sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Abertas inscrições para o Fórum Social Mundial Palestina Livre!

Abertas inscrições para o Fórum Social Mundial Palestina Livre
Porto Alegre - Estão abertas as inscrições individuais para o Fórum Social Mundial Palestina Livre, que será realizado de 28 de novembro a 1º de dezembro, em Porto Alegre. Segundo o Comitê Organizador do FSMPL, elas se destinam a pessoas que queiram acompanhar as atividades do evento e que ainda não estão inscritas como representantes de organizações. Já há mais de 100 organizações inscritas e quase o mesmo número de atividades pré-inscritas, de mais de 20 países. O prazo para a inscrição de organizações e atividades termina no dia 22 de outubro e ela deve ser feita na página especial criada para este fim (http://www.inscricoesfsmpl.rs.gov.br).

As atividades do Fórum serão centralizadas na Usina do Gasômetro e adjacências.

As organizações inscritas podem propor atividade dentro de um dos eixos indicados na programação. Essa programação é integrada por cinco grandes conferências, além de oficinas, seminários e outros eventos autogestionados realizados pelas organizações participantes, em torno de cinco eixos temáticos: Autodeterminação e direito de retorno; Direitos humanos, direito internacional e julgamento de criminosos de guerra; Estratégias de luta e solidariedade – boicote, desinvestimento e sanções (BDS) contra Israel como um exemplo; Por um mundo sem muros, bloqueios, discriminação racista e patriarcado; e Resistência popular palestina e o apoio dos movimentos sociais

A realização das atividades inscritas é auto-gestionada. O Fórum oferece o local e inclui a atividade no programa. Mas a entidade proponente é responsável pela sua realização, viagem e presença de palestrantes. Cada organização inscrita deve inscrever também os/as seus participantes. As inscrições individuais dão direito a participar de toda a programação do FSM PL, assistir às conferências, oficinas e atividades culturais. Para isto, basta entrar no mesmo link (http://www.inscricoesfsmpl.rs.gov.br) e escolher o formulário "Participantes individuais".

Os profissionais de comunicação que farão a cobertura do evento também já podem se inscrever diretamente no site, informando também dados da mídia pela qual farão a cobertura. Interessados/as poderão participar de coberturas compartilhadas, desde que autorizada a livre reprodução de conteúdos ou mediante licenças copyleft e creative commons.

O pagamento de inscrições, segundo o comitê organizador do evento, é um chamado político à auto-sustentabilidade do Fórum Social Mundial Palestina Livre, e é uma contrapartida do conjunto das organizações e indivíduos participantes na sua construção. Consciente das diferentes condições de pagamento de seus participantes em um cenário de crise e de diminuição de recursos internacionalmente, o Comitê Organizador do FSMPL estipulou preços diferenciados de inscrição que ficaram assim definidos:

- Organizações (com direito a até 5 delegados/as): R$ 200. Caso sua organização pretenda enviar mais que cinco participantes, deverá adicionar ao valor da organização a quantia de R$ 20 (ou US$ 10) para cada delegado/a extra.

- Indivíduos e delegados/as adicionais: R$ 20

- Refugiados palestinos: isentos

- Centrais sindicais*: de 2.000 a 5.000 reais, segundo a capacidade de cada entidade.

Eles somos Nós - Por Pablo González Casanova, Luis Villoro e Gilberto López y Rivas

Eles somos Nós

Desconsiderar as palavras de indignação dos que se solidarizam com nossos irmãos zapatistas e reclamam o cessar imediato da investida criminal é um ato a mais de violência contra a humanidade. Por Pablo González Casanova, Luis Villoro e Gilberto López y Rivas

O movimento dos maias zapatistas encabeçado pelo EZLN converteu-se numa referência nacional e mundial por suas conquistas na construção de processos autônomos que se fundamentam nos princípios de uma democracia participativa na qual se manda obedecendo os acordos das comunidades, em que o governo se concebe como um serviço em que todos e todas têm responsabilidades a cumprir, em que seus objetivos e razão de ser são o bem da coletividade e em que se respeitam todas as crenças religiosas.

A partir de uma dignidade recuperada, endossada diariamente, as Juntas de Bom Governo e os governos autônomos municipais fizeram progressos em áreas significativamente importantes como saúde, educação, a produção e comercialização de produtos comunitários, a partir de uma perspectiva autossustentável e redistributiva. Em um contexto de emergência nacional causada pelo mau governo a serviço do capital e do imperialismo mundial encabeçado pelos Estados Unidos, as experiências zapatistas e as de outros povos indígenas que na geografia do país escolheram pela autonomia constituem o outro polo equidistante aos saldos de miséria, morte, entreguismo e repressão que deixa o atual período presidencial que termina e os maus agouros do que inicia por meio da fraude e imposição.
Esta outra forma de exercer o poder, praticar a política e assumir formas de convivência social solidárias desenvolve-se, apesar do assédio permanente de uma estratégia de Estado baseada na recolonização dos territórios para apoderar-se de seus recursos, na contrainsurgência, no cerco militar e policial, nas tentativas sistemáticas de cooptação, infiltração e provocação, e se tudo isto não funciona, a ação direta de grupos paramilitares que atacam abundantemente as comunidades, que invadem suas terras libertadas, queimam e destroem casas, escolas, clínicas, colheitas e utensílios, que provocam o deslocamento das populações e que adotam, gozando de impunidade, o papel de martelo estatal clandestino do Exército, sempre onipresente, e a gestão facciosa do Poder Judicial, pronto para criminalizar os zapatistas e os integrantes de suas bases de apoio. Conhecemos os ataques e fustigamentos a partir das denúncias das Juntas de Bom Governo de Morelia (em especial o ejido Moisés Gandhi), La Realidade e Roberto Barrios, e em particular, as ações de contrainsurgência contra a comunidade autônoma zapatista Comandante Abel, do município autônomo La Dignidade, que se encontra sitiada pelos paramilitares e polícia estatal, em um modus operandi que mostra a cumplicidade e vinculação direta entre paramilitarismo e as forças repressivas do Estado.

Esta agressão às comunidades maias zapatistas já foi denunciada nos âmbitos nacionais e internacionais por diversos coletivos, grêmios e organizações que consideram como próprios os alcances civilizatórios de seus processos autônomos e de suas propostas para o resgate-reconstrução de uma nação onde cabemos todos e todas e de uma luta anticapitalista baseada na participação coletiva e no protagonismo dos explorados, discriminados e oprimidos que abaixo e à esquerda resistem ao controle e à dominação dos trabalhadores, que se somam à luta dos povos contra a ocupação integral de seus territórios e recursos, que denunciam o esvaziamento e o descrédito de uma democracia tutelada pela ditadura midiática, os poderes fáticos e o crime organizado dentro e fora do mau governo.
Estes coletivos, que acompanham aos maias zapatistas e o seu Exército de Libertação Nacional, sentem também na carne a acometida do Estado mexicano pelo meio de suas forças armadas e seus paramilitares contra os municípios autônomos, a partir da compreensão de que eles somos nós, que não estiveram nem estão sós, que quando se toca a um nos tocam a todos.
Desconsiderar as palavras de indignação dos que na nação e no mundo inteiro nos solidarizamos com nossos irmãos zapatistas e reclamamos o cessar imediato da investida criminal é um ato a mais de violência suprema contra o México e contra a humanidade.

Tradução Passa Palavra
Original em http://www.jornada.unam.mx/2012/09/23/opinion/010a1pol

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A piada do Ano: Reinaldo vê toda a imprensa contra a Serra!

Fonte: http://www.brasil247.com/

A crise econômica da Grécia e seus Nazistas – por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

Senadores pretendem que a população pague seus impostos de renda: não com o nosso dinheiro! – por Wadih Damous


Caros amigos do Brasil,

É ultrajante! Os Senadores querem que o cidadão brasileiro pague as dívidas de imposto pessoais deles. Vamos nos mobilizar contra este abuso absurdo de seus cargos públicos!

Como Presidente da OAB-RJ (Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional do Rio de Janeiro), fiquei indignado ao descobrir, pelos jornais, que os Senadores, além de receberem 14º e 15º salários – o que já é completamente fora de propósito – não pagaram imposto de renda sobre esses salários entre 2007 e 2011. E, quando a Receita Federal descobriu, o Senado decidiu que essa dívida seria paga com dinheiro público! Mas tenho certeza de que se nos unirmos em uma enorme mobilização nacional o Senado voltará atrás nessa decisão absurda.

Junte-se a nós nessa grande corrente para barrar essa manobra lamentável. Clique aqui e assine a petição que, em conjunto com a Avaaz, eu entregarei diretamente aos Senadores diante de toda a mídia:

Se o Senado pagar o Imposto de Renda dos parlamentares, será uma afronta aos cidadãos brasileiros. Eles não apenas recebem dois salários a mais do que o resto da população brasileira, como querem que os contribuintes arquem com o imposto deles.

A justificativa usada pelos parlamentares é que eles receberam um conveniente mau conselho dizendo que não deveriam pagar imposto sobre seus 14º e 15º salários. Isso não faz sentido legalmente nem eticamente – qualquer cidadão que tivesse recebido o mesmo tipo de conselho teria que arcar com o imposto no fim das contas.

Não podemos aguentar calados que o nosso dinheiro pague o imposto dos Senadores. Somente a grande cobertura de mídia que a entrega de uma petição com milhares de assinaturas por mim e pela Avaaz diretamente aos Senadores dará vai ser capaz de reverter a decisão do Senado. Clique aqui e assine a petição que será entregue por mim e pela Avaaz em Brasilia e espalhe nossa indignação pelos quatro cantos do país:

No Brasil, a Avaaz ajudou a construir um vasto movimento de combate à corrupção e a desafiar deputados a votarem a favor da Lei da Ficha Limpa. Vamos nos unir mais uma vez, exercitar nossa cidadania e forçar nossos Senadores a tratar a si mesmos como cidadãos comuns.

Com determinação,

Wadih Damous e a equipe da Avaaz

Mais informações:
Senado decide pagar Imposto de Renda de salários extras de parlamentares (Último Segundo)
http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2012-09-25/senado-decide-pagar-imposto-de-renda-de-salarios-extras-de-parlamentares.html
Senado decide depositar em juízo IR de salários extras dos senadores (O Globo)
http://oglobo.globo.com/pais/senado-decide-depositar-em-juizo-ir-de-salarios-extras-dos-senadores-6194223

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Hobsbawm (1917 – 2012) - por Osvaldo Coggiola

Hobsbawm (1917 – 2012)
Que a morte de um historiador ocupe a primeira página de jornais do mundo inteiro não é coisa que ocorre todo dia. Marxista e vinculado ao Partido Comunista inglês (ou ao que dele sobrou) durante toda sua vida adulta, autor de uma obra monumental, política e intelectualmente ativo até sua morte aos 95 anos, professor universitário emérito, tudo isso foi assinalado pelas matérias necrológicas que lhe foram consagradas, sem falar da enorme quantidade de prêmios e reconhecimentos que obteve em vida, às vezes concedidos por representantes de instituições e governos que, com certeza, jamais tinham lido uma só das milhares de páginas que saíram de sua pena, e nem tinham proximidade alguma com a esquerda, com o marxismo ou coisa remotamente parecida. Até governos do tipo mais diverso emitiram notas de pesar e condolência por sua morte.

A imprensa de direita se encarregou de destacar sua fidelidade ao “totalitarismo comunista” e alguma imprensa de esquerda seu silêncio sobre o stalinismo e seus crimes. Ao se referir ao assunto, Hobsbawm disse que “para falar do gulag deveria ter escrito coisas difíceis de dizer para um comunista sem tocar minha militância ou a sensibilidade de meus companheiros”, uma afirmação que não caracteriza exatamente uma mente brilhante ou um historiador comprometido com a verdade. O crítico inglês Terry Eagleton apontou que, em sua última tentativa de revalorizar o marxismo para compreender a era contemporânea (Como Mudar o Mundo, uma coletânea de velhos e novos ensaios publicada em 2011), Hobsbawm, como sempre, evitou se confrontar com a crítica marxista ao stalinismo, ou seja, com Trotsky, cuja trajetória e obra tratou brevemente, com superficialidade, no livro A Era dos Extremos (1914-1991). Apesar da enorme quantidade de assuntos que abordou em seus livros e artigos sobre a era moderna e contemporânea, a Revolução de Outubro nunca esteve entre seus temas centrais (o pouco que disse a respeito, por outro lado, não se caracterizou pela riqueza ou originalidade).

A obra de Hobsbawn, por outro lado, é enorme e rica. Em parte inspirada pelo marxismo, em parte por sua própria trajetória de vida. Eric John Ernest Hobsbawm (Obstbaum) nasceu em Alexandria (Egito, então protetorado britânico) em 1917, em uma família de origem judia, e se educou na Áustria e Alemanha, onde, membro Sozialistischer Schülerbund, assistiu a ascensão e vitória do nazismo (1). Mudou-se pra Inglaterra com sua família para fugir da perseguição antissemita. Lá, se incorporou ao Partido Comunista em 1936 e manteve sua filiação muito depois de a burocracia russa massacrar o levante húngaro em 1956 (massacre que Hobsbawm recebeu de “coração pesado”) e a Primavera de Praga em 1968, ainda que tenha tomado distância das duas intervenções, sem romper com o partido, como fizeram muitos de seus colegas intelectuais comunistas (Cristopher Hill ou E. P. Thompson). A burocracia da URSS premiou a fidelidade de Hobsbawm não publicando, jamais, nenhuma de suas obras em russo (traduzidas a mais de 50 idiomas) ou sequer um mísero artigo.

Concluiu seus estudos em Cambridge, a cuja cátedra aspirou, sem jamais consegui-la (pelo boicote da direita acadêmica). A partir de 1947 se tornou professor conferencista de história no Birkbeck College, em Londres, onde permaneceu grande parte de sua vida. Foi membro criador do Grupo de Historiadores do Partido Comunista, com Cristopher Hill, Rodney Hilton, A. L. Morton, E. P. Thompson, John Saville e Raphael Samuel, entre outros, grupo que em 1952 fundou a revista Past & Present. Seu primeiro livro, Labour’s Turning Point (de 1948) foi uma coleção editada de documentos do socialismo fabiano; pouco depois foi publicado um debate famoso do qual participou sobre as conseqüências da Revolução Industrial, ao que se seguiu um sobre a transição do feudalismo ao capitalismo e outro sobre origens da Revolução Industrial. Sobre seus colegas ingleses, Hobsbawm possuía a vantagem, depois decisiva, de sua condição de poliglota e sua formação de base multicultural (seus anos egípcios e alemães, com a experiência decisiva do nazismo), que lhe deram uma “abertura ao mundo” que seus companheiros não conseguiram (às vezes, nem buscaram).

Nas décadas de 1950 e 1960, se dedicou a trabalhos sobre a classe e o movimento operários, em especial na Inglaterra, durante os séculos 18 e 19. Muito ricos e, até certo ponto, metodologicamente originais, seus trabalhos (artigos) dessa época foram reunidos depois em vários volumes de ampla difusão (Mundos do Trabalho, Trabalhadores e Revolucionários). À velha (e não acadêmica) história do movimento operário centrada sobre suas instituições (sindicatos, partidos, líderes, episódios marcantes – greves e insurreições) Hobsbawm e outros historiadores contrapunham um novo tipo de história operária e popular, inspirada nos avanços da historiografia acadêmica, baseada na pesquisa de fontes primárias de todo tipo, na qual as condições materiais de vida, as práticas cotidianas, hábitos, costumes e cultura ganhavam seu devido lugar, contribuindo para uma reconstrução histórica muito mais precisa, não dogmática ou hagiográfica (como era típico na historiografia social-democrata-trabalhista, ou pior ainda, stalinista) da história da classe operária.

O ponto máximo dessa nova historiografia, entretanto, não foram os trabalhos de Hobsbawm, mas a magna opus de Edward Palmer Thompson, The Making of the English Working Class, publicada em 1963. A obra alcançou difusão mundial na década seguinte, contribuindo, de modo involuntário (em especial na América Latina), ao ser interpretada unilateralmente, para a criação uma historiografia operária despolitizada, baseada em uma ridícula e cretina contraposição entre “cultura e política”, franca e estupidamente reacionária, e sempre pálida imitação (papagaiada) do modelo metropolitano. Os trabalhos paralelos de Hobsbawm, pelo contrário, se destacam pela constante preocupação política, a afirmação do enfrentamento (luta) de classes em cada aspecto da vida operária e suas conseqüências políticas.

Hobsbawm, por outro lado, ampliou consideravelmente, na década de 60, a pesquisa histórica das origens e manifestações da rebeldia social contemporânea, fazendo sua obra ganhar projeção mundial, com obras como Primitive Rebels (1959) ou Bandits (1968). Em Primitive Rebels, realizou um relato muito original das sociedades secretas e das culturas milenaristas do sul da Europa, retomando a questão em Captain Swing, um estudo detalhado do protesto rural no início do século 19 na Inglaterra, em coautoria com George Rudé. Em Bandidos, a síntese incluiu o “mundo periférico”, chegando a afirmações quase ingênuas (ou exageradas), ao atribuir caráter de “rebelião social” aos briganti italianos (os mesmos que Engels, em polêmica com Bakhunin, qualificava contemporaneamente de vulgares bandidos) ou, como foi recentemente bem pontuado por Luiz Bernardo Pericás, aos cangaceiros brasileiros (que Hobsbawm chegou quase a assimilar à rebelião dos “tenentes”). Simultaneamente, Labouring Men apareceu em 1964 (Worlds of Labour, outra compilação, seria publicado em 1984) e, principalmente, seu primeiro grande trabalho de síntese da história mundial, Industry and Empire, foi publicado em 1968.

Essa obra abriu o caminho para o grande trabalho de síntese da história contemporânea que fez de Hobsbawm mundialmente famoso, e leitura obrigatória desde a década de 1970, com os livros “A Era das Revoluções (1789-1848)”, “A Era do Capital (1848-1875)”, “A Era dos Impérios (1875-1914”) e “A Era dos Extremos (1914-1991)”. Para o muito conservador (pra não dizer direitista) historiador inglês Niall Ferguson, esses livros são “o melhor ponto de partida para qualquer pessoa que deseje começar a estudar a história moderna”. Como conciliar essa afirmação com o caráter supostamente marxista dessas obras? No obituário redigido por Martin Kettle e Dorothy Wedderburn, no Guardian, se lê: “Se Eric Hobsbwm tivesse morrido 25 anos atrás, as necrologias o descreveriam como o historiador marxista britânico mais notável e terminariam mais ou menos por aí. Mas ao morrer agora, aos 95 anos, alcançou uma posição única na vida intelectual do país. Nos últimos anos, era o historiador britânico mais respeitado de qualquer tipo, reconhecido (se não aprovado) tanto pela esquerda como pela direita” (itálico nosso).

A “quadrilogia” de Hobsbawm é um tour de force sem paralelos na historiografia contemporânea, marxista ou não. A agenda da obra, sua periodização do capitalismo, é claramente de inspiração marxista: a vitória, estabilização, expansão mundial e, finalmente, decadência do capitalismo, ocupando cada volume. A obra, no entanto, não é uma “vulgata” marxista (daí, entre outras virtudes, seu grande êxito), mas, como o próprio Hobsbawm definiu, haute vulgarisation. Hobsbawm partiu da tese do materialismo histórico (que dominava ampla e sofisticadamente, como demonstra, por exemplo, sua edição e introdução aos escritos de Marx sobre as sociedades pré-capitalistas) para confrontá-las e iluminá-las à luz de todos os avanços e trabalhos recentes da historiografia acadêmica (os quatro volumes são totalmente baseados em fontes secundárias), construindo um relato sintético magistral, de uma erudição sem precedentes em relação aos períodos considerados e de magnífica fluidez lógica e literária.

Nunca o “marxismo acadêmico” ou a síntese histórica contemporânea alcançaram esse nível. Assim, os textos sintéticos de Hobsbawm se transformaram em referência acadêmica obrigatória, em momentos em que as matrículas nas universidades batiam recordes no mundo inteiro, e se transformaram em manuais nos mais diversos países, em faculdades e até escolas secundárias (e inspirando, também, outros manuais de qualidade inferior, que em boa parte eram cópias dos textos de Hobsbawm): nunca um historiador acadêmico profissional havia alcançado tal grau de difusão escolar (e, com a expansão da escola, também de difusão popular). Hobsbawm continuou escrevendo (muito), cabendo mencionar, destacadamente, sua coordenação do monumental História do Marxismo, realizada inicialmente pela editora do PC italiano, em tempos de seu vínculo privilegiado (e esperançoso) com o efêmero “eurocomunismo”.

Cabe afirmar, então, como fazem os companheiros da Radical Socialist, que “a debilidade de Hobsbawm foi (só) sua ‘leitura’ sobre o século 20, a Revolução Russa e o stalinismo”? (2) Na realidade, para dar brilho acadêmico inédito ao marxismo, Hobsbawm pagou também um preço, que permeia toda a obra. Ao levar em conta a maior quantidade de interpretações possíveis para cada fenômeno ou processo, valorizando as virtudes de cada uma, Hobsbawm caiu com frequência em uma sorte de ecletismo teórico, às vezes raiando o relativismo. Isso é visível inclusive em sua interpretação das revoluções burguesas, ou da “dupla revolução” (econômica e política, inglesa e francesa) que deram origem à era contemporânea (capitalista).

Sua interpretação do imperialismo capitalista, por exemplo, partiu da “Grande Depressão” econômica do último quarto de século 19, que deu origem à exportação de capitais, mas concede a esse fator tanto peso quanto às questões de prestígio e orgulho nacional (obviamente existentes, e imprescindíveis em qualquer análise) que animaram as potências capitalistas na corrida colonial. Sua análise das causas “econômicas” do imperialismo é, por outro lado, basicamente descritiva (ou seja, não sequenciada lógica e casualmente). Tudo isso, e não só sua ruptura com o stalinismo, teve peso em sua análise do capitalismo no século 20.

Na Era dos Extremos, seu texto consagrado ao “Breve Século 20”, as limitações de Hobsbawm como marxista (e também como historiador) se manifestam mais abertamente, não somente em suas análises da Revolução Russa e do stalinismo. Em sua análise da Primeira Guerra Mundial, concedia preeminência causal a uma disseminação da “cultura da violência”, herança do período anterior. O século 20 não é o teatro histórico da decadência capitalista, mas, em concordância com o precedente, o século dos massacres e dos genocídios, executados em escala industrial, o que, sendo perfeitamente real, aparece separado da dinâmica histórica do capitalismo. Sua análise da crise de 1929 e da depressão da década de 1930 mescla todas as interpretações já realizadas, sem se fixar por nenhuma (nem superando qualquer uma delas).

Os acontecimentos de 1989-1991, que concluíram com o fim da URSS, e segundo Hobsbawm fecham o “Breve Século 20”, foram interpretados realmente por Hobsbawm como sendo o fim do socialismo (ou do comunismo) – ou seja, a vitória (histórica) do capitalismo. E se perguntou: “O que sobrou para os vencidos?” Em textos posteriores, incluindo um Manifesto pela História (obviamente contrapondo às teses do “Fim da História” de Fukuyama e outros pavões de menor valor que desfilaram durante o carnaval intelectual “neoliberal”) Hobsbawm concluiu reivindicando a tradição iluminista, e atribuindo o marxismo (ou o que dele sobrara) a esta tradição, como uma espécie de “avatar radical” dela. E nada havia de marxismo, no sentido estrito, em tudo isso, só uma vaga simpatia moral pelas lutas realizadas outrora em seu nome.

Era mais que uma manifestação tardia. Hobsbawm nunca abraçou o anticomunismo, porque se definia claramente como ex-comunista, “por lealdade a uma grande causa, por lealdade com todos os que por ele sacrificaram a própria vida, amigos e companheiros mortos, que sofreram cárceres e tortura, tanto nos regimes comunistas como nos capitalistas. Me arrependo? Não. Sei perfeitamente que a causa que abracei demonstrou que não funciona. Talvez não deveria ter abraçado. Mas, por outro lado, se os homens não nutrem um ideal de um mundo melhor, perdem algo. Eu acho que a humanidade não pode funcionar sem as grandes esperanças, sem as paixões absolutas”. Propor uma (falsa) ilusão poderia, talvez, alimentar uma atitude de revolta individual, mas não seria, com certeza, um meio para reconstruir um movimento histórico.

Hobsbawm, felizmente, viveu o suficiente para ver a explosão e o desenvolvimento de uma nova crise histórica e mundial do capitalismo, na primeira década do século 21, que se não o levou a corrigir suas afirmações precedentes, o levou a propor uma nova vigência do marxismo, embora de modo não claramente definido e sem ultrapassar as limitações já enunciadas: “O socialismo falhou. Agora o capitalismo está falindo. Então, o que vem depois?”, se perguntou. Não teve tempo ou forças suficientes para buscar uma resposta.

Poucas mentes do século XX mereceram, como a sua, viver mais de cem anos. Hobsbawm, bem ou mal, enfrentou todos os problemas de nossa era, deixando-nos uma obra ímpar, que deve, contudo, ser criticada e superada. Por historiadores, certamente, por direções políticas e culturais à altura das tarefas da nova fase histórica, pelas centenas de milhares de jovens que o lêem em todo o mundo, pelo movimento consciente e autêntico da crítica radical e incessante da realidade.

Notas:
(1) “Eu, que pertenço a um povo de refugiados, cuja experiência foi tamanha que ainda me sinto um pouco desconfortável se eu não tenho um passaporte válido e dinheiro suficiente para me transportar para o país mais próximo em um curto prazo, posso entender a situação dos quenianos asiáticos e tenho horror dos oficiais de imigração britânicos, de uma maneira muito mais profunda e visceral do que aqueles para quem a questão central é uma igualdade de direitos e liberdades civis em geral "(1969)

(2) “Tendeu a apresentar um pedido de desculpas objetivista, com o argumento essencial de que mesmo se o poder tivesse alguém menos cruel do que Stalin, as circunstâncias resultaram em similar violência de grande escala, empreendida em favor dos interesses da construção socialista. Isso implica, em primeiro lugar, que a avaliação das revoluções européias estavam fadadas ao fracasso. Segundo, isso significava não ver o stalinismo como um sistema de dominação burocrática do governo por estamento burocrático que tinha usurpado o poder, mas como características pessoais de Stalin".

Osvaldo Coggiola, historiador e economista, é professor do departamento de História da USP.

Quando os ruem... - Por Felipe Amin Filomeno

Quando os ruem...
Como nos anos 1930, estamos diante de bifurcação histórica. Ela pode levar ou a ordem mais justa, ou a pesadelos ultra-autoritários

Em 1944, foi publicado A Grande Transformação, livro em que Karl Polanyi argumentava que a crescente subordinação da ordem social às forças do mercado tinha efeitos disruptivos, os quais, afinal, despertavam na sociedade uma reação de auto-proteção na forma de regulação do mercado. Para Polanyi, a Grande Depressão dos anos 1930 representou o fracasso do projeto de mercado mundial auto-regulável centrado na Grã-Bretanha, o qual despertou reações progressistas (como o New Deal, nos EUA), mas também reações perversas (como o nazi-fascismo na Europa).

Em 2003, Giovanni Arrighi e Beverly Silver estenderam a análise de Polanyi, mostrando que o “movimento pendular” entre livre-mercado e regulação não era historicamente restrito ao período que vai do século XIX a meados do século XX. Em meados de 1970, como parte de seus processos cíclicos, o sistema-mundo capitalista entrou em uma nova fase de liberalização de mercados. Associada, desta vez, ao declínio da hegemonia norte-americana, esta onda foi orientada ideologicamente pelo neoliberalismo de Hayek e Friedman.

Assim como na primeira metade do século XX, a liberalização da economia pós-1970 despertou reações de auto-proteção na sociedade. Na América Latina, onde esta onda foi vivenciada na forma de programas de ajuste estrutural patrocinados pelo FMI, a reação tomou força após o ano 2000. As políticas neoliberais haviam contribuído para estabilizar a economia (especialmente a inflação), mas seus efeitos negativos sobre o crescimento econômico e a distribuição de renda reduziram sua legitimidade, levando a população a eleger governantes com programas anti-neoliberais. Neste caso, a “auto-proteção” da sociedade assumiu a forma de “social-democracia globalizada” (no Brasil, no Chile e no Uruguai) e de “socialismo bolivariano” (na Venezuela, Equador e Bolívia). A promoção do livre-mercado (que, nos anos 1990, conviveu com oligopólios no setor financeiro e em indústrias privatizadas) foi substituída, democraticamente, por uma maior intervenção do Estado na economia e uma recuperação das redes de proteção social para garantir crescimento com inclusão. Esta auto-proteção progressista não precisa (e nem deve) anular o mercado, mas sim, seguindo os preceitos de Adam Smith, usá-lo como instrumento de governo, para fazer os capitalistas competirem, reduzindo seus lucros ao mínimo necessário para compensá-los pelos riscos do empreendedorismo.

Na Europa, ao contrário, quando a crise mundial manifestou-se agudamente a partir de 2010, os governos — liderados pela Alemanha — responderam com medidas de austeridade fiscal e monetária. Na Espanha, França, Grécia, Irlanda e Portugal, tais medidas desencadearam protestos em massa pelas ruas de suas capitais. A insistência das elites na austeridade como solução única (salvo iniciativas na França de Hollande para fazer com que os mais ricos assumam parte maior do ônus da crise) criou um impasse que arrisca o processo de integração regional da Europa e prolonga a recessão.

Esta situação é solo fértil para a emergência de formas perversas de “auto-proteção” social contra o mercado. Nas eleições presidenciais francesas de abril, o partido de extrema-direita Frente Nacional, representado por Marine Le Pen, obteve seu maior número de votos até então (6,4 milhões, comparados a 5,5 milhões em 2002). Na Grécia, justamente o país mais afetado pela crise, o partido neo-nazista Aurora Dourada conquistou em maio seus primeiros assentos no Parlamento desde o fim do regime militar no país em 1974 (21 das 300 cadeiras).
Para Immanuel Wallerstein, o sistema-mundo capitalista vive uma conjuntura his
tórica de bifurcação, em que a ação coletiva da humanidade determinará que tipo de ordem mundial teremos no futuro, para o bem ou para o mal. Quando as elites estão dispostas a fazer concessões e movimentos anti-sistêmicos progressistas se tornam os porta-vozes da “auto-proteção” da sociedade, a probabilidade de uma ordem social mais justa e estável aumenta. Por outro lado, quando as elites são reacionárias e movimentos de fascistas, xenofóbicos e intolerantes encarnam a “auto-proteção” contra o mercado, o resultado pode ser desastroso. Se, na primeira metade dos anos 2000, os governantes argentinos tivessem insistido na austeridade econômica e reprimido duramente os cacerolazos e piqueteros, talvez nossa vizinha Argentina teria hoje um governo fascista.

* Felipe Amin Filomeno 
é doutor em Sociologia pela Johns Hopkins University e Professor Adjunto do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina. Mantém um blog.
Seus textos publicados em Outras Palavras podem ser lidos aqui.
Imagem: Diego Rivera, O Homem e a Encruzilhada (detalhe)

terça-feira, 16 de outubro de 2012

3ª Feira do Livro Anarquista em (POA)

3ª Feira do Livro Anarquista
Este ano a feira do livro será realizada na Usina do Gasômetro, espaço central e estratégico para propagar, expandir e consolidar as mais diversas possibilidades anárquicas. Bate-Papos, Debates, Filmes, Livros e Oficinas para regar as vivências e gerar novas poéticas libertárias.

16, 17 e 18 de Novembro

GALERIA DOS ARCOS E PIER DA USINA DO GASÔMETRO

Mais informações:
flapoa.deriva.com.br

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A saída do euro e o fascismo - Por Passa Palavra

A saída do euro e o fascismo

Não devemos fechar os olhos perante o perigo de uma radicalização política operada à direita e num contexto de desprestígio do parlamento e dos partidos parlamentares. Por Passa Palavra

Portugal pode sair do euro por dois motivos. Ou porque as pressões populares sejam tão fortes que o governo, seja ele qual for, não consiga cumprir as prescrições da Troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) e os que mandam na Europa considerem preferível sacudir Portugal, cuja economia em 2011 representava apenas 1,35% do Produto Interno Bruto, PIB, da zona euro. Ou porque as pressões populares levem ao poder um governo com o mandato explícito de abandonar o euro.
 
1.
Mas não seria por abandonar o euro que Portugal abandonaria o mundo, embora possivelmente o mundo não se importasse nada de abandonar Portugal.

Hoje, que o capitalismo deixou para trás a fase da internacionalização e entrou na fase da transnacionalização, não há economia que não ultrapasse as fronteiras dos países e, seja numa moeda ou noutra, são necessários créditos e financiamentos externos. A saída do euro, com o default — ou seja, inadimplência — que ela implica, tornaria esses financiamentos e créditos ainda mais caros do que já são agora.
Isto pouco parece importar àqueles que pretendem abandonar o euro. As alternativas económicas que evocam só fazem lembrar ou a década de 1930, quando a grande recessão e a queda da circulação mundial de capitais e do comércio externo obrigou os países a virar-se para dentro das fronteiras, ou a economia de fortaleza em países como Cuba, vítimas de sanções económicas. Em qualquer dos casos, apresentam-se como soluções aquilo que historicamente têm sido factores de crise. Os países lutaram durante uma década para superar a crise desencadeada em 1929 e foi necessária a segunda guerra mundial para fazê-lo; e Cuba luta desesperadamente para se libertar das sanções que lhe debilitam a economia. Mas nada disto demove a nossa esquerda e a nossa extrema-esquerda, que na época da transnacionalização económica apresentam o nacionalismo como solução para a economia.

E assim vivemos numa situação em que o nacionalismo, desprovido de razão de ser no plano económico, se afirma unicamente nos planos ideológico e político. Trata-se de um caso extremo de falsa consciência e, obedecendo à dinâmica inelutável deste processo, quanto menos a ideologia corresponder aos factos económicos tanto mais ela procurará afirmar-se por meios exclusivamente ideológicos — incluindo, se houver oportunidade para isso, a repressão política.

2.
Seria bom que aquelas forças políticas ou simples personalidades que defendem a saída do euro indicassem claramente os custos desta opção. Em vez disso, indicam só as vantagens e dizem que a adopção de uma moeda independente permitiria desvalorizá-la e, portanto, tornar as exportações competitivas. De qualquer modo, a adopção do velho escudo em condições de default implicaria por si só uma considerável desvalorização monetária. Mas seriam as exportações beneficiadas?
Se observarmos o grau de intensidade tecnológica dos produtos industriais portugueses exportados no período de 2006 a 2010, verificamos que entre 35,7% (em 2006 e 2008) e 39,1% (em 2009) foram de baixa intensidade tecnológica, enquanto só entre 11,5% (em 2006) e 7,8% (em 2009) foram de alta intensidade tecnológica. Esta situação decorre da catastrófica baixa de produtividade da economia portuguesa.
A taxa de crescimento da produtividade foi 5,8% em 1995 e 3,6% em 1996, mas passados dez anos foi 0,2% em 2005 e em 2006. Para agravar esta situação, a taxa de crescimento dos salários nominais, que fora 6,7% em 1995 e 9,0% em 1996, foi 3,3% em 2005 e 2,6% em 2006. As contas são simples. Enquanto em 1995 a taxa de crescimento da produtividade equivalia a 87% da taxa de crescimento dos salários, e a 40% em 1996, esses valores caíram para 6% em 2005 e 8% em 2006. Ora, a produtividade de uma economia depende dos patrões e, acessoriamente, das infra-estruturas educacionais e científicas. É aos empresários, a todos eles e não só ao sector bancário, que se deve a situação catastrófica da economia portuguesa.

Sem serem capazes de aumentar a produtividade — em termos marxistas, de desenvolver a exploração da mais-valia relativa — os empresários portugueses obcecam-se com o outro termo da equação, os salários. Se a produtividade não aumenta, os salários têm de baixar. É esta a principal função das medidas impostas pela Troika.

3.
O problema é que é esta igualmente a função da saída do euro defendida por tantos grupos e pessoas na esquerda e na extrema-esquerda. De uma penada, ficariam desvalorizados os depósitos bancários e as poupanças em geral, sem que esta medida atingisse os grandes capitalistas, com acesso a redes económicas e detentores de conhecimentos que lhes permitiram, desde há muito, pôr os capitais a salvo. As vítimas seriam apenas, por um lado, os pequenos e médios capitalistas, os donos de lojas e oficinas que, se não caíssem na falência, teriam de parar os investimentos e, portanto, reduzir ainda mais a produtividade. Por outro lado, a vítima seria o conjunto da classe trabalhadora, incluindo aquelas camadas de rendimentos médios que gostam de se intitular classe média. Ora, como é nestas camadas que se concentra a maioria dos trabalhadores mais qualificados, a crise económica neste sector mais ainda contribuiria para comprometer a produtividade.

Se o regresso ao escudo aumentasse o volume das exportações portuguesas, numa situação de declínio da produtividade aumentaria nessas exportações a concentração nos ramos de baixa intensidade tecnológica. Ora, para colocar no mercado mundial produtos de baixa tecnologia fabricados por uma mão-de-obra mal paga Portugal sofreria a concorrência de outros países, que fabricam esse tipo de bens melhor e com maior volume e graças a uma mão-de-obra mais miserável ainda. Nestas condições, a pressão seria para baixar ainda mais os salários dos trabalhadores portugueses.

Restaria o turismo, a solução sempre invocada entre nós por quem não enxerga outras soluções. Mas será que se pensa que a estagnação da produtividade não afecta igualmente os serviços de turismo? Segundo as previsões do World Travel & Tourism Council para o próximo decénio, Portugal será um dos países em que menos crescerá a contribuição directa do turismo para o PIB. Além disso, num país em crise e com as infra-estruturas a arruinar-se, em que tipo de turismo nos especializaremos? Talvez nos safaris humanos, embora, para os apreciadores do género, também aí haja uma forte concorrência da Somália e mesmo do Mali.

4.
Há ainda a outra face da questão, que se esquecem de considerar os apologistas da saída da zona euro.
É que, se uma moeda desvalorizada torna mais baratas as exportações, encarece as importações. Ora, Portugal tem uma balança comercial deficitária, como não poderia deixar de acontecer num país que precisa de importar muito do que é consumido pelas pessoas e pelas empresas. Assim, tornar mais caros os artigos importados necessários ao consumo individual teria como consequência imediata a redução da capacidade de compra dos salários, ou seja, a diminuição dos salários reais. E tornar mais caros os artigos importados necessários ao consumo das empresas implicaria que elas investissem ainda menos na modernização tecnológica, ou seja, que a produtividade ficasse ainda mais comprometida.

Se a actual situação económica portuguesa é crítica, a saída do euro só a agravará.

5.
O empobrecimento total da população implica uma situação social grave, mas pior ainda é a dinâmica interna deste processo, porque se os que já eram pobres ficam mais pobres ainda, aqueles que tinham conseguido sair da pobreza e haviam enfim conquistado o acesso mais frequente a bens e serviços de melhor qualidade deparam repentinamente com o esboroar das suas esperanças. Ora, as consequências políticas desta dinâmica são divergentes.

É possível que o agravamento da situação das camadas de trabalhadores que já eram pobres contribua para um fortalecimento da sua consciência de classe e, portanto, suscite uma radicalização política à esquerda. Um processo deste tipo não é de modo nenhum obrigatório, mas existem muitos exemplos históricos. Em sentido contrário, porém, quando as camadas de rendimentos médios são lançadas na penúria a reacção habitual é a de recusarem ideologicamente a sua proletarização económica. Neste caso a ideologia funciona como uma falsa consciência, como um écran [tela] em que se projectam desejos e, simultaneamente, um biombo que tapa a realidade. Também não é obrigatório que isto suceda, mas a grande maioria dos exemplos históricos indica que uma crise económica provoca uma radicalização à direita nas camadas de rendimentos médios.

6.
Ora, isto sucederia num contexto político em que apareceria como grande culpada a democracia parlamentar saída da derrota do movimento revolucionário de 1974-1975.
Só que a institucionalização da democracia representativa posterior ao golpe contra-revolucionário de 25 de Novembro de 1975 não é vista pela generalidade das pessoas — mesmo por aquelas que teriam obrigação de saber o que dizem — como um resultado da derrota do processo revolucionário, mas como um desdobramento natural desse processo. Aqueles que acusam os actuais governantes de terem traído Abril e a democracia estão a cometer um erro de consequências gravíssimas. A traição a Abril já lá vai há muito, foi a nossa derrota, a derrota das comissões de trabalhadores e das comissões de bairro e das unidades colectivas de produção. A democracia em que hoje vivemos é a herdeira legítima dessa derrota dos trabalhadores. Misturar tudo no mesmo saco é eliminar do horizonte ideológico qualquer perspectiva revolucionária. Tanto o 25 de Abril como a revolução social de 1975 como a contra-revolução do final de 1975 como a democracia parlamentar instaurada depois, tudo isto é amalgamado num conjunto único, ao qual é globalmente atribuída a culpa da crise.

Dessa culpabilização ninguém escapa, porque o Partido Comunista faz parte integrante do sistema parlamentar e o Bloco de Esquerda — se ainda restar nessa ocasião — depressa abandonou algumas veleidades iniciais de actuação extraparlamentar e converteu-se num partido como os demais.

Não devemos fechar os olhos perante o perigo de uma radicalização política operada à direita e num contexto de desprestígio do parlamento e da totalidade dos partidos parlamentares.

7.
Nem parece que haja bases para desenvolver uma luta económica que compense uma radicalização à direita na vida política.

Pela sua ligação a partidos políticos, as duas centrais sindicais sofrem o mesmo desprestígio que afecta esses partidos e, de qualquer modo, uma delas pouco conta. Mas a questão aqui fundamental não é política e diz respeito à organização do processo de trabalho. O desenvolvimento da terceirização serviu, entre outras coisas, para romper as solidariedades no local de trabalho e, em muitos casos, para isolar o trabalhador num local de trabalho que não se distingue do domicílio. Assim, por todo o mundo o número de filiados nos sindicatos tem diminuído nas últimas décadas e Portugal não é excepção. 4/5 da força de trabalho portuguesa não é sindicalizada, mas em muitos outros países a situação é bastante pior.

Nesta perspectiva, o problema principal em Portugal é que a Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses, CGTP, perdeu uma grande parte das suas bases. As manifestações podem ser imponentes e as concentrações solicitarem centenas de milhares de pessoas, mas trata-se de rituais que duram escassas horas e não deixam grandes marcas políticas. Por outro lado, nas empresas onde lhe resta alguma influência, como os transportes públicos, as iniciativas da CGTP redundam em acções limitadas e enquadradas legalmente. Veja-se o desconforto que a Confederação sentiu perante a tentativa de bloqueio do acesso aos escritórios da TAP por parte de três centenas de trabalhadores da manutenção aeronáutica, em protesto contra cortes salariais e de subsídios [1]. A CGTP promove nas ruas a contestação que deveria ser gerada no interior das empresas, nem outra coisa pode suceder, porque não tem praticamente ninguém nos locais de trabalho.

Lançar os trabalhadores na rua é prescindir da sua maior arma de classe, as relações de solidariedade tecidas no local de trabalho. Qualquer desenvolvimento futuro da luta nas empresas só poderá ocorrer se mobilizar tanto sindicalizados como não sindicalizados e terá de ser feito contra as cúpulas dos sindicatos, o que torna tudo ainda mais difícil.
O 13 de Maio em Fátima, perdão, a Marcha do Desemprego da CGTP

8.
A situação é agravada pelo facto de a esquerda e a extrema-esquerda, juntas, atribuírem ao capital financeiro a culpa da crise e absolverem no mesmo gesto os restantes capitalistas. Mas quando vemos a produtividade estagnante, o tecido empresarial arcaico, o facto anómalo de a percentagem de licenciados entre os patrões ser muito menor do que entre os empregados, entendemos que os bancos servem aqui como bode expiatório por detrás do qual se escondem os demais capitalistas.
No capitalismo contemporâneo o dinheiro serve fundamentalmente como veículo de informações económicas e o crédito serve para relacionar a produção actual com a produção futura, o que nada tem a ver com especulação ou com economia de casino. Quem raciocinar nesses parâmetros fá-lo à sua custa, e o erro de análise é pago com a incompreensão dos mecanismos económicos.

9.
Inevitavelmente, numa situação de desprestígio global dos partidos políticos e do parlamento, a concentração das raivas no plano pecuniário abre as portas à questão da corrupção. Os indignados com a corrupção não se ocupam das relações de exploração entre capitalistas e trabalhadores, que constituem o alicerce e o motor do capitalismo. Também não se preocupam com as relações estabelecidas directamente entre capitalistas. Os indignados com a corrupção só se detêm nos casos em que os políticos aparecem como intermediários nos processos económicos. E mesmo nestes casos eles só bradam quando as regras do jogo são violadas. Ora, protestar contra a batota é implicitamente legitimar as regras do jogo.

Assim como a concentração dos ataques no sector bancário serve para desculpar todo o resto do capitalismo, também a concentração dos ataques nos corruptos serve para justificar os mecanismos capitalistas admitidos como normais.

10.
Tudo somado, um nacionalismo sem base económica e remetido para os planos ideológico e político, uma aniquilação brusca de poupanças que afectaria tanto trabalhadores como pequenos e médios capitalistas e diluiria as barreiras de classe, uma miserabilização da população e sobretudo das camadas de rendimentos médios, um desprestígio da democracia parlamentar e dos partidos políticos tanto de direita como de esquerda, uma actuação de sindicatos mais reivindicativos fora dos locais de trabalho do que dentro deles, uma legitimação da esmagadora maioria dos capitalistas detrás dos bancos e dos corruptos convertidos em bodes expiatórios — qual será o resultado desta mistura?

Ao contrário do que pretendem mitos correntes, os processos de radicalização desencadeados pelas crises económicas não ocorrem obrigatoriamente à esquerda. Basta lembrar que durante a crise da década de 1930 se verificou em muitos países, embora não em todos, um recuo do movimento operário e uma viragem da vida política para a direita e para a extrema-direita. E na década de 1960 e na primeira metade da década seguinte, que conheceram uma economia em expansão, a classe trabalhadora conseguiu ditar as cartas do confronto político e avançou com formas de luta inovadoras.
É certo que a história não se repete ou, o que vem a dar no mesmo, reproduz-se de maneiras diferentes. Não estamos aqui a ver numa bola de cristal sujeitos de cabeça rapada, braço esticado e bandeiras com cruzes de formato variado. Embora, se proliferam hoje na Rússia e alguns deles têm acesso directo à orelha do presidente, por que não amanhã aqui? Mas aquilo que estamos a ver, não nas cartas nem na palma da mão mas na realidade presente, é o aparecimento de figuras singulares, venham das vedetas de variedades ou da tecnocracia universitária, até que uma delas seja capaz de atar todos os cordelinhos num nó único.

O abandono do euro agravaria uma crise que, na nossa opinião, teria no fascismo a saída mais verosímil, mesmo que esse fascismo se baptizasse com outro nome e surgisse num terreno confusamente denominado de esquerda.

Nota
[1] Um relato jornalístico da indignação espontânea dos trabalhadores da TAP pode ser lido aqui. Na sequência desta acção, um comunicado conjunto dos sindicatos da TAP anunciou que «encontrar soluções nada tem de similar com acções industriais de luta, pelo que, apelamos a TODOS os nossos representados que, com serenidade e bom senso, aguardem desenvolvimentos» (veja aqui). Não se podia ser mais claro.
As gravuras que ilustram o artigo são de Bartolomeu Cid dos Santos (1931-2008).

Barbárie: Elefantes mortos para extração de marfim: quando imagens dizem mais que palavras - Por Patrícia Tai

Barbárie: Elefantes mortos para extração de marfim: quando imagens dizem mais que palavras

No noticiário internacional, o assunto do massacre de elefantes para extração de marfim continua em evidência, e 2012 tem sido o ano de maior extermínio na última década. A revista National Geographic lancará uma edição em outubro com esse assunto em destaque. O Huffington Post elaborou uma prévia da reportagem da revista.
Restos mortais de elefantes mortos no massacre do Parque Nacional Bouba Ndjidah. Foto: National Geographic

A National Geographic conta que, no início do ano, mais de cem caçadores montados em cavalos invadiram o Parque Nacional Bouba Ndjidah em Camarões, na África, e abateram centenas de elefantes – famílias inteiras – em um dos massacres mais expressivos desde o início do comércio global de marfim, em 1989. Carregando fuzis AK-47, granadas e foguetes de propulsão, alvejaram os elefantes com precisão militar, o que lembrou uma chacina ocorrida em 2006 no Parque Nacional Zakouma Chade, quando milhares de elefantes foram mortos: dos 3 mil elefantes estimados, hoje são estimados apenas 500, de acordo com o Herald Tribune.
 
Kruba Dharmamuni, que mantém elefantes asiáticos em seu templo na Tailandia, é acusado por ativistas de deixar um elefante morrer de fome para usar seu marfim para amuletos. Ele rejeita a acusação. Foto: National Geographic

Mas até mesmo esses absurdos números parecem “pequenos” perto do que aconteceu na primeira fase da exploração comercial do marfim, entre 1979 e 1989: em dez anos, 700 mil elefantes foram caçados na África, segundo a Scientific American Brasil. De acordo com a National Geographic, 25 mil elefantes teriam sido abatidos no último ano.
Mercado clandestino de obtenção do marfim na África. Foto: National Geographic

“Vista do chão, cada carcaça de elefante é um monumento à ganância humana”, observa a National Geographic. Níveis de caça furtiva de elefantes são os piores da última década, e as apreensões de marfim ilegal estão em seu nível mais alto dos últimos anos. “Vistos de cima”, continua a revista, “os corpos espalhados também denunciam as cenas dos crimes sem sentido: pode-se ver que os animais fugiram, que as mães tentaram proteger seus jovens. Pode-se perceber como um rebanho aterrorizado de 50 elefantes caiu por terra ao mesmo tempo, os últimos rebanos das dezenas de milhares de elefantes mortos na África a cada ano. Visto a partir de um ângulo maior ainda, do ponto de vista da História, este campo de morte não é inédito, nem novo. É atemporal, e ao mesmo tempo ainda acontece agora”.
Mais uma foto do massacre ocorrido no Parque Nacional Bouba Ndjidah. Foto: environment360 – AFP/Getty Images

Embora o mundo tenha encontrado substitutos para cada uma das demandas de marfim (bolas de bilhar, teclas de piano, pentes), seu uso religioso está congelado em âmbar, e seu papel como símbolo político persiste. A reportagem da National Geographic cita algumas curiosidades: o Presidente do Líbano, Michel Sleiman, deu de presente ao Papa Bento XVI um turíbulo de marfim e ouro, no ano passado. Em 2007, Gloria Macapagal-Arroyo, Presidente das Filipinas, deu uma imagem de Santo Nino de marfim ao Papa Bento XVI. Para o Natal, em 1987, o Presidente Ronald Reagan e Nancy Reagan compraram uma Madonna de marfim para oferecer como presente de Estado ao Papa João Paulo II. Todos estes presentes viraram manchetes internacionais. Até mesmo o Presidente do Quênia, Daniel Arap Moi, pai da proibição do marfim global, uma vez deu ao Papa João Paulo II uma presa de elefante. Mais tarde, Arap Moi realizou um grande gesto simbólico, incendiando 13 toneladas de marfim queniano, talvez o ato mais icônico na história pela preservação dos elefantes.
Elefante morto para extração de marfim em Chad. (Foto: SOS Chad/Stephanie Verignault para a Environment360)

Embora os números sejam expressivos, as imagens a seguir falam por si, dizem mais que as palavras, embora mostrem apenas cenas finais de uma triste tragédia que o ser humano promove e que está levando rapidamente ao dia em que não haverá mais elefantes vivos na natureza. As imagens são fortes.