segunda-feira, 6 de junho de 2011

15M: redes e assembléias - por Antonio Negri

15M: redes e assembléiasPor Antonio Negri | Tradução: Bruno Cava

Na última semana, estive na Espanha a trabalho. Estive naturalmente envolvido com os “indignados”: atravessei algumas praças e acampamentos, questionei e discuti com muitos companheiros. Quem são os “indignados”? Não pretendo responder — há dezenas de narrativas facilmente encontráveis sobre isso. Relato aqui somente alguns apontamentos.

Democracia Real Ya nasceu dois meses antes do 15 de maio. É uma associação de militantes digitais, menos radicais, porém mais eficazes que o grupo Anonymous. Já havia movimentos desde janeiro de 2011 contra a Lei Sinde, que pune a pirataria na Internet; e articularam um discurso e uma luta contra a assinatura daquele acordo entre PP e PSOE (direita e esquerda), que viabilizara essa lei, promovida inclusive pelo vice-presidente americano. Em conseqüência, a associação incita à recusa do voto: “no les votes!”, e desenvolve um discurso sobre o sistema representativo espanhol, contra o bipartidarismo, com a exigência de uma nova lei eleitoral proporcional, dirigida a favorecer o pluralismo e a equidade.

Um segundo grupo interessante é o V de Vivienda. É um movimento de luta pela moradia, começado em 2005 (“por uma moradia digna”) e desenvolvido em rede, como reação ao estouro da bolha imobiliária. Em rede, convocam manifestações, produzem verdadeiros “enxames”, com grandes mobilizações iniciais que, contudo, encontraram dificuldade em obter um impacto político mais duradouro.

Um terceiro movimento é o dos “hipotecados”. Surge em Barcelona e constitui uma plataforma de ajuda recíproca das famílias e indivíduos que, por causa de hipoteca ou débito bancário ou insolvência privada, termiraram despejados. Esse grupo persegue especialmente a propaganda pela imprensa oficial. Seu sucesso midiático foi muito importante para as lutas e a construção do 15-M.

Um quarto grupo se formou nas várias assembléias e coletivos do cognitariado urbano. Esses não possuem militantes orgânicos. Trata-se essencialmente de uma esquerda intelectual, que protesta e coopera em rede, assumindo posições radicalíssimas contra a precariedade e a incerteza do trabalho, além de contestar os baixos salários. São grupos do trabalho imaterial crescidos na crise, “dentro e contra”.

Além desses, em certo momento, principalmente em abril deste ano, se apresentou na cena também uma rede da “esquerda autônoma” sindical, — geralmente ligada à Izquierda Unida: Juventud Sin Futuro. O nome diz tudo. Esta organização começa uma ampla agitação, com a importante capacidade de repercutir nos grandes jornais, e tenta convocar uma manifestação em 7 de abril. É um prólogo importante, haja vista que, entre 7 de abril e 15 de maio, o anúncio da “grande manifestação” se dissemina de modo viral pelas redes.

Quem é a gente que se reuniu no 15 de maio nas praças da Espanha? Existem dois componentes de peso. O primeiro é essencialmente a classe média empobrecida, desempregados, pequenos empresários em crise, profissionais que não conseguiram sucesso, ou foram rejeitados pelas empresas, trabalhadores autônomos recentemente golpeados pela crise, ou assediados pelo fisco, — a quem se juntam os cidadãos sem casa própria e sem condições de adquiri-la, os que vivem como inquilinos. Um segundo componente, fortemente majoritário nos acampamentos, é o cognitariado metropolitano: trabalhadores digitais e cognitivos, precários do setor dos serviços e de todos os gêneros de atividade imaterial, estudantes e jovens sem futuro. Alguns poucos imigrantes também apareceram nas manifestações e assembléias para se expressar. No movimento, muitas mulheres se destacaram nas discussões e lideraram a organização dos acampamentos. Esses sujeitos constituem um movimento que não é identitário, que não é simplesmente movimento de solidariedade. Todos falam em primeira pessoa. É um movimento contra a crise e a pobreza, de toda a classe média (num sentido amplo).

Indignados. Foram os meios de comunicação que impuseram este nome, importado do célebre opúsculo de Stéphane Hessel. Nisso, o movimento reconheceu rapidamente uma tentativa de reduzi-lo a mero protesto moral, de relegá-lo a um terreno não-político (com a ameaça implícita que, se começasse a atuar politicamente, haveria repressão). O movimento reagiu imediatamente: pacífico, praticando a “recusa à violência”, teorizada e proclamada como “recusa do medo”. Este é um dado constante e importantíssimo na formação e na firmeza do movimento. Exprime a consciência que, quando há medo, se é levado naturalmente a responder violentamente à violência; que o governo tenta amedrontar (um gesto hobbesiano) para incitar uma resposta do movimento, tão violenta quanto vazia e, como resultado, legitimar a repressão. A resistência não-violenta do movimento permitiu uma aceleração extraordinária, uma enorme expansão (metrópoles, cidades, vilas), a sua aparição como “evento” irrefreável.

A linguagem do movimento é simples e popular, mas não populista. Foi sugerido na Democracia Real Ya: “não somos uma mercadoria nas mãos dos banqueiros e políticos”. A linguagem foi trabalhada nas redes e pela incrível quantidade de comunicações, agenciamentos, sites e fóruns no facebook, tuíter etc. Que, em uma democracia real o poder seja ação que exercitamos sobre a ação do outro — e assim fica implícita a dissolução de toda autonomia do político — constitui a chave da linguagem do movimento. A isso se junta a crítica da constituição democrática, aos três poderes tradicionais (legislativo, executivo, judiciário), porque não correspondem mais às funções originais. A dimensão pública do Estado, quando não é atravessada pela participação dos cidadãos, não pode mais ser considerada legítima. Nas formas atuais, o público não passa de uma superestrutura do privado. Exige-se, portanto, um novo poder constituinte, visando à construção do comum. Pode-se dizer, mais claramente, que o movimento dos indignados é um movimento radicalmente constituinte?

Nele, propõe-se um novo modelo de representação. De um lado, as redes; de outro, as assembléias. Partindo das assembléias nas praças centrais das cidades, se chega “em rede” às assembléias locais, nos bairros das metrópoles e, finalmente, às pequenas cidades e vilas. O retorno, por sua vez, é direto e veloz. A organização da base — pela base — pelas assembléias constitui assim o percurso e a estrutura da “democracia real”, além da representação. A rede oferece uma temporalidade imediata. Já na organização/difusão espacial (quando os tempos são mais longos), as assembléias institucionalizam o movimento.

O 15-M parece nascer do nada. Não é verdade: além do papel dos grupos, além da casualidade (latente e perversa) da crise, se notam no movimento acumulações, sedimentações, recomposições ao longo do tempo.

Pra começar, há analogia com o que ocorreu em março de 2004, quando o “movimento contra a guerra”, insurgido contra Aznar nos dias anteriores às eleições, protestou ante a atribuição dos atentados terroristas na estação central de Madrid aos bascos e ao ETA. Também nesse caso se tratou da produção de um enorme enxame, à época convocado através dos telefones celulares, que transformou radicalmente o clima eleitoral e pavimentou o acesso de Zapatero e dos socialistas ao governo: a dita “comuna de Madrid”.

Diferentemente, hoje, não existe aquela enorme tensão, aquele grande medo, aquela violência, que então se disseminava pelos movimentos. Hoje há uma percepção maior da própria força, logo maior maturidade. Naquele momento, uma vez eleito, Zapatero tenta responder às dinâmicas do movimento, mas propõe ainda outra vez uma opção de representação política — que rapidamente se revelou uma mistificação, e insultante na medida em que foi encarada como traição. Agora não existe mais nenhuma hipótese reformista, existe no lugar disso a consciência da impossibilidade de modificar o sistema. Existe a percepção (sobretudo depois do resultado eleitoral desastroso para os socialistas, que tem a ver com o grande impacto da abstenção — cerca de 50%) que o movimento pode realmente fazer e desfazer os governos, mas hoje a isso se acrescenta um imaginário modificado, visto que nenhuma hegemonia partidária poderá mais corresponder ao movimento. “Ninguém nos representa”. O sistema constitucional está em crise.

A continuidade pode ser também registrada a respeito das formas de organização. Na configuração material dos acampamentos, resgataram-se particularmente as formas de luta dos operários da Sintel [NT. cujos trabalhadores fizeram greve por 11 meses seguidos, em 2001-02], que por meses e meses acamparam no centro de Madrid, depois do fechamento da empresa deles. A tradição do “acampar” foi recepcionada pela luta operária. Isto mostra como a interseção dos movimentos representa hoje uma passagem essencial na produção das lutas multitudinárias. Mesmo quando os organismos oficiais do movimento operário (sindical e partidário) se excluem da manifestação, a tradição das lutas operárias se inclui no processo e o desenvolve.

A partir dessa nota, vale a pena recordar outro elemento fundamental no 15-M — é o “Republicanismo” implícito, o lembrete melancólico, mas radical, de 1936. Toda a história da Espanha na modernidade é aqui colocada em jogo, contra uma governamentalidade capitalista e clerical, reacionária e repressiva, liberal e reformista, que não encontra par noutros países da Europa.

Tudo isso ajuda a compreender a dinâmica de organização deste movimento. Irrompe de um amadurecimento capilar, numa dimensão microssocial, completamente voluntarista. Há um máximo de cooperação, que não se produz simplesmente por indivíduos ou coletivos, mas se organiza “todos juntos”, na sinergia. Igualmente a elaboração teórica é coletiva. Nas assembléias todos têm direito à palavra. O nível da discussão é por vezes descontínuo, mas sempre rico de intervenções competentes, no mérito e na eficácia da proposta. Parece incrível, mas, de verdade, ocorreram formidáveis e inovadoras experiências, seja sobre o terreno da cooperação organizacional, seja sobre a elaboração teórica — experiências nunca repetitivas, burocráticas ou inúteis. Há uma maturidade geral que desenvolveu novas habilidades — porém, especialmente, que evitou contraposições dogmáticas e/ou sectárias. Aqueles que já estavam organizados em grupos não foram excluídos, mas implicados no “todos juntos”. Não houve necessidade de um “savoir faire” político particular, mas somente de competência e capacidade de participar de um projeto comum.

Os dois processos fundamentais de organização que se integraram foram a comunicação em rede (que permite a articulação de centralizações e descentralizações territoriais) e a interseção de componentes sociais (que permite a recomposição programática do proletariado social).

Considerando a característica da recomposição (dos movimentos e dos programas), compreende-se também um espírito constituinte, que evita amálgamas politicamente contraditórios (por exemplo, entre grupos e organizações que disputam usualmente a hegemonia um contra o outro) e, por isso, não gera enfatuações sectárias ou abstratas, puramente dogmáticas. Os indignados falam entre si, nas assembléias ou na rede, de programas, de coisas por fazer, de metas conjuntas, de problemas concretos… O espírito constituinte predomina. “Todos juntos” — aqui se constrói o comum.

Uma organização de subsistência totalmente horizontal foi criada, com a cozinha e o serviço de policiamento da praça acampada, com uma centralização informática e informativa, com horários definidos em assembléia, com decisões, comissões jurídicas e médicas etc.

Quais são os mecanismos de decisão do movimento? Democracia direta, logo decisões tomadas de modo assemblear, atreladas à curta duração nas funções de representação (porta-vozes). Sabe-se que tomar uma decisão nessas condições exige longo tempo, que o processo decisório muitas vezes deve elevar-se acima dos efeitos tumultuados de uma discussão caótica. Contudo, isto não impede de chegar, através da nomeação de porta-vozes (a cada dia substituídos), à tomada de decisão, e a sua comunicação pública — com legitimidade consensual. Seja a decisão, seja a discussão que se produziu, tudo é arquivado no site do movimento. Corre em paralelo ao processo uma verificação em rede das decisões tomadas. Põe-se assim em movimento uma estrutura policêntrica de decisão e, enquanto nas assembléias a decisão exige longo tempo, nas redes a verificação da decisão se dá muito velozmente.

Este processo decisório constrói uma novidade radical em relação às melhores experiências de movimentos recentes (Seattle, Gênova etc), quando as decisões coletivas dificilmente conseguiam associar expressão exata dos comportamentos à urgência do evento, juntar a continuidade com a extensão da iniciativa… Para não falar de sua institucionalidade.

Como já dissemos, o movimento surgiu na soma de iniciativas de vários grupos, num período de experimentação de mobilizações ágeis, da repetição de ações em flash: e ao final se deu, em concomitância com as manifestações gigantes, a decisão de acampar. O acampamento e a consolidação da modalidade assemblear que o seguiu representam assim uma relativa ruptura/descontinuidade com o modelo de decisão em rede. Tanto mais que, nos acampamentos, a composição social se complica. Ao lado dos sujeitos citados acima, encontramos também frações marginais do proletariado (cognitivo ou não): desocupados, migrantes, “loucos” e/ou “hippies”, e alguns pequeno-burgueses arruinados e desesperados… Tudo isso pode criar problemas que, por um lado não podem ser agilmente resolvidos, por outro também não vamos exagerá-los, de modo a não romper o processo global de organização e decisão. Outra prova do “bom senso” deste movimento.

Os temas programáticos discutidos nas assembléias e retomados na circulação em rede, sempre firmados em documentos, são fundamentalmente os seguintes:

Trabalho precário. Requerem-se trabalho e/ou renda para todos. A discussão não implica ideologias “trabalhistas” (os sindicatos foram excluídos, a UGT e a CO, bem como outras forças políticas): dizer “trabalho para todos” significa dizer “renda para todos”. O tema da renda universal é bastante disseminado. E se torna hegemônico quando os trabalhadores autônomos de 2ª Geração representam a maioria da assembléia. E adicionalmente: redução da jornada laboral, aposentadoria aos 65 anos, seguridade do trabalho, proibição de demissões, ajuda aos desempregados etc.

Direito à moradia. Expropriação do estoque de moradias não vendidas e transferência delas ao mercado de aluguéis controlados. Plano para o cancelamento das hipotecas etc.

Tributação. A crítica é muito forte à desigualdade de tratamento dos trabalhadores, sejam independentes ou dependentes, da parte do fisco. Aumento da tributação sobre as grandes fortunas e os bancos. Relançamento do imposto patrimonial. Controle real e efetivo das fraudes fiscais e da fuga de capitais através dos ditos paraísos fiscais. Mas o tom da discussão é acima de tudo contra os bancos, contra a estrutura financeira etc. Proibição de injeção de capital nos bancos responsáveis pela crise. Controle social dos bancos. Sanções para o movimento especulativo e as más práticas bancárias. O conceito fundamental exprimido nas assembléias é que existe uma grande riqueza social, mas ela é expropriada pelo fisco e pelos bancos. As operações bancárias tais quais hoje estão repletas de usura em relação aos pobres, e de prepotência diante da sociedade. Requer-se a generalização da Lei Tobin inclusive nas transferências internas e internacionais entre os bancos.

Sistema eleitoral. A solicitação pela mudança da lei eleitoral e das regras de representação é pesadíssima e assunto da mais alta urgência. Entende-se que o sistema bipolar espanhol seja intolerável, que as duas grandes forças parlamentares são igualmente corruptas e responsáveis pela crise. Solicita-se assim que o sistema eleitoral seja modificado no sentido do voto proporcional, e uma proposta de referendo sobre o tema (500 mil assinaturas) já foi lançada. Além disso, mais democracia participativa: não ao controle da Internet e revogação da Lei Sinde, generalização do método referendário etc.

Sistema judiciário. Considera-se completamente nas mãos dos políticos e banqueiros, incapaz de perseguir a corrupção e, sobretudo, inapto para corrigir o déficit de representação ou promover um senso igualitário ao sistema normativo como um todo. Quando se fala em justiça, se contrapõe à corrupção política um discurso de dignidade — e não aqui um moralismo pequeno-burguês, mas um sentimento forte de autonomia ética e política.

Serviços comuns. Reorganização dos serviços de saúde. Contratação de sindicatos de professores, para garantir uma taxa mais correta de alunos por sala de aula aula e grupos de reforlo escolar. Gratuidade da educação universitária. Financiamento público da pesquisa, para assegurar a sua independência. Transportes públicos de qualidade e ecologicamente sustentáveis. Constituição de redes de controle local e serviços municipais etc.

Alguns temas foram evitados nas assembléias. O tema “nacional” em primeiro lugar — vale dizer que não colidiram nacionalismos diversos (coisa muito costumeira no debate político espanhol), se falou em todas as línguas, castelhano, basco, catalão etc. Esse é um elemento extremamente importante na experiência dos acampamentos. Outros temas por enquanto exclusos da discussão: a Europa e, parcialmente, a guerra (às vezes contestada a despesa militar do governo). A essência do debate sobre esses temas é bastante bizarra, e corresponde, todavia, à informação insuficiente e à forte ambigüidade que geralmente se sente em relação ao tema europeu e ao da Aliança Atlântica.

O que pode tornar-se esse movimento em uma perspectiva temporal mais longa? Ele pode constituir um contra-poder permanente e/ou organizar-se como poder constituinte. É difícil prever qual será o caminho. Se organizando uma espécie de dualismo do poder (acontecimental e periódico); ou se desenvolvendo um poder constituinte que tenta uma penetração e uma transformação das estruturas do estado. Certo é que, de dentro da prática da Praça contra o Governo, aparece positivamente o projeto de uma regeneração republicana: a República contra o Estado; como na tradição espanhola (antes e através da guerra civil) esse projeto fora vivenciado. Na Espanha, trinta anos depois do fim do franquismo, falta ainda uma crítica do fascismo, carece ainda uma denúncia da continuidade da direita negocista e financeira em relação ao regime franquista. Isto significa que o movimento — também e sobretudo no seu êxodo atual — se situa radicalmente à esquerda, mas certo fora daquela esquerda representada por Zapatero — cuja ação política sempre consistiu em uma gestão servil do capital. O 15-M não se opõe à política em geral, mas ao sistema dos partidos.

Como dito, se fala pouco da Europa nos acampamentos. Quando nela se fala, recorda-se a sua opacidade. E, entretanto, é particularmente evidente a necessidade de um relé [relais] europeu, da assunção de uma dimensão continental à discussão política.

O que ocorrerá nos tempos breves do movimento? Três possibilidades devem ser consideradas. A primeira: o fim da frustração. A segunda: uma radicalização aglutinada. Mas a terceira é aquela de uma reterritorialização estável, nos bairros, na sociedade, com uma capacidade de mobilização contínua. Parece que os manifestantes querem agrupar-se e articular-se em um movimento sócio-político, com particularidades em todas as regiões, com uma auto-gestão em escala territorial. A cada dia 15 do mês, os grupos nos territórios deveriam colocar-se de acordo sobre uma plataforma de reivindicações e um calendário de mobilizações. Assim se dará, seguramente, a continuidade do movimento, — pelo menos até as eleições gerais do próximo ano. Resta compreender se a adesão da população permanecerá tão maciça no próximo período. Isto dependerá em parte do comportamento das autoridades: se reprimem o movimento, a solidariedade que o caracteriza deverá reforçá-lo. Em qualquer caso, os problemas fundamentais que sobram a este ponto aberto são, em primeiro lugar, aqueles ligados à reterritorialização do movimento e, ainda, a construção de uma rede européia.
Fonte: http://www.outraspalavras.net

Prática cruel e ineficaz: Médicos britânicos emitem alerta contra os testes em animais - por Por Karina Ramos

Prática cruel e ineficaz: Médicos britânicos emitem alerta contra os testes em animais
Por Karina Ramos (da Redação)

Médicos britânicos expressaram suas preocupações em uma carta endereçada ao primeiro-ministro David Cameron e ao secretário da Saúde Andrew Lansley, propondo que sejam reconsideradas as maneiras com as quais os remédios novos são testados. Os signatários da carta, publicada na revista médica The Lancet, disseram que atualmente as “proporções epidêmicas” dos remédios estão causando reações colaterais, enquanto os pacientes continuam tendo que pagar altos preços para a obtenção das receitas.

Segundo informações da Animal Concerns, esse movimento começa motivado pelos cálculos que mostram que 197.000 cidadãos dos Estados-membros da União Europeia morrem anualmente devido à reações adversas causadas pelos remédios. O texto reivindica uma mudança nos testes realizados, já que os testes em animais produzem resultados que nem sempre são os mesmos em humanos.
Tony Dexter, um dos signatários da carta e chefe de um laboratório de pesquisa em Cheshire, descreveu o ato de testar remédios em animais e assumir que isso seja seguro para os humanos como jogar uma moeda pra cima e definir o resultado com base no “cara ou coroa”.

“O problema fundamental é que um rato não é uma pessoa. Eles têm tamanhos, metabolismos e dietas diferentes. Então, usar animais para predizer os efeitos em humanos é uma dificuldade. 50% dos compostos que provam que são seguros para ratos também provam que não são seguros para humanos. Isso dá no mesmo que jogar uma moeda para cima e escolher cara ou coroa”, disse Tony ao Sky News.

Os signatários da carta pedem novos procedimentos de modo que os remédios novos sejam testados em células humanas antes de serem certificados. Também levantaram a preocupação com os preços exorbitantes desses novos remédios, tornando-os insustentáveis, “gerando uma carga cada vez mais pesada para o Serviço Nacional de Saúde”.

Uma falta de tratamento adequado para doenças como Alzheimer, diabete, derrame e vários tipos de câncer também preocupa médicos e cientistas.
“A indústria farmacêutica do Reino Unido está em crise, assim como o sistema de saúde. Muitas dessas crises do sistema de saúde estão intimamente relacionadas com os maiores problemas das indústrias farmacêuticas”, alerta a carta.
Fonte: http://www.anda.jor.br

Galeano: O mundo está dividido entre os indignos e os indignados - por Redação

Galeano: O mundo está dividido entre os indignos e os indignadosConfira a íntegra da entrevista concedida por Eduardo Galeano ao programa Singulars, de TV3, no dia 23 de maio. Ali, ele conta as suas impressões ao se deparar com a Espanha dos "Indignados" e fala sobre a crise do sistema econômico e político institucional.

Confira abaixo a íntegra da entrevista concedida por Eduardo Galeano ao programa Singulars, de TV3, no dia 23 de maio. Ali, ele conta as suas impressões ao se deparar com a Espanha dos "Indignados", fala sobre a crise do sistema econômico e político institucional e também comenta a respeito de futebol. Sobre as manifestações, ele acredita que "são os invisíveis se fazendo visíveis, e os que pareciam mudos fazendo-se escutar. E estão dizendo aquilo que têm que dizer. E neste mundo em que todos falam sem dizer, eles dizem dizendo."

Eduardo, você chega e encontra as praças cheias de gente gritando “outra democracia é possível!”. Que te parece?
Eduardo Galeano – Me parece uma experiência estupenda. A verdade é que foi muito emocionante, para mim, estar entre essas pessoas quando cheguei a Madrid e recuperar esta energia, este entusiasmo. Esta vitamina “E” de entusiasmo, que às vezes parecia perdida neste mundo que nos convida ao desânimo. Então acho que é uma experiência estupenda, e segue sendo, e a palavra entusiasmo é uma palavra linda, de origem grega, que significa “ter os deuses aqui dentro”. E isto foi o que senti quando perambulava entre as pessoas na Puerta del Sol.

“Nos tiraram a justiça, e nos deixaram a lei.” Esta é uma das frases que você pode ler na Puerta del Sol. Que lei nos deixaram, senhor Galeano?
Galeano – A lei do mais forte. É esta lei que rege hoje o mundo, dentro de cada país e entre os países também, e é uma lei insuportável. Parece hoje que os jovens vêm crescendo em matéria de desobediência contra esta lei que os condena à resignação, à aceitação do mundo tal qual é. E hoje há na América Latina toda, ou quase toda, um problema visível e preocupante que é o divórcio, a separação – eu diria que é um divórcio – entre os jovens, as novas gerações, e o sistema político e o de partidos vigente. Eu não reduziria a política às atividades dos partidos, porque a política vai muito além. Mas, sim, me preocupa que, por exemplo, nas últimas eleições chilenas dois milhões de jovens não tenham votado. E não votaram porque não se deram ao trabalho de se registrar e porque, no fundo, não creem nisto. Suponho que, principalmente, por não acreditarem nisto. E me parece que isto não é culpa dos jovens, é muito fácil culpá-los, mas a questão vem de cima, está concentrada no topo, e a estes não importa nada de nada. E também nesse sentido gostei de estar nas manifestações, pelo menos na da Puerta del Sol que foi onde pude estar.

Sabe quanta gente não votou ontem na Espanha?
Galeano – Não, não imagino.

Dez milhões de pessoas não não foram votar.
Galeano – Bem, é grave, não?

Mas também é um direito não votar, certo?
Galeano – Claro, claro que sim. E é também, por vezes, um modo silencioso de protesto. E também acho legítimo que as pessoas se expressem falando ou calando, pois o silêncio às vezes diz mais que as palavras. E o que eu gostei foi ver toda esta ebulição de um protesto pacífico, sem violência, como o que vi circulando entre a gente nas diferentes horas do dia, e da noite também. Muito solidariamente, unidos em uma causa comum, e sustentado com convicção a partir da situação tão penosa que vivem hoje na Espanha e em muitos outros lugares do mundo sobretudo os jovens, e, sobretudo os jovens que não têm uma posição, digamos, acomodada. Lá no Sol diziam “Com causa, mas sem casa!”, e isso me pareceu revelador, porque uma boa parte das pessoas que estão ali ficaram sem casa e sem trabalho. Isto é uma coisa a ser levada em conta.

O que está acontecendo neste momento, em distintos países europeus – e eu suponho que no seu mundo, a América Latina, também, mas conheço mais a situação europeia – é que o povo está dizendo “Basta!”, algo tão claro como nós, pais, dizendo que nossos filhos não terão o mesmo que nós. E tão claro como nós vemos que isto que nós temos é graças à luta que, em seus momentos, lutaram nossos pais e avós com sangue, suor e lágrimas, e conseguiram os direitos que nós, como pais, não podemos dar a nossos filhos.
Galeano – Claro, este é um dos dramas do mundo em nosso tempo, internacionalmente. Dois séculos de lutas operárias que conquistaram direitos muito importantes para as classes trabalhadoras, para os que trabalham, estão sendo descartados, jogados no lixo, por governos que obedecem a uma tecnocracia que se crê eleita pelos deuses para comandar o mundo, esta espécie de governo dos governos. Como este senhor que ultimamente se dedicou a violar camareiras, mas antes violava países e era aplaudido enquanto o fazia e não foi preso por isso. Ele teria que ter sido preso pelas duas coisas, não só pelas camareiras. É esta estrutura de poder que às vezes é invisível e que, no fundo, controla tudo. Então, quando se consegue aglutinar vozes capazes de dizer “Basta!” ou “Não, chega!”, a primeira coisa que se deve fazer é escutar estas vozes, com respeito, sem desqualificá-las de antemão, e saber esperar para ver o que é que a vida quer viver. Estas pessoas não parecem esperar ordens de ninguém, atuam espontaneamente, unindo a razão à emoção. Alguns me perguntam “Como vai acabar isso?” e eu digo “Não sei como vai acabar, talvez nem acabe. E se acabar, aí veremos”. É como o amor que é infinito enquanto dura.

Sabe... O senhor, Eduardo Galeano, com José Luis Sampedro e Arcadi Oliveres, são referentes internacionais de pessoas que, em seu momento, já há bastantes anos, disseram “Basta!”. E Sampedro, muito maior, mas muito jovem, este fim de semana fez uma declaração, não me recordo exatamente, mas era algo assim: “As batalhas, temos que erguê-las e lutá-las. Se ganham, ou se perdem, mas temos que lutá-las. Por que este ato solitário de erguê-las, e de lutá-las, é o que as torna tão valiosas.”
Galeano – Ele é um querido amigo pessoal, e eu o respeito muito. E isto é verdade. Estamos também enfermos de existir. O mundo está preso em um sistema de valores que coloca o sucesso acima de tudo, e, por outro lado, condena o fracasso. Perder é o único pecado que no mundo de hoje não tem redenção. Estamos condenados a ganhar ou ganhar. E, bem, ao longo da história muitas pessoas melhores perderam, e isso não lhes tira nem um pouco a razão. Os dois homens mais justos na história da humanidade, Sócrates e Jesus, morreram condenados pela justiça. Os mais justos foram condenados pela justiça. E não deixam de ser justos.

E nos deixaram a lei.
Galeano – E nos deixaram coisas muito importantes. Em primeiro lugar, amor e coragem.

A santíssima trindade, também chamada de Standard & Poor’s, Moody’s e Fitch, são as agências que qualificam os riscos. Hoje, elas estão fazendo cair as bolsas e o euro, na Europa, porque voltaram a baixar a qualificação da dívida grega. Quem são estas agências? E a quem obedecem?
Galeano – Segundo minha mulher, Helena Villagra, são “As Meninas Superpoderosas”. Eram personagens de um desenho que passava há não muito tempo. Então são estas meninas, que se consideram no direito de classificar e qualificar os países, e dizer se este ou aquele país está indo por um bom caminho, que é sempre o caminho da obediência às ordens ditadas por um sistema que é sempre inimigo do povo. E são dirigidas por tecnocratas que mandam mais que os governos. Ninguém os elegeu, em nenhuma eleição. Que eu saiba, ninguém votou na Standard & Poor’s – que, se não estou equivocado, significa Médios e Pobres.

Mas você conhece os crimes que cometeram estas agências? Eu entendo quando alguém se equivoca porque se equivoca, sem querer. Mas elas estão destruindo países inteiros, estão jogando contra países inteiros, e ninguém diz nada!
Galeano – E os banqueiros de Wall Street, que foram os principais protagonistas desta crise, que provavelmente é a crise mais grave que o mundo já sofreu em muitos séculos de história, talvez a maior fraude já cometida. E nenhum destes banqueiros foi preso. Vão presos os ladrões de galinhas, mas os banqueiros superpoderosos, como as meninas superpoderosas, estes não vão presos nunca. E cometem crimes de desumanidade. Eu vi agora que o Tribunal Penal Internacional quer julgar Kaddafi. Sabemos que não é nenhum santo e que seguramente merece ser julgado, mas muito mais merecem ser julgados estes senhores que arruinaram o planeta.

E que hoje nos cobram mais que ontem.
Galeano – E que foram recompensados. Eu havia até proposto uma campanha, quando via os pobres banqueiros chorando suas misérias, este desastre, e junto com outros companheiros nós articulamos uma campanha que não teve muito êxito: “Adote um banqueiro”. Vê-se que o mundo tem um mau coração, ninguém o fez.

Eduardo Galeano, como acha que se explica porque nestas reuniões de G20, G8, G1040 – todos dão na mesma –, por que nenhum mandatário, por que nenhum governante, e há alguns das esquerdas, por que nenhum deles se levanta e diz “Basta, acabou! Este mundo não é possível! Eu não vou condenar meus concidadãos à miséria. Não! Basta!” Por que não há nenhum que se levanta, por quê?
Galeano – Há alguns que se levantaram.

No G20?!
Galeano – Não, não, fora do G20. No “G-7 bilhões”, que é esse que abarca a humanidade inteira. Uns tantos se levantaram e disseram “Basta!” e por isso foram condenados ao inferno, claro. Por exemplo, me recordo quando o presidente do Equador, Correa, anunciou que não iria pagar a dívida, que não era legítima. Ou seja, que havia nascido de uma armadilha, de uma fraude, de uma violência. E o mundo se doeu: “Mas como? O Equador vai acabar, esse país vai naufragar. Como é que alguém se atreve?”. E não se acabou nada, porque era perfeitamente legítima a decisão de não pagar as dívidas ilegítimas, que são as que estrangulam a maior parte dos países, sobretudo os países mais pobres.

Então, você vê, o problema é que não falta quem o diga, mas sim, digamos, que... Há um sistema que absolve ou condena segundo a boa ou má conduta dos diferentes governos. Mas às vezes as lições de vida, as lições de dignidade que o mundo necessita são dadas pelos menores. Por exemplo, a Islândia. A Islândia é um país minúsculo, perdido aí nos mares do norte do mundo, habitado por pouca gente – não sei, cerca de 150 mil pessoas, algo assim –, e foi o que mais claramente disse “Não”, nestas circunstâncias muito difíceis, ao Fundo Monetários Internacional e à ditadura financeira do mundo, em dois plebiscitos. Porque o FMI e a UE já haviam dado a ordem à Islândia de que a população, ou seja, os islandeses, teriam que pagar a bancarrota de três bancos de lá, dois bancos muito importantes e outro não tanto, que tinham recebido depósitos de outros países e não podiam pagá-los, e, portanto, a população deveria pagar 12 mil euros per capita. Ou seja, cada cidadão deveria pagar 12 mil euros pela bancarrota dos bancos! Eu não digo que todos os banqueiros sejam delinquentes, mas há banqueiros que são os assaltantes de bancos mais perigosos que há. Eles não carregam nenhuma arma, nem avisam que estão entrando, porque, afinal de contas, estão entrando em suas “casas”. Mas estes são os mais perigosos. E a população da Islândia foi capaz de dizer “Não! Não aceitamos”, e então se fez um plebiscito.

Mas, como para o FMI e para a UE não pareceu ser suficiente, fizeram outro. E ganharam os dois. A Islândia se negou a aceitar como destino a obediência. E afinal, defenderam dignidade humana. Porque este movimento não é o movimento tão lindo, que me encanta ver. Este se chama Movimento dos Indignados, e eles não se equivocam com este nome, porque afinal o mundo está dividido entre os indignos e os indignados.

A Islândia disse “Não!” aos mercados. Nós, jornalistas, dizemos “os mercados”. Quem são?
Galeano – Sim, os mercados... É um termo que se usa. Na infância, era uma palavra lindíssima que dava nome ao local de encontro dos vizinhos do bairro. Com todas as suas cores, das verduras, das frutas, as vozes dos vendedores que vinham até os bairros para vender suas coisas. E era uma palavra muito linda. Mas depois se converteu no nome de um deus invisível e muito cruel, que é este que rege nossos destinos. Então, sempre se diz: “Não, isso não. Vai irritar o mercado!”, porque ele tem humor, este deus. E o mercado manda, mas ninguém sabe muito bem quem é ou do que se trata. É como quando se fala em “comunidade internacional”. “A comunidade Internacional não deveria permitir isto”, a comunidade internacional é um clube de banqueiros e generais, senhores da guerra e senhores do dinheiro que decidem quem é democrata e quem não é, e decidem quem merece o sucesso, e quem merece a desgraça. E, no entanto, ainda há gente que acredita que outro mundo é possível.

Ontem ocorreram na Espanha, como se sabe, eleições locais e regionais e o eleitorado espanhol resolveu, por assim dizer, castigar muito duramente o Partido Socialista Obrero Español (PSOE). Que você acha disso?
Galeano – De fora, não sou ninguém para ditar à Espanha, ou às Espanhas contidas na Espanha, normas de boa ou má conduta, até porque justamente agora eu estava falando contra os sistemas autoritários de poder. E também creio que são autoritários alguns intelectuais que vão dar lições às pessoas nos lugares onde estão visitando. Eu vivi na Catalunha bastantes anos, dez anos, não me considero estrangeiro aqui, mas deve se ter muito cuidado ao julgar ou emitir opiniões a respeito de acontecimentos tão complexos como é uma eleição, nada menos.

Em princípio, me pareceu muito crível uma manchete do Diário Público de hoje, que vi, que dizia que o PSOE havia sido castigado por praticar uma política de direita. Provavelmente algo disso deve ter havido, porque o governo talvez não tivesse mais remédio. Não sei precisamente. Mas sei que sim, a Espanha concordou em fazer coisas que não coincidiam muito com o programa de governo do Partido que segue, contudo, governando a Espanha.

Eu antes fiz uma pergunta dizendo que, para um governante, pode ser cruel, especialmente se o governante luta pra conseguir mais igualdade. Eu disse que nenhum governante se levantava em nenhuma reunião internacional para dizer “Basta!”. Então volto a perguntar: podem fazê-lo? Me refiro ao G20.
Galeano – Eu repito: se o G20 não é capaz de tolerar, admitir e promover a diversidade no mundo, ou seja, se não é capaz de praticar a democracia – porque a democracia é isso, diversidade, escutar todas as vozes, outras vozes, em pé de igualdade –, bem, então é necessário substituir o G20 pelo “G-7 bilhões”, que é esse de toda a humanidade.

E isto como se dará?
Galeano – Não há receita para isso. Eu não conheço, pelo menos. E desconfiaria muito de alguém que quisesse me vender esta receita. São processos muito complexos, muito complicados, e, além disso, a História é uma senhora de ações lentas e andar suave. As coisas não mudam em uma semana ou um mês. É legítima a necessidade humana de que as coisas mudem enquanto estou vivo, claro, eu quero ver estas mudanças. Esta é uma paixão humana completamente compreensível e partilhável. Mas, não condiz com a realidade. A realidade tem seus tempos e o mundo tampouco caminha em linha reta.

A História é lenta, estou de acordo. Mas imagine você estas dezenas de milhares de pessoas que saíram às ruas, que estão ocupando agora mesmo a Plaza Catalunya, aqui em Barcelona, além de outras cidades da Espanha. Quando isto terminar, pois decidiram terminar daqui a algumas semanas, o que vai acontecer? Estes governantes e políticos democrática e legitimamente eleitos vão levar em conta o que foi feito nas praças, o que foi dito nas praças ou não dará em nada?
Galeano – Nada dá em nada quando, digamos, se transmite energia. A energia fica, de alguma maneira. Às vezes se transforma em outra coisa, se arranja de outras maneiras. Mas é muito importante o que está ocorrendo nestas concentrações, que são sobretudo juvenis, mas não somente juvenis. Pois, em última instância, são os invisíveis se fazendo visíveis, e os que pareciam mudos fazendo-se escutar. E estão dizendo aquilo que têm que dizer. E neste mundo em que todos falam sem dizer, eles dizem dizendo. E dizem coisas que vale a pena escutar. E eu acredito que estas vozes vão seguir ressoando. Mas, contudo, não quero ser um otimista profissional porque eu sou otimista de acordo com a hora do dia, às vezes sou muito pessimista. E a esperança é uma coisa que por vezes me cai do bolso, e tenho que buscá-la, descobrir onde ela está, recolher alguns pedacinhos, muitas vezes. Não sou um otimista full time, e, além disto, não acredito em quem é. Em muitos momentos tenho esperança, mas, quando não tenho agarro meus cabelos e rezo pra uma nave espacial me levar pra outro planeta.

Por que você acha que neste último domingo, no Uruguai, se disse “Não” À suspensão da lei de anistia?
Galeano – Sim, este também é um processo complicado de explicar assim. Mas, sim, se perdeu por um voto, uma coisa lamentável. Deve-se acabar com uma lei infame, que é uma lei de impunidade. Eu fui membro das duas comissões que organizaram os dois plebiscitos, e os perdemos. Por muito pouco, mas perdemos. E seguiríamos perdendo, um milhão de vezes. Porque eu não creio que valha a pena viver para ganhar, vale a pena viver para fazer o que tua consciência te diz para fazer. E não o que te convém. E isto vale para tudo, para a política, para a vida, para o amor, futebol. O futebol parece estar agora condenado a jogar pelo dever de ganhar, e não pelo prazer de jogar. Por isso estou muito contente de estar aqui em Barcelona para receber um prêmio de um clube que recuperou o prazer de jogar com beleza e limpamente.

Claro, você vai receber amanhã o Prêmio Manuel Vázquez Montalbán de Jornalismo Esportivo.
Galeano – Sim, e é uma sorte para mim. Sou muito fã de futebol, muitíssimo fã de futebol. E creio que o futebol é um espelho do mundo, que a vida se reflete ali. O melhor e o pior da condição humana estão no campo.

Você é muito fã de futebol, como disse, então suponho que verá este time prodigioso que está fascinando o mundo inteiro, como o Barça, certo?
Galeano – Sim, sim. Eu adoro o Barça, e, além disso, gosto muito de ver o Messi jogando. Vou contar algo que me veio à cabeça agora e que tem relação com isto... Eu estava no México e em uma das intervenções públicas que estive, me permiti sugerir aos meus amigos mexicanos que tivessem cuidado com seu poderoso vizinho do norte que tem o péssimo costume de “salvar” os demais países. E lhes contei que quando vou aos Estados Unidos e faço leituras de meus livros, ou vou às universidades, coisas assim, sempre começo por suplicar para que, por favor, não me “salvem”. Eu não quero ser salvo, e este poderoso vizinho do México “salvou” o Iraque convertendo-o num manicômio, está “salvando” o Afeganistão convertendo-o em um vasto cemitério. Então eu dizia aos mexicanos “Vamos desconfiar dos messianismos, dos messiânicos. O único messianismo que não é perigoso é o que se chama Lionel Messi.”

O que é Messi?
Galeano – É a alegria de jogar. Ele joga como se fosse uma criança na várzea, em um campinho, com essa mesma alegria. Espero que não a perca nunca. Ele é excepcional. Por jogar como profissional, tem que cuidar das pernas de outra maneira, mas ele joga esquecendo de que é o número 1. Ou seja, Lionel Messi não acredita ser Lionel Messi, por sorte.

Guardiola?
Galeano – Merece tudo isto, e repito desde que ele era um grande jogador. Não podemos esquecer de que ele foi um grande jogador antes de ser um grande técnico capaz de organizar uma equipe solidária. Um por todos, todos por um, mas onde todos podem jogar e desfrutar. A verdade é que não digo estas coisas para ficar bem com o lugar onde estou, são coisas que acredito profundamente. Não tenho o costume de elogiar quando me convém.

Você sabe que nestas últimas semanas duas equipes antagônicas, Madri e Barça, se enfrentaram quatro vezes, creio. Você enxerga um estilo diferente no Galeanoeal Madrid, você que é tão fascinado por futebol?
Galeano – Sim. Com Mourinho, sim. Mas o Real Madrid pode muito mais do que tem feito nas mãos deste senhor, que além de tudo é muito antipático, porque é muito arrogante. O médico me proibiu contato com os arrogantes.

O médico proibiu? E há muitos deles?
Galeano – Sim, há muitos deles, e eu não sei lidar!

Eduardo Galeano, outra das frases, ou mensagens, das concentrações nas praças da Catalunha e da Espanha é esta: “Se não nos deixam sonhar, não vos deixaremos dormir!”. E eu vou te pedir agora, espero que aceite, que nos faça sonhar com a leitura de algum de seus fragmentos.
Galeano - Sim. Vou ler algumas palavrinhas que tem a ver com o direito de sonhar, com o direito ao delírio, a partir de algo que me ocorreu em Cartagena das Índias, há algum tempo, quando eu estava na universidade fazendo uma espécie de palestra com um grande amigo, diretor de cinema argentino, Fernando Birri. E então os meninos, os estudantes, faziam perguntas – às vezes a mim, às vezes a ele. E fizeram a ele a mais difícil de todas: um estudante se levantou e perguntou “Para que serve a utopia?”. Eu o olhei com dó, pensando “Uau, o que se diz numa hora dessas?”, e ele respondeu estupendamente, da melhor maneira. Ele disse que a utopia está no horizonte, e disse “Eu sei muito bem que nunca a alcançarei, que seu eu caminhar dez passos, ela ficará dez passos mais longe. Quanto mais eu buscar, menos a encontrarei, porque ela vai se afastando à medida que eu me aproximo”. Boa pergunta, não? Para que serve a utopia? Pois a utopia serve para isso: caminhar.

Já sei que você não vai gostar do que eu vou te perguntar a seguir, mas devo perguntar. Vamos falar um pouco de você. Você tocou em quase todas as teclas: narrativas, crônicas, jornalismo, desenhista.
Galeano – Sim, é verdade. E é verdade também que aquilo que escrevo é inclassificável e isso me dá muita alegria. Porque um dos vícios deste mundo, mundo nosso que nos cabe viver, tem um costume perverso, uma espécie de mania, de colocar uma etiqueta na testa de cada pessoa, talvez para poder manipular melhor a condição humana que, por si, tende à liberdade. Classificar-nos seria uma maneira de nos tornar prisioneiros, então o mesmo acontece com os gêneros literários. E aí é que me encanta não ser classificado, quando dizem “O que é isso que estou lendo? É ensaio, poesia, crônica, é ficção, não-ficção, de que se trata?”, e eu respondo que não tenho a menor ideia e não quero saber do que é isso que faço. Porque eu sigo o conselho que um senhor me deu, estando eu perdido pelas ruas de Cádiz, há um tempo, me perco sempre porque sou muito disperso e não tenho senso de orientação, ou tenho um grande senso de desorientação, pois me perco continuamente. E estava perdido em Cádiz e eu perguntei pelo Mercado Viejo a um senhor que estava contra a parede, apoiado, e sem desencostar ele me disse: “Nada, faça o que a rua te disser!”. E eu faço aquilo que a rua me diz. Na literatura e na vida também.

Transcrição e tradução de Cainã Vidor.
Releia: Eduardo Galeano - o caçador de vozes.
Fonte: http://www.revistaforum.com.br

Sérgio Cabral e os bombeiros do Rio de Janeiro - por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A industria bilionária da fabricação de doentes - por Ray Moynihan & Alan Cassels

A industria bilionária da fabricação de doentes
Os vendedores de doenças

As estratégias da indústria farmacêutica para multiplicar lucros espalhando o medo e transformando qualquer problema banal de saúde numa "síndrome" que exige tratamento.

Há cerca de trinta anos, o dirigente de uma das maiores empresas farmacêuticas do mundo fez declarações muito claras. Na época, perto da aposentadoria, o dinâmico diretor da Merck, Henry Gadsden, revelou à revista Fortune o seu desespero por ver o mercado potencial da sua empresa confinado somente às doenças. Explicando que preferiria ver a Merck transformada numa espécie de Wringley's – fabricante de gomas de mascar – Gadsden declarou que sonhava, havia muito tempo, produzir medicamentos destinados às pessoas... saudáveis. Porque, assim, a Merck teria a possibilidade de "vender para todo mundo". Três décadas depois, o sonho entusiasta de Gadsden tornou-se realidade.

As estratégias de marketing das maiores empresas farmacêuticas almejam agora, e de maneira agressiva, as pessoas saudáveis. Os altos e baixos da vida diária tornaram-se problemas mentais. Queixas totalmente comuns são transformadas em síndromes de pânico. Pessoas normais são, cada vez mais pessoas, transformadas em doentes. Em meio a campanhas de promoção, a indústria farmacêutica, que movimenta cerca de quinhentos bilhões dólares por ano, explora os nossos mais profundos medos da morte, da decadência física e da doença – mudando assim literalmente o que significa ser humano. Recompensados com toda razão quando salvam vidas humanas e reduzem os sofrimentos, os gigantes farmacêuticos não se contentam mais em vender para aqueles que precisam. Pela pura e simples razão que, como bem sabe Wall Street, dá muito lucro dizer às pessoas saudáveis que estão doentes.

A fabricação das "síndromes"
A maioria de habitantes dos países desenvolvidos desfruta de vidas mais longas, mais saudáveis e mais dinâmicas que as de seus ancestrais. Mas o rolo compressor das campanhas publicitárias, e das campanhas de sensibilização diretamente conduzidas, transforma as pessoas saudáveis preocupadas com a saúde em doentes preocupados. Problemas menores são descritos como muitas síndromes graves, de tal modo que a timidez torna-se um "problema de ansiedade social", e a tensão pré-menstrual, uma doença mental denominada "problema disfórico pré-menstrual" . O simples fato de ser um sujeito "predisposto" a desenvolver uma patologia torna-se uma doença em si.

O epicentro desse tipo de vendas situa-se nos Estados Unidos, abrigo de inúmeras multinacionais farmacêuticas. Com menos de 5% da população mundial, esse país já representa cerca de 50% do mercado de medicamentos. As despesas com a saúde continuam a subir mais do que em qualquer outro lugar do mundo. Cresceram quase 100% em seis anos – e isso não só porque os preços dos medicamentos registram altas drásticas, mas também porque os médicos começaram a prescrever cada vez mais.

De seu escritório situado no centro de Manhattan, Vince Parry representa o que há de melhor no marketing mundial. Especialista em publicidade, ele se dedica agora à mais sofisticada forma de venda de medicamentos: dedica-se, junto com as empresas farmacêuticas, a criar novas doenças. Em um artigo impressionante intitulado "A arte de catalogar um estado de saúde", Parry revelou recentemente os artifícios utilizados por essas empresas para "favorecer a criação" dos problemas médicos. Às vezes, trata-se de um estado de saúde pouco conhecido que ganha uma atenção renovada; às vezes, redefine-se uma doença conhecida há muito tempo, dando-lhe um novo nome; e outras vezes cria-se, do nada, uma nova "disfunção". Entre as preferidas de Parry encontram-se a disfunção erétil, o problema da falta de atenção entre os adultos e a síndrome disfórica pré-menstrual – uma síndrome tão controvertida, que os pesquisadores avaliam que nem existe.

Médicos orientados por marqueteiros
Com uma rara franqueza, Perry explica a maneira como as empresas farmacêuticas não só catalogam e definem seus produtos com sucesso, tais como o Prozac ou o Viagra, mas definem e catalogam também as condições que criam o mercado para esses medicamentos.

Sob a liderança de marqueteiros da indústria farmacêutica, médicos especialistas e gurus como Perry sentam-se em volta de uma mesa para "criar novas idéias sobre doenças e estados de saúde". O objetivo, diz ele, é fazer com que os clientes das empresas disponham, no mundo inteiro, "de uma nova maneira de pensar nessas coisas". O objetivo é, sempre, estabelecer uma ligação entre o estado de saúde e o medicamento, de maneira a otimizar as vendas.

Para muitos, a idéia segundo a qual as multinacionais do setor ajudam a criar novas doenças parecerá estranha, mas ela é moeda corrente no meio da indústria. Destinado a seus diretores, um relatório recente de Business Insight mostrou que a capacidade de "criar mercados de novas doenças" traduz-se em vendas que chegam a bilhões de dólares. Uma das estratégias de melhor resultado, segundo esse relatório, consiste em mudar a maneira como as pessoas vêem suas disfunções sem gravidade. Elas devem ser "convencidas" de que "problemas até hoje aceitos no máximo como uma indisposição" são "dignos de uma intervenção médica". Comemorando o sucesso do desenvolvimento de mercados lucrativos ligados a novos problemas da saúde, o relatório revelou grande otimismo em relação ao futuro financeiro da indústria farmacêutica: "Os próximos anos evidenciarão, de maneira privilegiada, a criação de doenças patrocinadas pela empresa".

Dado o grande leque de disfunções possíveis, certamente é difícil traçar uma linha claramente definida entre as pessoas saudáveis e as doentes. As fronteiras que separam o "normal" do "anormal" são freqüentemente muito elásticas; elas podem variar drasticamente de um país para outro e evoluir ao longo do tempo. Mas o que se vê nitidamente é que, quanto mais se amplia o campo da definição de uma patologia, mais essa última atinge doentes em potencial, e mais vasto é o mercado para os fabricantes de pílulas e de cápsulas.

Em certas circunstâncias, os especialistas que dão as receitas são retribuídos pela indústria farmacêutica, cujo enriquecimento está ligado à forma como as prescrições de tratamentos forem feitas. Segundo esses especialistas, 90% dos norte-americanos idosos sofrem de um problema denominado "hipertensão arterial"; praticamente quase metade das norte-americanas são afetadas por uma disfunção sexual batizada FSD (disfunção sexual feminina); e mais de quarenta milhões de norte-americanos deveriam ser acompanhados devido à sua taxa de colesterol alta. Com a ajuda dos meios de comunicação em busca de grandes manchetes, a última disfunção é constantemente anunciada como presente em grande parte da população: grave, mas sobretudo tratável, graças aos medicamentos. As vias alternativas para compreender e tratar dos problemas de saúde, ou para reduzir o número estimado de doentes, são sempre relegadas ao último plano, para satisfazer uma promoção frenética de medicamentos.

Quanto mais alienados, mais consumistas
A remuneração dos médicos especialistas pela indústria não significa necessariamente tráfico de influência. Mas, aos olhos de um grande número de observadores, os médicos e a indústria farmacêutica mantêm laços extremamente estreitos.

As definições das doenças são ampliadas, mas as causas dessas pretensas disfunções são, ao contrário, descritas da forma mais sumária possível. No universo desse tipo de marketing, um problema maior de saúde, tal como as doenças cardiovasculares, pode ser considerado pelo foco estreito da taxa de colesterol ou da tensão arterial de uma pessoa. A prevenção das fraturas da bacia em idosos confunde-se com a obsessão pela densidade óssea das mulheres de meia-idade com boa saúde. A tristeza pessoal resulta de um desequilíbrio químico da serotonina no celebro.

O fato de se concentrar em uma parte faz perder de vista as questões mais importantes, às vezes em prejuízo dos indivíduos e da comunidade. Por exemplo: se o objetivo é a melhora da saúde, alguns dos milhões investidos em caros medicamentos para baixar o colesterol em pessoas saudáveis, podem ser utilizados, de modo mais eficaz, em campanhas contra o tabagismo, ou para promover a atividade física e melhorar o equilíbrio alimentar.

A venda de doenças é feita de acordo com várias técnicas de marketing, mas a mais difundida é a do medo. Para vender às mulheres o hormônio de reposição no período da menopausa, brande-se o medo da crise cardíaca. Para vender aos pais a idéia segundo a qual a menor depressão requer um tratamento pesado, alardeia-se o suicídio de jovens. Para vender os medicamentos para baixar o colesterol, fala-se da morte prematura. E, no entanto, ironicamente, os próprios medicamentos que são objeto de publicidade exacerbada às vezes causam os problemas que deveriam evitar.

O tratamento de reposição hormonal (THS) aumenta o risco de crise cardíaca entre as mulheres; os antidepressivos aparentemente aumentam o risco de pensamento suicida entre os jovens. Pelo menos, um dos famosos medicamentos para baixar o colesterol foi retirado do mercado porque havia causado a morte de "pacientes". Em um dos casos mais graves, o medicamento considerado bom para tratar problemas intestinais banais causou tamanha constipação que os pacientes morreram. No entanto, neste e em outros casos, as autoridades nacionais de regulação parecem mais interessadas em proteger os lucros das empresas farmacêuticas do que a saúde pública.

A "medicalização" interesseira da vida
A flexibilização da regulação da publicidade no final dos anos 1990, nos Estados Unidos, traduziu-se em um avanço sem precedentes do marketing farmacêutico dirigido a "toda e qualquer pessoa do mundo". O público foi submetido, a partir de então, a uma média de dez ou mais mensagens publicitárias por dia. O lobby farmacêutico gostaria de impor o mesmo tipo de desregulamentação em outros lugares.

Há mais de trinta anos, um livre pensador de nome Ivan Illich deu o sinal de alerta, afirmando que a expansão do establishment médico estava prestes a "medicalizar" a própria vida, minando a capacidade das pessoas de enfrentarem a realidade do sofrimento e da morte, e transformando um enorme número de cidadãos comuns em doentes. Ele criticava o sistema médico, "que pretende ter autoridade sobre as pessoas que ainda não estão doentes, sobre as pessoas de quem não se pode racionalmente esperar a cura, e sobre as pessoas para quem os remédios receitados pelos médicos se revelam no mínimo tão eficazes quanto os oferecidos pelos tios e tias".

Mais recentemente, Lynn Payer, uma redatora médica, descreveu um processo que denominou "a venda de doenças": ou seja, o modo como os médicos e as empresas farmacêuticas ampliam sem necessidade as definições das doenças, de modo a receber mais pacientes e comercializar mais medicamentos. Esses textos tornaram-se cada vez mais pertinentes, à medida que aumenta o rugido do marketing e que se consolidam as garras das multinacionais sobre o sistema de saúde.
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BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR:
A revista médica PLoS Medecine traz em seu número de abril de 2006, um importante dossiê sobre "A produção de doenças" – http://www.medicine.plosjournals.org

Na França, as revistas Pratiques (dirigida ao grande público) e Prescrire (destinada aos médicos) avaliam os medicamentos e trazem um olhar crítico sobre a definição das doenças.

Jörg Blech, Les inventeurs de maladies. Manœuvres et manipulations de l'industrie pharmaceutique, Arles, Actes Sud, 2005.

Philippe Pignarre, Comment la dépression est devenue une épidémie, Paris, Hachette-Litté rature, col. Pluriel, 2003.

Este Artigo vem ao encontro com o que já nos foi declarado por PAUL ZANE PILZER em sua pesquisa de 6 milhões de dólares, onde denuncia a INDÚSTRIA DA DOENÇA nos EUA, em sua palestra na Extravaganza Brasil 2005. (NT)

Um pouco da sabedoria de Noam Chomsky


Fonte: http://saggio2.blogspot.com/

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Sobre a licença do IBAMA à Norte Energia S/A - por Juliana Borges

Sobre a licença do IBAMA à Norte Energia S/AEsta licença é uma farça , pois este projeto carrega em seu Dna a corrupção ativa, invasiva por Natureza.

MPF PREPARA 10ª AÇÃO CONTRA USINA DE BELO MONTE
André Borges | De Brasília

O Ministério Público Federal no Pará (MPF) vai à Justiça Federal contra a construção da usina de Belo Monte caso seja liberada a licença para instalação do canteiro de obras da hidrelétrica na primeira quinzena de fevereiro, como espera o ministro de Minas e Energia (MME), Edison Lobão.

Segundo Felício Pontes Júnior, procurador da República no Pará, há uma série de pendências na lista de 40 condicionantes da Licença Prévia concedida pelo Ibama. Pela agenda do MME, no entanto, a ministra do Meio Ambiente, Isabella Teixeira, já garantiu que entregará a permissão para a abertura do canteiro de obras e, uma semana depois, a licença de instalação.

Perguntado sobre os questionamentos feitos pelo MPF, Lobão afirmou que "o Ministério Público cumpre o seu papel", mas acrescentou que o projeto já está atrasado e sua execução é assunto de interesse nacional.

"Se essa licença sair, entraremos com a décima ação judicial contra Belo Monte. Nosso papel é cumprir a lei. É acompanhar o andamento das obrigações que foram impostas pelo Ibama e que não saíram do papel", diz o procurador.

Os nove processos que o MPF moveu contra Belo Monte ainda não foram julgados. As primeiras decisões, segundo o procurador, devem sair nas próximas semanas. Entre as condicionantes da Licença Prévia que segundo o MPF não foram cumpridas, Pontes Júnior destaca a retirada de colônias de não índios que hoje vivem em terras indígenas na região. "Também não foram entregues obras básicas de infraestrutura de saneamento." Procurado, o consórcio Norte Energia, responsável pela obra, informou que não se pronunciaria sobre o assunto.
Fonte: http://peledaterra.blogspot.com/

4º Encontro de zineiros na Combat Rock dia 04.06 neste Sábado

4º Encontro de zineiros na Combat Rock01/06/11
Sabadão, dia 04/06, a partir das 15:00 horas vai acontecer mais um Encontro de Zineiros na loja Combat Rock. Neste evento irei lançar a nova edição do Aviso Final zine, acompanhado da Thina Curtis (lançando o Spell Work #8 e a coletânea In Vitro) e o Katz (lançando o Agenda Bomba #0). Por favor ajudem a divulgar e conto com a presença de todos!

4º Encontro de Zineiros
Local: Combat Rock - Galeria Nova Barão - Rua Barão de Itapetininga, 37 loja 66, Centro de São Paulo.
Horário: 15:00 horas.
Quanto: Grátis

[Espanha] Entrevista a Abdennur Prado, autor de "Anarquismo e Islã" - por ANA

[Espanha] Entrevista a Abdennur Prado, autor de "Anarquismo e Islã"Durante anos, Abdennur Prado trabalhou e refletiu sobre o Islã, que não se costuma falar ou conhecer. Nesta ocasião, reflete sobre anarquismo e islamismo. Presidente da Junta Islâmica Catalã, diretor do Congresso Internacional sobre Feminismo Islâmico e editor do Webislam, Abdennur tem escrito livros e artigos sobre o feminismo, os direitos civis, a perseguição de minorias... Em seu último livro - O Islã e o Anarquismo místico (Vírus editorial) - Abdennur oferece uma perspectiva diferente do que observar da realidade e trabalhar com ela: oposições falsas geradas e mantidas pelo poder (amigos/inimigos, próprio/estrangeiro, o ocidental/o islâmico, etc.) oferecem uma visão de conflito e, portanto, não fechada.]

Diagonal > O livro relaciona termos como “entrega”, "servo", "submissão", com "ajuda mútua", "resistência", "coletivismo", "oposição às estruturas de poder", etc. Como você captura a relação entre o Islã, o anarquismo, e o misticismo?
Abdennur Prado < A relação entre o Islã, o místico e o anarquismo vem a mim naturalmente, é algo que eu compartilho com muitos muçulmanos. Ao afirmar que o Islã é uma relação direta entre Deus e cada uma das criaturas, estamos propondo uma forma mística, que ignora qualquer mediação instituída. Para acessar o "poder matriz” que move o universo não precisamos de igrejas, conselhos ou sacerdotes... Não aceitamos que nenhum poder humano que seja, nenhum conhecimento humano, nenhuma lei humana... Podemos aceitá-las por necessidade, mas sabendo que estas são meras convenções. Eu me entrego a Deus e nessa entrega me liberto, na medida em que a faço na minha própria capacidade e compreensão. Esse é o radicalismo ao qual o Islã nos convida: assumir a liberdade do homem do deserto. E conviver com o resto das criaturas desde essa entrega, a partir da consciência, da liberdade. Não falo de grandes teorias, mas uma expressão diária.

Diagonal > De acordo com a crítica de Bakunin à religião, diz que é uma crítica de sua ordem hierárquica, de inspiração eminentemente cristã. Você não vê essa relação entre religião e Estado nos países de maioria religiosa muçulmana?
Abdennur < Claro que há! O conluio de religiosos com o poder mundial é um arquétipo universal, do qual não escapa qualquer tradição. Nem mesmo o Islã que, em teoria, surgiu para lidar com essa trama... Conselhos Ulemás, os clérigos a serviço com o poder, e suas conseqüências: a violência religiosa, sexismo, o patriarcado, a homofobia, a discriminação das minorias... Tudo isso acontece hoje em nome do Islã. O Islã foi gradualmente transformado em uma religião ao serviço do poder. Portanto, considero como urgente voltar ao básico, realizando a experiência da revelação, aqui e agora, e recuperar a natureza anarquista e libertária do Islã. E, principalmente, do discurso de igualdade social e da luta contra a opressão, que está na sua origem. Por isso, creio que é muito saudável para o Islã contemporâneo a crítica atéia à religião. Apesar de nada servir o materialismo grosseiro que reduz o ser humano a um consumidor-produtor, e que hoje é o melhor aliado da globalização corporativa.

Diagonal > O capítulo "A revelação como revolução" considera que a revelação é uma revolução individual e coletiva. Esta tensão entre o individual e o coletivo que há no anarquismo, também está presente no islamismo?
Abdennur < Antes do ovo e da galinha, há Deus. Ou seja, a “realidade” é uma, mas a nossa percepção linear e fragmentada não consegue captar todos os processos. Estamos separados por nosso ego limitado, por nosso egoísmo, e não somos capazes de nos reconhecermos no outro. Por isso, precisamos da revelação: entrar em comunicação com a "realidade" diretamente. Nesse sentido, a revelação é a única força capaz de romper com o nosso solipsismo das criaturas, e tornar-nos disponíveis uns para outros. A tensão entre o indivíduo e a coletividade se resolve na comunidade, como espaço em que cada um ocupa o seu lugar naturalmente. Isso é a prova de que temos realmente deixado o nosso egoísmo, sem renunciar àquilo que somos. Por isso é tão importante opor a idéia de comunidade à idéia do Estado, ou de macro estruturas de poder, em que somos engolidos pela massa.

Diagonal > Para além do interesse e desejo de discutir que desperta sua leitura, o que você pensa que o Islã como anarquismo místico pode trazer ao debate sobre as lutas antiautoritárias?
Abdennur < Seria pretensioso para eu destacar algo... Em qualquer caso, a partir de uma perspectiva libertária, há sempre um prazer em dinamitar tópicos, em explodir em pedaços barreiras mentais herdadas, e trazer novas possibilidades. De minha parte, tenho cada vez mais claro que o que distingue os seres humanos não é se consideram crentes ou descrentes, nem os rótulos que nos "identificam". Tenho claro que diferentes anarquistas são mais dignos representantes dos valores do Islã que muitos supostos muçulmanos. E eu vi uma verdadeira consciência libertária em comunidades muçulmanas sem sequer saberem que eram anarquistas...

Diagonal > Qual é o estado de saúde do movimento feminista islâmico? Que tarefas desempenha como co-diretor do Congresso Internacional de Feminismo Islâmico?
Abdennur < O feminismo islâmico é uma realidade emergente. Agora ele funciona de várias formas: re-leitura do Alcorão, com uma perspectiva de gênero, sensibilização e divulgação para as bases, a reforma dos códigos de família patriarcal, o reforço das redes transnacionais, a colaboração entre crentes e descrentes feministas, e assim por diante. Esta é uma tarefa gigantesca, impossível de resumir aqui. Como co-diretor do Congresso, me limito a atuar como um facilitador. Não tentamos apresentar o feminismo islâmico como um movimento monolítico, nem confirmar o nosso ponto de vista anterior, mediante a seleção de oradores, mas para reunir diferentes perspectivas e contextos.

Diagonal > O que diz o Alcorão sobre a homossexualidade?
Abdennur < Apesar do que se pretende, insisto que o Alcorão não diz nada sobre a homossexualidade... É verdade que, tradicionalmente, têm-se interpretado as passagens sobre o povo de Lot como uma condenação da homossexualidade, mas isso não resiste à mais mínima análise. Primeiro, porque o Alcorão não menciona o amor entre dois homens, mas a promiscuidade desenfreada e ao estupro. Há alguns que confundem um com o outro, mas isso só mostra até que ponto os preconceitos herdados se projetam sobre a leitura do Alcorão. Por outro lado, existem alguns versículos que sugerem uma aceitação da homossexualidade.

“Atração e raiva”
"Webislam é um exemplo de muitas das coisas que eu tentei mostrar neste livro. Esta não é uma militância anarquista, mas uma comunidade interpretativa, baseada na fraternidade e ajuda mútua em que não há hierarquias artificiais. Desta plataforma, fomos capazes de desenvolver um discurso islâmico contemporâneo, crítico e criativo, tanto sobre o poder constituído como com as estruturas religiosas conservadoras. Daí a atração e raiva que gera... Webislam é o marco no qual desenvolvo a minha visão do Islã como o anarquismo místico".

Fonte: Diagonal

agência de notícias anarquistas-ana
manhã na floresta

ouvindo o canto dos pássaros

passeio nas trilhas

Linney Jeanne Palma

Quem é criminoso de guerra nos Bálcãs? - por Milton Temer

Quem é criminoso de guerra nos Bálcãs?A forma desmesurada com que os telejornais – não só no Brasil, mas também a normalmente discreta e isenta BBC, assim como os norte-americanos – entraram na divulgação da prisão de Ratko Mladic, comandante do exército sérvio durante a guerra dos Bálcãs, obriga uma reflexão mais séria sobre o tema.

Ratko Mladic não é um raio em céu azul de uma região até então tranqüila; não é um genocida psicopata que aparece do nada e desanda a eliminar populações. Ele é produto de uma tradição de confrontos religiosos e étnicos que marcou a região durante o século XX, com exceção do período em que Tito, vivo, consolidou a Iugoslávia unificada.

E Tito tinha essa força política por conta de uma liderança forjada em duas frentes violentíssimas durante a II Guerra Mundial. Croata, comandava a guerrilha comunista de resistência à invasão nazi-fascista dos exércitos de Hitler e Mussolini, cujos regimes tinham ampla aceitação entre seus compatriotas. Resistência de massa, quem fazia eram os sérvios, que já lutavam contra os nazistas organizando o pós-guerra socialista, distintamente dos maquisards franceses e dos partigiani italianos. Por isso, inclusive, sempre teve total independência em relação aos movimentos de Stalin, o que não ocorria com comunistas franceses e italianos.

Os problemas começam com a morte de Tito em 1980. Ao invés de uma chefia de Estado, com um presidente ou um primeiro-ministro eleito pelo voto direto de todos os iugoslavos, os sérvios – preocupados com a manutenção da Iugoslávia unificada – abriram mão dessa disputa, onde teriam ampla vantagem pela sua superioridade populacional sobre todas as outras etnias e nações juntas. Propuseram e avalizaram uma rotatividade entre todas as representações. Cada mandato teria presidente de uma das etnias.

Não funcionou, porque Croácia e Eslovênia – as que tinham aberto as portas dos Bálcãs ao nazi-fascismo da II Guerra – se empenharam no descompromisso com o regime socialista auto-gestionário, começando a buscar seus contatos e seus apoios entre as potências ocidentais.

Com o fim da União Soviética, soltam as amarras e partem para a separação, com hostilidade às populações sérvias em seus territórios, contra o que o governo sérvio reage.

Vale ressaltar aqui que, se o genocídio nos Bálcãs tem data inicial de ocorrência, se deu contra os sérvios na II Guerra Mundial – na ordem de 350 mil mortos – sob as botas da milícia fascista croata, os sustachi, que concorriam em ferocidade com as tropas das SS. Tinha por que temer a ação croata contra os seus que viviam na região.

Diante da reação sérvia, a OTAN entra no jogo, bombardeando brutalmente a Bósnia. Daí em diante, foi o Deus nos acuda. Todos contra todos, muito embora sobre os sérvios – por seu passado sempre pró-Rússia, dos czares ou dos sovietes – terminem por cair todas as acusações desse bizarro Tribunal de Haia, que sempre opera na direção dos interesses do Departamento de Estado americano e do Pentágono, sem que seja sequer reconhecido pelos Estados Unidos.

Nesse contexto, se os sérvios são levados ao banco dos réus, em todos os lados – inclusive nos comandos da OTAN –, têm de ser buscados os criminosos de guerra nessa sofrida região, caso se queira alguma justiça com isenção.

Como ilustração, sugiro que se busque no portal da GloboNews a reportagem exibida pelo Jornal das 6, de 26 de maio, em que Silvio Bocanera entrevista civis de uma região onde Mladic é tratado como herói. Apavorante para os habitantes, conforme revelam ao vivo as entrevistas de rua, é a ameaça dos bombardeios da OTAN sobre populações civis locais.

Milton Temer é jornalista.
Fonte: http://www.correiocidadania.com.br

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Manifesto do Copyleft Público pela Livre Expressão

Manifesto do Copyleft Público pela Livre ExpressãoEsta é uma proposta pessoal, submetida em resposta à consulta pública sobre a reforma da lei de direito autoral do Brasil.

O copyright (termo doravante utilizado como sinônimo de direito autoral patrimonial) foi introduzido há 300 anos como adaptação de privilégios concedidos pela realeza (royalty) para fins de censura, e desde então vem privilegiando cartéis editoriais em detrimento da sociedade em geral e da classe artística profissional. Apesar de seu frequente uso como barreira à livre difusão de ideias, tem sido consolidado em tratados internacionais de adesão voluntária e, nas últimas décadas, imposições por meio de ameaças de sanções comerciais. Proponho uma alternativa que, sem ferir as exigências assim impostas, restaura plenamente a livre expressão, beneficiando ainda de outras formas tanto a sociedade em geral quanto a classe artística.

É frequente o argumento de que a concessão de um poder exclusivo para copiar, distribuir, publicar e modificar obras é necessária para propiciar a artistas um meio de sustento através de seu trabalho artístico. Tal argumento não resiste à observação da prática, em que artistas transferem esse poder a intermediários e recebem uma fração ínfima dos rendimentos auferidos através dele, nem à lógica: antes da publicação de uma obra, seus artistas dispõem de acesso exclusivo e pleno controle de sua única cópia, e podem cobrar quanto desejarem de todos que a queiram, inclusive por meio de leilões públicos e compras coletivas. Uma vez que hajam recebido o valor que estipularam para a venda, faz-se desnecessário conceder-lhes o poder de impor restrições posteriores.
http://fsfla.org/blogs/lxo/pub/toque-de-midas.pt.html

Vale notar que reconhecimento de autoria e atribuição correta são uma simples questão de respeito à verdade. Porém, como são frequentemente alcançados através de restrições impostas através de copyright, pode ser difícil imaginar como resolvê-las através de outros recursos jurídicos que tenham a ver com a verdade e a defesa da reputação e da honra, tais como direitos morais, direitos de imagem e reparação por danos morais e por falsidade ideológica.

Uma caracterização mais adequada do privilégio restritivo denominado copyright é um incentivo à produção e publicação de novas obras, para que, após um (já não mais tão) curto período de privação (já não mais) voluntária da sociedade em geral dos direitos naturais de copiar, compartilhar e modificar, as obras se tornem contribuições para o domínio público, de modo que todos possam se beneficiar da reinstauração dos direitos naturais. Numa sociedade democrática, em que o poder emana do povo, pelo povo e para o povo, o incentivo deve ser um balanço entre os interesses do povo de manter seus direitos naturais sobre obras pré-existentes e de obter, mediante sacrifício temporário, novas obras sobre as quais esses direitos possam ser exercidos.
http://torrentfreak.com/why-the-copyright-industry-isnt-a-legitimate-stakeholder-in-copyright-110430/

O incentivo tem um custo para a sociedade, então, para que esse sacrifício faça sentido, é importante que dele resulte o benefício almejado. Ao longo de quase 3 séculos, acreditou-se que um incentivo monetário ou similar para artistas resultaria mais e melhores obras. Estudos científicos recentes a respeito de fatores motivacionais e produtividade econômica, porém, têm revelado algo surpreendente: embora tais incentivos possam levar a melhorias de produtividade para atividades mecânicas típicas de eras passadas, eles se mostram prejudiciais a atividades criativas! Ou seja, o sacrifício é não só desnecessário, é ativamente daninho!
http://www.ted.com/talks/dan_pink_on_motivation.html

A quantidade e a qualidade das obras é adicionalmente reduzida pois artistas são desmotivados pelas restrições à difusão das mensagens que pretendem levar ao público, à adaptação e reuso de obras pré-existentes e até pelas fórmulas de sucesso que artistas repetem, todas frequentemente impostas pelos intermediários que os exploram economicamente.
http://paulocoelhoblog.com/2011/04/28/who-deleted-the-song-in-my-profile/

Somando-se ainda o custo imposto em última instância à sociedade pelos intermediários, as sociedades arrecadadoras, seus advogados, seus lobistas, suas medidas técnicas de vigilantismo e restrição e o crescente desvio de função dos serviços de telecomunicação e do poder repressivo do estado para policiamento de uma questão da esfera cível, o resultado para a sociedade é um custo que beira o intolerável e que lhe compra, ao invés de benefício, um malefício.

Diante da conclusão lógica de que é necessário rever esse modelo prejudicial à única parte legítima na discussão a respeito da concessão desse privilégio, apresentam-se dificuldades, como a imposição internacional de copyright através da ameaça de sanções comerciais. A própria imposição já denuncia o caráter maléfico dessas medidas: fossem benéficas, seriam de adesão voluntária.

Outras dificuldades podem derivar de uma interpretação limitada e contraditória de preceitos da declaração universal dos direitos humanos e das leis de diversos países democráticos. Enquanto defendem as liberdades de expressão e de comunicação e difusão de ideias, parecem se contradizer afirmando o direito exclusivo de autores sobre suas obras e interesses morais e materiais que delas resultem. Pretendo mostrar que a contradição é apenas aparente, e há pelo menos uma forma de contemplar, a um só tempo, as liberdades e a exclusividade, sem contrariar as normas impostas internacionalmente.
http://www.ohchr.org/EN/UDHR/Pages/Language.aspx?LangID=por
http://www.wipo.int/treaties/es/ip/berne
http://www.wto.org/spanish/docs_s/legal_s/legal_s.htm#TRIPs

Como já discutido, artistas podem garantir, independentemente de copyright, que ninguém mais tenha acesso ou lucro a partir de sua obra sem sua permissão, simplesmente abstendo-se de distribuí-la. Isso é suficiente para satisfazer os direitos humanos e as exigências internacionais para leis de copyright, mas copyright vai bem além disso, dando poder aos autores para impedir a livre comunicação e disseminação de ideias como as expressaram, através do poder do copyright para proibir distribuição, e de impedir a livre expressão baseada em sua expressão, através dos poderes do copyright para proibir modificação e distribuição.

Os poderes exclusivos do copyright são um tipo de regra restritiva à publicação de obras, pelos quais a sociedade indiretamente proíbe expressão, comunicação e disseminação de ideias, quando aqueles que recebam esses poderes o usem para esses fins. Apesar de normas internacionais exigirem que esses poderes sejam concedidos a autores, nada impede que a sociedade estabeleça outras restrições.

É exatamente essa possibilidade que permitiria à sociedade introduzir um sistema mais justo: quando autores insistissem em censurar expressões baseadas nas suas e comunicação e disseminação de ideias como por eles expressas, a sociedade lhes poderia negar permissão para distribuir suas expressões, mais ou menos como desenvolvedores de Software Livre frequentemente usam licenças copyleft para assegurar que suas obras e versões delas derivadas permaneçam Livres para todos os usuários.
http://www.gnu.org/copyleft/copyleft.pt-br.html
http://fsfla.org/blogs/lxo/pub/copyleft.pt.html

Assim como o copyleft faz ao Software Livre, esta abordagem encorajaria a renúncia a esses poderes restritivos, para que ninguém jamais seja impedido de melhorar ou compartilhar expressões de ideias em seu poder. Mas a sociedade pode fazer melhor que censurar reciprocamente, determinando em vez disso que a distribuição conceda uma licença implícita, cancelando os poderes de censura do copyright, algo que o copyleft, baseado no copyright atual, não pode fazer.

Como toda obra é, em última instância, baseada no rossio cultural compartilhado por toda a sociedade, o domínio público, esta proposta pode ser entendida como um copyleft público, ou copyleft sobre o domínio público: a sociedade exige, como condição para distribuição de uma obra derivada do domínio público, que ela seja distribuída de maneira compatível com as liberdades de expressão, de comunicação e disseminação de ideias.

Sob copyleft público, qualquer obra publicada por seu autor, ou com sua autorização, passa a ser livre expressão. Artistas que prefiram que suas obras não se tornem livre expressão podem preservar sua exclusividade, mantendo-as sob seu estrito controle, colhendo assim todos os frutos disso resultantes, ou a ausência deles.

Proponho, portanto, a inclusão dos seguintes termos nas leis de copyright ou direito autoral:

Considerando que cabe ao titular de uma obra o direito exclusivo de distribuir (incluindo publicar e transmitir) suas obras, bem como de copiá-las, modificá-las e conceder licenças para todas essas atividades;

Considerando que uma obra cuja modificação e distribuição seja restrita fere as liberdades de expressão e comunicação, respectivamente;

Considerando que obras são frequentemente distribuídas sob restrições jurídicas e técnicas, ou em formas diferentes das “originais” usadas para prepará-las, que seriam mais adequadas para melhorá-las;

■A distribuição de obra pelo titular ou com sua autorização implicitamente confere tal licença ao público em geral, em caráter perpétuo e irrevogável.

■O distribuidor de uma obra fica proibido de negar a outros os meios e permissões necessários para o gozo dessas liberdades.

■Distribuidores de uma obra têm o dever de fornecer, juntamente com a obra ou quando solicitado por quem a tenha recebido, informação e formas alternativas “originais” da obra, conforme necessário para tornar as liberdades aproveitáveis na prática.

Copyright 2011 Alexandre Oliva

Esta obra está licenciada sob a Licença Creative Commons CC BY-SA (Attribution ShareAlike, ou Atribuição e Compartilhamento pela mesma licença) 3.0 Unported. Para ver uma cópia dessa licença, visite http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/ ou envie uma carta ao Creative Commons, 444 Castro Street, Suite 900, Mountain View, California, 94041, USA.

Cópia literal, distribuição e publicação da íntegra deste artigo são também permitidas em qualquer meio, em todo o mundo, desde que sejam preservadas a nota de copyright, a URL oficial do documento e esta nota de permissão.
http://www.fsfla.org/svnwiki/blogs/lxo/pub/manifesto-livre-express
Fonte: http://www.trezentos.blog.br

Prisão ilegal de Battisti: uma farsa jurídica - Dalmo de Abreu Dallari*

Prisão ilegal de Battisti: uma farsa jurídicaFingir que o Supremo Tribunal Federal ainda pode decidir sobre o pedido de extradição de Cesare Battisti formulado pelo governo italiano não passa de uma farsa processual, uma simulação jurídica que agride a Ética e o Direito. E manter Battisti na prisão, sem que haja qualquer fundamento legal para isso, é ato de extrema violência, pois além da ofensa ao direito de locomoção, reconhecido e proclamado como um dos direitos fundamentais da pessoa humana e garantido pela Constituição brasileira, em decorrência da prisão ilegal todos os demais direitos fundamentais da vítima da ilegalidade são agredidos. Basta lembrar, entre outros, o direito à intimidade, o direito à liberdade de expressão e os direitos inerentes à vida social e familiar, todos consagrados e garantidos pela Constituição brasileira e cujo respeito é absolutamente necessário para preservação da dignidade humana. E a simulação de um processo pendente de decisão do Supremo Tribunal, para saber se Battisti será ou não extraditado, o que já teve decisão transitada em julgado, agrava essa violência e desmoraliza a Supremo Corte brasileira.

Na realidade, o Supremo Tribunal já esgotou sua competência para decidir sobre esse pedido quando, em sessão de 18 de Novembro de 2009, tomou decisão concedendo autorização para que o Presidente da República pronunciasse a palavra final, com o reconhecimento expresso de que é da competência privativa do Chefe do Executivo a decisão de atender ou negar o pedido de extradição e com a observação de que deveria ser levado em conta o tratado de extradição assinado por Brasil e Itália. Estava encerrada aí a participação, legalmente prevista e admitida, do Supremo Tribunal Federal no processo gerado pelo pedido de extradição.

Depois disso, em 31 de Dezembro de 2010, o Presidente da República, no exercício de sua competência constitucional privativa, tornou pública sua decisão de negar atendimento ao pedido de extradição de Cesare Battisti. E aqui se torna evidente a dupla ilegalidade, configurada na manutenção da prisão de Battisti e na farsa de continuação da competência do Supremo Tribunal Federal para decidir sobre o mesmo pedido de extradição sobre o qual já o Tribunal já decidiu, tendo esgotado sua competência. Com efeito, a legalidade da decisão do Presidente Lula, negando a extradição de Cesare Battisti pretendida pelo governo italiano, é inatacável. O Presidente decidiu no exercício de suas competências constitucionais, como agente da soberania brasileira e a fundamentação de sua decisão, claramente enunciada, tem por base disposições expressas da Constituição brasileira e das normas legais relativas à extradição, como também do tratado de extradição assinado por Brasil e Itália.

Não existe possibilidade legal de reforma dessa decisão pelo Supremo Tribunal Federal e não passa de uma farsa o questionamento processual da legalidade da decisão do Presidente da República por meio de uma Reclamação, que não tem cabimento no caso, pois não estão sendo questionadas a competência do Supremo Tribunal nem a autoridade de uma decisão sua, sendo essas as únicas hipóteses em que, segundo o artigo 156 do Regimento Interno do Supremo Tribunal, cabe a Reclamação. Apesar da evidente falta de fundamento legal, a Reclamação vem tramitando com a finalidade óbvia, mesquinha e imoral, de manter Cesare Battisti preso por muito mais tempo do que a lei permite.

Quanto à prisão de Battisti, que já dura quatro anos, é de fundamental importância lembrar que se trata de uma espécie de prisão preventiva, que já não tem cabimento. Quando o governo da Itália pediu a extradição de Battisti teve início um processo no Supremo Tribunal Federal, para que a Suprema Corte verificasse o cabimento formal do pedido e, considerando satisfeitas as formalidades legais, enviasse o caso ao Presidente da República. Para impedir que o possível extraditando fugisse do País ou se ocultasse, obstando o cumprimento de decisão do Chefe do Executivo se esta fosse concessiva da extradição, o Presidente do Supremo Tribunal Federal determinou a prisão preventiva de Battisti, com o único objetivo de garantir a execução de eventual decisão de extraditar. Não houve qualquer outro fundamento para a prisão de Battisti, que se caracterizou, claramente, como prisão preventiva.

Em 18 de Novembro de 2009 o Supremo Tribunal decidiu conceder a autorização, o que foi comunicado ao Chefe do Executivo com o reconhecimento expresso de que tal decisão não impunha ao Presidente a obrigação de extraditar e a observação de que deveria ser considerado o tratado de extradição celebrado por Brasil e Itália. É importante ressaltar que cabe ao Presidente da República “decidir” e não aplicar burocraticamente uma decisão autorizativa do Supremo Tribunal, o que implica o poder de construir sua própria convicção quanto ao ato que lhe compete praticar, sem estar vinculado aos diferentes motivos que levaram cada Ministro da Suprema Corte a votar num determinado sentido.

Em 31 de Dezembro de 2010 o Presidente da República tomou a decisão final e definitiva, negando atendimento ao pedido de extradição, tendo considerado as normas constitucionais e legais do Brasil e o tratado de extradição firmado com a Itália. Numa decisão muito bem fundamentada, o Chefe do Executivo deixou claro que teve em consideração os pressupostos jurídicos que recomendam ou são impeditivos da extradição. Na avaliação do pedido, o Presidente da República levou em conta todo o conjunto de cirscunstâncias políticas e sociais que compõem o caso Battisti, inclusive os antecedentes do caso e a situação política atual da Itália, concluindo que estavam presentes alguns pressupostos que recomendavam a negação do pedido de extradição. Decisão juridicamente perfeita. Desde então, a prisão preventiva de Cesare Battisti perdeu o objeto, não havendo qualquer fundamento jurídico para que ele continuasse preso. Cesare Battisti deveria ter sido libertado imediatamente, em respeito ao Direito e à Justiça.

Por todos esses motivos e fundamentos, fica evidente que a continuação da discussão do pedido de extradição de Battisti no Supremo Tribunal Federal e sua manutenção na prisão não têm qualquer fundamento jurídico, só encontrando justificativa na prevalência de interesses contrários à ética e ao Direito. Em respeito ao Direito e à Justiça e para a preservação da autoridade e da dignidade do Supremo Tribunal Federal impõe-se o arquivamento da descabida Reclamação e a imediata soltura de Cesare Battisti, fazendo prevalecer os princípios e as normas da ordem jurídica democrática.

*Professor Emérito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, professor catedrático da UNESCO na cadeira de Educação para a Paz, Direitos Humanos e Democracia e Tolerância.
Fonte: http://passapalavra.info/

Sarney manda impeachment voltar ao Túnel do Tempo - por Juliana Borges



Temendo a repercussão jornalística, Sarney dá ordens para restabelecer os paíneis históricos dos caras pintadas. O que uma boa cobertura jornalística não faz. É fato. O descaso com o impeachment fere mais a memória da Rede Globo do que a do povo.


Fonte: http://peledaterra.blogspot.com/

[EUA] Ativistas serão indenizados por repressão policial - por ANA

[EUA] Ativistas serão indenizados por repressão policial[Três ativistas receberão 50.000 dólares do FBI e da cidade de St. Paul como compensação por uma incursão policial durante a Convenção Nacional Republicana em 2008.]

Um grupo de ativistas pertencentes ao chamado Comitê de Recepção à Convenção Nacional Republicana foi detido em 30 de agosto de 2008 na cidade de St. Paul, Minnesota, pela polícia, em um espaço alugado há alguns dias antes do início da Convenção Nacional Republicana (RNC), enquanto agentes de segurança realizavam um registro do imóvel. Ninguém foi preso, mas pelo menos 50 pessoas que ali estavam foram identificadas e fotografadas.

Alguns desses ativistas, Sarah Coffey, Erin Stalnaker e Kris Hermes, decidiram processar o FBI (polícia federal estadunidense) e a cidade de St. Paul pela conduta de seus agentes, que, segundo um dos advogados, entraram "não apenas com armas na mão, mas também armas semi-automáticas, e não tinham mandado de busca". A advogada salientou que o local se tornou um alvo só por suas idéias políticas dissidentes.

Finalmente chegou-se a um acordo em 26 de maio, o qual os três ativistas receberão 50.000 dólares como compensação pelos atos de 2008. Estes ativistas destacaram que grande parte do dinheiro vai para o Committee to Stop FBI Repression (Comitê para Parar a Repressão do FBI), o Institute for Anarchist Studies (Instituto de Estudos Anarquistas) e para um fundo de defesa jurídica para ativistas.

Os advogados dos ativistas também direcionaram parte dos seus honorários para um “Fundo de Impacto”, que fornece dinheiro para pequenos escritórios de advocacia e organizações sem fins lucrativos para cobrir ações judiciais de ativistas envolvidos em questões de direitos civis, justiça ambiental e pobreza.

O ataque a este espaço (foto em anexo) foi uma das muitas ações da polícia contra manifestantes nos dias antes do início da convenção republicana, incluindo o recolhimento e gravação do centro de convergência dos protestos, um fato que ainda está pendente no esclarecimento judicial.

Durante os quatros dias que durou a convenção, cerca de 800 pessoas foram detidas, incluindo advogados, dezenas de jornalistas e pessoal médico. Em Minneapolis, 102 pessoas foram presas por "reunião ilegal" após um concerto do Rage Against the Machine. Durante a convenção, mais de 10.000 pessoas protestaram contra as políticas do Partido Republicano, os gastos militares e contra a guerra no Iraque.

agência de notícias anarquistas-ana
noite escura

pássaro-preto pia

nada se vê.

Flavio Costa

Vigilância, agora sob gestão Obama - Por David Bromwich

Vigilância, agora sob gestão Obama
Como o presidente prorrogou Patriot Act, que multiplica espionagem sobre cidadãos. Que isso revela acerca de sua relação com poder

Por David Bromwich, London Review of Books Blog | Tradução Coletivo Vila Vudu

Na última quinta-feira (26/5), minutos antes da meia-noite, o presidente Obama assinou em Paris, com uma espécie de caneta teletransportada, a renovação, por mais quatro anos, do Patriot Act: a dispositivo legal que sustenta o aparato de segurança criado pelo governo Bush depois dos ataques do 11/9/2011 e das “cartas com antraz” de uma semana depois. O primeiro Patriot Act foi aprovado no Senado dia 25/10/2001, por 98 votos a favor e um contra – esse único voto, do senador Russ Feingold do Wisconsin. Nos anos seguintes, cresceu uma corrente minoritária de opinião segundo a qual o Patriot Act “foi longe demais”.
Mas as vozes mais ativas vieram de fora da grande imprensa: da União Americana pelas Liberdades Civis [ing.American Civil Liberties Union], do Cato Institute e de colunistas defensores de direitos civis, como Glenn Greenwald e Nat Hentoff.

Nos últimos dias, dois senadores, Ron Wyden, do Oregon, e Mark Udall, do Colorado, assumiram a bandeira do senador Feingold (que não foi reeleito no desastre anti-Obama que foram as eleições de meio de mandato em 2010). Os dois senadores manifestaram-se contra uma interpretação do novo Patriot Act que o governo Obama já construiu, mas ainda não comunicou aos norte-americanos.

O Senado aprovou (dessa vez, por 72 votos a favor e 23 contra) a prorrogação da vigência de uma lei que os cidadãos jamais discutiram e menos ainda entenderam, como disseram Wyden e Udall, e que foi analisada em detalhes por bem poucos congressistas, mesmo que só a pequena parte da lei à qual todos têm acesso. O Patriot Act é a lei que rege as investigações secretas. Mas o governo, segundo Wyden, construiu uma interpretação sobre a lei que permanece “classificada”, mantida sob sigilo. Em outras palavras: o sentido da lei que rege operações secretas é secreto, porque o modo como o governo a interpreta é secreto.

Seria erro entender a mais recente cortina inventada contra a transparência como alguma espécie de mudança de política. É verdade. Obama prometeu, nas primárias dos Democratas em 2008, trabalhar contra a anistia às empresas de telecomunicações que cooperaram ilegalmente com o gabinete do vice-presidente e divulgaram informações sobre clientes. A conduta daquelas empresas violava o que determina a “Lei FISA” [ing. Foreign Intelligence Surveillance Act, aproximadamente ‘lei sobre supervisão dos serviços estrangeiros de inteligência’], que proíbe escuta de cidadãos norte-americanos sem acompanhamento judicial. Mas em julho de 2008, depois de Obama já ter ganhado a indicação pelo partido Democrata, aquela seria a primeira promessa a ser renegada. Dali em diante, seguiu-se o mesmo padrão, num governo que nos primeiros dias fez circular um slogan que o ajudaria muitas vezes a justificar muitos outros esquecimentos: “Olhamos para o futuro, não para o passado.”

As liberdades civis não foram preocupação central de Obama, na juventude. Todo o seu trabalho político sempre esteve associado ao uso do governo como agência benigna que protege os cidadãos e subsidia a ampliação, para todos, das oportunidades sociais. Quando, do gabinete de deputado estadual e depois senador pelo estado de Illinois, Obama ascendeu à presidência em 2009, já não podia pensar em si mesmo como defensor só dos mais fracos; passou a se ver como protetor de todos os norte-americanos; e a “responsabilidade de proteger” os norte-americanos (noção pára-constitucional inventada por George W. Bush e aproveitada por Obama) implica necessariamente a preocupação obsessiva e obcecada com a segurança… contra a “ameaça do terror”.

Depois de três ou quatro meses de experiência, a ratificação, por Obama, do regime pós-2001 de “segurança” já indica um padrão. Obama dispensou vários assessores, como Greg Craig, conselheiro da Casa Branca que insistia em que o novo governo rompesse todos os compromissos com o governo Bush-Cheney relacionados a Guantánamo e à “detenção por tempo ilimitado” de prisioneiros. Obama não lutou para que o Senado aprovasse (dentre outros) Dawn Johnsen, constitucionalista e defensor das liberdades civis, primeiro nome indicado por Obama para chefiar o Conselho Jurídico do governo. A atual opinião de Obama sobre o que seja uma política normal de segurança nacional acompanha o que se lê em lei votada em 2002. E não mudará, até que o risco de promover qualquer mudança aproxime-se de zero.

Três dispositivos do Patriot Act têm sofrido duras críticas. Primeiro, a chamada “lei do lobo solitário”, que permite que a burocracia dos serviços de inteligência ponha sob vigilância qualquer pessoa, mesmo que não tenha nenhuma ligação com nenhum governo estrangeiro.

Um segundo dispositivo, chamado “lei da escuta sem destino”, permite que alguém que tenha estado sob vigilância continue a ser vigiado, mesmo que altere os meios usados de comunicação (troque o número de telefone, de endereço, de e-mail ou outro). Uma vez que alguém tenha sido vigiado uma vez, nenhum juiz precisa ser consultado para que a vigilância seja mantida, nem se exige qualquer comprovação de causa provável ou de dano iminente que justifique a vigilância, mesmo que mude completamente a situação do vigiado.

E, finalmente, a chamada “lei de recolha de objetos relevantes” permite que os agentes que trabalhem sob proteção do Patriot Act recolham todos os “objetos tangíveis” (documentos pessoais, gravações – a definição de objetos relevantes em cada caso é elástica) que desejem; e não há possibilidade de juiz algum limitar o que possa e não possa ser recolhido como “prova”.

Tudo leva a crer que Obama hoje partilha com Bush a inabalável crença de que os norte-americanos (como disse Bush) “somos bons”. Mas os perigos do estado de vigilância e controle nada têm a ver com a bondade ou maldade dos norte-americanos ou dos nossos protetores secretos. Só têm a ver com a psicologia do poder e com o que o poder pode fazer contra a vida.

“Todo o poder tende a corromper” é lei da natureza humana e não muda se alguém favorece mais o poder para punir culpados ou o poder para proteger inocentes. A corrupção dá-se muito bem com a ideia de aumentar os poderes secretos do estado, mesmo que para os objetivos mais benevolentes e de proteção, em nome de um povo considerado incapaz de autoproteger-se. A presunção do poder “que sabe” pode ser lida na postura arrogante de George W. Bush quando anunciou que o exército dos EUA seria enviado em operação de retaliação, e, daí em diante, de guerra após guerra.

A mesma postura reaparece, traduzida, na sobriedade também arrogante de Barack Obama quando fala de “assaltos planejados”, “assassinatos pontuais” por forças especiais, ou da “atividade cinética” dos norte-americanos, em apoio a ataques aéreos perpetrados por aliados dos EUA. O abraço da proteção tem andado junto com a paixão inconsciente pelos eufemismos.

O tom do governo Obama é mais suave que o de seu predecessor. Mas desde o discurso que Obama fez nos Arquivos Nacionais em maio de 2009, a continuidade dos discursos de Cheney-Bush tornou-se muito evidente. Simultaneamente, os ataques ao presidente Obama, por Dick Cheney, que desempenhou papel tão importante na geração daquele discurso, praticamente cessaram há mais ou menos um ano. Cheney chegou a elogiar Obama pela maturidade que afinal manifestou na compreensão das reais responsabilidades de seu gabinete de governo. A tendência de Barack Obama sempre que se aventura na construção de políticas é neutralizar a oposição, muito mais do que buscar ganhar respeito por princípio. Seus admiradores sabem bem até onde vai seu apetite pelas concessões. “Não será”, perguntam eles, “um cuidado necessário e um mal menor?” Mas o desleixo para com a defesa da liberdade, contra todas as violências das aberrações pós-2001 nasce, simplesmente, de recusar-se a expor a última década como uma aberração. Esse processo de aquiescência foi capturado por George Kateb em “Uma vida de medo” (2004):

“Aos olhos das burocracias da polícia e da inteligência, as proteções constitucionais à pessoa são obstáculos a serem removidos ou contornados na máxima medida possível. A necessidade de segurança é insaciável, tanto quanto a inveterada paixão das burocracias pelo controle. Ambas convergem e, por algum tempo, satisfazem uma a outra. A ironia é que o medo que os cidadãos sintam pode inibi-los ou paralisá-los; mas o medo nos cidadãos energiza os governantes e funcionários e provoca neles atividade infatigável.”

Dormimos mais profundamente e mais tranquilizados, em proporção direta a o quanto dependemos desses guardiões invisíveis.

A assinatura automática do Patriot Act pelo presidente em Paris [1] marcou fim apropriado para um episódio que se insere em campanha mais ampla. Em recente artigo na revista New Yorker, Jane Mayer fala da perseguição que o Departamento de Justiça de Obama move contra Thomas Drake, ex-alto funcionário da Agência Nacional de Segurança (ANS) que corre o risco de ser condenado a 35 anos de prisão por ter falado a um jornalista sobre operações ilegais em andamento na ANS. Drake é exatamente o tipo de “vazador” consciente para cuja proteção se fizeram as leis pós-Watergate.

Os crimes que Drake denunciou são os mesmos que, como candidato, Obama prometeu jamais admitir. Mas, como escreve Mayer, mais pessoas estão sendo processadas nos termos do Espionage Act no governo Obama, do que em todos os governos anteriores, somados.

Mayer também cita Bill Binney, inventor de uma ferramenta de informática que, contra todas as intenções do inventor, foi usada para recolher informações pessoais dos norte-americanos. Binney “acredita que a Agência Nacional de Segurança, hoje, armazena cópias de todas as mensagens de e-mail transmitidas nos EUA, para o caso de o governo decidir recuperar detalhes de eventuais processos, no futuro”. Esses detalhes formam hoje um banco de dados no qual qualquer informação que lá esteja pode ser mais facilmente encontrada que artigos de jornais antigos no Google.

Binney disse, com remorso, que “devo pedir desculpas ao povo dos EUA”, porque a ferramenta que inventou para outras finalidades, “é usada hoje para violar direitos de todos” e “pode ser usada para vigiar pessoas em todo o planeta”. O pedido de desculpas faz claro contraste com a anistia que os criminosos nos crimes que Drake denunciou receberam do presidente Obama e de seu Procurador-Geral.

Claro, nenhum desses procedimentos é compatível com a impressão, generalizada, de que Obama seja presidente reformista e progressista, atento respeitador das tradições norte-americanas de liberdades civis.

De fato, sempre perdoado porque se faz ver como “pragmático”, o presidente Obama parece ter criado um sistema de livro-caixa mental que tem de complexo o que tem de simples: Barack Obama crê firmemente que ele ser presidente dos EUA é ótimo para o mundo, faça ele o que fizer.
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Nota de tradução
[1] O autor não lembrou, mas nós sim, que Obama declarou guerra à Líbia, de Brasília. Agora, relança o Patriot Act, de Paris. Parece haver aí, bem claro, um padrão: quanto menos “popular” a decisão, mais Obama se distancia dos seus eleitores, para decidir.
Fonte: http://www.outraspalavras.net