sábado, 10 de setembro de 2011

Balanço crítico acerca da Ação Global dos Povos no Brasil (6) - Por Felipe Corrêa

Balanço crítico acerca da Ação Global dos Povos no Brasil (6)

Minha humilde expectativa é que esse texto possa contribuir com uma reflexão crítica acerca de todos os processos de mobilização que vêm acontecendo no Brasil. Por Felipe Corrêa

Política, cultura e identidade coletiva
Com exceção de alguns ortodoxos que ainda insistem em ver a determinação mecanicista da infra-estrutura sobre a superestrutura, praticamente todos os estudiosos das mobilizações populares vêm assumindo que, para além da importância dos elementos econômicos, fatores culturais e identitários são absolutamente centrais, tanto para que as mobilizações se formem, quanto para que elas agreguem pessoas, que aumentem suas forças e mesmo para que obtenham vitórias. A diferença entre um indivíduo que na primeira dificuldade abandona a causa e um outro que dá a vida por ela não está na infra-estrutura e, certamente, possui determinação central na correlação de forças entre um movimento popular e seus inimigos.

Nesse sentido, estimular o subjetivo, as paixões, os desejos, os sentimentos, as ideologias, parece-me central. A maneira que um indivíduo avalia uma situação concreta (fator cultural que envolve necessariamente uma noção ética/moral) é fundamental para ele ingressar e continuar em uma mobilização. Os laços de solidariedade que unem diversos indivíduos e constituem um movimento, gerando uma noção fundamental de pertencimento, são também centrais, assim como as ideologias, que impulsionam as vontades para a luta, os projetos de educação popular, que aumentam o nível de consciência etc.

No entanto, não se pode pensar que somente a cultura e as identidades coletivas, sem uma perspectiva política de intervenção concreta na realidade, de luta concreta, teriam como promover transformações. Lembremos daquela máxima que afirma que, ainda que convencêssemos a maioria da população, forjando uma cultura crítica, com alto nível de consciência e uma identidade coletiva, se isso não se transformasse em uma luta política concreta, todos continuariam sendo oprimidos — ainda que conscientemente.

A idéia de que as festas podem ter função ou caráter político deve ser pensada nessa perspectiva: se por um lado pode-se tentar dar a elas um conteúdo político e/ou politizador, fazer com que promovam satisfação individual, confraternização coletiva, momentos de alegria e de prazer e aprofundamento de laços pessoais, por outro, elas não podem substituir as lutas. Festas, ainda que com conteúdo político, por si mesmas, não constituem, necessariamente e na prática, elementos contestadores de caráter, de fato, político. Qualquer inimigo pode conviver com festas politizadas sem ter de modificar minimamente suas atitudes e posições. É necessário, portanto, refletir em que medida as festas contribuem ou podem contribuir com uma intervenção real nas forças em jogo, ou se elas são apenas eventos que, apesar de outros aspectos positivos, não terão potencial para intervir ou para potencializar uma intervenção na realidade.

Outra questão relevante é que, ainda que se reconheça a noção central da cultura e da identidade, não se pode restringir a aproximação de novos militantes em um movimento por diferenças culturais ou identitárias, refletidas em comportamentos e estilos de vida que mais afastam que agregam. Ao mesmo tempo em que se forja uma cultura comum, fundamental para a unidade na luta, deve-se permitir que os diferentes se aproximem: em termos de sexo, cor, etnia, orientação sexual, idade, nível de instrução etc.Deve-se lembrar, além disso, que se por um lado os movimentos têm uma função importante de modificar individual ou coletivamente os militantes, isso não modifica a correlação de forças dentro da qual ele se coloca. Por isso, não se pode esquecer que a atuação voltada “para fora”, para a realidade concreta, é o mais importante e tem de receber prioridade. A mudança individual pode e deve ser buscada dentro do grupo ou do movimento, mas é a mudança/transformação social que se deve ter em vista.

Relações pessoais e políticas
Constituir e aumentar força social implica, necessariamente, em aprofundar relações. Assim, não é possível se pensar em um projeto político que se forje sem relações sociais. Certamente os vínculos e as relações são determinantes na unidade de um determinado grupo ou movimento e quanto mais aprofundadas e consistentes forem essas relações, mais o coletivo estará disposto e motivado a atuar coletivamente em torno de um objetivo comum.

No entanto, fazer política não é a mesma coisa que fazer amizade. Ainda que as relações de amizade possam estar contidas dentro da política, a política não pode se resumir a elas; será necessário estar junto com pessoas que não são nossas amigas e que, por vezes, podem até não gozar de nossa afinidade pessoal. Assumir essa posição implica, necessariamente, para que se construa um projeto político, abandonar a idéia de que sempre estaremos entre amigos.

A unidade política deve, prioritariamente, ser forjada em torno de objetivos que são políticos: defendo, por exemplo, que a unidade no movimento popular se dê em relação à necessidade, que nos agrupamentos de tendência, frentes etc. se dê em torno de um método, e que nos agrupamentos ideológicos, partidos etc. se dê em termos ideológicos. São esses os objetivos que devem unir o coletivo; as relações, ao mesmo tempo, quanto mais se aprofundarem, mais contribuirão com os objetivos políticos que se quer alcançar.

Essa é a regra que também deve nortear as políticas de alianças, as quais devem se dar em relação aos objetivos previstos para um determinado período, sendo necessário unir-se com aqueles que, para essa determinada etapa, podem contribuir com o projeto político desejado.

As relações pessoais, se por um lado devem ser aprofundadas e podem contribuir com um projeto político, não podem, sob quaisquer circunstâncias, ser priorizadas em relação à política, e menos ainda substituí-la. Deve-se ter em mente que o individual pode potencializar o coletivo, mas nunca se deve optar por priorizar o individual em detrimento do coletivo, ou mesmo deixar que isso aconteça.

Um classismo renovado
Não há sujeito revolucionário determinado a priori, seja por meio de um processo histórico inevitável ou por condições estruturais que o coloquem, necessariamente, nessa condição. Como um sujeito vai ser revolucionário, estar determinado a modificar os rumos da história, sem ter a mínima consciência disso? Como uma situação estrutural pode, por si mesma, impulsionar um sujeito para a luta?

Uma observação da história dos séculos XIX e XX demonstrará que, em termos de classe, houve distintos sujeitos que poderíamos chamar de revolucionários, nas diversas lutas por transformação que foram levadas a cabo. Houve, certamente, episódios protagonizados pelo operariado das cidades, mas também outros, protagonizados por trabalhadores do campo, camponeses, ou mesmo pelos excluídos e marginalizados da sociedade. Pode-se também notar que as mobilizações que estiveram fundamentadas em setores específicos — principalmente nos policlassistas, como os movimentos de estudantes –, não foram capazes, em grande medida, de promover transformações mais significativas nas estruturas de poder.

Isso me leva a crer que o sujeito — ainda que pertença a uma classe potencialmente revolucionária ou que esteja em uma situação estrutural que propicie o desenvolvimento de sua consciência de classe — é determinado por meio de um processo de luta, responsável por produzir mudanças em seu campo objetivo e subjetivo, racional e emocional. A história oferece elementos para afirmar que o pertencimento a uma classe ou a vida em uma estrutura não determina, obrigatória ou mesmo potencialmente, a criação de um sujeito revolucionário, nem um indivíduo que poderá conter em si o germe da mudança, integrar lutas, etc. Para tentar identificar os setores mais propícios à mobilização, à luta, à transformação social, é imprescindível uma criteriosa observação histórica e conjuntural da região à qual se refere. Sem essa noção de tempo/espaço, obviamente com todas as relações que ela implica, não se pode fazer avaliações acertadas sobre quais são os sujeitos com mais potencial para a luta e para a transformação.

Ao mesmo tempo, parece-me evidente que, sem alianças amplas, ainda que concebidas em termos classistas, será impossível impulsionar um processo de transformação radical que aponte para mudanças significativas e duradouras das estruturas de poder.Afirmar o classismo, a existência de classes sociais, das lutas de classe, etc., não significa, obrigatoriamente, assumir a definição marxiana de classe. O socialismo vem contribuindo, historicamente, com possibilidades distintas de se definir esses conceitos. Uma delas, que tem me parecido bastante frutífera, extrapola a categoria exploração para definir as classes e a própria luta de classes, utilizando-se para isso da categoria dominação. Compreendendo que a categoria exploração faz parte da categoria dominação, as classes sociais, nesse sentido, são entendidas a partir de uma noção macro-política/sociológica, que permite identificar um conjunto de classes oprimidas (que inclui trabalhadores da cidade e do campo, campesinato e excluídos/marginalizados), o qual constitui um todo que pode ter condições de estabelecer uma luta ampla para a transformação social. Permite, ao mesmo tempo, identificar um conjunto de classes dominantes responsáveis pelas relações de dominação de classe na sociedade (proprietários urbanos e rurais, capitalistas etc.). Nesse sentido, a luta de classes se daria, fundamentalmente, no conflito entre esses dois amplos conjuntos de dominadores e dominados, ou oprimidos. [Alfredo Errandonea. Sociologia de la Dominación]

Assumindo a teoria da interinfluência e da interdependência das esferas (econômica, política/militar/ideológica e cultural/ideológica) [Bruno L. Rocha. A Interdependência Estrutural das Três Esferas], pode-se afirmar que, ainda que estejam no campo das relações econômicas, as classes sociais têm influências e dependências de relações que se estabelecem em outras esferas. É com base nesse argumento que não se pode confundir classe com consciência de classe, já que, ainda que inconscientes, as classes sociais são concretas e existem. Pode-se também afirmar que a luta contra a dominação não é sinônimo de luta de classes, mas que ela envolve, necessariamente, a luta de classes. Ou seja, um projeto de luta contra a dominação não tem como desconsiderar a luta de classes e a própria luta contra a exploração.

Há, portanto, outras possibilidades de conceber a noção de classe, para além do que foi, e que em grande medida ainda é, a posição da velha esquerda. Não se pode descartar as categorias “classes sociais”, “luta de classes” e do próprio “classismo”, por razão de uma definição e de uma utilização que parecem limitadas, e muitas vezes realmente o são.

Não se pode conceber uma nova esquerda sem reconhecer os limites do capitalismo para a criação de uma nova sociedade, fundamentada na igualdade. E é nesse sentido que se torna central a bandeira do classismo, de modificação ampla das estruturas de poder que caracterizam a sociedade capitalista de dominação, e que têm como um de seus principais traços a dominação de classe. Abandonar o classismo significa abrir mão de uma das principais questões, senão a principal, da sociedade capitalista. Assim, as fundamentais lutas de gênero, de raça, de orientação sexual, etc., se não quiserem dar continuidade às desigualdades de classe, devem ter como pilar o classismo, anticapitalista por essência, no sentido de uma prática que, junto com as lutas específicas, mantenha a luta de classes como uma constante, além de uma perspectiva de fim das dominações de classe.

A construção da igualdade não deixa outra alternativa senão reivindicar as bases classistas e o protagonismo de classe nas lutas e transformações. O século XX demonstrou que quando um grupo, ainda que constituído por uma parcela das classes oprimidas, por mais bem intencionado que seja, ao trazer para si a responsabilidade de lutar e de promover as transformações sociais pelos outros, no lugar dos outros, necessariamente produz novas relações de desigualdade, substitui o conjunto das classes oprimidas no exercício do poder e dá continuidade às relações de dominação.

A igualdade só surgirá com a criação de um povo forte e um povo forte se cria nas lutas, participando, decidindo, capacitando-se, desenvolvendo, enfim, uma cultura de luta que o faça reassumir seu papel de sujeito na sociedade. Não se pode querer lutar contra a desigualdade sem se recorrer a um classismo que envolva amplos setores populares e que lhes dê protagonismo.

Criar um novo com velhos elementos
Seria muito arrogante sustentar que, por exemplo, nos últimos 150 anos, não há nada na esquerda que se possa aproveitar. Um estudo com alguma profundidade das discussões que se deram, das posições das distintas correntes, dos episódios práticos em que elas foram envolvidas etc. contribuirá amplamente com qualquer novo processo que se queira criar.

Portanto, uma nova esquerda não pode, de maneira alguma, constituir-se como um espelho da esquerda clássica, descartando toda sua história. Se há aspectos que certamente devem ser reformulados (autoritarismo, estatismo, vanguardismo etc.), há também noções centrais que não devem (classismo, trabalho de base, compromisso etc.).

Sustentar um discurso do novo versus o velho só contribui para que se descarte tudo o que foi construído pela esquerda em sua ampla história. A construção de uma nova esquerda, repito, deve conservar velhos elementos e, ao mesmo tempo, criar novos. Construção essa que não pode abster-se de envolver os setores mais clássicos, ainda que eles conservem muitos dos aspectos velhos que precisam ser superados.

Compromisso militante
Dentre os elementos da velha esquerda que devem ser mantidos, estão aqueles que envolvem a questão do compromisso militante: disciplina, responsabilidade, regularidade etc. — ainda que eles devam ser esvaziados de seu conteúdo autoritário. Certamente, deverá ser repensado como esses elementos vão ser colocados em prática, como as pessoas serão cobradas, etc.; não se pode, entretanto, sob qualquer hipótese, descartá-los completamente.Culturas militantes que estimulam a falta de compromisso, de disciplina, de responsabilidade, de regularidade, não conseguem acumular o mínimo de força e consequentemente nada modificam em relação à “ordem” que está dada. Basta uma passada de olhos no TAZ de Hakim Bey para notar esse fato. Faz-se uma festa, um meeting, e quando o Estado ataca, tudo se dissolve e organiza-se em outro local. Qual é o potencial transformador, em termos políticos, de algo desse tipo? Nenhum, obviamente.

Assim, uma nova esquerda terá de repensar a maneira de estimular esses antigos elementos que giram em torno do compromisso militante, de forma que haja envolvimento e seriedade por parte daqueles que estiverem nas lutas e que haja espírito de entrega, disciplina etc.

A disciplina é um desses elementos que vem sendo reivindicados de maneira altamente autoritária pela esquerda clássica. Deve-se pensar na disciplina para além da hierarquia e da dominação; concebida dessa maneira, disciplina não significa obedecer o que diz a direção. Se levados em conta os processos coletivos de tomada de decisão, ela significa o envolvimento do indivíduo nos processos decisórios e o respeito às posições que foram deliberadas coletivamente — um compromisso do indivíduo em relação ao coletivo. Seriedade e regularidade também são fundamentais, pois é impossível acumular politicamente com gente que vem numa reunião e não vem na outra, aparece e desaparece, assume tarefas e não cumpre, faz trabalho e depois não faz etc. É fundamental, ainda, que haja e que se estimule essa cultura da seriedade (levar a sério aquilo que faz) e da regularidade (estar presente, com frequência, para realizar aquilo que foi deliberado). A política não pode ser uma atividade do “quando der, e se der”.

Isso certamente envolverá aspectos mais e menos agradáveis, coisas que gostamos mais e menos de fazer, mas que terão de ser realizados por razão das necessidades colocadas por um processo de luta e de transformação.

A dialética entre teoria e prática
É verdade que grande parte da esquerda vem resumindo suas intervenções às produções teóricas as quais, se servem para melhorar a análise da realidade, para aprofundar as opções estratégicas, ao não implicarem prática, não constituem lutas concretas e não acumulam força. Por outro lado, a pura prática, que chamei de “praticismo”, se não tiver como base um aprofundamento teórico, fundamentado em reflexões críticas, na busca de respostas no passado, nas atualizações daquilo que não serve mais para nossos dias, certamente trará dificuldades e limitações significativas que poderão impedir o avanço e o próprio desenvolvimento da luta.

A teoria nos dá elementos importantes em termos históricos e conjunturais. Ela pode servir também para se conceber objetivos e caminhos a seguir, os quais, certamente, são mais estimulados por uma noção ideológica que teórica. A prática, por outro lado, verifica na realidade se as hipóteses formuladas pela teoria possuem lastro real e oferecem ótimas experiências para que se renove e se aprimore a teoria.

Portanto, uma nova esquerda não pode abrir mão de teoria e prática. As quais, por meio de uma interação dialética, fortalecem-se mutuamente, fazendo com que haja um aprimoramento mútuo. Com boa teoria se aprimora a prática e com boa prática se aprimora a teoria. Ambas devem caminhar juntas, num esforço de desenvolvimento e melhoria permanente.

Se por um lado há uma “urgência das ruas”, é inegável que grande parte das teorias da velha esquerda precisam ser renovadas. Teremos de “podar os velhos ramos” [Camilo Berneri. Pensamento e Batalha]. Há uma urgência das ruas, mas também há urgências fora delas. E devemos reconhecer a “insuficiência das ruas” [IEL. A Insuficiência das Ruas], quando essa prática não vem ancorada em um processo mais amplo de acúmulo real de forças e de um aprimoramento teórico, capazes de impulsionar amplamente as lutas e as transformações sociais.

Não se pode pregar a prática em detrimento da teoria ou vice-versa. Ambas devem usufruir da dialética entre uma e outra para um acúmulo de forças no sentido de modificar a realidade.

A democratização e a opção pelos processos coletivos, pela delegação e pela autogestão responsávelA necessidade de democratização dos processos de luta e transformação, colocada há tempos e que se enfatizou com as experiências do século XX, é evidente — fundamentalmente pela noção, antes discutida, de táticas, estratégias e objetivos. Se a esquerda tem de trabalhar na criação de um povo forte, ela não pode optar por um caminho que o enfraqueça, como os processos antidemocráticos de luta que, ao invés de criarem sujeitos pensantes, capazes de conduzir a si mesmos e forjar as bases de um movimento sustentável de luta por transformação, criam um povo sem capacidade de pensar e agir, obediente, incapaz de tomar a dianteira nas lutas sociais.

Quanto mais fraco permanecer o povo nos processos de luta, maiores serão as necessidades de direções autoritárias que comandem esses processos e, por isso, maior a chance de se estabelecerem novas hierarquias que significarão a manutenção das relações de dominação. “Um povo forte não precisa de líderes”, dizia Zapata, enfatizando a necessidade de as lutas criarem os sujeitos revolucionários capazes de exercer as funções democráticas dentro de um movimento reivindicativo, ou mesmo assumir a função de sujeito em uma sociedade revolucionária autogerida. Nesse sentido, torna-se fundamental a opção pelo coletivo, pelo fortalecimento do conjunto popular para a mudança social e não somente para proporcionar condições individuais de mobilidade, visando a inserção dentro da estrutura de classes que está dada ou mesmo o estabelecimento de novas posições de dominação.

A opção da esquerda sempre foi por um processo coletivo de mudança e esse é outro elemento que precisa ser mantido. É por esse motivo que o consenso — processo decisório que se estabelece em parte da esquerda depois dos anos 1970 — deve ser questionado. Com base nas práticas dos últimos 40 anos, podemos constatar que, se por um lado o consenso aumenta as discussões, alinhando melhor o nível de informações em um coletivo, ele pode implicar desigualdades significativas.

“Quando grupos maiores tentam decidir por consenso, isso normalmente os obriga a chegar ao menor denominador intelectual comum em sua decisão: a decisão menos controversa ou mesmo a mais medíocre que uma assembléia relativamente grande consegue obter é adotada — precisamente porque todo mundo deve concordar com ela, ou então se abster de votar naquele tema. Mas o que é mais preocupante é eu ter descoberto que ela permite um autoritarismo traiçoeiro e manipulações gritantes — mesmo quando usada em nome da autonomia ou liberdade” [Murray Bookchin. Comunalismo]. Assim, não se pode adotar o consenso de maneira acrítica, pois, se as decisões fundamentadas em votação na qual vence a maioria possuem problemas, o consenso também possui.

A democratização das informações e os processos coletivos de discussão e deliberação parecem ser elementos fundamentais. No entanto, a proporcionalidade nas tomadas de decisão e o impedimento que uma minoria domine o processo também. Da mesma maneira que é fundamental o envolvimento dos implicados nas decisões que lhes dizem respeito, a delegação também é, o que significa que não serão todos a deliberar sobre tudo. Quanto mais implicado se está no processo decisório, maior é a necessidade de envolvimento; pode-se optar pela delegação com controle da base, utilizando-se de mandatos temporários e rotativos. [Michael Albert. Buscando a Autogestão]

A tentativa de consenso e, não sendo possível, a votação, vencendo a maioria, juntamente com a delegação responsável e controlada pela base, parecem meios-termos que vêm funcionando e que cumprem as necessidades estratégicas colocadas.

Outro elemento antigo da esquerda que não pode ser abandonado é a idéia de começar a construir hoje o mundo em que se quer viver amanhã. E fazem parte disso tanto os processos autogestionários que priorizam o coletivo e as delegações com controle da base, como também a noção de regras que, estabelecidas coletivamente e fundamentadas numa ética revolucionária, não podem ser abandonadas em função de uma posição permissiva que dá condições para que se estabeleça a cultura do “pode tudo”. Esse conjunto de regras deve ser estabelecido aos poucos e de maneira coletiva, tendo-se em mente que é fundamental forjar uma noção de que as deliberações coletivas têm de ser cumpridas, e não podem ser violadas, tendo como justificativa a “liberdade/autonomia individual”. Esse argumento é dos capitalistas, quando falam que têm a liberdade de explorar os trabalhadores, já que os próprios trabalhadores querem essa exploração. É o que os latifundiários dizem, quando possuem muitas terras sem função social, enfatizando que têm a “liberdade” de ter terra e não fazer nada com ela.

Portanto, uma nova esquerda, que ainda se queira esquerda, deve priorizar os processos coletivos e forjar um conjunto de regras cujo respeito demonstrará o quão envolvidos com a luta e a transformação estão os militantes. Aquele que desrespeita as deliberações coletivas mina o processo de luta e, portanto, faz papel de inimigo. Autoritário, portanto, não é o processo que envolve todos, permite as decisões e estabelece regras coletivas, mas o indivíduo que não participa do processo e/ou que o viola, em nome de sua liberdade ou autonomia individual.

Organização e estratégiaAntes de tudo, devo colocar que organização não significa, necessariamente, dominação e muito menos hierarquia; estratégia não implica disciplina militar e nenhum apreço pelas forças armadas. Organização significa associação com objetivos comuns (para quê se organiza) e critérios de união (com quem se organiza); estratégia significa um conjunto de leitura da realidade (onde se está), objetivos (aonde se quer chegar) e o conjunto de caminhos pelos quais se pretende chegar ao objetivo (como sair de onde se está e chegar aonde se quer). Elementos também centrais da esquerda, ainda que bastante autoritários em sua maneira clássica de compreensão.Um coletivo precisa saber por que ele está unido e com quem. Tem de conseguir estimar sua capacidade de força e, por isso, tem de ter uma noção, mais ou menos acertada, da quantidade de militantes ou de movimentos envolvidos, das lutas que estão sendo empreendidas e o desenvolvimento de cada uma delas. Parece sem sentido, mas ainda hoje há grupos e movimentos que não sabem em torno do quê estão organizados e nem com quem estão ou devem estar organizados. Não se pode construir uma nova esquerda que não consiga estimar permanentemente suas forças e que não tenha claro quais são suas bandeiras de luta e seus critérios organizativos. Também não se pode pensar em um movimento que não tenha uma leitura da realidade, objetivos de curto, médio e longo prazo, além de um conjunto estratégico-tático com ações que podem fazê-lo avançar.

Isso pode ser estabelecido por meio de processos democráticos, de fato autogeridos, com discussões amplas e deliberações coletivas levadas a cabo desde as bases. Acreditar que a falta de estrutura ou o espontaneísmo são necessariamente mais igualitários e mais libertários que a organização e a estratégia significa não avaliar da maneira correta os processos altamente autoritários que, dentro dos novos movimentos, tornaram-se realidade por razão da falta de estrutura e do espontaneísmo. Organização e estratégia podem ser mais ou menos igualitários, mais ou menos libertários, da mesma maneira que a falta de estrutura ou o espontaneísmo. Com a diferença que, em uma estrutura determinada, com critérios claros, processos coletivos, normas estabelecidas, é muito mais fácil de eliminar o autoritarismo individual e coletivo.

A integração e a internacionalização das lutas são fundamentais, mas nunca podem se dar em detrimento de uma estratégia local, adaptada à realidade (tempo/espaço). As grandes questões que unem a esquerda, regional, nacional e até internacionalmente, têm de ser traduzidas e evidenciadas em pautas que digam respeito ao dia-a-dia das pessoas comuns. A estratégia tem de ser formulada com base na estimativa das próprias forças e não se deve optar por um conjunto de ações muito mais amplo do que se pode conduzir com alguma eficácia; é melhor conduzir uma luta menor, mas que tenha resultados, do que ampliar demais o horizonte e incidir no processo sem uma força significativa, ou sequer incidir. “Quanto maior o ponto de apoio, menor a força que incide sobre ele” nos ensinam os físicos. Ou seja, com um mesmo movimento, quanto maior o conjunto estratégico escolhido, menor será a eficácia da força do movimento. Assim, deve-se estimar a capacidade e verificar até onde se pode ser eficaz, tomando cuidado para que não se invista nas ações diversificadas ou amplas demais sem qualquer possibilidade de vitória.

Para isso, a metáfora do barco é fundamental: o objetivo estratégico é aonde o barco deve chegar e o conjunto de táticas e estratégias deve conduzir o barco naquele sentido. O movimento que não sabe aonde quer chegar e só gerencia o curto prazo, o tático pelo tático, corre um sério risco de andar em círculos, e nunca chegar em lugar nenhum. O barco, nesse caso, ficaria apenas rodando sem sair do lugar.

Conteúdo político às ferramentas tecnológicas
O recente período histórico, que conta com as lutas forjadas no seio da AGP, nos traz outro importante ensinamento. A tecnologia não traz em si mesma conteúdo político e, produzida para um fim, pode passar a servir a outro. Diversas ferramentas tecnológicas criadas por nossa geração, com função anticapitalista, foram apropriadas pelo capitalismo, e hoje servem às alavancas de auto-sustentação do poder vigente. Portanto, utilizar as ferramentas que vêm surgindo ou mesmo desenvolver novas, pode funcionar e dar suporte a uma nova esquerda. Mas isso não é regra.

Licenças livres, ausência de direitos autorais, participação e construção coletiva não são garantia de nada em termos políticos, e são elementos que podem ser apropriados pelos inimigos em favor de um projeto contrário ao nosso.

Por outro lado, isso nos traz possibilidades: se os inimigos vêm se apropriando das ferramentas construídas pela esquerda anticapitalista, se poderia pensar na possibilidade de utilização ou de apropriação de ferramentas construídas com outros interesses, em favor de uma nova estratégia da esquerda.

PALAVRAS FINAIS
Muito ainda poderia ser dito e mesmo outras formas de reflexão poderiam ser apresentadas. Minha opção, com esse relato quase informal e muito pouco fundamentado teoricamente, é de realizar um balanço sobre aquilo que vi e que pensei nos últimos tempos. E creio que pode servir como um ponta-pé inicial para o debate.

Produções historiográficas rigorosas, análises detalhadas dos documentos que foram produzidos, de todas as ações que foram realizadas, das formas organizativas adotadas, das relações estabelecidas, das opções de financiamento, entre outras questões, podem dar base para trabalhos históricos, políticos, sociológicos, antropológicos, psicológicos etc. significativos. Todas essas, e outras, são questões que ainda estão por tratar e que, em algum momento, teriam de encontrar pessoas para trabalhar sobre elas.

Eu, particularmente, no que diz respeito às produções teóricas de maior seriedade e fôlego, não me animo muito com a questão. Mas me disponho a ajudar no caso de outros companheiros quererem se debruçar sobre o tema, o que, de fato, ainda não foi feito. Tenho certeza que outros companheiros também poderiam ajudar. Um acervo do movimento, por exemplo, existe e pode ser outra fonte interessante de pesquisa.

Outro fator a ser apontado é que diversas manifestações contemporâneas — as quais vêm sendo discutidas mais enfaticamente no espaço do Passa Palavra — precisam ser objeto de reflexão crítica profunda. Quando observei várias dessas manifestações, identifiquei muitos desses elementos forjados pela “Cultura da AGP”. No entanto, acompanhando as discussões e refletindo sobre a própria AGP nessa série, começo a concluir que a AGP, com todos os seus defeitos, estava muito à frente de mobilizações como as Marchas da Liberdade, por exemplo. Ainda que com toda a problemática colocada, o Movimento de Resistência Global possuía uma perspectiva anticapitalista e de esquerda, aspectos que sinto terem sido abandonados por essa nova geração. Se a AGP rechaçou tudo o que vinha da velha e clássica esquerda, incorrendo em erros sérios, uma nova geração parece ter conservado somente os aspectos problemáticos da AGP, descartando, novamente, aquilo que o processo anterior teve de mais interessante.

Minha humilde expectativa é que esse texto possa contribuir com uma reflexão crítica acerca de todos os processos de mobilização que vêm acontecendo no Brasil. A história passada e o próprio presente vêm oferecendo elementos fundamentais para conseguirmos realizar um balanço da nossa história como esquerda, e verificar, a partir disso, o que deve ser mantido e o que deve ser descartado. Entre a crítica de nossa própria história e a construção que foi levada a cabo, podemos encontrar um caminho. É somente uma nova esquerda, fundamentada em um balanço crítico do passado e do presente, que pode apontar para um processo de construção de um poder popular, de uma mobilização ampla e de base, que acabe com as relações de dominação. A tarefa é grande, mas não parece impossível.

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Fonte: http://passapalavra.info/

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A marca e a (in)sustentável leveza do objeto - por Isleide Fontenelle

A marca e a (in)sustentável leveza do objetoNesses últimos dias fomos inundados por reportagens sobre o afastamento de Steve Jobs da presidência-executiva da Apple, hoje considerada a marca mais valiosa do mundo. Foram muitas as competências atribuídas a Jobs para que a Apple chegasse a esse patamar: seu gênio criativo, seu ímpeto empreendedor, sua capacidade de sintetizar o espírito de uma época. Nessa longa lista, deparamo-nos com uma espécie de reprodução do mito do self made man tão comum à literatura de business americana. Não por acaso, o atual presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, afirmou que ele, Jobs, encarnava o american dream. Esse ethos americano do sucesso, no qual criatividade e inovação são postos a serviço do progresso econômico foi, desde pelo menos o início do século XX, cada vez mais associado à cultura de consumo. Assim, a sensação que tive ao me deparar com reportagens que enfatizavam a capacidade de Jobs em integrar negócio e cultura e de reconfigurar desejos através dos seus gadgets, foi a de que, se as tecnologias mudaram tanto, as narrativas midiáticas sobre elas não mudaram muito.

Em matéria de produção de estratégias de sedução do consumidor, Steve Jobs vem de uma linhagem que poderia ser remetida, pelo menos, ao início do período novecentista, quando um arguto sobrinho do psicanalista vienense Sigmund Freud, afirmou ter descoberto a maneira de fazer com que as pessoas passassem a desejar aquilo que não necessitavam e a necessitar aquilo que não desejavam. Refiro-me a Edward Bernays, retratado no documentário de Adam Curtis (The century of the self), como o fundador das relações públicas, entendida como a “arte” da produção de “hapiness machines” da cultura de consumo do século XX. Jobs também é cultuado como um gênio das relações públicas. A cada lançamento dos produtos Apple, há todo um espetáculo midiático em torno de fãs enlouquecidos que, em filas gigantescas, buscam aquele que consideram ser seu objeto de desejo. Funcionários da Apple participam ativamente dessa encenação, ao aplaudir cada consumidor que, após longas horas de espera, consegue adentrar o templo da marca e adquirir seu objeto-fetiche.

Mas de que objeto estamos falando? De um tocador de música individual? De um telefone celular? De um computador portátil com acesso a internet, a música e a telefone? Seriam essas as descrições corretas para nos referirmos a um iPod, um iPhone ou um iPad? Não sei dizer, não domino essa linguagem. Mas tenho lido que o gênio criativo de Jobs também foi atrelado a essa capacidade que ele teria em reconfigurar uma tecnologia já existente a partir do desenvolvimento de um design que integra forma e função, permitindo seu uso de forma simples, facilmente acessível.

Aqui, talvez, esteja o ponto de partida para pensarmos a novidade que a Apple representa: a transformação da tecnologia da informação – que pode ser mera commodity – em i-objetos. Segundo o filósofo italiano Giorgio Agamben, em seu livro Profanações (Boitempo Editorial, 2007), o capitalismo atual tornou-se um poderoso dispositivo de captura dos meios puros, os comportamentos capazes de reconstituir o uso comum das coisas para fora da esfera da mercadoria. A isso Agamben chama de “comportamentos profanatórios”, aos quais atribui uma grande tarefa política no mundo contemporâneo.

O virtual carrega consigo essa promessa, como já sabemos, daí a necessidade de se aprisionar, sob a forma mercadoria, o seu uso. Foi o que fez a Apple com o iPod: não só reconfigurou o tocador de música individual existente, como também absorveu um movimento que parecia revolucionário até então: o do acesso livre à música. Ao criar um objeto que podia armazenar e tocar músicas de maneira diferente da usual – até então só presente em formas que tinham o apelo sedutor da cultura hacker – a mensagem parecia ser: mais importante do que a música é a forma através da qual você a ouve. Foi a partir daí que a marca Apple se reconfigurou como cool e seus fones de ouvido se tornaram quase uma extensão do próprio corpo, comunicando uma forma de ser e de estar no mundo.

Até hoje essa lógica-forma continua presente em todos os i-objetos da Apple. Parafraseando Marx, seu segredo está na forma… E aqui talvez esteja a mudança mais profunda no cenário do consumo virtual que essa marca ilustra tão bem: ao mesmo tempo em que seus objetos buscam se virtualizar – como os “conteúdos” que carregam – a partir de um design cada vez mais minimalista; eles também procuram materializar sua existência. Seus pequenos gadgets prometem um acesso cada vez mais expandido ao mundo através de palavras como usabilidade, portabilidade, mobilidade. A frase mais persistente que ouço sobre as vantagens de se possuir um iPad é a de que passa-se a se ter, em um único objeto, todos os recursos necessários de acesso ao mundo virtual: informação, música, livros, filmes, jogos, comunicação, linguagem. Mas, antes de tudo, é necessário possuir o i-objeto, sem o qual a “experiência” do virtual não pode se tangibilizar.

Nessa inversão, é todo o conteúdo que parece se tornar commodity, ao mesmo tempo em que o i-objeto se torna a promessa de nosso acesso ao mundo. Essa não é uma inversão sem importância. Remete-nos, de forma radical, ao tema do acesso e dos “guardiões do portão”, bem como a uma nova forma de tirania dos objetos. Não estranha, portanto, que os protagonistas dos movimentos de protesto ocorridos recentemente, em Londres, tenham saqueado iPads, entre outros objetos-fetiche. Há aí uma racionalidade: eles são leves, fáceis de carregar, ao mesmo tempo em que carregam o mundo. Mas até que ponto é possível, com tal movimento, realizar a tarefa política que Agamben propõe como sendo a dos nossos tempos, qual seja, “profanar o improfanável”?
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Fonte: http://boitempoeditorial.wordpress.com/

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

De volta a praça Tahrir em 09/09! - por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

[Colômbia] Máscara do filme ‘V de Vingança’ tornou-se um ícone global - por ANA

[Colômbia] Máscara do filme ‘V de Vingança’ tornou-se um ícone globalPassou de assinatura de um poderoso grupo de hackers a um símbolo do descontentamento mundial.

Uma máscara pálida e zombeteira vem se tornando o símbolo de manifestantes em todo o mundo. E a tal ponto que hoje compete com a mítica imagem de Che Guevara, captadas por Alberto Diaz ‘Korda’, ao menos entre os jovens.

Anonymous, o maior e mais temido grupo de hackers, a converteu em um ícone internacional ao usá-la como uma assinatura de ataques cibernéticos sem precedentes contra governos e grandes corporações. Mas faz um tempo que este símbolo deu um salto do mundo cibernético às ruas. Por isso, hoje ele é visto também em movimentos por uma melhor educação no Chile; as reivindicações dos 'indignados' na Espanha, os protestos de dissidentes na China ou nas marchas contra a cientologia na Inglaterra, para citar apenas alguns exemplos.

A máscara, tal e como a conhecemos, veio do filme V de Vingança (2006), que é baseado na novela gráfica de Alan Moore, ‘A Conspiração da Pólvora’. Trata-se de uma história inspirada em Guy Fawkes, um católico inglês que orquestrou no início do século XVII um complô para matar o rei James I e a sua corte protestante de uma só vez. Seu plano era explodir o Palácio de Westminster, em novembro de 1605, durante a sessão de abertura do parlamento. Coisa que não conseguiu.

O filme, ambientado no futuro, conta a história de um homem misterioso, uma espécie de justiceiro solitário que, por trás de uma máscara, realiza atentados para combater um governo ditatorial, ultraconservador e fascista que controla a Inglaterra. Algo que recorda os regimes que George Orwell e Aldous Huxley descreveram em seus livros 1984 e Admirável Mundo Novo.

Mas como terminou essa máscara, um híbrido de história e ficção, tornando-se símbolo de rebeldia e inconformismo a nível global?

Para o analista simbólico e pesquisador Rodrigo Argüello, exceto de que a máscara é um elemento esteticamente atraente, tem várias mensagens implícitas muito fortes: a mensagem libertária, um anonimato que representa milhões e a possibilidade de que esses milhões possam identificar-se, unirem-se e expressarem-se através de um símbolo poderoso que, também, os protege.

“Há um fim, que é a transformação dos indivíduos isolados em coletividade, livrando-se da severidade, do jugo, do tédio da vida cotidiana ou para rebelar-se ao imposto, ao dogma e aos fundamentalismos”, diz o especialista, que recorda que Nietzsche costumava dizer que “o profundo ama a máscara”.

No entanto, ele salienta que “não devemos esquecer que antes destes movimentos de protesto que hoje vemos uma grande quantidade da máscara, o filme V de Vingança já havia se tornado uma referência para os jovens, pois não é qualquer filme: tem uma mensagem política muito poderosa”.

“O preocupante, acrescenta, é que isso poderia abrir caminho para uma espécie de ‘anarquismo’ ou ainda, de ‘terror anônimo’, de inspiração gótica, que na literatura e no cinema é bom, mas que na realidade pode ser uma área mais complexa”.

O sociólogo e pesquisador em questões de cultura juvenil, Fernando Quintero, opina que isso se tornou “uma espécie de manifesto contemporâneo de uma nova ação política”.

“É uma forma de expressão política que se misturam as diferentes causas: desde o ambientalismo ao anti-consumismo. Uma idéia de protesto, de rejeição, predominantemente antissistema, e onde a força não vem de uma identidade clara, nem de uma cabeça ou um líder, mas da unidade de uma grande multidão anônima”.

Alfredo Molano, colunista e estudioso de processos sociais, diz que o que a máscara faz é “unir milhares em um propósito sem permitir identificar as pessoas que estão por trás desse propósito”. E explica que esta necessidade de “anonimato” está fortemente influenciada pelo medo às “acusações, à exclusão ou à repressão dentro de um sistema que se percebe muito parecido com a idéia orwelliana do “grande irmão”, ou seja, desse Estado todo-poderoso que tudo vê e observa: por meio de cartão de crédito, de telefone, twitter, e-mail, etc.”.

E conclui: “É a reação de uma população que se sente agredida pelo desemprego, pelo consumo agressivo e falta de oportunidades, em um mundo que os ignora como pessoas e apenas os vê como números, como compradores, e como potenciais consumidores”.

Um tremendo negócio
O maior paradoxo desta história é que este símbolo moderno do inconformismo se tornou um enorme negócio, especialmente para a companhia cinematográfica Warner Bros. que, depois de haver produzido o filme, possui os direitos do ícone de bigode fino e bochechas rosadas .

A máscara já alcançou o honroso título de ser o artigo mais vendido na amazon.com, onde se pode comprar por 7 dólares e onde supera as vendas de outras máscaras, como as do Batman, Harry Potter e Darth Vader.

“Vendemos mais de 100.000 destas máscaras ao ano e é a mais vendida, das outras apenas vendemos cerca de 5.000”, disse ao ‘The New York Times’ Howard Beige, vice-presidente executivo da Rubie, a empresa de Nova York que as produz.

O próprio Beige confessou que a princípio pensou que as pessoas realmente gostavam muito do filme. Opinião que mudou quando começou a ver imagens de manifestantes com a máscara em todo o mundo.

Por: Andrés Rosales

Fonte: El Tiempo.com

agência de notícias anarquistas-ana
O som do aguaceiro
nas folhas da bananeira –
de prender o fôlego.
Osiris Seiler Roriz Sobrinho

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Disk Fonte: o jornalismo papagaio de repetição - por Sakamoto

Façam um teste e procurem esses nomes no seu jornal, revista, rádio, TV, sites preferidos…

Aos nomes:
Questões trabalhistas? Disk Pastore
(O sociólogo José Pastore, mas sem dizer de suas consultorias para empresários que têm interesse direto no assunto)

Constitucionalismos? Disk Ives Gandra
(O respeitável jurista do Opus Dei não vacila jamais)

Ética? Disk Romano
(O professor de filosofia Roberto Romano)

Questões sindicais? Disk Leôncio
(O cientista político Leôncio Martins Rodrigues)

Ética na política? Disk Álvaro Dias
(O senador Álvaro Dias – que disputa pau a pau com Demóstenes Torres. Só dá eles na oposição)

Ética dos juros? Disk Eduardo Giannetti
(O professor é quase um gênio)

Pau no Lula? Disk Marco Antônio Villa
(Historiador. Tiro e queda. Mais pau no Lula? Disk Lúcia Hippólito – com a vantagem de ter sido escolhida como uma das meninas do Jô)

Relações internacionais? Disk Rubens Barbosa
(Ex-embaixador. Precisa diversificar? Disk Celso Lafer, o ex-chanceler)

Mercado financeiro? Disk Arminio Fraga, o ex-BC
(Não rolou? Disk Gustavo Loyola? Ocupado? Ah, então vamos no Disk Maílson mesmo)

Segurança pública? Disk Zé Vicente
(Ele é durão, estava lá dentro, mas fala como sociólogo. E com a vantagem de não ficar falando em direitos humanos para qualquer “resistência seguida de morte”. É o coronel esclarecido)

Partidos? PT especificamente? Disk Bolívar
(O cientista político Bolívar Lamounier, mas, por favor, não diga que ele é filiado a partido político)

Contas Públicas? Disk Raul Velloso
(O economista critica os gastos. Qualquer gasto)

Telecomunicações? Disk Ethevaldo Siqueira
(É o jornalista que mais conhece o fascinante mundo da telefonia privatizada, mas, ao citá-lo, só não diga que ele dá consultoria para empresas da área)

Previdência? Disk Fabio Giambiaggi
(Aproveite e fale um pouco da perseguição que ele sofreu no “aparelhado” Ipea…)

MST? Reforma Agrária? Disk Jungmann
(O deputado e ex-ministro Raul Jungmann só abandona sua cruzada quando o assunto é Daniel Dantas ou a Poupança)

Educação? Disk Claudio Moura e Castro
(Sabe tudo de ensino privado. Se o telefone estiver ocupado, ligue para o jovem Gustavo Ioschpe)

Geografia? História? Demografia? Sociologia? Socialismo? Política? Geopolítica? Raça? Relações internacionais? Coréia? Pré-sal? Irmandade Muçulmana? Cotas? Mensalão? América Latina? MST? Pugilistas cubanos? Liberdade de imprensa? Farc? Irã? Líbia? Síria? Governo Dilma? Celso Amorim? Disk Demétrio Magnoli
(É a fonte universal. Os jornalistas têm no professor um dos seus números sem limite de ligação nos planos de telefonia)

Fonte: http://blogdosakamoto.uol.com.br/

Quem financia o ódio aos muçulmanos nos EUA? - Por MJ Rosenberg

Quem financia o ódio aos muçulmanos nos EUA?
Uma nova reportagem detalha como um pequeno grupo de doadores e "intelectuais" disseminaram a islamofobia.

Faz cerca de uma década que a islamofobia explodiu neste país. O momento em que o World Trade Center e o Pentágono foram atingidos por terroristas da al Qaeda. A islamofobia existia antes do 11 de setembro, mas as perdas daquele dia e o terror geral que aquilo causou sobre este país fez com que muitos, muitos americanos se tornassem mais cautelosos ainda com árabes e, bastante rapidamente, mais amedrontados da religião que professavam os terroristas.

O primeiro sinal de que o 11 de setembro seria explorado para fazer avançar diversos programas veio de Benjamin Netanyahu, que foi citado no New York Times dizendo que os ataques seriam bom para Israel:
“Quando questionado hoje [11 de setembro de 2001] sobre o que significaram os ataques para as relações entre os Estados Unidos e Israel, Benjamin Netanyahu, ex-primeiro ministro, respondeu, “São ótimos.” E então se explicou: “Bem, não ótimos, mas gerarão simpatia imediata”. Ele previu que os ataques iriam “fortalecer a união entre os dois povos, por terem experienciado o terror durante muitas décadas, mas os Estados Unidos agora haviam experimentado uma hemorragia massiva de terror.”

Netanyahu subsequentemente reiterou seu ponto de vista sobre o 11 de setembro.

E, é claro, desde os ataques o lobby “pró-Israel” obteve sucesso em se utilizar deles para construir um apoio para as políticas da direita israelense nos Estados Unidos.

Mas o lobby não veio sozinho.

É somente um dos componentes de um orquestrado e bem-financiado esforço para fazer com que os norte-americanos temam e odeiem muçulmanos e árabes.

Tenho que admitir, no entanto, que até ter lido uma reportagem publicada hoje pelo Centro de Progresso Americano (CAP, por seu nome em inglês), eu não tinha ideia de precisamente quão orquestrado e bem-financiado era este movimento.

A reportagem “Medo Ltda.: As raízes da Rede de Islamofobia nos EUA” demonstra que um pequeno grupo de autoproclamados especialistas (Frank Gaffney, David Yerushalmi, Daniel Pipes, Robert Spencer, e Steve Emerson) apoiados por um grupo de fundações e doadores (muitos dos quais financiam o lobby) colocaram a islamofobia no mapa.

Para colocar de maneira simples, sem estes “especialistas”, seus doadores e a Fox News (o porta-voz midiático) você jamais teria ouvido falar que um centro comunitário muçulmano (a “Mesquita Marco-Zero”) estava sendo construído em Nova Yorque. E o centro certamente não teria se tornado manchete. Nem mesmo os candidatos republicanos (e até mesmo alguns democratas) à presidência, ao Congresso, e até mesmo à prefeitura, seriam chamados para condenar o Islã e a “Lei da Sharia” ou ter que enfrentar o fato de ser rotulado de apoiador do terrorismo. Nem Newt Gingrich, Herman Cain e Rick Santorum teriam feito com que o ódio por muçulmanos americanos fosse uma parte integral de suas campanhas.

Tudo começa com o dinheiro. De acordo com o CAP:

Um pequeno grupo de fundações e doadores ricos são o sangue da rede de islamofobia nos Estados Unidos, fornecendo financiamento fundamental a uma ninhada de direitistas formadores de opinião que espalham ódio e medo de muçulmanos e do islã – em forma de livros, reportagens, sites, blogues, e apontamentos cuidadosamente concebidos que organizações de base anti-Islã e alguns grupos religiosos de direita usam como propaganda para seus eleitorados.

Algumas dessas fundações e doadores ricos também fornecem financiamento direto a grupos de base anti-Islã. De acordo com nossa extensa análise, aqui estão os sete principais contribuintes responsáveis por promover a islamofobia neste país:

Fundo Donors Capital
Fundações Richard Mellon Scaife
Fundação Lynde e Harry Bradley
Fundações e Fundos de Caridade Newton D. & Rochelle F. Becker
Fundação Russell Berrie
Fundo Beneficente Anchorage e Fundo William Rosenwald Family
Fundação Fairbrook

Muitos destes são novos para mim, ainda que quando trabalhei na AIPAC foi difícil não ver o fato de que alguns deles apoiam tanto a AIPAC como seu formador de opinião, o Instituto Washington de Políticas no Oriente Próximo.

A coisa mais incrível na reportagem do CAP é que ela expõe pessoas que tentam de tudo para cobrir seus rastros. Uma coisa é ser conhecido por apoiar a AIPAC, mas é outra bem diferente ser alinhado a Steve Emerson, Daniel Pipes e Pam Geller, que aparecem na reportagem do CAP somente como um segundo nível de ódio cuja veemência anti-muçulmana não passa de nojenta.

Os financiadores do ódio estão particularmente determinados a se esconder desde o massacre de 76 pessoas na Noruega em julho por um autodeterminado Cristão conservador chamado Anders Breivik, que disse ser influenciado por Robert Spencer, Pam Geller e David Horowitz (outro proeminente propagandista contra muçulmanos e beneficiário de várias fundações anti-Islã).

Mas o CAP seguiu o dinheiro, foi atrás dos nomes de fundações que aparentavam ser inocentes, e cruzou estes nomes. E agora nós temos: a rede do ódio exposta.

E o retrato é bem feio. Judeus cuja principal preocupação é Israel se alinham com os direitistas cristãos que não gostam de judeus. Há até mesmo alguns muçulmanos enviados pela rede para dizer para plateias em igrejas e sinagogas quão más pessoas eles são. É estranho.

Mas também é muito perigoso, como o massacre da Noruega contesta.

A coisa mais estranha sobre a matança é que ela ocorreu na Noruega. Lendo este artigo, você deve se perguntar por que não ocorreu aqui. Ainda.

Tradução de Cainã Vidor.
Fonte: www.revistaforum.com.br

Debate na TV: Mônica Waldvogel defende as touradas durante programa Saia Justa - Por Lobo Pasolini

Mônica Waldvogel defende as touradas durante programa Saia Justa
"Quando eu fui, pela primeira vez, a uma tourada na Espanha eu gostei", afirma a jornalista Mônica Waldvogel.

Em um dos últimos episódios do programa de TV Saia Justa, a apresentadora Teté Ribeiro levantou o debate sobre rodeios, que serviu de gancho para uma conversa sobre touradas. Teté disse a coisa certa. O bezerro que foi morto em Barreto foi ‘assassinado’ e ela expressou a opinião de quem entende do assunto: que esporte não pode ter a participação involuntária de um ser vivo porque para um animal não-humano aquilo não significa absolutamente nada. Sua opinião foi clara e direta.

Foi então que entrou no debate a jornalista Mônica Waldvogel,que disse que não gosta de rodeios por esses serem ‘cafonas’ mas que amou a tourada que assistiu na Espanha. Além do ter expressado uma opinião negativa em relação aos animais, é muito constrangedor ver uma jornalista conhecida se expressar tão mal e de forma tão tosca como ela o fez. Mônica admite que não sabe porque gostou das touradas, apenas jogou no ar umas palavras aleatórias como ‘tradição’, ‘ritual’, de forma fragmentada e sem nexo, para dar alguma base intelectual a bobagem que disse.

Felizmente a opinião geral da maioria foi contrária a esses dois tipos de crueldade contra animais discutidos. A atriz Camila Morgado ficou mais ou menos na dela e Eduardo Moscóvis deixou claro como ele acha repugnante as touradas e os toureiros. Mônica ficou mal na fita e se ela for uma pessoa inteligente, esse não foi um dia quando ela expressou isso muito bem.

Um dos problemas hoje em dia na mídia de massa é o que em inglês se chama de ‘punditry’ – um tipo de ‘opionismo’ sobre temas sobre o qual as pessoas em questão não sabem nada, ou pelo menos não mais do que o espectador ou leitor. Em geral são opiniões pessoais de leigos com uma aura beatificada de opiniões especializadas.

O debate é bom, mas as pessoas precisam aprender que quando elas emitem suas opiniões na mídia elas têm uma responsabilidade de contribuir para o debate e assumem também um compromisso com a ética. Não vale a pena criar simplesmente mais ruído eletrônico.
Fonte: http://www.anda.jor.br

Ministro Fernando Haddad voando alto! - por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

Cheney, Rumsfeld e a obscura arte da propaganda - por Amy Goodman - Democracy Now

Cheney, Rumsfeld e a obscura arte da propagandaA poucos dias do décimo aniversário do 11 de setembro e enquanto aumentam as vítimas em todos os lugares, os livros de Donald Rumsfeld e Dick Cheney nos lembram uma vez mais qual é a primeira vítima da guerra: a verdade. Em seu livro "Em meu tempo", Cheney parece ter adotado o famoso conselho de Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda nazista: "Quando se mente, deve-se mentir grande e permanecer fiel a essa mentira".

“Quando se mente, deve-se mentir grande e ser fiel a essa mentira”, escreveu Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda do Reich alemão em 1941. O ex-vice-presidente Dick Cheney parece ter adotado o famoso conselho nazi em seu novo livro: “Em meu tempo”. Cheney continua sendo fiel a suas convicções em temas que vão desde a invasão do Iraque até o uso da tortura. Durante uma entrevista ao programa Dateline, da NBC News, ele disse em referência às revelações deste livro: “Elas farão rolar muitas cabeças em Washington”. As memórias de Cheney seguem as de seu colega e amigo Donald Rumsfeld. Enquanto ambos promovem sua própria versão da história, há gente que os desafia e enfrenta.

O título do livro de Rumsfeld, “Conhecido e desconhecido”, provém de uma tristemente célebre resposta que deu durante uma conferência de imprensa no Pentágono quando era ministro da Defesa. No dia 12 de fevereiro de 2002, quando tentava explicar a falta de evidências vinculando o Iraque às armas de destruição de massa, Rumsfeld disse: “Há conhecidos que conhecemos, há coisas que sabemos que sabemos. Também sabemos que há conhecidos que desconhecemos, o que quer dizer que sabemos que há algumas coisas que não sabemos. Mas também há coisas desconhecidas que desconhecemos, aquilo que não sabemos que não sabemos”.

A enigmática declaração de Rumsfeld tornou-se famosa e emblemática de seu desdém pelos jornalistas. É considerada como um símbolo das mentiras e manipulações que levaram os Estados unidos à desastrosa invasão e ocupação do Iraque.

Uma pessoa que se convenceu graças à retórica de Rumsfeld foi Jared August Hagemann.

Hagemann se alistou no exército para servir seu país, para fazer frente às ameaças que repetidamente mencionava o ministro da Defesa Rumsfeld. Quando o soldado do comando do exército dos EUA recebeu a carta de notificação para seu mais recente deslocamento ao campo de batalha (sua esposa não lembra se era o sétimo ou oitavo), a pressão foi demasiada. No dia 28 de junho de 2011, Jared Hagemann, de 25 anos de idade, atirou em su mesmo na base conjunta Lewis-McChord, perto de Seattle. O Pentágono disse que Hagemann morreu por causa de um ferimento de bala “auto-infligido”, mas ainda assim não falou em suicídio.

Jared havia ameaçado se matar várias vezes antes. Não era o único. Segundo se informou, cinco soldados cometeram suicídio em Fort Lewis em julho. Estima-se que mais de 300 mil soldados que voltaram da guerra padecem de transtornos de stress pós-traumático e depressão.

A viúva de Hagemann, Ashley Joppa-Hagemann, inteirou-se de que Rumsfeld autografaria exemplares de seu livro na base. No dia 26 de agosto, Ashley entregou a Rumsfeld uma cópia do programa dos serviços fúnebres em memória de seu falecido esposo. Ela me contou: “Disse que queria ele tivesse vindo ao enterro do meus esposo e assim poderia conhecer o rosto de pelo menos um dos soldados que perderam a vida por causa de suas mentiras em relação a 11 de setembro”.

Perguntei acerca da resposta de Rumsfeld: “Todos o que lembro é ele dizendo: “Ah, sim, ouvi algo sobre isso”. E, logo em seguida, tudo o que lembro é de ter sido agarrada pelo pessoal da segurança, empurrada para fora e advertida para não regressar”. Infelizmente é o sargento Hagemann que nunca mais regressará á sua esposa e seus dois pequenos filhos.

Em sua entrevista para a NBC, Cheney afirmou ter um desempenhado um papel na renúncia do então secretário de Estado, Collin Powell. Sobre isso, consultei o ex-assessor de Powell, o coronel Lawrence Wilkerson, que respondeu: “Pelos trechos que li, não li todo o livro, a coisa mais impactante dita pelo vice-presidente em seu livro é que ele teve algo a ver com o afastamento de Colin Powel de seu cargo, em janeiro de 2005. Isso é um disparate total”. Mas importante, porém, é o chamado de Wilkerson, exortando a que os envolvidos em levar o país à guerra no Iraque sejam responsabilizados por seus atos, o que implicaria um castigo para ele próprio.

Um pilar central da invasão do Iraque foi o discurso de Powell no dia 5 de fevereiro de 2003 nas Nações unidas, no qual expôs o caso das armas de destruição em massa. Wilkerson assume plena responsabilidade pela coordenação do discurso de Powell: “Infelizmente, e já reconheci isso muitas vezes pública e privadamente, fui a pessoa que preparou a apresentação de Colin Powell ante o Conselho de Segurança das Nações Unidas no dia 5 de fevereiro de 2003. Provavelmente foi o maior erro da minha vida. Lamento este dia até hoje. Lamento não ter renunciado nesse momento”.

Perguntei ao coronel Wilkerson o que ele pensa de grupos como o Centro pelos Direitos Constitucionais e do advogado e blogueiro Glenn Greenwald que pediram o julgamento de Cheney, Rumsfeld e outros funcionários do governo Bush. Ele me respondeu: “Estaria pronto a testemunhar, e estaria disposto a enfrentar qualquer castigo que mereça”.

O coronel Wilkerson disse sobre o livro de Cheney: “É um livro escrito sem medo. Sem medo de que, algum dia, alguém faça de Dick Cheney um Pinochet”. O coronel Wilkerson se refere ao caso do ditador chileno Augusto Pinochet, que foi preso na Inglaterra e detido durante um ano antes de ser liberado. Um juiz espanhol queria que o extraditassem para julgá-lo por crimes contra a humanidade.

A poucos dias do décimo aniversário do 11 de setembro e enquanto aumentam as vítimas em todos os lugares, os livros de Rumsfeld e Cheney nos lembram uma vez mais qual é a primeira vítima da guerra: a verdade.

(*) Amy Goodman é apresentadora de Democracy Now! um noticiário internacional diário, nos EUA, de uma hora de duração que emite para mais de 550 emissoras de rádio e televisão em inglês e em 200 emissoras em Espanhol. Em 2008 foi distinguida com o "Right Livelihood Award" também conhecido como o "Premio Nobel Alternativo", outorgado no Parlamento Sueco em Dezembro.
(*) Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desse artigo.
Tradução: Katarina Peixoto
Fonte: Carta Maior

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

ANDA lança em SP documentário premiado sobre indústria de peles em 27/09/2011 - por ANDA

ANDA lança em SP documentário premiado sobre indústria de pelesA Agência de Notícias de Direitos Animais (ANDA), www.anda.jor.br , uma organização que trabalha para aumentar a atenção dada aos animais na mídia, está lançando no Brasil o documentário norte americano Skin Trade (Mercado de Peles), da norte americana Shannon Keith – também diretora do documentário Behind the Mask.

O documentário terá pré estreia no dia 27 de setembro, às 20h30min, no CineSESC, em SP, com a presença da diretora.

Quem quiser participar da pré-estreia deve enviar um email com o nome completo para faleconosco@anda.jor.br .

Sobre o filme
Skin Trade, premiado em 11 festivais de cinema, revela a dolorosa verdade desta indústria violenta e as questões sociopolíticas por trás de campanhas de marketing da indústria de pele. O documentário explora a conexão do comércio de peles de povos nativos, o impacto ambiental dos curtumes, além da verdade na legislação de rotulagem, com a esperança de fechar brechas que permitem o uso de peles de gato, cachorro, raposa ou lobo, as quais são vendidas como “falsas” em mercadorias importadas da China.

O documentário apresenta entrevistas com o congressista americano Dennis Kucinich, o advogado ambiental Jan Schlichtmann, o estilista Todd Oldham, a ex-jornalista de moda Julia Szabo, a escritora campeã de vendas Rory Freedman, a presidente da PETA Ingrid Newkirk, o diretor da Overstock.com, Patrick Byrne, e atores/ativistas como Alexandra Paul, James Cromwell e Jorja Fox. A trilha sonora foi feita pela banda The Fade e inclui também a canção “Skin Trade”, de Duran Duran, que cedeu a faixa para os produtores.

Assista e entenda o que move essa indústria e o que será necessário para mudá-la.

Serviço:
Lançamento Skin Trade
Local: CineSESC – Rua Augusta, 2075 Cerqueira César – SP
Data:27 de setembro,
Hora: 20h30min
Entrada franca

Garanta o seu lugar colocando seu nome na lista com antecedência. Envie um email para faleconosco@anda.jor.br.
Fonte: http://www.anda.jor.br/

domingo, 4 de setembro de 2011

Mavi Marmara: Justiça! - por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

Documentos apontam colaboração entre CIA, MI6 e Kadafi - por Pagina/12

Documentos apontam colaboração entre CIA, MI6 e KadafiUma série de documentos de um período que vai de 2002 a 2007, encontrados pela organização Human Rights Watch e jornalistas nos escritórios abandonados do ministro de Assuntos Exteriores e chefe dos serviços secretos da Líbia, Musa Kusa, revelam que a Inglaterra fornecia a Muammar Kadafi informação sobre seus opositores e que, através de vôos secretos, os Estados Unidos enviaram a esse país prisioneiros para ser interrogados e torturados.

Enquanto o Conselho de Transição líbio se instala em Trípoli com o apoio político e financeiro das potências ocidentais e da ONU, uma série de documentos de um período que vai de 2002 a 2007, encontrados pela organização Human Rights Watch e jornalistas nos escritórios abandonados do ministro de Assuntos Exteriores e chefe dos serviços secretos da Líbia revelaram que a Inglaterra fornecia a Muammar Kadafi informação sobre seus opositores e que, através de vôos secretos, os Estados Unidos enviaram a esse país prisioneiros para ser interrogados.

A revelação foi feita pelo jornal The Independent, que publicou arquivos encontrados nos despachos de Musa Kusa, ex-braço direito de Kadafi, que demonstrariam como funcionários de Londres ajudaram a redigir o rascunho de um discurso para Kadafi quando este decidiu há alguns anos abandonar o apoio a grupos terroristas e colaborar com o Ocidente. Os documentos também dão conta de que os serviços de espionagem britânicos (MI6) entregaram ao líder líbio informações sobre pessoas opositoras de seu regime. Outros documentos revelam que os EUA e a Inglaterra atuaram em nome da Líbia nas negociações desse país com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Segundo o The New York Times, que também publicou o material, a CIA enviou em oito ocasiões suspeitos de terrorismo para interrogatório pelo serviço secreto líbio, conhecido por suas práticas de tortura. A relação entre Kadafi e a CIA era tão estreita que Washington buscava uma presença duradoura na Líbia, assegura o The Wall Street Journal, citando notas de Stephen Kappe, então o número dois das operações secretas da CIA.

A cooperação se intensificou a partir de 2004, quando o regime líbio pôs fim a seu programa de armas de destruição em massa. Dos documentos, conclui-se também que Abdelhakim Belhay, o novo comandante militar de Trípoli, foi sequestrado em 2004 junto com sua mulher grávida no aeroporto de Bangkok por agentes da CIA e levado para a capital líbia, onde foi torturado por agentes norteamericanos.

Os documentos fornecem detalhes da visita que o ex-primeiro ministro britânico, Tony Blair, fez a Trípoli, entre eles um despacho solicitando que o encontro com Kadafi ocorresse em uma tenda de campanha. “O número 10 (referência a Downing Street, residência oficial do chefe de governo britânico) quer que o primeiro ministro se reúna com o líder em uma tenda de campanha. Não entendo por que os ingleses têm tanto interesse na tenda de campanha”, acrescentam os textos.

Ainda segundo as informações divulgadas pelo Independent, Musa teria copiado números documentos antes de sair da Líbia. Após ter conhecimento dessas revelações, o ministro britânico de Assuntos Exteriores, William Hague, disse: “Não tenho conhecimento disso, do que estava ocorrendo naquele período”.

Tradução: Katarina Peixoto
Fonte: Carta Maior

sábado, 3 de setembro de 2011

Estado Assassino: Independent: Como Israel se vinga de meninos que atiram pedras - por Redação

Independent: Como Israel se vinga de meninos que atiram pedrasO menino, pequeno e frágil, está lutando para ficar acordado. Sua cabeça pende para o lado, a certa altura caindo sobre o peito. “Levanta a cabeça! Levanta!”, grita um dos interrogadores, estapeando o menino. Mas ele a essa altura não parece mais se importar, porque está acordado por pelo menos doze horas desde que foi tirado de casa e separado dos pais às duas da manhã, sob a mira de uma arma. “Eu gostaria que vocês me soltassem”, ele choraminga, “assim eu poderia dormir um pouco”.

Durante o vídeo, de quase seis horas, o palestino Islam Tamimi, de 14 anos de idade, exausto e amedrontado, é continuamente pressionado, a ponto de começar a incriminar homens de sua vila e a tecer lendas fantásticas que, acredita, seus tormentadores querem ouvir.

Estas imagens raras, vistas pelo Independent, oferecem uma janela num interrogatório israelense, quase um rito de passagem que centenas de crianças palestinas acusadas de atirar pedras enfrentam todo ano.
Israel tem defendido fortemente seu comportamento, argumentando que o tratamento dados aos menores melhorou vastamente com a criação de uma corte militar juvenil dois anos atrás. Mas as crianças que enfrentaram a dura justiça da ocupação contam uma história bem diferente.

“Os problemas começam muito antes de as crianças serem trazidas para o tribunal, começam com a prisão delas”, diz Naomi Lalo, uma ativista do No Legal Frontiers, um grupo israelense que monitora os tribunais militares. É durante os interrogatórios que o destino da criança “é decidido”, ela diz.

Sameer Shilu, de 12 anos, estava dormindo quando soldados derrubaram a porta da frente da casa dele uma noite. Ele e o irmão mais velho sairam do quarto com os olhos embaçados para encontrar seis soldados destruindo a sala-de-estar.

Checando o nome do menino na carteira de identidade do pai, o oficial israelense parecia “chocado” quando viu que precisava prender uma criança, disse o pai de Sameer, Saher. “Eu disse, ‘ele é muito jovem: por que você o quer?’ ‘Eu não sei’, ele respondeu”. Vendado e com as mãos dolorosamente atadas por algemas plásticas nas costas, Sameer foi colocado em um Jeep, com o pai gritando que não tivesse medo. “Nós choramos, todos nós”, o pai diz. “Eu conheço meus filhos; eles não atiram pedras”.

Nas horas que antecederam o interrogatório, Sameer foi mantido vendado e algemado, sem poder dormir. Eventualmente levado para um interrogatório sem um advogado ou parente presente, um homem o acusou de participar de uma demonstração e mostrou imagens de um menino atirando pedras, dizendo que era ele.
“Ele disse, ‘este é você’ e eu disse que não era eu. Então ele me perguntou, ‘quem são eles?’ e eu disse que não sabia”, Sammer conta. “A certa altura, o homem começou a gritar comigo, me agarrou pelo colarinho e disse ‘eu vou jogar você pela janela e te bater com um pau, se você não confessar’”.

Sameer, que se disse inocente, teve sorte; ele foi solto algumas horas depois. Mas a maior parte das crianças é amedrontada a ponto de assinar uma confissão, sob ameaça de violência física ou contra as famílias, como a da retirada das permissões de trabalho.

Quando uma confissão é assinada, os advogados geralmente orientam as crianças a aceitar um acordo e a servir uma sentença de prisão, mesmo que não sejam culpadas. Alegar inocência quase sempre representa longas ações no tribunal, durante as quais a criança quase sempre fica presa. Sentenças em favor das crianças são raras. “Numa corte militar, você deve saber que não deve procurar por justiça”, diz Gabi Lasky, uma advogada israelense que representou crianças.

Existem muitas crianças palestinas em vilas da Cisjordânia sob a sombra do Muro israelense da separação ou de assentamentos judaicos em terras palestinas. Onde grandes protestos não-violentos se deram como forma de resistência, existem crianças que atiraram pedras e patrulhas de Israel nessas vilas são comuns. Mas advogados e grupos de defesa dos Direitos Humanos protestam contra a política de Israel de tornar alvo as crianças de vilas que resistem à ocupação.

Na maioria dos casos, crianças de até 12 anos de idade são arrancadas da cama à noite, algemadas e vendadas, ficam sem dormir ou sem comida, são submetidas a longos interrogatórios e então forçadas a assinar confissões em hebreu, um idioma que poucas tem capacidade de ler.

O grupo de Direitos Humanos B’Tselem concluiu que “os direitos dos menores são severamente violados, que a lei quase sempre fracassa na proteção de seus direitos, e que os poucos direitos dados a eles sob a lei não são implementados”.

Israel alega que trata os menores palestinos no espírito de sua própria lei para jovens mas, na prática, este é raramente o caso. Por exemplo, crianças não deveriam ser presas à noite, advogados e parentes deveriam estar presentes durante os interrogatórios e é preciso ler os direitos para as crianças presas. Mas Israel trata isso como comportamento recomendando, não como exigência legal, e os direitos das crianças são frequentemente violados. Israel considera jovens israelenses como crianças até 18 anos, enquanto palestinos são vistos como adultos a partir dos 16 anos de idade.

Advogados e ativistas dizem que mais de 200 crianças palestinas estão em prisões israelenses. “Se você quer prender estas crianças, se quer julgá-las”, diz a srta. Lalo, “tudo bem, mas faça isso de acordo com a lei de Israel. Dê a elas os seus direitos”.

No caso de Islam, o menino do vídeo, a advogada dele, srta. Lasky, acredita que o vídeo é prova de sérias irregularidades no interrogatório.

Em particular, o interrogador não disse a Islam que ele tinha direito de ficar calado, e o menino foi ouvido sem a advogada, que tentou vê-lo mas não conseguiu. Em vez disso, o interrogador pediu a Islam que contasse tudo a ele e aos colegas, sugerindo que se fizesse isso ele seria solto. Um interrogador sugestivamente socou
uma das mãos, fechada, na palma da outra.

Ao final do interrogatório Islam, chorando entre soluços, sucumbiu aos interrogadores, aparentemente dando a eles o que queriam ouvir. Numa página de fotografias, a mão do menino se moveu sobre as imagens, identificando moradores da vila que mais tarde seriam presos por protestar.

A srta. Lasky espera que a divulgação do vídeo mude o tratamento das crianças presas nos territórios ocupados, em particular na forma como são usadas para incriminar outros, o que advogados alegam é o principal objetivo dos interrogadores. O vídeo ajudou a conseguir a soltura de Islam, do presídio para prisão domiciliar, e pode levá-lo a ser inocentado das acusações de atirar pedras. Mas, neste momento, um Islam silencioso não acredita em sua sorte. A metros de sua casa em Nabi Saleh fica a casa de uma prima, cujo marido está preso à espera de julgamento junto com uma dúzia de outros com base na confissão do menino.
A prima é magnânima. “Ele é uma vítima, ele é apenas uma criança”, diz Nariman Tamimi, de 35 anos, cujo marido, Bassem, de 45 anos, está na prisão. “Não devemos culpá-lo pelo que aconteceu. Ele estava sob enorme pressão”.

A política de Israel tem sido bem sucedida num sentido: criar medo entre as crianças e evitar que elas participem de futuras manifestações. Mas as crianças ficam traumatizadas, sujeitas a pesadelos e a molhar a cama à noite. A maioria acaba perdendo o ano escolar, ou abandona a escola.

Os críticos de Israel dizem que a política em relação às crianças palestinas está criando uma nova geração de ativistas com os corações cheios de ódio contra Israel. Outros dizem que ela mancha o caráter do país. “Israel não tem nada que prender estas crianças, julgá-las ou oprimí-las”, a srta. Lalo diz, com os olhos marejados.

“Elas não são nossas crianças. Meu país está fazendo muitas coisas erradas e as justificando. Nós deveríamos servir de exemplo, mas nos tornamos um estado opressor”.

Números de crianças detidas
7000. O número estimado de crianças palestinas detidas e processadas pelos tribunais militares israelenses desde 2000, de acordo com relatório do Defesa Internacional de Crianças Palestinas (DCIP)
87. Porcentagem de crianças submetidas a alguma forma de violência física durante a custódia. Cerca de 91% tiveram os olhos vendados em algum momento da detenção.
12. A idade mínima de responsabilidade criminal, conforme estipulado pela Ordem Militar 1651.
62. Porcentagem das crianças presas entre meia-noite e 5 da manhã.
Fonte: http://www.fazendomedia.com/

Balanço crítico acerca da Ação Global dos Povos no Brasil (5) - Por Felipe Corrêa

Balanço crítico acerca da Ação Global dos Povos no Brasil (5)
A construção de uma nova esquerda certamente exigirá retomar elementos velhos e clássicos e é sempre bom termos em mente que não estamos reinventando a roda. Por Felipe Corrêa

ENTRE ERROS E ACERTOS
Qual é a conclusão central que está por trás desse balanço crítico? Teria sido esse movimento completamente em vão? Teríamos perdido nosso tempo e seria uma experiência inteiramente perdida?

Afirmo que certamente não. O movimento teve a virtude, antes de tudo, de realizar uma crítica às velhas estruturas da esquerda, propor alternativas para sua renovação e testá-las, na prática. O que permite extrapolar as hipóteses teóricas e ver, na realidade, como operaram essas alternativas, acumulando uma experiência que não é pouca.Entre erros e acertos houve, certamente, outros ganhos como a chegada de vários militantes que até hoje seguem na ativa, além da criação de alguns grupos e coletivos que também se mantêm funcionando. E o movimento foi capaz de fazer lutas que, com todos os problemas apontados, conseguiram, em uma medida ou outra, acumular. Ainda que muitas das questões contra as quais o movimento tenha lutado, bandeiras de curto e médio prazo, tenham sido abandonadas pelas estruturas de poder, atribuo isso mais a uma questão conjuntural do que à força do próprio movimento. O que quero dizer é que, independentemente de qualquer coisa, houve aspectos positivos que podem contribuir com a continuidade da construção dessa nova esquerda.

No entanto, não se pode olhar para esse fenômeno sem realizar uma autocrítica que tenha por objetivo superar, de fato, os problemas que surgiram. Ressaltar possíveis virtudes, lembrar de “como era legal aquela época”, não nos fará avançar. Apropriar ou endossar, hoje, a Cultura da AGP, sem reflexão crítica, também não. É, de fato, preocupante que grupos e movimentos pelo Brasil ainda se baseiem nessa cultura, criada em um momento determinado, e com sérios limites — e que se fundamentem no mesmo discurso, de que estão “criando o novo”. A AGP e tudo o que foi o “entorno” do Movimento de Resistência Global no Brasil constituem uma experiência ímpar, a partir da qual todos os que continuam envolvidos com a política, e fundamentalmente com a esquerda, têm o dever de refletir.Antes de tudo, cabe definir mais precisamente o que entendo por esquerda. Entendo por esquerda o setor da sociedade que tem como eixo de atuação e/ou perspectiva de futuro a igualdade — critério central para essa noção. A esquerda busca, constantemente, a diminuição das desigualdades da sociedade — o que, com freqüência, se reflete em uma análise fundamentada nas classes sociais, no papel da luta de classes e no reconhecimento de outras desigualdades como as de raça e de gênero. Essas desigualdades, sendo consideradas mais sociais do que naturais, podem e devem, segundo a esquerda, ser modificadas. A liberdade não é um critério de definição, visto que há setores na esquerda mais e menos libertários. Vale o mesmo para as estratégias, que priorizam a tomada do Estado (pela revolução ou pelos métodos representativos) e as que defendem uma construção pela base, fora do Estado, num modelo que se poderia chamar de poder popular. Traços que são mais comuns na esquerda do que na direita são: a maior disposição à igualdade — tanto em relação à maioria explorada pelo capitalismo como pelas minorias oprimidas –, uma preferência do coletivo em relação ao individual, uma preferência da cooperação em relação à competição, uma abertura maior aos movimentos populares, entre outros. Obviamente, há diversas particularidades que a cortam transversalmente. [Norberto Bobbio. Esquerda e Direita] [1]

O problema fundamental de todo o movimento foi, a meu ver, com base nas críticas da velha e clássica esquerda, criar, por meio de uma certa e relativa “política do espelho” algo, em grande medida, oposto a ela, jogando, como se diz no ditado popular, “a água suja com o bebê dentro”. É verdade que o movimento se manteve no campo da esquerda, fato que pode ser atestado — independentemente das limitações, dos problemas e das contradições — pela própria luta que tinha como inimigo o neoliberalismo e fundamentava-se no princípio anticapitalista. Portanto, certamente, não foi um movimento que, levando ao limite a tal política do espelho, enveredou para a direita.

Analisando as críticas elaboradas pelo movimento à velha esquerda, pode-se dizer que eram todas acertadas. Estou de pleno acordo que a esquerda clássica deu pouco espaço para questões culturais e identitárias, subestimou as relações pessoais, restringiu sua concepção de classe e as análises que se fundamentaram nessa categoria; essa esquerda fundamenta-se em um modelo de atuação que dificulta a aproximação de jovens, e deveriam ser questionadas suas formas tradicionais de luta e mobilização, de maneira a renovar-se e atrair mais pessoas para suas lutas. Concordo também que não se pode querer intervir na realidade simplesmente por meio da teoria, que na velha esquerda há muito dogmatismo ideológico e sectarismo, que os processos são, na imensa maioria, nada democráticos, que ela está hegemonizada por posições autoritárias, que há problemas sérios de hierarquia e dominação, que ela teria de se integrar e usufruir das novas ferramentas tecnológicas. Nenhuma dessas críticas é inválida e todas oferecem elementos relevantes para a construção de uma nova esquerda.

O problema da AGP e da forma de mobilização que ela promovia surgiu por se acreditar, de uma ou outra forma, aberta ou não, que da simples crítica poderiam emergir propostas construtivas, sem maiores reflexões. Pode-se dizer também que o olhar para a velha esquerda foi muito pouco generoso, pois, se havia problemas, como esses que foram apontados, certamente também havia virtudes. Havia um histórico longo que não poderia ter sido descartado da maneira como foi. As experiências acumuladas pela esquerda ao longo dos séculos XIX e XX oferecem um campo de análise monumental e fundamental para a construção de qualquer “novo”; com uma análise desse período, descobriremos que muitos dos “novos” elementos propostos pelos movimentos que foram impulsionados pela AGP estiveram presentes em toda a história da esquerda, ainda que, muitas vezes, tenham sido minoritários.

A falta dessa análise histórica e de uma reflexão estratégica e programática mais aprofundada fez com que o fluxo “natural” do movimento apontasse para problemas imensos, talvez maiores do que aqueles que se buscava superar. Ainda que todo esse processo não tenha levado o movimento para a direita, isso não significa afirmar que, da crítica realizada à velha esquerda, pudesse surgir uma construção adequada. Nosso movimento, forjado em grande medida em oposição à esquerda clássica e sem muitas reflexões em torno da construção que buscava realizar, terminou muito fraco politicamente, tendo pouca capacidade de intervenção real na correlação de forças da sociedade — e muitas vezes não teve nem mesmo a preocupação para que isso ocorresse; abriu mão da organização, estratégias, programas e políticas de alianças, todos elementos fundamentais quando se trata de política; não foi capaz de repensar o conceito de classe e de concebê-lo segundo um novo modelo que desse conta da realidade, abandonando-o, juntamente com a política classista de luta; restringiu-se a um setor minoritário da sociedade, relativamente integrado ao sistema, que, sem possibilidade ou mesmo sem a intenção de envolver contingentes mais amplos da população, não deixou de caracterizar um elitismo bastante semelhante ao da velha esquerda; estimulou o descompromisso, em detrimento do trabalho regular, o trabalho de base; substituiu muitas vezes a luta pela festa; renegou o papel da teoria e da formação política em favor de um praticismo praticamente incapaz de reflexão; deu espaço ao individualismo, ao “democratismo” e à cultura autocomplacente do “pode tudo”, invertendo constantemente a noção de autoritarismo ou mesmo tolerando abertamente muitas atitudes autoritárias em seu seio; estimulou um espontaneísmo inócuo de conteúdo e incapaz em termos organizativos; acreditou que a tecnologia poderia ter conteúdo libertador.

Vê-se que a lista dos problemas da nova esquerda da AGP é tão extensa quanto, senão maior que a lista de críticas à velha esquerda. Caberia, portanto, observar as críticas colocadas, atestar sua validade, verificar os problemas práticos ocorridos no movimento e, por meio dessa crítica honesta e construtiva, buscar elementos que permitam, entre a crítica realizada, e a construção que se levou a cabo, encontrar novos caminhos para a reconstrução da esquerda.

Para uma nova esquerda e um projeto de poder popularA construção de uma nova esquerda certamente exigirá retomar elementos velhos e clássicos e é sempre bom termos em mente que não estamos reinventando a roda. Isso contribuirá para “baixar um pouco a bola” e diminuir a arrogância nas discussões. A história está evidente para quem quiser ver e, nessa construção, as experiências da esquerda em mais de um século de luta devem ser aproveitadas. Por outro lado, todo esse acúmulo, principalmente entre os séculos XIX e XX permite que façamos uma crítica, honesta e dura, do que foram os equívocos que estiveram presentes nessas experiências. Construir uma nova esquerda exigirá, portanto, uma análise histórica, de teoria e prática, buscando ver quais foram os elementos mais acertados e quais foram os principais problemas encontrados.

Tentando contribuir com esse processo, fazendo essa análise crítica da história — que extrairá e formalizará alguns ensinamentos que a experiência da AGP proporciona –, buscarei pontuar questões que me parecem centrais, se realmente desejarmos dar corpo a uma nova esquerda que constitua um projeto de poder popular.

Assim como defini brevemente o que entendo por esquerda, creio que é importante definir o que quero dizer com poder popular, quando falo que a nova esquerda deve constituir um projeto de poder popular, quando falo que precisamos de um projeto de poder etc. Minha corrente de filiação ideológica tem se esforçado significativamente para discutir de maneira mais aprofundada o tema do poder. [2]

“O poder pode ser entendido como ‘a imposição da vontade de um agente através da força social que consegue mobilizar para sobrepujar a força mobilizada por aqueles que se opõem’. Ele circula por todas as relações sociais: entre classes, grupos e pessoas que possuem relações e, portanto, está também ligado aos conflitos, sendo possível afirmar que nas relações sociais que envolvem conflito nunca há ausência de poder; se uma parte não tem poder, a outra necessariamente tem. Ainda que determinadas classes, grupos ou pessoas tenham capacidade de realização, ou seja, ainda que, potencialmente, possam fazer algo, isso não significa necessariamente a constituição de uma força social e sua implicação em um conflito. O poder existe quando a capacidade de realização constitui-se em força social e essa força é aplicada em um conflito determinado superando as outras forças em jogo.” [Felipe Corrêa. Movimentos Sociais, Burocratização e Poder Popular]

Assim, sustentar que a nova esquerda precisa de um projeto de poder não significa afirmar que ela tenha de ter uma estratégia para tomada do Estado — muito ao contrário. O século XX contribuiu sobremaneira para que se visse, na prática, que o Estado não é um elemento neutro, um “poder” que pode ser tomado e utilizado para os mais variados fins. Vimos que, ainda que ele reflita, em grande medida, aspectos centrais do capitalismo, ele pode ser conseqüência, mas também causa, já que, se mantido, tem a capacidade de recriar o capitalismo, ainda que com particularidades, como foi o caso da antiga URSS. Criar um projeto de poder exige, antes de tudo, uma compreensão sobre o que é o poder. Partindo dos elementos colocados acima, pode-se afirmar que a sociedade de hoje é o resultado de distintas correlações de forças, que se estruturam do micro para o macro e vice-versa. O capitalismo de hoje, portanto, vem sendo estruturado por uma correlação de forças que coloca de um lado as classes dominantes e de outro as classes dominadas, oprimidas. E quando falo em forças, não me refiro somente à força bruta, a uma política aberta de guerra/repressão; entendo que a ideologia dominante, a cultura difundida pelo capitalismo, as quais forjam indivíduos obedientes que defendem abertamente o status quo (ainda que em seu próprio prejuízo), é também um aspecto central dessa correlação de forças visto que atinge diretamente a vontade do conjunto das massas. Nesse sentido, torna-se central buscar compreender o que é esse poder, quais são suas raízes e a maneira que ele vem se estabelecendo como força hegemônica na sociedade. Um projeto de transformação, nesse sentido, só pode ser forjado se conseguir compreender, em termos estratégicos, a posição do inimigo e, com base nisso, forjar uma estratégia de acúmulo de forças e aplicação dessas forças nos conflitos, de modo a modificar a relação de poder existente.Por um lado, pode-se afirmar que conceber uma sociedade sem poder significaria acreditar na possibilidade de existência de uma “sociedade sem relações sociais, sem regras sociais e sem processos de decisão sociais”. Ou seja, seria conceber o “impensável”. O que não significa equiparar as noções de poder e dominação. A dominação, na realidade, é um tipo de poder que implica, numa determinada correlação de forças, hierarquia, relação de mando-obediência, exploração, etc. “Os libertários se situam, na realidade, contra os sistemas sociais baseados em relações de dominação (em sentido estrito). ‘Abaixo o poder!’ é uma fórmula que deveria desaparecer do léxico libertário e ser substituída por ‘Abaixo as relações de dominação’. Mas neste ponto é preciso tentar definir as condições que tornam possível uma sociedade enquanto tal.” [Tomas Ibánez. Por um Poder Político Libertário]

Nesse sentido, se a nova esquerda quer ser capaz de intervir na realidade, e deixar de contentar-se com os pequenos ganhos que vez por outra consegue, ela necessariamente terá de conceber-se como força social consistente e avaliar a melhor maneira de intervir nos distintos conflitos, impulsionando-os no sentido desejado.

Lembremos que, estrategicamente, não se pode conceber a política muito além de três posturas bastante simples. Dado um determinado status quo, forjado por determinadas relações de forças, há as seguintes alternativas: 1. Se intervém em favor do status vigente; 2. Se intervém contrariamente ao status vigente; 3. Não se intervém, o que, obrigatoriamente, significa optar, ainda que sem intenção ou inconscientemente, pela primeira alternativa. Ou seja, ao não intervir na realidade de maneira a se opor aos aspectos vigentes da “ordem”, se reforça, obrigatoriamente, essa ordem. Portanto, se uma nova esquerda não for capaz de intervir na realidade em favor de um projeto próprio, ela necessariamente agirá em favor do status quo presente. Parece-me que, a igualdade, aspecto fundamental da velha esquerda, deve ser mantida nesse projeto; da mesma forma, parece-me que a história do século XX demonstra na prática que o projeto de uma nova esquerda deve contar também com a liberdade. E recordemos que a sociedade de hoje não se fundamenta em aspectos igualitários e nem libertários, e que, portanto, sem um projeto próprio capaz de modificar a atual correlação de forças, terminará se sustentando, de um jeito ou de outro, o que aí está.Além disso, a história também vem demonstrando um princípio básico da estratégia: “os objetivos estratégicos devem determinar a estratégia e esta deve determinar as táticas”. Ou seja, acreditar que um conjunto de táticas que se fundamenta na desigualdade e no autoritarismo possa levar a uma estratégia e a um objetivo de igualdade e liberdade é contradizer a lógica dos fatos. Nesse sentido, se a nova esquerda deve ter como fundamento a igualdade e a liberdade, os meios que ela escolher utilizar, tática ou mesmo estrategicamente, devem ser igualitários e libertários. [3]

Como coloquei, podemos (e em certo sentido devemos) utilizar a história como base — tanto da esquerda clássica, quanto da nova esquerda que a AGP tentou impulsionar — e apontar elementos para uma nova construção. Voltarei, assim, aos mesmos eixos colocados anteriormente, sugerindo, a partir da experiência histórica e da crítica construtiva realizada, elementos para a construção de uma nova esquerda que engendre esse projeto de poder popular.

Notas:
[1] Há um outro fator interessante: quanto mais se nega a diferença entre direita e esquerda, mais ao centro se está. Quando parte da esquerda caminha ao centro, esse é o discurso: que esquerda e direita são conceitos ultrapassados, que não servem mais para explicar a realidade etc.
[2] Em relação às minhas produções, ver: a série “Movimentos sociais, Burocratização e Poder popular: da teoria à prática“, publicada no portal Passa Palavra; o artigo, publicado em livreto, Criar um Povo Forte; e também a nova série, intitulada “Para uma Teoria Libertária do Poder”, que está sendo publicada no portal Estratégia e Análise.
[3] Volto a um exemplo bastante simplório, mas muito explicativo, que utilizei em outro momento. “Utilizando uma metáfora, pode-se afirmar que se queremos ir para o Rio de Janeiro, saindo de São Paulo, não adianta pegarmos uma estrada que vá para Curitiba. Se pegarmos a estrada para Curitiba, chegaremos em Curitiba e não no Rio de Janeiro.” O que dizer das táticas e da própria estratégia do marxismo ortodoxo que, buscando chegar a um comunismo igualitário e libertário, queria construí-lo por meio de um “socialismo” centralizado, que implicava desigualdades econômicas, políticas e sociais, e de uma ditadura?
Fonte: http://passapalavra.info/

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

[Cuba] Apresentado o CD “Um anarquista cubano: Alfredo López” - por ANA

[Cuba] Apresentado o CD “Um anarquista cubano: Alfredo López”Ao final do último encontro “Nem o Real Madrid, Nem o Barcelona, o 15-M!” convocado pela Oficina Libertária Alfredo López, foi apresentado o CD “Um anarquista cubano: Alfredo López”.

A chamada classe operária não é uma realidade em si, como pensavam os marxistas e os leninistas. Se os trabalhadores aceitam como único horizonte de suas vidas a melhora da exploração salarial em troca de não questionar o sentido e o destino do que eles fazem para os outros gerenciarem, se aceitam como normal sua incapacidade atual de organizarem-se como produtores soberanos de suas vidas e, finalmente, que cada um se cuide como pode, a classe trabalhadora deixa de existir.

Este material em compilação, preparado pela Oficina Libertária Alfredo López, não é apenas uma homenagem a esta figura incontornável e banalizado das lutas sociais e proletárias em Cuba do início do século XX, mas também uma contribuição para a recuperação da memória histórica dos trabalhadores para as lutas de amanhã.

Anexamos como parte da compilação outros materiais afins, produzidos pela Oficina, assim como da Rede Protagonista Observatório Crítico, a que pertence orgânica e ativamente ao mesmo.

Mais infos:
› http://observatoriocriticodesdecuba.wordpress.com/

agência de notícias anarquistas-ana
Amor-perfeito.
Chuva de borboletas
Apaixonadas
José Carlos Guitti

Eric Hobsbawn: Grundrisse são “o pensamento de Marx no seu apogeu” - Por Emir Sader

Eric Hobsbawn: Grundrisse são “o pensamento de Marx no seu apogeu”No seu artigo “Descobrindo os Grundrisse” – escrito como introdução à primeira edição em inglês da obra de Marx, publicada em 1964 – Hobsbawn relata como o lugar desse texto fundamental na obra do Marx e seu destino são peculiares. Em primeiro lugar, porque “são o único exemplo de um importante conjunto de escritos maduros de Marx, que, para efeitos práticos, foram totalmente desconhecidos para os marxistas durante mais de meio século depois da morte de Karl Marx, e, de fato, quase impossíveis de encontrar até quase um século depois da composição dos manuscritos que levaram esse nome”.

Em segundo lugar, a publicação dos Grundrisse no que poderia ser considerada “a menos favorável das condições”, isto é, na URSS e na República Democrática Alemã em plena “era de Stalin”. A terceira peculiaridade é a “persistente incerteza sobre o status dos manuscritos de 1857-1858 refletida no nome flutuante” dos textos até o momento em que se adotou o título de Grundrisse.

A data da sua verdadeira publicação – final de 1939 – significa que permaneceram quase totalmente ignorados no Ocidente até sua reedição em 1953, em Berlim Oriental.

A descoberta interacional quase simultânea das obras de Gramsci, junto com a dos Grundrisse tiveram como função “libertar o marxismo da camisa de força da ortodoxia soviética”, segundo Hobsbawn. Assim, “não é fácil separar os debates sobre os Grundrisse do cenário político em que se produziram e que os estimulou”.

Como avaliação global sobre o conjunto da obra, Hobsbawn é categórico: “Trata-se de um texto enormemente difícil em todos e em cada um dos seus aspectos, mas enormemente gratificante, ainda que fosse só pelo fato de que proporciona o único guia a todos os tratados de que O Capital é apenas uma fração e uma introdução única à metodologia do Marx mais maduro”. Contém análises e esclarecimentos, entre outros temas, sobre tecnologia, que levam ao tratamento de Marx muito além do século XIX, à era de uma sociedade em que a produção já nao requer trabalho de massas, de automação, de potencial de ócio e transformações da alienação nessas circunstâncias.

Para concluir, enfaticamente: “É o único texto que supera as próprias predições de Marx do futuro comunista na Ideologia Alemã. Em poucas palavras, foi qualificado acertadamente como ‘o pensamento de Marx no seu apogeu’”.

Fonte: http://boitempoeditorial.wordpress.com/

A prioridade - por Juliana Borges


Fonte: http://peledaterra.blogspot.com/

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Cinco anarquistas acusados de terrorismo na Dinamarca - por ANA

Cinco anarquistas acusados de terrorismo na Dinamarca
Hoje [22 de agosto], após quatro meses de aprisionamento, nós finalmente ouvimos as acusações contra nossos amigos e companheiros no tribunal da cidade. Os cinco que foram presos no dia 26 de Abril de 2011 foram acusados oficialmente por ter conduzido numerosos ataques incendiários contra duas empresas de pele, uma filial do banco Nordea (o segundo maior banco na Dinamarca), a delegacia central de polícia, a embaixada Grega, uma escola de polícia, e diversos outros bancos em Copenhagen. Enquanto algumas dessas acusações eram esperadas, baseadas em depoimentos anteriores da polícia, a má notícia veio quando a severidade destas acusações aumentou de simples atos incendiários para acusações oficiais de terrorismo sob as leis de terror dinamarquesas de 2002.

Os cinco estão sendo acusados de tentar desestabilizar o Estado Dinamarquês e a polícia através destes supostos ataques. Eles também foram acusados de tentativas de ataques e incêndios (que supostamente também nunca ocorreram visto que estavam encarcerados) contra o prédio do parlamento, contra a guarda real da rainha, contra o prédio do judiciário, e contra uma seita cristã fundamentalista responsável pelo despejo da "Casa da Juventude" (ou "Ungdomshuset", espaço em Copenhagen que servia como ponto de encontro de grupos autônomos de esquerda e apresentações musicais de cultura marginal) em 2007.

O absurdo das acusações finais enfatiza o quão ridículo é o caso como um todo e mostra que a polícia está utilizando o caso como uma ferramenta política. Pesquisas recentes feitas por grupos antifascistas na Dinamarca, descobriram um grupo secreto de extrema-direita que contém diversas conexões com a própria polícia, com o governo, partidos nazistas, assim como grupos hooligan fascistas. A polícia está fabricando grupos "terroristas de esquerda" para distrair a população destas descobertas recentes, e para amendrotá-los antes das vindouras eleições nacionais. Os cinco continuam a declarar inocência em relação à todas as acusações, especialmente em relação às mais recentes e ridículas alegações.

Nós, enquanto anarquistas que se opõem tanto ás prisões quanto ao Estado, apoiamos nossos companheiros e amigos, visto que lutam contra o Estado. Porque não conseguimos falar com eles em liberdade desde que foram presos, e porque foram impedidos de fazer qualquer pronunciamento público, nosso suporte é total diante da negação da responsabilidade por essas ações, e ao mesmo tempo, também apoiamos as próprias ações que serviram de acusação, como métodos válidos de resistência. Independentemente da culpa ou inocência deles para os olhos do Estado, eles foram forçados à este conflito com o Estado e estão lutando pela sua liberdade. Estamos chamando por solidariedade internacional direta com os prisioneiros.

Após os resultados da audiência no tribunal hoje, os prisioneiros permanecerão sob custódia no mínimo até o próximo mês, e possivelmente até o julgamento de cada um deles. Seus nomes estão sendo mantidos fora de publicações a pedido de seus advogados, mas saiba que são companheiros e amigos de muitas pessoas que lutam em Copenhagen. Você pode escrever cartas para eles através do seguinte email: solidaritetshilsner@gmail.com, e a mensagem será impressa e enviada para um dos cinco. O e-mail deles está sendo controlado em conjunto com suas visitas, então tudo será lido pela polícia. Todos os prisioneiros falam inglês fluente e dinamarquês. Também, todas as expressões de solidariedade são bem-vindas. Ninguém é esquecido na luta contra o capitalismo e contra o Estado!

Anarquistas em Copenhagen

Tradução > Malobeo

agência de notícias anarquistas-ana
A noite sentada na praia
Contempla um sem horizonte
Alguém colou a Lua no mar
Josè Maurício Fonzaghi Mazzucco

Bahrain: a repressão (assassinato) aos Manifestantes – por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

Inibição da crueldade: Comissão aprova projeto que criminaliza uso de pele animal em evento de moda - por ANDA

Inibição da crueldade: Comissão aprova projeto que criminaliza uso de pele animal em evento de moda
A Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável aprovou nesta quarta-feira o Projeto de Lei 684/11, do deputado Weliton Prado (PT-MG), que torna crime o uso de peles de animais silvestres nativos ou exóticos, domésticos ou domesticados, em eventos de moda no Brasil. A pena prevista é de reclusão de um a três anos e multa.Na foto, uma raposa vítima da indústria de pele (Foto: Oleg Nikishin)
O projeto acrescenta artigo à Lei de Crimes Ambientais (9.605/98). Para o autor, a criminalização do uso de pele de animais nas passarelas é uma forma de coibir o comércio do produto.

Maus-tratos
O relator do projeto na Comissão de Meio Ambiente, deputado Ricardo Tripoli (PSDB-SP), apresentou parecer favorável. “Sabemos que a indústria da moda exerce grande influência sobre os costumes sociais. O uso de peles em eventos de moda no Brasil certamente estimula a produção de animais em cativeiro e, consequentemente, as práticas cruéis.”

Tripoli afirmou que, embora a Constituição Federal e a Lei de Crimes Ambientais já prevejam punição às práticas de maus-tratos aos animais, a indústria da moda continua a fazer uso de peles em desrespeito às disposições legais. “Peles animais têm sido apresentadas nas passarelas brasileiras, inclusive nas coleções do inverno 2011, chegando ao vestuário cotidiano.”

Segundo o deputado, essa prática também contraria os princípios de sustentabilidade ambiental, de conservação da diversidade biológica e de proteção aos direitos dos animais.

A Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável aprovou o parecer do relator na forma de substitutivo que faz ajustes na redação original do projeto.

Tramitação
O projeto ainda será analisado pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) e pelo Plenário.
Fonte: www.anda.jor.br/