quinta-feira, 23 de abril de 2020
quarta-feira, 22 de abril de 2020
Por que mataram Patrice Lumumba?
Por que mataram Patrice Lumumba?
Uma entrevista com Georges Nzongola-Ntalaja
Patrice Lumumba foi um dos principais líderes do movimento de independência do Congo contra o colonialismo belga e os interesses empresariais. Por isso foi assassinado em uma ação apoiada pelos EUA.
Nascido em 1925, Patrice Émery Lumumba foi um líder anticolonial que, aos 35 anos, se tornou o primeiro primeiro ministro do recém-independente Congo. Sete meses após o seu mandato, foi assassinado, em 17 de janeiro de 1961.
Lumumba tornou-se opositor ao racismo belga depois de ser preso em 1957 por acusações falsas pelas autoridades coloniais. Após 12 meses de prisão, conseguiu um emprego como vendedor de cerveja, durante o qual desenvolveu suas habilidades de oratória e ficou cada vez mais convencido de que a vasta riqueza mineral do Congo deveria beneficiar o povo e não os interesses empresariais estrangeiros.
Os horizontes políticos de Lumumba se estendiam muito além do Congo. Logo foi influenciado pela onda mais ampla de nacionalismo africano que varria o continente. Em dezembro de 1958, o presidente de Gana, Kwame Nkrumah, o convidou para participar da Conferência Anti-colonial do Povo Africano, que atraiu associações cívicas, sindicatos e outras organizações populares.
Dois anos depois, seguindo as demandas de eleições democráticas, o Movimento Nacional Congolês, liderado por Lumumba, venceu a primeira disputa parlamentar no Congo recém independente. O líder nacionalista de esquerda assumiu o cargo em junho de 1960.
Mas as propostas progressistas de Lumumba e sua oposição ao movimento separatista de Katanga (liderado pelos estados coloniais governados por brancos no sul da África e proclamou sua independência do Congo em 11 de julho de 1960) irritaram uma série de interesses estrangeiros e locais: o estado colonial belga, empresas que extraem os recursos minerais do Congo e, é claro, os líderes dos estados do sul da África governados por brancos. À medida que as tensões aumentavam, a ONU rejeitou o pedido de apoio feito por Lumumba. Ele pediu então ajuda militar soviética para conter a crescente crise provocada pelos separatistas belgas. Foi a gota d’água.
Lumumba foi preso, torturado e executado em um golpe apoiado pelas autoridades belgas, pelos Estados Unidos e pelas ONU. Com o assassinato de Lumumba, morreu parte do sonho de um Congo unido, democrático, etnicamente pluralista e pan-africanista.
O assassinato de Lumumba e sua substituição pelo ditador Mobutu, apoiado pelos EUA, lançou as bases para as décadas de conflitos internos, ditadura e declínio econômico que marcaram o Congo pós-colonial. A desestabilização social sob o governo brutal de Mobutu – que durou de 1965 a 1997 – culminou em uma série de conflitos devastadores, conhecidos como a primeira e a segunda guerra do Congo (ou “guerras mundiais da África”). Esses conflitos não apenas fragmentaram a sociedade congolesa, mas também envolveram quase todos os vizinhos do país – nove nações africanas, e cerca de vinte e cinco grupos armados. No final formal do conflito, por volta de 2003, quase 5,4 milhões de pessoas haviam morrido devido aos combates e suas consequências, tornando a guerra o segundo conflito mais mortal do mundo desde a Segunda Guerra Mundial.
Particularmente à luz da trajetória turbulenta do Congo após seu assassinato, Lumumba continua sendo uma fonte de debate e inspiração entre movimentos e pensadores radicais em toda a África. O colaborador da Jacobin, Sa’eed Husaini, falou recentemente com Georges Nzongola-Ntalaja, um importante intelectual congolês e autor de uma biografia de Lumumba, que trata da vida, morte e da política do líder nacionalista radical.
SH: Provavelmente o evento mais conhecido da vida de Lumumba continua sendo seu fim trágico. Embora tenha havido pelo menos algum reconhecimento simbólico do papel da Bélgica no assassinato de Lumumba, esse acerto de contas não ocorreu sem os Estados Unidos. Na sua perspectiva, como seria uma restituição completa pelo assassinato de Lumumba?
GNN: Não pode haver restituição total do assassinato de Lumumba. Nenhuma quantia em dinheiro ou outra forma de compensação faria justiça aos danos sofridos pelo Congo ao perder um líder de grande visão, de 35 anos, que poderia ter ajudado a construir um grande país. Nenhuma quantia de dinheiro faria justiça a seus filhos depois de crescer sem um pai e apoio para guiá-lo na infância, adolescência e idade adulta. E o mesmo vale para sua esposa e outros parentes, cuja perda não pode ser mitigada por aquisições materiais.
O que é preciso é que todos os cúmplices no assassinato de Lumumba, antes de tudo, reconheçam o crime que cometeram contra ele, sua família, o Congo e a África; um pedido de desculpas pelo dano causado a esse respeito; e um esforço para honrar o primeiro líder democraticamente eleito do Congo, promovendo seu legado por meio de escolas, educação pública e eventos culturais em todos os países cujos líderes participaram do desaparecimento, começando pelo próprio Congo.
Apesar de ter crescido em sua terra natal etno-cultural, Lumumba ficou conhecido por sua visão de mundo ardentemente multiétnica e pan-africana. Houve aspectos de sua educação inicial, em Sankuru, que predispuseram Lumumba a valorizar a unidade congolesa e a diversidade étnica?
Embora a região de Sankuru, na RDC (República Democrática do Congo) seja mais conhecida como o lar do povo Tetela, ao qual pertence Lumumba, ela é habitada por pessoas de outros grupos étnicos que acabaram lá por causa do atividades dos comerciantes de escravos árabe-suaíli ou dos colonialistas belgas. Esses grupos incluem os Kusu de Maniema, os Luba, os Songye e outros da região de Kasai, bem como o Mongo.
Além de crescer em um ambiente multiétnico, os anos de formação de Lumumba como funcionário público de classe média ocorreram entre 1944 e 1956 em Kisangani (então Stanleyville), uma das principais cidades do Congo e uma área de diversidade étnica.
Você escreve que, como funcionário postal no serviço colonial belga, Lumumba ficou inicialmente apaixonado pela possibilidade de “matricular” ou abandonar seu status de congolês “nativo” em favor do status de europeu honorário. Em que ponto Lumumba abandonou essa esperança de alcançar o status de elite na sociedade colonial em favor de uma oposição radical ao projeto colonial belga?
Lumumba adquiriu o cartão de mérito cívico e o status de matrícula em Kisangani, mas essas conquistas da mobilidade superior na situação colonial eram uma farsa porque o racismo continuou a elevar a cabeça feia através da barra de cor/salário.
Embora tenha tido um emprego normalmente reservado aos europeus, como gerente do serviço de ordens de pagamento, o salário de Lumumba foi determinado por sua raça, não por suas funções. Ele ganhava o equivalente a 100 dólares em 1956, algo que valia algo como um décimo quinto do salário de um funcionário europeu fazendo o mesmo trabalho. Seus colegas europeus também recebiam moradia grátis, um carro, e férias de seis meses a cada três anos, totalmente pagas, na Bélgica.
Essas e outras realidades da situação colonial o fizeram abandonar sua esperança ingênua de ver brancos e negros trabalhando de mãos dadas para elevar as “massas ignorantes” em uma comunidade belgo-congolesa, e o empurraram na direção do nacionalismo africano e congolês.
Como os nacionalistas congoleses encaram a violência como meio de alcançar a independência política, e como Lumumba se posicionou nessa questão?
Em geral, os líderes nacionalistas congoleses acreditavam fortemente na não-violência e Lumumba não foi exceção. É por isso que todos ficaram chocados com o levante em massa pela independência em 4 de janeiro de 1959 [que eclodiu em Leopoldville, atual Kinshasa, depois que membros de um partido anticolonial foram impedidos de se reunir. Celebrado hoje como o Dia dos Mártires, foi o primeiro grande surto de violência no movimento de independência e marcou um ponto de virada para a luta anticolonial].
Mais tarde, esses líderes entenderam que a violência em massa era uma moeda de troca em seus confrontos com os senhores coloniais, pois estes consideravam difícil manter a lei e a ordem no vasto Congo, uma vez que as massas rejeitavam a autoridade colonial e não estavam dispostas a obedecer à ordem administrativa colonial.
Qual o papel das empresas de mineração estrangeiras no incentivo à província de Katanga para se separar do Congo e como isso contribuiu para a origem da crise no Congo?
Com seu império mineral indo de Katanga ao Cabo, as empresas de mineração estrangeiras não gostavam da ideia de ter um governo nacionalista radical no Congo – que provavelmente reduziria suas margens de lucro com impostos e royalties mais altos, a fim de melhorar a subsistência de congoleses comuns. É por isso que essas empresas, que rejeitaram os esforços dos colonos brancos para obter um pedaço da torta como suas contrapartes na África do Sul, Rodésia (Zimbábue) e Sudoeste da África (Namíbia), formaram uma aliança com os racistas, colonos brancos e lobbies de direita nos EUA e no Reino Unido.
Essa aliança não apenas endossou o sonho de longo prazo dos colonos brancos de obter poder político em Katanga, mas também forneceu os fundos necessários para sustentar o impulso separatista em Katanga, com a ajuda da Bélgica, Grã-Bretanha e França.
Pode-se dizer que as origens da crise do Congo estão em uma aliança entre colonos e empresas belgas, e com os interesses empresariais e estatais dos estados governados por brancos no sul da África. Você descreve essa aliança como uma “contra-revolução contra a libertação nacional”, uma vez que foi formada para se opor ao nacionalismo radical. Você poderia dizer mais sobre essa aliança?
A Crise do Congo não pode ser entendida sem referência à secessão Katanga, de engenharia belga, em colaboração com empresas de mineração estrangeiras, que recrutaram mercenários brancos para se juntar às tropas belgas. A recusa da ONU em usar a força para expulsar tropas belgas e os mercenários levou à disputa entre o primeiro-ministro Lumumba e o secretário-geral da ONU Dag Hammarskjöld, que compartilhavam a mesma visão de mundo que as principais potências ocidentais e eram muito hostis a Lumumba.
Então, por que essa combinação de atores estrangeiros e locais anteriormente concorrentes acabou por concordar que o assassinato de Lumumba era necessário?
Ele foi o obstáculo mais importante ao esquema deles de estabelecer o neocolonialismo no Congo, quando começaram em 11 de julho de 1960 em Katanga.
Lumumba fez muitos discursos memoráveis e também escreveu muitas cartas emocionantes. Em 1960, ele escreveu da prisão para a esposa: “Chegará o dia em que a história falará. Mas não será a história ensinada em Bruxelas, Paris, Washington ou nas Nações Unidas. Será a história ensinada nos países que conquistaram a liberdade do colonialismo e de seus fantoches. A África escreverá sua própria história e, no norte e no sul, será uma história de glória e dignidade.” Lumumba também conseguiu articular uma visão específica de como ele pretendia transformar o estado e a sociedade congolesa durante o breve período em que ele serviu como primeiro ministro?
Temos um vislumbre de sua visão do Congo pós-colonial em vários de seus principais discursos e cartas. Embora preocupado com a unidade, independência e soberania do Congo, devido à situação contra-revolucionária que o país enfrenta de 10 a 11 de julho de 1960 (a invasão militar belga e o separatismo de Katanga), sua principal preocupação era como transformar as estruturas herdadas do estado e da economia, a fim de melhorar a qualidade de vida dos congoleses comuns.
Como Amílcar Cabral, Thomas Sankara e Steve Biko, o martírio de Lumumba o transformou em uma poderosa força simbólica que continua a inspirar movimentos radicais em toda a África. No seu prefácio, você descreve brevemente a inspiração e a repentina decepção que sentiu na época como estudante do ensino médio (que foi expulso por atividades anticoloniais) testemunhando a ascensão meteórica de Lumumba e o trágico assassinato. Como africanos, nós realmente vivemos o trauma histórico ao testemunhar o assassinato de alguns dos líderes mais promissores do continente?
Como todos os líderes assassinados que você mencionou foram vítimas de potências mundiais e/ou seus aliados na África, como Portugal fascista e o apartheid na África do Sul, não vejo por que as potências mundiais responsáveis por eliminar os líderes africanos que não aceitam deveriam estar preocupadas com o impacto desses assassinatos na África.
Cabe a nós, africanos, garantir que sigamos os ensinamentos de Amílcar Cabral sobre conhecer nossas próprias fraquezas e encontrar maneiras de superá-las, e os de Kwame Nkrumah sobre segurança continental coletiva por meio de um alto comando militar africano. Precisamos de nosso próprio equivalente à OTAN para garantir a segurança de nosso povo e de nossos líderes progressistas ameaçados.
Sobre os autores
Georges Nzongola-Ntalaja é professor de estudos africanos, afro-americanos e da diáspora na Universidade da Carolina do Norte e autor de muitos livros, incluindo “O Congo de Leopold a Kabila: História do Povo e Patrice Lumumba”.
Sa'eed Husaini é ativista socialista e estudante de desenvolvimento internacional na Universidade de Oxford.
Tradução: José Carlos Ruy
Fonte: https://jacobin.com.br/2020/04/por-que-mataram-patrice-lumumba/
Patrice Lumumba, líder congolês, em Bruxelas, Bélgica, em
janeiro de 1960. Wikimedia Commons
Uma entrevista com Georges Nzongola-Ntalaja
Patrice Lumumba foi um dos principais líderes do movimento de independência do Congo contra o colonialismo belga e os interesses empresariais. Por isso foi assassinado em uma ação apoiada pelos EUA.
Nascido em 1925, Patrice Émery Lumumba foi um líder anticolonial que, aos 35 anos, se tornou o primeiro primeiro ministro do recém-independente Congo. Sete meses após o seu mandato, foi assassinado, em 17 de janeiro de 1961.
Lumumba tornou-se opositor ao racismo belga depois de ser preso em 1957 por acusações falsas pelas autoridades coloniais. Após 12 meses de prisão, conseguiu um emprego como vendedor de cerveja, durante o qual desenvolveu suas habilidades de oratória e ficou cada vez mais convencido de que a vasta riqueza mineral do Congo deveria beneficiar o povo e não os interesses empresariais estrangeiros.
Os horizontes políticos de Lumumba se estendiam muito além do Congo. Logo foi influenciado pela onda mais ampla de nacionalismo africano que varria o continente. Em dezembro de 1958, o presidente de Gana, Kwame Nkrumah, o convidou para participar da Conferência Anti-colonial do Povo Africano, que atraiu associações cívicas, sindicatos e outras organizações populares.
Dois anos depois, seguindo as demandas de eleições democráticas, o Movimento Nacional Congolês, liderado por Lumumba, venceu a primeira disputa parlamentar no Congo recém independente. O líder nacionalista de esquerda assumiu o cargo em junho de 1960.
Mas as propostas progressistas de Lumumba e sua oposição ao movimento separatista de Katanga (liderado pelos estados coloniais governados por brancos no sul da África e proclamou sua independência do Congo em 11 de julho de 1960) irritaram uma série de interesses estrangeiros e locais: o estado colonial belga, empresas que extraem os recursos minerais do Congo e, é claro, os líderes dos estados do sul da África governados por brancos. À medida que as tensões aumentavam, a ONU rejeitou o pedido de apoio feito por Lumumba. Ele pediu então ajuda militar soviética para conter a crescente crise provocada pelos separatistas belgas. Foi a gota d’água.
Lumumba foi preso, torturado e executado em um golpe apoiado pelas autoridades belgas, pelos Estados Unidos e pelas ONU. Com o assassinato de Lumumba, morreu parte do sonho de um Congo unido, democrático, etnicamente pluralista e pan-africanista.
O assassinato de Lumumba e sua substituição pelo ditador Mobutu, apoiado pelos EUA, lançou as bases para as décadas de conflitos internos, ditadura e declínio econômico que marcaram o Congo pós-colonial. A desestabilização social sob o governo brutal de Mobutu – que durou de 1965 a 1997 – culminou em uma série de conflitos devastadores, conhecidos como a primeira e a segunda guerra do Congo (ou “guerras mundiais da África”). Esses conflitos não apenas fragmentaram a sociedade congolesa, mas também envolveram quase todos os vizinhos do país – nove nações africanas, e cerca de vinte e cinco grupos armados. No final formal do conflito, por volta de 2003, quase 5,4 milhões de pessoas haviam morrido devido aos combates e suas consequências, tornando a guerra o segundo conflito mais mortal do mundo desde a Segunda Guerra Mundial.
Particularmente à luz da trajetória turbulenta do Congo após seu assassinato, Lumumba continua sendo uma fonte de debate e inspiração entre movimentos e pensadores radicais em toda a África. O colaborador da Jacobin, Sa’eed Husaini, falou recentemente com Georges Nzongola-Ntalaja, um importante intelectual congolês e autor de uma biografia de Lumumba, que trata da vida, morte e da política do líder nacionalista radical.
SH: Provavelmente o evento mais conhecido da vida de Lumumba continua sendo seu fim trágico. Embora tenha havido pelo menos algum reconhecimento simbólico do papel da Bélgica no assassinato de Lumumba, esse acerto de contas não ocorreu sem os Estados Unidos. Na sua perspectiva, como seria uma restituição completa pelo assassinato de Lumumba?
GNN: Não pode haver restituição total do assassinato de Lumumba. Nenhuma quantia em dinheiro ou outra forma de compensação faria justiça aos danos sofridos pelo Congo ao perder um líder de grande visão, de 35 anos, que poderia ter ajudado a construir um grande país. Nenhuma quantia de dinheiro faria justiça a seus filhos depois de crescer sem um pai e apoio para guiá-lo na infância, adolescência e idade adulta. E o mesmo vale para sua esposa e outros parentes, cuja perda não pode ser mitigada por aquisições materiais.
O que é preciso é que todos os cúmplices no assassinato de Lumumba, antes de tudo, reconheçam o crime que cometeram contra ele, sua família, o Congo e a África; um pedido de desculpas pelo dano causado a esse respeito; e um esforço para honrar o primeiro líder democraticamente eleito do Congo, promovendo seu legado por meio de escolas, educação pública e eventos culturais em todos os países cujos líderes participaram do desaparecimento, começando pelo próprio Congo.
Apesar de ter crescido em sua terra natal etno-cultural, Lumumba ficou conhecido por sua visão de mundo ardentemente multiétnica e pan-africana. Houve aspectos de sua educação inicial, em Sankuru, que predispuseram Lumumba a valorizar a unidade congolesa e a diversidade étnica?
Embora a região de Sankuru, na RDC (República Democrática do Congo) seja mais conhecida como o lar do povo Tetela, ao qual pertence Lumumba, ela é habitada por pessoas de outros grupos étnicos que acabaram lá por causa do atividades dos comerciantes de escravos árabe-suaíli ou dos colonialistas belgas. Esses grupos incluem os Kusu de Maniema, os Luba, os Songye e outros da região de Kasai, bem como o Mongo.
Além de crescer em um ambiente multiétnico, os anos de formação de Lumumba como funcionário público de classe média ocorreram entre 1944 e 1956 em Kisangani (então Stanleyville), uma das principais cidades do Congo e uma área de diversidade étnica.
Você escreve que, como funcionário postal no serviço colonial belga, Lumumba ficou inicialmente apaixonado pela possibilidade de “matricular” ou abandonar seu status de congolês “nativo” em favor do status de europeu honorário. Em que ponto Lumumba abandonou essa esperança de alcançar o status de elite na sociedade colonial em favor de uma oposição radical ao projeto colonial belga?
Lumumba adquiriu o cartão de mérito cívico e o status de matrícula em Kisangani, mas essas conquistas da mobilidade superior na situação colonial eram uma farsa porque o racismo continuou a elevar a cabeça feia através da barra de cor/salário.
Embora tenha tido um emprego normalmente reservado aos europeus, como gerente do serviço de ordens de pagamento, o salário de Lumumba foi determinado por sua raça, não por suas funções. Ele ganhava o equivalente a 100 dólares em 1956, algo que valia algo como um décimo quinto do salário de um funcionário europeu fazendo o mesmo trabalho. Seus colegas europeus também recebiam moradia grátis, um carro, e férias de seis meses a cada três anos, totalmente pagas, na Bélgica.
Essas e outras realidades da situação colonial o fizeram abandonar sua esperança ingênua de ver brancos e negros trabalhando de mãos dadas para elevar as “massas ignorantes” em uma comunidade belgo-congolesa, e o empurraram na direção do nacionalismo africano e congolês.
Como os nacionalistas congoleses encaram a violência como meio de alcançar a independência política, e como Lumumba se posicionou nessa questão?
Em geral, os líderes nacionalistas congoleses acreditavam fortemente na não-violência e Lumumba não foi exceção. É por isso que todos ficaram chocados com o levante em massa pela independência em 4 de janeiro de 1959 [que eclodiu em Leopoldville, atual Kinshasa, depois que membros de um partido anticolonial foram impedidos de se reunir. Celebrado hoje como o Dia dos Mártires, foi o primeiro grande surto de violência no movimento de independência e marcou um ponto de virada para a luta anticolonial].
Mais tarde, esses líderes entenderam que a violência em massa era uma moeda de troca em seus confrontos com os senhores coloniais, pois estes consideravam difícil manter a lei e a ordem no vasto Congo, uma vez que as massas rejeitavam a autoridade colonial e não estavam dispostas a obedecer à ordem administrativa colonial.
Qual o papel das empresas de mineração estrangeiras no incentivo à província de Katanga para se separar do Congo e como isso contribuiu para a origem da crise no Congo?
Com seu império mineral indo de Katanga ao Cabo, as empresas de mineração estrangeiras não gostavam da ideia de ter um governo nacionalista radical no Congo – que provavelmente reduziria suas margens de lucro com impostos e royalties mais altos, a fim de melhorar a subsistência de congoleses comuns. É por isso que essas empresas, que rejeitaram os esforços dos colonos brancos para obter um pedaço da torta como suas contrapartes na África do Sul, Rodésia (Zimbábue) e Sudoeste da África (Namíbia), formaram uma aliança com os racistas, colonos brancos e lobbies de direita nos EUA e no Reino Unido.
Essa aliança não apenas endossou o sonho de longo prazo dos colonos brancos de obter poder político em Katanga, mas também forneceu os fundos necessários para sustentar o impulso separatista em Katanga, com a ajuda da Bélgica, Grã-Bretanha e França.
Pode-se dizer que as origens da crise do Congo estão em uma aliança entre colonos e empresas belgas, e com os interesses empresariais e estatais dos estados governados por brancos no sul da África. Você descreve essa aliança como uma “contra-revolução contra a libertação nacional”, uma vez que foi formada para se opor ao nacionalismo radical. Você poderia dizer mais sobre essa aliança?
A Crise do Congo não pode ser entendida sem referência à secessão Katanga, de engenharia belga, em colaboração com empresas de mineração estrangeiras, que recrutaram mercenários brancos para se juntar às tropas belgas. A recusa da ONU em usar a força para expulsar tropas belgas e os mercenários levou à disputa entre o primeiro-ministro Lumumba e o secretário-geral da ONU Dag Hammarskjöld, que compartilhavam a mesma visão de mundo que as principais potências ocidentais e eram muito hostis a Lumumba.
Então, por que essa combinação de atores estrangeiros e locais anteriormente concorrentes acabou por concordar que o assassinato de Lumumba era necessário?
Ele foi o obstáculo mais importante ao esquema deles de estabelecer o neocolonialismo no Congo, quando começaram em 11 de julho de 1960 em Katanga.
Lumumba fez muitos discursos memoráveis e também escreveu muitas cartas emocionantes. Em 1960, ele escreveu da prisão para a esposa: “Chegará o dia em que a história falará. Mas não será a história ensinada em Bruxelas, Paris, Washington ou nas Nações Unidas. Será a história ensinada nos países que conquistaram a liberdade do colonialismo e de seus fantoches. A África escreverá sua própria história e, no norte e no sul, será uma história de glória e dignidade.” Lumumba também conseguiu articular uma visão específica de como ele pretendia transformar o estado e a sociedade congolesa durante o breve período em que ele serviu como primeiro ministro?
Temos um vislumbre de sua visão do Congo pós-colonial em vários de seus principais discursos e cartas. Embora preocupado com a unidade, independência e soberania do Congo, devido à situação contra-revolucionária que o país enfrenta de 10 a 11 de julho de 1960 (a invasão militar belga e o separatismo de Katanga), sua principal preocupação era como transformar as estruturas herdadas do estado e da economia, a fim de melhorar a qualidade de vida dos congoleses comuns.
Como Amílcar Cabral, Thomas Sankara e Steve Biko, o martírio de Lumumba o transformou em uma poderosa força simbólica que continua a inspirar movimentos radicais em toda a África. No seu prefácio, você descreve brevemente a inspiração e a repentina decepção que sentiu na época como estudante do ensino médio (que foi expulso por atividades anticoloniais) testemunhando a ascensão meteórica de Lumumba e o trágico assassinato. Como africanos, nós realmente vivemos o trauma histórico ao testemunhar o assassinato de alguns dos líderes mais promissores do continente?
Como todos os líderes assassinados que você mencionou foram vítimas de potências mundiais e/ou seus aliados na África, como Portugal fascista e o apartheid na África do Sul, não vejo por que as potências mundiais responsáveis por eliminar os líderes africanos que não aceitam deveriam estar preocupadas com o impacto desses assassinatos na África.
Cabe a nós, africanos, garantir que sigamos os ensinamentos de Amílcar Cabral sobre conhecer nossas próprias fraquezas e encontrar maneiras de superá-las, e os de Kwame Nkrumah sobre segurança continental coletiva por meio de um alto comando militar africano. Precisamos de nosso próprio equivalente à OTAN para garantir a segurança de nosso povo e de nossos líderes progressistas ameaçados.
Sobre os autores
Georges Nzongola-Ntalaja é professor de estudos africanos, afro-americanos e da diáspora na Universidade da Carolina do Norte e autor de muitos livros, incluindo “O Congo de Leopold a Kabila: História do Povo e Patrice Lumumba”.
Sa'eed Husaini é ativista socialista e estudante de desenvolvimento internacional na Universidade de Oxford.
Tradução: José Carlos Ruy
Fonte: https://jacobin.com.br/2020/04/por-que-mataram-patrice-lumumba/
quinta-feira, 16 de abril de 2020
Censura velada - por Noam Chomsky
Censura velada
Os comentadores de política evitam tratar dos assuntos relevantes seguindo o princípio jornalístico de que "objetividade" significa reportar o que os poderosos fazem e falam, não o que ignoram. O princípio vale até mesmo se o destino da espécie está em risco
Mark Twain famosamente disse que “é pela bondade de Deus que em nosso país nós temos aquelas três coisas indescritivelmente preciosas: liberdade de expressão, liberdade de pensamento e a prudência de nunca praticar nenhuma das duas”[ i].
Em sua introdução não publicada de A revolução dos bichos[ii], dedicada à “censura literária” na Inglaterra livre, George Orwell adicionou a razão para essa prudência: existe, ele escreveu, um “acordo tácito geral de que ‘não daria’ para mencionar esse fato particular”. O acordo tácito impõe uma “censura velada” baseada em “uma ortodoxia, um corpo de ideias que se assume que todas pessoas de bom senso aceitarão sem questionar”, e “qualquer um que desafia a ortodoxia prevalente se encontra silenciado com efetividade surpreendente” mesmo sem “qualquer proibição oficial”[iii].
Nós testemunhamos o exercício dessa prudência constantemente em sociedades livres. Tome a invasão do Iraque pelos Estados Unidos/Reino Unido, um caso exemplar de agressão sem pretexto confiável, o “crime internacional supremo” definido pelo julgamento de Nuremberg. É legítimo dizer que foi uma “guerra burra”, um “erro estratégico”, até mesmo “o maior erro estratégico na história recente da política externa dos Estados Unidos”[iv] nas palavras do presidente Barack Obama, altamente elogiado pela opinião liberal. Mas “não daria” para falar o que ela foi, o crime do século, embora não haveria tal hesitação se algum inimigo oficial tivesse cometido até mesmo um crime muito menor.
A ortodoxia prevalente não acomoda facilmente alguém como o general/presidente Ulysses S. Grant, que achava que nunca houve “uma guerra mais perversa que a promovida pelos Estados Unidos no México”, tomando o que é hoje o sudeste dos EUA e a Califórnia, e que expressou sua vergonha pela falta de “coragem moral para renunciar” em vez de participar do crime.[v]
Subordinação à ortodoxia prevalente tem consequências. A não-tão-tácita mensagem é que nós deveríamos somente lutar guerras espertas que não são erros, guerras que atingem seus objetivos, por definição justos e corretos de acordo com a ortodoxia prevalente mesmo se eles são na realidade “guerras perversas”, os maiores crimes. Os exemplos são muito numerosos para se mencionar. Em alguns casos, como o crime do século, a prática é quase sem exceção em círculos respeitáveis.
Outro aspecto familiar da subordinação à ortodoxia prevalente é a apropriação casual da demonização ortodoxa de inimigos oficiais. Para pegar um exemplo quase aleatório, da edição do The New York Times que por acaso está na minha frente agora, um jornalista de economia altamente competente nos adverte do populismo do demônio oficial Hugo Chávez, que, uma vez eleito no final dos anos 1990, “passou a enfrentar qualquer instituição democrática que estava em seu caminho”[vi].
Voltando ao mundo real, foi o governo dos Estados Unidos, com o apoio entusiasmado do The New York Times, que (no mínimo) apoiou o golpe militar que derrubou o governo de Chávez, brevemente, antes de ser revertido por uma revolta popular. Quanto a Chávez, seja o que se pense dele, ele ganhou repetidas eleições certificadas como livres e justas por observadores internacionais, incluindo a Carter Foundation, cujo fundador, o ex-presidente Jimmy Carter, disse que “das 92 eleições que monitoramos, eu diria que o processo eleitoral na Venezuela é o melhor do mundo”[vii]. E a Venezuela sob Chávez regularmente atingia posições bem altas em pesquisas de opinião internacionais sobre apoio popular ao governo e à democracia (Latinobarómetro sediado no Chile).
Houve sem dúvidas várias deficiências democráticas durante os anos de Hugo Chávez, como as repressões à RCTV, que provocaram enormes reprovações. Eu me juntei às reprovações, concordando que tais repressões não poderiam ocorrer na nossa sociedade livre. Se um canal de TV proeminente nos Estados Unidos tivesse apoiado um golpe militar como a RCTV o fez, ele não sofreria repressões alguns anos depois, porque ele não existiria: os executivos estariam na cadeia, se ainda estivessem vivos.
Mas a ortodoxia facilmente supera meros fatos.
Falha em providenciar informação pertinente também tem consequências. Talvez os cidadãos dos Estados Unidos devessem saber que pesquisas de opinião popular executadas pela principal agência de pesquisa dos Estados Unidos obtiveram como resultado que, uma década depois do crime do século, a opinião popular considerou os Estados Unidos como a maior ameaça à paz mundial, sem concorrentes nem perto; certamente não o Irã, que ganha o prêmio entre comentadores de política estadunidenses. Talvez em vez de esconder o fato, a imprensa pudesse ter cumprido seu dever de trazer à atenção pública, junto a algumas considerações sobre o que tal resultado significa, quais lições ele fornece à política. Novamente, abandono de deveres tem consequências.
Exemplos como esses, os quais abundam, são suficientemente sérios, mas há outros que são muito mais importantes. Tome a campanha eleitoral de 2016 no país mais poderoso da história mundial. A cobertura foi massiva, e instrutiva. Os assuntos foram quase totalmente evitados pelos candidatos, e praticamente ignorados pelos comentadores de política, seguindo o princípio jornalístico de que “objetividade” significa reportar acuradamente o que os poderosos fazem e falam, não o que ignoram. O princípio vale até mesmo se o destino da espécie está em risco, como está.
A negligência atingiu um pico dramático em 8 de novembro de 2016, um dia verdadeiramente histórico. Nesse dia Donald Trump obteve duas vitórias. A menos importante recebeu cobertura midiática extraordinária: sua vitória eleitoral, com quase 3 milhões de votos a menos que sua oponente, graças a características retrógradas do sistema eleitoral dos Estados Unidos. A vitória mais importante passou em quase total silêncio: a vitória de Trump em Marraquexe, Marrocos, onde em torno de 200 países se encontravam para decisões essenciais acerca do acordo de Paris sobre mudança climática de um ano antes.
Em 8 de novembro, o processo parou. O restante da conferência foi amplamente dedicado para tentar preservar as esperanças, dada a iminência de os Estados Unidos não somente se retirarem do empreendimento, mas se dedicarem a sabotá-lo, acentuadamente aumentando o uso de combustíveis fósseis, desmantelando regulações e rejeitando o juramento de auxiliar países em desenvolvimento a adotar fontes de energia renováveis. O que estava em jogo na vitória mais importante de Trump era a perspectiva de vida humana organizada como conhecemos. Adequadamente, a cobertura foi praticamente zero, mantendo o mesmo conceito de “objetividade” determinado pelas práticas e doutrinas do poder.
Uma imprensa verdadeiramente independente rejeita o papel de subordinação ao poder e à autoridade. Ela joga a ortodoxia pelos ares, questiona o que “pessoas de bom senso aceitarão sem questionar”, rasga o véu de censura tácita, torna disponível a informação e variedade de opiniões e ideias que são pré-requisito para uma participação significante na vida social e política, e, além disso, oferece uma plataforma para as pessoas entrarem em debate e discussão sobre os assuntos que lhes concernem. Ao fazer isso ela cumpre sua função de fundação de uma sociedade verdadeiramente livre e democrática.
Noam Chomsky é Professor Emérito em Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (EUA).
Artigo pulicado originalmente no website Chomsky.info (https://chomsky.info/01072017/) | Tradução e notas: Pedro G. Mattos publicada oridinalmente em 'A Terra é Redonda'
***
[ i] “it is by the goodness of God that in our country we have those three unspeakably precious things: freedom of speech, freedom of conscience, and the prudence never to practice either of them”. Following the Equator: A Journey around the World, 1897, capítulo XX. Disponível em: https://archive.org/stream/followingequator00twaiuoft.
[ii] Animal Farm, 1945. Disponível em: http://orwell.ru/library/novels/Animal_Farm/english/eaf_go.
[iii] “general tacit agreement that ‘it wouldn’t do’ to mention that particular fact”/ “veiled censorship”/ “an orthodoxy, a body of ideas which it is assumed that all right-thinking people will accept without question”/ “anyone who challenges the prevailing orthodoxy finds himself silenced with surprising effectiveness”/ “any official ban”. The Freedom of the Press. Disponível em: http://orwell.ru/library/novels/Animal_Farm/english/efp_go.
[iv] “the greatest strategic blunder in the recent history of American foreign policy”. My Plan for Iraq, 14 de julho de 2008. Disponível em: http://www.nytimes.com/2008/07/14/opinion/14obama.html.
[v] “a more wicked war than that waged by the United States on Mexico”/ “the moral courage to resign”. Referências podem ser encontradas em A Wicked War: Polk, Clay, Lincoln, and the 1846 US Invasion of Mexico, por Amy S. Greenberg.
[vi] “proceeded to battle any democratic institution that stood in his way”. A Threat to U.S. Democracy: Political Dysfunction, por Eduardo Porter, 3 de janeiro de 2017. Disponível em: https://www.nytimes.com/2017/01/03/business/economy/trump-election-democracy.html.
[vii] “of the 92 elections that we’ve monitored, I would say the election process in Venezuela is the best in the world”. 30 Years of The Carter Center (Sept. 11, 2012). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=VPKPw4t6Sic&t=2685s.
Fonte: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Censura-velada/4/47191
Os comentadores de política evitam tratar dos assuntos relevantes seguindo o princípio jornalístico de que "objetividade" significa reportar o que os poderosos fazem e falam, não o que ignoram. O princípio vale até mesmo se o destino da espécie está em risco
Mark Twain famosamente disse que “é pela bondade de Deus que em nosso país nós temos aquelas três coisas indescritivelmente preciosas: liberdade de expressão, liberdade de pensamento e a prudência de nunca praticar nenhuma das duas”[ i].
Em sua introdução não publicada de A revolução dos bichos[ii], dedicada à “censura literária” na Inglaterra livre, George Orwell adicionou a razão para essa prudência: existe, ele escreveu, um “acordo tácito geral de que ‘não daria’ para mencionar esse fato particular”. O acordo tácito impõe uma “censura velada” baseada em “uma ortodoxia, um corpo de ideias que se assume que todas pessoas de bom senso aceitarão sem questionar”, e “qualquer um que desafia a ortodoxia prevalente se encontra silenciado com efetividade surpreendente” mesmo sem “qualquer proibição oficial”[iii].
Nós testemunhamos o exercício dessa prudência constantemente em sociedades livres. Tome a invasão do Iraque pelos Estados Unidos/Reino Unido, um caso exemplar de agressão sem pretexto confiável, o “crime internacional supremo” definido pelo julgamento de Nuremberg. É legítimo dizer que foi uma “guerra burra”, um “erro estratégico”, até mesmo “o maior erro estratégico na história recente da política externa dos Estados Unidos”[iv] nas palavras do presidente Barack Obama, altamente elogiado pela opinião liberal. Mas “não daria” para falar o que ela foi, o crime do século, embora não haveria tal hesitação se algum inimigo oficial tivesse cometido até mesmo um crime muito menor.
A ortodoxia prevalente não acomoda facilmente alguém como o general/presidente Ulysses S. Grant, que achava que nunca houve “uma guerra mais perversa que a promovida pelos Estados Unidos no México”, tomando o que é hoje o sudeste dos EUA e a Califórnia, e que expressou sua vergonha pela falta de “coragem moral para renunciar” em vez de participar do crime.[v]
Subordinação à ortodoxia prevalente tem consequências. A não-tão-tácita mensagem é que nós deveríamos somente lutar guerras espertas que não são erros, guerras que atingem seus objetivos, por definição justos e corretos de acordo com a ortodoxia prevalente mesmo se eles são na realidade “guerras perversas”, os maiores crimes. Os exemplos são muito numerosos para se mencionar. Em alguns casos, como o crime do século, a prática é quase sem exceção em círculos respeitáveis.
Outro aspecto familiar da subordinação à ortodoxia prevalente é a apropriação casual da demonização ortodoxa de inimigos oficiais. Para pegar um exemplo quase aleatório, da edição do The New York Times que por acaso está na minha frente agora, um jornalista de economia altamente competente nos adverte do populismo do demônio oficial Hugo Chávez, que, uma vez eleito no final dos anos 1990, “passou a enfrentar qualquer instituição democrática que estava em seu caminho”[vi].
Voltando ao mundo real, foi o governo dos Estados Unidos, com o apoio entusiasmado do The New York Times, que (no mínimo) apoiou o golpe militar que derrubou o governo de Chávez, brevemente, antes de ser revertido por uma revolta popular. Quanto a Chávez, seja o que se pense dele, ele ganhou repetidas eleições certificadas como livres e justas por observadores internacionais, incluindo a Carter Foundation, cujo fundador, o ex-presidente Jimmy Carter, disse que “das 92 eleições que monitoramos, eu diria que o processo eleitoral na Venezuela é o melhor do mundo”[vii]. E a Venezuela sob Chávez regularmente atingia posições bem altas em pesquisas de opinião internacionais sobre apoio popular ao governo e à democracia (Latinobarómetro sediado no Chile).
Houve sem dúvidas várias deficiências democráticas durante os anos de Hugo Chávez, como as repressões à RCTV, que provocaram enormes reprovações. Eu me juntei às reprovações, concordando que tais repressões não poderiam ocorrer na nossa sociedade livre. Se um canal de TV proeminente nos Estados Unidos tivesse apoiado um golpe militar como a RCTV o fez, ele não sofreria repressões alguns anos depois, porque ele não existiria: os executivos estariam na cadeia, se ainda estivessem vivos.
Mas a ortodoxia facilmente supera meros fatos.
Falha em providenciar informação pertinente também tem consequências. Talvez os cidadãos dos Estados Unidos devessem saber que pesquisas de opinião popular executadas pela principal agência de pesquisa dos Estados Unidos obtiveram como resultado que, uma década depois do crime do século, a opinião popular considerou os Estados Unidos como a maior ameaça à paz mundial, sem concorrentes nem perto; certamente não o Irã, que ganha o prêmio entre comentadores de política estadunidenses. Talvez em vez de esconder o fato, a imprensa pudesse ter cumprido seu dever de trazer à atenção pública, junto a algumas considerações sobre o que tal resultado significa, quais lições ele fornece à política. Novamente, abandono de deveres tem consequências.
Exemplos como esses, os quais abundam, são suficientemente sérios, mas há outros que são muito mais importantes. Tome a campanha eleitoral de 2016 no país mais poderoso da história mundial. A cobertura foi massiva, e instrutiva. Os assuntos foram quase totalmente evitados pelos candidatos, e praticamente ignorados pelos comentadores de política, seguindo o princípio jornalístico de que “objetividade” significa reportar acuradamente o que os poderosos fazem e falam, não o que ignoram. O princípio vale até mesmo se o destino da espécie está em risco, como está.
A negligência atingiu um pico dramático em 8 de novembro de 2016, um dia verdadeiramente histórico. Nesse dia Donald Trump obteve duas vitórias. A menos importante recebeu cobertura midiática extraordinária: sua vitória eleitoral, com quase 3 milhões de votos a menos que sua oponente, graças a características retrógradas do sistema eleitoral dos Estados Unidos. A vitória mais importante passou em quase total silêncio: a vitória de Trump em Marraquexe, Marrocos, onde em torno de 200 países se encontravam para decisões essenciais acerca do acordo de Paris sobre mudança climática de um ano antes.
Em 8 de novembro, o processo parou. O restante da conferência foi amplamente dedicado para tentar preservar as esperanças, dada a iminência de os Estados Unidos não somente se retirarem do empreendimento, mas se dedicarem a sabotá-lo, acentuadamente aumentando o uso de combustíveis fósseis, desmantelando regulações e rejeitando o juramento de auxiliar países em desenvolvimento a adotar fontes de energia renováveis. O que estava em jogo na vitória mais importante de Trump era a perspectiva de vida humana organizada como conhecemos. Adequadamente, a cobertura foi praticamente zero, mantendo o mesmo conceito de “objetividade” determinado pelas práticas e doutrinas do poder.
Uma imprensa verdadeiramente independente rejeita o papel de subordinação ao poder e à autoridade. Ela joga a ortodoxia pelos ares, questiona o que “pessoas de bom senso aceitarão sem questionar”, rasga o véu de censura tácita, torna disponível a informação e variedade de opiniões e ideias que são pré-requisito para uma participação significante na vida social e política, e, além disso, oferece uma plataforma para as pessoas entrarem em debate e discussão sobre os assuntos que lhes concernem. Ao fazer isso ela cumpre sua função de fundação de uma sociedade verdadeiramente livre e democrática.
Noam Chomsky é Professor Emérito em Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (EUA).
Artigo pulicado originalmente no website Chomsky.info (https://chomsky.info/01072017/) | Tradução e notas: Pedro G. Mattos publicada oridinalmente em 'A Terra é Redonda'
***
[ i] “it is by the goodness of God that in our country we have those three unspeakably precious things: freedom of speech, freedom of conscience, and the prudence never to practice either of them”. Following the Equator: A Journey around the World, 1897, capítulo XX. Disponível em: https://archive.org/stream/followingequator00twaiuoft.
[ii] Animal Farm, 1945. Disponível em: http://orwell.ru/library/novels/Animal_Farm/english/eaf_go.
[iii] “general tacit agreement that ‘it wouldn’t do’ to mention that particular fact”/ “veiled censorship”/ “an orthodoxy, a body of ideas which it is assumed that all right-thinking people will accept without question”/ “anyone who challenges the prevailing orthodoxy finds himself silenced with surprising effectiveness”/ “any official ban”. The Freedom of the Press. Disponível em: http://orwell.ru/library/novels/Animal_Farm/english/efp_go.
[iv] “the greatest strategic blunder in the recent history of American foreign policy”. My Plan for Iraq, 14 de julho de 2008. Disponível em: http://www.nytimes.com/2008/07/14/opinion/14obama.html.
[v] “a more wicked war than that waged by the United States on Mexico”/ “the moral courage to resign”. Referências podem ser encontradas em A Wicked War: Polk, Clay, Lincoln, and the 1846 US Invasion of Mexico, por Amy S. Greenberg.
[vi] “proceeded to battle any democratic institution that stood in his way”. A Threat to U.S. Democracy: Political Dysfunction, por Eduardo Porter, 3 de janeiro de 2017. Disponível em: https://www.nytimes.com/2017/01/03/business/economy/trump-election-democracy.html.
[vii] “of the 92 elections that we’ve monitored, I would say the election process in Venezuela is the best in the world”. 30 Years of The Carter Center (Sept. 11, 2012). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=VPKPw4t6Sic&t=2685s.
Fonte: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Censura-velada/4/47191
terça-feira, 14 de abril de 2020
quinta-feira, 9 de abril de 2020
Pandemia expõe a Era dos Empregos de Merda – David Graeber (entrevista)
Pandemia expõe a Era dos Empregos de Merda
Agora, bilhões descobrem que podem trabalhar em casa, sem os controles burocráticos de sempre. Jornada poderia ser reduzida drasticamente, em relações pós-capitalistas. Mas haverá imensa pressão para que tudo volte ao “normal”
Será que o Occupy Home Office vai chegar ao Occupy Wall Street? Um telefonema com o antropólogo e crítico do capitalismo, David Graeber, que se encontra em Londres e que acredita que nossa vida laboral e nosso sistema econômico nunca mais serão os mesmos depois da crise do coronavírus.
Zeit Online: Senhor Graeber, de repente, fazer home office se tornou possível e os caixas dos supermercados passaram a ser sistematicamente relevantes. Será que a crise do corona está virando nosso mundo laboral de cabeça pra baixo pra sempre?
David Graeber: Aqui, na Grã Bretanha, o governo listou uma seleção das profissões sistematicamente relevantes — aqueles que trabalham nesses cargos e que podem continuar enviando seus filhos à escola, para serem cuidados. A lista chama a atenção pela incrível ausência de consultores de gestão e de administradores de fundos de investimento! Aqueles que mais ganham dinheiro, nem aparecem. A regra básica é: quanto mais útil é o trabalho, pior ele é pago. Uma exceção são, obviamente, os médicos. Mas mesmo assim você poderia argumentar: no tocante à saúde, a equipe de limpeza nos hospitais contribui tanto quanto os médicos, e grande parte do progresso nos últimos 150 anos veio de uma melhor higiene.
Na França, os empregados dos supermercados — que são, especificamente, os mais expostos — agora recebem um pagamento extra, graças a uma medida do governo. Os mercados não conseguem regular isso sozinhos…
É porque o mercado não é tão baseado assim na oferta e demanda, como sempre nos disseram: quem faz e em qual quantidade é uma questão de poder político. A crise atual deixa ainda mais claro que meu salário não depende de quão útil é a minha profissão.
Essa é a questão que você trabalha em seu livro Bullshit Jobs [“Empregos de Merda”, em livre tradução]: muitos dos trabalhos essenciais são mal pagos, enquanto funcionários bem remunerados costumam questionar se seus trabalhos em escritórios fazem algum sentido ou se eles estão apenas fazendo um “trabalho de merda”.
O que eu considero importante é: que eu nunca pensaria em contradizer uma pessoa que sente que realiza uma contribuição importante com seu trabalho. Porém, em meu livro, eu dei voz a pessoas que não sentem isso: pessoas que, às vezes, estão profundamente frustradas porque gostariam de contribuir com o bem coletivo. Mas, para conseguir o dinheiro que precisam para sustentar suas famílias, precisam realizar trabalhos que não servem para qualquer um. As pessoas me contavam: “eu trabalhava como professor de pré-escola, era um trabalho incrível, importante e que me fazia sentir realizado, mas com o qual eu não conseguia pagar minhas contas. E agora trabalho para algum sub-empresário que fornece informações sobre seguros de saúde. Codifico alguns formulários o dia todo, ninguém lê meus relatórios, mas ganho vinte vezes mais”.
O que acontece com esses funcionários de escritório que estão em seus empregos de merda, mas agora a partir de suas casas, por causa do coronavírus?
Algumas pessoas entram em contato comigo e me falam: eu sempre desconfiei que pudesse fazer meu trabalho em duas horas semanais, mas agora percebo que realmente é assim. Porque assim que você passa a trabalhar em casa, as reuniões que não agregam nada, por exemplo, geralmente já não são mais feitas.
Depois da crise financeira de 2008, você se envolveu com o movimento de protesto Occupy Wall Street, incluindo ativistas que passaram a ocupar um parque perto da Bolsa de Nova York. A crise do coronavírus poderia produzir um movimento de esquerda semelhante? Um Occupy Home Office?
Se acontecer, o mote será algo como: ocupe o apartamento em que você mora e não pague mais o aluguel. Agora, fala-se muito nas greves de aluguéis, porque as pessoas não conseguem mais pagar o aluguel, devido à crise do coronavírus. E o verdadeiro ponto é dar suporte aos trabalhadores mais importantes, sistematicamente, e que não receberam o equipamento necessário para realizar seu trabalho com segurança. É de nosso interesse que os trabalhadores da saúde e os entregadores de delivery tenham equipamentos de proteção.
Ao mesmo tempo, nesta crise aprendemos com muita clareza o papel central do trabalho para nossa sociedade: não interessa a quantidade de lugares que as pessoas deixam de visitar, elas sempre deverão continuar trabalhando.
Você percebe isso nas restrições no transporte público: se você o fecha, primeiro aos fins de semana, você não poderá mais ir ao parque. Mas Deus não permite que você não possa mais trabalhar! Embora tenhamos percebido há tempos que grande parte do trabalho não precise ser realizado no escritório.
Isso seria, na realidade, uma visão da situação atual, certo?
Sim. A única questão é: quando a crise acabar, as pessoas vão fingir que foi só um sonho? Situações semelhantes foram observadas após a crise de 2008. Por algumas semanas, todo mundo dizia “oh! tudo o que pensávamos que era verdade não é!”. Questões fundamentais finalmente surgiram: o que é o dinheiro? o que são dívidas? Mas, em algum momento, você, do nada, decide: “Chega disso por ora. Vamos fingir que nada aconteceu. Vamos refazer tudo de novo do mesmo jeito!” E a política neoliberal e o setor financeiro continuaram. É por isso que é tão importante que não esqueçamos daquilo que finalmente admitimos para nós mesmos em tempos de crise — por exemplo, quais empregos são sistemicamente importantes e quais não.
David Graeber em entrevista a Von Lars Weisbrod, no Zeit Online| Tradução: Simone Paz
Fonte: https://outraspalavras.net/pos-capitalismo/a-pandemia-desnuda-a-era-dos-empregos-de-merda/
Agora, bilhões descobrem que podem trabalhar em casa, sem os controles burocráticos de sempre. Jornada poderia ser reduzida drasticamente, em relações pós-capitalistas. Mas haverá imensa pressão para que tudo volte ao “normal”
Será que o Occupy Home Office vai chegar ao Occupy Wall Street? Um telefonema com o antropólogo e crítico do capitalismo, David Graeber, que se encontra em Londres e que acredita que nossa vida laboral e nosso sistema econômico nunca mais serão os mesmos depois da crise do coronavírus.
Zeit Online: Senhor Graeber, de repente, fazer home office se tornou possível e os caixas dos supermercados passaram a ser sistematicamente relevantes. Será que a crise do corona está virando nosso mundo laboral de cabeça pra baixo pra sempre?
David Graeber: Aqui, na Grã Bretanha, o governo listou uma seleção das profissões sistematicamente relevantes — aqueles que trabalham nesses cargos e que podem continuar enviando seus filhos à escola, para serem cuidados. A lista chama a atenção pela incrível ausência de consultores de gestão e de administradores de fundos de investimento! Aqueles que mais ganham dinheiro, nem aparecem. A regra básica é: quanto mais útil é o trabalho, pior ele é pago. Uma exceção são, obviamente, os médicos. Mas mesmo assim você poderia argumentar: no tocante à saúde, a equipe de limpeza nos hospitais contribui tanto quanto os médicos, e grande parte do progresso nos últimos 150 anos veio de uma melhor higiene.
Na França, os empregados dos supermercados — que são, especificamente, os mais expostos — agora recebem um pagamento extra, graças a uma medida do governo. Os mercados não conseguem regular isso sozinhos…
É porque o mercado não é tão baseado assim na oferta e demanda, como sempre nos disseram: quem faz e em qual quantidade é uma questão de poder político. A crise atual deixa ainda mais claro que meu salário não depende de quão útil é a minha profissão.
Essa é a questão que você trabalha em seu livro Bullshit Jobs [“Empregos de Merda”, em livre tradução]: muitos dos trabalhos essenciais são mal pagos, enquanto funcionários bem remunerados costumam questionar se seus trabalhos em escritórios fazem algum sentido ou se eles estão apenas fazendo um “trabalho de merda”.
O que eu considero importante é: que eu nunca pensaria em contradizer uma pessoa que sente que realiza uma contribuição importante com seu trabalho. Porém, em meu livro, eu dei voz a pessoas que não sentem isso: pessoas que, às vezes, estão profundamente frustradas porque gostariam de contribuir com o bem coletivo. Mas, para conseguir o dinheiro que precisam para sustentar suas famílias, precisam realizar trabalhos que não servem para qualquer um. As pessoas me contavam: “eu trabalhava como professor de pré-escola, era um trabalho incrível, importante e que me fazia sentir realizado, mas com o qual eu não conseguia pagar minhas contas. E agora trabalho para algum sub-empresário que fornece informações sobre seguros de saúde. Codifico alguns formulários o dia todo, ninguém lê meus relatórios, mas ganho vinte vezes mais”.
O que acontece com esses funcionários de escritório que estão em seus empregos de merda, mas agora a partir de suas casas, por causa do coronavírus?
Algumas pessoas entram em contato comigo e me falam: eu sempre desconfiei que pudesse fazer meu trabalho em duas horas semanais, mas agora percebo que realmente é assim. Porque assim que você passa a trabalhar em casa, as reuniões que não agregam nada, por exemplo, geralmente já não são mais feitas.
Depois da crise financeira de 2008, você se envolveu com o movimento de protesto Occupy Wall Street, incluindo ativistas que passaram a ocupar um parque perto da Bolsa de Nova York. A crise do coronavírus poderia produzir um movimento de esquerda semelhante? Um Occupy Home Office?
Se acontecer, o mote será algo como: ocupe o apartamento em que você mora e não pague mais o aluguel. Agora, fala-se muito nas greves de aluguéis, porque as pessoas não conseguem mais pagar o aluguel, devido à crise do coronavírus. E o verdadeiro ponto é dar suporte aos trabalhadores mais importantes, sistematicamente, e que não receberam o equipamento necessário para realizar seu trabalho com segurança. É de nosso interesse que os trabalhadores da saúde e os entregadores de delivery tenham equipamentos de proteção.
Ao mesmo tempo, nesta crise aprendemos com muita clareza o papel central do trabalho para nossa sociedade: não interessa a quantidade de lugares que as pessoas deixam de visitar, elas sempre deverão continuar trabalhando.
Você percebe isso nas restrições no transporte público: se você o fecha, primeiro aos fins de semana, você não poderá mais ir ao parque. Mas Deus não permite que você não possa mais trabalhar! Embora tenhamos percebido há tempos que grande parte do trabalho não precise ser realizado no escritório.
Isso seria, na realidade, uma visão da situação atual, certo?
Sim. A única questão é: quando a crise acabar, as pessoas vão fingir que foi só um sonho? Situações semelhantes foram observadas após a crise de 2008. Por algumas semanas, todo mundo dizia “oh! tudo o que pensávamos que era verdade não é!”. Questões fundamentais finalmente surgiram: o que é o dinheiro? o que são dívidas? Mas, em algum momento, você, do nada, decide: “Chega disso por ora. Vamos fingir que nada aconteceu. Vamos refazer tudo de novo do mesmo jeito!” E a política neoliberal e o setor financeiro continuaram. É por isso que é tão importante que não esqueçamos daquilo que finalmente admitimos para nós mesmos em tempos de crise — por exemplo, quais empregos são sistemicamente importantes e quais não.
David Graeber em entrevista a Von Lars Weisbrod, no Zeit Online| Tradução: Simone Paz
Fonte: https://outraspalavras.net/pos-capitalismo/a-pandemia-desnuda-a-era-dos-empregos-de-merda/
quarta-feira, 8 de abril de 2020
terça-feira, 7 de abril de 2020
Não pague por uma crise que não é sua! – por Artur Decone
Não pague por uma crise que não é sua!
Era uma vez uma ordem estabelecida que tinha como lógica principal te fazer trabalhar para você ter dinheiro para pagar para viver. Para! Agora um vírus de fácil contágio ameaçou essa ordem. Não é seguro conviver com outras pessoas e, portanto, não é seguro trabalhar. Logo, se não existe mais trabalho não existe mais dinheiro. Viva! Veja bem, quando você não tem trabalho, mas as outras pessoas têm, você está na merda sozinho. Quando ninguém tem trabalho, todos estamos na merda juntos. A matemática nos ensina que menos com mais é menos, mas menos com menos é mais! Então, na verdade, ninguém está na merda.
Os senhores que comandam essa ordem que não está mais tão estabelecida assim estão desesperados. Querem continuar te fazendo acreditar que o dinheiro deles vale alguma coisa. Querem que você corra riscos, não pela sua família como tentam te fazer acreditar, mas por eles! Sem a lógica do trabalho, os senhores não são mais necessários. E assim como a criança inocente que teve coragem de gritar que o rei estava nu¹, devemos ter coragem de não arcar com um problema que não é nosso.
Uma das provas de que essa antiga ordem não foi feita para o nosso bem estar é que a necessidade mais essencial que nós temos, a de ter um teto, é também a mais cara. E cada vez mais cara, por sinal. É a que representa a maior fatia do seu orçamento e, portanto, é a primeira que você deve abandonar nesse cenário onde não existe mais dinheiro. Fique tranquilo, em mais uma de muitas tentativas de mostrar que se importam com você, os senhores te darão uma esmola que é não poder ser despejado por um bom período de tempo caso você não pague. Mas lá na frente, assim que eles tiverem uma oportunidade de vestir novamente uma roupa e ir para o salão tentar restabelecer a ordem, eles jogarão nas suas costas uma dívida, que nada mais é do que outro dinheiro que não existe.
Quando esse momento chegar, e se ele chegar, quanto mais pessoas formos, mais força teremos. Na hora de definir as regras do jogo eles esqueceram de limitar o número de jogadores e acontece que temos muito mais jogadores do que mestres. Logo, está nas nossas mãos levantar da mesa e dizer que não queremos mais jogar! Lembre-se de duas coisas muito importantes: a culpa de nada disso que está acontecendo é sua e toda crise traz com ela uma oportunidade de construir algo novo.
Em abril, não pague o aluguel. Em maio também não. Enquanto essa crise durar, não pague. Converse com outras pessoas sobre a importância delas também não pagarem o aluguel. Esteja preparado e disponível para ajudar e ser ajudado quando os senhores vierem cobrar por algo que já sabemos que não existe mais.
Resistiremos juntos.
Há braços.
[1] Conto: A Roupa Nova do Rei: https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Roupa_Nova_do_Rei
agência de notícias anarquistas-ana
No outono as folhas
Caem e o caminho
Tapete se transforma
Dalva Sanae Baba
Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/04/06/nao-pague-por-uma-crise-que-nao-e-sua/
Era uma vez uma ordem estabelecida que tinha como lógica principal te fazer trabalhar para você ter dinheiro para pagar para viver. Para! Agora um vírus de fácil contágio ameaçou essa ordem. Não é seguro conviver com outras pessoas e, portanto, não é seguro trabalhar. Logo, se não existe mais trabalho não existe mais dinheiro. Viva! Veja bem, quando você não tem trabalho, mas as outras pessoas têm, você está na merda sozinho. Quando ninguém tem trabalho, todos estamos na merda juntos. A matemática nos ensina que menos com mais é menos, mas menos com menos é mais! Então, na verdade, ninguém está na merda.
Os senhores que comandam essa ordem que não está mais tão estabelecida assim estão desesperados. Querem continuar te fazendo acreditar que o dinheiro deles vale alguma coisa. Querem que você corra riscos, não pela sua família como tentam te fazer acreditar, mas por eles! Sem a lógica do trabalho, os senhores não são mais necessários. E assim como a criança inocente que teve coragem de gritar que o rei estava nu¹, devemos ter coragem de não arcar com um problema que não é nosso.
Uma das provas de que essa antiga ordem não foi feita para o nosso bem estar é que a necessidade mais essencial que nós temos, a de ter um teto, é também a mais cara. E cada vez mais cara, por sinal. É a que representa a maior fatia do seu orçamento e, portanto, é a primeira que você deve abandonar nesse cenário onde não existe mais dinheiro. Fique tranquilo, em mais uma de muitas tentativas de mostrar que se importam com você, os senhores te darão uma esmola que é não poder ser despejado por um bom período de tempo caso você não pague. Mas lá na frente, assim que eles tiverem uma oportunidade de vestir novamente uma roupa e ir para o salão tentar restabelecer a ordem, eles jogarão nas suas costas uma dívida, que nada mais é do que outro dinheiro que não existe.
Quando esse momento chegar, e se ele chegar, quanto mais pessoas formos, mais força teremos. Na hora de definir as regras do jogo eles esqueceram de limitar o número de jogadores e acontece que temos muito mais jogadores do que mestres. Logo, está nas nossas mãos levantar da mesa e dizer que não queremos mais jogar! Lembre-se de duas coisas muito importantes: a culpa de nada disso que está acontecendo é sua e toda crise traz com ela uma oportunidade de construir algo novo.
Em abril, não pague o aluguel. Em maio também não. Enquanto essa crise durar, não pague. Converse com outras pessoas sobre a importância delas também não pagarem o aluguel. Esteja preparado e disponível para ajudar e ser ajudado quando os senhores vierem cobrar por algo que já sabemos que não existe mais.
Resistiremos juntos.
Há braços.
[1] Conto: A Roupa Nova do Rei: https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Roupa_Nova_do_Rei
agência de notícias anarquistas-ana
No outono as folhas
Caem e o caminho
Tapete se transforma
Dalva Sanae Baba
Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/04/06/nao-pague-por-uma-crise-que-nao-e-sua/
quinta-feira, 2 de abril de 2020
A pandemia usada para esmagar trabalhadores - por José Álvaro de Lima Cardoso
A pandemia usada para esmagar trabalhadores
Enquanto medidas para proteger emprego e renda são implantadas no mundo todo, Paulo Guedes autoriza cortes de 50% nos salários. Desemprego abaterá milhões, mas ministro está disposto a sacrificar população em prol do mercado
A crise econômica mundial que se avizinha – bafejada agora pelo coronavírus — pegará o Brasil, como até as pedras já previam, no contrapé. Antes da pandemia, a fragilidade externa do país já tinha aumentado muito, a partir das medidas do golpe de 2016. Por exemplo, o governo Bolsonaro está queimando as reservas internacionais deixadas pelo governo Dilma Rousseff, na tentativa de deter o aumento do câmbio. Somente em março o Banco Central já injetou US$ 15,245 bilhões em recursos novos no mercado de câmbio, tentando conter a escalada do dólar. Mesmo assim o real foi a terceira moeda que mais se desvalorizou no mundo, perante o dólar norte-americano, em 2020.
Um dos vários efeitos demolidores do Corona se deu sobre a economia chinesa, principal motor da economia mundial há muitos anos. A produção industrial caiu 13,5% no primeiro bimestre, em relação ao mesmo período do ano passado, uma queda superior à verificada na crise de 2008. Dos 41 maiores setores industriais, 39 tiveram redução na produção. As exceções foram petróleo e gás, e tabaco. Há previsões de que a queda no PIB chinês, no primeiro bimestre do ano, possa chegar a 13%. Como seria de esperar a economia como um todo mergulhou: vendas no varejo encolheram 20,5% ao ano no bimestre, a taxa de investimentos caiu 24,5%, a construção de imóveis caiu 44,9% nos dois primeiros meses do ano. Como os dados do primeiro bimestre incluem duas semanas de janeiro, nas quais a economia funcionou normalmente, tudo indica que os dados de março serão ainda mais devastadores.
A nós, meros mortais comuns, é sonegada muita informação, pois os donos do dinheiro não têm interesse em divulgar certas coisas. É, portanto, muito difícil estimar o risco de a crise contaminar a economia mundial como um todo, o chamado “risco sistêmico”. Segundo alguns analistas1 o risco dessa crise afetar o sistema mundial é muito mais grave em 2020, do que foi em 1979, 1987 ou 2008. Segundo o jornalista, informações de bastidores indicam que, nesta crise, o risco é mais alto de contaminação do mercado de derivativos, o que envolve trilhões de dólares. É uma verdadeira fábula de dinheiro aplicada em papéis sem lastro, investimentos financeiros completamente descolados da esfera real da economia.
Dois sintomas de que o risco sistêmico é elevado, apesar de a informação estar dissimulada pela maioria dos analistas internacionais: a) O Fed (banco central norte-americano) eliminou exigências de reservas bancárias nos bancos comerciais, o que significa uma expansão, como lembrou Pepe Escobar no artigo citado, “potencialmente ilimitada de crédito, para evitar uma implosão dos derivativos, decorrente de um colapso total de bolsas de mercadorias e ações em todo o mundo”; b) O governo alemão anunciou no dia 13/03 empréstimos “ilimitados”, que podem chegar a 550 bilhões de euros, para amparar as empresas em função da pandemia. Este plano de ajuda às empresas na Alemanha é mais significativo do que o utilizado na crise financeira de 2008. A crise na Alemanha, como no mundo, também é anterior ao coronavírus: considerado o motor da economia europeia, a Alemanha cresceu meros 0,6% em 2019, uma notável e clara desaceleração em relação a 2017 (2,5%) e 2018 (1,5%). A crise sanitária apenas piorou muito uma situação que já era ruim.
A pandemia, segundo a OIT na previsão mais moderada, poderá aumentar em 5,3 milhões o número de desempregados no mundo. No pior cenário, é possível que o número de desempregados cresça em 24,7 milhões, num universo, segundo a Organização, de 188 milhões de desempregados em 2019. Conforme previsão da OIT aumentará também o subemprego, com as inevitáveis reduções das jornadas de trabalho e dos salários. A Organização divulgou um cálculo da perda de renda pelos trabalhadores, com a crise, que deve ficar entre US$ 860 bilhões e US$ 3,4 trilhões até o fim deste ano.
A perspectiva de uma grande crise internacional, acelerada por uma brutal pandemia, está levando governos a optarem por ações drásticas, em todo o mundo. Não apenas no campo fiscal, tributário e creditício, mas em áreas diretamente ligadas ao controle da doença. Por exemplo, na Espanha o governo determinou que as autoridades de saúde estatais do país assumam o controle de hospitais privados, para atender e hospitalizar pacientes com coronavírus. Segundo o ministro da saúde da Espanha, a medida visa garantir por todos os meios a saúde e o interesse público e permitir que os cidadãos possam ser atendidos em condições de igualdade. O Ministério da Saúde espanhol determinou também que as empresas e laboratórios particulares que façam diagnósticos ou produzam máscaras e outros utensílios que possam ser usados no combate ao coronavírus, devem informar ao governo da sua existência e da sua capacidade produtiva em até 48 horas.
Em vários países se adotam medidas que protegem as pessoas da doença, e ao mesmo tempo procuram amortecer o impacto econômico e social para a população, preservando o emprego e a renda. Mas o governo e o parlamento brasileiros fazem exatamente o contrário, utilizando a crise como pretexto para a liquidação de direitos. Por exemplo, no dia 17/03, a portas fechadas, uma comissão mista do Congresso Nacional aprovou a Medida Provisória (MP) 905, conhecida como Carteira de Trabalho Verde e Amarela. A medida reduz garantias relacionadas aos acidentes de trabalho e modifica, de 8% para 2%, a alíquota de contribuição ao FGTS paga pelo empregador. Também diminui de 40% para 20% a multa paga em caso de demissão, por exemplo.
Ao mesmo tempo o ministro da economia vem tentando acelerar no Congresso o processo de privatização da Eletrobras, aproveitando enquanto a sociedade tenta manter a saúde e sobreviver, ainda que à duríssimas penas. O mesmo Paulo Guedes recentemente listou 19 projetos ao Congresso, que são prioritários para o governo, absolutamente todos na direção de retirar direitos, enfraquecer o Estado e vender patrimônio público (dentre eles, autonomia do Banco Central, o Marco Legal do Saneamento e a MP do Emprego Verde Amarelo).
Nessa mesma lógica antipovo e de vergonhosa subserviência ao capital, o governo anunciou no dia 18 uma Medida Provisória que, dentre outras coisas, permitirá que as empresas reduzam em até 50% a jornada de trabalho e o salário dos seus empregados. Além da redução da jornada e salários as empresas poderão antecipar férias individuais, decretar férias coletivas e usar o banco de horas para dispensar os trabalhadores do serviço. Também poderão antecipar feriados não religiosos. A MP ainda permitirá ações visando simplificar o teletrabalho e a suspensão da obrigatoriedade dos exames médicos e treinamento obrigatórios.
Não fosse este o governo mais inimigo do povo de toda a história do Brasil, seria o momento para medidas fortes de proteção do emprego e da renda dos trabalhadores (que são 95% da população). Seria o momento de proibir demissões sem justa causa, instituindo garantia de emprego e de uma renda mínima de sobrevivência para os desempregados e informais, pelo menos enquanto durasse a pandemia. Seria o momento de revogar a Emenda Constitucional 95, imposta pelos banqueiros que ajudaram a financiar o golpe de 2016. Mas fazem o contrário e com tática bastante conhecida: aproveitar a confusão e a excepcionalidade do momento para rapidamente impor medidas que vão contra a esmagadora maioria da população, em favor dos grandes capitalistas e do sistema financeiro internacional.
1 Ver por exemplo o artigo Como o exército dos EUA pode ter levado o vírus à China, do bem informado Pepe Escobar, publicado em 17.03.20.
Fonte: https://outraspalavras.net/mercadovsdemocracia/a-pandemia-usada-para-esmagar-trabalhadores/
Enquanto medidas para proteger emprego e renda são implantadas no mundo todo, Paulo Guedes autoriza cortes de 50% nos salários. Desemprego abaterá milhões, mas ministro está disposto a sacrificar população em prol do mercado
Imagem: John Langley Howard,
California Industrial Scenes (1933)
A crise econômica mundial que se avizinha – bafejada agora pelo coronavírus — pegará o Brasil, como até as pedras já previam, no contrapé. Antes da pandemia, a fragilidade externa do país já tinha aumentado muito, a partir das medidas do golpe de 2016. Por exemplo, o governo Bolsonaro está queimando as reservas internacionais deixadas pelo governo Dilma Rousseff, na tentativa de deter o aumento do câmbio. Somente em março o Banco Central já injetou US$ 15,245 bilhões em recursos novos no mercado de câmbio, tentando conter a escalada do dólar. Mesmo assim o real foi a terceira moeda que mais se desvalorizou no mundo, perante o dólar norte-americano, em 2020.
Um dos vários efeitos demolidores do Corona se deu sobre a economia chinesa, principal motor da economia mundial há muitos anos. A produção industrial caiu 13,5% no primeiro bimestre, em relação ao mesmo período do ano passado, uma queda superior à verificada na crise de 2008. Dos 41 maiores setores industriais, 39 tiveram redução na produção. As exceções foram petróleo e gás, e tabaco. Há previsões de que a queda no PIB chinês, no primeiro bimestre do ano, possa chegar a 13%. Como seria de esperar a economia como um todo mergulhou: vendas no varejo encolheram 20,5% ao ano no bimestre, a taxa de investimentos caiu 24,5%, a construção de imóveis caiu 44,9% nos dois primeiros meses do ano. Como os dados do primeiro bimestre incluem duas semanas de janeiro, nas quais a economia funcionou normalmente, tudo indica que os dados de março serão ainda mais devastadores.
A nós, meros mortais comuns, é sonegada muita informação, pois os donos do dinheiro não têm interesse em divulgar certas coisas. É, portanto, muito difícil estimar o risco de a crise contaminar a economia mundial como um todo, o chamado “risco sistêmico”. Segundo alguns analistas1 o risco dessa crise afetar o sistema mundial é muito mais grave em 2020, do que foi em 1979, 1987 ou 2008. Segundo o jornalista, informações de bastidores indicam que, nesta crise, o risco é mais alto de contaminação do mercado de derivativos, o que envolve trilhões de dólares. É uma verdadeira fábula de dinheiro aplicada em papéis sem lastro, investimentos financeiros completamente descolados da esfera real da economia.
Dois sintomas de que o risco sistêmico é elevado, apesar de a informação estar dissimulada pela maioria dos analistas internacionais: a) O Fed (banco central norte-americano) eliminou exigências de reservas bancárias nos bancos comerciais, o que significa uma expansão, como lembrou Pepe Escobar no artigo citado, “potencialmente ilimitada de crédito, para evitar uma implosão dos derivativos, decorrente de um colapso total de bolsas de mercadorias e ações em todo o mundo”; b) O governo alemão anunciou no dia 13/03 empréstimos “ilimitados”, que podem chegar a 550 bilhões de euros, para amparar as empresas em função da pandemia. Este plano de ajuda às empresas na Alemanha é mais significativo do que o utilizado na crise financeira de 2008. A crise na Alemanha, como no mundo, também é anterior ao coronavírus: considerado o motor da economia europeia, a Alemanha cresceu meros 0,6% em 2019, uma notável e clara desaceleração em relação a 2017 (2,5%) e 2018 (1,5%). A crise sanitária apenas piorou muito uma situação que já era ruim.
A pandemia, segundo a OIT na previsão mais moderada, poderá aumentar em 5,3 milhões o número de desempregados no mundo. No pior cenário, é possível que o número de desempregados cresça em 24,7 milhões, num universo, segundo a Organização, de 188 milhões de desempregados em 2019. Conforme previsão da OIT aumentará também o subemprego, com as inevitáveis reduções das jornadas de trabalho e dos salários. A Organização divulgou um cálculo da perda de renda pelos trabalhadores, com a crise, que deve ficar entre US$ 860 bilhões e US$ 3,4 trilhões até o fim deste ano.
A perspectiva de uma grande crise internacional, acelerada por uma brutal pandemia, está levando governos a optarem por ações drásticas, em todo o mundo. Não apenas no campo fiscal, tributário e creditício, mas em áreas diretamente ligadas ao controle da doença. Por exemplo, na Espanha o governo determinou que as autoridades de saúde estatais do país assumam o controle de hospitais privados, para atender e hospitalizar pacientes com coronavírus. Segundo o ministro da saúde da Espanha, a medida visa garantir por todos os meios a saúde e o interesse público e permitir que os cidadãos possam ser atendidos em condições de igualdade. O Ministério da Saúde espanhol determinou também que as empresas e laboratórios particulares que façam diagnósticos ou produzam máscaras e outros utensílios que possam ser usados no combate ao coronavírus, devem informar ao governo da sua existência e da sua capacidade produtiva em até 48 horas.
Em vários países se adotam medidas que protegem as pessoas da doença, e ao mesmo tempo procuram amortecer o impacto econômico e social para a população, preservando o emprego e a renda. Mas o governo e o parlamento brasileiros fazem exatamente o contrário, utilizando a crise como pretexto para a liquidação de direitos. Por exemplo, no dia 17/03, a portas fechadas, uma comissão mista do Congresso Nacional aprovou a Medida Provisória (MP) 905, conhecida como Carteira de Trabalho Verde e Amarela. A medida reduz garantias relacionadas aos acidentes de trabalho e modifica, de 8% para 2%, a alíquota de contribuição ao FGTS paga pelo empregador. Também diminui de 40% para 20% a multa paga em caso de demissão, por exemplo.
Ao mesmo tempo o ministro da economia vem tentando acelerar no Congresso o processo de privatização da Eletrobras, aproveitando enquanto a sociedade tenta manter a saúde e sobreviver, ainda que à duríssimas penas. O mesmo Paulo Guedes recentemente listou 19 projetos ao Congresso, que são prioritários para o governo, absolutamente todos na direção de retirar direitos, enfraquecer o Estado e vender patrimônio público (dentre eles, autonomia do Banco Central, o Marco Legal do Saneamento e a MP do Emprego Verde Amarelo).
Nessa mesma lógica antipovo e de vergonhosa subserviência ao capital, o governo anunciou no dia 18 uma Medida Provisória que, dentre outras coisas, permitirá que as empresas reduzam em até 50% a jornada de trabalho e o salário dos seus empregados. Além da redução da jornada e salários as empresas poderão antecipar férias individuais, decretar férias coletivas e usar o banco de horas para dispensar os trabalhadores do serviço. Também poderão antecipar feriados não religiosos. A MP ainda permitirá ações visando simplificar o teletrabalho e a suspensão da obrigatoriedade dos exames médicos e treinamento obrigatórios.
Não fosse este o governo mais inimigo do povo de toda a história do Brasil, seria o momento para medidas fortes de proteção do emprego e da renda dos trabalhadores (que são 95% da população). Seria o momento de proibir demissões sem justa causa, instituindo garantia de emprego e de uma renda mínima de sobrevivência para os desempregados e informais, pelo menos enquanto durasse a pandemia. Seria o momento de revogar a Emenda Constitucional 95, imposta pelos banqueiros que ajudaram a financiar o golpe de 2016. Mas fazem o contrário e com tática bastante conhecida: aproveitar a confusão e a excepcionalidade do momento para rapidamente impor medidas que vão contra a esmagadora maioria da população, em favor dos grandes capitalistas e do sistema financeiro internacional.
1 Ver por exemplo o artigo Como o exército dos EUA pode ter levado o vírus à China, do bem informado Pepe Escobar, publicado em 17.03.20.
Fonte: https://outraspalavras.net/mercadovsdemocracia/a-pandemia-usada-para-esmagar-trabalhadores/
Aos 98 anos, morre em Atenas MANOLIS GLEZOS – por A.N.A.
Aos 98 anos, morre em Atenas MANOLIS GLEZOS
Manolis Glezos presente!
Manolis Glezos (09/09/1922-30/03/2020) um grande homem, antifascista e partisano. Junto com Lakis Santas, removeu a bandeira com a suástica alemã durante a ocupação nazi de Atenas, em maio de 1941.
Nascido na aldeia de Apiranthos, na ilha de Naxus, Manolis Glezos mudou-se para Atenas em 1935 e anos depois participou na criação de grupos de juventude antifascistas.
Em décadas de grande resistência, Glezos tinha sido encarcerado várias vezes pelos alemães, pelos italianos e depois pelos governos militares de direita gregos, sendo até torturado e posto em regime de isolamento.
Ele continuou a lutar contra o fascismo até o fim.
Imortal! Descansa no poder.
“Algumas pessoas dizem que num acordo também é necessário fazer algumas concessões. Mas por questão de princípio, entre o opressor e o oprimido não pode haver compromisso, da mesma forma que não pode haver compromisso entre o escravo e o tirano. A liberdade é a única solução.” – Manolis Glezos
Sem Fronteiras
Tradução: Ananás
agência de notícias anarquistas-ana
durmo sob uma oliveira
com o musgo
por travesseiro
Rogério Martins
Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/04/01/grecia-aos-98-anos-morre-em-atenas-manolis-glezos/
Manolis Glezos presente!
Manolis Glezos (09/09/1922-30/03/2020) um grande homem, antifascista e partisano. Junto com Lakis Santas, removeu a bandeira com a suástica alemã durante a ocupação nazi de Atenas, em maio de 1941.
Nascido na aldeia de Apiranthos, na ilha de Naxus, Manolis Glezos mudou-se para Atenas em 1935 e anos depois participou na criação de grupos de juventude antifascistas.
Em décadas de grande resistência, Glezos tinha sido encarcerado várias vezes pelos alemães, pelos italianos e depois pelos governos militares de direita gregos, sendo até torturado e posto em regime de isolamento.
Ele continuou a lutar contra o fascismo até o fim.
Imortal! Descansa no poder.
“Algumas pessoas dizem que num acordo também é necessário fazer algumas concessões. Mas por questão de princípio, entre o opressor e o oprimido não pode haver compromisso, da mesma forma que não pode haver compromisso entre o escravo e o tirano. A liberdade é a única solução.” – Manolis Glezos
Sem Fronteiras
Tradução: Ananás
agência de notícias anarquistas-ana
durmo sob uma oliveira
com o musgo
por travesseiro
Rogério Martins
Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/04/01/grecia-aos-98-anos-morre-em-atenas-manolis-glezos/
terça-feira, 31 de março de 2020
Coronavírus, por Raoul Vaneigem
Coronavírus, por Raoul Vaneigem
Questionar o perigo do coronavírus é certamente absurdo. Por outro lado, não seria igualmente absurdo o fato de que a interrupção da disseminação das infecções e doenças leve a uma exploração emocional das pessoas e desperte ainda mais a incompetência e a arrogância que já aconteceu nos tempos de guerra nuclear na Europa que se dizia que a nuvem vinda de Chernobyl tinha sido “barrada” na fronteira da França? Certamente, sabemos com que facilidade o fantasma do apocalipse sai de seu esconderijo para capturar o primeiro cataclismo que ocorre e para brincar com as imagens do dilúvio universal e para levar à culpa ao solo estéril de Sodoma e Gomorra.
A maldição divina foi um complemento útil ao poder. Pelo menos até o terremoto de Lisboa de 1755, quando o marquês de Pombal, amigo de Voltaire, aproveitou o terremoto para massacrar os jesuítas, reconstruir a cidade de acordo com suas ideias e liquidar com alegria seus rivais políticos através de testes “proto-estalinistas”. Não vamos a insultar Pombal, por mais odioso que seja, ao comparar seu golpe de estado ditatorial com as miseráveis medidas que o totalitarismo democrático atual aplica em todo o mundo à epidemia de coronavírus.
É muito cinismo culpar a disseminação da pandemia pela deplorável insuficiência dos recursos médicos utilizados! Durante décadas, o bem público foi esquecido e o setor hospitalar foi vítima de uma política que favorece interesses financeiros em detrimento à saúde dos cidadãos. Sempre há mais dinheiro para bancos e muito menos leitos e profissionais da saúde nos hospitais. Quais palhaçadas esconderão ainda mais sob o fato de que a gestão catastrófica, do que já é catastrofismo, é inerente ao capitalismo financeiro que é globalmente dominante; e que hoje luta globalmente em nome da vida, do planeta e das espécies a serem salvas.
Sem cair no ressurgimento do castigo divino, que é a ideia de que a Natureza se livra do Homem como um verme indesejável e prejudicial, não é inútil se lembrar que, por milênios, a exploração da natureza humana e da natureza terrestre impôs o dogma do anti-físico, da anti-natureza. O livro de Éric Postaire ‘Les Épidémies Du XXIe siècle’, publicado em 1997, confirma os efeitos desastrosos da desnaturalizão persistente, que venho denunciando há décadas. Referindo-se ao drama das “vacas loucas” (previsto por Rudolf Steiner já em 1920), o autor nos lembra que, além de estarmos indefesos contra certas doenças, percebemos que o próprio progresso científico pode causá-las. Em seu apelo por uma abordagem responsável das epidemias e seu tratamento, ele incrimina o que o prefeito Claude Gudin chama de “filosofia da caixa registrado”. Faz a seguinte pergunta: “Se subordinarmos a saúde da população às leis de benefício, a ponto de transformar animais herbívoros em carnívoros, não correremos o risco de causar catástrofes que seriam fatais para a Natureza e a Humanidade? Os governos, como sabemos, já responderam com um SIM unânime. Qual a importância disso já que o NÃO dos interesses financeiros continua a triunfar cinicamente?
O coronavírus foi necessário para demonstrar de maneira mais estreita que a desnaturalizão por razões de lucratividade tem consequências desastrosas para a saúde de todas as pessoas, saúde gerenciada sem desarmar a uma Organização Mundial cujas preciosas estatísticas explicam o desaparecimento de hospitais públicos? Existe uma clara correlação entre o coronavírus e o colapso do capitalismo global. Ao mesmo tempo, não é menos óbvio que o que está encobrindo e esmagando a epidemia de coronavírus é uma praga emocional, um medo histérico, um pânico que esconde a falta de tratamento e perpetua o mal ao assustar o paciente. Durante as grandes epidemias de pestes do passado, as pessoas faziam penitencia e se autoflagelavam para retirarem suas culpas. Não interessam aos gestores da desumanização global convencer as pessoas de que não há como escapar do destino miserável que lhes é imposto? Que tudo o que resta é o flagelo da servidão voluntária? A formidável máquina da mídia repete apenas repete a velha mentira do impenetrável e inescapável decreto celestial, no qual o dinheiro louco substituiu os Deuses do passado, os quais eram sedentos de sangue, instáveis e teimosos.
O desencadeamento da barbárie policial contra manifestantes pacíficos demonstrou amplamente que a lei militar é a única coisa que funciona efetivamente. Agora ela confina mulheres, homens e crianças à quarentena. Lá fora, o caixão; dentro da televisão, a janela aberta em um mundo fechado! É um condicionamento capaz de agravar o desconforto existencial, apoiando-se nas emoções desgastadas pela angústia, exacerbando a cegueira de uma raiva impotente.
Porém, mesmo a mentira dá lugar ao colapso geral. A cretinice estatal e populista atingiu seus limites. Não se pode negar que um experimento está sendo realizado. A desobediência civil está se espalhando e sonhando com sociedades radicalmente novas porque são radicalmente humanas. A solidariedade liberta a pele de ovelha individualista que cobria aos indivíduos, os quais não têm mais medo de pensar por conta própria.
O coronavírus se tornou o sinal revelador da falência do Estado. Pelo menos é algo que as vítimas de confinamento forçado devem pensar. Quando publiquei minhas “Modestes propositions aux grévistes”, alguns amigos me disseram como era difícil recorrer à recusa coletiva, que sugeri, para pagar impostos e taxas. Agora, no entanto, a comprovada falência do Estado corrupto é prova de um declínio econômico e social que está fazendo com que as pequenas e médias empresas, o comércio local, os pequenos proprietários, os agricultores familiares e até as chamadas profissões liberais absolutamente inadimplentes. O colapso do Leviatã conseguiu nos convencer mais rápido do que nossas resoluções para derrubá-lo.
O coronavírus fez ainda melhor. A cessação das atividades produtivas reduziu a poluição do mundo, salva milhões de pessoas da morte programada, a natureza respira, os golfinhos se divertem novamente na Sardenha, os canais de Veneza purificados do turismo de massa encontram água limpa, a bolsa de valores cai. A Espanha decide nacionalizar hospitais privados, como se redescobrisse a seguridade social, como se o Estado se lembrasse do Estado de bem-estar que ele mesmo destruiu.
Nada é dado como certo, tudo recomeça. A utopia continua caminhando por quatro patas. Vamos abandonar à sua inanidade celestial os bilhões de bilhetes e idéias vazias que circulam em nossas cabeças. O importante é “fazer nosso próprio negócio”, deixando que a bolha dos negócios se desfaça e imploda. Vamos tomar cuidado com a falta de ousadia e autoconfiança em nós mesmos!
Nosso presente não é o confinamento que a sobrevivência nos impõe, é a abertura a todas as possibilidades. É sob o efeito do pânico que o Estado oligárquico é forçado a adotar medidas que ontem declarou serem impossíveis. É o chamado da vida e da terra a serem restaurados que queremos responder. Quarentena incentiva a reflexão. O confinamento não suprime a presença da rua, ela a reinventa. Deixe-me pensar, com alguma ressalva, que a insurreição da vida cotidiana tem insuspeitas virtudes terapêuticas.
Terça-feira, 17 de março de 2020
Raoul Vaneigem
Tradução > Uma Mulher Anarquista
Fonte: https://lundi.am/Coronavirus-Raoul-Vaneigem
agência de notícias anarquistas-ana
Borboleta grande
Balançando comigo
Na rede do quintal.
Letícia Carlim de Oliveira – 9 anos
Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/03/31/franca-coronavirus-por-raoul-vaneigem/
Questionar o perigo do coronavírus é certamente absurdo. Por outro lado, não seria igualmente absurdo o fato de que a interrupção da disseminação das infecções e doenças leve a uma exploração emocional das pessoas e desperte ainda mais a incompetência e a arrogância que já aconteceu nos tempos de guerra nuclear na Europa que se dizia que a nuvem vinda de Chernobyl tinha sido “barrada” na fronteira da França? Certamente, sabemos com que facilidade o fantasma do apocalipse sai de seu esconderijo para capturar o primeiro cataclismo que ocorre e para brincar com as imagens do dilúvio universal e para levar à culpa ao solo estéril de Sodoma e Gomorra.
A maldição divina foi um complemento útil ao poder. Pelo menos até o terremoto de Lisboa de 1755, quando o marquês de Pombal, amigo de Voltaire, aproveitou o terremoto para massacrar os jesuítas, reconstruir a cidade de acordo com suas ideias e liquidar com alegria seus rivais políticos através de testes “proto-estalinistas”. Não vamos a insultar Pombal, por mais odioso que seja, ao comparar seu golpe de estado ditatorial com as miseráveis medidas que o totalitarismo democrático atual aplica em todo o mundo à epidemia de coronavírus.
É muito cinismo culpar a disseminação da pandemia pela deplorável insuficiência dos recursos médicos utilizados! Durante décadas, o bem público foi esquecido e o setor hospitalar foi vítima de uma política que favorece interesses financeiros em detrimento à saúde dos cidadãos. Sempre há mais dinheiro para bancos e muito menos leitos e profissionais da saúde nos hospitais. Quais palhaçadas esconderão ainda mais sob o fato de que a gestão catastrófica, do que já é catastrofismo, é inerente ao capitalismo financeiro que é globalmente dominante; e que hoje luta globalmente em nome da vida, do planeta e das espécies a serem salvas.
Sem cair no ressurgimento do castigo divino, que é a ideia de que a Natureza se livra do Homem como um verme indesejável e prejudicial, não é inútil se lembrar que, por milênios, a exploração da natureza humana e da natureza terrestre impôs o dogma do anti-físico, da anti-natureza. O livro de Éric Postaire ‘Les Épidémies Du XXIe siècle’, publicado em 1997, confirma os efeitos desastrosos da desnaturalizão persistente, que venho denunciando há décadas. Referindo-se ao drama das “vacas loucas” (previsto por Rudolf Steiner já em 1920), o autor nos lembra que, além de estarmos indefesos contra certas doenças, percebemos que o próprio progresso científico pode causá-las. Em seu apelo por uma abordagem responsável das epidemias e seu tratamento, ele incrimina o que o prefeito Claude Gudin chama de “filosofia da caixa registrado”. Faz a seguinte pergunta: “Se subordinarmos a saúde da população às leis de benefício, a ponto de transformar animais herbívoros em carnívoros, não correremos o risco de causar catástrofes que seriam fatais para a Natureza e a Humanidade? Os governos, como sabemos, já responderam com um SIM unânime. Qual a importância disso já que o NÃO dos interesses financeiros continua a triunfar cinicamente?
O coronavírus foi necessário para demonstrar de maneira mais estreita que a desnaturalizão por razões de lucratividade tem consequências desastrosas para a saúde de todas as pessoas, saúde gerenciada sem desarmar a uma Organização Mundial cujas preciosas estatísticas explicam o desaparecimento de hospitais públicos? Existe uma clara correlação entre o coronavírus e o colapso do capitalismo global. Ao mesmo tempo, não é menos óbvio que o que está encobrindo e esmagando a epidemia de coronavírus é uma praga emocional, um medo histérico, um pânico que esconde a falta de tratamento e perpetua o mal ao assustar o paciente. Durante as grandes epidemias de pestes do passado, as pessoas faziam penitencia e se autoflagelavam para retirarem suas culpas. Não interessam aos gestores da desumanização global convencer as pessoas de que não há como escapar do destino miserável que lhes é imposto? Que tudo o que resta é o flagelo da servidão voluntária? A formidável máquina da mídia repete apenas repete a velha mentira do impenetrável e inescapável decreto celestial, no qual o dinheiro louco substituiu os Deuses do passado, os quais eram sedentos de sangue, instáveis e teimosos.
O desencadeamento da barbárie policial contra manifestantes pacíficos demonstrou amplamente que a lei militar é a única coisa que funciona efetivamente. Agora ela confina mulheres, homens e crianças à quarentena. Lá fora, o caixão; dentro da televisão, a janela aberta em um mundo fechado! É um condicionamento capaz de agravar o desconforto existencial, apoiando-se nas emoções desgastadas pela angústia, exacerbando a cegueira de uma raiva impotente.
Porém, mesmo a mentira dá lugar ao colapso geral. A cretinice estatal e populista atingiu seus limites. Não se pode negar que um experimento está sendo realizado. A desobediência civil está se espalhando e sonhando com sociedades radicalmente novas porque são radicalmente humanas. A solidariedade liberta a pele de ovelha individualista que cobria aos indivíduos, os quais não têm mais medo de pensar por conta própria.
O coronavírus se tornou o sinal revelador da falência do Estado. Pelo menos é algo que as vítimas de confinamento forçado devem pensar. Quando publiquei minhas “Modestes propositions aux grévistes”, alguns amigos me disseram como era difícil recorrer à recusa coletiva, que sugeri, para pagar impostos e taxas. Agora, no entanto, a comprovada falência do Estado corrupto é prova de um declínio econômico e social que está fazendo com que as pequenas e médias empresas, o comércio local, os pequenos proprietários, os agricultores familiares e até as chamadas profissões liberais absolutamente inadimplentes. O colapso do Leviatã conseguiu nos convencer mais rápido do que nossas resoluções para derrubá-lo.
O coronavírus fez ainda melhor. A cessação das atividades produtivas reduziu a poluição do mundo, salva milhões de pessoas da morte programada, a natureza respira, os golfinhos se divertem novamente na Sardenha, os canais de Veneza purificados do turismo de massa encontram água limpa, a bolsa de valores cai. A Espanha decide nacionalizar hospitais privados, como se redescobrisse a seguridade social, como se o Estado se lembrasse do Estado de bem-estar que ele mesmo destruiu.
Nada é dado como certo, tudo recomeça. A utopia continua caminhando por quatro patas. Vamos abandonar à sua inanidade celestial os bilhões de bilhetes e idéias vazias que circulam em nossas cabeças. O importante é “fazer nosso próprio negócio”, deixando que a bolha dos negócios se desfaça e imploda. Vamos tomar cuidado com a falta de ousadia e autoconfiança em nós mesmos!
Nosso presente não é o confinamento que a sobrevivência nos impõe, é a abertura a todas as possibilidades. É sob o efeito do pânico que o Estado oligárquico é forçado a adotar medidas que ontem declarou serem impossíveis. É o chamado da vida e da terra a serem restaurados que queremos responder. Quarentena incentiva a reflexão. O confinamento não suprime a presença da rua, ela a reinventa. Deixe-me pensar, com alguma ressalva, que a insurreição da vida cotidiana tem insuspeitas virtudes terapêuticas.
Terça-feira, 17 de março de 2020
Raoul Vaneigem
Tradução > Uma Mulher Anarquista
Fonte: https://lundi.am/Coronavirus-Raoul-Vaneigem
agência de notícias anarquistas-ana
Borboleta grande
Balançando comigo
Na rede do quintal.
Letícia Carlim de Oliveira – 9 anos
Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/03/31/franca-coronavirus-por-raoul-vaneigem/
quarta-feira, 18 de março de 2020
domingo, 15 de março de 2020
segunda-feira, 9 de março de 2020
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020
ALERTA! Um novo golpe contra Mumia Abu-Jamal – por A.N.A.
ALERTA! Um novo golpe contra Mumia Abu-Jamal
A Suprema Corte da Pensilvânia assume o controle do caso de Mumia Abu-Jamal.
Esta é sua resposta à petição para “alívio extraordinário” apresentada por Maureen Faulkner e a Ordem Fraternal da Polícia (FOP) o ano passado para bloquear as apelações de Mumia.
Nesta segunda-feira (27/02), a Suprema Corte do estado da Pensilvânia, um bastião direitista de racismo e corrupção, anunciou que designaria um ‘mestre especial’ para investigar se o Promotor progressista Larry Krasner tem um conflito de interesses no exercício do caso. Um porta-voz disse que a decisão final sobre o fundo da petição seria deferida até receber as recomendações do mestre.
Esclarecemos que Maureen é a viúva do policial branco Daniel Faulkner, assassinado em 9 de dezembro de 1981. Mumia foi injustamente condenado à morte por isto apesar de sua inocência. Passou quase três décadas no isolamento do corredor da morte.
Desde outubro de 2011, viveu em população geral com a sentença de prisão perpétua, lutando desde sua cela com suas palavras de resistência e solidariedade.
Cabe assinalar que Krasner originalmente havia rechaçado as apelações de Mumia, mas em setembro do ano passado deixou sua oposição e sua Promotoria aprovou uma audiência de provas para apresentar evidência favorável a Mumia que havia sido suprimida. Com isto, Faulkner e a FOP começaram a atacá-lo.
Em apoio a sua solicitação, os inimigos principais de Mumia fizeram o ridículo argumento que Krasner era um advogado que representava os movimentos sociais e que defendeu os manifestantes detidos por agressão à polícia e vandalismo durante a Convenção Nacional Republicana de 2000 na Filadélfia. Os manifestantes no momento também mostraram seu apoio para Mumia, pedindo sua liberdade da prisão.
Por isso, disseram Maureen e a FOP, Krasner mostrava um conflito de interesses no caso de Mumia.
Um porta-voz da Promotoria respondeu que estes argumentos não tem sentido e contêm falácias na lógica.
Os inimigos de Mumia sempre fizeram todo o possível para assassiná-lo de uma maneira ou de outra. Perderam todas as suas apelações recentes e esta nova manobra é um esforço a mais para assegurar que morra na prisão.
Para nós, Mumia é uma inspiração – mestre, jornalista, historiador, analista, companheiro e irmão amado. Agora redobraremos nossos esforços para ganhar sua liberdade!
FREE MUMIA NOW!
MUMIA LIVRE JÁ!
Tradução > Sol de Abril
Conteúdo relacionado:
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/02/11/eua-mumia-abu-jamal/
agência de notícias anarquistas-ana
tomando banho só
no riacho escondido –
cantos de bem-te-vis
Rosa Clement
Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/02/27/eua-alerta-um-novo-golpe-contra-mumia-abu-jamal/
A Suprema Corte da Pensilvânia assume o controle do caso de Mumia Abu-Jamal.
Esta é sua resposta à petição para “alívio extraordinário” apresentada por Maureen Faulkner e a Ordem Fraternal da Polícia (FOP) o ano passado para bloquear as apelações de Mumia.
Nesta segunda-feira (27/02), a Suprema Corte do estado da Pensilvânia, um bastião direitista de racismo e corrupção, anunciou que designaria um ‘mestre especial’ para investigar se o Promotor progressista Larry Krasner tem um conflito de interesses no exercício do caso. Um porta-voz disse que a decisão final sobre o fundo da petição seria deferida até receber as recomendações do mestre.
Esclarecemos que Maureen é a viúva do policial branco Daniel Faulkner, assassinado em 9 de dezembro de 1981. Mumia foi injustamente condenado à morte por isto apesar de sua inocência. Passou quase três décadas no isolamento do corredor da morte.
Desde outubro de 2011, viveu em população geral com a sentença de prisão perpétua, lutando desde sua cela com suas palavras de resistência e solidariedade.
Cabe assinalar que Krasner originalmente havia rechaçado as apelações de Mumia, mas em setembro do ano passado deixou sua oposição e sua Promotoria aprovou uma audiência de provas para apresentar evidência favorável a Mumia que havia sido suprimida. Com isto, Faulkner e a FOP começaram a atacá-lo.
Em apoio a sua solicitação, os inimigos principais de Mumia fizeram o ridículo argumento que Krasner era um advogado que representava os movimentos sociais e que defendeu os manifestantes detidos por agressão à polícia e vandalismo durante a Convenção Nacional Republicana de 2000 na Filadélfia. Os manifestantes no momento também mostraram seu apoio para Mumia, pedindo sua liberdade da prisão.
Por isso, disseram Maureen e a FOP, Krasner mostrava um conflito de interesses no caso de Mumia.
Um porta-voz da Promotoria respondeu que estes argumentos não tem sentido e contêm falácias na lógica.
Os inimigos de Mumia sempre fizeram todo o possível para assassiná-lo de uma maneira ou de outra. Perderam todas as suas apelações recentes e esta nova manobra é um esforço a mais para assegurar que morra na prisão.
Para nós, Mumia é uma inspiração – mestre, jornalista, historiador, analista, companheiro e irmão amado. Agora redobraremos nossos esforços para ganhar sua liberdade!
FREE MUMIA NOW!
MUMIA LIVRE JÁ!
Tradução > Sol de Abril
Conteúdo relacionado:
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/02/11/eua-mumia-abu-jamal/
agência de notícias anarquistas-ana
tomando banho só
no riacho escondido –
cantos de bem-te-vis
Rosa Clement
Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/02/27/eua-alerta-um-novo-golpe-contra-mumia-abu-jamal/
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020
Delbert Africa Livre! – por Mumia Abu-Jamal
Delbert Africa Livre!
O membro do MOVE Delbert Africa, encarcerado desde o
confronto do 8 de agosto de 1978, saiu de uma prisão no estado da Pensilvânia
após 42 anos.
Assim que saiu, Delbert, aos 69 anos, encontrou-se com
outros membros da Organização MOVE: Ramona, Pam, Janet, Janine, Mo, Mary,
Carlos e Consuelo Africa, que o receberam com um coro forte de ‘Viva John
Africa” e saudações do MOVE. Del estava animado e de bom humor, contando piadas
e comendo bolos.
O 8 de agosto de 1978 foi um dia infame pelo ataque à casa
coletiva do MOVE na comunidade Powelton Village, no oeste da Filadélfia.
Centenas de policiais dispararam milhares de balas contra a casa onde homens,
mulheres, meninas e meninos estavam no porão. Então eles jogaram canhões de
jatos de água, e o pessoal do MOVE teve que lutar para permanecer vivo naquele
lugar e não morrer afogado.
Ao sair da casa, Delbert foi espancado com fuzis por vários
policiais, pisoteado e brutalmente chutado.
Quando alguns dos policiais foram acusados de agredir Del,
eles não tinham com o que se preocupar. O juiz Stanley Kubacki ignorou os
vídeos do ataque e os livrou, mencionando, entre outras coisas, os músculos de
Delbert para justificar o espancamento.
Ironicamente, um dos policiais poderia ter tido mais sorte
se ele fosse mandado para a prisão, porque várias semanas após o julgamento,
sua própria esposa, também policial, atirou nele, deixando-o paralítico.
Delbert Africa, membro do MOVE, agora caminha livre após
passar 42 anos na prisão.
Desde a nação encarcerada, sou Mumia Abu-Jamal.
Segunda-feira, 20 de janeiro de 2020
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agência de notícias anarquistas-ana
Luz do luar –
As águas brilhando
no véu da cachoeira!
As águas brilhando
no véu da cachoeira!
Bruno Mateus da Silva Castanheira – 10 anos
Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/02/05/eua-delbert-africa-livre/
quarta-feira, 29 de janeiro de 2020
sexta-feira, 17 de janeiro de 2020
segunda-feira, 13 de janeiro de 2020
terça-feira, 7 de janeiro de 2020
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