quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Noam Chomsky: estamos à beira da total auto-destruição? Alternet



Noam Chomsky: estamos à beira da total auto-destruição?

Existem mais processos de longo prazo apontando na direção, talvez não da destruição total, mas ao menos da destruição da capacidade de uma vida decente. 
O que o futuro trará? Uma postura razoável seria tentar olhar para a espécie humana de fora. Então imagine que você é um extraterrestre observador que está tentando desvendar o que acontece aqui ou, se imagine como um historiador daqui a 100 anos - assumindo que existam historiadores em 100 anos, o que não é óbvio - e você está olhando para o que acontece. Veria algo impressionante.

Pela primeira vez na história da espécie humana, desenvolvemos claramente a capacidade de nos destruirmos. Isso é verdade desde 1945. Agora está finalmente sendo reconhecido que existem mais processos de longo-prazo como a destruição ambiental liderando na mesma direção, talvez não à destruição total, mas ao menos à destruição da capacidade de uma existência decente.

E existem outros perigos como pandemias, as quais estão relacionadas à globalização e interação. Então, existem processos em curso e instituições em vigor, como sistemas de armas nucleares, os quais podem levar à explosão ou talvez, extermínio, da existência organizada.

Como destruir o planeta sem tentar muito


A pergunta é: O que as pessoas estão fazendo a respeito? Nada disso é segredo. Está tudo perfeitamente aberto. De fato, você tem que fazer um esforço para não enxergar.

Houve uma gama de reações. Têm aqueles que estão tentando ao máximo fazer algo em relação à essas ameaças, e outros que estão agindo para aumentá-las. Se olhar para quem são, esse historiador futurista ou extraterrestre observador veriam algo estranho. As sociedades menos desenvolvidas, incluindo povos indígenas, ou seus remanescentes, sociedades tribais e as primeiras nações do Canadá, que estão tentando mitigar ou superar essas ameaças. Não estão falando sobre guerra nuclear, mas sim desastre ambiental, e estão realmente tentando fazer algo a respeito.

De fato, ao redor do mundo - Austrália, Índia, América do Sul - existem batalhas acontecendo, às vezes guerras. Na Índia, é uma guerra enorme sobre a destruição ambiental direta, com sociedades tribais tentando resistir às operações de extração de recursos que são extremamente prejudiciais localmente, mas também em suas consequências gerais. Em sociedades onde as populações indígenas têm influência, muitos tomam uma posição forte. O mais forte dos países em relação ao aquecimento global é a Bolívia, cuja maioria é indígena e requisitos constitucionais protegem os “direitos da natureza”.

O Equador, o qual também tem uma população indígena ampla, é o único exportador de petróleo que conheço onde o governo está procurando auxílio para ajudar a manter o petróleo no solo, ao invés de produzi-lo e exportá-lo - e no solo é onde deveria estar.

O presidente Venezuelano Hugo Chávez, que morreu recentemente e foi objeto de gozação, insulto e ódio ao redor do mundo ocidental, atendeu a uma sessão da Assembléia Geral da ONU a poucos anos atrás onde ele suscitou todo tipo de ridículo ao chamar George W. Bush de demônio. Ele também concedeu um discurso que foi interessante. Claro, Venezuela é uma grande produtora de petróleo. O petróleo é praticamente todo seu PIB. Naquele discurso, ele alertou dos perigos do sobreuso dos combustíveis fóssil e sugeriu aos países produtores e consumidores que se juntassem para tentar manejar formas de diminuir o uso desses combustíveis. Isso foi bem impressionante da parte de um produtor de petróleo. Você sabe, ele era parte índio, com passado indígena. Esse aspecto de suas ações na ONU nunca foi reportado, diferentemente das coisas engraçadas que fez.

Então, em um extremo têm-se os indígenas, sociedades tribais tentando amenizar a corrida ao desastre. No outro extremo, as sociedades mais ricas, poderosas na história da humanidade, como os EUA e o Canadá, que estão correndo em velocidade máxima para destruir o meio ambiente o mais rápido possível. Diferentemente do Equador e das sociedades indígenas ao redor do mundo, eles querem extrair cada gota de hidrocarbonetos do solo com toda velocidade possível.

Ambos partidos políticos, o presidente Obama, a mídia, e a imprensa internacional parecem estar olhando adiante com grande entusiasmo para o que eles chamam de “um século de independência energética” para os EUA. Independência energética é quase um conceito sem significado, mas botamos isso de lado. O que eles querem dizer é: teremos um século no qual maximizaremos o uso de combustíveis fóssil e contribuiremos para a destruição do planeta.

E esse é basicamente o caso em todo lugar. Evidentemente, quando se trata de desenvolvimento de energia alternativa, a Europa está fazendo alguma coisa. Enquanto isso, os EUA, o mais rico e poderoso país de toda a história do mundo, é a única nação dentre talvez 100 relevantes que não possui uma política nacional para a restrição do uso de combustíveis fóssil, e que nem ao menos mira na energia renovável. Não é por que a população não quer. Os americanos estão bem próximos da norma internacional com sua preocupação com o aquecimento global. Suas estruturas institucionais que bloqueiam a mudança. Os interesses comerciais não aceitam e são poderosos em determinar políticas, então temos um grande vão entre opinião e política em muitas questões, incluindo esta. Então, é isso que o historiador do futuro veria. Ele também pode ler os jornais científicos de hoje. Cada um que você abre tem uma predição mais horrível que a outra.

“O momento mais perigoso na história”

A outra questão é a guerra nuclear. É sabido por um bom tempo, que se tivesse que haver uma primeira tacada por uma super potência, mesmo sem retaliação, provavelmente destruiria a civilização somente por causa das consequências de um inverno-nuclear que se seguiria. Você pode ler sobre isso no Boletim de Cientistas Atômicos. É bem compreendido. Então o perigo sempre foi muito pior do que achávamos que fosse.

Acabamos de passar pelo 50o aniversário da Crise dos Mísseis Cubanos, a qual foi chamada de “o momento mais perigoso na história” pelo historiador Arthur Schlesinger, o conselheiro do presidente John F. Kennedy. E foi. Foi uma chamada bem próxima do fim, e não foi a única vez tampouco. De algumas formas, no entanto, o pior aspecto desses eventos é que a lições não foram aprendidas.

O que aconteceu na crise dos mísseis em outubro de 1962 foi petrificado para parecer que atos de coragem e reflexão eram abundantes. A verdade é que todo o episódio foi quase insano. Houve um ponto, enquanto a crise chegava em seu pico, que o Premier Soviético Nikita Khrushchev escreveu para Kennedy oferecendo resolver a questão com um anuncio publico de retirada dos mísseis russos de Cuba e dos mísseis americanos da Turquia. Na realidade, Kennedy nem sabia que os EUA possuíam mísseis na Turquia na época. Estavam sendo retirados de todo modo, porque estavam sendo substituídos por submarinos nucleares mais letais, e que eram invulneráveis.

Então essa era a proposta. Kennedy e seus conselheiros consideraram-na - e a rejeitaram. Na época, o próprio Kennedy estimava a possibilidade de uma guerra nuclear em um terço da metade. Então Kennedy estava disposto a aceitar um risco muito alto de destruição em massa afim de estabelecer o princípio de que nós - e somente nós - temos o direito de deter mísseis ofensivos além de nossas fronteiras, na realidade em qualquer lugar que quisermos, sem importar o risco aos outros - e a nós mesmos, se tudo sair do controle. Temos esse direito, mas ninguém mais o detém.

No entanto, Kennedy aceitou um acordo secreto para a retirada dos mísseis que os EUA já estavam retirando, somente se nunca fosse à publico. Khrushchev, em outras palavras, teve que retirar abertamente os mísseis russos enquanto os EUA secretamente retiraram seus obsoletos; isto é, Khrushchev teve que ser humilhado e Kennedy manteve sua pose de macho. Ele é altamente elogiado por isso: coragem e popularidade sob ameaça, e por aí vai. O horror de suas decisões não é nem mencionado - tente achar nos arquivos.

E para somar um pouco mais, poucos meses antes da crise estourar os EUA haviam mandado mísseis com ogivas nucleares para Okinawa. Eram mirados na China durante um período de grande tensão regional.

Bom, quem liga? Temos o direito de fazer o que quisermos em qualquer lugar do mundo. Essa foi uma lição daquela época, mas haviam outras por vir.

Dez anos depois disso, em 1973, o secretário de estado Henry Kissinger chamou um alerta vermelho nuclear. Era seu modo de avisar à Rússia para não interferir na constante guerra Israel-Árabes e, em particular, não interferir depois de terem informado aos israelenses que poderiam violar o cessar fogo que os EUA  e a Rússia haviam concordado. Felizmente, nada aconteceu.

Dez anos depois, o presidente em vigor era Ronald Reagan. Assim que entrou na Casa Branca, ele e seus conselheiros fizeram com que a Força Aérea começasse a entrar no espaço aéreo Russo para tentar levantar informações sobre os sistemas de alerta russos, Operação Able Archer. Essencialmente, eram ataques falsos. Os Russos estavam incertos, alguns oficiais de alta patente acreditavam que seria o primeiro passo para um ataque real. Felizmente, eles não reagiram, mesmo sendo uma chamada estreita. E continua assim.

O que pensar das crises nucleares Iraniana e Norte-Coreana


No momento, a questão nuclear está regularmente nas capas nos casos do Irã e da Coréia do Norte. Existem jeitos de lidar com esse crise contínua. Talvez não funcionasse, mas ao menos tentaria. No entanto, não estão nem sendo consideradas, nem reportadas.

Tome o caso do Irã, que é considerado no ocidente - não no mundo árabe, não na Ásia - a maior ameaça à paz mundial. É uma obsessão ocidental, e é interessante investigar as razões disso, mas deixarei isso de lado. Há um jeito de lidar com a suposta maior ameaça à paz mundial? Na realidade existem várias. Uma forma, bastante sensível, foi proposta alguns meses atrás em uma reunião dos países não alinhados em Teerã. De fato, estavam apenas reiterando uma proposta que esteve circulando por décadas, pressionada particularmente pelo Egito, e que foi aprovada pela Assembléia Geral da ONU.

A proposta é mover em direção ao estabelecimento de uma zona sem armas nucleares na região. Essa não seria a resposta para tudo, mas seria um grande passo à frente. E haviam modos de proceder. Sob o patrocínio da ONU, houve uma conferência internacional na Finlândia dezembro passado para tentar implementar planos nesta trajetória. O que aconteceu? Você não lerá sobre isso nos jornais pois não foi divulgado - somente em jornais especialistas.

No início de novembro, o Irã concordou em comparecer à reunião. Alguns dias depois Obama cancelou a reunião, dizendo que a hora não estava correta. O Parlamento Europeu divulgou uma declaração pedindo que continuasse, assim como os estados árabes. Nada resultou. Então moveremos em direção a sanções mais rígidas contra a população Iraniana - não prejudica o regime - e talvez guerra. Quem sabe o que irá acontecer?

No nordeste da Ásia, é a mesma coisa. A Coréia do Norte pode ser o país mais louco do mundo. É certamente um bom competidor para o título. Mas faz sentido tentar adivinhar o que se passa pela cabeça alheia quando estão agindo feito loucos. Por que se comportariam assim? Nos imagine na situação deles. Imagine o que significou na Guerra da Coréia anos dos 1950’s o seu país ser totalmente nivelado, tudo destruído por uma enorme super potência, a qual estava regozijando sobre o que estava fazendo. Imagine a marca que deixaria para trás.

Tenha em mente que a liderança Norte Coreana possivelmente leu os jornais públicos militares desta super potência na época explicando que, uma vez que todo o resto da Coréia do Norte foi destruído, a força aérea foi enviada para a Coréia do Norte para destruir suas represas, enormes represas que controlavam o fornecimento de água - um crime de guerra, pelo qual pessoas foram enforcadas em Nuremberg. E esses jornais oficiais falavam excitadamente sobre como foi maravilhoso ver a água se esvaindo, e os asiáticos correndo e tentando sobreviver. Os jornais exaltavam com algo que para os asiáticos fora horrores para além da imaginação. Significou a destruição de sua colheita de arroz, o que resultou em fome e morte. Quão maravilhoso! Não está na nossa memória, mas está na deles.

Voltemos ao presente. Há uma história recente interessante. Em 1993, Israel e Coréia do Norte se moviam em direção a um acordo no qual a Coréia do Norte pararia de enviar quaisquer mísseis ou tecnologia militar para o Oriente Médio e Israel reconheceria seu país. O presidente Clinton interveio e bloqueou. Pouco depois disso, em retaliação, a Coréia do Norte promoveu um teste de mísseis pequeno. Os EUA e a Coréia do Norte chegaram então a um acordo em 1994 que interrompeu seu trabalho nuclear e foi mais ou menos honrado pelos dois lados. Quando George W. Bush tomou posse, a Coréia do Norte tinha talvez uma arma nuclear e verificadamente não produzia mais.

Bush imediatamente lançou seu militarismo agressivo, ameaçando a Coréia do Norte - “machado do mal” e tudo isso - então a Coréia do Norte voltou a trabalhar com seu programa nuclear. Na época que Bush deixou a Casa Branca, tinham de 8 a 10 armas nucleares e um sistema de mísseis, outra grande conquista neoconservadora. No meio, outras coisas aconteceram. Em 2005, os EUA e a Coréia do Norte realmente chegaram a um acordo no qual a Coréia do Norte teria que terminar com todo seu desenvolvimento nuclear e de mísseis. Em troca, o ocidente, mas principalmente os EUA, forneceria um reator de água natural para suas necessidades medicinais e pararia com declarações agressivas. Eles então formariam um pacto de não agressão e caminhariam em direção ao conforto.

Era muito promissor, mas quase imediatamente Bush menosprezou. Retirou a oferta do reator de água natural e iniciou programas para compelir bancos a pararem de manejar qualquer transação Norte Coreana, até mesmo as legais. Os Norte Coreanos reagiram revivendo seu programa de armas nuclear. E esse é o modo que se segue.

É bem sabido. Pode-se ler na cultura americana principal. O que dizem é: é um regime bem louco, mas também segue uma política do olho por olho, dente por dente. Você faz um gesto hostil e responderemos com um gesto louco nosso. Você faz um gesto confortável e responderemos da mesma forma.

Ultimamente, por exemplo, existem exercícios militares Sul Coreanos-Americanos na península Coreana a qual, do ponto de vista do Norte, tem que parecer ameaçador. Pensaríamos que estão nos ameaçando se estivessem indo ao Canadá e mirando em nós. No curso disso, os mais avançados bombardeiros na história, Stealth B-2 e B-52, estão travando ataques de bombardeio nuclear simulados nas fronteiras da Coréia do Norte.

Isso, com certeza, reacende a chama do passado. Eles lembram daquele passado, então estão reagindo de uma forma agressiva e extrema. Bom, o que chega no ocidente derivado disso tudo é o quão loucos e horríveis os líderes Norte Coreanos são. Sim, eles são. Mas essa não é toda a história, e esse é o jeito que o mundo está indo.

Não é que não haja alternativas. As alternativas somente não estão sendo levadas em conta. Isso é perigoso. Então, se me perguntar como o mundo estará no futuro, saiba que não é uma boa imagem. A menos que as pessoas façam algo a respeito. Sempre podemos.

Tradução: Isabela Palhares
Fonte: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Noam-Chomsky-estamos-a-beira-da-total-auto-destruicao-/6/32713

Crise Hídrica: Estudos apontam que falta de água pode tornar o mundo vegetariano - por Alex Avancini


Crise Hídrica: Estudos apontam que falta de água pode tornar o mundo vegetariano
A criação de carne para alimentação torna cada vez maior o problema com a falta d’água. – Foto: One Gorgeous Cow on Wiki Commons

Segundo Malin Falkenmark, conselheiro científico sênior do Stockholm International Water Institute (SIWI), metade da população mundial enfrentará falta de água crônica se os atuais hábitos de consumo alimentar continuarem como estão. O consumo sustentável da água significa apostar em dietas nas quais a maior parte da composição alimentar sejam proteínas provenientes de origem vegetal e não animal, como ocorre atualmente.

Em parte do relatório Food Security: Overcoming Water Scarcity Realities, Falkenmark fala sobre segurança alimentar:

“Não teremos água suficiente à disposição para abastecer as demandas atuais de terras agrícolas para produzir alimentos para a população esperada em 2050 se seguirmos as tendências e mudanças no sentido de dietas comuns em nações ocidentais atuais – 3.000 calorias per capita, incluindo 20% das calorias produzidas provenientes de proteínas de origem animal. Haverá no entanto, água suficiente apenas se a proporção de alimentos com base em origem animal for limitada a 5% do total de calorias”.

Isso significa na prática que, para continuarmos a ter água disponível a disposição no planeta, teremos que readequar nossos hábitos alimentares para dietas mais sustentáveis, com menos proteínas de origem animal em sua composição, pois essas fontes alimentares demandam uma quantidade exorbitante de água para sua produção. Investir em dietas ricas em proteínas de origem vegetal é o melhor caminho para garantir e manter os níveis de água potável no planeta, um exemplo é o vegetarianismo estrito, praticado pelos veganos.

Para a Water Foot Print, uma plataforma para conectar diversas comunidades interessadas em sustentabilidade, equidade e eficiência do uso da água no planeta, estes estudos apontam que o aumento previsto na produção e consumo de produtos de origem animal aumentará a pressão sobre os recursos de água doce do planeta. O tamanho e as características da pegada de água na produção destes “alimentos” variam de acordo com os tipos de animais e sistemas de produção. Para se ter uma ideia:

A pegada hídrica de carne de bovinos de corte é de 15.400 metros cúbicos por tonelada, ou seja, para apenas 1kg de carne bovina são necessários mais de 15.000 litros de água. Para os ovinos são necessários 10.400 litros, suínos 6.000 litros, caprinos 5.500, frangos 4.300 litros, ovo de galinha 3.300 litros para cada 1 kg e o leite de vaca, mil litros.

Cada vez mais cientistas apontam que a adoção de uma dieta vegetariana é a melhor opção para aumentar e manter a quantidade de água disponível para a produção de alimentos e eliminar de vez a possibilidade nos riscos de desabastecimento de água e uma futura possível crise alimentar. A dieta vegetariana consome de cinco a dez vezes menos água que a de proteína animal que demanda um terço das terras aráveis do mundo para o cultivo de colheitas para alimentar os animais. Ou seja, a grande esmagadora maioria de soja que plantamos hoje não é para acabar com a fome de humanos, é para alimentar o gado.

Para a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, será necessário aumentar a produção de alimentos em 70% nos próximos 40 anos para atender à demanda na terra, mas atualmente, não temos condições e nem teremos água disponível para atingir tal meta, pois, os mesmos 15.000 litros de água utilizados para criar apenas 1kg de carne bovina, é a mesma e disputada água utilizada para satisfazer a demanda global de energia, que deverá crescer 60% em três décadas.

O vegetarianismo estrito aliado ao veganismo não é bom apenas para o planeta, mas sim para as pessoas que nele vivem. É bom para a saúde, pois elimina diversas doenças relacionadas ao câncer e o coração, mas o mais importante: É bom para os animais, pois são seres sencientes, escravizados para satisfazer os desejos alimentares dos seres humanos.

Fonte: http://www.anda.jor.br/29/01/2015/estudos-falta-agua-tornar-mundo-vegetariano

Revolta popular contra a tarifa: notas sobre os limites da tática - Por Eugênio Varlino



Revolta popular contra a tarifa: notas sobre os limites da tática

Podemos avançar rumo à radicalização das lutas por meio da articulação pela base de pautas específicas e métodos organizativos de revolta popular para além do modelo de protesto em massa que se reapropria e obstrui as principais ruas da cidade? Por Eugênio Varlino.

Que limite?
Na jornada de luta contra o aumento da tarifa de ônibus de junho de 2013, vigorou uma tática que podemos chamar de “revolta popular” [1]. Esta tinha em seu centro gigantescos atos que bloqueavam as principais vias da cidade, decorando tais ruas e avenidas com cartazes e palavras de ordem. A radicalidade dos protestos muitas vezes residia no próprio trajeto percorrido, uma vez que se operavam reapropriações populares do espaço público, dessacralizando não apenas algumas instituições, que se tornaram alvo privilegiado de depredações etc., como também ruas e avenidas que simbolizam o poder capitalista, tal como a Avenida Paulista. Em 2013 a presença massiva e insistente dos manifestantes nas ruas, o caos urbano subsequente à revolta em face da violenta repressão policial contra os manifestantes, os danos ao patrimônio público e privado e o amplo apoio da chamada opinião pública exerceram pressão suficiente para levar os governantes a anular os aumentos da tarifa em diversas cidades de todo o Brasil. A tática da revolta popular foi portanto vitoriosa e aquele modo de luta se mostrou “suficiente” para garantir a demanda imediata da revogação dos aumentos. [A tentativa de ampliação/diluição da pauta e apropriação dos atos pela direita, na chamada “revolta dos coxinhas”, constitui tema paralelo ao assunto destas notas].
Embora tenha conquistado em 2013 seu objetivo imediato, parte da militância demonstra enxergar que a tática da revolta popular continha desde o início um forte limite se a estratégia das lutas se radicalizasse e a demanda popular passasse a visar a garantia da tarifa zero por meio da autogestão popular do transporte, para não dizer a autogestão da cidade. Planejados pelo restrito grupo do Movimento Passe Livre (MPL), os protestos funcionavam por meio da adesão popular a uma pauta imediata (revogação do aumento) e ampla (tarifa zero), desdobrando-se em atos que negavam o serviço de transporte nos moldes capitalistas, seja bloqueando ruas, pulando catracas ou depredando ônibus etc. Os protestos canalizavam, ainda, o descontentamento e a rebeldia popular frente à barbárie cotidiana a qual somos submetidos, o que ficou comprovado pela expansão da revolta para outros espaços periféricos da cidade, e tendo outras pautas, nem sempre diretamente relacionadas à questão do transporte público, como por exemplo os protestos contra a repressão policial nas favelas “pacificadas” pelas UPPs cariocas. Nesse sentido os protestos apareceram como forma de liberação e desencadeamento de uma rebeldia mais ou menos instintiva contra a ordem de coisas e contra algumas das facetas mais desagradáveis do capitalismo, como por exemplo a expulsão da classe trabalhadora para a periferia das cidades, o que visa manter a especulação imobiliária no centro e tem como consequência que aqueles que ali trabalham se veem forçados a perder até 5 horas de seu dia dentro de meios precários e caros de transporte de casa ao trabalho. Essa liberação da rebeldia já fez de 2013 um ano paradigmático da história brasileira, uma vez que ninguém poderá negar que a classe trabalhadora conquistou naquele ano aquilo pelo qual lutou, e isso num país em que as principais mudanças societárias jamais foram reconhecidas como fruto da luta do povo e sim como concessão dos poderosos.

Há quem defenda que enquanto o automóvel for o meio de transporte mais amplamente usado e as ruas o principal meio de escoamento das mercadorias seus bloqueios continuarão a gerar transtornos político-econômicos suficientes para que a luta obtenha resultados. O limite da tática da revolta popular residiria, então, somente no âmbito da estratégia mais pretensiosa (a consolidação da tarifa zero e a viabilização da autogestão da cidade), enquanto a tática da revolta popular seguiria sendo suficiente para garantir o atendimento da demanda defensiva pela revogação dos aumentos. Por outro lado, existe um outro aspecto do limite da tática, o qual reside, e talvez este seja o nó górdio da questão, no próprio modus operandi da organização da luta e dos protestos, em geral feita por uma vanguarda constitutiva do MPL e coletivos afinados politicamente com ele. É verdade que essa organização contava e ainda conta com o aprimoramento espontâneo das táticas no calor das lutas. Quanto a isso caberia lembrar a formação espontânea, ainda no início daquele junho, de grupos de manifestantes que se colocavam nas extremidades dos atos, assumindo a tarefa de conter a violência policial, preservando a integridade física dos demais. Essas fileiras “militares” eram inicialmente simplesmente reconhecidas como “vândalos”, mas acabaram por se cristalizar, no refluir daquele ascenso de massas, sob a identidade do ”black bloc”, incorporando a referência de uma cultura de resistência que surgira em contextos de outros países. Esta logo tornou-se pauta preferida dos grandes meios de comunicação e dos inquéritos policiais, e entre os adeptos do black bloc a ação passou a ser um fim em si mesma. Esses setores passaram a ser um problema extra a ser manejado pelos movimentos de rua, na medida em que recorrentemente se recusavam a se submter às propostas coletivas nos atos, e também do fato de que o caráter mascarado e “incontrolável” de cada black bloc tornou essa fileira a mais frágil para a infiltração de P2 [policiais infiltrados].

Pontuadas essas questões, cabe questionar se bastaria ao MPL e coletivos amigos repetir um “novo junho” em janeiro de 2015 para vermos atendidas nossas demandas pela redução da tarifa. Será?

Pistas
A nova onda de lutas contra a tarifa iniciou há algumas semanas e já lança luz sobre os limites e possibilidades da tática vitoriosa em 2013. Até aqui tivemos de 3 a 4 atos nas principais cidades do país, os quais demonstraram, acima de tudo, que o que não falta é disposição para a luta. Nos quatro atos que tivemos até aqui em São Paulo o Governo Estadual através da Polícia Militar tentou minar tanto a tática do bloqueio das ruas quanto a dos danos às propriedades, sendo inclusive competente em evitar que os protestos ocorressem na Avenida Paulista. Tal fato indica que ainda existem problemas na tática, mas tais problemas bastam para que atestemos que ela contém em si mesma um limite estrutural, insuperável? Cabe pensar com cuidado essa questão, fundamental para a realização da própria estratégia da tarifa zero sob controle popular.


Pode-se dizer que a forma organizativa mais ou menos “conspiratória” da revolta popular e a estratégia de pressionamento do poder público via ocupação em massa das principais vias da cidade, levando-a a “parar”, constituiu uma tática que chegou ao ápice e se tornou parcialmente anacrônica ainda em 2013. De fato, não obstante os atos sigam empolgando os manifestantes e a população urbana que toma contato direto com os protestos, apoiando-o a partir de suas casas, apartamentos e locais de trabalho no decorrer das passeatas, ao que parece a nova onda de protestos em 2015 surge e se desenvolve num ritmo diferente. O grande número de manifestantes, bem como a forte repressão policial, não mais surpreende e não chega a encher de indignação à população que não participa dos atos e não sente na própria pele a violência gratuita dos policiais, tal como ocorreu em 2013, o que até aqui tem dado certa folga aos governantes e capitalistas do setor de transporte. Se nos atermos à opinião pública em geral e aos resultados atingidos até aqui, poderia parecer que estamos diante de uma progressiva saturação da revolta popular enquanto forma de luta, muito embora contra todas as adversidades essa tática ainda se mostre sedutora ao ponto de levar milhares de pessoas às ruas. Tal é a energia da revolta popular, que não toma ciência dos próprios limites e encara de frente a repressão do Estado.

Se quisermos pensar seriamente os limites e potencialidades da tática da revolta popular precisamos ter em mente que todos os atores envolvidos no novo ciclo de lutas contra a tarifa já se apresentam diante dos protestos a partir de um outro patamar de experiência e, exatamente por terem vivenciado as jornadas de 2013, se colocam desde o início a partir de um outro lugar, munidos de táticas mais ou menos renovadas.

Os governantes, por exemplo, já largam a disputa em várias cidades do país com a carta na manga do “benefício” do passe livre estudantil, visando com isso arrefecer as lutas por meio da não participação dos estudantes contemplados, ao mesmo tempo em que procuram reverter essa concessão (conquistada na luta) em ganhos para sua própria imagem pública.

A polícia, por outro lado, aperfeiçoou sobremaneira suas táticas contra-insurgentes e já não deixa escapar rotas de fuga aos manifestantes, cercando permanentemente todo o ato e antecipando ataques com vistas à dispersão, quando não evitando o próprio ato de ocorrer [2].
A mídia comercial já não gasta tanto tempo de seus noticiários divulgando a luta e denunciando os abusos, e quando noticia os atos demonstra o quanto aprimorou seus métodos próprios de contra-informação e manipulação da opinião pública a favor de seus próprios interesses, que em geral coincidem com os do poder público e dos capitalistas do ramo do transporte.

Já os manifestantes também contam com seu acúmulo de experiência pós-junho de 2013, o que todavia não se mostrou ainda suficiente para contrabalançar a evolução tática dos mecanismos contra-insurgentes de governo, mídia e aparato policial. Uma interessante inovação da parte da extrema-esquerda reside nas Assembleias populares para decisão do trajeto do ato, o que dá menos tempo para as forças policiais armarem suas estratégias repressivas e se posicionarem de antemão ao longo do trajeto a fim de garantir a eficácia de seus estratagemas. Ao mesmo tempo, tais Assembleias permitem aos manifestantes colocar em prática os mecanismos de democracia direta que se pretende pôr em prática quando a tarifa zero for conquistada e a autogestão do transporte público estiver nas mãos dos usuários.

Já da parte da esquerda governista, há a articulação de uma Frente de Esquerda [3] que no âmbito dos protestos contra a tarifa tem repercutido no sentido de uma inovadora tentativa de minar os protestos por fora, via acordos [4] [5] em reuniões arranjadas com os governantes e/ou promoções de atos paralelos aos do MPL, porém com a mesma pauta de revogação do aumento da tarifa. Não por acaso tais atos não recebem o mesmo tratamento repressivo da parte do aparato policial: levados a cabo por organizações menos combativas e mais voltadas para os acordos institucionais entre Estado e movimentos sociais, esses atos vão na mesma mão dos interesses do governo e por isso sua realização agrada aos governantes: basta vermos o caso do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), que fez em São Paulo, dois dias antes do 2º Ato do MPL-SP, um ato que passou por dentro de um terminal de ônibus e se encerrou com a entrega das reivindicações na Secretaria de Transporte, sendo aclamado pela mídia como um ato “de caráter pacífico”, enquanto os atos do MPL são propositalmente reprimidos pela polícia, reforçando o discurso midiático de que o MPL seria intransigente, violento etc., e visando distribuir o medo entre os manifestantes, na tentativa de diminuição do contingente nestas manifestações.[6] [7] E temos também uma decidida tentativa de disputa, da parte da esquerda governista, da hegemonia dentro dos próprios atos do MPL. As ofensivas vêm de toda parte, é preciso estar atento para antecipar os movimentos dos adversários da tarifa zero.

Esse novo cenário não foi suficiente para impedir que novos atos organizados pelo MPL ocorressem e sigam ocorrendo, com massiva presença de dezenas de milhares de manifestantes descontentes com o aumento da tarifa. O que mudou é que até o momento esses gigantescos atos parecem exercer uma pressão muito menor sobre o poder público, no sentido deste se ver impelido a atender às reivindicações, se compararmos à pressão que atos até mesmo de igual magnitude exerceram há cerca de um ano e meio. Será que a persistência da luta e sua ampliação, mesmo que chegue outra vez a levar milhões de pessoas às ruas, bastará para reverter esse quadro e incomodar o poder público e os capitalistas do transporte o suficiente para que vejamos atendida a demanda pela revogação do aumento? Nesse caso a tática da revolta popular mostraria que ainda tem o que render enquanto forma de luta contra a tarifa. Mas e se o fôlego deles for maior que o ânimo da rebeldia popular, que faremos além de seguir ocupando e nos reapropriando das ruas e principais vias da cidade? Quem terá mais fôlego, os estratagemas contra-insurgentes ou a rebeldia popular?
Rotas de fuga do limite
O desenvolvimento dos aparatos e táticas repressivas, bem como o aperfeiçoamento das técnicas midiáticas de contra-informação e todo o conjunto de dificuldades que os protestos de rua apresentaram e seguem apresentando levaram o MPL a prever esse cenário crítico e chegar à conclusão de que um novo junho talvez não bastaria para se ver atendida a demanda pela anulação do aumento, e muito menos a tarifa zero. Era preciso, portanto, antecipar o limite da tática oxigenando-a, se o movimento quisesse obter novas vitórias rumo ao passe livre.

Por esse motivo o MPL vem promovendo e incentivando, paralelamente aos tradicionais atos de rua no centro, atos diferenciados nas periferias das grandes cidades, e recentemente tem se esforçado, com sucesso, para realizar os próprios Atos na periferia da capital paulista.[8] O intuito é potencializar a amplitude política e geográfica dos protestos, descentralizando-os, o que pode dificultar sua repressão policial e reforçar a pressão sobre o poder público. Ao mesmo tempo esse movimento de abertura do leque político traz consigo a potencialidade de radicalização das revoltas populares nos bairros e locais de trabalho, extrapolando em muito o controle e capacidade organizativa do próprio MPL. Essa iniciativa vem sendo seguida de perto pelas organizações afinadas com os governos estadual e municipal. O MTST, por exemplo, passou a reproduzir a tática de realização dos atos contra o aumento da tarifa na periferia, sem somar com os atos convocados pelo MPL, mas tentando adiantar-se a eles.[9] Ao mesmo tempo, tais atos visam manter a posição do MTST enquanto movimento que é capaz de mobilizar a classe e, portanto, um movimento com o qual os governos precisam seguir negociando.

Ao oferecer espaços de mobilização e de organização da classe, o MPL e outras organizações buscam superar um dos supostos limites das revoltas de 2013: a falta de espaços organizativos capazes de garantir o maior envolvimento da classe trabalhadora como um todo (desempregados, trabalhadores informais e assalariados de carteira assinada), não apenas nos protestos de rua, mas em articulação com as lutas específicas nos locais de trabalho e moradia. O foco, naturalmente, reside nos trabalhadores urbanos, mas o movimento feito certamente tem a potencialidade de atingir o entorno da cidade, especialmente as zonas que também sofrem os percalços de um transporte público caro e de péssima qualidade, ou até mesmo bairros que ainda não dispõem de linhas de transporte público.

Além disso, ao trabalhar no surgimento e desenvolvimento de espaços de organização de classe o movimento social abre uma via de escape para a fração da classe trabalhadora que está organizada em siglas assimiladas pelo petismo (por exemplo, em ordem cronológica, CUT, MST e MTST).
Em 2013 algumas cidades, especialmente São Paulo e Rio de Janeiro, foram palco de revoltas explosivas e espontâneas em diversos pontos da cidade, simultaneamente. Foi um belo começo de generalização da revolta popular, mas os trabalhadores não conseguiram manter e estender maciçamente essa revolta popular nas periferias e locais de trabalho, criando assim as condições para uma radicalização das lutas que chegasse a tomar a forma de uma greve geral constitutiva de órgãos de poder popular, o que certamente levaria à contestação de bem mais que os 20 ou 50 centavos da tarifa. Se a classe trabalhadora lograsse essa auto-superação de suas formas de luta tradicional em prol das lutas de base, mais ou menos espontâneas, que surgiram junto e na sequência da onda de protestos do segundo semestre de 2013 (greves selvagens contrárias à posição conciliadora dos sindicatos, tal como no caso da greve dos garis e motoristas/cobradores cariocas, ou ainda ocupações espontâneas de terrenos nos extremos sul e leste de São Paulo), exercendo um tipo de pressão radical por sobre a base dos próprios aparatos de luta historicamente assimilados, teríamos talvez as condições para desdobramentos insurrecionais que justificariam a histeria de alguns sobre a “pré-revolução brasileira” e coisas do gênero. Mas o fato é que estivemos e seguimos ainda muito longe desse patamar de ofensiva anticapitalista.

Podemos avançar rumo à radicalização das lutas por meio da articulação pela base de pautas específicas e métodos organizativos de revolta popular para além do modelo de protesto em massa que se reapropria e obstrui as principais ruas da cidade? Se conseguirmos, a revolta popular demonstraria que contém em si mesma a semente da organização de órgãos de controle popular da produção e reprodução da vida social, e então a tarifa zero será apenas o começo de uma onda de conquistas substantivas para a classe trabalhadora.

Notas

[1] Revolta popular: o limite da tática. Caio Martins e Leonardo Cordeiro.










Fonte: http://passapalavra.info/2015/01/102196