segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Reforma Política: que fazer, depois do plebiscito? – por Antonio Martins


Reforma Política: que fazer, depois do plebiscito?
Um dos coordenadores da consulta que mobilizou sociedade esta semana sustenta: foi apenas primeiro passo – porque não haverá novo país sem nova democracia

José Antonio Moroni, entrevistado por Antonio Martins

Como se ainda fosse necessário, o divórcio entre o velho jornalismo e as mobilizações e inquietações da sociedade emergiu novamente esta semana. Centenas de milhares de brasileiros votaram, em cédulas impressas ou via internet (ainda é possível fazê-lo, neste domingo…), num plebiscito informal sobre a necessidade de uma Reforma Política. Capilarizada, a consulta espalhou-se por todo o país. Foi preparada durante meses, por meio de debates, formações de ativistas, vasta distribuição de textos didáticos, cuidadosa preparação logística. Porém, este fato incomum (e capaz de gerar inúmeras histórias saborosas) foi ignorado solenemente pelos jornais e TVs – estes mesmos que tratam política como “caso de polícia”. É como se houvesse um limite de ferro para as críticas ao sistema institucional de poder. Elas devem ser interrompidas sempre que houver risco de surgir uma alternativa democratizante…

Como as informações foram bloqueadas, emergiram dúvidas. O plebiscito desta semana tem valor legal? Será enviado ao Legislativo? Haverá, de fato, uma Constituinte sobre o sistema político? Que fazer em seu favor?

O historiador José Antonio Moroni, um dos coordenadores da Coalizão pela Reforma Política Democrática e do Instituto e Estudos Sócio-Econômicos (Inesc), passou os últimos dias refletindo sobre estas questões. Ele vê a consulta desta semana como um ponto de virada. Agora, a crítica ao atual sistema político ganhou as ruas. Talvez seja possível executar uma estratégia tecida em silêncio, durante anos, pelos que denunciam o sequestro da democracia pelo poder econômico – e a necessidade a necessidade de resgatá-la.

Para não ficar na fachada, a construção de um novo sistema político precisa questionar, no Brasil, interesses muito poderosos. Deve multiplicar as formas de democracia direta, colocando em xeque o poder quase absoluto dos “representantes do povo” para tomar decisões. Precisa cortar a submissão da esmagadora maioria dos parlamentares aos donos do dinheiro. Poderia quebrar a exclusividade dos partidos, estabelecendo o direito a candidaturas avulsas. Não terá sucesso se não enfrentar temas como o elitismo do Judiciário e controle das Comunicações por um pequeno oligopólio de barões.

Tais mudanças não serão feitas pelos membros atuais do Legislativo. Será obrigatório sacudir as instituições – deflagrando, em algum momento, uma mobilização intensa a ponto de obrigar a convocação de uma Assembleia Constituinte sobre o Sistema Político. É sobre isso que centenas de milhares de brasileiros pronunciaram-se, no plebiscito informal da semana passada. Mas quando sua voz será ouvida? E o que fazer, até lá? 

É aí que entra uma espécie de fase intermediária da campanha. A consulta de 1º a 7 de setembro deflagrou um processo. Nos próximos meses, ele prosseguirá por meio da pressão social em favor de um Projeto de Lei de Iniciativa Popular sobre o mesmo tema. Embora mais limitado que a Constituinte, ele também é capaz de entusiasmar. Se aprovado, provocará uma pequena revolução. Proibirá, por exemplo, a fonte principal de toda corrupção – a transferência, pelas empresas, de dinheiro aos partidos e políticos. Obrigará a convocação de plebiscitos ou referendos para decisões importantes – entre elas, a alienação (via privatizações e concessões) de bens relevantes da União. Estabelecerá formas de democracia direta via internet (os eleitores poderão aderir eletronicamente a novos projetos de lei de iniciativa popular). Reorganizará o sistema eleitoral. 

É claro que se erguerão, também diante desta primeira proposta de mudanças, enormes resistências. O sistema político perdura porque serve aos poderosos. Mas já há, aos que queiram debater o tema e lutar por ele, bem mais que boas intenções genéricas… Graças a anos de esforço de gente como José Antonio Moroni, a Coalizão por uma Reforma Política Democrática desenhou em detalhes o Projeto de Lei de Iniciativa Popular descrito acima. Produziu, além disso, um resumo, uma cartilha, uma agenda de ações, uma biblioteca e um noticiário. Oferece, até mesmo, formulários para quem estiver disposto a colher assinaturas em favor do projeto de iniciativa popular. São necessária 1,5 milhão. Mais de 500 mil já foram coletadas e o plebiscito certamente deflagrará uma nova onda de ações.

Os resultados numéricos da consulta informal desta semana serão anunciados nos próximos dias. Mas o efeito principal, de caráter político, está claro. Voltou à agenda brasileira um tema indispensável para qualquer mudança social profunda. Já há como agir em favor dele. É o que Moroni explica em detalhes, na entrevista a seguir.
 Moroni: “Chegamos ao limite. Precisamos criar novas institucionalidades processem as demandas populares. Não podemos ter medo – e sim, ousadia”

Em que pé está a articulação da sociedade civil em torno de um a plataforma para a Reforma Política?
Hoje temos duas grandes estrategias politicas em relação a reforma do sistema politico. Uma que a Iniciativa Popular da reforma politica que trata de uma nova regulamentação dos instrumentos de democracia direta e novas normas para o processo eleitoral. Estas mudanças podemos fazer por projeto de lei, não precisam mudanças constitucionais.

Outra estrategia é a convocação de uma Constituinte exclusiva e soberana para o sistema politico. As organizarmos um plebiscito popular, quisemos chamar atenção para a importância de ir mais fundo, alterando também os dispositivos constitucionais que tratam do sistema político.

São duas estrategias distintas, mas que se complementam. Uma tem como objetivo uma incidência a curto prazo; outra, mais a médio e longo prazos.

Vamos por partes, então Que pontos específicos esta Iniciativa Popular pretende? Quem os defende? Em que estágio está? Coleta de assinaturas?
Primeiramente, devemos esclarecer que iniciativa popular não pode propor mudanças constitucionais. Como isso está excluído, nosso projeto concentra-se em dois grandes eixos: ampliar as possibilidades de democracia direta e enfrentar enormes distorções do sistema eleitoral.

Em favor da democracia direta, queremos alterar as leis que regulamentam o artigo 14 da Constituição, ampliando o papel e a força dos plebiscitos, referendo e projetos de iniciativa popular. Algumas decisões centrais para o futuro do país – por exemplo, alienação dos recursos minerais ou das fontes de energia hidráulica da União – só poderiam ser adotadas por meio de plebiscitos ou referendos.

No que trata das iniciativas de lei que partem da sociedade, propomos uma simplificação, com coletas de assinaturas via internet e um rito próprio de tramitação, no Congresso. Estas propostas precisam ter prioridade de tramitação, ao invés de cair na vala comum do processo legislativo, como ocorre hoje. Infelizmente, não podemos, por enquanto, reduzir o número de iniciativas necessárias para propor leis por iniciativa popular. São aproximada 1,5 milhão, mas é algo estabelecido pela Constituição.

O segundo eixo de mudanças estabelecidas no projeto refere-se à democracia representativa. Queremos proibir as empresas de financiar partidos ou candidatos, por sabermos que este é um mecanismo óbvio de corrupção. Em vez disso, propomos um sistema misto, no qual os partidos seriam financiados pelo Estado e por doações de pessoas físicas, com limites máximos.

Esta questão é central, porque não podemos pensar em campanhas caríssimas como as atuais, que tornam imensa a força do poder econômico. Segundo nossa proposta, haverá teto máximo para contribuição dos cidadãos às campanhas e, ao mesmo tempo, limites para gasto global pelos partidos.

O projeto propõe ainda mudanças dos critérios de partillha, entre os partidos, da verbas provenientes do Estado. Não podemos manter regras que fortaleçam os já fortes e que tornam alguns partidos imensamente mais fortes que outros

Outro aspecto é o voto em lista transparente. O voto do eleitor deve favorecer apenas o partido e candidato escolhido por ele – diferente do que o corre hoje. Para tanto, as eleições proporcionais (que elegem deputados federais e estaduais e vereadores) passarão a ser em dois turnos. No primeiro escolhe-se o partido; no segundo vota-se nos candidatos de cada lista partidária. Estas listas devem ter paridade de sexo e critérios de inclusão dos demais grupos subrepresentados – por exemplo, população negra, indígena, homoafetiva, juventude etc.

Em que pé está a coleta de assinaturas e quem procura mobilizar a sociedade em favor do projeto?
O projeto de lei de iniciativa popular foi formulado por uma Coalizão pela Reforma Politica Democrática e Eleições Limpas. É uma frente de mais de cem organizações – sociedade civil e movimentos sociais. A relação completa pode ser encontrada no site da campanha: www.reformapolitica.org.br

A iniciativa foi lançada em setembro de 2013. Já temos mais de 500 mil assinaturas. Estamos convencidos de que o plebiscito vai multiplicar a mobilização em favor da proposta. É possível acessar o texto completo do projeto de lei, uma cartilha explicativa e e formulário para coletar assinaturas no mesmo site.

Se o projeto de iniciativa popular já prevê tantas mudanças, por que é importante uma Constituinte exclusiva e soberana sobre o Sistema Político?
A ideia do plebiscito surgiu o ano passado quando diversos movimentos e organizações se reuniram para discutir o significado das manifestações de junto. Segundo nossa leitura, elas revelam, em essencial, o esgotamento do atual sistema politico – isso é, das formas tradicionais do exercício do poder. Entendemos que, para mudar isso, é necessário um processo mais amplo de reformas estruturais. Para tanto, é necessária uma Constituinte exclusiva e soberana.

O plebiscito de 1º a 7 de setembro não tem valor legal, é claro – não foi organizado pela sociedade como um todo, por meio do Estado, mas pelos grupos que reivindicam Reforma Política. Seu papel é mobilizador e formador. Foi precedido por centenas de cursos de formação de ativistas. O processo durou meses, colocou o tema em pauta, preparou, com conhecimento e argumentos sólidos, milhares de pessoas, que agora darão continuidade à campanha.

Que tipo de questões estariam em debate na Constituinte sobre Sistema Político?
Além de todas as questões levantadas no projeto de Iniciativa Popular, o fortalecimento da soberania popular, um nova sistema de representação e temas diretamente relacionados ao poder. Por exemplo precisamos mudar determinadas lógicas presentes na sobre democratização da Justiça, fim do oligopólio que controla as Comunicações, organização e atribuição dos Poderes do Estado, democratização da terra, direito à Cidade. Portanto o plebiscito coloca-se numa perspectiva mais de longo prazo, discutindo questões centrais que o sistema político atual, por sua própria natureza, nunca aceita colocar em debate.

As manifestações de junho de 2013 introduziram um elemento novo no discurso político. Em muitas delas, os que protestam voltaram-se contra “os políticos”, de forma genérica, sem especificar a que partidos ou políticos se referem. É como se as diferenças entre eles estivessem se apagando. Que isso revela sobre crise da representação no Brasil?
Um elemento preocupante da forma de se fazer política no Brasil é justamente é esta falta de diferença entre os diversos partidos e políticos. Isso leva a um descrédito pois se tudo é igual por que vou me mobilizar, apoiar, etc. Isso leva a uma crise de representação, pois se “todos são iguais” e a nossa sociedade é dividida em grupos de interesses, claro que as pessoas não se sentem representadas.

Em junho, a presidente Dilma chegou a falar tanto em plebiscito quanto em Reforma Politica. Ambas as propostas foram sepultadas pelo Congresso Nacional – e ficou tudo por isso mesmo. Como você avalia a atitude de Dilma então e o fato de ela não ter insistido na proposta?
A proposta que hoje levantamos sobre a Constituinte tem diferenças em relação à que foi levantada pela presidenta. Aquela referia-se, basicamente, ao sistema eleitoral. A nossa é sobre o sistema politico – ou seja, diz respeito a todas as relações de poder. Ainda assim, a reação contrária da midia, do STF e da grande parte do Congresso só demonstra o acerto da nossa estratégia de consultar o povo sobre a convocação de uma Constituinte exclusiva e soberana do sistema politico.

Depois de viver, por uma década, um processo modesto de redução da pobreza e certa redistribuição de riquezas, o Brasil parece paralisado politicamente. Há consciência de que necessitamos de um passo adiante na conquista de direitos – mas que não avançamos porque isso exigiria questionar privilégios. De que forma o atual sistema político protege tais privilégios?
O nosso sistema político é ao mesmo tempo reflexo da desigualdade e elemento estruturante das desigualdades. Em outras palavras, estão no topo do sistema político os mesmos que estão no topo da pirâmide social. O modelo de redistribuir sem contrariar interesses chegou a seu limite. Daqui pra frente não tem mais como “governar para todos” até por que numa sociedade baseada na desigualdade como a nossa, quem diz que esta governando para todos esta mentindo pra alguém.

A campanha pela Reforma Política busca sensibilizar a sociedade num ano eleitoral, em que as atenções em geral estão focadas na disputa entre os candidatos. Como abrir espaço, nesse cenário, para um tema que, em teoria, exige elaboração política razoavelmente refinada?
O tema da reforma do sistema político exige, sim, elaboração pois trata de uma questão complexa – e para questões complexas, não existem respostas simples. Nos últimos tempos, os processos eleitorais afastam o povo da discussão política. É um paradoxo, mas nas eleições é onde menos se discute política. Pensamos que o debate sobre a reforma do sistema político pode resgatar o sentido amplo de se fazer política, criando novas formas de se fazer política e com novos sujeitos.

Diversos setores que lutam por um novo sistema político temem a Constituinte por julgar que vivemos um cenário em que as ideias mais conservadoras estão avançando? Temem que entrem em debate, ao contrário, assuntos como a redução da maioridade penal ou a pena de morte. Como isso pode ser evitado?
Avaliamos que a sociedade brasileira está numa encruzilhada e precisa tomar uma decisão sobre que caminho quer seguir. Chegamos ao limite da nossa institucionalidade e precisamos criar novas institucionalidades que tenham condições de processar as demandas populares. Acreditamos que se tivermos uma igualdade maior na disputa politica, principalmente na Constituinte, teremos condições de sair desta encruzilhada e optar para civilidade e não pela barbárie. Não podemos ter medo – e sim, ousadia.

Fonte: http://outraspalavras.net/

domingo, 7 de setembro de 2014

O cavalo de Tróia chamado ISIS - por Latuff

Fonte: http://latuffcartoons.wordpress.com/

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Até 7 de setembro, Brasil dirá se quer uma política independente do dinheiro – por Antônio Lassance


Até 7 de setembro, Brasil dirá se quer uma política independente do dinheiro
"Você é a favor de uma Constituinte exclusiva e soberana sobre o sistema político?"

De 1º a 7 de setembro, os cidadãos, nas ruas, podem expressar sua opinião e registrar seu voto sobre o assunto.

A proposta tem o objetivo de conscientizar a população sobre a necessidade de uma profunda reforma política no país, democratizando as eleições e os partidos e estabelecendo mais rigor e controle sobre aqueles que nos representam politicamente.

Um dos alvo da campanha é o de demonstrar o dano causado à política nacional pelo financiamento empresarial às campanhas políticas.

O plebiscito é organizado pelo Movimento pelo Plebiscito Popular por uma Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político. Reúne quase 400 entidades dos movimentos sociais, entre sindicatos, associações e partidos políticos.

Cerca de mil comitês populares no país se encarregarão de espalhar urnas e organizar a coleta e apuração do resultado. 

A meta dos organizadores é a de alcançar cerca de 10 milhões de votos, o mesmo número conseguido, em 2002, plebiscito popular que rechaçou a adesão do Brasil à Área de Livre Comércio das Américas (Alca). 

Enquanto isso, no mais absoluto contraste, a Câmara dos Deputados faz mais uma tentativa de esforço concentrado tentando, justamente, barrar a Política Nacional de Participação Social.  
A oposição e parte dos parlamentares da base aliada (principalmente do PMDB) insistem em votar um decreto do Congresso  (PDC 1.491/2014) que  sustaria o decreto presidencial que regulamentou a política e determinou que a administração pública se abra mais para a participação popular.

Os parlamentares contrários se veem ameaçados pela política que, segundo eles, invadiria suas atribuições.

A semana tem também novo debate entre os presidenciáveis (segunda, 1º, às 17h45min, promovido conjuntamente pelo portal UOL, Folha de S. Paulo, a rede SBT e a rádio Jovem Pan) e novas rodadas de pesquisa (Ibope e Datafolha).

Na economia, a grande expectativa é sobre o resultado da reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom, dias 2 e 3) sobre a taxa básica de juros do país.

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/

UE dá ultimato na Russia - por Latuff

Fonte: http://latuffcartoons.wordpress.com/

(EUA) Anarquista de Chapel Hill marcham em solidariedade à Ferguson - ANA


(EUA) Anarquista de Chapel Hill marcham em solidariedade à Ferguson

A Concentração e a Marcha

Na noite de sexta-feira, 22 de agosto, ocorreu uma concentração em frente aos correios para apoiar os manifestantes e insurrecionários em Ferguson. Um grupo de estudantes anarquistas, os “UNControllables” (Incontroláveis), chamou primeiramente a concentração, e outros grupos como o Movimento de Estudantes Negros e o Grupo de Poesia da UNC (Universidade da Carolina do Norte) Leitores de Ébano promoveram e participaram do evento. Panfletos também foram distribuídos de porta em porta, nas janelas dos carros, e em complexos de apartamento através da cidade. Este foi apenas um dos diversos eventos que ocorreram na área do Triângulo em consideração à Ferguson – na semana anterior ocorreu uma massiva vigília em Durham, um ataque noturno contra o Quartel da Polícia de Chapel Hill, e eventos em várias igrejas.

A concentração começou com discursos sobre como é crescer sendo Negra nesta cultura supremacista branca, sobre o medo e o ódio da polícia, sobre lutas locais como marchas e ataques contra a polícia de Durham no último inverno. Um orador emocionou as pessoas com um poema que dizia, “Eu sempre quis ter filhas, porque temia que não seria capaz de ensinar meus filhos como ser um homem negro”. Outro orador deu sequência, “É por isso que essa marcha está acontecendo em Chapel Hill. Não é apenas em Ferguson, mas nos Estados Unidos”.

Enquanto os manifestantes estão ouvindo, algumas pessoas caminharam através da multidão levantando textos escritos por anarquistas que participaram dos levantes nas ruas de Ferguson. Logo após algumas falas breves, o som das baterias irrompeu, seguindo o ritmo da ira das massas. Alguns que observavam se juntaram ao protesto, e muitas caras da vizinhança onde foram distribuídos panfletos compareceram também.

A bateria continuou rufando, cada vez mais alto. Uma multidão incansável quis mais do que uma concentração, e em determinado momento, um manifestante, segurando um grande cartaz ACAB, gritou: “Eu vejo a necessidade de movimento”. Houve gritos de aprovação, e a diversificada massa de estudantes da UNC, moradores e sem-teto tomaram as ruas. Mais transeuntes se juntaram à marcha enquanto ela ocorria – um trabalhador de um restaurante local deixou seu posto de trabalho para participar, ainda usando seu uniforme e identificação.

A multidão, estimada em mais de 100 pessoas pelo jornal estudantil local, marchou alguns quarteirões descendo a principal via da Rua Franklin, tomando as duas mãos do trânsito com a grande faixa ACAB na linha de frente. Algumas pessoas começaram a se mascarar enquanto a massa se movia. Os policiais estavam visivelmente com as mãos atadas durante a tarde, escolhendo bloquear o trânsito ao invés de tentar forçar a marcha para fora das ruas. Havia a certeza nos dois lados de que qualquer agressão policial não seria tolerada. Com as últimas duas semanas de resistência em Ferguson fresca na mente de todas, os policiais pareciam relutantes em provocar a multidão em uma noite agitada do fim de semana.

Após um tempo a marcha retornou e voltou para a principal interseção do centro, bloqueando o cruzamento por 10 ou 15 minutos enquanto gritavam e tiravam fotos de “Mãos ao alto, Não atire”. “Foda-se a polícia!”, alguns exclamavam. Outros encorajavam transeuntes a se juntar ao ato.

Neste momento um conflito pequeno ocorreu, quando um estudante negro e colunista do jornal da universidade (fato que descobrimos mais tarde) tentou se dirigir à multidão. Ele gritou exasperado, “Este não é o espírito de Ferguson! É um tempo de cura! Nós deveríamos estar de luto!”.

Após um momento de tensão, a multidão gritou de volta a ele, crítica e desdenhosa em relação a sua tentativa de pacificação.

- “Este é o luto de Ferguson!”, respondeu um manifestante.
- “Em Ferguson, o luto foi queimar o Quartel da Polícia!”, disse outro.
- “ISTO é o meu luto!”.

Logo depois um segundo estudante apareceu e pediu para a multidão deixar o primeiro se pronunciar. O primeiro estudante retornou para o mesmo tema, dessa vez exclamando em frustração, “Mas isto é caos!”.

Com esta palavra a multidão gritou em aprovação sarcástica, e a bateria retirou o estudante do palanque. Como um dos oradores disse antes do protesto, “As autoridades querem a paz antes da justiça, mas nós sabemos que não funciona assim. Sem justiça não há paz!”.

No caminho de volta para os correios os manifestantes fizeram ecoar este sentimento, e as percussões permaneceram rufando quando chegaram. Um cacofônico soar dos tambores, assovios e vozes assinalaram o fim do evento.

Para saber de futuros protestos, envie um e-mail para: fromfergusontochapelhill@riseup.net.

Tradução > Malobeo

Notícia relacionada:

agência de notícias anarquistas-ana

Laranjais em flor.
Ah! que perfume tenuíssimo…
Esperei por ti…
Fanny Dupré

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Marina Silva cede as pressões do @PastorMalafaia, @brasil247 - por Latuff


Fonte: http://latuffcartoons.wordpress.com/

Entrevista com Carlos Latuff – por Emir Ruivo (DCM).


Entrevista com Carlos Latuff
Poucos cartunistas se deram tão bem na era da internet quanto Carlos Latuff. Bom desenhista, politicamente engajado, inteligente e rápido no gatilho, Latuff tomou posições claras e se tornou uma referência no ativismo social.

No fim dos anos 1990, ficou chocado com a situação palestina durante uma visita e passou a tê-la como inspiração principal. Com isso, ficou cada vez mais comum ver seus trabalhos reproduzidos em cartazes e faixas de manifestantes anti-guerra pelo mundo inteiro.

Nascido no Rio de Janeiro há 45 anos, vive em Porto Alegre, e foi adotado pelos gaúchos. Sente-se mais em casa ali do que no Rio, que considera uma cidade desvirtuada do que foi nos bons tempos.
Eram mais de onze da noite quando o DCM conseguiu falar com ele via vídeo-conferência. Latuff finalizava uma charge. Foi um bate papo de mais de uma hora com uma pessoa falante, animada com o trabalho e politicamente crítica.

A seguir, alguns trechos selecionados de sua entrevista.

Diário do Centro do Mundo: Você está desenhando?
Carlos Latuff: Não, eu estava. Fiz um desenho aqui sobre a Marina, vou te mostrar (ele mostra pelo monitor a imagem abaixo).

DCM: Você acha que há uso eleitoral da morte do Eduardo Campos?
CL: Em política não tem esse papo de sentimentalismo. O negócio é que ele morreu. Houve um choque porque é uma tragédia, diferente do caso do Plínio de Arruda Sampaio. Só que na política, ainda mais em se tratando de eleições, existe a questão prática. Era de se esperar que isso acontecesse. De fato, a morte do Campos catapultou a candidatura da Marina. Na política vale o pragmatismo.

DCM: Você tem candidato?
CL: Não. Eu não me sinto representado por ninguém, mas parece que vou chegar numa situação semelhante à que me encontrei na primeira eleição entre Dilma e Serra, em que tive que escolher entre o ruim e o pior. O Serra não dá, então votei nulo no primeiro turno e no segundo, não só votei na Dilma como fiz campanha.

DCM: Quem você acha que vai ser o Serra da vez?
CL: Rapaz, o Aécio e a Marina. O Aécio é o Serra, é o tucano, é o que a gente já conhece. E a Marina representa o fundamentalismo evangélico. O sistema colocou a gente entre a cruz e a caldeirinha. Não tem muito o que fazer.

DCM: Então você não avalia bem esses 12 anos de PT?
CL: Eu poderia passar horas aqui dando a minha opinião sobre o governo do PT, mas tenho uma analogia que acho que pode sintetizar: o PT e o PSDB disputam o cargo de síndico num prédio que tem dono. Os dono não são eles, e eles não querem ser donos. Querem apenas administrar. Para administrar, precisam fazer acordos com os donos do prédio. Um administra de um jeito, outro administra de outro, mas no fim das contas são só síndicos. Quando falam que o PT está no poder, eu discordo. O PT não está no poder, o PT está no governo [ele acentua "governo"]. Para governar, precisa fazer alianças com quem está no poder. E quem chegou lá não chegou por meio do voto. Aí a gente fala de classes dominantes.

DCM: Para você, as classes dominantes são os donos do prédio?
CL: Sim, eles que são os donos do prédio. Tem até uma charge que eu fiz em que aparece um oligarca numa cadeira de engraxate, com um PT e o PSDB engraxando os sapatos, cada um de um lado. Eles diz “não briguem, meninos, ambos estão me servindo muito bem”. Então sempre vai precisar de acordos. A menos que você tivesse uma espécie de Hugo Chaves no Brasil, um sujeito que levasse sozinho todo mundo. Aí, você poderia enfrentar melhor o poder.

DCM: Você nasceu no Rio de Janeiro, certo?
CL: Sim.

DCM: Mas não mora mais lá…
CL: Estou em Porto Alegre há um ano.

DCM: Por quê você foi?
CL: Aqui tem mais qualidade de vida. Eu que nasci, fui criado e vivi no Rio de Janeiro por 45 anos não reconheço mais a cidade, não reconheço a vizinhança. Virou um Estado policial. As pessoas acompanham como têm sido as repressões aos movimentos sociais. O Rio de Janeiro, do Leonel Brizola pra cá, só desce a ladeira. Então eu sempre vim pra cá, me simpatizei muito com os gaúchos… o gaúcho não é muito parecido com o carioca.

CM: Quais são as diferenças?
CL: Acho que o gaúcho não é tão expansivo quanto o carioca. É mais reservado em alguns aspectos. Eu gosto muito do Rio Grande do Sul. Tenho sido muito bem tratado aqui. Não me imagino voltando pro Rio de Janeiro.

DCM: O que você acha que deveria ter sido feito no Rio?
CL: Eu não sou Brizolista e nem tenho filiação partidária. Nunca tive. Mas o Brizola tinha uma perseguição com educação. Inclusive o carro chefe dele eram os CIEPs [Centro Integral de Educação Pública]. Foi o único governador que se preocupou com educação. Educação é fundamental para construir a sociedade. No segundo governo, ele teve problemas com os professores, mas mesmo assim ele foi o melhor nesse aspecto. Ele tinha como secretario da educação o Darcy Ribeiro. Aquele caminho que eles estavam trilhando estava melhor. O Brizola proibiu a polícia de chutar porta de barraco, então o acusavam erroneamente de ser conivente com a bandidagem. Hoje chutar porta de barraco é o mínimo.

DCM: Então o Brizola teria sido inimigo do Capitão Nascimento?
CL: Exatamente. O Rio de Janeiro hoje virou uma grande Tropa de Elite. O filme, inclusive, serviu para pavimentar o caminho para as UPPs. É de uma propaganda fascista tão clara que é incrível. E funcionou muito bem para vender a UPP como solução para a criminalidade nas favelas.

DCM: E a Palestina? O seu trabalho tem sido muito usado como bandeira da causa. Como você vê isso?
CL: Como artista é muito gratificante ver a arte transcendendo o papel editorial. Quando ele sai das páginas do jornal e ganha as ruas, ele já subverteu esse papel, se tornou um instrumento de luta para aquele povo. Isso me deixa feliz, mas eu ficaria mais feliz se ela pudesse impedir o massacre e não apenas denunciá-lo. Mas eu como artista não tenho esse poder. Quem tem, não o faz. Infelizmente, a arma que eu tenho é essa.

DCM: Por quê você adotou a Palestina como mote principal da sua obra nessa última fase?
CL: Eu estive lá em 1998, e quando você é testemunha ocular de uma situação, tem mais condição de abraçar à causa. A experiência pessoal é diferente. Eu passei 15 dias na Cisjordânia e pude ver exatamente como os palestinos viviam. E decidi apoiá-los através da arte.

DCM: Você voltou pra lá depois?
CL: Não, não posso. Se eu voltar para lá agora, com sorte me mandam de volta. Não há como entrar na Palestina, com exceção de Gaza que faz fronteira com o Egito. Eles não tem controle sobre as próprias fronteiras, não há um Estado. A autoridade palestina é uma piada. Quem tem autonomia realmente é Gaza. A Cisjordânia é toda cheia de muros, check-points, patrulhas. Eles não têm autonomia, então para entrar no território palestino, você precisa da autorização de Israel. Eu tenho uma amiga chilena com descendência palestina que está na Jordânia. Ela tentou entrar em Israel. Passou por três checagens, com perguntas de perfil racial. Eles te perguntam “esse sobrenome é de que origem?”, “de onde é seu pai?”, “você é palestina?” Então se desenham o perfil de um árabe, já partem do pressuposto que há um problema. Ela ficou mais de 10 horas num cubículo sem água e sem comida, e depois foi mandada embora. No meu caso, não vão nem perguntar.

DCM: Como você imagina que a coisa está lá hoje, mais de 15 anos depois?
CL: Muito pior.

DCM: Você fantasia o estado das coisas?
CL: Se você pegar o mapa de 1948 pra cá, vê que o território palestino diminui a cada dia. O governo de Israel sempre fala em acordo de paz. Enquanto eles dizem isso, vão construindo assentamentos e roubando o território palestino. Hoje tem o muro que não tinha quando eu estive lá. Tem também a divisão de Gaza e Cisjordânia, que não tinha. E a autoridade palestina também não ajuda, é um fantoche.

DCM: Como você vê o Hamas?
CL: O Hamas é, querendo ou não, governo. Se referir a eles como grupo terrorista aborta qualquer possibilidade de diálogo. Eu costumo dizer que Israel não tem moral para falar de terrorismo, já que seu Estado foi fundado sob terrorismo. Existiam basicamente três grupos judaicos criados antes de 1948 que aterrorizavam a população local. O primeiro caminhão-bomba detonado no Oriente Médio foi desses grupos. O termo terrorismo é muito flexível. Os alemães chamavam as guerrilhas francesas de terroristas na segunda guerra. Os movimentos armados no Brasil contra a ditadura eram chamados de terroristas.

DCM: Tem gente até hoje que diz que a Dilma foi terrorista…
CL: Sim. Mas, então, o Hamas foi eleito em 2007, só que Israel, a Europa e os EUA não reconheceram, então isolaram o grupo. Israel é o irmãozinho folgado porque tem o irmãozão, os EUA. Nada passa contra Israel no conselho de segurança da ONU. Nunca teve investigação por crimes de guerra em Israel. Já teve em Ruanda, na Bósnia, mas nunca em Israel.

Fonte: http://www.diariodocentrodomundo.com.br/

ESTADO GENOCIDA: Agricultura de Gaza devastada pela ofensiva israelense - por Caue Seigne Ameni


Agricultura de Gaza devastada pela ofensiva israelense
ONU aponta: ataques dizimaram cultivos, criação e pesca, arruinando agricultores e provocando forte alta dos preços de alimentos. Só ajuda externa evitará fome

A operação militar israelense em Gaza devastou o centro da produção de alimentos anunciou a ONU, alertando que a falta de alimentos afetará  “severamente” a população local e que a recuperação exigirá “ajuda externa significante”.

“Os recentes conflitos resultaram em danos substanciais aos 17 mil hectares de terras agrícolas de Gaza, bem como grande parte de sua infraestrutura, incluindo estufas, sistemas de irrigação, fazendas de pecuária, galpões de armazenamento e barcos de pesca,” disse em comunidade a Organização para Alimentos e Agricultura (FAO) da ONU.

Com as atividade agrícola e pesca praticamente paradas após agricultores, pastores e pescadores serem obrigado a fugir de seus territórios, e com o bloqueio israelense imposto, os palestinos estão enfrentando escassez de alimentos.

Gaza perdeu metade de suas aves de criação por causa do bombardeio ou por falta de água, uma vez que o exército israelense destruiu a infraestrutura palestina, acredita o Prgorama Mundial de Alimentos (PMA).

“Under the most recent ceasefire many farmers and herders are now able to access their lands, however resumption of food production faces serious obstacles given the damage sustained and shortage of water, electricity, inputs and financial resources, as well as ongoing uncertainty regarding the possible resumption of military activities,” said Ciro Fiorillo, head of FAO’s office in the West Bank and Gaza Strip.

“Sob o cessar-fogo mais recente, muitos agricultores e pastores podem voltar a suas terras, no entanto, para retomar a produção de alimentos há sérios obstáculos. São representados pelos danos sofridos como escassez de água, energia elétrica, insumos e recursos financeiros, assim como a incerteza contínua sobre a possível retomada das atividades militares”, disse Ciro Fiorillo, chefe do escritório da FAO na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.
“Cerca de 64 mil cabeças de pequenos ruminantes estão precisando de ração e água para evitar mais mortes”, disse a FAO, acrescentando que a recuperação no setor agrícola “vai exigir ajuda externa significante a longo prazo”.

A FAO estima que as perdas do setor de pesca chegam a 234,6 toneladas durante o período de 9 de Julho a 10 de Agosto, ou “equivalente a 9,3% da volume anual obtido pelos pescadores”.

O enclave palestino importam a maior parte de seus produtos alimentícios, mas a FAO estima que a agricultura local e a pesca servem como o meio mais acessível para obtenção de alimentos.

“Cerca de 28,6 mil pessoas em Gaza dependem da agricultura (19 mil), pecuária (6 mil) e pesca (3.600) para sua sobrevivência”, diz a FAO, destacando que os preços dos alimentos básicos aumentaram desde a Operação Protective Edge começou.
 “As altas vão desde 40% no preço dos ovos, a 42% para as batatas e 179% para os tomates”, diz a organização, estimando que cerca de 1,8 milhões de pessoas dependem atualmente de ajuda alimentar.

Os programas de alimentos executados pela ONU auxiliam regularmente cerca de 1,1 milhões de pessoas, além de cerca de 700 mil que se beneficial atualmente do abastecimento de alimentos do Ministérios Palestino de Assuntos Sociais e ONU.

“Temos um programa que favorece a resiliência dos agricultores, pescadores e pastores de Gaza”, disse Abdessalam Ould Ahmed, representando regional da FAO para o Oriente Médio e Norte da África. “Precisamos voltar as atividades no caminho certo, logo que cessem as hostilidade, para promover não apenas a sobrevivência do povo de Gaza, mas o seu desenvolvimento autossuficiente”.

Obstáculos à defesa de direitos humanos no Brasil, via Instituto de Defensores de Direitos Humanos - por Latuff

Fonte: http://latuffcartoons.wordpress.com/