sexta-feira, 12 de outubro de 2012

‘Não Devemos, Não Pagamos’: o mundo contra as dívidas ilegítimas - Por Natasha Pitts

‘Não Devemos, Não Pagamos’: o mundo contra as dívidas ilegítimas
No próximo sábado, 13, movimentos de vários países estão organizando a convocatória mundial “Global Noise” (Barulho Global) e chamando o povo a fazer barulho contra o poder das elites financeiras
No próximo sábado, dia 13, a ordem é fazer barulho. Organizações, movimentos e coletivos de vários países estão organizando a convocatória mundial “Global Noise” (Barulho Global) e chamando o povo a fazer panelaços, apitaços e buzinaços para reclamar de seus problemas locais. Cada região vai exigir suas demandas, mas um tema que será comum a todos os eventos é o poder das elites políticas e financeiras, responsáveis pela destruição das comunidades e do planeta.
O Comitê pela Anulação da Dívida no Terceiro Mundo, em seu comunicado, coloca que muito há o que se aprender com países como a Bolívia, Brasil, Argentina, que têm se manifestado, resistido e denunciado de várias formas as dívidas ilegítimas que lhes são cobradas. Com agora o assunto atinge vários países europeus, o tema precisa ser global e o chamado para este dia 13 é “Não devemos. Não Pagamos”.
“A campanha para subjugar o mundo à dívida pública e privada é um ataque calculado à democracia. É um ataque contra as nossas casas, as nossas famílias, os nossos serviços e benefícios sociais, as nossas comunidades e contra todos os frágeis ecossistemas do planeta que estão sendo destruídos pela produção sem controle que tem com o objetivo pagar aos credores”, declara o comunicado do Comitê.
De acordo com as organizações que forma o Comitê, os países mais desenvolvidos já estão atentos. Na Espanha e Portugal, por exemplo, desde o mês passado, acontecem manifestações em protesto contra os efeitos das dívidas.
A Espanha é um atual exemplo do que ocorre. “Mais de 80% do total da dívida espanhola é dívida privada, principalmente nas mãos de bancos e de grandes empresas, que a geraram obtendo pelo caminho enormes benefícios. Com as ajudas do Estado ao banco, 215 bilhões de euros até junho de 2012, ao que há que se somar o montante do novo empréstimo europeu, esta dívida privada está se transformando em uma dívida pública, cujo pagamento é imposto a todos com recortes e privações”, denunciam as organizações espanholas, lembrando que parte do dinheiro emprestado foi retirado de serviços públicos e prestações sociais.
O panelaço espanhol acontecerá a partir das 18h e sairá da sede da União Europeia (Praça Emilio Castelar) rumo ao Congresso. Outras manifestações estão previstas no Brasil, na Argentina, em Portugal e no Equador. Segundo o Comitê, o que vale é resistir, é mostrar que a população não está passiva diante de uma situação criada por interesses outros que não a soberania dos países.
“Na Europa, como no Egito e na Tunísia, aprendendo com a América Latina, a África do Sul, a África Subsaariana e com a Ásia, é preciso realizar auditorias cidadãs à dívida pública com o objetivo de denunciar a parcela da dívida pública que é ilegítima, odiosa ou insustentável, e que deve, portanto, ser anulada. Pagar tais credores significa roubar o que, por direito, pertence à população e esses pagamentos continuarão a ser a causa do encerramento de faculdades e hospitais, do corte de pensões, do desemprego e por aí adiante. A dívida alimenta-se de dívida”, afirmou o Comitê.
Natasha Pitts, da Adital

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A Internacional Situacionista Revisitada – por Gilles Dauvé

A Internacional Situacionista Revisitada
No ano 2000, "sociedade do espetáculo" tornou-se uma expressão na moda, não tão famosa como "luta de classes" já foi, mas em todo o caso socialmente mais aceitável. Além do mais, a Internacional Situacionista (IS) é agora ofuscada pela sua figura principal, Guy Debord, que é geralmente apresentado como o último revolucionário romântico. Tanto em Berlim como em Atenas, é preciso ir além da moda situacionista para aceder à contribuição da IS para a revolução. Da mesma maneira, tem que se rasgar o véu "marxista" para entender o que Marx realmente disse -- e o que continua a significar para nós. A IS mostrou que não há revolução sem a comunização generalizada e imediata da vida em todos os seus aspectos, e que esta transformação é uma das condições para a destruição do poder do Estado. A revolução significa pôr um fim a todas as separações, e em primeiro lugar àquela separação que as reproduz a todas: o trabalho, como algo desligado do resto da vida. Livrarmo-nos do trabalho assalariado implica uma desmercantilização da forma como comemos, dormimos, aprendemos e esquecemos, nos movemos de um lugar para outro, iluminamos o nosso quarto ou como nos relacionamos com o carvalho ao fundo da rua, etc.  São banalidades? Pois nem sempre o foram e continuam a não sê-lo para muita gente. Basta ler os "Princípios da Produção e Distribuição Comunistas", escrito em 1935 pela esquerda germano-holandesa, para perceber a dimensão da evolução. Quanto a Bordiga e seus sucessores, sempre entenderam o comunismo como um programa para ser posto em prática depois da tomada do poder. Lembremo-nos apenas o que se discutia em 1960, quando os radicais debatiam sobre o "poder dos trabalhadores" e definiam a mudança social essencialmente como um processo político. Revolução é comunização. Isto é tão importante como, por exemplo, foi a rejeição dos sindicatos após 1918. Não estamos dizendo que a teoria revolucionária deve mudar a cada trinta anos, mas que uma minoria apreciável de proletários rejeitou os sindicatos depois de 1914, e outra minoria ativa fez da vida quotidiana o alvo da sua crítica nas décadas de sessenta e setenta. A IS ultrapassou os limites da economia, produção, fábrica e obreirismo porque nessa época, de Watts a Turim, os proletas estavam realmente questionando o sistema de trabalho e as atividades exteriores ao trabalho. Mas os dois campos raramente foram alvo de ataque pelos mesmos grupos: os Negros faziam motins contra a mercantilização da vida no gueto, enquanto trabalhadores negros e brancos se rebelavam contra ser reduzidos a apêndices das máquinas, e no entanto os dois movimentos não conseguiram fundir-se. No local de trabalho, por um lado os trabalhadores rejeitavam o trabalho e por outro exigiam maiores salários : o trabalho assalariado em si nunca foi posto de lado. Contudo, houve tentativas para questionar o sistema como um todo, em Itália por exemplo, e a IS foi uma das formas pela qual esses empreendimentos encontraram expressão. É aqui que a IS continua a esclarecer-nos. E é também onde está aberta à crítica. O limite da IS reside no seu ponto forte: uma crítica da mercadoria que foi até ao básico sem realmente atingir a base. A IS recusou e aceitou simultaneamente a esquerda conselhista. Tal como Socialisme ou Barbarie, via o capital como gestão que retirava aos proletários qualquer controlo sobre as suas vidas, e concluía que era necessário encontrar um mecanismo social que permitisse a todos tomar parte na gestão da própria vida. A teoria de Socialisme ou Barbarie do "capitalismo burocrático" dava mais ênfase na burocracia do que no capital. Da mesma maneira, a teoria da IS da "sociedade espetacular" atribuía ao espetáculo no capitalismo mais importância do que ao próprio capital. Na verdade, os últimos escritos de Debord redefiniam o capitalismo como espetáculo plenamente integrado, mas o erro de apreciação já estava lá quando a Sociedade do Espetáculo tomou erroneamente a parte pelo todo em 1967. O espetáculo não é a sua própria causa. Está enraizado nas relações de produção, e pode apenas ser compreendido através dum entendimento do capital e não inversamente. É a divisão do trabalho que transforma o trabalhador num espectador do seu trabalho, do produto desse trabalho e finalmente num espectador da sua vida. O espetáculo é a nossa existência alienada em imagens que se alimentam dela, o resultado autonomizado dos nossos atos sociais. Começa em nós e separa-se de nós através da representação universal das mercadorias. Torna-se exterior às nossas vidas porque as nossas vidas constantemente reproduzem a sua exteriorização.

A ênfase no espetáculo conduz a uma luta por uma sociedade não espetacular: no pensamento situacionista, a democracia operária funciona como um antídoto contra a contemplação, como a melhor forma possível de criação de situações. A IS estava em busca de uma democracia autêntica, uma estrutura na qual os proletários deixariam de ser espectadores. Procurava o meio (a democracia), o lugar (o conselho) e o estilo de vida (autogestão generalizada) que permitiriam ao povo quebrar os grilhões da passividade. Não existe contradição entre as variantes Debord e Vaneigem da IS. Tanto o conselhismo como a subjetividade radical enfatizavam a auto-actividade, viesse ela do coletivo de trabalhadores ou do indivíduo. "Penso que todos os meus amigos e eu ficaríamos satisfeitos em trabalhar de maneira anônima no Ministério do Ócio, para um governo que se preocuparia por fim verdadeiramente por mudar a vida (...)" (Debord, Potlatch, n.29, 1957) No início, os situacionistas acreditavam ser possível experimentar novos estilos de vida imediatamente. Rapidamente compreenderam que tais experiências requeriam uma reapropriação coletiva completa das condições de existência. Começaram com um assalto ao espetáculo visto como passividade e foram levados à afirmação do comunismo como atividade. Este é um ponto fundamental em relação ao qual não podemos retroceder. Porém, através de todo o processo desta (re)descoberta, a falha foi terem assumido que tem que haver um modo de uso para a vida o que levou à busca de um modo de usar totalmente diferente. Esta procura por um modo de uso da vida de cada um, estimulou mas ao mesmo tempo deformou a crítica do militantismo desenvolvida pela IS. Foi necessário expor a atividade política como uma atividade separada onde o indivíduo milita por uma causa da qual foi abstraída a sua própria vida, onde reprime os seus desejos e se sacrifica a um objetivo estranho aos seus sentimentos e necessidades. Todos já vimos exemplos de dedicação a um grupo e /ou a uma visão do mundo que acabam numa situação em que a pessoa deixa de ser receptiva a eventos reais e se torna incapaz de desenvolver atos subversivos quando eles passam a ser possíveis. Contudo, só o concurso de relações reais pode evitar que se desenvolva a fraqueza pessoal e o auto-sacrifício alienado. Ao invés, a IS exigia radicalidade total e consistência 24 horas por dia, substituindo a moral militante por uma moral radical, o que também é ineficaz. O relato que a IS faz do seu fim, depois de Maio de 68 é deprimente: porque é que tão poucos membros estiveram à altura da situação? Guy Debord foi o único a consegui-lo? Talvez o principal problema de Debord tenha sido que agiu (e escreveu) como se nunca se tivesse enganado. Pode ter sido subversivo troçar da falsa modéstia militante chamando-se a si mesmos uma Internacional, e voltar o espetáculo contra si mesmo, como no escândalo de Estrasburgo (1967). Mas o tiro saiu-lhes pela culatra quando os situacionistas tentaram usar técnicas publicitárias contra o mundo da publicidade. O seu slogan "Que o espetáculo acabe!" deteriorou-se em eles fazerem um espetáculo deles próprios, que acabou mesmo por se transformar em exibicionismo. Não é por acaso que a IS tanto gostava de citar Maquiavel e Clausewitz. De facto, os situacionistas acreditavam que, desde que conduzida com estilo e intuição, uma certa estratégia permitiria a um grupo de jovens brilhantes ganhar aos media no seu próprio jogo e influenciar a opinião pública duma maneira revolucionária. Só isto já mostra uma incompreensão da sociedade espetacular. Antes e durante 68, a IS encontrava habitualmente a atitude certa face a realidades que precisavam ser ridicularizadas antes de poderem ser transformadas de maneira revolucionária: política, a ética do trabalho, o respeito pela cultura, a a boa vontade esquerdista, e por aí fora. Posteriormente, quando a atividade situacionista começa a desvanecer-se, pouco mais ficou do que uma atitude, e passado pouco tempo nem sequer a atitude correta, já que caíram na auto-valorização, no feiticismo dos conselhos, numa fascinação pelo lado oculto da política mundial, e ainda as suas análises erradas dos acontecimentos em Itália e Portugal. A IS foi o arauto da vinda da revolução. O que de facto ocorreu tinha muitas das características anunciadas pela IS. Os slogans de 68 em Paris ou de 77 em Bolonha ecoaram os artigos que tinham sido publicados previamente na revista de capa brilhante. No entanto, não foi propriamente uma revolução. A IS pretendia que tinha ocorrido uma. Democracia generalizada ( e sobretudo, a democracia operária) tinha sido o sonho subversivo do fim dos anos 60 e do início dos 70: em vez de perceberem isto como a limitação do período, os situacionistas interpretaram-na como a vindicação do apelo à formação de conselhos.

Não conseguiram entender que a autogestão autônoma das lutas de fábrica só podia ser um meio e nunca um fim em si mesmo ou um princípio. A Autonomia resumia o espírito do tempo: libertar-se do sistema -- em vez de desfazê-lo em bocados. Uma revolução futura será menos a agregação do proletariado como um bloco do que a desintegração do que dia após dia reproduz os proletários enquanto proletários. Este processo significa juntar e organizar no local de trabalho mas também transformar o local de trabalho e libertarmo-nos dele tanto como reunirmo-nos nele. A comunização não será uma repetição de 1966 em San Francisco nem reatará com os sit-downs de fábrica do passado em grande escala. A IS acabou adicionando conselhismo às ilusões sobre uma arte de viver revolucionária, i.e. um estilo de vida subversivo. Exigia um mundo onde a atividade humana fosse equivalente a um prazer continuo, e descrevia o fim do trabalho como o começo dum divertimento e dum gozo sem fim. Nunca se livrou duma visão tecnicista e crente no progresso duma abundância gerada pela automação. Dos escassos grupos que tiveram impacto social na vaga subversiva de meados de 60, a Internacional Situacionista deu a melhor aproximação de comunismo tal como ele era concebido na época. Existia uma incompatibilidade historicamente inultrapassável entre "Abaixo o Trabalho!" e "Poder aos Trabalhadores!" e a IS situava-se no nó dessa contradição.

Gilles Dauvé, Junho de 2000

Alienação à moda dos EUA – por Noam Chomsky

Alienação à moda dos EUA
Políticos dos EUA fazem tudo para sacrificar as próximas gerações por ganhos a curto prazo

Nossos políticos mostram uma extraordinária vontade de sacrificar as vidas de nossos filhos e netos por ganhos a curto prazo. No momento em que as eleições para a Presidência chegam ao momento decisivo, é útil indagar como as campanhas políticas estão lidando com os temas mais cruciais que enfrentamos. A resposta é: ou muito mal, ou simplesmente não tratam destes assuntos. Sendo assim, surgem algumas questões importantes: por quê? E o que podemos fazer em relação a isso?

Existem dois problemas de importância fundamental, porque o destino da espécie está em jogo: o desastre ambiental e a guerra nuclear. O primeiro está regularmente nas primeiras páginas. Em 19 de setembro, por exemplo, Justin Gillis escreveu uma reportagem para o New York Times sobre como o derretimento do gelo do Oceano Ártico cessou por esse ano, “mas não sem antes derrubar seu recorde anterior — desencadeando novas preocupações sobre o ritmo acelerado nas mudanças da região.” O derretimento está se dando de modo muito mais rápido do que era previsto por modelos matemáticos sofisticados e pelos últimos relatórios da ONU sobre o aquecimento global.

Novos dados indicam que o gelo deve desaparecer durante o verão até 2020, com consequências severas. Pesquisas estimam que o gelo desaparecerá completamente por volta do ano 2050. “Mas os governos não responderam à mudança com a urgência necessária para limitar as emissões de efeito estufa,” escreve Gillis. “Ao contrário, sua resposta principal tem sido planejar a exploração dos agora acessíveis minerais do Ártico, incluindo a extração de mais petróleo” — isso é, acelerando a catástrofe. A reação demonstra, novamente, uma extraordinária vontade de sacrificar as vidas dos nossos filhos e netos pelo curto prazo.

Ou, talvez, uma vontade igualmente notável de fechar nossos olhos, para que não vejamos o perigo iminente. Não é só. Um novo estudo do Monitor da Vulnerabilidade Climática verificou que “as mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global estão reduzindo a produção econômica mundial em 1,6% ao ano, e provocarão a duplicação de certos custos estratégicos nas próximas duas décadas”. O estudo foi amplamente divulgado em outros países, mas os norte-americanos foram poupados de tais notícias perturbadoras. As plataformas dos partidos Democrata e Republicano sobre assuntos climáticos foram analisadas na edição de 14 de setembro da revista Science.

Num caso raro de ação comum, os dois partidos propõem que tornemos o problema mais grave. Em 2008, ambas as plataformas dedicavam alguma atenção às políticas do governo diante da mudança climática. Agora, o tema quase desapareceu da plataforma republicana — que, no entanto, pede que o Congresso “aja rapidamente” para evitar que a EPA (Agência de Proteção Ambiental) — criada pelo ex-presidente republicano Richard Nixon em dias mais sãos — regule a emissão de gases do efeito-estufa. E devemos abrir o Refúgio Ártico do Alasca à perfuração, para tirar “vantagem de todos os recursos que Deus ofereceu aos americanos”. Não podemos desobedecer o Senhor, afinal de contas. A plataforma também sustenta que “devemos restaurar a integridade científica de nossas instituições de pesquisa e eliminar incentivos políticos relacionados à pesquisa desenvolvida com recursos públicos” — um código para referir-se à ciência do Clima.

Tentando escapar do estigma de ter se preocupado com mudança climática há alguns anos, Mitt Rommey, o candidato republicano, declarou que não há consenso científico sobre o tema. Portanto, deveríamos apoiar mais debate e investigações — mas não ações, exceto as que tornam o problema mais sério. Os democratas mencionam, em sua plataforma, que há um problema, e recomendam trabalharmos “em direção a um acordo para definir limites às emissões, com outras potências emergentes”.

Porém, o presidente Barack Obama enfatizou que os EUA devem conquistar cem anos de independência energética empregando extração por fratura hidráulica (fracking) e outras tecnologias — sem se perguntar o que este tipo de prática provocará no planeta em cem anos. Há, portanto, diferenças entre os dois partidos: dizem respeito a quão entusiasticamente os ratos devem marchar até o abismo. Um segundo grande tema, a guerra nuclear, também está nas primeiras páginas todos os dias, mas de uma forma que escandalizaria um marciano observando fatos estranhos na Terra.

A ameaça atual está, de novo, no Oriente Médio, especificamente no Irã — ao menos segundo o Ocidente. No próprio Oriente Médio, os EUA e Israel são considerados ameaças muito maiores. Ao contrário do Irã, Israel recusa-se a permitir inspeções ou a assinar o TNP (Tratado de Não-Proliferação Nuclear). Possui centenas de ogivas nucleares e sistemas avançados de mísseis, além de uma longa história de violência, agressão e desrespeito ao direito internacional, graças a apoio norte-americano incessante. Se o Irã está tentando desenvolver armas nucleares, os serviços de inteligência dos EUA não sabem. Em seu último relatório, a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) afirma que não pode demonstrar “a ausência de material e atividades nucleares não-declaradas no Irã” — um rodeio em que a instituição condena o país, como Washington exige, ao mesmo tempo em que reconhece não poder acrescentar nada às conclusões da inteligência norte-americana.

Portanto, deve-se negar ao Irã o direito de enriquecer urânio, que é assegurado pelo TNP e endossado pela maior parte do mundo — inclusive o movimento dos países não-alinhados, que acabam de se reunir em Teerã. A possibilidade de que o Irã desenvolva armas nucleares sobressai na campanha eleitoral (o fato de Israel já tê-las, não…). Duas posições se contrapõem. Os Estados Unidos deveriam declarar que atacarão caso o Irã alcance capacidade de desenvolver armas nucleares, como dezenas de outros países? Ou Washington deveria manter a “linha vermelha” mais indefinida? A segunda posição é a da Casa Branca; a primeira é exigida pelos falcões israelenses — e aceita pelo Congresso norte-americano.

O Senado acaba de votar, por 90 votos a 1 em favor do apoio a Israel. Está ausente do debate a alternativa óbvia para mitigar ou eliminar qualquer ameaça que o Irã possa representar. Basta estabelecer uma zona livre de armas nucleares no Oriente Médio. A oportunidade está ao alcance da mão: uma conferência internacional sobre o tema irá se reunir em alguns meses para trabalhar por este objetivo, apoiado no mundo todo — inclusive, por uma maioria de israelenses. O governo de Tel-Aviv, no entanto, anunciou que não participará, até que haja uma acordo de paz na região, algo inatingível enquanto Israel persistir em suas atividades ilegais nos territórios ocupados da Palestina. Washington aferra-se à mesma posição, e insiste que Israel deve ser excluído de tal acordo regional.

Podemos estar caminhando para uma guerra devastadora, talvez nuclear. Há caminhos diretos de superar esta ameaça, mas não serão adotados exceto se houver ativismo social em larga escala, exigindo que se aproveite a oportunidade. Isso, no entanto, é muito improvável, enquanto tais temas permanecerem fora da agenda — não só a do circo eleitoral, mas também a da mídia e do debate nacional mais amplo. As eleições são feitas pela indústria de relações públicas, cujo principal afazer é a publicidade comercial. É concebida para subverter os mercados, criando consumidores desinformados que tomam decisões irracionais — o oposto exato de como se supõe que os mercados funcionariam. As vítimas, porém, não estão obrigadas a obedecer. A passividade costuma ser o caminho mais fácil — porém, quase nunca, o honroso.
Publicado em português no blog Outras Palavras. Tradução de Gabriela Leite e Antonio Martins

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A “primavera” amarela carioca, o V de Vingança e a “força” das… urnas? - Por Rafael V. da Silva

A “primavera” amarela carioca, o V de Vingança e a “força” das… urnas?

É preciso um trabalho cotidiano que torne agudo justamente o que o sistema vê como inaceitável: a ação coletiva e de classe. Por Rafael V. da Silva

“Lembrai, lembrai, o cinco de novembro
A pólvora, a traição e o ardil,
por isso não vejo porque esquecer;
uma traição de pólvora tão vil”

Há uma frase muito conhecida dentro da esquerda, que diz que a “esquerda” só se une na cadeia. Esse ditado irônico tem seu fundo de verdade. Há realmente uma dificuldade em aglutinar os setores políticos anticapitalistas em bandeiras comuns de luta. Poucos grupos ou movimentos conseguiram essa proeza. Em momentos e contextos históricos específicos, o que unia a esquerda era o anti-imperialismo, a luta pela libertação nacional, a conquista de direitos sociais ou a derrubada de determinada ditadura militar. Longe de ficar admirando o passado com mera nostalgia, vale mencionar que a unidade nas lutas parece não ser apenas preferível, mas realmente efetiva do ponto de vista revolucionário, do que uma unidade construída nas urnas. “Ponto de vista revolucionário” é atualmente uma palavra fora de moda, em tempos neoliberais.
Num texto da Federação Anarquista Uruguaia (FAU) dos anos 90, este movimento neoliberal era denunciado como uma “guerra aberta à solidariedade e a tudo o que possa gerar culturas de cooperação” (FAU, Tempos de Eleições) e que “acabam alimentando a fragmentação e a atomização, em que cada um pensa somente em si” (FAU, Ibid). Hoje, principalmente nas eleições municipais do Rio de Janeiro, somos pressionados a nos unir numa mesma bandeira, sob uma suposta “primavera” amarela, que reafirma a opção das urnas como o caminho da mudança e transformação social, em torno de determinadas candidaturas políticas. A pressão chega a ares de denúncia, quando alguns afirmam que “votar nulo ou não votar” é fortalecer a direita. Não entrarei nas armadilhas da oposição simplista entre “votar ou não votar”. Primeiro, porque esta questão já vem carregada de noções políticas totalmente pré-construídas e, portanto, que se autorrespondem. Toda questão que pré-determina, de forma maniqueísta, suas próprias respostas deve ser questionada, pois não há como falar de política se nós não nos perguntamos de que política estamos falando e, em último caso, o que é e significa hoje realizar uma ação política. Deste modo, a desmobilização permanente, a substituição da ação coletiva pela privatização da vida, a redução da ação política de massas ao simples comportamento per si é a política por excelência dos que hoje se sentam confortavelmente nas tramas do poder. Olhando dessa maneira, não se pode sobrevalorizar a ação do voto “consciente”, voto nulo ou do não-votar, pois o sistema não se desestruturará a partir de suas próprias regras. É preciso algo mais. É preciso um trabalho cotidiano que torne agudo justamente o que o sistema vê como inaceitável: a ação coletiva e de classe.

Nesse cenário de ofensiva dura do sistema e de seus promotores, mas também de iniciativas de resistência que aqui e acolá surgem, ressurgem e se fortalecem, a história prova que as mobilizações populares, a ação direta e a luta permanente não sumiram da história. Nesse sentido, a primavera não se anuncia ao sabor das urnas ou de um candidato-mártir, mas sempre esteve presente nas iniciativas populares de autodeterminação. Iniciativas que enfraquecem a direita não dentro dos seus próprios instrumentos (doce ilusão…), mas a enfraquecem, pois dão protagonismo coletivo e criam um povo forte. Para não desesperar os imediatistas, que acham que as revoluções ou as mobilizações de massa estão “fora de moda”, não vamos cansar seus olhos com uma lista dos processo revolucionários dos últimos 100 anos. Basta citar algumas das lutas dos últimos vinte anos e veremos seus frutos, diante a passagem das estações.
Em 2006, Oaxaca. A partir de uma greve de professores, trabalhadores, donas de casa e estudantes unem-se aos grevistas. A greve vira insurreição popular. A insurreição torna-se poder popular. Este tem um nome: se chama Assemblea Popular de los Pueblos de Oaxaca, o organismo de autogoverno dos insurgentes. Outra iniciativa, ainda que com singularidades, foi a chamada “Primavera Árabe”. Mesmo com limites, a ação popular de massa e nas ruas derrubou regimes políticos encastelados há anos no poder. A “transição” democrática e burguesa operada pelas elites não tira o brilho das ruas, que, se não avançaram para uma revolução social, colocaram em evidência que os governos podem, sim, ser depostos e derrotados pelo povo.

Outro movimento inspirado pelo anterior, o occupy wall-street, formado basicamente pela juventude. Mas contando também com desempregados, velhos e novos ativistas, este se espalhou rapidamente pelo mundo. Com todos os seus limites, o vento anticapitalista soprou mais uma geração de ativistas. As máscaras do “V de Vingança”, utilizadas pelo grupo anonymous, inspirada claramente na revista de Alan Moore, de fato eram simbólicas de um movimento que tinha na ação direta e no protagonismo coletivo seu principal eixo. Mas havia outro elemento que as máscaras de Guy Fawkes e sua “Conspiração da Pólvora” sublinhavam. Essa conspiração aconteceu durante a Revolução Inglesa, uma revolução burguesa, onde católicos radicais planejavam explodir o prédio do parlamento. O personagem de “V de Vingança” retoma a face de Guy Fawkes não por acaso. O recado era claro, as mudanças não são feitas com os instrumentos dos dominadores. Retomar o rosto daquele que desejou explodir o principal símbolo (parlamento) dos exploradores tinha um significado preciso e bem definido: “não é possível vencer o amo com suas próprias ferramentas…”.

Num futuro não tão fictício do quadrinho de V de Vingança, onde um estado totalitário oprime o povo, Guy Fawkes realiza atentados a símbolos e agentes do governo. As últimas páginas da revista (também imortalizada nas cenas do filme) enfatizam a força coletiva dos agentes revolucionários. Milhares de pessoas saem às ruas, desafiando a ordem vigente e vestindo a máscara de Guy Fawkes. Nesses agentes reside a esperança de transformação. Não há esperança num salvador, num mártir, pois todos são ou podem ser Guy Fawkes. A transformação radical está baseada na força social de centenas de atores, que, antes pulverizados, enfrentam um governo opressivo; e nas ruas, e vencem… Essa é a imagem deixada pela máscara de Fawkes. A superação da política “privatizada” (cujo auge é o ritual cíclico e individual das eleições). Essa é a imagem do personagem principal de V de Vingança. Esse é o grito que diz para a juventude romper com o último grilhão político que a acorrenta às ilusões burguesas… rompam com as eleições, vão ajudar a organizar nosso povo!
Para sairmos do campo da ficção, antes que me acusem de querer transpor uma obra fictícia ao campo da história, nós, pobres socialistas utópicos, lembramo-nos de outras máscaras, as máscaras zapatistas. O grito do “Ya Basta” de um movimento social que sacudiu o México em 1994 − e, por que não dizer, revigorou com novos símbolos e esperança o movimento antiglobalização da mesma década – trazia marcadamente a figura encapuzada do subcomandante Marcos. Era um novo Fawkes, mas feito de carne e osso, saído não da obra de Alan Moore, mas da experiência ancestral de resistência dos pueblos que habitam o território que os colonizadores/dominadores chamaram de México. Era o autogoverno em curso. Os zapatistas saíram mascarados rumo à cidade do México, desafiando o poder vigente, numa longa marcha. “Subcomandante” Marcos, e não comandante, pois o poder não residia (e não reside) em Marcos, mas nas centenas de comunidades zapatistas, nas suas máscaras e suas assembleias, que decidem completamente os rumos do movimento. Em oposição a uma “ditadura” democrática de 70 anos do principal partido conservador do México, o PRI (Partido Revolucionário Institucional). A Outra Campanha tocada pelos Zapatistas também enfatizava uma estratégia consagrada pela frase de Emiliano Zapata, que dizia: “um povo forte não precisa de líderes”. Ao invés de apoiar um candidato, os zapatistas utilizaram o período eleitoral para ouvir as comunidades e formular um programa sob uma democracia direta enraizada na experiência comunitária. Na primavera “amarela”, ao contrário, são as comunidades que são chamadas a ouvir e votar em seu candidato.

A pretensão de unidade agora se anuncia com ares de novidade. As velhas e insossas ferramentas dos dominadores são nos apresentadas com ares de inovação. Não está em jogo a decisão pelas bases, a luta popular auto-organizada, tampouco o protagonismo das ruas. A mobilização é em torno da eleição de um candidato. Para isso, todo um mecanismo de maquiagem do velho entra em operação. Algumas máscaras do V de Vingança podem ser vistas nas ruas, sobre a febre da “primavera” amarela, não para ocupá-las e pressionar os dominadores, mas para fazer um perigoso e subversivo… comício eleitoral! Feliz da classe dominante que tem como oponente um comício eleitoral como o auge de uma primavera de “esquerda”… A classe dominante não teme os instrumentos que ela mesma criou.
Não há novidade no fato de que parte da esquerda opte pela estratégia eleitoral. Temos o PT como um bom exemplo do “sucesso” dessa tática: desmobilização dos movimentos sociais e sindicatos, controle das lutas pelas burocracias atreladas ao governo, reformismo e pacto de classes.

O elemento novo são os símbolos mobilizados para reforçar essa estratégia fracassada, principalmente entre a juventude. Não é de se espantar que Guy Fawkes, nosso anarquista insurrecionalista sob a curta estação da esquerda eleitoral, tenha-se tornado um social-democrata bem comportado, que se mobiliza não para pressionar os exploradores… mas para eleger…. um candidato! Não espanta também que as primaveras populares, em que o povo saiu às ruas para enfrentar os ditadores, sejam “filtradas” numa espécie de primavera-light, onde saímos todos para eleger um salvador, pelas urnas.

Há militantes sinceros, com cujas táticas eu discordo, que se devotam a construir um projeto que tem como horizonte conciliar a atuação de massas (nos movimentos sociais), com o que chamam de ação parlamentar-eleitoral (historicamente, o antídoto perfeito da primeira). Não é bem a esses que me dirijo. Esse debate estratégico-político pode ser feito num outro campo e merece alguma profundidade, o que não é o objetivo deste texto (mas quem sabe de outros). O fato é que há uma parcela expressiva da juventude seduzida por essa proposta. É uma juventude que quer ação, vida, movimento… Ela procura e anseia uma mudança. O manejo de determinados símbolos radicais aparentemente oferece o que ela quer, mas junto com os símbolos – pois não há forma separada do conteúdo – lhes são oferecidas as ferramentas mais conservadoras da ação política: justamente as que anulam as transformações sociais.

No entorno de um dos comícios, esbarrei por acidente num participante e “mascarado”, aproveitei então para reproduzir amistosamente a célebre frase do V de Vingança que diz que “o povo não deve temer um governo, mas é o governo que deve temer seu povo”. “Ninguém deve temer ninguém” disse-me o mascarado, antes de sair. A primeira imagem que me veio a cabeça foi a conciliação: “ninguém deve temer ninguém”, paz entre classes? Exatamente o contrário de todos os símbolos convenientemente acionados pela “primavera” amarela em sua defesa. Posição equivocada ou não do nosso jovem mascarado, era essa a impressão passada àquela juventude por esses setores de esquerda. Que uma mudança radical e substantiva da realidade pode ser feita com os instrumentos do velho mundo. Que o problema é ocupar postos-chaves, dos exploradores, para poder “inverter” os mecanismos que os gestaram… pobre ilusão!
Os opressores podem dormir tranquilos, porque enquanto a juventude e os trabalhadores saírem de casa para votar ou reforçar a campanha eleitoral de um salvador, isso significa que já perderam a fé em si próprios e são incapazes de vestir a máscara que os torna coletivamente os protagonistas da própria história. Talvez seja por isso que, laconicamente, o fim da “primavera” amarela seja anunciado com um “abraço coletivo” no estádio do Maracanã (!). Nada mais sintomático de uma esquerda que não sabe mais o que fazer com os símbolos revolucionários de que anteriormente se apropriou. Não a julguemos. Lembremos da traição da pólvora, lembremos do cinco de novembro, lembremos que um parlamento como horizonte político é o fim, e não o início das primaveras revolucionárias.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Eric Hobsbawm: historiador rebelde - Por Michael Löwy.

Eric Hobsbawm, que tive a chance de conhecer pessoalmente, é não só um dos maiores historiadores do século 20, mas também um pensador que nunca renunciou à sua adesão ao marxismo e aos ideais da Revolução de Outubro. Sua obra mais conhecida é a tetralogia que vai da Era das Revoluções à Era dos Extremos. Mas eu gostaria de ressaltar um outro aspecto de sua obra, talvez menos conhecido, mas que constitui, a meu ver, sua contribuição mais original e inovadora à uma historiografia subversiva.

Se tratam de três obras dos anos 1959-69 dedicadas às chamadas formas arcaicas de revolta: Rebeldes Primitivos (1959), Os Bandidos (1969) e Capitão Swing (1969). Sua aproximação se distingue de maneira evidente da vulgata “progressista”, por seu interesse, sua simpatia, inclusive sua fascinação – estes são seus próprios termos – com os movimentos “primitivos” de resistência e protesto antimoderno (anticapitalista) dos camponeses.

Esta atitude – por sua vez metodológica, ética e política – implica um distanciamento a respeito de certa historiografia, que tende – a propósito do que ele denuncia como um viés racionalista e “modernista” – a descuidar estes movimentos, considerando-os como sobrevivências estranhas ou fenômenos marginais. No entanto, insiste Hobsbawm, estas populações “primitivas”, particularmente rurais, são todavia agora – isto é, nos anos 50 – a grande maioria da nação na maior parte dos países do mundo. Ademais, e essa é a argumentação decisiva para o historiador, “sua aquisição de consciência política é a que há feito de nosso século o mais revolucionário da história”. Em outros termos, este tipo de movimento, longe de ser marginal, é a fonte ou a raiz das grandes transformações revolucionárias do século XX, nas quais os camponeses e as massas pobres do campo jogaram um papel decisivo: a revolução mexicana de 1911-19, a revolução russa de 1917, a revolução espanhola de 1936, a revolução chinesa e a revolução cubana. A ideia é simplesmente sugerida por Hobsbawm, que não se ocupa diretamente de nenhum destes acontecimentos, senão que constitui um espécie de pano de fundo em suas investigações sobre os “primitivos”.

Para compreender estas revoltas, Hobsbawm observa que é necessário partir da comprovação de que a modernização, a irrupção do capitalismo nas sociedades camponesas tradicionais, a introdução do liberalismo econômico e das relações sociais modernas, significa para aquelas uma verdadeira catástrofe, um autêntico cataclisma social. As revoltas camponesas de massa contra esta nova ordem, vivida como insuportavelmente injusta, são frequentemente inspiradas por uma esperança revolucionaria milenarista, como no caso do anarquismo rural na Andaluzia e das Ligas Camponesas da Sicília, – de inspiração socialista religiosa – os dois surgidos em fins do século XIX com prolongações no XX. O tema é de grande atualidade no Brasil de hoje…

Michael Löwy, sociólogo, é nascido no Brasil, formado em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, e vive em Paris desde 1969. Diretor emérito de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS).

Os temas que Romney e Obama evitam: desastre ambiental e guerra nuclear - Noam Chomsky - La Jornada

Os temas que Romney e Obama evitam: desastre ambiental e guerra nuclear
Agora que o espetáculo da eleição presidencial nos EUA está chegando ao ápice, é útil perguntar como as campanhas políticas estão abordando os temas mais cruciais que enfrentamos. A resposta é singela: estão abordando mal ou não estão, simplesmente. Esses são dois temas de suma importância, porque o destino das espécies está em jogo: desastre ambiental e guerra nuclear. O que podemos fazer a respeito?

Agora que o espetáculo da eleição presidencial está chegando ao ápice, é útil perguntar como as campanhas políticas estão abordando os temas mais cruciais que enfrentamos. A resposta é singela: estão abordando mal ou não estão, simplesmente. Neste caso, surgem algumas perguntas importantes: por que e o que podemos fazer a respeito? Esses são dois temas de suma importância, porque o destino das espécies está em jogo: desastre ambiental e guerra nuclear.

O primeiro aparece regularmente nas primeiras páginas. Em 19 de setembro, por exemplo, Justin Gillis reportou, no The New York Times, que o derretimento das geleiras do Ártico tinha encerrado, neste ano, mas não antes de demolir o recorde do ano anterior, e de fazer soar o alarme sobre o rápido ritmo de mudança climática da região.

O derretimento é muito mais veloz do que haviam previsto os sofisticados modelos computacionais e o mais recente informe da ONU sobre aquecimento global. Os novos dados indicam que o gelo do verão poderia ter desaparecido para 2020, com graves consequências. As estimativas previam o desaparecimento do gelo no verão do Ártico somente para 2050.

Os governos, no entanto, não responderam à mudança climático com qualquer urgência maior para limitar as emissões de gases do efeito estufa, escreve Gillis. Ao contrário, sua resposta principal tem sido planejar a exploração dos minérios recentemente tornados acessíveis no Ártico, inclusive a perfuração para extrair mais petróleo; quer dizer, acelerar a catástrofe.

Esta reação demonstra uma extraordinária disposição de sacrificar as vidas de nossos filhos e netos em troca do lucro de curto prazo. Ou, quiçá, uma igualmente notável disposição para fechar os olhos e não ver o perigo iminente. Isso não é tudo. Um novo estudo do Monitor de Vulnerabilidade Climática apontou que a mudança climática causada pelo aquecimento global está desacelerando a produção econômica mundial em 1,6% ao ano e conduzirá a uma duplicação dos custos de produção nas próximas décadas. O estudo foi amplamente divulgado em toda parte, mas os estadunidenses foram poupados dessa notícia inquietante.

As plataformas democrata e republicana oficiais sobre o tema clima foram analisadas na edição de 14 de setembro da revista Science. Num caso raro de bipartidarismo partidário, ambos os partidos pedem que pioremos o problema. Em 2008, ambas os programas de governo tinha dedicado certa atenção à forma como o governo deveria abordar a mudança climática.

Hoje, o tema quase desapareceu da plataforma republicana, a qual, no entanto, exige que o Congresso tome rápidas providências para evitar que a Agência de Proteção Ambiental (EPA, em sua sigla em inglês), criada pelo presidente Nixon em dias mais sensatos, regule a emissão dos gases de efeito estufa. E devemos flexibilizar a proteção ambiental do Alaska, de modo a permitir a perfuração e a exploração de todos os nossos recursos estadunidenses concedidos por Deus. Não podemos desobedecer ao Senhor, afinal de contas.

O programa também declara que devemos restabelecer a integridade científica a nossas instituições públicas de pesquisa e retirar os incentivos estatais ao financiamento da pesquisa: termos cifrados do conhecimento científico climático.

O candidato republicano Mitt Romney, visando a escapar do estigma do que entendia há anos ser a mudança climática, declarou que não há consenso científico, assim como que deveríamos apoiar mais debate e investigações científicas; mas não ações, exceto para agravar mais os problemas.

Os democratas mencionam em sua plataforma que existe um problema e recomendam que deveríamos trabalhar com vistas a um acordo para estabelecer limites às emissões, em uníssono com outras potências emergentes. Mas isso é tudo.

O presidente Barack Obama enfatizou que devemos conseguir 100 anos de independência energética aproveitando a técnica de fracking, ou a fratura hidráulica, e outras tecnologias, sem perguntar-se como o mundo restará depois de um século das práticas atuais.

Certo que há diferenças entre os partidos, a respeito do quão entusiasticamente marcharão os ratos para o precipício.

O segundo tema importante é a guerra nuclear, que também está nas primeiras páginas dos jornais, mas numa forma que assombraria um marciano que observasse as estranhas atividades na Terra.

A ameaça atual está, de novo, no Oriente Médio, especificamente no Irã: quer dizer, ao menos segundo o Ocidente. No Oriente Médio, os Estados Unidos e Israel são considerados ameaças muito maiores.

À diferença do Irã, Israel se nega a permitir inspeções ou a firmar o Tratado de Não-Proliferação Nuclear. O país tem centenas de armas nucleares e sistemas de lançamento avançado e um longo histórico de violência, agressão e ilegalidade, graças ao absoluto apoio estadunidense. Se o Irã está buscando desenvolver armas nucleares a espionagem dos EUA não sabe.

Em seu informe mais recente, a Agência Internacional de Energia Atômica disse que não se pode afirmar a ausência de material nuclear e de atividades não declaradas voltadas ao enriquecimento de urânio no Irã; trata-se de uma forma indireta de condenar o Irã, como quer os Estados Unidos, na medida em que admite que a agência não pode acrescentar nada às conclusões da espionagem estadunidense.

Portanto, ao Irã deve-se negar o direito de enriquecer urânio, que está garantido pelo Tratado de Não-Proliferação Nuclear, e é apoiado pela maior parte do mundo, inclusive pelos países não alinhados que recentemente estiveram reunidos em Teerã. A possibilidade de que o Irã possa desenvolver armas nucleares surge na campanha eleitoral. (O fato de que Israel as tenha, não).

Duas posições se contrapõem: os Estados Unidos deveriam atacar o Irã se o país obtiver a capacidade de desenvolver armas nucleares de que dezenas de outras países desfrutam? Ou Washington deveria manter a linha vermelha mais indefinida?

A segunda postura é a da Casa Branca. A primeira é a dos israelenses belicosos e aquela aceita pelo Congresso dos Estados Unidos. O Senado votou 90 a 1 a favor da postura israelense.

O inexistente no debate é a forma óbvia de mitigar ou de pôr fim a qualquer ameaça que se pudesse acreditar que o Irã representa: estabelecer uma zona livre de armas nucleares na região. A oportunidade está disponível facilmente: uma conferência internacional ocorrerá nos próximos meses para buscar este objetivo, apoiado por quase todo mundo, inclusive a maioria dos israelenses.

O governo de Israel, no entanto, anunciou que não participará até que haja um acordo de paz geral na região, que é inalcançável enquanto Israel persistir em suas atividades ilegais nos territórios palestinos ocupados. Washington mantém a mesma postura, e insiste em que Israel deve ser excluído de qualquer acordo regional desse tipo.

Podemos estar marchando para uma guerra devastadora, possivelmente até nuclear. Existem formas claras de superar essa ameaça, mas não serão adotadas, a menos que haja um ativismo público em grande escala que exija que a oportunidade seja aproveitada. Isso, por sua vez, é altamente improvável enquanto esses temas seguirem fora da agenda, não só no circo eleitoral, mas na mídia e no grande debate nacional.

As eleições são operadas pela indústria das relações públicas. Sua tarefa fundamental é a publicidade comercial, que está desenhada para minar os mercados, criando consumidores desinformados que tomarão decisões irracionais; totalmente o oposto de como se supõe que funcionam os mercados, mas certamente familiar a qualquer um que tenha visto a campanha eleitoral na televisão.

É simplesmente natural que, quando chamada para operar eleições, a indústria adote os mesmos procedimentos em benefício de quem as paga, os quais necessariamente não querem ver cidadãos informados tomando decisões racionais.

Em todo caso, as vítimas não têm de obedecer. A passividade poderia ser o caminho fácil, mas dificilmente é honroso.

Tradução: Katarina Peixoto

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

"Galactolatria: mau deleite" Filósofa Sônia Felipe lança livro que revela os malefícios do leite (da Redação - ANDA)

"Galactolatria: mau deleite" Filósofa Sônia Felipe lança livro que revela os malefícios do leite
Colaboradora da ANDA, Sônia T. Felipe assina a Coluna Questão de ética há quase quatro anos. Seu livro, Galactolatria: mau deleite, é um texto voltado à questão da extração do leite bovino e seus desdobramentos nocivos à vida e ao bem próprio das vacas, à saúde ambiental e humana.
O livro “Galactolatria: mau deleite” foi impresso em papel reciclado (Foto: Divulgação)
Tornar-se vegana, rodeada por onívoros e por comedores ainda afeiçoados à ingestão de alimentos produzidos a partir da secreção da glândula mamária das fêmeas bovinas, é uma decisão que requer alguma determinação da vontade. Para nutrir tal determinação ética, a filósofa Sônia T. Felipe fez um percurso de leituras fora do cenário filosófico, investigando a literatura especializada (médica e técnica), para obter os dados e informações que tecem a rede da galactolatria, apresentados aos leitores de língua portuguesa de modo claro e fluente neste livro.
O título da obra Galactolatria: mau deleite (idolatria do leite, vista como um mau deleite), lançada nas redes sociais em 4 de outubro de 2012 (dia consagrado a São Francisco), foi criado para designar a adoração que grande parte das pessoas tem pelo leite e, mais comumente, por seus derivados (iogurtes, queijos, cremes, manteiga, ghee).
Mas não é apenas no título da obra que encontramos um termo grego. Cada um dos cinco capítulos dessas 304 páginas carregadas de informação e da concepção abolicionista vegana, vem nomeado por um neologismo criado a partir do grego: Galactoética (a descrição crítica do sofrimento das vacas e vitelos no sistema de extração do leite); Galactopoese (a descrição da composição do leite bovino e a comparação entre a constituição original do leite de diferentes fêmeas); Galactogenia (a reunião das declarações de médicos contrários à ingestão do leite bovino por humanos em qualquer idade, sobre os males associados ao consumo do leite e derivados); Galactocracia (a apresentação dos dados da extração do leite em cada país e o montante em cada continente, com a respectiva montanha de excrementos que essa produção representa); e, por fim, Galactoclastia (uma espécie de conclusão, alusiva ao ato da quebra dos ídolos que impedem a visão da realidade).
O livro, impresso em papel reciclado, traz um índice remissivo com mais de 500 verbetes, facilitando a busca por tópicos e termos, e uma lista da produção bibliográfica da autora, além de 602 notas referindo as fontes usadas. A capa, criada por Victor de la Rosa especialmente para a obra, é pura arte, na qual tetos e úberes encavernados estão sutilmente referidos em suas materializações deformadas. A diagramação, de Maurício Varallo, está impecável. No Prefácio, a autora agradece nominalmente a quase todos os defensores dos animais brasileiros, servindo este texto, por si só, como um registro histórico do que há de mais representativo no Brasil em termos de defesa animal abolicionista. A apresentação deste livro ficou a cargo da ativista feminista dos direitos animais, vegana e abolicionista, Tamara Bauab Levai.
Os termos do grego, por quê?, perguntamos. Não havia termos em português, para designar este livro e cada um dos capítulos? Não, responde-nos a autora. Os termos precisaram ser criados, exatamente porque o espírito do livro foge ao padrão que o tratamento do leite recebe na literatura convencional. Este livro, enfatiza Sônia T. Felipe, não é uma apologia à ingestão do leite bovino por humanos. É, acima de tudo, um livro que informa o consumidor sobre a realidade disfarçada por trás da brancura do leite. Uma realidade nada branca, brutal. É um livro em defesa das fêmeas bovinas usadas no sistema de extração do leite. Um livro para quem deseja despertar sua consciência ética animalista, conclui a autora.
Mas, se as pessoas param de ingerir leite de vaca, isso não as deixa doentes? A resposta de Sônia T. Felipe é firme e direta, aliás, seu estilo de escrita: Se as pessoas não gostam de alimentos de origem vegetal que contêm os nutrientes que o leite conjuga, e se elas não comem os alimentos vegetais que contêm cálcio, gorduras saturadas, açúcar e vitaminas, então, sim, elas adoecem.
O leite contém tudo isso, mas contém também o que não convém à saúde humana: caseína, hormônios bovinos, resíduos de antibióticos (dados às vacas por conta da inflamação do úbere e dos cascos), pus, nitratos, nitritos, lactose e resíduos dos pesticidas usados na produção dos grãos e cereais que elas são forçadas a ingerir para disparar a secreção mamária. O leite produz gás metano, que causa imensa dor às vacas, quando não expelido, e destrói a camada de ozônio quando emitido na atmosfera.
A autora Sônia T. Felipe (foto) foi motivada pela busca de dados contrários ao mito da necessidade de leite bovino para o sustento do organismo humano (Foto: Divulgação)
Somados esses ingredientes maléficos do leite, que não aparecem na descrição de sua composição na caixinha ou saquinho, muito menos nas embalagens dos queijos, manteiga e iogurtes, afirma Sônia T. Felipe, esse, definitivamente, não é um alimento saudável para os humanos, se é que tal composição é saudável para os bezerros. A vantagem, para a maior parte dos bezerros, é que eles são impedidos de mamar o leite de sua mãe. São os humanos que ingerem essa coisa, não eles!
O que a levou a escrever o livro? Diferentes razões, responde a autora. A mais forte foi a busca, na literatura médica norte-americana, e na literatura técnica canadense, neozelandesa e britânica, de dados contrários ao mito da necessidade de leite bovino para o sustento do organismo humano. Essa busca começou com a decisão de parar de ingerir tudo o que é derivado de animais, há mais ou menos 14 anos.
À época, esclarece Sônia T. Felipe, ela havia parado de comer carnes por 10 anos. A decisão de tornar-se genuinamente vegetariana foi fundamental para a busca da literatura de ajuda na condução da própria dieta, porque há uma década e meia atrás, não havia médico ou nutricionista que soubesse orientar uma pessoa na condução de uma dieta vegana. Hoje já os há. Mas o número é ínfimo, comparado ao número de pessoas cheias de mazelas, no Brasil, devidas, provavelmente, à galactomania. Mas os médicos continuam a ignorar isso em seus estudos de medicina. Eles se formam pelo padrão galactófilo. É triste, mas é verdade! Poucos médicos podem ajudar pacientes na condução de uma dieta vegana, porque eles estão convencidos de que sem alimentos de origem animal não se pode ter saúde. Isso ainda precisa ser desconstruído. A gente não tem muito tempo para ficar esperando por essa mudança, diz a autora. Então, o negócio é buscar as informações onde elas já estão registradas. Foi o que fiz, conclui a autora, e agora coloquei todas essas informações à disposição das pessoas. Procurei escrever da forma mais clara e direta possível, acrescenta a autora, justamente para facilitar a leitura também de pessoas que costumam ler muito pouco. O livro é importante para todas as pessoas.
Sônia estava realizando seu pós-doutorado em Bioética – Ética Animal, na Universidade de Lisboa, em 2001, quando leu pela primeira vez a obra de John Robbins Diet for a New America, na qual o autor desmistifica o consumo de leite bovino como forma de proteção contra a osteoporose. Depois veio a leitura da obra mais importante já escrita até hoje, sobre a associação da caseína (proteína do leite) ao câncer, The China Study, escrita por Colin T. Campell & Campell II, e a desmistificação do cálcio contido no leite bovino como remédio contra a osteoporose. Justamente esse mal é o que assusta a maior parte das pessoas quando se fala em abolir o consumo de leite, salienta a autora.
Há quase 12 anos, continua, com a leitura desses livros, comecei a tomar notas das informações relevantes para seguir a dieta vegana. Nesse intervalo, conclui, publiquei o Por uma questão de princípios: alcance e limites da ética de Peter Singer em defesa dos animais (Boiteux, 2003), e Ética e experimentação animal: fundamentos abolicionistas (Edufsc, 2006), ambos dedicados à questão dos animais.
Àquelas leituras somaram-se outras, intercalando a de livros dos médicos que fazem parte do Comitê dos Médicos por uma Medicina Responsável, criado por Neal Barnard e formado por mais de 6.000 médicos que seguem um padrão de dieta estritamente vegana (plant based foods) no tratamento e cura de todas as doenças, das cardiopatias graves ao câncer. E, no Brasil, foi um alívio, ressalta a autora, a publicação dos livros dos médicos, Eric Slywitch, Marcio Bontempo e Alberto Peribanez Gonzalez, todos dispensando da dieta os alimentos animalizados.
Foi baseada na literatura inglesa, no original, e de posse de informações escondidas do público não versado em inglês, que a autora tomou a decisão de escrever Galactolatria: mau deleite, possibilitando, finalmente, aos brasileiros, saber algo mais sobre o leite bovino, algo que não está escrito nas caixinhas, saquinhos e embalagens de laticínios levados do supermercado para casa.
O que as pessoas podem esperar do livro?, perguntamos. Informações fundamentais para orientar suas decisões morais relativamente à ingestão de leite e laticínios, foi a resposta. E o que as pessoas não devem esperar deste livro? Nas palavras da autora, elas não devem esperar qualquer orientação específica nas questões dietéticas. Este não é um livro de dieta. Tampouco é um livro de nutrição (embora devesse ser lido por todos os nutricionistas e seus pacientes!), não é um livro com dicas para curar isso ou aquilo. É um livro de filosofia crítica da alimentação galactófila. Um livro de ética, que urge ser lido. As vacas agonizam, os vitelos agonizam, o planeta agoniza, afogado em tanto excremento. O objeto dessa ética é a vaca e o que a exploração letal dessa fêmea representa, contra seus interesses fundamentais, os interesses do ambiente natural e os da saúde humana.
Se o livro é crítico, a quem essas críticas se destinam? Sônia esclarece que a crítica se destina a cada um que come o que lhe é imposto, pela propaganda ou pelo hábito familiar, sem se perguntar pela origem e a pegada desse alimento; a cada profissional que prescreve o leite na dieta das pessoas, como se ele fosse remédio, quando na verdade, para muitas, ele é nocivo; a todos os que ingerem leite e derivados, sem calcular o montante de cereais e grãos que foi dado de comer às vacas, o montante da água potável que é dada às vacas, e, lamentavelmente, o montante (equivalente ao da água e comida ingeridas) que elas excretam.
Parte do texto de Galactolatria: mau deleite é dedicada a apresentar os cálculos daqueles montantes. Cada leitor pode agora saber quanto cereal, água e excrementos uma inocente fatia de queijo em seu sanduíche representa para o planeta. Segundo Sônia T. Felipe, não haverá movimento ambientalista genuíno, em nosso país, ou em qualquer outro, enquanto os próprios ambientalistas continuarem a ingerir leite e laticínios, ignorando os dados que estão neste livro.
Há elogios? A quem eles se destinam? Não há elogios. Na opinião da autora, ainda estamos longe de merecer elogios por nossos hábitos alimentares. O momento não é para festejar nada, ainda. Mas há esperanças. Por vias distintas, concede Sônia, há muitas pessoas que já tomaram decisões morais no quesito alimentação. Acho que Galactolatria: mau deleite vem para dar novo alento aos defensores dos animais, aos veganos abolicionistas, declara a autora. Mas não apenas a eles. Este livro também pode ser de grande alento para todas as famílias que têm membros sofrendo as mazelas da ingestão do leite bovino. E, por fim, este livro pode ajudar muitos vegetarianos, que ainda ingerem laticínios, a tomarem a decisão final de abolir de sua dieta esses alimentos, por uma questão de coerência ética, enfatiza Sônia T. Felipe.
À questão de se as mazelas, que podem ser atribuídas à ingestão do leite, são comuns, no Brasil, ou apenas em outras sociedades, Sônia responde, sem rodeios: o que ainda não é comum é as pessoas saberem que suas mazelas podem dever-se à ingestão do leite bovino e seus derivados. Dada a composição racial brasileira (afro, asiática, judaica, indígena, árabe e outras), alerta a autora, não seria de espantar se, de cada 100 pessoas, umas 70 fossem diagnosticadas como intolerantes ao leite, não apenas porque em seus organismos cessou ou diminuiu a produção da lactase, a enzima responsável pela digestão do açúcar do leite, mas também pelas proteínas bovinas que nosso sistema digestório não evoluiu para bem digerir, ou mesmo pela composição maléfica do leite, conforme referido acima.
Na evolução humana, prossegue a autora de Galactolatria, o leite bovino não é um alimento essencial, embora ele seja adotado em vários continentes. Entretanto, a maioria dos humanos (orientais, indígenas e africanos) não o ingere na forma pasteurizada e homogeneizada, apenas na fermentada. Somente algumas heranças genéticas (caucasianos e poucas tribos africanas com tradição milenar na criação do gado bovino) mantêm a produção da lactose após a primeira dentição, e, ainda assim, nem todos, Sônia. Essas pessoas continuam a ingerir leite sem padecer dos males comuns àqueles que não o podem digerir direito. Mas, conclui, isso está fartamente explicado em Galactolatria. Vamos, então, à leitura?
Serviço:
Galactolatria: mau deleite
Sônia T. Felipe
Ecoânima, 2012
304 páginas
Preço: R$45,00 + frete
Acesse a página da obra no Facebook
Escreva para galactolatria@gmail.com e encomende o seu!
O livro também pode ser adquirido pela ANDA. Basta enviar uma mensagem com seu pedido para faleconosco@anda.jor.br.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Um projeto e muitos Hobsbawm - Por Márcia Maria Menendes Motta

Um projeto e muitos Hobsbawn
Morreram vários Eric Hobsbawm. O que uniu este homem de tantas faces que escreveu durante décadas, tendo sido capaz de se reinventar ao longo de sua extensa trajetória? Certamente foi a defesa de um “engajamento legítimo”, de um historiador marxista que assumiu sua filiação teórica, tanto em condições históricas favoráveis, quanto em períodos em que o marxismo se tornou a “Geni” dos intelectuais. Muitos abandonaram o barco. Ele preferiu continuar a produzir o que mais sabia fazer: livros de história. Ao fazer isso, fez História e deixou uma marca indelével do que há de melhor no marxismo do século XX e XXI. Duvidam? Leiam o seu último trabalho: Como mudar o Mundo.

"Muitos abandonaram o barco. Ele preferiu continuar a produzir o que mais sabia fazer: livros de história. Ao fazer isso, fez História e deixou uma marca indelével do que há de melhor no marxismo do século XX e XXI"

Muito se fala sobre a sua quadrilogia, mas vale a pena explicar que ela não é um todo monolítico. As Era da Revolução e Era do Capital não têm a mesma leveza que terão os livros seguintes: Era dos Impérios e Era dos Extremos. Os dois primeiros, escritos respectivamente em 1962 e 1975, carregam o peso de uma síntese com excesso de dados factuais, prisioneiros de uma época, onde o acesso à informação ainda era muito limitado às bibliotecas. Hobsbawm tem ali a ânsia de tudo explicar e às vezes se perde nos detalhes e pouco explica; principalmente para o leitor não europeu. Os dois outros livros, Era dos Impérios e Era dos Extremos, escritos em 1987 e 1994, são marcados por uma renovação de estilo do autor. Ele continua a nos deixar desconfortáveis (não poderia ser de outra maneira), mas já encontra uma forma mais sutil para nos dizer “como o gato subiu no telhado”. Em a Era dos Extremos temos – a meu ver – a melhor síntese já produzida sobre o século XX. Mesmo o não marxista mais convicto o lê, ainda que de portas trancadas, num sábado à noite. É sem dúvida, uma lição de história e de erudição.

Tantos Hobsbawm
Mas há tantos Hobsbawm que não vale a pena tentar falar de todos. Mas é possível falar de alguns. Em 1959, ele escreveu um livro intitulado: Rebeldes Primitivos. Nesta obra, traduzida para o português em 1965, o autor procurou estudar o que chamaria das formas arcaicas dos movimentos sociais dos séculos XIX e XX e que ele consideraria como movimentos pré-políticos, como os bandidos, a máfia, os anarquistas, o comunismo camponês e as seitas operárias. Na ocasião, ele identificou que aqueles movimentos sociais respondiam à introdução do capitalismo no campo, criando e fortalecendo laços de parentesco ou solidariedade tribal para responder à desorganização social provocada pelo processo de institucionalização do que se convencionou chamar de individualismo agrário.

Banditismo
"A historiografia brasileira e latino-americana deve muito a estas primeiras abordagens sobre a rebeldia popular. É verdade que muitos hoje negam a história da história dos estudos sobre os protestos populares e há muita gente por aí 'reinventando a roda'"

Alguns anos mais tarde, Hobsbawm voltaria ao tema, agora mais centrado na questão do banditismo. Em 1969, ele publica Bandidos, traduzido no Brasil em 1975. Símbolo da resistência e da rebeldia dos mais pobres em face à riqueza e opressão dos fazendeiros ricos, os bandidos sociais podem se expressar na consagrada figura de Robin Hood, como um ladrão nobre que rouba dos ricos para dar aos pobres. Mas é preciso atentar as diferenças entre o mito que se constrói em seu entorno e a dinâmica de opressão que o bandistismo impõe numa sociedade camponesa. Ao introduzir o tema ainda em 69, com vários exemplos de bandidos presentes na Itália do século XIX, no México e no Brasil de Lampião, no início do século XX, este autor egípcio traz à luz um tema praticamente inédito naqueles anos. A historiografia brasileira e latino-americana deve muito a estas primeiras abordagens sobre a rebeldia popular. É verdade que muitos hoje negam a história da história dos estudos sobre os protestos populares e há muita gente por aí “reinventando a roda”, mas as novas reedições não nos deixam enganar. Como em qualquer obra, elas respondem às questões de uma época, mas como textos clássicos, elas inauguraram novas perguntas e inquietações dos historiadores. Logo, é sempre bom relê-las. Naquele mesmo ano de 1969, Hobsbawm escreveria, juntamente com George Rudé, a obra Capitão Swing, sobre o protesto camponês na Inglaterra do início do século XIX; outro exemplo notável de pesquisa histórica.

Invenção das Tradições
Entre tantos Hobsbawm, escolho mais um, o que organizou, juntamente com Terence Ranger o livro: A Invenção das Tradições, publicado pela primeira vez em 1983 e traduzido para o português no ano seguinte. Os não marxistas ficam desconfortáveis com este trabalho, pois tanto a introdução quanto o último capítulo são de autoria de Hobsbawm e são de uma erudição desconcertante. É certo que nem sempre ele acertou em seus estudos sobre o nacionalismo, e reconheceu isso. Quando em 1991, publicou Nações e Nacionalismo, ele sugeriu, nas últimas linhas deste belíssimo trabalho, que a fase do apogeu do nacionalismo já havia passado. O livro era o resultado das conferências que havia feito em Belfast em 1985. Logo depois, os acontecimentos de fins do século redesenharam – mais uma vez - a complexa relação entre globalização e nacionalismo. Os jornalistas foram atrás dele e lhe cobraram explicação. Hobsbawm não se fez de rogado: assumiu a incompletude das discussões sobre o nacionalismo e deu uma aula de erudição!

Revolução Francesa
Ousado, ele ainda escreveu um livro sobre historiografia da Revolução Francesa em Ecos da Marselhesa, publicado em 1990. Ali, ele assumiu não ser nenhum especialista em Revolução Francesa, mas colocou a maioria dos especialistas “no chinelo”. Atreveu-se a discutir um tema caro aos franceses e publicamente descortinou o seu enfrentamento com os historiadores que negavam a importância da Revolução Francesa para a humanidade. Mais uma lição: desta vez, de análise historiográfica.

Este autor era mesmo genial. Foi embora, já cansado, mas deixou uma obra simplesmente memorável.

Márcia Maria Menendes Motta é professora de História Moderna e Contemporânea do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense.