sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Por um mundo economicamente multipolar - por Emir Sader

Por um mundo economicamente multipolar - por Emir Sader
O mecanismo clássico de resolução das crises pelas potências capitalistas sempre foi o de exportá-las para a periferia.

O próprio sistema colonial e, depois, o imperialista, era uma garantia da incapacidade de resistência dos países da periferia em defender-se dessa exportação dos efeitos mais duros da crise.

A disputa de hegemonia, no inicio do capitalismo, entre as potências coloniais emergentes, foi resolvido pela maior capacidade que uma dessas potências tinha de dominar zonas estratégicas da periferia. Foi o domínio marítimo que finalmente permitiu à Inglaterra erigir-se como potência hegemônica. O que lhe permitiu, entre outras coisas, repartir parte dos benefícios da exploração colonial até mesmo com setores da própria classe operaria britânica, que se tornou associada da exploração das colônias, no fenômeno que Lênin chamou de aristocracia operária. Diminuíram as contradições dentro da Inglaterra, aumentaram de forma correlata aquelas entre a metrópole e suas colônias. Diminuíu relativamente a questão social e aumentou a questão nacional.

A crise atual é uma reiteração do mesmo mecanismo. Os EUA, enfraquecido como potência industrial, que se vale da exploração da mão-de-obra mais barata da periferia – prioritariamente da China -, estabeleceu com esta uma relação de dependência mutua, à qual estão ambos os países presos e que prejudica o resto do mundo. As moedas dos dois países, por razões distintas, mas complementares, ficam desvalorizadas, promovendo, não por elevação da produtividade e da qualidade dos produtos, mas por um mecanismo cambiário, suas mercadorias no comércio internacional.

Ainda que os EUA preguem o livre comércio como princípio geral da sua política, praticam o protecionismo e provocarão uma onda de respostas protecionistas dos outros governos. Nenhum país pode ficar passivo diante de medidas como a do governo norteamericano de inundar de dólares o mercado. Todos têm obrigação de proteger suas economias, de não ser vítimas passivas desse verdadeiro estelionato que os EUA praticam.

Mas essa política reiterada dos EUA coloca em questão – como o Brasil está denunciando – a utilização do dólar como meio de troca universal. É um país que goza do privilégio de imprimir moeda, que se vale disso não com a responsabilidade de quem trata de uma moeda que, até aqui, funciona na prática como uma moeda universal, mas com o egoísmo de submeter o mundo aos efeitos negativos da deterioração da sua economia.

Com razão, vários países propõem substituir o dólar por uma cesta de moedas, que inclua as moedas chinesa e brasileira, para diminuir os efeitos da instabilidade do dólar. Os EUA não se mostram à altura, nem pelo enfraquecimento de sua economia, nem pelas políticas egoístas de seus governos, de dispor desse privilégio.

A construção de um mundo multipolar no plano econômico se mostra possível e necessária. No auge da crise, os países do Sul do mundo, acentuando os intercâmbios entre si, saíram da crise, sem depender da demanda dos países do centro, que continuam em recessão. É chegada a hora de reequilibrar a balança de forças no mundo no plano econômico, impedindo que as potências imperiais sigam exportando os efeitos das suas crises para a periferia.

*Emir Sader é sociólogo e cientista político, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Artigo originalmente publicado pela Agência Carta Maior. Fonte: Opera Mundi

Varrição social em Blumenau - por Magali Moser

Varrição social em Blumenau
Magali Moser - Jornalista, diretamente de Blumenau-SC

A decisão da prefeitura de Blumenau de retirar as bancas de vendedores ambulantes da Rua Sete de Setembro esconde um viés marcado pela intransigência e dificuldade do governo municipal dialogar com os mais pobres. Não por acaso, a varrição social foi feita sob a escuridão da noite do feriado do dia 15 de novembro. No dia seguinte, a cidade amanhece livre do que considera “incômodo aos olhos” na área mais nobre do município.

Com o aval da polícia militar, o poder público destrói quatro barracas e a vida de quem dependia delas para a própria sobrevivência. Os argumentos oficiais usados pelo governo de que o horário escolhido para a remoção justifica-se para não alterar a rotina da cidade e de que as barracas impediam o andamento das obras do trânsito - com os corredores exclusivos de ônibus - ocultam uma decisão autoritária e truculenta, pautada por uma postura arbitrária, como se os ambulantes fossem “pessoas indesejáveis”.

É preciso reconhecer: A coexistência dos ambulantes numa das principais artérias da cidade incomoda, sobretudo porque trata-se de um comércio direcionado à população de baixa renda. O discurso moralizador que se expressa sob o pretexto de que a prefeitura, com a medida, civiliza o uso do espaço público e retira obstáculos à circulação de pedestres, ignora a vida de quem está sob as calçadas há até 30 anos e para quem o comércio informal pode ser a única forma de reinserção no mercado de trabalho.

Se eles estavam ali há tanto tempo, é porque tinham a autorização do poder público. Em vez de encaminhar uma proposta humanizada para este tipo de comércio, a prefeitura de Blumenau vai na contramão e gera desempregados sem recursos para sobrevivência. O mínimo que se esperava era um prazo maior ou a busca de outros espaços para construir uma alternativa às famílias que retiram dali o seu sustento.

O governo municipal sempre usou a mesma estratégia para lidar com os pobres no Centro. A visão de varrê-los para periferia já demonstrou ser falha ao longo da história. Ambulante não é caso de polícia, mas fruto de uma questão social. Eles não podem ser tratados como criminosos! O governo não pode agir de forma despótica e reprimir generalizadamente a atividade. Os discursos que se tem ouvido de que a decisão é necessária em nome da recorrente expressão “reurbanização do Centro” escancara o descaso pelos que dali sobrevivem, varrendo-os como se eles fossem literalmente lixo. Essa tendência anula aqueles que lutam pelo direito da população de permanecer no Centro e torná-lo um lugar mais democrático.

A ações adotadas pelo governo demonstram uma política segregacionista, com medidas como a proibição de bebida alcoólica nas praças, a proposta do toque de recolher - posteriormente travestido com o nome toque de acolher -, que recaem sempre sobre uma parcela da população já carente de acesso a oportunidades e privada de opções. Preocupante perceber que a sociedade não questiona a causa dessas situações, preferindo a indiferença. Parece estar anestesiada. Até quando o problema do próximo deixará de ser seu também?
Fonte: http://www.novae.inf.br/

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

G20 - por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

Gasto militar mantem equilíbrio do terror finaneiro nos EUA - por Osvaldo Martinez

Gasto militar mantem equilíbrio do terror finaneiro nos EUA
A estrutura do orçamento dos EUA e a lógica de sua política econômica é a de uma economia de guerra na qual o gasto militar exacerba o déficit fiscal, mas permite o funcionamento de um “equilíbrio do terror financeiro”, repassa imensos lucros ao complexo militar industrial e mantém uma chantagem global baseada na força militar. O gasto no resgate das entidades financeiras falidas na crise alcança 1,45 trilhão, enquanto que os juros devidos pela dívida pública são de 164 bilhões de dólares. Quase toda a receita do orçamento (2,38 trilhões) se consome somente pelo gasto militar mais os resgates da oligarquia financeira e uma pequena proporção por juros da dívida pública. Osvaldo Martinez (*)

Uma simples olhada no orçamento de 2010 dos Estados Unidos permite examinar a magnitude do gasto militar e o papel que este joga em conjunto com o gasto para os pacotes de resgate dos bancos e entidades financeiras quebradas.

O montante do orçamento é de 3,94 trilhões de dólares e o déficit previsto é de 1,75 trilhão, equivalente a quase 12% do PIB. (1)

O gasto militar oficial é de 739,5 bilhões de dólares, embora se forem incluídos outros gastos indiretos ou encobertos, o gasto superaria 1 trilhão de dólares.

O gasto no resgate das entidades financeiras falidas na crise, efetuado pelas administrações de Bush e Obama alcança 1,45 trilhão, enquanto que os juros devidos pela dívida pública são de 164 bilhões de dólares.

Isto significa que quase toda a receita do orçamento (2,38 trilhões) se consome somente pelo gasto militar mais os resgates da oligarquia financeira e uma pequena proporção por juros da dívida pública. Não fica praticamente nada para outros tipos de gastos.

Se considerarmos que o gasto militar ronda o trilhão de dólares e que a parte da receita orçamentária correspondente aos impostos familiares é de 1,06 trilhão, temos que quase todos os impostos pagos pelas famílias nos Estados Unidos mal dão para cobrir o enorme gasto militar.

Os Estados Unidos são o país mais endividado do mundo, embora o significado prático disto seja diferente para este país que para qualquer outro, porque se encontra endividado na moeda nacional que ele mesmo cria e faz circular.

O financiamento da enorme dívida pública federal ascendente a 14 trilhões de dólares, sem incluir dívidas dos estados e municípios é de características surrealistas.

Para o crescimento dessa dívida pública contribuíram os pacotes de resgate aos bancos, mas essa dívida é financiada por uma retorcida operação mediante a qual o governo financia seu próprio endividamento, pois o dinheiro dado como resgate aos bancos é financiado em parte tomando empréstimos aos mesmos bancos.

Por sua vez, os bancos impõem condicionalidades ao governo no manejo da dívida e como o dinheiro deve ser empregado. Depois de terem sido “resgatados” os bancos exigem cortes maciços no gasto público em serviços para a população, a privatização de infraestruturas e serviços como água, rodovias, lazer, mas não se toca no gasto militar.

E não se toca porque “War is Good for Business” (A guerra é boa para os negócios) e a mesma oligarquia que maneja o mercado financeiro obtém elevados lucros procedentes do gasto militar. E esse gasto militar - como parte do déficit público - é financiado por operações de guerra econômica que se aquecem cada vez mais e ameaçam mesclar a guerra econômica com a guerra provavelmente nuclear que os Estados Unidos incubam na complexa meada de seus interesses e contradições econômicas e geoestratégicas.

O equilíbrio do terror financeiro
A peculiar estrutura mediante a qual os Estados Unidos atuam como uma economia parasitária que financia seus déficits e seu gasto militar recebendo injeções financeiras do resto do mundo é parte da “normalidade” da ordem econômica global. Ter reservas monetárias em dólares que se reciclam para comprar bônus ou outros instrumentos do Tesouro que financiam a dívida estadunidense, e com ela a escalada militar, é considerado pelos neoliberais como uma manifestação do equilíbrio de mercados livres.

O poder midiático apresenta esta reciclagem como resultado da confiança na fortaleza econômica dos Estados Unidos porque outros países enviam para lá seus dólares para ser investidos. (2)

O real é que os estrangeiros põem seu dinheiro nos Estados Unidos não porque sejam importadores de mercadorias desse país, nem tampouco são investidores privados comprando ações ou bônus. Os maiores aplicadores de dinheiro nos Estados Unidos são os bancos centrais que não fazem outra coisa senão reciclar os dólares que seus exportadores obtiveram e por sua vez cambiaram por moedas nacionais.

Com déficits comercial e fiscal crescentes nos Estados Unidos, se produz uma inundação de dólares para o exterior, que agora são impulsionados pela baixa taxa de juros norte-americana e pela emissão alegre de papéis verdes.

Os países receptores de dólares (a China em especial) se vêem colocados diante de um dilema. Não participam nem têm influência alguma sobre decisões econômicas do governo dos Estados Unidos, que se aproveita do privilégio do dólar. Se aceitam a inundação de dólares, seja por excedentes comerciais ou pela baixa taxa de juros norte-americana ou por ambos os fatores, sofrem a pressão para a elevação da sua taxa de câmbio, a perda de competitividade comercial e o perigo de deixar aninhar perigosos capitais especulativos de curto prazo.

Para evitar essa inundação, a conduta imposta é comprar papéis de dívida emitidos pelo governo norte-americano e acumulá-los nas reservas monetárias, sofrendo o perigo de que qualquer desvalorização do dólar seja uma desvalorização de suas reservas. À China ou a outros países que acumulam grandes volumes de dólares ou de papéis da dívida norte-americana denominados em dólares, não se lhes permite comprar ativos não financeiros nos Estados Unidos. Quando a China tentou (a compra de instalações para a distribuição de combustíveis) o governo dos Estados Unidos o proibiu. Nesse caso não valem o livre fluxo de capitais, o livre comércio e a retórica habitual. Só podem comprar ativos financeiros para financiar os déficits estadunidenses.

Ao comprar os bônus do Tesouro os países entram no “equilíbrio do terror financeiro” e passam a contribuir para financiar um destino não previsto nem desejado: o gasto militar do Pentágono.

Ocorre assim para os países receptores de dólares surgidos dos déficits norte-americanos, uma dupla compreensão. São lesionados ao ver-se estruturalmente empurrados a financiar passivamente a máquina militar norte-americana por meio de um “equilíbrio do terror financeiro” baseado não em sua superioridade econômica, mas no poderio militar. E ao fazê-lo, países como a China e a Rússia estão alimentando o mesmo gasto e poderio militar que aponta armas nucleares para eles.

O maciço gasto militar tem um objetivo geoestratégico hegemônico e sua lógica última é a guerra.

Não poucas pessoas nos Estados Unidos crêem nas virtudes de estímulo econômico que uma guerra pode trazer. Recordam com nostalgia que a guerra hispano-cubano-americana, a primeira guerra da etapa imperialista, serviu em 1898 para que os Estados Unidos escapassem da crise econômica daquela década. O que foi a Segunda Guerra Mundial? Esta finalmente provocou a suficiente destruição de forças produtivas para deixar para trás a Grande Depressão e abrir caminho aos dourados anos 1950. A recessão de finais dos anos 1940 foi superada com a ajuda da guerra da Coréia.

Esta nostalgia, que incrementa o perigo de uma catastrófica guerra nuclear, ignora que aquelas guerras convencionais correspondentes à época pré-nuclear poderiam atuar como estímulos anticrises, mas a guerra atual da era nuclear perdeu essa capacidade.

As guerras com armas convencionais tinham duas virtudes como reanimadoras da economia: mediante a produção maciça de armamento convencional para atender pedidos do Estado em guerra, se gerava emprego nas cadeias produtivas de então, e também a guerra convencional acelerava a destruição de forças produtivas que a crise econômica tinha iniciado, e levava ao nível suficiente para impulsionar a recuperação sobre a base da reconstrução do pós-guerra. A destruição era a suficiente para completar e acelerar o peculiar papel da crise econômica como destruidora de riqueza para iniciar depois outra fase expansiva e não era tanta ao ponto de ameaçar a vida da espécie humana e do planeta. Era possível para o capitalismo não só sobreviver, mas utilizar a guerra como tônico estimulante para a economia.

A guerra nuclear na atual etapa não seria estimulante frente ao principal problema orgânico da crise que é o desemprego, pois agora a tecnologia sofisticada para fabricar armas utiliza muito pouca força de trabalho, mas sua capacidade destrutiva é tão formidável que o destruído não seriam fábricas, capitais financeiros ou algumas cidades, mas o planeta e a espécie humana depois do cataclismo do inverno nuclear.

A guerra atual, se é guerra convencional de desgaste como a do Iraque e do Afeganistão, não pode ser ganha pelos Estados Unidos nem é estimulante para sair da crise econômica, se é guerra nuclear que se estabelece como ameaçadora possibilidade, tampouco serviria para sair da crise porque não eliminaria o grande problema do desemprego, mas serve para fazer grandes negócios a partir do tipo de gasto público que se maneja com total opacidade e falta de critério, o gasto no qual os Bernanke, Geithner, Summers, Strauss Kahn, nada decidem: o gasto militar, o qual é capaz de reunir em si mesmo a ambição hegemônica e o super lucro do grande negócio.

Para os Estados Unidos, debilitado economicamente e com uma cultura produtiva declinante, o recurso de última instância é a ameaça constante de guerra sustentada no gasto militar crescente. Mas, a ameaça constante de guerra e o gasto militar possuem uma dinâmica diabólica que tende a realizar-se na guerra real, quando convergem a mentalidade belicista, os conflitos pela hegemonia em petróleo, gás, água etc., disfarçados de razões humanitárias ou religiosas e a crença de que na guerra nuclear pode haver vencedores.

O declínio da economia da maior potência militar apresenta fortes tensões entre um poderio militar muito superior a qualquer outro e, pela mesma razão, ambicioso de hegemonia, e uma economia em retrocesso, que exportou boa parte de sua capacidade industrial, mergulhou no parasitismo financeiro, se acomodou no consumismo do produzido por outros e perdeu a cultura produtiva que alguma vez foi relevante. Alguns assinalam que seguindo essas tendências, o país que ao terminar a Segunda Guerra Mundial dominava a economia mundial com sua capacidade produtiva, se encaminha a consumir os produtos do exterior e a exportar somente filmes, espetáculos musicais, imagens glamorosas de um consumismo insustentável e armas.

O atraso econômico frente aos ritmos de crescimento da China e não só dela, mas do chamado BRIC+3 (Indonésia, Coréia do Sul, Malásia) é também uma fonte de tensões. Ao ritmo que crescem estes países chamados emergentes, seu PIB chegará em 2020 ao que agora tem o G-7.

As tendências apontam para o retrocesso econômico dos Estados Unidos e a previsível utilização da força militar para manter a posição dominante da segunda metade do século 20.

Essas tensões se manifestam nas guerras no Iraque, Afeganistão, Paquistão, na ameaça de guerra nuclear contra o Irã e a Coréia do Norte e também nos golpes e intentos de golpes de estado na América Latina (Honduras, Venezuela, Equador, Bolívia); adicionalmente, na crescente militarização na forma de instalação de bases militares norte-americanas em escala global e na conformação de uma doutrina de guerra que inclui, entre outras coisas, a perigosa redefinição das bombas nucleares “pequenas” - podem oscilar entre a metade e até 6 vezes a capacidade da bomba de Hiroshima - como armas que fazem parte de um menu de opções cuja utilização pode em teoria, ser decidida pelo comando no teatro de operações. Significa que um general no teatro de operações dispõe de uma “caixa de ferramentas” para escolher, na qual tem disponíveis mini bombas nucleares que poderia utili zar como o faria com os blindados, a artilharia etc.

Rumo à guerra econômica?
Nas últimas semanas a economia mundial está fervilhando com as noticias sobre a guerra das divisas. Esta guerra foi preocupação central da reunião de ministros das Finanças do FMI em 23 de outubro e de novo, assim como em todas as Cúpulas do G-20 realizadas depois do início desta crise global, foram reiteradas as solenes declarações de compromisso com o “livre comércio” e a não aplicação de barreiras ao funcionamento dos mercados.

Nestas primeiras escaramuças de uma possível guerra se vêem com clareza os contendores. Por um lado, os Estados Unidos tratando de reanimar sua economia a todo custo, aproveitando-se do fato de contar com a moeda de reserva internacional que é também sua moeda nacional. Ademais, lança uma torrente de dólares para o exterior a fim de desvalorizar o dólar, melhorar sua posição competitiva e ao fazê-lo, elevar as taxas de câmbio dos demais, prejudicá-los no comércio, fazê-los reciclar os dólares comprando instrumentos da dívida norte-americana. Por outro, o restante das economias do mundo, em especial os exportadores de matérias primas do Sul, os que além do que foi dito acima, sofrem a afluência de capitais especulativos voláteis impulsionados pela baixa taxa de juros que os Estados Unidos mantêm como instrumento sem êxito para reanimar o investimento.

A transformação destas escaramuças em uma verdadeira guerra ao estilo da ocorrida nos anos da Grande Depressão dependerá da profundidade e duração que alcance a crise global. Se ela se agravar, poderá ocorrer que a guerra das divisas venha a ser o prelúdio de uma guerra comercial com a aplicação de políticas nacionais de “empobrecer o vizinho” e o desaparecimento da retórica livre-cambista e os juramentos de fé no multilateralismo.

Para todos se tornou evidente que o governo dos Estados Unidos não faz outra coisa que aplicar o nacionalismo para resolver seus problemas internos, valendo-se do privilegio do dólar e encurralando os demais. Não seria estranho que esta conduta encontrasse a reciprocidade de outros e, no contexto de longa crise agravada, poderia explodir o sistema de regras e instituições que nasceu no pós-guerra prometendo não repetir jamais uma guerra comercial.

Crise econômica e tendências políticas
A crise global tem estado mais ligada com um giro para a direita do que com um fortalecimento das forças anticapitalistas.

A relação entre crise econômica e tendências políticas foi variada no século passado. Considerando somente as maiores crises econômicas e sua tradução em resultados políticos, estas incluíram um movimento de pêndulo para a esquerda nos anos da Primeira Guerra Mundial e para a direita nos anos da Grande Depressão.

A economia russa de 1917 sofria os estragos dos anos de guerra, mas também o impacto da crise econômica européia. O triunfo da Revolução de Outubro de 1917 foi associado à crise, ainda que, obviamente, somente ela não podia gerar esse triunfo histórico anticapitalista. Muitos outros fatores interagiram com a crise econômica, mas o resultado final foi que a situação extrema a que a guerra, a autocracia czarista e a crise tinham levado a população russa, foi captada, interpretada e dirigida por uma organização política que se propunha terminar com o capitalismo e construir o socialismo.

Nos anos 1930 do século passado a Grande Depressão foi a maior crise econômica até então ocorrida, mas o que predominou associado a ela foi o fortalecimento do fascismo. Na Alemanha a combinação de indenizações pagas aos vencedores na guerra anterior, a inflação galopante, eliminada por uma condução centralizada e fortemente controlada pelo Estado fascista, a eliminação do desemprego através de grandes obras públicas e a liderança de um fanático de direita, deu como resultado o fascismo no poder e a Segunda Guerra Mundial.

Nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina houve nesses anos movimentos de esquerda e para a esquerda, mas não alcançaram vitórias estratégicas. Não existe uma determinação mecânica pelo qual o desemprego, a pobreza, a insegurança que uma crise econômica provoca, conduza o pêndulo para a esquerda.

A insegurança e inclusive o desespero que uma crise gera pode ser apropriada e conduzida para objetivos políticos pela esquerda ou pela direita, na dependência da leitura correta ou incorreta que façam as forças em disputa, das ações concretas e da capacidade da liderança.

Na crise atual não tem sido relevante até o momento a resistência aos efeitos e políticas associadas a elas, apesar do forte impacto no emprego e do custo social que alcançou.

A greve geral na Espanha em 29 de setembro e as manifestações francesas contra a política do FMI de ajuste fiscal, são noticias a acompanhar, mas simultaneamente se fortalece a direita nos Estados Unidos e na Europa, enquanto que na América Latina se desenvolve uma contra-ofensiva imperialista contra os governos da Alba.

Nos Estados Unidos o Tea Party avança no controle do Partido Republicano, e Obama sofre um forte voto de castigo, como expressão eleitoral do giro à direita de massas norte-americanas as quais estão se deslocando à direita pelo desemprego, a extensão da pobreza e a perda da habitação.

O Tea Party é um perigoso conglomerado em que se misturam a ignorância, e o primitivismo político com a intolerância, os preconceitos e a crença cega em ser o povo eleito para conduzir o mundo.

Sua ideologia é uma mixórdia fascistóide que inclui unir a Igreja e o Estado, eliminar os subsídios para o desemprego, expulsar os imigrantes, eliminar as ajudas para pessoas deficientes, considerar que a masturbação é equivalente ao adultério e, claro, reduzir os impostos, desmantelar o “grande governo” e destruir pela força a conspiração islâmico-russo-chinesa que obstaculiza o domínio mundial.

A Europa mostra tendências em similar direção. É de registrar que na Alemanha um partido racista e xenófobo poderia alcançar 15% dos votos. Na Itália a Liga Norte possui força. Na Holanda e na Suécia apesar de suas tradições de tolerância, partidos racistas têm chegado ao parlamento. Na França foram expulsos milhares de ciganos para a Romênia e a Bulgária, países membros da União Européia.

O movimento por um outro mundo, do Foro Social Mundial, perdeu força e se encontra atravessado por pugnas entre ONG’s de países do Norte financiadas por interesses políticos nada interessados em conquistar um mundo melhor, e movimentos sociais com posições de luta anticapitalista, em especial na América Latina.

A luta na França e na Espanha contra o ajuste fiscal neoliberal na época do neoliberalismo desprestigiado, pode marcar o início de um movimento de ascensão na resistência popular.

Parece mediar certo período entre a eclosão da crise e o aparecimento da mobilização social frente a elas, como se fosse necessário que o desemprego, a insegurança e a desesperança se aprofundassem suficientemente para lançar as pessoas ao protesto e à mobilização social. Assim ocorreu nos anos da Grande Depressão, pois somente em 1932-33, três anos depois da eclosão da crise, apareceu a pressão dos “de baixo”.

Para lutar por um mundo melhor e deixar para trás o capitalismo, a espécie humana tem que sobreviver e o planeta deve ser salvo. Para que os humanos sobrevivam é preciso deter a ameaça de guerra nuclear e para salvar o planeta deve cessar a agressão do mercado contra a natureza.

Frear a ameaça de guerra nuclear significa em termos imediatos desativar o plano de agressão ao Irã com a participação de Israel e no médio prazo, cortar o gasto militar que se combina de modo perverso com o declínio da economia norte-americana, para sustentar dois equilíbrios de terror: o financeiro e o militar. E para desperdiçar imensos recursos em máquinas, tecnologias e bombas para matar.

(*) Economista cubano
(1) Michel Chossudovsky e Andrew Gavin Marchall. The Global Economic Crisis. (A Crise Econômica Global), em Global Research. 2010. Pág. 47-48.
(2) Michael Hudson: The “Dollar Glut”. Finances America’s Global Military Build Up. (O “Excesso de Dólar”. As Finanças do Crescimento Militar Global da América), em The Global Economic Crisis. Capítulo 10.
Publicado originalmente em Cuba Debate
Fonte: http://www.cartamaior.com.br

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Racismo ontem e hoje: Ilustração p/capa do boletim nº2 da CSP-Conlutas, Novembro 2010 - por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

[Rio de Janeiro] 100 Anos de México Rebelde - ANA

[Rio de Janeiro] 100 Anos de México Rebelde
Em 20 de novembro completam-se 100 anos da eclosão da primeira grande revolução do século XX, que foi fortemente influenciada pelos ideais anarquistas.

Assim, o Núcleo de Pesquisa Marques da Costa convida para o evento “100 Anos de México Rebelde”, a se realizar no dia 18 de novembro, quinta-feira, às 18h30, no auditório do Sindipetro – Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro , localizado à Avenida Passos, 34, 2º andar (no centro da cidade, entre a Avenida Presidente Vargas e a Praça Tiradentes).

Na ocasião falarão sobre o tema Alexandre Samis, da FARJ - Federação Anarquista do Rio de Janeiro e Sérgio Mesquita, do Núcleo de Pesquisa Marques da Costa.

No sábado, dia 20, a atividade deverá se repetir no CELIP- Círculo de Estudos Libertários Ideal Peres no Centro de Cultura Social, rua Torres Homem, 790 (perto da praça Barão de Drummond ou praça 7) às 14 horas.

O imaginário coletivo popular mexicano já incorporou como símbolos de combate por uma sociedade justa, livre e não-vertical a referencia da Revolução de 1910. Falar de lutas sociais e/ou indígenas no México significa falar dos valores e ideais libertários de Ricardo Flores Magón e Emiliano Zapata, que inspiram movimentos sociais que levam seus nomes.

FARJ: www.farj.org

agência de notícias anarquistas-ana
Na soleira do sítio
a graúna canta
ao silêncio do sol.

Anibal Beça

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Alfredo Júlio, reitor da Universidade Federal de Uberlândia, lhes dá boas vindas - por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

Ano Internacional da Biodiversidade é comemorado em São Paulo

Ano Internacional da Biodiversidade é comemorado em São Paulo
Conferência sobre Ano Internacional da Biodiversidade acontece dia 23 de novembro com apoio da ONU e presença de autoridades, empresários, imprensa e acadêmicos.

O Instituto Humanitare realiza, no próximo dia 23 de novembro de 2010, a Conferência sobre o Ano Internacional da Biodiversidade 2010. O evento, que acontecerá no Clube Hebraico (Sala Marc Chagall), tem a cooperação do HSBC e da VALE, é voltado para autoridades, empresários, imprensa e acadêmicos e tem o apoio da Convenção da Diversidade Biológica (CDB) das Nações Unidas.

A Conferência traz o olhar sobre sustentabilidade de empresas como Bosch, HSBC, Siemens e VALE, de entidades como o IBRI (Instituto Brasileiro de Relações com Investidores), de consultorias como a McKinsey e do setor acadêmico (Universidade de São Paulo).

Estarão presentes no evento do dia 23 palestrantes como o Dr. Thomas Lovejoy, especialista em biodiversidade do Banco Mundial; a Embaixadora Vera Machado, Subsecretária Geral Política do Ministério das Relações Exteriores do Governo Brasileiro; a Sra. Cecília Martinez, Diretora Regional para América Latina e Caribe do ONU-HABITAT, entre outros. O patrono da Conferência é o Professor Emérito da Universidade de São Paulo (USP), Dr. Paulo Nogueira-Neto.

A Conferência contará ainda com uma palestra do Professor John Malin, Presidente do Comitê do Ano Internacional da Química, que será comemorado em 2011. Além das palestras, o evento terá mesas redondas e poderá ser acompanhado em tempo real pelo sitewww.humanitare.org/biodiversidade.

A Conferência sobre o Ano Internacional da Biodiversidade 2010 será encerrada com o lançamento do livro “Uma Trajetória Ambientalista – Diário de Paulo Nogueira-Neto” e o lançamento da Cátedra da ONU-HABITAT “Cidades Inovadoras e Sustentáveis”.

A Assembleia Geral das Nações Unidas declarou o ano de 2010 como o Ano Internacional da Biodiversidade, com o propósito de aumentar a consciência sobre a importância da preservação da biodiversidade em todo o mundo. O Ano busca, entre outros objetivos, evidenciar a importância da biodiversidade para nossa qualidade de vida; refletir sobre os esforços já empreendidos para salvaguardar a biodiversidade até o momento, reconhecendo as organizações atuantes; e promover e dinamizar todas as iniciativas de trabalho para reduzir a perda da biodiversidade.

O programa do Ano Internacional da Biodiversidade no Brasil possui o apoio institucional do Governo Brasileiro, do Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio), do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e do Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (ONU-HABITAT). Nesse contexto, o Instituto Humanitare programou ações de conscientização, educação, reconhecimento e incentivo à preservação da diversidade biológica.

Todas as informações sobre a Conferência estão disponíveis em http://www.humanitare.org/biodiversidade

Serviço
Conferência do Ano Internacional da Biodiversidade – Instituto Humanitare
Data e horário: 23 de novembro de 2010 – 08:00 às 20 horas
Local: Associação Brasileira A Hebraica de São Paulo (Rua Hungria, 1.000 – São Paulo, SP).
Site: http://www.humanitare.org/biodiversidade

Fonte: (Envolverde/Nações Unidas no Brasil)

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A Bíblia passada a limpo* - por Georges Bourdoukan

A BÍBLIA PASSADA A LIMPO*
Descobertas recentes da arqueologia indicam que a maior parte das escrituras sagradas não passa de lenda (Por Vinicius Romanini)
O ANTIGO TESTAMENTO

O DILÚVIO - Os filólogos (que estudam as línguas e os documentos escritos) conseguiram demonstrar que a narrativa do Gênesis é uma apropriação do mito mesopotâmico/babilônico de Gilgamesh - que narra uma enchente de proporções enormes que teria acontecido no Oriente Médio e na Ásia Menor. O povo hebreu entrou em contato com esse mito no século VI a.C., durante o exílio babilônico. O Gênesis teria sido re-escrito nessa época assimilando a lenda.

Ruinas achadas no Mar Negro mostram que houve uma catastrófica enchente por volta de 5.600 a.C. O nível do mar Mediterrâneo subiu e irrompeu pelo Estreito de Bósforo, inundando a planície onde hoje está localizado o Mar Negro. Sobreviventes migraram para a Mesopotâmia, surgindo assim a história do dilúvio no texto sumério de Gilgamesh.

O ÊXODO - Não há registro arqueológico ou histórico da pessoa de Moisés ou dos fatos ocorridos de Êxodo. O episódio foi incluído na Torá provavelmente no século VII a.C. por escribas do Templo de Jerusalém. Para combater o politeísmo e o culto das imagens, os rabinos inventaram um novo código de leis e histórias de patriarcas heróicos. A prova de que esses textos são lendas estaria nas inúmeras incongruências culturais e geográficas entre o texto e a realidade. Muitos reinos e locais mencionados no livro sequer existiam no século XIII a.C. e só surgiriam 500 anos depois.

MONTE SINAI - Não existe. A escolha do lugar que passou a ser conhecido como Monte Sinai ocorreu entre os séculos IV e VI d.C. por monges bizantinos.

AS MURALHAS DE JERICÓ - A arqueologia diz que Jericó nem tinha muralhas nesse período. A tomada de Canaã pelos hebreus aconteceu de forma gradual, quando as tribos hebraicas trocam o pastoreio pela agricultura dos vales férteis. A história da conquista foi escrita durante o século VII a.C., mais de 500 anos depois da chegada dos hebreus aos vales cananeus.

DAVI - Em 1993 foi encontrada uma pedra datada do século IX a.C. com escritos que mencionam um rei hebreu chamado Davi, mas não há qualquer evidência das conquistas narradas na Bíblia. Davi pode ter sido o líder de um grupo de rebeldes vindos de camadas pobres dos cananeus.

SALOMÃO - Não há sinal de arquitetura monumental em Jerusalém ou em qualquer das outras cidades citadas pela Bíblia em que o rei Salomão teria construído templos, palácios e fortalezas. Assim como Davi, Salomão seria apenas um pequeno líder tribal de Judá.

O NOVO TESTAMENTO

O NOVO TESTAMENTO - Seus textos não foram escritos pelos evangelistas em pessoa, como muita gente supõe, mas por seus seguidores, entre os anos 60 e 70, décadas depois da morte de Jesus, quando as versões estavam contaminadas pela fé e por disputas religiosas. Nessa época, os cristãos estavam sendo perseguidos e mortos pelos romanos, e alguns dos primeiros apóstolos estavam velhos e doentes. Havia, portanto, o perigo de que a mensagem cristã caisse no esquecimento se não fosse colocada no papel. Marcos foi o primeiro a fazer isso, e seus textos serviram de base para os relatos de Mateus e Lucas, que aproveitaram para tirar do texto anterior algumas situações que lhes pareceram heresias. "Em Marcos, Jesus é uma figura estranha que precisa fazer rituais de magia para conseguir um milagre", afirma o historiador e arqueólogo André Chevitarese.

JESUS - Jesus nasceu na Palestina, provavelmente no ano 6 a.C. ao final do reinado de Herodes Antibas (que acabou em 4 a.C.) - em conformidade com Lucas e Mateus que afirmam que Jesus nasceu "perto do fim do reino de Herodes". A diferença entre o nascimento real de Jesus e o ano zero do calendário cristão se deve a um erro de cálculo cometido por um monge no século VI, quando a Igreja resolveu reformular o calendário.
Além disso, é praticamente certo que Jesus nasceu em Nazaré e não em Belém. Lucas afirma que a anunciação ocorreu em Nazaré, onde José e Maria viviam, mas eles foram obrigados a viajar até Belém pelo censo "ordenado quando Quirino era governador da Síria". Os registros romanos mostram que Quirino só assumiu no ano 6 d.C. - 12 anos depois do ano de nascimento de Jesus. A explicação que o texto de Lucas dá para a viagem de Jesus ate Belém seria falsa. A história foi criada porque a tradição judaica considerava essa cidade o berço do rei Davi - e o messias deveria ser da linhagem do primeiro rei dos judeus.

OS APÓSTOLOS - Não há certeza quanto ao número de discípulos que viviam próximos de Jesus. Nos evangelhos, apenas os oito primeiros conferem (???) - os quatro últimos têm muitas variações. A hipótese mais provável é que o número "redondo" de 12 discípulos foi uma invenção posterior para espelhar, no Novo Testamento, as 12 tribos dos hebreus descritas no AT.

*Principais pontos da matéria veiculada na revista Super Interessante edição 178 de julho de 2002 – Agradeço ao leitor Fracisco Hierofante o envio do texto.
Fonte: http://blogdobourdoukan.blogspot.com/

Alimentação sem crueldade: Atleta canadense faz palestras ensinando os benefícios da dieta vegana - por Cassio Mosqueira

Alimentação sem crueldade: Atleta canadense faz palestras ensinando os benefícios da dieta vegana - por Cassio Mosqueira
Brendan Brazier, 35, rompeu bruscamente com a tradição quando entrou em uma dieta vegana, alimentado seu corpo para ser um vitorioso atleta de triatlon. Sempre foi presumido que o consumo de carne e músculo andam juntos, mas Brazier tirou proveito do poder dos vegetais quando começou a correr em sua escola, em Vancouver.

Seu sucesso o levou à carreira de competidor profissional de triatlon de 1998 a 2004. Agora, na estrada 200 dias por ano falando sobre nutrição e medicina preventiva através de uma alimentação saudável, a dieta tornou-se popular além da pista de atletismo.

Mais notavelmente, o ator Hugh Jackman utilizou sua dieta para desenvolver os músculos de Wolverine, mostrados no filme X-Men, e escreveu o prefácio do livro de Brazier.

Em Toronto, pela sua turnê de palestras, Brazier deu entrevista ao site healthzone.ca.

O que te fez começar uma dieta vegana?
Em 1990 eu comecei a praticar atletismo na escola e queria ser um atleta melhor. Quando olhei para o programa de treinamento de atletas de alto nível, vi que muito tinha a ver com a taxa de recuperação – a taxa de regeneração após o exercício. Uma boa porcentagem disso estava ligada à nutrição. Eu tentei um monte de dietas diferentes. Demorou um ano e meio para me sentir realmente bem comendo desse jeito. Foi um grande impulso em meu desempenho. Eu podia treinar mais em menos tempo.

Como a dieta funciona?
Comecei procurando os nutrientes que eu precisava, como a proteína completa, vitamina B12, ômega-3, ferro e cálcio. Depois de encontrá-los, passei a misturá-los no liquidificador e a tomá-los diariamente. Fiquei convencido que uma boa nutrição me daria a carreira profissional que eu queria. Em 2004 eu comecei a vender uma réplica dessa bebida, chamada Vega.

Pensamos em veganos como pessoas magrelas. O que eles estão fazendo de errado?
Eu acho que eles estão fazendo o que eu fiz de errado, comer alimentos refinados, como massas, pão, arroz branco. Mudei para mais alimentos naturais, espinafre, saladas e alimentos originais como o cânhamo, trigo sarraceno, quinoa e maca, um vegetal de raiz cultivada no Peru, que é bom para a função adrenal e para a saúde geral. O principal é manter uma dieta de alimentos integrais em vez de alimentos refinados.

De onde vem a energia?
A energia vem do fato de os alimentos integrais serem mais fáceis de digerir e assimilar que os altamente processados. Você usa menos energia para digerir alimentos integrais. Outra coisa importante também é a redução do estresse nutricional. A quantidade de cortisol, o hormônio do estresse, desce, você dorme mais profundamente e acorda mais descansado. A digestão de alimentos refinados torna mais difícil entrar em sono profundo e seu corpo fica desejando café e açúcar. Somos uma sociedade dependente de café e açúcar, porque temos sono de má qualidade.

Você pode reduzir o estresse melhorando sua nutrição, dando ao seu corpo os nutrientes que este necessita: alimentos integrais fazem isso. Pão branco não possui valor nutricional, apenas amido e calorias.

Uma dieta vegana não é chata?
De forma alguma. Quando comecei a comer uma dieta baseada em vegetais, comecei a experimentar coisas que nunca havia comido antes. A variedade aumentou bastante. Em alimentos de origem animal há carne, laticínios e ovos – que poderia ser percebida como uma limitação também. As plantas têm uma variedade muito maior do que a dieta americana padrão, com certeza. Tente todos os vegetais diferentes disponíveis.

Crus ou cozidos?
Largamente crus, 80 porcento. Eu certamente não acho que as pessoas precisam comer 100% alimentos crus. O que eu quero é me sentir o melhor possível e melhorar meu desempenho ao máximo.

Eu sempre bebo Vega depois de minha corrida, ele ajuda a prevenir a perda muscular. Eu como muito também – muita fruta, legumes, folhas verdes em uma grande salada, cereais integrais e arroz integral. Como porções moderadas durante o dia, para que eu nunca fique cheio ou com fome. Em restaurantes, é sempre possível conseguir saladas, verduras e arroz cozido ao vapor.

Melhor história vegana?
Eu me encontro com algumas pessoas em minhas palestras que perderam muito peso. Um cara na Filadélfia perdeu 68 quilos, seu colesterol foi de alto a normal. Seu risco de doença cardíaca voltou ao normal. Mudar para a dieta vegana fez a diferença. Bill Clinton também está falando em adotar uma dieta vegana. Ele teve problemas de saúde. Eu gostaria que ele a tivesse usado preventivamente, mas acho que ele entende isso agora.
Fonte: ANDA

O que se passou em 17 de outubro de 1961 - Por Charlotte Nordmann

O que se passou em 17 de outubro de 1961
Em plenas conversações para o fim da guerra e a independência da Argélia, a França conheceu violenta repressão. Nesta data foram assassinados e lançados no rio Sena centenas de manifestantes argelinos. As autoridades nunca reconheceram os factos e tentaram destruir todos os vestígios. Por Charlotte Nordmann
1. Contexto
Em 1961 se impôs a necessidade de uma solução negociada para o conflito argelino, e em 20 de maio do mesmo ano as negociações entre o governo francês e o Governo Provisório da República Argelina foram abertas oficialmente. Não havia dúvida de que seria instituído um Estado argelino, as discussões giravam em torno das condições exatas da independência. No entanto, foi a partir do verão de 1961 que aconteceram as mais terríveis cenas de violência que o território metropolitano conheceu durante a Guerra da Argélia. Essa contradição é colocada em evidência pelo exame dos fatos que levaram ao massacre de 17 de outubro de 1961.
Em 1961 o chefe de polícia de Paris era Maurice Papon, [1] o qual fora nomeado em 1958, durante a IV República, e mantido no cargo pelo presidente Charles de Gaulle durante a V República. Ao ser nomeado, e após violentas manifestações de policiais parisienses, Papon recomendou “eficácia”, a qual ele demonstrara em seu mandato de chefe de polícia de Constantine. Como chefe de polícia e IGAME [2] dos departamentos do Leste da Argélia, de 1956 a 1958, ele instaurou um sistema de repressão no qual a tortura era sistemática e as execuções sumárias frequentes. Enquanto chefe da polícia de Paris, Papon respondeu a uma campanha de atentados na metrópole liderada pela Frente de Libertação Nacional argelina (FLN), organizando intensas blitzes [operações stop e fiscalização de rua] policiais aos “franceses muçulmanos da Argélia”. A violência contra a população norte-africana de Paris se institucionalizava: o chefe de polícia criou a força de polícia auxiliar, constituída de harkis, [3] os quais praticavam a tortura. Papon criou também o Centro de Identificação de Vincennes, onde os norte-africanos “suspeitos” podiam ser presos por uma simples decisão administrativa, sem julgamento. Papon chegou a instaurar, no dia 1º de setembro de 1958, um toque de recolher para os norte-africanos, que foi boicotado pela FLN e pouco a pouco caiu em desuso. Durante as operações policiais, as prisões, as blitzes e o “controle” efetuado pelos harkis, algumas pessoas desapareceram. Numerosas denúncias de tortura e morte foram feitas, mas, apesar do acúmulo de testemunhos, das constatações de maus-tratos pelos médicos e das numerosas desaparições, nenhuma queixa foi investigada. Toda a população norte-africana da região parisiense sofria com blitzes sistemáticas e com a violência dos harkis, que patrulhavam seus bairros, como por exemplo o 18º e o 13º “arrondissements” [4].

A essa violência somava-se, por outro lado, a condição extremamente dura imposta aos trabalhadores norte-africanos na metrópole. Em sua maioria eram solteiros, trazidos em grupos por grandes empresas industriais: a França sofria de falta de mão-de-obra e a população rural da Argélia e do Marrocos constituía uma força de trabalho dócil. Eles viviam em pensões em Paris ou em favelas, como em Nanterre. A superpopulação e o isolamento forçado que enfrentavam se devia à pobreza e à recusa dos proprietários franceses em lhes alugar moradias [casa, apartamento]. Os argelinos “imigrantes” na metrópole eram rigidamente enquadrados pela FLN, o que significava em particular que todos eram obrigados a contribuir — aqueles que se recusavam corriam risco de morte.

2. De agosto de 1961 ao toque de recolher de outubro
Em agosto de 1961, as blitzes policiais e as perseguições se intensificaram, a violência e as detenções arbitrárias pelo fácies [5] se multiplicaram. Essa ampliação da ofensiva policial se produzia ao mesmo tempo em que a FLN havia cessado seus atentados em Paris e no subúrbio algumas semanas antes. Nesse momento, os atentados da OAS [6] se tornavam cada vez mais numerosos, visando às vezes as pensões onde viviam os argelinos. No fim de julho de 1961, as negociações entre o governo francês e o GPRA [7] esbarraram na questão do Saara, pois a França contestava a soberania do futuro Estado argelino sobre esta região. Em agosto de 1961, o presidente Charles de Gaulle estava prestes a ceder sobre essa importante questão para reabrir as negociações. Ele esperava ao mesmo tempo estar em posição de força para negociar. Esse foi o sentido de seu gesto ao demitir, em fins de agosto de 1961, o ministro da Justiça, Edmond Michelet, favorável há muito tempo à negociação com a FLN. Ele cedia assim à pressão de seu primeiro-ministro Michel Debré, que era profundamente partidário da Argélia francesa. Demitir Edmond Michelet significava aceitar o endurecimento da repressão aos “franceses muçulmanos da Argélia”.

No fim de agosto a FLN decidiu retomar sua campanha de atentados na metrópole. Os policiais eram os mais visados, sendo que onze deles foram mortos e outros dezessete ficaram feridos até o início de outubro. A partir de então, três organizações sindicais de policiais formaram um “Comitê permanente de coordenação e de defesa”, e exigiam do governo execuções de condenados à morte e um toque de recolher para os norte-africanos. A partir de setembro, intensas blitzes foram organizadas, no decorrer das quais algumas pessoas acabaram desaparecendo. Foi também a partir de setembro que se começou a ouvir falar de cadáveres de norte-africanos encontrados no rio Sena. Diante da pressão dos policiais, que falavam em fazer justiça com as próprias mãos, Papon respondeu com um discurso sem ambiguidade: no dia 2 de outubro, diante das exclamações de um policial, ele declarou: “Por cada golpe, nós responderemos com dez”; depois assegurou aos policiais que, se atirassem primeiro, eles estariam “cobertos”. Em 5 de outubro ele instaurou um toque de recolher para os “franceses muçulmanos da Argélia” e, apesar do ministro do Interior negar, esse toque de recolher racista institucionalizava a confusão entre “argelino” e criminoso.

3. A manifestação
A FLN decidiu organizar um boicote ao toque de recolher. Uma circular de 7 de outubro colocava fim à campanha de atentados na metrópole e a intenção desse boicote era mudar inteiramente a estratégia e inverter a opinião pública francesa. Enquanto os atentados se inscreviam em uma lógica de clandestinidade e de guerra, o boicote devia tomar a forma de uma manifestação pacífica de massa, às claras. A manifestação deveria acontecer em toda Paris, ao longo das principais vias da cidade. Todos deveriam participar, inclusive as famílias. Os manifestantes receberam instrução de não responder a nenhuma provocação ou violência e foram revistados antes da manifestação pelos membros da FLN, para garantir que não estivessem com nada que pudesse servir de arma. Todos os argelinos da região parisiense deveriam participar da manifestação, sob coerção se necessário: para a Federação da França da FLN, tratava-se não somente de demonstrar sua influência sobre os argelinos na metrópole, mas também de fazer existir aos olhos dos franceses o povo argelino. À institucionalização da arbitrariedade e do racismo, era necessário responder com a reivindicação de uma existência política. Os dirigentes da Federação da França acreditavam que a repressão, que certamente se abateria sobre os manifestantes, evidenciaria a violência do poder e a legitimidade da luta do povo argelino por sua independência.
Na manhã de terça-feira, dia 17 de outubro, a polícia já sabia que uma manifestação em massa estava sendo organizada, carros de polícia rondavam a cidade, os policiais fecharam as saídas do metrô em Paris, preparados para barrar os manifestantes. Em Paris, na saída dos metrôs Étoile e Opéra, nos corredores da estação Concorde e sobre os Grands Boulevards [as principais avenidas], os manifestantes foram sistematicamente atacados com tacos, cassetetes e bastões, algumas vezes até caírem. Os policiais batiam no rosto e no abdômen dos manifestantes, que não demonstravam resistência ou gestos violentos em nenhum momento. Na avenida Bonne-Nouvelle, na ponte de Neuilly, no Pont-Neuf de Argentueil e em outros pontos, os policiais atiravam contra os manifestantes. Nas pontes às portas de Paris e na ponte Saint-Michel, homens eram atirados no rio Sena. Em plena Paris, e durante várias horas, deu-se uma verdadeira caça ao fácies, à qual a população parisiense assistiu, chegando até mesmo a colaborar. O chefe de polícia Papon acompanhou tudo e foi pessoalmente à Étoile para constatar o “bom desenrolar” das operações. Ele tinha conhecimento também de todas as transmissões de rádio da polícia. Sabia, portanto, que circulavam falsas mensagens de que policiais teriam sido mortos. Ele não as desmentiria.

Mais de dez mil argelinos foram presos. Eles foram detidos no Palais des Sports, no Parque de Exposições, no Estádio de Coubertin e no Centro de Identificação de Vincennes, durante quase quatro dias. Quatro dias durante os quais a violência continuaria. Logo ao chegarem, os manifestantes eram sistematicamente espancados. Nos locais de aprisionamento, assistia-se a execuções e muitos foram os manifestantes que morreram com ferimentos agravados por falta de tratamento. No dia seguinte à manifestação, o balanço oficial era de dois mortos argelinos, no que teria sido uma “troca de tiros” entre a polícia e os manifestantes. Apesar dos esforços de alguns parlamentares, o governo impediu a criação de uma comissão de inquérito. Nenhuma queixa apresentada foi investigada.

Se não é possível determinar exatamente quantos argelinos foram mortos em 17 de outubro de 1961 e nos dias seguintes, nos resta constatar que o número de centenas de mortos, afirmado por J-L. Einaudi em seu livro A batalha de Paris, a partir do estudo de registros de cemitérios, de testemunhas e de documentos internos da FLN, é o mais verossímil. Numerosos arquivos administrativos, que seriam cruciais para o reconhecimento das vítimas, desapareceram. Isso explica por que o relatório Mandelkerm — encomendado pelo governo e tornado público em 1998 — e o livro de J-P. Brunet, ambos baseados nos arquivos existentes da polícia, apresentam um número de mortos bem inferior, por volta de quarenta. De resto, o relatório Mandelkerm retoma em seu cômputo a versão segundo a qual teria havido troca de tiros entre os manifestantes e a polícia.«Aqui afogaram os argelinos»
Notas:
[1] Durante o regime fascista instituído no sul da França pelos ocupantes nacional-socialistas, Maurice Papon foi nomeado secretário-geral da Prefeitura da Gironda, superintendendo a administração e a repressão na região que tinha Bordéus como capital, e entre as suas funções contava-se a prisão de resistentes e de judeus. Sob as ordens de Papon, 900 presos políticos e mais de 1500 judeus foram entregues às autoridades do Terceiro Reich. Chegada a Libertação, aquele funcionário do marechal Pétain converteu-se em partidário do general De Gaulle, e não se pense que este percurso foi uma excepção. A libertação da França e a expulsão do ocupante nazi levou à perseguição de várias figuras políticas e de jornalistas de extrema-direita, alguns condenados à morte, mas deixou praticamente incólumes os altos funcionários e administradores. Segundo Robert O. Paxton (La France de Vichy, 1940-1944, Paris: Seuil, 1973, págs. 313-317), dos membros do Tribunal de Contas em serviço em 1942, 98% continuavam activos em 1946. Na Inspecção das Finanças, 97% dos inspectores gerais em funções em 1948 exerciam já o cargo em 1942, e o mesmo sucedia com 75% dos inspectores de segunda classe. A ausência de ruptura revela-se de maneira ainda mais flagrante ao observarmos que nenhum dos inspectores de finanças recrutados pelo regime de Vichy foi exonerado por altura da libertação. O próprio Conselho de Estado, apesar do seu carácter mais directamente político, também não foi atingido por qualquer depuração significativa, e 80% dos presidentes de secção em exercício em 1942 continuavam activos em 1946, sucedendo o mesmo com 76% dos conselheiros de Estado e 70% dos maîtres de requêtes. Um membro do Conselho de Estado, que fora chefe-adjunto do gabinete civil do marechal Pétain, declarou em 1945 que «no Conselho de Estado, dos cento e poucos membros, houve 25 destituídos» (Le Procès du Maréchal Pétain. Compte Rendu Sténographique, 2 vols., Paris: Albin Michel, 1945, pág. 847). Maurice Papon foi um desses altos funcionários que serviram a democracia com o mesmo afinco e a mesma competência com que haviam servido o fascismo. Ele foi secretário-geral da Prefeitura da Polícia de 1951 até 1954, secretário-geral do Protectorado francês de Marrocos em 1954-1955 e prefeito em Constantina, na Argélia, de 1956 até 1958, sendo nomeado prefeito da Polícia de Paris em Março de 1958, o que lhe permitiu colaborar nas manobras políticas organizadas por De Gaulle e na fundação da Quinta República. Papon foi também eleito deputado nas listas gaullistas em 1968, 1973 e 1978, e de 1978 até 1981 desempenhou as funções de ministro do Orçamento nos segundo e terceiro governos de Raymond Barre. Em 1983 foi-lhe movido um processo judiciário, por iniciativa das famílias de alguns dos deportados judeus, mas, devido à intervenção de pessoas altamente colocadas, o processo esteve praticamente paralisado durante quatorze anos, até que em 1998, com 87 anos de idade, Papon foi condenado a dez anos de prisão pela deportação de judeus de Bordéus. Evocando motivos de saúde, o presidente da República determinou a libertação de Papon em 2002, mas o presumido doente faleceu apenas cinco anos depois. (Nota de Passa Palavra)

[2] Inspecteur géneral de l’administration en mission extraordinaire (Inspetor Geral da Administração em Missão Extraordinária). Alto funcionário francês responsável pela coordenação da ação do governo nos departamentos. O título e a função foram substituídos pelo de Préfet de région (Prefeito Regional).

[3] A palavra “harkis” (literalmente “movimento” em árabe) designa na França os soldados supletivos alistados no exército francês entre 1957 e 1962, durante a Guerra da Argélia. Todos os argelinos muçulmanos que defendiam a união da Argélia com a República Francesa também eram identificados dessa forma.

[4] Paris é dividida em 20 arrondissements municipais, que englobam quatro bairros (quartiers) cada.

[5] Fácies é o aspecto ou expressão do rosto. O termo é utilizado na expressão “délit de faciès” para qualificar uma forma de discriminação racista.

[6] Organisation armée secrète (Organização Exército Secreto). Organização paramilitar clandestina francesa, que se opunha à independência da Argélia.

[7] Gouvernement provisoire de la République algérienne (Governo Provisório da República Argelina). Braço político da FLN durante a Guerra da Argélia.

Original em francês: http://17octobre1961.free.fr/pages/Histoire.htm
Tradução: Juliana Mantovani. As notas, com exceção da número 1, são de autoria da tradutora.
Fonte: http://passapalavra.info/

Imagens de protestos em prol de Mumia Abu-Jamal na Filadélfia, Londres e Cidade do México - ANA

Imagens de protestos em prol de Mumia Abu-Jamal na Filadélfia, Londres e Cidade do México
Após quase 30 anos desde a condenação de Mumia Abu-Jamal, seu caso voltou ao tribunal de apelação na tarde desta terça-feira (9), na Filadélfia, nos EUA. O tribunal composto por um painel de três juízes poderá levar dias, semanas ou meses para chegar a um veredicto final. Mas também a uma sentença a qualquer momento.

Montanhas de evidências, incluindo retratações de testemunhas, a confissão do verdadeiro assassino e as provas fotográficas do crime, mostram a inocência de Mumia Abu-Jamal. No entanto, os tribunais estadunidenses continuam humilhando e fechando a porta deste opositor da guerra, do racismo, da brutalidade policial e da corrupção. Nós temos que detê-los! Mumia é inocente! Mumia livre já!
Neste mesmo dia, 9 de novembro, aconteceu uma manifestação em frente ao tribunal de apelação da Filadélfia, atraindo centenas de ativistas e pessoas pró-Mumia.

Outro protesto, cheio de energia e animação, aconteceu em frente da Embaixada dos EUA em Londres, no Reino Unido, juntado pelo menos 200 pessoas.

No México, na capital federal, também houve uma manifestação em frente da Embaixada dos EUA. Pelo menos 50 pessoas participaram. Durante o ato uma bandeira dos EUA foi queimada.
Aconteceram manifestações em outros países, porém no momento não temos relatos nem imagens.

• Galeria de imagens da mani na Filadélfia:

› http://www.philadelphiaweekly.com/multimedia/Mumia-Abu-Jamal-106991558.html?activeMedia=recent&targetSection=multimedia&page=1

• Vídeos da mani na Filadélfia:

› http://www.youtube.com/watch?v=kPEzn6nbUxs

› http://www.youtube.com/watch?v=5t2tBNOCQrk

› http://www.youtube.com/watch?v=RRW5nn0Knvw

Neste último vídeo aparece Fred Hampton falando. Ele é filho de um famoso Pantera Negra assassinado em Chicago em 1969 e que agora trabalha com o Comitê de Presos de Consciência.

• Vídeos da mani em Londres:

› http://www.youtube.com/watch?v=Kky4peur-B0

› http://www.youtube.com/watch?v=MUM0vdkarf0

› http://www.youtube.com/watch?v=dDZkizDsGvo

› http://www.youtube.com/watch?v=a40iEs7_zGo

› http://vodpod.com/watch/4874276-british-protest-in-support-of-mumia-abu-jamal-exclusive

• Galeria de imagens da mani na Cidade do México:

› http://cronopios.zobyhost.com/index.php/presxs/12-politicos/407-galeria-por-la-libertad-de-mumia

Agende-se!
Manifestação em Solidariedade a Mumia Abu-Jamal no dia 10 de dezembro em frente ao Consulado dos EUA, em São Paulo. Mais infos: http://anarcopunk.org/mumialivre/

agência de notícias anarquistas-ana
Madrugada fria.
A lua no fim da rua
vê nascer o dia.

Ronaldo Bomfim

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Jornadas de Solidariedade e Ação ao Preso Político Mumia Abu-Jamal - por ANA

Jornadas de Solidariedade e Ação ao Preso Político Mumia Abu-Jamal

São Paulo - 10, 11 e 12 de dezembro de 2010

Sexta-feira, 10:
Manifestação em Solidariedade a Mumia Abu-Jamal, concentração a partir das 10 horas da manhã, em frente ao Consulado dos EUA. Rua Henri Dunant, 500 – Santo Amaro. Traga sua faixa, apito, rebeldia. Vamos fazer muito barulho!

Sábado, 11:
Exibição do vídeo "In Prison My Whole Life" (Na Prisão Minha Vida Toda), filme com legendas em português que aborda o controverso caso de Mumia Abu-Jamal, seguido de bate-papo. Horário: a partir das 16 horas. Local: Espaço Ay Carmela! Rua dos Carmelitas, 140 – Metrô Sé - São Paulo.

Domingo, 12:
Exibição do vídeo “MOVE”, filme com legendas em castelhano que conta a história desta organização negra radical e naturalista que Mumia fez parte, seguido de bate-papo. Horário: a partir das 16 horas. Local: Espaço Ay Carmela!

Mais:


Exposição de fotos, cartazes e material sobre lutas em prol de Mumia Abu-Jamal pelo mundo.

Quem é Mumia Abu-Jamal:
Mumia Abu-Jamal é um afro-americano, ex-Pantera Negra, jornalista e ativista, "símbolo internacional contra a pena de morte", um dos mais conhecidos e estimados prisioneiro político do mundo. Está há quase 30 anos em isolamento total no corredor da morte nos EUA, falsamente acusado pela morte de um policial. Em 2008 sua sentença de morte foi convertida para prisão perpétua. Mas ele pode voltar a ser condenado à morte e executado a qualquer momento. Mumia é inocente! Lutemos por sua liberdade!

Organização:
Rede informal de apoio e solidariedade ao preso político afro-americano Mumia Abu-Jamal

Apoio:
MAP (Movimento Anarco Punk) e Ay Carmela!

Mais infos, Blog Mumia Livre Já!:

› http://anarcopunk.org/mumialivre/

› mumialivreja@riseup.net

Fonte: ANA

Plantando a violência e a falta de respeito: Empresa de brinquedos debocha do sofrimento dos animais vítimas de atropelamento - Por Lobo Pasolini

Plantando a violência e a falta de respeito: Empresa de brinquedos debocha do sofrimento dos animais vítimas de atropelamento - Por Lobo Pasolini
Uma empresa inglesa chamada Roadkill, uma expressão que se refere aos animais acidentalmente mortos por carros em estradas, vende bonecos que simulam os corpos dos animais amassados, com as entranhas escapulindo e olhos esbugalhados.

É óbvio que o que eles querem fazer é algum tipo de humor negro, mas infelizmente eles calcularam errado as possíveis consequências de fazer marketing em cima do sofrimento e da morte de outros seres.

O maior problema é a maneira como a empresa faz seu marketing. Em um dos vídeos de promoção da empresa, um menino compra um coelho de uma pet shop e depois o joga de um viaduto. Quando a câmera foca no corpo, o que se vê é um brinquedo Roadkill, contradizendo em cheio a ideia de que o animal morreu ‘por acidente’.

Até mesmo uma postagem do blog brasileiro Vírgula notou que o marketing dessa empresa vai longe demais: “Alguns [vídeos] são de gosto um pouco duvidoso e não nos espantaria se acabassem virando alvo de organizações de defesa dos animais. Afinal de contas, bichinho de pelúcia tudo bem, mas não é para ninguém sair por aí jogando coelhinhos na estrada, né?”

Bichinho de pelúcia realmente tudo bem, mas não bichinhos amassados por uma máquina que invade cada vez mais o habitat de animais silvestres.

Os hipócritas da Roadkill têm, ainda, a audácia de declarar em seu website que “gostam de animais” e que fazem doações para a WWF e RSPCA. Recentemente eles adotaram um urso-polar, eles dizem.

Assista aqui a um dos vídeos da Roadkill, em que um coelho é cruelmente morto por uma criança:

Eu imagino que as pessoas por trás dessa empresa se acham o suprassumo da ironia, mas eles não passam de irresponsáveis promovendo violência junto a um público jovem e altamente impressionável e influenciável.

Roadkill é o equivalente de fazer a “Barbie Estuprada” para vender para meninas.
Fonte: http://www.anda.jor.br/

Elites controlam o sistema judicial, mostra pesquisa da USP - da Redação

Elites controlam o sistema judicial, mostra pesquisa da USP

Há, no sistema jurídico nacional, uma política entre grupos de juristas influentes para formar alianças e disputar espaço, cargos ou poder dentro da administração do sistema. Esta é a conclusão de um estudo do cientista político Frederico Normanha Ribeiro de Almeida sobre o judiciário brasileiro. O trabalho é considerado inovador porque constata um jogo político “difícil de entender em uma área em que as pessoas não são eleitas e, sim, sobem na carreira, a princípio, por mérito”.

Para sua tese de doutorado A nobreza togada: as elites jurídicas e a política da Justiça no Brasil, orientada pela professora Maria Tereza Aina Sadek, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, Almeida fez entrevistas, analisou currículos e biografias e fez uma análise documental da Reforma do Judiciário, avaliando as elites institucionais, profissionais e intelectuais.

Segundo ele, as elites institucionais são compostas por juristas que ocupam cargos chave das instituições da administração da Justiça estatal, como o Supremo Tribunal Federal (STF), Superior Tribunal de Justiça, tribunais estaduais, Ministério Público, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Já as elites profissionais são caracterizadas por lideranças corporativas dos grupos de profissionais do Direito que atuam na administração da Justiça estatal, como a Associação dos Magistrados Brasileiros, OAB e a Confederação Nacional do Ministério Público.

O último grupo, das elites intelectuais, é formado por especialistas em temas relacionados à administração da Justiça estatal. Este grupo, apesar de não possuir uma posição formal de poder, tem influência nas discussões sobre o setor e em reformas políticas, como no caso dos especialistas em direito público e em direito processual.

No estudo, verificou-se que as três elites políticas identificadas têm em comum a origem social, as universidades e as trajetórias profissionais. Segundo Almeida, “todos os juristas que formam esses três grupos provêm da elite ou da classe média em ascensão e de faculdades de Direito tradicionais, como o Faculdade de Direito (FD) da USP, a Universidade Federal de Pernambuco e, em segundo plano, as Pontifícias Universidades Católicas (PUC’s) e as Universidades Federais e Estaduais da década de 60”.

Em relação às trajetórias profissionais dos juristas que pertencem a essa elite, Almeida aponta que a maioria já exerceu a advocacia, o que revela que a passagem por essa etapa “tende a ser mais relevante do que a magistratura”. Exemplo disso é a maior parte dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), indicados pelo Presidente da República, ser ou ter exercido advocacia em algum momento de sua carreira.

O cientista político também aponta que apesar de a carreira de um jurista ser definida com base no mérito, ou seja, via concursos, há um série de elementos que influenciam os resultados desta forma de avaliação. Segundo ele, critérios como porte e oratória favorecem indivíduos provenientes da classe média e da elite socioeconômica, enquanto a militância estudantil e a presença em nichos de poder são fatores diretamente ligados às relações construídas nas faculdades.

“No caso dos Tribunais Superiores, não há concursos. É exigido como requisito de seleção ‘notório saber jurídico’, o que, em outras palavras, significa ter cursado as mesmas faculdades tradicionais que as atuais elites políticas do Judiciário cursaram”, afirma o pesquisador.

Por fim, outro fator relevante constatado no levantamento é o que Almeida chama de “dinastias jurídicas”. Isto é, famílias presentes por várias gerações no cenário jurídico. “Notamos que o peso do sobrenome de famílias de juristas é outro fator que conta na escolha de um cargo-chave do STJ, por exemplo. Fatores como estes demonstram a existência de uma disputa política pelo controle da administração do sistema Judiciário brasileiro”, conclui Almeida.

(*) Reportagem publicada originalmente por Cida de Oliveira na Rede Brasil Atual. Com informações da Agência USP.
Fonte:http://www.fazendomedia.com/

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Horror, tortura e morte: Saiba o destino que a indústria de ovos dá às galinhas que não produzem mais - Por Giovanna Chinellato

Horror, tortura e morte: Saiba o destino que a indústria de ovos dá às galinhas que não produzem maisPor Giovanna Chinellato (da Redação)
Graças a um corajoso delator, a PETA descobriu que a companhia de ovos TWJ Farms de Nebraska planeja triturar 70.000 galinhas vivas. E pior, essa prática barbárica é considerada procedimento padrão nas fábricas da companhia. A testemunha disse à PETA que nos últimos anos a TWJ tem feito isso com centenas de milhares de galinhas cujos corpos exaustos pararam de produzir quantidades satisfatórias de ovo. A testemunha também disse que muitas não morreram imediatamente e saíram do triturador sem uma parte das asas, das pernas, e foram largadas agonizando por horas antes de finalmente morrer, algumas, um dia inteiro depois.

A PETA enviou uma carta urgente para a administração da companhia exigindo um fim a essa matança horrível. Você pode fazer o mesmo, o endereço é twj@huntel.net . Por favor, mantenha seu email educado – qualquer baixaria pode piorar a situação.

A PETA também chamou a polícia local para intervir, mostrando que triturar animais vivos é crueldade até nos padrões de criação e viola o Ato de Bem-Estar Animal de Nebraska. Também pediram aos oficiais que investigassem – se tivessem o mandato – e preenchessem processos contra todas as partes envolvidas.

É claro que essa crueldade combina com uma empresa que amontoa galinhas em gaiolas de ferro em que elas mal podem se mover. Mas quando uma indústria que é cruel suficiente para cortar bicos de animais sensíveis não aprova certo método de matança – nesse caso, jogar animais vivos em lâminas como se fossem frutas num liquidificador – então você sabe que o método é particularmente cruel.

Enquanto o caso corre, você pode ajudar milhões de galinhas que vivem e morrem miseravelmente cortando o ovo da dieta e se tornando vegano (a).
Fonte: http://www.anda.jor.br

[Reino Unido] Protesto reúne milhares de estudantes em Londres; anarquistas atacam sede do partido conservador - por ANA

[Reino Unido] Protesto reúne milhares de estudantes em Londres; anarquistas atacam sede do partido conservador
Cerca de 50 mil estudantes e professores universitários marcharam nas ruas de Londres nesta quarta-feira contra a alta das matrículas universitárias e cortes no orçamento da educação. Os manifestantes levavam cartazes com inscrições como "Parem com os cortes na educação" e gritavam "Eles dizem corte, nos dizemos lute".

No protesto, um grupo de anarquistas com os rostos cobertos por lenços invadiram à força a sede do Partido Conservador (no poder), próximo ao Parlamento, às margens do Tâmisa, estilhaçando as janelas de vidro do edifício. Eles ocuparam a área do saguão de entrada e incendiaram montes de papéis enquanto outros corriam para o topo do edifício. Nesta altura o local já estava tomado de estudantes.

Os policiais tentaram expulsar os manifestantes com golpes de cassetete, desistindo, depois, do corpo a corpo. Muitos estudantes atiraram diversos objetos contra os policiais, nomeadamente paus e pedras. A polícia conseguiu liberar o local depois de uma hora. Dezenas de pessoas foram presas.

Este foi o maior protesto de rua contra as medidas de austeridade do governo britânico de coalizão que chegou ao poder em maio.

Fotos e infos atualizadas:
› http://london.indymedia.org/

Vídeos da invasão:
› http://www.flickr.com/photos/asifkhan/5164443752/

› http://www.flickr.com/photos/asifkhan/5163666447/

› http://www.flickr.com/photos/asifkhan/5163734529/

agência de notícias anarquistas-ana
A mesma paisagem
escuta o canto e assiste
a morte das cigarras

Matsuo Bashô

Europa e Estados Unidos: Duas potências à deriva - por Roberto Sávior

Europa e Estados Unidos: Duas potências à deriva - por Roberto Sávior
Com a recente declaração da chanceler Angela Merkel sobre o fracasso do modelo multicultural na Alemanha, vai se completando o giro de cunho xenófobo na Europa. Segundo as pesquisas, se um partido xenófobo se apresentasse agora em eleições na Alemanha, obteria cerca de 15% dos votos. Além disso, países-símbolo da tolerância, como Holanda ou Suécia, são apenas os últimos casos de governos condicionados por partidos que pedem a expulsão dos estrangeiros e o retorno a uma nação pura e homogênea. Segundo as Nações Unidas (UNFPA, 2009), a Europa deveria acolher, até 2015, pelo menos 20 milhões de imigrantes para continuar sendo competitiva no plano mundial. O envelhecimento da população europeia é tão rápido que, pela primeira vez, pessoas com mais de 50 anos superam as menores de 18. Por este motivo, o sistema de previdência social está destinado a sofrer uma crise estrutural se não houver trabalhadores suficientes para pagar as contribuições correspondentes.

É representativo das carências da classe política europeia o fato de nenhum governo ter buscado implantar uma política de educação para fazer seus cidadãos compreenderem a importância dos imigrantes para o desenvolvimento nacional e que tenha sido permitido que se estendesse o mito da perda de postos de trabalho por parte dos europeus, bem como o de que os imigrantes representam um perigo para a ordem pública. Hoje em dia, cerca de 70% das novas empresas são o resultado da iniciativa de imigrantes (OCDE, 2009) e somente 1% destes está envolvido em atividades criminosas (embora representem uma parte importante da população carcerária).

Se passarmos à imagem da Europa como potência econômica a situação é ainda pior. Não só a balança de pagamentos ficará cada vez mais desequilibrada, como também os países europeus estão perdendo progressivamente cotas do mercado mundial, com exceção da Alemanha. Segundo as projeções, se a Europa não reverter as tendências atuais, será superada pela China em 2015 com motor da economia mundial. Esses dados não chegam às pessoas comuns, mas existe a perda de credibilidade nas instituições europeias e uma crescente divergência com as instituições políticas. O Eurobarômetro de 2010 indica que apenas 52% dos cidadãos europeus estão dispostos a votar.

Nos EUA...
A mesma situação, embora de modo obviamente diferente, se apresenta nos Estados Unidos. A crise financeira, o desemprego, a perda da casa por milhões de pessoas, a impossibilidade de se aposentar e a necessidade de continuar trabalhando para sobreviver, o aumento da pobreza, que afeta um em cada dez norte-americanos, a redução dos serviços, incluindo educação e infraestruturas estatais cada vez mais endividadas, produzem um único resultado: a desconfiança com relação ao governo, que chega ao ponto de deixar o presidente Barack Obama com aprovação pública de 43% e que 49% dos entrevistados pela rede CNN declararem que preferem George W. Bush.

As eleições de novembro mostraram um retrocesso do Partido Democrata, o que tornará ainda mais difícil a segunda metade do governo Obama. Isto ocorre apesar de Obama ter conseguido cumprir reformas de grande importância como aquela, quase inteira, do sistema sanitário, aquela bastante reduzida do sistema educacional e aquela muito tímida do sistema financeiro.

Também aqui estamos diante de uma fuga para o futuro, outro aspecto furta-cor de uma crise profunda, que no caso norte-americano se deve, além dos fatores internos, ao reconhecimento de que a superpotência está perdendo a capacidade de cumprir seu “destino manifesto”, segundo o qual os Estados Unidos seriam um país diverso dos demais e, por ser universal seu sistema de valores, que está destinado a governar o mundo.

O Tea Party, movimento conservador em crescimento nos Estados Unidos, é formado por duas grandes vertentes: uma quer reduzir o governo à mínima expressão e considera Obama um perigoso socialista que deseja converter os Estados Unidos em uma segunda Europa, e que, portanto, é preciso reduzir ao máximo os impostos e dar liberdade total ao cidadão. O segundo filão acredita que a decadência norte-americana se deve a uma conspiração internacional e que é hora de vestir as calças e tirar de cena os ineficientes intelectuais como Obama.

Esta marcha à deriva de Europa e Estados Unidos ocorre enquanto não apenas China, Índia e Brasil, mas também diversos países emergentes, da Indonésia à Malásia, da Coreia à Argentina, marcham a um ritmo de crescimento econômico muito superior. Uma das características da crise é que os protagonistas não têm a capacidade de ver além de seu próprio mundo. Segundo as projeções das Nações Unidas (Unctad, 2010), a China superará os Estados Unidos dentro de dez anos. Poderá o Norte do mundo deixar de buscar bodes expiatórios e de fugir do real problema e, por outro lado, começar a cumprir, antes que seja tarde, políticas que resistam aos desafios destes tempos? Quem escreve este artigo não está nada convencido de que assim será. Envolverde/IPS

* Roberto Sávio é fundador e presidente emérito da agência de notícias Inter Press Service (IPS). Artigo publicado pela Agência Envolverde.
Fonte: Opera Mundi

Ataque impetrado por Marrocos pode significar genocídio saharauí - por Luana Bonone

Ataque impetrado por Marrocos pode significar genocídio saharauí
A situação no Sahara Ocidental ocupado está se deteriorando gravemente. A monarquia marroquina de Mohamed VI apertou o cerco contra os ocupantes e iniciou ontem (segunda-feira, 8) uma ofensiva contra os mais de 20 mil saharauís que moram no acampamento Gdeim Izik, a quinze quilômetros da capital, El Aiún.
Por Luana Bonone

As forças de segurança marroquinas fecharam no último domingo (7) o único acesso ao acampamento de protesto saharauí (“Acampamento da Independência”, onde mais de 7 mil tendas e 20 mil pessoas se têm concentrado desde o dia 10 de outubro), situado a leste de El Aiún, enquanto continuavam a chegar efetivos policiais e militares para uma intervenção violenta, que teve início ontem (segunda-feira, 8).

A polícia e as forças auxiliares marroquinas atacam cidadãos que habitam o acampamento Gdeim Izik. Uma parte do campo está em chamas e helicópteros jogam gás e água quente sobre os cidadãos, que enfrentam um desigual combate corpo-a-corpo com as forças militares. Muitos reagem com pedras aos tanques e soldados armados.

Os saharauís realizam protestos em El Aiún e em outras cidades, como Dajla, Smara e Bojador, mas as autoridades marroquinas desmantelam pela força esses acampamentos.

Solidariedade internacional
O Conselho Mundial da Paz (CMP), por meio da sua presidente, Socorro Gomes, manifestou seu “mais forte repúdio a mais esta agressão brutal contra o povo saharauí por parte do colonialismo exercido pelo Marrocos”. Para Socorro Gomes, “o ataque de centenas de caminhões e tanques contra um povo desarmado e pacífico que de longa data luta pela sua independência e autodeterminação viola a carta da ONU e dos direitos humanos". "Estão sendo assassinados civis, entre eles crianças vítimas da agressão colonialista”, completa a presidente do CMP, que é também presidente do Centro Brasileiro de Luta pela Paz (Cebrapaz).

Diante da constatação, Socorro faz um chamado aos movimentos sociais em todo o mundo: “conclamos a todos os movimentos pela paz e a solidariedade que intercedam junto à ONU no sentido de garantir os direitos do povo saharaui a seu território livre e em paz. Estes crimes, por outro lado, não podem cair no esquecimento e devem ser rigosamente punidos. Manifestamos, nossa irrestrita solidariedade ao povo Saharaui em sua heróica luta pela autodeterminação e liberdade”.

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) lançou, na segunda (8), manifesto também com uma convocatória, direcionada a “todo o povo brasileiro, a participar ativamente da campanha internacional pelo reconhecimento da República Árabe Saaraui Democrática (RASD-Saara Ocidental)”. No documento, o MST apresenta a história da ocupação e exige posição do governo brasileiro.

Espanhóis marcaram ato de solidariedade na segunda-feira (8), a partir das 18h30 na Embaixada de Marrocos em Madrid e entidades brasileiras lançam manifesto de solidariedade ao povo saharaui.

Em Portugal, nesta terça-feira (9), o reitor da Universidade de Coimbra, professor Fernando Seabra Santos, entregará a Medalha da Universidade à ativista saharaui dos Direitos Humanos Aminetu Haidar, como reconhecimento pela sua contribuição para a defesa dos Direitos Humanos.

O objetivo das variadas manifestações de solidariedade é garantir uma intervenção imediata da ONU em defesa da população civil que sofre ataque militar.

Repressão anunciada
O deputado europeu Willy Meyer já havia sido impedido de desembarcar em Marrocos pelas autoridades do país neste domingo (7). Assim que o espanhol, deputado do Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia e da Esquerda Nórdica Verde, Willy Meyer, aterrissou no aeroporto de El Aaiún, vários polícias marroquinos entraram no avião empurrando e agredindo ao deputado e a vários jornalistas que viajavam no mesmo vôo, não permitindo que nenhum dos cidadãos espanhóis saísse da aeronave.

Apenas após o comandante da aeronave, Javier Guzman, lembrar aos polícias que estavam em território espanhol e exigir a sua saída imediata, cessou a agressão. Entretanto, das janelas do avião, Willy Meyer e os jornalistas espanhóis puderam ver um grupo de cerca de 40 soldados com bandeiras marroquinas que aguardavam a sua chegada e se preparavam para os receber de forma violenta. O deputado europeu e os jornalistas provavelmente também não puderam visitar o acampamento saharauí de Gdeim Izik.

Barreira rompida
Segundo informaram fontes da resistência, apesar do “forte bloqueio das forças de ocupação marroquinas, uma caravana saharaui conseguiu forçar a barreira policial, sofrendo porém um ataque que produziu dezenas de feridos graves. Por fim, a caravana conseguiu entrar no acampamento”.

Segundo as mesmas fontes, em vários bairros da cidade de El Aiún (a capital do Sahara Ocidental ocupado por Marrocos) sucedem-se as manifestações que são violentamente reprimidas pela polícia.

“A situação é um inferno”, referem. Segundo vários testemunhos foram contados 172 veículos militares (caminhões Gacel), e outros da marca Toyota, repletos de efetivos do exército deslocados do muro defensivo de Amgale, que pertencem ao 6º Regimento de Infantaria motorizada, para El Aiún.

El Aiún, cidade sitiada
El Aiún está totalmente bloqueada. Ninguém pode entrar ou sair. Centenas de efetivos bloqueiam todas as saídas da cidade e todas as entradas ao acampamento de Gdeim Izik. Dezenas de caminhões-tanque, forças de intervenção, forças policiais e militares cercam o acampamento e a cidade.

Centenas de jovens de saharauís tentam forçar as barreiras de acesso ao acampamento, mas são dispersados com gás lacrimogêneo. Na cidade, os saharauís retiram as bandeiras marroquinas que enxameavam El Aiún devido à celebração da Marcha Verde.

Foi decretado um toque recolher e foram fechados todos os estabelecimentos da avenida Bucraa, a qual se encontra sitiada, assim como os bairros de Raha, Wifag, Elauda e Alamal. Nas ruas é constante a movimentação de um grande número de militares.
Fonte: http://www.revistaforum.com.br/