terça-feira, 16 de setembro de 2014

O dia em que Marcuse encarou a PM – por Deni Rubbo

O dia em que Marcuse encarou a PM
Retrato da selvageria policial no centro de São Paulo, com um lembrete: não seremos derrotados, enquanto “conseguirmos ficar juntos”

Nas explosões do ano de 1968, o filósofo Hebert Marcuse foi perguntado em uma palestra se se poderia combater o medo com a violência. O autor de O homem unidimensional respondeu que a violência é algo muito perigoso aos mais frágeis. E acrescentou que existem diferentes aspectos de violência com funções igualmente diferentes. Assim, existiriam dois modus operandi que regulam a violência: a violência da agressão e a violência da defesa. Ou seja, existe a violência da polícia, do Exército, da Ku Klux Klan e uma violência de oposição que responde a essas manifestações agressivas de violência.
Hoje em São Paulo, mais de 45 anos depois das palavras de Marcuse o cruzamento da violência da agressão com a violência de oposição cruzaram-se no cruzamento da Ipiranga com a avenida São João. Trabalhadores, moradores do centro, negros, mulheres, grávidas, crianças e sem teto enfrentaram a violência da sociedade, a violência legal, a violência institucional. Sua violência, a violência dos moradores (sem moradia) foi defensiva. Eles têm razão.
Por volta das dez horas, no cruzamento, aglomeraram-se uma multidão de pessoas e alguns ocupantes da Frente de Luta por Moradia (FLM) que haviam saído do prédio logo após a liminar de reintegração de posse em um hotel abandonado na São João, para observar os próximos movimentos da ação policial. Havia muita indignação. A polícia fez um cordão e não deixou ninguém passar. Depois de alguns minutos, um policial chamou uma das pessoas que ali se encontrava e disse:

– Não queremos entrar em conflito. Só entraremos em ação caso sejamos provocados. Prometemos.

A moradora concordou com o policial, virou-se para o restante do grupo e anunciou:

– Nós não vamos arremessar nada neles, nem pedras, nem paus. Nós nunca damos o primeiro tapa, ouviram? Por favor, vamos permanecer aqui de maneira pacífica.

Todos concordaram, aplaudiram e cumpriram com o prometido.
Quinze minutos depois, a mesma polícia, descumpriu sua promessa e executou a violência da agressão, explicada por Marcuse. Balas de borracha e gás lacrimogênio espalharam-se pelas ruas tão rapidamente que quanto mais se corria, mais elas apareciam. A ardência dos olhos só era um detalhe. Nesse mesmo momento, a televisão transmitia que “vândalos” haviam iniciado a violência e a polícia simplesmente estava retaliando. Curiosamente, graças ao manejo de habilidade linguística da sociedade estabelecida, nunca se chama a violência policial de violência. Por outro lado, com toda facilidade, se nomeia violência à ação dos moradores que se defendem da polícia. Nesse mesmo momento uma mulher grávida caiu na rua, bem ao meu lado. Rapidamente a socorri e então ela me disse.

– Precisamos resistir, eu e ele (o bebê). Precisamos de futuro. Precisamos estar juntos.
Desnorteado, apavorado, em frações de milésimos de segundos, consegui não sei como nem porque lembrar de Eles não usam Black-Tie (Leon Hirzman, 1981) e da cena em que Maria (Bete Mendes), grávida, levava chutes na barriga da polícia. E aquelas palavras, tão fortes, intensas, também me recordaram outra cena de um outro filme, Segunda Feira ao sol (Fernando León de Aranoa, 2002) em que o personagem Sanca (Javier Bardem) é questionado sobre o fracasso da greve que desencadearam e, posteriormente, foi pretexto para sua demissão. “De que adianta? Não conseguiram nada e, além disso, ninguém mais se lembra”. Ele responde: “fizemos que as pessoas soubessem e conseguimos ficar juntos”. Nem ela, nem eu, nem quem estava lá vai esquecer.
Para mim, de agora em diante a música de Caetano Veloso, “Sampa”, inspirada no cruzamento da Ipiranga e a avenida São João ganha uma triste paródia: a “dura poesia concreta das tuas esquinas” tornou-se repressão concreta de tuas armas; a “deselegância discreta de tuas meninas” transmutou-se para estupidez indiscreta das autoridades, do povo oprimido pela falta de moradia, da propriedade sagrada que expulsa ocupantes, da feia fumaça que circula as ruas, intoxica, arde. Eu vejo surgir policia por todos os cantos, mas vejo, em meio às nuvens de gás pimenta, o “possível novo quilombo de Zumbi”

Por Deni Rubbo | Fotos Ponte

São Paulo: Conferência “Os Anarquista e a Educação: da AIT até hoje” - ANA


São Paulo: Conferência “Os Anarquista e a Educação: da AIT até hoje”
C o m u n i c a d o:

No próximo sábado (20 de setembro), a Biblioteca Terra Livre em conjunto com o Instituto de Estudos Libertários (IEL), a Editora Imaginário e o Centro de Cultura Social (CCS/SP) promoverão a conferência:

Os Anarquistas e a Educação: da Associação Internacional dos Trabalhadores até hoje.

A conferência será ministrada por Hugues Lenoir (Professor de Ciências da Educação na Universidade Paris X) e terá tradução simultânea para o português.

Hugues Lenoir (hugueslenoir.fr) é hoje um dos principais difusores da pedagogia libertária na França. Sua obra já foi traduzida para o inglês, o espanhol e para o português, cabendo destacar o livro Educar para Emancipar, publicado pela Editora Imaginário no ano de 2007 por ocasião do I Colóquio Internacional de Educação Libertária.

A presença do professor Lenoir se deve a uma série de atividades em comemoração aos 150 anos da AIT – Associação Internacional dos Trabalhadores, que estão sendo realizadas no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Neste dia será realizado ainda o lançamento do livro Compêndio de Educação Libertária de Hugues Lenoir. Esta nova obra de Lenoir, recém traduzida para o português pela Editora Imaginário, oferece subsídios para aprofundar ainda mais o debate sobre uma educação libertária, resgatando teorias e práticas históricas e dialogando com as experiências e desafios de hoje.

A atividade ocorrerá no Centro de Cultura Social e terá início às 15h. A entrada é aberta a todas as pessoas.

Endereço: Rua General Jardim, 253, sala 22 (Próximo ao Metro República), São Paulo.
Dia e Hora: 20 de setembro (Sábado), às 15h.

Organização: Biblioteca Terra Livre, Instituto de Estudos Libertários (IEL), Editora Imaginário e Centro de Cultura Social (CCS/SP).

Evento no facebook:

agência de notícias anarquistas-ana

Bolha de sabão.
Uma explosão colorida
sem nenhum estrondo.
Maria Reginato Labruciano

domingo, 14 de setembro de 2014

Redesenhando o Oriente Médio - por Latuff

Fonte: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/37845/redesenhando+o+oriente+medio.shtml

Ramonet: por que o Oriente Médio está em chamas...


Ramonet: por que o Oriente Médio está em chamas...
Três guerras, um quebra-cabeças. Em declínio, EUA recuam, mas agem por meio de satélites. Irã busca mais espaço. Sauditas apelam para ultra-fundamentalismo.

Com Síria, Iraque e os confrontos entre Israel e os palestinos na Faixa de Gaza, há agora três guerras abertas ocorrendo simultaneamente no Oriente Médio. A estas hostilidades militares, é preciso acrescentar as tensões com o Irã, envolvendo seu programa de energia nuclear, e as rivalidades diplomáticas entre diversas potências  regionais, como Arábia Saudita e Egito. Tudo confirma: a região é o “barril de pólvora” do planeta e a “ante-sala da confusão” no mundo.

Uma primeira pergunta vem à mente: porque essa acirramento repentino? As causas locais são múltiplas, devido à própriaa diversidade dos atores envolvidos e de seus motivos (religiosos, étnicos, territoriais, políticos, petrolíferos etc). Mas um fato geopolítico parece determinante: a decisão dos Estados Unidos de reduzir seu envolvimento militar no teatro do Oriente Médio e se focar no leste da Ásia. Após os belicosos anos Bush, o governo Obama parece ter chegado a duas conclusões estratégicas: primeiro, um poderoso aparato militar não pode fazer tudo; e o país, atingido pela crise, já não tem os meios para exercer uma hegemonia absoluta.

Resultado: os Estados Unidos estão se retirando do Oriente Médio. Sobretudo, desde que o argumento principal para sua presença na região, o petróleo, vem perdendo a cada dia um pouco mais de importância, na medida em que o gás ou petróleo de xisto, no subsolo americano, substituem gradualmente as importações de hidrocarbonetos do Oriente Médio.

É este o momento geopolítico preciso que a região atravessa: uma potência hegemônica, os EUA retiram-se progressivamente; e outras potências e forças locais confrontam-se para ocupar o espaço político abandonado. Os acontecimentos parecem se acelerar de repente, como se todas as partes envolvidas começassem a pressentir a aproximação de um acontecimento decisivo, quando novas cartas serão colocadas na mesa. Isto dá espaço para os conflitos atuais, num contexto regional sacudido pelo crescimento do conflito entre sunitas e xiitas que incendeia toda a região do Crescente Fértil, de Gaza ao Golfo Pérsico.

Uma leitura fragmentada – a que os jornais diários oferecem  – não captura o movimento geral, no cenário de operações. Temos a impressão de que aquilo que está acontecendo em Gaza não tem nada a ver com os acontecimentos na Síria, e que eles são independentes das hostilidades no Iraque ou as negociações com o Irã. Na realidade, é uma falsa impressão, uma vez que todos os acontecimento são articulados entre si.
Começamos por Gaza. Por que a ofensiva atual de Telaviv? Aparentemente as coisas são simples: tudo começou em 12 de junho, quando três jovens israelenses foram sequestrados na Cisjordânia. O governo de Israel acusou imediatamente o Hamas (que governa Gaza) de estar por trás do sequestro e, em seus esforços para tentar deter os sequestradores dos jovens, multiplicou as detenções arbitrárias. O Hamas nega qualquer responsabilidade no sequestro de três jovens. Mas isso não impede que as autoridades israelenses prendam quatrocentos palestinos supostamente próximos do Hamas. Outros são mortos. Casas e apartamentos pertencentes a suspeitos são destruídos. Em retaliação, foguetes são disparados de Gaza contra Israel. Em 30 de junho os corpos dos três jovens desaparecidos são encontrados: foram assassinados perto de Halhoul, na Cisjordânia. O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu disse: “O Hamas é responsável; o Hamas pagará”. Nada, nenhuma prova ou evidência do envolvimento do Hamas no sequestro e assassinato hediondo dos três jovens israelenses. No entanto, nada impediu, alguns dias depois, a “punição” militar lançada contra Gaza.

Qual é a verdadeira razão? É preciso voltar a 29 de março. Naquele dia, Israel recusou-se a libertar, conforme acordado, um último grupo de prisioneiros palestinos, exigindo uma extensão das negociações de paz para além do prazo previsto de 29 de abril. É preciso dizer que o governo de Netanyahu – o mais à direita na história de Israel – não demonstrou vontade real em negociar com a Autoridade Palestina e abandonar sua política de colonização, conforme demonstrou a iniciativa natimorta do secretário de Estado norte-americano John Kerry, lançada ano passado.

O presidente palestino, Mahmoud Abbas, declarou-se disposto a prolongar as discussões, com a condição de que Israel libertasse os prisioneiros, congelasse os assentamentos e aceitasse discutir a demarcação das fronteiras do futuro Estado palestino. O governo de Telaviv rejeitou as demandas. E a partir desse momento, as hostilidades entre israelenses e palestinos aumentaram.

Neste contexto, no momento em que o processo de paz encontra-se totalmente atolado, uma sucessão de eventos ocorre: os palestinos assinam, em 23 de abril, um acordo de reconciliação entre o Fatah — que governa a Cisjordânia — e o movimento islâmico Hamas, no poder em Gaza. Juntos, decidem formar um governo de “consenso nacional”. Liderado pelo premiê Rami Hamdallah, e composto por tecnocratas, ele não conta com nenhum membro filiado ao Hamas. Os líderes israelenses ficam furiosos, e acusam o presidente palestino Abbas de ter escolhido “o Hamas, e não a paz”.

Afim de tranquilizar os israelenses e a comunidade internacional, o presidente Abbas prometeu que o novo governo da unidade nacional, rejeitará a violência, reconhecerá Israel e respeitará os compromissos internacionais. Por sua vez, Washington anunciou sua intenção de colaborar com o novo governo palestino e acrescentou que manterá sua ajuda financeira à Autoridade Palestina. A União Europeia também declarou apoio ao novo gabinete palestino.

Mas o primeiro-ministro israelense, Bejamin Netanyahu, afirma: “O Hamas é uma organização terrorista que visa a liquidação de Israel; esta aliança é inaceitável”. Logo após, ocorre o sequestro dos três jovens israelenses. E como os acontecimentos estão ligados, fornecem o pretexto para o governo israelense “destruir o Hamas”.

Na verdade, as coisas são ainda mais complexas. Pois, de fato, o Hamas vem sofrendo as consequências de uma reversão de alianças feitas recentemente. Lembremos de que, sob a influência de dois Estados próximos da Irmandade Muçulmana, Turquia e Qatar, o Hamas – ele mesmo, uma ramificação da Irmandade – mudou sua diplomacia regional no ano passado e fez escolhas geopolíticas que se mostraram desastrosas: afastou-se do presidente sírio, Bashar Al-Assad (e, portanto, do Irã) em plena guerra civil na Síria, pensando em forjar uma nova aliança com a Irmandade Muçulmana no Egito, que poderia ajudar o Hamas em Gaza.

Foi um grande erro: todas as previsões fracassaram. A Irmandade Muçulmana, que a Arábia Saudita também combate, foi derrubada no Egito — onde o general Al-Sissi assumiu o poder e não está, obviamente, ansioso por ajudar o Hamas — ligado à mesma Irmandade Muçulmana que ele persegue sem tréguas em seu solo. Em troca, Cairo tem restaurado a cooperação de segurança com Israel, em prejuízo de Gaza, onde condições de vida estão degradadas e os cidadãos estão culpabilizando os dirigentes islâmicos.
Sem o poder necessário, o Hamas não conseguiu melhorar a vida dos dois milhões de habitantes de Gaza. O movimento islâmico permanece sujeito à escalada local de grupos radicais, como a Jihad Islâmica, responsável pelo disparo contínuo de foguetes contra o território israelense. Assim, em um ano, o Hamas perdeu seus principais aliados — a Síria, o Irã e o Egito. Constrangido, aproximou-se do Fatah e da Autoridade Palestina. Atraindo ainda mais a ira do governo de Israel…

Além disso, Bashar el-Assad continua no poder na Síria, apoiado pela Rússia, Irã e o Hezbollah libanês. Embora a guerra em seu país esteja longe de acabar, está claro que as autoridades em Damasco marcaram pontos e, agora, retomaram a iniciativa na guerra.

É neste contexto regional que se desenvolvem os recentes acontecimentos no Iraque. Em especial a tomada, por um grupo de jihadistas sunitas, da importante região de Mosul — não só rica em petróleo, mas também território que concentra os Curdos. Este acontecimento inesperado ocorre no momento preciso em que as negociações entre o Irã e as potências ocidentais, sobre o programa nuclear, estão mais próximas que nunca de levar a um acordo, em que a Arábia Saudita perde sua aposta na Síria.

O reino saudita, ligado a uma vertente radical do islamismo — o wahhabismo — investiu pesadamente na luta para derrubar o presidente Assad. Durante três anos, cerca de 45 mil combatentes estrangeiros, financiados pela Arábia Saudita, foram enviados ao território sírio para lutar contra as autoridades de Damasco. Eles chegaram a oferecer, para engrossar o efetivo dos grupos islâmicos, prisioneiros já condenados à morte, acenando com a possibilidade de se redimir, caso fizessem a guerra santa (jihad) na Síria. O reino não só abriu seus depósitos de armas para a oposição, como teria comprado fábricas de armas na Ucrânia, cuja produção era enviada diretamente para os combatentes na Síria, através da Jordânia. Apesar desta impressionante manobra, as autoridades de Damasco conseguiram manter o equilíbrio de forças no terreno.

É por isso que a resposta chegou no Iraque. Rejeitados na Síria, os jihadistas sunitas juntaram-se ao grupo islâmico ISIS (Estado Islâmico do Iraque e do Levante, em inglês) para lançar uma ofensiva-relâmpago em junho, ameaçando Bagdá. Grupos sunitas armados, menos radicais, aderiram ao movimento com o propósito de criar um califado através das fronteiras entre Síria e Iraque.

Os curdos aproveitaram a chance para apoderar-se de outra cidade, Kirkuk, rica em petróleo, cujo controle disputaram, durante vários anos, com o governo de Bagdá. A incompetência do governo central e sua política favorável aos xiitas criaram as condições perfeitas para a insurgência sunita. Em todo caso, o golpe de força dos jihadistas do ISIS coloca em dificuldades o primeiro ministro iraquiano (xiita) Nouri al-Maliki, aliado de Teerã.

Este embaralhamento de cartas deve resultar no retorno da Arábia Saudita às negociações no Iraque. E ao mesmo tempo esse novo contexto permite, sobretudo, que o Irã volte a ser uma potência regional decisiva. Porque compartilha alguns interesses-chave com os ocidentais, especialmente os Estados Unidos. Os americanos têm em comum com o Irã xiita o mesmo inimigo: o jihadismo sunita, e particularmente seu grupo atual mais ativo, o ISIS, financiado pela Arábia Saudita, oficialmente um aliado de Washington…

Como podemos ver, num Oriente Médio em chamas em plena recomposição, a grande questão estratégica atual é o confronto entre Arábia Saudita e Irã — travado, “por procuração”, por meio de aliados locais destes dois países. O Estado-tampão que constituía o Iraque é agora disputado abertamente por ambos os lados. Com o pano de fundo do conflito na Síria e no Iraque, e a continuação do confronto do exército israelense contra o Hamas na Faixa de Gaza, a região vive uma virada geopolitica. A diplomacia parece paralisada, interrompida, o governo norte-americano e os europeus estão cada vez mais convencidos de que a estabilidade no Oriente Médio não pode ser alcançada sem a contribuição do Irã. Este quer ser reconhecido como potência (inclusive, no desenvolvimento de um programa nuclear civil). Não será algo que a Arábia Saudita engolirá com facilidade. E ela ainda não pronunciou sua última palavra.

Tradução Cauê Seignemartin Ameni

Israel Lobby em ação! - por Latuff

Fonte: http://latuffcartoons.wordpress.com/

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Existe fascismo em São Paulo - por Guilherme Boulos


Existe fascismo em São Paulo
Numa cidade de muros, arame farpado e rampas antimendigo, novo incêndio em favela demonstra: para afastar pobres, mercado imobiliário paulistano brinca com fogo… 

Se existe amor em São Paulo eu não sei. Mas fascismo, esse existe. E a elite paulistana não faz nenhuma questão de escondê-lo.

Sabemos que não é de hoje. A história da segregação territorial em São Paulo vem dos anos 1940, quando se inicia de forma mais sistemática a demolição dos cortiços e das residências operárias nas regiões centrais. Pobre tem que vir ao centro para trabalhar e servir, mas morar ali? Não, aí já é vandalismo!

Foi assim que surgiram e se expandiram as periferias da cidade. Numa jogada de mestre e sempre com o apoio do Estado, os agentes imobiliários conseguiram, ao mesmo tempo, tirar os pobres do convívio nos bairros centrais, ganhar um bom dinheiro com loteamentos clandestinos na periferia e reservar áreas intermediárias para a especulação. Nessas áreas estabeleceram-se depois os verdadeiros nichos da elite paulistana.

O que estava em jogo era materializar no território a segregação social entre ricos e pobres.
Até hoje a dinâmica do mercado imobiliário reproduz esse fenômeno. Quando um bairro recebe investimentos ou passa a hospedar grandes empreendimentos privados – condomínios de alto padrão, shoppings, etc – sofre um processo intenso de valorização. Expulsa assim os moradores mais pobres, por vezes através de despejos coletivos e mais frequentemente pela hipervalorização dos aluguéis.

Esta dinâmica econômica sedimentou uma mentalidade higienista na elite e nas camadas médias. Veio junto com uma fobia, um nojo, uma recusa da convivência. Seu ideal seria que os pobres trabalhassem para servi-los, mas ao fim do expediente evaporassem, para retornar apenas no dia seguinte. Pobres podem até existir, desde que longe de seus olhos.

Há casos emblemáticos e recentes. Em 2010, os seletos moradores de Higienópolis iniciaram um movimento contra uma estação de metrô nas redondezas. Motivo: traria ao bairro “gente diferenciada”. Em 2011 foi a vez de uma turma de comerciantes e moradores de Pinheiros, que se organizaram contra um albergue para moradores de rua no bairro. “Ficaremos acuados em casa”, alegaram na ocasião. As rampas antimendigo, iniciadas na gestão de José Serra para impedir moradores de rua em certas partes da cidade, deram a chancela do poder público.

Mas o pior ainda estava por vir. A face mais perversa deste fenômeno foram os incêndios em favelas. O mercado imobiliário é mesmo muito criativo. Quando, por alguma eventualidade, o judiciário barra o despejo de uma favela localizada em zona de expansão imobiliária eles fazem a seu modo. Incendiar favelas tornou-se um recurso habitual para afastar pobres dos condomínios de alto padrão.

Em muitos casos é difícil provar, o que permitiu aos interessados atribuir os incêndios à baixa umidade do ar. Mas os indícios são avassaladores. O site Fogo no Barraco reuniu o mapa de todos os incêndios em favelas paulistanas de 2005 a 2014 e comparou as regiões incendiadas com o índice de valorização imobiliária. O mapa mostra como a enorme maioria dos incêndios ocorreu nas zonas de valorização. Mais inflamável que o clima seco é a especulação.

Os dados dizem ainda que metade dos incêndios dos últimos 20 anos ocorreram entre 2008 e 2012, isto é, durante a gestão de Gilberto Kassab (PSD) como prefeito, que foi marcada pela promiscuidade com o mercado imobiliário. A conivência do poder público também é inflamável.

No último domingo (7), o tema voltou com o incêndio em uma favela na região do Campo Belo. O bairro valorizou-se 130% nos últimos 5 anos, de acordo com o Índice Fipe/Zap. Tinha uma pedra no sapato do mercado imobiliário e da mentalidade fascista que foi novamente varrida com fogo. Os bombeiros que foram até o local afirmaram em reportagem que o incêndio foi mais uma vez criminoso.

Também nos últimos dias, a Folha noticiou que condomínios do Morumbi estão se mobilizando contra a ocupação Chico Mendes, organizada pelo MTST num terreno municipal com destinação prevista para habitação popular. Uma das ilustres moradoras disse tudo: “Atrapalhando eles estão, é desconfortável”. Atrapalhando a vista de sua sacada, pobres, ali, ao lado.

A realidade é mesmo desconfortável. A mentalidade fascista atua para negar, queimar, expulsar este desconforto para bem longe. Que os pobres existam, mas em algum lugar de Ferraz de Vasconcelos, bem longe da minha sacada.

São Paulo é uma das cidades mais desiguais do mundo. A cidade dos muros. Dos muros, incêndios criminosos, despejos, rampas antimendigo e dos condomínios exclusivos. O fascismo da elite só coloca mais combustível neste barril de pólvora.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Chile, 11 de setembro de 1973 - por Latuff

Fonte: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/37815/charge+chile+11+de+setembro+de+1973.shtml

Vídeo do evento “Lutar não é crime! Prévia do III Festival do Filme Anarquista e Punk de São Paulo, 2014” – por ANA


Vídeo do evento “Lutar não é crime! Prévia do III Festival do Filme Anarquista e Punk de São Paulo, 2014"
“Nem perseguições, nem montagens: Lutar não é crime! Prévia do III Festival do Filme Anarquista e Punk de São Paulo, 2014”. Esse foi o nome do evento que aconteceu em São Paulo em 31 de agosto passado, no Matilha Cultural. Neste dia teve música, exibição de documentários e conversas abordando as montagens e criminalização dos movimentos sociais mundo afora.

Um vídeo (5:31) com imagens e momentos do evento foi feito pela Anarcofilmes Produções, ele pode ser visto aqui:

Se liga!

A terceira edição do Festival do Filme Anarquista e Punk de São Paulo acontecerá nos dias 5, 6 e 7 de dezembro de 2014, no Tendal da Lapa, Rua Constança, 72 – Lapa. Mais infos: anarcopunk.org.
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agência de notícias anarquistas-ana

que flor é esta,
que perfuma assim
toda a floresta?
Carlos Seabra

Pikkety, o Papa e o retorno de Karl Marx – por Santiago Zabala


Pikkety, o Papa e o retorno de Karl Marx
Há exatos 147 anos, era lançado primeiro livro de “O Capital”. Ao “acusarem” Papa e economista francês de “marxistas”, conservadores confirmam atualidade do filósofo alemão

A crítica às desigualdades sociais, como exposta no livro O Capital no século XXI, do francês Thomas Piketty, não é assim tão diferente da visão do Papa Francisco sobre o capitalismo em sua exortação apostólica Evangelii Gaudium (do latim, “A alegria do Evangelho”), publicada em 2013.

O jornal inglês Financial Times tenta provar que a teoria do economista francês é incorreta. Além disso, conservadores como Rush Limbaugh e outros acusam tanto o economista quanto o sumo pontífice de marxismo, sinônimo de estar errado na opinião do comentarista político, obviamente. Entretanto, ser rotulado de marxista não é uma ofensa. É apenas um sinal de que Marx retornou das reminiscências do comunismo para convidar acadêmicos, ativistas e até clérigos a buscar em seus escritos soluções para recessão global contemporânea.

Embora Piketty e o Papa Francisco (antes Cardinal Jorge Mario Bergolio) neguem qualquer interesse ou fé no marxismo, ambos não serão perdoados tão cedo. Porque, afinal, reconhecer as falhas capitalismo é como emitir um sinal de alerta máximo em nosso estado de exceção.

O lado bom desse alerta, porém, é a possibilidade de congregar pessoas preocupadas com questões vitais como distribuição de renda, saúde e educação, reivindicações vistas na União de Nações Sul-Americanas (UNASUR) e no recente movimento Occupy.

O Papa pede redistribuição, e Piketty sugere um modo de pôr isso em prática com uma tributação progressiva global sobre o capital ou grandes riquezas. E se torna também – indiretamente – o economista papal. Para explicar por que a solução do economista francês é apropriada para as preocupações do Papa, é preciso revisitar rapidamente as duas teses.

O mais interessante de Evangelii Gaudium não é o clamor por uma distribuição de riqueza mais justa, mas sim tal pedido sendo feito a partir do espírito da Teologia da Libertação, de Gustavo Gutiérrez.

Segundo o Papa Francisco, uma “reforma financeira” é essencial não apenas “porque o sistema socioeconômico é injusto em sua origem”, mas também “porque os mecanismos econômicos atuais promovem um consumo desordenado”. Um consumismo desenfreado somado à desigualdade é uma combinação nociva à sociedade, na medida em que “os excluídos não são mais os ‘explorados’, e sim os rejeitados, os que são considerados redundantes”.

É possível perceber que o Papa coloca em oposição não apenas um sistema econômico em que a exclusão é possível, mas um em que ela se tornou a regra, ou melhor, “o resultado de ideologias que defendem a autonomia absoluta do mercado e da especulação financeira”. Como um veraz filósofo pós-moderno, Papa Francisco conclui suas observações destacando como “estamos longe do chamado ‘fim da história’”, na medida em que o crescimento econômico, incentivado pelo livre mercado, em vez de proporcionar uma maior prosperidade para todos, aumentou “a corrupção desmedida e a deplorável sonegação de impostos, que assumiram dimensões globais”.

Pikkety, ao que parece, apresenta uma justificativa tanto histórica quanto econômica para a preocupação do Papa sobre uma “economia de exclusão” e sobre “um sistema financeiro que dita regras em vez de servir à sociedade”. Se o capitalismo se tornou esse sistema econômico não é simplesmente por sua inclinação natural a uma desigualdade galopante – tese em que o autor se debruça por meio de uma análise detalhada da história –, mas sim porque o capitalismo permite que a concentração de riqueza se perpetue de uma geração à outra (a exemplo da família real espanhola).

Isso ocorre no seguinte momento: quando “a taxa de retorno sobre o capital é maior que a taxa de crescimento de renda e produção, o capitalismo automaticamente cria desigualdades arbitrárias e insustentáveis que, de forma radical, enfraquece valores meritocráticos, fundamentais em sociedades democráticas”. O economista francês sugere então “uma tributação progressiva sobre o capital”, restringindo “o crescimento ilimitado da desigualdade global, que cresce a um ritmo que não pode ser mantido em longo prazo e constitui motivo de preocupação até mesmo para os defensores mais fervorosos do livre mercado”.

Talvez Piketty tenha se tornado o economista de Papa. Não apenas por apresentar uma solução de provável anuência pelo pontífice, mas também por se afastar do rigor científico de sua disciplina, isto é, o determinismo econômico. Mormente, o economista francês acredita que “o reaparecimento da desigualdade social depois da década de 1980” não foi consequência de um movimento natural do capitalismo, mas sim de “recentes decisões políticas em temas relacionados a tributação e fundos públicos”. O clamor do papa para um sistema financeiro que “sirva à sociedade em vez de ditar regras” é diametralmente oposto a tais decisões de quem está no poder. São esses mesmos sujeitos que sempre evitam as reformas financeiras recomendadas pelos dois líderes. Embora Pikkety continue a lecionar na França em vez de mudar-se para o Vaticano, o Papa tem agora um aliado economista durante seu pontificado em Roma, mesmo com todas as acusações de marxismo. Essas acusações, portanto, não são apenas necessárias para reunir economistas e a Santa Sé. Servem também como um marco para conter a aceleração da desigualdade capitalista para aqueles que são assim acusados, independente da fé ou da posição social.

Tradução: Taynée Mendes

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Adeus Palestina – por Robert Fisk


Adeus Palestina
O mais recente roubo de terra na Cisjordânia é apenas mais um ponto acrescentado no livro dos padecimentos que os palestinos têm de ler. 

E foi assim que mais uma fatia da terra palestina escorreu pelo ralo. Mais uns 400 hectares de terra palestina foram roubados pelo governo de Israel – porque... “apropriação” é roubo, não? – e o mundo já deu as desculpas de sempre.

Os norte-americanos acharam o roubo “contraproducente” para a paz, o que é reação bastante amena, considerando o que os EUA diriam/fariam caso o México roubasse 400 hectares acres de terra do Texas e resolvesse construir ali casas para imigrantes mexicanos ilegais nos EUA. Mas, não. Foi na “Palestina” (aspas mais necessárias do que nunca). E Israel conseguiu continuar roubando, embora não nesta escala – este foi o maior roubo de terra em 30 anos, desde que foi assinado o Acordo de Oslo em 1993.

O aperto de mão entre Rabin-Arafat, as promessas e trocas de territórios e retiradas militares e a determinação de deixar tudo de importante (Jerusalém, refugiados, o direito de retorno) para o fim, até que todos confiassem tanto uns nos outros que a coisa seria facílima... não surpreende que o mundo tenha feito descer sobre os dois sua generosidade financeira. Mas esse recente roubo de terras mais recente não apenas reduz a “Palestina”: também mantém o círculo de concreto armado no entorno de Jerusalém para manter os palestinos bem distantes, tanto da capital, onde se espera que eles partilhem com israelenses, como de Belém.

Foi instrutivo saber que o conselho Etzion, que administra os assentamentos ilegais na Cisjordânia, tenha considerado que este roubo seja um castigo pelo assassinato de três adolescentes israelenses em junho. “O objetivo dos assassinatos dos três jovens foi semear o medo entre nós, interromper nossa vida diária e questionar nosso direito [sic] à terra”, anunciou o conselho Etzion. “Nossa resposta é reforçar a colônia”. Esta deve ser a primeira vez em que alguém “adquiriu” terras da “Palestina” sem usar desculpas sobre segurança nacional ou em nome da autoridade pessoal de Deus. Dessa vez, o motivo para roubar terra palestina foi declaradamente vingança.

Assim se cria um precedente interessante. Se a vida de um israelense inocente – cruelmente ceifada – vale cerca de 130 hectares de terra, a vida de um palestino inocente – também cruelmente ceifada – vale a mesma porção de terra. E se metade, que seja, dos 2.200 palestinos mortos em Gaza mês passado – e esse é número conservador – fossem inocentes, nesse caso os palestinos hoje teriam direito assegurado a 132.000 hectares de terras israelenses; na realidade, muito mais. E por mais “contraproducente” que essa conta seja, com certeza os EUA não aprovariam. Israel rouba terra, palestinos perdem terra; é assim que funciona. É assim desde 1948, e é assim que continuará.

Nunca haverá uma “Palestina”, e o mais recente roubo de terra é apenas mais um ponto acrescentado no livro dos padecimentos que os palestinos têm de ler, enquanto seus sonhos de terem um Estado seu se vão diluindo. Nabil Abu Rudeineh, porta-voz do “presidente” palestino Mahmoud Abbas, disse que seu chefe e as forças moderadas na Palestina haviam sido “apunhalados pelas costas” pela decisão dos israelenses, o que é dizer pouco. Abbas tem as costas completamente apunhaladas, de cima a baixo. E o que ele esperava quando escreveu um livro sobre as relações entre palestinos e israelenses em que não escreveu nem uma única vez, uma que fosse, a palavra “ocupação”?

O que significa que voltamos ao velho joguinho. Abbas não pode negociar com ninguém a menos que fale pelo Hamas ou pela Autoridade Palestina. Como Israel sabe. Como os EUA sabem. Como a União Europeia sabe. Mas cada vez que Abbas tenta construir governo de unidade nacional, todos nós nos pomos a guinchar que o Hamas é organização “terrorista”.

E Israel argumenta que não pode conversar com uma organização “terrorista” que exige a destruição de Israel – por mais que Israel costumasse conversar muito com Arafat e, naqueles dias, tenha ajudado o Hamas a construir mais mesquitas em Gaza e na Cisjordânia, para servirem como contrapeso ao Fatah e a todos os outros então “terroristas” lá de Beirute.

Claro, se Abbas fala só por ele mesmo, Israel então diz o que já disse: que se Abbas não fala por Gaza, Israel não tem com quem negociar. Mas... isso realmente ainda interessa? Sobre esse assunto, todas as manchetes do mundo exibir: “Adeus, Palestina”.

(*) Artigo publicado originalmente no Independent, da Grã-Bretanha.
Tradução: Daniella Cambaúva

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/ 

5 lições cruciais para a esquerda do novo livro de Naomi Klein...


5 lições cruciais para a esquerda do novo livro de Naomi Klein

Não se pode combater as mudanças climáticas sem combater o capitalismo, argumenta Klein em This Changes Everything.
"Agora só os movimentos sociais de massas nos podem salvar. Porque sabemos para onde vai o sistema atual, se não for contido".

Nos seus livros anteriores, A Doutrina do choque: a ascensão do capitalismo de desastre[1] (2007) e Sem logo : a tirania das marcas em um planeta vendido (2000), Naomi Klein, escritora canadiana e ativista, pegou em temas como a "terapia de choque" neoliberal, o consumismo, a globalização e o "capitalismo de desastre," documentando extensivamente as forças que estão por trás do aumento dramático da desigualdade económica e da degradação ambiental nos últimos 50 anos. Mas no seu novo livro, This Changes Everything: Capitalism vs. the Climate [Isto altera tudo: o capitalismo contra o  clima] (à venda a 16 de setembro), Klein lança o olhar para o futuro, argumentando que os perigos das alterações climáticas exigem ação radical agora para se afastar a catástrofe. Certamente não estará só ao apontar para a urgência da ameaça, mas o que diferencia Klein é o argumento de que o capitalismo — e não o carbono — é que está na origem das alterações climáticas que, em busca do lucro, nos conduzem inexoravelmente para um Armaggedon ambiental. This Changes Everything vale bem uma leitura (ou duas) na íntegra, mas apuramos alguns dos seus principais pontos aqui.

1. As soluções Penso-Rápido não funcionam
"Agora só os movimentos sociais de massas nos podem salvar. Porque sabemos para onde vai o sistema atual, se não for contido".

Muita da conversa em torno das alterações climáticas está focada no que Klein rejeita como sendo "Soluções Penso-Rápido": consertos orientados para o lucro tais como inovações tecnológicas bombásticas, esquemas de mercado de carbono e alternativas supostamente "limpas" como o gás natural. Para Klein, tais estratégias são demasiado pouco demais, demasiado tarde. Na sua elaborada crítica ao envolvimento das corporações na prevenção das alterações climáticas, ela demonstra como "soluções" rentáveis, avançadas por muitos think tanks[2] (e seus apoiantes corporativos) realmente acabam por piorar o problema. Por exemplo, Klein argumenta que os programas de troca de carbono criam incentivos perversos, permitindo que os fabricantes produzam mais gases de efeito estufa nocivos, justamente sendo pagos para os reduzir. Nesse processo, os esquemas de comércio de carbono têm ajudado as corporações a fazer milhares de milhões — permitindo-lhes lucrar diretamente com a degradação do planeta. Em vez disso, argumenta Klein, precisamos libertar-nos do fundamentalismo de mercado e implementar um planeamento a longo prazo, uma legislação rigorosa das empresas, mais impostos, mais despesa do governo e reverter privatizações para devolver a infraestrutura chave ao controle público.

2. Precisamos de conserto nós, não o mundo
"A Terra não é nosso prisioneiro, nem paciente, nem máquina, nem, de facto, um monstro nosso. É todo o nosso mundo. E a solução para o aquecimento global não é consertar o mundo, é consertar-nos a nós mesmos."

Klein dedica um capítulo completo do livro à geoengenharia: este campo de investigação, defendido por um grupo de nicho de cientistas, financiadores e figuras da comunicação social que visa combater o aquecimento global alterando a própria terra — por exemplo, cobrindo desertos com material refletor para reenviar a luz solar para o espaço ou mesmo para reduzir a luz do sol para diminuir a quantidade de calor que atinge o planeta. Contudo, políticos e grande parte do público global levantaram preocupações ambientais, de saúde e éticas em relação às propostas experiências científicas com o planeta e Klein adverte para as consequências desconhecidas de se criar "um mundo Frankenstein" em que vários países lançam projetos simultaneamente. Em vez de restaurar o equilíbrio ambiental, Klein afirma que estes "tecno-consertos" irão apenas perturbar ainda mais o equilíbrio da terra, cada um criando uma série de novos problemas, exigindo uma cadeia sem fim de mais "consertos". "A Terra — o nosso sistema de apoio vital — estaria ela mesma dependente de máquinas de apoio vital, ligadas em permanência, para impedir que se tornasse a toda a velocidade um monstro para nós", escreve ela.

3. Não podemos confiar num financiamento empresarial "bem intencionado"
"Um grande número de progressistas decidiu abandonar o debate sobre as alterações climáticas em parte porque pensou que os grupos Big Green[3], por onde escorreram dólares filantrópicos, tinham essa questão assegurada. Ora isso foi afinal um grave erro".

Klein critica fortemente as parcerias entre grandes empresas e os principais grupos ambientais, juntamente com as tentativas de "bilionários verdes", como Bill Gates e Richard Branson do grupo Virgin, de usar o capitalismo para combater as alterações climáticas. Se o próprio capitalismo é uma causa principal das alterações climáticas, Klein argumenta, não faz sentido esperar que corporações e bilionários ponham o planeta à frente do lucro. Por exemplo, embora a Fundação Gates financie muitos dos destacados grupos ambientais dedicados ao combate às alterações climáticas, à data de dezembro de 2013 tinha investido pelo menos 1,2 milhares de milhões de dólares na BP e na ExxonMobil. Além do mais, quando os Big Green se tornam dependentes de financiamento corporativo, começam a fazer avançar a agenda corporativa. Por exemplo, organizações como a Nature Conservancy e o Environmental Defense Fund, que têm tomado milhões de dólares de financiadores corporativos pró-fracking[4], tais como a Shell, a Chevron e o JP Morgan, estão a impulsionar o gás natural como alternativa mais limpa que o petróleo ou o carvão.

4. Precisamos de desinvestimento e reinvestimento
"O principal poder do desinvestimento não é prejudicar financeiramente a curto prazo a Shell e a Chevron, mas  corroer a licença social das companhias de combustíveis fósseis e criar pressão nos políticos para que  introduzam reduções de emissões generalizadas".

Os críticos do movimento de desinvestimento no carbono afirmam muitas vezes que esse desinvestimento terá um impacto mínimo sobre as questões de fundo dos poluidores. Mas Klein argumenta que esta linha de raciocínio falha a questão, citando a argumentação do canadiano Cameron Fenton, ativista do desinvestimento, de que "ninguém está a pensar que vamos levar companhias de combustíveis fósseis à falência. Mas o que podemos fazer é levar à falência a sua reputação e tirar-lhes poder político". E mais importante ainda, o desinvestimento abre a porta ao reinvestimento. Alguns milhões de dólares fora das mãos da ExxonMobil ou da BP é libertar dinheiro que pode então ser gasto a desenvolver infraestruturas verdes ou a empoderar as comunidades para tornarem a sua economia localizada. Em algumas faculdades, organizações não lucrativas, fundos de pensões e municípios já perceberam a mensagem: Klein reporta que 13 faculdades e universidades dos EUA, 25 cidades norte-americanas, cerca de 40 instituições religiosas e várias grandes fundações se comprometeram em desinvestir as suas doações em ações e títulos de combustíveis fósseis.

5. Enfrentar a mudança climática é uma oportunidade para abordar outras questões sociais, económicas e políticas
"Quando os negacionistas das alterações climáticas afirmam que o aquecimento global é um complô para redistribuir a riqueza, não é (só) por serem paranoicos. É também por estarem atentos."

Em A doutrina do choque, Klein explicou como as corporações têm explorado as crises à volta do mundo pelo lucro. Em This Changes Everything, ela argumenta que a crise das mudanças climáticas pode servir de despertar para a ação democrática generalizada. Por exemplo, quando um tornado destruiu em 2007 a maior parte de Greensburg, Kansas, a cidade rejeitou as abordagens de cima para baixo para a recuperação em favor de esforços para a reconstrução baseados na comunidade que aumentaram a participação democrática e criaram novos edifícios públicos respeitadores do ambiente. Hoje em dia Greensburg é uma das cidades mais verdes nos Estados Unidos. Para Klein este exemplo ilustra como as pessoas podem usar as mudanças climáticas para se unirem e construirem uma sociedade mais verde. Também pode, e deve certamente, estimular uma transformação radical da nossa economia: menos consumo, menos comércio internacional (o que faz parte da relocalização da economia) e menos investimento privado e muito mais despesa governamental para criar as infraestruturas de que precisamos para uma economia verde. "Implícita em tudo isto", escreve Klein, "está muito mais redistribuição, para que mais de entre nós possam viver confortavelmente dentro das capacidades do planeta".



Artigo de Jessica Corbett e Ethan Corey, publicado em In These Times.
Tradução de Paula Sequeiros para esquerda.net
[1]NT: As datas entre parênteses referem-se às edições originais em inglês, em que se mantiveram as hiperligações usadas pela autoria; para títulos com traduções portuguesas, as hiperligações reenviam para informação bibliográfica completa do catálogo coletivo internacional WorldCat
[2]Ver definição na Wikipedia
[3]Grandes grupos ambientalistas que têm sido acusados de excessiva proximidade do poder político central e de dependência do financiamento por grandes empresas, distanciando-se do ativismo ambientalista local e de base; ver mais por exº aqui
[4]definição de fracking ou fratura hidrálica na Wikipedia

Fonte: http://www.esquerda.net/

O Estado Laico do Senhor Jesus - por Latuff

Fonte: http://latuffcartoons.wordpress.com/