terça-feira, 6 de novembro de 2012

Lutando pelo direito à vida: Orangotangos voltam-se contra agressores durante massacre na Indonésia - Por Patrícia Tai

Lutando pelo direito à vida: Orangotangos voltam-se contra agressores durante massacre na Indonésia
Orangotango preso em armadilha. As plantações de palmeiras são uma ameaça a espécies em extinção como orangotangos, elefantes e tigres. Foto: Caters News Agency / MailOnline
Após sofrer espancamentos e tiros, uma tribo de orangotangos reagiu e cercou um trabalhador de uma plantação de palmeiras, e esmurraram-no e deram-lhe mordidas até deixá-lo inconsciente. As informações são do Mailonline.
O dia em que os macacos contra-atacaram os seres humanos não deixou surpresos os conservacionistas na parte indonésia da Ilha de Bornéu – os animais vêm perdendo o seu habitat devido à exploração de madeira e às empresas de óleo de palma.
Orangotango ferido, sendo resgatado e retirado de seu habitat. Resgates estão em curso em uma pequena região florestal de Sumatra. Foto: Caters News Agency / MailOnline
Há alguns dias atrás, uma fêmea de orangotango foi encontrada gravemente ferida, com mais de 100 balas de pistola de “chumbinho” em seu corpo, e está sendo tratada. Outros foram espancados ou mortos a tiros.
A vingança contra os seres humanos aconteceu quando um homem identificado apenas como Kurnadi estava trabalhando em uma plantação de palmeiras.
Ninguém testemunhou o ataque, mas ele foi encontrado mais tarde por outro trabalhador, coberto de mordidas e contusões – ferimentos que pareciam ter sido causados por um grupo de orangotangos.
Orangotango é resgatada de floresta antes de tratores destruírem a sua casa.
Foto: Caters News Agency / MailOnline
Não sabemos quantos orangotangos foram envolvidos no ataque, mas é claro que não foi apenas um deles”, disse um funcionário da Agência local de Conservação do Governo.
O porta-voz, Hartono, acrescentou: “O homem foi gravemente ferido. Alguns de seus dedos estavam quase arrancados. Ele havia desmaiado depois de perder muito sangue. Parece que ele foi cercado por um grupo de orangotangos, mas o que não se sabe é se ele estava tentando tirá-los da plantação de palmeiras”.
Orangotango desolado assiste à destruição de sua casa. Foto: Caters News Agency / MailOnline
A Agência de Conservação tem arquivos sobre ataques chocantes a orangotangos, realizados por trabalhadores das plantações de palmeiras que agem sob comando de seus chefes, afirmando que os animais estão prejudicando as suas plantações.
Alguns dos macacos foram agredidos até a morte com facas, enquanto outros foram mortos a tiros ou fatalmente espancados com cassetetes.
No início deste ano, o Daily Mail revelou como conservacionistas chegaram em cima da hora para salvar uma mãe orangotango e seu bebê quando trabalhadores de uma plantação de palmeiras partiam para matá-los.
Então, nesta semana, veio a notícia angustiante do tiroteio no qual uma fêmea de orangotango ficou cega de um olho e perto da morte, quando foi encontrada pelos conservacionistas com mais de 100 tiros de “chumbinho”.
Foto da fêmea de orangotango que levou 100 tiros, sendo operada. Foto: Caters News Agency / MailOnline
Foto da fêmea de orangotango que levou 100 tiros, sendo operada. Foto: Caters News Agency / MailOnline
Ela está agora em recuperação em uma clínica, mas os ambientalistas ainda estão decidindo se ela pode ser liberada de volta à natureza ou se deverá ser mantida em cativeiro pelo resto de sua vida.
A Indonésia é o maior produtor mundial de óleo de palma e, enquanto os lucros das empresas crescem, as florestas que são a moradia dos orangotangos continuam a diminuir para abrir caminho para as plantações de palmeiras.
“O ataque ao trabalhador é, talvez, uma indicação de que o orangotango percebe que deve atacar para salvar seu habitat”, disse um ambientalista em Jacarta. “Isso não é algo que ouvimos falar com frequência”.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

As raízes do golpismo da direita brasileira – Por Emir Sader

As raízes do golpismo da direita brasileira
Até 1930 a direita brasileira dispunha a seu bel prazer do Estado, colocava-o totalmente a serviço dos interesses primário-exportadores, desconhecendo as necessidades das classes populares. Getúlio fez a brusca transição de um presidente – Washington Luiz, carioca adotado pela elite paulista, como FHC – que afirmava que “Questão social é questão de polícia”, para o reconhecimento dos direitos dos trabalhadores pelo Estado.

Com o surgimento da primeira grande corrente de caráter popular, a direita passou a ficar acuada. A democratização econômica e social foi seguida da democratização politica, com o processo eleitoral consagrando as candidaturas com apoio popular, Sucessivamente, em 1945, 1950, 1955, a direita foi derrotada e acostumou-se a bater na porta dos quarteis, pedindo golpe militar.

Sentido-se esmagada pelas derrotas, a direita chegou a pregar o voto qualitativo, em que, segundo eles, o voto de um médico ou de um engenheiro valeria 10, enquanto o de um trabalhador (“marmiteiro”, diziam eles, zombando dos trabalhadores que levavam marmitas pro trabalho) devia valer 1. Só assim poderiam ganhar.

A efêmera vitória de 1960, com a renúncia do Jânio, foi sucedida pela nova tentativa e golpe militar de 1961 e, logo depois, pelo golpe efetivamente realizado em 1964. Só pela força e pelo regime de terror a direita conseguiu triunfar e colocou em prática sua revanche contra o povo, pela repressão e pela expropriação dos direitos da grande maioria.

Foi no final da ditadura, com uma votação indireta, pelo Colégio Eleitoral, passando pela morte de Tancredo, que a direita deu continuidade a seus governos, agora com um híbrido de ditadura e de democracia, mas que favoreceu a eleição de Collor, outra versão da direita. Tal como Jânio, teve presidência efêmera.

O governo FHC foi a melhor expressão da direita, renovada, reciclada para a era neoliberal. Naqueles 8 anos a direita brasileira pode realizar seu programa, que terminou numa profunda e prolongada recessão e a derrota sucessiva da direita, por três vezes.

A direita repete, na Era Lula, os mesmos mecanismos da Era Getúlio. Enquanto os governos desenvolvem políticas econômicas e sociais que favorecem à grande maioria, recebem dela o apoio majoritário e derrotam sistematicamente a direita, resta a esta atividades golpistas. Se antes batiam às portas dos quartéis (eram chamadas de “vivandeiras de quartel”), agora usam a mídia para bater às portas do Judiciário.

São partidos e mídias cada vez mais minoritários, derrotados em 2002, em 2006, em 2010, voltaram a ser derrotadas agora em 2012. São governos que os derrotam com o apoio das grandes maiorias beneficiárias das suas políticas sociais. Quem não tem povo, apela para métodos golpistas, ontem com os militares e a mídia, hoje com a mídia e o Judiciário.

Máscara mortuária de José Serra - por Latuff

Máscara mortuária de declarado politicamente defunto em 28 de outubro de 2012

Fonte:  http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

“A pistolagem está instituída” - Por Beatriz Noronha

“A pistolagem está instituída”
Para Paulino Montejo, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, , a situação dos índios no Mato Grosso é o resultado de uma longa história de descaso do Estado brasileiro com os direitos indígenas
A recente decisão da justiça brasileira de obrigar um grupo de centenas de indígenas do povo Guarani-Kaiowá a deixar uma área de fazendas em Iguatemi, Mato Grosso do Sul, fez eco entre os participantes na VII Plataforma Ibase, realizada na semana passada em Vassouras. O evento reuniu ativistas de movimentos sociais do Brasil e do mundo para discutir uma agenda comum de luta diante dos novos desafios planetários. Paulino Montejo, assessor da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), esteve lá representando os indígenas e conversou com o Canal Ibase.
Para Montejo, a situação dos índios no Mato Grosso é o resultado de uma longa história de descaso do Estado brasileiro com os direitos indígenas. A Constituição de 1988 trata, em seu capítulo VIII, das questões indígenas, seus costumes e terras. De acordo com o parágrafo segundo deste capítulo, as terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se à sua posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes. O quinto parágrafo também estabelece que é vedada a remoção dos grupos indígenas de suas terras, salvo ad referendum do Congresso Nacional em caso de catástrofe ou epidemia que ponha em risco sua população, ou no interesse da soberania do país, após deliberação do Congresso Nacional, garantido, em qualquer hipótese, o retorno imediato logo que cesse o risco. “Mesmo com a legislação, os índios vêm sendo alvo de ameaças e violência. A lei do agronegócio em Mato Grosso, por exemplo, parece disputar importância com as vidas indígenas. Lá o caso é de violência extrema. Eles estão sendo atacados por todos os lados e isso é uma questão de todos nós”, disse Montejo.
Para o assessor, o efetivo cumprimento da lei de demarcação de terras evitaria recentes conflitos, poupando vidas – o que é imprescindível. “Se a Constituição de 88 que previa a demarcação de terras indígenas tivesse sido respeitada, a questão indígena agora estaria resolvida”, afirma.
Os índios Guarani-Kaiowá vivem conflito com produtores rurais pela disputa de terras que, de acordo com a Constituição Federal, há muito já deveriam ter sido demarcadas. O agronegócio tem influência no acirramento dos conflitos, já que as cadeias produtivas da soja e da cana possuem atividades em terras indígenas no Mato Grosso do Sul. Duas usinas no estado, São Fernando e Raízen, se comprometeram a não mais comprar a cana produzida em áreas indígenas. “Essa é uma medida de responsabilidade socioambiental empresarial que não resolve o problema, mas deve ser entendida como um primeiro passo no reconhecimento dos direitos indígenas pelo setor produtivo”, observou Montejo. Segundo o assessor da Apib, é urgente que usinas sucroalcooleiras, de biodiesel, traders e cerealistas adotem a mesma postura.
Em 2009 ocorreu a homologação da área de Arroio Korá. A região foi o destino de cerca de 700 Kaiowá. Em agosto, os Kaiowá conseguiram retomar essas terras. No entanto, a demarcação de Arroio Korá foi questionada na Justiça pelos fazendeiros – a decisão final sobre o processo está parada no Supremo Tribunal Federal. A retomada da terra Potrero Guasu, em outubro, também sofreu com o ataque de pistoleiros. Os índios em Mato Grosso do Sul já foram vítimas de agressões, violências físicas e simbólicas de toda ordem. Depois da retomada de terras em agosto, o acampamento indígena foi atacado por pistoleiros. Em entrevista gravada em vídeo, o fazendeiro Luis Carlos da Silva Vieira, conhecido como “Lenço Preto”, declarou que tomaria frente em “uma guerra contra os indígenas”.
A crise instalada hoje em Mato Grosso do Sul representa para a Apib uma situação de desrespeito do Estado de Direito. “A pistolagem está instituída e não há reação em direção ao desarmamento”, declara Montejo. O assessor chama atenção para um quadro real de etnocídio. Montejo se inquieta e se mexe algumas vezes na cadeira quando comenta que “as políticas públicas precisam pagar essa dívida histórica com os povos indígenas, e pagar pela inversão de direitos”. Reforça que os povos indígenas foram expulsos de suas terras e agora querem apenas reaver seus direitos, em especial o direito sagrado à terra.
comunidade indígena declarou que não sairá de suas terras, e se preciso for, permanecerá até a morte. Em carta, os indígenas falaram das condições desumanas a que estão submetidos, fruto da competição de terras com grandes produtores do agronegócio e de criação de gado. “A situação indígena em Mato Grosso do Sul é caso de direitos humanos, é da ordem do Estado, do judiciário, mas é também do cotidiano, da necessidade do desenvolvimento de uma solidariedade mútua”, disse Montejo. Para ele, falta uma sensibilização real da opinião pública, solidariedade e entendimento de um funcionamento orgânico da sociedade. “O que está em questão é a necessidade de reconhecimento. Não tem como um cidadão não perceber que o que está em curso é uma violação séria, de vida e de direitos de povos que historicamente são donos da terra”, exclama. “É preciso romper com o silêncio”, conclui.
Em nota no site da Secretaria Geral da Presidência da República, divulgada em 26 de outubro, o governo federal informou que “vem apoiando as comunidades indígenas através de ações de segurança alimentar, saúde, segurança pública e reconhecimento territorial através de seis Grupos de Trabalho que estão em campo”.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Eric Jonh Ernst Hobsbawm: valeu!* - por Diorge Alceno Konrad**

Eric Jonh Ernst Hobsbawm: valeu!*
Entreouvido na Vila Vudu:
“Como se aprende aí, não é de hoje que Tarso Genro obra para atrasar o avanço do comunismo...”
[pano rápido]
“Marx e Engels não inventaram o comunismo, mas as lutas revolucionárias do pós-1830 contra o capitalismo levaram os maiores intelectuais, do que viria a ser a filosofia da práxis, para dentro de seu movimento, com certa ajuda prática do alfaiate Wilhelm Weitling e teórica de Moses Hess, como bem disse Hobsbawm[3], mais ainda a “Liga dos Justos” transformada em Liga dos Comunistas, quando Marx e Engels “estavam nos cueiros” produzidos pelas tecelãs e operários fabris.”
Em primeiro lugar, estou preocupado com os usos e abusos da História, tanto na sociedade como na política, e com a compreensão, e espero, transformação do mundo
(Eric Hobsbawm, em Sobre História)
Primeiro de outubro de 2012, cerca de oito horas da manhã, recebo a notícia da morte de Eric Hobsbawm.

A sensação é como se algo muito importante fosse arrancado do cérebro, uma espécie de vazio intelectual. Ainda impactado, menos de uma hora depois escrevi a seguinte mensagem repassada às minhas listas de correio eletrônico:

Quem de nós? Quem de nós não leu afoitamente alguma outra obra deste grande historiador do século XX? A Era dos Extremos? A Era dos Impérios? A Era do Capital? A Era das Revoluções? Mundos do Trabalho? Os Trabalhadores? Sobre História? Como Mudar o Mundo – Marx e o Marxismo! Quem de nós não se encantou com a sua forma de narrar a História? Quem de nós não discordou ou concordou com alguma “sacada” teórica deste alexandrino, historiador do mundo? Para nós da História Social do Trabalho, aprendemos mais sobre os trabalhadores e o mundo do trabalho com Eric Hobsbawm! Para nós de Teoria da História, aprendemos muito com o “que a História tem a nos dizer sobre o mundo contemporâneo”, como ele escreveu no título de um dos seus artigos! Hobsbawm se foi, breve como o seu século XX.

Queria que meus alunos de “Teoria da História”, que estudam comigo os trabalhos de Hobsbawm, desde 1995, compartilhassem mais uma vez algo que tenho a dizer sobre ele e essa dialética entre o “tempo longo” e o “tempo breve”.

Eu o vi pela primeira vez em Porto Alegre, no início da década de 1990, no lotado “Auditório Dante Barone” da Assembléia Legislativa – palestrando em um português fluente – num Seminário sobre a Polis. No final, como autênticos tietes, eu e a historiadora Glaucia Konrad fomos pedir um autógrafo em A Era das Revoluções e A Era dos Impérios. Ao nos aproximarmos, ao final da conferência, parecia que o século XX estava à nossa frente. Ao ver os livros, o coordenador da mesa, Tarso Genro, disse que Hobsbawm estava muito cansado. Dissemos, porém, que só aceitaríamos ouvir isto dele. O historiador marxista, no entanto, foi extremamente gentil. Os livros continuam bem guardados … e com as honrosas dedicatórias.

Nesta passagem pela capital do Rio Grande do Sul, Hobsbawm teria ido ao Beira-Rio, acompanhado de um conselheiro do Internacional, Olívio Dutra. Falando da história de nosso time, o ex-prefeito e futuro governador teria reforçado a lenda sobre a origem do nome do Colorado, “fundado” por militantes anarquistas e homenageado em relação à organização mundial dos trabalhadores, formada por Karl Marx e outros em 1864. Hobsbawm teria dito: “Então, aqui em Porto Alegre, torço para o Internacional”.

Seria bom que esta invenção repetida por muitos torcedores colorados fosse verdade! Ao menos, em relação a Hobsbawm, seria uma referência da história do presente a um dos movimentos que ele tanto pesquisou, a relação dos trabalhadores com o futebol. Infelizmente, trata-se de uma “lenda urbana” para muitos dos rio-grandenses colorados como eu. Na introdução de um livro clássico, organizado com Terence Ranger, Hobsbawm afirmou que “não há lugar nem tempo investigado pelos historiadores onde não haja ocorrido a ‘invenção’ de tradições”. Ao menos me consola que Hobsbawm tenha dito também que o “estudo das invenções das tradições é INTERdisciplinar”.[1]

Como historiador em formação na década de 1980 deveria ter começado como muitos, lendo Hobsbawm pela sua trilogia das Eras, que se tornaria tetra após a Queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética. Não! Como pretenso marxista, comecei pelos volumes de História do Marxismo, gentilmente cedidos por meus mestres da graduação em História, Anamaria e Luiz Carlos Rodrigues. Quando fui presenteado por eles com um dos volumes, iniciei a saga para ter todos os outros organizados por Hobsbawm e lançados no Brasil pela Paz e Terra. Era como um adolescente dos dias de hoje à procura de Harry Potter ou O senhor dos anéis , e como estes, um leitor voraz do que ia chegando às minhas mãos, no tempo em que comprávamos com sacrifício qualquer livro por mais de mil e poucos cruzeiros.

Em História do Marxismo, aprendi com Hobsbawm, que o marxismo foi a “escola teórica que teve a maior influência prática (e as mais profundas raízes práticas) na história do mundo moderno”, além de ser um “método para, ao mesmo tempo, interpretar e mudar o mundo”[2], na mais profunda concepção já dita antes por Marx na décima primeira tese contra Feuerbach.

Numa academia essencialmente conservadora e oriunda da Ditadura, para quem como eu começou a graduação em 1985, as obras de Hobsbawm, como de Perry Anderson, Edgar Carone, Nelson Werneck Sodré, Caio Prado Jr. e poucos outros, eram ilhas para nossos combates pela História com H maiúsculo, para nossa militância estudantil e política. Enquanto os reacionários diziam que foram Marx e Engels que “inventaram” o comunismo e que este não passava de uma teoria equivocada e uma prática pior ainda, descobri com Hobsbawm que eles “chegaram relativamente tarde ao comunismo. Engels declarou-se comunista no fim de 1842, enquanto Marx provavelmente só o fez na segunda metade de 1843, após um acerto de contas mais complexo e prolongado com o liberalismo e a filosofia hegeliana”. Até hoje digo isso para meus alunos de Teoria da História: diferente do que muitos afirmam, Marx e Engels não inventaram o comunismo, mas as lutas revolucionárias do pós-1830 contra o capitalismo levaram os maiores intelectuais, do que viria a ser a filosofia da práxis, para dentro de seu movimento, com certa ajuda prática do alfaiate Wilhelm Weitling e teórica de Moses Hess, como bem disse Hobsbawm[3], mais ainda a “Liga dos Justos” transformada em Liga dos Comunistas, quando Marx e Engels “estavam nos cueiros” produzidos pelas tecelãs e operários fabris. O Manifesto do Partido Comunista, escrito a quatro mãos, a pedido da Liga, coroaria Marx e Engels no movimento que na teoria receberia o nome de marxismo e na política de comunismo.

Foi esta práxis que me levou a estudar o que Hobsbawm chamou mundos do trabalho. Queria saber no rincão que adotara, Santa Maria, a história dos trabalhadores. Com Glaucia, em 1987, começamos a pesquisar a greve de 1917 e os trabalhadores ferroviários, nosso exemplo local de proletariado de lutas. Não paramos mais, sempre com a historiografia de Hobsbawm presente, especialmente intrigado pelas suas provocações, e as de Georges Rudé em Capitão Swing, no qual Hobsbawm aborda os “fracassos” dos levantes sociais, se contrapondo a visões que apenas entendem o processo histórico como “realização negativa”. Ali, o historiador inglês defende a idéia de “fracasso não previsto”. Isto é, se alguém já soubesse da derrota previamente, tenderia a não entrar em uma luta. Um sábio ensinamento aos movimentos sociais e políticos revolucionários da atualidade, dado pelos trabalhadores ingleses que fizeram as revoltas rurais do início do século XIX, resgatados pela pesquisa do historiador no que chamou de “sucesso inesperado e imprevisível”[4], uma espécie de “a luta continua, companheiro!”.

Com Hobsbawm, vi que seria impensável ver a história local ou regional como se não fosse parte do processo histórico universal. Mais tarde veria que isso também veio de Marx e Engels. Assim, estudar os trabalhadores significava estudar uma classe e “a relação entre a situação em que tais classes se encontram na sociedade e a ‘consciência’, os modos de vida e os movimentos que elas geraram”. Estudar e compreender as classes não teria sentido se não também não entendêssemos que “a história de qualquer classe não pode ser escrita se a isolarmos de outras classes, dos Estados, instituições e ideias que fornecem sua estrutura, sua herança”.[5]

Antes disso, com os ensaios de Os Trabalhadores já havíamos visto com Hobsbawm que a história das “classes trabalhadoras” ia muito além de suas organizações e movimentos trabalhistas, quando o historiador estudou seus padrões de vida, a situação e as condições de trabalho nas fábricas, os costumes, os salários, a carga de trabalho e as tradições do “mundo do trabalho”. Mas, diferente de certos modismos culturalistas da história do trabalho, Hobsbawm nunca abandonou os movimentos e organizações dos trabalhadores, desde as revoltas camponesas, os “rebeldes primitivos” e os “bandidos”, passando pelos destruidores de máquinas, os sindicatos de trabalhadores e seus partidos políticos.[6]

Quase um século depois, bem o sabemos, Hobsbawm começaria a conhecer profundamente o processo histórico do que ele chamou de mundo moderno e contemporâneo, a sociedade burguesa, juntamente com as obras de Marx e Engels, elaboradas a partir do século XIX, e as lutas dos trabalhadores desde então, seja de resistência ao capital, seja pela revolução comunista.

Pois, quis a História, que Hobsbawm nascesse no ano da Revolução Soviética, um ano antes do centenário de Marx. Quis a História que Eric Hobsbawm se tornasse marxista e comunista, reconhecido em sua morte até pela mídia burguesa como um dos maiores intelectuais do século XX.

E não foram poucos os seus projetos. O que extrapolou o mundo da academia sintetizou, numa das mais profundas reflexões dialéticas do materialismo histórico, o entendimento do que chamamos tradicionalmente de mundo contemporâneo, de 1789 para cá. Nos títulos dos quatro volumes está implícito o verdadeiro intento de Hobsbawm, como bom marxista que era: entender o tempo das revoluções burguesas e o nascimento das lutas pelo socialismo; compreender a consolidação do capitalismo e, assim como Lênin, a sua fase superior, o imperialismo; estudar a essência da luta de classes no século XX, entre as crises do capitalismo e as primeiras experiências do socialismo, nos tempo dos extremos. Traduzido em mais de quarenta línguas, com em História Social do Jazz, sua escrita ganhou milhões de leitores, admiradores e seguidores, ávidos por qualquer obra sua lançada a público.

Hobsbawm sempre teve opinião e sobre quase tudo. E dentro do marxismo, mesmo quando debatia com seus interlocutores sobre o que disse Marx e o que ele e eles achavam que Marx teria dito, nos ensinava que se Marx disse algo, mais importante seria os que os marxistas de hoje devem dizer sobre o mundo e buscar em Marx seus erros e acertos. De certa forma, no artigo “A estrutura d’O Capital”, estabelecendo diálogo crítico com Althusser, escrito em 1966, no auge da influência deste filósofo pela Europa, Hobsbawm reforçou este ensinamento.[7] Em outro artigo, entretanto, Hobsbawm disse o fundamental sobre Marx: “Marx continua a ser a base essencial de todo estudo adequado de história, porque – até agora – apenas ele tentou formular uma abordagem metodológica da história como um todo, e considerar e explicar todo o processo da evolução social humana”.[8]

Recentemente, ao se pronunciar sobre a “primavera árabe”, comparando-a com as revoluções de 1848, tomei a liberdade, sempre temerosa, de criticá-lo sobre o que chamei de seu “desencanto” com o proletariado e o que Hobsbawm chamou de “esquerda tradicional”. Ali, disse que “Hobsbawm, pelas contribuições que já deu ao desenvolvimento da historiografia e na defesa do próprio marxismo, talvez mereça cada vez mais dos marxistas de hoje o que Marx e Engels fizeram com Bruno Bauer e consortes, uma crítica da crítica crítica, ou seja, uma síntese arrojada de sua obra para ver suas contribuições e seus limites”.[9] E, não tenhamos dúvida, ela foi grandiosa, me fazendo sempre lembrar de sua Estratégias para uma esquerda racional e a terceira parte da obra que ele chamou de recomeço.[10]

Seu último livro lançado no Brasil, em 2011, Como Mudar o Mundo. Marx e o Marxismo, 1840-2011, foi logo devorado por mim, com novos ensinamentos para prosseguir com Marx e o marxismo. Entre eles, ao escrever sobre o longo século XX e o trabalho, analisando as experiências socialistas, a crise atual do capitalismo e os defensores deste modo de produção e sua ideologia, Hobsbawm asseverou:

Paradoxalmente, ambos os lados têm interesse em voltar a um importante pensador cuja essência é a crítica do capitalismo e dos economistas que não perceberam aonde levaria a globalização capitalista, como ele [MARX] previra em 1848. (…) Mais uma vez, fica patente que, mesmo no intervalo entre grandes crises, o ‘mercado’ não tem nenhuma resposta para o principal problema com que se defronta o século XXI: o fato de que o crescimento econômico ilimitado e cada vez mais tecnológico, em busca de lucros insustentáveis, produz riqueza global, mas às custas de um fator de produção cada vez mais dispensável, o trabalho humano, e, talvez convenha acrescentar, dos recursos naturais do planeta. O liberalismo econômico e o liberalismo político, sozinhos ou combinados, não conseguem oferecer uma solução para os problemas do século XXI. Mais uma vez chegou a hora de levar Marx a sério.[11]

Quis também a História que Hobsbawm partisse no ano de criação de nosso blog marxismo21. Como o grande historiador que nos deixou, continuaremos levando Marx a sério, muito a sério. Valeu Eric John Ernest Hobsbawm!

Notas ao texto:* Este artigo é também uma homenagem a alguns mestres e orientadores que me fizeram conhecer melhor o grande historiador; em especial Anamaria Lopes Rodrigues e Luiz Carlos Bonotto Rodrigues, da UFSM; igualmente, Michael Mcdonald Hall (cheers, Michael!), da UNICAMP. Todos eles que me auxiliaram na passagem do século XX ao XXI, assim como Hobsbawm, acompanhado da sua reflexão historiográfica e na defesa de sua visão de História.

** Professor Adjunto do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em História da UFSM, Doutor em História Social do Trabalho pela UNICAMP.
[1] Cf. HOBSBAWM, Eric. Introdução. In. HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence (orgs.). A invenção das tradições. 2 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, p. 12 e 23. Inter em caixa alta é uma “licença poética” do autor.
[2] Ver HOBSBAWM, Eric (org.). Prefácio. História do marxismo. O marxismo no tempo de Marx. Vol. 1. 3 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983, p. 12.
[3] HOBSBAWM, Eric. Marx, Engels e o socialismo pré-marxiano. In. ________ (org.). Prefácio. História do marxismo. O marxismo no tempo de Marx. Vol. 1. 3 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983, p. 33.
[4] Cf. HOBSBAWM, Eric. Conseqüências. In. HOBSBAWM, Eric J.; RUDÉ, George. Capitão Swing: a expansão Capitalista e as revoltas rurais na Inglaterra no início do século XIX. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982, p. 279.
[5] HOBSBAWM, Eric (org.). Prefácio. In. ________. Mundos do trabalho. Novos estudos sobre história operária. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000, p. 11-12.
[6] Ver estas temáticas no Sumário e nos respectivos artigos de Os trabalhadores: Estudos sobre a história do operariado. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981. Cf. também Rebeldes primitivos. Estudo sobre as formas arcaicas dos movimentos sociais nos séculos XIX e XX. Rio de Janeiro: Zahar, 1970; Bandidos. 2 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1976.
[7] HOBSBAWM, Eric. A estrutura d’O Capital. In. HOBSBAWM, Eric J. Revolucionários. Ensaios contemporâneos. 3 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2003, p. 146-155.
[8] HOBSBAWM, Eric. Marx e a História. In. ________. Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
[9] Cf. KONRAD, Diorge Alceno Konrad. Necessária Crítica da Crítica Crítica a Eric Hobsbawm. In. Portal Vermelho. Publicado em 31 de dez. de 2011. Disponível em: http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=4477&id_coluna=14. Acesso em: 2 out. 2012.
[10] HOBSBAWM, Eric. Estratégias para uma esquerda racional, Escritos políticos, 1977-1988. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.
[11] Ver: HOBSBAWM, Eric. Marx e o trabalhismo: o longo século. In. ________. Como Mudar o Mundo. Marx e o Marxismo, 1840-2011. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 375.
Fonte: http://grupobeatrice.blogspot.com.br/

Hesse e o segredo de Buda

Hesse e o segredo de Buda

Passaram-se 90 anos desde a publicação de Sidarta. O pequeno romance – que Hermann Hesse começou a escrever no inverno de 1919 – nascia como reação à guerra e às suas devastações. Há muito tempo, na sua mente, havia se assomado a ideia de que a Europa era uma civilização em declínio.

A reportagem é de Antonio Gnoli, publicada no jornal La Repubblica, 02-09-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Alguns anos antes, o escritor havia feito uma viagem à Índia, que teve o sabor da iniciação e do afastamento da Europa: "Eu fugia dela e quase a odiava, a Europa, com o seu gosto grosseiro, com o seu barulho de feira de interior, com a sua inquietação sem fôlego, com a sua ânsia áspera e impassível de g ozar", escreveu ele em um ensaio que agora vem à tona – juntamente com uma pequena coleção de cartas, de trechos de diário e de outras contribuição – como apêndice a uma nova edição de Sidarta, publicada no dia 5 de setembro pela editora Adelphi (na bela tradução de Massimo Mila).

Completar o livro não foi simples. Uma crise muito severa havia secado a veia narrativa. A esposa, doente da mente e trancada em um manicômio, a pobreza cada vez mais insidiosa, a separação dos filhos contribuíram para aumentar a precariedade do escritor. Foram necessários mais de dois anos para que Hesse completasse a sua "lenda indiana".

E, em 1922, quando o romance saiu, a acolhida não foi emocionante. Ele comunicou a Romain Rolland a decepção por causa dos amigos mais próximos que se calavam e acrescentou que não tinha ouvido da crítica nos jornais "nada mais até agora do que expressões de respeitoso embaraço". Pode-se entender a reação desfavorável a um livro incomum que, com os olhos de um europeu, contava a Índia através da Índia.

Há muito tempo sabemos que existem livros nascidos para marcar a estação de uma vida. Que borrifam com as suas próprias tramas simples a imaginação de uma era ainda não adulta nem formada. As suas páginas são vividas com ainda mais intensidade quanto mais forte for o desconforto daqueles que se agarram a elas como a um objeto de culto e de salvação.

Sidarta desenvolveria excelentemente a tarefa de arrastar almas incertas a mundos envoltos no sonho oriental. Com o tempo, de fato, esse relato – de tons às vezes fabulísticos e ligeiramente cautelares – conquistaria à sua própria causa literária dezenas de milhões de leitores. Onde estava o seu fascínio?

Hesse escreveu uma história sem pretensões especulativas. Qualquer pessoa que tivesse lido a vida de Sidarta captaria a determinação com que o jovem filho de um brâmane buscava a sua própria estrada sem compromissos. O inquieto Sidarta desejava uma iniciação à vida e à verdade. No começo, ele queria se tornar um sâmana, um asceta cujas práticas místicas o ajudariam a despersonalizar seu próprio ser, a criar aquele vazio interior, condição necessária para assumir qualquer nova forma que o mundo lhe oferecia: a de uma garça-real ou de um chacal, de uma pedra ou de uma madeira, da fome ou da sede.

"Muito aprendeu Sidarta com os sâmanas, muitos caminhos aprendeu a percorrer para sair do próprio eu", escreveu Hesse. Mas ao jovem, dotado de grande inteligência e sensibilidade, não bastava o ensinamento das artes dos sâmanas. Naquele tempo, uma figura circulava e fazia prosélitos: era o Buda. E quando Sidarta o encontrou o reconheceu imediatamente: "Eu o vi, um homenzinho simples, de amarelo cozido, que caminhava tranquilo com a sua tigela nas mãos para as esmolas".

Sidarta – diferentemente do amigo Govinda – não quis se converter às ideias do novo mestre. E, embora admirasse a calma e a força, e apreciasse a sua doutrina compassiva, algo o impedia de abraçar a sua fé. Não que as palavras do Buda soassem falsas. Ao contrário. Mas ele misteriosamente sabia que devia continuar a viagem, "não para procurar uma outra doutrina melhor, pois não há nenhuma, mas sim para abandonar todas as doutrinas e todos os mestres e alcançar sozinho a minha meta ou morrer", disse Sidarta.

A verdade, explica Hesse, não é o fruto de uma doutrina que um mestre transmite ao aluno, não é um saber codificado e aprendido. Mas sim uma predisposição da alma, um olhar livre e perdido dirigido ao pr óprio interior. É isso que Sidarta, também nisso diferentemente de Govinda, intui. Ele sabe que a viagem é mais importante do que a meta, e que se perder, ou se desviar da estrada reta, é igualmente necessário para se reencontrar.

O encontro com Kamala, a prostituta pela qual ele se apaixona, e o sucesso nos negócios que lhe sorri nos negócios arrastam, aparentemente, Sidarta a um turbilhão de brutais sensações. Na realidade, mesmo o mais ignóbil dos comportamentos faz parte de um projeto misterioso: "Ele tinha que descer ao mundo, perder-se no prazer e no poder, nas mulheres e no ouro, ele tinha que se tornar um mercador, um jogador de dados, um bêbado e um avarento, para que o sacerdote e o sâmana nele fossem mortos".
Hesse nos mostra as etapas de um redespertar e o caminho para alcançar a sabedoria. Que não é comunicável nem transmissível. Aporta -se nela na alternância da dor e do prazer, da queda e do renascimento, do samsara e do nirvana, da ilusão e da verdade: "De toda a verdade, o contrário também é verdadeiro", sentencia Sidarta.

E a verdade não é o fruto de uma doutrina, por mais nobre que possa ser, como a ensinada pelo Buda. A verdade – que indica com o próprio exemplo o barqueiro Vasudeva – era o acordo da própria voz com a voz do rio. Com a água que o compõe. E ela não é um princípio, não é um conceito, mas sim uma pura superfície sobre a qual se reflete a mente de Sidarta. A verdade que ele busca não é o logos ocidental: é a fluida a plenitude da mente que o rio encheu. Foi a mensagem que obscuramente milhões de leitores retiraram do livro.

Depois do Nobel, ganho em 1946, e os reconhecimentos de Thomas Mann, Stefan Zweig, Hugo Ball (equilib rados pelas críticas mordazes de Gottfried Benn), Hesse se tornou, relutantemente, um guru, uma fonte de iluminação espiritual, o testemunho de uma sabedoria vivida com sinceridade. Foi assim que Sidarta acabou na mochila daqueles jovens que, nos anos 1960, empreenderam a sua viagem de conhecimento ao Oriente. Uma moda que se espalhou da América à Europa": cúmplices foram a música, as drogas e uma vaga adesão ao misticismo.

Caravanas de jovens partiram à descoberta da Índia com a bênção dos poetas da Geração Beat e de algumas canções agradáveis. As palavras que Sidarta lhes havia ensinado – como tratamento contra as neuroses, a alienação, a agressividade – não estavam nos outros livros. Aquele sincero entusiasmo raramente foi tocado pela dúvida de que uma civilização, por mais que se possa amá-la, ainda assim é distante, difícil de penetrar e refratária aos entusiasmos fáceis.

Surpreendentemente, o herege Sidarta se tornou a mais adocicada realização do "super-homem" nietzscheano: com ele reviveram a morte e o renascimento de todos os valores. Acredito que aqui reside o mais sugestivo segredo do sucesso: ensinar a transgressão e a submissão. Fazer conviver o desvio e a norma. Aceitar a vida mudando o seu sentido.

Olhando bem, Sidarta foi o primeiro de uma infinita série de livros "pedagógicos", destinados a cuidar das nossas almas. Mesmo que hoje a Índia, senhora minha, não seja mais a de antigamente.
Postado: JHOLLAND

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Uma população esquecida: 2012, a primavera sangrenta em São Paulo - Por Ronan

Uma população esquecida: 2012, a primavera sangrenta em São Paulo
O fato de um dos responsáveis pelo massacre do Carandiru, homem que responde por mais de 70 mortes, ter sido promovido a comandante da ROTA, elucida tudo. Por Ronan
A gestão de qualquer área ou instituição depende de uma série de acordos. Seja uma penitenciária, escola, manicômio ou centro cultural, há sempre uma previsão sobre como as coisas ocorrerão. Não se trata puramente de acordos explícitos. Na maioria dos casos o que ocorre é um acordo tácito, algo dado sem ser dito, sobre quais são as regras do jogo, como agirão os protagonistas. A atual guerra particular entre policiais e criminosos em São Paulo faz recordar essa observação básica. Se de uma hora para outra há um surto de violência, tendemos a especular sobre o que mudou nos procedimentos que envolvem a gestão da segurança pública e que servem para manter a relação entre policiais e bandidos num nível menos sangrento e mais racional.
Nem mesmo os jornalistas que cobrem a área, cheios de informantes e dados que os comuns não possuem, não conseguiram chegar a um entendimento exato do que se passa hoje. O governo Alckmin se recusa a dar esclarecimentos dignos desse nome, cobre os fatos com retóricas do dia, algumas tão estapafúrdias, que o governador chegou a declarar que o PCC [Primeiro Comando da Capital] era uma lenda. Apesar disso, a guerra segue e os efeitos são nefastos para toda a população. Um dado que explicita que há uma guerra particular com a polícia é que, diferentemente dos ataques do PCC de 2006, os agentes penitenciários não foram inclusos no alvo dos criminosos. Embora sejam muito mais fáceis de serem atingidos, não são eles o foco. Também não estão sendo atacados bombeiros, nem forças municipais. O que evidencia que não é um quadro de enfrentamento do Estado em si, mas um conflito realmente focado e com motivações circunstanciais.
Diante do que dispomos é preciso pontuar que o atual cenário está ligado ao fato de homens truculentos da polícia militar terem chegado ao alto escalão da segurança pública, o que levou à ascensão da ROTA (Rondas Ostensivas Tobias Aguiar) e à apologia de uma política mais letal, isso tudo num contexto de policialização da política (coronéis como subprefeitos de 30 das 31 subprefeituras, militares eleitos como vereadores). O atual secretário de segurança, Antônio Ferreira Pinto, principal dos secretários de Serra a prosseguir no governo Alckmin, é homem de carreira da polícia militar e abertamente defensor de métodos duros. Conforme André Caramante, sua assunção do cargo significou uma centralidade para a ROTA na estratégia de controle das ruas. Houve promoção de homens que, ou são diretamente da ROTA, ou possuem ligação estreita com a mesma e com o ideário que ela representa. O fato de um dos responsáveis pelo massacre do Carandiru, homem que responde por mais de 70 mortes, ter sido promovido a comandante da ROTA, elucida tudo.
Um quadro como esse nos faria supor que, com tantos homens duros no comando, a criminalidade esteja, enfim, recuando. Ao contrário da retórica dos durões, nem uma palha sequer foi movida na economia criminal. Os pontos de venda de drogas permanecem funcionando, com o devido pagamento aos policiais, o Estado está recheado de bares com máquinas caça-níqueis, o jogo do bicho tem tanta liberdade que já cobra com máquinas eletrônicas, os bingos e casas de jogos clandestinos pipocam por toda São Paulo, permanecem os roubos de carros, roubos em restaurantes, assaltos a condomínios, assaltos a carros fortes, assaltos a empresas de transporte de valores, explosão de caixas eletrônicos e roubo de cargas. A situação é tal que uma carga da Apple de 3,9 milhões de reais foi levada do aeroporto de Campinas num dia em que havia operação especial da polícia na cidade. Em muitos dos crimes há comprovada participação de policiais, ou como homens de ação ou como recebedores de propina.
Se a economia criminal não foi tocada em nada, qual a razão da primavera sangrenta, o que a justifica? Foram mais de 85 policiais mortos até agora, a maioria fora do serviço. A quantidade de criminosos mortos é bem maior e de civis vitimados também. Acompanhando pelos jornais, a guerra começou depois que a ROTA passou a emboscar criminosos, assassinando-os em sequência (não se sabe qual o critério de seleção). Com dados colhidos via investigação e bandidos cooptados, descobrem um plano de assalto, uma reunião de bandidos e os emboscam, levando-os à morte. Diante da fatalidade da morte, sem oportunidade do processo legal, os criminosos começaram a reagir e iniciou-se a matança de policiais. Toda uma guerra foi deflagrada por conta da aplicação de métodos particulares, inconstitucionais e sangrentos, caros a um batalhão da polícia e apoiados pelo secretário. Com a explosão dos homicídios, sem resultados efetivos quanto à queda da criminalidade, a população está pagando um preço muito alto para atender aos preceitos de uma parcela da PM. Talvez à visão particular de uns poucos.
A guerra, como não poderia deixar de ser, tem resultado em danos para a população, expectadora e vítima dos acontecimentos. A polícia, obviamente, não prende nem assassina os mais de 40 milhões que vivem no Estado de São Paulo, mas de acordo com a forma como atua impõe maior ou menor medo aos populares. Iniciada a guerra, virou padrão que logo após o assassinato de um policial ocorram vários homicídios na localidade em que o militar foi morto. Policiais à paisana, em carros, em motos, alguns encapuzados, saem logo em seguida matando pessoas para vingar a morte do colega tombado. Nesse processo, não são poucos os civis vitimados, logo taxados como bandidos pela mídia apressada e cínica. Quem não leva tiro tem a liberdade tolhida. Quando não há toque de recolher imposto pelos policiais, a própria sensação de medo se encarrega de manter todos em casa. Em vários cantos, basta estar em um bar depois de certas horas para se tornar um possível alvo.
Até o momento, o atual secretário de segurança, Antônio Ferreira Pinto, ficou imune às críticas e notícias veiculadas pelos jornais. Ao contrário, a queda veio do lado dos críticos. Um jornalista da Folha de São Paulo, André Caramante, foi obrigado a se exilar do país por conta das ameaças recebidas depois que publicou matéria a respeito da truculência do Coronel Telhada no Facebook – há mesmo todo um debate feito nos bastidores sobre se o governador não se tornou refém do secretário herdado de Serra e da ala dura que o cerca. Se um jornalista da Folha de São Paulo é obrigado a se exilar, podemos imaginar o que ocorre com o jovem da periferia que encara a brutalidade policial fora dos holofotes.
O caso tem servido, dentre outras coisas, para demonstrar na prática como os freios constitucionais contra a violência policial não funcionam no Estado de São Paulo. Defensoria pública, conselho tutelar, ouvidorias, nenhuma das instituições tem servido para parar a guerra que vitima pessoas alheias e amedronta a todos. São nas redes sociais, nos bares, nos bairros (quando há), nas organizações de vítimas da violência militar e nos saraus que se tem buscado dar uma resposta para a primavera sangrenta. No geral, como em tantas outras coisas, o povo teve que se virar e vai criando estratégias para sobreviver: voltando junto do trabalho, não saindo depois de tal horário, evitando dadas localidades.
Deve-se chamar a atenção para a forma como grossa parte da esquerda, meio artístico e intelectual, praticamente fugiu do assunto, fazendo de conta que não há uma guerra, com muitos inocentes vitimados e toda uma população afetada. De uma parte isto se deve ao distanciamento quanto ao cotidiano dos comuns, de outro, há mesmo certo elitismo que só pronuncia a palavra ditadura quando a vítima era um quadro, pessoa que ia ser alguém na vida. Mas, também, há o caso infeliz de a guerra se passar em ano eleitoral e o cabresto partidário da esquerda evitar que ela se pronuncie para não ser associada pelos opositores com o crime, não correr o risco de ser acusada de defender bandidos. Diante dos interesses eleitorais desta esquerda, os populares ficaram, mais uma vez, sozinhos.

Razões e estratégias do Ecossocialismo – Por Michael Löwy

Razões e estratégias do Ecossocialismo
Michael Löwy explica por que proposta diverge do “socialismo real”, vai além do ambientalismo e precisa de vitórias parciais
Por Michael Löwy | Imagem: Marc Chagall, Os Amantes de Vence (detalhe)
O famoso marxista italiano Antonio Gramsci dizia que o revolucionário socialista deve combinar o pessimismo da razão com o otimismo da vontade. Desse modo, dividirei em duas partes este artigo que discute as alternativas de desenvolvimento para superar o modelo produtivista-consumista. Em primeiro lugar, tratarei do pessimismo da razão: as coisas vão mal. E, em seguida, do otimismo da vontade: quem sabe, elas podem mudar, e um caminho para isso é o do ecossocialismo.
A primeira parte discorre, portanto, sobre o pessimismo da razão. Simplesmente somos obrigados a constatar que o atual modelo de desenvolvimento do capitalismo industrial moderno, particularmente em sua variante neoliberal, baseada no produtivismo e no consumismo, está conduzindo a humanidade – e não o planeta – a uma catástrofe ecológica ou ambiental sem precedentes em sua história.
Por que digo “a humanidade” e não “o planeta”? Porque o planeta, qualquer que seja o estrago que façamos, vai continuar tranquilo, girando. Ele não será atingido. Quem será afetada pelo desastre ecológico será a vida no planeta, serão as espécies vivas, dentre elas a nossa, o Homo sapiens. Esse é o âmago do problema, que serve para evitar discussões um pouco abstratas, como “temos que salvar o planeta”.
Porém, não é o planeta que está em perigo, somos nós e as outras espécies vivas. Isso porque a lógica atual do sistema, de expansão e crescimento ao infinito, e o atual modelo de desenvolvimento, que segue a lógica do produtivismo e do consumismo, conduzem, inexoravelmente – e independentemente da boa ou da má vontade de empresários ou governos – à degradação do meio ambiente e à destruição da natureza.
Isso se manifesta em vários aspectos, como no desaparecimento de algumas espécies. Já se calcula que, com o business as usual, como diz a expressão americana, daqui a algumas dezenas de anos não vão mais existir os peixes. São espécies que existem há milhões de anos e que a humanidade consome há dezenas de milhares de anos. E já estão desaparecendo.
Outro aspecto importante é o envenenamento, por meio da poluição, do ar das cidades, da terra, do solo, dos rios, do mar, ou seja, a degradação dos equilíbrios ecológicos. Uma série de aspectos que vão se acumulando, e, com todos esses elementos, o sinal vai passando do amarelo para o vermelho. No entanto, o mais grave de todos esses aspectos da destruição do meio ambiente e dos desequilíbrios ecológicos, o mais ameaçador e inquietante, é a mudança climática ou o aquecimento global.
Não farei aqui uma análise científica disso, suponho que já seja de conhecimento geral. A emissão de gases a partir da queima dos combustíveis fósseis (carvão, petróleo, gás) e sua acumulação na atmosfera produzem o efeito estufa e o aquecimento global. Esse processo, a partir de certo nível de aquecimento, por volta de dois ou três graus a mais, vai conhecer uma espécie de aceleração e crescimento descontrolado que pode chegar a quatro, cinco, seis ou mais graus. E o que vai acontecer com isso?
No livro Six Degrees: Our Future on Hotter Planet (Seis Graus: nosso futuro em um planeta mais quente), o especialista inglês Mark Lynas descreve como será o planeta quando a temperatura subir seis graus. Segundo ele, se compararmos o inferno de Dante com o planeta com seis graus a mais, o inferno de Dante vai parecer um passeio de fim de semana. O autor analisa as consequências disso, como o desaparecimento da água potável e a desertificação, dois fenômenos que estão interligados. Alguns pesquisadores já calcularam que o deserto do Saara pode atravessar o Mediterrâneo e chegar à Europa, às portas de Roma, dentro de uma longa lista de outros desastres.
Outro aspecto ainda mais inquietante é a subida do nível do mar, que resulta do derretimento do gelo dos Polos Norte e Sul, em particular da Groenlândia, um gelo que não está sobre a água, mas sim em cima da terra. Já se calculou que, se o nível do mar subir poucos metros — um, dois ou três —, várias das principais cidades da civilização humana, como Londres, Amsterdã, Hong Kong, Rio de Janeiro, ficarão debaixo d’água. Também boa parte do que é a orla marítima dos países desaparecerá. E o que acontece se derreter todo o gelo que está no Polo Norte e no Polo Sul? O mar pode subir até setenta metros, para se ter uma ideia da magnitude da ameaça.
Obviamente, isso não vai acontecer na próxima semana, mas esse processo de aquecimento global e de derretimento dos gelos está se acelerando. Há alguns anos, os especialistas diziam que esses processos estavam previstos para 2100, ou seja, para o fim do século XXI. Portanto, atingiria nossos bisnetos que ainda não nasceram, e precisamos pensar neles. Só que normalmente as pessoas não se preocupam com o que vai acontecer com os bisnetos que ainda não nasceram, não é uma prioridade. No entanto, os trabalhos mais avançados dos cientistas, os mais recentes, apontam para processos irreversíveis do aumento de temperatura, com todas as suas consequências, já nas próximas décadas, antes de 2100. Ninguém pode dizer se será daqui a vinte, trinta, quarenta ou cinquenta anos, mas a coisa está muito mais próxima.
Um exemplo disso são os escritos do cientista americano James Hansen, o principal climatólogo dos Estados Unidos, que trabalha para a NASA, e que não é um homem de esquerda, não tem nada a ver com o marxismo. Hansen é um cientista que há alguns anos vem tocando o sinal de alarme, mas durante o governo do presidente George W. Bush tentaram proibi-lo de falar. Mandaram para ele um recado dizendo que ele era um funcionário do governo americano e que o que ele estava dizendo sobre o perigo do aquecimento global não era a linha do governo, o qual considera tudo isso uma bobagem. Pediam, por favor, que ele calasse a boca, e, mais que isso, afirmavam que estava proibido de falar.
Um acontecimento sem precedente desde Galileu, quando a Inquisição ordenou a ele que não deveria dizer que a Terra se mexe, que estava proibido pela Igreja Católica. Desde essa época, não houve caso tão absurdo de um governo proibir um cientista de se manifestar. Obviamente ele não obedeceu, continua a protestar e a escrever sobre isso e é respeitado mundialmente como um grande climatólogo.
Ele afirma que o processo está se acelerando e que é uma questão de décadas. E os especialistas do gelo — os glaciólogos, que vão para o Polo Norte e para o Polo Sul e medem e calculam esses fenômenos — dizem que não estão entendendo nada do que está acontecendo. Está tudo indo muito mais depressa do que eles pensavam. Em 2010, fizeram um cálculo de como o gelo estava derretendo e, em 2011, viram que o cálculo estava errado, que o modelo utilizado não estava funcionando, que estava indo muito mais rápido. Portanto, são questões científicas e políticas que têm a ver com o futuro da humanidade.
De quem é a culpa dessa ameaça sem precedentes na história da humanidade? Os geólogos calculam que há 60 milhões de anos houve um processo de aquecimento global que matou quase tudo o que existia no planeta. Depois levou algumas dezenas de milhões de anos para a vida voltar ao planeta. Mas, desde que existe a humanidade, nunca existiu nada parecido, é algo sem precedentes. Os cientistas dizem que é culpa do ser humano, que o aquecimento global é resultado da ação humana. Os geólogos dizem que estamos entrando em uma nova era geológica chamada Antropoceno. Isto é, uma era geológica em que a situação do planeta, o clima, depende da ação humana e está sendo transformada por ela.
Essa explicação é cientificamente correta, mas eu diria que é um pouco limitada politicamente. Isso porque a humanidade já vive no planeta há algumas dezenas de milhares de anos, desde que apareceu o Homo sapiens, e o problema do aquecimento global, essa acumulação de gases na atmosfera, vem da Revolução Industrial. Começou em meados do século XVIII, quando esses gases foram se acumulando, e se intensificou enormemente nas últimas décadas, as décadas da globalização capitalista neoliberal. Portanto, o culpado dessa história não é o ser humano em geral, mas um modelo específico de desenvolvimento econômico, industrial, moderno, capitalista, globalizado, neoliberal: esse é o responsável pela atual crise ecológica e pela ameaça que pesa sobre a humanidade.
Quais são as soluções que propõem os representantes da ordem estabelecida? Há uma proposta que é a seguinte: as energias fósseis são as responsáveis pelo problema, por isso, vamos substituí-las por formas de energia limpas, que não produzem gases, e são seguras, como a energia nuclear. Está aí uma solução técnica e fácil para o problema: construir usinas nucleares. Isso foi feito em grande escala nas últimas décadas. Em 1986, houve um incidente desagradável, em Chernobyl, na União Soviética. Cientistas calculam que as vítimas de Chernobyl que foram morrendo no curso dos anos, resultado das irradiações, chegam a 800 mil mortos — mais do que todos os mortos de Hiroshima e Nagasaki, por decorrência da bomba atômica. O argumento dos responsáveis pela energia nuclear era de que isso aconteceu na União Soviética, um país totalitário, burocrático, com tecnologia e gestão atrasadas; no ocidente, com empresas privadas, isso não aconteceria. Esse discurso foi repetido muitas vezes até que ocorreu o acidente de Fukushima, no Japão, em 2011. A empresa responsável pela usina, Tokyo Electric Power Company (TEPCO), é a maior empresa privada de eletricidade do mundo. É a mais esplêndida manifestação do capitalismo privado no terreno da energia nuclear. Desse modo, fica claro que essa não é uma alternativa aos combustíveis fósseis, temos que procurar outras.
Há alguns anos, na época Bush, vazou para a imprensa um documento secreto do Pentágono sobre a questão do aquecimento global. O governo dizia que esse problema não existia, mas os cientistas do Pentágono sabiam que sim. Apresentaram um documento prevendo o que iriam fazer se o aquecimento global escapasse de qualquer controle e chegasse a seis graus, e a vida humana se tornasse impossível no planeta. Era uma possibilidade considerada pelos cientistas do Pentágono. A única proposta que conseguiram elaborar foi a de mandar um foguete para o planeta Marte. Eles inclusive detalham quem estaria nesse foguete: o presidente dos Estados Unidos, o Estado Maior do Exército, cientistas etc. Como não estamos convidados para essa viagem, não nos interessa a proposta. Esse é apenas um exemplo do tipo de solução considerada.
Obviamente, há tentativas mais sérias de solução, como a ideia de que precisamos desenvolver energias alternativas: hidrelétrica, eólica e solar. Com exceção da hidrelétrica, que já tem um desenvolvimento importante, em países como o Brasil, as outras são pouco desenvolvidas. E por uma razão bem simples: são menos rentáveis do que o petróleo e o carvão. Por isso, não interessa às empresas e aos Estados, com algumas exceções, investir maciçamente nessas energias. Em alguns países, chega a 10% o índice de energia produzida por fontes alternativas, mas o resto continua com o carvão e o petróleo. Seria necessária uma mudança em grande escala, acabar com os combustíveis fósseis e desenvolver energias alternativas. Por enquanto, nenhum governo está fazendo isso, embora os cientistas já tenham dado o recado: se não mudarmos drasticamente o padrão de matriz energética, nos próximos dez ou vinte anos a situação fugirá do controle. É uma questão de rentabilidade — que é o que conta — e de competitividade.
Outra tentativa mais interessante por parte dos governos foram os Acordos de Kyoto. Eles têm alguns aspectos positivos no sentido de serem acordos em que os governos se empenham em reduzir as emissões de gás. Só que isso não funcionou, por várias razões, dentre as quais o método utilizado, que é o mercado dos direitos de emissão, que não poderia conduzir a uma efetiva redução. Mesmo que o objetivo de Kyoto tenha sido muito pequeno — reduzir em 8% as emissões, enquanto os cientistas estão dizendo que precisamos reduzir em 40% nos próximos anos —, ele não foi alcançado. Além disso, os principais poluidores, os Estados Unidos, não assinaram Kyoto. E o país que está aparecendo como o segundo colocado nas emissões, a China, tampouco assinou.
Houve uma conferência em Copenhague, em 2009, para discutir esses problemas e o que fazer com as ameaças do aquecimento global. Os Estados Unidos utilizaram o argumento de que, embora sejam os maiores responsáveis pelas emissões de gases poluentes, a China está emitindo tanto quanto eles, e, se esse país não fizer nada, não serão eles que tomarão a iniciativa. A isso o governo chinês respondeu, com certa razão, que os Estados Unidos vêm emitindo gases há um século, têm uma responsabilidade histórica. Só agora que os chineses iniciaram, portanto, os Estados Unidos é que deveriam começar a reduzir suas emissões. Só depois disso, a China poderia discutir esse assunto. Ou seja, cada um jogou a peteca para o outro. E os governos europeus disseram que se os Estados Unidos e a China, que são os principais emissores, não fazem nada, não serão eles, os europeus, que irão resolver o problema. Dessa forma, todos os governos chegaram ao acordo de que era urgente não fazer nada, cada um com seus argumentos. O resultado da conferência de Copenhague foi praticamente zero. Isso ilustra, entre outras coisas, o poder da oligarquia fóssil, ou seja, os interesses do carvão, do petróleo, da indústria automobilística, enfim, de todo esse complexo gigantesco de que dependem as energias fósseis, que não tem a mínima vontade de mudar a matriz energética.
Outra coisa que se deve dizer é que mesmo se as energias fósseis fossem substituídas pelas energias renováveis, estas também têm seus probleminhas, como os impactos socioambientais da energia hidrelétrica. Portanto, é uma ilusão achar que é só uma questão técnica, de mudar a matriz energética, embora isso seja fundamental. De qualquer maneira, teremos de reduzir significativamente o consumo de energia e, consequentemente, a produção econômica e o consumo. O desenvolvimento alternativo ao produtivismo e ao consumismo implica uma redução da produção e do consumo, a começar pelos países capitalistas avançados, evidentemente, que são os principais responsáveis e os maiores produtivistas e consumistas.
Até aqui vai o pessimismo da razão. Agora, vamos começar com o otimismo da vontade, senão fica muito triste essa história. Vou iniciar com Copenhague, onde houve a conferência oficial, que não decidiu nada, mas que também foi palco de um protesto. Saíram às ruas 100 mil pessoas da Dinamarca e da Europa, protestando contra essa inércia das potências capitalistas, levando como palavra de ordem principal: “change the system, not the climate”, ou seja, “mudemos o sistema, não o clima” — o sistema capitalista, evidentemente. Essa é a esperança, a de uma luta por transformação sistêmica, por alternativas radicais. Radical vem do latim radix, que significa raiz. Se a raiz do problema é o sistema capitalista industrial, moderno, globalizado, neoliberal, então devemos atacar a raiz do problema. Essas seriam, portanto, as alternativas radicais pós-capitalistas. Aqui vem a proposta do ecossocialismo.
Por que ecossocialismo? Em que se distingue do socialismo tradicional? O ecossocialismo é uma crítica, por um lado, do socialismo não ecológico, que foi a experiência fracassada soviética e de outros países, que do ponto de vista ecológico não representou nenhuma alternativa ao modelo ocidental. Pelo contrário, tratou de copiar o modelo produtivo do capitalismo ocidental. Ecossocialismo é uma crítica desse socialismo — ou pseudossocialismo — não ecológico, soviético, etc.
Por outro lado, é uma crítica à ecologia não socialista, que acha que podemos ter um modelo alternativo de desenvolvimento nos quadros do capitalismo, do mercado capitalista. Do ponto de vista ecossocialista, achamos que isso é uma ilusão, pela própria dinâmica de expansão necessária ao capitalismo, de crescimento, que leva necessariamente a uma colisão com a natureza e com os equilíbrios ecológicos. O capitalismo sem crescimento, sem competição feroz entre empresas e países pelos mercados, é impossível e inimaginável. Temos no ecossocialismo, desse modo, uma crítica ao ecologismo de mercado.
É uma crítica também, ou autocrítica, a certas concepções tradicionais na esquerda em geral, e no marxismo em particular, sobre o que é uma transformação socialista. Há uma visão clássica de que é preciso mudar as relações de produção — propriedade coletiva, em vez da privada — para permitir que as forças produtivas se desenvolvam, já que as relações de produção são um obstáculo ao livre desenvolvimento das forças produtivas. Mas não passa por aí. Primeiro, porque não é possível o desenvolvimento ilimitado das forças produtivas. E, em segundo lugar, porque pensar em uma transformação e em um modelo alternativo de desenvolvimento implica questionar não só as formas de propriedade e as relações de produção, mas as próprias forças produtivas, o próprio aparelho produtivo.
Esse aparelho produtivo, criado pelo capitalismo ocidental, industrial, moderno, é incompatível com a preservação do meio ambiente, por sua matriz energética e por sua forma de funcionamento, que inclui o agronegócio, o uso de pesticidas, entre toda uma série de características que mostram que esse aparelho produtivo não serve. Temos que pensar em uma profunda transformação, não só das relações de produção, mas do aparelho produtivo.
Mas não é só isso: precisamos pensar em uma transformação do padrão de consumo. É insustentável o padrão de consumo do capitalismo moderno. Isso significa que seria necessária uma redução do consumo, mas para quem? Nem todo mundo tem que apertar o cinto, não é bem assim. Primeiro, é uma questão de desigualdade social. O consumo é dez ou cem vezes maior nos países avançados. Eles são os primeiros que têm que começar essa mudança. Segundo, há uma diferença enorme entre o consumo ostentatório das elites dominantes e o consumo das classes populares: uns comem feijão e milho e outros compram iates enormes, helicópteros, etc. Não é a mesma coisa. Não é o que come milho que vai ter que comer menos milho. É o que compra palácios de luxo que vai ter que reduzir drasticamente seu consumo ostentatório.
Além disso, existe no capitalismo algo que se chama obsolescência planificada dos objetos de consumo. Dentro do capitalismo, os objetos de consumo já têm, em sua própria concepção, sua obsolescência prevista para o mais rápido possível. Todo mundo sabe que a geladeira de quarenta anos atrás durava quarenta anos, e as geladeiras de agora duram três anos. Isso é necessário: para o capital vender mais e mais geladeiras, produzir mais e mais, precisa ter uma duração muito menor. É parte do padrão produtivista e consumista, e também precisa ser modificado.
Precisamos, portanto, de mudanças nas formas de propriedade, no aparelho produtivo, no padrão de consumo, no padrão de transporte. O atual modelo, baseado no carro individual para as pessoas e no caminhão para as mercadorias, é insustentável, até porque depende do petróleo. Por isso, precisamos pensar no desenvolvimento do transporte coletivo, no trem em vez do caminhão, entre outras medidas. Tudo isso vai configurando uma mudança bastante radical no padrão de civilização. Na verdade, a proposta ecossocialista, de um novo modelo de desenvolvimento mais além do produtivismo e do consumismo, coloca em questão o paradigma da civilização capitalista ocidental, industrial, moderna. É uma proposta bastante profunda. Precisamos pensar em um novo padrão de civilização, baseado em outras formas de produzir, consumir e viver. Essa é a discussão que está colocada.
É uma proposta revolucionária, mas talvez a revolução tenha que ser redefinida. Gosto muito de citar uma frase de Walter Benjamin. Em suas Teses sobre o conceito de história, ele diz: “Nós, marxistas, temos o hábito de dizer que as revoluções são a locomotiva da história. Mas talvez a coisa seja um pouco diferente. Talvez as revoluções sejam a humanidade puxando os freios de emergência para parar o trem.” É uma imagem bastante atual. Hoje em dia, somos todos passageiros de um trem, que é a civilização capitalista, industrial, ocidental, moderna. Esse trem está indo, com uma rapidez crescente, em direção ao abismo. Lá na frente há um buraco que se chama aquecimento global ou crise ecológica. Não se sabe a quantos anos de distância se encontra esse abismo, mas ele está lá. Portanto, a questão é parar esse trem suicida e mudar de direção. É o desafio colocado pela proposta ecossocialista.
Agora, muitos dirão, com razão, que é uma proposta simpática e até interessante, mas e daí, como é que vamos daqui até lá? Não basta ter uma bela utopia. Acho que temos que partir da ideia de que o ecossocialismo é algo para um futuro imaginário, mas que devemos começar aqui e agora. Começando, modestamente, com movimentações, lutas, em função da busca de alternativas. Essas alternativas já estão se construindo em movimentos, experiências e lutas atuais.
Um exemplo de uma luta desse gênero, de um brasileiro que é para mim o precursor do ecossocialismo: Chico Mendes, um socialista confesso e convicto, e ecológico. Chico Mendes organizou a Aliança dos Povos da Floresta para defender a floresta como patrimônio comum dos povos indígenas e camponeses, patrimônio do povo brasileiro em seu conjunto, e também da humanidade. A defesa da floresta é uma causa do conjunto da humanidade porque, como se sabe, as florestas — em particular a Amazônia — são os chamados “poços de carbono” que absorvem os gases que estão na atmosfera. Se não houvesse essas florestas tropicais, o processo de aquecimento global já teria escapado de qualquer controle e já estaríamos no meio da catástrofe. O que ainda breca um pouco o processo são as florestas tropicais. Na Aliança dos Povos da Floresta, Chico Mendes fez um primeiro movimento em direção ao ecossocialismo, com a ideia de propriedade comum, bem comum dos povos, bem comum da humanidade.
No Fórum Social Mundial de Belém, em 2009, por exemplo, houve uma convergência interessante entre movimentos indígenas, camponeses, ecologistas, de mulheres, entre outros, em torno de uma exigência concreta em relação à Amazônia, ao Brasil, ao Peru e a todos os países amazônicos: desmatamento zero já. É uma exigência imediata, que tem a ver com a perspectiva de salvar a floresta tropical.
Outro exemplo interessante na América Latina é o que se deu recentemente no Equador, onde há um governo de esquerda, o do presidente Rafael Correa. Nesse país, há uma região com um grande território de floresta tropical, onde vivem comunidades indígenas, chamada Parque Yasuní. Para desgraça dos indígenas, descobriram petróleo nessas terras. As multinacionais foram correndo para lá, pedindo autorização para cortar a mata e extrair petróleo. Os indígenas resistiram, protestaram, o protesto foi apoiado pela sociedade civil, pela opinião pública, pelos ecologistas, pela esquerda. O governo, que é progressista, aceitou a proposta dos indígenas e fez a proposição de deixar esse petróleo debaixo da terra, mas pedir aos governos dos países ricos, do Norte, que os indenizem em pelo menos metade do valor desse petróleo. Porque os países do Norte, da Europa, estão dizendo que querem reduzir a emissão de gases, e a melhor maneira de reduzir a emissão de gases é não queimar o petróleo e deixá-lo debaixo da terra.
Essa é a proposta para o Parque Yasuní. Há atualmente uma negociação entre o governo do Equador e outros governos, e pelo menos um deles — o da Noruega — prometeu dar o dinheiro. Já é uma vitória e um exemplo para outros países, como a Indonésia, onde já está havendo mobilizações nesse sentido.
Mencionei a manifestação de Copenhague, que também é um exemplo de esperança, de otimismo da vontade, com 100 mil pessoas nas ruas exigindo a mudança do sistema. E essa mobilização teve continuidade. De todos os governos que estavam em Copenhague, só um se solidarizou com o protesto, o governo da Bolívia. Evo Morales saiu da conferência e foi falar com os manifestantes, dizendo que eles tinham razão. E ele convocou, depois, uma conferência na Bolívia, em Cochabamba, chamada Conferência dos Povos contra o Aquecimento Global e em Defesa da Mãe Terra, que foi um evento importante, com a participação de 30 mil delegados de movimentos sociais, indígenas, camponeses, representantes da ecologia urbana, de sindicatos, de organizações de mulheres, etc. A partir daí se lançou uma campanha internacional. Esse tipo de mobilização e luta é a esperança de que a coisa possa mudar. Em cima dessas experiências é que podemos investir nosso otimismo da vontade.
Michael Löwy é sociólogo, filósofo e diretor emérito de pesquisas em Ciências Sociais no Centro Nacional de Pesquisas Científicas, da França (CNRS). É coautor, como Joel Kovel, do Manifesto Internacional Ecossocialista.
Este texto é a conferência de abertura do Seminário Abong 20 anos, intitulada “Uma nova concepção de desenvolvimento – Para superar o modelo produtivista-consumista”.
Imagem: Marc Chagall, Os Amantes de Vence (detalhe)
Fonte:http://www.outraspalavras.net/