sábado, 17 de setembro de 2011

O Lehman Brothers e a amnésia neoliberal - por Saul Leblon

O Lehman Brothers e a amnésia neoliberalOs mercados financeiros são autorreguláveis. Os mercados financeiros sabem alocar recursos ao menor custo, com maior eficiência. Os mercados financeiros dispensam o planejamento público; tornam irrelevante a intervenção do Estado na economia. Até 15 de setembro de 2008, apesar dos indícios robustos em sentido contrário, o mantra das finanças desreguladas continuava a martelar sua supremacia urbi et orbi.

Os sinais de que as coisas não iam bem piscavam no painel de controles para quem quisesse enxergar. O Bear Stearns havia quebrado sendo adquirido pelo JP Morgan, numa operação de resgate com aportes de pai para filho fornecido pelo Fed (Federal Reserve). As gigantes do crédito imobiliário norte-americano, Fannie e Freddie, respiravam por aparelhos com oxigênio do banco central norte-americano. O medo flertava com o pânico à noite. Pela manhã, no entanto, os executivos do governo, os operadores das finanças e seus ventríloquos na mídia reafirmavam a autossuficiência dos mercados nos ajustes necessários.

Mas, na segunda-feira, dia 15, logo cedo, num cochilo do governo Bush, ou quem sabe num delírio de fé neoliberal na proficiência purgativa dos mercados, estourou a notícia do pedido de falência do quarto maior banco dos EUA, o Lehman Brothers.

O desabar ruidoso da centenária instituição tornou-se o símbolo e a espoleta de um colapso econômico que já dura três anos. Nesse meio tempo, o desemprego arrebanhou mais de 40 milhões no mundo; o total de famintos ultrapassou a marca de um bilhão de pessoas; o PIB mundial esfarelou e caminha de lado; milhares de empresas quebraram, dezenas de milhares de famílias sofreram o desmonte típico dos períodos de desmanche econômico, psíquico e social.

Ainda não foi suficiente para que a lógica geradora da crise deixasse de ser prescrita como terapia para o doente.

Não é preciso ir à Europa onde a social-democracia, de mãos dadas com o FMI, este mais moderado que aquela, comete a eutanásia do que resta do Estado do Bem-Estar Social adotando o arrocho fiscal para acalmar credores inquietos com tesouros falidos.

Tampouco é necessário atravessar o Atlântico para documentar as turquesas de tibiez democrata e extremismo neoliberal republicano que espremem e imobilizam a maior economia capitalista da terra. Fiquemos por aqui onde a oferta não decepciona.

No dia 25 de agosto, por exemplo, a fina flor da sapiência tucana reuniu-se no Instituto Fernando Henrique Cardoso para refletir sobre a oportuna pauta: “Transição incompleta e dilemas da (macro) economia brasileira”. Estavam ali expoentes da cepa que hoje, em plena crise mundial, seriam a voz e o comando do Estado brasileiro se a coalizão demotucana e não o PT tivesse vencido o pleito de 2010. Participaram os economistas André Lara Resende, Edmar Bacha, Gustavo Franco, Pedro Malan e Pérsio Arida, “pais” do Plano Real, ademais de ex-presidentes e ex-diretores do Banco Central.

O fruto do ventre tucano não se deu por vencido. E dobrou a aposta na agenda do neoliberalismo ao propugnar um novo degrau de desregulação radical da economia brasileira, com perorações desabridas por maior redução do papel do Estado na sociedade, privatizações, livre conversão da moeda e, portanto, absoluta liberdade de circulação de capitais.

Três anos depois, tudo se passa como se a maior crise do capitalismo desde 1929 não tivesse origem, nem causas. Ou melhor, como se a sua causa fossem Estados fiscalmente destroçados no socorro aos mercados que agora, de própria voz, ou através de seu dispositivo midiático, cobram austeridade, cortes de gastos e juros escorchantes para financiar o déficit público. Ou então, como ocorre no Brasil, negam à sociedade o direito a um Estado capaz de prover um atendimento de saúde digno, para não tributar as finanças.

Discutida no Congresso desde junho de 2008, a CSS (Contribuição Social para a Saúde), propiciaria à saúde pública recursos vinculados e intransferíveis, constituindo-se assim num imposto mais eficiente e justo que a CPMF extinta pelo conservadorismo nativo em 2007. Mas um destaque apresentado pelo DEM veta a taxação de 0,1% sobre movimentações financeiras. Sem ela, o novo tributo se torna inviável. As finanças são poupadas. A fila do SUS estrebucha.

A amnésia da opinião pública inoculada pela mídia do dinheiro ameaça o mundo com um upgrade neoliberal de conseqüências devastadoras para uma economia, e uma sociedade exauridas por três anos de penalizações. Por isso é importante lembrar. E refletir sobre as causas e consequências daquela falência de 15 de setembro de 2008, que funcionou para a crise como uma espécie de terceira torre do World Trade Center. Com a diferença que o seu efeito dominó ainda não cessou.

Fonte: Opera Mundi

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

[França] Resposta antifascista em Forbach - por ANA

[França] Resposta antifascista em Forbach [Mais de uma centena de antifascistas tomaram as ruas de Forbach contra a manifestação e instalação de um grupo de direita na cidade.]

No domingo passado (11 de setembro), um grupo fascista pretendia se manifestar nas ruas de Forbach (no nordeste da França) contra a islamização na Europa. A manifestação foi proibida, mas ainda assim mais de uma centena de antifascistas responderam ao apelo da CNT de Moselle e desfilaram pelas ruas da cidade por cerca de duas horas.Esta manifestação antifascista é especialmente importante numa área onde os fascistas de Marine Le Pen colhem há anos resultados eleitorais espetaculares (35-40% dos votos). Trata-se de uma região duramente atingida pelo desemprego, acima dos 20%, e fica perto da fronteira alemã, assim os partidos nazistas tentam recuperar o eleitorado e espalhar a sua mensagem racista. Além disso, os grupos nazistas alemães organizam concertos de música racista por estar perto da França, Luxemburgo e Bélgica.

A CNT de Moselle avalia muito positivamente a mobilização, já que possibilitou informar os moradores de Forbach de que os neonazistas pretendiam se estabelecer permanentemente na cidade (além da manifestação estava prevista a inauguração de um espaço nazista).

A CNT também critica em seu comunicado a estratégia de recuperação realizada por vários senadores do PSOE, que na última hora escreveram ao Ministro do Interior para pedir a proibição da marcha nazista. A CNT de Moselle quer deixa claro que continuará combatendo os fascistas nas ruas, e estará presente em qualquer lugar aonde eles busquem propagar suas idéias.

agência de notícias anarquistas-ana
Primavera vem.
Multicolorindo os campos
Borboletas mil.
Francisco Ferreira

Belo Monte: fonte fajuta mente sobre medidas cautelares da CIDH e expõe O Globo - Por Xingu Vivo

Belo Monte: fonte fajuta mente sobre medidas cautelares da CIDH e expõe O Globo A matéria de O Globo ignorava, ou escondia, até mesmo que nenhum funcionário da OEA está autorizado a falar em nome da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, autônoma ante a Organização.

Nesta quinta, 15, o jornal O Globo publicou uma matéria na qual noticiou que “a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA), que há cinco meses havia baixado uma medida cautelar pedindo ao governo brasileiro que suspendesse o empreendimento [de Belo Monte], enviou uma carta à presidente Dilma Rousseff se retratando e pondo um ponto final no impasse”. Segundo a reportagem, as informações teriam sido prestadas por um certo senhor Adam Blackwell, “especialista em segurança da OEA”, que teria afirmado também que o assunto – paralisação de Belo Monte em função de violações de direitos humanos – estaria encerrado e que a medida cautelar da CIDH seria fruto de “falta de informação dos integrantes desta comissão”.

Em primeiro lugar, este senhor, ou qualquer outro empregado da Organização dos Estados Americanos, não tem autoridade, muito menos autorização, para falar em nome da CIDH, autônoma perante a OEA. Mais: beira à aberração a acusação de que a CIDH não está informada sobre os temas que analisa e delibera.

Mais constrangedor, porém, é o fato de que a informação passada ao Globo é mentirosa: as medidas da CIDH estão mantidas. A Comissão apenas considerou que “a controvérsia que atualmente se apresenta entre as partes [representantes das populações indígenas e governo], sobre a consulta prévia e o consentimento informado em relação ao projeto de Belo Monte, tornou-se uma discussão sobre questões de mérito que transcendem o âmbito de mecanismo de medidas cautelares”; ou seja, a denúncia sobre a falta de consulta aos indígenas será considerada no pronunciamento sobre o mérito da petição.

Em nenhum momento a CIDH afirma que revogou qualquer decisão anteriormente apresentada ao governo. Reiterou, outrossim, que notou com muita preocupação que o governo não está garantindo a saúde, a segurança e a demarcação das terras das comunidades indígenas, em particular as indígenas em isolamento voluntário. Ou seja, apesar da afirmação do governo de que estaria tomando medidas neste sentido, a CIDH afirma que “estimou necessário manter as medidas cautelares adotadas para proteger a vida, saúde e integridade pessoal” dos membros das comunidades indígenas da bacia do rio Xingu, especificando ações neste sentido.

Possivelmente os jornalistas do Globo não tenham se dado conta de que o funcionário de uma instituição não é fonte para falar em nome de outra. Mas sempre é sábio que, em casos controversos, se busque informações com mais de um único informante. Por exemplo, as entidades peticionárias. Evita-se assim gafes constrangedoras.

Publicado no site do Movimento Xingu Vivo.
Fonte: www.revistaforum.com.br

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Entrevista com o zineiro Job "Katz" Fernando ! - por Alternar Zine

Entrevista com o zineiro Job "Katz" Fernando!
Quem é Job Fernando, conhecido principalmente como “Katz”?
Katz é a forma como o Job Fernando gosta de ser chamado. Aos 28 anos, esta criatura segue expressando suas impressões em relação ao que o toca. Mais que nunca, isto o agrada.

Sempre inquieto, o Katz encontrou nas artes uma forma de seguir adiante. Neste mundo formado absolutamente por realidades relativas, este logo trata de criar seus mundos e habitar-los como refúgio e salvação para a angustiante sensação de que sua própria existência pode devorar-lo. De forma incansável, o pobre então trava sua árdua “guerra de mundos”.

Pois é, são expressões simples acerca de impressões complexas que movem o velho Katz. Buscando algo mais, este então passa boa parte de seu tempo escrevendo e desenhando e cortando-colando e ouvindo música. Ah, me lembrei: o Katz sou eu! (risos)

Quando os fanzines entraram em sua vida pela primeira vez?
Os zines entraram em minha vida quando eu tinha quatorze anos como fruto dum amor à primeira leitura. E isso eu devo a cultura punk. Ah, foi através do punk que eu conheci estas folhas xerocadas apaixonantes que circulam no underground e percebi que este consiste no caminho marginal que eu busco para seguir adiante.

E a idéia, de editar o seu fanzine, surgiu quando exatamente?
Eu passei a sentir vontade de editar meu próprio zine quando passei a manter um contato mais íntimo com essa forma de publicação. Por vários motivos, porém, eu levei algum tempo para conseguir produzir meu próprio material. É; felizmente, minha hora chegou!

Sei que já lançou diversos zines por aí, nesses anos todos. Poderia citar os nomes, e se possível, á duração/tiragem de cada um deles?
Eu lancei meu primeiro zine em março de 2004. Pois é, eu tentei e tentei até que num belo dia (e que dia!) eu finalmente consegui xerocar as matrizes da Força Mecânica. E viva!

A Força Mecânica trouxe consigo algumas informações acerca de música de rua (Streetpunk/Oi!, Ska, etc.) e futebol (torcidas organizadas!). E seu único número rendeu mais de 120 cópias. Sim, sim, este foi o zine que editei que obteve mais aceitação!Após um triste intervalo de três anos, já em abril de 2007, eu lancei o primeiro e único número do Turbo Zino. Por sua vez, esta publicação reúne uma entrevista e alguns textos relacionados ao universo punk que estavam arquivados há algum tempo. Ah, sua tiragem não ultrapassou 30 cópias.

Pois é, livrei-me da fama de editor de zines de número único através de minha querida amiga Karta Bomba. Sua edição de estréia viu à luz em setembro de 2008. E, até seu aniversário de um ano, esta ganhou 5 números com cerca de 50 cópias cada.

Ah, após 365 dias em atividade, a Karta Bomba deu início à Greve da Bomba. É; então produzimos a Koletiva Umbela Bomba Zino e está veio à tona em dezembro de 2009 como um veículo de manifestação de críticas ao underground. Sim, assim como a K.B.Z. está conta com cerca de 50 cópias.

E foi durante este período de insurgência que eu produzi também o Kaderno Bomba Zino. E esta publicação lançada em abril de 2010 com tiragem de 71 cópias trouxe em suas páginas algumas matérias acerca de Street Art e Punk Art. De alguma forma, a chama segue acesa e eu ainda pretendo dar continuidade a este projeto.

E a Karta Bomba Zino foi reinventada! Sim, quando da comemoração de seus dois anos, retomamos àquela atividade de forma um tanto diferente e alteramos seu nome para Koletiva Karta Bomba Zino. E até o momento esta conta com duas edições com tiragens de 71 cópias cada.

Já entre a última semana de 2010 e os dois primeiros meses de 2011, nós da Inventiva Trupe de Marginais Inventados/as demos início a um novo projeto: a Agenda Bomba Zino. Sim, esta publicação tem como objetivo expressar nossas impressões acerca de nossos cotidianos de forma um tanto despretensiosa. E, até o momento, esta conta com dois números com 72 cópias cada.

Normalmente, os zines “seguem” um estilo ou tem uma proposta muito definida. Ele pode ser musical, politizado, hq’s, etc. O seu tem um pouco de cada coisa, fluindo de forma bem natural e honesta...
Sim, sim; de alguma forma, eu sempre escrevi sobre temas que me inquietam e estes são vários: música, política, impressões pessoais acerca do cotidiano, etc. Através de prática, felizmente consegui desenvolver minhas próprias formas de expressão. E hoje eu procuro escrever e desenhar de modo mais pessoal.

E os colaboradores, tão ilustres? Zé da Bota, Velho Urso, Maria Botina, Arauto do Vazio e tantos outros? Todos reais, ou apenas frutos da imaginação criativa do seu editor? ( risos )
Risos... Eu gosto quando me questionam sobre estes/as amigos/as queridos/as. Sim, sim...

Estes/as existem! Tendo em vista que nas relações humanas as pessoas são umas para as outras àquilo que cada indivíduo possui de impressões e idealizações em relação ao próximo e que ao criarmos algo em nossa inventiva imaginação isto passa a existir ao menos para nós mesmos/as, digo que tudo e todos/as (sim; inclusive você que está lendo isso!) somos frutos de imaginação. Desta forma, estes/as meus/minhas parceiros/as são reais e viva e viva!

No fim das contas, contudo, eu não sei se recebo estes/as ou se cada um/a destes/as é que incorpora o Katz.

Depois do “Karta Bomba Zino”, que parece se encontrar em férias, seu mais recente trabalho é o “Agenda Bomba Zino”. Ele vai seguir em frente, ou novos projetos devem surgir? O K.B.Z tem previsão de uma nova edição?
Pois é, muita coisa mudou depois da Greve da Bomba. Quando chegamos a algumas conclusões acerca de movimento, reinventamos a K.B.Z. e já estamos planejando a sua próxima reinvenção. Sim, sim, o fato é que esta deve se tornar uma nova publicação já em seu aniversário de 3 anos...

Enquanto isso, nós daremos seqüência também à Agenda Bomba. Sim, a produção desta publicação que surgiu de forma despretensiosa e desprendida muito tem nos agradado. Ah, esta tem sido uma ótima forma de nos expressarmos.

Há ainda outros projetos. E, se tudo ocorrer como esperado, até o fim deste ano nós teremos muitas novidades. Ah, que maravilha!

E dos fanzines em circulação, e também dos que não existem mais, quais são seus preferidos?
Ah, eu gosto muito de muitos zines novos e antigos... Inúmeros me influenciam. E, para não tomar muito espaço, vou citar meus preferidos de todos os tempos.

Vamos lá: Academia de Punk Rock, Needle, Hazlo tu Mismo (Argentina), Facção Underground, Surfcore, Paulistanos Suburbanos, Zips & Chains (Itália), Alternar, Alone, Diesel, Aviso Final, Depto B, Kaskadura, Golpe Justo (Argentina), Action for Life, Contravenção, O Monstro, Aaah!!!, Choque!! Reação no ABC!, Alogia J, Cryptas (México), Antimidia, Clube Skin (Portugal), Anjos de Cara Suja, 333, Manufatura, Anti-Bélica, Dalhe!!! (Estado Espanhol), Catalepsia, Nuvem Negra, Seja - Você Mesmo, Conversas Paralelas, Revolta Skinhead, Amor y Ódio (Argentina), True Lies, Histérica, Sub, Revolta Vermelha, 72 D.i.e.s.e.l, La Nariz Roja (Estado Espanhol), FanzinEx, No Somos Nada (Argentina), Fuzz Zine, Propuesta Modesta (Argentina), Pauta Lixo, O Robô – Nunca faz greve, Radio Kriminal (Chile), Destroi, Mente Engatilhada, XOlho por OlhoX, Profane Existence (EUA), Spell Work, Vandal Kings, Tiempo de Cambio (Argentina), Dr. Sexta-feira, Tribal Screams, United Zine...Por diversos motivos, porém, sinto que, de alguma forma, dois zines antigos muito contribuíram para a forma como eu escrevo e faço minhas coisas hoje: La Kudrilo Zino e Água.

Apesar dos tempos modernos, o zine impresso segue ainda firme e vivo, lutando sempre contra a maré. Fale um pouco dos encontros/reuniões de zineiro/as, documentários, etc, que estão acontecendo ultimamente?
Ai, sim! Percebo que hoje as publicações impressas marginais estão passando por seu melhor momento nos últimos dez anos. Embora não sejamos muito numerosos/as, somos apaixonados/as ao ponto de fazer as coisas acontecerem. E, talvez por isso, de um ano pra cá, nós estamos tão unidos/as e articulados/as.

Os Encontros de Zineiros/as são algo maravilhoso. Muita troca de materiais e informações, muita produção, muita amizade; e através disso estamos colhendo grandes frutos: zines produzidos de forma coletiva, oficinas, produção de documentários, etc. Acho que, agora, nada pode nos parar...

Sua trilha sonora enquanto edita/monta/pensa/trabalha seu zine, é qual?
Eu sou apaixonado por música de rua! Ouço música constantemente e, de alguma forma, a música também me serve de combustível; inclusive quando estou produzindo minhas coisas.

Sigo ouvindo Punk Rock, Streetpunk/Oi!, Hardcore, Rap, Ska, Reggae, Mangue, Samba... E viva! É o som das ruas...

Para citar algumas bandas/grupos, vou lembrar do que mais ouvi quando da produção da Agenda Bomba (meu último zine até o momento): Restos de Nada, Invasores de Cérebros, DZK, Excomungados, Olho Seco, Ulster, Anarcoólatras, Psychic Possessor, Grinders, Hino Mortal, Armagedom, Personal Choice, Síndrome de Down?, Ação Direta, Araukana, Hemp & Caos, Mongolords, Ovos Presley, Flicts, TPM, Perdedores, NYAB, Minor Threat, Bad Brains, This Side Up, Oppressed, Blitz, Nabat, Stab, Klasse Kriminale, Los Fastidios, Non Servium, Skacha, Keltoi!, RPW, RZO, Função RHK, Racionais, Consciência Humana, Facção Central, Bezerra da Silva, Jimmy Cliff, Simaryp, Specials, Bodysnatchers, Madness, Selecter, Skalariak, Chico Science & Nação Zumbi... :-)

É isso, Katz ! As últimas palavras são suas, pode acrescentar o que quiser! E obrigado pela entrevista, parabéns pelo seu ótimo trabalho! Vida longa!!!
Amigo Márcio, muito, muito, muito obrigado por sua amizade e apoio e gentileza! Com cerveja, nos veremos em breve para colocarmos a conversa em dia. Para encerrar: Para quem faz e/ou gosta zine de papel, aquele abraço! :-)

Contatos:Job "Katz" Fernando Silicani
Caixa Postal: 028
CEP: 06653-970
Itapevi - SP (Brasil)
e-mail: kartabombazino@yahoo.com.br
Fonte: http://www.alternarzine.blogspot.com/

Cheney, Rumsfeld e a obscura arte da propaganda - Por Amy Goodman

Cheney, Rumsfeld e a obscura arte da propagandaAs memórias de Cheney seguem as do seu colega e amigo Donald Rumsfeld. Enquanto ambos promovem a sua própria versão da história, há quem os desafie e os enfrente.

“Quando se mente, deve-se mentir grande e ser fiel a essa mentira”, escreveu Joseph Goebbels, o ministro da propaganda do Reich alemão em 1941. O ex-vice-presidente Dick Cheney parece ter tomado o famoso conselho nazi no seu novo livro: “No meu tempo”. Cheney continua fiel às suas convicções em temas que vão desde a invasão do Iraque até ao uso da tortura. Durante uma entrevista no programa Dateline da NBC News, o republicano falou sobre as revelações do livro: “Muitas cabeças vão rolar em Washington”. As memórias de Cheney seguem as do seu colega e amigo Donald Rumsfeld. Enquanto ambos promovem a sua própria versão da história, há quem os desafie e os enfrente.

O título do livro de Rumsfeld, “Conhecido e desconhecido”, advém de uma resposta infame que deu durante uma conferência de imprensa no Pentágono quando ainda era secretário da Defesa. Em 12 de fevereiro de 2002, Rumsfeld tentava explicar a falta de evidências que vincularam o Iraque a armas de destruição em massa: “Há conhecidos que conhecemos, há coisas que sabemos que sabemos. Também sabemos que há conhecidos que desconhecemos, o que quer dizer que sabemos que há algumas coisas que não sabemos. Mas também há coisas desconhecidas que desconhecemos, aquilo que não sabemos que não sabemos”.

A enigmática declaração de Rumsfeld tornou-se famosa e emblemática pelo seu desdém aos jornalistas. É considerada um símbolo das mentiras e manipulações que levaram aos Estados Unidos à desastrosa invasão e ocupação do Iraque.

Uma pessoa que foi convencida graças à retórica de Rumsfeld foi Jared August Hagemann.

Hagemann alistou-se no exército para servir o seu país, a fim de fazer frente às ameaças que repetidamente o secretário da Defesa mencionava. Quando o soldado norte-americano recebeu a chamada para mais uma missão (a sua esposa não se lembra se era a sétima ou a oitava), a pressão foi demasiada. No dia 28 de junho de 2011, Jared Hagemann, de 25 anos, atirou em si mesmo na Base Conjunta Lewsi-McChord, próximo de Seattle. O Pentágono deu a entender que Hagemann morreu por causa de uma ferida de bala “auto-infligida”, mas ainda assim não chamou o fato de suicídio.

Jared ameaçou suicidar-se várias vezes. Não foi o único. Segundo informações, cinco soldados cometeram suicídio no Fort Lewis em julho. Estima-se que mais de trezentos mil soldados que voltaram da guerra padecem de transtornos por estresse pós-traumático ou depressão.

A viúva de Hagemann, Ashley Joppa-Hagemann, soube que Rumsfeld disponibilizaria exemplares do seu livro na base. Na sexta-feira, 26 de agosto, Ashley entregou a Rumsfeld uma cópia do programa dos serviços fúnebres em memória do seu falecido esposo. Ela me descreveu o encontro: “Disse-lhe que queria que visse o meu esposo, e assim o conheceria, assim poderia lembrar-se do rosto de ao menos um dos soldados que perderam as suas vidas em virtude das mentiras em relação ao 11 de stembro”.

Perguntei-lhe sobre a resposta de Rumsfeld: “Tudo o que lembro é ele dizer ‘Ah,sim! Ouvi algo disso’. Em seguida, fui acossada por um dos seus seguranças pessoais, expulsa do local e advertida para não mais voltar”. Infelizmente, é o sargento do Estado Maior Hagemann quem nunca mais vai voltar à sua esposa e aos seus dois pequenos filhos.

Numa entrevista para a NBC, Cheney afirmou ter desempenhado um papel na renúncia do então secretário de Estado Colin Powell. Consultei sobre isso o ex-chefe de despacho de Powell, o coronel Lawrence Wilkerson, que respondeu: “Pelos trechos que li, vale dizer que não li o livro inteiro, o que o vice-presidente disse com mais impacto é que teve algo a ver com o afastamento de Colin Powell do seu cargo em janeiro de 2005. Isso é um disparate total”.

Mais importante, no entanto, é a exigência de Wilkerson para que os responsáveis por levar o país à guerra no Iraque sejam responsabilizados por seus atos, o que implicaria num castigo a si mesmo. Um pilar central da invasão do Iraque foi o discurso de Powell em 2003 diante das Nações Unidas, em que expôs o caso das armas de destruição em massa. Wilkerson assume plena responsabilidade pela coordenação do discurso de Powell: “Infelizmente, e já reconheci diversas vezes publicamente e em particular, fui a pessoa que preparou a apresentação de Powell ante Conselho de Segurança das Nações Unidas. Provavelmente foi o maior erro da minha vida.

Lamento-o até ao dia de hoje. Lamento não ter renunciado naquele momento”. Perguntei ao coronel Wilkerson o que pensa de grupos como o Centro pelos Direitos Constitucionais e o advogado e blogueiro Glenn Greenwald que pediu o julgamento criminal de Cheney, Rumsfeld e outros funcionários do governo Bush. Respondeu-me: “Estaria disposto a testemunhar, e estaria disposto a enfrentar qualquer castigo que mereça”.

O coronel Wilkerson ainda comentou sobre o livro de Cheney: “É um livro escrito sem medo. Sem medo de que um dia alguém faça de Cheney um ‘Pinochet’”. O coronel Wilkerson refere-se ao caso do ditador chileno Augusto Pinochet, que foi preso na Inglaterra e detido durante um ano antes de ser libertado. Um juiz espanhol queria que fosse extraditado para julgá-lo por crimes contra a humanidade.

Poucos dias depois do décimo aniversário do 11 de Setembro e enquanto aumenta o número de vítimas de todos os lados envolvidos no conflito, os livros de Rumsfeld e Cheney lembram-nos mais uma vez qual é a primeira baixa da guerra: a verdade.

Artigo publicado em Democracy Now e Esquerda.net. Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna. Texto em inglês traduzido por Fernanda Garpe para espanhol. Texto em espanhol traduzido para português por Rafael Cavalcanti Barreto, e revisto por Bruno Lima Rocha para Estratégia & Análise. Foto por http://www.flickr.com/photos/gageskidmore/.
Fonte: www.revistaforum.com.br/

[EUA] Beltaine's Fire lança seu terceiro álbum: “Anarquitetura”

[EUA] Beltaine's Fire lança seu terceiro álbum: “Anarquitetura”[O Coletivo de folk-rap Beltaine's Fire, do litoral de San Francisco, está lançando seu terceiro álbum, "Anarquitetura".]

O álbum oferece uma abordagem explicitamente anarquista em tudo, desde a tragédia do trabalho assalariado destruidor de almas, até movimentos que lutam por mudanças sociais e o iminente colapso ecológico que ameaça toda vida na Terra.

O conjunto da banda é formado por vocais, violinos, bandolins, banjo elétrico, baixo, e bateria, e o instrumental tem influências de folk, rock, música do mundo, céltica, latina, funk, jazz, e honesto e estrondoso hip hop.

Como o próprio Anarquismo, a música se inspira em todos os cantos do mundo e traz sua união para criar algo que misture o mais antigo com o mais novo.

A banda é independente e criou o álbum sem assistência de nenhuma grande gravadora. Está disponível com letras completas em http://beltainesfire.bandcamp.com/album/anarchitecture.Uma porção da renda adquirida da venda do álbum (após o pagamento dos custos de produção) será doada para grupos anarquistas que necessitam de apoio mútuo.

Tradução > Malobeo

agência de notícias anarquistas-ana
Farol da vida
ilumina a solidão
rosa do deserto
António Barroso Cruz

O plano de Obama para Palestina – por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

EUA e seus aliados europeus estão presos em um pântano, diz Tariq Ali

EUA e seus aliados europeus estão presos em um pântano, diz Tariq Ali
Um década depois dos atentados do 11 de Setembro, os EUA e os seus aliados europeus estão presos num pântano. Tirando a retórica de Obama, pouco divide esta administração da sua predecessora. Enquanto isso, os bons cidadãos da Euro-América que se opõem às guerras feitas pelos seus governos evitam olhar para os mortos, feridos e órfãos do Iraque e do Afeganistão, da Líbia e do Paquistão... a lista continua a crescer.

'Um soberano é aquele que decide em caso de exceção,' escreveu Carl Schmitt em tempos diferentes, quase há um século, quando os impérios e exércitos europeus dominavam a maioria dos continentes e os EUA desfrutavam de um sol isolacionista. O que o teórico conservador queria dizer com 'exceção' era um estado de emergência, necessário devido a cataclismos econômicos ou políticos, que requeriam a suspensão da Constituição, repressão interna e guerra no estrangeiro.

Um década depois dos atentados do 11 de setembro, os EUA e os seus aliados europeus estão presos num pântano. Os eventos daquele ano foram usados como um pretexto para refazer o mundo e punir os que não obedecessem. Hoje, enquanto a maioria dos cidadão euro-americanos vagueia por um deserto moral, infelizes com as guerras, propagandeadas como algo diferente do que realmente são: uma estratégia imperial abrangente, o General Petraeus (atualmente a comandar a CIA) diz-nos: “Temos de reconhecer também que não que vamos ganhar esta guerra. Penso que continuaremos a lutar. É um pouco como o Iraque, na verdade... Sim, tem havido enormes progressos no Iraque. Mas ainda existem ataques horríveis, e temos de continuar vigilantes. Temos de ficar depois de acontecerem. Este é o tipo de luta em que estamos para o resto das nossas vidas e provavelmente das vidas dos nossos filhos.” Assim fala a voz do poder soberano, determinando que, neste caso, a exceção é a regra.

Embora não concorde com a sua resposta, o filósofo alemão Jürgen Habermas colocou uma questão importante: 'Será que o universalismo que nós atribuímos aos direitos humanos apenas esconde um instrumento sutil e enganador da dominação ocidental?' 'Sutil' poderia ser apagado. As experiências nos territórios ocupados falam por si próprias. Dez anos de guerra contínua no Afeganistão, um impasse sangrento e brutal com um regime marionete e corrupto cujo presidente e sua família enchem os bolsos com ganhos duvidosos e um exército EUA/OTAN incapaz de derrotar os insurgentes.

Agora, estes atacam à vontade, assassinando o irmão corrupto de Karzai, acabando com os seus principais colaboradores e atingindo pessoal-chave da inteligência da OTAN via terrorismo suicida ou derrubando helicópteros. Entretanto, nos bastidores, sessões prolongadas de negociações entre os EUA e os neo-taliban têm ocorrido desde há vários anos. O objetivo revela desespero. A OTAN e Karzai estão desesperados por recrutar os taliban para um novo governo nacional.

Políticos conservadores e liberais euro-americanos que formam a estrutura das elites governantes e declaram acreditar em moderação, tolerância e fazer guerras para impor os mesmos valores nos Estados re-colonizados ainda estão cegos pela sua situação e não conseguem ver o que está escrito na parede. Não obstante a sua piedosa renúncia à violência terrorista, não têm problemas em defender a tortura, as prisões ilegais, o assassínio de indivíduos, estados de exceção ilegítimos para que possam prender qualquer um indefinidamente e sem julgamento. Entretanto, os bons cidadãos da Euro-América que se opõem às guerras feitas pelos seus governos evitam olhar para os mortos, feridos e órfãos do Iraque e do Afeganistão, da Líbia e do Paquistão... a lista continua a crescer.

A guerra – jus beli – é agora um instrumento legítimo conquanto seja usado com a aprovação dos EUA e de preferência usado pelas suas tropas. Hoje em dia, é apresentada como uma necessidade “humanitária”: um lado está ocupado a cometer crimes, o lado moralmente superior está simplesmente a administrar a punição necessária; e nega-se a soberania ao Estado a derrotar. A sua substituição é cautelosamente policiada tanto através de bases militares como através de uma combinação de ONGs e dinheiro. Esta colonização ou dominação do século XXI é auxiliada pelas redes midiáticas globais, um pilar essencial para conduzir operações políticas e militares.

Comecemos pela segurança interna nos EUA. Contrariamente ao que muitos liberais imaginavam em novembro de 2008, a degradação da cultura política americana continua rapidamente. Em vez de inverter a tendência, o advogado-presidente e a sua equipa aceleraram o processo. Houve mais deportações de imigrantes do que no mandato de Bush; poucos prisioneiros detidos sem julgamento foram libertados de Guantánamo, uma instituição que o advogado-presidente prometeu encerrar; o Patriot Act e o seu conteúdo sobre o que constitui um amigo ou inimigo foi renovado, começou uma nova guerra na Líbia sem a aprovação do Congresso, utilizando como desculpa o fato de os bombardeios sobre um Estado soberano não constituírem um ato hostil; os denunciadores estão a ser vigorosamente perseguidos e por aí adiante – a lista cresce a cada dia que passa.

A política e o poder apagam tudo o resto. Os liberais que ainda acreditam que a administração Bush transcendeu a lei enquanto que os Democratas são exemplo de conduta estão cegos pelo tribalismo político. Tirando a retórica de Obama, pouco divide esta administração da sua predecessora. Ignorem, por um momento, o poder dos políticos e dos propangadistas para impor os seus tabus e preconceitos sobre a sociedade americana em geral, um poder muitas vezes usado agressiva e vindicativamente para calar a oposição em qualquer lado – Bradley Manning, Thomas Drake (libertado após uma grande indignação dos média liberais), Julian Assange, Stephen Kim, que estão a ser tratados como criminosos, inimigos públicos, sabem melhor do que ninguém.

Nada mostra melhor esta degradação do que o assassinato de Osama Bin Laden em Abbotabad. Poderia ter sido capturado e levado a tribunal, mas essa nunca foi a intenção. O humor liberal foi espelhado pelos cântico ouvidos em Nova Iorque: U-S-A. U-S-A. Obama apanhou Osama. Obama apanhou Osama. Não podes derrotar-nos (aplausos). Não podes derrotar-nos. Linchem o Bin-Laden. Linchem o Bin Laden.

Isto foi repetido numa linguagem mais diplomática pelos líderes da Europa, parceiros júniores na família imperial das nações, incapaz de auto-determinação. Vênias e hipocrisia tornaram-se o cunho da cultura política.

Vejamos o exemplo da Líbia, o último caso da 'intervenção humanitária'. A intervenção EUA-OTAN na Líbia, com a cobertura do Conselho de Segurança das Nações Unidas, é parte de um resposta orquestrada para demonstrar apoio a um movimento contra um ditador em particular e assim terminar as rebeliões árabes, colocando-as sob controle ocidental, confiscando a sua impetuosidade e espontaneidade e tentando restaurar o status quo ante. Como é agora evidente, os britânicos e os franceses gabam-se do seu sucesso e que controlarão as reservas de petróleo líbias como pagamento de seis meses de campanha de bombardeamentos.

Entretanto, os aliados de Obama no mundo árabe prometeram trabalhar arduamente para implementar a democracia.

Os sauditas entraram no Bahrein, onde a população está a ser tiranizada e onde estão a acontecer prisões em larga escala. Isto não está a ser muito divulgado pela Al-Jazeera. Pergunto-me porquê? A estação parece ter sido posta na ordem e em sintonia com a política dos seus fundadores. Tudo isto com o apoio dos EUA. O déspota no Iêmen, odiado pela maioria do seu povo, continua a matá-los todos os dias através de controle remoto a partir da sua base saudita. Nem mesmo um embargo de armas, quando mais uma “zona de exclusão aérea” lhe é imposta.

A Líbia é mais um caso da vigilância seletiva pelos norte-americanos e pelos seus cães de ataque no Ocidente. O fato de os Verdes alemães, que estão entre os mais ardentes defensores europeus do neoliberalismo e da guerra, quererem fazer parte desta companhia revela mais sobre a sua própria evolução do que os méritos ou deméritos da intervenção.

As fronteiras do esquálido protetorado que o Oeste vai criar estão a ser decididas em Washington. Mesmo aqueles líbios que, em desespero, apoiaram o jatos da OTAN, poderão – como o seu equivalente iraquiano – arrepender-se.

Tudo isto desencadeará uma terceira fase a qualquer altura: uma crescente raiva nacionalista que chegará à Arábia Saudita e aí, sem dúvida, Washington fará tudo o que for necessário para manter a família real saudita no poder. Perder a Arábia Saudita significa perder todos os Estados do Golfo. O assalto à Líbia, fortemente ajudado pela imbecilidade de Khadafi em todas as frentes, foi desenhado para retirar a iniciativa das ruas, parecendo ser uma defesa dos direitos civis. Os bahreinianos, os egípcios, os tunisinos, os sauditas e os iemenitas não serão convencidos, e mesmo na Euro-America mais estão a opor-se a esta última aventura do que a apoiá-la. As lutas não estão terminadas.

O poeta alemão de século XIX Theodor Däubler, escreveu:

“O inimigo é a nossa questão encarnada
Ele perseguir-nos-á, e nós persegui-lo-emos com o mesmo propósito.”

O problema desta visão, hoje em dia, é que esta categoria de inimigo, determinada pelas necessidades políticas dos EUA, muda demasiadas vezes. Ontem Saddam e Khadafi eram amigos, regularmente ajudados pelas agências ocidentais de informações para lidar com os seus próprios inimigos. O último tornou-se amigo quando o primeiro se tornou inimigo. E assim continua a desordem mundial. O assassinato de Osama Bin Laden foi aplaudido pelos líderes Europeus como algo que faria do mundo um lugar mais seguro. Digam isso às fadas.

Publicado no Counterpunch
(*) Tradução de Sofia Gomes para o Esquerda.net
Fonte: Carta Maior

101 países avalizam pena de morte - por ANA

101 países avalizam pena de morteEm pleno século XXI, quase 18 mil pessoas estão condenadas à morte no mundo, revela um relatório da Anistia Internacional. Destas, 58 são mexicanas. Na China, o país onde houve mais execuções e condenações durante 2010, o governo se nega a publicar os nomes dos executados por ser “segredo de Estado”. Decapitação, lapidação e enforcamento são alguns dos métodos que se utilizaram para sancionar penalmente ao menos 527 pessoas no ano passado. A lista de executores é encabeçada pela China, Irã, Coréia do Norte, Yemen e Estados Unidos.

À distância se assemelha a um campus universitário. A proximidade acaba com a idéia: aparecem as cercas e os arames farpados. Por dentro, a cor branca dos muros dá um toque de frieza ao lugar. Trata-se da prisão de segurança máxima de Greene, localizada na Pensilvânia, Estados Unidos. Ali se encontra preso Mumia Abu Jamal – jornalista e ex-pantera negra – condenado à morte desde 1982, acusado de homicídio.

“Um homem com a capacidade de despertar as mentes da comunidade e de fomentar a rebelião contra o opressor é perigoso nos Estados Unidos; um país onde o número de negros e latinos condenados à morte é maior que o de brancos, apesar de que os brancos cometem os mesmos delitos que estes. Sua sentença foi racista; foi julgado por um juiz que se baseou em sua cor para condená-lo”, declara Goldii, filha de Abu Jamal, em entrevista a Contralínea. Tinha dois anos quando prenderam seu pai.

O caso de Mumia – condenado à morte apesar de múltiplas irregularidades jurídicas – se une ao de outras 17.833 pessoas, entre estas 58 mexicanos, segundo cifras do relatório anual Condenações à morte e execuções em 2010, da Anistia Internacional (AI).

O relatório indica que dos 197 países – que reconhecem a Anistia Internacional do mundo – mais da metade aprova a pena de morte em suas legislações. A cifra dos 96 países abolicionistas contrasta com a dos 101 retencionistas que se negam a abolir esta sanção penal. Entretanto, destes últimos, 34 países não executam ninguém há 10 anos, e apenas em nove esta sanção se contempla para delitos excepcionais ou previstos no código militar.

Em 2010, em 23 países executaram ao menos 527 pessoas; entretanto, não se contabilizam as execuções em países como Afeganistão, Paquistão ou Coréia do Norte, porque não existem dados oficiais. Enquanto isso, no Vietnã está proibido por lei publicar dados sobre as execuções, e na China as cifras são consideradas como “segredo de Estado”.

Com aproximadamente 1.300 bilhões de habitantes, a China é o país com o maior número de execuções – segundo dados extra-oficiais -; foram executadas mais de mil pessoas no ano passado; seguido pelo Irã, com ao menos 252 execuções oficiais, embora se tenha conhecimento de aproximadamente outras 300 extra-oficiais.

O Paquistão encabeça a lista com o maior número de condenações a morte em 2010, com 365; enquanto no Iraque são 279. O saldo final de 2010: 2.224 novas condenações à morte em 67 países. Entretanto, não se contabilizam as massivas condenações que o governo chinês ditou, já que não existem dados oficiais.

Condenações políticas
Sério e introspectivo, como o descreve entre risos sua filha, Abu Jamal é autor de seis livros e uma centena de colunas e artigos. Além de escritor, estuda música: “Ele compôs a mais bela canção de amor para minha mãe”, comenta Goldii.

“É considerado um indivíduo perigoso. O que mais temem é a sua mente; é inocente, mas é demasiado negro, demasiado esperto e demasiado forte. O governo trata de silenciar qualquer pessoa que possua o poder de abrir a mente do povo”.

- Porque considera que a pena de morte persiste como uma sanção penal no seu país?

- Talvez devido aos políticos. As cortes [judiciais] são como vampiros; têm sede de sangue.

José René Paz, colaborador da área internacional do Centro de Direitos Humanos Miguel Augustín Pro Juárez, considera que muitas condenações têm um caráter político e os grupos minoritários são os mais vulneráveis a ser condenados.

“Foram executados muitos dissidentes políticos na China, Irã e Arábia Saudita por serem opositores do regime. Nos Estados Unidos, os hispânicos e os negros não têm acesso a uma boa educação; não conhecem seus direitos, e é mais fácil que sejam condenados à morte”.

Sob o argumento de que é apenas utilizada para os delitos mais graves – aqueles com conseqüências fatais -, os países retencionistas justificam a pena de morte. Entretanto, tem sido documentados casos onde a pena se impõe por delitos comuns, o que viola o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, adotado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1966.

Acusados de moharebeh (um termo islâmico que significa declarar guerra a Deus), 17 iranianos foram condenados à morte em julgamentos onde abundam as irregularidades jurídicas. Além de ser kurdos (minoria étnica no Irã), foram acusados de ser membros do Partido por uma Vida Livre no Kurdistão e do marxista Komala, organizações opositoras ao governo e proibidas pelo Estado.

O delito de blasfêmia, entendido como faltar com respeito para com Deus, foi suficiente para condenar à morte Aasia Bibi – mãe de cinco filhos – em 8 de novembro de 2010 no Paquistão, o pior país onde se pode viver uma mulher, segundo o jornalista irianiano Amirian Nazanin.

Três sinaloenses em poder da Malásia
As sentenças por delitos relacionados com drogas crescem em países como Malásia, Singapura e Tailândia. É precisamente na Malásia onde podem ser condenados à morte três mexicanos originários de Sinaloa, acusados de narcotráfico. Trata-se dos irmãos González Villarreal: Luis Alfonso, de 47 anos; José, de 36, e Simón, de 33, que esperam que a máxima instância judicial da Malásia pegue o caso para que se abra a possibilidade de não serem condenados à forca, já que o juiz que conduz o processo é conhecido por seu punho duro em outros casos.

Ao ser sentenciados, os irmãos seriam os primeiros a ser condenados por narcotráfico e não por homicídio, como seus compatriotas sentenciados nos Estados Unidos. Além disso, seriam os primeiros cuja execução se realizaria pela forca, e não por injeção letal.

Morte por preferência sexual
Estimada como uma orientação sexual comum na maioria dos países, a homossexualidade é considerada como um grave delito na Uganda. Ao aprovar-se a Lei Contra a Homossexualidade neste país africano, seriam condenados à morte aqueles que tenham esta orientação sexual. Não é o único caso extraordinário: no Irã um homem foi condenado em dezembro passado por visitar páginas pornográficas na internet. Os juízes consideraram que abrir estes sites é um insulto ao Islã.

Contralínea solicitou uma entrevista com funcionários da embaixada da China no México, mas até o fechamento desta edição não houve resposta. Também foi solicitada uma entrevista com a embaixada do Irã no México. Patricia Frías, assistente do embaixador, argumentou que a representação do governo iraniano só dá entrevistas sobre questões culturais. Agregou, ainda, que no mês do Ramadán não podem dar entrevistas.

Debate jurídico
Desolado, como se ninguém vivesse ali, o terreno montanhoso rumo à prisão parece infinito. Múltiplas recordações aparecem na mente de Goldii, filha de Mumia Abu Jamal. O trajeto até a prisão lhe implica duas horas. Por fim chega a recompensa: ver seu pai. Não pode abraçá-lo, apenas escutá-lo.

“Me sinto feliz por vê-lo, mas ao mesmo tempo frustrada e enojada: o tratam como um animal. Falamos sobre política, música, sobre as novidades no mundo do hip hop; compartilhamos histórias divertidas sobre minhas filhas e meus sobrinhos. Falo sobre o trabalho que fazemos para conseguir sua liberdade e sobre as milhares de pessoas que o apóiam em nível mundial. O que mais amo é escutar seu riso, é um escape temporal do inferno onde vive”, relata Goldii.

O debate jurídico sobre a pena de morte gira em torno da viabilidade deste castigo como uma forma de prevenir delitos.

Alfredo Nateras, investigador da Universidade Autônoma Metropolitana, considera a aplicação da pena de morte como um retrocesso ao direito internacional, além de existir altos níveis de corrupção nas instâncias de justiça.

“A pena de morte não resolve nada, não tem demonstrado que abaixe os índices de criminalidade. E este sistema está propenso a falhar. Se condenam um inocente e ele é executado, o dano não se repara. Possuir penas tão cruéis significa dar mais poder às instâncias de justiça, que a história tem demonstrado que se equivocam”, explica Nateras.

Apesar do direito internacional não proibir a pena de morte, coloca como destino sua abolição. Os países que ainda a contemplam em suas legislações, insistem no fato de que apenas a utilizam nos delitos mais graves instituídos em suas leis. Argumentam que as resoluções de órgãos internacionais não são obrigatórias, já que suas leis estão acima destas resoluções.

Em 1989, a Assembléia Geral da ONU adotou o Segundo Protocolo Facultativo do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, que estabelece a abolição total da pena de morte. Apenas 73 Estados – entre eles o México – o firmaram e ratificaram.

Três protocolos regionais complementaram o adotado pela ONU: o Protocolo da Convenção Americana sobre Direitos Humanos Relativo à Abolição da Pena de Morte, firmado em 1990 pela Assembléia Geral da Organização dos Estados Americanos; o Protocolo 6 do Convênio Europeu dos Direitos Humanos, adotado pelo conselho da Europa e, 1982, que permitia a pena de morte em tempos de guerra; e, finalmente, o Protocolo 13 do Convênio Europeu dos Direitos Humanos, adotado pelo conselho da Europa em 2002, que não permite a pena de morte mesmo que em tempos de guerra.

Em 21 de dezembro passado, foi adotada a resolução 65/206 da ONU, referente à moratória sobre o uso da pena de morte. Foi votada a favor por 109 países, enquanto 35 – a maioria africanos – se abstiveram. A resolução foi rechaçada por 41 nações, entre elas Estados Unidos, China, Iraque e Afeganistão. A Argélia e Mali votaram a favor da resolução, embora no ano passado tenham condenado dezenas de pessoas à pena capital.

Em entrevista, a deputada do Partido Ação Nacional e integrante da Secretaria da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, Rosi Oroxco, declara que apesar de existir delitos graves como o tráfico de pessoas ou o seqüestro, não se deve aplicar a pena de morte.

“Eu não acredito que o Estado deva ter a legitimidade de privar a vida de uma pessoa. Há uma declaração universal dos direitos humanos da ONU e nela se estabelece que todo indivíduo tem direito a vida, liberdade e segurança, e não prevê nenhuma exceção em relação ao direito a vida. Existem pactos internacionais, mas há países onde não tem sido respeitados, e isto é grave”.

Em agosto de 2008, o Partido Verde Ecologista do México (PVEM) planejou a possibilidade de implantar novamente a pena de morte como sanção judicial em delitos como seqüestro, homicídio ou estupro.

Sobre isso, a deputada comenta: “Respeitamos muito as opiniões das pessoas; eu compreendo a dor das famílias prejudicadas, mas acredito primeiramente no direito à vida. Não temos um sistema de justiça onde se possa conseguir que todas as pessoas tenham acesso à mesma. As pessoas que mais sofreriam de injustiça são aquelas com menos recursos; além disso, a privação da vida é um ato violento e não é responsabilidade do Estado decidir sobre a vida”.

A questão jurídica vai mais além das resoluções internacionais; no Irã, alguns advogados defensores dos condenados têm sido levados ao cárcere por protestar contra a execução.

Na Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Paquistão, Sudão e Yemen, pessoas que não haviam completado 18 anos no momento em que cometeram o delito foram condenadas, violando-se assim o direito internacional.

Foi solicitada uma entrevista com o deputado Guillermo Cueva Sada do PVEM, promotor da pena de morte no México. Em seu escritório se desculparam, pois “o deputado está fora do país”.

A questão cultural
Ao chegar à prisão de Greene, Goldii mostra sua identificação. Para passar pelo detector de metais, tem que tirar seu cinto, sutiã e todo tipo de metal. Depois, é revistada individualmente em uma pequena sala com uma máquina que detecta drogas. Então passa por um posto de controle. Finalmente chega à área de visita. Este processo se repete cada vez que Goldii visita seu pai.

“É devastador para a minha família. Poderia escrever um livro de todos os sofrimentos que temos tido”, relata a filha de um dos condenados mais significativos para os grupos abolicionistas de todo o mundo.

Complementa: “Apesar do rosto do presidente [Barack] Obama também ser negro, o racismo segue presente nos Estados Unidos. Gostaria de confiar que o sistema de justiça é imparcial depois de 29 anos, mas a história tem me demonstrado o contrário”.

- Qual é o momento mais difícil da visita?

- Deixá-lo neste lugar sabendo que não pertence a ele. É uma experiência desoladora.

- O que você pensa no trajeto de volta para casa?

- Me pergunto o que estará fazendo, e o que acontece com ele assim que nos vamos. Penso em nossa conversa e o imagino com um sorriso.

José René Paz define a pena de morte como um tratamento cruel e degradante para a dignidade humana, em sintonia também com as declarações de Alfredo Nateras e da Anistia Internacional.

Paz identifica três pontos vermelhos no mundo onde se lavam a cabo mais execuções e mais condenações: a região do Oriente Médio, China e Estados Unidos.

“O tema da pena de morte é muito cultural, em muitos países se justifica com o Alcorão; mas não creio que este permita estas práticas; depende muito da interpretação que se dá ao provérbio ‘olho por olho, dente por dente’. No México, por exemplo, na ‘guerra’ contra o narcotráfico, o debate da pena de morte retorna. Muitas pessoas querem a pena de morte para todos os narcotraficantes”, declara o colaborador internacional.

Quanto aos métodos de execução, diz que apesar da injeção letal ser o procedimento mais adotado nos tratados internacionais, existem casos em que os químicos da injeção falham e a pessoa permanece agonizando durante três horas.

Ainda comenta que, em casos de lapidação o método é desigual; os homens são enterrados até a cintura antes de serem apedrejados, enquanto as mulheres têm que estar cobertas de terra até os ombros. Se a pessoa consegue escapar enquanto está sendo apedrejada, lhe concedem a graça. É mais fácil que os homens consigam sair.

Os métodos de execução variam dependendo do país. No Japão ou Egito, o método utilizado é o enforcamento. A lapidação é comum no Paquistão. Na Somália e Coréia do Norte se executa com arma de fogo. Na China e Estados Unidos é por meio de injeção letal, e na Arábia Saudita se termina com a vida mediante a decapitação.

Na América, o país onde são feitas mais execuções é Estados Unidos: mais de 3.200 pessoas esperam sua execução, e 138 condenações foram comutadas desde 1973. Apesar de na América Latina a pena de morte ser considerada abolida, alguns países – como Guatemala, Belice – e algumas ilhas caribenhas – como Bahamas e Jamaica – ainda a praticam. Em Cuba, desde 2003 não acontecem execuções.

A Europa é o continente mais abolicionista, apenas a Bielorrusia manteve esta prática vigente. Em 7 de outubro de 2010, em uma tentativa de abolir por completo a pena de morte, se criou – por iniciativa do governo espanhol – a Comissão Internacional contra a Pena de Morte. Formada por diferentes personalidades internacionais – ex-primeiros ministros, embaixadores e advogados -, seu compromisso é acompanhar as organizações e órgãos abolicionistas para conseguir um mundo sem a pena de morte.

Apesar das milhares de execuções e condenações na Ásia – o continente onde mais se executa – e Estados Unidos, a Anistia Internacional se mostra otimista e declara que o mundo se encaminha para a abolição da pena de morte. Em seu Informe 2010, explica que a cada ano mais países proíbem esta prática.

Alfredo Nateras considera que para terminar por completo com a pena de morte no mundo, é necessário cidadanizar as instâncias de procuração de justiça; além disso, trabalhar a partir de diferentes âmbitos em uma cultura de paz, de vida e respeito aos direitos humanos. Planeja que para que isso ocorra, os movimentos sociais têm que ser capazes de influenciar as legislações e pedir satisfações aos funcionários públicos sobre seu trabalho, até chegar a uma verdadeira democratização social onde não se execute nenhum ser humano.

O julgamento de Abu Jamal se encontra em um momento crítico; os tribunais revisarão novamente o caso; abre-se a possibilidade de que a pena de morte seja comutada e mude para prisão perpétua. Para seus familiares e as milhares de pessoas que o apóiam a nível global, só existe uma opção: sua liberdade absoluta.

- Se seu pai for libertado, haverá justiça?

- Justiça atrasada, mas sim.

Goldii, a filha de Mumia Abu Jamal, conclui: “É impossível retornar no tempo; não posso voltar a quando tinha três anos de idade. Não posso voltar à minha graduação do quinto grau. Houve muitos eventos da vida que ele perdeu e que jamais serão substituídos. Isso é muito triste. O corredor da morte é desenhado para quebrar o espírito humano, mas seu espírito ainda está vivo”.

Logo Goldiin levará sua filha menor para conhecer o avô na prisão, do mesmo modo que a levaram para conviver com seu pai por detrás de um grosso vidro de acrílico, desde que tinha dois anos e meio.

Por: Rogelio Velázquez

Fonte: Revista Contralínea 247/21 de agosto de 2011 - México

Tradução > Coletivo Anarcopunk Diversidade

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terça-feira, 13 de setembro de 2011

Havia alternativa? Chomsky revisita o 11 de Setembro

Havia alternativa? Chomsky revisita o 11 de SetembroA resposta ao 11 de Setembro, um ataque maciço a uma população muçulmana, conduziu os Estados Unidos à 'armadilha diabólica' estendida por Bin Laden. O resultado foi que Washington continuou a ser o único aliado indispensável de Bin Laden, mesmo após a sua morte. Gastos militares grotescamente aumentados e dependência da dívida... pode ser o mais pernicioso legado do homem que pensou que poderia derrotar os Estados Unidos.

Estamos a aproximar-nos do 10º aniversário das horrendas atrocidades do 11 de setembro de 2001, que, como se diz habitualmente, mudaram o mundo. No dia 1° de Maio deste ano, o presumível mentor do crime, Osama Bin Laden, foi assassinado no Paquistão por um comando militar de elite dos EUA, os SEALs da Marinha, depois de ter sido capturado, desarmado e indefeso, na Operação Geronimo.

Uma série de analistas observaram que Bin Laden, apesar de ter sido finalmente morto, obteve importantes sucessos na sua guerra contra os EUA. “Ele afirmou muitas vezes que a única maneira de expulsar os EUA do mundo muçulmano e derrotar os seus sátrapas era atrair os americanos para uma série de pequenas mas caras guerras, que acabariam por arruiná-los”, escreve Eric Margolis. “'Sangrar os EUA', nas suas próprias palavras.

Os Estados Unidos, primeiro sob George W. Bush e depois sob Barack Obama, correram diretamente para a armadilha de Bin Laden... Gastos militares grotescamente aumentados e dependência da dívida... pode ser o mais pernicioso legado do homem que pensou que poderia derrotar os Estados Unidos” – particularmente quando a dívida está a ser cinicamente explorada pela extrema-direita, com a conivência do establishment democrata, para minar o que resta de programas sociais, de educação pública, de sindicatos, e, em geral, das restantes barreiras à tirania empresarial.

Logo se tornou evidente que Washington estava inclinado a realizar os mais fervorosos desejos de Bin Laden. Como discuti no meu livro “9-11”, escrito pouco depois da ocorrência dos ataques, qualquer um que conhecesse a região poderia reconhecer “que um ataque maciço a uma população muçulmana era a resposta às orações de Bin Laden e dos seus seguidores, e conduziria os Estados Unidos e os seus aliados a uma 'armadilha diabólica', nas palavras do ministro dos Negócios Estrangeiros francês”.

O analista sênior da CIA responsável por perseguir Osama Bin Laden desde 1996, Michael Scheuer, escreveu pouco depois que “Bin Laden tem dito com precisão as razões que o levaram a desencadear a guerra contra nós. [Ele] pretende mudar de forma drástica as políticas dos EUA e do Ocidente em relação ao mundo islâmico”, e com um amplo sucesso: “As forças e as políticas dos EUA estão a provocar a radicalização do mundo islâmico, algo que Osama Bin Laden vem tentando fazer com sucesso substancial, mas incompleto, desde o início dos anos 90. O resultado, parece-me justo concluir, é que os Estados Unidos da América continuam a ser o único aliado indispensável de Bin Laden.” E possivelmente continuam a sê-lo, mesmo após a sua morte.

O primeiro 11/9
Havia uma alternativa? Há todas as probabilidades de que o movimento jihadista, muito do qual altamente crítico a Bin Laden, pudesse ter sido dividido e minado após o 11/9. O “crime contra a humanidade”, como era correctamente chamado, poderia ter sido abordado como um crime, com uma operação internacional para deter os presumíveis suspeitos. Na época esta ideia foi reconhecida, mas a sua execução sequer foi considerada.

Em “9-11”, citei a conclusão de Robert Fisk de que “o crime horrendo” de 11/9 foi cometido “com maldade e crueldade impressionante,” um juízo exato. É útil ter em mente que os crimes poderiam ter sido ainda piores. Suponham, por exemplo, que o ataque tivesse ido tão longe ao ponto de bombardear a Casa Branca, matando o presidente, de impor uma ditadura militar brutal que matasse milhares e torturasse dezenas de milhares, instalando ao mesmo tempo um centro de terror internacional que ajudasse a impor estados similares de tortura-e-terror noutros países, e executando uma campanha internacional de assassinato; e como um incentivo suplementar, tivesse trazido uma equipa de economistas – chamemos-lhes de “os Kandahar boys” – que rapidamente conduzissem a economia a uma das piores depressões da sua história. Claramente, teria sido muito pior do que o 11/9.

Infelizmente, nada disto é especulação. Aconteceu. A única inexatidão neste breve relato é que os números devem ser multiplicados por 25 para produzir equivalentes per capita, a medida apropriada. Refiro-me, naturalmente, àquilo que na América Latina é frequentemente chamado de “o primeiro 11/9”: o 11 de Setembro de 1973, quando os Estados Unidos culminaram com sucesso os seus esforços para derrubar o governo democrático de Salvador Allende, no Chile, com um golpe militar que levou ao poder o regime brutal do general Pinochet. O objetivo, nas palavras da administração Nixon, era matar o “vírus” que poderia estimular todos esses “estrangeiros [que] andam a querer tramar-nos” e que queriam assumir o controle dos seus próprios recursos e aplicar uma política intolerável de desenvolvimento independente. A apoiar esta política estava a conclusão do Conselho de Segurança Nacional que, se os EUA não conseguiam controlar a América Latina, não se podia esperar que conseguissem realizar a sua Ordem “em qualquer outro lugar no mundo.”

O primeiro 11/9, ao contrário do segundo, não mudou o mundo. Não era “nada de grandes consequências”, como garantiu Henry Kissinger ao seu chefe poucos dias depois.

Estes eventos de poucas consequências não se limitaram ao golpe militar que destruiu a democracia chilena e pôs em movimento a história de horror que se seguiu. O primeiro 11/9 foi apenas um ato de um drama que começou em 1962, quando John F. Kennedy alterou a missão dos militares latino-americanos de “defesa hemisférica” – um resquício anacrônico da Segunda Guerra Mundial – para a “segurança interna”, um conceito com uma interpretação arrepiante nos círculos latino-americanos dominados pelos EUA.

Na “História da Guerra Fria”, recentemente publicada pela Universidade de Cambridge, o acadêmico latino-americano John Coatsworth escreve que daquele tempo até “ao colapso soviético em 1990, o número de presos políticos, de vítimas de tortura, e de execuções de dissidentes políticos não violentos na América Latina excedeu amplamente os da União Soviética e seus satélites europeus do Leste,” incluindo também muitos mártires religiosos e massacres em massa, sempre apoiados ou iniciado em Washington. O último grande ato violento foi o assassinato brutal de seis importantes intelectuais latino-americanos, sacerdotes jesuítas, poucos dias depois da queda do Muro de Berlim. Os criminosos foram um batalhão de elite salvadorenho, que já tinha deixado um chocante rasto de sangue, recém saído de um treinamento na Escola de Guerra Especial JFK, que actua sob as ordens diretas do Alto Comando do estado cliente dos Estados Unidos.

Evidentemente, as consequências desta praga hemisférica ainda ecoam.

Dos raptos à tortura e ao assassinato
Tudo isto, e muitas coisas semelhantes, são desvalorizadas como sendo de pouca importância, e esquecidas. Aqueles cuja missão é governar o mundo desfrutam de uma imagem mais reconfortante, muito bem articulada na atual edição do prestigiado (e valioso) jornal do Royal Institute of International Affairs, em Londres. O artigo principal discute “a ordem internacional visionária” da “segunda metade do século XX” marcada pela “universalização de uma visão americana da prosperidade comercial”. Eis uma visão que não chega a exprimir a percepção daqueles que estão do lado errado das armas.

O mesmo vale para o assassinato de Osama Bin Laden, que põe fim, pelo menos, a uma fase da “guerra contra o terror” re-declarada pelo presidente George W. Bush no segundo 11/9. Façamos algumas reflexões sobre esse evento e o seu significado.

Em 1° maio de 2011, Osama Bin Laden foi morto na sua praticamente desprotegida residência por uma incursão de 79 SEALs da Marinha, que entraram no Paquistão de helicóptero. Depois de muitas histórias sensacionalistas fornecidas pelo governo e retiradas, os relatórios oficiais tornaram cada vez mais claro que a operação foi um assassinato planejado, violando multiplamente as normas elementares do direito internacional, começando com a invasão em si.

Não parece ter havido qualquer tentativa de deter a vítima desarmada, como presumivelmente poderia ter sido feito por 79 comandos que não enfrentaram oposição – excepto, relatam, da sua esposa, também desarmada, contra a qual dispararam em legítima defesa, quando ela “arremeteu” sobre eles, de acordo com a Casa Branca.

A reconstrução plausível dos acontecimentos foi feita pelo veterano correspondente no Oriente Médio, Yochi Dreazen, e colegas na revista Atlantic. Dreazen, ex-correspondente militar do Wall Street Journal, é correspondente sênior do Grupo National Journal, cobrindo assuntos militares e de segurança nacional. De acordo com a sua investigação, o planeamento da Casa Branca não parece ter considerado a opção de capturar Bin Laden vivo: “O governo deixou claro ao clandestino Comando Conjunto de Operações Especiais que queria Bin Laden morto, de acordo com uma autoridade sênior dos EUA que teve conhecimento das discussões. Um oficial de alta patente militar que foi informado do assalto disse que os SEALs sabiam que a sua missão não era levá-lo vivo.”

Os autores acrescentam: “Para muitos, no Pentágono e na CIA, que tinham passado quase uma década a caçar Bin Laden, matar o militante foi um ato necessário e justificado de vingança”. Além disso, “a captura de Bin Laden vivo teria também posto a administração diante de uma série de incômodos desafios jurídicos e políticos”. Melhor, então, assassiná-lo, deitar o corpo ao mar sem a autópsia considerada essencial depois de uma morte – um ato que previsivelmente provocou raiva e ceticismo em grande parte do mundo muçulmano.

Como observa a investigação da Atlantic: “A decisão de matar Bin Laden sem rodeios foi a ilustração mais clara até agora de um aspecto pouco notado da política de contra-terrorismo da administração Obama. O governo Bush capturou milhares de militantes suspeitos e enviou-os para campos de detenção no Afeganistão, no Iraque e na Baía de Guantánamo. A administração Obama, em contraste, tem-se concentrado em eliminar terroristas individuais em vez de tentar capurá-los vivos.” Trata-se de uma diferença significativa entre Bush e Obama. Os autores citam o ex-chanceler da Alemanha Ocidental Helmut Schmidt, que “disse à TV alemã que a invasão dos EUA foi 'muito claramente uma violação do direito internacional' e que Bin Laden deveria ter sido detido e levado a julgamento”, contrapondo Schmidt ao Procurador Geral dos EUA, Eric Holder, que “defendeu a decisão de matar Bin Laden, embora este não representasse uma ameaça imediata para os SEALs, dizendo a um painel da Câmara ... que o assalto tinha sido 'legal, legítimo e adequado em todos os sentidos'”.

A eliminação do corpo sem autópsia também foi criticada por aliados. O eminente advogado britânico Geoffrey Robertson, que apoiou a intervenção e se opôs à execução em grande parte por razões pragmáticas, considerou no entanto a afirmação de Obama de que “fora feita justiça” como um “absurdo”, o que deveria ser óbvio para um ex-professor de direito constitucional. A lei do Paquistão “exige um inquérito sobre a morte violenta e a legislação internacional de direitos humanos insiste que o 'direito à vida' obriga a um inquérito sempre que ocorre uma morte violenta por acção de um governo ou da polícia. Os EUA têm, portanto, o dever de realizar um inquérito que satisfaça o mundo quanto às verdadeiras circunstâncias desta morte.”

Robertson, a propósito, recorda-nos que “nem sempre foi assim. Quando chegou a hora de decidir o destino de homens muito mais mergulhados na maldade que Osama Bin Laden – a liderança nazi – o governo britânico queria que eles fossem enforcados seis horas após a captura. O presidente Truman hesitou, citando a conclusão de Robert Jackson, do Supremo Tribunal, que a execução sumária “não se sentaria facilmente na consciência americana nem seria lembrada pelos nossos filhos com orgulho... o único caminho é determinar a inocência ou culpa do acusado depois de uma audiência tão desapaixonada quanto os tempos permitam e após um registo que vai deixar claros as nossas razões e motivos”.

Eric Margolis comenta que “Washington nunca publicou provas da sua afirmação de que Osama bin Laden esteve por trás dos ataques do 11 de Setembro”, presumivelmente uma razão pela qual “as sondagens mostram que pelo menos um terço dos americanos que responderam acredita que o governo de Estados Unidos e/ou Israel estiveram por trás do 11 de Setembro”, enquanto no mundo muçulmano o ceticismo é muito mais alto. “Um julgamento aberto nos Estados Unidos ou em Haia teria exposto essas afirmações à luz do dia”, continua, razão prática pela qual Washington deveria ter seguido a lei.

Em sociedades que professam algum respeito pela lei, os suspeitos são detidos e levados a um julgamento justo. Sublinho "suspeitos". Em junho de 2002, o chefe do FBI Robert Mueller, no que o Washington Post descreveu como “entre os seus comentários públicos mais detalhados sobre a origem dos ataques”, pôde dizer apenas que “os investigadores crêem na ideia de que os ataques do 11 de Setembro ao World Trade Center e ao Pentágono vieram de líderes da Al Qaeda no Afeganistão, a maquinação efectiva foi feita na Alemanha, e o financiamento veio através dos Emirados Árabes Unidos a partir de fontes no Afeganistão.”

O que o FBI acreditou e pensou em junho de 2002 não o sabia oito meses antes, quando Washington repeliu ofertas provisórias dos Taliban (quão sérias, não sabemos) para permitir um novo julgamento de Bin Laden se lhes fossem apresentadas provas. Assim, não é verdade, como o presidente Obama afirmou nas suas declarações da Casa Branca depois da morte de Bin Laden, que “rapidamente soubemos que os ataques do 11 de Setembro foram executados pela Al-Qaeda.”

Nunca houve alguma razão para duvidar do que o FBI acreditou em meados de 2002, mas isto deixa-nos longe da prova da culpa requerida em sociedades civilizadas – e quaisquer que as provas fossem, não justificam o assassinato de um suspeito que, parece, teria sido facilmente detido e levado a julgamento. O mesmo é mais ou menos verdade quanto às provas fornecidas desde então. Assim, a Comissão do 11 de Setembro forneceu provas circunstanciais extensas do papel de Bin Laden no 11 de Setembro, baseando-se principalmente no que lhe tinha sido dito sobre confissões de presos de Guantánamo. É duvidoso que muito disso se sustivesse num julgamento independente, tendo em conta as maneiras como as confissões foram extraídas. Mas, em qualquer caso, as conclusões de uma investigação autorizada pelo Congresso, por muito convincentes que se possam achar, claramente ficariam aquém de uma sentença por um tribunal credível, que é o que passa a categoria do acusado de suspeito para condenado.

Fala-se muito da "confissão" de Bin Laden, mas aquilo foi uma fanfarronice, não uma confissão, com tanta credibilidade quanto a minha "confissão" de que ganhei a maratona de Boston. A fanfarronice diz-nos muito do seu caráter, mas nada da sua responsabilidade pelo que ele considerou como um grande feito, do qual quis ficar com o crédito.

De novo, tudo isso é, de forma transparente, bastante independente do nosso juízo sobre a sua responsabilidade, que pareceu clara imediatamente, mesmo antes do inquérito do FBI, e que ainda parece.

Crimes de Agressão
Vale a pena acrescentar que a responsabilidade de Bin Laden foi reconhecida na maior parte do mundo muçulmano e condenada. Um exemplo significativo é o do eminente clérigo libanês, xeique Fadlallah, muito respeitado em geral pelo Hezbollah e por grupos xiitas, também fora do Líbano. Ele tinha alguma experiência com assassinatos. Tinha sido visado para assassínio: por um caminhão-bomba fora duma mesquita, numa operação organizada pela CIA em 1985. Escapou, mas 80 outros foram mortos, na maior parte mulheres e meninas ao saírem da mesquita – um daqueles crimes inumeráveis que não entram para os anais do terror por causa da falácia “da agência errada.” O xeique Fadlallah condenou marcadamente os ataques do 11 de Setembro.

Um dos especialistas principais do movimento jihadista, Fawaz Gerges, sugere que o movimento poderia ter-se dividido, tivessem os Estados Unidos explorado a oportunidade, em vez de mobilizar o movimento, em particular com o ataque ao Iraque, um grande benefício para Bin Laden, que levou a um aumento acentuado do terror, como as agências de espionagem tinham antecipado. Nas audições Chilcot, ao investigar o contexto da invasão do Iraque, por exemplo, o antigo chefe da agência de informações internas britânica MI5 declarou que tanto a agência britânica como a dos Estados Unidos estavam conscientes de que Saddam não representava qualquer ameaça séria, que a invasão provavelmente aumentaria o terror e que as invasões do Iraque e do Afeganistão tiveram partes de uma geração radicalizada de muçulmanos que viram as acções militares como “um ataque ao Islão”. Como acontece muitas vezes, a segurança não foi uma prioridade alta para a acção do estado.

Poderia ser instrutivo perguntarmo-nos como estaríamos reagindo se comandos iraquianos tivessem aterrado no complexo militar de George W. Bush, o assassinassem e lançassem o corpo no Atlântico (depois dos rituais fúnebres devidos, naturalmente). Sem sombra de controvérsia, ele não era um "suspeito" mas sim o "decisor" que deu as ordens para invadir o Iraque – isto é, cometer “o crime internacional supremo que só se diferencia de outros crimes de guerra por conter dentro de si a maldade acumulada da totalidade” pelo qual os criminosos nazis foram enforcados: as centenas de milhares de mortes, os milhões de refugiados, a destruição da maior parte do país e do seu patrimônio nacional e o conflito sectário assassino que agora se estendeu ao resto da região. Igualmente de forma incontroversa, esses crimes excederam vastamente tudo o atribuído a Bin Laden.

Dizer que tudo isso é incontroverso, conforme é, não quer dizer que não seja negado. A existência de aplanadores da Terra não muda o fato de que, de forma incontroversa, a terra não é plana. De forma semelhante, é incontroverso que Stalin e Hitler foram responsáveis por crimes horrendos, embora os seus partidários o neguem. Tudo isto deveria, de novo, ser demasiado óbvio para ser comentado, e sê-lo-ia, excepto numa atmosfera de histeria tão extrema que bloqueasse o pensamento racional.

De forma semelhante, é incontroverso que Bush e seus parceiros cometeram mesmo o “crime internacional supremo” – o crime da agressão. Aquele crime foi definido de forma suficientemente clara pelo magistrado Robert Jackson, o Chefe do Conselho dos Estados Unidos em Nuremberga. "Um agressor", propôs Jackson ao Tribunal na sua declaração de abertura, é um estado que é o primeiro a cometer tais ações como a “invasão pelas suas forças armadas, com ou sem declaração da guerra, do território de outro estado”. Ninguém, nem mesmo o apoiante mais extremo da agressão, nega que Bush e parceiros fizeram precisamente isso.

Também faríamos bem em lembrar as palavras eloquentes de Jackson em Nuremberga sobre o princípio da universalidade: “Se certos atos na violação de tratados são crimes, são crimes sejam os Estados Unidos ou seja a Alemanha fazê-los e não estamos preparados para estabelecer uma regra da conduta criminal contra outros que não estivéssemos dispostos a ter invocado contra nós”.

É também claro que intenções anunciadas são irrelevantes, mesmo se nelas se acreditar verdadeiramente. Registos internos revelam que os fascistas japoneses aparentemente acreditaram que, ao assolar a China, se esforçavam por a converter “num paraíso terrestre”. E embora possa ser difícil imaginar, é concebível que Bush e companhia acreditassem que protegiam o mundo da destruição pelas armas nucleares de Saddam. Tudo irrelevante, embora partidários ardentes em todos os lados possam tentar convencer-se de outra coisa.

Deixam-nos duas escolhas: ou Bush e seus parceiros são culpados do “crime internacional supremo” incluindo de todos os males que se seguem, ou então declaramos que os processos de Nuremberga foram uma farsa e que os aliados eram culpados de assassinato judicial.

A Mentalidade Imperial e o 11 de Setembro
Alguns dias antes do assassinato de Bin Laden, Orlando Bosch morreu pacificamente na Flórida, onde viveu juntamente com o seu cúmplice Luis Posada Carriles e muitos outros parceiros do terrorismo internacional. Depois de ter sido acusado de dúzias de crimes terroristas pelo FBI, Bosch recebeu um perdão presidencial de Bush I, passando por cima das objecções do Departamento de Justiça que considerou a conclusão “inevitável de que seria prejudicial para o interesse público dos Estados Unidos fornecer um porto seguro a Bosch”. A coincidência dessas mortes imediatamente traz a doutrina de Bush II à lembrança – “já … uma regra de facto das relações internacionais”, segundo o notável especialista de relações internacional de Harvard Graham Allison – que renega “a soberania de estados que fornecem santuário a terroristas”.

Allison refere-se à declaração oficial de Bush II, dirigida aos Taliban, de que “aqueles que abrigam terroristas são tão culpados como os próprios terroristas”. Tais estados, portanto, perderam a sua soberania e são objectivos prontos para bombardeamento e terror – por exemplo, o estado que abrigou Bosch e o seu parceiro. Quando Bush emitiu esta nova “ regra de fato das relações internacionais,” ninguém pareceu notar que ele apelava à invasão e destruição dos Estados Unidos e ao assassínio dos seus presidentes criminosos.

Nada disto é problemático, claro, se rejeitarmos o princípio da universalidade do magistrado Jackson, e adotarmos antes o princípio de que os Estados Unidos são auto-imunes contra o direito internacional e as convenções – como, de fato, o governo tornou frequentemente muito claro.

Vale a pena também pensar no nome dado à operação de Bin Laden: Gerônimo. A mentalidade imperial é tão profunda que poucos parecem capazes de perceber que a Casa Branca está a glorificar Bin Laden chamando-lhe “Gerônimo” - o chefe índio apache que conduziu a resistência corajosa aos invasores das terras Apache.

A escolha descuidada do nome lembra a tranquilidade com que damos nomes às nossas armas de assassinato a partir das vítimas dos nossos crimes: Apache, Blackhawk [1]… Poderíamos reagir diferentemente se a Luftwaffe tivesse chamado aos seus aviões de combate "Judeu" e "Cigano".

Os exemplos mencionados caem dentro da categoria “excepcionalismo americano,” não fosse o facto de uma supressão fácil dos crimes próprios ser virtualmente ubíqua entre estados poderosos, pelo menos naqueles que não são derrotados e obrigados a reconhecer a realidade.

Talvez o assassinato tenha sido percebido pela administração como “um ato de vingança,” como Robertson conclui. E talvez a rejeição da opção legal de um julgamento reflicta uma diferença entre a cultura moral de 1945 e a de hoje, como ele sugere. Qualquer que fosse o motivo, dificilmente podia ter sido apenas a segurança. Como no caso de “crime internacional supremo” no Iraque, o assassinato de Bin Laden é outra ilustração do fato importante de que a segurança é muitas vezes não uma alta prioridade da ação do estado, ao contrário da doutrina que recebemos.

(*) Noam Chomsky é Professor emérito do Instituto no Departamento de Linguística e Filosofia do MIT. É autor de numerosas obras políticas de topo de vendas, incluindo “9-11: Was There an Alternative?” (Seven Stories Press), uma versão atualizada do seu relato clássico, que acaba de ser publicada esta semana juntamente com um novo ensaio destacado – a partir do qual este post foi adaptado – levando em conta os 10 anos desde os ataques do 11 de Setembro.
(**) Tradução de Luis Leiria e Paula Sequeiros para o Esquerda.net
A partir de texto publicado em Tom Dispatch
[1] NT: Blackhawk, líder guerreiro dos nativos Norte-Americanos Sauk que demonstrou ser um poderoso opositor dos invasores colonizadores ingleses
Fonte: http://www.cartamaior.com.br/

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Troquem os “Cinco Cubanos” pelo “contratista dos Estado Unidos”, propõe o USA Today - por Jean-Guy Allard

Troquem os “Cinco Cubanos” pelo “contratista dos Estado Unidos”, propõe o USA TodayO “contratista” norte-americano Alan Gross “poderia estar em casa em poucos dias” se os EUA o permutassem pelos cinco cubanos “encarcerados há 13 anos” neste país, propõe o comentarista De Wayne Wickham, em artigo publicado no USA Today. “Quando o FBI prendeu 10 espiões russos no ano passado”, recorda Wickham, foram “rapidamente trocados por quatro homens em mãos da Rússia acusados de ser agentes de espionagem dos EUA e Grã Bretanha”.

Num artigo firmado pelo seu comentarista DeWayne Wickham, o diário norte-americano USA Today assinala que o “contratista” norte-americano Alan Gross “poderia estar em casa em poucos dias” se os Estados Unidos o permutassem pelos cinco cubanos “encarcerados há 13 anos” neste país.

“Quando o FBI prendeu 10 espiões russos no ano passado”, recorda Wickham, foram “rapidamente trocados por quatro homens em mãos da Rússia acusados de ser agentes de espionagem para os Estados Unidos e a Grã Bretanha”.

O governo dos Estados Unidos “levou pouco mais de uma semana” para negociar a saída a Moscou dos “agentes russos”, que “haviam estado neste país por mais de uma década”.

“Depois de breve comparecimento ante um tribunal federal para declarar-se culpado de uma só acusação de conspiração “para atuar como agente de um país estrangeiro", os russos foram trasladados a seu país.

Dos quatro homens que foram postos em liberdade pela Rússia – todos eles russos – em troca desse gesto, “dois foram levados para a Grã Bretanha, os outros aterrissaram em Washington e em seguida desapareceram numa caravana de caminhonetas de cor preta”.

Conclui o analista do USA Today: “O governo dos Estados Unidos deve fazer o mesmo com Alan Gross”.

O diário recorda como “sete meses antes deste intercâmbio” entre Estados Unidos e Rússia, Gross foi preso em Cuba e acusado de cometer "atos contra a independência e integridade territorial"

Gross trabalhava para o Development Alternatives, Inc., um contratista do Departamento de Estado dos Estados Unidos que se dedicava a estabelecer em Cuba uma rede ilegal de comunicação satelital de última geração.

Condenado a 15 anos de prisão, Gross confessou a um tribunal de apelações que havia sido um “tolo de confiança”, segundo uma transcrição difundida recentemente por seu advogado estadunidense.

“Talvez Gross ignorasse a gravidade de suas ações, porém o Departamento de Estado não”, escreve o comentarista do USA Today. “Ao envolver a empresa que contratou Gross para ajudar a implementar seu "Programa da Democracia em Cuba", os diplomatas de Foggy Bottom (Nota: o bairro onde se localiza o Departamento de Estado) seguramente sabiam dos riscos aos quais se expunha com a execução de uma parte “privatizada” de seus esforços para conseguir uma “mudança de regime” na Ilha.

“Tinham de saber que se se detectava a Gross, ele seria tratado como um espião”.

A espionagem é um assunto que, “lamentavelmente, produz uma grande quantidade de danos colaterais”. Manter os Cinco Cubanos em prisão não tem utilidade alguma e sua troca poderia mudar a sorte de Gross, “um homem que diz que foi enganado no jogo da espionagem”.

Ressaltando que, obviamente, um tal gesto humanitário encontrará resistência entre alguns exilados cubanos, Wickham termina no entanto insistindo que Gross “deve ser intercambiado com os Cinco Cubanos, com tanta rapidez” com a que se fez no caso da Rússia.”

Tradução: Max Altman
Fonte: Carta Maior

USA: as garras da destruição - por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

O Ateliê do Pintor (Gustave Courbet) - por ANA

O Ateliê do Pintor (Gustave Courbet)Pequeno estudo sobre um dos pintores, precursores anarquistas, amigo de Proudhon. Sua obra mostra a realidade, a confrontação capital, igreja, trabalhadores...

A seguir, uma pequena biografia:

Com O Ateliê do Pintor (tela em anexo), Gustave Courbet¹ desafia a hierarquia através de uma espécie de manifesto pessoal, alça a cena de gênero à categoria de pintura histórica, que, por outro lado, utiliza o formato. Courbet mistura neste quadro todas as categorias tradicionais: a paisagem, cenas de gênero, nus, retrato de grupo, still life (natureza morta).

A tela é, de fato, uma galeria de retratos, ou seja, uma reunião de figuras conhecidas, de alegorias, ou simplesmente de diferentes categorias sociais. Busca assim dar a todas essas classes sua carta de nobreza.

Pelas palavras “alegoria real", o artista diz a seu público-alvo que cada um dos personagens representa uma idéia, e um ser de carne e osso. Sob a influência de Proudhon, se faz moralizador e é o mundo que se propõe julgar.

O nu pode ser visto como uma representação alegórica da pintura que admira e que inspira a arte de Courbet.

O subtítulo dá, por outro lado, a medida de uma meta ambiciosa e um pouco enigmática do pintor. Courbet busca realmente fazer algum tipo de balanço de seu trabalho através deste quadro.

O tema da criação artística não é incomum, mas Courbet o renova colocando-se no centro, como protagonista principal. Reivindica assim seu status como artista.

Localização: Musée d´Orsay (Paris, França)

Estilo artístico: Realismo

Técnica: Óleo sobre tela

Dimensões: 359 cm x 598 cm.

Mais informações: Obra; Realismo

Detalhes da imagem 'O Ateliê do Pintor. Gustave Courbet. 1855'

Courbet: Este quadro do artista é um fiel reflexo de seu temperamento e sua condição política. Quando em 1855 apresentou esta pintura junto com outros na Exposição Universal do mesmo ano, foi rejeitado. Courbet criou paralelamente um Pavilhão do Realismo, precursor dos famosos Salões dos Rejeitados.

Personagens: O quadro evidencia todas as etapas e influências de Courbet. À esquerda as pessoas das classes baixas, retratadas de forma realista.

Paisagem: Seguindo com a idéia de representar no quadro todas as suas influências, Courbet pinta aqui um dos gêneros que cultivou: a paisagem. Especificamente, uma paisagem de Ornans.

São Sebastião: O quadro também é representado como um Juízo Final, com os esquecidos a esquerda e os intelectuais à direita. No centro é São Sebastião, trespassado por flechas, representando a Academia.

Pastor: Um pastor inocente observa a cena. É um dos espectadores ideais, puros, de Courbet.

Mulher: Sua musa nua aparece como a parte mais sensual da observação. É outro dos espectadores ideais para Courbet, representando uma Alegoria da Verdade.

Peito: Na parte esquerda, a da miséria, retrata uma mulher a amamentar. Simbolizaria a fome, a miséria.

Elementos: Representa um chapéu e um punhal como a poesia romântica

Imprensa: Uma caveira sobre um jornal representa a imprensa.

Burguês: Segundo alguns autores, o burguês representado sentado poderia ser o próprio avô de Courbet, mas para outros é o ministro da economia arrecadando fundos para o golpe de Estado.

Baudelaire: Ao lado dos intelectuais se encontra Baudelaire, simbolizando a poesia.

Burgueses: Alguns espectadores visitam o estúdio do artista, enquanto seu filho aos pés desenha no papel. Simboliza o estudo e interesse cultural.

Amor: Em segundo plano se encontra um casal que se abraça, símbolo do amor livre.

Intelectuais: Ao fundo está Proudhon, seu amigo Brujas, Promayet e Buchon.

Cor: O tom é predominantemente marrom, o escuro, muito influenciado pelas obras barrocas que viu no Louvre e que tanto admirou.

Champfleury: O crítico de arte está sentado em um banquinho, observando a cena.

Janela: Uma janela ilumina a cena. Curiosamente, o foco está sobre a figura central, do artista, como se dissesse que ele é o mediador da cena, o verdadeiro protagonista.

A arte em todas as suas facetas: música, pintura, teatro, cinema... é uma ferramenta inesgotável de luta, educação e formação humanista que todos anarquista deveria ter.

Ela Izquierdo
[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/Gustave_Courbet

agência de notícias anarquistas-ana
a menina leva
de carona na mochila
uma borboleta
Sérgio Francisco Pichorim

domingo, 11 de setembro de 2011

10 anos de Mortes por Mortes!


Fonte: www.miseriahq.blogspot.com

10 anos da Nova Ordem Mundial – por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

sábado, 10 de setembro de 2011