quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Wikileaks: Israel trabalha para estrangular economia de Gaza, mostram telegramas – por Charles Nisz


Wikileaks: Israel trabalha para estrangular economia de Gaza, mostram telegramas

Ações para manter economia da região "em nível precário, pouco acima de uma crise humanitária", vêm sendo discutidas há pelo menos cinco anos.
Criança refugiada em hospital de Gaza; Israel trabalha para minar economia da região, dizem documentos/ Agência Efe
 
“Autoridades israelenses confirmaram diversas vezes aos funcionários da Embaixada (dos EUA) que a intenção do governo de Israel é manter a economia de Gaza funcionando em nível precário, pouco acima de uma crise humanitária”. Este é o primeiro parágrafo de um telegrama enviado pela Embaixada dos EUA em Tel Aviv para Washington em 3 de novembro de 2008, vazado pelo site Wikileaks nesta segunda-feira, 4 de agosto.

O telegrama faz parte de uma série de documentos vazados pelo site dirigido pelo australiano Julian Assange sobre o conflito entre Israel e Palestina. Dentre os assuntos abordados na correspondência da Embaixada em Tel Aviv estão a criação do Hamas, o uso de palestinos como escudos humanos pelas Forças de Defesa israelenses, o ataque deliberado a alvos civis em Gaza, o bombardeio de hospitais e o corte de suprimento de remédios aos habitantes de Gaza.

De acordo com o documento, o Conselho de Segurança Nacional de Israel controla a quantidade de dinheiro a ser liberada mensalmente para a Autoridade Palestina. O governo da Autoridade Palestina requisitava cerca de US$ 30 milhões ao mês no ano de 2009 como piso básico de transferência, de modo a garantir os serviços básicos para a população palestina – 4 milhões de pessoas. A ideia era a de manter serviços essenciais, mas sem o estabelecimento de comércio e negócios em Gaza.

Autoridade Palestina x Hamas
No telegrama, a embaixada sugere ao governo do EUA o encorajamento das relações entre Israel e a Autoridade Palestina. Para os diplomatas, uma economia e um sistema bancário frágeis seriam adequados aos radicais do Hamas. No entanto, o governo israelense prefere repassar menos dinheiro aos palestinos de modo que o Hamas não tenha acesso à moeda israelense e que a população de Gaza não tenha benefícios econômicos, mesmo ao custo do fortalecimento do Hamas.
Em outro telegrama, datado de 23 de setembro de 1988, um diplomata americano fala sobre a visão política dos habitantes da Cisjordânia: “Muitos habitantes da Cisjordânia acreditam que Israel apoiou nos bastidores a criação do Hamas, ainda na década de 1980. O objetivo era dividir politicamente os palestinos. Philip Wilcox, responsável pelo consulado em Jerusalém, afirmava: “Não há apoio concreto, mas Israel faz vista grossa às atividades do Hamas”.
Militantes da brigada Al Quds vão ao funeral de comandante em Gaza nesta quarta-feira (06/08)/ Agência Efe

A estratégia israelense, segundo os documentos, era enfraquecer os partidos palestinos seculares, mostra um telegrama de 29 de setembro de 1989. Com a ascensão do Hamas, mais radical e de orientação sunita, haveria menos espaço para entidades como a Organização para a Libertação da Palestina, órgão liderado por Yasser Arafat no passado, e atualmente do Fatah e da Autoridade Palestina. Sem a atuação de partidos moderados, Israel não precisaria negociar com os palestinos.

Suprimento alimentar
Além da força militar, o bloqueio israelense a Gaza limita o acesso a gêneros alimentícios, combustíveis e remédios ao território palestino. Com isso, a infraestrutura local opera no limite, informa um telegrama enviado em 18 de setembro de 2009. A falta de remédios compromete o setor de saúde em Gaza e a estrutura elétrica e de saneamento no fim de 2009 regrediu ao mesmo nível no qual estava em 2008.

Para se ter ideia, o suprimento alimentar na região em agosto de 2009 era de 2.600 caminhões. Isso representava 20% do total de alimentos que entravam em Gaza em junho de 2007. O ingresso de combustível era capaz de prover apenas dois terços da usina elétrica local. Para iluminar Gaza, os palestinos usavam petróleo egípcio, trazido através dos túneis na fronteira com custo de US$ 0,60 por litro. Já o petróleo israelense custa US$ 1,80 por litro.

O abastecimento de água e o saneamento também eram precários: cerca de 10 mil habitantes de Gaza não tem acesso à agua. Outros 60% da população não têm acesso diário, com fornecimento intermitente. Apenas 10% dos 1,8 milhões de habitantes em Gaza tem água de acordo com os padrões estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde. Quando não são atacados militarmente, os palestinos estão sem água, sem luz e com fome: são economicamente estrangulados por Israel.

Instalações da ONU e alvos civis
Já um outro telegrama confidencial, despachado em 7 de maio de 2009, fala sobre uma carta enviada por Ban Ki-moon, secretário-geral das Nações Unidas, confirmando ataques das forças israelenses às instalações da ONU em Gaza. “Sete dos nove ataques contra nossas instalações em Gaza foram feitas pelo Exército de Israel, violando as instalações da ONU. As forças de Israel não tiveram precaução de proteger a ONU, nem os civis refugiados nesses locais”. Esses ataques custaram US$ 11 milhões aos cofres das Nações Unidas.

Israel, conforme mostra um documento secreto de 30 de julho de 2009, usou palestinos como escudos humanos. A prática ocorreu na Operação Chumbo Fundido, uma ofensiva contra Gaza entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009. Além disso, o Exército israelense usou bombas de fósforo branco contra uma população civil. Essas atitudes culminaram com a criação de uma entidade chamada “Quebrando o silêncio”.
Palestinos descansam próximos a escombros de praia na Faixa de Gaza/ Agência Efe (05.jun.14)
 
Por meio dessa entidade, foram coletados os testemunhos anônimos de 26 soldados envolvidos na Operação Chumbo Fundido. Os depoimentos confirmaram o uso desproporcional de força militar, causando mortes e prejuízos econômicos desnecessários para a população de Gaza. Outros documentos mostram como esse incidente não foi um fato isolado.

Ataque como política deliberada
Uma comunicação de 15 de outubro de 2008 mostra como o ataque a áreas civis era uma política deliberada de Israel. O documento faz referência à Doutrina Dahiya – assim batizada pelo general Gadi Eizenkot por conta do bairro de Beirute bombardeado durante a segunda guerra do Líbano em 2006. Na ocasião, Israel atacou a capital libanesa, destruindo a infraestrutura urbana e causando problemas para a população civil.

Nas palavras de Eizenkot, “Israel vai usar força militar desproporcional contra qualquer vila que ataque forças israelenses, causando grande destruição”. O general foi específico: não é apenas recomendação, mas um plano aprovado pelo governo de Tel Aviv – na perspectiva de Israel, não são apenas povoados, mas bases militares dos palestinos”. Para Eizenkot, a segunda guerra do Líbano se estendeu demais: “um outro conflito deverá ser resolvido de forma rápida e com vigor”.

Fonte: http://operamundi.uol.com.br/

Licença para matar – por Luiz Eça


Licença para matar
Quando Israel iniciou seus bombardeios maciços sobre Gaza, o presidente Obama apressou-se em justificá-los.

“Israel tem o direito de se defender”, foi sua frase, logo transformada num mantra, repetido fielmente pelos principais estadistas do Ocidente.

Até mesmo Catherine Ashton, chefe de Relações Exteriores da Europa Unida, que costuma ter bom senso, embarcou na onda sem pensar duas vezes.

Claro, houve quem se excedesse. O secretário de Estado John Kerry chegou a afirmar que Israel se achava sitiado pelo Hamas. Uma curiosa troca de papéis na fábula do lobo e do cordeiro.

No mundo de “faz de conta”, que Kerry às vezes parece habitar, as forças do Hamas é que estariam bloqueando Israel, proibindo as exportações e impedindo a importação de vasta gama de produtos essenciais.

Além de limitar entradas e saídas somente a quem bem entendesse. Como é exatamente o contrário que acontece, Gaza vive sob um bloqueio de 7 anos, que  destruiu sua economia, seus empregos e a qualidade de vida do seu povo.

Como disse o cardeal Martino, Gaza “cada vez mais parece um grande campo de concentração”. Para Obama e os respeitáveis estadistas europeus, Gaza não tem o direito de se defender desse devastador bloqueio.

Nenhum deles contesta a licença para matar moradores de Gaza, a que Israel se autoconcedeu. O máximo que eles criticam é o excessivo número de civis mortos. Alguns chegam mesmo a condenar o uso desproporcional de forças pelo exército de Israel.

Obama não vai tão longe. Depois de reafirmar o direito de Israel se defender, ele diz “esperar que Israel irá continuar agindo no processo de um modo que minimize as vítimas civis”.

Ou seja: o exército de Telavive já estaria agindo com moderação. Que continue assim, apela o presidente estadunidense.

Para o embaixador de Israel nos EUA, Ron Demer, até esta amena ponderação é inaceitável. Quanto mais as menções europeias às altíssimas vítimas civis da ofensiva israelense!

Demer declarou, em reunião com 700 líderes judaico-americanos, que o exército de Israel merecia o Prêmio Nobel da Paz por sua “inimaginável moderação” em Gaza.

Os jornalistas norte-americanos gostaram tanto desta macabra piada que perguntaram a opinião de Marie Harf, porta-voz do Departamento de Estado. Ela respondeu com outra pérola.

Embora os militares israelenses adotassem os mais cuidadosos padrões de segurança, talvez pudessem fazer um pouquinho mais para proteger os civis...

O governo Netanyahu garante que seus militares já estão fazendo o máximo para poupar vidas civis. Antes de bombardear um edifício ou uma determinada área, o exército de Israel avisa os moradores para que saiam de lá.

Esta medida não tem dado muito certo por culpa exclusiva do Hamas, que obrigariam os civis
a permanecerem. Seriam os chamados “escudos humanos” tantas vezes denunciados pela propaganda israelense.

As coisas não são bem assim. Em geral, o tempo que os moradores têm para escapar dos bombardeios costuma ser curto; por volta de cinco minutos.

Aqueles que conseguem escapar antes das bombas começarem a cair ainda assim não estão em segurança.

Terão extremas dificuldades para encontrar onde se refugiar. Todos os abrigos já estão lotados com mais de 200 mil refugiados.

“Literalmente, não há lugar seguro para civis (em Gaza)”, disse Jens Laerke, porta-voz do escritório das Nações Unidas para Coordenação de Assuntos Humanitários, em entrevista recente, em Genebra.

Alguns dias depois, provou-se que ele tinha razão. Atendendo a aviso do exército israelense, milhares de palestinos refugiaram-se em escola da ONU, fugindo de suas casas em vias de serem bombardeadas.

Mas os bombardeios foram atingi-los ali, matando até crianças dormindo. Segundo as leis internacionais, alvejar intencionalmente uma área civil é sempre crime de guerra.

De qualquer modo, avisar os moradores não transforma uma área civil num objetivo militar.
O exército de Israel contesta, alega que o Hamas instala plataformas de lançamento mísseis até junto a edifícios públicos.

Daí sua justificação dos ataques a mesquitas, abrigos, campos de refugiados, estádios, hospitais e escolas.

A respeitável Human Rights Watch investigou essa questão. Em oito ataques aéreos israelenses sobre edifícios onde se reúnem civis não descobriu nada que comprovasse as acusações contra o Hamas.

Até agora não apareceu nenhum testemunho independente atestando a existência de “escudos humanos” ou mesmo de unidades militares do Hamas instaladas junto a prédios públicos.
A explicação do imenso número de civis mortos, casas destruídas e hospitais bombardeados parece ser diferente.

Escreve Ian Black no The Guardian, de 29 de julho: “O ataque à usina elétrica nesta terça-feira irá provavelmente alimentar as especulações de que a infraestrutura civil do enclave está sendo deliberadamente destruída na guerra contínua contra o Hamas”.

Não dá para aceitar que o exército israelense seja tão ineficiente a ponto de destruir “por engano” tantos alvos civis.

Uma coisa parece certa: especulações ou não, Israel está levando Gaza a uma situação extrema.
Os devastadores ataques por terra, mar e ar estão tornando insustentável a vida na Faixa.

É absolutamente inviável a sua recuperação econômica, mesmo a médio prazo. Na semana passada, ONGs israelenses informaram que mais da metade dos 1,7 milhão de habitantes de Gaza não dispõe de água, nem de saneamento básico.

“Efeitos colaterais” dos bombardeios. Os hospitais estão parcialmente destruídos, há falta de remédios, de leitos.

Esgotos vazam pelas ruas em consequência de rompimentos nas tubulações. Com o bombardeio da única usina elétrica de Gaza, a população ficou sem energia.

A falta de alimentos se acentua e teme-se para breve uma verdadeira crise humanitária. A vida em Gaza praticamente parou.

Enquanto essa tragédia adquire cores cada vez mais aterradoras, os canhões israelenses prosseguem rugindo.

Obama, Cameron, Hollande, Merkel, todas estas figuras impolutas lamentam, mas não deixam de esclarecer: Israel tem direito de se defender.

Só que Israel agora não está propriamente se defendendo. As toneladas de bombas diariamente lançadas contra Gaza configuram um ataque impiedoso.

O alvo pode ser o Hamas, mas as vítimas são civis (cerca de 80% dos mortos e feridos). Já passou da hora do Ocidente retirar de Israel sua licença para matar inocentes.

Luiz Eça é jornalista.

Depois de destruir Gaza, Israel consumará o “pogrom” – por junior50


Depois de destruir Gaza, Israel consumará o “pogrom”
Os que já me leram sabem que não gosto de : intelectuais e politicos; jornalistas e assemelhados, diplomatas e academicos, os suporto, pois as vezes são uteis - (até baratos) - como advogados e economistas ( um pouco mais caros). Sempre prefiro a realidade, o operacional. Portanto:

1. Pessoas "deslocadas" - eufemismo diplomático para REFUGIADOS, gente que perdeu tudo, só com os trapos que ainda possuem sobre o corpo, em 90 "campos" ( PORRA NENHUMA: estão amontoados sobre destroços, sem agua ou comida), DETALHE: Para quem conhece GAZA, os " 270.000 " do calculo UNRWA, deve ser só os que estão em seus "campos" (  os registrados na burocracia UNRWA: 3 tipos de cartões/autorizações - nucleos familiares, deslocados adultos/as individuais; deslocados crianças ( agregados a alguma agencia, ou pessoa individual de controle )

1.1. Exemplo com base em 270.000 "humanos deslocados", na aritmética cruel de um "campo", no básico, só para as pessoas normais entenderem, para as que  nunca estiveram em um local deste tipo analizarem, "tesearem", encherem  o saco:
Base de Kcal/por pessoa/dia: 2.500 X 270.000 = 675 Milhões ( no REAL: 1 kg de gordura animal tem 8.000 Kcal, ou em aritmética: aprox. 85 TONELADAS ), MAIS uns 10,0 litros de agua por pessoa/por dia: 50 caminhões pipa de 50.000 litros de capacidade. Claro, não chorem, este calculo é o ideal, o "normal" para "manter a vida" nestes campos, dá para fazer em reduções de 15 a até 50%, a morbidade e mortalidade aumentam proporcionalmente, mas salva-se a maioria. ( suplementos médicos e/ou nutricionais, tipo glicose,leite, multimistura etc.., somente são aplicados, aos que tem mais chance de sobreviver - geralmente crianças e adolescentes)

2. Como a ajuda irá chegar: Nem vou colocar o problema do combustivel, Israel destruiu todas as reservas em Gaza, portanto é discussão inutil, alguem vai ter que dar este combustivel - Egito ou Israel. 

2.1. Pontos de entrada e controle: 2 israelenses e 1 egipcio, que caso procedam como anteriormente aos ultimos acontecimentos, mesmo relativo a veiculos ONU/UN/UNRWA, a fiscalização demora aprox. 01:00 H por veiculo (com sorte ).

2.2. Algum chato pode comentar - "Tem o litoral, e porto, virá pelo mar" - Só se os israelenses inpecionarem a carga ao largo, e controlarem o desembraque portuario, alem do que o "porto" está destruido há anos, desde os anos 90 os "portos" de Gaza, somente tem capacidade para traineiras de pesca.

3. Agua: & Energia: Nesta estação do ano, verão, o local quente, e Gaza nunca foi pródiga em agua, dessalinizava agua do Mediterraneo e fornecia a população - 2 usinas - e a energia geral, usual para o povo, era de origem termelétrica - combustivel controlado por Israel - Por que ERA ? Por que Israel em sua expedição PUNITIVA, destruiu todas as usinas, de dessanilização e de energia. Fazer o que ? NÃO SEI.

4. Reconstrução/Contrabando: É PROIBIDO, tanto por Israel quanto pelo Egito, que Gaza receba material de construção (cimento, ferro, tubos, etc..), tais insumos como varios outros, incluindo explosivos, combustivel, carneiros para festas, ou vinham por Rafah (contrabando) ou pelos tuneis que ligavam Gaza ao Egito, que foram destruidos esta semana por Israel ( claro que os egipcios deram a localização deles, por politica, ou pela "prática" do "barkish" - em arabe "moderno": SUBORNO.

Meus amigos israelenses e outros judeus, que me perdoem a comparação: Foi um "pogrom" palestino, e tanto Gaza, como a Cisjordania, tambem podem ser igualados, pela comparativa violencia do ocupante/opressor, aos "distritos judaicos" do Tzar, aos otomanos da Palestina - é até vergonhoso,  o Tsahal (IDF-Terrestre), se ombrear a meros cossacos.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

A propósito de Gaza – por Eric Hobsbawm


A propósito de Gaza
“Durante três semanas a barbárie tem sido mostrada ante um público universal, que tem observado, julgado e, com poucas exceções, rechaçado o uso do terror militar por parte de Israel contra um milhão e meio de habitantes bloqueados desde 2006 na Faixa de Gaza. Nunca antes as justificativas oficiais da invasão têm sido tão claramente refutadas como agora, com a combinação de câmeras e aritmética; nem a linguagem dos “alvos militares” com imagens sangrentas de crianças e escolas em chamas. Treze mortos em um dos lados, 1.360 de outro: não é difícil estabelecer onde está a vítima. Não há muito mais a dizer sobre a operação terrível de Israel em Gaza.

Exceto para aqueles de nós que são judeus. Em uma história longa e incerta de um povo em diáspora, a nossa reação natural para eventos públicos têm incluído, inevitavelmente, a pergunta: “É bom ou ruim para os judeus?”. Neste caso, a resposta é inequívoca: “Ruim para os judeus”.

É evidente que é ruim para os cinco milhões e meio de judeus vivendo em Israel e nos territórios ocupados desde 1967, cuja segurança está ameaçada por ações militares israelenses tomem em Gaza e no Líbano, ações que demonstram a sua incapacidade de atingir os objetivos definidos e que perpetuam e intensificam o isolamento de Israel em um Oriente Médio hostil. Desdo o genocídio ou expulsão em massa de palestinos do que resta de sua terra natal não tem havido outro programa prático que não a destruição do Estado de Israel, e somente uma coexistência negociada em igualdade de condições entre os os dois grupos pode proporcionar um futuro estável. Cada nova aventura militar, como as de Gaza e no Líbano, fará com que esta solução seja mais difícil e fortalecerá a ala direitista de Israel e aos colonos da Cisjordânia, que lideram a oposição a a uma solução negociada.

Igual à guerra do Líbano, em 2006, Gaza ecureceu as perspectivas de futuro para Israel. Também escureceu as perspectivas dos nove milhões de judeus que vivem na diáspora. Permitam-me que fale sem rodeios: a crítica de Israel não implica em antissemitimismo, mas as ações do governo de Israel causam vergonha entros os judeus e, sobretudo, dá espaço ao atual antissemitismo. Desde 1945, os judeus, dentro e fora de Israel, se beneficiaram enormemente com a má consciência do um mundo ocidental, que se recusou à imigração judia na década de 1930, alguns anos antes de serem permitidas, ou não se opuseram ao genocídio. Quanta dessa má consciência, que praticamente eliminou o antissemitismo no Ocidente durante sessenta anos e produziu uma época dourada para sua diáspora, é hoje a esquerda?

A ação de Israel em Gaza não é a de um povo que é vítima da história, nem sequer é o “pequeno valente” Israel da mitologia de 1948-1967, como um David derrotando a todos os Golias ao seu redor. Israel está perdendo a boa vontade tão rapidamente como os EUA de George W. Bush, e por razões similares: a cegueira nacionalista e a megalomania do poder militar. O que é bom para Israel e o que é bom para os judeus como povo são coisas que estão evidentemente vinculadas, mas eenquanto não houver uma resposta para a questão da Palestina não são e não podem ser idênticas. E é essencial para os judeus que se diga.”

Jornal GGN - O historiador Eric Hobsbawm publicou este artigo sobre o conflito entre Israel e a Faixa de Gaza em 2009. Cinco anos após sua publicação e dois anos depois da morte de seu autor, as palavras de Hobsbawm, um judeu britânico, são mais relevantes do que nunca com a nova ofensiva israelense em Gaza.

Fonte: http://jornalggn.com.br/

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Estado Genocida: Não há culpa coletiva na Faixa de Gaza - por José Antonio Lima


Estado Não há culpa coletiva na Faixa de Gaza.
 
Alguns defensores de Israel flertam com o barbarismo ao tentar justificar a morte de civis na Faixa de Gaza 

Said Khatib / AFP 
No domingo 3, em Rafah, na Faixa de Gaza, garota chora durante o funeral de nove membros da família al-Ghul, mortos em um ataque israelense

Vamos começar refletindo sobre as duas frases abaixo.

"Quando você faz parte de um processo eleitoral que (elege) uma organização terrorista que proclama em palavras e ações que seu principal objetivo é destruir o seu país vizinho e não construir escolas, comércio ou postos de trabalho, você é cúmplice e não uma vítima civil."

"O povo é quem escolhe o governo por vontade própria, uma escolha que decorre de seu acordo com suas políticas. (...) O povo é que financia os ataques contra nós (...) por meio de seus candidatos eleitos. (...) É por isso que o povo não é inocente por todos os crimes cometidos."

O primeiro comentário é de David-Seth Kirshner, presidente do Conselho de Rabinos de Nova York, que na semana procurou justificar os ataques das Forças Armadas de Israel contra civis palestinos na Faixa de Gaza. O segundo é de Osama bin Laden.

É altamente perturbador quando um líder religioso legítimo e conceituado, caso de Kirshner, passa a usar o mesmo tipo de retórica do maior terrorista da história. Esse tipo de argumento, no entanto, tem surgido entre os defensores de Israel. Ele aparece à medida que o mundo entende como falaciosa a tese do "direito à defesa", uma contradição em termos tendo em vista o cerco terrestre, aéreo e naval mantido por Israel e pelo Egito à Faixa de Gaza nos últimos nove anos. Surge, também, como resposta à pressão internacional sobre Israel, por causa do grande número de vítimas civis deixado pela Operação Protective Edge.

Há inúmeras tentativas de explicar, do lado israelense, a quantidade de vítimas civis. O jornal The Times of Israel concluiu em reportagem que os números são inflados apenas como propaganda do Hamas. O editorial do jornal seguiu linha semelhante, mas questionou por que a operação Protective Edge tem tanta cobertura e o confronto na Síria ficou de lado. Outras tentativas de explicar a morte dos civis são bem mais desconcertantes.

É o caso dos que defendem que os palestinos merecem morrer porque o Hamas foi eleito em 2006. Além da fala do rabino nova-iorquino, dois textos são emblemáticos nesse sentido. No jornal The Washington Post, o colunista Charles Krauthammer direcionou suas críticas não ao Hamas, mas a todos os "palestinos de Gaza": "Eles elegeram o Hamas. Então, em vez de construir um Estado com suas instituições políticas e econômicas de atendimento, passaram a maior parte de uma década transformando Gaza em uma base militar em massa, repleto de armas terroristas, para fazer a guerra incessante em Israel". No Wall Street Journal, Thane Rosenbaum, diretor do Fórum de Direito, Cultura e Sociedade na Faculdade de Direito da Universidade de Nova York, foi mais explícito. "O povo de Gaza elegeu esmagadoramente o Hamas (...). O que eles acharam que ia acontecer? Em algum nível básico, você perde seu direito de ser chamado de civil, quando elege livremente os membros de uma organização terrorista como estadistas."

Além da perversidade dessa "teoria", análoga à usada por Bin Laden para justificar a morte de civis no 11 de Setembro, ela resulta de uma generosa dose de ignorância histórica, política, matemática e jurídica.

Como o Hamas chegou ao poder
A sempre citada eleição de 2006 foi realizada em janeiro daquele ano, tanto na Faixa de Gaza quanto na Cisjordânia. Era um pleito parlamentar e foi disputado por 14 partidos. O Hamas venceu o pleito, mas a maioria obtida pelo grupo deveu-se a uma questão matemática: o sistema eleitoral vigente, do tipo winner takes all (o vencedor leva tudo). Não houve vitória "esmagadora" – o Hamas obteve 44,45% dos votos e o Fatah, 41,43%. Os dois grupos, eventualmente, se envolveram em uma guerra civil encerrada com o Fatah controlando a Cisjordânia e o Hamas, a Faixa de Gaza.

Os aspectos históricos e políticos são ainda mais importantes, pois demonstram que a vitória do Hamas não pode ser explicada por um suposto desejo dos palestinos de colocar "uma organização terrorista no poder".

Em primeiro lugar, é preciso considerar que o Hamas é parte integrante e indissociável da sociedade palestina. O grupo surgiu em 1987, em meio à primeira Intifada contra Israel, como resultado do fortalecimento da oposição religiosa à secular Organização da Libertação da Palestina (OLP). O próprio governo de Israel fomentou grupos religiosos que deram origem ao Hamas, como forma de se contrapor à OLP, então comandada por Yasser Arafat. Essa história está, entre outros lugares, na página 45 do livro Hamas, de Beverley Milton-Edwards e Stephen Farrell. Como ocorreu em outros lugares do Oriente Médio nos anos 1970 e 1980, o islã político, a ideologia do Hamas, passou a ser um meio para os palestinos expressarem seu descontentamento com a ocupação israelense, e é assim até hoje. A partir daí, o Hamas notabilizou-se por ataques terroristas contra civis israelenses, mas a pressão militar de Israel e a queda da popularidade desse tipo de ação entre os palestinos fez o grupo iniciar uma guinada à política. O ponto culminante dessa mudança foi a eleição de 2006.

Apesar do viés político-religioso do Hamas, foi a questão política que prevaleceu na vitória. No ensaio The Hamas Agenda: How has it changed?, publicado pelo Middle East Policy Council, o pesquisador Baudouin Long afirma que a vitória não se deu por causa do islamismo do Hamas, mas foi resultado de uma campanha que "tirou vantagem do fracasso da Autoridade Palestina de estabelecer um Estado independente". Como ocorreu em Israel, onde o  fracasso do processo de paz deu poder à direita contrária ao Estado palestino, entre os palestinos houve um fortalecimento político do Hamas.

A vitória do Hamas, continua Long, foi também fruto "da corrupção e da má governança do Fatah". Uma análise do noticiário de 2006 revela isso de forma cristalina. Um dia antes da eleição, o Guardian mostrava a indignação dos palestinos com a corrupção e a incompetência do Fatah. No dia seguinte ao pleito, a Associated Press afirmava que o "Hamas capitalizou o descontentamento generalizado com anos de corrupção e ineficácia do Fatah. Grande parte de sua campanha foi focada em questões internas palestinas, ao diminuir a importância do conflito com Israel".

Parece claro, assim, que os palestinos não elegeram o Hamas porque o grupo defende em seu documento fundador o antissemitismo e a destruição de Israel, mas porque o Hamas era a alternativa "menos pior" à precariedade em que viviam.

Acima de tudo isso está a questão humana e civilizacional das regras da guerra. A diferenciação entre combatentes e não combatentes em um confronto militar data da Declaração de São Petersburgo de 1868. Hoje, ela baliza as regulações da Convenção de Haia e é a primeira das 161 regras da Lei Humanitária Internacional. Esse princípio existe para tentar manter ao menos em níveis mínimos os contornos civilizacionais que regem o mundo mesmo em momentos de crise.

Como afirmou o articulista Ramesh Ponnuru, um dos que manifestaram preocupação com a tese da "culpa coletiva" palestina, as regras da guerra "são uma conquista civilizacional que vale a pena defender". Hoje, Israel ocupa a Cisjordânia de forma ilegal e transformou a Faixa de Gaza em uma prisão a céu aberto. No atual conflito, já destruiu 4 mil residências e matou 4 mil pessoas, 300 delas crianças. A bússola moral do país está apontando para o lugar errado. Os defensores de Israel precisam entender isso e ajudar o país a corrigir seu rumo. Justificar o injustificável não é o melhor caminho.

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/

Estado Genocida: O massacre visto por dentro – por Gideon Levy e Alex Levac


O massacre visto por dentro
Dois médicos noruegueses em Gaza descrevem, atônitos, guerra que visa especialmente residências e hospitais e faz população acreditar que já “não há nada a perder”

Os números são escritos em tinta na palma de sua mão, como se fosse uma um aluno anotando uma cola para uma prova: 1.035 mortos, 6.233 feridos, em duas horas na segunda-feira. A cada dia, ele apaga as cifras e atualiza.

Nesta semana, o professor Mads Gilbert deixou o Hospital de Shifa, na Faixa de Gaza, para breve férias em sua terra natal, Noruega, depois de duas semanas consecutivas tratando as vítimas da guerra. Seu colega e compratriota, o professor Erik Fosse, deveria substituir Gilbert em Gaza, mas até o meio da semana Israel ainda o impedia. Fosse passou, também, a primeira semana da Operação Borda de Proteção em Shifa, e queria voltar.

Gilbert e Fosse trabalharam em Shifa durante a Operação Chumbo Fundido, em 2008-09, e publicaram na sequência o livro Olhos em Gaza, um best-seller internacional. Agora, eles afirmam que, em termos de dano causado à população civil, e principalmente às crianças, a atual guerra na Faixa de Gaza é ainda mais angustiante do que a anterior.

Ambos estão em seus sessenta anos. Eram admiradores de Israel em sua juventude, mas na primeira guerra do Líbano em 1982 – em que se alistaram para ajudar a tratar os palestinos feridos – suas perspectivas e vidas mudaram para sempre. “Foi então que vi a máquina de guerra israelense pela primeira vez”, Gilbert lembra.

Fosse dirige uma organização chamda NORWAC (Comitê da Ajuda Norueguesa), que presta assistência médica aos palestinos, e é financiada pelo governo norueguês. Gilbert (que é voluntário independente) e Fosse têm, ambos, dedicado boa parte de suas vidas ajudando os palestinos, o que tornou Gaza uma segunda casa para eles. Na segunda-feira à tarde, encontramos Fosse, um cirurgião cardíaco, em Herzlia, retornando para Gaza, depois de suas férias na Noruega. E conhecemos Gilbert, um anestesista, enquanto saía da passagem da fronteira de Erez a caminho de casa. As imagens descritas pelos dois deve pesar muito na consciência de cada ser humano decente.
“Pensei que a a Operação Chumbo Fundido seria a experiência mais terrível da minha vida”, disse Gilbert, “até que cheguei em Gaza há duas semanas. Era ainda mais chocante. Os dados revelam que há 4,2 vítimas palestinas por hora… Mais de um quarto dos mortos são crianças; mais da metade são mulheres e crianças. As forças armadas de Israel admitem que 70% são civis; a ONU diz que 80% são; mas pelo que vi no Shifa, mais de 90% são civis. Isso significa que estamos falando de um massacre da população civil”.

“Shujaiyeh foi um verdadeiro massacre”, continua ele. “Na Operação Chumbo Fundido, eu não vi esse tipo de ataque em edifícios residenciais; naquela época, os prédios públicos foram atacados. A brutalidade, o dano intencional a civis e a destruição são mais angustiantes agora do que na Operação Chumbo Fundido. Não me impressiona o o fato de que as pessoas recebam um aviso de 80 segundos para evacuar suas casa. Isso é desumano. A visão de Shujaiyeh é mais terrível do que qualquer coisa que vimos em Chumbo Fundido”.

“Dê uma olhada em Shujaiyeh – parece Hiroshima. Eu nunca vou me acostumar com a visão de uma criança ferida, quando não temos à disposição meios adequados para tratar deles. Usamos anestesia local, devido à falta de remédios, e não há drogas suficientes nem para isso”.

Gilbert, que leciona na Universidade do Norte da Noruega, também está furioso com o que vê como dano intencional do exército aos hospitais. Nada sobrou do hospital de reabilitação Al-Wafa; o hospital infantil Mohammed al-Dura em Beit Hanun foi bombardeado pelo exército, e uma criança de dois anos e meio, internada na UTI, foi morta. Quatro pessoas morreram no Hospital Al-Aqsa. Gilbert tinha visitado o hospital infantil e testemunhou a cena com seus próprio olhos. Nove ambulâncias foram atacadas; os médicos foram mortos e feridos. Na opinião de Gilbert, estes incidentes constituem crimes de guerra.

O médico ficou particularmente impressionado pela determinação e comportamento dos residentes, primeiramente aqueles das equipes médicas locais. Em Shipa, nenhum dos funcionários recebeu salário por três mêses; nos oito meses anteriores, apenas receberam metade dele. Mesmo os que tiveram suas casas destruídas permaneceram trabalhando. Sua devoção à profissão sob tais condições deixaram-no atônito.

No que diz respeito à afirmação de que os líderes de Hamas estão escondidos em Shifa, os dois noruegueses dizem não terem visto um único homem armado ou qualquer chefe da organização; alguns ministro do Hamas foram visitar os feridos.

Gilbert diz que, também na Operação Chumbo Fundido, o exército de Israel tentou assustar o serviço médico dizendo que os militantes armados estavam escondidos no hospital. Mas a última pessoa com armas que os noruegueses viram em Shifa foi um médico israelense, durante a primeira intifada, anos atrás. Gilbert diz que avisou o homem sobre a lei internacional, que proíbe levar armas a hospitais.

Da mesma maneira, ele recusa as declarações de que o Hamas está usando a população civil de Gaza como escudo humano, e adiciona: “Onde a resistência clandestina ao nazismo se escondia, na Holanda e na França? E onde escondia suas armas?”

“Eu não apoio o Hamas”, diz Gilbert. “Eu apoio palestinos, e também seu direito de escolher os líderes errados. E quem escolheu [o primeiro-ministro israelense] Neanyahu e [o ministro de Relações Exeteriores, de extrema-direita,] Lieberman? Eles [os palestinos] têm o direito de cometer erros. Visito Gaza há 17 anos. Quanto mais você a bombeia, mais o apoio pela resistência cresce. Sinto que a tentativa de retratar Hamas como um Boko Haram é ridícula. Boko Haram é o exército de Israel, que está violando a lei internacional. Como seus comandantes podem estar orgulhosos de matar civis?

“A História vai julgá-los e acredito que o exército de Israel não vai sair disso bem, dados os fatos. Eu faço um chamado aos israelenes: ergam-se. Mostrem coragem. Israel etá se movendo na direção de ser pior que a África do Sul — e isso seria uma forma vergonhosa de deixar o palco da história.”
Fosse é mais comedido, provavelmente porque trabalhou apenas até a invasão por terra em Gaza começar. Em Shifa, ele conduziu cerca de dez operações por dia. Elogia a especialidade dos médicos de Gaza, com quem trabalhou.

Ele vê sua missão como uma extensão para além da sala de cirurgia, ao levantar um grito de alarme para o mundo, depois de Gaza ser esvaziada de qualquer presença internacional por Israel. Ele afirma que a maioria dos feridos que tratou foram atingidos por mísseis guiados de precisão. Está certo, portanto, de que o maior número de ataques a civis e crianças foi intencional.

Em seu livro, os noruegueses reproduziram uma foto dos atiradores do exército de Israel, vestindo camisetas com as legendas: “Menores — mais duros” e “Uma bala — dois mortos”. Desta vez, são os mísseis inteligentes que estão matando crianças. Mas na opinião de Fosse, o cerco de Israel a Gaza é ainda mais sério para seus residentes que a guerra. E é esse o motivo de o Hamas estar mais agressivo agora.

“Há sete anos, a sociedade inteira está se desmoronando. Não há comércio, não há exportação nem saída. A única ocupação que permite acumular dinheiro é o contrabando, e isso destrói a sociedade. Destrói Gaza como uma sociedade normal. O cerco criou um reduzido grupo de pessoas que enriquecem contrabandeando. Todas as outras são pobres. Isso mina a estrutura da sociedade, e é o maior problema de Gaza.

“Fui lembrado de minhas conversas com cirurgiões palestinos da minha idade. Por anos, eles viveram em uma Gaza aberta, que tinha conexões excelentes com os médicos israelenses. Sempre sonharam em voltar a isso. Agora, esses mesmos médicos se reúnem em volta da televisão e ficam felizes quando foguetes caem no país vizinho. Eu digo a eles: mas Israel vai reagir. E eles dizem: não nos importamos mais. Vamos morrer de qualquer maneira. É melhor morrer em um bombardeio.
“Eles perderam toda a esperança. É chocante ver estas pessoas perdendo seus filhos e não se importarem mais. Israel está perdendo soldados, agora, para preservar uma situação a que o mundo inteiro se opõe. Isso é um crime contra uma população civil imensa”, Fosse acrescenta.

“Vocês roubaram seu futuro e eles estão em desespero. O Hamas não tem muito apoio, mas há um imenso apoio ao sentimento de que não há mais nada a perder. E, do outro lado, está a sociedade israelense, que não se importa. É muito triste. Vocês, que passaram pelo Holocausto, tornaram-se racistas. Em minha opinião, isso é uma tragédia. Por que estão fazendo isso? Estão ultrapassando todos os limite éticos — e, no fim, isso também vai destruir sua própria sociedade.”

Haaretz | Tradução: Cauê Ameni e Gabriela Leite
Fonte: http://outraspalavras.net/   

FHC e a arte de se apequenar antes e depois – Luis Nassif


FHC e a arte de se apequenar antes e depois
Perguntam-me dos motivos para a implicância com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
 
São vários.

O principal é que tinha base de apoio no seu partido, conhecimento, descendia de família de militares que participaram de episódios centrais de formação do país; tinha formação e adesão de parcelas importantes da opinião pública para montar um governo socialdemocrata, que conduzisse reformas mas lançasse as bases de políticas sociais legitimadoras. Tinha tudo, até a assessoria luxuosa da verdadeira estadista que era dona Ruth para lançar as bases do combate à miséria.

Em vez disso, terceirizou a política econômica para os financistas do seu governo, permitiu a manutenção de políticas cambial e monetária ruinosas, mesmo após três graves crises externas. Jamais conseguiu pensar como um verdadeiro estadista. Era deslumbrado com as pompas do poder, mas não com a possibilidade de mudar realidades.

Fora do poder, poderia ter se tornado um desses sábios referenciais dos quais toda Nação necessita, os mais velhos que trabalham para mostrar rumos, para conciliar, para ajudar na construção de consensos.

Pequeno antes, manteve-se pequeno depois.

Seu artigo de hoje, no Estadão (clique aqui), é tão medíocre que merecia ser assinado por Roberto Freire – o único (repito o único!) Senador da República que, em 1999, foi contra o projeto de renda mínima proposto em comum acordo por ACM e Eduardo Suplicy.

É medíocre por ser falsamente esperto, e pela absoluta falta de respeito de FHC pelos fatos e pela sua própria biografia.

Diz o artigo:
“O que fez o PSDB quando as pesquisas eleitorais de 2002 apontavam para a possível vitória do PT?”.

1.     Elevou os juros, mesmo antes das eleições, reduzindo as próprias chances eleitorais.

Coloca como se fosse um ato de desprendimento e não um gesto de desespero, ante os erros colossais cometidos pelo então presidente do Banco Central Armínio Fraga, que jogou a cotação do dólar nas alturas e quase explodiu com a economia brasileira.

Primeiro, Armínio criou o sistema de pagamento eletrônico, que passou a medir de forma muito mais intensa os movimentos de juros intrabanco e as cotações dos títulos do Tesouro. Depois, introduziu o sistema de “marcação a mercado” – pelo qual os fundos tinham que contabilizar diariamente suas cotas pelo valor de negociação dos títulos a cada dia.

Exemplo pequeno:

·       um título vale 100 no momento de resgate; a taxa de juros do mercado está em 10%. Logo o valor presente do título é 90,9. Ou seja, se alguém comprar por 90,9 e levar até o dia do vencimento, receberá os 100.
·       ai a taxa aumenta para 15%.  Imediatamente o valor a mercado do título cairá para 86,8 – para garantir os 15% de juros no vencimento.

Mesmo que os fundos levassem os títulos até o vencimento, para receber os 100, a nova regra obrigava-os a remarcar o valor da cota de acordo com o valor de negociação diária dos títulos.

Finalmente, lançou uma operação desastrosa de vender títulos pré-fixados amarrados a hedge cambial – visando empurrar goela abaixo do mercado os pré-fixados, em uma atitude de um voluntarismo tal que nada fica a dever às medidas de Dilma Rousseff, e muito mais ruinosa.

Os investidores passaram então a comprar o pacote, a ficar com o hedge e a desovar os pré-fixados no mercado. Esses títulos eram uma parcela ínfima do estoque de pré-fixados do mercado. Mas o valor das cotas de todos os papéis dependia das negociações diárias.

Quando os pré-fixados foram desovados no mercado, houve queda de sua cotação e imediatamente todos os fundos que tinham pré-fixado em carteira foram obrigados, pela marcação a mercado, a desvalorizar o valor de sua cota. Da noite para o dia, investidores se deram conta de que havia caído o saldo de suas aplicações nesses fundos.

Foi um pânico generalizado no mercado, que ajudou a fortalecer o falso temor de que, eleito, Lula confiscaria a poupança.

Foi uma barbeiragem tão grande que em muitas cabeças passou a impressão de ter sido intencional, para espalhar o temor nas eleições que se avizinhavam.

As medidas posteriores foram mero paliativo para impedir que a economia explodisse nas mãos de FHC como consequência dessa barbeiragem.

2.     Sustentou mundo afora que não haveria perigo de irresponsabilidade de Lula, pois as leis e cultura haviam mudado.

FHC baseia-se em uma versão falsa de ter conduzido a aproximação de Lula com o governo Bush Jr, versão devidamente desmascarada aqui por pessoas que participaram diretamente das reuniões prévias entre as equipes de Bush e de Lula. O principal homem de FHC em Washington, embaixador Rubens Barbosa, sempre acenou com fantasmas para o Departamento de Estado norte-americano.

3.     Pediu empréstimo ao FMI, com previa anuência dos candidatos.

Mas é óbvio que o FMI só emprestaria com aval do futuro presidente. Não se tratou de concessão, mas de um ato de moratória, quatro anos após o anterior, devido ao fato de adiar a tomada de medidas urgentes para não atrapalhar as eleições - prática que ele aponta em Dilma, em seu artigo.
FHC termina o artigo prevendo tempos duros, de autoritarismo e repressão.

E conclui: “Vejo fantasmas? Pode ser, mas é melhor cuidado do que não lhes dar atenção”.

É por essas e outras que jamais será a figura referencial que poderia ter sido, depois de deixar o poder.

Comprova o pior receio de Sérgio Motta quando, pouco antes de morrer, mandou um bilhete implorando: “Não se apequene”.

Fonte: http://jornalggn.com.br/

É preciso acabar com a indústria bélica – por Georges Bourdoukan


É preciso acabar com a indústria bélica
Principais vítimas das bombas israelenses 

Quando o soldado de Israel dispara contra a cabeça do garoto palestino, a bala que vai matar a criança faz parte de um estoque de centenas de bilhões de dólares que a indústria bélica faturou nas duas últimas décadas com a venda de armas para o Oriente Médio. 

Portanto, se alguém realmente quer acabar com a violência, antes de mais nada precisa acabar com a indústria bélica. 

Mas, acabando com a indústria bélica, acaba-se também com o narcotráfico, já que um vive umbilicalmente ligado ao outro. 

E aí é que surge o problema pois,  estimativas dos organismos internacionais informam que o narcotráfico movimenta por ano um trilhão de dólares, como produto ou através de empresas legalmente constituídas. 

A pergunta que fica é, existe força suficiente para acabar com uma indústria que movimenta um trilhão de dólares por ano? 

E quanto à indústria bélica, o problema que se coloca é outro. Ao  acabar com a indústria bélica, acaba-se com as forças armadas, cuja finalidade, aprende-se nos bancos escolares, seria defender as fronteiras. 

Mas nessa época de globalização, pergunta-se, é possível falar em fronteiras? 

Num sistema neoliberal, onde tudo é negociável, como fica a soberania? 

Por isso, quando a indignação toma conta da humanidade diante dos massacres infindáveis que as forças repressivas israelenses perpetram contra os palestinos,  ou mesmo quando a Anistia Internacional menciona crimes contra a humanidade praticadas pelas autoridades do Estado judaico, ou ainda, quando uma Corte Suprema como a do Estado sionista endossa e alega razões de Estado para a prática de torturas contra os prisioneiros políticos semitas, não basta a indignação.

É preciso agir.

A humanidade precisa decidir se apoia o narcotráfico e a indústria bélica ou prefere viver num mundo melhor.

Como se vê, é uma questão de escolha.

Fonte: http://blogdobourdoukan.blogspot.com.br

domingo, 3 de agosto de 2014

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Pentágono pesquisa o controle social - por Nafeez Ahmed


Pentágono pesquisa o controle social
Em paralelo à espionagem da NSA, militares norte-americanos estimulam e financiam investigações sobre lógica da mobilização social, e como detê-la

Um programa de pesquisa do Departamento de Defesa dos EUA – o Pentágono – está financiando universidades para mapear a dinâmica, riscos e pontos críticos de agitação civil em grande escala por todo o mundo, sob a supervisão de várias agências militares norte-americanas. O programa de milhões de dólares é projetado para desenvolver “estratégias relevantes de batalha” a curto e médio prazo para oficiais superiores e responsáveis pelas decisões de uma “comunidade política de defesa”, bem como para informar as políticas implementadas por “comandos de combatente”.
Lançada em 2008 – o ano da crise bancária global – a “Iniciativa de Pesquisa Minerva” do Pentágono faz parcerias com as universidades para “melhorar a compreensão básica do Departamento de Defesa a respeito das forças sociais, culturais, comportamentais e políticas que configuram regiões do mundo de importância estratégica para o EUA”.

Entre os projetos premiados para o período 2014-2017 encontra-se um estudo liderado pela Universidade de Cornell e gerido pelo Serviço de Investigação Científica da Força Aérea dos EUA, que tem por objetivo desenvolver um modelo empírico “da dinâmica de mobilização do movimento social e contágios”. O projeto vai determinar “a massa crítica (o ponto de inflexão)” de contágio social, estudando seus “rastros digitais” nos casos da “Revolução Egípcia de 2011, das eleições de Duma na Rússia em 2011, da crise nigeriana de subsídio aos combustíveis de 2012 e 2013 e dos protestos no Parque Gazi na Turquia”.

Postagens no Twitter e conversas serão examinadas “para identificar identificar indivíduos mobilizados por contágio social e quando eles começaram se movimentar”.

Outro projeto premiado este ano na Universidade de Washington “pretende descobrir as condições em que se originam os movimentos sociais que visam a mudança política e econômica em grande escala”, juntamente com as suas “características e consequências”. O projeto, gerido pelo Serviço de Pesquisas do Exército dos EUA, concentra-se em “movimentos em grande escala, envolvendo mais de 1.000 participantes em atividade permanente”, e irá abranger 58 países no total.

No ano passado, a Iniciativa Minerva do Pentágono financiou um projeto para determinar “quem não se torna um terrorista, e por quê?” que, no entanto, confunde ativistas pacíficos com os “partidários da violência política”, diferenciando-os de terroristas apenas na medida em que não embarcam na “militância armada” por si mesma. O projeto aventa estudar explicitamente os ativistas não violentos:
“Em cada contexto, encontramos muitas pessoas que compartilham o mesmo pano de fundo demográfico, familiar, cultural e/ou nível socioeconômico daqueles que decidiram se engajar em terrorismo, mas se abstiveram de assumir a militância armada, mesmo que fossem simpáticos aos objetivos finais de grupos armados. O campo de estudos sobre o terrorismo não tem, até recentemente, lançado olhar para este grupo de controle. Esse projeto não é sobre os terroristas, mas acerca dos apoiadores da violência política”.

Os 14 estudos de caso do projeto “envolvem extensas entrevistas com dez ou mais ativistas e militantes de partidos ou de ONGs que, apesar de simpáticos a causas radicais, escolheram um caminho de não-violência”.

Entrei em contato com a investigadora principal do projeto, Profª. Maria Rasmussen da Pós-graduação da Escola Naval dos EUA, perguntando por que os ativistas não violentos que trabalham para ONGs devem ser equiparados aos partidários da violência política – e quais “os partidos e ONGs” estavam sendo investigados –, mas não recebi resposta.

Da mesma forma, a equipe do programa Minerva se recusou a responder uma série de perguntas semelhantes que lhes fiz, inclusive indagando como “causas radicais” promovidas por ONGs pacíficas podem constituir uma potencial ameaça para a segurança nacional e do interesse do Pentágono.

Entre as minhas questões, eu perguntei:
O Departamento de Defesa dos EUA, vê os movimentos de protesto e ativismo social em diferentes partes do mundo como uma ameaça à segurança nacional dos EUA, e em caso afirmativo, por quê? Será que o Departamento de Defesa dos EUA considera movimentos sociais, com o objetivo de mudança política e econômica em grande escala, como uma questão de segurança nacional, em caso afirmativo, por que? Ativismo, protesto, “movimentos políticos” e, claro, as ONGs, são um elemento vital de uma sociedade civil saudável e democracia – então por que é que o Pentágono está financiando pesquisas para investigar essas questões?

O diretor do programa de Minerva, Dr. Erin Fitzgerald, disse: “Eu aprecio as suas preocupações e estou contente que você estendeu a mão para nos dar a oportunidade de esclarecer”, antes de prometer uma resposta mais detalhada. Em vez disso, recebi a seguinte declaração insossa da assessoria de imprensa do Pentágono:

O Departamento de Defesa leva a sério o seu papel na segurança dos Estados Unidos, seus cidadãos, aliados e parceiros dos EUA. Embora nem todos os desafios de segurança causem conflito, e nem todos os conflitos envolvam os militares dos EUA, o Minerva ajuda a financiar investigação de base das ciências sociais que ajude a ampliar a compreensão do Departamento de Defesa sobre o que causa instabilidade e insegurança em todo o mundo. Através de uma melhor compreensão destes conflitos e suas causas de antemão, o Departamento de Defesa pode se preparar melhor para o dinâmico ambiente de segurança do futuro.

Em 2013, o Minerva financiou um projeto da Universidade de Maryland, em colaboração com o Departamento de Energia do Laboratório Nacional do Noroeste Pacífico dos EUA, para avaliar o risco de distúrbios civis, devido às mudanças climáticas. Nos três anos do projeto, 1,9 milhões de dólares são empregados no desenvolvimento de modelos para prever o que poderia acontecer às sociedades sob uma gama de potenciais cenários de mudanças climáticas.

Desde o início, o programa Minerva foi projetado para oferecer até 75 milhões de dólares em cinco anos para pesquisa em ciências sociais e comportamentais. Só este ano, o Congresso dos EUA atribuiu um orçamento total de 17,8 milhões de dólares ao Minerva.

Uma comunicação por e-mails pessoais internos do Minerva, referenciado em uma dissertação de mestrado 2012, revela que o programa é voltado para a produção de resultados rápidos, que são diretamente aplicáveis ​​às operações de campo. A dissertação foi parte de um projeto financiado pela Minerva sobre “o discurso muçulmano anti-radical radicais” da Universidade Estadual do Arizona.

O e-mail interno do Prof. Steve Corman, o investigador principal do projeto, descreve uma reunião organizada pelo Programa de Modelagem do Comportamento Humano e Social do Pentágono (HSCB, em inglês), em que altos funcionários do Pentágono disseram que sua prioridade era “desenvolver capacidades que se tornam rapidamente disponíveis ” na forma de “modelos e ferramentas que podem ser integrados com as operações”.

Embora o supervisor do Escritório de Pesquisa Naval, Dr. Harold Hawkins, tenha assegurado aos pesquisadores da universidade desde o início que o projeto era apenas “um esforço de pesquisa básica, por isso não deve se preocupar em fazer coisas aplicáveis”, a reunião de fato mostrou que Pentágono está à procura de “fomentar resultados” em “aplicações”, disse Corman no email. Ele aconselhou os seus investigadores a “pensar sobre a formatação dos resultados, relatórios, etc, para que eles [Departamento de Defesa] possam ver claramente a sua aplicação para as ferramentas que poderão ser utilizadas em campo”.

Muitos estudiosos independentes criticam o que veem como os esforços do governo dos EUA para militarizar as ciências sociais e colocá-las a serviço da guerra. Em maio de 2008, a Associação Americana de Antropologia (AAA) escreveu para o governo norte-americano notificando que o Pentágono não tem “o tipo de infra-estrutura para a avaliação antropológica [e de outras ciências sociais] de investigação” de uma forma que envolve a “revisão rigorosa, equilibrada e objetiva dos seus pares”, conclamando, assim, para esse tipo de pesquisa venha ser gerida por agências civis como a Fundação Nacional de Ciência (NSF).

No mês seguinte, o Departamento de Defesa assinou um memorando de entendimento (MoU) com a NSF para que esse coopere na gestão da Minerva. Em resposta, o AAA alertou que, apesar das propostas de pesquisa passar a ser agora avaliadas por painéis de revisão por mérito da NSF, “funcionários do Pentágono ainda teriam o poder de decisão para escolher quem fica nos painéis”:
…ainda existem preocupações, na disciplina, de que pesquisa que só serão financiadas quando apoiarem a agenda do Pentágono. Outros críticos do programa, incluindo a Rede de Interesses de Antropólogos, levantaram preocupações de que o programa iria desencorajar a pesquisa em outras áreas importantes, prejudicando o papel da universidade como um lugar para a discussão independente e crítica dos militares.

Segundo o professor David Price, um antropólogo cultural na Universidade de St Martin, em Washington DC e autor de Weaponizing Anthropology: Social Science in Service of the Militarized State [Antropologia Armada: Ciências Sociais a Serviço do Estado militarizado], “quando você olha para as partes específicas de muitos desses projetos, elas parecem normais, ciências sociais, análise textual, pesquisa histórica, e assim por diante. Mas quando você soma estas partes, todas eles compartilharam temas de legibilidade, com todas as distorções oriundas da simplificação excessiva.
O professor Price já havia exposto como o programa de Sistemas de Terreno Humano (HTS) do Pentágono – projetado para incorporar os cientistas sociais em operações militares de campo – rotineiramente conduz cenários de treinamento em regiões “dentro dos Estados Unidos”.

Citando uma crítica resumida do programa enviada para os diretores do HTS por um ex-empregado, Price informou que os cenários de treinamento HTS “adaptaram COIN [contra-insurgência] do Afeganistão e Iraque” para situações domésticas “nos EUA, onde a população local foi vista a partir da perspectiva militar, enquanto ameaça ao equilíbrio estabelecido de poder e a influência, bem como desafiando a lei e a ordem”.

Em um jogo de guerra, disse Price, estavam envolvidos ativistas ambientais protestando contra a poluição de uma usina a carvão perto de Missouri, alguns dos quais eram membros da conhecida ONG ambientalista Sierra Club. Os participantes foram incumbidos de “identificar aqueles que eram ‘solucionadores de problemas’ e aqueles que eram ‘causadores problema’, bem como o resto da população. Esta seria o alvo das operações de informação, voltadas a mover o centro de gravidade dos cidadãos em direção ao conjunto de pontos de vista e valores que era o ‘estágio final desejado’ da estratégia dos militares”.

Tais jogos de guerra estão de acordo com uma série de documentos de planejamento do Pentágono que sugerem que a vigilância em massa da Agência de Segurança Nacional (NSA) é parcialmente motivada para se preparar para o impacto desestabilizador da vinda choques ambientais, energéticos e econômicos.

James Petras, Professor de Sociologia na Universidade de Binghamton, em Nova York, concorda com as preocupações de Price. Os cientistas sociais financiados pela Minerva e vinculados à operações de contra-insurreição do Pentágono, estão envolvidos no “estudo das emoções alimentadas ou reprimidas por movimentos ideologicamente conduzidos”, disse ele, incluindo como “neutralizar movimentos de base”.

Minerva é um excelente exemplo da natureza profundamente tacanha e auto-destrutiva da ideologia militar. Pior ainda, a falta de vontade dos funcionários do Departamento de Defesa para responder às perguntas mais básicas é sintoma de um fato simples. Em sua missão inabalável de defender um sistema global cada vez mais impopular e servir os interesses de uma pequena minoria, as agências de segurança não têm escrúpulos em pintar o resto nós todos como potenciais terroristas.

Dr. Nafeez Ahmed é um jornalista de segurança internacional e acadêmico.
The Guardian | Tradução: Pedro Lucas Dulci
Fonte: http://outraspalavras.net/ 

[Internacional] Massacre proletário na Palestina - ANA


[Internacional] Massacre proletário na Palestina

Sob o olhar aflito de milhões de espectadores, convencidos de sua impossibilidade de fazer algo mais que participar em alguma concentração ou procissão pacífica, o Estado de Israel volta a bombardear a faixa de Gaza sob a cobertura do antiterrorismo. As lágrimas de crocodilo das principais potencias capitalistas não escondem sua satisfação por ter no Oriente Médio um tentáculo como o do Estado de Israel, autêntico braço armado do capitalismo mundial para manter a ordem na região. O proletariado que vive em Gaza, Cisjordânia ou Líbano conhece em sua luta esta realidade.

Políticos, jornalistas, representantes de ongs, sindicalistas, festeiros e todo tipo de palhaços do espetáculo, nos dão toda uma gama de explicações e soluções que terminam o conflito no Oriente Médio dentro dos marcos burgueses. Se limitam a criar uma demarcação entre quem defende os palestinos e quem defende aos israelenses, alineando a tudo que há por trás das bandeiras hediondas de cada Estado nacional. Para isso constroem toda uma fábula grotesca que encobre a verdadeira realidade social. Mesclam os interesses do Estado Palestino com os do proletariado que vive nessa terra, amalgamam a luta travada pelos proletários com o Hamas, põem em um mesmo saco o jovem que atira pedras e os grandes comerciantes ou banqueiros palestinos, assimilam ao proletário que vive em Israel e luta contra “sua própria” burguesia (desertando, objetando...) com sua brutal negação no cidadão que vive em cumplicidade com o Estado. Eliminam desta forma toda a confrontação de classes, toda divisão social entre explorados e exploradores, fomentando o mito do enfrentamento entre países.

Sem romper e desmascarar todo este arsenal ideológico que turva a realidade, estaremos atados de pés e mãos, impossibilitados para assumir a luta contra o massacre no Oriente Médio como parte indissociável da luta contra a ditadura do capital. É imprescindível afirmar abertamente que esse massacre é antes de mais nada uma expressão mais do terrorismo que o capitalismo emprega em todo o mundo contra nossa classe, contra nossas vidas. Que quem cai sob as bombas, sob os tiros, sob o terror capitalista são, em primeiro lugar, os meninos, homens e mulheres que foram condenados nessa região do mundo a ser carne de canhão, a ser população supérflua potencialmente perigosa e que deve ser exterminada de forma cotidiana. Todos os Estados do mundo participam de uma ou outra maneira nesta matança. Os Estados ocidentais, com o de Israel na cabeça, massacrando; Hamas, a autoridade nacional palestina e demais organismos do Estado Palestino, junto com os Estados pró-palestinos, impedindo a estruturação na força autônoma dessa massa de subversão, enquadrando-a e dirigindo-a ao matadouro em atos suicidas, desarmando-a, pacificando-a, reprimindo-a e prendendo aos irredutíveis.

Os grupos e militantes revolucionários de todo o mundo estão obrigados a enfatizar e discutir como própria a luta do proletariado na Palestina, suas tentativas de projetar-se em força autônoma, assim como a repressão que sofrem. Destacar a tentativa de autonomia que em numerosas ocasiões traçou a luta, enfrentando-se com todos os Estados. Insistir em que a essência da luta do proletariado na Palestina é a mesma que no norte da África, que na Grécia, que nos subúrbios franceses, que na China, que no Iraque, que em Oaxaca, que no Haiti, que em todos os lugares onde o proletariado se levanta: a contraposição entre as necessidades humanas e as da economia capitalista. Estamos obrigados a denunciar e a enfrentarmos a todos os aparatos do Estado Palestino ou de Israel, a todos os que são parte do organismo mundial do capital que nos massacra, que nos arrasta por falsos caminhos, a todos seus lacaios pelo mundo, a todos os seus porta-vozes e propagandistas. E antes de tudo estamos obrigados a lutar aqui e agora, contra “nosso próprio” Estado, contra “nosso próprio” país.

NÃO SOMOS NEM JUDEUS, NEM ISRAELENSES, NEM PALESTINOS SOMOS O PROLETARIADO!

CONTRA A PÁTRIA. CONTRA TODA UNIDADE NACIONAL. CONTRA O TERROR BURGUÊS.

LUTEMOS EM “NOSSO PRÓPRIO” PAÍS CONTRA “NOSSO PRÓPRIO” ESTADO.

Proletários Internacionalistas

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

O brilho do salto

do peixe na cascata,

lâmina de prata.
Luiz Bacellar