quarta-feira, 24 de junho de 2020

MDC | John Wayne Was a Nazi (Do$age antifa breakcore ReMix) – por A.N.A.

MDC | John Wayne Was a Nazi (Do$age antifa breakcore ReMix)
MDC é uma banda de punk rock americana formada em 1979 na cidade de Austin, Texas, sempre alinhando sua sonoridade e letras com visões políticas radicais à esquerda.

Após entrar num hiato em 1995, o fundador/vocalista Dave Dictor retornou em 2000 com uma banda rotativa.

A eH se orgulha de colaborar com o MDC, lançando techno remixes atualizados de alguns de seus materiais clássicos.

Novidades da MDC: www.mdcpunkofficial.com

Declaração de Do$age sobre o porquê ela remixou esse clássico: a situação política atual.

“A pouco tempo um amigo veio me procurar em nome da banda MDC (Millions of Dead Cops) para que eu fizesse um remix da faixa John Wayne Was a Nazi (John Wayne era um nazista). Como um amante de longa data de hardcore punk, e anarquista, eu topei. Eu não fazia ideia de quão politicamente relevante viria a ser. Esperei para fazer uma declaração quando a track estivesse pronta, então poderia anunciar que qualquer lucro que ela gerar será revertido para apoiar o movimento Black Lives Matter, e outros do gênero. Continuem lutando, continuem protestante, continuem pressionando por mudanças. O mundo está assistindo agora, tenha cuidado, fiquem atentos. Estou tão orgulhosa de como comunidade de todo os Estados Unidos se uniram para lutar contra as sistemáticas injustiças cometidas pela polícia, e também estou tão feliz em contribuir de qualquer modo ao meu alcance” – Do$age 2o2o

Todos os lucros irão para o Black Lives Matter.

>> Escute o remix da faixa John Wayne Was a Nazi aqui:

https://mdcaustin.bandcamp.com/album/john-wayne-was-a-nazi-do-age-antifa-breakcore-remix

emergencyhearts.com

Tradução > AnarcoSSA

agência de notícias anarquistas-ana

um tufo de algodão
flutuando na água
uma nuvem

Rogério Martins

Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/06/23/eua-mdc-john-wayne-was-a-nazi-doage-antifa-breakcore-remix/

terça-feira, 23 de junho de 2020

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Hobsbawm nas margens – por Emile Chabal

Hobsbawm nas margens

A historiografia do marxismo costuma imaginar um pensamento essencialmente europeu se espalhando pelo mundo. No entanto, como demonstra o trabalho de Eric Hobsbawm, os avanços revolucionários na “periferia” podem remodelar profundamente o próprio pensamento dos marxistas ocidentais.
January 1976: The British historian Eric Hobsbawm. (Photo by Wesley/Keystone/Getty Images)

Não é por acidente que a história do pensamento marxista é dominada por um pequeno grupo de pensadores europeus. Ocasionalmente, há espaço para um Frantz Fanon ou um C.L. R. James, cujas origens estão fora da Europa. Em ocasiões muito raras, há uma discussão séria de teóricos marxistas que operaram inteiramente fora da Europa, como o peruano José Carlos Mariátegui ou a escola indiana de “estudos subalternos”. Mas a realidade é que os pensadores europeus predominam. Ainda hoje, a história do marxismo é normalmente contada em termos da difusão de ideias de um centro ocidental para uma periferia não-ocidental.

Tais desequilíbrios são quase inevitáveis, dados o prestígio e a influência desproporcionais do pensamento europeu ao longo do século vinte. Entretanto, eles também levantam questões específicas para a história do marxismo. Afinal, o pensamento e a prática marxistas tiraram grande parte de sua vitalidade de desenvolvimentos fora da Europa. Governos de inspiração marxista em países como Cuba, Vietnã e China representam sem dúvida a contribuição do marxismo para a política do século vinte, que foi pelo menos tão importante quanto as várias tentativas pós-1917 de fazer o comunismo funcionar na Europa.

Isso coloca o problema de como a história do marxismo pode ser reescrita para levar em conta seu alcance global. Uma maneira é simplesmente abrir mais espaço para ideias e personalidades não-ocidentais. Outra é virar a geografia do marxismo ocidental de cabeça para baixo. Isso significa reconhecer que, embora o pensamento marxista europeu canônico viajasse para os cantos mais distantes do globo, havia também uma jornada de retorno, pois as ideias articuladas na periferia reformulavam as do centro.

Dos muitos intelectuais marxistas do século XX que se beneficiaram dessa troca de ideias nos dois sentidos, um dos mais interessantes é o historiador Eric Hobsbawm. Ao contrário de muitos intelectuais europeus, ele procurou ativamente – e encontrou – uma audiência global. Seus livros e artigos de enorme sucesso provocaram debates em lugares tão diversos quanto Delhi, Cidade do México e Palo Alto, e ele podia se orgulhar de ter um longo relacionamento com partidos como o Partito Comunista Italiano (PCI). Perto do fim de sua vida, ele seria elevado ao status de ícone cultural inclusive no Brasil.

Mas esse sucesso global impressionante é apenas parte da história. As interações de Hobsbawm com o resto do mundo nunca assumiram tão somente a forma de contratos para escrever livros, dar palestras como keynote speaker e ter artigos seminais discutidos por estudantes entusiasmados. Pelo contrário, suas experiências vividas na “periferia” moldaram profundamente suas estruturas teóricas e históricas. A partir de meados da década de 1950, deram origem aos seus insights mais originais e penetrantes sobre três debates no coração do pensamento marxista: a definição do ator revolucionário, a noção de revolução propriamente dita e a estratégia preferida para os partidos de esquerda democráticos.

Encontrando um ator revolucionário na periferia da Europa

Hobsbawm sempre teve interesse no mundo extra-europeu, pelo menos desde a sua chegada à Grã-Bretanha em 1934. Como um jovem comunista, o imperialismo estava na vanguarda de seu pensamento. Durante seu envolvimento com os congressos globais de estudantes em Paris em 1937 e 1939, ele se aproximou de jovens revolucionários de todo o mundo colonial e conseguiu financiamento do King’s College, em Cambridge, para fazer um trabalho de campo sobre o problema agrário no norte da África francês no verão de 1938. Ele passou meses lá, conversando com oficiais coloniais e jovens comunistas, e observando o funcionamento interno do colonialismo francês.

Se não fosse pelo início da Segunda Guerra Mundial, Hobsbawm poderia ter escrito seu doutorado sobre aquela região. Mas a guerra e seu primeiro casamento restringiram seus horizontes, e ele foi ficando cada vez mais absorvido pelo mundo intelectual e político do comunismo britânico. Desde o final da guerra até 1956, este se tornou seu ponto de referência dominante. Embora ainda permanecesse interessado no imperialismo e na descolonização, seu principal lar intelectual nesse período – o Grupo de Historiadores do Partido Comunista – negligenciou amplamente o tópico, e poucos historiadores marxistas britânicos de sua geração se envolveram com desenvolvimentos intelectuais em outras partes da Europa, quanto mais em outros lugares.

As múltiplas crises de 1956 despedaçaram o mundo hermeticamente fechado do comunismo britânico. Por ter se recusado a deixar o Partido Comunista da Grã-Bretanha (CPGB), Hobsbawm ficou preso do lado de dentro, enredado entre ex-camaradas que não conseguiam entender sua decisão de ficar e uma hierarquia do partido que desconfiava dele. Em parte como uma maneira de escapar do ambiente político sufocante da época, ele renovou seu antigo interesse em processos históricos, sociais e políticos que estavam ocorrendo longe dos centros da vida intelectual europeia. Ele não retornou ao norte da África francês – que naquela época se encontrava em meio a uma violenta guerra anticolonial – mas voltou sua atenção para o sul da Itália e da Espanha. Essas regiões, muitas vezes negligenciadas pelos pensadores marxistas, forneceram a matéria-prima do primeiro livro original de Hobsbawm, o conjunto de ensaios que passaram a ser conhecidos como Primitive Rebels [Rebeldes Primitivos] (1959).

Primitive Rebels foi uma combinação de duas vertentes distintas no pensamento inicial de Hobsbawm. Primeiro, um interesse pelas experiências vividas por pessoas comuns, que já era visível em seus artigos sobre a classe trabalhadora inglesa; segundo, uma preocupação em identificar os atores revolucionários mais promissores da história europeia moderna. Embora todo o impulso argumentativo dos ensaios representasse uma visão leninista ortodoxa de que os “rebeldes primitivos” que comandavam revoltas rurais eram pré-políticos, incapazes de organização sustentada e necessitando da orientação de um partido de vanguarda, o foco da análise de Hobsbawm não foi lá muito ortodoxo.

Até a década de 1950, tanto marxistas quanto não-marxistas consideravam as rebeliões rurais do século dezenove e início do século vinte como pouco mais do que uma raiva incipiente e mal direcionada. Hobsbawm, entretanto, fez um esforço sustentado para explicar as queixas econômicas e sociais dos rebeldes rurais, e escreveu com sensibilidade sobre suas façanhas. Ele reconheceu que as rebeliões primitivas não eram políticas no sentido marxista, mas acreditava firmemente no valor de estudá-las como formas de protesto que poderiam fornecer a matéria-prima para políticas revolucionárias subsequentes.

É impossível entender esse interesse inesperado na vida interior dos rebeldes rurais esquecidos sem apreciar o crescente envolvimento de Hobsbawm com a Espanha e a Itália nesse período. No início dos anos 1950, ele visitou a Espanha pela primeira vez e começou a fazer viagens regulares à Itália, onde foi apresentado a uma geração de intelectuais entusiasmados do PCI e trabalhadores do partido. Ele usou essas conexões para viajar para partes do sul da Itália e do sul da Espanha, na época lar de algumas das populações mais pobres da Europa Ocidental. Durante o tempo que passou lá, ele se esforçou para conversar com os habitantes locais sobre suas memórias e suas condições de vida, usando seu parco conhecimento de italiano e espanhol. Ele anotou essas conversas e, ao retornar à Grã-Bretanha, buscou trabalhos acadêmicos que sustentassem as ideias dispersas que ele havia adquirido em suas viagens.

Seu trabalho não tinha nada de sistemático. Pelos padrões de hoje, seu trabalho de campo não era rigoroso nem extenso. Na melhor das hipóteses, era o que se esperava que um jornalista estrangeiro fizesse enquanto pesquisava uma matéria – e, de fato, ele frequentemente escrevia sobre suas viagens em publicações como a New Statesman. Mesmo assim, suas viagens começaram a influenciar suas inclinações teóricas. Ele ainda acreditava na primazia da base econômica e sustentava que a rebelião primitiva era primitiva de fato. No entanto, seus encontros reforçaram seu senso da importância vital das tradições, práticas, histórias e experiências locais. E a maneira como ele escreveu sobre seus temas estabeleceu caminhos alternativos para a revolução, abrindo a porta para novos atores revolucionários.

Assim, as experiências de Hobsbawm na periferia desempenharam um papel central em sua reinterpretação da teoria marxista em Primitive Rebels, bem como em sua continuação, Bandidos, publicada originalmente em 1969. Após a amarga desilusão de 1956, as histórias esquecidas da Europa periférica ofereceram a possibilidade de renovação, sem perturbar uma hierarquia do CPGB que não tinha nenhum interesse nas canções folclóricas dos camponeses da Sardenha ou dos agricultores andaluzes. Seus encontros casuais nas praças das aldeias não foram apenas um produto da curiosidade de Hobsbawm. Ele os usou para refletir sobre a prática revolucionária sem se desviar para as discussões mais carregadas entre os historiadores marxistas ocidentais da época, como os debates em torno da transição da Inglaterra do feudalismo para o capitalismo ou a dinâmica de classes da Revolução Francesa.

Repensando a revolução a partir da América Latina

Hobsbawm encontrou a América Latina em etapas. Ele fez visitas rápidas a Cuba em 1960 e em 1961, como parte da onda de intelectuais europeus que queriam ver pessoalmente a revolução de Fidel. Mas seu primeiro envolvimento profundo com a região ocorreu em uma viagem de campo de três meses à América do Sul, financiada pela Fundação Rockefeller, no final de 1962. Sua viagem seguiu um padrão semelhante ao de suas viagens anteriores à Espanha e Itália. Em vez de passar muito tempo num lugar só, ele pulava de cidade em cidade, passando algumas semanas em cada. Ao longo de 1962, viajou para Recife e Rio de Janeiro, Buenos Aires, Santiago, Lima, Bogotá, La Paz e Caracas. Em cada cidade, ele organizava um encontro e conversava com acadêmicos e ativistas de esquerda. Quando tinha sorte, era apresentado a trabalhadores e sindicalistas, ou era levado a áreas mais rurais para conhecer camponeses, indígenas ou qualquer outra pessoa que quisesse conversar com um curioso historiador britânico.

Hobsbawm continuou a visitar a América Latina nos anos seguintes. Isso incluiu sua viagem ao Congresso Cultural em Havana, em 1968, e visitas frequentes ao Brasil nos anos 1970. Uma bolsa de estudos de longa duração na Universidad Nacional Autónoma de México, no início de 1971, foi seguida por um breve período de pesquisa no Peru naquele verão. Na década de 1980, ele havia parado de tentar fazer qualquer pesquisa na região, mas sua fama crescente significava que ele não precisava mais de uma desculpa para viajar até lá. Até sua morte em 2012, ele fazia visitas frequentes e cada vez mais bem-sucedidas a vários países da América Latina, geralmente de modo a coincidir com a publicação de algum de seus livros.

Dada a escassez de pesquisas de arquivo e de campo que Hobsbawm fez na América Latina, ele tomou cuidado para não afirmar que era um especialista na região. Mas, num momento em que o interesse pela região estava crescendo e não havia muita coisa escrita em inglês sobre a América Latina, ele foi rapidamente rotulado como especialista. Ele era contratado para escrever artigos sobre a situação política em vários países da América Latina – tarefa para a qual ele estava mais do que preparado devido a seus talentos jornalísticos – enquanto as associações britânicas de estudantes universitários o convidavam a explicar a dinâmica da Revolução Cubana ou das rebeliões camponesas.

Esse processo de se tornar um especialista regional, quase por acidente, ampliou a posição da América Latina nas constantes reformulações de Hobsbawm da teoria marxista. Em seu pedido de bolsa à Fundação Rockefeller, em 1962, ele argumentou que queria visitar a América Latina para estudar movimentos sociais primitivos, como uma continuação direta de seu trabalho anterior sobre rebelião primitiva. Mas, na década de 1970, seus horizontes haviam se expandido para envolver uma série de debates sobre a história e a política latino-americanas. Isso o incentivou a repensar a ideia de revolução num momento em que as perspectivas revolucionárias na Europa pareciam ter se retraído.

O envolvimento crítico de Hobsbawm com o histórico revolucionário latino-americano era visível em seus dois artigos acadêmicos mais substanciais sobre a região. O primeiro, publicado em 1969, se concentrou na rebelião camponesa na região de La Convención, no Peru, liderada pelo revolucionário dissidente Hugo Blanco; o segundo, publicado em 1974, era um estudo mais amplo sobre ocupações de terras camponesas na serra central do Peru, com base em milhares de documentos recuperados por um grupo de jovens pesquisadores de haciendas que estavam sendo transformadas em fazendas cooperativas. Como muitos críticos apontaram, ambos os artigos se apegavam às estruturas marxistas ortodoxas da ação revolucionária camponesa como pertencente a uma fase pré-política do desenvolvimento. Mas, como no caso de seus escritos sobre a Itália e a Espanha, o domínio que Hobsbawm tinha dos detalhes contextuais e sua óbvia simpatia por muitas das figuras-chave desmentiram essa interpretação mais rígida. Em meio à cuidadosa análise dos preços dos alimentos e dos padrões de concessão da terra, ele viu o potencial de uma transformação social revolucionária nas ações dos camponeses latino-americanos.

As experiências de Hobsbawm na América Latina também confirmaram sua visão do que a revolução não deveria ser. Seu encontro com movimentos radicais de esquerda (e seus seguidores na Europa) cimentou sua hostilidade de longa data em relação a estratégias baseadas em anarquistas e guerrilheiros. Ele criticou consistentemente as tentativas cubanas de incitar a revolução em diferentes partes do continente depois de 1959, e desdenhou a ideia de uma revolução espontânea do campesinato. Pelo contrário, ele chegou a acreditar que sociedades latino-americanas altamente estratificadas e desiguais só alcançariam a revolução através do Estado. Foi isso que o levou a apoiar a ditadura militar “progressista” do Peru, liderada por Juan Velasco Alvarado de 1968 a 1975. Num artigo importante publicado pela New York Review of Books em 1971, Hobsbawm argumentou que o Peru sob Velasco estava passando por uma “revolução peculiar”. Foi, em suas palavras, uma “transformação da estrutura econômica, social e institucional” do país, mas que não envolvia “nenhuma mobilização em massa de forças populares”.

Esse apoio aberto a um regime militar foi um choque para os interlocutores peruanos de Hobsbawm, muitos dos quais acreditavam que uma ditadura militar só poderia significar um desastre para a esquerda. Mas isso tipificava sua tentativa de lidar com o problema da revolução à luz de suas viagens. Hobsbawm reconhecia que as perspectivas de revolução eram boas na América Latina na década de 1960, mas também sabia que os partidos comunistas organizados eram fracos, e o fantasma do autoritarismo de direita estava sempre presente. O regime de Velasco, comprometido com uma extensa reforma agrária, a nacionalização da extração de recursos e uma certa redistribuição de riqueza, oferecia um meio-termo adequado. Era antidemocrático, mas prometia abordar as queixas legítimas de um campesinato rural empobrecido e semifeudal sem esbarrar no beco sem saída idealista da política guerrilheira guevarista.

Essa visão híbrida da revolução casou os reflexos comunistas ortodoxos de Hobsbawm com um reconhecimento da situação desesperadora das massas. É improvável que ele tivesse criado tal estrutura se não tivesse sido exposto à escala de desigualdade socioeconômica que existia na América Latina na década de 1960, algo que frequentemente mencionava em suas anotações de campo e nos artigos jornalísticos que escreveu após seu retorno. Os lugares que ele visitou, as pessoas que conheceu em trens e ônibus e as entrevistas que conduziu com acadêmicos e intelectuais de esquerda o forçaram a reavaliar as condições sob as quais a revolução poderia acontecer e a forma que ela poderia assumir. Ao contrário de muitos marxistas europeus mais jovens, ele nunca foi seduzido pela promessa da revolução global. Mas ele se livrou de algumas de suas suposições mais rígidas sobre como seria uma revolução social de sucesso.

O socialismo democrático nos anos 1980

No final da década de 1970, Hobsbawm provocou uma grande controvérsia na esquerda britânica com sua palestra “A Marcha Adiante do Trabalho Parou”, que mais tarde foi publicada como um artigo na revista do CPGB, Marxism Today, que havia sido revitalizada. O argumento dele era simples: o desenvolvimento do movimento trabalhista britânico, que fora tão crucial para o surgimento do Partido Trabalhista no início do século XX, havia estagnado em algum momento nas décadas de 1950 e 1960. Desde então, a classe trabalhadora tornou-se mais fragmentada e suas expressões sindicais mais fracas.

Essa intervenção provocou uma tempestade de críticas, especialmente daqueles que viam o aumento da atividade sindical no final da década de 1970 como um indicador de força. Mas o advento do governo conservador de Margaret Thatcher, em 1979, deu força renovada ao argumento de Hobsbawm. Seu neoliberalismo forte, as sucessivas derrotas eleitorais do Partido Trabalhista e o esmagamento da greve dos mineiros sugeriram que o movimento trabalhista britânico havia pisado no freio. Como alguém que foi creditado por “prever” o triunfo do Thatcherismo, Hobsbawm se viu cada vez mais envolvido em debates sobre as futuras estratégias da esquerda.

Para Hobsbawm, a resposta para a crise da esquerda britânica na década de 1980 foi a mesma que ele sempre deu, a saber, que diferentes tendências deveriam unir forças em uma frente unida para derrotar Thatcher. Essa posição estratégica foi um produto de sua política estudantil no final da década de 1930. Até o final da vida, Hobsbawm permaneceu francamente nostálgico com relação a estratégia de frente popular de sua juventude, quando os comunistas tentaram construir amplas alianças contra o fascismo. Ele acreditava seriamente que a esquerda não poderia vencer num contexto democrático europeu sem deixar de lado suas diferenças e lutar juntos para derrotar a direita. Ele estava tão comprometido com essa estratégia que, ao longo dos anos 1980, comparou Thatcher a Hitler repetidamente. Ele sempre acrescentava advertências à sua comparação, mas era um argumento surpreendentemente histórico para alguém que havia passado pela ascensão de Hitler ao poder e era historiador profissional da Europa moderna.

Por tudo que Hobsbawm enfatizou o valor de uma estratégia de frente popular entre as guerras, os exemplos contemporâneos de unidade de esquerda em que ele se baseava foram frequentemente retirados da periferia europeia e global. Em seus esforços para convencer o movimento trabalhista britânico a deixar de lado seus debates insulares e buscar mais inspiração no exterior, ele apontou não apenas para a esquerda unida na França (que chegou à presidência o cargo em 1981), mas também para exemplos da Espanha e da Itália. De modo crucial, no final da década de 1980, esses pontos de referência foram complementados pelo do Partido dos Trabalhadores do Brasil.

Com a atrofia da esquerda europeia na década de 1990 – especialmente na França e na Itália – Hobsbawm passou a considerar que a esquerda brasileira era o exemplo preeminente de uma estratégia bem-sucedida de frente unida. Ele ficou feliz em admitir sua admiração aberta pelo PT e reconheceu a composição social excepcionalmente ampla do partido, que refletia a ampla base social que a PCI da Itália havia alcançado nos auge das décadas de 1960 a 1970. Ele também comentou repetidamente o fato de o PT ser, na época, o único partido de esquerda de sucesso no mundo liderado por um trabalhador industrial de verdade, o carismático Luiz Inácio Lula da Silva. Ele até confessou que carregava consigo um chaveiro do PT nos últimos anos, um reconhecimento íntimo de sua ligação emocional com o partido.

Além do PT, Hobsbawm demonstrou um grande interesse pelo destino do movimento comunista na Índia. Na década de 1990, a Índia tinha um dos maiores movimentos comunistas do mundo, com décadas de experiência no governo democrático nos grandes estados de Bengala Ocidental e Kerala. Apesar da fragmentação do movimento comunista da Índia e do surgimento de uma violenta rebelião de inspiração maoísta no sul e leste do país na década de 1960, para Hobsbawm, o comunismo indiano era outro exemplo de estratégia de esquerda unida de base ampla e popular que podia se orgulhar de realizações concretas nas urnas.

Se por um lado o reflexo de frente popular de Hobsbawm era firmemente europeu em seus pontos de referência, por outro lado os exemplos que ele citou não vieram principalmente dos centros tradicionais do pensamento marxista. Em vez disso, eles vieram das experiências que ele discutira ou testemunhara além das margens da Europa. Na década de 1980, mesmo quando ancorava suas intervenções nos debates que ocorriam na esquerda britânica, ele também se baseava nas práticas marxistas em países tão distantes como Brasil e Índia. Nessa década, como na década de 1950, as experiências de Hobsbawm na periferia formaram suas intervenções estratégicas e moldaram sua imaginação política.

Abertura para o futuro

Enfatizar o papel da periferia ao longo da carreira de Hobsbawm não significa ignorar as muitas outras influências em seu trabalho. Simplesmente ajuda a pintar uma imagem mais completa de sua trajetória intelectual e a dar uma melhor noção da circulação de ideias marxistas na segunda metade do século XX. Ao dar o devido peso a encontros fugazes com camponeses da Calábria, trabalhadores mexicanos, agricultores peruanos, bandidos argentinos e comunistas indianos, podemos ver as interações de Hobsbawm com a periferia como mais do que uma série de encontros exóticos. Em vez disso, eles se tornam uma parte central de sua visão do que era a esquerda e do que ela poderia vir a ser.

Assim como seu próprio trabalho influenciou milhares de marxistas em lugares inesperados, também seu envolvimento com diferentes partes do mundo moldou profundamente seu próprio marxismo. Para Hobsbawm, a periferia nunca foi periférica. Era um laboratório empolgante para a elaboração de ideias marxistas – um laboratório que oferecia um futuro potencialmente mais dinâmico e aberto para a visão comunista com a qual ele permaneceria para sempre comprometido.

Tradução: Fábio Fernandes

Emile Chabal é um historiador na Universidade de Edimburgo. Ele trabalha na história política e intelectual européia do século XX, com um interesse especial na França.

Fonte: https://jacobin.com.br/2020/06/hobsbawm-nas-margens/

Angela Davis: ''Sabíamos que o papel da polícia era proteger a supremacia branca'' - por Lanre Bakare

Angela Davis: ''Sabíamos que o papel da polícia era proteger a supremacia branca'' 

A veterana ativista dos direitos civis fala sobre crescer num país segregado, a oportunidade do movimento 'Black Lives Matter' e o que a inspira a continuar lutando
Créditos da foto: Angela Davis fala em uma manifestação, em 1974 (Bettmann/Bettmann Archive)

É 1972, e Angela Davis está respondendo a uma pergunta sobre se aprova o uso da violência pelos Panteras Negras. Ela está sentada contra um fundo de tijolos azul-claro, a parede de uma cela da prisão estadual da Califórnia. Vestida com um suéter vermelho de gola rolê, com o cabelo afro que é sua marca registrada e um cigarro aceso, ela olha para o entrevistador sueco – quase através dele – enquanto responde: “Você me pergunta se eu aprovo a violência? Isso não faz nenhum sentido. Se eu aprovo as armas? Cresci em Birmingham, Alabama. Alguns amigos muito, muito próximos, foram mortos por bombas – bombas plantadas por racistas. Lembro-me, desde que era muito pequena, do som de bombas explodindo do outro lado da rua e da casa tremendo... Por isso, quando alguém me pergunta sobre violência, acho incrível porque significa que a pessoa que faz essa pergunta não tem a menor ideia do que os negros vivem e pelo que passam neste país desde o momento em que a primeira pessoa negra foi sequestrada na costa da África.”

Assistir ao pequeno trecho explica o ícone Davis em um instante: a imagem, a intenção, a inteligência. Ela foi imortalizada no documentário de 2011 The Black Power Mixtape, e trechos da entrevista foram compartilhados nas redes sociais desde que o assassinato de George Floyd por um policial de Minneapolis provocou protestos globais contra a violência policial. Seu livro de 1981, Mulheres, Raça e Classe, está sendo largamente compartilhado como uma leitura essencial para quem quer aprender sobre ser ativamente antirracista, ao lado de Da próxima vez, o fogo, de James Baldwin, e da autobiografia de Frederick Douglass.

Aos 76 anos, ela fala, via Zoom, de seu escritório na Califórnia. Pergunto se ela sente que hoje, depois de tantos anos, mudanças significativas são possíveis? “Bem, é claro que (as coisas) podem mudar", diz. "Mas não é garantido”. Seu tom é compreensivelmente cauteloso, já que ela viu tudo, desde a rebelião de Watts e a guerra do Vietnã até Ferguson e a guerra do Iraque. "Depois de muitos momentos de tomada de consciência dramática e tantas possibilidades de mudança, os tipos de reformas instituídas nos períodos subsequentes impediram o potencial radical de se concretizar."

Ela está, de forma geral, entusiasmada pelos vastos protestos desencadeados pela morte de Floyd. Embora tenha havido grandes protestos em 2014 – após a morte de Michael Brown, entre outros, como Tamir Rice, Sandra Bland e Eric Garner – Davis acha que, desta vez, algo mudou. Desta vez, os brancos estão começando a entender.

"Nunca vimos manifestações contínuas, deste tamanho e tão diversas", diz Davis. “Acho que é isso que está dando muita esperança. Muita gente, recentemente, em resposta ao slogan Black Lives Matter, perguntou: ‘Mas não deveríamos na verdade dizer que todas as vidas importam?’ Agora, finalmente, estão entendendo. Que enquanto os negros forem tratados dessa maneira, enquanto a violência do racismo existir, ninguém estará seguro.”

Se alguém é capaz de fazer uma análise da situação atual é Angela Davis. É uma intelectual que milita há cinco décadas pela justiça racial, mas as causas que defende – reforma penitenciária, desfinanciamento da polícia, reestruturação do sistema de fiança – eram até recentemente consideradas radicais demais para o pensamento político dominante. Havia o sentimento de que ela estava parada no tempo; que pertencia a uma categoria dos anos 60, chamada radical chique, e que suas ideias estavam ultrapassadas. Em um perfil escrito em 2016, um entrevistador do Wall Street Journal perguntou aos colegas se sabiam quem era Angela Davis. Ninguém com menos de 35 anos sabia.

Angela Davis pode ter se tornado um ícone da luta por justiça social 50 anos depois de se tornar conhecida, mas ela afirma que a troca com a nova geração de manifestantes e pensadores políticos é de mão dupla. "Vejo esses jovens tão inteligentes, que aprenderam com o passado e trazem novas ideias", diz ela. “Vejo-me aprendendo muito com pessoas 50 anos mais novas que eu. Para mim, é motivo de entusiasmo. E me faz querer continuar na luta”.

"Acho realmente importante ressaltar que, embora a imensidão dessa resposta seja nova, as lutas não são novas", diz. Davis não quer que o impacto da organização comunitária, das oficinas educacionais e dos bancos de alimentos – o trabalho de base iniciado pelos Panteras Negras nos anos 1960 – seja ignorado agora. "As lutas estão sendo travadas há muito tempo", acrescenta. "O que vemos hoje é resultado de um longo trabalho que não recebe necessariamente a atenção da mídia".

Davis cita a militarização da polícia dos EUA após o Vietnã e o potencial para uma reforma penitenciária após a rebelião na prisão de Attica, em 1971, que não se materializou, pelo menos não da forma como ela imaginou. A população carcerária dos EUA explodiu de cerca de 200 mil, na época dos eventos de Attica, para mais de um milhão de prisioneiros em meados dos anos 1990. “Olhando para trás, percebemos que as reformas na verdade ajudaram a consolidar a própria instituição e a torná-la mais permanente”, diz ela. “Esse é o medo agora”.

Então, que conselho daria ao movimento Black Lives Matter? "A coisa mais importante, do meu ponto de vista, é começar a expressar ideias sobre o que podemos fazer a seguir", diz.

Esta é, obviamente, uma grande questão e difícil de responder no calor dos crescentes protestos em todo o mundo. Uma coisa que Davis deixa clara é que momentos como o incêndio de uma delegacia em Minneapolis ou a remoção da estátua de Edward Colston em Bristol não são a resposta final. "Independentemente do que as pessoas pensem, isso não trará mudanças reais", diz ela sobre a remoção da estátua. "É a organização. É o trabalho. Se as pessoas continuarem esse trabalho, se continuarem se organizando contra o racismo e propondo novas formas de pensar a transformação de nossas respectivas sociedades, haverá mudanças”.

Angela Yvonne Davis nasceu em Birmingham, Alabama, em 1944. Na época, o Alabama era controlado pelo político e notório supremacista branco Bull Connor. Davis era amiga de algumas das meninas mortas no atentado à igreja Batista da 16th Street, em 1963 – um ato de terrorismo da Ku Klux Klan que matou quatro meninas e pelo qual nenhum processo foi instaurado até 1977. “Nós sabíamos que o papel da polícia era proteger a supremacia branca”, diz Davis.

Ela se mudou para Nova York aos 15 anos para fazer o ensino médio, foi para a Alemanha Ocidental estudar filosofia e marxismo com Herbert Marcuse na escola de Frankfurt e, de volta aos EUA no final dos anos 1960, atuava nos Panteras Negras e era membro do Partido Comunista. Seu vínculo com o comunismo fez com que o então governador da Califórnia, Ronald Reagan, a demitisse do cargo de professora assistente de filosofia da UCLA.

Então, em 1970, as coisas mudaram bruscamente. Uma espingarda comprada legalmente por ela foi usada em uma tentativa de fuga de um tribunal. Um juiz, que havia sido feito refém, foi morto, assim como Jonathan Jackson – o estudante que armou a tentativa de fuga – e os dois réus. Davis foi acusada de "sequestro agravado e assassinato em primeiro grau" por ter comprado a arma. Ela entrou na clandestinidade e foi presa em Nova York. Aretha Franklin ajudou a dar visibilidade a seu caso, oferecendo-se para pagar sua fiança, os Rolling Stones e John Lennon escreveram canções sobre ela, ela se tornou uma causa célebre em todo o mundo e foi absolvida das acusações após passar 18 meses na prisão. O episódio transformou Davis de uma líder acadêmica e comunitária radical em uma figura internacional de todo tipo de ativismo político. "Agradeço muito por ainda estar viva", diz Davis. "Porque sinto que testemunho tudo isso por todos aqueles que não chegaram até aqui."

Ela sabe o quão perto chegou de não sobreviver. Quando a entrevista de 1972 aconteceu, ela ainda estava presa e era acusada de assassinato, e poderia – em tese – ter sido executada. Muitos dos companheiros Panteras de Davis tiveram mortes violentas nas mãos do estado: Fred Hampton foi morto em uma invasão policial em Chicago, enquanto Bobby Hutton foi baleado enquanto se rendia em Oakland (Marlon Brando fez um discurso em sua homenagem). Muitos ainda estão na prisão (Mumia Abu-Jamal) ou no exílio (Assata Shakur). "Sei que eu poderia ser um deles... vários sucumbiram", diz Davis. “Eu poderia estar na prisão, poderia ter sido condenada a passar o resto da vida atrás das grades. E minha vida foi salva apenas por causa de um movimento e organizado no mundo todo. Então, de certa forma, meu trabalho permanente se baseia na consciência de que eu não estaria aqui se muitas pessoas não tivessem feito o mesmo tipo de trabalho por mim. E continuarei a fazer este trabalho até o dia da minha morte".

Um dos princípios fundamentais da vida de Davis após a prisão é garantir que a contribuição das mulheres para a luta pelos direitos civis não seja ignorada. É algo que ela vê ecoando hoje, quando se luta para que as mulheres vítimas da violência policial – pessoas como Breonna Taylor, baleada e morta pela polícia em Louisville, Kentucky, depois de arrombarem seu apartamento – ganhem a mesma visibilidade que os homens. "Essa masculinização da história remonta a décadas e séculos", diz Davis. "Discussões sobre linchamento, por exemplo, geralmente deixam de registrar não apenas que muitas das vítimas de linchamento eram mulheres negras, mas também que quem lutava contra o linchamento eram mulheres negras, como Ida B. Wells."

"Acho que é importante entender por que acontece essa tendência às representações masculinas de luta, e por que não reconhecemos que as mulheres sempre estiveram no centro dessas lutas, seja como vítimas ou como organizadoras".

Não são apenas as ideias de Davis sobre reforma da polícia e justiça social que estão ocupando espaço; suas ideias sobre como essa mudança pode ocorrer vêm se mostrando igualmente influentes. Há décadas, ela promove o pensamento feminista que rejeita uma liderança política e formas de resistência hipermasculinas. Ela acha que os movimentos Occupy e Black Lives Matter, que não deram ênfase a um líder ou, em alguns casos, até formaram grupos de liderança reconhecíveis, abrem novos caminhos.

"Tem gente que pergunta: 'Onde está o Martin Luther King de hoje?', 'Onde está o novo Malcolm X?' ',' Onde está o próximo Marcus Garvey? '", diz. “E, é claro, quando pensam em líderes, pensam em carismáticos homens negros. Mas a forma de organização radical mais recente entre os jovens, que tem sido um tipo feminista de organização, enfatiza a liderança coletiva.”

Mas não haveria uma tensão entre os ideais de coletividade de Davis e seu próprio status? "Não consigo me levar muito a sério", diz ela. “Digo isso sempre. Nada teria acontecido se dependesse só de mim como indivíduo. Foi o movimento e o impacto do movimento.”

Davis já tentou levar esse movimento para o mainstream antes. Ela foi candidata a vice-presidente pelo Partido Comunista dos EUA em 1980. Em uma palestra em 2006, ela se desesperou com o governo George W. Bush, e hoje nem consegue dizer o nome de Trump, optando pelo "atual morador da Casa Branca". Será que a democracia americana tem espaço hoje para ideias radicais sobre mudanças sociais? "Acho que não", diz Davis. "Não com a liderança das atuais formações políticas – não com os Democratas e certamente não com o Partido Republicano."

Mas e os democratas se ajoelhando e vestindo tecidos kente para mostrar solidariedade? Nancy Pelosi e outros democratas proeminentes usaram o tecido ganês, dado a eles pela bancada negra do Congresso, para mostrar “solidariedade” com os afro-americanos, uma base eleitoral crucial da qual seu candidato à presidência, Joe Biden, vem tentando se aproximar. "Isso é porque eles querem estar do lado certo da história", diz Davis, com desdém. "Não necessariamente porque farão a coisa certa."

Às vezes, Davis conta em suas palestras que, quando criança em Birmingham, perguntava à sua mãe por que não podia ir ao parque de diversões ou bibliotecas segregadas. Sua mãe, ativista igualmente, explicava como a segregação funcionava, mas não parava aí. "Ela sempre nos dizia que as coisas mudariam", diz Davis. “E que eles mudariam, e que poderíamos fazer parte dessa mudança. Assim, quando criança, aprendi a viver sob a segregação racial, mas ao mesmo tempo, a viver em um novo mundo imaginado e a perceber que as coisas não seriam para sempre como eram”.

"Minha mãe sempre nos dizia: 'Não é assim que as coisas deveriam ser, não é assim que o mundo deveria ser.'"

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Clarisse Meireles

Fonte: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Antifascismo/Angela-Davis-Sabiamos-que-o-papel-da-policia-era-proteger-a-supremacia-branca-/47/47890

Desmistificando o pensamento anarquista através de Bakinin – por Murillo Heinrich Centeno

Desmistificando o pensamento anarquista através de Bakinin
No dia 30 de maio de 1814 nascia o revolucionário, filósofo e sociólogo Mikhail Aleksandrovitch Bakunin, um dos principais fundadores da tradição social anarquista, considerado uma das figuras mais importantes dentro do anarquismo. Sua influência e prestígio lhe consolidaram como um dos ideólogos mais famosos de sua época e seu legado lhe conferiu status um tanto quanto lendário, de modo que sua imagem é um símbolo do antiautoritarismo.

Com um gênio notadamente radicalista, Bakunin veio a ser preso em 1849 por conta de sua participação na rebelião checa no ano anterior, tendo passado posteriormente também por um campo de trabalho na Sibéria. Viria a se livrar apenas em 1957, quando consegue fugir para o Japão. Sua experiência com o cárcere indiscutivelmente contribuiu com o desenvolvimento do seu pensamento antiautoritário.

Ao não reconhecer outra autoridade absoluta que não seja a da ciência absoluta, não comprometemos de forma alguma nossa liberdade. (BAKUNIN, 2002, p.34).

A exemplo do trecho supra, defendia acima de tudo a liberdade, tanto individual quanto coletiva – sendo estas complementares uma à outra, como duas faces de uma moeda –, bem como ideais de coletivismo (apoio mútuo, possibilidade dos indivíduos de gerenciarem suas relações de forma livre), antiestadismo, anticapitalismo, ateísmo, etc. Também se colocava contra a ditadura do proletariado nas formas propostas por pensadores como Karl Marx, uma vez que via a autoridade (principalmente quando composta na forma de Estado), a hierarquia e as consequentes relações de submissão como o cerne da problemática social.

Ferrenho crítico da teoria marxista, Bakunin foi pioneiro em apontar uma grande falha no raciocínio do pensador: o fato de que a tomada de poder pelo proletariado não resolveria a crise social, uma vez que a nova dinâmica de poder acabaria mantendo as injustiças e opressões, trocando-se apenas os detentores do poder e mantendo-se a estrutura que em última análise é responsável pelo problema, qual seja, o Estado.

Após a entrada de Bakunin para a Associação Socialista Internacional dos Trabalhadores (AIT) em 1868, sua influência se expandiu de maneira viral, ocasionando uma divisão entre aqueles que defendiam seu pensamento anarquista (em prol da substituição do Estado por federações locais de trabalho autônomo) em contrapartida ao pensamento de Marx, que, conforme acima mencionado, defendia a utilização do Estado de forma autoritária para viabilizar e implantar o modelo socialista – que em sua concepção seria apenas a continuação da opressão dos trabalhadores e camponeses.

A desavença entre os grupos de seguidores e os próprios líderes teve seu ápice evidenciado no Congresso de Haia de 1872, onde Marx expulsou Bakunin e seu grupo da organização. Neste momento histórico ocorreu a cisão entre anarquistas, comunistas e sociais democratas.

Conforme alhures sublinhado, Bakunin se posicionava contra qualquer tipo de autoridade, independente da sua origem – Estado, religião, etc. – pois acreditava que os homens deveriam se relacionar fora de um contexto de hierarquia forçada, onde a espinha dorsal das relações humanas seria a livre convenção ou autogestão descentralizada. Seus ideais influenciaram diversos acontecimentos políticos, especialmente a Revolução Espanhola, assim como a insurreição anarquista do Rio de Janeiro em 1918.

Será necessário fundar toda a educação das crianças e sua instrução sobre o desenvolvimento científico da razão, não sobre o da fé; sobre o desenvolvimento da dignidade e da independência pessoais, não sobre o da piedade e da obediência; sobre o culto da verdade e da justiça e, antes de tudo, sobre o respeito humano, que deve substituir, em tudo e em todos os lugares, o culto divino. (BAKUNIN, 2002, p.40).

Com efeito, se torna indispensável desmistificar o viés preconceituoso e deveras equivocado que se tem em relação ao anarquismo, que é considerado pela grande maioria das pessoas como sinônimo de desordem, desorganização e caos. Esta forma pejorativa que surge automaticamente quando se trata do tema impede que se possa ter uma discussão mais séria e abrangente sobre o assunto.

A verdade é que a essência do anarquismo em nada faz jus a este etiquetamento enviesado: a busca pela queda do Estado como instituição não necessariamente remete a um contexto caótico e sem leis; muito pelo contrário, a proposta de livre organização em comunidades não regidas pela autoridade estatal tem um potencial muito forte de prosperar. Data máxima vênia, muito embora existam críticas válidas e contundentes – afinal a perfeição é inalcançável – o ideal do pensamento anarquista se mantém irrefutado.

Outro ponto que merece ser abordado é o de que o anarquismo não é nem de esquerda e nem de direita, pois se situa completamente fora dos padrões propostos por ambos os lados do espectro político, ficando portanto fora do mesmo. Ao postular o antiestadismo, não há de se falar em anarquismo quando ocorre uma coalizão com agentes que visam, em última análise, a perpetuação do status quo – pois mesmo os reformistas e membros da oposição aceitam, tacitamente ou não, o regime de coisas regido pelo governo estatal.

No que diz respeito à diferença inerente às classes discorre com maestria na seguinte passagem:

Assim, em regra geral, somos forçados a reconhecer que em nosso mundo moderno, senão completamente como no mundo antigo, a civilização de uma minoria ainda está fundamentada no trabalho forçado e na barbárie relativa da maioria. Seria injusto dizer que esta classe privilegiada seja estranha ao trabalho; ao contrário, em nossos dias trabalha-se muito, o número dos absolutamente sem ocupação diminui de uma maneira sensível, começa-se a considerar o trabalho como se a considerar o trabalho como honroso; os mais felizes compreendem, hoje, que para permanecer à altura da civilização atual, para saber gozar de seus privilégios e para poder mantê-los é preciso trabalhar muito. Mas há uma grande diferença entre o trabalho das classes abastadas e o das classes operárias: o primeiro é retribuído numa proporção infinitamente maior do que o segundo. Ele deixa a seus privilegiados o lazer, esta condição suprema de todo desenvolvimento humano, tanto intelectual quanto moral —— condição que nunca se realizou para as classes operárias. Em seguida, o trabalho que se faz neste mundo dos privilegiados é quase exclusivamente um trabalho nervoso, isto é, o da imaginação, da memória e do pensamento; enquanto que o trabalho dos milhões de proletários é um trabalho muscular e, frequentemente, como em todas as fábricas, por exemplo, um trabalho que não exercita todo o sistema muscular do homem ao mesmo tempo, mas desenvolve somente uma parte, em detrimento de todas as outras, e se faz, geralmente, em condições nocivas à saúde do corpo e contrárias a seu desenvolvimento harmônico. (BAKUNIN, 2012, p.18).

O anarquismo, por conseguinte, se apresenta como uma forma encontrada para corrigir injustiças sociais, propondo um modelo diferente de sociedade, regido pelo coletivismo, pela fraternidade e pelo apoio mútuo, baseado na razão e na ciência ao invés de dogmas advindos de autoridades que buscam controlar as pessoas e manter seus privilégios.

REFERÊNCIAS

BAKUNIN, Mikhail. Deus e o Estado. Tradução de Plínio Augusto. Ano de digitalização: 2002.

______. Federalismo, socialismo, antiteologismo: Tradução e disponibilização de União Popular Anarquista – UNIPA. Ano de digitalização: 2012.

Fonte: https://canalcienciascriminais.com.br/desmistificando-o-pensamento-anarquista-atraves-de-bakunin/

agência de notícias anarquistas-ana

planta com mil flores
uma é roubada –
ninguém notou…

Rosa Clement

Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/06/17/desmistificando-o-pensamento-anarquista-atraves-de-bakunin/

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Lei de Segurança Nacional - por Latuff

Fonte: https://twitter.com/LatuffCartoons

O mundo está em chamas! por Mumia Abu-Jamal – A.N.A.

O mundo está em chamas!
Não me refiro à degradação ambiental ou ao aquecimento global, não, ainda que isto também seja certo.

Me refiro aos protestos, não só em todas as partes dos Estados Unidos, mas no mundo inteiro.

Protestos desde Londres a Paris; de Berlim a Nairobi; de Toledo, Ohio, a Tóquio, Japão.

Protestos em solidariedade com As Vidas Negras Importam e contra a agressão policial e o racismo.

Protestos que vem desde a cruel brutalidade que levou ao assassinato em câmera lenta de George Floyd em Minneapolis, Minnesota.

A solidariedade desde Sydney, Austrália, vem, em parte, do descontentamento duradouro das comunidades aborígenes de pele escura na Austrália e Nova Gales do Sul. Como suas irmãs e irmãos nos Estados Unidos, sofreram gerações de repressão do Estado. No recente assassinato do aborígene David Dungay, por exemplo, suas últimas palavras eram “Não posso respirar” enquanto alguns agentes o estrangularam até morrer.

E como responderam os policiais a este desafio? Com birra. Com ataques contra manifestantes, sejam homens ou mulheres. Até chegaram a empurrar ao chão um homem branco de 75 anos de idade e logo passaram por cima de seu corpo sangrando.

Estados Unidos arde e o mundo contrai o fulgor.

Desde a nação encarcerada, sou Mumia Abu-Jamal.

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/06/01/eua-nao-posso-respirar-parte-2/

agência de notícias anarquistas-ana

Solidão:
para onde olho
vejo violetas.

Issa

Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/06/16/eua-o-mundo-em-chamas/

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Jota Camelo

Fonte: https://twitter.com/ojotacamelo

O inimigo é o racismo. O inimigo é a polícia. O inimigo é o capitalismo – por A.N.A.

O inimigo é o racismo. O inimigo é a polícia. O inimigo é o capitalismo

Eu sou a mulher negra que nasceu no Zimbábue e entrou num mundo de racismo. Durante muito tempo, tive medo de escrever, falar ou mesmo de enfrentar os problemas. Tinha medo de perder amigos e de perder oportunidades. Medo de ser renegada como a mulher negra irritada ou a mulher que é amarga. Mas eu olho para a minha cor todos os dias e serei negra até à morte, pelo que se há algo para lutar, é contra a supremacia branca.

Eu sou a mulher negra que grita “Vidas Negras Importam”, e ainda assim não sou afro-americana. No entanto, a história afro-americana e a história do continente africano estão e para sempre estarão inextricavelmente entrelaçadas. Não só por causa do grave crime contra a humanidade que foi o tráfico de escravos transatlântico, mais do que isso porque a experiência afro-americana no combate ao racismo deu origem ao pan-africanismo que, por sua vez, levou a lutas pela libertação no continente africano.

Uma história racista é complicada, mas é ainda assim uma história racista. Quando comecei a escrever isto, queria explicar, educar, mostrar exemplos de racismo por parte do sistema e de indivíduos contra mim. Queria educar sobre as diferenças entre termos tais como pessoas de cor e pessoas negras. Eu queria falar sobre a opressão dos negros e das negras, o racismo que eu sofri aqui, mas percebo que a narrativa já está à tona se estiverem estado atentos.

Foi uma semana verdadeiramente excepcional. Significativa, importante e francamente, assustadora. E tenho feito o meu melhor para deixar-me estar no desconforto de não saber se algum dos protestos, as palavras escritas e a indignação vão realmente lascar a supremacia branca.

Eu sou emocional. Estou com raiva e estou com prejuízo porque já lamentamos demasiadas vezes, tantas famílias foram devastadas pelo racismo, nos EUA e também aqui no Reino Unido. As detenções falsas, as longas sentenças, o escândalo da Windrush, as deportações, a negação da papelada a pessoas legítimas, a lista é longa, mas estes são exemplos concretos de que também temos um problema aqui e esta luta é para a justiça para George e para todos e todas as negras. Estou zangada porque podemos compreender a dimensão do problema e conhecemos o seu racismo e, no entanto, nada muda.

Então não, não tenho muito otimismo nem visões nebulosas de deixar o que quer que seja nas mãos de Deus. Mas estou grata, grata por todos e todas as que vieram para ficar juntos e juntas com o povo negro na nossa luta. Ficando juntos e juntas conosco, mesmo que não entendam completamente seu privilégio, mas de pé porque sabem que o inimigo é a supremacia branca. O inimigo é o racismo. O inimigo é a polícia. O inimigo é o capitalismo. Vamos ficar juntas e lutar contra o inimigo porque Vidas Negras Importam.

Mitchelle A


Tradução > Ananás
agência de notícias anarquistas-ana

Casa abandonada—
a aranha faz sua teia
na porta de entrada

Regina Ragazzi

Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/06/10/reino-unido-o-inimigo-e-o-racismo-o-inimigo-e-a-policia-o-inimigo-e-o-capitalismo/

terça-feira, 9 de junho de 2020

AmeriKKKa: como se faz a insurgência – por Bruno Lima Rocha

AmeriKKKa: como se faz a insurgência
Nos EUA, as ilusões raciais da Era Obama morreram. O desemprego aflige 43 milhões. Há uma legião de superendividados. Mas, nos guetos do Império, negros e latinos estão organizados, há décadas. Protestos não começaram do nada…
Em 25 de maio de 2020, George Floyd, um homem afro-americano de 46 anos de idade, foi assassinado por asfixia executada por um policial branco do Departamento de Polícia de Minneapolis (estado de Minnesota). O assassino foi o oficial de polícia Derek Chauvin, permanecendo por 8 minutos e 46 segundos sobre o pescoço da vítima. Os demais policiais, Tou Thao, J. Alexander Kueng e Thomas K. Lane foram cúmplices, sendo que Kueng ajudou a imobilizar o “suspeito”. O crime de George, tentar comprar cigarros com uma nota de 20 dólares, supostamente falsa. Para termos uma ideia de comparação, Donald Trump, o próprio, é um empresário picareta que quebrou seis vezes, entre 1991 e 2009 e “espertamente” não deixou na reta, escapando das “leis”. Com bons advogados e excelentes tributaristas, o sistema de Justiça do Império é perfeito para o andar de cima. Desde então os EUA mergulharam numa panela de pressão, começando pela própria Minneapolis, cujo estopim foi mais esse assassinato de outro homem negro. Neste artigo, faço uma modesta reflexão de contatos com as esquerdas daquele país que ainda é a potência hegemônica – embora decadente – sobre a nossa América Latina.

1992, Oakland (cidade berço dos Panteras Negras), impressões

Final de julho, início de agosto de 1992, poucos meses após o Levante de Los Angeles (em abril de 92, com dimensões nacionais) eu tive a oportunidade de ir aos EUA, e comecei por Oakland (município de maioria negra), berço do BPP (Partido Pantera Negra, 1966-1975, depois em fase muito decadente até a dissolução em 1982). O ambiente político-cultural era muito influenciado pelos trabalhos do Public Enemy (como o clássico Fight the Power, de 1989) e também produções mais próximas do cotidiano de gangues e gueto, como o também clássico de Ice Cube AmeriKKKa’s Most Wanted, de 1990 (ouvir a música Once Upon a Time in the Projects).

Os contatos se deram à moda antiga, tinha relações por correspondência física ainda com algumas agrupações e, em especial, com a Industrial Workers of the World (IWW, confederação sindical de linha combativa fundada em 1905 e cujo ápice foi até o início dos anos 1930). Em Oakland, fui muito bem recebido pelo APSP (African’s People Socialist Party, Partido Socialista do Povo Africano, fundado em 1972), um racha do A-APRP (Partido Revolucionário de todo o Povo Afircano, All-African People’s Revolutionary Party, fundado por Kwane Nkrhuman já na Guiné, em 1968, e chegando aos EUA em 1972). A implantação do A-APRP, na prática, operou como um racha de gente que foi pantera-negra nos anos 70. Fui a mais de uma dúzia de entidades locais, a maioria de base latino-americana, chicana na Califórnia (mexicano-americana) e ao menos vinte atos públicos. Como era de se esperar, já no início da década de 1990, brown is the new black e os movimentos político-culturais de origem mexicana, em especial a Chicano Moratorium Coalition tinham mais vida, sangue fervendo, com muitas famílias “ilegais” de ambos lados da fronteira imposta pelo roubo do território de Aztlán na Guerra da União Americana dos brancos contra o México (1846-1848).

Foi um paradoxo toda a experiência política. Não gostei de nada que vi em termos organizativos. Nem na área da Baía de São Francisco, tampouco em Michigan ou na Filadélfia: partidos negros combativos, mas com discurso sectário entre si; sindicalistas de orientação anarquista com pouca base social; squatters (casas ocupadas coletivas) mais na contracultura (branca) do que como alternativa de luta e moradia; uma boa militância de ecologia social embora distante da massificação; e, como era de se esperar, levas e mais levas de intelectuais ditando regras e estilos de discursos (como dizem na gringolândia there’s no business like show business!). Mas culturalmente estava tudo ali, e um sentimento de enorme revolta após o final do terceiro governo da direita republicana, com Bush Pai tentando reeleição. Na Convenção Republicana de 1992, esse facínora da indústria do petróleo e ex-diretor da CIA, o pai do Bush Jr era o mais brando dos correligionários de Reagan. O país estava muito, muito dividido e sofrendo recessão econômica e repressão na chamada guerra contra as drogas.

Se dependesse de visual, de simbologia política, as grandes cidades estariam à beira de uma revolução social. Organizativamente, estava tudo muito longe disso. A coisa mudou nesses quase 30 anos (com centenas de importantes coalizões locais) e a ilusão da Era Obama acabou. Dez anos depois, já tentando me “institucionalizar” (algo que nunca deu muito certo), tive um professor do primeiro semestre de mestrado em ciência política na UFRGS, o estadunidense Timothy Power. Pedi uma conversa e, dentro da interlocução, perguntei “e se um presidente negro for eleito nos EUA?”. Ele me respondeu que o sistema de freios e contrapesos iria conter qualquer grande iniciativa desse então improvável presidente. Seis anos depois Obama era eleito, e depois reeleito.

As ilusões da Era Obama

No período da fantasia organizada anterior (a suposta era pós-racial do governo Obama 2009-2016), tive a chance de participar do Left Forum nas edições de 2014 e 2015, ambas realizadas no progressista John Jay College, pertencente à Universidade da Cidade de Nova York (CUNY). Mais importante que isso, nessas duas ocasiões e em outra (também para aprendizado da nobre arte), conheci um pouco do cotidiano de regiões de maioria portorriquenha e dominicana (West Bronx; para conhecer um pouco das raízes “duras” de Porto Rico na região) e negra (no Brooklyn, em Brownsville e Bad stuy; ver a clássica abertura do filme Faça a Coisa Certa com Rosie Pérez). Aí sim, gente como a gente, sendo guero pero no gringo (latino de pele clara), convivendo cotidianamente com pessoas modestas, mas orgulhosas de si e de suas raízes (as humble as tough), a identificação é de outra ordem. Para alguém que é militante bem à esquerda e de um país latino-americano, posso afirmar que naqueles bairros é possível uma imediata identificação. O inverso também é verdadeiro.

Toda a babaquice dos EUA permaneceu no período mais recente do Partido Democrata. Estupidezes de tipo clichê: “você é um vencedor”, “faça você mesmo”, “competir para ganhar” e outras excrescências sociológicas. Tampouco o racismo estrutural e institucionalizado recuou de fato. O assassinato de Michael Brown em Ferguson, Missouri (agosto de 2014) foi no governo Obama, o assassinato à luz do dia de um homem negro por um enforcamento foi em seu governo (Eric Garner, julho de 2014, Staten Island, NYC). O “movimento”, ou a iniciativa Black Lives Matter (#BLM) começou realmente em Ferguson e foi durante o governo do cientista político formado em Columbia e do advogado formado em Harvard (Obama passou por estes dois centros de formação das elites, ambos da Ivy League).

As promessas de novo pacto keynesiano e sociedade pós-racial não foram alcançadas. O racismo elegeu Trump e a ignorância não elegeu Hillary, que tampouco vale nada a não ser para seus patrocinadores de campanha. Com a difusão das imagens do assassinato de George Floyd, a coisa apertou nas maiores cidades do Império. Ressalto, a primeira versão deste artigo foi escrita enquanto assistia a CNN Internacional (não a emissora terraplanista que é sua franquia no Brasil) cobrir ao vivo o decreto de Estado de Sítio de Trump e a ameaça de militarização federal de todo o território da decadente Superpotência. A massificação foi a reposta mais correta às provocações do pilantra tentando reeleição.

Espero realmente que o esforço de toda a gigantesca esquerda americana (incluindo o comprometido trabalho da Federação Rosa Negra) dê agora o salto de qualidade necessária para ir além de traidores oligarcas do Partido Democrata. Aqui como lá, só saiu New Deal porque à época a CIO (Congress of Industrial Organizations, Congresso de Organizações Industriárias, 1935-1955) era um bastião da luta sindical e, na década anterior, a IWW quase levou regiões inteiras a uma revolução social, incluindo a epopeia de Joe Hill e a participação de uma coluna internacionalista na Revolução Mexicana. Só saíram os direitos civis porque houve a NAACP (National Association for the Advancement of Colored People, Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor, fundada em 1909), a Convenção Batista do Sul, o racha a Nação do Islã (Nation of Islam) e, infelizmente, o martírio de Malcolm X (fevereiro de 1965) e o de Martin Luther King Jr (em abril de 1968). Só saíram as cotas sociais pelo esforço descomunal dos panteras negras e seus aliados.

Essa é a AmeriKKKa como ela é, para afro-americanos e latino-americanos, para nativo-americanos. Não é na cabeça dos entreguistas colonizados socialmente brancos que vão para lá. Combater essa condição também é urgente, conforme veremos na sequência, na incrível (em duplo sentido) cobertura ao vivo da Globo News (a emissora de notícias 24 horas do clã do Cosme Velho e que no governo Bolsonaro, faz oposição ao infeliz que ela mesmo ajudou a eleger).

Sem justiça jamais haverá paz em lugar algum: o vexame da Bobo News na cobertura ao vivo dos protestos de 2020

Não tem um infeliz na Globo News falando da enorme e gigantesca base social organizada, diversa e pluriétnica, com base no que nos EUA denominam grass roots movements. Como eu disse acima, ninguém me contou não. A maior organização jornalística do país tem mais de uma dezena de jornalistas e freelas morando lá e ninguém fala nada que preste, não em termos organizativos e de distribuição de renda no coração do Império. A repórter que acompanhou o ato em Manhattan na noite de domingo 31 de maio parecia assessora de imprensa da polícia de NYC. Dá muita vergonha ver esse bando seleto de coleguinha deslumbrado, que se sente branco no Hamburguestão e é – seria – eleitor do Partido Democrata. Estavam nos seus postos “meritocráticos”, “curtindo a vida adoidado”, até que o reality show momentaneamente foi interrompido. Detalhe: eu nem me incomodo de comentar o famigerado Manhattan Connection, porque ali, desde a versão com o carcomido Paulo Francis (que vergonha, que decadência) até a distopia falante do Diego Mainardi, é a antessala do viralatismo de pior calanha.

Infelizmente falo de quem se diz repórter ou “analista” e não do teólogo e pastor Ronilso Pacheco. Durante a cobertura, quase não se lembravam dos oito anos de governo Obama que não serviram para nada na vida de afro-americanos, latino-americanos e a vida da maioria subempregada ou endividada.

A AmeriKKKa está sem máscaras com seus 43 milhões de desempregados, mas há algo de novo no ar além de vírus e fake news. Vocês repararam que não estão sendo registrados saques ou incêndios em bairros de maioria negra ou latina? Em 1992, infelizmente, a rebelião em Los Angeles levou à destruição de East LA, South Central e a região de Compton. Ou seja, afro-americanos e latino-americanos incendiaram onde vivem ou sobrevivem.

Agora, se as imagens da Globo News ou na CNN International não estão adulteradas, os bairros chiques ou moderninhos de Manhattan estão sendo o local das manifestações. A mão de obra deslumbrada paga pela família Marinho fica horrorizada com uma vitrine quebrada (isso me faz lembrar do clássico documentário de 1979, 80 Blocks from Tiffany’s), mas não se lembra da dívida dos universitários, do desemprego absurdo e das hipotecas atrasadas. O mesmo ocorreu na capital do Império, Washington DC; os conflitos, a agressão policial se deu no entorno da Casa Branca, no domingo a sede da pelegada de lá, a AFL-CIO (central sindical pelega), foi atacada. Repito, 43 milhões de desempregados e os burocratas corruptos só pedem votos para Joe Biden (nem sequer garantiram a vitória do Bernie Sanders).

Confesso, ficaria muito brabo se visse os bairros do Bronx, algumas zonas do Brooklyn, ou o Harlem ainda não gentrificado, pegando fogo. Mas com mais de 100.000 mortos pelo corona vírus – a maioria destes negros e latino-americanos (como nós, um país de maioria negra e latino-americano) – não me comovo com uma ou duas vitrines de grife. Em Washington, que eu saiba, não incendiaram a região Nordeste e sinceramente não vi nada semelhante em nenhuma capital ou grande cidade do Império.

Nixon revive, lembrem de Watergate

Na segunda-feira dia 1º de junho no início da noite o empresário picareta (faliu seis vezes e ficou mais rico!) e canastrão de reality show Donald Trump militariza Washington DC e despacha a Guarda Nacional para todo o país. Ameaça a federalização de municípios, condados e estados que não coloquem todo o seu dispositivo policial nas ruas. Diz que vai mandar as forças militares e os comandantes em chefe negam essa possibilidade. Caos organizativo, desgoverno? Parece a extrema direita tropical, não? Isso num país que sequer tem saúde pública universal.

Para quem pensou, imaginou, delirou com os anos 60 nos EUA, esse é o lado da rebelião da juventude americana que os clichês não mostram. Para quem está assustado com o Trump, eu trago a canção Ohio(1970, de Crosby, Stills, Nash & Young):

“Teen soldiers and Nixon coming, we’re finally on our own…”.

A AmeriKKKa agora espanca de novo a maior parte de sua população, decretando o desemprego e o endividamento eterno, pagando a casa através de hipotecas e devendo para as instituições universitárias, públicas ou privadas. No pesadelo ameriKKKano, o maior dos perigos é ficar doente, além de ir preso. Lá está a maior população carcerária do planeta, com 69 para cada 100.000 habitantes, mais de dois milhões e 200 mil presos, além de quase 5 milhões em condicional ou no aberto custodiado. Sonho de quem?

Alguma conclusão?

No segundo semestre de 2008, em meio a uma recessão absurda após o criminoso estouro da bolha imobiliária, a farsa com nome de crise, com 500 mil empregos formais sendo incinerados a cada semestre, os Estados Unidos entraram em processo de “encantamento político”. Barack Hussein Obama, então senador democrata por Illinois, venceu as primárias contra ninguém menos do que Hillary Rodham Clinton, depois da desistência dos demais concorrentes. O ex-estudante de Columbia e Harvard iria concorrer contra o senador republicano John Mccain (1936-2018) e se tornar o 44º presidente do país fundado por escravocratas.

Mccain tinha estirpe, filho do ex-comandante geral das forças estadunidenses no Vietnã, ele mesmo como piloto da Marinha foi prisioneiro de guerra por mais de cinco anos (1967-1973). Entrou na carreira política como republicano na Era Reagan chegando ao Senado em 1987, sendo parte da bancada do especulador fraudulento Charles Keating, The Keating 5 era o nome dos representantes do fraudador. Ainda assim escapou meio incólume e não se somou na neurose absurda de cretinos como o radialista Rush Limbaugh, Tea Party e companhia. Na sua chapa estava o embrião da alt-right, com a impagável ex-governadora do Alaska, Sarah Palin, concorrendo como vice e dando um vexame após o outro em aparições públicas. Mccain perdeu as eleições e os oligarcas republicanos perderam o seu partido de vez; a direita política chegou ao auge do cinismo com Bush Jr, mas nada é comparável com as aberrações na era na fake news.

Obama ganhou e prometeu um novo pacto de tipo keynesiano e a inauguração da Era Pós-Racial. Percebam, estou falando da política doméstica dos EUA, em escala mundo seguiu a presença militar e os assassinatos diários de possíveis opositores em países de maioria islâmica. Dentro das fronteiras, o ovo da serpente se chocava com a direita a direita do Tea Party e, no dia a dia das comunidades de maioria negra ou latino-americana, o inferno continuava. Crescimento econômico com empregos precários e taxas elevadas para qualquer empréstimo. Obama não era Franklin Delano Rossevelt e nem o tecido social da pobreza estadunidense estava à altura do desafio de obrigar um presidente a governar conforme prometera. Não saiu nem o Obama Care completo e a saúde continuou sendo a melhor forma de matar a economia das famílias.

Durante o governo Obama o assassinato de jovens negros seguiu o mesmo, tanto pelas forças policiais como pela insanidade de um país viciado em medicamentos semelhantes ao ópio (a praga dos opioides), mas com a plena liberação de armas largas ou de repetição automática. Obama cantou “amazing grace” em junho de 2015, no funeral de dez pessoas negras, fuziladas por um supremacista ao invadir uma congregação afro-americana. Até me emocionei, tentando esquecer que esse desgraçado autorizou centenas de bombardeios por drones (540 especificamente) e centenas de operações especiais, incluindo o controle e disputa de rotas no tráfico de ópio no Afeganistão. Como eu disse, são temas diferentes, não deveriam ser, mas acabam sendo.

Em março de 1991, Rodney King é espancado por quatro policiais, três brancos. Todos absolvidos um ano depois. Resultado, abril de 1992, comunidades chicanas e negras de Los Angeles convocaram os protestos. Em 2008 começaria a “nova era” com Obama eleito. Pura ilusão. Tanto aqui como lá, só a luta e a auto-organização a partir da base da sociedade e estrutura de coalizões locais, regionais, estaduais e nacionais oferece alguma chance para os oprimidos. Não é clichê de panfleto não, é o manual prático de ciência política das maiorias pós-coloniais.

Fonte: https://outraspalavras.net/descolonizacoes/amerikkka-como-se-faz-a-insurgencia/

A república do foda-se - por Jota Camelo

Fonte: https://twitter.com/ojotacamelo