terça-feira, 15 de novembro de 2011

Dez fatos que a "grande" imprensa esconde da sociedade - por Marco Aurélio Weissheimer

Dez fatos que a "grande" imprensa esconde da sociedadeAs entidades que reúnem as grandes empresas de comunicação no Brasil usam e abusam da palavra "censura" para demonizar o debate sobre a regulação da mídia. No entanto, são os seus veículos que praticam diariamente a censura escondendo da população as práticas de regulação adotadas há anos em países apontados como modelos de democracia. Conheça dez dessas regras que não são mencionadas pelos veículos da chamada "grande" imprensa brasileira.

O debate sobre regulação do setor de comunicação social no Brasil, ou regulação da mídia, como preferem alguns, está povoado por fantasmas, gosta de dizer o ex-ministro da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, Franklin Martins. O fantasma da censura é o frequentador mais habitual, assombrando os setores da sociedade que defendem a regulamentação do setor, conforme foi estabelecido pela Constituição de 1988.

Regulamentar para quê? – indagam os que enxergam na proposta uma tentativa disfarçada de censura. A mera pergunta já é reveladora da natureza do problema. Como assim, para quê? Por que a comunicação deveria ser um território livre de regras e normas, como acontece com as demais atividades humanas? Por que a palavra “regulação” causa tanta reação entre os empresários brasileiros do setor?

O que pouca gente sabe, em boa parte por responsabilidade dos próprios meios de comunicação que não costumam divulgar esse tema, é que a existência de regras e normas no setor da comunicação é uma prática comum naqueles países apontados por esses empresários como modelos de democracia a serem seguidos.

O seminário internacional Comunicações Eletrônicas e Convergências de Mídias, realizado em Brasília, em novembro de 2010, reuniu representantes das agências reguladoras desses países que relataram diversos casos que, no Brasil, seriam certamente objeto de uma veemente nota da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT) denunciando a tentativa de implantar a censura e o totalitarismo no Brasil.

Ao esconder a existências dessas regras e o modo funcionamento da mídia em outros países, essas entidades empresariais é que estão praticando censura e manifestando a visão autoritária que tem sobre o tema. O acesso à informação de qualidade é um direito. Aqui estão dez regras adotadas em outros países que os barões da mídia brasileira escondem da população:

1. A lei inglesa prevê um padrão ético nas transmissões de rádio e TV, que é controlado a partir de uma mescla da atuação da autorregulação dos meios de comunicação ao lado da ação do órgão regulador, o Officee of communications (Ofcom). A Ofcom não monitora o trabalho dos profissionais de mídia, porém, atua se houver queixas contra determinada cobertura ou programa de entretenimento. A agência colhe a íntegra da transmissão e verifica se houve algum problema com relação ao enfoque ou se um dos lados da notícia não recebeu tratamento igual. Após a análise do material, a Ofcom pode punir a emissora com a obrigação de transmitir um direito de resposta, fazer um pedido formal de desculpas no ar ou multa.

2. O representante da Ofcom contou o seguinte exemplo de atuação da agência: o caso de um programa de auditório com sorteios de prêmios para quem telefonasse à emissora. Uma investigação descobriu que o premiado já estava escolhido e muitos ligavam sem chance alguma de vencer. Além disso, as ligações eram cobradas de forma abusiva. A emissora foi investigada, multada e esse tipo de programação foi reduzida de forma geral em todas as outras TVs.

3. Na Espanha, de 1978 até 2010, foram aprovadas várias leis para regular o setor audiovisual, de acordo com as necessidades que surgiam. Entre elas, a titularidade (pública ou privada); área de cobertura (se em todo o Estado espanhol ou nas comunidades autônomas, no âmbito local ou municipa); em função dos meios, das infraestruturas (cabo, o satélite, e as ondas hertzianas); ou pela tecnologia (analógica ou digital).

4. Zelar para o pluralismo das expressões. Esta é uma das mais importantes funções do Conselho Superior para o Audiovisual (CSA) na França. O órgão é especializado no acompanhamento do conteúdo das emissões televisivas e radiofônicas, mesmo as que se utilizam de plataformas digitais. Uma das missões suplementares e mais importantes do CSA é zelar para que haja sempre uma pluralidade de discursos presentes no audiovisual francês. Para isso, o conselho conta com uma equipe de cerca de 300 pessoas, com diversos perfis, para acompanhar, analisar e propor ações, quando constatada alguma irregularidade.

5. A equipe do CSA acompanha cada um dos canais de televisão e rádio para ver se existe um equilíbrio de posições entre diferentes partidos políticos. Um dos princípios dessa ação é observar se há igualdade de oportunidades de exposição de posições tanto por parte do grupo político majoritário quanto por parte da oposição.

6. A CSA é responsável também pelo cumprimento das leis que tornam obrigatórias a difusão de, pelo menos, 40% de filmes de origem francesa e 50% de origem européia; zelar pela proteção da infância e quantidade máxima de inserção de publicidade e distribuição de concessões para emissoras de rádio e TV.

7. A regulação das comunicações em Portugal conta com duas agências: a Entidade reguladora para Comunicação Social (ERC) – cuida da qualidade do conteúdo – e a Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom), que distribui o espectro de rádio entre as emissoras de radiodifussão e as empresas de telecomunicações. “A Anacom defende os interesses das pessoas como consumidoras e como cidadãos.

8. Uma das funções da ERC é fazer regulamentos e diretivas, por meio de consultas públicas com a sociedade e o setor. Medidas impositivas, como obrigar que 25% das canções nas rádios sejam portuguesas, só podem ser tomadas por lei. Outra função é servir de ouvidoria da imprensa, a partir da queixa gratuita apresentada por meio de um formulário no site da entidade. As reclamações podem ser feitas por pessoas ou por meio de representações coletivas.

9. A União Européia tem, desde março passado, novas regras para regulamentar o conteúdo audiovisual transmitido também pelos chamados sistemas não lineares, como a Internet e os aparelhos de telecomunicação móvel (aqueles em que o usuário demanda e escolhe o que quer assistir). Segundo as novas regras, esses produtos também estão sujeitos a limites quantitativos e qualitativos para os conteúdos veiculados. Antes, apenas meios lineares, como a televisão tradicional e o rádio, tinham sua utilização definida por lei.

10. Uma das regras mais importantes adotadas recentemente pela União Europeia é a que coloca um limite de 12 minutos ou 20% de publicidade para cada hora de transmissão. Além disso, as publicidades da indústria do tabaco e farmacêutica foram totalmente banidas. A da indústria do álcool são extremamente restritas e existe, ainda, a previsão de direitos de resposta e regras de acessibilidade.

Todas essas informações estão disponíveis ao público na página do Seminário Internacional Comunicações Eletrônicas e Convergências de Mídias. Note-se que a relação não menciona nenhuma das regras adotadas recentemente na Argentina, que vem sendo demonizadas nos editoriais da imprensa brasileira. A omissão é proposital. As regras adotadas acima são tão ou mais "duras" que as argentinas, mas sobre elas reina o silêncio, pois vêm de países apontados como "exemplos a serem seguidos" Dificilmente, você ouvirá falar dessas regras em algum dos veículos da chamada grande imprensa brasileira. É ela, na verdade, quem pratica censura em larga escala hoje no Brasil.
Fonte: www.cartamaior.com.br/

[Reino Unido] N9 Novas táticas policiais: agentes disfarçados ativos e agressivos - por ANA

[Reino Unido] N9 Novas táticas policiais: agentes disfarçados ativos e agressivosPercebemos uma mudança nas táticas policiais para a manifestação estudantil de 9 de novembro no centro de Londres. Além do fato de que a passeata teve sua rota firmemente regulada (cada uma das ruas laterais foi bloqueada por um pequeno exército de barreiras bem defendidas) a polícia introduziu um elemento novo e potencialmente perigoso ao policiamento da manifestação – o uso extensivo e transparente de policiais disfarçados.

Antes, a polícia simplesmente espalhava FITs [unidades de vigilância especial] em pontos estratégicos nas redondezas da manifestação para identificar “encrenqueiros em potencial” que, se fossem presos, isso era feito por policiais uniformizados longe da manifestação principal.

A manifestação estudantil de 9 de novembro viu numerosos policiais disfarçados (mal vestidos de manifestantes) no meio do corpo da passeata retirando, às vezes violentamente, aqueles que queriam prender. Essa mudança de tática pode ser devido ao novo tira no topo da chefia, pode ser uma estratégia de uma vez só para prevenir outra Millbank, ou, talvez, pode ser a primeira aparição de uma nova e potencialmente abordagem de longo alcance no policiamento de manifestações.

Blocos protegendo a integridade da passeata é lugar-comum na Europa continental, aliás, é uma característica essencial. Eles agem como presença policial coletiva, mas também asseguram que a dinâmica entre manifestantes e policiais se mantenha intacto – tanto em oposição, quanto em penetração.

No Reino Unido, não temos essa compreensão da dinâmica dos blocos como tais e, freqüentemente, nos distanciamos deles. (Blocos NB não quer dizer “bloco negro”, um bloco negro, quando ativo, é uma proposta totalmente diferente, que toma uma dinâmica inteiramente diferente).

Isso precisa ser modificado, e será, se quisermos manter qualquer autonomia no interior da conduta de policiamento e nas normas para passeatas.

Essa nova tática policial, se continuar, requer de anarquistas o conhecimento de nosso papel coletivo nas manifestações. Qualquer anarquista que continuar a participar de manifestações enquanto indivíduo, em contraste com elementos politicamente constituídos, terá que aprender bem rápido uma nova maneira de raciocinar.

9 de novembro foi um exemplo clássico de demonstração policial. A nova e perigosa reviravolta é que a polícia é, agora, parte integrante da passeata em si.

Um alerta para o que vem por aí.

Apreensão violenta de um manifestante durante o N9 por um grupo grande de policiais disfarçados:
http://www.youtube.com/watch?v=2evPgG1RrDg&feature=player_embedded

Veja no site do Bloco Anarquista N9 os relatos de várias fontes sobre esse dia:
http://n9anarchistbloc.wordpress.com/

Tradução > Carlinhos Puig

agência de notícias anarquistas-ana
Um verde cobertor
todo trançado de relva
aquece a terra.
Delza Faldini

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Sociedade Morta – Dead Society (legendado em castelhano) - por ANA

Sociedade Morta – Dead Society (legendado em castelhano)Sociedade Morta, de Thomas Toivonen, (Dead Society em seu título original), aponta diretamente para o coração da situação em que estamos hoje. A conclusão? Estamos ferrados! A cultura tecnológica de massa está matando o planeta e, se quisermos sobreviver, temos de olhar a raiz do problema. Mas também descartar falsas soluções, como a tecnologia alternativa ou “verde”.

O filme se passa sobre uma entrevista com John Zerzan, filósofo e autor anarco-primitivista, que traz sua perspectiva sobre o problema com a civilização e o que podemos fazer sobre isso. Segundo ele, é a realidade e não idéias que abrirão o caminho para uma mudança de paradigma. Sempre e quando se dá às pessoas uma alternativa.

No geral, o filme dura cerca de 55 minutos e é uma contribuição muito bem-vinda à longa coleção de filmes anarquistas-verdes.

Acredito que deveria ser visto por quanto mais pessoas possível, especialmente aqueles que estão hipnotizados à causa da vida na louca máquina da civilização. É uma torta na cara, um abridor de olhos, um choque, mas ainda é muito inspirador.

“Uma máquina não pode sentir. Nunca fica com raiva. Não tem sede ou necessidade de dormir. Nunca tem medo. Não está feliz nem triste. Por definição, está morta e uma sociedade que é construída com máquinas está morta também”.

Sociedade Morta
Parte 1:
http://www.youtube.com/watch?v=qln4Llo3Vtk&feature=player_embedded
Parte 2:
http://www.youtube.com/watch?v=9pPP9WRKLio&feature=player_embedded
Parte 3:
http://www.youtube.com/watch?v=md7wcAIw2HE&feature=player_embedded
Parte 4:
http://www.youtube.com/watch?v=DkjDA__fQbQ&feature=player_embedded
Parte 5:
http://www.youtube.com/watch?v=AwoROIxIcKk&feature=player_embedded
Parte 6:
http://www.youtube.com/watch?v=XtLN3_Qfny4&feature=player_embedded

agência de notícias anarquistas-ana
Sabiás na mata
Vem prenunciando a chuva.
É o verão que chega.
Francisco Ferreira

[EUA] Motins do Chá e Protestos contra Wall Street - por Mumia Abu-Jamal

[EUA] Motins do Chá e Protestos contra Wall Street
por Mumia Abu-Jamal

Enquanto o movimento Ocupa Wall Street ganha força e inspira protestos do mesmo tipo em muitas partes do mundo, os defensores do chamado Tea Party (Partido do Chá) acusam os ativistas de ser “transgressores da lei”, “radicais” e até mesmo “anti-americanos” - ao contrário deles, naturalmente.

Imagina-se que o propósito de tais comentários é diferenciá-los não só deles, mas também dos norte-americanos que originalmente tornaram o termo Tea Party¹ parte da história. Em sua versão, as do original Festa do Chá foram pessoas amigáveis, respeitosas da lei, que nada mais se envolveram em um pequeno desacordo patriótico.

Na verdade, isto não é precisamente o que aconteceu.

O recém falecido historiador Howard Zinn, em sua obra de valor inestimável A Outra História dos Estados Unidos: 1492- até o Presente², fala do Motim do Chá como um grande evento, não só de rebeldia, mas de banditismo. Imagine o valor econômico das grandes caixas de chá importado, saqueadas e atiradas ao mar no Porto de Boston. A propriedade dos comerciantes locais foi destruída. Por quê? Porque os norte-americanos se enfureceram quando os britânicos aumentaram os impostos e teriam de pagar preços elevados por algo que consideravam como um produto de primeira necessidade. Claro, ficaram satisfeitos por tirar sarro dos britânicos também.

O governo britânico respondeu a esta provocação com a aprovação das Leis Coercitivas do Parlamento. Fecharam o Porto de Boston, dissolveram o governo colonial local e enviaram tropas para a cidade, efetivamente estabelecendo a lei marcial (Zinn 67).

Vejamos... qual grupo contemporâneo se parece mais como seus antepassados norte-americanos? O Tea Party ou o movimento Ocupa Wall Street?

E para que não se perca a lição mais importante, as mulheres também tiveram um papel crucial nos protestos anti-coloniais. Abigail Adams, esposa de John Adams, escreveu sobre uma “Celebração do Café”, organizada por cerca de 100 mulheres que, irritadas com o alto preço do café em uma loja em Boston, marcharam até o armazém e exigiram que o comerciante “mesquinho” entregasse as chaves. Quando ele se recusou, Abigail Adams escreve:

“Uma delas agarrou seu pescoço e o tirou de um dos caminhões. Como as mulheres não deram moleza, deu-lhes as chaves. Então elas voltaram ao caminhão e o tiraram. Em seguida, abriram a loja, pegaram o café, colocaram-no em seus baús e se foram. Uma multidão de homens ficou ali, sem palavras, observando em silêncio toda a operação” (Zinn 110).

Transgressores da lei? Radicais? Anti-americanos?

Não há dúvida de que violaram as leis, porque durante a era colonial, a lei da Inglaterra regia tudo. Eram radicais? Provavelmente. Eram anti-americanos? Destruíram a propriedade privada. Vendo que os ricos ficaram mais ricos, saquearam seus armazéns.

A mim isto soa muito americano.

Do corredor da morte, sou Mumia Abu-Jamal.

Quarta-feira, 19 de outubro de 2011

[1] Cabe destacar que o Tea Party agora é conhecido como um partido político ou um movimento, mas o Tea Party original foi uma Festa do Chá ou, na realidade, um Motim do Chá.
[2] A Peoples History of the United States: 1492-Present, Perennial Classics: 2003.

agência de notícias anarquistas-ana
entre flores velhas
o som da abelha
treme flores novas...
Luiz Gustavo Pires

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

25% dos mamíferos em risco: Rinoceronte negro é declarado oficialmente extinto - por ANDA

25% dos mamíferos em risco: Rinoceronte negro é declarado oficialmente extintoRinoceronte negro é mais uma vítima da inconsciência humana. Foto: sem crédito

O rinoceronte negro, uma espécie tradicional do Oeste africano, foi declarado oficialmente extinto.

Ele é uma das milhares de espécies que constam da chamada lista vermelha formulada pela organização União Internacional pela Conservação da Natureza.

De acordo com a entidade, é possível que outra espécie, o rinoceronte branco, da África Central, também pode estar extinto.

A entidade afirma, em um relatório, que a despeito de seus esforços, cerca de 25% dos mamíferos mundiais enfrentam risco de extinção.

Fonte: http://www.anda.jor.br/

Grandes operações da PM de SP não são contra bandidos - por Eduardo Guimarães

Grandes operações da PM de SP não são contra bandidosNas primeiras horas da última terça-feira, um efetivo de 400 policiais militares de São Paulo usou 50 veículos, dois helicópteros e um pequeno exército de jornalistas apoiadores para prender cerca de 70 garotos e garotas magrelos que ocupavam a reitoria da USP armados com livros e cadernos de alto calibre. Foram quase seis policiais militares para cada estudante.

Armados com fuzis, escopetas, bombas e o que mais se puder imaginar em termos de armamento pesado, a operação em tela foi uma das maiores que a Polícia Militar de São Paulo empreendeu neste ano. Cada um dos parrudos policiais militares armados até os dentes que se envolveram naquela operação teria condições de render, agora sim, pelo menos seis manifestantes.

As raras grandes operações que a polícia militarizada de São Paulo faz no Estado são sempre contra cidadãos rebelados, sim, mas que não são bandidos. Quem buscar na internet alguma operação desse porte contra o crime organizado ou desorganizado só encontrará operações de reintegração de posse ou de repressão a manifestações de rua.

Enquanto polícia como a do Rio de Janeiro empreende ocupações de favelas, trocando tiros com criminosos fortemente armados e de altíssima periculosidade, a polícia paulista só investe contra famílias para retirá-las de habitações precárias que se equilibram em terrenos de grandes empresas ou de multimilionários, ou então contra manifestações legítimas da sociedade civil.

Quando se fala em operações policiais de porte em São Paulo, vêm a mente as reintegrações de posse que colocam mulheres, crianças e velhos pobres com seus móveis, roupas e utensílios domésticos no meio da rua ou a repressão à Marcha da Maconha ou as manifestações de professores da rede estadual em reivindicação por salários decentes.

Diante da situação de escandalosa insegurança pública que vige em São Paulo, não se entende onde ficam esses imensos contingentes de policiais quando não estão espancando jovens magricelos e professores ou enxotando famílias de seus barracos insalubres.

Há regiões no Estado de São Paulo, sobretudo na capital, em que nenhum desses jornalistas que vivem garantindo que o Estado está cada vez mais seguro ousaria dar as caras. Tanto quanto a polícia. A Cracolândia, por exemplo, incrustada como uma chaga no centro velho da cidade, escandaliza muito mais devido à dimensão do caos que vige ali.

Apesar de outras cidades brasileiras terem pontos de tráfico e de consumo de drogas, nenhum tem a dimensão e a ousadia da Cracolândia paulistana. São centenas e centenas de mortos-vivos convivendo com traficantes de drogas procurados. É um local em que morre gente em ações violentas o tempo todo e onde qualquer um que passe pelo local pode ser vitimado.

Nos bairros pobres, as portas das escolas públicas atraem o tráfico e gangues violentas. Mesmo nas regiões mais abastadas da cidade, a elite se vê acossada em cada semáforo, ainda que trancada em seus carrões. A avenida Paulista se tornou uma selva até mesmo durante o dia. Mas é de noite que o bicho pega.

Gangues atacam cidadãos por qualquer razão. Este blogueiro ficou meses dormindo em um hospital naquela avenida para acompanhar a filha doente. Pelo menos uma vez foi ameaçado por uma dessas gangues na porta daquele hospital, ao sair de madrugada para comprar cigarros – eram quatro rapazes que frearam bruscamente o carro e que ameaçaram agredir sem razão inteligível.

Esses exércitos de policiais, porém, só dão as caras, em São Paulo, para combater cidadãos reivindicando direitos ou que sofrem os efeitos da pobreza e da desigualdade. É nesse contexto que a operação de desocupação da reitoria da USP se torna surreal. É como se a polícia paulista não tivesse nada de mais importante para fazer.

Como cada brucutu daqueles que invadiram a USP daria conta de render pelo menos uma meia dúzia daqueles garotos que não ofereceram resistência alguma e que se encolheram ordenadamente no chão ou contra a parede, estima-se que dez por cento do efetivo policial deslocado para aquela operação teria sido mais do que suficiente.

Além disso, é grave a suspeita de que aquela meia dúzia de Coquetéis Molotov exibida para a imprensa pela polícia sob alegação de que foram encontrados com os estudantes pode ter sido plantada pela própria polícia de forma a justificar o tamanho desproporcional da operação. Até agora, a polícia não apontou de quem seriam os artefatos.

Houve um linchamento dos estudantes pela imprensa, sobretudo pela tevê aberta e pela imprensa escrita, que praticamente não deram voz aos amotinados. Nos telejornais, alguns segundos para os advogados deles e longos minutos para seus acusadores e detratores, que se somavam às opiniões dos apresentadores.

A sociedade paulista está anestesiada. O povo de São Paulo tem que investir sem parar em segurança e, assim mesmo, todos sabem que podem sofrer ações criminosas e violentas a qualquer momento. Contudo, essa população não se espanta com a exibição de força de uma polícia que nunca está por perto quando se faz necessária.

Assassinatos, latrocínios, estupros, ataques de gangues, roubos, furtos… Tudo que é crime só faz aumentar em São Paulo. As estatísticas anunciadas pela polícia, apesar de refletirem tal situação, sofrem acusações incessantes de manipulação.

Isso sem falar que o povo paulista, como o senso comum reconhece, costuma nem se dar ao trabalho de prestar queixa de ações criminosas. Parece pouco polêmico afirmar que, em São Paulo, os alvejados pelo crime sempre argumentam que dar queixa na polícia “não adianta nada”. Ou seja, então: as estatísticas mal refletem a realidade de insegurança no Estado.

Essas dondocas que andam promovendo reuniões para criticar os estudantes da USP, para elogiar a desproporcional ação da PM e para articular a tal “marcha contra a corrupção” que promete sair às ruas no próximo dia 15, mal sabem que, por sua estupidez, no próximo semáforo poderão ser alvo de algum garoto de dez anos enlouquecido pelo crack.
Fonte: www.blogcidadania.com.br

As catracas da Saúde - Por Ana Manhani e Legume Lucas

As catracas da Saúde

“Não acredito em partido, não acredito em governo, acredito em nós que estamos aqui”. Por Ana Manhani e Legume Lucas

No dia 10 de outubro usuários dos sistemas de saúde e transporte estiveram reunidos para debater as catracas da saúde, para pensar quais são os obstáculos cotidianos que temos que superar para ter acesso à Saúde. Tais obstáculos vão desde a falta de materiais, equipamentos e profissionais de saúde até à dificuldade de conseguir pagar por um transporte público que nos permita chegar ao serviço de saúde para ser atendido.Primeiro, é preciso compreender que saúde não se restringe à ausência de doença, mas engloba uma situação de bem-estar físico, psíquico e social. Assim, o acesso a esta não se resume a ir ao posto de saúde, tomar remédio, ver o médico; mas se insere em uma perspectiva de qualidade de vida.

Tanto a Saúde como o Transporte encontram dilemas semelhantes para sua efetivação. Enquanto a primeira é prevista como um direito constitucional cujo acesso deve ser garantido a todos e todas, o que acontece atualmente é que cada dia mais ela é tratada como uma mercadoria, seja pela inserção das Organizações Sociais de Saúde (OSS) tanto quanto pela ampliação dos planos de saúde privada. Tais contradições levam os equipamentos providos com o dinheiro público a serem utilizados por empresas de saúde privada, como por exemplo o recém inaugurado Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, que tem 25% das vagas destinadas ao serviço privado. Portanto, a saúde enquanto mercadoria se torna um bem escasso, para o qual deve-se pagar para ter acesso, contrariando seu caráter de Direito Universal.

O transporte, de forma semelhante, consiste num serviço essencial e, como tal, deve ser garantido para toda a população. O transporte é um direito transversal na medida em que dependemos dele para chegar às escolas, hospitais, centros culturais, ao trabalho; se não temos acesso ao transporte, todos estes direitos nos são negados. Porém, há um impeditivo evidente da efetivação do direto ao transporte, a catraca. Esta barreira física e simbólica, da qual só se pode passar pagando a tarifa, desconfigura assim o caráter universal do serviço. Atualmente, no Brasil, são 37 milhões de pessoas excluídas do sistema de transporte por não terem recursos para pagar a tarifa.Ambos os problemas são característicos das grandes cidades. Nestas, devido ao seu alto número de habitantes e à falta de investimentos do Poder Público, os sistemas de saúde e transporte estão saturados, a falta de equipamentos é evidente quando se vai para as periferias, bem como a superlotação. Evidentemente estes problemas não têm uma solução simples; ela passa – necessariamente – pela inversão de prioridades na política destes centros urbanos.

Tal inversão só pode ser obtida através de uma articulação concreta das lutas por transporte e saúde, algo que não pode ser construído apenas em um âmbito discursivo. Também não se trata de uma articulação entre “dirigentes”, mas de se pensar concretamente nas aproximações, debates e ações que articulem as demandas dos movimentos.

As possibilidades de se avançar neste trabalho estão abertas, seja na luta contra a internação compulsória dos usuários de serviços de saúde mental, motivada pelas adequações urbanas para a Copa do Mundo, seja na coleta de assinaturas pela Tarifa Zero; o caminho será construído de maneira conjunta e dialogada. Nas palavras de um dos militantes presentes no debate, “não acredito em partido, não acredito em governo, acredito em nós que estamos aqui”.
Fonte: http://passapalavra.info/

Mídia tradicional tenta censurar novas mídias; reformar leis é urgente - por Najla Passos

Mídia tradicional tenta censurar novas mídias; reformar leis é urgente Mídia tradicional tenta censurar novas mídias; reformar leis é urgente
Em debate na Câmara dos Deputados sobre liberdade de expressão, militantes de novas mídias criticam autoritarismo de veículos tradicionais de imprensa, que reagiriam apelando para censura de que se sentem ameaçados. Aprovação de marco civil da internet e de novo marco regulatório para radiodifusão é considerada fundamental para garantir pluralidade.

BRASÍLIA - No Brasil, a exemplo do que ocorre na economia e no social, o cenário é desigual também no campo das comunicações. De um lado, os veículos tradicionais da imprensa, comandados por uma meia dúzia de famílias, se armam de todos os meios possíveis para manter o controle exclusivo e absoluto da agenda pública. E, para isso, cometem os mais variados excessos, incluindo aí alguns crimes, como destruir a reputação de pessoas sem provas ou sequer indícios.

De outro, cidadãos comuns que só recentemente, com a popularização das novas mídias, alçaram o status de produtores de conteúdo, lutam para consolidarem o legítimo direito à manifestação de opinião e pensamento, a despeito das investidas conservadoras que impõem multas milionárias a blogueiros, tuiteiros e demais internautas produtores de conteúdo mais progressista e irreverente.

“Há uma luta política em andamento entre as velhas mídias e as novas mídias. As velhas mídias, que também se utilizam das novas e estabelecem a propriedade cruzada em tudo, estão profundamente incomodadas com essas últimas”, disse o membro da coordenação da Frente Parlamentar em Defesa da Liberdade de Expressão e Democratização da Comunicação, o jornalista e deputado Emiliano José (PT-BA).

Ele foi um dos participantes, nesta quarta (9), da audiência pública convocada pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados para debater as decisões e disputas judiciais que afetam a liberdade de expressão, especialmente dos comunicadores que atuam nas novas mídias. As velhas mídias são os meios tradicionais, como os jornais, revistas, TVs e rádios. As novas são as que nasceram no bojo da internet: sites, blogs e microblogs, dentre outras.

O professor da Universidade Federal de Minas Gerais Túlio Vianna, iniciou a discussão lembrando aos presentes que não existe direito absoluto. “O modelo brasileiro tende a tolerar opiniões divergentes, mas impõe limites. Não há liberdade plena de informação”, explicou.

Entretanto, segundo ele, o que a prática vem demonstrando é a utilização de leis criadas para outros fins para penalizar cidadãos comuns que estão apenas exercendo seu legítimo direito à opinião. Exemplo é o processo contra os dois jornalistas que criaram o site de sátira ao jornal Folha de S. Paulo, chamado “Falha de S. Paulo”.

A Folha acionou judicialmente esses internautas, com base na Lei de Patentes, que deveria servir para a defesa da propriedade intelectual. “Essa lei não foi criada para impedir a liberdade de expressão, muito menos a paródia, a sátira, a crítica, mas foi acatada para penalizar os jornalistas”, critica o professor.

Outro exemplo, segundo ele, é a lei de apologia ao crime, utilizada para criminalizar os defensores da legalização da maconha que, além de uma marcha, na cidade de São Paulo, matinham um site da campanha. “Reivindicar a modificação de uma lei não é incitação ao crime, mas nem sempre a Justiça entende isso corretamente”.

A jornalista e secretária-geral do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, Renata Vicentini Mielli, afirmou que as novas tecnologias de comunicação criaram um novo paradigma na sociedade atual. “Até bem pouco tempo atrás, o agente social responsável por fazer a mediação da agenda pública eram os grandes meios de comunicação. Agora, um novo agente entrou em jogo. As novas mídias permitiram mais pluralidade, mais diversidade na discussão da esfera pública”, diz.

São blogs, microblogs, redes sociais, pequenos sites e uma série de atores que atuam na internet permitindo a distribuição e organização da informação de forma mais ágil e democrática. “Isso, de alguma maneira, diminuiu o monopólio das grandes empresas de comunicação como mediadores da agenda pública. O poder dos grandes veículos não foi sepultado, mas foi diluído. E eles não querem perder esse poder. Por isso, desqualificam esse pólo alternativo de comunicação ou exercem pressão econômica sobre eles, através da judicialização”, afirma.

Segundo ela, o fenômeno é mundial. Nos EUA, só em 2007, processos contra blogueiros movimentaram US$ 17,4 milhões. No Brasil, os valores também assutam. No caso do site “Falha de S. Paulo”, a justiça estipulou multa diária de R$ 5 mil. “Como dois jornalistas, assalariados, vão pagar uma multa dessas? O objetivo é calar as vozes dissonantes”, questiona ela.

A jornalista afirma que processos civis e criminais contra blogueiros estão pipocando em todo o Brasil. Só o jornalista Paulo Henrique Amorim é alvo de 37 processos. “É preciso cuidado para não virarmos sociedade do patrulhamento, do policiamento. Devemos ser uma sociedade da liberdade. E a comunicação é um direito humano”, acrescenta.

Para ela, é urgente que se aprove o marco civil da internet. O projeto de lei está parado justamente na Câmara dos Deputados, esperando a constituição de comissão especial para avaliar o tema. A jornalista avalia que é urgente também a definição de um novo marco regulatório para a radiofusão.

“Não é possível que se discuta as questões da comunicação de forma fatiada. Isso permite que as empresas coloquem no movimento social, que sempre defendeu a liberdade de expressão, a pecha de serem novos censores da sociedade. Regra não é censura. A sociedade precisa entender isso."

O deputado Emiliano José acrescentou que a distinção entre fatos e opiniões não é algo muito simples: não há jornalismo sem interpretação em nenhum momento. “A organização do fato comporta opinião, mas há alguma diferenciação entre as duas coisas, e o jornalismo brasileiro tem caminhado numa direção."

Ele lembrou que as novas mídias, ao mesmo tempo que permitem maior democratização na produção de conteúdos, também ajudam a trazer à tona velhos preconceitos que resistem nas entranhas da sociedade brasileira, com ocorreu no episódio do câncer do ex-presidente Lula. Ele acha que a velha mídia brasileira é um partido político que conspira contra os governos petistas, de caráter popular e democrático.

Segundo o deputado, a velha mídia demite jornalistas que usam as novas mídias para manifestar suas opiniões, como aconteceu, por exemplo com Maria Rita Khel, que elogiou o impacto do bolsa família na vida das famílias pobres brasileiras e acabou demitida do jornal O Estado de S. Paulo. “Isto sim é censura”, afirma.

Ele defendeu a regulamentação da mídia, incluindo novas e velhas. “As novas mídias têm uma responsabilidade social e política muito grande porque representam novas vozes, novos atores políticos. Ninguém faz o que quer. Precisamos ter direito de resposta. A sociedade também precisa ser protegida dos erros dos jornalistas, sejam elas das novas e velhas mídias.”
Fonte: Carta Maior

A velha mídia contra os estudantes, em 2007 e em 2011, nos traços de Latuff - Fazendo Media

A velha mídia contra os estudantes, em 2007 e em 2011, nos traços de Latuff Por Redação

A ocupação da Reitoria da USP por um grupo de estudantes, na última semana, mostrou uma polícia despreparada e com forte herança do período de Ditadura Militar, e mostrou o reacionarismo quase fascista de alguns setores da sociedade. Tudo isso alimentado por uma mídia dominante que nutre verdadeiro ódio por qualquer tipo de manifestação crítica e atua diariamente na criação de estereótipos que visam deslegitimar todos os movimentos de contestação.

Como já havia acontecido na ocupação da mesma USP em 2007, o chargista Carlos Latuff vem observando e registrando com precisão o papel da mídia nesse conflito. A seguir, algumas de suas charges. As duas primeiras feitas na última semana, as seguintes datadas de 2007. Há quatro anos o governador de São Paulo era José Serra, agora é Geraldo Alckmin. Ambos são do PSDB. A mídia continua a mesma. Mesmos atores, mesmo posicionamento. É essa mídia quem nutre as mentes reacionárias e anti-democráticas com seus preconceitos.
Fonte: www.fazendomedia.com/

PM na USP? Só passando no vestibular! - por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

As ilusões necessárias - Por Isleide Fontenelle

As ilusões necessárias"Lavender Mist (number 1)", de Jackson Pollock
Em O nome da marca: McDonald´s, fetichismo e cultura descartável (Boitempo, 2002), livro que foi originalmente minha tese de doutorado em Sociologia, concluída em 2000, afirmei que o consumo de marcas publicitárias se dava na medida em que essas se apresentavam como uma ilusão de forma em uma sociedade que estava perdendo rapidamente a sua forma. Com isso queria dizer que vivíamos em um momento histórico diante do qual já não parecia mais haver um sentido de permanência do mundo social. A realidade parecia começar a se desrealizar. E com isso começava a haver uma crise das identidades que foram constituídas ao longo da Modernidade.

Poder-se-ia objetar que essa estabilidade identitária já era uma ilusão. A própria invenção da Psicanálise, há mais de um século, fundou-se a partir dessa assertiva de que um sujeito autônomo e, ao mesmo tempo, coeso, era mero produto de uma construção social. Mas também sabemos que tal fantasia social perdurou por muito tempo e fez funcionar toda uma realidade, até começar a ser posta em causa. O que é interessante perceber é que foi o próprio discurso publicitário que começou a expor essa ilusão a partir de um tipo de comunicação publicitária que passou a privilegiar imagens e discursos focados nas inconsistências do sujeito, insistindo que não havia mais papéis sociais fixos, identidades determinadas. Que não havia, enfim, mais garantias.

Esse novo modo de agir publicitário, cada vez mais intenso nas últimas décadas do século XX, levou a muitas análises e reflexões no campo da crítica social. O que, afinal, estava acontecendo com aquele que tinha sido um dos campos, por excelência, das nossas ilusões? Seria isso o indicativo de que estaríamos vivendo o fim das ideologias, como afirmou o filósofo francês Gilles Lipovetsky em seu livro A Era do Vazio (Relógio d’ Água, 1989), justamente ao mencionar a ascensão de um tipo de publicidade nonsense que já se presenciava na sociedade francesa?

O campo da publicidade sempre foi fértil para a exposição de alguns sintomas sociais de nossa época, embora de forma ressignificada, ou seja, sempre a partir de uma perspectiva que pudesse resultar na venda de produtos e serviços. Assim, em uma sociedade em constante aceleração, cada vez mais movida pela necessidade do novo (conforme falei na minha última coluna), era preciso cultuar a novidade, insistir na inconsistência do mundo como valor positivo; ao mesmo tempo em que, diante desse desmoronamento, começou-se a se apresentar a marca como ilusão de forma. Tratava-se de uma ilusão não só porque a marca jogava com essa impossibilidade de que qualquer símbolo pudesse oferecer o lugar das identidades sociais permanentes, mas porque a própria marca estava submetida ao processo de reestruturação constante de suas imagens e produtos, a fim de ela mesma permanecer no mercado.

Isso não significou o fim das ideologias, mas confirmou as análises de Theodor Adorno e Max Horkheimer de que teria havido uma transformação no conceito de ideologia. Em outras palavras, não se poderia mais falar em ideologia como “falsa consciência”, daí porque, no caso do consumo de imagens publicitárias, foi possível afirmar que os sujeitos que consumiam essas marcas sabiam que essas imagens eram ilusórias, mas agiam como se não soubessem.

Foi de posse dessas análises que eu desconfiei se seria possível aos movimentos contestatórios surgidos na década de 1990 (chamados movimentos antiglobalização, mas, na verdade, movimentos anticorporações) desfazerem tão facilmente, no nível da pura consciência, essa ideologia como realidade de si mesma, como afirmou taxativamente a jornalista canadense Naomi Klein em seu livro Sem Logo (Record, 2002): “quanto mais pessoas descobrirem os segredos das grifes da teia logo mundial, a revolta estimulará o próximo grande movimento político, uma grande onda de oposição dirigida contra corporações transnacionais, particularmente aquelas com marcas muito conhecidas”, dizia ela.

Uma década depois, o que se vê é como as reivindicações desses movimentos foram assimiladas sob a forma de um novo tipo de imagem e de discurso das marcas a partir da produção do marketing da cidadania e do “consumo responsável”. Comércio justo, inclusão social, respeito ao meio-ambiente, ou seja, muitas das críticas e reivindicações que eram dirigidas a essas corporações por esses movimentos, passaram a ser ressignificadas pelas marcas na produção de novas imagens para consumo. E muitas das marcas alvejadas pelos movimentos se mantêm, hoje, ainda mais poderosas.

Por outro lado, também vejo essas novas construções discursivas como tentativas das corporações reconstruírem o elo perdido do consumo com alguns valores sociais que sustentaram a formação da cultura de consumo em seus primórdios: construção da nação, ideia de progresso, democracia, igualdade, busca da felicidade, ou seja, os sonhos mais caros da Modernidade. Tais valores assumem novas roupagens como o discurso do respeito ao local, do empreendedorismo, do multiculturalismo, entre outros valores sociais contemporâneos, e agora, sob a imagem e semelhança das marcas que os veiculam.

Acredita-se nesses discursos? Não creio. Mas o fato é que, diante dessa realidade inconsistente e vazia de significados, as marcas continuam nos oferecendo “ilusões de forma”. Diante da possibilidade da face monstruosa do vazio, que o próprio universo do consumo nos fez encarar, fica a angústia do que colocar no lugar. O que temos hoje, na fase atual do capitalismo, como nos diz Agamben – em O que é o contemporâneo? (Argos, 2009) – são dispositivos que “não agem mais tanto pela produção de um sujeito quanto por meio de processos que podemos chamar de dessubjetivação… processos de subjetivação e processos de dessubjetivação parecem tornar-se reciprocamente indiferentes e não dão lugar à recomposição de um novo sujeito, a não ser de forma larvar e, por assim dizer, espectral”.

Esses sujeitos espectrais – escorregadios e oscilantes – parecem apontar desafios novos para as marcas. Por isso as próprias marcas também se vêem, hoje, diante do risco permanente de se dissolverem nessa irrealidade, tendo que se reinventar constantemente para dar conta da inconstância que ajudaram a produzir. De outro modo, esses sujeitos espectrais também podem desafiar o poder que sustenta essa forma de capitalismo de consumo. É por isso, diz Agamben, que esses “inócuos cidadãos das democracias pós-industriais” são considerados pelo atual poder como “terroristas virtuais”, dado que sempre apresentam elementos fugidios, inapreensíveis.

Seriam esses sujeitos espectrais os atores dos atuais movimentos de contestação, que não têm uma forma definida – ganham diferentes contornos em diferentes lugares do mundo – nem uma agenda clara de propostas? Seriam eles capazes de provocar rachaduras nessa matriz especular do capitalismo de consumo? Trata-se, mais uma vez, de uma aposta. Mas, de novo, não acredito que uma sociedade abra mão tão facilmente de suas ilusões necessárias. É até possível que estejamos presenciando o princípio do esgotamento de certo imaginário social em torno de uma sociedade de consumo que não cumpriu o que prometeu, cujos sinais se deixam entrever em tais movimentos. Mas o que resultará disso depende de “se” e “como” uma nova organização social da fantasia será capaz de se contrapor às ilusões que a cultura de consumo nos legou.
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Isleide Fontenelle é formada em Psicologia, com Doutorado em Sociologia pela USP.
Fonte: http://boitempoeditorial.wordpress.com/

Tortura e sofrimento: Cavalos continuam sendo obrigados a caminhar com madeira nas patas, na Espanha - por ANDA

Tortura e sofrimento:Cavalos continuam sendo obrigados a caminhar com madeira nas patas, na Espanha
(da Redação)Foto: Divulgação/ LIBERA!
Um ano após inúmeras denúncias e trazer ao conhecimento público a respeito dos maus-tratos cometidos contra esses animais, cavalos ainda sofrem com toras de madeira presas às suas patas. Essa prática cruel, que ocorre principalmente na região da Galícia, onde vivem cerca de 20.000 cavalos livres nas montanhas, é feita por fazendeiros a fim de limitar a locomoção dos animais para evitar que entrem nas lavouras.

A ONG “LIBERA!” estima que pelo menos 2.000 cavalos sofrem com tais dispositivos em suas patas e exige que o governo galego aja de maneira contundente e promova a prisão dos responsáveis.Foto: Divulgação/ LIBERA!
Desde setembro de 2010, a organização de direitos dos animais apresentou 38 queixas aos tribunais, mas nenhum acusado foi preso.

A situação chegou ao Parlamento Europeu e a Comissão condenou os acontecimentos, bem como na Assembleia da Galícia, onde o BNG criticou a situação e pediu medidas urgentes para os cavalos.
Fonte: www.anda.jor.br/

Iraque: amargo regresso dos EUA - Por Immanuel Wallerstein

Iraque: amargo regresso dos EUAWallerstein analisa nova derrota internacional de Washington. E antevê um avanço dos xiitas que, paradoxalmente, pode não interessar ao Irã

Agora é oficial. Todas as tropas norte-americanas — com uniforme dos Estados Unidos — serão retiradas do Iraque em 31 de dezembro de 2011. Podemos interpretar essa decisão de duas maneiras. Uma delas segue a visão do presidente Barack Obama: é o cumprimento de uma promessa eleitoral feita em 2008. A segunda é a interpretação dos candidatos republicanos à Presidência. Eles condenaram Obama por não ter feito o que dizem que o Exército dos Estados Unidos queria, que é manter alguns soldados depois de 31 de dezembro para treinar o exército iraquiano. De acordo com Mitt Romney, a decisão de Obama é “o resultado de um cálculo político ou simplesmente inaptidão nas negociações com o governo iraquiano”.

As duas explicações não têm sentido, e são meras justificativas para os eleitores. Obama tentou ao máximo — e em total conjunção com os comandantes do exército e com o Pentágono — manter as tropas norte-americanas depois de 31 de dezembro. Mas falhou, não pela inaptidão, mas porque os líderes políticos do Iraque forçaram os Estados Unidos a sair. A retirada marca o final da derrota americana, que pode ser comparada à derrota dos Estados Unidos no Vietnã.

O que realmente aconteceu? Nos últimos dezoito meses, as autoridades de Washington realmente tentaram negociar um acordo com os iraquianos. Esse acordo iria se sobrepor ao termo assinado pelo presidente George W. Bush, que se comprometia com a retirada total das tropas em 31 de dezembro de 2011. Eles falharam — e não é que não tenham se esforçado.

No Iraque, os grupos mais favoráveis aos Estados Unidos são os grupos sunitas liderados por Ayad Allawi, um homem com relações notoriamente próximas à CIA, e o partido de Jalal Talebani, o presidente curdo do Iraque. Os dois homens disseram — relutantes, sem dúvida — que seria melhor as tropas americanas deixarem o país.

O líder iraquiano que se trabalhou duro para chegar a um acordo que mantivesse as tropas norte-americanas foi o primeiro-ministro Nouri al-Malaki. Obviamente, ele acreditava que a pouca habilidade do exército iraquiano em manter a ordem levaria o país a novas eleições, nas quais sua posição política estaria muito enfraquecida e ele, provavelmente, colheria maus resultados nas urnas. Enfim, deixaria de ser primeiro-ministro.

Os Estados Unidos fizeram concessão atrás de concessão, reduzindo constantemente o número de soldados que manteriam no Iraque. No fim das contas, o ponto de atrito foi a insistência do Pentágono em garantir a imunidade jurídica dos soldados americanos (e dos mercenários), liberado-os da acusação de qualquer crime que cometessem no país. Maliki estava pronto para concordar com isso, mas ninguém mais estava. Os sadristas chegaram a dizer que iriam retirar seu apoio ao governo, se Maliki aceitasse as condições de Washington. Sem os votos dos sadristas, Maliki não obteve a maioria necessária no parlamento.

Então, quem ganhou? A retirada foi a vitória do nacionalismo iraquiano. E a pessoa que veio para encarnar o nacionalismo iraquiano é Muqtada al-Sadr. É verdade que al-Sadr lidera um movimento xiita que sempre foi violentamente contrário ao partido de Saddam Hussein, o Baath — o que, para seus seguidores, costuma significar ser contra muçulmanos sunitas. Mas al-Sadr afastou-se de sua posição inicial, para converter a si próprio e a seu movimento nos grandes defensores da retirada dos Estados Unidos. Ele estendeu uma mão para líderes sunitas e líderes curdos na esperança de criar uma frente nacionalista pan-iraquiana, centrada na restauração total da autonomia do Iraque. Foi ele quem ganhou.

É certo que al-Sadr — assim como Maliki e outros políticos xiitas — passou uma grande parte de sua vida exilado no Irã. Sua vitória seria o triunfo do Irã? Sem dúvida, Teerã ampliou sua credibilidade no Iraque. Mas seria um erro analítico enorme acreditar que o Irã substituiu o domínio dos Estados Unidos sobre o cenário político iraquiano.

Existem tensões fundamentais entre os xiitas iranianos e os xiitas iraquianos. Por um lado, os iraquianos sempre consideraram o Iraque — e não o Irã — como centro espiritual do mundo xiita. É verdade que, nos últimos 50 anos, as transformações no cenário geopolítico permitiram que os aiatolás do Irã parecessem dominar o universo do xiísmo. Mas isso é parecido com o que aconteceu na relação entre os Estados Unidos e a Europa Ocidental depois de 1945. A força geopolítica dos Estados Unidos provocou um deslocamento na relação cultural entre dois lados do Atlântico. A Europa Ocidental teve que aceitar o novo domínio dos Estados Unidos — mas nunca gostou disso. E agora tenta retomar a hegemonia cultural. O mesmo acontece com o Irã e o Iraque. Nos últimos 50 anos, os xiitas iraquianos tiveram que aceitar o domínio cultural do vizinho, mas nunca gostaram disso. E agora irão trabalhar para retomar o predomínio cultural.

Apesar das declarações públicas, tanto Barack Obama quanto os republicanos sabem que os Estados Unidos foram derrotados. Os únicos norte-americanos que não acreditam nisso encontram-se entre o pequeno grupo marginal de esquerda que de algum modo não pode aceitar que os Estados Unidos não são capazes de ganhar sempre, em todos os lugares. Esse pequeno grupo, atualmente em declínio, está tão obcecado em denunciar os Estados Unidos que não tolera o fato de que o país está em sério declínio.

Para esse grupo marginal, nada mudou. Agora, o representante dos interesses dos Estados Unidos no Iraque não é mais o Pentágono, e sim o Departamento de Estado, que está fazendo duas coisas: deslocando mais fuzileiros para providenciar segurança à Embaixada dos Estados Unidos e contratando especialistas para treinar as forças policiais iraquianas. Mas levar mais soldados é um sinal de fraqueza, não de força. Significa que até mesmo a bem guardada embaixada norte-americana não está suficientemente segura dos ataques. Pela mesmíssima razão, os Estados Unidos cancelaram os planos de abrir mais consulados no país.

Quanto aos especialistas, estamos falando em aproximadamente 115 conselheiros policiais que precisam ser “protegidos” por milhares de seguranças privados. Eu garantiria que os conselheiros policiais serão muito cautelosos ao sair do território da embaixada — e que isso irá dificultar a contratação de seguranças privados em número suficiente, dado que não terão mais imunidade jurídica.

Ninguém deve se surpreender se, depois das próximas eleições no Iraque, o primeiro ministro for Muqtada al-Sadr. Nem os Estados Unidos nem o Irã vão gostar.

Tradução: Daniela Frabasile
Fonte: www.outraspalavras.net

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O Estado Assassino de Israel esta com o dedo no gatilho contra o Irã – por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

Folha, Estado, Veja e televisões minimizam corrupção em SP - por Eduardo Guimarães

Folha, Estado, Veja e televisões minimizam corrupção em SPNo último dia 12 de outubro, este blog cobriu ato público “contra a corrupção” que começou no Museu de Arte de São Paulo (Masp), na avenida Paulista, e terminou no “Centro Velho” da cidade, na praça Ramos de Azevedo, diante do Teatro Municipal de São Paulo. A matéria reproduziu respostas a um questionário que esta página apresentou aos manifestantes. Aquele questionário foi elaborado de forma a identificar possível viés político-partidário e ideológico nos integrantes da manifestação.

Das 27 entrevistas feitas com os manifestantes, 26 apontaram forte viés político-partidário, deixando ver que o que ocorria ali era produto de campanha de partidos e entidades de oposição ao governo federal. Dessas 26 entrevistas que apuraram esse fato, sete se estenderam em breves conversas entre o entrevistador e os entrevistados. Só não foram relatadas antes porque o blog esperou pelo contato com fonte da Assembléia Legislativa que só ocorreu na semana passada.

Naquelas conversas com os manifestantes “contra a corrupção”, eles foram perguntados sobre se também estavam protestando contra o escândalo das emendas parlamentares na Assembléia Legislativa de São Paulo. Apesar de o entrevistador ter percebido que um dos entrevistados se fez de desentendido, os outros seis pareceram sinceros ao declararem que não sabiam de nada sobre esse escândalo, o que pode ser explicado pela discretíssima e rara cobertura do assunto pela imprensa.

Para quem não sabe, aliás, explica-se que há três meses o deputado estadual Roque Barbiere (PTB-SP) denunciou que ao menos “um terço” dos deputados estaduais paulistas “venderiam” a “prefeitos e empresas privadas” as emendas parlamentares ao Orçamento que os governos tucanos do Estado há muito distribuem a aliados e até a um pequeno contingente de deputados “de oposição” que fontes da AL informaram ao blog (na semana passada) que são tão governistas quanto os deputados assumidamente da base do governo.

Por conta disso, a base de apoio do governo Alckmin na AL-SP está conseguindo enterrar mais esse escândalo. Na última quinta-feira, os deputados governistas conseguiram derrubar, por seis votos a dois, o funcionamento do Conselho de Ética. Segundo um funcionário da AL (que preferiu não se identificar) ouvido pelo blog no último sábado, sem uma divulgação da imprensa igual à que é feita em relação a ministros do governo Dilma investigação relevante e profunda alguma ocorrerá, como nenhuma ocorre há muito tempo em São Paulo.

A explicação que esses veículos dão em off (através de alguns de seus jornalistas que freqüentam redes sociais como Twitter ou Facebook e entram em debates com quem questiona a omissão da imprensa nos escândalos tucanos) é a de que são escândalos “regionais” e que, por isso, receberiam cobertura tão “diferenciada”, um claro eufemismo para cobertura omissa porque, a bem dos fatos, não há, em relação ao PSDB, o jornalismo “investigativo” que chega a tentar invadir domicílios em busca de “provas” contra pessoas ligadas ao governo federal.

A cobertura e fiscalização pífias da imprensa em relação ao comportamento da oposição ao governo Dilma nos Estados em que essa oposição é governo – como em São Paulo ou em Minas Gerais – se dá sob o argumento de que seriam assuntos “regionais”. Todavia, tal falácia pode ser facimente desmontada meramente lembrando o que era feito pela imprensa quando a petista Marta Suplicy ou a ex-petista Luiza Erundina governaram a capital paulista. Então, críticas e denúncias ganhavam manchetes quase diárias nos jornais supracitados e nos telejornais de alcance nacional.

A imprensa, por essa razão, não investiga o escândalo das emendas parlamentares em São Paulo, um escândalo que lança suspeitas sobre os governos tucanos que se encastelaram no poder desse Estado há quase vinte anos, suspeitas comparáveis às que desencadearam o escândalo do mensalão federal porque insinuam que os governos tucanos paulistas subornam deputados para obterem deles favores em votações na Assembléia Legislativa.

À diferença das matérias investigativas que veículos como Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e a revista Veja passaram a fazer todos os meses contra o governo federal desde o começo do governo Lula e que neste ano ganharam uma intensidade nunca vista em anos anteriores, com trabalhos de investigação se sobrepondo em várias frentes simultâneas, nenhuma das matérias sobre o governo de São Paulo, na última década, partiu da imprensa brasileira, mas, sim, da repercussão de denúncias antigas que circulam entre os aliados do governo federal ou da repercussão de investigações no exterior.

O caso Alstom é um exemplo. Contém denúncias sobre propina que teria sido paga pela empresa francesa Alstom a vários políticos do PSDB, entre eles o ex-governador Mario Covas, já falecido, e o atual governador de São Paulo, Geraldo Alkmin. As raras matérias que saíram na imprensa brasileira foram “chupadas” da mídia internacional, de veículos como Wall Street Journal e Der Spiegel, entre outros. A imprensa brasileira mesma, não investiga nada sobre esse caso.

Todavia, é um caso gravíssimo. Trata-se de escândalo que envolve muitos milhões de dólares e que tem alcance internacional. Fora do Brasil, as notícias correm soltas. O assunto é tão sério que está sendo investigado pelo ministério público da Suíça, onde estão arrolados os nomes dos políticos tucanos aqui citados e de outros brasileiros envolvidos.

De acordo com o que consta em documentos enviados ao Ministério da Justiça do Brasil pelo ministério público da Suíça, no período que vai de 1998 a 2001 pelo menos 34 milhões de francos franceses teriam sido pagos em propinas a autoridades do governo do Estado de São Paulo através de empresas offshore (empresas criadas em paraísos fiscais, onde gozam de sigilo de suas contas bancárias que dificulta investigações).

Segundo o ministério público suíço, os pagamentos teriam sido feitos utilizando-se do esquema de contratos de “consultoria de fachada”. O valor das “comissões” supostamente pagas pela Alstom em troca da assinatura de contratos pelo governo de São Paulo chegaria a aproximadamente R$ 13,5 milhões. Segundo o Ministério Público da Suíça, pelo cruzamento de informações esses trabalhos de “consultoria” foram considerados como sendo fictícios.

No período de negociação e da assinatura dos contratos de consultoria estava à frente da Secretaria de Energia de São Paulo o então genro do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, David Zylbersztajn, que deixou o cargo em janeiro de 1998 ao assumir a direção geral da Agência Nacional do Petróleo. O atual secretário de Coordenação das Subprefeituras da cidade de São Paulo, Andrea Matarazzo, que ocupou a secretaria por alguns meses, e o atual secretário estadual dos Transportes, Mauro Arce, também estão envolvidos.

Para que se tenha uma idéia da enormidade do caso e para que se possa mensurar a enormidade da minimização que a imprensa brasileira faz dele, o TCE (Tribunal de Contas do Estado) julgou irregular uma compra de 12 trens da Alstom no valor de R$ 223,5 milhões feita sem licitação pela CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), empresa do governo de São Paulo. O contrato foi assinado em 28 de dezembro de 2005, no governo de Geraldo Alckmin.

Pergunta: você se lembra, leitor, de quando foi a última vez que recebeu uma única notícia da grande imprensa sobre esse caso?

O caso Alstom é apenas um dos muitos casos de corrupção que pesam sobre o partido que há quase duas décadas governa o segundo orçamento da União, o de São Paulo, que, como se sabe, é maior do que os orçamentos da maioria dos países da América Latina. Imagine o leitor o que faria a imprensa brasileira se houvesse um escândalo internacional contra o PT.

A imprensa daria ajuda inestimável ao ministério público suíço usando contra o PSDB esse “jornalismo investigativo” que descobre “provas” contra petistas e aliados toda semana. Contudo, é escandaloso o total desinteresse da imprensa brasileira sobre qualquer pedido de CPI entre as dezenas deles que hibernam nas gavetas da Assembléia Legislativa de São Paulo, que, agora se sabe, vem sendo banhada pelos impostos dos paulistas que acabam escorrendo para o setor privado através de nada mais, nada menos do que… ONGs.

É possível concluir, então, que a única forma de os governos federal, estadual e municipal serem fiscalizados pela imprensa é sendo governos petistas, pois só estes são alvos de investigação da imprensa. Essas campanhas “jornalísticas” contra ministros, com manchetes de capa e de primeira página tomando os telejornais todos os dias e com a Justiça sendo célere, só ocorrem desse jeito. Votar no PSDB, portanto, significa conceder a políticos uma espécie de licença para roubar sob as barbas da imprensa e da Justiça.
Fonte: www.blogcidadania.com.br

[Reino Unido] Nove anti-fascistas vencem seu caso - por ANA

[Reino Unido] Nove anti-fascistas vencem seu casoOs nove ativistas políticos acusados de conspiração por cometer desordem violenta foram todos considerados inocentes no Tribunal de Blackfriars Crown na segunda-feira, dia 3 de outubro. Levou menos de uma hora para que o júri retornasse com o veredito de todos os réus após um exaustivo julgamento de três semanas que custou centenas de milhares de libras.

Já estava no fim da tarde, após o juiz gastar grande parte do dia resumindo o processo, quando o júri leu os nove unânimes vereditos de "inocente" a um tribunal lotado, que irrompeu em aplausos da galeria, repleta de familiares, amigos e apoiadores, e dos réus que, olhando visivelmente aliviados, aplaudiram e se abraçaram.

Este é o segundo de dois julgamentos levados a cabo contra 23 pessoas que foram presas por envolvimento em uma mobilização anti-fascista para protestar contra uma gig da Blood and Honour em 2009, em Welling South London. A Blood and Honour é uma rede musical pan-européia abertamente racista e neo-nazista que promove o ódio racial e a ideologia de extrema-direita.

Os nove foram presos como parte de uma operação policial massiva para acusar o máximo de pessoas possível por um incidente na noite de 28 de março de 2009 na plataforma da estação Welling. Apesar da intensa provocação do promotor, que tentou intimidar a seu modo as evidências, o júri permaneceu não convencido de que algum dos nove estivesse envolvido em uma conspiração para cometer desordem violenta.

Desordem violenta é parte de uma lei de ordem pública e ocorre quando três ou mais pessoas usam ou ameaçam violência ilegal; conspiração é quando duas ou mais pessoas concordam em cometer um delito, neste caso desordem violenta. Em nenhum ponto durante todo o julgamento foi apresentada pela promotoria uma evidência de que qualquer associação foi feita por algum dos réus para cometer desordem violenta. Também não foi apresentada evidência de que qualquer um deles tenha feito parte atualmente de qualquer violência ou confronto físico.

O incidente na estação Welling, que foi capturado quase integralmente pelas câmeras da emissora CCTV e formou a espinha dorsal da acusação, não provou a conspiração. As seqüências de imagens, que foram exibidas repetidamente aos jurados durante o julgamento, mostrou um grupo de anti-fascistas aguardando juntos em uma plataforma da estação.

Tudo indica que eles estavam esperando por um companheiro que sabiam que estaria chegando no próximo trem de Londres para retornar ao centro desta cidade com eles. Eles imaginaram que o protesto contra a Blood and Honour seria do lado de fora, mas o ponto de encontro não se concretizou, e deram provas de que se sentiam inseguros para permanecer em área tão hostil, esperando para retornar juntos ao centro de Londres.

Enquanto passageiros desembarcavam do trem em Welling, dois neo-nazis foram confrontados por um anti-fascista. Fica claro pelas imagens que isto foi uma ação espontânea e individual do anti-fascista que sustentou perante ao Tribunal no primeiro julgamento que agiu em auto-defesa. Um casal de outros anti-fascistas veio em seu auxílio e houve um confronto físico. O incidente por si só durou não mais do que vinte segundos, com um neo-nazi sendo perseguido pela plataforma.

Além daquele que iniciou o incidente, apenas uma pessoa foi positivamente identificada por testemunhas como tendo feito parte do confronto, ambos condenados no primeiro julgamento. Ainda assim as evidências da testemunha ocular eram questionáveis e desafiadas pelos advogados de defesa no segundo julgamento, quando foi mostrado que uma testemunha ocular não estava realmente presente na plataforma quando o incidente aconteceu.

Há também uma testemunha que sustenta ter visto o grupo pegando pedras fora da estação, o que a promotoria usou como evidência de “preparação” e acordo para atacar os neo-nazis. Isto foi novamente desafiado com sucesso pelos advogados de defesa no segundo julgamento, no mesmo momento em que a testemunha disse ter visto isso, (neste momento os anti-fascistas já estavam na plataforma da estação) e de fato pedras nunca foram mencionadas por nenhuma outra testemunha, ou vistas sendo usadas nas imagens.

Foi neste ponto que ficou claro aos que estavam no julgamento que a acusação não tinha a intenção de apresentar um caso de conspiração, mas estava se baseando unicamente nas seqüências de vídeo deste incidente e nas conexões sociais dos envolvidos. Sabe-se que isto custou mais de £50,000, apenas para reunir todas as seqüências de imagens das várias pessoas se encontrando na estação de London Bridge, viajando a Welling e andando pelas ruas para encontrar a gig da Blood and Honour.

As evidências da promotoria também incluíram as escutas de todas as chamadas telefônicas realizadas pelos réus uns para os outros, mensagens de texto e inclusive imagens capturadas de suas páginas do Facebook e status. Nenhuma peça da evidência revelou um plano, um acordo prévio ou mesmo consciência do que iria acontecer na plataforma da estação. Estima-se que o custo total do julgamento corra pelas centenas de milhares de libras.

A questão é, por que quando existe apenas evidência contra duas pessoas envolvidas em qualquer confronto físico a CPS tenta processar 23 pessoas? E talvez uma questão mais reveladora, por que havia ali sete acusações por conspiração no primeiro julgamento, quando nenhuma evidência de conspiração jamais foi apresentada ao tribunal?

Trata-se claramente de uma operação do Estado para efetivamente neutralizar as atividades dos que estão associados com o anti-fascismo militante. Quando as casas das pessoas foram invadidas cerca de quatro meses após o incidente, a polícia levou panfletos, adesivos e boletins diretamente associados com o anti-fascismo militante, com os quais a CPS tentou construir um caso de culpa por associação política.

Foi dito que o juiz excluiu muitas destas evidências em ordem para "despolitizar" os acontecimentos que envolveram Welling¹, mas talvez mais revelador seja que os anti-fascistas sob julgamento não deixaram suas convicções e associações e apresentaram com grande clareza uma defesa política.

No primeiro julgamento o promotor simplesmente apresentou ao júri as ações dos anti-fascistas como culpadas por si só, com sete companheiros acusados e seis atualmente cumprindo pena de prisão. Buscando fazer o mesmo no segundo julgamento, ele talvez tenha subestimado a disposição dos acusados de expressar suas razões e defender suas políticas a um júri.

Note-se que o promotor não estava no tribunal na segunda-feira para ouvir a leitura do veredito, o que foi visto como incomum.

Dos 23 originalmente presos, 3 foram soltos antes de ir a julgamento, 13 foram considerados inocentes e 7 culpados, seis destes estão atualmente na prisão cumprindo sentenças entre 15 e 21 meses (veja a lista abaixo).

[1] Isto de forma alguma deve fazer entender que o juiz estava ajudando os anti-fascistas, de fato o caso é o contrário. Em seu resumo ele fez diversos comentários pessoais diretos sobre o incidente, incluindo declará-lo como um "ataque covarde", o que pode ser interpretado como uma condução do júri. Foi o mesmo juiz que foi responsável pelo primeiro julgamento e mencionou em diversas ocasiões sua disposição de tratar os casos como atos de violência e não como um ato político. É interessante que o júri no segundo julgamento não viu isto da mesma forma.

Endereços dos prisioneiros anti-fascistas
Por favor envie a eles cartas de apoio nos endereços abaixo. Eles podem receber selos e encomendas postais. Nós incentivamos todos a apoiar estes que estão atualmente presos devido a suas ações políticas e convicções.

Guia para escrever para prisioneiros: http://www.brightonabc.org.uk/writing.html

• Andy Baker A5768CE
HMP Highpoint
Stradishall
Newmarket
Suffolk CB8 9YG

• Thomas Blak A5728CE
HMP Wormwood Scrubs
PO Box 757
Du Cane Rd
London W12 OAE

• Sean Cregan A5769CE
HMP Coldingley
Shaftesbury Rd
Bisley
Woking
Surrey GU24 9EX

• Phil De Souza A5766CE
HMP Elmley
Church Road
Eastchurch
Sheerness
Kent ME12 4DZ

• Ravinder Gill A5770CE
HMP Wayland
Griston
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Tradução > Marina Knup
agência de notícias anarquistas-ana
Por do sol no horizonte
pinta o céu de laranja,
para os olhos uma canja.
Pedro Mutti

2ª. Feira do Livro Anarquista de Porto Alegre - de 11 a 14 de Novembro!

2ª. Feira do Livro Anarquista de Porto Alegre
Nos dias 11, 12, 13 e 14 de Novembro, acontecerá em Porto Alegre a tão esperada 2ª Feira do Livro Anarquista!

O evento, como no ano passado, será marcado por bate papos, oficinas, livros, zines, filmes, intervenções, contatos e amizades, enfim, vivências em geral que tanto contribuem para a nossa aproximação enquanto anarquistas.

A Feira acontece paralelamente à feira institucional do livro aqui da cidade. A idéia é aproveitar a atmosfera literária com o intuito de divulgar e aproximar mais pessoas das idéias anarquistas, apresentando o anarquismo como uma alternativa real ao capitalismo, suas crises e suas guerras.

Este ano também estará acontecendo, nas noites do evento, o Dissidência MuzikFesto, um festival com bandas de várias partes do brasil, e também bandas locais.

Convidamos todxs a virem à Feira; participando, fomentando afinidades, celebrando a resistência e a história de luta anarquista global!

Comissão de Organização da 2ª Feira do Livro Anarquista

Para mais infos, cheque flapoa.deriva.com.br
ou entre em contato através do endereço 2flapoa[a]libertar.se

Locais:
Livros e atividades ao ar livre: Travessa Venezianos das 14h até as 20h
Oficinas: Moinho Negro (Rua Marcilio Dias 1463 (veja no site oficinas e horários)
Fonte: http://flapoa.deriva.com.br/

Ramonet acredita que jornalismo vive crise - Por Luciane Agnez

Ramonet acredita que jornalismo vive crise
A Embaixada da República Bolivariana da Venezuela realizou na terça-feira (1), a conferência “O papel dos meios de comunicação no contexto da crise mundial”, com a presença do jornalista Ignacio Ramonet, pesquisador e ex-diretor do jornal Le Monde Diplomatique, e do ex-ministro das comunicações da Venezuela, Jesse Chacón. O evento, que aconteceu no Memorial Darcy Ribeiro, na Universidade de Brasília, fez parte das iniciativas para integração das nações que compõem a Alianza Bolivariana para los Pueblos de Nuestra América (ALBA). A mesa foi presidida pelo Embaixador da Venezuela no Brasil, Maximilien Sánchez Arveláiz.

Ignacio Ramonet levantou reflexões sobre a revolução promovida pelas novas tecnologias, que estão mudando o panorama das comunicações em todo o mundo. Nesse contexto, a imprensa vivencia a maior crise desde o surgimento do chamado jornalismo de massa, há apenas 150 anos. A atmosfera midiática é diferente de 20 anos atrás.

O jornalista explica isso por uma metáfora: há milhões de anos, no fim da Era Jurássica, uma chuva de meteoros que atingiu a Terra, extinguindo os dinossauros e mudando o ecossistema do planeta. “A internet é o novo meteoro que vem alterar o ecossistema midiático”, afirmou. A consequência inevitável é a extinção de alguns tipos de mídia, principalmente no meio impresso, como já vem ocorrendo – muitos jornais desaparecerão. A crise já se mostra mais intensa nos Estados Unidos, onde, na última década, mais de 150 jornais fecharam e houve a redução de cerca de 20 mil empregos.

Ramonet alerta que o impacto da internet não ocorre apenas no meio impresso. Os canais de TV com notícias 24 horas, como a CNN, também enfrentam uma greve crise econômica, muito diferente do sistema de televisão que vivia seu auge no final da década de 1990. “Os canais de informação contínua estão com dificuldades de concorrer com a internet. O principal canal da Espanha fechou, por exemplo”, contou o jornalista.

Por outro lado, o desenvolvimento das redes sociais e dos blogs representa um avanço impossível de ser freado: há novos atores no processo de comunicação que não podem ser ignorados. “Também não quer dizer que esse cenário irá se estabilizar. Há 20 anos, o fenômeno era a CNN. Se esse nosso encontro fosse há três anos, possivelmente não falaríamos de Twitter ou de Facebook. A principal característica da realidade contemporânea é o movimento constante”, explicou Ramonet.

Ramonet também comentou sobre o tema de um de seus livros publicados: “Vivemos num estado de insegurança da informação, não podemos confiar nem no que é publicado na primeira página de um jornal”. Mas ele fez um alerta: “nunca foi feito esse tal ‘bom jornalismo’, nunca houve essa ‘era de ouro’, sempre foi difícil realizar esse jornalismo de qualidade”. Os desafios de antes – e de agora – é a permanente negociação entre a imprensa e os poderes político e econômico estabelecidos.

Um fato é incontestável: o jornalismo perdeu o monopólio da informação. Todos podem, hoje, consultar, acessar e produzir informações. Para Ramonet, “todos podemos ser jornalistas. Talvez não ‘bons’ jornalistas, mas com certeza não existe mais os receptores passivos. Informar-se é um processo ativo”.

Crise de identidade
Uma das principais consequências desse cenário é a crise de identidade vivida pelos jornalistas, pois não se sabe mais qual é a sua especificidade. “Qual a função do jornalismo na sociedade contemporânea? Qual a diferença entre um jornalista de O Estado de S. Paulo e um blogueiro que pode me dar uma informação mais trabalhada?”, provocou Ramonet.

Com os blogs, segundo ele, ganhamos em liberdade, mas é importante observar que nem todos os blogueiros são revolucionários, ao contrário, muitos são reacionários, conservadores. Mas o fato é que o grande volume de informações que a blogosfera produz pode sim derrubar os profissionais de comunicação. “A produção de informação é um trabalho proletariado, mas, ao mesmo tempo, nunca se produziu tanta informação e tão facilmente”, disse. Entre os fatores negativos, o jornalista destaca que, com a multiplicação das fontes, recebemos cada vez mais informações fragmentadas e não somos capazes de reconstituí-las em um contexto, compreendendo a dimensão política, social ou cultural dessa sociedade cada vez mais complexa. “Sentimos uma certa saudade de uma informação mais aprofundada, analítica”, lamentou.

Estados autoritários
Os estados autoritários não controlam mais a circulação da informação e as recentes revoluções no mundo árabe ilustram bem esse momento. “Cortar a internet significa parar os bancos, os ministérios, os serviços básicos do país. E ainda assim não impede que outros meios funcionem, como a telefonia e a televisão”, explicou Ramonet. Para ele, hoje, a circulação da informação funciona como um enxame, vem de todos os lados. “Não foi o Twitter ou qualquer outra rede social que derrubaram os governos na Tunísia ou no Egito, foi o movimento social, mas o ponto de partida foi, sem dúvida, a estratégia de enxame”.

Utilizando um conceito do filósofo francês Pierre Levy, Ramonet destacou que o potencial da inteligência coletiva é maior que a individual, como se caracteriza pelos modelos chamados wiki, mas ainda é um ideal. Segundo o jornalista, o desenvolvimento das tecnologias da informação e da comunicação traz uma ilusão de avanço em relação à democratização da comunicação. “Manter-se informado é muito mais difícil do que usar o Twitter ou o Facebook”, alerta.

Esse é um fenômeno que está apenas no início, não sabemos o que haverá daqui a cinco anos. Somos testemunhas de que novas tecnologias e novas funções surgem em pouco tempo. Para Ramonet, o que sabemos, com certeza, é que os cidadãos terão um papel muito importante para a informação e para debater a comunicação.

O acesso às tecnologias da comunicação é entendido como um direito, uma garantia de bem estar, assim como foi a energia elétrica no final do século XIX. Ter acesso está cada vez mais relacionado a um grau superior de cidadania. Independente das tecnologias, esse será o aspecto mais importante.

“Só não podemos acreditar que acessando as redes sociais estamos fugindo do controle dos grandes conglomerados de mídia. Essas são formas de comunicação do velho sistema de comunicação, que estão em crise, mas que não irão desaparecer como que por milagre. Quando fazemos uma ligação, enviamos uma mensagem de texto, usamos o Twitter, o Facebook ou o Google, estamos contribuindo para o enriquecimento dessas companhias”, ressaltou Ramonet. A comunicação se torna uma matéria-prima estratégia e o importante não é mais o conteúdo, mas a circulação de mensagens – é isso que gera receitas.

Por fim, Ramonet conclui: “A democracia da comunicação ainda é uma ilusão. As novas tecnologias, que proporcionam a multiplicação de fontes e a facilidade da circulação de informação, nos tornam também mais preguiçosos. Informar-se não é mais um ato passivo e não podemos nos contentar com a questão do acesso. Se não fizermos o esforço de procurar e reunir as informações de qualidade, elas não virão ao nosso encontro”.

(*) matéria reproduzida do Observatório do Direito à Comunicação
Fonte: www.fazendomedia.com/

Reitor da USP dá boas vindas à polícia militar - por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Noam Chomsky: se queremos mudar o mundo, vamos entendê-lo - La Jornada

Noam Chomsky: se queremos mudar o mundo, vamos entendê-loO aspecto mais digno de entusiasmo do movimento Ocupa Wall Street é a construção de vínculos que estão se formando em toda parte. Karl Marx disse: a tarefa não é somente entender o mundo, mas transformá-lo. Uma variante que convém ter em conta é que, se queremos com mais força mudar o mundo, vamos entendê-lo. Isso não significa escutar uma palestra ou ler um livro, embora essas coisas às vezes ajudem. Aprende-se a participar. Aprende-se com os demais. Aprende-se com as pessoas com quem se quer organizar.

Dar uma conferência Howard Zinn é uma experiência agridoce para mim. Lamento que ele não esteja aqui para tomar parte e revigorar um movimento que foi o sonho de sua vida. Com efeito, ele pôs boa parte de seus ensinamentos nisso.

Se os laços e associações que se estão estabelecendo nesses acontecimentos notáveis puderem se sustentar durante o longo e difícil período que os espera – a vitória nunca chega logo -, os protestos do Ocupar Wall Street poderão representar um momento significativo na história estadunidense.

Nunca tinha se visto nada como o movimento Ocupa Wall Street, nem em tamanho nem em caráter. Nem aqui nem em parte alguma do mundo. As vanguardas do movimento estão tratando de criar comunidades cooperativas que bem poderiam ser a base de organizações permanentes, de que se necessita para superar os obstáculos vindouros e a reação contra o que já está se produzindo.

Que o movimento Ocupem não tenha precedentes é algo que parece apropriado, pois esta é uma era sem precedentes, não só nestes momentos, mas desde os anos 70.

Os anos 70 foram uma época decisiva para os Estados Unidos. Desde a sua origem este país teve uma sociedade em desenvolvimento, não sempre no melhor sentido, mas com um avanço geral em direção da industrialização e da riqueza.

Mesmo em períodos mais sombrios, a expectativa era que o progresso teria de continuar. Eu tenho idade o suficiente para recordar da Grande Depressão. De meados dos anos 30, quando a situação objetivamente era muito mais dura que hoje, e o espírito bastante diferente.

Estava-se organizando um movimento de trabalhadores militantes – com o Congresso de Organizações Industriais (CIO) e outros – e os trabalhadores organizavam greves e operações padrão a ponto de quase tomarem as fábricas e as comandarem por si mesmos.

Devido às pressões populares foi aprovada a legislação do New Deal. A sensação que prevalecia era que sairíamos daqueles tempos difíceis.

Agora há uma sensação de desesperança e às vezes desespero. Isto é algo bastante novo em nossa história. Nos anos 30, os trabalhadores poderiam prever que os empregos iriam voltar. Agora, os trabalhadores da indústria, com um desemprego praticamente no mesmo nível que durante a Grande Depressão, sabem que, se as políticas atuais persistirem, esses empregos terão desaparecido para sempre.

Essa mudança na perspectiva estadunidense evoluiu a partir dos anos 70. Numa mudança de direção, vários séculos de industrialização converteram-se numa desindustrialização. Claro, a manufatura seguiu, mas no exterior; algo muito lucrativo para as empresas mas nocivo para a força de trabalho.

A economia centrou-se nas finanças. As instituições financeiras se expandiram enormemente. Acelerou-se o círculo vicioso entre finanças e política. A riqueza passou a se concentrar cada vez mais no setor financeiro. Os políticos, confrontados com os altos custos das campanhas eleitorais, afundaram profundamente nos bolsos de quem os apoia com dinheiro.

E, por sua vez, os políticos os favoreciam, com políticas favoráveis a Wall Street: desregulação, transferências fiscais, relaxamento das regras da administração corporativas, o que intensificou o círculo vicioso. O colapso era inevitável. Em 2008, o governo mais uma vez resgatou as empresas de Wall Street que eram supostamente grande demais para quebrarem, com dirigentes grandes demais para serem encarcerados.

Agora, para 10% de 1% da população que mais se beneficiou das políticas recentes ao longo de todos esses anos de cobiça e enganação, tudo vai muito bem.

Em 2005, o Citigroup – que certamente foi objeto em ocasiões repetidas de resgates do governo – viu o luxo como uma oportunidade de crescimento. O banco distribuiu um folheto para investidores no qual os convidava a investirem seu dinheiro em algo chamado de índice de plutonomia, que identificava as ações das companhias que atendessem ao mercado de luxo.

Líderes religiosos, principalmente da comunidade de negros, cruzaram a ponte do Brooklyn no último domingo com lonas e tendas para entregá-las aos membros do movimento Ocupar Wall Street que estão acampados no coração econômico da cidade de Nova York.

O mundo está dividido em dois blocos: a plutocracia e o resto, resumiu. Estados Unidos, Grã Bretanha e Canadá são as plutocracias-chave: as economias impulsionadas pelo luxo.

Quanto aos não ricos, às vezes se lhe chamam de precariado: o proletariado que leva uma existência precária na periferia da sociedade. Essa periferia, no entando, converteu-se numa proporção substancial da população dos Estados Unidos e de outros países.

Assim, temos a plutocracia e o precariado: o 1% e os 99%, como se vê no movimento Ocupem. Não são cifras literais mas sim, é a imagem exata.

A mudança história na confiança popular no futuro é um reflexo de tendências que poderão ser irreversíveis. Os protestos do movimento Ocupem são a primeira reação popular importante que poderão mudar essa dinâmica.

Eu me detive nos assuntos internos. Mas há dois acontecimentos perigosos na arena internacional que ofuscam todos os demais.

Pela primeira vez na história há ameaças reais à sobrevivência da espécie humana. Desde 1945 temos armas nucleares e parece um milagre que tenhamos sobrevivido. Mas as políticas do governo Barack Obama estão fomentando uma escalada.

A outra ameaça, claro, é a catástrofe ambiental. Por fim, praticamente todos os países do mundo estão tomando medidas para fazer algo a respeito. Mas os Estados Unidos estão regredindo.

Um sistema de propaganda reconhecido abertamente pela comunidade empresarial declara que a mudança climática é um engano dos setores liberais. Por que teríamos de dar atenção a esses cientistas?

Se essa intransigência no país mais rico do mundo continuar, não poderemos evitar a catástrofe.

Deve fazer-se algo, de uma maneira disciplinada e sustentável. E logo. Não será fácil avançar. É inevitável que haja dificuldades e fracassos. Mas a menos que o processo estão ocorrendo aqui e em outras partes do país e de todo o mundo continue crescendo e se converta numa força importante da sociedade e da política, as possibilidades de um futuro decente são exíguas.

Não se pode lançar iniciativas significativas sem uma ampla e ativa base popular. É necessário sair por todo o país e fazer as pessoas entenderem do que se trata o movimento Ocupar Wall Street, o que cada um pode fazer e que consequências teria não fazer nada.

Organizar uma base assim implica educação e ativismo. Educar as pessoas não significa dizer em que acreditar; significa aprender dela e com ela.

Karl Marx disse: a tarefa não é somente entender o mundo, mas transformá-lo. Uma variante que convém ter em conta é que, se queremos com mais força mudar o mundo, vamos entendê-lo. Isso não significa escutar uma palestra ou ler um livro, embora essas coisas às vezes ajudem. Aprende-se a participar. Aprende-se com os demais. Aprende-se com as pessoas com quem se quer organizar. Todos temos de alcançar conhecimentos e experiências para formular e implementar ideias.

O aspecto mais digno de entusiasmo do movimento Ocupar Wall Street é a construção de vínculos que estão se formando em toda parte. Esses laços podem se manter e expandir, e o movimento poderá dedicar-se a campanhas destinadas a porem a sociedade numa trajetória mais humana.

(*) Este artigo é uma adaptação de uma fala de Noam Chomsky no acampamento Occupy Boston, na praça Dewey, em 22 de outubro. Ele falou numa atividade de uma série de Conferências em Memória de Howard Zinn, celebrada pela Universidade Livre do Ocupar Boston. Zinn foi historiador, ativista e autor de A People’s History of the United States.)
(**) Chomsky é professor emérito de Linguística e Filosofia do Instituto Tecnológico de Massachusetts, em Cambridge, Massachusetts. É o maior linguista do século e um dos últimos anarquistas sérios do planeta.
Tradução: Katarina Peixoto
Fonte: www.cartamaior.com.br/