segunda-feira, 14 de julho de 2014
Prisões no Rio golpeiam Liberdade de Manifestação - Por Jefferson Puff e Ricardo Senra
Prisões no Rio golpeiam Liberdade de Manifestação
Presa em
Porto Alegre, ativista “Sininho” chega ao aeroporto do Galeão, no Rio
A pretexto
da Copa, Polícia Civil prende 37. OAB aponta inconstitucionalidade. Anistia vê
“padrão intimidatório” em SP e Rio. Governo federal continua calado
A polícia
do Rio de Janeiro prendeu neste sábado ao menos 37 pessoas por supostas
conexões com manifestações marcadas para coincidir com a final da Copa do
Mundo, entre Argentina e Alemanha, neste domingo no Maracanã. Consultadas pela
BBC Brasil, a OAB e a Anistia Internacional avaliaram as prisões como
“inconstitucionais e intimidatórias”. O grupo também deve ser acusado de
“formação de quadrilha armada”.
Mais nove
pessoas poderão ser presas nas próximas horas pela operação batizada de
Firewall 2, que mobiliza 25 delegados, 80 policiais e até uma aeronave.
Para o
presidente de Comissão de Direitos Humanos da OAB do Estado do Rio de Janeiro,
Marcelo Chalreo, as prisões são inconstitucionais. “As prisões têm caráter
intimidatório, sem fundamento legal, e têm nítido viés político, de tom
fascista bastante presente. O objetivo é claramente afastar as pessoas dos atos
públicos”.
Ao lado de
representantes da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do
Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e de coletivos de advogados, Chalreo disse à
BBC Brasil que os presos terão pedidos de habeas corpus protocolados ainda
hoje, e que “ninguém ficará sem assistência judiciária”.
Ao todo, o
juiz Flávio Itabaiana de Oliveira Nicolau, da 27ª Vara Criminal da Capital,
emitiu 26 mandados de prisão temporária (dos quais 17 já foram cumpridos). As
decisões permitem até cinco dias de detenção. Mais duas pessoas foram presas em
flagrante e dois menores foram apreendidos através de mandados de busca e
apreensão.
Outras 16
pessoas foram presas sem mandado, apenas para “averiguação”, porque estavam nas
casas dos suspeitos detidos, informa a assessoria de imprensa da Polícia Civil.
Segundo a
polícia, um dos presos em flagrante seria o pai de um dos jovens sobre os quais
pesa um mandado de prisão. Ao entrar na residência para deter o suspeito, os
policiais teriam encontrado uma arma, supostamente um revólver calibre 38.
De acordo
com as informações iniciais, o documento de porte de arma vencido do pai do
suspeito levaram os policiais a prendê-lo em flagrante, e o revólver em questão
teria sido a base da acusação de formação de quadrilha armada, que teria como
chefe a ativista Elisa Quadros Pinto Sanzi, de 28 anos. Conhecida como Sininho,
a jovem, que reside no Rio de Janeiro, foi presa em Porto Alegre.
O grupo
será acusado por formação de quadrilha armada, conforme tipifica o artigo 288
do Código Penal Brasileiro. Segundo a polícia, embora nem todos tenham sido
encontrados com armas em casa, os suspeitos teriam praticados atos monitorados
durante a investigação que permitiram a delegado, promotor e juiz concluírem
que participaram de atos de violência, mesmo que não diretamente.
A outra
prisão em flagrante teria sido a de um jovem que foi encontrado com maconha na
casa de um suspeitos e foi então acusado de “porte de drogas”.
Chalreo, da
OAB, diz que é preciso atenção nos termos utilizados nas acusações. “Dizer
armas e drogas, quando na verdade se trata da pistola do pai e de maconha, é
criar uma falsa ilusão de perigo”, avalia.
Também
foram encontradas joelheiras, máscaras de gás, jornais e bandeiras de
movimentos sociais, que na visão da polícia são indícios do envolvimento dos
jovens com os protestos.
“Apreendemos
jornais, bandeiras, e outros materiais ditos inofensivos porque ajudam a
fortalecer a vinculação entre as pessoas que foram presas. Alguém que tem um
mero jornal em casa pode ter participado de outra ação violenta e isso será
deixado mais claro em cinco dias”, disse o chefe da Polícia Civil do Rio,
Fernando Veloso.
Ele diz que
a ação da manhã deste sábado é fruto de uma investigação iniciada em setembro.
“Hoje nós começamos a desmantelar uma quadrilha organizada. A investigação
começou em setembro”, explica.
“Essas
pessoas querem fazer guerra, querem provocar o caos e a polícia não pode
permitir isso”, complementou.
Anistia
Internacional
A
organização de direitos humanos Anistia Internacional chamou a atenção para o
fato de prisões semelhantes já ocorridas sobretudo no Rio de Janeiro e em São
Paulo antes de manifestações.
Para a ONG,
a ação é “preocupante, por parecer repetir um padrão de intimidação que já
havia sido identificado pela organização antes do início do Mundial”.
A Anistia
disse ainda que “a liberdade de expressão e manifestação pacífica são um
direito humano e devem ser respeitados e garantidos pelas autoridades em todas
as situações, inclusive durante a Copa do Mundo. Ninguém deve ser detido ou
preso apenas por participar de uma manifestação e exercer tal direito”.
Por
Jefferson Puff e Ricardo Senra, na BBC Brasil
Colaboração
Júlia Dias Carneiro, da BBC News, no Rio de Janeiro
Fonte: http://outraspalavras.net/outrasmidias/
quinta-feira, 10 de julho de 2014
Quando Jerusalém-2014 faz lembrar Berlim-1933 - Por Chemi Shalev
Quando Jerusalém-2014 faz lembrar Berlim-1933
Jornalista
israelense escreve: cenários não são iguais, mas surto de ódio antipalestino
estimulado por Telaviv envergonha história judaica
Os velhos
jornais no Ocidente não terão coragem de publicar essa matéria. Críticas muito
duras ao governo israelense vêm da própria imprensa liberal do país. Precisam
ser conhecidas, para que setores interessados em paz e justiça no Oriente Médio
saibam que podem encontrar apoio em importantes setores da sociedade
israelense. Talvez estejam ainda apáticos, por se sentirem isolados em meio à
manada que segue a propaganda oficial e a mídia, hegemonizada pelos setores
mais sectários (o diário Haaretz, onde
foi publicado o texto a seguir tem 10% dos leitores; os demais jornais são
controlados por magnatas estrangeiros da mídia conservadora).
O artigo
faz analogias entre o ambiente de histeria em Israel, estimulado de forma
oportunista por políticos da direita, e o que a Alemanha respirou, nos estágios
iniciais do nazismo. A publicação de artigos como esse em Israel, embora
chocantes, pode ser vista com esperança de que setores existentes na própria
sociedade israelense poderão, um dia, virar o jogo. Mas isso só ocorrerá se
houver também forte pressão internacional.
Trata-se de
salvar Israel do fascismo, do isolamento internacional, e de estabelecer entre
este país e os palestinos bases para um futuro de paz e boa vizinhança, única
forma de ambos escaparem da tragédia humanitária que avança no Oriente Médio. (Sérgio
Storch, da Rede de Judeus Progressistas)
Israelenses
queimam bandeira palestina e gritam slogans anti-árabes, durante onda de ódio
Em 9 de
março de 1933, os paramilitares camisas-marrons da SA nazista lançaram uma
ofensiva.“Em diversas partes de Berlim, um grande número de pessoas, a maioria
das quais aparentemente judias, foi atacado abertamente nas ruas e golpeado.
Algumas foram feridas gravemente. A polícia pode apenas recolhê-las e levá-las
ao hospital”, relatou o jornal londrino The Guardian. “Os judeus foram
espancados pelos camisas-marrons até sangrar nas faces e cabeças”, prosseguiu o
jornal. “Diante de meus olhos, paramilitares, babando como bestas histéricas,
perseguiram um homem em plena luz do dia e o chicoteavam”, escreveu Walter
Gyssling, no jornal.
Sei que
você ultrajou-se antes mesmo de chegar ao final do parágrafo anterior. “Como
ele ousa comparar incidentes isolados em Israel com a Alemanha nazista?”, você
está pensando. “Isso é uma banalização ofensiva do Holocausto”.
É claro que
você tem razão. Minha intenção não é traçar um paralelo. Meus pais perderam,
ambos, suas famílias, durante a II Guerra Mundial. Não preciso ser convencido
de que o Holocausto é um crime tão único que figura de modo destacado, mesmo
nos anais de outros genocídios premeditados.
Mas sou um
judeu e há cenas no Holocausto que estão gravadas indelevelmente em minha
mente, ainda que não estivesse vivo à época. Quando assisti vídeos e vi imagens
de gangues de judeus racistas de direita marchando pelas ruas de Jerusalém,
cantando “Morte aos Árabes”, caçando árabes aleatoriamente, identificando-os
por sua aparência ou sotaque, perseguindo-os em plena luz do dia, “babando como
bestas histéricas” e golpeando-os antes que a polícia pudesse chegar, a
associação histórica foi automática. Foi o que primeiro saltou à mente. Deveria
ser, penso, a primeira coisa a saltar à mente de qualquer judeu.
Não é
preciso dizer que Israel de 2014 não é “O Jardim das Bestas”, expressão que
Erik Larson usou para descrever, em seu livro, a
Alemanha de 1933. O governo de Telaviv não é tolerante com o vigilantismo ou os
gângsters, como foram os nazistas por algum tempo, antes que os alemães
começassem a se queixar de desordem nas ruas e dos danos à reputação
internacional de Berlim. Não tenho duvidas de que a polícia fará todo o
possível para prender os assassinos do garoto palestino cujo corpo calcinado
foi encontrado numa floresta de Jerusalém. Até rezo para descobrirem que o
assassinato não foi um crime de ódio [Em 6/7, a polícia israelense prendeu,
de fato, pessoas – judeus ortodoxos de extrema-direita – que confessaram a
autoria do crime, evidentemente motivado por ódio e racismo (Nota da
Tradução)].
Mas não nos
enganemos. As gangues de valentões judeus promovendo caçadas humanas não são
uma aberração. Não foi um acesso incontrolável e único de raiva, que se seguiu
à descoberta dos corpos de três estudantes sequestrados. Seu ódio inflamado não
existe num vácuo. É uma presença marcante, que cresce a cada dia, engolfando
setores cada vez mais amplos da sociedade israelense, alimentada num ambiente
de ressentimento, isolamento e auto-vitimização, impulsionado por políticos e
“especialistas” – alguns cínicos, outros sinceros – que se cansaram da
democracia e suas brechas e que anseiam por ver a imagem de Israel associada a
um único Estado, uma única nação e, em algum ponto desta espiral descendente,
um único Líder.
Em apenas
24 horas, uma página do Facebook convocando “revanche” pelos assassinatos dos
três garotos sequestrados recebeu dezenas de milhares de “curtidas”, e
encheu-se de centenas de apelos explícitos para matar árabes, onde quer que
estejam. Outra página, pedindo a execução de “extremistas de esquerda”,
alcançou quase dez mil “likes”, em dois dias. Além disso, inúmeros textos na
web e nas mídias sociais estão inundados de comentários dos leitores vomitando
o pior tipo de bile racista e pedindo morte, destruição e genocídio.
Estes
sentimentos foram ecoados nos últimos dias, ainda que em termos um pouco mais
velados, por membros do Knesset [o Parlamento israelense], que citam versos da
Torah sobre o Deus da Vingança e sua ordem de extermínio dos amalequitas. David
Rubin, que descreve a si mesmo como ex-prefeito de Shiloh, foi mais explícito:
em um artigo publicado no Israel National News, ele escreveu: “Um inimigo é um
inimigo e a única maneira de vencer esta guerra é destruir o inimigo, sem levar
excessivamente em conta quem é soldado e quem é civil. Nós, judeus, atiraremos
primeiro nossas bombas sobre alvos militares, mas não há, em absoluto,
necessidade de nos sentirmos culpados por arruinarmos as vidas, matarmos ou
ferirmos civis inimigos que são, quase sempre, apoiadores do Fatah ou do
Hamas”.
Pairando
sobre tudo isso estão o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e seu governo, que
insistem em descrever o conflito com os palestinos em tons rudes de “preto e
branco”, “bem contra o mal”; que descrevem os adversários de Israel como
incorrigíveis e irredimíveis; que nunca demonstraram o mínimo sinal de empatia
ou compreensão, diante das reivindicações de um povo que vive sob ocupação
israelense por meio século; que fazem pronunciamentos voltados a desumanizar os
palestinos aos olhos do público israelense; que perpetuam o sentimento público
de isolamento e injustiça; e que, portanto, estão abrindo caminho para ondas de
ódio homicida que começaram a emergir.
Algumas
pessoas ensaiarão um paralelo entre a terrível violência de direita que varreu
Israel depois dos Acordos de Oslo e a maré crescente de racismo. Em ambas, está
implicado o premiê Netanyahu. De seus discursos virulentos na Praça Sion contra
o governo da época ao assassinato de Yitzhak Rabin; e de sua
retórica antipalestina áspera à explosão horrível de racismo hoje.
Mas é uma
resposta fácil demais. Não basta culpar Netanyahu, sem questionar o resto de
nós, Judeus em Israel ou na Diáspora, os que fecham os olhos e os que desviam o
olhar, os que retratam os palestinos como monstros desumanos e os que veem
qualquer autocrítica como um ato de traição judaica.
A
comparação certamente é válida: a máxima de Edmund Burke – “Para o triunfo [do
mal], basta que os homens bons nada façam” – era correta em Berlim no início
dos anos 1930 e permanece verdadeira em Israel. Se nada for feito para reverter
a maré, o mal certamente triunfará – e não será preciso esperar muito.
Haaretz |
Tradução: Antonio Martins
Fonte: http://outraspalavras.net/
Um gole de Galeano no Café Brasileiro - Por Francielly Baliana e Diego Torres
Entre
xícaras de capuccino, numa manhã uruguaia, escritor divaga sobre mãos da
memória, resistência às ditaduras, governo Dilma e estado do futebol
Montevidéu
tem seus próprios ventos, que se parecem, em muito, com crônicas de cidade
pequena. Além de estreita, antiga. Onde prédios velhos se tocam no alto do céu
e olhos se cumprimentam nas praças regadas de folhas. Cafés que falam muitas
línguas recebem durante o dia linguagens de todas as partes. São gestos de
histórias vizinhas contracenando com sentimentos interioranos que a capital
uruguaia abriga em si. Não deixam de captar os olhares, as vozes, as vidas.
Uma das
ruas mais antigas de Montevidéu é também a que abriga o Café Brasileiro, um dos
espaços mais charmosos de Ciudad Vieja, com arquitetura típica do século
19. Ali, onde o vento do lado de fora parecia fazer a curva para o continente,
foi que esperamos pelo encontro com Eduardo Galeano, um dos maiores escritores
de nossa América Latina.
Enquanto
contávamos os minutos para sua chegada, as fotografias nas paredes revelavam a
proximidade que o autor tinha com o local. Eram inúmeras fotos suas. Não seria,
então, coincidência estarmos ali, em um lugar escolhido por ele, naquela manhã
de sábado. Devia ser seu mais aconchegante quintal, no qual nos acomodamos
logo, sem saber se pelo apreço visual da madeira fria que estruturava o local,
ou pelo cheiro de um café tão tipicamente próximo ao nosso. As duas coisas,
talvez.
Galeano
chegou acompanhado de sua filha Florência, e entrou sorrateiro, sem que
escutássemos o barulho de seus passos. Quando nos demos por encontrados,
tomou-nos as mãos e cumprimentou-nos carinhosamente.
“Veja se
isso aqui não parece um romance policial”, atestou. “Quando olhei vocês dois
aqui sentados, disse logo à Florência: são eles!”, sorriu com um humor de quem
se sente em casa. Não demoramos a deixar nossos olhares curiosos de tudo
focarem em seus olhos azuis, capazes de iluminar todo o ambiente.
Antes mesmo
de o café chegar, contamos a ele o motivo que nos levara ali – uma tenra
admiração junto à vontade de estabelecer conversa com vozes e olhares. O que
falaríamos a um jornalista que já havia concedido inúmeras entrevistas a tantos
veículos? Que a conversa fluísse, pois. Que pudéssemos assentar em um sábado de
sua vida e compreender o que as histórias e a despretensão de estar ali, junto
a ele, nos trouxessem às mãos.
O primeiro
gole de cappuccino veio quando comentamos sobre as propagandas políticas que
vimos a caminho do encontro, e sobre as eleições presidenciais que também
acontecerão esse ano no Uruguai. Galeano não demorou a enfatizar suas
percepções sobre o assunto, apontando, com os dedos pouco acima da mesa, para
as ruas que cercavam o Café.
“Eu não
entendo a política uruguaia”, afirmou. “A divisão partidária me confunde. Aqui,
dentro de um partido que se assume como ‘esquerda’, existem frentes
conservadoras e outras de extrema esquerda que disputam entre si. Então, antes
do embate eleitoral, existe uma discussão de quem é que lidera o partido. Nunca
vou entender isso”, completou, afirmando ainda a dificuldade que há em se
estabelecer uma linha de governo dessa forma.
Governo
Dilma
Comentamos
o quanto também é dificultoso no Brasil estabelecer identidade com um dos mais
de trinta partidos existentes. “Eles deixam complexo o que é extremamente
simples”, retomou, colocando mais um gole do seu cappuccino sem açúcar na
garganta. Sobre o governo de Dilma Roussef, afirmou que é um bom governo, de
forma geral.
“Teve
muitos erros e acertos, mas uma coisa é fato: o governo Dilma é claramente uma
continuidade do governo Lula, o que não é ruim. Continua com boas políticas
sociais e de base. No entanto, por conta do perfil de política do PT, que vem
mudando nas últimas décadas, Dilma se preocupou demasiadamente com o modo de
fazer política através das muitas alianças, e isso pode ter atrasado medidas
importantes à população”, destacou.
Quando se tratou
de política, o autor de As Veias Abertas da América Latina não ousou deixar de
lado o peso histórico das ditaduras militares que se espalharam pelo continente
no século 20.
Jornalista
exilado por duas vezes, Galeano esteve no Brasil em anos de chumbo, quando
trabalhava para um jornal de Montevidéu, e seu editor pediu que escrevesse
sobre a realidade social brasileira com a ditadura.
“Ele pediu
que eu fosse ao Brasil, mas, por ter ido diversas vezes ao país, disse que o
faria do Uruguai mesmo. Insistiu e eu fui até o Rio de Janeiro. Queria que eu
visse o modo como as pessoas viviam a ditadura nas ruas. O que mais me chamou a
atenção foi uma frase em um muro, que pedia que o governo brasileiro ‘fosse
logo entregue nas mãos de Charles Elbrick’, embaixador estadunidense na época”,
assinalou, rindo do quanto aquela frase era certeira ao resumir suas impressões
sobre aquele período. “Aquilo materializava a insatisfação diante dos rumos que
o país tomava”, concluiu.
Observávamos
a naturalidade com que Galeano enunciava. Era terno ao fazê-lo. Não havia
dúvidas de que sua sutileza com as palavras, expressa principalmente em O Livro
dos Abraços, que contou-nos ser seu preferido, também se refletia na calma e
tranquilidade de sua fala.
Ao se
tratar de anos ditatoriais, contamos o quanto veículos brasileiros têm trazido
à tona as memórias da resistência com relação ao regime militar. Citamos o
exemplo das histórias que retratam a realidade das universidades brasileiras na
época e o quanto esses espaços, que sempre foram considerados centros de
resistência e formação ideológica social, foram claramente reprimidos pelo
governo.
Havia temor
ante o crescimento de ideias opositoras, o que culminava na infiltração de
pessoas ligadas à ditadura no espaço universitário e a exclusão de alunos e
professores considerados rebeldes. Hoje, a sobrevivência destes locais
representa um símbolo de resistência àquele governo. Sobre isso, relatou a
maneira similar com que a ditadura uruguaia agiu naqueles anos.
“A memória tem
mãos”
“A ditadura
uruguaia agiu de forma parecida. Este Café, por exemplo, foi reconstruído pelas
mãos da memória. Porque a memória tem mãos. Por três vezes, esse espaço foi
destruído pela ditadura. Era considerado um local de típico encontro da classe
intelectual daqui. Vinham com um caminhão durante a noite e desmanchavam o
lugar. Arrancavam os pisos, retiravam as mesas e cadeiras, roubavam os lustres.
No entanto, os frequentadores sempre tinham a disposição de reconstruir o Café
através de suas lembranças em fotos e fatos”, contou-nos com brilho nos olhos
que ora miravam em nós, ora nas paredes com fotografias de velhos conhecidos.
Lembrou-se
também de uma vez que esteve em Leningrado – sua filha o corrigiu atentando ao
atual nome, São Petersburgo –, quando as pontes da cidade, que foram destruídas
pela guerra, estavam sendo reconstruídas por moradores através de fotografias.
A memória parecia dar-lhe as mãos, ali.
O suspiro
forte das lembranças abriu espaço para que nos entregasse dois de seus livros, Mulheres
e Dias e noites de amor e de guerra, que trouxera especialmente para nos
presentear. Assinou com doçura. “Abraços, Galeano”, desenhando um porquinho
abaixo de seu nome. Também fez isso nos livros que trouxemos para receber sua
assinatura.
Quando perguntado
sobre a escolha desse animalzinho, não demorou a dizer que “alguns escritores
escolhem dragões e serpentes como mascotes de suas obras e assinaturas. Eu
escolhi o porquinho, pois ninguém o havia escolhido. Gosto do porquinho”. Sua
graça fez com que todos à mesa sorrissem.
A ele,
entregamos presentes escolhidos com cautela. O livro Deus Foi Almoçar, do
escritor paulistano Férrez, e o filme O Som ao Redor, do diretor recifense
Kléber Mendonça Filho. Não poderíamos deixar o autor de Futebol ao Sol e à
Sombra partir sem indagá-lo sobre uma de suas maiores paixões. Qual seria,
então, sua opinião sobre o futebol sul-americano?
Futebol
Galeano foi
preciso no chute. “Ele continua sendo uma característica muito forte de nossa
cultura, mas as atuais condições do esporte no mundo, baseadas na
comercialização do futebol, fazem com que nossos jogadores sejam vendidos muito
cedo, o que provoca pouca contribuição ao nosso modo de jogar”, respondeu.
Completou dizendo que, no entanto, os jogadores sul-americanos têm um histórico
de mudanças através de pequenas revoluções.
“Há um
movimento no Chile em que os jogadores se uniram e começaram a fazer parte da
tomada de decisão na liga. O Bom Senso Futebol Clube também é outro exemplo. O
futebol não pode se render à política de interesses que atualmente dirige os
clubes”, reiterou. Comparou esse exemplo ao da Democracia Corintiana, que
surgiu na década de 1980, liderada por Sócrates, “que era muito meu amigo”,
ressaltou. Finalizou com uma pergunta que um dia fizeram a Sócrates sobre essa
amizade, que também levantara nossa curiosidade. “Sócrates respondeu: ‘O
Eduardo fala de futebol e eu falo de política. É simples’”, sorriu com a
intimidade contada.
O relógio
batia meio-dia, mas o charme matinal uruguaio não nos tirava o sentimento de
que ainda pareciam nove da manhã. Galeano aproximou-se da mesa tanto quanto se
achegou a nós.
Perguntou-nos onde vivíamos no Brasil. “Vivemos entre São Paulo
e Rio de Janeiro”, respondemos. Como conviesse, perguntamos se lhe agradavam
cidades como as nossas, mas nosso Eduardo foi enfático ao negar o apreço às
grandes metrópoles.
“Não gosto
de cidades grandes, como São Paulo. Elas têm caos demais. Gosto de Montevidéu
porque consigo compreendê-la. Não se pode compreender uma cidade como São
Paulo. Por isso escolhi viver aqui e sempre para cá voltar”, disse.
Entreolhamo-nos pelo tempo em que o termo compreensão ressoou no ambiente.
Eduardo foi
se levantando com os presentes em mãos. Despedimo-nos com um cumprimento ainda
mais carinhoso que o da chegada. “Ainda vamos nos rever”, disse, por fim. “As
mãos da memória sempre trabalham por encontros assim”, quisemos entender.
Agradeceu com os olhos.
Agradecemos. Não como quando um livro termina por nos inspirar,
mas, quando um novo nos segura logo na primeira página. “Até breve”, sentimos.
Fonte: http://outraspalavras.net/
terça-feira, 8 de julho de 2014
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