quinta-feira, 4 de outubro de 2012

O alcance da ética e o especismo: a denúncia da Filosofia e da Literatura - Ellen Augusta Valer de Freitas

O alcance da ética e o especismo: a denúncia da Filosofia e da Literatura
Este ensaio foi publicado no livro Visão Abolicionista: ética e direitos animais, organizado por Silvana Andrade da ANDA em 2010, pela editora Libra Três.

Os animais são a última instância, em se tratando de ética e respeito aos seres vivos. Agora que já não é mais aceitável escravizar índios, negros, pobres ou oprimir as mulheres (pelo menos não abertamente), ainda é possível e até mesmo incentivado que o mesmo seja feito aos animais.

Mesmo a Natureza – esta entidade genérica que é tema de Bioética e ética – é algo que preocupa muitas pessoas e provoca atitudes em outras. Curiosamente, os animais são os menos valorizados neste teatro que é a preservação ambiental. Fora os animais raros e ameaçados de extinção (mas não todos), o restante é enfaticamente ignorado pela mente humana.

Há diversas espécies de anfíbios e peixes que estão quase extintos, só para exemplificar, que não são sequer lembrados ou são consumidos avidamente mesmo estando ameaçados – é o caso de muitas espécies de bacalhau.

Resta-nos saber o porquê de tanto cinismo, ou irresponsabilidade. O porquê de se considerar por muitos séculos os animais como seres que não tem valor em si, e além disso, mesmo com tanto conhecimento sobre a senciência dos animais e sobre sua inteligência, ainda insistir na crença tola de que eles não têm nada.

Desde a origem da humanidade até os nossos dias, os animais sempre foram um mistério, motivo de admiração e ódio pelos seres humanos. Excluir animais da esfera de consideração de interesses não apenas ameaça a economia baseada no consumo de animais, ameaça ainda o ego de uma humanidade que pensa ser a única no mundo, a melhor e a que pode usar e abusar de toda a natureza em seu benefício.

Para todas as religiões, o homem é o bem maior e todo o mais é servido a ele para seu propósito. Não é permitido se sentir culpado frente ao abuso que cometemos com todos os seres e de modo específico com os animais. Mesmo diante de catástrofes planetárias de óbvia causa humana como o aquecimento global, as tentativas de auto-defesa  logo são postas em jogo e o ser humano rapidamente esquece de sua responsabilidade frente ao mundo artificial que ele criou.

Quem outorga-se o direito de usar os recursos infinitamente e os seres vivos como se fossem coisas, deve também assumir a culpa e a responsabilidade por seus atos.  Pelo menos dentro da coerência do pensamento ético. Fora disso a humanidade vem fazendo o que bem entende e a natureza, regida por causas e efeitos, vem espelhando nossa brutalidade.

Só que os animais são as vítimas silenciosas, os inocentes que não têm voz neste mundo. O ativismo pelos animais é muito importante para estes seres, que estão submetidos aos mais diversos tormentos e sequer podem ser ouvidos, pois ninguém se dá conta de tamanha barbárie.

Fritjof Capra defende em alguns de seus livros que tratam: entre outras coisas, de ecologia profunda, física quântica e holística; que a mentalidade mecanicista da Física clássica exerceu influência em praticamente todas as áreas da ciência e ainda à própria sociedade. Vemos até hoje as idéias de Descartes, mesmo em face de descobertas mais complexas, serem o norte do pensamento científico e geral.

A dificuldade é mudar os paradigmas, o que Capra define bem em “O ponto de Mutação”.  É impressionante que com tantas descobertas e o aumento do conhecimento, a humanidade ainda siga no paradigma do machismo, da exploração invasiva da natureza e na segmentação da ciência. Neste ponto específico, ele fala de como a Biologia se ateve nas idéias de cartesianas a ponto de até hoje encarar a vida pela sua visão mecanicista. Todas as descobertas da Biologia Molecular, aliadas às idéias de Darwin, pode nos dar uma visão muito diferente da natureza e dos animais do que aquela visão antiga de um mundo mecânico e disposto ao nosso bel prazer e curiosidade pura.

A visão mecanicista da vida e de toda a natureza pode ser fruto da mentalidade egoísta e violenta, característica da humanidade. Não afirmado constantemente, muitos estudos corroboram a afirmação de que o ser humano é violento por natureza, embora tenha obviamente sentimentos bons e compassivos. O ser humano não tem sido ético com a natureza, especificamente com os animais, por se aferrar à crença de que é o centro do universo. Essa crença é reforçada por todas as religiões e prontamente aceita pela população em geral.  Embora difícil de afirmar, pois fazer julgamentos acerca de nós mesmos é sempre uma tarefa que pode gerar distorções, esta mentalidade é um tanto perigosa para animais e humanos, pois a partir de tal pensamento muitos outros surgiram com o intuito de desqualificar os animais da esfera moral. Só que seguindo este raciocínio, também pode-se desqualificar seres humanos que não tenham “as condições” tais que possam ser considerados. Vejamos alguns exemplos:

Em seu livro Ética e Experimentação Animal – Fundamentos Abolicionistas, Sonia Teresinha Felipe lista alguns argumentos que são contra os animais de uma forma muito enfática, autores que consideram os animais “ferramentas” para o nosso uso. Alegando que os animais não possuem sentimentos, ou que estes sentimentos são “incompletos”, desconsideram pesquisas importantes de realizadas por etólogos sobre o sentimento de dor e o comportamento dos animais. Mais parecem falar sozinhos, pois embora argumentem, só conseguem ver o seu ponto de vista e desconsideram que a ciência possa ter uma alternativa ao uso de animais.

Estar agarrado ao conceito de que os animais devem ser usados como ferramentas, objetos, utensílios, é o que faz estes pensadores e muitos pesquisadores a imaginar que a ciência não pode existir sem animais, que não poderá nunca haver alternativas e isto é um grande erro.

Chamaria de uma ignorância muito grande o fato da humanidade seguir usando e explorando os animais, desta forma tirana sem nem mesmo cogitar um mundo com outras possibilidades.
Um dos trechos do livro fala dos argumentos de Carl Cohen:

“Ao raciocinar conforme o critério utilitarista clássico, Cohen parece esquecer que a perspectiva utilitarista preferencial, adotada por seus colegas Richard M. Hare e Peter Singer, ordena levar em conta, no cálculo dos interesses, todos os afetados pelas decisões e ações. O cálculo dos benefícios e custos de uma ação, proposto pelos utilitaristas clássicos, não é mera ostentação de poder daquele que pretende obter benefícios para si, de uma decisão que a sua autoridade lhe confere o poder de tomar, subtraindo-os do bem estar alheio. (…) Ao defender seus próprios interesses, o sujeito moral racional não admite ser a vítima dos sacrifícios. Mas, esse mesmo sujeito aprecia que outros sejam sacrificados para atender seus interesses. Egoísmo e pleonexia  são termos que designam bem tal gosto, não ética, nem justiça.”

No capítulo 2 (Controvérsia Filosófica. O estatuto moral dos animais) de seu livro, Sonia Felipe mostra-nos alguns autores e seus pensamentos contrários aos animais. Carl Cohen é professor de Filosofia da University of Michigan, o adversário mais respeitado da posição de Tom Regan, que defende direitos morais para animais, caso insistamos em defender direitos morais para humanos não paradigmáticos.

Jan Naverson, no exemplo do livro, justifica sua recusa em atribuir direitos aos animais, afirmando que estes não podem firmar contratos.

Argumentos deste tipo, na explicação da escritora, cria o problema lógico e ético de se dever traçar uma linha divisória que separa seres dignos de consideração moral dos demais, indignos desta, já no âmbito da própria comunidade humana. Isso, em vez de favorecer a igualdade, cria condições morais para que se pratique a discriminação, velada é claro, atrás de declarações de igualdade que os próprios sujeitos morais, os dotados de uma suposta racionalidade plena, sabem muito bem não poder ser correspondida por parte dos deficientes morais.

“Naverson apela ao fato de haver, via de regra, quem se interesse pelo bem-estar de humanos marginais. Esse interesse alheio basta para que, no seu entender, não façamos àqueles algo que faríamos a quaisquer seres, caso não houvesse ninguém manifestamente interessado em seu bem estar. Conclui-se, do raciocínio de Naverson, que é do interesse de um terceiro, portanto, de uma espécie de dever indireto, que a obrigação de abster-se de atos cruéis contra o primeiro deriva. Com a defesa da posição de Naverson surge o problema de se garantir a moralidade do sujeito, quando não existe ninguém interessado no bem-estar de um determinado indivíduo, humano ou não humano. Neste caso, cessa o constrangimento moral naqueles que sabem da vulnerabilidade dos outros. Em outras palavras, se não temos deveres morais diretos para com humanos marginais, se o bem que lhes fazemos se deve apenas ao respeito que temos pelos sentimentos de outros seres humanos que os protegem, tudo é permitido quando esses não têm quem os acolha, proteja ou socorra. Este raciocínio incorre no risco de acabar por autorizar todo abuso contra seres sem tutores, sejam eles humanos ou não humanos.”

Podemos analisar tais argumentos e logo estabelecer em cada um deles, algo que não fecha. Por ter sempre um peso e duas medidas. Um favorecimento de nossa espécie, e o desprezo pelos demais. Na tentativa de favorecer em demasia o uso de animais em funções de interesses diversos, o próprio argumento se volta contra aqueles seres humanos mais fragilizados.

“Uma tal forma de argumento legitima o abandono de seres vivos em estado de necessidade, portanto, fragilizados e ameaçados pelo ambiente natural e social no qual têm de viver. Ao discutirmos a relatividade moral da condição animal, acabamos por tocar na relatividade da argumentação moral tradicional, que expõe, igualmente, humanos e não humanos ao abuso e à exploração, quando não há autoridade alguma que se interesse por seu bem estar ou pela preservação de sua vida. O contratualismo clássico acaba por prestar um desserviço à defesa dos direitos humanos, às dos animais,  e à do meio ambiente, quando esses não têm tutores que os protejam com cláusulas e leis específicas. O que Naverson não declara, mas evidencia em sua tese, é que só há dois conceitos possíveis na moralidade tradicional: o de sujeitos de direitos e o de coisas.  Para se ter proteção moral, há que se ter a  proteção de um senhor, um proprietário.”

Na literatura em geral temos muitos exemplos de denúncias contra a frieza humana em relação aos animais. A crítica de que defensores de animais não estão fazendo nada pelas crianças famintas, ou velhos doentes, geralmente é feita por pessoas que nada fazem nem pelas crianças, nem pelos idosos, mas acha pertinente apontar o dedo para aqueles que estão fazendo algo pelos animais. Como se um ato repelisse o outro ato. Muitas pessoas que ajudam animais são extremamente humanas e compassivas. Muitos dos que maltratam animais normalmente podem vir a fazer o mesmo com seres humanos.

Esta frieza e indiferença aos animais, os usados como fornecedores de partes e carcaças, por exemplo, é algo que choca, por ser tão arraigado nos costumes humanos. E fazem, conforme podemos pesquisar na literatura sobre a violência no mundo.

A banalização da violência começa quando, se normatiza a crueldade com os animais, alegando-se que foram feitos para isto. Confirmando os preconceitos mais antigos e seculares.

A ética começa quando decidimos revisar estes conceitos e adotar uma postura radical de mudança.

Apenas o vegetarianismo radical – veganismo – isto é, a abstenção total do consumo de produtos de origem animal, por sua coerência, é a atitude de proteção dos interesses animais digna de respeito.

Ser vegetariano e consumir avidamente ovos e leite como é comumente observado no Brasil, é uma atitude que prejudica os animais. Pois sabemos que animais utilizados como fábricas de ovos e leite têm vidas miseráveis, seus filhotes no caso das vacas são separados da mãe para virarem vitela ou algo do tipo e todos eles tem mortes tão cruéis como os outros animais de consumo.
Esta consciência ainda não foi despertada em muitos vegetarianos, mas aqui neste texto falamos da consciência da maioria das pessoas, que sequer lembram que aquele pedaço de carne vem de algum animal.

Nos livros do escritor e psicólogo Ezio Flávio Bazzo, temos alguns exemplos de denúncias de como a mentalidade social funciona:

“(…) Preste atenção, dizia-me uma delas, como quem não gosta de animais é mau caráter. E acrescentou: se existir o tal céu e o tal castigo que dizem todos aqueles que em vida mataram galinhas, vacas, peixes ou outros animais para devorá-los – seja lá na santidade do lar, aqui na ignomínia do puteiro, ou em qualquer outro antro de bruxaria – irão diretamente para o inferno.”

Nota de rodapé do livro “Prostitutas, bruxas e donas de casa: Notícias do Éden e do calvário feminino”.

Em outro livro, podemos verificar semelhante visão realidade na frase:

“Ah criadorzinho de vacas que destróis uma floresta secular para plantar soja ou para criar rebanhos!. É sintomático que em teu país haja mais vacas de que gente. E que tua nação seja um imenso e cruel matadouro. Tu que acreditas piamente num céu após a morte, podes estar certo de que quando chegares lá darás de cara com milhões de vacas, em fila, todas esperando avidamente para enfiar-te os cornos no rabo.”

Trecho do livro “Manifesto aberto à estupidez humana”.

Os livros deste autor, embora falem de assuntos diversos, possuem ótimas referências de filósofos e outros bons escritores e servem de base para questionarmos a realidade em que vivemos. Totalmente separada, esquizóide, uma realidade onde temos a espiritualidade totalmente independente da compaixão com os animais.

Boa parte das religiões ignoram os animais ou mesmo contribuem de forma enfática para reforçar o especismo. As religiões que defendem os animais, sempre o fazem de forma indireta, em benefício do homem, colocando-o acima de todos os seres. Não temos nada real.
A filosofia é o que resta-nos se quisermos usar um norte real e racional para defender os animais. Mesmo assim, estabelece-se essas divisões de pensamentos, naturais do próprio processo de pensar.

No livro Toaletes e guilhotinas, o escritor Ezio Flávio Bazzo comenta uma antiga imagem de abatedouro de cavalos:
“Mercado de Paris, 1900 _ Abatedouro de cavalos

Sem nenhum tipo de deboche, olhem atentamente para a boca, as narinas, as orelhas e o corpo inteiro do cavalo: ele emana mais (luz) e mais simpatia que todos os (matadores) que o distraem, que lhe tapam os olhos e que no momento seguinte arremessarão contra sua cabeça o golpe da marreta. Diante de uma dessas cenas, quem é que em sã consciência, consegue seguir confiando nos homens? Acreditando em suas leis? Dormindo a seu lado? Apesar de toda a demagogia humanista, não resta dúvidas de que os crimes cometidos nos abatedouros contra as aves, os porcos, as vacas e outros animais, é o mesmo que se comete sobre o cadafalso, nas cadeiras elétricas, nos postes e nos paredões contra os homens. A única aparente diferença está na racionalização que se desenvolveu sobre o assunto e na necessidade doentia e criminosa da humanidade em seguir massacrando as outras espécies”.

Com estas frases espirituosas, convido o leitor a refletir e aprofundar suas leituras e também suas atitudes sobre a libertação animal. Não podemos mais esperar por decisões que partam de fora ou somente das entidades. A humanidade encontra-se completamente dividida no que se refere aos animais e como todo preconceito, o especismo é muito difícil de ser percebido, pois estamos imersos nele.

Assim como os visionários que rapidamente perceberam preconceitos como o machismo, para dar um exemplo, hoje temos outros visionários que estão denunciando esta forma de preconceito chamada especismo – que é o desprezo, a falta de consideração com os seres que não pertencem à nossa espécie.

É muito terrível perceber este tipo de preconceito em praticamente todas as nossas relações, mas é bastante libertador para o nosso intelecto e principalmente para os animais estarmos atentos a estes comportamentos e tentarmos mudar nosso contexto.

A libertação definitiva dos animais é um ideal, uma utopia. Como tal, se coloca como um norte, mesmo que seja difícil de alcançar a curto e médio prazo. Todos que lutam por ideais, sabem que muito provavelmente não verão em suas vidas, alguma mudança substancial. Mas é importante lembrar que estas pessoas fazem a sua parte e colaboram para que o mundo sofra mudanças necessárias. A História nos mostra isso. Em sua época, muitos visionários sofreram preconceitos e até morte para que suas idéias sequer fossem mencionadas. E hoje, as colaborações destes pensadores nos garantem uma vida melhor. Da mesma forma, acreditamos que os animais precisam de pessoas com coragem de abrir a boca, escrever, lutar e tentar mudar as coisas aqui no presente. Mesmo que aparentemente as mudanças sejam lentas, elas ocorrerão, se soubermos como informar a todos e encorajar novas atitudes.

Bibliografia
Bazzo, Ezio Flavio. Toaletes e guilhotinas, uma epistemologia da merda e da vingança/ Brasília: Ed. LGE, 2008. 420 p. Primeira edição em 1995. Citações deste artigo nas páginas: 95, 128, 171, 208 e 306.
Bazzo, Ezio Flavio. Manifesto aberto à estupidez humana/ Brasília: Ed. LGE, 2007. 143p. Primeira edição em 1977/78, publicado em castelhano no México em 1979.
Bazzo, Ezio Flavio. Ecce Bestia – Libertinagem com animais/ Brasília: Narcisus publicadora & Cia, 2001. 163p.
Bazzo, Ezio Flavio. Prostitutas, Bruxas e Donas de casa – notícias do Éden e do calvário feminino/Brasília: LGE, 2009.
Capra, Fritjof. O Ponto de Mutação, Ed. Cultrix, 1992.
Capra, Fritjof. Sabedoria Incomum, Círculo do Livro, 1992.
Capra, Fritjof. O Tao da Física, Ed. Cultrix, 1995.
FELIPE, Sônia T. Ética e experimentação animal: fundamentos abolicionistas. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2007. 351p.
WRANGHAM, R., PETERSON, D. O Macho Demoníaco: As Origens da Agressividade Humana. Comportamento, 1998.

Show: First Blood em São Paulo neste sábado imperdível!

AGNOSTIC FRONT/H2O/FIRST BLOOD EM SÃO PAULO
October 6, 2012
SÃO PAULO, BRAZIL
06/10 (sábado) Abertura da casa:16h00

AGNOSTIC FRONT (Estados Unidos)
H2O (Estados Unidos)
FIRST BLOOD (Estados Unidos)
PAURA (SP, Brasil)

LOCAL: CARIOCA CLUB
Rua Cardeal Arcoverde, 2899
São Paulo - SP
www.cariocaclub.com.br
0xx11 3813-8598

R$80 (pista - estudante/meia entrada)
R$100 (pista - primeiro lote - promocional)
Camarote: entradas limitadas à venda apenas na loja 255

Locais da venda antecipada:
LOJA 255 (Galeria do Rock, Rua 24 de Maio, 62, primeiro andar, loja 255, São Paulo-SP,fone: 0xx11 3361-6951).
CARIOCA CLUB (Rua Cardeal Arcoverde, 2899, São Paulo - SP,0xx11 3813-8598).

Venda de ingressos pela internet:
www.liberationstore.net
Realização: Liberation Tour Booking
Informações gerais: info@liberationmc.com
Faixa etária: menores de 14 anos somente acompanhados de responsável.
Sites relacionados:
www.agnosticfront.com
www.h2ogo.com

www.firstbloodrules.com

Nesta eleição, votar com sua carteira, votar @ WikiLeaks | # Assange - por Latuff

Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

Última obra de Hobsbawm será publicada em 2013.

Última obra de Hobsbawm será publicada em 2013

“Fractured Spring” é uma coleção de estudos sobre temas diversos
O historiador, Eric Hobsbawm, que faleceu nesta semana aos 95 anos ainda terá mais um livro publicado

Os leitores de Eric Hobsbawm ainda poderão contar com mais uma obra do historiador marxista, que faleceu na última segunda-feira (01/10). A editora Little Brown anunciou nesta quarta-feira (03/10) que o autor entregou seu último livro há três meses, informou o jornal britânico
Guardian.

“Fractured Spring” (Primavera Fraturada em tradução livre) é uma coleção de estudos sobre a cultura, a arte e a sociedade dos séculos XIX e XX, contendo reflexões sobre temas diversos, como religião, ideologia e até mesmo sobre a figura do cowboy norte-americano.

“O livro cobre os efeitos da revolução científica e tecnológica no século XX e o modo como a sociedade de consumo gerou uma explosão no potencial das economias ocidentais”, explicou o editor Richard Beswick. “Culturalmente, ele explora as extraordinárias mudanças no século XX, do declínio das artes de elite à figura do macho alfa”, acrescentou.

A obra será a última publicação de Hobsbawm, que marcou os estudos de história contemporânea com a série de livros “A Era da Revolução” (1789 – 1848), a “Era do Capital” (1848 – 1875), “A Era dos Impérios” (1875 – 1914) e “A Era dos Extremos (1914 – 1991)”, e parece seguir sua preocupação central.

Em suas pesquisas, o pensador procura compreender e refletir sobre as transformações sociais a partir de marcos históricos e também, sobre as teorias que alicerçam as revoluções. Em 2011, aos 94 anos, Hobsbawm reuniu prefácios, artigos, conferências e ensaios no livro “Como mudar o mundo” que analisa a teoria marxista.

Segundo informações da editora, “Fractured Spring” deve chegar às livrarias europeias em março do próximo ano. Os leitores brasileiros terão que esperar mais, pois ainda não existem informações sobre a tradução da obra.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

O século de Hobsbawm – por Vladimir Safatle.*

Morreu ontem Eric Hobsbawm, um dos mais influentes historiadores do século 20. Sua influência veio não apenas de um trabalho seguro e rigoroso de pesquisa historiográfica que privilegiava movimentos sociais dos séculos 19 e 20. Na verdade, em uma época como a nossa, que parece abraçar de maneira entusiasmada a crítica das chamadas “metanarrativas” com suas visões de processos globais e movimentos teleológicos, Hobsbawm destoava por ser um dos poucos que não se contentavam em afundar-se na micro-história.

Sem medo de procurar processos nos quais rupturas socioeconômicas e produção de novas ideias de cunho universalista se entrelaçam, Hobsbawm soube, como poucos, mostrar como a história da modernidade ocidental sempre foi a história das revoluções.

Fiel à filosofia da história de cunho hegeliano herdada pela tradição marxista, ele escreveu quatro livros clássicos (A Era das Revoluções, A Era do Capital, A Era dos Impérios e Era dos Extremos) a fim de mostrar como as exigências igualitárias de liberdade enunciadas pelos setores populares da Revolução Francesa moldarão o curso da história como uma voz que sempre volta. Tal voz da igualdade será o fator de inquietude de uma história que será, cada vez mais, realmente mundial.
Adorno dizia que a fixação positivista nos “fatos” escondia, muitas vezes, a simples incapacidade de enxergar estruturas. Pensar é saber estabelecer relações e, se é inegável que certas construções da historiografia marxista demonstram-se infrutíferas e demasiado genéricas, há de se reconhecer que a rejeição em bloco dessa tradição teve forte impacto negativo na nossa capacidade de pensar a história.

Mas isso nunca impediu Hobsbawm de imergir nos detalhes e encontrar, por exemplo, na voz de Billie Holiday as marcas do sofrimento social dos esquecidos do sonho americano (conforme o livro História Social do Jazz) ou nas desventuras do bandido Jesse James algo de fundamental a respeito dos descaminhos de nosso ideal de liberdade e das debilidades do poder (conforme o livro Bandidos). Hobsbawm sabia ler tais “fatos isolados” como sintomas sociais.

Alguns, como o historiador britânico Tony Judt, insistiam que Hobsbawm não teria capacidade de compreender as ilusões que moldaram o século 20, em especial o comunismo. Talvez seja o caso de dizer que a compreensão da história como simples crítica das ilusões corre o risco de perder de vista o essencial: de onde vem a força que faz com que indivíduos consigam ir além de seus próprios interesses imediatos? O que talvez explique porque quis o destino que o último livro de Hobsbawm se chamasse exatamente Como Mudar o Mundo.

- Artigo publicado originalmente jornal Folha de S.Paulo, em 2/10/2012.
Vladimir Safatle é professor livre-docente do Departamento de Filosofia da USP

Lembrança e legado de Eric Hobsbawn - Por Martin Kettle e Dorothy Wedderburn

Lembrança e legado de Eric Hobsbawn
Um historiador com poder de síntese incomparável. Um marxista crítico e inquieto, sem deixar jamais de acreditar na transformação social

Se Eric Hobsbawm tivesse morrido há 25 anos atrás, os obituários o descreveriam como o historiador marxista britânico mais notável e acabariam mais ou menos aí. Mas ao morrer agora, aos 95 anos, ele atingiu uma posição única na vida intelectual de seu país. Nos últimos anos, tornou-se o historiador britânico mais respeitado de qualquer tipo, reconhecido (se não aprovado) tanto pela esquerda quanto pela direita, e um dos poucos historiadores de qualquer era a desfrutar reconhecimento nacional e internacional genuíno.

Diferente de outros, Hobsbawm atingiu tal status sem voltar-se contra o marxismo ou Marx. Em seu 94º ano, ele publicou How to change the world [leia resenha em Outras Palavras], uma forte defesa da relevância contínua de Marx na sequência do colapso dos bancos de 2008-2010. Além disso, atingiu o auge de sua reputação em um momento em que as ideias e projetos socialistas, que tanto estimularam sua escrita por mais de meio século, estavam em desarranjo histórico – algo de que ele esteve muito consciente.

Em uma profissão conhecida por preocupações microscópicas, poucos historiadores envolveram-se num campo tão vasto, com tantos detalhes ou com tanta autoridade. Até o fim, Hobsbawm considerava-se essencialmente um historiador do século 19, mas seu entendimento desse e de outros séculos era amplo e cosmopolita.

O alcance de seu interesse pelo passado, e seu excepcional domínio dos temas pelos quais se embrenhava sempre espantaram a muitos, principalmente na série de quatro volumes A era das… na qual se destila a história do mundo capitalista de 1789 a 1991. “A capacidade de Hobsbawm de armazenar e recuperar detalhes atingiu agora a escala normalmente alcançada apenas por grandes arquivos com grandes equipes”, escreveu Neal Ascherson. Tanto por seu conhecimento de detalhes históricos quanto por seu extraordinário poder de síntese, tão bem colocados no projeto dos quatro volumes, ele foi incomparável.

Hobsbawm nasceu em Alexandria, um bom lugar para um historiador do império, em 1917, um bom ano para um comunista. Ele faz parte da segunda geração britânica de sua família, neto de um judeu polonês e marceneiro que foi para Londres nos anos 1870. Oito filhos, incluindo Leopold, pai de Eric, nasceram na Inglaterra e todos ganharam cidadania britânica quando nasceram (o tio de Hobsbawm, Harry, tornou-se o primeiro prefeito eleito pelo Partido Trabalhista em Paddington).

Mas Eric era um britânico com um background pouco comum. Outro tio, Sidney, foi para o Egito antes da Primeira Guerra Mundial e encontrou um emprego para Leopold numa agência de despachos marítimos. Lá, em 1914, Leopold Hobsbawm conheceu Nelly Gruen, uma jovem vienense de uma família de classe média, que tinha ganho uma viagem ao Egito como prêmio por ter terminado seus estudos. Os dois ficaram noivos, mas a eclosão da I Guerra Mundial os separou. O casal acabaria se casando na Suíça em 1916, voltando ao Egito para o nascimento de seu primeiro filho, Eric.

“Todo historiador tem sua história de vida, um ponto de vista privado para examinar o mundo”, ele disse em 1993, em uma palestra em Creighton, numa das várias ocasiões nos seus últimos anos em que tentou relacionar sua história de vida com sua escrita. “Meu ponto de vista foi construído a partir de uma infância em Viena nos anos de 1920, os anos em que Hitler ganhou força em Berlim, que determinaram minha visão política e meu interesse pela história; e na Inglaterra, especialmente em Cambridge nos anos 1930, quando confirmei as duas escolhas”.

Em 1919, a jovem família assentou-se em Viena, onde Eric frequentou a escola primária, período que ele mais tarde relembrou em 1995, em um documentário na televisão que mostrava fotos de um jovem Hobsbawm magro, usando shorts e meias até os joelhos. A política teve seu impacto mais ou menos nessa época. A primeira memória política de Eric é de Viena, em 1927, quando trabalhadores queimaram o Palácio da Justiça. A primeira conversa política de que ele se lembrava aconteceu em um sanatório, por volta desse ano. Duas mulheres judias estavam discutindo Leon Trotsky. “Diga o que você quiser”, uma disse a outra, “mas ele é um jovem judeu chamado Bronstein”.

Em 1929, seu pai morreu de um ataque cardíaco. Dois anos depois, sua mãe morreu de tuberculose. Eric tinha 14 anos, e seu tio Sidney assumiu a responsabilidade, e levou Eric e sua irmã Nancy para Berlim. Como um adolescente em Berlim na República Weimar, Eric inevitavelmente se politizou. Ele leu Marx pela primeira vez, e se tornou um comunista.

Ele sempre se lembrou do dia, em janeiro de 1933, quando, ao sair da estação Halensee S-Bahn voltando da escola para casa, viu uma manchete em um jornal anunciando que Hitler havia sido eleito chanceler. Por volta dessa época, juntou-se ao Socialist Schoolboys, que descreveu como “de fato parte do movimento comunista” e vendeu a publicação Schulkampf (“Luta Estudantil”). Ele manteve o mimeógrafo da organização sob sua cama e, dada sua facilidade posterior em escrever, provavelmente também redigiu também a maioria dos artigos. A família permaneceu em Berlim até 1933, quando Sidney Hobsbawm foi enviado para a Inglaterra por seus empregadores.

O garoto adolescente que foi morar com sua irmã em Edgware, em 1934, descreveu a si mesmo posteriormente como “completamente europeu e germanófono”. A escola, porém, “não era um problema” pois o sistema educacional inglês estava “muito atrás” do alemão. Um primo em Balham apresentou-o ao jazz pela primeira vez – o “som irrespondível”, ele chamava. O grande momento da conversa, ele escreveria uns 60 anos depois, foi quando ouviu pela primeira vez a banda Duque Ellington “em sua forma mais imperialista”. Atuou durante uma parte dos anos 1950 como crítico de jazz do New Statesman, e publicou uma edição especial, The Jazz Scene, sobre o assunto, em 1959, sob o pseudônimo de Francis Newton (muitos anos mais tarde, a obra foi relançada com Hobsbawm identificado como o autor).

Ao aprender a falar inglês corretamente, Eric tornou-se aluno na escola de gramática Marybone e ganhou, em 1936, uma bolsa de estudos para a King’s College, em Cambridge. Foi nessa época que uma frase ficou comum, entre seus amigos comunistas de Cambridge: “tem alguma coisa que o Hobsbawm não sabe?”. Ele tornou-se membro da legendária Cambridge Apostles. “Todos nós pensamos que a crise de 1930 era a crise final do capitalismo”, ele escreveu 40 anos depois. Mas, acrescentou, “não era”.

Quando a II Guerra Mundial teve início, Hobsbawm voluntariou-se, como muitos comunistas, para trabalho de inteligência. Mas suas ideias políticas, que nunca foram segredo, levaram à rejeição. Então ele tornou-se um escavador improvável na 560ª Companhia de Campo, que posteriormente descreveu como “uma unidade muito operária, tentando construir defesas notoriamente inadequadas contra invasões no litoral de East Anglia”. Essa também foi uma experiência formativa para o jovem prodígio intelectual, muitas vezes ausente. “Havia algo sublime sobre eles e a Inglaterra naquele tempo”, escreveu. “Aquela experiência na guerra converteu-me em um operário inglês. Eles não eram muito inteligentes, exceto os escoceses e galeses, mas eles eram pessoas muito, muito boas”.

Hobsbawm casou-se com sua primeira esposa, Muriel Seaman, em 1943. Depois da guerra, de volta a Cambridge, tomou outra decisão: abandonou um doutorado planejado sobre a reforma agrária no norte da África para fazer uma pesquisa sobre os socialistas fabianos. Foi uma escolha que abriu a porta tanto para uma vida de estudos sobre o século 19 quanto para uma preocupação igualmente duradora sobre os problemas da esquerda. Em 1947, ele conseguiu seu primeiro trabalho permanente, como professor conferencista de história no Birkbeck College, em Londres, onde permaneceu grande parte da sua vida como professor.

Com o início da Guerra Fria, um macartismo acadêmico muito britânico fez com que a cátedra de Cambridge, que Hobsbawm sempre cobiçou, nunca se materializasse. Ele viajava de Cambridge para Londres, como um dos principais organizadores e animadores do Grupo de Historiadores do Partido Comunista, uma academia brilhante e radical que reuniu alguns dos mais proeminentes historiadores do pós-guerra. Entre seus membros, estavam Christopher Hill, Rodney Hilton, AL Morton, EP Thompson, John Saville e, mais tarde, Raphael Samuel. O que quer que o grupo tenha alcançado (e Hobsbawm escreveu uma dissertação sobre ele em 1978), a experiência certamente estabeleceu um núcleo para seus primeiros passos como grande escritor de História.

O primeiro livro de Hobsbawm, “Labour’s Turning Point” (1948) – uma coleção editada de documentos da era do socialismo Fabiano – pertence claramente à época de militância no Partido Comunista, assim como o seu engajamento no debate famoso sobre as consequências econômicas do início da Revolução Industrial, um tema sobre o qual ele e RM Hartwell teceram argumentos em sucessivos números da Economic History Review. A fundação do jornal Past and Present também pertence ao mesmo período. É até hoje o mais duradouro periódico do grupo de historiadores do PC britânico.

Hobsbawm nunca deixou o Partido Comunista e sempre pensou em si mesmo como parte de um movimento internacional comunista. Para muitos, este continua a ser o obstáculo insuperável para abraçar sua obra. Contudo, ele sempre manteve-se muito mais como um livre-pensador autorizado a permanecer dentro das fileiras do partido. Sobre a invasão da Hungria pela União Soviética, em 1956, um evento que dividiu o PC e provocou a saída de muitos intelectuais do partido, ele foi uma voz de protesto que, no entanto, permaneceu.

Todavia, a exemplo de seu contemporâneo Christopher Hill, que deixou o PC naquele momento, a combinação, de alguma forma, do trauma político de 1956 e o início de um longo e feliz segundo casamento, provocou um período sustentado e frutífero de produção no campo da História, o que veio a estabelecer sua fama e reputação. Em 1959, ele publicou sua primeira grande obra, “Primitive Rebels”, um relato notavelmente original, especialmente para aqueles tempos, das sociedades secretas e das culturas milenares do Sul da Europa (ele ainda estava escrevendo sobre o assunto recentemente, em 2011). Voltou a esses temas uma década depois, em Captain Swing, um estudo detalhado do protesto rural do início do século 19 na Inglaterra, em co-autoria com George Rudé, e Bandidos, um esforço mais abrangente de síntese. Essas obras servem de lembretes de como Hobsbawm foi tanto uma ponte entre a historiografia europeia e a britânica e, também, um precursor do aumento notável do estudo da história social no pós-1968 britânico.

À essa altura, porém, Hobsbawm já havia publicado o primeiro dos trabalhos sobre os quais suas reputações popular e acadêmica iriam se assentar. Uma coleção de alguns dos seus ensaios mais importantes, Labouring Men, apareceu em 1964 (uma segunda coleção, Worlds of Labour, iria surgir 20 anos mais tarde). Mas foi Industry and Empire (1968), uma compilação convincente de muito do seu trabalho sobre a revolução industrial da Grã-Bretanha, que alcançou o mais alto reconhecimento – e, não à toa, raramente a obra encontra-se fora de catálogo.

Foi ainda mais influente, no longo prazo, a série a Era de…, que começou em 1962 com a A Era das Revoluções: 1789-1848. Ela foi sucedida por A Era do Capital: 1848-1875 (1975) e, depois, por A Era do Império: 1875-1914 (1987). Um quarto volume, A Era dos Extremos: 1914-1991, mais peculiar e especulativo, ainda que, sob alguns aspectos, mais notável e admirável do que as obras anteriores, ampliou a sequência em 1994.

Os quatro volumes incorporam todas as melhores qualidades de Hobsbawm – a varredura do tema e a compreensão estatística combinadas pelo ar de anedota, a atenção pelas nuances e o significado das palavras além de, sobretudo, um incomparável poder de síntese (não há lugar onde o capitalismo dos meados do século 19 esteja mais bem disposto do que o clássico sumário presente na primeira página do segundo volume). Os livros não foram concebidos como tetralogia, mas adquiriram, assim que surgiram, status individual e, ao mesmo tempo, cumulativo, de claśsico.

Eles foram um exemplo, como diria o próprio Hobsbawm, “daquilo que os franceses chamam de ‘haute vulgarisation‘ [alta vulgarização]” (e ele não disse isso no sentido autodepreciativo). Os livros ornaram-se, nas palavras de um revisor, “parte da mobília dos ingleses bem-formados”.

O primeiro casamento de Hobsbawm tinha terminado em 1951. Durante os anos 1950, ele teve outro relacionamento, que resultou no nascimento de seu primeiro filho, Joss Bennathan; mas a mãe do garonto não quis casar-se. Em 1962, ele casou-se de novo, agora com Marlene Schwartz, de ascendência austríaca. Mudaram-se para Hampstead e compraram uma segunda casa pequena em Gales. Tiveram dois filhos, Andrew e Julia.

Nos anos 1970, a fama crescente de Hobsbawm como historiador viu-se acompanhada pelo crescimento da sua fama como narrador de seu próprio tempo. Embora ele respeitasse, como historiador, a disciplina centralista do Partido Comunista, sua eminência intelectual deu-lhe uma independência que lhe permitiu conquistar o respeito de pensadores críticos ao comunismo, a exemplo de Isaiah Berlin. Isso também garantiu-lhe o considerável elogio de não ter nenhum de seus livros publicados na União Soviética. Armado e protegido, ele navegou sem medo por todo o campo da esquerda, das páginas mensais do Partido Comunista ao Marxism Today, uma publicação consideravelmente heterodoxa na qual tornou-se sumidade da casa.

Suas conversas com o comunista – e, agora, presidente – italiano Giorgio Napolitano datam daqueles anos e foram publicadas em A Estrada Italiana para o Socialismo. Mas sua mais influente contribuição política foi a crescente certeza de que o movimento proletário europeu perdera a capacidade de realizar a função transformadora que os marxistas primordiais lhe creditavam. Esses artigos revisionistas descompromissados foram organizados sob o título “The Forward March of Labour Halted” [A Marcha do Trabalho Interrompida].

Em 1983, quando Neil Kinnock tornou-se líder do Partido Trabalhista britânico, por conta de sua sorte eleitoral, a influência de Hobsbawm começou a se estender para além do Partido Comunista e para dentro do Trabalhista. Kinnock reconheceu publicamente sua dívida para com Hobsbawm e permitiu-se ser entrevistado pelo homem que descreveu como “meu marxista favorito”. Embora Hobsbawm tenha desaprovado firmemente muito daquilo que seria conhecido depois como “Novo Trabalhismo” – algo que via, entre coisas, como covardia histórica – ele foi, sem dúvida, o precursor intelectual mais influente do revisionismo iconoclasta do trabalhismo dos anos 1990.

Seu status foi sublinhado em 1998, quando o então primeiro-ministro Tony Blair concedeu-lhe a distinção de Companion of Honour, poucos meses depois de ter completado 80 anos. Na sua justificativa, o premiê disse que Hobsbawm continuava a publicar trabalhos que “localizam na História e na política problemas que reemergem, para perturbar a complacência da Europa”.

Nos últimos anos, Hobsbawm viu sua reputação crescer. Suas comemorações de aniversário de 80 e 90 anos foram premiadas com a presença da intelectualidade liberal e de esquerda da Grã-Bretanha. Ao longo dos últimos anos, ele continuou a publicar volumes de ensaios, incluindo On the History (1997) e Uncommon People (1998), trabalhos nos quais Dizzy Gillespie e Salvatore Giuliano colocaram-se lado a lado no índice de testemunhas das crescente curiosidade de Hobsbwm. Também são dessa época uma autobiografia muito bem-sucedida, Tempos Interessantes, publicada em 2002, e Globalização, Democracia e Terrorismo, de 2007.

Mais famoso no fim de sua vida do que provavelmente em qualquer outro período, ele manteve com regularidade suas palestras, comunicações e o papel como performer no Festival de Literatura de Hay, do qual tornou-se presidente aos 93 anos, após a morte de Lord Bingham de Cornhill. Um tombo, em 2010 reduziu severamente sua mobilidade, mas seu intelecto permaneceu intocado, assim como sua vida social e cultura, graças aos esforços, ao amor e à culinária de Marlene.

Que seus escritos tenham continuado a sensibilizar tantos públicos, no momento em que sua política foi, de certa forma, eclipsada, era o tipo de disjunção que exasperava os direitistas. Mas foi também o paradoxo em que seu intelecto sutiu e jamais complacente refestelou-se. Em seus últimos anos, ele gostava de citar EM Forster, segundo o qual o próprio Hobsbawm sabia “permanecer sempre num ângulo suave do universo”. Se o comentário diz mais sobre Hobsbawm ou sobre o universo era algo que ele gostava de debater, confiante na noção de que se tratava, em muitos sentidos de um aprendizado para ambos. Ele deixa Marlene e seus três filhos, sete netos e um bisneto.

Martin Kettle e Dorothy Wedderburn, no The Guardian | Tradução: Daniela Frabasile e Hugo Albuquerque
Fonte: http://www.outraspalavras.net/

Eric Hobsbawm: uma obra insuperável – por Francisco Carlos Teixeira

Eric Hobsbawm: uma obra insuperável
Poliglota, viajante incansável, marxista desde sua juventude, profundamente humanista, amante da música e das artes, escritor combativo e aguerrido. Amigo do Brasil, apreciador do “chorinho” carioca, perdemos um grande intelectual, um dos poucos homens com o “coração no lado certo do peito”.

O grande debate – “uma formidável tempestade”, conforme a expressão do historiador britãnico Richard Henry Tawney (1880-1962) – deu-se nos anos entre 1950 e 1980 na historiografia ocidental, sem dúvida alguma o mais profundo e radical [1], quando iniciou-se a publicação das pesquisas, volumosas, do historiador inglês, Eric Hobsbawm. Este, nascido em Alexandria no Egito em 1917, de origens judias, possui, na sua própria biografia, a dupla característica de um típico homem do “Empire” – as origens, a diversidade social e étnica, os amplos deslocamentos geográficos e, acima de tudo, o cosmopolitismo – com a tradição cultural judia do “fin de siècle” da Europa central [2]. Poliglota, viajante incansável, marxista desde sua juventude, profundamente humanista (embora o pessimismo tenha cobrado um preço bastante forte na sua vida e obra) [3], amante da música [4] e das artes, escritor combativo e aguerrido. Amigo do Brasil, apreciador do “chorinho” carioca, perdemos um grande intelectual, um dos poucos homens com o “coração no lado certo do peito”.

O Atlântico e a "Primavera dos Povos”
No conjunto das obras sobre o tema – “The Age of Revolution: Europe, 1789-1848”, publicada em 1962; “The Age of Capital: 1848-1875”, de 1975; “The Age of Empire: 1875-1914”, de 1987 e “The Age of Extremes: the short twenthieth century, 1914-1991”, de 1994 - esta unicidade é estabelecida com clareza, em contradição direta, e mesmo a definitiva recusa, das tradições historiográficas “whig” (liberal) e “tory”(conservadora) sobre uma pretensa especificidade da história inglesa [5].

Hobsbawm, militante comunista já em 1931, quando estudava em Berlim – ele se filiará ao Partido Comunista em 1936 – tomará da tradição historiográfica alemã o conceito de “Era”, traduzido para o inglês como “Age”, que marcarão, de forma intencional, a unicidade dos movimentos descritos e, ainda, do conjunto da obra do autor. A ideia de “Era” emerge na historiografia alemã com o seu decano Leopold von Ranke (1795-1886), quando publica seu trabalho normativo e seminal “As Grandes Potências” ( “Die Groβe Mächte”), de 1836. Para Ranke “era” é descrita conforme a palavra tomada do francês – a língua culta dos séculos XVIII e XIX – “epoche” (mais tarde, germanizada como “Zeitalter”). A “epoche”, “age”, “Zeitalter” ou “era” descreve um período cronológico que unifica e dota de um mesmo sentido, com um papel definido e um significado estabelecido na História, um conjunto de fenômenos [6].

A herança humanista alemã
Assim, os sucessivos livros de Hobsbawm, seguindo a historiografia derivada de Ranke na tradição alemã, constituem-se em uma proposição de periodização da História Contemporânea: Era das Revoluções, Era do Capital, Era dos Impérios, Era dos Extremos. Cada “momentum” na história teria seu valor especifico e seu papel estabelecido, num encadeamento dotado de sentido e de conteúdos específicos. Na recusa das tradições anteriores, Hobsbawm segue a noção de uma “História Universal” (ao menos do Ocidente), rejeitando a proposição de História “nacional” (e a constante busca metafísica das “especificidades nacionais” – “Sonderweg” ou da ação de seguidos “gênios” ou “Geist” na História -, com autonomias e especificidades, não comparáveis.

Também aqui a presença de Ranke é marcante, expressa na compreensão da História Contemporânea como uma história derivada da unidade fundamental dos povos do Ocidente, inscrita nas suas origens na decomposição do Império Romano e na emergência – abarcando agora germanos, latinos e eslavos – de uma “Res Publica Christiana”. Na Época Moderna, a grande expansão europeia trará o “Novo Mundo”, esta nova “extrema Europa”, para o conjunto da História e dará ao Atlântico o seu papel de eixo integrador do Ocidente. Assim, apropriando-se de conceitos da historiografia romântica de Ranke, mesmo que Hobsbawm mova-se para um universo marxista, os ensinamentos da Universidade de Berlin sobre a unicidade fundamental dos povos do Ocidente – e o seu corolário, toda a História é sempre História Universal – marcará a obra de Hobsbawm, assegurando seu cosmopolitismo e a universalidade de valores humanos presentes nos seus trabalhos [7].

A história de todos os homens
Para o autor – e aqui mais uma vez ele segue a tradição estabelecida na Universidade de Berlim pelo seminário de História dirigido por Ranke – a história é sempre uma história universal, só tem sentido no seu movimento conjunto e todas as épocas são caracterizadas por traços comuns, comparáveis e dotados de um “sentido”. Defini-los, analisá-los e explicá-los seria, exatamente, a tarefa do historiador.

Nesta direção Hobsbawm rompe, em função da sua visão progressista (e naquele momento ainda otimista), com duas tradições dos seus mestres na Universidade de Berlin. Recusa, de um lado, o historismo, o fato único, incomparável e sem paralelo, o que impossibilitaria, desta forma, a construção de “princípios” comuns a todos os povos e sociedades e, logo, qualquer abordagem comparativa da história dos homens. Por outro lado, recusa também a história imóvel de Ranke, a ideia-chave do conservadorismo romântico alemão de que “todas as eras são imediatas a Deus” [8].

Ora, para Hobsbawm, marxista com profundo conhecimento de Marx, a história, verdadeiramente, se move. Sua obra é a busca da compreensão destes movimentos, definidos como uma sucessão de “Eras” marcadas pela ascensão do capitalismo e o papel revolucionário, depois conservador e até reacionário das suas burguesias. Na verdade, buscando romper com o automatismo do marxismo vulgar – a famosa sucessão de “modos de produção” buscados na “Crítica da Economia Política”, de Karl Marx, de 1859, como vulgata – Hobsbawm propõe “eras” que se sucedem a partir de uma dinâmica histórica centrada no conflito – a emergência da luta de classes dirigida pela burguesia – e do progresso material. O conjunto da obra de Hobsbawm, inscrito na tradição do iluminismo, do liberalismo e do marxismo do século XIX e de boa parte do século XX – é o que chamamos uma “Stufentheorie”, uma teoria de “degraus” ou estágios.

Uma história geral do século XX
O primeiro destes “estágios” – as “eras” - descrito em “A Era das Revoluções” é o largo período das revoluções do século XVIII, já analisado por Godechot&Palmer como as “revoluções atlânticas”. Neste caso, Hobsbawm despreza, como fator explicativo e elo de unicidade, o “espaço-tempo Atlântico” – um conceito muito caro da historiografia francesa-, e estabelece nos conflitos e lutas sociais do período, em particular no impacto da emergência das burguesias, o elemento unificante de toda esta “era das revoluções”. Assim, as “revoluções atlânticas”, nomeadas em função do “espaço-tempo” por uma ampla tradição de historiadores – Godechot, Palmer, Mauro, Godinho, etc... – para o marxista Hobsbawm são nomeadas conforme seu conteúdo social e de classe: são as “Revoluções Burguesas”.

Há aqui, entre a tradição da historiografia francesa com o conceito de “revoluções atlânticas” e a emergência, com Hobsbawm, do conceito de “revoluções burguesas” mais consenso do que discordâncias. Em ambos os casos o “espaço-tempo” é o mesmo, somente diferindo a determinação da nomenclatura que recobre o fenômeno, em verdade, a ênfase, em uns autores, na luta de classes e, em outros, no papel das condições da vida material (para retomar uma expressão de Fernand Braudel). Para os franceses, buscando na geografia e no tempo longo os elementos renovadores da história (é o caso do “espaço Mediterrâneo” em Fernand Braudel e do “espaço Atlântico” em Mauro, Chaunu e Godinho) a geografia e suas transformações – pensadas como dinâmica de longo prazo das forças produtivas - determinam e conformam o fenômeno das revoluções do século XVIII. As rotas comerciais, as cidades portuárias, o aperfeiçoamento das técnicas náuticas e das ferramentas financeiras e a expansão de amplas comunidades de comerciantes-empresários em ambas as margens do Atlântico e dos seus mares “interiores” (Mediterrâneo, Mar do Norte, Mar Báltico e os “mediterrâneos atlânticos” como o Caribe e seu comércio triangular e a vertente brasileira e seu comércio triangular no Atlântico sul) são os grandes atores da História entre os séculos XVII e XIX.

Para Hobsbawm, e vários dos seus companheiros, o fulcro da explicação deve residir no seu sentido social: é o seu conteúdo de classes, a ascensão da burguesia ao poder, que determina o caráter das revoluções e que molda esta “era” da História.

A presença na historiografia brasileira
Ambas as tradições são, contudo, próximas: Godechot, Mauro e Godinho [9] – para homens vindos da “esquerda”, resistentes dos fascismos e leitores e parceiros de colegas marxistas, como Ernest Labrousse e Pierre Vilar - o diálogo é contínuo e resulta em vários pontos de concordância e de síntese comum. Assim, as temáticas sobre a Revolução dos Preços, a Revolução Comercial, a crise do século XVII, o Mercantilismo, o papel da escravidão e do tráfico negreiro na ascensão do capitalismo e o chamado “sentido capitalista da colonização moderna” – adotado entre nós por Caio Prado Júnior e desenvolvido por Fernando Novais na USP – são plenamente aceitos. Para outros, como Pierre Chaunu, haverá mais resistência.

Contudo, a centralidade da luta de classes, quase abandonada na obra do “marxista” Labrousse em favor de uma história estrutural, onde a dinâmica está mais nas forças produtivas numa longa duração, não será aceita por todos com o mesmo entusiasmo.

Na verdade o conjunto da obra de Hobsbawm sobre o tema permite a clara percepção daquilo que o historiador inglês denominou de “dual revolution”, dois processos equivalentes e, ao mesmo tempo, de caráter próprio: de um lado a Revolução Industrial inglesa – numa visão que rejeita a história historicizante tradicional centrada na “história das técnicas” e das transformações técnicas e organizacionais da fábrica - impondo um novo ordenamento social e a formação de uma nova classe dirigente; por outro lado (do Canal da Mancha), a Revolução Francesa, nitidamente “política” e que antecede a “libertação” do conjunto da sociedade dos entraves do Antigo Regime e acelera e generalização das relações sociais modernas, de tipo capitalista.

Estas duas modelagens das revoluções do século XVIII, seriam, em sua natureza, “burguesas”, mesmo quando no bojo das lutas revolucionárias grupos populares emergem em força, como “diggers” [10], “nivellers” [11], na Inglaterra, ou “sans-culottes” [12] e “bras nus” [13] na França. Por essa razão, as grandes explosões dos grupos sociais subalternos no interior das Revoluções “Burguesas” são denominados de movimentos “populares” – denominação genérica, sem claro conteúdo de classes ou, ao menos, de classe operária. Mesmo os historiadores que valorizaram, com paixão, os grupos mais pobres e sua expressão política durante as Revoluções Burguesas, como Albert Soboul, Christopher Hill (mas, não a obra “gauchista” de Daniel Guérin), recusam ver tais movimentos como uma expressão proletária.

As revoluções proletárias ainda deveriam esperar sua própria “época”, A Era dos Extremos.

Uma história das classes populares
Mesmo entre os colegas marxistas de Hobsbawm o debate sobre tais explicações será intenso, em espacial sobre o papel do desenvolvimento das forças produtivas e a luta de classes enquanto condução do processo revolucionário. Alguns historiadores marxistas, como o grupo da “New Left Review” irão retornar ao papel dominante do comércio e das rotas do Atlântico no processo de desintegração do Antigo Regime e na ascensão do Capitalismo [14].

Hobsbawm forma, desde os anos de 1930, o “Communist Party Historian Group”, quando fugindo da ascensão do nazismo na Alemanha, troca Berlim por Cambridge na Inglaterra. Aí se reunirá com outros historiadores marxistas ingleses, como Christopher Hill, Rodney Hilton e Edward P. Thompson. Tal grupo será o responsável por uma derivação cada vez mais “social” do campo da História (inclusive da história das revoluções), em recusa a derivação cada vez quantitativa da historiografia francesa.

Agora, com rumo próprio, esta nova, e radical, corrente historiográfica inglesa voltar-se-ia para a formação, comportamento e a mentalidade dos grupos revolucionários, entendendo classes sociais como uma relação forjada nas lutas sociais. Tocados pelo debate teórico marxista sobre as contingências da revolução – os fatores objetivos e subjetivos –, os historiadores ingleses descreem de qualquer automatismo econômico, buscando no interior dos grupos e classes sociais as condições de emergência de uma identidade autônoma e revolucionária. Christopher Hill (1912-2003), erudito e fiel às questões das lutas de classe na História, voltar-se-ia para o complexo mundo dos grupos sociais agrários – pequenos proprietários, arrendatários, trabalhadores sem terra e assalariados agrícolas durante a Revolução Puritana de 1640 e 1660, os chamados “diggers” e os “levellers” – os grupos radicais de sem-terra e de trabalhadores rurais como atores do processo revolucionário. Estes serão atores centrais da História, mesmo que não dirigentes do processo [15].

Vencidos em seus pendores igualitários – “um socialismo fora do tempo”, ou um “mundo de ponta-cabeça”-, tais grupos populares anunciavam, em sua agenda radical, as lutas sociais futuras. Talvez tenha sido Hill o historiador inglês que mais se aproximou das análises marxistas francesas dos grupos subalternos – como em Albert Soboul -, centrando sua pesquisa nos grupos como os “diggers” e “levellers” e na composição social do “New Model Army” [16] de Crommwell.

Revolução e História
A irrupção destes grupos sociais “populares” na cena política, de forma aberta e muitas vezes apoderando-se da direção dos eventos, só foi possível em virtude da quebra da hegemonia aristocrática durante o choque entre a burguesia em ascensão e o “Antigo Regime”, representados pela Coroa, a Câmara Alta e a Igreja. Hobsbawm será o primeiro historiador a dedicar-se a tais grupos, em obras sobre o “bandidos”, compreendidos como um fenômeno social de recusa em face da ordem.

Neste sentido os trabalhos de Christopher Hill, para o mundo rural inglês, aproximam-se das análises de Georges Lefebvre sobre as “jacqueries” (revoltas) francesas e sobre o “Grande Medo” que anunciam a Revolução de 1798. São lutas populares, radicais, de caráter agrário, que emergem pelas fraturas do Antigo Regime e como coadjuvantes, malgrado sua extrema visibilidade, no processo dirigido e apropriado pelas novas classes burguesas na liquidação do Antigo Regime.

Todos estes casos casos – Lefebvre, Hobsbawm, Hill e Soboul e de forma polêmica também Daniel Guérin – podemos constatar a nítida presença dos escritos de Karl Marx sobre as lutas sociais na França e suas análises da Revolução de 1848 e da Comuna de Paris de 1871 nas hipóteses em debate.

Coube, por fim, ao próprio Labrousse a proposta de periodização da Grande Revolução de 1789 que conceberia uma dinâmica própria das revoluções burguesas, com suas fases de radicalização e de estabilização decorrentes do movimento popular no bojo dos processos revolucionários. Na grande coleção – a tão buscada “síntese” que a historiografia francesa ergueu como meta – dirigida por Maurice Crouzet, “Histoire Générale des Civilizations” o volume sobre o século XVIII (“Le siècle XVIIIe”, com o significativo subtítulo “A sociedade do século XVIII perante a Revolução”) preparado por Labrousse ( com Roland Mousnier ), o autor propõe três grandes fases das revoluções: uma “Era das Constituições”, de 1789 até 1791, quando as propostas moderadas da burguesia são dominantes. Em seguida uma “Era das Antecipações”, de 1792 e 1795, quando as forças populares assumem a direção do processo revolucionário e imprimem a este um caráter radical (seria então a “revolução desnecessária”, de David Hume, ou a “derrapagem totalitária” de François Furet ou, se quisermos, a “antecipação” da Revolução de Outubro de 1917, conforme Karl Marx, onde Labrousse se inspira).

Dá-se, então, forte radicalização das transformações sociais e econômicas, chegando a alguns momentos a prenunciar as revoluções proletárias – incluindo aí a modelagem de formas sociais e políticas que inspirarão homens como Proudhon, Bakunin ou Marx – como a Comuna de Paris de 1793, no bojo da Revolução de 1789. Por fim, encerrando o processo revolucionário, com a retomada da direção política do Estado por parte das classes burguesas – o chamado “Termidor” -, teríamos uma “Era das Consolidações”, de 1796 até 1815 (incluindo, portanto, todo o Período Napoleônico e suas brutais consequências sobre o mundo atlântico, com suas guerras e bloqueios, culminando nas independências latino-americanas). Aqui teremos a modelagem das revoluções dos séculos XVII e XVIII e, diretamente, as pré-configurações, nas obras de Bakunin e Marx, das revoluções do século XX [17].

De qualquer forma, fica claro, no conjunto da obra destes historiadores, que a proposição de Hobsbawm sobre um amplo fenômeno revolucionário que se estenderia desde finais do século XVII até meados do século XIX, em ambas as margens do Oceano Atlântico, é aceita como configuradora de uma época fundadora do mundo atual: a Era das Revoluções.

NOTAS
[1] Usamos aqui o termo “radical” na sua acepção política e filosófica, no sentido daquilo que busca “as raízes”, “radice”, sem necessariamente recobrir doutrinas partidárias com idearios contemporâneos.

[2] O próprio Eric Hobsbwam nos oferece uma deliciosa e comovente narrativa das suas relações, e lembranças, como um homem do tempo do “Empire” na “Introdução” do livro A Era dos Impérios, Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1988 ( edição brasileira), pp. 13-27.

[3] Referimos-nos aqui principalmente a um dos seus últimos livros, A Era dos Extremos onde o fenômeno do nazismo, as consequências nem sempre positivas da Descolonização e do Neocolonialismo e o fracasso do socialismo de Estado e a experiência stalinista, dão ao conjunto da obra do autor um amargo sabor de revolta derrotada.

[4] Eric Hobsbawm escreveu um notável livro sobre o jazz e, nas muitas vezes que visitou o Brasil apaixonou-se pelo “Chorinho”, frequentando redutos “autênticos” desde gênero musical em bairros populares do Rio de Janeiro, em especial o “sovaco de cobra”, então no bairro da Penha, área operária carioca.

[5] O conjunto de tais obras está publicado em portugues em várias edições, daí nossa opção de não citar edições específicas, resgaurdando apenas as datas originais de edição.

[6] Em língua portuguesa tal acepção será definitivamente integrado com a obra de João Lucio de Azevedo (1855-1933), notável historiador português, em especial em “Épocas do Portugal Económico”. Lisboa, Livraria Clássica, 1929, onde claramente “épocas” remete a uma periodização. Bem mais tarde, Francisco Falcon fará uso do mesmo sentido do conceito ao nomear seu grande trabalho como “A Época Pombalina”, São Paulo, Editora Ática, 1982.

[7] TEIXEIRA DA SILVA, Francisco C. Europa ou o Concerto das Nações... Op. Cit. p. XXII.

[8] A sentença – “todas as eras são imediatas a Deus” – de Lepold von Ranke é na maioria das vezes pouco compreendida. Não se trata, de forma alguma, de um principio religioso ou uma teologia histórica. O fulcro filosófico reside em “todas” e em “imediata” e não em Deus. Recusando o idealismo kantiano, Ranke não conseguia entender a história como um contínuo melhoramento em busco de um estágio superior e mais civilizado. Da mesma forma, desprezava claramente, qualquer evolucionismo econômico. Assim, para o autor todas as épocas possuem o mesmo valor civilizacional, ou seja, são igualmente próximas a ideia maior, para ele um Deus distante. O principio então vale como uma explicação conservadora, negando qualquer possibilidade de devir histórico.

[9] Vitorino Magalhães Godinho foi um militante contrário a ditadura de Oliveira Salazar em Portugal e passou boa parte de sua vida no exílio na França, onde acaba por se tornar uma figura de destaque da históira econômico-social. Com a Revolução dos Cravos, em 1974, retornou a Portugal sendo escolhido ministro da educação do governo revolucionário. Em 1970 ganhou o “Prix de Histoire de la Marine’, conferido pela Academia de História Naval da França.

[10] “Diggers” foram os grupos populares mais radicais no bojo da Revolução Puritana , em especial entre 1645 e 1660, e que exigiam uma amplo reforma agrária com o confisco da terras de aristocratas, da Igreja Anglicana e da Monarquia. Por isso foram chamados de “cavadores”. O maior especialista no tema destes grupos, bem como dos “levellers” foi o historiador Christopher Hill, destacando o papel dos “Levellers and True Levellers.
Ver: HILL, Christopher. The English Revolution. Londres, Lawrence and Wishart Ltda, 1959 e ver, do mesmo autor, God´s Rnglishman. Oliver Cromwell and the English Revolution, Clarendon, 1970.

[11] “Levellers” eram grupos populares que exigem, durante a Revolução Puritana, o estabelecimento da soberania popular (contra as prerrogativas da Coroa, da Igreja Alta e da Câmara dos Lordes), o sufrágio universal e plena igualdade civil perante às leis.

[12] “Sans-culotte”, ou “sansculotterie”, são os grupos populares radicalizados durante a Revoluçâo francesa, em especial entre 1791 e 1793, quando chegam a assumir a direção do porcesso revolucionário impondo a (primeira) Comuna de Paris. Defendiam a propriedade social, o sufrágio universal e a igualdade civil, além da República. Na sua maior parte eram pequenos artesãos, pequenos lojistas e empregados das manufaturas e comércio dos “faubourgs” pobres de Paris. O principal histopirador a tratar dos “san-culotte” foi Albert Soboul em seu trabalho Mouvemment Populaire et Gouvernement Révolutionaire en l´An II (1793-1794). Paris, Librarie Clavreuil, 1958. Ver ainda, do mesmo autor,: Naissance et Mort de la Ie. République”, Paris, Calman-Lévy, 1968 e, ainda, a coletânea Camponeses, sans-culottes e jacobinos. Lisboa, Seara Nova, 1974.

[13] Os “bras nus” – tecnicamente assalariados, sem ferramentas de trabalho - é uma categoria de dificil definição e, mesmo, de identificação por todos os especialistas no processo revolucionário. Coube a Daniel Guérin, no esforço de distinguir dos “sans-culottes”, que ao ser ver seriam ainda conservadores por seu apego à propiredade privada, um grupo social – para o autor uma classe – que seria o núcleo revolucionário do proletariado do francês. O livro de Daniel Guérin – La Lutte de Classes sous la Priemière République, Paris, Gallimard, 1968 -, com forte viés trotskista-anarquista, originou um amargo debate entre o autor e Jean-Paul Sartre e Albert Soboul, que consideravam o trabalho de Guérin teleológico ao buscar uma classe de proletários na cena histórica francesa em período tão recuado.
[14] JEANNIN, Pierre. L´Europe du Nord-Ouest et du Nord aux XVIIe. et XVIIIe.
Siècle. Paris, P.U.F., 1970.

[15] Há, ainda, um famoso debate, ancilar ao tema central aqui tratado, entre Roland Mousnier, o grande especialista francês em “Ancien Régime”, e o historiador russo (soviético) Boris Porschenev sobre o caráter das revoluções agrárias no século XVII. Com George Lefebvre, Porschnev insistia na presença da luta de classes e no conteúdo anti-feudal das “jacqueries” francesas, sendo endossada sua posição por Labrousse e Pierre Vilar. Já Mousnier, contrario a qualquer conceituação de classe aplicada a sociedade de Antigo Regime – no que é acompanhado pela obra volumosa e bem documentada de Pierre Goubert, insiste em caracterizar as revoltas componesas como anti-fiscais, anti-monárquicas e, portanto, conservadoras, não compondo um quadro unificado de Revoluções Burguesas, com seu corolário de “movimentos populares”. Ver: PORCHNEV, Boris. Les Soulevements Populaire en France de 1623 à 1648. Paris, SEVPEN, Centre Recherches Historiques, 1963 e, na contramão do mesmo debate MOUSNIER, Roland. Fureurs Paysannes. Paris, Calman-Lévy, 1967.

[16] O “New Model Army” foi o exército organizado por Oliver Crommwell contra as forças aristocráticas da Coroa. Formado dominantemente pela “yomenry”, chegando a contar com 22 mil homens entre 1645 e 1660, fortemente puritano, é considerado hoje o primeiro exército porfissional da história moderna.

[17] LABROUSSE, Ernest e MOUSNIER, Roland. Histoire Générale des Civilizations. Le siècle XVIII. Paris, P.U.F., 1956.
(*) Professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A lição de método de Marx e o legado de Hobsbawm – por Marco Aurélio Weissheimer

A lição de método de Marx e o legado de Hobsbawm
Paul Valéry, no início de sua “Introdução ao Método de Leonardo da Vinci”, disse que “o que fica de um homem é o que nos leva a pensar seu nome e as obras que fazem desse nome um signo de admiração, de ódio ou de indiferença”. A obra de Eric Hobsbawm é um signo de admiração e de lições para o século XXI. Em um de seus últimos trabalhos, reafirmou sua confiança política e metodológica na obra de Marx: “o liberalismo econômico e o liberalismo político, sozinhos ou combinados, não conseguem oferecer uma solução para os problemas do século XX. Mais uma vez chegou a hora de levar Marx a sério”.
Em um de seus últimos trabalhos publicados no Brasil (Como Mudar o Mundo – Marx e o Marxismo. Companhia das Letras, 2011), Eric Hobsbawm conta a seguinte história para falar da força e da atualidade do pensamento de Marx:

“No Cemitério Highgate estão sepultados dois pensadores do século XIX – Karl Marx e Herbert Spencer – e, curiosamente, da tumba de um se avista o outro. Quando ambos eram vivos, Herbert era considerado o Aristóteles da época, enquanto Karl era um sujeito que morava nas ladeiras mais baixas de Hampstead à custa do dinheiro do amigo [Engels]. Hoje ninguém sabe que Spencer está sepultado ali, enquanto peregrinos idosos, vindos do Japão e da Índia, visitam o túmulo de Karl Marx, e comunistas exilados iranianos e iraquianos fazem questão de ser enterrados à sua sombra” (Como Mudar o Mundo – Marx e o Marxismo, p. 14).

Marx foi um autor que acompanhou a vida e a obra do historiador inglês, que morreu na manhã desta segunda-feira (1º), aos 95 anos. O livro citado acima é uma coletânea de textos que Hobsbawm escreveu sobre o assunto entre 1956 e 2009, “um estudo sobre a evolução e o impacto póstumo do pensamento de Karl Marx (e de seu amigo inseparável Friedrich Engels)”, como ele próprio define. Nesta obra, o historiador defende uma tese central: “Marx é hoje, mais uma vez, e com toda justiça, um pensador para o século XXI”. Como uma das melhores formas de homenagear alguém que partiu é manter acesa a memória das obras de uma vida, cabe falar um pouco sobre essa tese que sintetiza uma parte importante das preocupações e compromissos desse historiador extraordinário.

Paradoxalmente, observou Hobsbawm, quem “redescobriu” Marx foram os capitalistas e não os socialistas. O ano de 1998 foi emblemático neste processo. Neste ano, comemorou-se o sesquicentenário do Manifesto Comunista. A data coincidiu, ironicamente, com o início de uma forte turbulência na economia internacional. Hobsbawm relata que ficou espantado quando, num almoço mais ou menos na virada do século, George Soros perguntou o que ele achava de Marx: “Por saber o quanto nossas ideias eram divergentes, preferi evitar uma discussão e dei uma resposta ambígua. Esse homem, disse Soros, descobriu uma coisa com relação ao capitalismo, há 150 anos, em que devemos prestar atenção”.

Alguns depois, em 2008, o jornal londrino Financial Times estampou em sua manchete: “Capitalismo em convulsão”. “Não podia mais haver dúvida de que Marx estava de volta aos refletores. Enquanto o capitalismo mundial estiver passando por sua mais grave crise desde o começo da década de 1930, será improvável que Marx saia de cena. Por outro lado, o Marx do século XXI será, com certeza, bem diferente do Marx do século XX”, advertiu Hobsbwam. Quais seriam essas diferenças?

O Marx do século XXI
A resposta a essa pergunta está intimamente ligada ao diagnóstico sobre quais aspectos da análise de Marx continuam válidos e relevantes. O historiador inglês destaca dois deles: (i) a análise da dinâmica global do desenvolvimento econômico capitalista e de sua capacidade de destruir tudo o que se antepuser a ele; (ii) a análise do mecanismo de crescimento capitalista, por meio da geração de contradições internas, levando a crises sucessivas e a uma crescente concentração econômica numa economia cada vez mais globalizada.

E a força dessas análises reside, em larga medida, no método empregado por Marx, um método que rejeita a ideia de modelo e procura pensar o mundo como um todo. Não se trata de um pensamento interdisciplinar no sentido convencional, assinala Hobsbwam, mas de um pensamento que integra todas as disciplinas, abordando os fenômenos sociais a partir de distintos pontos de vista: econômicos, políticos, científicos e filosóficos. “Não podemos prever as soluções dos problemas com que se defronta o mundo no século XXI, mas, quem quiser solucioná-los, deverá fazer as perguntas de Marx, mesmo que não queira aceitar as respostas dadas por seus vários discípulos”, defende o historiador.

Marx tem, pois, uma lição metodológica que é, de diferentes modos, destacada por Hobsbawm. No método de Marx, não há lugar para determinismos, dogmas ou modelos pré-concebidos que possam ser aplicados mecanicamente a qualquer momento histórico. E esses pressupostos foram assumidos também por Hobsbawm em seu trabalho como historiador. No final do artigo “Marx e o trabalhismo: o longo século” (op.cit. pp. 358-375), ele reflete sobre os fracassos do século XX, os problemas do século XXI, reafirmando sua confiança no método de análise de Marx:

“Paradoxalmente, ambos os lados têm interesse em voltar a um importante pensador cuja essência é a crítica do capitalismo e dos economistas que não perceberam aonde levaria a globalização capitalista, como ele previra em 1848. Mais uma vez é óbvio que as operações do sistema econômico devem ser analisadas tanto historicamente, como uma fase da história, e não como seu fim, quanto de forma realista, isto é, em termos não de um equilíbrio de mercado ideal, e sim de um mecanismo integrado que gera crises periódicas capazes de transformar o sistema.” (op.cit. p.375)

Para Hobsbawm, a crise atual mostra que o “mercado” não tem nenhuma resposta para o “principal problema com que se defronta o século XXI”: “o fato de que o crescimento econômico ilimitado e cada vez mais tecnológico, em busca de lucros insustentáveis, produz riqueza global, mas às custas de um fator de produção cada vez mais dispensável, o trabalho humano, e, talvez convenha acrescentar, dos recursos naturais do planeta”. O historiador conclui: “O liberalismo econômico e o liberalismo político, sozinhos ou combinados, não conseguem oferecer uma solução para os problemas do século XX. Mais uma vez chegou a hora de levar Marx a sério”.

O que fica de um homem?
Paul Valéry, no início de sua formidável “Introdução ao Método de Leonardo da Vinci” (publicado no Brasil pela editora 34), disse que “o que fica de um homem é o que nos leva a pensar seu nome e as obras que fazem desse nome um signo de admiração, de ódio ou de indiferença. Pensamos que ele pensou, e podemos reencontrar entre suas obras esse pensamento que lhe é dado por nós: podemos refazer esse pensamento à imagem do nosso”.

A longa, profícua e aguda obra de Hobsbwam está aí para que nós melhoremos o nosso próprio pensamento sobre a nossa história e, sobretudo, sobre os desafios que o presente desfia a nossa frente. Não há fim da história, o mercado não é um deus e os homens e mulheres seguem lutando para sobreviver e levar a humanidade a um patamar melhor do que o que está aí. As palavras, as reflexões e a vida de Eric Hobsbwam seguirão a nossa disposição para deixar esse caminho um pouco menos sombrio.

LUTO - Morre aos 95 anos influente historiador marxista Eric Hobsbawm

Morre aos 95 anos influente historiador marxista Eric Hobsbawm
O historiador inglês Eric Hobesbawm (1/8/03)
O influente historiador marxista Eric Hobsbawm, britânico de origem judaica, morreu nesta segunda-feira (1º) em Londres aos 95 anos após um longo tempo doente, segundo confirmou a família ao jornal "The Guardian".

Hobsbawm morreu no começo da manhã no hospital Royal Free de Londres, onde estava internado.

Entre suas obras de destaque, que influenciaram gerações de historiadores, estão "Era dos Extremos: o Breve Século XX: 1914 - 1991" e "Globalização, Democracia e Terrorismo".


Eric Hobsbawm (1917-2012)
O pensador marxista, cuja obra influenciou gerações de historiadores e ativistas de esquerda, morreu na manhã desta segunda-feira, no Royal Free Hospital de Londres, após longa doença, com 95 anos. Os seus quatro volumes sobre os séculos XIX e XX, abrangendo a história europeia desde a revolução francesa até a queda da URSS, são reconhecidos como obras incontornáveis, definidoras do seu período.
Eric Hobsbawm, um dos principais historiadores do século XX, morreu esta segunda-feira, após um longo período de doença, informou a sua família.

Conforme noticioi o jornal britânico The Guardian, Hobsbawm, o pensador marxista cujo trabalho influenciou gerações de historiadores e dirigentes políticos, morreu nas primeiras horas da manhã, no Royal Free Hospital, em Londres, segundo informou a sua filha Julia. Tinha 95 anos.

Os seus quatro volumes sobre os séculos XIX e XX, abrangendo a história europeia desde a revolução francesa até a queda da URSS, são reconhecidos como obras incontornáveis, definidoras do seu período.

O historiador Niall Ferguson considerou o quarteto A Era das Revoluções, A Era do Capital, A Era dos Impérios e a Era dos Extremos "o melhor ponto de partida para quem deseja começar a estudar a história moderna".
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