sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A catraca: uma questão estética - por Legume Lucas

A catraca: uma questão estética
Da defesa de um morador de rua para que queimássemos a catraca dentro do terminal pude concluir que a estética do MPL de fato o transcendeu, inserindo-se nas releituras que a população faz da realidade. Por Legume Lucas
Participei na semana retrasada da oitava semana de luta pelo Passe Livre. Na manifestação deste ano em lembrança ao dia nacional do passe livre, dia 26 de outubro, me dediquei apenas a uma tarefa: carregar e proteger a catraca, o símbolo do MPL. Em São Paulo temos, há alguns anos, uma catraca de ônibus comprada em um ferro velho. Como cuidador da catraca, eu, com ajuda de outros militantes, tive que: enrolá-la com jornal e gase, comprar o querosene, carregá-la durante o ato, jogar e por fogo nela. Enquanto os militantes mais novos organizavam o jogral, negociavam com a polícia, cuidavam do trajeto, panfletavam, pude fazer reflexões sobre as mudanças e incorporação de significados que este símbolo provocou dentro do coletivo e para os paulistanos que conhecem de longe ou de perto as manifestações pelo Passe Livre.

Primeiro foi a dimensão simbólica da data. Por que fazemos atos no 26 de outubro? Esta data foi uma escolha do movimento, o limite dado para a aprovação do projeto de lei de passe livre estudantil em 2004 na cidade de Florianópolis. Deste ponto de vista, pouco importa que a lei tenha sido aprovada no dia 4 de novembro. Foi no 26 de outubro que se cercou a câmara dos vereadores em uma noite chuvosa, obrigando-os a sair em camburões da polícia debaixo de muitas ovadas. O vídeo sobre a primeira Revolta da Catraca foi amplamente utilizado nas atividades em escolas feitas pelo MPL-SP e é estranho pensar que boa parte dos militantes de hoje nunca o assistiram.
Segundo, foi o estranhamento ao ouvi-los dizer que precisávamos queimar a catraca no dia 26 porque era o nosso símbolo. Pensando um pouco, era de fato um símbolo criado por nós mesmos. Depois da plenária nacional que estabeleceu a data oficial de luta pensamos – no finado grupo de trabalho nacional – que seria interessante ter algo que unificasse as manifestações, e para tanto foi sugerida a queima da catraca, algo simples de fazer nas diversas cidades.
Já tínhamos um primeiro símbolo do movimento, o Zé Catraca, e a imagem foi amplamente difundida pelas revoltas em Florianópolis (2004 e 2005). Tão forte ficou a imagem que era comum ver outros grupos e agremiações partidárias tentarem se utilizar dele para ganhar adeptos, a União da Juventude Socialista, UJS, por exemplo, utilizou-o em suas mobilizações com o objetivo de filiar 100 mil pessoas. Naquele momento todos os partidos de esquerda procuravam associar sua imagem às revoltas por transporte coletivo ocorridas em todo país. Tentavam apropriar-se da simbologia criada pelas mobilizações sociais, dando um sentido inverso a estas, uma vez que as revoltas que originaram o MPL foram marcadas por uma forte oposição à atuação partidarizada, pelo repúdio ao aparelhamento e pela tentativa de construir uma participação horizontal.
A oposição ao modelo tradicional de esquerda era uma construção política e estética. Tanto que em São Paulo as camisetas do movimento eram apenas pretas ou brancas, recusávamos fazer outras cores, especialmente o vermelho, por entendermos que assim nos desassociávamos da simbologia de uma determinada esquerda. A estética do movimento era marcada também pelo tipo de material produzido. Nossos panfletos tinham gravuras, dobras, espaços em branco, fontes que procuravam diferenciar-se do mar de panfletos distribuídos, deixar com uma “cara do MPL” e ao mesmo tempo construir textos novos, com uma linguagem direta, portanto distante dos jargões de esquerda que para nós deviam ser abandonados.
A estética das manifestações com camisetas brancas e pretas foi claramente rompida em 2010-2011. Talvez porque já estávamos consolidados como movimento claramente diferenciado da esquerda tradicional, optamos por uma explosão de cores nas camisetas e jovens com camisetas azuis, roxas, cinza, rosa, laranja, brancas, verdes e até vermelhas encheram as ruas de São Paulo. A própria catraca queimando foi incorporada às novas camisetas. A criação de uma nova estampa passou por um processo longo de discussão em reuniões, pela criação de diversas versões, para por fim se incorporar o novo símbolo criado às camisetas. Ainda assim não são poucos os militantes, mesmo entre os mais novos, que acham o “Zé Catraca muito mais bonito”. É interessante constatar que embora os diversos coletivos do MPL tenham criado camisetas novas, com estampas diversificadas, desenhos elaborados, pessoas pulando a catraca, nenhuma fez um sucesso similar à original. A quebra da catraca por uma pessoa qualquer tem muita força.
A preocupação estética do movimento era e é representada em suas manifestações – a ausência da bandeiras, a recusa ao carro de som e a presença da bateria são marcas claras. Neste aspecto fica nítida a herança dos movimentos de resistência global. Ao construirmos uma manifestação horizontal, que permite a criação de discursos variados, não uniformizados por um microfone, possibilitamos o diálogo direto com a população, a conversa, a crítica. Não à toa tais manifestações costumam crescer quando caminhamos. A bateria foi criada como uma forma de animar e agitar a manifestação, criando nela um espaço cultural. A dificuldade evidente era não sermos músicos profissionais, então precisávamos encaixar os ensaios em dinâmicas já agitadas de vida e militância. Também contávamos com intervenções “artísticas”, ainda que pontuais, como o pastor contra as catracas e o exército de palhaços. Foi assim uma renovação estética das manifestações urbanas da esquerda.
Neste 26 de outubro de 2012 ficou clara uma outra renovação estética das manifestações ou, pelo menos, uma continuidade criativa. A presença da Fanfarra do Movimento Autônomo Libertário – que conta com militantes do MPL mas é um grupo independente, com agenda e atividades próprias – propiciou a audição de música com sopros, ousando ir além dos instrumentos de percussão tradicionalmente utilizados em manifestações. Nas palavras de um militante, “é melhor do que muito show por aí”. Inovação maior foi a presença do grupo teatral Servos da Catraca. A prática teatral dialogou diretamente com a manifestação, propondo dinâmicas e interações em momentos chave como a Secretaria de Transportes e o Terminal do Parque D. Pedro. Na primeira a manifestação chegava e eles já paravam a rua; o imponente Barão Catraca, perante aqueles baderneiros, declarava seu desprezo pela manifestação – afinal estavam na Secretaria, lugar de poder dos empresários de transporte. Na segunda ocasião o Barão já estava derrotado e era obrigado a assistir à queima de seu amor, a catraca. A união dos símbolos já constituídos e das novas práticas culturais deu-se em frente ao maior terminal urbano da América Latina, reforçando a perspectiva de construção do transporte a partir dos usuários, que naquele momento teriam derrotado os empresários de transporte.
Para além de minhas especulações estéticas sobre a queima da catraca e o diálogo estabelecido com a população, pude – ao ficar cuidando da catraca que precisava esfriar depois de ser queimada– estabelecer uma conversa direta com um morador de rua que acompanhou nossa chegada ao terminal. Ele defendia para mim que queimássemos novamente a catraca, desta vez dentro do terminal. Pude concluir que a estética do MPL de fato o transcendeu, inserindo-se nas releituras que a população faz da realidade.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Só o PCC ameaça São Paulo? – por Antonio Martins

Só o PCC ameaça São Paulo?
Paraisópolis, Zona Sul, um dos bairros mais atingidos pelas ações da polícia: 37 presos (7 menores) em dois dias

Breve dossiê revela: onda de assassinatos que apavora Estado foi iniciada e radicalizada pela PM.
Governo Alckmin omite-se. Mídia silencia

I.
Ao descrever, num ensaio recente (breve em português, em Outras Palavras), a situação tormentosa vivida pela Grécia, o jornalista Paul Mason, da BBC, recorre à história da Alemanha, às portas do nazismo. Só uma sucessão de erros crassos, mostra ele, pôde permitir que Hitler chegasse ao poder. Mas havia algo sórdido por trás destes enganos. Embora não fosse conscientemente partidária do terror, a maior parte das elites alemãs desejava o autoritarismo, pois já não conseguia tolerar o ambiente democrático da república de Weimar.

As circunstâncias são distintas: não há risco de fascismo no cenário brasileiro atual. Mas é inevitável lembrar de Mason, e de sua observação sobre a aristocracia alemã, quando se analisa a espiral de violência que atormenta São Paulo há cinco meses. Em guerra com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), parte da Polícia Militar está envolvida numa onda de assassinatos que já fez dezenas de vítimas, elevou em quase 100% o índice de homicídios no Estado e aterroriza as periferias.

Pior: a escalada foi iniciada (e é mantida e aprofundada) por integrantes da própria PM, a força que deveria garantir a segurança e o cumprimento da lei no Estado. Mas apesar de inúmeras evidências, o governo do Estado não age para refrear tal atitude. E a mídia omite, ao tratar da onda de mortes, a participação e responsabilidade evidentes da polícia. É como se tivessem interesse em manter, em São Paulo, um corpo armado, imune à lei e ao olhar da opinião pública, capaz de se impor à sociedade e diretamente subordinado a um governador cujos laços com a direita conservadora são nítidos.

Para ocultar o papel de parte da PM na avalanche de brutalidade, a mídia criou um padrão de cobertura. As mortes de autoria do PCC são noticiadas, corretamente, como assassinatos de PMs. Informa-se que o número de crimes deste tipo cresce de modo acelerado — já são 90 vítimas, este ano. Mas se associa a insegurança que passou a dominar o Estado apenas a estes atos. Também informa-se sobre parte das mortes praticadas pela PM — seria impossível escondê-las por completo. No entanto, aceita-se, sempre sem investigação jornalística alguma, a versão da polícia: morreram “em confronto”, depois de terem reagido.

Este estratagema permite silenciar sobre três fatos essenciais e gravíssimos: a) parte da PM abandonou seu compromisso com a lei e a ordem pública e passou a agir à moda de um grupo criminoso, colocando em risco a população e a grande maioria dos próprios policiais, honestos e interessados em cumprir seu papel; b) diante desta subversão do papel da PM, o comando da corporação e o governo do Estado estão, ao menos, omissos; c) procura-se preservar este estado, evitando, recorrentemente, caracterizar a atitude do setor criminoso da polícia e, muito menos, puni-lo.

II.
Algumas iniciativas permitiram, nos últimos dias, começar a quebrar a cortina de silêncios e omissões. O jornalista Bob Fernandes, editor-chefe do Terra Magazine, sustentou, num comentário corajoso, em noticiário da TV Gazeta, que havia algo além do crime organizado, por trás da onda de assassinatos. “Rompeu-se um pacto entre polícia militar e PCC”, frisou Fernandes — e atribuiu a esta ruptura tanto a “guerra” entre os dois grupos como a espiral de morte que se seguiu.

Criminosos matam de um lado? Vem a resposta: alguns, quase sempre em motos, com munição de uso exclusivo de forças policiais, dão o troco e também matam.”

A fala do editor do Terra Magazine teve o mérito de romper o consenso que a mídia fabricava, até então, em torno de uma explicação inconsistente. Mas a que se referiria ele, ao mencionar, em linguagem quase enigmática, a ruptura de um pacto?

Uma das pistas, para encontrar a resposta, é seguir o fio da meada da onda criminosa. Quando ela teria começado? Por quais motivos? Entre o final de maio e o presente, os jornais estão fartos de notícias sobre os assassinatos, sempre no padrão descrito acima. Mas não é difícil encontrar um ponto de inflexão, o momento a partir do qual o cenário se transforma.

Ele situa-se precisamente em 29 de maio. Nesta data, quando ainda não adotava a confirmação sem checagem das versões da Polícia Militar, O Estado de S. Paulo registra um massacre. Seis pessoas foram mortas pela ROTA, uma unidade da PM conhecida pela truculência. Estavam num estacionamento, próximo à favela da Taquatira, Zona Leste da capital. Foram vítimas de um comando constituído por 26 policiais. A própria PM afirmou, na ocasião, que eram integrantes do PCC. Alegou-se que estariam reunidas (num estacionamento?) para “traçar um plano de resgate de um preso”. Segundo as primeiras versões, teriam “atirado contra os policiais”. Apesar de numerosas (segundo a PM, 14 pessoas, das quais três foram capturadas e cinco fugiram), e “fortemente armadas”, nenhum soldado sequer se feriu.

Esta versão fantasiosa foi desmentida logo em seguida. Pouco depois da ação policial, um dos mortos “em confronto” seria executado a sangue frio, por parte dos PMs que haviam participado da operação. Os assassinos agiram em pleno acostamento da rodovia Ayrton Senna, e em área habitada. Uma testemunha presenciou o crime e o denunciou, enquanto acontecia, pelo telefone 190. A sensação de impunidade dos assassinos levou-os a ser fotografados pela próprias câmeras de vigilância da estrada. Nove dos 26 policiais foram presos, horas depois. Destes, seis foram soltos em dois dias. Três — apenas os que teriam praticado diretamente a execução — permaneceram detidos. Não é possível encontrar, nos jornais, informações sobre sua situação atual.

Atingido, o PCC reagiu recorrendo, embora em escala limitada, ao método que marcou sua atuação em 2006. Na região de Cidade Tiradentes, uma das mais pobres da cidade e local de moradia de um dos mortos, o grupo obrigou a população a um toque de recolher no dia do enterro do comparsa, 31 de maio. Tiveram de fechar as portas, entre outras, as escolas municipais Adoniran Barbosa e Wladimir Herzog… Mas, também repetindo o que fizera em 2006, a facção não se limitou a isso. Começaria, logo em seguida, a longa série de assassinatos de policiais militares.

No ano passado, 47 PMs paulistas foram mortos, em serviço ou suas folgas. Não é um número excepcional, para uma corporação que reúne quase 100 mil soldados, exerce atividade de risco e vive sob tensão permanente (o índice anual de suicídios é muito próximo ao das vítimas de homicídio). Em 2012, tudo mudou. Até o incidente fatídico de 29/5, haviam sido contabilizadas 29 mortes de PMs — pouco acima da média registrada no ano anterior. Entre 29/5 e 4/11, os ataques disparam. São 61 novos assassinatos, em apenas cinco meses. Há casos dramáticos: uma policial morta diante de sua filha; um garoto assassinado apenas por ser filho de policial, ocasiões em que as próprias bases da PM são atacadas. Inúmeros relatos narram a situação de pânico vivida por milhares de soldados honestos, cuja vida foi subitamente colocada em risco numa “guerra” provocada por uma minoria.

Mas aos poucos — e aqui começa um dos pontos mais obscuros de todo o episódio –, a PM parece inclinar-se em favor de sua banda violenta. Além de ter provocado o PCC à luta no final de maio, num ataque cujo caráter criminoso está demonstrado, a polícia paulista empenhou-se, nos meses seguintes, em tornar a disputa cada vez mais sangrenta e mais letal para a população civil.
Alguns episódios são emblemáticos desta tendência e da barbárie produzida por ela. Em 10 de outubro, por exemplo, um soldado de 36 anos foi executado em Taboão da Serra, oeste da Grande São Paulo. Dois homens dispararam seis tiros em seu corpo. Nas horas seguintes, no mesmo município, nove pessoas foram assassinadas. Duas delas foram vítimas da ROTA — execuções, segundo testemunhas. As sete outras, em circunstâncias nunca esclarecidas, mas muito assemelhadas às descritas por Bob Fernandes, em seu comentário recente. Poucos dias antes, na Baixada Santista, um outro episódio, em condições muito semelhantes, deixou, em cinco dias, um rastro de quinze mortos. Em nenhum destes casos houve investigações sobre o comportamento dos policiais — nem por parte de seus pares, nem da mídia…

A esta altura é perturbador, porém inevitável, traçar um paralelo. Radicalizar ao máximo a guerra contra o PCC; afogar o “inimigo” em sangue, sem se importar com o risco de atingir a população como um todo, foi a estratégia que prevaleceu na PM em 2006, quando a força enfrentou pela primeira vez o grupo criminoso. Entre 12 e 20 de maio daquele ano, mais de 500 pessoas foram assassinadas em chacinas e execuções na capital, região metropolitana, interior e litoral de São Paulo. A grande maioria não tinha relação alguma com o PCC, como denunciam, desde então, as Mães de Maio. Adotou-se aparentemente a ideia de que deflagrar terror indiscriminado contra a população forçaria o grupo criminoso a recuar, temeroso de perder apoio de suas bases sociais.

III.
Um personagem destacado é comum aos episódios de 2006 e aos de hoje: o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Não estava diretamente à frente do Palácio dos Bandeirantes, durante a primeira rebelião do PCC (deixara o posto um mês antes, para concorrer à presidência da República). Mas havia governado o Estado nos seis anos anteriores e executara uma política de segurança considerada ao mesmo tempo brutal e ineficiente. Sua ligação com os acontecimentos ficou patente ao abandonar, de modo abrupto, uma entrevista em que jornalistas britânicos (ao contrário da grande mídia brasileira) questionaram-no sobre o ocorrido.

Apontado como membro da organização ultra-direitista Opus Dei, até mesmo por integrantes de seu partido (o PSDB), Alckmin é visto, por parte da elite brasileira, como uma liderança importante a preservar. As declarações que tem dado, desde maio, em favor das posições mais belicosas e agressivas, no interior da PM, são eloquentes.

Falta muito a apurar, na trilha tenebrosa e caótica para a qual descambou a segurança (?) pública em São Paulo, desde maio. Por que, após uma tentativa fugaz de investigar ações ilegais e criminosas de parte de seus integrantes, a PM desistiu do esforço? Que levou a imprensa — que também denunciou a truculência, num primeiro momento — a silenciar e a repetir, desde junho, uma versão insustentável? Um setor de policiais especialmente violento terá conseguido impor sua postura? De que forma estarão envolvidos o governador e a imprensa?

O certo é que, para interromper a escalada sangrenta, a sociedade precisa agir — o quanto antes.

           

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Mensalão nada, o nome é Seculão. Ou Permanentão. Ou Desdessemprão – por Observar e Absorver

Mensalão nada, o nome é Seculão. Ou Permanentão. Ou Desdessemprão

A marionete política, o cidadão comum na hora de folga, cabeça feita. O hospital público que parece uma cadeia, a escola pública em ruínas. A meia altura, do lado esquerdo, alguns "revolucionários" fazem barulho, sem nenhum efeito, afastados da massa abaixo da corrente pesada da escravidão contemporânea. Estas correntes são muito bem feitas de mentiras e sua força depende de o quanto acreditamos nelas. Tomar consciência é um permanente romper correntes.

Tenho uma desagradável sensação quando ouço falarem do tal mensalão, revelado por um fascínora às vésperas do próprio julgamento, pra tumultuar tudo e minimizar ao máximo os próprios danos. No que, aliás, foi muito bem sucedido, tá lá ele na lista dos deputados federais, depois de um período de férias forçadas em suas fazendas. As "revelações" excitaram a mídia, que evitou investigar a fundo pra não aparecer o próprio rabo e os dos seus aliados na política e no poder econômico. É evidente que houve corrupção, mas essa corrupção não se resume ao mensalão. É a prática parlamentar, desde que o parlamento foi criado. A mídia falar tão repetidamente, martelando jargões como slogans publicitários, batendo claramente na administração petista, é parte de uma campanha visando diminuir o capital eleitoral do PT e aliados. Desmoralizar os desafetos. Política partidária do pior nível, feita pela mídia, com publicidade pesada exercida pelo que apresentam como "jornalismo". Uma disputa pela gerência, nada mais, pois o patrão é o poder econômico, grandes bancos nacionais, mas sobretudo internacionais, e mega-empresas nacionais, mas sobretudo idem. E a mídia joga do lado do PSDB, mais elitista, privatista geral,  servidor das elites estrangeiras, mais linha dura com os pobres, sobretudo os que se organizam. Estes recebem os títulos de baderneiros, vândalos e terroristas. E são implacavelmente atacados pelas forças de segurança toda vez que algum interesse empresarial está em jogo, com o apoio do judiciário na criminalização dos movimentos sociais. O chamado mensalão é a parte forte da campanha, descaradamente utilizado no período eleitoral, para favorecer os peessedebistas contra os petistas. O buraco, no entanto, é bem mais embaixo. 

Protógenes Queiroz, o delegado que prendeu o banqueiro envolvido na compra do congresso pra mudar a constituição e reeleger o presidente (além de vários outros crimes envolvendo enormes cifras), entrou com ordem de busca e apreensão na casa do banqueiro e encontrou um fundo falso no armário. Dentro, um disco rígido continha informações sobre as movimentações financeiras do Opportunity, banco sediado nas ilhas Cayman e pertencente ao dito banqueiro. Esse disco foi estudado por Protógenes e guardado em sigilo pela Polícia Federal. Depois a justiça requereu e guardou essa fonte de informações, sem jamais revelar o seu conteúdo. Mino Carta, jornalista e dono da revista semanal "Carta Capital", pergunta a Paulo Lacerda, chefe de Protógenes na Operação Chacal, da Polícia Federal, e na Satyagraha, que levou ao banqueiro. Reproduzo as palavras de Mino:

"Por que o mensalão petista vai ao tribunal antes daqueles tucanos que o precederam? E por que Daniel Dantas (banqueiro dono do Opportunity), que esteve por trás de todos, não está no banco dos réus? Por que as operações policiais que desnudaram seus crimes adernaram miseravelmente? Por que o disco rígido do Opportunity, sequestrado pela Polícia Federal durante a Operação Chacal e entregue ao STF, nunca foi aberto? No fim de 2005 dirigi esta pergunta ao então diretor da PF, Paulo Lacerda, na presença de Luiz Gonzaga Belluzzo e Sergio Lirio. O delegado, anos depois desterrado para Portugal, respondeu: ‘Se abrirem, a República acaba’."

Acaba, por quê? Porquê vem à tona a prática cotidiana de compra do congresso nacional? Acho que o que aparece é a inexistência da república. Da democracia. Porque nunca houve, foi sempre uma fachada, desde que se instaurou a democracia, a república e mesmo a independência, que escondia a dependência econômica, política, cultural e militar das potências estrangeiras da época. As chamadas instituições democráticas estão postas sob controle desde sua criação. O que está acontecendo é o começo de um despertamento. Informações que nunca estiveram disponíveis estão sendo conhecidas, notícias que jamais são transmitidas pela mídia privada circulam na internet, pra todo lado. O que vai acontecer, não dá pra saber. Mas que vai acontecer, vai. Já tá acontecendo, divagazim...

Protógenes se elegeu pelo PC do B de São Paulo, apesar de ser de Niterói, e luta por uma CPI da Privataria Tucana, com base no livro de mesmo nome que denuncia, com provas documentais ocupando metade das páginas, as falcatruas nas “vendas” das empresas públicas mais ricas e rentáveis à ganância dos mega-empresários, propinas, compras de parlamentares, promiscuidade público-privada pura. Luta solitária e sem frutos. A política institucional foi esterilizada, não funciona e foi regulamentada pra não funcionar. A não ser em benefício dos privilegiados donos do poder, os financiadores das campanhas eleitorais, que é a grande feira de políticos. Os que não se enquadram nos costumes, se conseguem furar o bloqueio e se elegem por um furo da estrutura, são isolados nos parlamentos, não conseguem aprovar – ou mesmo apresentar em tribuna – a maior parte dos seus projetos. E nos executivos são cercados pela mídia e pelos vícios do sistema, o controle sobre a estrutura administrativa das empresas parasitas que dependem do Estado e têm grande penetração nos organismos estatais através de relacionamentos e corrupção, em relações de conivência. Essa área é toda minada. Embora alguns avanços sempre se consigam, desde que não ameacem diretamente as estruturas da sociedade, de privilégios pra alguns e exploração da maioria - os dois lados da mesma moeda.

A árvore não nasce das folhas pra raiz. Esse é o grande engano da intelectualidade revolucionária. Das folhas eles acreditam que, por ver melhor o terreno, devem comandar as raízes. Mas não descem lá e não as conhecem. Alguns as desprezam, outros têm medo delas, muitos as duas coisas. Mas as raízes estão aí, firmes, sustentando toda a árvore social, inconcientes da sua força, entorpecidas pelas fumaças midiáticas, desprovidas dos nutrientes educacionais, sem perceber a própria sabedoria e o próprio valor, a capacidade de superar obstáculos, dificuldades, problemas e fatalidades. As raízes precisam de um pouco de conhecimento e muita consciência da realidade. Assim se faz uma revolução. Independente da política partidária, os movimentos acontecem. Em toda parte. E a América Latina tem sido um grande foco.

Talvez seja assim mesmo, as mudanças partem de dentro dos indivíduos, espalhados no mundo inteiro, contaminando, transformando, operando e cooperando, descobrindo novas formas de relações, percebendo as induções, discernindo, escolhendo por si e pela coletividade. As coletividades se formam. Percebem-se. Sem coordenação visível, o processo caminha seus passos cada vez mais acelerados, embora ainda lentos. A rigidez e a intolerância perdem espaço a partir das relações pessoais. Os costumes são questionados, os valores induzidos são denunciados como nunca. Os efeitos ainda não aparecem na coletividade, as coisas vão solidificando aos poucos, a criança engatinha. Ingenuidade acreditar em efeito imediato, o caminho é longo. Participar dele já é a satisfação que espero da vida. Caminhar do jeito que se quer, e não do jeito que mandam caminhar. É o sentido da vida, no momento. E é fonte de contágio.

Uma visão maior não significa superioridade. Responsabilidade é o que significa. Conscientizemos uns aos outros, sempre que possível. Com respeito, com carinho, que é a melhor maneira de trocar conhecimentos, sentimentos, idéias, o jeito mais tranqüilo, seguro e proveitoso. E com humildade, principal requisito pra um aprendizado constante. Despertamos cada vez mais e um despertamento traz outro, em sucessão infinita. No indivíduo e na coletividade. 

Reportagem de Paulo Nogueira sobre o uso de Marcos Valério pela mídia:

Capivara ferida no Rio Perequê, em Cubatão – por Moésio Rebouças

Capivara ferida no Rio Perequê, em Cubatão
No último dia 23 de outubro eu já tinha escrito uma nota sob o título “Capivaras são alvo de maus-tratos e caçadores na Baixada Santista, em SP¹”; e hoje, 02 de novembro, por desgraça, encontrei uma capivara com dois ferimentos no corpo - uma das lesões era grande - e cambaleando nas proximidades do Parque Ecológico do Perequê, em Cubatão.

Provavelmente o animal foi alvo de pedradas, vítima da crueldade e idiotice humana.
Ao tentar me aproximar do bicho ele se embrenhou na extensa mata.

Moésio Rebouças
 

Ok, você está eleito posso atacar o Irã agora! - por Latuff

Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Lutando pelo direito à vida: Orangotangos voltam-se contra agressores durante massacre na Indonésia - Por Patrícia Tai

Lutando pelo direito à vida: Orangotangos voltam-se contra agressores durante massacre na Indonésia
Orangotango preso em armadilha. As plantações de palmeiras são uma ameaça a espécies em extinção como orangotangos, elefantes e tigres. Foto: Caters News Agency / MailOnline
Após sofrer espancamentos e tiros, uma tribo de orangotangos reagiu e cercou um trabalhador de uma plantação de palmeiras, e esmurraram-no e deram-lhe mordidas até deixá-lo inconsciente. As informações são do Mailonline.
O dia em que os macacos contra-atacaram os seres humanos não deixou surpresos os conservacionistas na parte indonésia da Ilha de Bornéu – os animais vêm perdendo o seu habitat devido à exploração de madeira e às empresas de óleo de palma.
Orangotango ferido, sendo resgatado e retirado de seu habitat. Resgates estão em curso em uma pequena região florestal de Sumatra. Foto: Caters News Agency / MailOnline
Há alguns dias atrás, uma fêmea de orangotango foi encontrada gravemente ferida, com mais de 100 balas de pistola de “chumbinho” em seu corpo, e está sendo tratada. Outros foram espancados ou mortos a tiros.
A vingança contra os seres humanos aconteceu quando um homem identificado apenas como Kurnadi estava trabalhando em uma plantação de palmeiras.
Ninguém testemunhou o ataque, mas ele foi encontrado mais tarde por outro trabalhador, coberto de mordidas e contusões – ferimentos que pareciam ter sido causados por um grupo de orangotangos.
Orangotango é resgatada de floresta antes de tratores destruírem a sua casa.
Foto: Caters News Agency / MailOnline
Não sabemos quantos orangotangos foram envolvidos no ataque, mas é claro que não foi apenas um deles”, disse um funcionário da Agência local de Conservação do Governo.
O porta-voz, Hartono, acrescentou: “O homem foi gravemente ferido. Alguns de seus dedos estavam quase arrancados. Ele havia desmaiado depois de perder muito sangue. Parece que ele foi cercado por um grupo de orangotangos, mas o que não se sabe é se ele estava tentando tirá-los da plantação de palmeiras”.
Orangotango desolado assiste à destruição de sua casa. Foto: Caters News Agency / MailOnline
A Agência de Conservação tem arquivos sobre ataques chocantes a orangotangos, realizados por trabalhadores das plantações de palmeiras que agem sob comando de seus chefes, afirmando que os animais estão prejudicando as suas plantações.
Alguns dos macacos foram agredidos até a morte com facas, enquanto outros foram mortos a tiros ou fatalmente espancados com cassetetes.
No início deste ano, o Daily Mail revelou como conservacionistas chegaram em cima da hora para salvar uma mãe orangotango e seu bebê quando trabalhadores de uma plantação de palmeiras partiam para matá-los.
Então, nesta semana, veio a notícia angustiante do tiroteio no qual uma fêmea de orangotango ficou cega de um olho e perto da morte, quando foi encontrada pelos conservacionistas com mais de 100 tiros de “chumbinho”.
Foto da fêmea de orangotango que levou 100 tiros, sendo operada. Foto: Caters News Agency / MailOnline
Foto da fêmea de orangotango que levou 100 tiros, sendo operada. Foto: Caters News Agency / MailOnline
Ela está agora em recuperação em uma clínica, mas os ambientalistas ainda estão decidindo se ela pode ser liberada de volta à natureza ou se deverá ser mantida em cativeiro pelo resto de sua vida.
A Indonésia é o maior produtor mundial de óleo de palma e, enquanto os lucros das empresas crescem, as florestas que são a moradia dos orangotangos continuam a diminuir para abrir caminho para as plantações de palmeiras.
“O ataque ao trabalhador é, talvez, uma indicação de que o orangotango percebe que deve atacar para salvar seu habitat”, disse um ambientalista em Jacarta. “Isso não é algo que ouvimos falar com frequência”.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

As raízes do golpismo da direita brasileira – Por Emir Sader

As raízes do golpismo da direita brasileira
Até 1930 a direita brasileira dispunha a seu bel prazer do Estado, colocava-o totalmente a serviço dos interesses primário-exportadores, desconhecendo as necessidades das classes populares. Getúlio fez a brusca transição de um presidente – Washington Luiz, carioca adotado pela elite paulista, como FHC – que afirmava que “Questão social é questão de polícia”, para o reconhecimento dos direitos dos trabalhadores pelo Estado.

Com o surgimento da primeira grande corrente de caráter popular, a direita passou a ficar acuada. A democratização econômica e social foi seguida da democratização politica, com o processo eleitoral consagrando as candidaturas com apoio popular, Sucessivamente, em 1945, 1950, 1955, a direita foi derrotada e acostumou-se a bater na porta dos quarteis, pedindo golpe militar.

Sentido-se esmagada pelas derrotas, a direita chegou a pregar o voto qualitativo, em que, segundo eles, o voto de um médico ou de um engenheiro valeria 10, enquanto o de um trabalhador (“marmiteiro”, diziam eles, zombando dos trabalhadores que levavam marmitas pro trabalho) devia valer 1. Só assim poderiam ganhar.

A efêmera vitória de 1960, com a renúncia do Jânio, foi sucedida pela nova tentativa e golpe militar de 1961 e, logo depois, pelo golpe efetivamente realizado em 1964. Só pela força e pelo regime de terror a direita conseguiu triunfar e colocou em prática sua revanche contra o povo, pela repressão e pela expropriação dos direitos da grande maioria.

Foi no final da ditadura, com uma votação indireta, pelo Colégio Eleitoral, passando pela morte de Tancredo, que a direita deu continuidade a seus governos, agora com um híbrido de ditadura e de democracia, mas que favoreceu a eleição de Collor, outra versão da direita. Tal como Jânio, teve presidência efêmera.

O governo FHC foi a melhor expressão da direita, renovada, reciclada para a era neoliberal. Naqueles 8 anos a direita brasileira pode realizar seu programa, que terminou numa profunda e prolongada recessão e a derrota sucessiva da direita, por três vezes.

A direita repete, na Era Lula, os mesmos mecanismos da Era Getúlio. Enquanto os governos desenvolvem políticas econômicas e sociais que favorecem à grande maioria, recebem dela o apoio majoritário e derrotam sistematicamente a direita, resta a esta atividades golpistas. Se antes batiam às portas dos quartéis (eram chamadas de “vivandeiras de quartel”), agora usam a mídia para bater às portas do Judiciário.

São partidos e mídias cada vez mais minoritários, derrotados em 2002, em 2006, em 2010, voltaram a ser derrotadas agora em 2012. São governos que os derrotam com o apoio das grandes maiorias beneficiárias das suas políticas sociais. Quem não tem povo, apela para métodos golpistas, ontem com os militares e a mídia, hoje com a mídia e o Judiciário.

Máscara mortuária de José Serra - por Latuff

Máscara mortuária de declarado politicamente defunto em 28 de outubro de 2012

Fonte:  http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

“A pistolagem está instituída” - Por Beatriz Noronha

“A pistolagem está instituída”
Para Paulino Montejo, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, , a situação dos índios no Mato Grosso é o resultado de uma longa história de descaso do Estado brasileiro com os direitos indígenas
A recente decisão da justiça brasileira de obrigar um grupo de centenas de indígenas do povo Guarani-Kaiowá a deixar uma área de fazendas em Iguatemi, Mato Grosso do Sul, fez eco entre os participantes na VII Plataforma Ibase, realizada na semana passada em Vassouras. O evento reuniu ativistas de movimentos sociais do Brasil e do mundo para discutir uma agenda comum de luta diante dos novos desafios planetários. Paulino Montejo, assessor da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), esteve lá representando os indígenas e conversou com o Canal Ibase.
Para Montejo, a situação dos índios no Mato Grosso é o resultado de uma longa história de descaso do Estado brasileiro com os direitos indígenas. A Constituição de 1988 trata, em seu capítulo VIII, das questões indígenas, seus costumes e terras. De acordo com o parágrafo segundo deste capítulo, as terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se à sua posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes. O quinto parágrafo também estabelece que é vedada a remoção dos grupos indígenas de suas terras, salvo ad referendum do Congresso Nacional em caso de catástrofe ou epidemia que ponha em risco sua população, ou no interesse da soberania do país, após deliberação do Congresso Nacional, garantido, em qualquer hipótese, o retorno imediato logo que cesse o risco. “Mesmo com a legislação, os índios vêm sendo alvo de ameaças e violência. A lei do agronegócio em Mato Grosso, por exemplo, parece disputar importância com as vidas indígenas. Lá o caso é de violência extrema. Eles estão sendo atacados por todos os lados e isso é uma questão de todos nós”, disse Montejo.
Para o assessor, o efetivo cumprimento da lei de demarcação de terras evitaria recentes conflitos, poupando vidas – o que é imprescindível. “Se a Constituição de 88 que previa a demarcação de terras indígenas tivesse sido respeitada, a questão indígena agora estaria resolvida”, afirma.
Os índios Guarani-Kaiowá vivem conflito com produtores rurais pela disputa de terras que, de acordo com a Constituição Federal, há muito já deveriam ter sido demarcadas. O agronegócio tem influência no acirramento dos conflitos, já que as cadeias produtivas da soja e da cana possuem atividades em terras indígenas no Mato Grosso do Sul. Duas usinas no estado, São Fernando e Raízen, se comprometeram a não mais comprar a cana produzida em áreas indígenas. “Essa é uma medida de responsabilidade socioambiental empresarial que não resolve o problema, mas deve ser entendida como um primeiro passo no reconhecimento dos direitos indígenas pelo setor produtivo”, observou Montejo. Segundo o assessor da Apib, é urgente que usinas sucroalcooleiras, de biodiesel, traders e cerealistas adotem a mesma postura.
Em 2009 ocorreu a homologação da área de Arroio Korá. A região foi o destino de cerca de 700 Kaiowá. Em agosto, os Kaiowá conseguiram retomar essas terras. No entanto, a demarcação de Arroio Korá foi questionada na Justiça pelos fazendeiros – a decisão final sobre o processo está parada no Supremo Tribunal Federal. A retomada da terra Potrero Guasu, em outubro, também sofreu com o ataque de pistoleiros. Os índios em Mato Grosso do Sul já foram vítimas de agressões, violências físicas e simbólicas de toda ordem. Depois da retomada de terras em agosto, o acampamento indígena foi atacado por pistoleiros. Em entrevista gravada em vídeo, o fazendeiro Luis Carlos da Silva Vieira, conhecido como “Lenço Preto”, declarou que tomaria frente em “uma guerra contra os indígenas”.
A crise instalada hoje em Mato Grosso do Sul representa para a Apib uma situação de desrespeito do Estado de Direito. “A pistolagem está instituída e não há reação em direção ao desarmamento”, declara Montejo. O assessor chama atenção para um quadro real de etnocídio. Montejo se inquieta e se mexe algumas vezes na cadeira quando comenta que “as políticas públicas precisam pagar essa dívida histórica com os povos indígenas, e pagar pela inversão de direitos”. Reforça que os povos indígenas foram expulsos de suas terras e agora querem apenas reaver seus direitos, em especial o direito sagrado à terra.
comunidade indígena declarou que não sairá de suas terras, e se preciso for, permanecerá até a morte. Em carta, os indígenas falaram das condições desumanas a que estão submetidos, fruto da competição de terras com grandes produtores do agronegócio e de criação de gado. “A situação indígena em Mato Grosso do Sul é caso de direitos humanos, é da ordem do Estado, do judiciário, mas é também do cotidiano, da necessidade do desenvolvimento de uma solidariedade mútua”, disse Montejo. Para ele, falta uma sensibilização real da opinião pública, solidariedade e entendimento de um funcionamento orgânico da sociedade. “O que está em questão é a necessidade de reconhecimento. Não tem como um cidadão não perceber que o que está em curso é uma violação séria, de vida e de direitos de povos que historicamente são donos da terra”, exclama. “É preciso romper com o silêncio”, conclui.
Em nota no site da Secretaria Geral da Presidência da República, divulgada em 26 de outubro, o governo federal informou que “vem apoiando as comunidades indígenas através de ações de segurança alimentar, saúde, segurança pública e reconhecimento territorial através de seis Grupos de Trabalho que estão em campo”.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Eric Jonh Ernst Hobsbawm: valeu!* - por Diorge Alceno Konrad**

Eric Jonh Ernst Hobsbawm: valeu!*
Entreouvido na Vila Vudu:
“Como se aprende aí, não é de hoje que Tarso Genro obra para atrasar o avanço do comunismo...”
[pano rápido]
“Marx e Engels não inventaram o comunismo, mas as lutas revolucionárias do pós-1830 contra o capitalismo levaram os maiores intelectuais, do que viria a ser a filosofia da práxis, para dentro de seu movimento, com certa ajuda prática do alfaiate Wilhelm Weitling e teórica de Moses Hess, como bem disse Hobsbawm[3], mais ainda a “Liga dos Justos” transformada em Liga dos Comunistas, quando Marx e Engels “estavam nos cueiros” produzidos pelas tecelãs e operários fabris.”
Em primeiro lugar, estou preocupado com os usos e abusos da História, tanto na sociedade como na política, e com a compreensão, e espero, transformação do mundo
(Eric Hobsbawm, em Sobre História)
Primeiro de outubro de 2012, cerca de oito horas da manhã, recebo a notícia da morte de Eric Hobsbawm.

A sensação é como se algo muito importante fosse arrancado do cérebro, uma espécie de vazio intelectual. Ainda impactado, menos de uma hora depois escrevi a seguinte mensagem repassada às minhas listas de correio eletrônico:

Quem de nós? Quem de nós não leu afoitamente alguma outra obra deste grande historiador do século XX? A Era dos Extremos? A Era dos Impérios? A Era do Capital? A Era das Revoluções? Mundos do Trabalho? Os Trabalhadores? Sobre História? Como Mudar o Mundo – Marx e o Marxismo! Quem de nós não se encantou com a sua forma de narrar a História? Quem de nós não discordou ou concordou com alguma “sacada” teórica deste alexandrino, historiador do mundo? Para nós da História Social do Trabalho, aprendemos mais sobre os trabalhadores e o mundo do trabalho com Eric Hobsbawm! Para nós de Teoria da História, aprendemos muito com o “que a História tem a nos dizer sobre o mundo contemporâneo”, como ele escreveu no título de um dos seus artigos! Hobsbawm se foi, breve como o seu século XX.

Queria que meus alunos de “Teoria da História”, que estudam comigo os trabalhos de Hobsbawm, desde 1995, compartilhassem mais uma vez algo que tenho a dizer sobre ele e essa dialética entre o “tempo longo” e o “tempo breve”.

Eu o vi pela primeira vez em Porto Alegre, no início da década de 1990, no lotado “Auditório Dante Barone” da Assembléia Legislativa – palestrando em um português fluente – num Seminário sobre a Polis. No final, como autênticos tietes, eu e a historiadora Glaucia Konrad fomos pedir um autógrafo em A Era das Revoluções e A Era dos Impérios. Ao nos aproximarmos, ao final da conferência, parecia que o século XX estava à nossa frente. Ao ver os livros, o coordenador da mesa, Tarso Genro, disse que Hobsbawm estava muito cansado. Dissemos, porém, que só aceitaríamos ouvir isto dele. O historiador marxista, no entanto, foi extremamente gentil. Os livros continuam bem guardados … e com as honrosas dedicatórias.

Nesta passagem pela capital do Rio Grande do Sul, Hobsbawm teria ido ao Beira-Rio, acompanhado de um conselheiro do Internacional, Olívio Dutra. Falando da história de nosso time, o ex-prefeito e futuro governador teria reforçado a lenda sobre a origem do nome do Colorado, “fundado” por militantes anarquistas e homenageado em relação à organização mundial dos trabalhadores, formada por Karl Marx e outros em 1864. Hobsbawm teria dito: “Então, aqui em Porto Alegre, torço para o Internacional”.

Seria bom que esta invenção repetida por muitos torcedores colorados fosse verdade! Ao menos, em relação a Hobsbawm, seria uma referência da história do presente a um dos movimentos que ele tanto pesquisou, a relação dos trabalhadores com o futebol. Infelizmente, trata-se de uma “lenda urbana” para muitos dos rio-grandenses colorados como eu. Na introdução de um livro clássico, organizado com Terence Ranger, Hobsbawm afirmou que “não há lugar nem tempo investigado pelos historiadores onde não haja ocorrido a ‘invenção’ de tradições”. Ao menos me consola que Hobsbawm tenha dito também que o “estudo das invenções das tradições é INTERdisciplinar”.[1]

Como historiador em formação na década de 1980 deveria ter começado como muitos, lendo Hobsbawm pela sua trilogia das Eras, que se tornaria tetra após a Queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética. Não! Como pretenso marxista, comecei pelos volumes de História do Marxismo, gentilmente cedidos por meus mestres da graduação em História, Anamaria e Luiz Carlos Rodrigues. Quando fui presenteado por eles com um dos volumes, iniciei a saga para ter todos os outros organizados por Hobsbawm e lançados no Brasil pela Paz e Terra. Era como um adolescente dos dias de hoje à procura de Harry Potter ou O senhor dos anéis , e como estes, um leitor voraz do que ia chegando às minhas mãos, no tempo em que comprávamos com sacrifício qualquer livro por mais de mil e poucos cruzeiros.

Em História do Marxismo, aprendi com Hobsbawm, que o marxismo foi a “escola teórica que teve a maior influência prática (e as mais profundas raízes práticas) na história do mundo moderno”, além de ser um “método para, ao mesmo tempo, interpretar e mudar o mundo”[2], na mais profunda concepção já dita antes por Marx na décima primeira tese contra Feuerbach.

Numa academia essencialmente conservadora e oriunda da Ditadura, para quem como eu começou a graduação em 1985, as obras de Hobsbawm, como de Perry Anderson, Edgar Carone, Nelson Werneck Sodré, Caio Prado Jr. e poucos outros, eram ilhas para nossos combates pela História com H maiúsculo, para nossa militância estudantil e política. Enquanto os reacionários diziam que foram Marx e Engels que “inventaram” o comunismo e que este não passava de uma teoria equivocada e uma prática pior ainda, descobri com Hobsbawm que eles “chegaram relativamente tarde ao comunismo. Engels declarou-se comunista no fim de 1842, enquanto Marx provavelmente só o fez na segunda metade de 1843, após um acerto de contas mais complexo e prolongado com o liberalismo e a filosofia hegeliana”. Até hoje digo isso para meus alunos de Teoria da História: diferente do que muitos afirmam, Marx e Engels não inventaram o comunismo, mas as lutas revolucionárias do pós-1830 contra o capitalismo levaram os maiores intelectuais, do que viria a ser a filosofia da práxis, para dentro de seu movimento, com certa ajuda prática do alfaiate Wilhelm Weitling e teórica de Moses Hess, como bem disse Hobsbawm[3], mais ainda a “Liga dos Justos” transformada em Liga dos Comunistas, quando Marx e Engels “estavam nos cueiros” produzidos pelas tecelãs e operários fabris. O Manifesto do Partido Comunista, escrito a quatro mãos, a pedido da Liga, coroaria Marx e Engels no movimento que na teoria receberia o nome de marxismo e na política de comunismo.

Foi esta práxis que me levou a estudar o que Hobsbawm chamou mundos do trabalho. Queria saber no rincão que adotara, Santa Maria, a história dos trabalhadores. Com Glaucia, em 1987, começamos a pesquisar a greve de 1917 e os trabalhadores ferroviários, nosso exemplo local de proletariado de lutas. Não paramos mais, sempre com a historiografia de Hobsbawm presente, especialmente intrigado pelas suas provocações, e as de Georges Rudé em Capitão Swing, no qual Hobsbawm aborda os “fracassos” dos levantes sociais, se contrapondo a visões que apenas entendem o processo histórico como “realização negativa”. Ali, o historiador inglês defende a idéia de “fracasso não previsto”. Isto é, se alguém já soubesse da derrota previamente, tenderia a não entrar em uma luta. Um sábio ensinamento aos movimentos sociais e políticos revolucionários da atualidade, dado pelos trabalhadores ingleses que fizeram as revoltas rurais do início do século XIX, resgatados pela pesquisa do historiador no que chamou de “sucesso inesperado e imprevisível”[4], uma espécie de “a luta continua, companheiro!”.

Com Hobsbawm, vi que seria impensável ver a história local ou regional como se não fosse parte do processo histórico universal. Mais tarde veria que isso também veio de Marx e Engels. Assim, estudar os trabalhadores significava estudar uma classe e “a relação entre a situação em que tais classes se encontram na sociedade e a ‘consciência’, os modos de vida e os movimentos que elas geraram”. Estudar e compreender as classes não teria sentido se não também não entendêssemos que “a história de qualquer classe não pode ser escrita se a isolarmos de outras classes, dos Estados, instituições e ideias que fornecem sua estrutura, sua herança”.[5]

Antes disso, com os ensaios de Os Trabalhadores já havíamos visto com Hobsbawm que a história das “classes trabalhadoras” ia muito além de suas organizações e movimentos trabalhistas, quando o historiador estudou seus padrões de vida, a situação e as condições de trabalho nas fábricas, os costumes, os salários, a carga de trabalho e as tradições do “mundo do trabalho”. Mas, diferente de certos modismos culturalistas da história do trabalho, Hobsbawm nunca abandonou os movimentos e organizações dos trabalhadores, desde as revoltas camponesas, os “rebeldes primitivos” e os “bandidos”, passando pelos destruidores de máquinas, os sindicatos de trabalhadores e seus partidos políticos.[6]

Quase um século depois, bem o sabemos, Hobsbawm começaria a conhecer profundamente o processo histórico do que ele chamou de mundo moderno e contemporâneo, a sociedade burguesa, juntamente com as obras de Marx e Engels, elaboradas a partir do século XIX, e as lutas dos trabalhadores desde então, seja de resistência ao capital, seja pela revolução comunista.

Pois, quis a História, que Hobsbawm nascesse no ano da Revolução Soviética, um ano antes do centenário de Marx. Quis a História que Eric Hobsbawm se tornasse marxista e comunista, reconhecido em sua morte até pela mídia burguesa como um dos maiores intelectuais do século XX.

E não foram poucos os seus projetos. O que extrapolou o mundo da academia sintetizou, numa das mais profundas reflexões dialéticas do materialismo histórico, o entendimento do que chamamos tradicionalmente de mundo contemporâneo, de 1789 para cá. Nos títulos dos quatro volumes está implícito o verdadeiro intento de Hobsbawm, como bom marxista que era: entender o tempo das revoluções burguesas e o nascimento das lutas pelo socialismo; compreender a consolidação do capitalismo e, assim como Lênin, a sua fase superior, o imperialismo; estudar a essência da luta de classes no século XX, entre as crises do capitalismo e as primeiras experiências do socialismo, nos tempo dos extremos. Traduzido em mais de quarenta línguas, com em História Social do Jazz, sua escrita ganhou milhões de leitores, admiradores e seguidores, ávidos por qualquer obra sua lançada a público.

Hobsbawm sempre teve opinião e sobre quase tudo. E dentro do marxismo, mesmo quando debatia com seus interlocutores sobre o que disse Marx e o que ele e eles achavam que Marx teria dito, nos ensinava que se Marx disse algo, mais importante seria os que os marxistas de hoje devem dizer sobre o mundo e buscar em Marx seus erros e acertos. De certa forma, no artigo “A estrutura d’O Capital”, estabelecendo diálogo crítico com Althusser, escrito em 1966, no auge da influência deste filósofo pela Europa, Hobsbawm reforçou este ensinamento.[7] Em outro artigo, entretanto, Hobsbawm disse o fundamental sobre Marx: “Marx continua a ser a base essencial de todo estudo adequado de história, porque – até agora – apenas ele tentou formular uma abordagem metodológica da história como um todo, e considerar e explicar todo o processo da evolução social humana”.[8]

Recentemente, ao se pronunciar sobre a “primavera árabe”, comparando-a com as revoluções de 1848, tomei a liberdade, sempre temerosa, de criticá-lo sobre o que chamei de seu “desencanto” com o proletariado e o que Hobsbawm chamou de “esquerda tradicional”. Ali, disse que “Hobsbawm, pelas contribuições que já deu ao desenvolvimento da historiografia e na defesa do próprio marxismo, talvez mereça cada vez mais dos marxistas de hoje o que Marx e Engels fizeram com Bruno Bauer e consortes, uma crítica da crítica crítica, ou seja, uma síntese arrojada de sua obra para ver suas contribuições e seus limites”.[9] E, não tenhamos dúvida, ela foi grandiosa, me fazendo sempre lembrar de sua Estratégias para uma esquerda racional e a terceira parte da obra que ele chamou de recomeço.[10]

Seu último livro lançado no Brasil, em 2011, Como Mudar o Mundo. Marx e o Marxismo, 1840-2011, foi logo devorado por mim, com novos ensinamentos para prosseguir com Marx e o marxismo. Entre eles, ao escrever sobre o longo século XX e o trabalho, analisando as experiências socialistas, a crise atual do capitalismo e os defensores deste modo de produção e sua ideologia, Hobsbawm asseverou:

Paradoxalmente, ambos os lados têm interesse em voltar a um importante pensador cuja essência é a crítica do capitalismo e dos economistas que não perceberam aonde levaria a globalização capitalista, como ele [MARX] previra em 1848. (…) Mais uma vez, fica patente que, mesmo no intervalo entre grandes crises, o ‘mercado’ não tem nenhuma resposta para o principal problema com que se defronta o século XXI: o fato de que o crescimento econômico ilimitado e cada vez mais tecnológico, em busca de lucros insustentáveis, produz riqueza global, mas às custas de um fator de produção cada vez mais dispensável, o trabalho humano, e, talvez convenha acrescentar, dos recursos naturais do planeta. O liberalismo econômico e o liberalismo político, sozinhos ou combinados, não conseguem oferecer uma solução para os problemas do século XXI. Mais uma vez chegou a hora de levar Marx a sério.[11]

Quis também a História que Hobsbawm partisse no ano de criação de nosso blog marxismo21. Como o grande historiador que nos deixou, continuaremos levando Marx a sério, muito a sério. Valeu Eric John Ernest Hobsbawm!

Notas ao texto:* Este artigo é também uma homenagem a alguns mestres e orientadores que me fizeram conhecer melhor o grande historiador; em especial Anamaria Lopes Rodrigues e Luiz Carlos Bonotto Rodrigues, da UFSM; igualmente, Michael Mcdonald Hall (cheers, Michael!), da UNICAMP. Todos eles que me auxiliaram na passagem do século XX ao XXI, assim como Hobsbawm, acompanhado da sua reflexão historiográfica e na defesa de sua visão de História.

** Professor Adjunto do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em História da UFSM, Doutor em História Social do Trabalho pela UNICAMP.
[1] Cf. HOBSBAWM, Eric. Introdução. In. HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence (orgs.). A invenção das tradições. 2 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, p. 12 e 23. Inter em caixa alta é uma “licença poética” do autor.
[2] Ver HOBSBAWM, Eric (org.). Prefácio. História do marxismo. O marxismo no tempo de Marx. Vol. 1. 3 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983, p. 12.
[3] HOBSBAWM, Eric. Marx, Engels e o socialismo pré-marxiano. In. ________ (org.). Prefácio. História do marxismo. O marxismo no tempo de Marx. Vol. 1. 3 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983, p. 33.
[4] Cf. HOBSBAWM, Eric. Conseqüências. In. HOBSBAWM, Eric J.; RUDÉ, George. Capitão Swing: a expansão Capitalista e as revoltas rurais na Inglaterra no início do século XIX. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982, p. 279.
[5] HOBSBAWM, Eric (org.). Prefácio. In. ________. Mundos do trabalho. Novos estudos sobre história operária. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000, p. 11-12.
[6] Ver estas temáticas no Sumário e nos respectivos artigos de Os trabalhadores: Estudos sobre a história do operariado. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981. Cf. também Rebeldes primitivos. Estudo sobre as formas arcaicas dos movimentos sociais nos séculos XIX e XX. Rio de Janeiro: Zahar, 1970; Bandidos. 2 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1976.
[7] HOBSBAWM, Eric. A estrutura d’O Capital. In. HOBSBAWM, Eric J. Revolucionários. Ensaios contemporâneos. 3 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2003, p. 146-155.
[8] HOBSBAWM, Eric. Marx e a História. In. ________. Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
[9] Cf. KONRAD, Diorge Alceno Konrad. Necessária Crítica da Crítica Crítica a Eric Hobsbawm. In. Portal Vermelho. Publicado em 31 de dez. de 2011. Disponível em: http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=4477&id_coluna=14. Acesso em: 2 out. 2012.
[10] HOBSBAWM, Eric. Estratégias para uma esquerda racional, Escritos políticos, 1977-1988. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.
[11] Ver: HOBSBAWM, Eric. Marx e o trabalhismo: o longo século. In. ________. Como Mudar o Mundo. Marx e o Marxismo, 1840-2011. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 375.
Fonte: http://grupobeatrice.blogspot.com.br/

Hesse e o segredo de Buda

Hesse e o segredo de Buda

Passaram-se 90 anos desde a publicação de Sidarta. O pequeno romance – que Hermann Hesse começou a escrever no inverno de 1919 – nascia como reação à guerra e às suas devastações. Há muito tempo, na sua mente, havia se assomado a ideia de que a Europa era uma civilização em declínio.

A reportagem é de Antonio Gnoli, publicada no jornal La Repubblica, 02-09-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Alguns anos antes, o escritor havia feito uma viagem à Índia, que teve o sabor da iniciação e do afastamento da Europa: "Eu fugia dela e quase a odiava, a Europa, com o seu gosto grosseiro, com o seu barulho de feira de interior, com a sua inquietação sem fôlego, com a sua ânsia áspera e impassível de g ozar", escreveu ele em um ensaio que agora vem à tona – juntamente com uma pequena coleção de cartas, de trechos de diário e de outras contribuição – como apêndice a uma nova edição de Sidarta, publicada no dia 5 de setembro pela editora Adelphi (na bela tradução de Massimo Mila).

Completar o livro não foi simples. Uma crise muito severa havia secado a veia narrativa. A esposa, doente da mente e trancada em um manicômio, a pobreza cada vez mais insidiosa, a separação dos filhos contribuíram para aumentar a precariedade do escritor. Foram necessários mais de dois anos para que Hesse completasse a sua "lenda indiana".

E, em 1922, quando o romance saiu, a acolhida não foi emocionante. Ele comunicou a Romain Rolland a decepção por causa dos amigos mais próximos que se calavam e acrescentou que não tinha ouvido da crítica nos jornais "nada mais até agora do que expressões de respeitoso embaraço". Pode-se entender a reação desfavorável a um livro incomum que, com os olhos de um europeu, contava a Índia através da Índia.

Há muito tempo sabemos que existem livros nascidos para marcar a estação de uma vida. Que borrifam com as suas próprias tramas simples a imaginação de uma era ainda não adulta nem formada. As suas páginas são vividas com ainda mais intensidade quanto mais forte for o desconforto daqueles que se agarram a elas como a um objeto de culto e de salvação.

Sidarta desenvolveria excelentemente a tarefa de arrastar almas incertas a mundos envoltos no sonho oriental. Com o tempo, de fato, esse relato – de tons às vezes fabulísticos e ligeiramente cautelares – conquistaria à sua própria causa literária dezenas de milhões de leitores. Onde estava o seu fascínio?

Hesse escreveu uma história sem pretensões especulativas. Qualquer pessoa que tivesse lido a vida de Sidarta captaria a determinação com que o jovem filho de um brâmane buscava a sua própria estrada sem compromissos. O inquieto Sidarta desejava uma iniciação à vida e à verdade. No começo, ele queria se tornar um sâmana, um asceta cujas práticas místicas o ajudariam a despersonalizar seu próprio ser, a criar aquele vazio interior, condição necessária para assumir qualquer nova forma que o mundo lhe oferecia: a de uma garça-real ou de um chacal, de uma pedra ou de uma madeira, da fome ou da sede.

"Muito aprendeu Sidarta com os sâmanas, muitos caminhos aprendeu a percorrer para sair do próprio eu", escreveu Hesse. Mas ao jovem, dotado de grande inteligência e sensibilidade, não bastava o ensinamento das artes dos sâmanas. Naquele tempo, uma figura circulava e fazia prosélitos: era o Buda. E quando Sidarta o encontrou o reconheceu imediatamente: "Eu o vi, um homenzinho simples, de amarelo cozido, que caminhava tranquilo com a sua tigela nas mãos para as esmolas".

Sidarta – diferentemente do amigo Govinda – não quis se converter às ideias do novo mestre. E, embora admirasse a calma e a força, e apreciasse a sua doutrina compassiva, algo o impedia de abraçar a sua fé. Não que as palavras do Buda soassem falsas. Ao contrário. Mas ele misteriosamente sabia que devia continuar a viagem, "não para procurar uma outra doutrina melhor, pois não há nenhuma, mas sim para abandonar todas as doutrinas e todos os mestres e alcançar sozinho a minha meta ou morrer", disse Sidarta.

A verdade, explica Hesse, não é o fruto de uma doutrina que um mestre transmite ao aluno, não é um saber codificado e aprendido. Mas sim uma predisposição da alma, um olhar livre e perdido dirigido ao pr óprio interior. É isso que Sidarta, também nisso diferentemente de Govinda, intui. Ele sabe que a viagem é mais importante do que a meta, e que se perder, ou se desviar da estrada reta, é igualmente necessário para se reencontrar.

O encontro com Kamala, a prostituta pela qual ele se apaixona, e o sucesso nos negócios que lhe sorri nos negócios arrastam, aparentemente, Sidarta a um turbilhão de brutais sensações. Na realidade, mesmo o mais ignóbil dos comportamentos faz parte de um projeto misterioso: "Ele tinha que descer ao mundo, perder-se no prazer e no poder, nas mulheres e no ouro, ele tinha que se tornar um mercador, um jogador de dados, um bêbado e um avarento, para que o sacerdote e o sâmana nele fossem mortos".
Hesse nos mostra as etapas de um redespertar e o caminho para alcançar a sabedoria. Que não é comunicável nem transmissível. Aporta -se nela na alternância da dor e do prazer, da queda e do renascimento, do samsara e do nirvana, da ilusão e da verdade: "De toda a verdade, o contrário também é verdadeiro", sentencia Sidarta.

E a verdade não é o fruto de uma doutrina, por mais nobre que possa ser, como a ensinada pelo Buda. A verdade – que indica com o próprio exemplo o barqueiro Vasudeva – era o acordo da própria voz com a voz do rio. Com a água que o compõe. E ela não é um princípio, não é um conceito, mas sim uma pura superfície sobre a qual se reflete a mente de Sidarta. A verdade que ele busca não é o logos ocidental: é a fluida a plenitude da mente que o rio encheu. Foi a mensagem que obscuramente milhões de leitores retiraram do livro.

Depois do Nobel, ganho em 1946, e os reconhecimentos de Thomas Mann, Stefan Zweig, Hugo Ball (equilib rados pelas críticas mordazes de Gottfried Benn), Hesse se tornou, relutantemente, um guru, uma fonte de iluminação espiritual, o testemunho de uma sabedoria vivida com sinceridade. Foi assim que Sidarta acabou na mochila daqueles jovens que, nos anos 1960, empreenderam a sua viagem de conhecimento ao Oriente. Uma moda que se espalhou da América à Europa": cúmplices foram a música, as drogas e uma vaga adesão ao misticismo.

Caravanas de jovens partiram à descoberta da Índia com a bênção dos poetas da Geração Beat e de algumas canções agradáveis. As palavras que Sidarta lhes havia ensinado – como tratamento contra as neuroses, a alienação, a agressividade – não estavam nos outros livros. Aquele sincero entusiasmo raramente foi tocado pela dúvida de que uma civilização, por mais que se possa amá-la, ainda assim é distante, difícil de penetrar e refratária aos entusiasmos fáceis.

Surpreendentemente, o herege Sidarta se tornou a mais adocicada realização do "super-homem" nietzscheano: com ele reviveram a morte e o renascimento de todos os valores. Acredito que aqui reside o mais sugestivo segredo do sucesso: ensinar a transgressão e a submissão. Fazer conviver o desvio e a norma. Aceitar a vida mudando o seu sentido.

Olhando bem, Sidarta foi o primeiro de uma infinita série de livros "pedagógicos", destinados a cuidar das nossas almas. Mesmo que hoje a Índia, senhora minha, não seja mais a de antigamente.
Postado: JHOLLAND