Tem 2 anos e 6 meses, esta castrada, é muito carinhosa, esta com a moça da ONG aqui no bairro.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Mobilização eficiente: Ativistas conseguem impedir realização de corrida de touros no Canadá - Por Amary Nicolau
Mobilização eficiente: Ativistas conseguem impedir realização de corrida de touros no Canadá
Corrida de touros na Espanha (Foto: Reproducão)
Enquanto a Espanha dribla ativistas do mundo todo para continuar com a horrível corrida de touros, o Canadá quer imitar e quase teve a primeira corrida de touros no próximo dia 30 de outubro em Toronto.
A corrida de touros estava prevista para marcar a abertura do Royal Agricultural Winter Fair (Feira de Agricultura de Inverno). A corrida estava planejada para acontecer bem no centro movimentado de Toronto.
Seis touros de aproximadamente 907 quilos deveriam participar do evento.
“Nós pensamos na corrida de touro da Espanha e sobre a emoção que o evento tem e atrai para as ruas da cidade,” disse Robbyn Walsh, um dos organizadores do evento.
Não demorou muito para os ativistas canadenses se mobilizarem contra o evento. No mesmo dia que a corrida de touros veio a conhecimento público, protesto e petições foram organizados. Organizadores do evento e o prefeito da cidade de Toronto foram bombardeados por e-mails e telefonemas de ativistas indignados.
No dia seguinte foi publicado que a autorização para a corrida de touros foi negada.
Essa é a 90ª edição da Royal Agriculture Fair, que vai do dia 2 a 11 de novembro. A feira é uma vitrine da agricultura “moderna”, com muitos animais em exposição e leilões.
Fonte: http://www.anda.jor.br
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Capivaras são alvos de maus tratos e caçadores na Baixada Santista – por Moésio Rebouças
Capivaras são alvos de maus tratos e caçadores na Baixada Santista
Quem costuma circular a pé ou de bicicleta (até de carro) no pé da Serra do Mar, já deve ter percebido a presença de dezenas de capivaras no trecho do Rio Perequê, em Cubatão, até o Vale do Quilombo, em Santos. Contudo , uma prática cada vez mais comum vem acontecendo nessas regiões, principalmente no Vale do Quilombo: maus tratos e a caça de capivaras.
Nas margens do Rio Perequê, onde elas são encontradas facilmente, constantemente eu vejo capivaras sofrendo ações de maus tratos, sendo atacadas com pedras por adolescentes e adultos “curiosos”.
No Vale do Quilombo, área pouco patrulhada pela Polícia Ambiental, diversas vezes eu já observei pessoas com espingardas caçando capivaras e outros bichos. Também já cheguei a ver caçadores levando os animais. Segundo eu apurei com alguns populares, a carne dos animais são usadas para consumo próprio e vendidas para “terceiros”.
Lei proíbe caça, mas...
A caça de qualquer animal é proibida pela Constituição do Estado de São Paulo. A lei federal de crimes ambientais prevê multa e pena de detenção de seis meses a um ano para quem caçar animais silvestres, como a capivara. Mas...
Em anexo uma imagem recente de capivaras que vivem às margens do Rio Perequê, em Cubatão.
Moésio Rebouças
Jejuvy: assim os guaranis recuperam a palavra – por Fabiane Borges e Verenilde Santos
Jejuvy: assim os guaranis recuperam a palavra
Viagem antropológica ao mundo guarani-kaiowa. Por que suicídios são protesto, ritual e porformance de cultura que sobrevive por um fio
Quando um grupo de guaranis-kaiowas anunciou, há semanas, que prefere a morte a ter de abandonar suas terras ancestrais reconquistadas, uma onda de alarme se espalhou entre parte da opinião pública. Para que ela não se dissipe, vale conhecer o drama e a cultura destes índios, que se suicidam diante do esvaziamento de seu mundo.
As escritoras Fabiane Borges e Verenilde Santos visitaram por meses os territórios guaranis-kaiowas no Mato Grosso do Sul em 2008. Um dos resultados de sua presença foi uma reportagem antropológica publicada no então “Caderno Brasil” do “Le Monde Diplomatique” — uma iniciativa de mídia livre que foi procursor de “Outras Palavras”. Tanto a relevância quanto a atualidade do texto são maiores que nunca. Por isso, ele está republicado a seguir (A.M.).
Performance ritual:
O dia amanhece com um índio guarani-kaiowa enforcado. Cadarço de tênis esticado da árvore. Banho tomado, perfumado, de joelhos.
A aldeia bororo sabe do que se trata: do jejuvy. Isso não é conforto, é ritual de morte. A palavra jejuvy na língua dos Guarani [1] tem uma carga semântica que significa aperto na garganta, voz aniquilada, impossibilidade de dizer, palavra sufocada, alma presa. É através do ritual do jejuvy que os kaiowas praticam o suicídio, por enforcamento ou ingestão de veneno. Apesar de ser reconhecido como prática ritual ancestral, nos últimos anos o jejuvy alastra-se pelas aldeias em escala epidêmica. São cerca de 50 suicídios por ano, envolvendo jovens de 9 a 14 anos de idade [2].
Segundo dados do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), o número de suicídios começou a aumentar nos anos 80, dobrou na década de 90 e bateu o recorde na virada do século 21, chegando aos mais de 50 por ano. Não são temas deste artigo as mortes por desnutrição, os homicídios entre os próprios indígenas ou as guerras incessantes entre indígenas e fazendeiros, fatos igualmente chocantes. [3]
Os suicídios (jejuvy) são efetuados basicamente por enforcamento (método antigo) e ingestão de venenos das monoculturas (método novo). Rejeita-se a “poluição” como derramamento de sangue ou cortes físicos, para que não se perca a palavra. Muitos guaranis consideram o suicídio uma doença produzida pela prisão da palavra (alma). É pela boca que a palavra se liberta. Se não há lugar para a palavra, não há vida. Por isso, na hora de morrer, não deve ser utilizado o corte contra si mesmo, pois a palavra se dispersaria. Sufocando-a, ela permaneceria como um aglomerado de energia e poderia voltar a vingar em algum outro momento.
Conforme narrativas dos próprios kaiowa sobre índios que cometeram suicídio, eles unificam elos que vão desde o ato individual inerente à condição humana e solitária de cada um, até o sentido político de coletividade, um “estar entre os outros”, produzindo simbologias-limites: os enforcamentos, os envenenamentos. Atos que condensam e apontam para o resgate, talvez impossível de uma “forma de ser”, como os kaiowas costumam falar. E se para eles a linguagem é uma das mais importantes formas de fazer o ser se manifestar, ao impedi-la, impede-se também os sujeitos de existirem. O suicídio epidêmico seria a resposta coletiva à imposibilidade de expressar a singularidade desse povo.
Ao invés das grandes habitações coletivas, casas de família, minúsculas, distantes da floresta. Sem ritos do plantio ou colheita e sagas da caça e pesca, vai se esvaindo a singularidade kaiowa
Se até cerca de 40 anos atrás, os kaiowa e nhandeva moravam em casas grandes denominadas ogajekutu-ogaguasu, reunindo até cem pessoas de uma mesma família, hoje vivem em casas minúsculas, muitas ainda feitas de barro, sem a proteção da floresta, abrigando apenas a família nuclear. A estrutura da família extensa, cuja chefia baseia-se no prestígio e religiosidade, desorganizou-se, visto que os indígenas não conseguiram substituir seu prestígio cultural pelo poder dos brancos. Com a dizimação de suas terras, sem os ritos do plantio, da colheita, das sagas coletivas de caça e pesca, eles não têm razões para continuar com seus ritos, e conforme perdem as práticas com a terra perdem também sua cultura. Mesmo que ainda subsista, de forma curiosa, a língua guarani, que é o maior foco de insistência e resistência dessa coletividade.
Muitos grupos indígenas, inclusive guarani kaiowa, vivem em acampamentos precários dentro das fazendas dos latifundiários, que em nome do expansionismo ou de mais alguma razão macha e injustificável, tomaram a força suas terras — e ainda tomam, com armas desiguais. Isso é um dos motivos mais apontados por indígenas, indigenistas e antropólogos para a causa da epidemia de suicídios entre os guaranis kaiowa: a perda da terra, da tekoha, o lugar onde “realizam seu modo de ser”.
Se por um lado os suicídios por enforcamento ou pela ingestão de veneno podem significar o sufocamento, também podem significar o desejo da libertação — e é nesse ponto que o suicídio ritual funciona como performance ética, estética e interventiva. Gestos de enunciação. O trágico funcionando como dispositivo de reversão sígnica sobre a questão indígena. Desde que a “epidemia suicida” começou a se alastrar nas aldeias, ativistas, estudantes, pesquisadores, pessoas ligadas à mídia independente passaram a olhar com mais atenção a essa situação, fazer alianças e se tornar cooperadores na luta pela terra guarani, de forma a amplificar esses sinais, até então emitidos em total invisibilidade. Há alguns grupos indígenas, principalmente professores indígenas ligados à universidade e lideranças locais, que dedicam sua vida a essa causa, sendo que o número de líderes mortos nessa empreitada supera nossa imaginação.
Apesar de muitos dos suicídios serem praticados em locais mais resguardados, existe um grande número de casos que ocorrem em lugares de perambulação, os lugares “públicos” da aldeia, como estradas, roças, áreas onde o corpo suicida pode ser visto sem muita dificuldade. São nuances que ajudam a esclarecer e também interrogar sobre essa forma de morrer. Não compactuar com a dizimação, com o genocídio, com o etnocídio. Não se acovardar diante do destino, ter o ato bravo e último como forma de amplificar os sinais da miserabilidade que foram submetidos. As árvores, os arbustos, as roças, qualquer lugar que tenha sido utilizado para o suicídio torna-se marco da aldeia e fica cravado no imaginário, na linguagem cotidiana e na sua luta contra o confinamento. Os mortos continuam falando especialmente para os corações sensíveis, ainda conectados em crenças de espíritos da natureza e nas emissões dos seus sinais.
Quando há mais que o apego a vida, há mídia tática, resistência, potência de protesto. Estes indigenas desejam mais que ser incluídos na pasmaceira da biopolítica globalizada, na miserabilidade neoliberal
Os ritos, as danças, os cantos as lutas sobrevivem por pura insistência. A sensação que tivemos ao estarmos na aldeia bororó é que essa cultura sobrevive por um fio muito tênue e belo. Como uma voz que se força a falar, mas já não soa como costumava. Mesmo afônica, agônica, gaga, insiste em se manifestar. Ritual de rememoração. Resíduo. Resistência de certos cantos e gestos. As danças de luta dos guaranis kaiowas lembram as lutas marciais, lutas de espadas. São feitas de pedaços de paus, facas, pedras assemelhando-se a lutas ninjas.
Dona Tereza Guarani é uma das últimas velhas da aldeia. Conduz os ritos na aldeia bororó com o rosto enrugado e concentrado, mãos fortes que movimentam o maracá, passos contundentes que provocam o som retumbante no chão de barro. No êxtase, provocado pelos cantos, que sentimos, nos perguntamos como é possível que ainda cantem e dancem e lutem dessa forma. Em nome de qual força? Dona Tereza faz um esforço explícito para que essa cultura kaiowa se mantenha, pois a grande maioria do seu povo não vê motivo para continuar os ritos. Muitos já não sabem mais como eram as danças e as batidas. A velha índia Tereza, a rezadeira, curandeira, a mulher compromissada com os rituais culturais da aldeia, toma para si o encargo de dar suporte de memória e sentido aos ritos dos antepassados. Coloca os filhos e netos e amigos para aprender os cantos e as danças, antes de morrer. Essa é a função para a qual dedica sua vida. Mesmo seu poder de xamã não a impediu de presenciar muitos suicídios em sua própria família.
Apego à vida é um imperativo da dominacão, do exercício de poder – e da inclusão. Quando há coisa mais intensa que o apego a vida, há mídia tática, há resistência, há potência de protesto. Porém o que é que os kaiowás amam mais do que a sobrevivência? É isto que grita de maneira abafada ainda pelo espaço público da aldeia, que é favela que é cidade que é campo. Tem alguma coisa que estes indígenas desejam mais do que serem incluídos na pasmaceira da biopolítica globalizada, na miserabilidade imposta pela política neoliberal. É uma forma de vida que não se contenta com a sobrevivência miserável do branco ou do índio. Nesse caso pensamos que não se trata de inclusão indígena na sociedade nacional, mas da mobilização da sociedade para a retomada das terras indígenas para colaborar no processo desse outro índio que o próprio índio não sabe e tem que devir.
A campanha reclama as 32 terras do povo guarani, e quer o respeito de um tempo que não precisa ser igual para todo mundo. Mas também o acesso ao que há de relevante na sociedade
As lutas de movimentos agrários no Brasil se intensificaram ao longo desses últimos 30 anos e cada vez ganham maior visibilidade mundial em função da sua extrema importância. A luta indígena é mais uma das lutas agrárias do pais, a mais antiga, a mais usurpada e dizimada. Os processos de homologação e assentamentos estão longe do seu fim e é com muito esforço, tensão e mortes que se efetivam suas realizações.
Nosso desafio em gerar uma rede de colaboração capaz de mudar a percepção social sobre pontos enredados da sociedade é urgente e de grande relevância. Mais do que mudança perceptiva, é necessário a ampliação do próprio espectro relacional dos movimentos sociais, para que ganhem possibilidades de ação diversas. O papel que a mídia tática, Greenpeace e CMI (centro de mídia independente) têm exercido nesses contextos é uma abertura para ajudar a pensar em como grupos autônomos, organizados ou não, podem atuar junto aos movimentos e às lutas sociais (nosso grande espaço público). Ainda são precárias suas atuações, mas sinalizam possibilidades. Para além da denúncia e do apoio, é preciso criar meios que se tornem mais incisivos na efetivação de certos projetos políticos dos movimentos da sociedade civil, como é o caso da campanha pró-guarani foi lançada em setembro de 2007 e que recém começa a aparecer para a sociedade geral [4].
Essa campanha mídica, ativista, feita na sua maioria por lideranças indígenas guaranis e apoiada pelo CIMI, reclama o reconhecimento das 32 terras indígenas do povo guarani, reclama o desaceleramento do mercado agropecuário na região do Mato Grosso do Sul, o reflorestamento das áreas dizimadas, o respeito e reconhecimento de um tempo que não precisa ser igual para todo mundo. Mas também reivindicam o acesso ao que há de relevante na sociedade (inter)nacional, levando em conta as conquistas da ciência e da tecnologia, etc.
Há muito o que pensar na intervenção desses suicídios no imaginário social branco, indígena, mestiço. Mas uma coisa é certa: essas mortes têm evidenciado o impasse que esses indíos vivem, e chegam até nós como sinalizadores dessa condição insuportável, indígna, vergonhosa que os ideais de civilização, de desenvolvimento e de crescimento econômico provocam. É preciso agir antes que toda diferença morra.
Outras fontes de pesquisa:
O território dos índios guarani estendia-se ao Norte, até os rios Apa e dourados e ao Sul até a Serra de Maracaju e os afluentes do rio Jejuí, chegando a uma extensão Leste-Oeste de aproximadamente 100 quilômetros , em ambos os lados da serra de Amambai abrangendo uma extensão de terra de aproximadamente 40 mil km2, dividida pela fronteira Brasil-Paraguai.
[2] Este número cresceu após a reportagem. Entre 2003 e 2010 foram, segundo dados do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), 555 suicídios, ou mais de um a cada cinco dias.
[2] Ver mais em Ambiente em Foco
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Escrita Libertária: “É apenas carne animal” – por Robson Fernando de Souza
Escrita Libertária: “É apenas carne animal”
“É APENAS (sic) CARNE, É APENAS (sic) CARNE, EU JURO”. Reportagem do site Grist tenta suavizar venda de falsas carnes humanas dizendo que os pedaços são de “apenas” carne animal transformada em esculturas bizarras. Foto: Grist
Encontrei recentemente uma reportagem do site Grist, do final de setembro, relatando um açougue em Londres que vende carne humana falsa – tratando-se de carne de animais não humanos esculpida para parecerem pedaços de corpos humanos. A matéria mostra como seria cruel e repulsivo um açougue vender carne humana, de pessoas mortas e retalhadas para consumo por outros seres humanos, e tenta suavizar a crueza gráfica das carnes dizendo que é “apenas” carne “normal”.
Onívoros podem até se sentir aliviados ao saber que esses pedaços de corpos não são de seres humanos de verdade, mas veg(etari)anos certamente perceberão o apelo especista da reportagem. A estratégia para acalmar os leitores e convencê-los de que não está havendo um massacre humano canibal é dizer que é “apenas” carne de animais não humanos, como se de fato a vida animal não humana tivesse menos valor que a vida humana. São “apenas” animais mortos, é normal explorá-los e matá-los para consumo, ao mesmo tempo em que seria um absurdo explorar seres humanos – essa é a estrutura geral perceptível no apelo contido na página.
Em outras palavras, não há nenhum extermínio de pessoas por canibais sanguinários em andamento na Inglaterra até onde se sabe, mas está havendo sim um outro massacre. É de animais de outras espécies – bovinos, porcos, ovinos, caprinos, frangos, peixes… -, e o mundo vê isso como se fosse algo normal, talvez tão inocente e benéfico quanto o trabalho de uma entidade filantrópica ou uma reunião de amigos do peito. Afinal, para a ética especista-antropocêntrica, esses animais existem para isso mesmo – tanto como se dizia que mulheres existem para servir sexual e domesticamente aos homens – e suas vidas nada mais são do que mecanismos biológicos de produção de carne, leite e ovos.
Não há pessoas implorando pela vida perante um canibal que está prestes a fazê-las “produzir carne”, mas há operários armados com pistolas insensibilizadoras ou facões, a postos, prontos para matar o próximo animal que chegar, ignorando a vontade daqueles animais de continuarem vivendo e estarem inteiros. A partir desses funcionários de matadouros e frigoríficos – bastante explorados para além do limite de suas forças físicas e mentais em muitos desses lugares, a saber – não temos mãos humanas, tóraxes desmembrados e decapitados nem pênis de homens num balcão, mas temos pés de porcos e de bois e vacas, orelhas amputadas, pernas decepadas e desmembradas, corpos fatiados, além de acéns, picanhas, cupins… Mas calma, a notícia diz que são “apenas animais”, é “apenas carne”, por isso você pode ignorar que aqueles pedaços pertenceram um dia a seres sedentos de vida e comê-los com tranquilidade.
Quando a humanidade parar de distinguir moralmente a carne humana da não humana (a.k.a. “carne normal”) – aliás, quando parar de fazer essa separação moral entre as vítimas mortas em prol da obtenção desas carnes -, as carnes expostas no açougue da esquina serão tão repugnadas quanto as “carnes humanas” do açougue de Londres que os jornalistas do Grist visitaram. O “apenas” será riscado e a frase calmante “É apenas carne, eu juro!” vai virar o alerta “Acredite, isso é carne de verdade!”.
Fonte: http://www.anda.jor.br
Eric Hobsbawm e o Futebol – por Raul Milliet Filho*
Eric Hobsbawm e o Futebol
Em um dos seus textos, Hobsbawm afirmou que um historiador social não podia negligenciar nem a economia nem Shakespeare. Deveria analisar não somente os aspectos econômicos da vida em sociedade como as idéias, a linguagem e o imaginário coletivo. Para ele, o futebol não era apenas um esporte. Era arte e paixão popular, ou culto proletário de massa.
Eric Hobsbawm, um dos maiores historiadores do século XX, falecido em 1º de outubro último, trilhou caminhos pouco frequentados pelo mundo acadêmico. Dentre tantos outros temas, conhecia jazz, artes plásticas e futebol, jogo que está, por exemplo, no seu A Era dos Extremos:
“O esporte que o mundo tornou seu foi o futebol de clubes, filho da presença global britânica... Esse jogo simples e elegante, não perturbado por regras e/ou equipamentos complexos, e que podia ser praticado em qualquer espaço aberto mais ou menos plano do tamanho exigido... tornou-se genuinamente universal.”
Tomei contato e conhecimento do interesse de Hobsbawm pelo futebol em 1976. Para minha alegria de botafoguense apaixonado e historiador recém-formado, soube do seu gosto pelo futebol. Torcedor do Arsenal, ele não só gostava como entendia do jogo. E isto era raro.
Afinal, como disse certa vez Edgar Morin: “o estudo dos fenômenos desacreditados é igualmente desacreditado”. E, naquela época, nos meios universitários do Brasil e de todo o mundo, nada mais desacreditado que o futebol. Os professores doutores, salvo raras exceções, eram típicos intelectuais de laranja, cunhados por Nelson Rodrigues, que não sabiam bater nem um reles escanteio. Olhavam o futebol com o narizem pé.
Assim que soube da novidade, recorri ao amigo e sociólogo Luciano Costa Neto, que começara a traduzir A Era do Capital para o português.
Encaminhei, por Luciano, algumas perguntas por escrito a Hobsbawm em um dos encontros que tiveram para ajustar pontos da tradução.
Na resposta, devidamente anotada por Luciano, Hobsbawm falava que não só o futebol era um assunto de relevo para os historiadores, mas contava da sua admiração pela seleção brasileira e por dois jogadores em particular: Gerson e Tostão. E ia além, relembrando dois jogos da Copa de 70: Brasil x Itália e Brasil x Inglaterra. Deste último jogo retinha na memória a trama do gol brasileiro feito por Jair.
E não foram citados apenas Tostão e Gerson. Hobsbawm disse a Luciano da sua decepção em nunca ter visto Garrincha atuarem campo.
Quase 20 anos mais tarde deixaria registrado: “...e quem, tendo visto a seleção brasileira em seus dias de glória, negará sua pretensão à condição de arte?...” ( A Era dos Extremos)
Para Hobsbawm, o futebol bem praticado não era apenas um esporte. Era arte e paixão popular, ou culto proletário de massa.
Autor de livros que inovaram a compreensão do mundo contemporâneo: A Era das Revoluções (1789–1848); A Era do Capital (1848–1875); A Era dos Impérios (1875–1914) e A Era dos Extremos (1914– 1991), encantou leitores e críticos de várias correntes do pensamento, independente de filiação ideológica ou político-partidária.
Marxista, avesso a análises reducionistas e dogmáticas, Hobsbawm foi um estilista erudito e original, senhor de uma narrativa leve e sofisticada, respeitado até mesmo por críticos contundentes, como Tony Judt.
Em um dos seus textos afirmou que um historiador social não podia negligenciar nem a economia nem Shakespeare. Deveria analisar não somente os aspectos econômicos da vida em sociedade como as idéias, a linguagem e o imaginário coletivo.
Foi exatamente isto que ele fez em seus escritos. O contraponto entre as relações econômicas e culturais está presente em sua vasta obra, inclusive quando aborda o futebol, como nesta passagem de Mundos do Trabalho, recuando ao período de profissionalização/popularização do futebol inglês.
“O futebol como esporte proletário de massa – quase uma religião leiga – foi produto da década de 1880, embora os jornais do norte já ao final da década de 1870 houvessem começado a observar que os resultados de jogos de futebol, que eles publicavam somente para preencher espaço, estavam na verdade atraindo leitores. O jogo foi profissionalizado em meados da década de 1880...”
O surgimento dos Esportes Modernos (dentre os quais o futebol) na segunda metade do século XIX foi analisado por Hobsbawm em sintonia à consolidação do Estado-Nação da era moderna.
Em A Invenção das Tradições (escrito com Terence Ranger), o futebol é identificado como uma entre muitas formas de expressão e símbolo da nacionalidade, como mais um modo de coesão necessário à nação moderna.
Discorrendo sobre as décadas de 1880 e 1890 na Inglaterra, Hobsbawm reafirma a importância do tema:
“Pela história das finais do campeonato britânico de futebol podem-se obter dados sobre o desenvolvimento de uma cultura urbana operária que não se conseguiram através de fontes mais convencionais.” (A Invenção das Tradições).
Aindaem A Invenção das Tradições, Eric Hobsbawm volta seu olhar para o vestuário operário, associando a utilização do boné como meio de identificação e expressão de classe fora do trabalho. E mais uma vez, o futebol é mencionado:
“Na Grã-Bretanha, ao menos, segundo indícios iconográficos, os proletários não eram universalmente relacionados ao boné antes da década de 1890, mas no fim do período eduardino – como provam fotos de multidões saindo de jogos de futebol ou de assembléias – tal identificação era quase completa. A ascensão do boné proletário ainda está à espera de um cronista. Ele ou ela, supostamente, descobrirá que sua história tem relação com a do desenvolvimento dos esportes de massa, uma vez que este tipo específico de chapéu surge a princípio como acessório esportivo entre as classes alta e média.” (A Invenção das Tradições)
O vínculo entre o boné, o futebol e o vestuário dos trabalhadores ingleses é ainda mais forte e estreito do que Hobsbawm supunha. Pelo regramento do futebol inglês, a presença do juiz data de 1863. Mas por 21 anos o poder do juiz ficaria subordinado aos capitães das equipes.
E os capitães ou “reclamadores” utilizavam um bonezinho para se diferenciarem dos demais. Boné que em inglês é cap. De cap para capitão foi um pulo. O fato é que o reclamador ficou conhecido como o capitão do time, produto deste antigo costume britânico.
Assim, é possível depreender que a utilização do boné (cap) pelo capitão (ou reclamador) no futebol foi um dos fatores que contribuiu para a disseminação do boné entre as classes populares inglesas e, posteriormente, em quase toda a Europa Ocidental.
Para Hobsbawm, não apenas a história do vestuário proletário não foi escrita mas também a da cultura do futebol na transição do século XIX para o século XX, na Inglaterra:
“A natureza da cultura do futebol neste período – antes de haver penetrado muito nas culturas urbanas e industriais de outros países – ainda não foi bem compreendida. Sua estrutura socioeconômica, porém, é mais compreensível. A princípio desenvolvido como esporte amador e modelador do caráter pelas classes médias da escola secundária particular, foi rapidamente (1885) proletarizado e portanto, profissionalizado; o momento decisivo simbólico – reconhecido como um confronto de classes – foi a derrota dos Old Etonians pelo Bolton Olympic na final do campeonato de1883.” (A Invenção das Tradições).
Entre 1890 e1914, a popularização do futebol inglês registrou um crescimento avassalador. Os jogadores de futebol eram oriundos das fábricas, escolhidos entre os operários mais habilidosos, ao contrário do que acontecia no boxe, onde o critério de escolha levava mais em conta a força e o tamanho dos futuros atletas.
Em A Era dos Impérios, Hobsbawm identifica a existência de cerca de 1 milhão de jogadores de futebol na Inglaterra antes de 1914 frente a uma população geral de cerca de 31 milhões de habitantes.
Abordando o período entre guerras (1918-1939), destaca o papel do esporte e do futebol em particular, representando cada vez com mais força uma expressão de luta nacional e identificação dos indivíduos com a nação, tendo como símbolos mais próximos os atletas:
“A imaginária comunidade de milhões parece mais real na forma de um time de onze pessoas com nome. O indivíduo, mesmo aquele que apenas torce, torna-se o próprio símbolo de sua nação.” (Nações e Nacionalismo desde 1870, p. 171).
Uma lembrança do então menino Eric Hobsbawm, é descrita:
“O autor se lembra quando ouvia, nervoso, à transmissão radiofônica da primeira partida internacional de futebol entre a Inglaterra e a Áustria, jogada em Viena em 1929, na casa de amigos que prometeram descontar nele se a Inglaterra ganhasse da Áustria, o que, pelos registros, parecia bastante provável. Como o único menino inglês presente, eu era Inglaterra, enquanto eles eram Áustria. (Por sorte a partida terminou empatada). Dessa maneira crianças de 12 anos ampliavam o conceito de lealdade ao time para a nação.” (Nações e Nacionalismo desde 1870).
Mas, para quem, como Hobsbawm, toda História é História contemporânea disfarçada, o futebol globalizado, controlado por empresas transnacionais não poderia ficar de fora do alcance de sua pena.
O intrincado jogo de interesses entre a FIFA e os grandes clubes internacionais, com seus conflitos de grandes proporções, à primeira vista inconciliáveis, foi abordado em Globalização, Democracia e Terrorismo:
“... a lógica transnacional da empresa de negócios entrou em conflito com o futebol como expressão de identidade nacional...
... Do ponto de vista dos clubes, provocaram um considerável enfraquecimento da posição de todos aqueles que não estão no circuito das superligas internacionais e dos supertorneios e em especial nos clubes dos países exportadores de jogadores, notadamente nas Américas e na África. A crise dos outrora altivos clubes de futebol do Brasil e da Argentina o comprova...” (Globalização, Democracia e Terrorismo).
Apesar da importância e da prevalência dos superjogadores e dos superclubes sobre os interesses nacionais, o historiador assinala que os objetivos de poder da FIFA têm tido força para manter, impor e ampliar a realização das Copas do Mundo como evento mais importante do futebol mundial.
Assinalaríamos apenas, aprofundando as conclusões de Hobsbawm, que a lógica econômico-financeira das Copas do Mundo acabou por entrelaçar-se com os objetivos do grande capital internacional. Isto foi possível graças à aliança da FIFA com os mesmos interesses que dirigem os superclubes, para a realização das Copas do Mundo. Até mesmo a escolha de países como a África do Sul , Brasil e Qatar, mais maleáveis a negócios extra-campo, demonstra isso.
Não se sabe até quando este equilíbrio instável e contraditório de forças no futebol mundial poderá ser mantido, tendo em vista que não está em jogo apenas a sobrevivência dos interesses nacionais e dos clubes, mas do próprio futebol como cultura popular.
Em a “História Social do Jazz”, talvez o seu melhor livro sobre cultura popular, Hobsbawm questiona a pasteurização da cultura pré-industrial pelo rolo compressor da sociedade contemporânea, citando o jazz como exemplo de resistência e manutenção de suas origens:
“O jazz é o mais importante desses exemplos. Se eu tivesse de fazer um resumo da sua evolução em uma só sentença eu diria: é o que acontece quando a música popular não sucumbe, mas se mantém no ambiente da civilização urbana e industrial”. (A História Social do Jazz).
Aqui cabem duas indagações: será que o futebol atual, em particular o brasileiro, tal como o jazz, também não sucumbiu diante das pressões da civilização urbana e industrial?
Ainda é possível falarmos do futebol como arte e cultura popular?
“O esporte que o mundo tornou seu foi o futebol de clubes, filho da presença global britânica... Esse jogo simples e elegante, não perturbado por regras e/ou equipamentos complexos, e que podia ser praticado em qualquer espaço aberto mais ou menos plano do tamanho exigido... tornou-se genuinamente universal.”
Tomei contato e conhecimento do interesse de Hobsbawm pelo futebol em 1976. Para minha alegria de botafoguense apaixonado e historiador recém-formado, soube do seu gosto pelo futebol. Torcedor do Arsenal, ele não só gostava como entendia do jogo. E isto era raro.
Afinal, como disse certa vez Edgar Morin: “o estudo dos fenômenos desacreditados é igualmente desacreditado”. E, naquela época, nos meios universitários do Brasil e de todo o mundo, nada mais desacreditado que o futebol. Os professores doutores, salvo raras exceções, eram típicos intelectuais de laranja, cunhados por Nelson Rodrigues, que não sabiam bater nem um reles escanteio. Olhavam o futebol com o nariz
Assim
Encaminhei, por Luciano, algumas perguntas por escrito a Hobsbawm em um dos encontros que tiveram para ajustar pontos da tradução.
Na resposta, devidamente anotada por Luciano, Hobsbawm falava que não só o futebol era um assunto de relevo para os historiadores, mas contava da sua admiração pela seleção brasileira e por dois jogadores em particular: Gerson e Tostão. E ia além, relembrando dois jogos da Copa de 70: Brasil x Itália e Brasil x Inglaterra. Deste último jogo retinha na memória a trama do gol brasileiro feito por Jair.
E não foram citados apenas Tostão e Gerson. Hobsbawm disse a Luciano da sua decepção em nunca ter visto Garrincha atuar
Quase
Para Hobsbawm, o futebol bem praticado não era apenas um esporte. Era arte e paixão popular, ou culto proletário de massa.
Autor de livros que inovaram a compreensão do mundo contemporâneo: A Era das Revoluções (1789–1848); A Era do Capital (1848–1875); A Era dos Impérios (1875–1914) e A Era dos Extremos (1914– 1991), encantou leitores e críticos de várias correntes do pensamento, independente de filiação ideológica ou político-partidária.
Marxista, avesso a análises reducionistas e dogmáticas, Hobsbawm foi um estilista erudito e original, senhor de uma narrativa leve e sofisticada, respeitado até mesmo por críticos contundentes, como Tony Judt.
Em um dos seus textos afirmou que um historiador social não podia negligenciar nem a economia nem Shakespeare. Deveria analisar não somente os aspectos econômicos da vida em sociedade como as idéias, a linguagem e o imaginário coletivo.
Foi exatamente isto que ele fez em seus escritos. O contraponto entre as relações econômicas e culturais está presente em sua vasta obra, inclusive quando aborda o futebol, como nesta passagem de Mundos do Trabalho, recuando ao período de profissionalização/popularização do futebol inglês.
“O futebol como esporte proletário de massa – quase uma religião leiga – foi produto da década de 1880, embora os jornais do norte já ao final da década de 1870 houvessem começado a observar que os resultados de jogos de futebol, que eles publicavam somente para preencher espaço, estavam na verdade atraindo leitores. O jogo foi profissionalizado em meados da década de 1880...”
O surgimento dos Esportes Modernos (dentre os quais o futebol) na segunda metade do século XIX foi analisado por Hobsbawm em sintonia à consolidação do Estado-Nação da era moderna.
Em A Invenção das Tradições (escrito com Terence Ranger), o futebol é identificado como uma entre muitas formas de expressão e símbolo da nacionalidade, como mais um modo de coesão necessário à nação moderna.
Discorrendo sobre as décadas de 1880 e 1890 na Inglaterra, Hobsbawm reafirma a importância do tema:
“Pela história das finais do campeonato britânico de futebol podem-se obter dados sobre o desenvolvimento de uma cultura urbana operária que não se conseguiram através de fontes mais convencionais.” (A Invenção das Tradições).
Ainda
“Na Grã-Bretanha, ao menos, segundo indícios iconográficos, os proletários não eram universalmente relacionados ao boné antes da década de 1890, mas no fim do período eduardino – como provam fotos de multidões saindo de jogos de futebol ou de assembléias – tal identificação era quase completa. A ascensão do boné proletário ainda está à espera de um cronista. Ele ou ela, supostamente, descobrirá que sua história tem relação com a do desenvolvimento dos esportes de massa, uma vez que este tipo específico de chapéu surge a princípio como acessório esportivo entre as classes alta e média.” (A Invenção das Tradições)
O vínculo entre o boné, o futebol e o vestuário dos trabalhadores ingleses é ainda mais forte e estreito do que Hobsbawm supunha. Pelo regramento do futebol inglês, a presença do juiz data de 1863. Mas por 21 anos o poder do juiz ficaria subordinado aos capitães das equipes.
E os capitães ou “reclamadores” utilizavam um bonezinho para se diferenciarem dos demais. Boné que em inglês é cap. De cap para capitão foi um pulo. O fato é que o reclamador ficou conhecido como o capitão do time, produto deste antigo costume britânico.
Assim, é possível depreender que a utilização do boné (cap) pelo capitão (ou reclamador) no futebol foi um dos fatores que contribuiu para a disseminação do boné entre as classes populares inglesas e, posteriormente, em quase toda a Europa Ocidental.
Para Hobsbawm, não apenas a história do vestuário proletário não foi escrita mas também a da cultura do futebol na transição do século XIX para o século XX, na Inglaterra:
“A natureza da cultura do futebol neste período – antes de haver penetrado muito nas culturas urbanas e industriais de outros países – ainda não foi bem compreendida. Sua estrutura socioeconômica, porém, é mais compreensível. A princípio desenvolvido como esporte amador e modelador do caráter pelas classes médias da escola secundária particular, foi rapidamente (1885) proletarizado e portanto, profissionalizado; o momento decisivo simbólico – reconhecido como um confronto de classes – foi a derrota dos Old Etonians pelo Bolton Olympic na final do campeonato de
Entre 1890 e
Abordando o período entre guerras (1918-1939), destaca o papel do esporte e do futebol em particular, representando cada vez com mais força uma expressão de luta nacional e identificação dos indivíduos com a nação, tendo como símbolos mais próximos os atletas:
“A imaginária comunidade de milhões parece mais real na forma de um time de onze pessoas com nome. O indivíduo, mesmo aquele que apenas torce, torna-se o próprio símbolo de sua nação.” (Nações e Nacionalismo desde 1870, p. 171).
Uma lembrança do então menino Eric Hobsbawm, é descrita:
“O autor se lembra quando ouvia, nervoso, à transmissão radiofônica da primeira partida internacional de futebol entre a Inglaterra e a Áustria, jogada em Viena em 1929, na casa de amigos que prometeram descontar nele se a Inglaterra ganhasse da Áustria, o que, pelos registros, parecia bastante provável. Como o único menino inglês presente, eu era Inglaterra, enquanto eles eram Áustria. (Por sorte a partida terminou empatada). Dessa maneira crianças de 12 anos ampliavam o conceito de lealdade ao time para a nação.” (Nações e Nacionalismo desde 1870).
Mas, para quem, como Hobsbawm, toda História é História contemporânea disfarçada, o futebol globalizado, controlado por empresas transnacionais não poderia ficar de fora do alcance de sua pena.
O intrincado jogo de interesses entre a FIFA e os grandes clubes internacionais, com seus conflitos de grandes proporções, à primeira vista inconciliáveis, foi abordado em Globalização, Democracia e Terrorismo:
“... a lógica transnacional da empresa de negócios entrou em conflito com o futebol como expressão de identidade nacional...
... Do ponto de vista dos clubes, provocaram um considerável enfraquecimento da posição de todos aqueles que não estão no circuito das superligas internacionais e dos supertorneios e em especial nos clubes dos países exportadores de jogadores, notadamente nas Américas e na África. A crise dos outrora altivos clubes de futebol do Brasil e da Argentina o comprova...” (Globalização, Democracia e Terrorismo).
Apesar da importância e da prevalência dos superjogadores e dos superclubes sobre os interesses nacionais, o historiador assinala que os objetivos de poder da FIFA têm tido força para manter, impor e ampliar a realização das Copas do Mundo como evento mais importante do futebol mundial.
Assinalaríamos apenas, aprofundando as conclusões de Hobsbawm, que a lógica econômico-financeira das Copas do Mundo acabou por entrelaçar-se com os objetivos do grande capital internacional. Isto foi possível graças à aliança da FIFA com os mesmos interesses que dirigem os superclubes, para a realização das Copas do Mundo. Até mesmo a escolha de países como a África do Sul , Brasil e Qatar, mais maleáveis a negócios extra-campo, demonstra isso.
Não se sabe até quando este equilíbrio instável e contraditório de forças no futebol mundial poderá ser mantido, tendo em vista que não está em jogo apenas a sobrevivência dos interesses nacionais e dos clubes, mas do próprio futebol como cultura popular.
Em a “História Social do Jazz”, talvez o seu melhor livro sobre cultura popular, Hobsbawm questiona a pasteurização da cultura pré-industrial pelo rolo compressor da sociedade contemporânea, citando o jazz como exemplo de resistência e manutenção de suas origens:
“O jazz é o mais importante desses exemplos. Se eu tivesse de fazer um resumo da sua evolução em uma só sentença eu diria: é o que acontece quando a música popular não sucumbe, mas se mantém no ambiente da civilização urbana e industrial”. (A História Social do Jazz).
Aqui cabem duas indagações: será que o futebol atual, em particular o brasileiro, tal como o jazz, também não sucumbiu diante das pressões da civilização urbana e industrial?
Ainda é possível falarmos do futebol como arte e cultura popular?
(*) Doutor em História pela USP, professor, especialista em projetos sociais na área pública.
terça-feira, 23 de outubro de 2012
Sobre novelas, esquerdas e mensalão - Por Daniel Caribé
Sobre novelas, esquerdas e mensalão
Se o STF condena um “capa” de forma sumária, o que entenderão os magistrados deste país adentro ao se defrontarem com julgamentos essencialmente políticos? Por Daniel Caribé
Confesso estar quase que completamente por fora das grandes polêmicas deste país. Desde que a televisão da sala quebrou e aderi à ditadura do automóvel (98% dos leitores pararão de ler o texto aqui) não sei muito bem o que as pessoas andam comentando. Mas tem assuntos que de tanto consumirem o povo até um aprendiz de eremita como eu é tocado, nem que seja pela timeline do Twitter.
Semana passada dois assuntos estavam em destaque, até mais que as eleições. O primeiro e na frente de forma disparada era a novela das oito (que passa às nove – uma explicação necessária aos leitores portugueses deste site) que está na sua reta final. Parece que o zagueiro do Vitória bateu na vilã e tem gente defendendo que ela merecia apanhar. O sujeito é até um bom jogador e vai ser um grande desfalque na briga pelo título da Série B, mas pô, aí não tem perdão!
O outro assunto é o tal do mensalão, uma piada que infelizmente não só os baianos compreendem.
Primeiro é que eu não entendo o porquê de escolherem como astro desta outra novela o único ministro que é negro. Se praticamente todos estão condenando os petistas, e estes mesmos petistas escolheram através de Lula e Dilma quase a totalidade destes ministros, por que o foco na melanina? Em qual roteiro está escrito que o sujeito que nasce negro tem que ser “de esquerda” e se não for merece o paredão? Entender a política por este caminho gera tanta confusão que o ministro em destaque a cada semana sai na capa de uma revista diferente, às vezes pertencentes a grupos rivais.
Depois, o que mais me assustou foi a posição de alguns setores da esquerda que comemoraram o encaminhamento dado pelo STF [Supremo Tribunal Federal] à situação. Eu não vou repetir o que todo mundo já sabe. Pessoas ligadas ao PT estão sendo julgadas e uma delas é José Dirceu. Um amigo em outra timeline também muito famosa fez a seguinte síntese do sujeito, com a qual concordo: “Eu nunca apoiei e acho que o José Dirceu representa coisas muito repugnantes de uma tradição de esquerda autoritária com a qual eu não compactuo – e que, no fim das contas, contribui para a emergência da classe gestorial capitalista. […] Ou seja, não o defendo, mas é de uma burrice sem tamanho comemorar, com sorriso nos dentes, algo que os amigos da ditadura – esses sim nunca julgados e condenados – estão a soltar rojões. De resto, o capitalismo só mexe as peças para continuar o jogo. Esse é o fato, e o Dirceu aceitou jogar o jogo e foi para o game over.” Nada mais a acrescentar a este respeito. Entretanto o sujeito (José Dirceu, não o meu amigo!) está sendo condenado sem provas e sem as garantias constitucionais que todo acusado de qualquer coisa merece. Ele já sentou no banco dos réus com a pecha de culpado e parece que ninguém nega este fato. E este fato gera implicações para muitos outros que nem sequer se identificam com o ex-militante clandestino, agora consultor empresarial entre outras coisas mais.
Ora, isso não é novidade neste país, e deve ser prática comum em todo canto deste mundo. Todos os dias dezenas de sujeitos, talvez centenas, são condenados sem ao menos chegar a um tribunal. É só ligar a TV – para quem tem uma – e ver os meninos pobres sendo taxados de assassinos, estupradores e ladrões pelos apresentadores de televisão em pleno horário de almoço. Se não forem para a cadeia logo em seguida, o que será da vida deles após esta exposição? Já nos tribunais, dentro dos quais os jornalistas quase nunca têm o interesse em entrar, estes mesmos sujeitos são sentenciados frequentemente sem os devidos direitos garantidos. Ninguém está nem aí para estes no país que está elegendo policiais a cargo de vereador com a campanha “bandido bom é bandido morto”.
Alguns dos poucos que chegaram até aqui irão me perguntar o que tem a ver José Dirceu com esses garotos pobres de nenhuma importância para o crescimento do PIB. Teria que fazer um longo caminho para tentar mostrar que os projetos de vida de ambos têm ligação através das políticas sociais implementadas das últimas duas décadas. Mas o objetivo deste texto é outro e falarei, assim como nas novelas, do óbvio.
Para nós há muitas clivagens na esquerda – esse grupo que se pretende ser a vanguarda dos trabalhadores. É fácil para a gente separar trotskistas de estalinistas, anarquistas de autonomistas, reformistas de conselhistas, e por aí segue. Mas para a população em geral pouco importa estas nada sutis diferenças. Portanto, mesmo José Dirceu sendo esse ser já definido com a ajuda do amigo em algum parágrafo anterior, ele não passa de um esquerdista na ótica da maioria. E quando condenam-no deste jeito, não estão a fazer outra coisa a não ser passar o recado para os demais. É sim uma vingança histórica. E não é porque não nos identificamos mais com o PT que ele deixa de nos criar problemas.
O objetivo aqui passa a ser o de chamar a atenção para o que farão com os outros lutadores sociais deste país, que a exemplo dos meninos pobres, e talvez de forma ainda mais raivosa e mais ilegal, já são condenados sem o devido julgamento cotidianamente. Será que esquecemos que os juízes deste país são formados em sua maioria por sujeitos avessos às transformações sociais? Se o STF condena um “capa” deste jeito, de forma sumária, o que entenderão os magistrados deste país adentro ao se defrontarem com julgamentos essencialmente políticos? O julgamento do mensalão extrapolou o espetáculo midiático e deixou de ser uma briga entre capitalistas pela divisão do bolo crescido pela nossa mais-valia. Agora há um precedente e um incentivo para caça às bruxas, que no caso são aqueles que, assim como elas faziam, andam incomodando os poderes estabelecidos.
E o que tanto alegra nisso a estes setores da esquerda? A ânsia de derrotar (ou substituir?) o PT é tão grande que alguns limites muito arduamente conquistados são rompidos sem um pingo de cerimônia. E parte desta esquerda que agora sorri é exatamente a que passou a desempenhar um papel significativo da política institucional brasileira após o primeiro turno das eleições municipais de 2012. A esquerda partidária fora do PT cresceu e não pode ser mais desprezada. Os seus equívocos, portanto, ganham uma ressonância maior daqui para frente.
Eu não vou entrar no mérito do complexo de Édipo que caracteriza esta nova esquerda institucional. Se eles querem ser iguais ao que os seus pais foram, talvez estejam fazendo um favor à gente. A questão passa a ficar complicada quando esta mesma esquerda pauta suas ações não na luta de classes, mas no puro e simples moralismo. Numa das mais significativas passagem do texto do coletivo Passa Palavra sobre as lutas que agora acontecem em Portugal contra a Troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional), pontuou-se o seguinte (ver o texto completo aqui):
Um teste infalível para avaliar o grau em que uma proposta de remodelação política se insere no capitalismo é a obsessão com o problema da corrupção […]. Mas veja-se com atenção. A corrupção consiste em não respeitar as regras estabelecidas pelo capitalismo nas relações entre capitalistas, não nas relações dos capitalistas com os trabalhadores. A corrupção não diz respeito à extorsão da mais-valia, ao processo de exploração dos trabalhadores, mas à repartição entre os capitalistas dos frutos dessa exploração. Compreendemos que o problema preocupe os capitalistas e os seus agentes políticos, mas é necessário que os trabalhadores sejam vítimas de profundas ilusões para se ocuparem com a questão.
Deste jeito, quando se faz uma luta tendo por horizonte a moralização da política, não se pode cair em outra coisa a não ser nas armadilhas que as próprias classes dominantes montam para a gente. Essa forma de se fazer política pode até ganhar alguns votos do setor dos trabalhadores que se situam próximos aos gestores, que almejam ser gestores também, e que por isso precisam que as regras do jogo político-econômico sejam claras. São estes que hoje comumente chamamos classe-média. Porém esta pauta não mobiliza o grosso da classe trabalhadora. Não foi por menos que o PT junto com o PSB foram entre os grandes partidos os únicos que cresceram nas eleições municipais deste mês, mesmo em meio à suposta crise do mensalão. A base do governo formada por um zilhão de outros partidos continua forte. Por isso não tem como não reconhecer o cinismo de Lula quando ele afirma, nas proximidades da cabine da urna eletrônica, que a população está mais preocupada com o rebaixamento do Palmeiras do que com o mensalão. A novela, como eu já disse, também se mostra mais importante, pois parece que a ilusão que vem da TV é mais real do que a que promete uma vida melhor em um mundo sem corruptos.
Quando digo que esta esquerda está abrindo mão de forma muito fácil de conquistas muito caras, me refiro à democracia. Claro está, e cada vez mais, que no que diz respeito ao processo eleitoral que há a cada biênio – o período que temos de férias da chateação que são as eleições para a maior parte da população, e que costuma fragmentar de forma irreversível muitos movimentos sociais – as esperanças em torno da transformação da realidade através do voto vêm caindo. O que vem equivocadamente sendo chamado de “voto de protesto” é prática crescente. A partir do momento em que as pessoas não enxergam mais o compromisso do eleito para com elas, então elas deixam de ter compromisso para com o voto. Mas esta mesma democracia instaurada após a Ditadura Militar tem outras facetas e uma delas é a que permite que entre nós haja aqueles que sejam mais radicais nas suas ações, outros menos. Que possamos sair por aí falando o que quisermos, nem que sejam as besteiras e os dogmatismos que caracterizam as crenças da maioria dos nossos companheiros. Já é tão difícil atuar dentro destes limites, imaginem-se numa arranjo institucional ainda mais restritivo porque mais policialesco, mais judicializado.
Aqueles que riem da desgraça de José Dirceu neste momento estão apoiando nada menos que a politização do judiciário. O problema todo é que isto não começa aqui e o próprio PT estava a aplaudir esta situação, quando não foi o seu maior criador. Um exemplo emblemático aconteceu quando transferiram para o Judiciário o debate sobre o casamento homoafetivo e a legalização do aborto, há pouco tempo atrás. Estava-se ali abrindo precedente para chegarmos na situação de hoje. Afinal, parece que não importa mais de onde saia o que queremos ouvir, pois o importante é que seja dito. Não é? Claro que a tática dos mais radicais, anticapitalistas e etc. é jogar todo peso nos movimentos sociais e através deles mudar as instituições. Entretanto, no plano institucional atual, que é onde os partidos de esquerda atuam, estes debates deveriam acontecer no Congresso Nacional. É o mínimo que se espera de uma sociedade democrática, de uma república.
Uma prova de que esta esquerda está botando fé no caráter progressista do STF é a mobilização que já se iniciou em torno da anulação das leis aprovadas através da compra de votos dos parlamentares. Poderiam também incluir no pedido a anulação das leis que foram aprovadas através de outros tantos mecanismos ilegais. Por que não? Subtraindo todas estas leis não teríamos quase lei nenhuma no país, o que caracteriza uma revolução, pois todas as regras de funcionamento da sociedade estariam por existir. Não deixa de ser uma proposta genial.
O Poder Legislativo perde sua função de forma muito acintosa quando os presidentes do país, desde de Fernando Henrique Cardoso e repetido por Lula e Dilma, adotam a tática do presidencialismo de coalizão para conseguir a tal da governabilidade, despolitizando desta maneira o Congresso Nacional e em consequência abrindo um vácuo institucional no país. O Legislativo anulado e ainda mais sem credibilidade após os escândalos seguidos de corrupção fica sem condições de cumprir a sua função constitucional de “casa do povo”. Os debates não passam mais por lá e muitas das leis, através de medidas provisórias, são encaminhadas pelo chefe do executivo. Esta era a oportunidade que o STF precisava para chamar para si esta função que não é sua, a de pautar os grande debates. Agora é a cobra comendo o próprio rabo.
O perigo é que se já não temos muito controle sobre o presidente e os parlamentares, o Judiciário é completamente imune à vontade popular. Quem vai pautar o STF? Quais as consequências em dar tanto poder a um órgão tão autônomo? Não vai demorar muito a aparecerem aqueles que defenderão que faz parte do equilíbrio entre os poderes tão necessário às democracias modernas a prática de funções atípicas por cada poder e que inevitavelmente em momentos de fragilidade de algum deles caberá aos demais manter a ordem através destas exceções. Só acho importante lembrar o óbvio: que democracia se faz através da participação popular e não através de equilíbrio entre poderes. E se já temos uma democracia esvaziada de sentido por falta de mecanismo de participação direta e pela inutilidade que é hoje o Legislativo, dar mais poder ao Judiciário só vai incrementar este quadro autoritário que está se pintando.
Quanto à novela que são as esquerdas, cheia de vilões e poucos mocinhos, todos à espera do capítulo final sem data marcada para acontecer e com baixa audiência na maior parte do tempo, precisa urgentemente sair deste roteiro bipolar. Combater o PT não pode passar de modo algum por adotar práticas e instituições ainda mais conservadoras. Tanto o PT quanto o STF estão restringindo o pouco que resta de democracia no país e deve haver alguma forma de se criticar um sem apoiar o outro. Já fomos, todos nós, mais criativos e menos irresponsáveis.
As fotografias que ilustram o artigo são de Sebastião Salgado.
Cultura Digital, janela pra a pós-massificação? - Por Jéferson Assumção*
Cultura Digital, janela pra a pós-massificação?
Pela primeira vez na história, é possível superar indivíduo e homem-massa, construindo o comum. Seria trágico desperdiçar tal oportunidade
Em 2020, o mundo deverá ter mais de 24 bilhões de dispositivos conectados em rede, como apontam pesquisas da empresa Machina Research, especializada no tema. Com isso, haverá uma média de três aparelhos conectados por pessoa, incluindo celulares, eletrodomésticos, tablets e até computadores. Eles poderão ser utilizados heteronomamente. Ou de modo um pouco mais autônomo. Se de maneira heterônoma, continuarão gerando massificação, mesmo que venha a ser um tipo customizado de massificação. Se de forma mais autônoma, poderemos ver a emergência de indivíduos-redes desmassificados?
Certamente que os atuais avanços da era digital podem, se bem aproveitados, gerar um ambiente menos favorável à homogeneização cultural e à vigência do comportamento do que Ortega chamou de homem-massa – este produto da técnica da era industrial que se desenvolveu na virada do século XIX para o século XX. Agora, em pleno século XXI, mais uma vez o desenvolvimento técnico vem trazer questões importantes para se pensar sobre como o ser humano se comporta em relação à tecnologia que ele mesmo desenvolve.
Diferentemente do homem-massa delineado por Ortega na década de 30 do século XX, os seres humanos atuais, do ponto de vista tecnológico, têm abundantes condições de viver numa multidimensionalidade da cultura. Há mais acesso à diversidade cultural e às condições de se fazer as recombinações de elementos, processos e visões de mundo, muito mais do que em qualquer outro momento da humanidade. Portanto, em se tratando de cultura, essa palavra cujo sentido em muito tem a ver com modos de fazer, de técnicas e interação de indivíduos entre si e destes com a natureza, uma cultura ligada ao ambiente digital não pode ser desconsiderada numa leitura mais plena de nosso tempo.
A cultura digital e seus rebatimentos estéticos (diversidade cultural e recombinações), éticos (ética do compartilhamento) e políticos (ação cidadã em rede, descentralizada e com menos mediação de estruturas verticais) são, em termos mais amplos, um importante tema de nuestro tiempo. Não se trata mais da perda da aura da arte na época de sua reprodutibilidade técnica – como assinalava Walter Benjamin – mas, devido à desmaterialização dos suportes ocorrida nas últimas décadas, trata-se da perda da aura da obra de arte na época de sua infinita reprodutibilidade técnica. Há mais condições de heterogeneidade, diversidade, inter e transculturalidade, portanto mais condições (e responsabilidades) dos sujeitos contemporâneos fazerem a si próprios.
Foram décadas de unidimensionalidade (O homem unidimensional, de Herbert Marcuse). Nelas, a sociedade industrial impunha quase que uma única dimensão da vida: uma racionalidade “tecnológica” (físico-matemática, para Ortega) de mão única. Ela dominava e oprimia por meio de aparatos de controle das consciências humanas, meios de entretenimento e comunicação de massa que hiperdimensionavam em todos a pulsão de vida (sexo, jogos, entretenimento) e a pulsão de morte (violência urbana e sensação de insegurança extrema). O resultado eram homens e mulheres autômatos, incapazes de se opor ao sistema, pois vivendo a mecânica do conformismo, dentro das benesses do conforto.
Agora, com as novas condições, não há também mais desculpas: o homem-massa, paciente e agente de sua condição de massa, invertebrado habitante do ambiente técnico-consumista do século XX, dominado pelo mercado, por partidos, sindicatos e estados ortopédicos, de cima para baixo, não tem mais a quem jogar a responsabilidade. Ele pode recuperar sua autenticidade, como em nenhum outro momento da Humanidade. A técnica do século XIX engendrava o homem-massa, dizia Ortega. A técnica do século XXI pode engendrar o pós-homem-massa. Se para os frankfurtianos e para a teoria crítica, o comportamento heterônomo era inculcado pela indústria cultural nas cabeças das pessoas, hoje este elemento se fragmenta. Desaparecem dia a dia os mediadores e as indústrias de fabricação de suportes materiais da arte e, de todo lado, movimentos de indivíduos em rede trazem as visões da periferia para o centro do debate sobre cultura. Com tudo isso, é possível dizer que estão dadas as condições técnicas para a superação tanto do homem massificado quanto do homem atomizado, fechado em si, solipsista, consumista individualizado e não participante de sua circunstância?
II.
Pós-homens-massa
Aqui e ali já se notam as estratégias das empresas na internet para gerar comportamentos massivos através de ambientes pós-massivos. São espécies de homens- massa customizados, a parecerem indivíduos autônomos, mas no fundo não só seguem como aprofundam os padrões de consumo da era industrial. Um perigo é que, com as novas tecnologias de produção pós-industriais, a produção capitalista atual sabe que não precisa mais fazer nada em série, nem seres humanos em série. Hoje , trabalhando com a tática de criar – eles dizem “descobrir” – nichos de mercado, ela amplia seu poder ao fazer homens-massa customizados, com aparência de autônomos. As roupas e os cabelos parecem diferentes entre si, mas este tipo de homem-massa customizado segue o mesmo por dentro: inautêntico e diminuído ao elemento fundamental do consumidor, em vez de responsável por fazer sua própria vida. Mesmo no ambiente pós-massivo, este tipo massificado pelo mercado continua massa, pois segue sendo educado pelo mercado e pelos usos da sociedade desvitalizada pelo pragmatismo utilitarista, materialista e agora pela internet para se comportar como massa, invertebrada e vaga.
Em sentido contrário, nunca se teve tantas condições de se hackear, fazer truques, implantes, rachas no sistema. A articulação da cultura colaborativa digital com a economia solidária tem revelado um potencial gigantesco de revitalização cultural, em todo o mundo onde ela se desenvolve. Uma das razões é que ela é capaz de “destampar” culturas populares rurais, urbanas, suburbanas, antes invisibilizadas, por sua capacidade de descentralizar e multidirecionar os fluxos de informação e de recursos, antes unidirecionalmente ativados desde um centro industrial para o consumo de massas.
Sua capacidade de transversalidade e transdisciplinariedade permite que se gerem soluções e alternativas, convergências entre futuro e passado, de saberes e fazeres tradicionais com as inovações de ponta, sem no entanto isso significar homogeneização, mas mistura, diversidade, amálgama ou síntese. E como seria este pós-homem-massa? De maneira dialética, é preciso procurar a virtuosa posição de convergência, como Aristóteles ensina com o seu certeiro meio-termo justo. Com as condições atuais, ele pode sair do binarismo. Pode não ser nem horizontalidade nem verticalidade somente. Pode deixar para trás a infértil ideia de não-sujeito da pós-modernidade, da quase anulação da possibilidade de agir esteticamente, politicamente e eticamente da pós-modernidade, mas não precisa retornar ao indivíduo solipsista cartesiano, cheio de uma moral e de uma razão mortas, como alertava o filósofo espanhol. Nos dias de hoje, começamos a ter a convivência de indivíduos solipsistas, homens-massa, homens-massa customizados e pós-homens-massa.
III.
Em vez de massa, o comum
Pelo menos há mais condições de surgirem pessoas conscientes desta circunstância e que se conectam a outros, em rede, para gerar capacidade de influir e de produzir narrativas novas, mais autônomas que heterônomas. É também outra ideia de coletivo, não a que Ortega criticava, em cujo interior as ideologias das grandes narrativas achatavam as consciências. Trata-se de uma ideia de coletivo em que ponto a ponto, pessoa a pessoa, os sujeitos que o compõem têm liberdade de ser e de pensar por si próprios. Em vez de massa, poderemos falar em “comum”, em que os indivíduos, com mais liberdade do que antes se reúnem livremente, autonomamente, para colaborar, para trabalhar em conjunto. A massa é passiva, o comum é ativo. Estão dadas condições para um pós-homem-massa, integrante de uma humanidade-rede, diversa, amalgamada, em que aos traços da homogeneização cultural são acrescentados uma heterogeneidade viva de indivíduos em rede, formando coletivos que pensam o comum a partir da contribuição efetiva, ativa e crítica de seus integrantes.
A esses está colocado o problema de saber a que se ater e compreender o “tema de nosso tempo”. Também se pode falar na necessidade de construção de uma outra ideia de Estado, de partidos e ideologias, não ortopédicas (como criticava Ortega), mas também não ausentes a ponto de permitir o laissez-faire do século XIX, o liberalismo econômico (que ele também criticava pela substituição que este fazia dos valores, por preços) tomar conta da cultura. É tempo de falar sobre as condições de possibilidades da superação da dicotomia massa-minoria abordada por Ortega pois, como as condições da análise de Ortega mudaram – as circunstâncias técnicas se transformaram – a pedagogia social e o papel das minorias mudam também.
Precisamos de uma síntese nem horizontalista (massa) nem verticalista (minoria), mas uma espécie de diagonal provocadora de sínteses e convergências: é a era do “e”, das conjunções. O desafio é similar ao que Ortega colocou-se: o de não ser binário, idealista ou realista, nem racionalista nem vitalista, nem eu nem circunstância, mas amálgama de um e outro. Dessa maneira, a tensão massa-minoria das sociedades, pela descentralização dos meios de produção e reprodução da cultura, traz outro sentido: a pedagogia necessária não é aquela de poucos homens autênticos, nobres, seletos e esnobes do início do século XX, atuando sobre a massa, mas uma vanguarda formada por pessoas conectadas em rede no mundo todo, capazes de liderar processos locais e globais de combate à unidimensionalização do mundo, à massificação e à homogeneização cultural.
Autênticos, pode-se dizer, por professarem e viverem valores vitais, colaborativos, por trabalharem com uma razão com mais substância que a razão instrumental, físico-matemática. Não sabemos o que Ortega pensaria disso, hoje. Talvez não concordasse com estas conclusões. Mas, como pensar era, para ele, aventura de entusiasmo raciovital, assumimos seu raciovitalismo como ponto de partida para a aventura da razão. Não como ponto de chegada, o que seria também um ortopedismo que, seguramente, Ortega desaprovaria. Assim, tendo como base o “nem racionalismo, nem vitalismo: raciovitalismo”, de Ortega y Gasset, temos a possibilidade de pensar em um programa raciovitalista para a superação do problema da massificação nos tempos de hoje. Tempos em que vivemos um híbrido de era pré, industrial, e pós-industrial, e em que a homogeneização cultural e a padronização de comportamentos começam a ser contestadas em todos os cantos do mundo onde haja acesso à internet e sua consequente possibilidade de ação em rede, não do ponto de vista utilitário e consumista, mas cultural: a cultura digital.
Neste sentido, mais que a conexão física, obviamente fundamental, o que importa é a cultura de rede, a cultura colaborativa, pós-industrial e pós- massificante que vem sendo construída, pessoa a pessoa, nessas conexões. Em nosso entendimento ela, a cultura digital, é condição para revitalizar a própria ideia de cultura, pesadamente homogeneizada. Ela é condição de possibilidade de se desmassificar, “destampar” o vital da diversidade cultural, das culturas populares, do interior dos países (e seu conteúdo extremamente valioso do ponto de vista de uma metáfora daquilo que se tem dentro, que tem entranha, que tem conteúdo, em vez do superficial, ostentatório, distintivo ou apenas mercadológico da cultura de produção fordista para consumo de homens-massa).
Há uma razão sendo produzida nas redes, que não é apenas técnica nem puro vitalismo irracionalista, mas uma razão que vem da vida (de milhões de vidas de indivíduos eu-circunstâncias em rede), com um potencial enorme de trazer novos valores à tona. Se, como disse Ortega y Gasset no início do século XX, o sujeito é um eu-circunstância, devemos considerar a circunstância atual de intensa conectividade ponto a ponto. Nessa, não mais pela pedagogia social de minorias, mas pela exemplaridade da participação ponto a ponto, o homem-massa da sociedade massificada tem condições de se tornar um pós-homem-massa, desde que utilize as novas tecnologias para gerar autonomia, em vez de se utilizar dos mesmos para gerar heteronomia, homogeneização e consumo massificado.
O ambiente digital provoca, com suas possibilidades, o homem a fazer novas narrativas de si próprio, em termos de valores, propriedades, ideia de si e da sociedade etc. O digital é uma nova circunstância. Se o homem-massa é produto da era industrial que gerou o chamado “fenômeno do pleno”, o consumo em massa e a homogeneização da cultura, é preciso pensar se as mudanças tecnológicas do nosso tempo, com a emergência da internet e das redes também não dão condições para uma superação do problema criado pela relação desresponsabilizada do homem com os produtos da técnica daquela época, bárbaros a colherem seus produtos, como em estado de natureza. Conseguirão os sujeitos de hoje utilizar estes ambientes de rede de forma a gerar autonomia e sujeitos-redes, indivíduos-redes, eu-circunstâncias-redes, ou, ao contrário, o rearranjo do mercado conseguirá repor o quanto de elemento homogeneizador necessita para a sociedade continuar sendo massificada?
Jéferson Assumção é escritor gaúcho, autor de 17 livros, entre eles Máquina de Destruir Leitores (Sulina), O Mundo das Alternativas (Veraz) e A Vaca Azul é Ninja. Doutor em Filosofia pela Universidade de León, Espanha. Foi secretário municipal de cultura de Canoas-RS e coordenador-geral de Livro e Leitura do ministério da Cultura. Atualmente é diretor-geral e secretário adjunto de Cultura do Estado do Rio Grande do Sul. Mantém um blog.
Imagem: Bansky
sábado, 20 de outubro de 2012
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