segunda-feira, 31 de agosto de 2020

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Chomsky: o mundo precisa da derrota de Trump

Chomsky: o mundo precisa da derrota de Trump

Ele explica: pandemia acelerou a História e projetou a luta de classes em escala global. Agora, todos os futuros são possíveis. Pouco importam as limitações de Joe Biden: o que vale é o espaço que se abrirá às novas lutas

No início de abril, a escritora indiana Arundhati Roy escreveu o que pode ser uma das reflexões mais provocadoras sobre a pandemia:

Historicamente, as pandemias forçaram os seres humanos a romper com o passado e imaginar seu mundo de novo. Esta não é diferente. É uma porta um mundo e o próximo.

Podemos escolher passar por ela arrastando as carcaças de nossos preconceitos e ódios, nossa avareza, nossos bancos de dados e ideias mortas, nosos rios mortos e os céus fumacentos que nos acompanham. Ou podemos atravessá-la leves, com pouca bagagem, prontos para imaginar outro mundo. E prontos para lutar por ele.

Há poucos dias me encontrei, por meio de uma combinação de rede social e telefone celular, com outro defensor destacado de um mundo novo. Noam Chomsky é liguista, filósofo, pesquisador da cognição, crítico social e uma espécie de padrinho intelectual da esquerda. Arundhati Roy expressou o sentimento de muitos quando escreveu, há anos: “É raro o dia em que não me vejo desejando – por uma razão ou outra – Chomsky Zindabad, longa vida a Chomsky!

Aos 91, Chomsky mostra poucos inais de renunciar a viver longamente. É tão incisivo, curioso e influente como sempre. Em mais de uma hora de conversa, falamos sobre tudo – das escolhas políticas criadas pela pandemia ao poder do Black Lives Matter, da plataforma supreendentemente progressista de Joe Biden a descobrir amor por um país que se critica incessantemente.

Conte um pouco sobre como você tem vivido esse momento pandêmico, que tem sido bastante difícil para todos na vida pessoal, mas que também é uma crise política — e, potencialmente, para muitas pessoas, um momento de abertura na forma como pensamos esses sistemas. 

Tem sido atarefado. Estou isolado, não saio e não recebo visitas. Mas estou constantemente ocupado com entrevistas, com pedidos muito além do que posso aceitar. Muito mais ocupado do que me lembro já ter estado.

Mas você está certo. A pandemia oferece a oportunidade de fazermos escolhas sobre que tipo de mundo vai surgir a partir dela. Escolhas muito distintas. Aqueles que criaram a crise e submeteram a população global a 40 anos de ataque neoliberal estão trabalhando muito, incansavelmente, para garantir que o que for surgir seja uma versão mais dura daquilo que criou este sistema. Maior vigilância, maior controle.

E há outras forças, que vão desde o que você vê nas ruas nos Estados Unidos ao movimento ambientalista e ao DiEM25 na Europa. Muitas outras forças populares estão tentando caminhar para um mundo muito diferente. É uma espécie de luta de classes em escala global.

Por causa dessas coisas graves que você descreve, há uma discussão dentro da esquerda norte-americana sobre se é importante, neste momento, parar de falar de temas usuais e apenas unir forças para livrar-nos de Trump. E, por outro lado,os que argumentam que este é exatamente o momento de levantar todos os outros tipos de questões e sermos duros com Biden. Como você enxerga esse debate?

Bem, há uma posição muito tradicional da esquerda, que, infelizmente, foi praticamente esquecida, mas é aquela que acho que devemos seguir. É a posição de que a verdadeira política está no ativismo constante. É bem diferente da posição do establishment, que diz que política significa foco (quase que exclusivamente) na extravagância quadrienal chamada eleição — e depois ir para casa, deixando que os “líderes” assumam o controle.

A posição de esquerda sempre foi: você age politicamente o tempo todo e, de vez em quando, ocorre algo chamado eleições. Isso vai afastá-lo da política real por cerca de 10 ou 15 minutos. E depois você volta a trabalhar.

Neste momento, a diferença entre os candidatos nos EUA é abissal. Nunca houve um contraste maior. Deveria ser óbvio para qualquer ser humano que não viva debaixo de uma rocha. Portanto, a posição tradicional de esquerda diz: “Separe esses 15 minutos, aperte o botão e volte ao trabalho político.”

Porém, a esquerda ativista não fez a escolha que você menciona na pergunta. Faz as duas ao mesmo tempo.

Veja as posições da campanha de Biden. Mais à esquerda do que qualquer outro candidato democrata do qual se tenha memória, em questões como a mudança climática. Já é muito melhor do que qualquer um que o precedeu. Não é porque Biden viveu uma transformação pessoal ou porque os democratas tiveram um grande insight — mas porque estão sendo pressionados por ativistas que surgiram do movimento Sanders e outros. O programa climático, um compromisso de US$ 2 trilhões para lidar com a ameaça extrema de catástrofe ambiental, foi escrito em grande parte pelo Movimento Sunrise e fortemente endossado pelos principais ativistas da mudança climática, aqueles que conseguiram colocar o New Deal Verde na agenda legislativa. Isso é política real.

É uma posição muito interessante vinda de você. Seu apoio a Biden é mais do que apenas relutância. Você realmente parece pensar que a plataforma é surpreendentemente boa, considerando quem ele é e onde estamos.

Isto não é apoio ao Biden. É apoio aos ativistas que trabalharam incessantemente, criando o pano de fundo dentro do partido em que ocorreram as mudanças, e que acompanharam Sanders para entrar de verdade na campanha e influenciá-la. Meu apoio é a eles. Apoio à política real.

A posição de esquerda é de raramente apoiar qualquer pessoa. Você vota contra o pior. Você mantém a pressão e o ativismo.

Dada essa mobilização popular da qual você fala, quero perguntar sobre uma liderança. Eu me questiono se você considera que uma figura como a deputada Alexandria Ocasio-Cortez pode se tornar presidente neste país.

Bom, se dez anos atrás você tivesse me perguntado se alguém como Bernie Sanders poderia ser a figura política mais popular do país, eu teria chamado você de louco. Mas, de fato, isso aconteceu em 2016 e Bernie continua criando um movimento significativo. Existem possibilidades reais. Acho que se você olhasse para os Estados Unidos na década de 1920 e perguntasse: “Será que algum dia vai haver um movimento de trabalhadores?” você também teria parecido louco. Como poderia haver? Ele tinha sido esmagado.

Mas isso mudou. A vida humana não é previsível. Depende de escolhas e vontade, que são imprevisíveis. Agora, por exemplo, estamos no processo de formação de uma Internacional Progressista. Baseada no movimento Sanders nos EUA e no movimento DiEM25 de Yanis Varoufakis na Europa, que é um movimento europeu transnacional que busca preservar e fortalecer o que faz sentido na União Européia e superar suas gravíssimas falhas.

Se você me perguntasse agora se há alguma perspectiva, seria muito difícil responder. Se você observar de forma objetiva, verá onde o poder está concentrado no mundo. A Internacional Progressista é composta pelas forças que mencionei, e ao lado há uma “internacional reacionária” sendo criada na Casa Branca com Trump à frente. Esses quase-ditadores como Bolsonaro — um clone de Trump — fazem parte disso. Os ditadores do Oriente Médio, famílias ditadoras dos estados do Golfo. O Egito de Sisi, a pior ditadura da história egípcia. Israel, que está se movendo tanto para a direita que você mal consegue ver, são parte disso. A Índia de Modi que, em seu esforço por destruir a democracia indiana, transformou-a em uma quase-ditadura hindu fundamentalista. Orban na Hungria.

Ao compararmos essas forças pode surgir uma ideia do tipo: “Nessas condições, não pode haver nem luta?”. Mas esse é o cálculo errado. Existem pessoas, e elas fazem a diferença.

Podemos revisitar o meu filósofo favorito, David Hume. Seu livro Of the First Principles of Government [“Dos Primeiros Princípios do Governo”], um tratado político do final do século 18, começa dizendo que devemos entender que o poder está nas mãos dos governados. Aqueles que são governados são os que têm o poder. Qualquer que seja o tipo de Estado, militarista ou mais democrático, como a Inglaterra estava se tornando. Os chefes governam apenas por consentimento. E se esse consentimento for retirado, eles perdem. Seu poder é muito frágil.

Devo dizer que os atuais mestres do universo, como eles modestamente se referem a si mesmos, entenderam isso muito bem. Todo mês de janeiro, em Davos, a estação de esqui da Suíça, os grandes e poderosos se reúnem para esquiar, se divertir e se parabenizar por serem maravilhosos. Os principais executivos-chefes, figuras da mídia e figuras do entretenimento, e assim por diante.

Mas este ano foi diferente. O tema era: Temos problemas. Os camponeses estão chegando com suas forquilhas. Nas palavras que eles preferem, estamos enfrentando “riscos de reputação”. Eles estão vindo atrás de nós. Nosso controle é frágil. Temos que passar uma mensagem diferente. Portanto, a mensagem em Davos foi: Sim, percebemos que cometemos erros durante todo esse período neoliberal. Vocês, a população em geral, sofreu. Nós entendemos isso. Estamos superando nossos erros. Agora vamos nos comprometer com vocês, as partes interessadas e as comunidades trabalhadoras. Estamos realmente comprometidos com o seu bem-estar. Estamos nos tornando profundamente humanitários. Lamentamos nossos erros. Vocês podes botar fé em nós. Nós assumiremos a responsabilidade e trabalharemos para seu benefício.

(…)

Como a esquerda trabalhar melhor em termos de comuicação? Tanto pela linguagem que usa qunto pelos apelos políticos que faz, para alcançar um grupo mais amplo de pessoas que não são engajadas? Com frequência, parece que os republicanos têm muito talento em fazer as pessoas votarem em coisas que não serão boas para elas, enquanto os democratas precisam se esforçar muito para tentar fazer as pessoas votarem em coisas que seriam muito, muito boas para elas.

Pois bem, o movimento de Sanders teve um sucesso notável. É algo que rompeu com mais de 100 anos de história política americana. Fazer com que um candidato chegasse próximo de ser escolhido para disputar a Casa Branca, sem nenhum apoio da mídia, nem de grandes doadores ou do setor corporativo. Nunca antes aconteceu nada parecido com isso. Poderia ir mais longe? Acho que sim.

Não pretendo fazer um grande alarido sobre o assunto, mas tenho sido um pouco crítico em relação a Sanders apresentar-se como um socialista. Ele não é socialista, em minha opinião. Ele é um democrata do New Deal. Um social-democrata moderado. Suas políticas não teriam surpreendido muito Eisenhower. Que suas posições sejam consideradas revolucionárias é um sinal da guinada para a direita, de ambos os partidos, durante o período neoliberal.

Qual é o sentido de se autodenominar socialista? Essa é uma palavra muito assustadora para os Estados Unidos. Os EUA são uma sociedade incomum. Em todos os outros países do mundo, um socialista é como um democrata. Alguém é socialista, tudo bem. Você pode ser comunista e ter espaço no sistema político. Os Estados Unidos são uma sociedade extrema, conduzida pelo mercado, com um conjunto de controles muito rígido. Portanto, palavras como socialista são assustadoras. É sinônimo de gulag. Comunista então, você nem pode falar.

Tudo bem, essas são realidades sobre os Estados Unidos. Devemos fazer algo a respeito. Mas você não vai mudar estes preconceitos no tempo de uma eleição, certo? Portanto, na minha opinião, essa é uma posição duvidosa.

(…)

Quando um democrata de centro, como Joe Biden, assume a plataforma de que você falou, mas começa a campanha dizendo que, com ele, nada mudaria muito para os plutocratas, você não acha que a proposição é falsa? Ou eles tem uma espécie de realismo cuidadoso?

Eu não estou muito interessado na personalidade dele. Não tenho nenhuma opinião sobre isso. Me interessa saber como as coisas são feitas. E a maneira como as coisas são feitas não ocorre porque Biden vai passar por uma conversão religiosa e, de repente, dizer: “Oh, realmente temos que trabalhar nas questões climáticas.” Isso não acontece. É provável que os democratas odeiem o programa, mas eles não têm escolha, porque sua base popular não está apenas exigindo isso, mas está trabalhando árdua e constantemente para forçá-los a fazê-lo. Isso é política. Não a personalidade dos líderes. Eu não sei o que passa na cabeça. E eu francamente não me importo.

Por causa da pandemia e das crises relacionadas a ela, as questões das quais você passou a vida falando estão, finalmente, em destaque no discurso público. Elas estão na política; elas estão no ativismo; elas são inevitáveis. Sei que provavelmente não é o tipo de pergunta de que você gosta, mas me pergunto como você pensa sobre seu legado — o que você acha que tentou fazer e em que ponto estamos?

Na verdade, eu não penso em um legado. Me interessam mais as pessoas que estão realizando coisas. A maior parte de seus nomes nunca será conhecida. Tenho certeza de que você não saberia me dizer, e eu não saberei mencionar a você os nomes dos garotos que entraram e se sentaram numa lanchonete de Greensboro [Referência a um episódio na luta antirracista dos EUA. Em julho de 1960, quatro jovens negros sentaram-se num balcão de lanchonete em quer sua presença não era permitida. Não foram atendidos e recusaram-se a sair. Sua atitude gerou uma série de protestos contra as leis discriminatórias, que terminariam revogadas poucoa anos depois (Nota da Tradução)]. São essas pessoas que levam as coisas adiante. Se existe um legado das pessoas que tentaram fazer o que estava ao seu alcance para estimular a transformação, é o legado deles. Não consigo lembrar o nome daqueles que mais respeito no mundo. Pessoas em campos de refugiados no Laos. Camponeses do sul da Colômbia, no esforço de evitar ataques paramilitares e se proteger de corporações que buscam destruir seu abastecimento de água com minas de ouro. Pessoas em áreas curdas na Turquia.

Vou te dar um exemplo. O auge da repressão turca aos curdos foi muito cruel. Foi a pior fase da década de 1990. Foi fortemente apoiado por Clinton. E ele praticamente despejava armas durante a pior parte da repressão. Aconteceu de eu estar lá no final desse conflito. Eu dei uma palestra.

Era proibido falar curdo. Era crime. Você podia desaparecer e nunca mais ser visto. Fui cauteloso ao falar para não despertar muita ira do pessoal da segurança.

Ao final da minha palestra, quatro crianças vieram, segurando um grande livro, e me deram. Era um dicionário curdo-turco. Eles queriam dizer: “Vamos continuar lutando”. Não sei o que aconteceu com eles. Mas são essas pessoas em qualquer parte do mundo que você pode realmente respeitar. Elas é que são importantes, para qualquer legado que venha a surgir.

Noam Chomsky, entrevistado por Anand Giridharadas, no The.Ink | Tradução por Simone Paz

Fonte: https://outraspalavras.net/crise-civilizatoria/chomsky-o-mundo-precisa-da-derrota-de-trump/

PM mineira, de Romeu Zema (Novo), atira bombas contra acampados do MST que lutam há 50 horas contra despejo em MG. - por Latuff

 

Por que os zines se recusam a morrer – Samizdat & Xerography - Por Jason Rodgers

Por que os zines se recusam a morrer

Por que alguém continuaria lendo e publicando zines xerocados, já estando no século XXI há duas décadas? A tecnocracia não anunciou que essa variedade de publicações clandestinas foi substituída pela teia dos sonhos cibernética da hipermídia?

No entanto, as pessoas ainda cortam palavras e imagens e colam no papel. Eles ficam na frente das máquinas xerox para copiá-las e depois grampear as páginas.

Zines são publicações amadoras criadas por paixão, e não por dinheiro. Eles podem ser sobre a sua música underground local ou o cenário do comércio internacional de fitas. Ou zines pessoais, com foco na escrita de estilo diário / livro de memórias. Os misantropos publicam discursos politicamente incorretos. Anarquistas anti-políticos publicam polêmicas marginais. As arestas do feminismo sempre desempenharam um papel. Ou obsessões nerds, leitores e leitoras. Essas revistas são sempre auto-publicadas, principalmente com copiadoras, mas são utilizados todos os tipos de técnicas de impressão artesanal.

Os zines têm suas raízes nos fanzines de ficção científica da década de 1930. Hugo Gems-back, o editor fundador da primeira publicação de ficção científica, Amazing Stories, estava cansado de receber cartas ao editor com críticas minuciosas. Ele começou a publicar endereços de retorno, para que os fãs pudessem escrever um ao outro em vez de incomodá-lo. E eles o fizeram, dando à luz fanzines de ficção científica. Outra grande influência foram as pequenas revistas literárias. Estas tinham um tom mais acadêmico, mas haviam algumas mais selvagens no meio, como a Floating Bear, de Diane DiPrima e Amiri Baraka, e Fuck you: a Journal of the Arts, do membro da banda Fug Ed Sanders. Nos anos 60, jornais subterrâneos como o Fifth Estate, East Village Other e o Berkeley Barb, forneceram a estrutura informacional para a revolução da contracultura.

O período mais comum associado aos zines são os anos 80 e 90. Um dos principais jogadores da época era Mike Gunderloy. Em 1982, ele começou a publicar um zine de reviews chamado, Factsheet 5,com uma política de fazer um review de tudo o que lhe era enviado, incluindo títulos ofensivos e controversos.

Ele achou que seria interessante fazer com que pessoas de diferentes subculturas conversassem, conectar os anarquistas ao povo de ficção científica, os tipos literários de vanguarda aos punks. Ele esperava criar polinização cruzada, e conseguiu!

A Factsheet cresceu a ponto de Gunderloy deixar o emprego e trabalhar em tempo integral no review de zines. Ou, para ser mais preciso, 80 horas por semana. Foi isso que eventualmente o derrubou. Ele estava esgotado.

Em 1990, ele entregou o zine a Henry Luce, que publicou apenas uma edição, que foi odiada universalmente. A propriedade então mudou-se para R. Seth Friedman, que foi acusado por alguns de tentar capitalizar na “explosão de zines” dos anos 90.

Gunderloy acabou doando todos os seus milhares de zines para a Biblioteca do Estado de Nova York em Albany, Nova York. A coleção é bem no meu bairro, então passei alguns anos visitando-a todos os sábados. Ao mesmo tempo, venho publicando zines de reviews há anos.

Houve um ressurgimento de zines nos últimos anos, com uma visibilidade crescente em oficinas corporativas / faça-você-mesmo / mercados, como o Etsy.com, que se descreve como “um site de comércio eletrônico focado em itens artesanais ou antigos”. Esta é uma recuperação do faça-você-mesmx, contextualizando-o como apenas mais um show no capitalismo precário.

Na realidade, porém, não houve ressurgimento, porque os zines nunca foram embora. Muitos de nós continuamos a fazê-los ao longo dos anos. Muitas vezes, uma publicação convencional percebe o fenômeno e um repórter escreve sobre ele como se descobrissem algum canto oculto da editoração.

Publicar um zine no século 21 é tomar uma decisão consciente. Eles afirmam que há uma diferença qualitativa entre mídia impressa e digital. É uma revolta contra as mídias sociais que dominam nossa sociedade.

Há muitos fazedores de zines que continuam publicando desde os anos 80. O Irreverend Suzy Crowbar ainda publica a peculiar Popular Reality. Nasceu nos anos 80 de um ramo dos Yippies, The Shimo Underground, caracterizado por uma atitude anárquica, humor e muitas brigas. Atualmente, tem mais literatura experimental, arte psicodélica e piadas. Foi crucial no desenvolvimento da anarquia pós-esquerda, mas o anarquismo (com um ismo) sempre foi ideológico demais para o Crowbar. Ela recentemente decidiu se tornar mais misteriosa, então você terá que fazer algumas escavações para entrar em contato.

Existem algumas publicações que são zines de rede. Eles se concentram nas reviews de zine para colocar os zineiros em contato. A PJM publica o Node Pajamo. Publico um dos outros principais zines de revisão: Asymmetrical Anti-Media. Ele analisa zines, música e arte de correspondência, mas inclui apenas publicações com endereços postais na esperança de incentivar as pessoas a enviarem seus zines uns aos outros como comércio.

O comércio é um aspecto crucial da comunidade de zines, que infelizmente parece ser menos comum agora que os editores enviam cópias de seus zines a outros zines que lhes interessam, na esperança de receber uma troca. Eu gosto de imaginar que as negociações de zine são uma atividade contra-econômica que ajuda a recuperar a economia de presentes.

Existem vários projetos de zines que tentam preservar e reviver heresias históricas esquecidas e proibidas. Até recentemente, havia o Enemy Combatant, que publicava formas extremistas de anarquia com foco em material egoísta, mas também incluindo material ilegalista, anti-civil, marginal, lunático, queer e oculto. Forçou uma revisão histórica da tradição anarquista, mostrando que sempre houve muito mais estranheza do que muitos anarquistas se sentiriam confortáveis. Infelizmente, eles recentemente deixaram de publicar.

Existem vários outros zines dedicados a desenterrar a história marginal e radical. A Monocle Lash Anti-Press foca na literatura experimental obscura, avant-garde, post-neo-absurdista e utópica do século 19 ao presente.

No Quarter, publicado por David Tighe, começou como uma exploração de anarquistas e piratas ilegalistas do início do século XX. Agora, ele passou para uma história radical mais geral, com especial interesse pela margem.

A Untorelli Press produz zines maravilhosos com foco na anarquia individualista (da variedade insurrecional e ilegalista) e no niilismo queer.

Alguém pode se perguntar por que as pessoas que querem abolir a história gostariam de preservar textos históricos. Há uma diferença entre o que um tipo anti-civil sonha e Winston Smith, em 1984, lançando registros dissidentes no buraco da memória. A Internet apaga a memória, por isso é vantajoso para os iconoclastas tentar preservar a cultura subterrânea.

Em seu zine “Como sabemos?” Olchar Lindsann, do mOnode-Lash Anti-Press, escreve: “Nenhum arquivista que eu conheça espera que a mídia digitalizada dure mais do que outra geração. Isso oferece às comunidades radicais uma oportunidade única: quando a Internet cair, um evento de importância ainda maior que a destruição da Biblioteca de Alexandria, grande parte da cultura oficial será eliminada da existência. A partir de agora, as histórias serão escritas com base no que foi preservado na impressão.”

Outra vantagem importante é que a leitura da impressão, em oposição à tela, permite uma retenção e capacidade muito maiores de processar o material que está sendo lido. Em seu livro de 2010, The Shallows: O que a Internet está fazendo com nossos cérebros (em tradução livre), Nicholas Carr fornece um argumento convincente de que a Internet incentiva uma forma de leitura que pode ser caracterizada como hiper-skimming. Desestimula a leitura profunda. Isso, por sua vez, dificulta o processamento do material que está sendo lido na memória de longo prazo, o que é necessário para processar as informações.

Se queremos nos comunicar com as pessoas de maneira significativa, é crucial usar formas capazes de fazê-lo. Isso é particularmente verdadeiro se estivermos interessados em envolver as pessoas de uma maneira que as encoraje a pensar em ideias por si mesmas, em vez de imitar slogans ideológicos.

Os radicais costumam falar em alcançar o que os esquerdistas autoritários chamam de massas. Que maneira terrível de pensar em comunicação, transformando-a em uma medida quantitativa voltada para quem eles percebem como uma gota homogênea.

Em vez de visar às massas, um objetivo melhor é alcançar pessoas dentro de um estreito limite ideológico. A Internet incentiva a comunicação baseada em bolhas de filtro, uma espécie de câmara de eco. Os zines, por outro lado, não têm dificuldade em se conectar com os outros. É tão simples quanto deixar um zine em algum lugar. Pode ser um lugar onde nossos espíritos afins se reúnem, como uma loja de discos. Eu deixei milhares de zines em lugares aleatórios ou estratégicos ao longo dos anos.

Os zines continuam a existir e são ainda mais dedicados à criação, com menos ilusões de sucesso comercial. Eles têm a capacidade de ressoar ao longo do tempo, sendo importantes anos ou mesmo décadas a partir da data em que foram publicados. Duvido que um tweet compartilhe esse poder.

>> Jason Rodgers publica uma infinidade de zines e folhetos. O Asymmetrical Anti-Media é um zine de reviews que aparece regularmente. Outros comunicados recentes incluem “Afinidade e conspiração passional” e “Linhas de comando, linhas de controle”. Eles estão disponíveis por correio: PO Box 10894, Albany, NY 12201, EUA.

Fonte: Fifth Estate # 406, Primavera de 2020

Tradução > abobrinha

agência de notícias anarquistas-ana

um pássaro canta
na corda de estender roupa —
posso esperar

Rosa Clement

Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/08/17/eua-por-que-os-zines-se-recusam-a-morrer-samizdat-xerography/

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Leon Trotsky e a arte revolucionária - Por Michael Lowy

Leon Trotsky e a arte revolucionária

Pelo 80º aniversário de sua morte

Há oitenta anos, em agosto de 1940, Leon Davidovich Trotsky foi assassinado no México por Ramon Mercader, um fanático agente da GPU stalinista. Este trágico acontecimento é amplamente conhecido hoje, muito além das fileiras dos partidários de Trotsky, graças, entre outras coisas, ao romance O Homem que Amava Cães, do escritor cubano Leonardo Padura...

Revolucionário de outubro de 1917, fundador do Exército Vermelho, adversário inflexível do stalinismo, fundador da Quarta Internacional, Leon Davidovich Bronstein trouxe contribuições essenciais ao pensamento e à estratégia marxista: a teoria da revolução permanente, o programa de transição, análise de desenvolvimento desigual e combinado – entre outros. Sua História da Revolução Russa (1930) se tornou uma referência essencial: apareceu entre os livros de Che Guevara nas montanhas bolivianas. Muitos de seus escritos ainda podem ser lidos no século XXI, enquanto os de Stalin e Zhdanov estão esquecidos nas prateleiras mais empoeiradas das bibliotecas. Podemos criticar algumas de suas decisões (Kronstadt!) e contestar o autoritarismo de certos escritos dos anos 1920-21 (como Terrorismo e Comunismo, 1920); mas não podemos negar seu papel como um dos maiores revolucionários do século XX.

León Trotsky também foi um homem de grande cultura. Seu pequeno livro Literatura e Revolução (1924) é um exemplo marcante de seu interesse pela poesia, literatura e arte. Mas há um episódio que ilustra melhor do que qualquer outro essa dimensão do personagem: a elaboração, com André Breton, de um manifesto sobre a arte revolucionária. Este é um raro documento de inspiração “marxista libertária”. Nesta breve homenagem ao aniversário da sua morte, recordemos este episódio fascinante.

Durante o verão de 1938, Breton e Trotsky se encontraram no México, aos pés dos vulcões Popocatepetl e Ixtacciuatl. Este histórico encontro foi preparado por Pierre Naville, ex-surrealista, dirigente do movimento trotskista na França. Apesar de uma violenta controvérsia com Breton em 1930, Naville escrevera a Trotsky em 1938, recomendando Breton como um homem valente que não hesitou, ao contrário de tantos outros intelectuais, em condenar publicamente a infâmia dos Processos de Moscou. Trotsky tinha, portanto, concordado em receber Breton e este, com sua companheira Jacqueline Lamba, embarcaram para o México. Trotsky vivia na época na Casa Azul, que pertencia a Diego Rivera e Frida Kahlo, dois artistas que compartilharam suas ideias e que o receberam com calorosa hospitalidade (infelizmente, eles se desentenderiam poucos meses depois). Foi também nesta enorme casa localizada no distrito de Coyoacán que Breton e seu companheiro foram hospedados durante a estada.

Foi um encontro surpreendente, entre personalidades aparentemente situadas nos antípodas: uma, herdeira revolucionária do Iluminismo, a outra, instalada na cauda do cometa romântico; um, fundador do Exército Vermelho, o outro, iniciador da Aventura Surrealista. A relação entre eles era bastante desigual: Breton tinha enorme admiração pelo revolucionário de outubro, enquanto Trotsky, embora respeitasse a coragem e a lucidez do poeta – um dos raros intelectuais franceses de esquerda a se opor ao stalinismo – tinha algumas dificuldades para entender o surrealismo… Ele pedira ao seu secretário, Van Heijenoort, que lhe fornecesse os principais documentos do movimento e os livros de Breton, mas esse universo intelectual era estranho a ele. Seus gostos literários o levaram mais aos grandes clássicos realistas do século 19 do que às experiências poéticas incomuns dos surrealistas.

No início o encontro foi muito caloroso: segundo Jaqueline Lamba – companheira de Breton, que o acompanhou ao México, entrevistada por Arturo Schwarz: “Todos ficamos muito emocionados, até Lev Davidovich. Sentimo-nos imediatamente bem-vindos de braços abertos. L.D. ficou muito feliz em ver o André. Ficou muito interessado”. No entanto, essa primeira conversa quase deu errado… Segundo o testemunho de Van Heijenoort: “O velho rapidamente começou a discutir a palavra surrealismo, para defender o realismo contra o surrealismo. Ele entendeu por realismo o significado preciso que Zola deu a esta palavra. Ele começou a falar sobre Zola. Breton a princípio ficou um tanto surpreso. No entanto, ele ouviu com atenção e soube encontrar as palavras para destacar certos traços poéticos na obra de Zola.” (Entrevista de Van Heijenoort com Arturo Schwarz). Outros assuntos polêmicos surgiram, notadamente sobre o tema do “hasard objectif”, caro aos surrealistas. Foi um mal-entendido curioso: enquanto para Breton era uma fonte de inspiração poética, Trotsky a via como um questionamento do materialismo…

E, no entanto, a corrente passou, o russo e o francês encontraram uma linguagem comum: internacionalismo, revolução, liberdade. Jacqueline Lamba fala com razão de uma afinidade eletiva entre os dois. As conversas ocorreram em francês, que Lev Davidovich falava fluentemente. Eles viajarão juntos pelo México, visitando os lugares mágicos das civilizações pré-hispânicas e praticando, imersos nos rios, a pesca à mão. Nós os vemos conversando amigavelmente em uma foto famosa, sentados próximos uns dos outros em um matagal, descalços, após uma dessas pescarias.

Deste encontro, da fricção dessas duas pedras vulcânicas, surgiu uma fagulha que ainda brilha: o Manifesto por uma Arte Revolucionária Independente. De acordo com Van Heijenoort, Breton apresentou uma primeira versão e Trotsky recortou esse texto colando sua própria contribuição (em russo). É um texto comunista libertário, antifascista e alérgico ao stalinismo, que proclama a vocação revolucionária da arte e sua necessária independência em relação aos Estados e aos aparatos políticos. Ele pedia a criação de uma Federação Internacional de Arte Revolucionária Independente (FIARI).

A ideia do documento partiu de Leon Trotsky, que foi imediatamente aceita por André Breton. Foi um dos poucos, senão o único documento a quatro mãos, escrito pelo fundador do Exército Vermelho. Produto de longas conversas, discussões, trocas e, sem dúvida, alguns desentendimentos, foi assinado por André Breton e Diego Rivera, o grande pintor mural mexicano, na época fervoroso defensor de Trotsky (eles se desentenderão logo depois). Essa pequena mentira inofensiva se devia à crença do velho bolchevique de que um Manifesto sobre a arte deveria ser assinado apenas por artistas. O texto teve forte tom libertário, notadamente na fórmula, proposta por Trotsky, proclamando que, em uma sociedade revolucionária, o regime dos artistas deveria ser anarquista, ou seja, baseado na liberdade ilimitada. Em outra passagem famosa do documento, é proclamada “toda licença na arte”. Breton propôs acrescentar “exceto contra a revolução proletária”, mas Trotsky propôs eliminar este acréscimo! Conhecemos a simpatia de André Breton pelo anarquismo, mas curiosamente, neste Manifesto, é Trotsky quem escreveu as passagens mais “libertárias”.

O Manifesto afirma o destino revolucionário da arte autêntica, isto é, aquela que “opõe os poderes do mundo interior” contra “a realidade presente e insuportável”. Foi Breton ou Trotsky quem formulou essa ideia, sem dúvida extraída do repertório freudiano? Pouco importa, já que os dois revolucionários, o poeta e o lutador, conseguiram chegar a um acordo no mesmo texto.

O documento guarda, em seus princípios fundamentais, uma atualidade surpreendente, mas não sofre menos de certas limitações, talvez devido à conjuntura histórica de sua redação. Por exemplo, os autores denunciam, com grande acuidade, as restrições à liberdade dos artistas, impostas pelos Estados, em particular (mas não apenas) pelos Estados totalitários. Mas, curiosamente, perde uma discussão, e uma crítica, dos obstáculos que resultam do mercado capitalista e do fetichismo da mercadoria… O documento cita uma passagem do jovem Marx, afirmando que o escritor “não deve em caso algum viver e escrever só para ganhar dinheiro”; no entanto, em seu comentário sobre essa passagem, em vez de analisar o papel do dinheiro na corrupção da arte, os dois autores se limitam a denunciar as “restrições” e “disciplinas” que se tenta impor aos artistas em nome da “razão de Estado”. É ainda mais surpreendente que não se possa duvidar do anti-capitalismo visceral dos dois: não teria Breton qualificado Salvador Dali, que se tornou um mercenário, como um “Avida Dollars”?[ i] Encontramos a mesma lacuna no prospecto da revisão da FIARI (Clé), que clama pelo combate ao fascismo, ao stalinismo e … à religião: o capitalismo está ausente.

O Manifesto concluiu, como vimos, com um apelo à criação de um amplo movimento, uma espécie de Internacional dos Artistas, a Federação Internacional para uma Arte Revolucionária Independente (FIARI), incluindo todos aqueles que se reconhecem no espírito geral de documento. Em tal movimento, escrevem Breton e Trotsky, “os marxistas podem andar aqui de mãos dadas com os anarquistas (…) desde que ambos rompam implacavelmente com o espírito policial reacionário, seja representado por Joseph Stalin ou por seu vassalo Garcia Oliver”. Esse apelo à unidade entre marxistas e anarquistas é um dos aspectos mais interessantes do documento e um dos mais atuais, um século depois.

Entre parênteses: a denúncia de Stalin, qualificada pelo Manifesto como “o mais pérfido e perigoso inimigo” do comunismo, era essencial, mas seria preciso tratar o anarquista espanhol García Oliver, companheiro de Durruti, o dirigente histórico da CNT-FAI, o herói da resistência antifascista vitoriosa em Barcelona em 1936, de seu “vassalo”? É certo que foi ministro (renunciou em 1937) do primeiro governo da Frente Popular (Largo Caballero); e seu papel em maio de 1937, durante a luta em Barcelona entre stalinistas e anarquistas (apoiados pelo POUM), negociando uma trégua entre os dois campos, era muito questionável. Mas isso não o torna um capanga do Bonaparte soviético…

A FIARI foi fundada logo após a publicação do Manifesto; conseguiu reunir não apenas os partidários de Trotsky e os amigos de Breton, mas também anarquistas e escritores ou artistas independentes. A Federação tinha uma publicação, a revista Clé, editada por Maurice Nadeau, na época um jovem militante trotskista com grande interesse pelo surrealismo (tornou-se autor, em 1946, da primeira Histoire du Surréalisme). O gestor foi Léo Malet e o Comité Nacional era composto por: Yves Allégret, André Breton, Michel Collinet, Jean Giono, Maurice Heine, Pierre Mabille, Marcel Martinet, André Masson, Henry Poulaille, Gérard Rosenthal, Maurice Wullens. Entre os participantes encontramos: Yves Allégret, Gaston Bachelard, André Breton, Jean Giono, Maurice Heine, Georges Henein, Michel Leiris, Pierre Mabille, Roger Martin du Gard, André Masson, Albert Paraz, Henri Pastoureau, Benjamin Péret, Herbert Read, Diego Rivera, Léon Trotsky… Esses nomes dão uma ideia da capacidade da FIARI de associar personalidades políticas, culturais e artísticas bastante diversas.

A revista Clé só teve 2 edições: o nº 1 apareceu em janeiro de 1939 e o nº 2 em fevereiro de 1939. O editorial do nº 1 intitulava-se “Pas de patrie!”, e denunciava a repressão e internamento de imigrantes estrangeiros pelo governo Daladier: uma questão muito atual em 2018! A FIARI foi uma bela experiência “marxista libertária”, mas de curta duração: em setembro de 1939, o início da Segunda Guerra Mundial pôs fim, de fato, à Federação.

Post-scriptum: em 1965, nosso amigo Michel Lequenne, na época um dos dirigentes do PCI, o Partido Comunista Internacionalista, seção francesa da Quarta Internacional, propôs ao Grupo Surrealista uma refundação da FIARI. Parece que a ideia não desagradou André Breton, mas acabou por ser rejeitada por uma declaração coletiva, datada de 19 de abril de 1966 e assinada por Philippe Audoin, Vincent Bounoure, André Breton, Gérard Legrand, José Pierre, Jean Schuster – pelo Movimento Surrealista.

Nota bibliográfica: o livro de Arturo Schwarz, André Breton, Trotsky et anarchie (Paris, 18/10/1974) contém não apenas o texto do Manifesto FIARI, mas também todos os escritos de Breton sobre Trotsky, bem como uma introdução histórica substancial de 100 páginas pelo autor, que foi capaz de entrevistar o próprio Breton, Jacqueline Lamba, Van Heijenoort e Pierre Naville. Um dos documentos mais comoventes desta coleção é o discurso feito por Breton no funeral em Paris em 1962 para Natalia Sedova Trotsky. Depois de prestar homenagem a esta mulher cujos olhos viveram “as batalhas mais dramáticas entre a sombra e a luz”, concluiu com esta esperança obstinada: chegará o dia em que não só se fará justiça a Trotsky, mas também “às ideias pelas quais deu sua vida “.

Michael Löwy é diretor de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique.

Tradução de Artur Scavone publicada originalmente em 'A Terra é Redonda'

[ i] NT – Na comunidade artística Dalí recebeu esse apelido por sua suposta ganância. Foi chamado de “Avida Dollars”, um trocadilho com seu nome.

Fonte: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Memoria/Leon-Trotsky-e-a-arte-revolucionaria/51/48409

Ponto sem volta - por Jota Camelo

 Fonte: https://twitter.com/ojotacamelo

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Um Neoliberalismo antiglobalista e iliberal – por Pierre Dardot

Um Neoliberalismo antiglobalista e iliberal
Multiplicam-se as alianças da oligarquia financeira com os Trump, Bolsonaro e Orban. Desde a crise de 2008, sistema abandonou os anéis, para manter objetivo essencial: estender a racionalidade ultracapitalista a nossa vida e subjetividade
Imagem: James Ensor, The Man & the Mask (1891)

Introdução
O neoliberalismo encontra-se atravessado desde o início por tensões e divisões internas. Está, pois, caracterizado por sua pluralidade interna, sua plasticidade e sua capacidade de mutação. E este ponto é enfatizado fortemente por Wendy Brown: longe de se manter unificado, o neoliberalismo é caracterizado por “seu caráter irregular, sua falta de identidade própria, sua variabilidade espacial e temporal e, acima de tudo, sua propensão à reconfiguração”. Portanto, devemos falar aqui de um neoliberalismo “antigo” e de um “novo”, a fim de melhor destacar o caráter plural, multifacetado e plástico desse “novo neoliberalismo” que agora aparece em várias partes do mundo.

O termo “neoliberalismo” foi cunhado pelo industrial francês Louis Marlio durante a Conferência Walter Lippmann, em 1938, às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Desde então, assumiu um significado tão frouxo que se tornou importante apreendê-lo de modo mais preciso. De fato, deve-se evitar que seja invocado o tempo todo, de maneira indiscriminada e indiferenciada, como um termo genérico – e não como um conceito. Também não pode ser reduzido a um registro puramente denunciador, que tem o efeito de “engolir todas as diferenças” na noite em que todas as vacas são pardas, como diria Hegel. Assim, tornamo-nos incapazes de determinar em cada situação o que consiste numa política neoliberal e o que escapa dela.

Pode acontecer que um governo que não seja neoliberal por sua ideologia ou sua inspiração intelectual, mas que implemente uma ou mais políticas neoliberais. Isso ocorre às vezes devido à grande restrição global que ele exerce enquanto um sistema atual de poder.

Há vários anos, vários governos da América Latina (Brasil, Venezuela, Chile, Bolívia, Equador) foram rotulados, de um modo tão enganoso quanto autopromocional, de “pós-neoliberalismo”; entretanto, ao mesmo tempo, eles estavam implementando políticas neoliberais. Hoje temos o caso do governo de Orban, campeão da “democracia iliberal”, que conseguiu aprovar uma lei de “trabalho escravo”; esta autoriza os líderes empresariais a impor aos seus funcionários 400 horas extras de trabalho mediante um pagamento que pode ser adiado por até três anos. Ora, esse governo é perfeitamente neoliberal em sua política e em seu espírito. Portanto, é extremamente importante entender a diversidade do neoliberalismo, bem como sua lógica subjacente.

Fratura interna à racionalidade neoliberal
A divisão que está surgindo no campo do neoliberalismo é de natureza diferente; eis que aparece agora uma divisão entre “liberais” e “nacionalistas”. Por um lado, têm-se Macron, Merkel e Junker, por outro, têm-se Orban, Trump e Salvini; ora, todos eles têm interesse em dramatizar as questões para fins eleitorais óbvios. De fato, os atuais neoliberais não repetem a divisão de 1957 entre “constitucionalistas” e “universalistas”: os primeiros, eram partidários de acordos regionais ou locais bilaterais, em vez de grandes acordos multilaterais; os segundos eram a favor da integração em grupos supranacionais e, por isso, tinham um projeto de uma constituição europeia.

Há algo novo na história política do neoliberalismo que não devemos procurar mitigar, reduzindo-o ao já visto ou conhecido. A hipótese que proponho é ver nele uma fratura interna da racionalidade neoliberal, uma fratura que provavelmente comprometerá alguns dos arranjos elaborados na década de 1990, particularmente no que diz respeito às regras comerciais globais. O desafio implícito nessa oposição interna ao neoliberalismo é a reorganização da economia mundial após a crise de 2008, em um contexto de ascensão de novas potências (como a China).

Mas o que exatamente se entende por “racionalidade”? Nem uma ideologia nem uma política, mas uma normatividade, isto é, uma lógica das práticas governamentais ordenadas por padrões, das quais a primeira e mais importante delas é a da concorrência. Com isso, entendemos que o neoliberalismo não pode ser reduzido à política de austeridade ou às políticas econômicas monetaristas, ou ainda à saturação da sociedade por meio de uma pletora de mercadorias ou mesmo pela ditadura dos mercados financeiros. Na realidade, consiste em uma extensão da lógica de valorização do capital além da esfera do mercado entendida em sentido econômico. Essa lógica passa a abranger também o próprio Estado e mesmo as pessoas; ela conforma assim as nossas vidas e as nossas subjetividades. Isso vai muito além de uma simples “economia” para chegar a ser a criação de uma forma de vida.

Deste ponto de vista, a figura de Trump é exemplar: ele personifica até mesmo em suas práticas de governar o Estado empreendedor e constantemente aproveita sua experiência como empresário como líder do Estado. Certamente se opõe à globalização comercial, mas é muito favorável à globalização financeira. Foi isso que escapou a alguns, como Ignacio Ramonet, que diagnosticou na vitória eleitoral de Trump uma ruptura com o neoliberalismo. Eis que confundiu uma ruptura com a “ideologia globalista” e uma ruptura com a racionalidade neoliberal.

Ao distinguir entre “ideologia” e “racionalidade” é preciso ter muito cuidado. A própria Wendy Brown corrigiu recentemente a distinção que havia feito entre neoconservadorismo e neoliberalismo, identificando o primeiro com a defesa dos valores familiares tradicionais e supondo que se tratava de uma ideologia estranha à racionalidade neoliberal. Na realidade, o neoliberalismo combinou desde o início a defesa da moralidade tradicional e a extensão da lógica de mercado. À medida que seu sucesso avançou, passou a dar um novo papel à família, qual seja ele, encarregar-se da assistência social em vez do Estado, juntamente com educação, creche e assistência aos idosos. Este caráter regressivo agora está se tornando manifesto.

Devemos, portanto, evitar confundir essa apreciação da família e dos princípios morais tradicionais, constitutivos da racionalidade neoliberal, com esta ou aquela “ideologia” no sentido de um sistema de crenças e representações, tal como, por exemplo, esta ou aquela religião (o Islã sunita para a Turquia de Erdogan, a Igreja Ortodoxa para a Hungria de Orban ou alguma variedade de protestantismo nos EUA). Isso não impede que o conteúdo dessas ideologias contribua mais ou menos diretamente para o fortalecimento da lógica neoliberal. Se considerarmos o caso do Brasil de Bolsonaro, estamos lidando também com uma forma de religiosidade, a das igrejas evangélicas que defendem a “teologia da prosperidade”.

A razão normativa e governamental do neoliberalismo foi estabelecida no final dos anos 1980 e início dos anos 90. Não surgiu subitamente, mas foi preparada por vários experimentos. Havia, portanto, elementos de governamentalidade, mas que ainda não formavam realmente um sistema. Se olharmos mais de perto o caso do Chile de Pinochet, podemos ver que a ditadura desde muito cedo pôs em prática tais elementos. De fato, uma das medidas mais significativas da “terapia de choque” após o 11 de setembro de 1975 foi a privatização das universidades: com ela foi criada uma estrutura legal e institucional conformadora da conduta dos indivíduos, a qual se tornou duradoura e profundamente voltada na direção de uma adesão à norma da competição generalizada. Os efeitos dessa transformação não serão total e abertamente implantados até depois dos anos 90, mas eles continuam sendo sentidos atualmente.

Entretanto, falar de uma racionalidade neoliberal de maneira alguma implica em assimilá-la à ação de um rolo compressor indiferente à diversidade de situações, contextos culturais e tradições nacionais. A razão neoliberal pode ser uma razão global, no duplo sentido de “transversal” e “global”, mas não é uma razão unitária que exerceria uma homogeneização em escala mundial. Essa visão de que há uma identidade homogênea se alimenta da vulgata anti-neoliberal do fundamentalismo de mercado e, em particular, da metáfora da tabula rasa que Naomi Klein usa extensivamente. Por outro lado, é preciso estar atento à modulação diferenciada dessa normatividade de acordo com países e situações nacionais.

O governo de Salvini e Di Maio, na Itália, ofereceu um bom exemplo dessa plasticidade e dessa hibridização interna ao neoliberalismo. Existiu uma situação complexa em que uma coalizão eleitoral entre um partido neofascista tradicional (Lega) e uma nova formação (Cinque Stelle) foi montada para formar um governo. De fato, o que se deu foi que o Lega Nord, um partido étnico e regionalista que participou de várias coalizões de direita nos anos 1990 e 2000, antes de retornar ao poder, aliou-se ao movimento Cinque Stelle, o qual é bastante típico do que chamamos de “novo neoliberalismo”. Juntando uma política de identidade nacional voltada contra a imigração e uma política de segurança igualmente violenta, o partido de Salvini pode adotar uma postura ao mesmo tempo nacionalista e neoliberal.

Por seu lado nacionalista, o Lega ficou contra a União Monetária, o euro e o livre comércio generalizado; segundo os seus líderes, o “europeísmo” e o “globalismo” estão prejudicando a economia do país e, assim, o povo italiano. Por seu lado neoliberal, o Lega ataca qualquer lógica de redistribuição de impostos e de gastos públicos. Como base na tese de um imposto igualmente distribuído, pretende apoiar sobretudo as pequenas e médias empresas, reduzindo os seus custos e os padrões que regem a produção e o mercado de trabalho.

Tal como Trump, trata-se de reafirmar a soberania comercial e, especialmente, monetária, enquanto liberaliza o mercado interno para o benefício de empresários erigidos como heróis nacionais. Mas o que, no contexto italiano específico, talvez melhor caracterize o Lega é sua estratégia de reorganização interna do Estado italiano a longo prazo: trata-se de fortalecer a autonomia das regiões, aumentando as suas capacidades e os seus recursos fiscais, contra qualquer desejo de igualdade dos cidadãos perante os serviços públicos mais básicos.

Quanto à “renda da cidadania” adotada pela coalizão, foi uma tentativa de agradar ao eleitorado de Cinque Stelle, que defende um “neoliberalismo paternalista”: bem longe de promover a participação ativa da cidadania, ela vem acompanhada por restrições drásticas (a renda é creditada pelas agências de emprego temporário e não beneficia os estrangeiros – exceto os residentes no país há 5 ou 10 anos). Envolve um controle do uso do dinheiro que visa impedir despesas “imorais” etc. que o conformam como um instrumento para moralizar os pobres e disciplinar a força de trabalho em benefício das empresas.

Portanto, temos nacionalismo identitário, anti-UE e anti-migrante na relação externa combinado com um enfraquecimento em sentido quase federalista da estrutura do Estado italiano, renovando assim as dificuldades históricas ligadas à unificação da Itália. Diferentemente da posição adotada na França pelo Front Nacional, o nacionalismo identitário não implica, portanto, a promoção de um Estado unitário centralizado, o que de forma alguma impede que uma lógica hiper autoritária se afirme na ação do governo que esteve na cabeça do Estado.

Outro exemplo é o da AfD na Alemanha. Esse partido foi formado a partir de uma plataforma ordoliberal centrada na demanda por estabilidade monetária e na recusa de qualquer solidariedade com os países do sul da UE. Ela joga com a imaginação da “economia social de mercado”, característica do ordoliberalismo desde a década de 1950. Novamente, esse nacionalismo é, antes de tudo, anti-imigrante e anti-UE, sem que o Estado fortemente defendido implique numa centralização às custas da estrutura federal.

O que é surpreendente é que, apesar da diversidade de caminhos adotados, seja legalização ou modificações constitucionais, o neoliberalismo atual não sente a necessidade de recorrer ao arsenal do “estado de exceção” teorizado por Agamben no início dos anos 2000. Assim, no Brasil, após as modificações constitucionais iniciadas por Temer para impor um teto aos gastos públicos, a reforma previdenciária planejada pelo governo Bolsonaro modificou a Constituição sem a necessidade de revoga-la ou suspendê-la.

Como explica Tatiana Roque em “Democracia no Brasil: uma crise em três atos”, é essa constitucionalização da política econômica que possibilita entender melhor o papel desempenhado por Paulo Guedes no governo de Bolsonaro. É errôneo pensar que esse economista, um Chicago-boy, fornece a esse governo um vago tom neoliberal na forma de uma ideologia. O fato da guerra contra a democracia ser travada pelo recurso cada vez mais sistemático à constitucionalização, ao Judiciário e à legalidade não impede, no entanto, que seja uma guerra real, obedecendo a uma lógica implacável que justifica a perseguição de minorias, a prática de assassinatos e a imposição de uma ordem moral.

Conclusão
A história do neoliberalismo mostra uma diversidade interna que muitas vezes se aproxima de divisões ou cisões, tal como a oposição entre “universalistas” e “constitucionalistas” no que se refere à Europa. Isso não é novidade. O que há de novo no “novo neoliberalismo” não é o fato da divisão do campo neoliberal em correntes opostas. O novo é que essa divisão opera na questão de como ampliar essa racionalidade do capital no contexto da crise pós-2008. Ou continuando e intensificando a constitucionalização das regras do direito privado em escala global ou de blocos regionais tal como a União Europeia (os “globalistas”); ou exacerbando a competição entre Estados por um nacionalismo que não é apenas econômico, mas também e talvez até acima de tudo, identitário (os “nacionalistas”). Mas, qualquer que seja o caminho escolhido, o que não se pode duvidar, é que esse novo neoliberalismo, com todas as correntes nele incluídos, globalistas ou nacionalistas, esteja trazendo ao seu clímax a antidemocracia inerente ao antigo neoliberalismo.

1 Autor, junto com Christian Laval, de A nova razão do mundo – ensaio sobre a sociedade neoliberal e Comum – Ensaio sobre a revolução no século XXI, Boitempo, 2016 e 2017.

Tradução: Eleutério Prado

Coxão e Coxinha - por Jota Camelo

Fonte: https://twitter.com/ojotacamelo

Uma breve história do antifascismo – por James Stout – A.N.A.

Uma breve história do antifascismo
Enquanto a ideologia ameaçar as comunidades marginalizadas, grupos de esquerda reagem com força

Eluard Luchell McDaniels atravessou o Atlântico em 1937 para enfrentar fascistas na Guerra Civil Espanhola, onde ficou conhecido como “El Fantastico” por conta de sua habilidade com uma granada. Como sargento de pelotão junto ao Batalhão Mackenzie-Papineau das Brigadas Internacionais, o afro-americano de 25 anos, oriundo do Mississippi, comandou tropas brancas e as liderou numa batalha contra as forças do General Franco, homens que o viam como menos que humano. Pode parecer estranho para um negro ir a tais limites pela chance de lutar numa guerra de homem branco, tão longe de casa – já não havia bastante racismo para confrontar nos Estados Unidos? – mas McDaniels estava convencido de que antifascismo e antirracismo eram uma coisa só. “Vi que os invasores da Espanha eram as mesmas pessoas contra as quais lutei em toda minha vida”, disse McDaniels, em citação reproduzida pelo historiador Peter Carroll. “Vi linchamento e fome, e eu conheço os inimigos de meu povo”.

McDaniels não estava sozinho ao ver o antifascismo e o antirracismo como intrinsecamente conectados; os antifascistas de hoje são herdeiros de quase um século de luta contra o racismo. Embora os métodos do Antifa tenham se tornado objeto de muito discurso político acalorado, as ideologias do grupo, particularmente sua insistência na ação física direta para evitar a opressão violenta, são muito melhor compreendidas quando vistas no quadro de uma luta iniciada há quase um século contra a discriminação violenta e a perseguição.

Em Anatomy of Fascism [edição em português: “A Anatomia do Fascismo”] – um dos trabalhos definitivos sobre o tema – o historiador Robert Paxton expõe as paixões motivacionais do fascismo, que incluem “o direito de um grupo escolhido dominar os outros, sem restrição de qualquer lei humana ou divina”. Em sua essência, o fascismo busca estabelecer como premissa as necessidades de um grupo – frequentemente definido pela raça ou etnicidade – sobre o resto da humanidade; antifascistas sempre se opuseram a isso.

O antifascismo começou onde o fascismo começou, na Itália. O grupo Arditi del Popolo – “Os Corajosos do Povo” – foi fundado em 1921, sendo assim chamado em homenagem às tropas de choque do exército italiano na Primeira Guerra que nadavam através do Rio Piave com punhais nos dentes. Eles se comprometeram a lutar contra a facção cada vez mais violenta dos camisas-pretas, forças encorajadas por Benito Mussolini, que estava prestes a se tornar ditador fascista na Itália. Os Arditi del Popolo reuniram sindicalistas, anarquistas, socialistas, republicanos e ex-oficiais do exército. Desde o início, os antifascistas começaram a construir pontes onde os grupos políticos tradicionais enxergavam muros.

Essas pontes se estenderiam rapidamente às raças perseguidas pelos fascistas.

Uma vez no governo, Mussolini deu início a uma política de “italianização” que levou ao genocídio cultural de eslovenos e croatas que viviam na parte nordeste do país. Mussolini baniu seus idiomas, fechou suas escolas e até os fez mudarem seus nomes para que soassem mais italianos. Como resultado, eslovenos e croatas foram forçados a se organizar fora do Estado para se protegerem da italianização, e se aliaram às forças antifascistas em 1927. O Estado respondeu formando uma polícia secreta, a Organizzazione per la Vigilanza e la Repressione dell’Antifascismo (OVRA), que vigiou cidadãos italianos, atacou organizações oposicionistas, assassinou suspeitos de antifascismo e até mesmo espionou e chantageou a Igreja Católica. Os antifascistas enfrentariam a OVRA por 18 anos, até que um militante antifascista, que usava o codinome Colonnello Valerio, fuzilou Mussolini e sua amante com uma submetralhadora em 1945.

Dinâmicas semelhantes se apresentaram quando o fascismo se espalhava pela Europa do pré-Guerra.
Os esquerdistas da Roter Frontkämpferbund (RFB) da Alemanha usaram pela primeira vez a famosa saudação do punho cerrado como símbolo de sua luta contra a intolerância; quando, em 1932, eles se tornaram Antifaschistische Aktion – ou “antifa”, por abreviação – eles combateram o antissemitismo e a homofobia nazistas sob bandeiras com o logotipo vermelho-e-preto, como o fazem os grupos antifa da atualidade. Aquele punho foi erguido pela primeira vez por trabalhadores alemães, mas continuaria a ser levantado pelos Panteras Negras; pelos velocistas estadunidenses Tommy Smith e John Carlos nas Olimpíadas de 1968; por Nelson Mandela, entre muitos outros.

Na Espanha, as táticas antifascistas e a solidariedade foram testadas em 1936, quando um golpe militar pôs à prova a solidariedade entre trabalhadores e grupos de classe média, que se organizaram como um conselho baseado numa frente popular contra o fascismo. Os antifascistas se mantiveram fortes e se tornaram um exemplo do poder do povo unido contra a opressão. Nos primeiros dias da Guerra Civil Espanhola, a milícia popular republicana foi organizada de modo muito semelhante aos modernos grupos antifa: eles votavam sobre decisões importantes, permitiam que mulheres lutassem ao lado dos homens e ficaram ombro a ombro com adversários políticos para enfrentar um inimigo comum.

Negros norte-americanos como McDaniels, ainda excluídos de um tratamento igualitário no exército dos EUA, serviram como oficiais nas brigadas estadunidenses que chegaram à Espanha, prontas para lutar contra fascistas. No total, 40 mil voluntários da Europa, África, Américas e China ficaram lado a lado como camaradas antifascistas contra o golpe de Franco na Espanha. Em 1936 não havia pilotos de caça negros nos Estados Unidos; contudo, três pilotos negros – James Peck, Patrick Roosevelt e Paul Williams – apresentaram-se como voluntários para enfrentar os fascistas nos céus da Espanha. Em seu país, a segregação os impedira de alcançar seus objetivos no combate aéreo, mas na Espanha eles encontraram igualdade nas fileiras antifascistas. Canute Frankson, um negro americano voluntário que serviu como mecânico-chefe na Garagem Internacional em Albacete, onde ele trabalhou, resumiu suas razões para lutar numa carta para casa:

Nós não somos mais um grupo minoritário isolado, lutando sem esperança contra um gigante imenso. Porque, minha querida, nos juntamos e nos tornamos parte ativa de uma grande força progressista, em cujos ombros repousa a responsabilidade de salvar a civilização humana da destruição planejada por um pequeno grupo de degenerados, enlouquecidos por seu desejo de poder. Porque se nós esmagarmos o fascismo aqui, salvaremos nosso povo na América e em outras partes do mundo da perseguição cruel, do aprisionamento em massa e do genocídio que o povo judeu sofreu e está sofrendo sob os calcanhares fascistas de Hitler.

No Reino Unido, os antifascistas se tornaram um importante movimento na medida em que o antissemitismo emergia como uma força de destaque. Em outubro de 1936, Oswald Mosley e a British Union of Fascists tentaram marchar pelos bairros judeus de Londres. Os 3 mil fascistas de Mosley e os 6 mil policiais que os acompanharam viram-se superados numericamente pelos antifascistas londrinos, que conseguiram detê-los. Estimativas sobre a multidão variam de 20 mil a 100 mil pessoas. Crianças locais foram recrutadas para jogar suas bolinhas de gude sob os cascos dos cavalos da polícia, enquanto que estivadores irlandeses, judeus da Europa Oriental e trabalhadores de esquerda ficaram lado a lado para bloquear o avanço da marcha. Eles ergueram seus punhos – assim como os antifascistas alemães – e entoaram “No pasarán” (slogan da milícia espanhola), e cantaram em italiano, alemão e polonês. Eles tiveram sucesso: os fascistas não passaram e a Cable Street se tornou um símbolo de uma ampla aliança antifascista calando a boca do discurso de ódio fascista nas ruas.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o antifascismo passou para o segundo estágio, saindo das ruas para ficar ao lado dos que estavam nos lugares de poder. Winston Churchill e outros imperialistas se colocaram contra o fascismo, mesmo enquanto mantinham o colonialismo que deixava o povo indiano passar fome para apoiar seu esforço de guerra. Uma aliança entre antifascistas comprometidos e antinazistas de ocasião foi formada. Tornou-se um tipo de meme de rede social que aqueles que lutaram na Segunda Guerra Mundial eram antifascistas, mas há tensões no cerne da crença antifascista. As Forças Armadas dos EUA que derrotaram os nazis ao lado dos Aliados eram segregadas, tropas de negros eram relegadas a papéis de segunda classe e não podiam servir ao lado de tropas brancas na mesma unidade. O antifascismo se opôs à primazia de qualquer grupo; soldados antifascistas na Espanha estiveram ao lado de camaradas negros como iguais, mas isso não aconteceu nas tropas americanas da Segunda Guerra.

Depois da guerra, o antifascismo saiu dos corredores do poder e retornou às ruas. Os britânicos confrontaram o fascismo, mas jamais exorcizaram seu ódio interno e rapidamente libertaram os simpatizantes fascistas detidos depois da guerra. Ex-militares judeus britânicos, que combateram o fascismo nos campos de batalha da Europa, retornaram para casa e viram homens como Mosley continuando a despejar nos espaços públicos uma retórica antissemita e anti-imigrante. Por meio de novas organizações que fundaram, eles se infiltrariam nos discursos de Mosley e, literalmente, o jogariam para fora do palco.

A mesma lógica anti-imigrante que sustentava o fascismo de Mosley no Reino Unido apareceu mais tarde na Alemanha, nos anos 1980, e novamente os antifascistas se reinventaram para enfrentar o ódio e o racismo encarnados pelos nazis skinheads, que estavam começando a se infiltrar na cena punk. Esta chamada terceira onda de antifascismo incorporou táticas como a das ocupações, ao mesmo tempo em que reviviam o punho erguido e os logos em preto-e-vermelho usados por seus avôs nos anos 1930.

Os mais radicais e numerosos squats foram fundados em Hamburgo, onde diversos grupos de jovens ocupavam prédios vazios como parte de uma contracultura urbana que rejeitava tanto a Guerra Fria quanto o legado do fascismo. Quando o clube alemão de futebol FC St Pauli mudou seu estádio para as proximidades, a cultura antirracista e antifascista dos squats tornou-se o princípio orientador do time. Mesmo com o retorno do entusiasmo anti-imigrante na política alemã dos anos 80, e com a cultura dos fãs de futebol se tornando racista e violenta, alguns alemães apreciadores do esporte – notadamente aqueles do clube St. Pauli – puseram-se de pé contra o racismo. Essa cultura de fã tornou-se lendária entre a esquerda global e o próprio clube adotou isso: hoje, o estádio do St. Pauli é pintado com slogans como “sem futebol para fascistas”, “futebol não tem gênero” e “nenhum ser humano é ilegal”. Eles até formaram uma equipe para refugiados.

O time, com seu logotipo de caveira e ossos cruzados – tomados de empréstimo do herói pirata antiautoritário Niolaus Stoertebeker, da Hamburgo do século 14 – talvez represente o antifascismo mais bacana visto até hoje. Vi seus adesivos nos banheiros imundos de shows punk em três continentes e identifiquei aquela bandeira de caveira e ossos cruzados num comício do Black Lives Matter esta semana.

Mas o antifascismo hoje não se trata de agitar bandeiras em partidas de futebol; trata-se de enfrentar, por meio da ação direta, racistas e genocidas onde quer que eles possam ser encontrados. Voluntários antifascistas, inspirados na experiência de seus predecessores na Espanha, têm silenciosamente deslizado pelos cordões internacionais até o nordeste da Síria, desde 2015, para lutar contra o Isis [Estado Islâmico] e recrutas turcos. Na região da Síria conhecida como Rojava, exatamente como na Espanha Republicana, homens e mulheres lutam lado a lado, levantam seus punhos para fotografias e orgulhosamente exibem a bandeira com o logo preto-e-vermelho enquanto defendem o povo curdo abandonado pelo mundo.

Quando o voluntário italiano Lorenzo Orzetti foi morto pelo Isis em 2019, os homens e mulheres de Rojava cantaram “Bella Ciao”, uma cantiga antifascista da Itália dos anos 1920. A canção se tornou popular nas montanhas da Síria quase 90 anos depois, e hoje há dezenas de gravações curdas disponíveis. Assim como o antifascismo protegeu eslovenos e croatas perseguidos, ele levanta as armas hoje para defender a autonomia curda. De volta à Alemanha, o St. Pauli acompanha as notícias de seus confederados na Síria e seus torcedores frequentemente seguram cartões coloridos para formar a bandeira de Rojava nos jogos.

E, claro, o antifascismo ressurgiu nos Estados Unidos. Em 1988 foi formada a Anti-Racist Action, com base no fato de que antirracismo e antifascismo são a mesma coisa, e que o nome ARR pode ser mais óbvio às pessoas nos EUA. Na Califórnia, Portland, Pensilvânia, Filadélfia, Nova Iorque e por todo o país, grupos autônomos surgem para lutar contra a ascensão do discurso de ódio, apoiar pessoas LGBTQIA e BIPOC [Black, Indigenous, and People of Color] e combater crimes de ódio. Em Virgínia, o clero local confiou no Antifa para manter as pessoas em segurança durante a manifestação “Untie the Right”, em 2017. Usando o logo antifa alemão dos anos 1930, o punho erguido do RFB e o slogan ‘No pasarán’, estes grupos têm se colocado à frente de racistas e fascistas em Los Angeles, Milwaukee e Nova Iorque – assim como seus predecessores fizeram na Cable Street. Embora acusações tenham sido levantadas contra o Antifa, por tornar violentos os recentes protestos, há poucas evidências de que os partidários da causa antifascista estivessem por trás de qualquer violência.

O antifascismo mudou muito desde 1921. Os ativistas antifascistas da atualidade investem seu tempo tanto usando inteligência de código-aberto para expor supremacistas brancos na internet quanto construindo barricadas nas ruas. Da mesma forma que seus antecessores na Europa, os antifascistas usam violência para combater violência. Isso lhes rendeu a fama de “bandidos de rua” em algumas partes da mídia, exatamente como foi no caso da Cable Street. O Daily Mail publicou a manchete “Vermelhos atacam os camisas-pretas, garotas entre os feridos” no dia depois da batalha, que agora é amplamente vista como um símbolo de identidade interseccional compartilhada entre a classe trabalhadora de Londres.

Quando Eluard McDaniels retornou da Espanha, ele foi barrado de seu emprego de marinheiro mercante, e seus colegas foram rotulados como “antifascistas prematuros” pelo FBI, mesmo que os Estados Unidos acabassem lutando contra os mesmos pilotos nazistas apenas três anos depois. O último americano voluntário da Guerra Civil Espanhola, um judeu branco chamado Delmer Berg, morreu em 2016, aos 100 anos. Berg, que foi perseguido pelo FBI e posto na lista negra durante a Era McCarthy, foi vice-presidente da filial da NAACP [National Association for the Advancement of Colored People] em seu condado, organizado com a United Farm Workers e Mexican-American Political Association, e considerou seu ativismo interseccional como a chave para sua longevidade.

Por ocasião da morte de Berg, o senador John McCain escreveu um artigo saudando esse bravo “comunista inveterado”. Politicamente, Mccain e Berg teriam concordado muito pouco, e McCain claramente evitou falar sobre a perseguição sofrida por Berg e seus camaradas quando eles retornaram à América; mas Mccain citou um poema de John Donne – o mesmo poema que deu título ao romance de Hemingway sobre a Guerra Civil Espanhola [1]. Ao citar Donne, McCain sugere que o antifascismo é um impulso humano básico; e o poema de Donne captura a ampla visão humanitária que motivaria os antifascistas 300 anos depois:

Each man’s death diminishes me,
For I am involved in mankind.
Therefore, send not to know
For whom the bell tolls,
It tolls for thee. [2]

Notas do tradutor:
[1] “For Whom the Bell Tolls” (“Por Quem os Sinos Dobram”), publicado em 1940.
[2] “…a morte de um único homem me diminui, porque Eu pertenço à Humanidade. Portanto, nunca procures saber por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti.” (assim traduzido na edição da Betrand Brasil de “Por quem os sinos dobram”, 2013).
Tradução > Erico Liberatti

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Alexandre Brito

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Leonard Peltier, 75 anos, 44 na prisão. A vida indígena importa? – por A.N.A.

Leonard Peltier, 75 anos, 44 na prisão. A vida indígena importa?
Estados Unidos, uma reserva de nativos americanos no sul de Dacota, em Oglala.

É um período de enorme tensão nessa área, se produziram frequentes ataques às comunidades indígenas por parte de grupos armados, os GOONS, formados em parte por nativos. Estes são homens comprados pelo governo dos Estados Unidos para reprimir as lutas do Movimento Indígena Americano (AIM) que durante alguns anos esteve reclamando uma vez mais os direitos dos nativos estadunidenses.

Esse dia chegou um automóvel de surpresa a esta pequena e empobrecida reserva, sem sinais de identificação, com dois homens dentro, se detêm a uma distância segura, se produz um tiroteio. Em retrospectiva, se descobrirá que os dois homens eram dois agentes do FBI que buscavam um índio acusado de roubar um par de botas. Vocês acreditam?

Provavelmente fosse uma armadilha preparada pelo próprio FBI, já que centenas de agentes chegaram em questão de minutos e o tiroteio foi uma loucura. Os dois brancos que chegaram primeiro e um nativo morrem. Dos nativos, quanto às centenas que morreram nesses anos, assassinados sabe-se lá por quem, ninguém investigou, mas por essas duas mortes de agentes alguém teria que pagar e caro.

Leonard Peltier, tinha 31 anos, era um ativista do AIM, esteve presente esse dia, e isto foi suficiente para converter-se no bode expiatório, foi preso no Canadá em 6 de fevereiro seguinte, a extradição se obteve com evidência tão falsa que posteriormente o governo canadense protestou formalmente pela forma como se obteve. O FBI se vingou: através de um julgamento manipulado, Leonard Peltier foi sentenciado a duas prisões perpétuas.

Se desejas saber mais, explora os numerosos artigos na Internet que acompanharam às numerosas campanhas para a liberdade de Leonard Peltier.

2020: digamos que é o momento adequado para recordar que os Estados Unidos (como os demais países do continente americano) se formaram sobre a base do maior massacre da história. 80 milhões de indígenas. Um exemplo que o próprio Hitler apreciava.

Ao contrário, só hoje as palavras destes povos, destas culturas, podem ser fundamentais dado o grande risco que corre a humanidade neste planeta.

Que Leonard Peltier finalmente saia do cárcere, possa reunir-se com sua gente, é este o símbolo de um povo resistente que ocupa o lugar, AO VIVO, das estátuas que são demolidas.

Liberdade para Leonard Peltier, assim como para Mumia Abu-Jamal, irmão de luta e resistência, também um símbolo, desta vez do povo negro da América.

Se a polícia estadunidense os mata com armas e com o peso de seus corpos nas ruas, morrem ainda mais lentamente nos cárceres estadunidenses, onde todas as “minorias” se convertem em “maiorias”.

Liberdade para Leonard Peltier, para Mumia Abu Jamal e para todos os presos políticos do mundo.

Divulgue esta história, um homem confinado em prisões de máxima segurança durante 16.195 dias e noites, te agradecerá.

No espírito de Crazy Horse (“Cavalo Louco”).

A. / Junho 2020

Fonte: https://cslpbarcelona.wordpress.com/peltier/leonard-peltier-la-vida-indigena-importa/

Tradução > Sol de Abril

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/12/04/eua-mensagem-de-leonard-peltier-no-dia-de-acao-de-gracas-2019-caminhando-sobre-terra-roubada/

agência de notícias anarquistas-ana

não tenho país
nem casa nem riqueza
e como me sinto bem!

Rogério Martins

Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/06/30/espanha-leonard-peltier-a-vida-indigena-importa/

Mateus 4:8 - por Jota Camelo

Fonte: https://twitter.com/ojotacamelo

Batalha da Praça da Sé – Aversão dos anarquistas sobre a “revoadas dos galinhas verdes” e o movimento antifascista em São Paulo – por A.N.A.

Batalha da Praça da Sé – Aversão dos anarquistas sobre a “revoadas dos galinhas verdes” e o movimento antifascista em São Paulo
Em 7 de outubro de 1934 os antifascistas de São Paulo infligiram uma grande derrota para os integralistas, naquela que ficou conhecida como a “batalha da praça da Sé” ou “revoada dos galinhas verdes”. Nesta data os integralistas haviam dito que fariam uma grande manifestação, a “marcha sobre São Paulo”, parafraseando Mussolini. Sete pessoas morreram e mais de trinta ficaram gravemente feridas.

Com a debandada dos “camisas verdes” e o sucesso da contramanifestação entretanto, surgiram e continuam a serem reproduzidas versões polêmicas. Este artigo busca, através de documentos da época e registros de depoimentos posteriores, resgatar a versão dos anarquistas sobre os fatos.

Precedentes:

A imigração italiana para o Brasil era massiva no final do século XIX e início do XX, sendo a Itália o país de origem que mais imigrantes trouxera naquelas décadas. O próprio movimento anarquista e o sindicalismo eram muito marcados pela presença de italianos, além de outros imigrantes e de brasileiros. Apesar do problema secular do racismo no Brasil, o fenômeno internacional do fascismo, propriamente dito, corporificando-se inicialmente na Itália e na Alemanha, naturalmente teve no operário imigrante suas primeiras repercussões.

A partir de 1922, Mussolini já havia assassinado muitos opositores, ninguém lembrava seus discursos socialistas e havia criado uma poderosa aviação – a grande propaganda fascista.

O fascismo se volta para o Brasil onde muitas entidades italianas são cooptadas para a propaganda. Um discurso do cônsul italiano Mazzolini, chefe dos “camisas pretas” diz: “A pátria tem aqui sua décima legião, o regime tem aqui sua velha guarda, a nação fascista tem aqui uma parte de si mesma”. O estribilho é Deus, Pátria e Família, é de data antiga.

(…) A cartilha fazia a cabeça das pessoas e crianças, dizendo que os caboclos, mestiços, índios, gaúchos etc… eram de raça inferior. Comícios, passeatas, manifestações eram feitas quase que diariamente. (CUBEROS, Jaime, 2015. p. 204)

Mussolini enviou à São Paulo o deputado Luigi Freddi, que assumiu a direção do jornal Il Piccolo. O jornal era do empresário fascista Rodolfo Crespi, fundador do colégio Dante Alighieri. Poucos conhecem o desconcertante passado do tradicional colégio paulista, de mesmo nome, conhecido pelo seu caráter rígido. Neste colégio era muito presente a saudação típica da mão estendida e professores italianos foram enviados e subsidiados pelo governo de Mussolini. (MALIN, Mauro. 2011)

Em 1928 dois aviadores fascistas atravessaram o Atlântico e um evento foi organizado em sua homenagem. Alcoolizado e empolgado, um aviador morreu ao resolver voar novamente e derrubar o seu avião no mar. Seu colega sobreviveu sem muitos ferimentos. Um artigo de Maria Lacerda de Moura no jornal O Combate viria a enfurecer os fascistas de São Paulo, o Il Piccolo e outro jornal chamado Fanfulla. A educadora e escritora anarquista escreveu “um artigo corajoso, honesto, irreverente, comparando o delírio aviatório-militarista de um Del Prete alcoolizado ao humanismo e à ciência de um Amundsen” (CUBERO, Jaime. 2015, p.204)

Os debates nos jornais durariam dias e levariam as vias de fato quando Il Piccolo faz ameaças a libertária. Estudantes revoltados saíram às ruas em protesto contra o fascismo e se dirigiram a sede do jornal. Apesar dos tiros de revólver, vindos do segundo andar, quebraram a fachada do edifício, os móveis e as instalações, mas a polícia conseguiu agir a tempo de proteger as oficinas.

Em seguida a multidão fez um comício de protesto na Praça Patriarca, onde foi aumentando de número. Durante esse comício, a polícia se concentrou junto ao Fanfulla. A multidão voltou, em seguida, ao Il Piccolo onde, vencendo a proteção da polícia, destruíram tudo, jogando as máquinas e arquivos na rua e incendiando também o edifício. “O grupo enchia a Praça dos Correios, o viaduto Santa Ifigênia e o parque do Anhangabaú, assistindo ao incêndio.” (CUBERO, Jaime. 2015, p.206)

Uma grande estátua em homenagem aos aviadores, enviada por Mussolini e inaugurada em 1929 pela Sociedade Dante Alighieri, ostenta até hoje símbolos fascistas na cidade de São Paulo. A escultura “Heróis da travessia do Atlântico” ficou entre 1987 a 2009 na praça Nossa Senhora do Brasil, no lado oposto ao da paróquia, no cruzamento entre a Av. Brasil e a Av. Europa. Em 2009 a estátua voltou ao seu local original, junto a represa Guarapiranga. A estátua possui dois grandes fascios, machados romanos que deram origem ao nome e ao símbolo do fascismo.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://novohorizonteanarquista.noblogs.org/batalhadapracadaseanarquista/

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Na palma da mão,
Um vaga-lume —
Sua luz é fria!

Shiki

Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/06/30/batalha-da-praca-da-se-a-versao-dos-anarquistas-sobre-a-revoadas-dos-galinhas-verdes-e-o-movimento-antifascista-em-sao-paulo/