morte não são famosos. O fato de que siga escrevendo deve de ser algo que os juízes levaram em consideração e pelo qual mudaram a lei para que não me pudessem julgar novamente. Creio que pensavam: “Tu és um falador, não terás outro julgamento”. Se espera algo mais de um tribunal federal. E agora, por culpa de meu caso, outros doze podem ser prejudicados.

Pergunta > O que pensas da cobertura midiática de seu caso?
Mumia < Um dia li que já não estava no corredor da morte. Enquanto o lia, estava sentado aqui. Não saí nunca deste corredor, nem um segundo. Como sou do mesmo âmbito, muitos jornalistas não queriam cobrir meu caso por medo de que os criticassem. Tinham que se enfrentar das críticas segundo as que haviam sido parciais e às vezes seus redatores chefes os proibiam de cobrir o caso. Desde o princípio do mesmo, aos mais suscetíveis de cobri-lo, foi se proibido de fazê-lo. A maioria dos jornalistas com os que trabalhei já não exercem a profissão. Estes estão aposentados e ninguém os dá a mínima importância. Mas a imprensa teria que ter certa influência neste assunto. Milhões de pessoas viram o que ocorreu na prisão de Abu Ghraib. Seu diretor, que sorria nas fotos que foram publicadas, trabalhava aqui antes de ir para lá.

No corredor da morte, existem indivíduos sem nenhuma qualificação que podem decidir sobre a vida ou a morte de um detido. Por não sei que motivo, tem o poder de decidir a seu bel prazer se alguém come ou não. E ninguém questiona este poder. Há regras informais. Esses indivíduos podem converter a vida de alguém em um inferno com um simples gesto. Quando escolho as histórias que vou contar, não me falta inspiração nunca. Para um escritor, este é um ambiente rico. Não importa o que dizem meus detratores, sou jornalista. Este país seria muito pior sem jornalistas. Mas para muitos deles, sou um jornalista fora da lei. Antes da prisão, quando trabalhava para várias emissoras de rádio, conheci gente que vinha de todas as partes e apesar dos conflitos com alguns redatores chefes, exercia a profissão mais bonita.

Pergunta > O apoio que lhe tem sido dado na Europa é diferente do que tem nos Estados Unidos. Como explicas e acreditas que a mobilização internacional possa seguir te ajudando?
Mumia < Sim, segue sendo útil. No que diz respeito à pena de morte, a mobilização européia pode ter um impacto nos Estados Unidos. Os países estrangeiros, Europa em particular, estão marcados por uma história peculiar quanto a repressão. Sabem mais profundamente eles o que é a prisão. Sabem o que são a prisão, o corredor da morte e os campos de concentração. Nos Estados Unidos, pouca gente viveu esta experiência. Explica como as diferentes culturas aprendem o mundo. Na Europa, a idéia da pena de morte é um anátema.

O 11 de setembro de 2001 mudou muitas coisas nos Estados Unidos. Os opositores ao poder, os que discutiam sua legitimidade já não tem mais importância. Também mudou a imprensa. O que era aceitável chegou a ser inadmissível. Creio que o 11 de setembro modificou as formas de pensar na opinião pública e também os limites de tolerância dos meios de comunicação. Por exemplo, quando estavam ocorrendo os fatos do 11 de setembro em Manhattan e em Washington DC, a prisão fechou durante o dia inteiro aqui, na Pensilvânia. E estávamos totalmente isolados.

Pergunta > Para obter apoio, seria útil ter uma foto sua, atualmente, neste corredor da morte. O que você acha?
Mumia < Ter uma imagem pública só ajuda em parte. A essência de uma imagem é a propaganda. Assim que as fotos não são tão importantes. O que conta é a personalidade. E faço tudo o que posso. Em 1986, as autoridades penitenciarias confiscaram os gravadores dos jornalistas e só podiam ter um papel e uma caneta na mão. Agora que um artigo é o único vetor para lhe dar algum sentido à situação, o seu autor pode convertê-lo em um monstro ou em um modelo.

Pergunta > Se a Corte Suprema aceitar em lhe conceder um novo julgamento, só se revisaria sua pena e não sua condenação. Como imagina o fato de seguir em prisão perpétua se não lhe executarem?
Mumia < Na Pensilvânia, a prisão perpétua é uma execução em fogo lento. Segundo a lei do Estado, existem três graus de assassinatos. O primeiro se castiga com prisão perpétua ou pena de morte. O segundo e o terceiro grau com prisão perpétua. Não se sai daqui. E nesta prisão, temos a taxa de condenação juvenil à prisão perpétua mais elevada dos Estados Unidos. Mas eu gostaria de acrescentar que na Filadélfia, ocorreram dois casos na mesma época que o meu nos quais as pessoas foram julgadas pelo assassinato de um policial. A do primeiro caso foi absolvida. A segunda, ainda que tenha sido gravada com uma câmara de vigilância, não foi condenada a morte.

Pergunta > E como consegue “fugir” deste lugar?
Mumia < Eu escrevi sobre História, uma das minhas paixões. Eu gostaria muito de escrever a respeito de outras coisas. Meus últimos trabalhos tratam da guerra, mas também escrevo sobre cultura e música. Tenho um tempo interior que tento manter através da poesia e da percussão. Poucas coisas podem ser comparadas com o prazer que sinto aprendendo música. É como aprender um novo idioma. E constantemente eu me desafio a escrever em outro idioma! Uma professora de música vem aqui a cada semana e me ensina. Um mundo novo se oferece a mim e agora o conheço um pouco mais. A música é uma das coisas mais bonitas que o ser humano já criou. O melhor de nossas vidas.

• Para apoiar Mumia Abu-Jamal entrar em contato com Law Offices of Robert R. Bryan 2088 Union Street, Suite 4, San Francisco, CA 94123-4117 http://www.MumiaLegalDefense.org ou http://es.rsf.org/petition-mumia-abu-jamal,37071.html

Tradução > Juvei

agência de notícias anarquistas-ana
Ruídos nas ramas.
Trêmulo, meu coração detem-se
e chora na noite...

Matsuo Bashô

Henry Charles Bukowski - o merecedor de impropérios - por Pree Leonel

Henry Charles Bukowski - o merecedor de impropérios - por Pree Leonel

Há quem ame Henry Charles Bukowski Jr. Há também quem o odeie. O “velho safado” – senhor cuja obra de cunho obsceno revelou ao universo literário um outro tipo de leitor, tão libertário e indecente quanto o próprio autor – obviamente tinha conhecimento das antagônicas impressões que causava, enquanto vivo. E apostava nas temáticas mais polêmicas, mesmo assim.

Porres sensacionais, ceticismos, machismos, relacionamentos baratos, sexo fácil, linguagem informal ou chula, referências aos subempregos exercidos, solidão, humor-negro, pontuação desajustada e xingamentos: tudo estava em pauta para o autor alemão. Qualquer fosse o foco de Bukowski, o estilo parecia agradar a nova massa dos alternativos e intelectuais dos anos 60, já entorpecidos pela geração beatnick, antes prestigiada por obras como “On the road”, de Jack Kerouac.

Não que o autor tenha vivido conforme os preceitos beat. Não foi o caso. A geração apenas tomou para si emprestadas as palavras do beberão simpático. Para Charles, sobraram apenas as garrafas vazias da geração que nascia – e alguma irritação decorrente das gratuitas comparações ou co-relações dedicadas ao seu estilo sobre aquela tribo.

E, claro, assunto de fácil acesso às mesas dos bares universais – residência de bêbados não comedidos, intelectuais de plantão ou puritanos frustrados – as impressões acerca do velho acabaram por alcançar novos ângulos, além dos contos, romances e poesias. Estendem-se elas, hoje, a discussões ousadas sobre ser o homem Bukowski merecedor da empatia universal literária ou não.

Sua obra foi alvo de ofensiva por parte de feministas do mundo todo. Do outro lado de Los Angeles, mulheres queimavam seus livros, em protesto, já na década de 60, após suas primeiras publicações. Chamavam o beberrão de chauvinista, vagabundo. Despejar-lhe um par de injúrias auto-inflamantes parecia justo frente ao cenário vulgar emprestado ao mundo pelo autor. Ainda no século atual, esposas indignadas pela veia Bukowskiniana de seus maridos modificam suas expressões faciais ao ouvirem o nome do velho, e acreditam que Charles nada mais quis senão chocar.

Não sabiam elas, no entanto, ser Henry Chinaski (alter ego adotado por Bukoswki em suas narrativas) um desconectado por natureza, desobediente aos padrões eternos que regiam a terra celibatária. É que o homem já havia descoberto as limitações do então sonho americano. Fora atormentado por um pai azedo, rígido e infeliz e por uma doença que lhe deformou o rosto, transformando-o em um jovem de poucos amigos, outsider. O álcool, os livros e a escrita cínica, sem amarras, se tornaram, assim, sua companhia – talvez suas muletas.

Dessa forma, as descrições do então jovem Charles, grande parte delas de cunho pessoal, eram também experimentações livres de temas que ofereciam à sua estranha vida um ar discutivelmente cômico. Discutivelmente porque – é aí que a problemática provinciana mora – não tinha pudores de atravessar a linha e os limites impostos por sua sociedade sobre o que seria bonito ser dito ou feito.

De outro lado, com uma garrafa de gim na mão (e um misto-quente na outra), Charles não se preocupava e queria mesmo era avacalhar com os conceitos de classe, gênero, e comportamento do homem médio, de forma a instigar, sim, a repulsa, a nostalgia, a melancolia, o nojo, o apreço ou a raiva de seus leitores, através de sua auto-exposição.

“Bebi e fiquei mais bêbado que um gambá no purgatório. Estive até com uma faca de açougueiro na garganta, uma noite, na cozinha; mas aí pensei, calma (...). Quando voltei a mim, estava na sala do meu apartamento, cuspindo no tapete e queimando meus pulsos com cigarros, dando risadas. Louco como uma lebre”.

Pois bem. Sóbrio ou não, o escritor tanto se expôs que foi presenteado com a eternidade. Antologias, poemas, cartas e contos foram lançados postumamente, de forma a concretizar seu papel já reservado na história. Uma das últimas publicações, aliás, é creditada a Matthias Schultheiss, quadrinista alemão que publicou, em 2008, as histórias do velho safado em quadrinhos. Jaz ali um universo obrigatoriamente coberto de prostitutas e marginais que são engolidos pela solidão das capitais. Chama-se “Delírios Cotidianos”

Tais homenagens e tributos ainda provocam polêmicas no momento em que se analisa Charles enquanto pessoa – característica que caminhará eternamente ao lado de sua assinatura. Mas o mundo tem tratado de separar as coisas. Fala-se agora do homem Bukowski e de um outro homem, diferente daquele outro: o literário Bukowski. Quem ama não consegue fazer a distinção de uma coisa e outra, mas espera que, quem o odeie, o faça. Talvez não dê certo, visto que Henry se diferencia exatamente por tornar esta tarefa difícil.

Com mais de 50 publicações espalhadas pelo globo, no entanto, já não se sabe de feministas que continuem a queimar suas obras. Talvez em algum vilarejo ainda provinciano, localizado em algum local inóspito e frio do globo ocular. A realidade atual fala por si mesma e, pelo contrário, catapulta Charles ao mundo como um dos autores mais imitados – exaustivamente, talvez – da América.

A tendência-Bukowski-de-ser chegou até mesmo a terras de língua portuguesa, sendo representada por autores brasileiros como Clarah Averbuck, especialmente em “Máquina de Pinball” (Editora Conrad, 2002), seu primeiro romance, transcrito e transformado em filme no ano de 2008. Talvez Fernanda Young, outra ousada escritora brasileira, se intimidaria com a comparação. Mas depois da publicação de “Tudo o que você não soube” (Editora Ediouro, 2007) é de se ter dúvidas que nos restem dúvidas. E porque não citar o próprio Daniel Galera, no que tange seus brilhantes momentos de ousadia suja em “Até o dia em que o cão morreu” (Cia das Letras, 2007)?

Enfim. Além de herdeiros literários (e vários pseudos destes, vale lembrar), o escritor, falecido em 1994 após ser diagnosticado com leucemia (não, ele não morreu de cirrose), deixou em seu túmulo a grafia “Don't try” (“nem tente”, em português), uma referência, percebam, bastante cool a “Roll the dices”, poesia marcante do velho insóbrio que fala sobre ir adiante. Pois bem. Ele foi. E continua indo.

“If you're going to try, go all the way. Otherwise, don't even start” (“Se você for tentar, vá até o fim. Do contrário, nem tente”). Roll the dices, de Charles Bukowski.

Fonte: http://obviousmag.org

domingo, 5 de setembro de 2010

Por dentro e por fora - Por Paulo Arantes

Por dentro e por fora

Uma tribuna para livres manifestações de desassossego, fonte primária na identificação de temas e problemas para uma pauta menos óbvia, em torno da qual também propomos nos encontrar. E quando falamos em encontro, é encontro mesmo: mera verificação mútua de pontos de vista e conhecimento pessoal, pois idéias não nascem em árvores. Em que resultará, se resultar, não sabemos. Por Paulo Arantes

“Por dentro e por fora é uma série de artigos de debate sobre as lutas e os movimentos sociais, da iniciativa conjunta de Paulo Arantes e do coletivo Passa Palavra. Série aberta a um amplo leque de colaboradores individuais, convidados ou espontâneos, mais ou menos empenhados (ou ex-empenhados) nas lutas concretas, que ajude a aprofundar diagnósticos sobre a sociedade que vivemos, a cruzar experiências, a abrir caminhos - e cujos critérios seletivos serão apenas a relevância e a qualidade dos textos propostos.” Passa Palavra

“Ele pensava dentro de outras cabeças;
e na sua, outras, além dele, pensavam.
Este é o verdadeiro pensamento”.
Brecht

Não é de hoje que a Teoria Crítica no Brasil bateu no teto. Sinal de que pelo menos houve progresso. Até o momento em que as idéias novas começaram a escassear. E os derradeiros movimentos anticapitalistas, a perder fôlego. Literalmente, aliás: militantes extenuados, de tanto ralar e moer no aspro, penam em dobro para formular o conhecimento acumulado na mais cruel adversidade. Houve, sim, avanço no último período. Hoje sabemos muito mais sobre as mutações da sociedade brasileira e as grandes manobras do capital do que os corações veteranos que nos precederam. E no entanto não é menos forte o sentimento de pensamento paralisado. Em todas as frentes em que pensar é decisivo, da organização da luta propriamente dita à invenção cultural autônoma.

Se esta sensação for mesmo um horizonte comum, faz todo o sentido a pergunta: o que afinal nos fará voltar a pensar? Como não há resposta de mão única, muito menos ao alcance da mão, não custa imaginar um ou dois passos de desafogo, ligeiramente heterodoxos. Daí a proposta de uso e destino deste espaço, que passamos a encaminhar.

À primeira vista, a iniciativa está longe de ser inédita. Uma tribuna para livres manifestações de desassossego, fonte primária na identificação de temas e problemas para uma pauta menos óbvia, em torno da qual também propomos nos encontrar, digamos daqui a um ano, ou o tempo que for necessário, maior ou menor, para que o consenso a respeito amadureça. E quando falamos em encontro, é encontro mesmo: mera verificação mútua de pontos de vista e conhecimento pessoal, pois idéias não nascem em árvores. Em que resultará, se resultar, não sabemos. Se vingar, pouca coisa não há de ser. Modéstia à parte, é que há muita gente boa envolvida. Aqui a novidade desta convocação: além da conjugação de teoria e prática, conhecimento e interesse emancipatório, aprofundamento de diagnósticos e fortalecimento de experiências autônomas, o pressentimento de que há muita gente pensando por fora, seja lá o que isto queira dizer, por enquanto.

Mas onde estão e quem são, socialmente falando? Nos movimentos é claro, mas não necessariamente. Precisamos mais do que nunca dos avulsos e independentes, como também dos ressabiados e dos rescaldados, tanto dos desmobilizados quanto dos que ainda não arriscaram a travessia da fronteira de classe, mas se encontram nas cercanias (num e noutro sentido). É o caso, por exemplo, dos chamados “assessores técnicos”, cujo saber tornou-se hoje oxigênio indispensável para qualquer retomada do trabalho de base nos movimentos populares – uma das acepções do que estamos entendendo por pensamento. É o caso também, por outro exemplo, de pessoas nascidas e criadas nas periferias dos grandes centros urbanos, que têm acessado certos espaços de estudo novos e protagonizado novas experiências de resistência, se apropriando e produzindo críticas originais.

Como estamos falando de Teoria Crítica, é preciso registrar que quase todos têm passagem pela Universidade, nem que seja pelas beiradas ou apenas em situações de combate, mas de formas consistentes. Sem ambição de carreira (era só o que faltava), têm vivido da mão para a boca nas uni-esquinas, nas ONGs e projetos sociais da vida, ou nas franjas profissionalizadas de movimentos sociais diversos. Alguns raros conseguem “ensinar” sem precisar vender a alma para a plataforma Lattes. Aos que mantêm um pé na academia, a bolsa é um alívio com data de validade, depois é o purgatório social e intelectual que se sabe. Em suma, com ou sem militância orgânica, classe média ou nova plebe urbana, são todos intelectuais por assim dizer precarizados. Ainda sem chegar ao extremo de viver praticamente em estado de secessão, como os radicais russos do século XIX, seja em razão de criativas estratégias de sobrevivência, seja mesmo pela capacidade intelectual cultivada, não são movidos a ideologias de granito, mas a análises específicas e percepções inéditas do descalabro da atualização capitalista em curso no país.

Quanto ao saber local, é outra herança sem testamento. No caso do triste fim das interpretações clássicas do Brasil, para ficar no exemplo mais aberrante, quando muito alimentam uma pequena indústria cultural do comentário elegante, nos lembrando de tempos em tempos – e os de hoje são de discreta euforia – que as raízes do Brasil continuam vivíssimas. Enfim, uma escalada da sofisticação, contra o pano de fundo da qual se destacará ainda mais o brutalismo da ralé intelectual com a qual contamos para voltar a pensar. Mas agora, contra o Brasil – por que não? Será preciso lembrar que na tradição dos oprimidos a famigerada “construção interrompida”, que hoje se presume retomada, é inteiramente outra?

Como pensar por fora exige uma certa folga – em todos os sentidos – não prescrevemos nenhum gênero fixo para as contribuições. Por razões óbvias, eventuais pseudônimos não serão postos em dúvida. Assinatura coletiva pode ser um atalho expressivo. Como é preciso sentir o drama, depoimentos de engajamentos e desengajamentos também serão bem-vindos, sobretudo para governo dos que razoavelmente ainda hesitam no limiar da Crítica meramente crítica, como se dizia nos tempos do jovem Marx. Até programas de transição serão aceitos, desde que expostos como se fossem alheios.

Fonte: http://passapalavra.info/

sábado, 4 de setembro de 2010

70 anos de América Latina - por André Rossi

70 anos de América Latina - por André Rossi

Neste 3 de setembro aniversaria um importante nome do jornalismo e da literatura latino-americanos: o uruguaio Eduardo Galeano completa 70 anos de vida. E, com a data, celebra-se também sua importante contribuição para o imaginário social dos povos da América Latina, além do marcante papel na luta contra o regime militar uruguaio, que durou de 1973 a 1984.

“Para os que concebem a História como uma disputa, o atraso e a miséria da América Latina são o resultado de seu fracasso. Perdemos, outros ganharam. Mas acontece que aqueles que ganharam, ganharam graças ao que nós perdemos: a história do subdesenvolvimento da América Latina integra, como já se disse, a história do desenvolvimento do capitalismo mundial”, escreveu Galeano em 1971, no livro As Veias Abertas da América Latina, que fala sobre o processo de exploração colonial pelo qual passou o continente americano desde sua descoberta até o neo-colonialismo da Revolução Industrial. Anos mais tarde, em 1976, deixou o Uruguai rumo ao exílio na Espanha após ter seu nome incluído em uma lista de execuções do regime militar, liderado pelo ditador Jorge Videla.

Para falar sobre vida e obra do jornalista uruguaio, Fórum entrevistou o professor Alexandre Borges, mestre e doutorando em Ciências da Comunicação pela ECA-USP. Especialista em Jornalismo Internacional, Borges é o idealizador do site www.latinoamericano.jor.br.

Fórum - Na sua opinião, qual a importância de Eduardo Galeano para o jornalismo e literatura latino-americanos?
Alexandre Barbosa - Galeano foi além do jornalismo e da literatura. Muitos, tanto na academia quanto no jornalismo, enxergam sua obra apenas do ponto de vista literário. De fato, ele escreveu obras belíssimas, como Palavras Andantes e Memórias do Fogo. Esta última, uma crônica da história latino-americana contada de maneira poética. Porém, mesmo na literatura e principalmente no jornalismo, Galeano é essencial para a construção de um pensamento de resistência latino-americana. Sua obra mais conhecida, As Veias Abertas da América Latina, é uma leitura que não pode faltar na vida de qualquer cidadão deste continente.

Fórum - De que maneira ele contribuiu para o imaginário histórico do continente latino-americano?
Barbosa - Enquanto a indústria jornalística insistia na visão de que as alianças com os países centrais do capitalismo eram uma alternativa para o atraso da região, Galeano mostrou como a riqueza da Europa e dos EUA foi construída com base na exploração dos recursos naturais e humanos da América Latina. A cidade boliviana de Potosí, que tem mina de estanho e prata, hoje é uma região pobre, que enriqueceu os cofres dos países ibéricos. A miséria da América Central é a riqueza dos comerciantes norte-americanos.

Como a escrita de Galeano tem forte apelo de denúncia, seu texto flui e serve de inspiração para os movimentos que hoje pregam uma nova ordem da política e da economia latino-americana. Ao ler a obra de Galeano, é possível entender melhor como funcionam os governos de Evo Morales e Rafael Correa. Quem leu As Veias Abertas da América Latina jamais teria coragem de criticar a ação boliviana de nacionalização dos recursos minerais.

Fórum - Galeano participou ativamente de movimentos culturais contrários à ditadura uruguaia de 1973. Para você, qual obra dele melhor representa a resistência contra o regime militar?
Barbosa - Galeano e outros da classe artística e jornalística podem ser considerados parte de um movimento que Michael Löwy chamou de Romantismo Revolucionário que, entre outras características, entende as manifestações artísticas como instrumentos de denúncia, resistência e revolução.

Há contos e crônicas belíssimas de Galeano sobre a ditadura uruguaia. Recomendo a leitura de um texto sobre os desenhos que a filha de um preso levava para o pai no cárcere. O guarda proibia imagens e desenhos de pássaros, pois eles eram sinônimos de liberdade. Um dia, a filha desenhou uma árvore com frutas e o desenho passou. O pai elogiou o desenho e filha confidenciou-lhe que os pássaros estavam escondidos entre as folhas...

Fórum - Hoje em dia, Eduardo Galeano figura como um dos maiores nomes da literatura na América Latina, ao lado de Gabriel García Marquez e outros. O que ainda podem fazer para estabelecer um ponto de reflexão nos povos do continente contra a dominação cultural e ideológica?
Barbosa - É essencial seguir estudando as obras desses dois autores. Além de As Veias Abertas da América Latina, um latino-americano não pode se considerar latino-americano sem ler Cem Anos de Solidão, de García Marquez. Um curso sobre América Latina tem de incluir uma discussão sobre “As Veias Abertas” e um debate sobre a metáfora da cíclica história do continente que está encarnada em “Cem Anos”.

Tanto Galeano quanto Gabo continuam fortes em suas posições. Continuam a defender a América Latina e suas lutas. Gabo mantém a FPNI (Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano), que incentiva a construção de um jornalismo que tenha olhar latino-americano. A última obra de Galeano, Espelhos, se dedica às histórias esquecidas não só da América Latina, mas de todo o mundo.

Foto: Flickr http://www.flickr.com/photos/marielademarchi/2858983926/sizes/l/in/photostream/
Leia também: Eduardo Galeano, o caçador de vozes.

Fonte: http://www.revistaforum.com.br/

Charge do Dia!



Por Carlos Latuff

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Charge do dia!



Fonte: http://dalciomachado.blogspot.com/

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A arte para o povo: pinturas em murais eternizaram heróis da revolução mexicana - por Marisol Rueda

A arte para o povo: pinturas em murais eternizaram heróis da revolução mexicana - por Marisol Rueda


Próximo ao centro histórico da Cidade do México se ergue imponente uma estrutura de 65 metros de altura feita de pedra e chiluca, mineral originário do país. No início pensado para ser o palácio legislativo do governo de Porfírio Diaz – vigente por 35 anos – o prédio mais tarde se transformou em depósito dos restos mortais de quatro heróis da Revolução Mexicana: Francisco I Madero, Venustiano Carranza, Plutarco Elias Calles e Francisco Villa. O Monumento à Revolução, finalizado em 1938, se converteu então em um grande símbolo iconográfico da luta armada.

Monumento à Revolução Mexicana serviu de mausoléu para heróis do periodo

Outros exemplos como esse podem ser vistos pelo México, comprovando que, por meio da arte, os heróis mexicanos se transformaram em ícones. O escritor José Vasconcelos, renomado ministro da Educação em 1921, impulsionou esse fenômeno levando a arte para as ruas. O que se percebia era que, além de uma revolução social, era preciso uma revolução cultural, em que a arte e a literatura estivessem ao alcance do povo. Desde que assumiu o cargo de ministro, Vasconcelos fez com que grandes artistas tivessem acesso aos muros dos edifícios públicos, criando assim o Movimento Muralista, datado do princípio do século XX. “Assim era inaugurada a era Modernista, quando artistas se comunicavam com um público de gostos homogêneos” afirma o artista Felipe Ehrenberg.

Durante as décadas seguintes, artistas como Diego Rivera, Jose Clemente Orozco e David Alfaro Siqueiros transformaram paredes públicas em grandes telas, onde foram reproduzidos os principais momentos históricos da revolução.

No mural intitulado “Do Porifiriato à Revolução”, que se encontra no Museu Nacional de História da Cidade do México, Siqueiros contrapõe a ditadura de Porfírio Dias ao movimento revolucionário de forma inovadora. No início, o artista quis usar somente um terço do espaço, mas mudou de ideia e percebeu que precisava criar uma grande pintura documental sobre o grande movimento social e político mexicano do século XX.

“Do Porifiriato à Revolução” é o primeiro mural em superfície plana que compõe uma unidade sem solução de continuidade. Em um dos ângulos da parte central, a obra mostra um grupo de camponeses vestidos com mantas e sombreiros, enquanto seguram fuzis e cartucheiras ao redor dos dorsos. Pode-se distinguir os rostos de alguns dos líderes revolucionários, como Emiliano Zapata, Francisco I Madeiro e Venustiano Carranza, entre a multidão.


Um dos ângulos do mural “Do Porifiriato à Revolução”, de David Alfaro Siqueiros

Em outro ângulo, a pintura expõe um grupo de mulheres com o rosto doente. Perto, Porfírio Diaz assume a pose de quem controla o destino do país, rodeado por assessores que adulam o homem com sombreiro e luvas de seda. Próximo, mulheres exibindo sinuosas curvas em vestidos franceses, jovens “Marias Antonietas” alheias ao que acontecia na sociedade mexicana naquela época.

“A pintura sempre refletiu os movimentos sociais. Os artistas que se sensibilizam com as grandes rupturas históricas se sentem totalmente influenciados por essa forma na hora de criar”, assinala Moisés Rosas, diretor do Museu de Estanquillo da Cidade do México.

É uma forma de refletir o que somos como povo e nos entendermos, afirma Leo Mendoza, roteirista de cinema.

Nos murais, os artistas mexicanos mostraram a ousadia dos revolucionários, os abusos da classe governante e a interpretação visual da história da revolução. Pela primeira vez o povo teve acesso à arte e se viu refletido nas paredes de prédios públicos. “Saltamos de uma pintura afrancesada para uma totalmente realista, de denúncia, que fala do aparecimento das massas na sociedade” explica Rosas.

Além de ser afrancesada, a arte colonialista copiava paisagens; os elementos principais eram a vegetação e a natureza, deixando de fora individuo e sociedade. O surgimento do movimento armado no México deu início à uma arte onde a sociedade passou a ser preponderante.


Mural “O Sangue dos Mártires Revolucionários Fertilizando a Terra”, de Diego Rivera

Diego Rivera
A corrente tradicional do paisagismo evoluiu para o muralismo, que se viu diretamente refletido em gerações de pintores. O paisagista José Maria Velasco, por exemplo, foi mestre do pintor conhecido como Dr Atl e este por sua vez, ensinou Siqueiros e Jose Clemente Orozco que revolucionaram a pintura do país. Outro grande muralista influenciado pela revolução foi Diego Rivera, que após estudar na França, viajou ao México em 1920 para unir-se ao movimento artístico em desenvolvimento.

“As artes se encarregam de expressar o que o imaginário popular odeia e ama” afirma Ehrenberg. Assim o fez Rivera, que criou pinturas cheias de significado para o mexicano. Ele pintou diversos muros no Ministério de Educação Pública e imprimiu imagens de banhistas, tecelãs e lavadeiras em afrescos. Rivera dirigia o sindicato revolucionário de operários, técnicos, pintores e escultores, cujo lema era “o artista vestirá um macacão, subirá no andaime, trabalhará em equipe, reafirmará seu oficio, tomará partido na luta de classes”.

Na pintura do mexicano, a revolução e a arte foram unificados, o que faria com que sua obra transcendesse e chegasse a ser a mais celebrada no México. Entre seus murais sobre a revolução, estão os da Universidade Autônoma de Chapingo, intitulado “A Divisão de Terras” e “O Sangue dos Mártires Revolucionários Fertilizando a Terra”.

Fonte: Opera Mundi

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Estado Assassino: Duas ou três coisas sobre Israel

Estado Assassino: Duas ou três coisas sobre Israel

Soldados de Israel posam ao lado de um professor palestino morto por eles quando defendia seus alunos

Limpeza Étnica – Já está decidido. Os arquivos sobre a invasão e ocupação da Palestina pelos euro-sionistas e que ficaram 50 anos ocultos não serão dados a publico conforme determina a lei.
O governo de Israel decidiu prorrogar por mais 20 anos a abertura desses arquivos “por serem delicados”.
Historiadores dizem que o temor se prende ao fato de os arquivos demonstrarem que houve limpeza étnica de palestinos.

Wikipédia – Sionistas querem reescrever a Wikipédia. Eles dizem que estão perdendo “a guerra das comunicações” . Quem se habilitar deve entrar em contato com o governo de Israel que será regiamente pago.

Indenização – Agora que já se sabe que o neto de Hitler virou judeu e vive em Israel (AQUI ) será que ele está reivindicando o direito às régias indenizações que a Alemanha está pagando aos judeus que teriam realizado trabalho escravo durante a segunda grande guerra?

Por Georges Bourdoukan
Fonte: http://blogdobourdoukan.blogspot.com/

Os EUA, o Chá e o 11/09: modernidade e regressão - por Cristina Soreanu Pecequilo (*)

Os EUA, o Chá e o 11/09: modernidade e regressão

Embora o Partido do Chá não constitua um partido oficial, represente a maioria ou detenha uma face única, sua mobilização social atrai segmentos diversos. A sua atração reside na externalização de problemas ao outro, o governo, as instituições públicas ou o diferente, sintetizado em um discurso composto pelos “antis” e pelos “prós”: anti-Estado, anti-impostos, anti-minorias, anti-direitos civis e sociais, pró-armas, pró-vida, pró-religião. O espírito é conservador, o que gera posições paradoxais: critica-se a reforma da saúde e do sistema financeiro como intrusivas, mas, ao mesmo tempo silencia-se ou apóia-se o Ato Patriota que, mais do que estes ajustes, é contrário às liberdades individuais.
O artigo é de Cristina Soreanu Pecequilo.

Para o Brasil e os Estados Unidos (EUA), o mês de setembro representa a reta final de campanhas eleitorais. Enquanto no Brasil aproxima-se o pleito presidencial, governos estaduais, senadores, deputados federais e estaduais de outubro, nos EUA observa-se o primeiro teste da Presidência Obama nas eleições de meio de mandato para o Legislativo e comando dos estados. Em setembro, ainda, os norte-americanos são lembrados de sua vulnerabilidade, confrontados pelas imagens daquela manhã do dia 11 em Nova Iorque e Washington. Porém, hoje mais do que Bin Laden, o grande personagem do pleito de novembro nos EUA parece ser o chá.

Fonte de um dos protestos mais significativos que antecedeu a Revolução de 1776, quando os colonos se recusaram a pagar impostos à metrópole britânica sobre o comércio deste bem, preferindo arremessar o produto ao mar, o chá ressurgiu no encerramento da primeira década do século XXI associado ao movimento libertário, a grande força das eleições de 2010. Por que trazer de volta estas raízes? Não estaria esta “mitologia libertária” dissociada do presente e futuro norte-americano atualmente uma potência hegemônica e não mais uma pequena colônia?

A razão para a discussão reside na redefinição dos EUA como nação, associada à reorganização de seus grupos de interesse. O fator chave deste processo é o declínio gradual da hegemonia Anglo Saxã, Branca e Protestante (WASP) que dominou a política desde os princípios da construção do país e que se encontra, desde meados dos anos 1990, pressionada pela ascensão de um país multicultural, multiracial, multi étnica e diversa religiosamente. Esta ascensão resulta da evolução da imigração, dos casamentos interraciais e da mudança do eixo sócio-econômico, caracterizado pela crise do paradigma produtivo e do American Way of Life, o empobrecimento da classe média, aumento da linha da pobreza e a concentração de renda no topo.

A alteração quantitativa e qualitativa do perfil populacional tem promovido o rearranjo das forças políticas, que se refletiu na eleição de Barack Obama em 2008. Este teria sido um momento definidor da disputa pela hegemonia interna entre o “velho e o novo” devido ao mandato popular conquistado pelo presidente. A representatividade do “novo” levaria à reavaliação do curso político do país e a formação de coalizões progressistas para a atualização estrutural da sociedade, economia e estratégia. Para muitos, era um momento comparável, só que em tempos de paz, ao da Guerra da Secessão (1861/1865) e da união nacional promovida por Abraham Lincoln entre os EUA capitalista moderno do Norte e o Sul agrário atrasado. Esta eleição, porém, foi apenas uma batalha dentro da guerra em curso, cujos sinais já se faziam presentes em 1994 quando o governo democrata de Bill Clinton foi colocado em xeque pela vitória republicana nas eleições de meio de mandato em 1994, a “Revolução do Contrato com a América”. Ao “Contrato” se seguiria a “Revolução Estratégica” preventiva e unilateral de W. Bush em 2001 e as pressões pela unanimidade e do medo pós-11/09.

E onde entra o chá em toda história? O “Partido do Chá” (Tea Party), que nos remete ao século XVIII, ligado ao Movimento Libertário, é no presente uma das grandes forças políticas em ação. Pode-se sugerir que o Movimento Libertário é minoritário, vide a votação irrelevante conquistada por Ron Paul, seu candidato à Presidência em 2008 e a quase ausência de seus membros no Legislativo e governos estaduais. A política, assim, continuaria polarizada entre os partidos Republicano e Democrata. Todavia, dada a natureza fragmentada do sistema político norte-americano que permite que o governo seja muito permeável aos grupos de interesse não se pode subestimar o impacto deste movimento e seu potencial de crescimento.

Embora o Partido do Chá não constitua um partido oficial, represente a maioria ou detenha uma face única, sua mobilização social atrai segmentos diversos. A sua atração reside na externalização de problemas ao outro, o governo, as instituições públicas ou o diferente, sintetizado em um discurso composto pelos “antis” e pelos “prós”: anti-Estado, anti-impostos, anti-minorias, anti-direitos civis e sociais, pró-armas, pró-vida, pró-religião. O espírito é conservador, o que gera posições paradoxais: critica-se a reforma da saúde e do sistema financeiro como intrusivas, mas, ao mesmo tempo silencia-se ou apóia-se o Ato Patriota que, mais do que estes ajustes, é contrário às liberdades individuais (a lógica, contudo, é a mesma de 11/09, para preservar a República, é preciso combater seus excessos e inimigos, independente dos meios). A política externa é secundária, alternando, dependendo do momento e de quem discursa posturas unilaterais, isolacionistas e intervencionistas, sob o manto do nacionalismo e do messianismo.

A força desta pauta, maximizada pela lenta recuperação econômica e disputas no topo do poder, levou ao crescimento das mobilizações e uma instrumentalização de seu vigor por republicanos que não encontram espaço entre as linhas tradicionais dominadas por Bush filho e seus aliados (e que também não querem a ela se associar por causa do fracasso da administração). A expectativa dos “novos neoconservadores” é conseguir visibilidade e massa populacional significativa para serem reconhecidos como relevantes na reorganização da direita. As eleições de meio de mandato de 2010 são o primeiro teste desta tática tanto para os que visam a presidência em 2012, como para os que apostaram neste referencial para eleger-se para o Legislativo ou governos estaduais.

Dentre os nomes conhecidos que se aliaram ao “Chá” encontram-se Sarah Palin, ex-candidata a Vice-Presidente ao lado de John McCain e Mitt Romney, que pleiteara nas primárias a indicação em 2008. Esta não é a única instrumentalização no Movimento, uma vez que parte de suas lideranças deseja usufruir da máquina do Partido Republicano para chegar a Washington apesar de suas críticas “ao sistema”.

Pode-se discordar do projeto desta corrente, como um exemplo de regressão, mas não se deve ignorar sua ressonância e as pressões que exerce sobre o centro moderado e sua capacidade de causar ruídos. Na mídia conservadora, suas aparições são cada vez mais frequentes, alternando-se com a desconstrução da imagem de Obama, que, para 20% da população é muçulmano (sem deixar de mencionar que 30% acreditam que os democratas instauraram o socialismo nos EUA).

Estes não são fenômenos recentes, mas contínuos, que se alimentam da crise, do vácuo da modernidade e do dissenso aparecendo sob formas diversas: enclaves por motivações religiosas e políticas (recusa ao reconhecimento do poder constituído do Estado), atentados contra clínicas de família para planejamento familiar e saúde da população mais pobre (e não só de aborto), preconceito contra imigrantes (legais e ilegais, vide a Lei do Arizona), formação de milicias, oposição aos direitos das minorias (contra a ação afirmativa, legislação sobre crimes de ódio, igualdade), alteração de curriculos escolares (banimento da teoria da evolução), corte no financiamento de ensino e pesquisa de temas polêmicos (células tronco), críticas ao Estado secular, uma mescla de isolacionismo e intervenção, dentre outros.

Diante destas manifestações, o 9º “aniversário” de 11/09 deve servir como uma lembrança das consequências do fundamentalismo, independente de sua origem e agenda. Mais ainda, é uma data que precisa nos remeter a outra praticamente esquecida em 2010, simbólica destas raízes de fragmentação: o 19/04/1995 e os 15 anos do atentado terrorista doméstico de Oklahoma City. Neste cenário, o ideal seria, principalmente à sombra das eleições, que a mobilização social e partidária pró-Obama detivesse a mesma vitalidade e pragmatismo que seus adversários demonstram em formar frentes políticas na defesa de seus interesses e conquista de poder.

(*) Doutora em Ciência Política e Professora de Relações Internacionais

Fonte: Carta Maior