segunda-feira, 7 de julho de 2014

Noam Chomsky: Política Externa dos EUA – rede criminosa de proteção para as empresas privadas”


Noam Chomsky: Política Externa dos EUA – rede criminosa de proteção para as empresas privadas”
Mais uma vez o segredismo, o “sigilo”, é criticamente importante para garantir segurança à parte que interessa do eleitorado doméstico de qualquer governo: o setor empresarial
 
Há uma “versão padrão recebida”, comum na academia, em pronunciamentos do governo e no discurso público, segundo a qual o primeiro dever de qualquer governo é prover segurança; e que a principal preocupação dos EUA e seus aliados, desde 1945, sempre foi a “ameaça russa”.

Há vários meios para avaliar-se essa doutrina. Pode-se começar por responder uma pergunta óbvia: O que aconteceu quando a ameaça russa desapareceu, em 1989? Resposta: nada aconteceu; tudo continuou como antes.

Pouco depois, os EUA invadiram o Panamá matando, provadamente, milhares de pessoas e instalando ali um regime-cliente. Essa era prática rotineira nos domínios dominados pelos EUA. Mas esse caso não foi rotineiro: pela primeira vez, um grande ato de política exterior não se explicava por qualquer tipo de suposta ameaça russa!

Daquela vez, inventaram-se e foram distribuídos vários e vários pretextos fraudulentos para aquela invasão, que se desmontaram instantaneamente, logo ao primeiro exame. A imprensa-empresa tudo louvava entusiasticamente, aquele grande feito de derrotar o Panamá. Não se preocupava com a evidência de que os pretextos eram ridículos, que o ato em si não passava de violação gravíssima da lei internacional, que estava sendo execrado em muitas partes do mundo, especialmente na América Latina.

A imprensa-empresa também ignorou o veto dos EUA contra proposta de Resolução do Conselho de Segurança da ONU que condenaria os crimes cometidos por soldados dos EUA durante a invasão. Todos os demais votantes votaram unanimemente a favor da condenação aos EUA; a Grã-Bretanha absteve-se; e os EUA vetaram. Rotina. E ficou tudo por isso mesmo (o que também é rotina).

De El Salvador à Fronteira Russa
O governo de George H.W. Bush lançou nova política de segurança nacional e orçamento para a defesa, em reação ao colapso do inimigo global. Não fazia sentido algum. Como da primeira vez, mobilizaram-se falsos pretextos. Eram outros pretextos, mas eram igualmente falsos pretextos. É que, como depois se viu, era necessário manter um establishment militar quase tão grande quanto o do resto do mundo, tudo somado, e muito mais avançado na sofisticação tecnológica – mas não para defender o país contra uma inexistente União Soviética. A desculpa, dessa vez, foi a crescente “sofisticação tecnológica” de potências do 3º Mundo.

Intelectuais disciplinados compreenderam que não se recomendava que se lançassem em ridículo total, e, portanto, mantiveram-se em silêncio.

Os EUA, insistiam os novos programas, tinham de manter sua “base industrial de defesa”. A frase é eufemística, para falar em geral de indústria high-tech que depende pesadamente de vasta intervenção estatal para pesquisa e desenvolvimento, quase sempre mascarada como se fosse atividade a serviço do Pentágono. É o que economistas continuam a chamar de “economia de livre mercado” dos EUA.

Uma das cláusulas mais interessantes dos novos planos tinha a ver com o Oriente Médio. Ali, ficava decidido, Washington tinha de manter forças de intervenção que tomariam como alvo uma região crucial, cujos “principais problemas não podem ser entregues à porta do Kremlin”. Ao contrário dos 50 anos de mentiras anteriores, confessava-se discretamente que a principal preocupação não eram os russos, mas o que se chama “nacionalismo radical”, quer dizer: qualquer nacionalismo independente que os EUA não controlem completamente.

Tudo isso tinha evidente conexão com a visão padrão, mas passou despercebido – ou, talvez: por isso mesmo, passou despercebido.

Outros eventos importantes aconteceram imediatamente depois do fim do Muro de Berlim, fim da Guerra Fria. Um deles aconteceu em El Salvador, país que recebia a maior ajuda militar dos EUA em todo o mundo – exceto Israel-Egito, que são caso à parte – e com os piores registros de desrespeito aos direitos humanos do planeta (essa correlação também é frequente e bem direta).

O alto comando salvadorenho ordenou que a Brigada Atlacatl invadisse a Universidade Jesuíta e assassinasse seis destacados intelectuais latino-americanos, todos eles jesuítas, inclusive o reitor, Fr. Ignacio Ellacuría, e testemunhas (a governanta da residência do reitor e a filha dela).

A Brigada acabava de voltar de treinamento avançado contrainsurgência no John F. Kennedy Special Warfare Center and School do Exército dos EUA, em Fort Bragg, North Carolina, e deixou um rastro de milhares das vítimas de sempre ao longo da campanha de terror liderada pelos EUA em El Salvador – parte de campanha de terror e tortura mais ampla, por toda a região.

Tudo, rotina. Tudo ignorado e virtualmente esquecido nos EUA e pelos aliados, tudo, como sempre, rotina. Mas isso nos diz muito sobre os fatores que dirigem a política, se nos damos o trabalho de observar o mundo real.

Outro evento importante aconteceu na Europa. O presidente soviético Mikhail Gorbachev concordou com permitir a unificação da Alemanha e que a Alemanha fosse integrada como membro à OTAN – aliança militar hostil. À luz da história recente, foi a mais surpreendente das concessões. Mas tinha havido uma troca: o presidente Bush e o secretário de Estado James Baker haviam concedido que a OTAN não seria expandida “uma polegada, para o Oriente”, falando da Alemanha Oriental. Imediatamente depois de firmado o acordo, os dois expandiram a OTAN para a Alemanha Oriental.

Gorbachev ficou obviamente ultrajado. Mas quando reclamou, Washington explicou-lhe que a coisa não passara de compromisso verbal, acordo de cavalheiros, sem força alguma. Se fora suficientemente tolo a ponto de acreditar na palavra do presidente e do secretário de Estado dos EUA, problema dele.

Isso também era rotina, como rotina eram também a silenciosa aceitação e a aprovação da expansão da OTAN, nos EUA e, em geral, no ocidente. O presidente Bill Clinton então expandiu ainda mais a OTAN, direto para junto das fronteiras da Rússia. Hoje, o mundo encara grave crise que é, em medida não pequena, resultado dessas políticas.

A sedução de saquear os mais pobres
Outra fonte de provas são os registros históricos que vão chegando ao conhecimento público. Esses registros contêm dados reveladores dos reais motivos da política de estado dos EUA. A história é rica e complexa, mas alguns temas têm persistentemente o papel dominante. Um deles foi claramente articulado numa conferência para o hemisfério ocidental que os EUA convocaram, no México, em fevereiro de 1945, na qual Washington impôs “Uma Carta Econômica para as Américas” [orig. An Economic Charter of the Americas] que visava a eliminar o nacionalismo econômico “em todas as suas formas”. Havia uma condição “não dita”: o nacionalismo econômico ficava aprovado, até recomendado, para os EUA, cuja economia depende vitalmente de massiva intervenção do estado.

A eliminação do nacionalismo econômico para os outros entrou em agudo conflito com a posição dos latino-americanos naquele momento, posição que funcionários do Departamento de Estado descreveram como “a filosofia do Novo Nacionalismo [o qual] abraça políticas que visam a assegurar melhor distribuição de riqueza e a melhorar os padrões de vida das massas”.

Como outros analistas políticos norte-americanos acrescentaram, “os latino-americanos estão convencidos de que os primeiros beneficiários do desenvolvimento dos recursos de um país deve ser o povo daquele país”.

Claro que não podia ser. Para Washington, os “primeiros beneficiários” têm de ser os investidores norte-americanos, com a América Latina preenchendo a função de dar-lhes os meios. Não poderia haver, como os governos Truman e Eisenhower deixariam bem claro, “desenvolvimento industrial excessivo” que viesse a abalar os interesses dos EUA.

O Brasil, por exemplo, poderia produzir aço de baixa qualidade com o qual as empresas norte-americanas não precisavam preocupar-se; mas a produção seria considerada “excessiva”, se entrasse em concorrência com as empresas norte-americanas.

Preocupações semelhantes ressoaram no período do pós IIª Guerra Mundial. O sistema global que era dominado pelos EUA estava ameaçado por o que documentos internos chamam de “regimes radicais e nacionalistas” que respondem a pressões populares por desenvolvimento independente. Essa foi a preocupação que motivou os golpes que derrubaram os governos parlamentaristas do Irã e da Guatemala em 1953 e 1954, além de vários outros golpes (Brasil, 1964 – Nrc).

No caso do Irã, uma preocupação principal foi o impacto potencial da independência iraniana sobre o Egito, então em torvelinho contra a prática colonial britânica. Na Guatemala, além do crime da nova democracia que dava poder à maioria camponesa e invadia possessões da United Fruit Company — o que já seria ofensa suficiente – Washington preocupava-se com a agitação nos meios trabalhistas e a mobilização popular em ditaduras apoiadas pelos EUA nos arredores.

Nos dois casos, as consequências chegam até os nossos dias.

Literalmente, não houve um dia, desde 1953, em que os EUA não tenham torturado o povo do Irã. E a Guatemala ainda é uma das câmaras de horror do mundo. Até hoje há maias que fogem dos efeitos das campanhas militares quase-genocidas no país, patrocinadas pelo presidente Ronald Reagan e seus mais altos representantes. Como um diretor da Oxfam, médico guatemalteco, relatou recentemente:
Há deterioração dramática do contexto político, social e econômico. Ataques contra defensores de Direitos Humanos aumentaram 300% no último ano. Há clara evidência de que é estratégia bem organizada pelo exército e pelo setor privado. Ambos capturaram o estado, para manter o status quo e impor o modelo econômico extrativista, empurrando os povos nativos dramaticamente para fora de suas terras, que vão sendo ocupadas pela grande indústria de mineração, African Palm e fazendas de cana-de-açúcar. Além disso, o movimento social, que defende as terras e os direitos dos nativos foi criminalizado, muitos líderes estão presos e muitos outros foram assassinados.

Nada se sabe sobre isso nos EUA, e até a causa óbvia desses fatos também é mantida ocultada.
Nos anos 1950s, o presidente Eisenhower e o secretário de Estado John Foster Dulles explicaram claramente o dilema que os EUA enfrentavam. Reclamaram de que os comunistas gozavam de vantagem injusta. Os comunistas podiam “apelar diretamente às massas” e “obter o controle dos movimentos de massa, coisa que nós não podemos fazer. Eles falam diretamente aos pobres e sempre querem saquear os ricos”.

Isso, sim, é problema. Os EUA sempre encontraram dificuldades para falar diretamente aos pobres e mostrar aos pobres sua doutrina segundo a qual os ricos podem saquear os pobres.

O exemplo cubano
Exemplo claro do padrão geral foi Cuba, quando afinal se tornou independente em 1959. Em poucos meses começaram os ataques militares contra a ilha. Pouco depois, o governo de Eisenhower decidiu, secretamente, mudar o regime em Cuba. Em seguida, John F. Kennedy tornou-se presidente. Queria dedicar mais atenção à América Latina. Então, logo no início do governo, criou um grupo para desenvolver políticas, sob a coordenação do historiador Arthur Schlesinger, que resumiu suas conclusões para apresentar ao presidente que chegava.

Como Schlesinger explicou, o mais ameaçador, de haver uma Cuba independente, era “a ideia de Castro de o país tomar as questões nas próprias mãos”. Desgraçadamente, era ideia que muito atraía as massas na América Latina, onde “a distribuição de terra e de outras modalidades de riqueza nacional favorecem muito as classes proprietárias, e onde os pobres e oprimidos, estimulados pelo exemplo da Revolução Cubana, já começam a exigir oportunidades para uma vida decente”. Para Washington, só problemas. E o dilema de sempre.

Como a CIA explicou:
A extensiva influência do  “castrismo” não é função do poder cubano (…) a sombra de Castro mostra-se grande porque as condições sociais e econômicas na América Latina convidam a fazer oposição a qualquer autoridade e encorajam a agitação para mudança radical.

E a Cuba de Castro oferece modelo para isso. Kennedy temia que a ajuda russa pudesse fazer de Cuba uma “vitrine” do desenvolvimento, o que daria vantagem aos soviéticos em toda a América Latina.

O Conselho de Planejamento Político do Departamento de Estado alertou que:
(…) o perigo básico que enfrentamos com Castro está (…) no impacto que a simples existência de seu governo tem sobre o movimento esquerdista em muitos países latino-americanos (…). O simples fato é que Castro representa desafio bem-sucedido aos EUA, negação de toda nossa política hemisférica de quase um século e meio 

Queria dizer: desde a Doutrina Monroe de 1823, quando os EUA declararam sua intenção de dominar o hemisfério.

Naquele momento, o objetivo imediato era conquistar Cuba, mas não era possível por causa do poder do inimigo britânico. Ainda assim, o grande estrategista John Quincy Adams, pai intelectual da Doutrina Monroe e do Destino Manifesto, informou aos seus colegas que, com o tempo, Cuba lhes cairia no colo, pelas “leis da gravitação política”, como a maçã cai da árvore. Em resumo: o poder dos EUA aumentaria e o da Grã-Bretanha encolheria.

Em 1898, o prognóstico de Adams se realizou. Os EUA invadiram Cuba, sob o disfarce de “libertadores”. Na verdade, impediram que a ilha se tornasse independente da Espanha e a converteram em “colônia virtual”, como disseram os historiadores Ernest May e Philip Zelikow. Cuba permaneceu nessa situação até janeiro de 1959, quando se tornou independente. Desde então, é alvo de guerras terroristas movidas pelos EUA, e que começaram nos anos Kennedy, e de tentativas de estrangulamento econômico. Não por causa dos russos.

A política dos EUA para Cuba tornou-se cada vez mais dura; e ainda mais sob governo Democrata, inclusive sob Bill Clinton, que conseguiu ultrapassar Bush pela direita, nas eleições de 1992. Nesse quadro, os eventos acima listados deveriam ter afetado a validade da doutrina, na discussão da política externa e dos fatores que incidem sobre ela. Mas, não. Nada disso. Outra vez, o impacto dos fatos sobre a teoria foi mínimo.

O vírus do nacionalismo
Tomando emprestada a terminologia de Henry Kissinger, o nacionalismo é “um vírus” cujo “contágio pode disparar”. Kissinger, aí, falava do Chile de Salvador Allende. O vírus, no caso, era a ideia de que podia haver via parlamentar para algum tipo de democracia socialista. O modo de enfrentar tamanha ameaça foi destruir o vírus e vacinar todos que pudessem ter sido contaminados; a solução típica foi impor em todos os casos os mais mortíferos estados de segurança nacional. Foi feito assim no Chile em 1973  (imitando o golpe MILICANALHA no Brasil/1964 - Nrc). Mas é importante perceber que esse tipo de pensamento permanece vivo em todo o mundo.

Foi esse, por exemplo, o pensamento que havia por trás da decisão de opor-se ao nacionalismo vietnamita no início da década dos 1950s e apoiar o esforço da França para reconquistar sua ex-colônia. Temia-se que o nacionalismo vietnamita independente pudesse ser um vírus que contaminaria as regiões circundantes, inclusive a Indonésia, riquíssima em recursos.

Poderia até levar o Japão – chamado de “superdominó”, por John Dower, especialista em Ásia – a tornar-se o centro de uma nova ordem industrial e comercial independente do tipo que o Japão imperial havia lutado então recentemente para estabelecer.

Tudo isso, por sua vez, significaria que os EUA teriam perdido a guerra pelo Pacífico, opção que não se considerava em 1950. O remédio era claro – e foi usado com bastante sucesso: o Vietnã foi virtualmente destruído e foi cercado por ditaduras militares que mantiveram o “vírus” cercado e contiveram o contágio.

Em retrospecto, McGeorge Bundy, Conselheiro de Segurança Nacional de Kennedy-Johnson, considerou que Washington deveria ter terminado a Guerra do Vietnã em 1965, quando a ditadura de Suharto foi instalada na Indonésia, com massacres terríveis, que a CIA comparou aos crimes de Hitler, Stálin e Mao. Mas o massacre para empossar Suharto foi saudado com incontida euforia nos EUA e no ocidente em geral, porque o “espantoso banho de sangue”, como a imprensa-empresa o comemorava eufórica, pôs fim a qualquer ameaça de contágio e abriu os ricos recursos da Indonésia aos exploradores ocidentais. Depois de isso estar feito, a guerra para destruir o Vietnã já foi supérflua, como Bundy reconheceu, retrospectivamente.

O mesmo é verdade na América Latina, nos mesmos anos: um “vírus” depois do outro foi viciosamente atacado e destruído ou enfraquecido a ponto de mal sobreviver. A partir do início dos anos 1960s, uma praga de repressão foi imposta em todo o continente, uma história de violência sem precedentes no hemisfério, que se estendeu também para a América Central nos anos 1980s, no governo de Ronald Reagan, assunto ainda vivo na memória que não é preciso rememorar aqui.
Muito disso tudo foi assim também no Oriente Médio. As relações especialíssimas entre EUA e Israel ganharam a forma que hoje têm em 1967, quando Israel aplicou golpe violentíssimo contra o Egito, o centro do nacionalismo árabe secular. Ao fazê-lo, Israel protegeu a Arábia Saudita, aliada dos EUA, então engajada em conflito militar contra o Egito, no Iêmen.

A Arábia Saudita, é claro, é o estado islâmico fundamentalista mais radical, e também é estado missionário, que gasta somas astronômicas para difundir doutrinas salafistas wahhabistas além de suas fronteiras. Vale a pena lembrar que os EUA, como, antes deles, a Inglaterra, tenderam sempre a apoiar o Islã fundamentalista contra o nacionalismo secular, que sempre foi percebido como ameaça mais grave de independentismo e de contágio (o “vírus”, não esqueçam).

O valor do segredismo
Muito há para dizer, mas o registro histórico demonstra muito claramente que a doutrina padrão tem pouca serventia. A segurança, no sentido normal, não é fator na formação política. Repito: no sentido normal de “segurança”. Mas, para avaliar a doutrina padrão, é preciso perguntar o quê significa “segurança”. “Segurança” para quem?

Uma resposta é: segurança para o poder do estado. Há muitos exemplos. Consideremos um exemplo atual. Em maio, os EUA concordaram que apoiariam uma resolução do Conselho de Segurança da ONU para que a Corte Internacional de Justiça, em Haia, investigasse crimes de guerra na Síria, mas sob uma condição: não poderia haver investigação nenhuma de qualquer possível crime de guerra cometido por Israel. Nem de crimes cometidos por Washington. De fato, ninguém nem precisaria declarar essa “proteção” aos EUA, porque os EUA são a única nação autoimunizada contra a ação de qualquer sistema legal internacional.

De fato, há uma lei do Congresso dos EUA que autoriza o presidente a usar força armada para “resgatar” qualquer norte-americano que seja levado a Haia para ser julgado: é a “Netherlands Invasion Act” [Lei da Invasão dos Países Baixos], como é às vezes chamada na Europa. Assim, mais uma vez, se comprova a importância de proteger a segurança do poder do estado.

Mas proteger a segurança do estado, contra quem? Pode-se muito bem argumentar que a principal preocupação do governo é proteger a segurança do estado e contra a própria população. Como sabe qualquer pessoa que se tenha dedicado a vasculhar arquivos, o segredismo, o chamado “sigilo” que protege o governo, raramente é motivado por legítima preocupação de segurança; praticamente em todos os casos o segredismo oficial visa, exclusivamente, a manter a população em total ignorância, sem saber do que se passa.

E por boas razões, como explicou lucidamente o ilustre intelectual liberal e conselheiro governamental Samuel Huntington, professor de ciência de governo na Harvard University. Nas palavras dele:
Os arquitetos do poder nos EUA devem criar uma força que seja sentida, mas não seja vista. O poder permanece forte quando se guarda no escuro; exposto à luz do sol, começa a evaporar.

Huntington escreveu isso em 1981, quando a Guerra Fria voltava a esquentar, e explicou também que:
(…) você tem de vender [intervenção ou outra ação militar] de modo tal que crie a falsa impressão de que o que você combate é a União Soviética. É o que os EUA sempre fizeram, desde a Doutrina Truman.

São verdades simples, raramente reconhecidas, mas ajudam a ver por dentro do poder e das políticas do estado, e têm reverberações até nossos dias.

O poder do Estado tem de ser protegido contra seu inimigo doméstico; em agudo contraste com isso, a população não tem como se proteger contra o poder do Estado. Impressionante exemplo atual é o ataque frontal, mortal, que o governo Obama move contra a Constituição dos EUA, com seu programa de vigilância interna massiva. A coisa, é claro, justifica-se sob o argumento da “segurança nacional”. Mas é o que dizem virtualmente todos os estados para justificar todas as suas ações e, assim sendo, pouco significa ou informa.

Quando o programa de vigilância total da Agência de Segurança Nacional dos EUA foi desmascarado pelas revelações de Edward Snowden, altos funcionários correram a declarar que a vigilância total teria evitado 54 atos terroristas. No inquérito, o número já baixou para uma dúzia. Na sequência, um painel de alto nível criado pelo governo logo descobriu que, de fato, só um caso fora realmente “descoberto”: alguém mandara US$ 8.500 para a Somália. Foi o único “benefício” obtido dessa vasto ataque contra a Constituição e, claro, também contra milhões de outras pessoas em todo o mundo.

A atitude da Grã-Bretanha é interessante. Em 2007, o governo britânico contratou a colossal agência de espiões de Washington, para que “analisasse e recolhesse todos os números de celulares, fax, endereços de e-mails e IPs de qualquer cidadão/ã britânico/a que houvesse em seu banco de dados” – como o The Guardian noticiou. Dá indicação útil da importância relativa, aos olhos do governo, de o estado proteger a privacidade dos próprios cidadãos e das encomendas que Washington recebe.

Exemplo atual são os gigantescos acordos comerciais que estão sendo negociados, as “parcerias” Trans-Pacífico e Trans-Atlântico. Estão sendo negociadas em segredo, mas não totalmente em segredo. Absolutamente não são segredo para as centenas de advogados de corporações que estão redigindo as cláusulas e seus muitos detalhes. Não é difícil adivinhar quais serão os resultados, e os raros “vazamentos” que se conhecem sugerem que o que se espera e teme, sim, é o que acontecerá.

Como o NAFTA e outros desses “pactos” e “parcerias”, não são acordos de livre comércio. De fato, sequer são acordos de comércio: são, em primeiro lugar, acordos que fixam os direitos dos investidores.

Mais uma vez o segredismo, o “sigilo”, é criticamente importante para garantir segurança à parte que interessa do eleitorado doméstico de qualquer governo: ao setor empresarial, chamado “corporativo”, às empresas privadas.

Por Noam Chomsky, 4th mídia. Original em “Noam Chomsky: America’s Real Foreign Policy – A Corporate Protection Racket”. Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu e publicado em redecastorphoto
Fonte: http://www.revistaforum.com.br/blog/

Para uma história ainda não contada do Real – por Luis Nassif


Para uma história ainda não contada do Real
Na origem da moeda, que completa vinte anos, houve favorecimento brutal a mercado financeiro. País quebrou, juros dispararam e FHC perdeu oportunidade histórica

Há muitas histórias a serem contadas sobre o Plano Real.

O sonho de todo economista financista é comandar um processo de troca de moeda em um país. Ele passa a ter o poder de arbitrar as regras de conversão da moeda velha para a nova. Dependendo da maneira como definir a conversão, poderá criar fortunas do nada.

Foi assim nas Guerras Napoleônicas, com o financista John Law que instituiu o papel-moeda na França, em lugar do padrão ouro. Tornou-se um dos homens mais ricos do mundo, chegou a adquirir alguns estados norte-americanos, antes da bolha explodir.

Foi assim no início da República, quando Rui Barbosa comandou a mudança do padrão ouro para o papel moeda. Beneficiou um banqueiro da época, o seu Daniel Dantas, o Conselheiro Mayrink, conferindo-lhe o monopólio virtual da emissão da nova moeda.

Quando os negócios do banqueiro entraram em crise, Rui acabou impondo tantas mudanças no plano original – para salvar seu parceiro e sócio – que quebrou o país, no episódio conhecido como o Encilhamento.

No campo dos negócios, o Plano Real seguiu o padrão John Law e Rui Barbosa – mas com a sofisticação permitida pelos novos tempos e novas engenharias financeiras. Aliás, o melhor trabalho sobre o Encilhamento foi do jovem economista Gustavo Franco, ainda nos anos 80. E sua grande interrogação era como Ruy poderia ter montado todas suas operações privadas sem comprometer o plano. A resposta: um Banco Central que impedisse a volatilidade do câmbio.
***

O Real foi implementado por um grupo brilhante de operadores de mercado, dominando estratégias financeiras e firmemente empenhados em aproveitar o momento para a grande tacada de sua vida.
Com o fim do Cruzado Novo, havia várias formas de irrigar a economia com a nova moeda. A mais óbvia seria no vencimento dos títulos públicos: em vez de emitir novos títulos e rolar a dívida, o governo resgataria, entregando reais aos titulares. O país zeraria sua dívida pública e, com a falta de títulos públicos, os reais seriam investidos em papéis privados, ajudando a estimular os investimentos.

Em vez disso, optou-se por entregar reais só a quem trouxesse dólares de fora. Os economistas do Real se prepararam antecipadamente para essa reciclagem, adquirindo instituições que, assim que o Real foi lançado, saíram na frente captando dólares baratos, convertendo em reais e aplicando em títulos públicos que pagavam juros expressivos.

Por si só, essa reciclagem já seria um grande negócio.

Mas foram além.
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A lógica econômica do Real consistia em conservar a paridade de um por um na relação com o dólar. Quando foi lançada a URV, a ideia era convergir o valor real de todos os produtos para o novo índice, reduzindo ao mínimo as oscilações de preços relativos depois que o real fosse introduzido .

Mas o BC fixou uma regra que, na prática, derrubou o dólar para 85 centavos. Consistia em garantir um teto para o dólar (de R$ 1,00) mas não garantir um piso. O piso seria determinado pelo diferencial entre as taxas externas de juros e as internas.

Lançado o real, imediatamente o dólar caiu para R$ 0,85, encarecendo da noite para o o dia todos os produtos brasileiros, em relação aos importados.
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Alguns meses antes do lançamento do real, um dos economistas, Winston Fritsch, procurou bancos de investimento nacionais e estrangeiros para encontros reservados, nos quais descrevia o movimento que o dólar faria quando o real fosse implementado. Convidava-os a entrar no jogo para reforçar o movimento baixista do dólar já que na outra ponta haveria multinacionais comprando dólares para se prevenir contra o medo da desvalorização do real.

Menos de três meses com o dólar a R$ 0,85 e a economia bombando, o país já exibia déficits externos relevantes. Se houvesse desvalorização cambial, quebraria grande parte das instituições aliadas dos economistas. Para não quebrarem, os economistas do Real quebraram o país. Aumentaram a aposta no câmbio apreciado. No final do ano o país estava quebrado, explodiu a crise do México e o Brasil se viu sem condições de continuar crescendo por não conseguir financiar o déficit externo.

Essa armadilha levou o BC a manter por tempo indeterminado a apreciação do real e a segurar a crise das contas externas com as mais altas taxas de juros do mundo. Como conseqüência, matou o mercado de consumo pujante que estava se formando com o fim da inflação; e gerou a maior dívida pública da história, que seguraria o crescimento brasileiro por toda a década seguinte.

Mais que isso, matou o próprio sonho do PSDB de governar o país por 20 anos – como era o cálculo de seus operadores.

Com o fim da inflação, milhões de brasileiros ascenderam ao mercado de consumo. O governo FHC poderia ter antecipado em oito anos o fenômeno da nova classe C e garantido o reinado do PSDB por mais vinte. Mas as taxas de juros praticadas, para segurar o câmbio – e enriquecer os operadores financeiros – mataram totalmente o dinamismo da economia, obrigando os novos consumidores a refluírem para a zona cinzenta do subconsumo e só voltariam à tona no governo Lula – garantindo a nova hegemonia política ao PT.

Os quatro primeiros anos de FHC foram sufocados pela dívida criada no setor público e privado e pelo câmbio apreciado, criando um enorme déficit externo, expondo o país a qualquer crise internacional. Bastava uma crise na Rússia para um terremoto se abater sobre o Brasil.

Quatro anos depois, o câmbio cobrou a conta na crise da dívida externa que praticamente liquidou com o segundo mandato de FHC e com o reinado do PSDB.

Em 2002 Lula foi eleito, o PSDB alijado do poder e, já extremamente ricos, os economistas do Real trataram de procurar outros barcos para remar.

Vinte anos depois, o PSDB serve de novo de mula para o retorno dos financistas que liquidaram com o partido.

Fonte: http://outraspalavras.net/outrasmidias/

São Paulo: Júri condena três skinheads nazi-fascista – por A.N.A


São Paulo: Júri condena três skinheads nazi-fascista
[Três skinheads nazi-fascistas foram condenados nesta quinta-feira (3 de julho) em júri popular por tentar matar quatro pessoas durante um ato antifascista em repúdio à homofobia e ao racismo, em 2011. As penas variaram de 16 anos a 21 anos de prisão. A seguir, reproduzimos o folheto distribuído pelo Movimento Anarco-Punk (MAP-SP), durante um ato público realizado no dia 1º de julho em frente ao Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste da capital.]

Chega de assassinatos e agressões fascistas!

Em 26 de fevereiro de 2011, o Movimento Anarco Punk de São Paulo sofreu um ataque de skinheads nazi-fascistas enquanto realizava uma atividade cultural anti-fascista na região central da cidade. Esta era parte do ciclo de atividades “Jornadas Anti-Fascistas”, realizado anualmente desde a morte de Edson Neris, assassinado em 2000 por dezenas de Carecas do ABC por ser homossexual.

Neste dia, companheiros foram agredidos com facadas no braço e cabeça e outra pessoa com problemas de mobilidade nas pernas foi duramente agredida nas imediações do local. Em um grupo grande, os indivíduos nazistas portavam machadinhas, soco inglês, espingarda de chumbinho e facas, sendo uma delas com símbolos nazistas em seu cabo.

Infelizmente este não é um caso isolado: agressões e assassinatos de pessoas negras, homossexuais, lésbicas, trans, migrantes, imigrantes, moradoras de rua, mulheres, e todas que não se encaixam no padrão branco hetero-patriarcal das elites ocorrem cotidianamente. São dezenas os grupos nazi-fascistas atuantes na cidade. Alguns casos chegam à grande mídia ou às redes sociais, mas em sua maior parte sequer chegam à público, sendo lembrados apenas pelas cicatrizes e memórias da vítima sobrevivente. Em todas as situações, o descaso do Estado é evidente. E em sua maioria, nunca são qualificados como o que realmente são: casos de racismo, xenofobia, homofobia, lesbofobia, transfobia, machismo.

A estes grupos, que na realidade são apenas a ponta mais visível de um enorme iceberg, soma-se os incontáveis casos cotidianos de discriminação racial, de orientação sexual, de gênero, etc., legitimados por uma sociedade que está fundada nas heranças da escravidão negra, na imposição da heterossexualidade como norma aceitável, no patriarcado e na manutenção dos privilégios de uma minoria.

Assim, ao descaso do Estado em relação às ações destes grupos de extrema-direita que atuam violentamente na cidade, soma-se ainda a invisibilidade total dos outros inúmeros casos de racismo e homofobia em estabelecimentos comerciais, escolas, instituições e locais de trabalho, o preconceito velado presente nas mais diversas formas em discursos, imprensa, comerciais, publicações, política institucional, “piadas”, etc., a conivência completa do Estado com o genocídio da população negra que ocorre nas periferias por parte da polícia, as políticas cada vez mais duras de criminalização dos movimentos e lutas sociais, retirando de nós o direito à manifestação e organização, a falta de acesso à cidade por parte da grande maioria da população, as políticas de higienização social que cada vez mais empurram nosso povo para longe sem direito à uma vida digna.

Há todo um quadro social que permite e legitima a opressão a nós, que não fazemos parte da parcela privilegiada da sociedade. E assim, o descaso e omissão do Estado é o mesmo, seja quando ocorre um caso de racismo em ambiente de trabalho, seja quando ocorre um caso de assassinato protagonizado por grupos de extrema-direita, seja quando a polícia assassina um jovem negro na periferia.

Nos dias 1, 2, 3 e 4 de julho, ocorrerá o julgamento de parte dos responsáveis pela tentativa de assassinato de nossos companheiros em 2011. Não acreditamos na justiça burguesa, na repressão policial ou no sistema carcerário como solução para estas questões, porém, chamamos este ato público em frente ao Fórum como forma de repúdio a esta e todas as outras agressões que sofremos cotidianamente, mostrando uma vez mais que não esquecemos o sangue derramado! Esta é uma denúncia não só da ação violenta de grupos de skinheads fascistas, que devem ser combatidos, mas uma denúncia das políticas de Estado, e de uma sociedade fundada no privilégio de poucos.

É necessário que sigamos nos organizando, enquanto povo pobre, negro, periférico, enquanto indigenas, quilombolas e povos da terra. Enquanto mulheres, gays, lésbicas e trans. Seguimos juntas nessa jornada!

Pelo fim da opressão dos privilegiados, pelo fim dos privilégios!

Chega de assassinatos e agressões fascistas! Chega de extermínio nas periferias!

Movimento Anarcopunk de São Paulo – MAP/SP

agência de notícias anarquistas-ana

cada galho pro seu lado
mas na cor das flores
nenhum discorda
Alonso Alvarez

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Fonte: http://latuffcartoons.wordpress.com/

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Estado Assassino: Por que Israel ataca novamente – por Susan Abulhawa


Estado Assassino: Por que Israel ataca novamente.
Fogo destrói casa palestina atingida por míssil israelense. Em dois dias, 34 ataques semelhantes foram feitos por Telaviv, que também ampliou sequestros e invasão de organizações da sociedade civil

Garotos mortos são pretexto infame. Onda de brutalidade visa sabotar unidade palestina e mergulhar população judaica em redemoinho de ódio e vingança

Os corpos de três colonos israelenses que desapareceram em 12 de junho foram encontrados há dias, em uma cova rasa cavada às pressas em Halhul, norte de Hebron.

Desde que os jovens desapareceram em Gush Etzion, colônia exclusiva de judeus na Cisjordânia, Israel passou a perseguir os 4 milhões de palestinos que já vivem sob seu domínio. Atacou cidades, saqueou casas e instituições civis, realizou incursões noturnas nos refúgios de famílias, roubando propriedades, sequestrando, ferindo e matando. Aviões de guerra passaram a bombardear Gaza, de novo e repetidamente, destruindo mais casas e instituições, e cometeram-se execuções extrajudiciais. Até agora, mais de 570 palestinos foram sequestrados e presos – o mais notável deles, Samer Issawi, o palestino que fez greve de fome por 266 dias em protesto por prisão arbitrária anterior.

Ao menos 10 palestinos foram mortos, inclusive três crianças, uma mulher grávida e um homem com problemas mentais. Centenas foram feridos, milhares aterrorizados. Universidades e organismos de assistência social foram saqueados, fechados; seus computadores e equipamentos destruídos ou roubados e documentos, tanto públicos quanto privados, confiscados de instituições civis. Este banditismo é a política oficial de Estado conduzida por militares e não inclui a violência contra pessoas e propriedades perpetrada por colonos israelenses paramilitares, cujos constantes ataques contra civis palestinos intensificaram-se nas últimas semanas. E agora que foi confirmada a morte dos colonos, Israel jurou vingar-se à altura. Naftali Bennet, ministro da Economia, disse: “Não há misericórdia para assassinos de crianças. Esta é hora de ação, não de palavras.”

Embora nenhuma organização palestina tenha assumido responsabilidade pelo sequestro e – mais que isso – tenham negado qualquer envolvimento, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, está inflexível quanto à culpa do Hamas. A ONU pediu que Israel forneça evidências que apoiem sua acusação. Nada foi apresentado, o que lança dúvidas sobre as afirmações de Israel, particularmente à luz de sua ira pública pela recente unificação das facções palestinas e a aceitação da nova unidade palestina pelo presidente Obama.

Nos Estados Unidos e Europa, os jornais estampam fotos dos três colonos israelenses adolescentes e tratam os atos de terror de Israel à Palestina como simples “caçada humana” e “varredura militar”. Fotos dos jovens israelenses inocentes são estampadas nas bancas de revista e as vozes de seus parentes, no auge da angústia, destacadas. Estados Unidos, União Europeia, Reino Unido, ONU, Canadá e Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) condenaram o sequestro e pediram a libertação imediata e incondicional das vítimas. Após a descoberta dos corpos, houve uma onda de condenação e condolências.

O presidente Obama afirmou: “Como pai, não posso imaginar a dor indescritível que os pais desses garotos adolescentes estão sentindo. Os Estados Unidos condenam nos termos mais fortes possíveis esse ato de terror sem sentido contra jovens inocentes.”
Menino no meio dos escombros da casa explodida pelo exército israelense em Hebron, Foto: Ahmad Gharabli/AFP

Embora centenas de crianças palestinas sejam sequestradas, brutalizadas ou assassinadas por Israel – várias, inclusive, nas duas últimas semanas –, raramente, ou nunca, vê-se essa reação no Ocidente.

Pouco antes do desaparecimento dos jovens colonos israelenses, o assassinato de dois adolescentes palestinos foi flagrado por uma câmera de vigilância local. Amplas evidências, incluindo as balas encontradas e uma câmera da CNN que filmou um atirador israelense puxando o gatilho no momento preciso em que um dos rapazes foi baleado, indicaram que foram mortos a sangue frio por soldados israelenses. Não houve condenação ou clamor por justiça para esses adolescentes por parte de governantes ou instituições internacionais, nem solidariedade com seus pais em luto – sem falar das mais de 250 crianças palestinas sequestrados de suas casas ou a caminho da escola, que são mantidas definhando em prisões israelenses sem acusação ou julgamento, torturadas física e psicologicamente. Além do bárbaro cerco a Gaza, ou décadas de espoliação contínua, remoções, confisco de terras, demolição de casas, sistema de acesso codificado por cores, prisões arbitrárias, restrições à mobilidade, checkpoints, execuções extrajudiciais, tortura e confinamento de palestinos em guetos isolados.

Nada disso parece importar.

Não importa que ninguém saiba quem matou os adolescentes israelenses. Parece que o país inteiro está clamando por sangue palestino, uma reminiscência das marchas por linchamento dos sulistas norte-americanos, que perseguiam negros sempre que um branco aparecia morto. Nem que esses jovens israelenses fossem colonos que viviam em assentamentos ilegais exclusivos de judeus, construídos em terras roubadas pelo Estado, a maioria de proprietários palestinos da aldeia de Al-Khader. Grande parte dos colonos ali são norte-americanos, principalmente de Nova York, como um dos adolescentes assassinados, enquanto os palestinos, nativos, apodrecem em campos de refugiados, guetos ocupados ou exílio sem fronteiras.

Crianças palestinas são agredidas ou assassinadas todos os dias sem registro quase nenhum de suas vidas na imprensa ocidental. Enquanto as mães palestinas são frequentemente culpabilizadas por Israel matar seus filhos, acusadas de mandá-los para a morte ou de não mantê-los em casa, longe de franco-atiradores israelenses, ninguém questiona Rachel Frankel, mãe de um dos colonos assassinados. Ninguém questiona por que ela mudou-se com a família, deixando os Estados Unidos para viver numa colônia segregada, marcada pelo sentimento de superioridade, estabelecida em terra confiscada de proprietários nativos não-judeus. Certamente, ninguém ousa acusá-la de expor seus filhos a situações perigosas.

Nenhuma mãe deveria viver o assassinado de um filho. Nenhuma mãe ou pai. Isso não deveria ser um privilégios de pais judeus. As vidas de nossos filhos não não menos preciosas, e sua perda não é menos dilacerante, ou desconcertante. Mas há uma disparidade terrível no valor das vidas, aos olhos do Estado e do mundo. As vidas palestinas são baratas e descartáveis; as judaicas, sacrossantas.

A crença no excepcionalismo e supremacia da vida judaica é uma base fundamental do Estado de Israel. Ela permeia cada lei e regra e só é igualada pelo aparente desprezo à vida palestina. Por meio de leis que privilegiam judeus nas ofertas de trabalho e oportunidades educacionais; de outras, que impedem não-judeus de comprar ou alugar de judeus; de ordens militares sem fim, que limitam os movimentos, o consumo de água, o acesso à comida, à educação, possibilidades de casamento e de independência econômica. A vida dos não-judeus, em última instância, está subordinada ao decreto religioso emitido por Dov Lior, rabino-chefe de Hebron e Kiryat Arba. O texto afirma que “mil vidas não-judaicas não valem a unha de um judeu”.
Muhammad al-Fasih e Usama al-Hassumi, mortos por drones israelenses em junho

A violência de Israel nas últimas semanas é geralmente aceita e esperada. E o terror que, sabemos, será desencadeado sobre a população, é disfarçado pela legitimidade dos uniformes e das máquinas tecnológicas de guerra. A violência israelense, não importa quão vulgar ela seja, é inevitavelmente amortecida como se fosse heroica – violência que a mídia ocidental caracteriza de “resposta”, como se a resistência palestina não fosse, ela mesma, uma resposta à opressão israelense. Quando se pediu ao Comitê da Cruz Vermelha que emitisse um apelo semelhante, pela libertação imediata e incondicional de centenas de crianças palestinas confinadas em prisões israelenses (em completo desrespeitos às leis humanitárias internacionais), o órgão recusou-se, sustentando que haveria uma diferença entre o sequestro isolado de garotos israelenses e o sequestro, tortura, encarceramento e isolamento rotineiros de crianças palestinas.

Quando nossos meninos atiram pedras em tanques israelenses fortemente armados, e em jipes que invadem nossas ruas, somos pais descuidados, que deveriam arcar com a responsabilidade do assassinato de seus filhos, atingidos pelos tiros dos soldados ou colonos de Israel. Quando nos recusamos à completa capitulação, é que não somos “parceiros para a paz”, e merecemos que novas terras sejam confiscadas para uso exclusivo de judeus. Quando alguns reagem e sequestram um soldado, são extremistas do terror, os únicos culpados por Israel adotar punição coletiva contra a população palestina. Quando nos lançamos a protestos pacíficos, somos amotinados que merecemos ser alvo de balas. Quando debatemos, escrevemos e boicotamos, somos anti-semitas que precisam ser silenciados, deportados, marginalizados, perseguidos.

Que deveríamos fazer. A Palestina está sendo apagada do mapa quase literalmnte, por um Estado que sustenta, abertamente, a supremacia e o privilégio judaicos. A população continua a ter suas casas e heranças roubadas, a ser empurrada à margem da humanidade e culpabilizada por sua sorte miserável. Somos uma sociedade traumatizada, majoritariamente desarmada, que está sendo destruída por um dos exércitos mais poderosos do mundo.

Rachel Frankel, a mãe de um dos garotos sequestrados, foi à ONU pedir apoio, dizendo que “é errado usar meninos e meninas inocentes como instrumentos de qualquer luta. É cruel… Toda criança não tem o direito de voltar a salvo da escola?” Mas estes sentimentos não valeriam, também, para as crianças palestinas? Aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui há vídeos registrando o sequestro de crianças palestinas, levadas à noite de suas casas ou no caminho para a escola.
Nada disso importa. Apenas, que três garotos israelenses foram mortos. E não interessa quem os matou, ou em quais circunstâncias. Toda a população palestina será obrigada a sofrer – mais do que já sofre, normalmente, sob ocupação.

The Hindu | Tradução Inês Castilho
Fonte: http://outraspalavras.net/