Suprema corte dos EUA rechaça apelação de Mumia Abul-Jamal
Ontem, 6 de abril, foi um grande dia para os agentes da polícia, promotores, políticos, "jornalistas", e outros mais que clamam pelo linchamento público de Mumia Abu-Jamal. Na Suprema Corte dos Estados Unidos, as autoridades judiciais e seus pares mostraram suas verdadeiras lealdades e quebraram seus próprios precedentes ao recusar uma apelação do advogado de Mumia Abu-Jamal para um novo julgamento para estabelecer sua inocência. Muitos observadores pensam que esta apelação foi sua última chance para obter a liberdade pela via das cortes, embora seu advogado argumentou que pedirá uma revisão do caso.
Sim, um dia de festa para eles, mas um dia repugnate e melancólico para todos nós que buscamos sua liberdade. É ainda mais repugnate que a Corte mais alta do país, todavia não se pronuncie sobre a petição do Promotor Público da Filadélfia para executá-lo sem qualquer audiência.
Numa entrevista com Noelle Hanrahan de Prison Radio, na segunda-feira (6), Mumia respondeu: "Não há nada que ler. Não há ordem. Só sei que meu nome está numa lista de "Certificado negado"... Se isto se refere à questão Batson, isto significa que os precedentes não valem nada, que a lei é a política por outros meios e que a Constituição não vale nada. Um júri imparcial, tampouco”.
A base da apelação foi a exclusão indevida de ao menos 10 candidatos negros ao júri que condenou Mumia Abu-Jamal a morte em 1982 pelo assassinato do policial Daniel Faulkner. No caso "Batson versus Kentucky" de 1986, a Suprema Corte julgou que um réu merece um novo julgamento caso possa estabelecer que o procurador do ministério público usou seus vetos peremptórios para eliminar candidatos ao júri simplesmente devido a sua raça. No julgamento original, o procurador Joe McGill utilizou 10 ou 11 de 15 vetos para eliminar candidatos negros bem qualificados. Legalmente, Mumia tinha uma excelente chance, fortalecida por uma opinião recente escrita pelo juiz Samuel Alito que disse que é preciso rejeitar um veredicto e ordenar um novo julgamento se pelo menos um candidato é excluído da mesa por razões de raça ou religião.
Mas no ano passado o Tribunal do Terceiro Circuito, numa opinião 2-1, havia imposto um padrão excepcionalmente alto com referência à apresentação de evidência necessária para estabelecer um caso de preconceito racial. Não é a primeira vez que essa Corte faz exceções, especialmente para Mumia. Aliás, durante seus 26 anos em prisão, eles mudaram a regra diversas vezes. E desta vez, ao respaldar a opinião do Terceiro Circuito e recusar para Mumia um benefício concedido a uma longa lista de outras pessoas, a Suprema Corte dos Estados Unidos mostra que pretende deixá-lo em prisão pelo resto de sua vida - pelo menos.
Podia ser pior. A promotoria pública queria restaurar a pena de morte, rejeitado pelo juiz William Yohn baseado em sua opinião de 2001, que exige uma audiência para determinar a sentença (cadeia perpetua ou morte). Esta opinião foi ratificada pelo Tribunal do Terceiro Circuito no ano passado, mas o apelo da Promotoria busca a execução sem qualquer audiência. Se a Suprema Corte aceitasse considerar a petição da Promotoria, poderia decidir e permitir a execução de Mumia Abu-Jamal dentro de pouco tempo. O perigo é muito grande.
Os grupos de apoio na Filadélfia e outras partes do mundo chamam massivas expressões de recusa a este ataque contra a vida de Mumia Abu-Jamal.
agência de notícias anarquistas-ana
Chuva atravessa a noite,
os pássaros molhados cantam
invocando o sol.
Leo San
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Reportagem sobre o G20 do/as Anarquistas-vegano/as - ANA
Reportagem sobre o G20 do/as Anarquistas-vegano/as
[A seguir um comunicado de algun/mas anarquistas-vegano/as sobre as revoltas e resistências contra o G20 em Londres. "Nós somos a fúria que continuará esta guerra social!"]
Como anarquistas-vegano/as, mostramos nossa solidariedade com o/as companheiro/as anarquistas (verdes, vermelhos, roxos, rosas ou de outras cores), e todo/as o/as radicais e militantes que se esquivaram do pacifismo para um dia produtivo de ação direta contra o G20 em Londres.
O dia de ações em massa começou com repressões massivas. Nas marchas em oposição ao caos climático, as fronteiras e a economia; ativistas foram espancados se tentavam fugir e disseram que não havia nenhuma razão para serem pegos. Estas são táticas padrões do Estado policial, usando da violência para proteger bens associados, enquanto tenta conter aquele/as que estão expressando desejos de se revoltar.
Isto poderia muito bem ter terminado da mesma maneira como começou; a cólera das pessoas pacificadas, atuando ineficazmente contra os supremacistas homens, brancos e humanos. Você sabe, estas elites espúrias que governam o planeta e oprimem a população que aqui habitam. Felizmente, não foi isto que aconteceu. O instinto animal conhecido como autodefesa foi aplicado, permitindo que a guerra social em Londres se tornasse ainda e novamente reconhecida como uma contínua batalha contra o Estado e seus capitais. Não suportamos mais toda essa merda deles.
O RBS foi o primeiro banco a cair nas mãos de anarquistas raivoso/as da marcha verde. Janelas foram despedaçadas, e os muros foram pichados com “guerra de classes”, “ladrões”, “incendeie um banqueiro”, “(A)”, entre muitos outros lemas. Móveis, computadores, telefones e outros equipamentos foram destruídos e arrancados, virando munições para estilhaçar mais janelas, enquanto os policiais se reuniam sem saber o que fazer. Eles deviam pensar que estávamos brincando quando dissemos “Tempesteie os Bancos” – enquanto outros escalavam em muros pichados. Um coquetel molotov foi finalmente atirado lá dentro, mas infelizmente não conseguiu se inflamar.
Policiais são uma medíocre escória que vive pela autoridade, ao contrário, nós agimos independentemente como células secretas. Este é o porquê que sempre iremos vencer nestas situações, e eles sempre irão perder.
Os blocos continuam a fazer pressão, desmantelar e desmembrar os cercos policiais, na medida em que recusamos a atuar como criaturas domesticadas que se tornam escravos de seus mestres. Muitas vezes os policiais foram cercados e pagaram o preço pela violência que iniciaram. Injúrias foram sofridas por ambos os lados na medida em que nós finalmente chegamos ao coração da cidade. Isto foi então atacado pelas massas.
Descendo na bolsa, o HSBC foi atacado ferozmente e slogans foram pichados por toda a área enquanto começamos a tomar as ruas. Durante horas as linhas policiais se difundiram, brotando em mais áreas da cidade, enquanto uma bandeira anarquista altamente tremulava num mastro.
O que aconteceu de errado então? Nem todo/as continuaram a resistir. Enquanto a noite ia se aproximando, agitação, medo e ansiedade se tornaram a doença que infectou muito/as de nossos números. Algun/mas se dispersaram enquanto outro/as continuaram a resistir.
Enquanto muitos cercos se fecharam em desespero instalado nas ruas, incontáveis pacifistas brancos de classe média e seus apoiadores deliberaram frustração e energia ao chão em frente da polícia fascista, criando um breve e temporário empate. Isto foi claramente lastimado por muitos, enquanto os cassetetes da polícia continuaram a atacar o/as manifestantes em outros cantos do cerco que recusaram a se submeter à violência.
Então continuamos a insurgir contra a polícia, com uma nova onda de discórdia. Barreiras foram desmanteladas e atiradas nos policiais, ferindo mais alguns da escória fascista, com ataques repentinos contra a linha policial, criando pequenas aberturas. Uma efígie de um banqueiro foi então queimada em um semáforo, uma perna foi usada para incendiar um policial. Enquanto íamos saindo após aumentar a ofensiva, a polícia fazia o mesmo, o que tomou muitos por surpresa. “Sair voando” se tornou a norma na medida em que a luta desapareceu do medo e do pânico no ar, ao mesmo tempo a polícia começou a prender as pessoas uma por uma.
Diferentemente de nosso/as querido/as companheiro/as acossados no Banco da Inglaterra, a maioria de nossos números foram meramente “checado/as” por meio de uma “blitz” da FIT (Equipe de Inteligência Dianteira) enquanto éramos soltos de volta às ruas, ao invés de sermos parados, vasculhados e atormentados, procurando nossos detalhes pessoais.
Este é um exemplo do porque de nós resistirmos – porque não somos somente um número. Talvez nós não tenhamos inteiramente “quebrado a magia” como em Seattle, mas chegamos bem perto. Se não foi por nosso erro – voltar para trás – aquele desolado tempo quando falhamos em fazer planos, nós teríamos tomado de volta parte da cidade por muito mais tempo. Em tempo, destruiremos cada aspecto desta civilização brutal.
Apesar das notícias que nossos opressores estão vomitando nos meios de comunicação, a maioria das prisões foi feita sobre o segundo, não no primeiro dia, no qual tomou lugar no Centro de Convergência do G20 e no RampArt. Mais ativistas iriam para a cadeia aquela noite se não fosse pela continua resistência na hora em que estávamos cercados sob pressão dos cassetetes.
Em memória de Ian Tomlinson que teve um ataque do coração e morreu porque a polícia inicialmente recusou a ajudá-lo e liberá-lo de um cerco.
Completa Solidariedade com todo/as o/as preso/as!
Nós somos a fúria que continuará esta guerra social!
Anarquistas-veganos pela Abolição Total
Tradução > Marcelo Yokoi
agência de notícias anarquistas-ana
ao pôr-do-sol
luz ardente
bronzeia o mar
Igor lopes
[A seguir um comunicado de algun/mas anarquistas-vegano/as sobre as revoltas e resistências contra o G20 em Londres. "Nós somos a fúria que continuará esta guerra social!"]
Como anarquistas-vegano/as, mostramos nossa solidariedade com o/as companheiro/as anarquistas (verdes, vermelhos, roxos, rosas ou de outras cores), e todo/as o/as radicais e militantes que se esquivaram do pacifismo para um dia produtivo de ação direta contra o G20 em Londres.
O dia de ações em massa começou com repressões massivas. Nas marchas em oposição ao caos climático, as fronteiras e a economia; ativistas foram espancados se tentavam fugir e disseram que não havia nenhuma razão para serem pegos. Estas são táticas padrões do Estado policial, usando da violência para proteger bens associados, enquanto tenta conter aquele/as que estão expressando desejos de se revoltar.
Isto poderia muito bem ter terminado da mesma maneira como começou; a cólera das pessoas pacificadas, atuando ineficazmente contra os supremacistas homens, brancos e humanos. Você sabe, estas elites espúrias que governam o planeta e oprimem a população que aqui habitam. Felizmente, não foi isto que aconteceu. O instinto animal conhecido como autodefesa foi aplicado, permitindo que a guerra social em Londres se tornasse ainda e novamente reconhecida como uma contínua batalha contra o Estado e seus capitais. Não suportamos mais toda essa merda deles.
O RBS foi o primeiro banco a cair nas mãos de anarquistas raivoso/as da marcha verde. Janelas foram despedaçadas, e os muros foram pichados com “guerra de classes”, “ladrões”, “incendeie um banqueiro”, “(A)”, entre muitos outros lemas. Móveis, computadores, telefones e outros equipamentos foram destruídos e arrancados, virando munições para estilhaçar mais janelas, enquanto os policiais se reuniam sem saber o que fazer. Eles deviam pensar que estávamos brincando quando dissemos “Tempesteie os Bancos” – enquanto outros escalavam em muros pichados. Um coquetel molotov foi finalmente atirado lá dentro, mas infelizmente não conseguiu se inflamar.
Policiais são uma medíocre escória que vive pela autoridade, ao contrário, nós agimos independentemente como células secretas. Este é o porquê que sempre iremos vencer nestas situações, e eles sempre irão perder.
Os blocos continuam a fazer pressão, desmantelar e desmembrar os cercos policiais, na medida em que recusamos a atuar como criaturas domesticadas que se tornam escravos de seus mestres. Muitas vezes os policiais foram cercados e pagaram o preço pela violência que iniciaram. Injúrias foram sofridas por ambos os lados na medida em que nós finalmente chegamos ao coração da cidade. Isto foi então atacado pelas massas.
Descendo na bolsa, o HSBC foi atacado ferozmente e slogans foram pichados por toda a área enquanto começamos a tomar as ruas. Durante horas as linhas policiais se difundiram, brotando em mais áreas da cidade, enquanto uma bandeira anarquista altamente tremulava num mastro.
O que aconteceu de errado então? Nem todo/as continuaram a resistir. Enquanto a noite ia se aproximando, agitação, medo e ansiedade se tornaram a doença que infectou muito/as de nossos números. Algun/mas se dispersaram enquanto outro/as continuaram a resistir.
Enquanto muitos cercos se fecharam em desespero instalado nas ruas, incontáveis pacifistas brancos de classe média e seus apoiadores deliberaram frustração e energia ao chão em frente da polícia fascista, criando um breve e temporário empate. Isto foi claramente lastimado por muitos, enquanto os cassetetes da polícia continuaram a atacar o/as manifestantes em outros cantos do cerco que recusaram a se submeter à violência.
Então continuamos a insurgir contra a polícia, com uma nova onda de discórdia. Barreiras foram desmanteladas e atiradas nos policiais, ferindo mais alguns da escória fascista, com ataques repentinos contra a linha policial, criando pequenas aberturas. Uma efígie de um banqueiro foi então queimada em um semáforo, uma perna foi usada para incendiar um policial. Enquanto íamos saindo após aumentar a ofensiva, a polícia fazia o mesmo, o que tomou muitos por surpresa. “Sair voando” se tornou a norma na medida em que a luta desapareceu do medo e do pânico no ar, ao mesmo tempo a polícia começou a prender as pessoas uma por uma.
Diferentemente de nosso/as querido/as companheiro/as acossados no Banco da Inglaterra, a maioria de nossos números foram meramente “checado/as” por meio de uma “blitz” da FIT (Equipe de Inteligência Dianteira) enquanto éramos soltos de volta às ruas, ao invés de sermos parados, vasculhados e atormentados, procurando nossos detalhes pessoais.
Este é um exemplo do porque de nós resistirmos – porque não somos somente um número. Talvez nós não tenhamos inteiramente “quebrado a magia” como em Seattle, mas chegamos bem perto. Se não foi por nosso erro – voltar para trás – aquele desolado tempo quando falhamos em fazer planos, nós teríamos tomado de volta parte da cidade por muito mais tempo. Em tempo, destruiremos cada aspecto desta civilização brutal.
Apesar das notícias que nossos opressores estão vomitando nos meios de comunicação, a maioria das prisões foi feita sobre o segundo, não no primeiro dia, no qual tomou lugar no Centro de Convergência do G20 e no RampArt. Mais ativistas iriam para a cadeia aquela noite se não fosse pela continua resistência na hora em que estávamos cercados sob pressão dos cassetetes.
Em memória de Ian Tomlinson que teve um ataque do coração e morreu porque a polícia inicialmente recusou a ajudá-lo e liberá-lo de um cerco.
Completa Solidariedade com todo/as o/as preso/as!
Nós somos a fúria que continuará esta guerra social!
Anarquistas-veganos pela Abolição Total
Tradução > Marcelo Yokoi
agência de notícias anarquistas-ana
ao pôr-do-sol
luz ardente
bronzeia o mar
Igor lopes
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Jornalista denuncia má fé da Folha e armadilha contra Dilma - Carta Maior
Jornalista denuncia má fé da Folha e armadilha contra Dilma
Jornalista denuncia má fé do jornal Folha de S.Paulo em matéria que tenta envolver a ministra Dilma Rousseff em um suposto plano para sequestrar Delfim Neto durante a ditadura militar. "Chocou-me a seleção arbitrária e edição de má-fé da entrevista, pois, em alguns dias e sem recursos sequer para uma entrevista pessoal – apelando para telefonemas e e-mails, e dependendo das orientações de um jornalista mais experiente, no caso o próprio entrevistado -, a repórter chegou a conclusões mais peremptórias do que a própria polícia da ditadura, amparada em torturas e num absurdo poder discricionário", denuncia Antonio Roberto Espinosa.
Redação - Carta Maior
Data: 06/04/2009
O jornalista Antonio Roberto Espinosa, professor de Política Internacional, doutorando em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP), autor de "Abraços que sufocam – E outros ensaios sobre a liberdade e editor da Enciclopédia Contemporânea da América Latina e do Caribe", encaminhou uma carta à redação da Folha de São Paulo, protestando contra a edição da entrevista por telefone que concedeu ao jornal. Segundo ele, a Folha preparou uma “armadilha” para a ministra Dilma Rousseff usando uma entrevista que concedeu a uma das suas repóteres da sucursal de Brasília. Na carta que encaminhou à redação, ele denuncia a má fé dos editores do jornal. Segue a íntegra da correspondência:
Prezados senhores,
Chocado com a matéria publicada na edição de hoje (domingo, 5), páginas A8 a A10 deste jornal, a partir da chamada de capa “Grupo de Dilma planejou seqüestro de Delfim Neto”, e da repercussão da mesma nos blogs de vários de seus articulistas e no jornal Agora, do mesmo grupo, solicito a publicação desta carta na íntegra, sem edições ou cortes, na edição de amanhã, segunda-feira, 6 de abril, no “Painel do Leitor” (ou em espaço equivalente e com chamada de capa), para o restabelecimento da verdade, e sem prejuízo de outras medidas que vier a tomar. Esclareço preliminarmente que:
1) Não conheço pessoalmente a repórter Fernanda Odilla, pois fui entrevistado por ela somente por telefone. A propósito, estranho que um jornal do porte da Folha publique matérias dessa relevância com base somente em “investigações” telefônicas;
2) Nossa primeira conversa durou cerca de 3 horas e espero que tenha sido gravada. Desafio o jornal a publicar a entrevista na íntegra, para que o leitor a compare com o conteúdo da matéria editada. Esclareço que concedi a entrevista porque defendo a transparência e a clareza histórica, inclusive com a abertura dos arquivos da ditadura. Já concedi dezenas de entrevistas semelhantes a historiadores, jornalistas, estudantes e simples curiosos, e estou sempre disponível a todos os interessados;
3) Quem informou à Folha que o Superior Tribunal Militar (STM) guarda um precioso arquivo dos tempos da ditadura fui eu. A repórter, porém, não conseguiu acessar o arquivo, recorrendo novamente a mim, para que lhe fornecesse autorização pessoal por escrito, para investigar fatos relativos à minha participação na luta armada, não da ministra Dilma Rousseff. Posteriormente, por e-mail, fui novamente procurado pela repórter, que me enviou o croquis do trajeto para o sítio Gramadão, em Jundiaí, supostamente apreendido no aparelho em que eu residia, no bairro do Lins de Vasconcelos, Rio de Janeiro. Ela indagou se eu reconhecia o desenho como parte do levantamento para o seqüestro do então ministro da Fazenda Delfim Neto. Na oportunidade disse-lhe que era a primeira vez que via o croquis e, como jornalista que também sou, lhe sugeri que mostrasse o desenho ao próprio Delfim (co-signatário do Ato Institucional número 5, principal quadro civil do governo ditatorial e cúmplice das ilegalidades, assassinatos e torturas).
Afirmo publicamente que os editores da Folha transformaram um não-fato de 40 anos atrás (o seqüestro que não houve de Delfim) num factóide do presente (iniciando uma forma sórdida de anticampanha contra a Ministra). A direção do jornal (ou a sua repórter, pouco importa) tomou como provas conclusivas somente o suposto croquis e a distorção grosseria de uma longa entrevista que concedi sobre a história da VAR-Palmares. Ou seja, praticou o pior tipo de jornalismo sensacionalista, algo que envergonha a profissão que também exerço há mais de 35 anos, entre os quais por dois meses na Última Hora, sob a direção de Samuel Wayner (demitido que fui pela intolerância do falecido Octávio Frias a pessoas com um passado político de lutas democráticas). A respeito da natureza tendenciosa da edição da referida matéria faço questão de esclarecer:
1) A VAR-Palmares não era o “grupo da Dilma”, mas uma organização política de resistência à infame ditadura que se alastrava sobre nosso país, que só era branda para os que se beneficiavam dela. Em virtude de sua defesa da democracia, da igualdade social e do socialismo, teve dezenas de seus militantes covardemente assassinados nos porões do regime, como Chael Charles Shreier, Yara Iavelberg, Carlos Roberto Zanirato, João Domingues da Silva, Fernando Ruivo e Carlos Alberto Soares de Freitas. O mais importante, hoje, não é saber se a estratégia e as táticas da organização estavam corretas ou não, mas que ela integrava a ampla resistência contra um regime ilegítimo, instaurado pela força bruta de um golpe militar;
2) Dilma Rousseff era militante da VAR-Palmares, sim, como é de conhecimento público, mas sempre teve uma militância somente política, ou seja, jamais participou de ações ou do planejamento de ações militares. O responsável nacional pelo setor militar da organização naquele período era eu, Antonio Roberto Espinosa. E assumo a responsabilidade moral e política por nossas iniciativas, denunciando como sórdidas as insinuações contra Dilma;
3) Dilma sequer teria como conhecer a idéia da ação, a menos que fosse informada por mim, o que, se ocorreu, foi para o conjunto do Comando Nacional e em termos rápidos e vagos. Isto porque a VAR-Palmares era uma organização clandestina e se preocupava com a segurança de seus quadros e planos, sem contar que “informação política” é algo completamente distinto de “informação factual”. Jamais eu diria a qualquer pessoa, mesmo do comando nacional, algo tão ingênuo, inútil e contraproducente como “vamos seqüestrar o Delfim, você concorda?”. O que disse à repórter é que informei politicamente ao nacional, que ficava no Rio de Janeiro, que o Regional de São Paulo estava fazendo um levantamento de um quadro importante do governo, talvez para seqüestro e resgate de companheiros então em precárias condições de saúde e em risco de morte pelas torturados sofridas. A esse propósito, convém lembrar que o próprio companheiro Carlos Marighela, comandante nacional da ALN, não ficou sabendo do seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick. Por que, então, a Dilma deveria ser informada da ação contra o Delfim? É perfeitamente compreensível que ela não tivesse essa informação e totalmente crível que o próprio Carlos Araújo, seu então companheiro, diga hoje não se lembrar de nada;
4) A Folha, que errou a grafia de meu nome e uma de minhas ocupações atuais (não sou “doutorando em Relações Internacionais”, mas em Ciência Política), também informou na capa que havia um plano detalhado e que “a ação chegou a ter data e local definidos”. Se foi assim, qual era o local definido, o dia e a hora? Desafio que os editores mostrem a gravação em que eu teria informado isso à repórter;
5) Uma coisa elementar para quem viveu a época: qualquer plano de ação envolvia aspectos técnicos (ou seja, mais de caráter militar) e políticos. O levantamento (que é efetivamente o que estava sendo feito, não nego) seria apenas o começo do começo. Essa parte poderia ficar pronta em mais duas ou três semanas. Reiterando: o Comando Regional de São Paulo ainda não sabia com certeza sequer a freqüência e regularidade das visitas de Delfim a seu amigo no sítio. Depois disso seria preciso fazer o plano militar, ou seja, como a ação poderia ocorrer tecnicamente: planejamento logístico, armas, locais de esconderijo etc. Somente após o plano militar seria elaborado o plano político, a parte mais complicada e delicada de uma operação dessa natureza, que envolveria a estratégia de negociações, a definição das exigências para troca, a lista de companheiros a serem libertados, o manifesto ou declaração pública à nação etc. O comando nacional só participaria do planejamento , portanto, mais tarde, na sua fase política. Até pode ser que, no momento oportuno, viesse a delegar essa função a seus quadros mais experientes, possivelmente eu, o Carlos Araújo ou o Carlos Alberto, dificilmente a Dilma ou Mariano José da Silva, o Loiola, que haviam acabado de ser eleitos para a direção; no caso dela, sequer tinha vivência militar;
6) Chocou-me, portanto, a seleção arbitrária e edição de má-fé da entrevista, pois, em alguns dias e sem recursos sequer para uma entrevista pessoal – apelando para telefonemas e e-mails, e dependendo das orientações de um jornalista mais experiente, no caso o próprio entrevistado -, a repórter chegou a conclusões mais peremptórias do que a própria polícia da ditadura, amparada em torturas e num absurdo poder discricionário. Prova disso é que nenhum de nós foi incriminado por isso na época pelos oficiais militares e delegados dos famigerados Doi-Codi e Deops e eu não fui denunciado por qualquer um dos três promotores militares das auditorias onde respondi a processos, a Primeira e a Segunda auditorias de Guerra, de São Paulo, e a Segunda Auditoria da Marinha, do Rio de Janeiro.
Osasco, 5 de abril de 2009
Antonio Roberto Espinosa
Jornalista, professor de Política Internacional, doutorando em Ciência Política pela USP, autor de Abraços que sufocam – E outros ensaios sobre a liberdade e editor da Enciclopédia Contemporânea da América Latina e do Caribe.
Jornalista denuncia má fé do jornal Folha de S.Paulo em matéria que tenta envolver a ministra Dilma Rousseff em um suposto plano para sequestrar Delfim Neto durante a ditadura militar. "Chocou-me a seleção arbitrária e edição de má-fé da entrevista, pois, em alguns dias e sem recursos sequer para uma entrevista pessoal – apelando para telefonemas e e-mails, e dependendo das orientações de um jornalista mais experiente, no caso o próprio entrevistado -, a repórter chegou a conclusões mais peremptórias do que a própria polícia da ditadura, amparada em torturas e num absurdo poder discricionário", denuncia Antonio Roberto Espinosa.
Redação - Carta Maior
Data: 06/04/2009
O jornalista Antonio Roberto Espinosa, professor de Política Internacional, doutorando em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP), autor de "Abraços que sufocam – E outros ensaios sobre a liberdade e editor da Enciclopédia Contemporânea da América Latina e do Caribe", encaminhou uma carta à redação da Folha de São Paulo, protestando contra a edição da entrevista por telefone que concedeu ao jornal. Segundo ele, a Folha preparou uma “armadilha” para a ministra Dilma Rousseff usando uma entrevista que concedeu a uma das suas repóteres da sucursal de Brasília. Na carta que encaminhou à redação, ele denuncia a má fé dos editores do jornal. Segue a íntegra da correspondência:
Prezados senhores,
Chocado com a matéria publicada na edição de hoje (domingo, 5), páginas A8 a A10 deste jornal, a partir da chamada de capa “Grupo de Dilma planejou seqüestro de Delfim Neto”, e da repercussão da mesma nos blogs de vários de seus articulistas e no jornal Agora, do mesmo grupo, solicito a publicação desta carta na íntegra, sem edições ou cortes, na edição de amanhã, segunda-feira, 6 de abril, no “Painel do Leitor” (ou em espaço equivalente e com chamada de capa), para o restabelecimento da verdade, e sem prejuízo de outras medidas que vier a tomar. Esclareço preliminarmente que:
1) Não conheço pessoalmente a repórter Fernanda Odilla, pois fui entrevistado por ela somente por telefone. A propósito, estranho que um jornal do porte da Folha publique matérias dessa relevância com base somente em “investigações” telefônicas;
2) Nossa primeira conversa durou cerca de 3 horas e espero que tenha sido gravada. Desafio o jornal a publicar a entrevista na íntegra, para que o leitor a compare com o conteúdo da matéria editada. Esclareço que concedi a entrevista porque defendo a transparência e a clareza histórica, inclusive com a abertura dos arquivos da ditadura. Já concedi dezenas de entrevistas semelhantes a historiadores, jornalistas, estudantes e simples curiosos, e estou sempre disponível a todos os interessados;
3) Quem informou à Folha que o Superior Tribunal Militar (STM) guarda um precioso arquivo dos tempos da ditadura fui eu. A repórter, porém, não conseguiu acessar o arquivo, recorrendo novamente a mim, para que lhe fornecesse autorização pessoal por escrito, para investigar fatos relativos à minha participação na luta armada, não da ministra Dilma Rousseff. Posteriormente, por e-mail, fui novamente procurado pela repórter, que me enviou o croquis do trajeto para o sítio Gramadão, em Jundiaí, supostamente apreendido no aparelho em que eu residia, no bairro do Lins de Vasconcelos, Rio de Janeiro. Ela indagou se eu reconhecia o desenho como parte do levantamento para o seqüestro do então ministro da Fazenda Delfim Neto. Na oportunidade disse-lhe que era a primeira vez que via o croquis e, como jornalista que também sou, lhe sugeri que mostrasse o desenho ao próprio Delfim (co-signatário do Ato Institucional número 5, principal quadro civil do governo ditatorial e cúmplice das ilegalidades, assassinatos e torturas).
Afirmo publicamente que os editores da Folha transformaram um não-fato de 40 anos atrás (o seqüestro que não houve de Delfim) num factóide do presente (iniciando uma forma sórdida de anticampanha contra a Ministra). A direção do jornal (ou a sua repórter, pouco importa) tomou como provas conclusivas somente o suposto croquis e a distorção grosseria de uma longa entrevista que concedi sobre a história da VAR-Palmares. Ou seja, praticou o pior tipo de jornalismo sensacionalista, algo que envergonha a profissão que também exerço há mais de 35 anos, entre os quais por dois meses na Última Hora, sob a direção de Samuel Wayner (demitido que fui pela intolerância do falecido Octávio Frias a pessoas com um passado político de lutas democráticas). A respeito da natureza tendenciosa da edição da referida matéria faço questão de esclarecer:
1) A VAR-Palmares não era o “grupo da Dilma”, mas uma organização política de resistência à infame ditadura que se alastrava sobre nosso país, que só era branda para os que se beneficiavam dela. Em virtude de sua defesa da democracia, da igualdade social e do socialismo, teve dezenas de seus militantes covardemente assassinados nos porões do regime, como Chael Charles Shreier, Yara Iavelberg, Carlos Roberto Zanirato, João Domingues da Silva, Fernando Ruivo e Carlos Alberto Soares de Freitas. O mais importante, hoje, não é saber se a estratégia e as táticas da organização estavam corretas ou não, mas que ela integrava a ampla resistência contra um regime ilegítimo, instaurado pela força bruta de um golpe militar;
2) Dilma Rousseff era militante da VAR-Palmares, sim, como é de conhecimento público, mas sempre teve uma militância somente política, ou seja, jamais participou de ações ou do planejamento de ações militares. O responsável nacional pelo setor militar da organização naquele período era eu, Antonio Roberto Espinosa. E assumo a responsabilidade moral e política por nossas iniciativas, denunciando como sórdidas as insinuações contra Dilma;
3) Dilma sequer teria como conhecer a idéia da ação, a menos que fosse informada por mim, o que, se ocorreu, foi para o conjunto do Comando Nacional e em termos rápidos e vagos. Isto porque a VAR-Palmares era uma organização clandestina e se preocupava com a segurança de seus quadros e planos, sem contar que “informação política” é algo completamente distinto de “informação factual”. Jamais eu diria a qualquer pessoa, mesmo do comando nacional, algo tão ingênuo, inútil e contraproducente como “vamos seqüestrar o Delfim, você concorda?”. O que disse à repórter é que informei politicamente ao nacional, que ficava no Rio de Janeiro, que o Regional de São Paulo estava fazendo um levantamento de um quadro importante do governo, talvez para seqüestro e resgate de companheiros então em precárias condições de saúde e em risco de morte pelas torturados sofridas. A esse propósito, convém lembrar que o próprio companheiro Carlos Marighela, comandante nacional da ALN, não ficou sabendo do seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick. Por que, então, a Dilma deveria ser informada da ação contra o Delfim? É perfeitamente compreensível que ela não tivesse essa informação e totalmente crível que o próprio Carlos Araújo, seu então companheiro, diga hoje não se lembrar de nada;
4) A Folha, que errou a grafia de meu nome e uma de minhas ocupações atuais (não sou “doutorando em Relações Internacionais”, mas em Ciência Política), também informou na capa que havia um plano detalhado e que “a ação chegou a ter data e local definidos”. Se foi assim, qual era o local definido, o dia e a hora? Desafio que os editores mostrem a gravação em que eu teria informado isso à repórter;
5) Uma coisa elementar para quem viveu a época: qualquer plano de ação envolvia aspectos técnicos (ou seja, mais de caráter militar) e políticos. O levantamento (que é efetivamente o que estava sendo feito, não nego) seria apenas o começo do começo. Essa parte poderia ficar pronta em mais duas ou três semanas. Reiterando: o Comando Regional de São Paulo ainda não sabia com certeza sequer a freqüência e regularidade das visitas de Delfim a seu amigo no sítio. Depois disso seria preciso fazer o plano militar, ou seja, como a ação poderia ocorrer tecnicamente: planejamento logístico, armas, locais de esconderijo etc. Somente após o plano militar seria elaborado o plano político, a parte mais complicada e delicada de uma operação dessa natureza, que envolveria a estratégia de negociações, a definição das exigências para troca, a lista de companheiros a serem libertados, o manifesto ou declaração pública à nação etc. O comando nacional só participaria do planejamento , portanto, mais tarde, na sua fase política. Até pode ser que, no momento oportuno, viesse a delegar essa função a seus quadros mais experientes, possivelmente eu, o Carlos Araújo ou o Carlos Alberto, dificilmente a Dilma ou Mariano José da Silva, o Loiola, que haviam acabado de ser eleitos para a direção; no caso dela, sequer tinha vivência militar;
6) Chocou-me, portanto, a seleção arbitrária e edição de má-fé da entrevista, pois, em alguns dias e sem recursos sequer para uma entrevista pessoal – apelando para telefonemas e e-mails, e dependendo das orientações de um jornalista mais experiente, no caso o próprio entrevistado -, a repórter chegou a conclusões mais peremptórias do que a própria polícia da ditadura, amparada em torturas e num absurdo poder discricionário. Prova disso é que nenhum de nós foi incriminado por isso na época pelos oficiais militares e delegados dos famigerados Doi-Codi e Deops e eu não fui denunciado por qualquer um dos três promotores militares das auditorias onde respondi a processos, a Primeira e a Segunda auditorias de Guerra, de São Paulo, e a Segunda Auditoria da Marinha, do Rio de Janeiro.
Osasco, 5 de abril de 2009
Antonio Roberto Espinosa
Jornalista, professor de Política Internacional, doutorando em Ciência Política pela USP, autor de Abraços que sufocam – E outros ensaios sobre a liberdade e editor da Enciclopédia Contemporânea da América Latina e do Caribe.
Rua 8 de Fevereiro? Não!. "Rua 7 de Abril", Pádua. Por Toni Negri
Rua 8 de Fevereiro? Não!. "Rua 7 de Abril", Pádua.
Toni Negri, Paris, 25/3/2009
Rua 8 de Fevereiro[i]? Não!. "Rua 7 de Abril". Um professor universitário local Pádua propôs essa modificação na toponímia da cidade de Pádua, imediatamente depois das prisões. Não sei se fizeram alguma mudança, mas os tempos agora estão maduros.
Dia 7 de abril de 1979 teve início um affaire judicial improvável. Desde o início pareceu à maioria coisa improvisada e, dali em diante, mal remendada. Até as modalidades nas quais aconteceu a grande operação de prisões daquela manhã foram totalmente confusas. Antes de prenderem-me, por exemplo, a polícia, que chegara "para executar mandato de busca e apreensão" às 10h da manhã (não às 5h, como sempre fizera nos meses precedentes), muito pouco convicta do que fazia, demorou até às 13h para exibir o mandato de prisão. O delegado, constrangido, passou duas horas ao telefone, falando com toda a Itália para saber o que fazer (falava do meu telefone e eu absurdamente só pensava na conta...). Coisa parecida contaram também outros presos.
De fato, Fais e Calogero (os dois procuradores de Pádua) não estavam ainda preparados para as prisões; mas, de Roma, Gallucci e Vitalone exigiam pressa, fosse como fosse: precisavam de acontecimento novo, de muito barulho ("descobertos e presos os assassinos de Moro"), para encobrir o barulho que tinha feito, algumas semanas antes, o homicídio Pecorella. Além disso, aproximavam-se as eleições e era preciso – o hábito republicano – prender algum grande criminoso. “A certeza da pena” pode ter muitas variantes, mas sempre eleitoralmente úteis. Assim, a improvável tese acusatória de Calogero (“a Autonomia é Organização que controla e dirige os movimentos sociais, os operários e os armados") entrou em cena. Foi como jogada em mesa de pôquer, que pode ser mágica e pode ser blefe: era blefe.
Que a operação "7 de Abril" tenha sido juridicamente uma invenção indecente e, politicamente, uma precária operação repressiva, não significa que já não estivesse sendo preparada há longo tempo; pelo menos desde 68, se não desde antes. Desde imediatamente depois do atentado da Praça Fontana[ii], os Servizi (Serviços Reservados de inteligência italianos e “atlânticos") já haviam construído o projeto sórdido dos "extremismos opostos". Que significava isso? Que eles mesmos explodiam as bombas e, depois, a culpa tinha de recair sobre os movimentos extra-parlamentares. Já haviam feito com os anarquistas, depois da Praça Fontana (1969), mas já não se podia repetir com os mesmos anarquistas, o que as polícias européias e norte-americanas eram acostumadas a fazer por pelo menos um século: os anarquistas já estavam protegidos pela compaixão universal e pela simpatia geral e não podiam ser outra vez declarados culpados. Foi o fruto distante de Sacco e Vanzetti e do sacrifício ainda recente de Pinelli. Então... os Servizi resolveram que o bode expiatório seria a Autonomia. Pobres untorelli[iii]! Ainda não haviam compreendido o quanto a autonomia estudantil, proletária e operária pode ser forte e honesta.
E sabem algo disso os funcionários do PCI que se puseram à disposição, coração e mente, da operação de repressão.
O que resta desses desgraçados? Infâmia e desonra, que ficaram aderidas à pele deles. Carregam também aquela responsabilidade convertida em máscara da traição. Hoje talvez estejam começando a entender: perderam o pelo e também os vícios, na corrida ao poder e nos seus muitos compromissos, converteram-se em nada, e o ódio dos traídos ainda os persegue.
Por outro lado, que cooperação falha e imprevidente tinham a oferecer! Com que vergonhosa trupe de provocadores tiveram de trabalhar! Havia de tudo, de fato, naquele bando de acusadores da Autonomia: de jovens romancistas fascinados por spenglerianos declínios ocidentais, a filósofos discípulos de Evola[iv]; de policiais adestrados para o terrorismo no Sul-Tirol[v] a jovens neofascistas organizados para a infiltração, a provocação e o terror nas legiões anticomunistas da operação Gladio[vi]; de algum débil propagandista do pós-moderno até alguns professores de história de nobre ascendência stalinista; jovens aprendizes da federação vêneta do PCI; e uma nuvem de jornalistas vendidos, aos quais se oferecia fartura – nesse caso, antecipada – de notícias, informações, esquemas de interpretação, respostas em interrogatórios, transcrição de conversas gravadas em telefones, depoimentos a procuradores, modelos para mistificar notícias, fatos etc. E sobretudo, mentiras: caluniosas e difamantes.
Lembro-me de foto em que apareço ao lado do terrorista Carlos, no aeroporto de Argel, evidente e grosseira fotomontagem; lembro a quantidade enorme de pseudo-documentos reunidos para demonstrar que Luciano Ferrari Bravo, Ferruccio Gambino, Sergio Bolonha e Nanni Balestrini (além de mim) havíamos sido treinados em campos de treinamento atrás da Cortina de Ferro. Lembro de uma gravação da minha voz apresentada ao público como se fosse a voz do assassino de Moro, distribuída como encarte de uma revista semanal. Todas lorotas, de que jamais me pediram desculpas.
No meio de tudo isso, Pietro Calogero, posto a trabalhar sem de nada entender. Acusação grotesca, acusador patético: em quatro anos e meio de prisão preventiva, só o vi duas vezes. A primeira, dia 10 de abril, na Delegacia de Pádua, eu já preso, leu-me o texto da acusação; quando eu, incrédulo, ri na sua cara, mandou-me sair da sala; a segunda vez, em junho de 1983, enquanto eu esperava o resultado da eleição que me teria levado ao Parlamento, veio encontrar-me (acho que para estragar meu dia...) na prisão de Rebibbia; e eu o mandei sair. Sentia-se como se fosse portador de uma verdade revelada. De início convicto, depois gaguejante. Tabacômano sempre. Pelo menos nisso nos parecíamos. Era adulado pelos compadres, pelos políticos, investido no papel de "salvador da pátria". Estávamos presos há dois dias, e o Presidente da República, o inefável Pertini, enviou-lhe telegrama de congratulações.
Conforme a Constituição e as leis, devíamos, no mínimo, ser presumidos inocentes. Não. Pertini estava de tal modo convencido do contrário, que continuou a considerar o processo "7 de abril" essencial para o desenvolvimento da cultura jurídica italiana e, correspondentemente, não escondeu que via em mim "homem que Lombroso definiria como delinquente nato" – o que se lia em artigo de jornal daqueles anos, que recortei, e até hoje me causa náuseas. Imagine-se então a que ponto o procurador Calogero, "salvador da pátria", sentiu-se enfeitiçado por essa iluminação científica de um "pai da pátria".
Quanto à Universidade de Pádua, o Reitorado teve comportamento simplesmente ignóbil. Para compreender, é preciso lembrar um dado essencial: o 68 italiano durou dez anos. Explode em 68, mas estende-se por dez anos. Ora, em Pádua, nos ambientes culturais e universitários, sentiu-se pouco o maio francês. O que se formou em 68 (os vários grupos políticos estudantis), em vez de tomar o rumo da universidade, articulou-se e confundiu-se imediatamente com as transformações industriais e com a modernização cultural daquele nosso território. Em nenhum outro lugar da Itália, 68 teve efeitos de tanta radicalização – cultural, política e produtiva – sobre a composição de uma sociedade até aquele momento terrivelmente retraída, dominada por elites da Democracia Cristã, seguramente menos brutal que os seguidores da Liga Norte, mas, sim, ainda mais reacionária.
68 quebrou essa crosta, mudou não só a cultura, mas a antropologia dos vênetos. Quando, pois, nos anos 70s, os novos movimentos fizeram-se sentir dentro da universidade, a classe acadêmica (partícipe em grande parte das velhas tradições acomodadas e reacionárias e satisfeita em sua acomodação ao mesmo tempo aristocrática e de empreendimento) ficou em pânico.
Era uma classe dirigente ainda chocada com a tragédia do Vajont[vii] pela qual fora cientificamente e empresarialmente responsável, pela qual foi processada e da qual (mas com muito esforço!) fora absolvida. Uma classe acadêmica envelhecida e isolada, mesmo na cidade.
Os dois outros pólos de poder em Pádua, o bispado e as classes comercial e industrial, consideravam a classe acadêmica local – bem como merecia – sobrevivente financeira e simbolicamente desnecessária; um grupo de parasitas, do ponto de vista industrial; barrocos, do ponto de vista cultural. Nos anos subseqüentes, a Universidade de Pádua seria desagregada dos poderes centrais e distribuída por vários pontos do território vêneto, para correr atrás da indústria difusa.
Portanto, quando, como já acontecera dez anos antes em Roma, Turim, Milão ou Bolonha, e também em Paris e Berlim, algumas violências estudantis machucaram, a reação em Pádua foi desproporcional e aterrorizada, duríssima, fora da medida. Expressão dos grupos que viviam na universidade, assediados como se fossem um pequeno Kremlim. O que podiam fazer então aqueles acadêmicos, que, além do mais, pouco entendiam do que estava acontecendo? Produziram a cena estrelada por Angelo Ventura[viii], para vergonha eterna da honrada história da Patavina Libertas[ix]. Na abertura do ano letivo, com a presença de Pertini, Angelo Ventura leu o ato acusatório de Calogero contra os presos de "7 de abril", como prelúdio para os anos seguintes. A Rivista Storica Italiana, patrocinada por Leo Valiani[x], publicou aquele prelúdio.
Como é possível que tenha acontecido, na mesma cátedra da qual Concetto Marchesi proclamara o início da Resistência na Itália do Norte? Como é possível que a Rivista Storica Italiana tenha publicado um texto não apenas falso do início ao fim, e ignóbil pela finalidade repressiva, mas também sectário na própria proposta política?
Ainda mais: como é possível que – com desprezo à verdade e à inocência absolutamente evidentes e em situação pelo menos duvidosa – a totalidade da grande imprensa tenha-se posto de tal modo unanimemente a favor da condenação dos presos no caso "7 de Abril"? Do Corriere della Sera sabe-se bem que, naquele momento havia sido comprado pela Loja P2. La Repubblica teve, ao contrário, comportamento emblemático. Ante uma operação (a do "compromisso histórico") que defendia, o jornal desenvolveu – e bem de acordo com o completo absurdo do caso “7 de Abril” – duas linhas. Pela primeira delas, com perfeita hipocrisia, o jornal justificava (não sem alguma pietas) a operação "7 de Abril", por razões de Estado: foi a linha de Eugenio Scalfari. Giorgio Bocca, por sua vez, fez o jogo de uma comiseração irônica: vocês são inocentes... mas por que desafiar tanto as razões de Estado?
Devo acrescentar que, dentro da universidade, muitos professores duvidaram e lutaram contra essa terrível vocação acadêmica para a repressão. Minha lembrança agradecida e amiga àquele professor de Glotologia que destruiu, frente aos funcionários da Central Intelligence Agency (CIA), o registro acústico que provaria que eu teria telefonado à Sra. Moro para avisá-la da morte do marido.
Alguns membros do PCI de Pádua foram cúmplices, no meu caso, da CIA. Para não falar de um egrégio linguista italiano, sempre ligado ao PCI, que pôs a mão no fogo para garantir, com segurança acadêmica, o que logo se revelaria completamente falso.
Minha lembrança muito agradecida vai também para muitos jornalistas, de jornais grandes e pequenos, e sobretudo da RAI, que muitas vezes, insistentemente, generosamente, se opuseram à montagem do "7 de Abril".
Cerca de um mês depois de ter sido preso, encontrei-me com Luciano Ferrari Bravo, na seção de “alta segurança” da agradável prisão de Rebibbia. Luciano disse, logo que me viu: "Mas estão completamente loucos!". Respondi "Estão, é claro. Mas acho que, depois do bordel e da infâmia que foi a operação, ficaremos aqui os primeiros quatro ou cinco anos." Foi o que aconteceu.
Os presos da operação "7 de Abril" – em conjunto – cumpriram cerca de 300 anos de prisão preventiva, antes de serem completamente absolvidos, como aconteceu na grande maioria dos casos – e falo só dos que foram presos dia 7 de Abril, não dos que foram presos depois e depois absolvidos, em março, em dezembro etc.
Pecchioli, Ministro (sombra) do Interno do PCI; Tarsitano, advogado para assaltos daquele partido; Iblio Paolucci, o jornalista falsário da Unità – são três tipos que uma criminologia um pouco mais moderna e um pouco menos selvagem e menos positivista que a criminologia do século 18 (coerente com o modo de sentir de Pertini) poderia descrever como delinquentes da sociedade da comunicação do século 20.
Mas contra o quê, de fato, lutaram esses senhores? Em primeiro lugar, contra um instituto universitário: o Instituto de Ciências Políticas de Pádua. Quase todos os professores do Instituto foram presos naquele 7 de Abril – acusados de terem constituído organização subversiva e grupo armado. Também, porque o Instituto foi exemplo de didática aberta e um excepcional laboratório de produção científica. Reconhecido pelas grandes instituições estrangeiras e grandes casas editoras europeias e norte-americanas, o Instituto construíra um modelo de "ensino participativo" e desenvolvera várias pesquisas sobre transformações sociais e políticas na Itália e na Europa sobre problemas do sul e sobre a imigração, sobre sociologia industrial e sindical. Ora – disseram os poucos cúmplices universitários de Calogero –, tudo isso contraria os cânones da ataraxia acadêmica!
Passados 30 anos, as pesquisas do instituto paduano de então ainda são consideradas base metodológica e científica em várias das grandes universidades globalizadas. E mesmo sem tentar nos comparar a Galileu e Giordano Bruno – para não mencionar tantos outros infelizes vênetos – temos de reconhecer humildemente que estamos entre os que experimentamos e sofremos o que eles experimentaram e sofreram.
Em segundo lugar, tratava-se de destruir a capacidade dos grupos de estudantes e professores da Faculdade de Pádua em revolta, de associar-se às lutas da classe operária. Antes do 7 de Abril, já haviam sido demitidos da Fiat 61 operários, sob a única acusação de liderarem as lutas e de manterem contato com professores universitários vênetos.
No que nos diga respeito diretamente, não se deve esquecer a importância da participação de estudantes de Pádua na construção das novas instituições do proletariado de Marghera[xi]. Organizaram-se lutas operárias colossais, para as quais também muito colaboraram os estudantes de Pádua; desenvolvia-se, assim nutrido, um amplo processo de emancipação que aproximava as fábricas e a universidade. São daquela época as primeiras denúncias sobre "fábricas da morte" que cresciam em Marghera; as batalhas ecológicas que hoje são comuns também foram inventadas e promovidas então. Tudo isso portanto tinha de ser destruído. Não por acaso, aliaram-se e comprometeram-se contra tudo isso os oportunistas do PCI e representantes da classe dirigente vêneta (Il Gazzettino à frente).
Mas o comando industrial e sindical até então considerado forte – apesar dos golpes que lhe aplicou a insurreição operária –, estava acabado. Naquele momento, estavam tentando construir, com a expulsão de muitos operários da indústria-massa dos epicentros produtores vênetos, aquele imenso fenômeno que foi a fábrica difusa, descentralizada, do nordeste da Itália.
Nesse campo, os alunos e professores revolucionários de Pádua já estavam pesquisando novas formas de relações sociais, políticas e produtivas – e haviam construído as categorias de "operário social" e "trabalho cognitivo" que receberam muitos desenvolvimentos nas décadas seguintes.
Do outro lado, o grupelho dos amigos de Calogero – os quais, já no século 21, parecem ainda querer reunir-se (velhotes pervertidos) para encobrir o fracasso de sua operação de repressão e para reencenar uma verdade burlada – nada entendiam das transformações pelas quais passava a região do Vêneto, nem dos resultados políticos.
Quanto aos "ilustradíssimos" professores, essa ignorância afinal revelada é ainda pior do que a violência já denunciada com que agiram.
O que falta dizer? Que a Itália não conheceu revolução verdadeira propriamente dita; que foi unificada por fora, por monarcas estrangeiros; que, por dentro, continua, dominante, um poder integralista e tirânico, como o Vaticano – tudo isso já se sabe. Que o grande movimento socialista e comunista construíra durante um século, do fim do Oitocentos ao fim de 68, uma grande alternativa, ao mesmo tempo italiana e internacionalista, àquele destino secular de submissão e exploração (o qual, no melhor dos casos, fora travestido em ideal patriótico) – isso também já se sabe.
Mas por que, nos anos 70s (e o "7 de Abril" é elo fundamental desse processo), na continuação da reação que sempre dominou a Itália, somou-se a ela a loucura stalinista, e todos se alimentaram do imbróglio ideológico de uma esquerda que se pretendera comunista? Isso, não compreendemos até hoje. E nos felicitamos de não o compreender – porque bem pode acontecer que, ao compreender a corrupção, a inteligência também se corrompa e a alma adoeça.
A história posterior mostrou contudo que aquela passagem foi fatal e produziu poderosas toxinas que o organismo inteiro da esquerda italiana nunca mais conseguiu digerir. Tampouco conseguiu neutralizá-las e transfigurá-las politicamente mediante uma autocrítica necessária.
Todas as acusações feitas na operação "7 de Abril" são falsas – e aqui só comentamos as acusações de agitação nas ruas e nas fábricas. Não comentamos a acusação grotesca que identificava a Autonomia às Brigadas Vermelhas; nem a acusação ridícula de que o Instituto de Ciências Políticas de Pádua seria o centro de organização da luta armada na Itália e em toda a Europa; nem as acusações infamantes (que vieram logo depois, quando se desmascararam as primeiras mentiras, e foi preciso inventar outras para nos manter na prisão) que foram feitas, mediante um jogo sórdido com espiões improvisados, mentirosos infiltrados e subornados (eufemisticamente chamados de "arrependidos"), os crimes terríveis de que foram acusados os presos de 7 de Abril.
Todas as acusações eram falsas, exceto uma: a acusação de insurreição. Os movimentos italianos dos anos 70s foram verdadeiramente tentativa de transformar, pela via extra-parlamentar, a constituição do país. E isso conseguiram. Apesar de tudo, isso conseguiram: porque, de fato, a sociedade italiana foi atravessada por um novo desejo, de justiça, de criatividade, que permanece no cérebro e na consciência da maior parte dos jovens daquela geração.
E, para terminar, houve o efeito de desmitificação. Deram-se mal todos os nossos adversários. Até um Berlusconi escarnece hoje da tradição (comunista e católica-reformista) da qual eram portadores. E, paradoxalmente, só cabe a vergonha. Pena para a Itália, pena para eles.
Assim sendo, apesar do cortejo de inocentes acusados e condenados a tantos anos de prisão sem qualquer explicação; apesar das famílias destruídas; das carreiras truncadas; dos filhos criados sem pai ou sem mãe; das mortes precoces; das vidas desencaminhadas por mentiras e pela força tremenda da razão de Estado (pois é a razão de Estado que quer falsos culpados para mascarar as suas próprias responsabilidades), apesar também daquela profunda, nauseante injustiça... É hora, sim, de brindarmos em homenagem ao 7 de Abril, afinal nome de rua, em Pádua!*
NOTAS DA TRADUÇÃO
[i] "8 de Fevereiro" é o nome da rua em que se localiza a Universidade de Pádua. Homenageia um levante de estudantes, em 1848, em luta contra a ocupação austríaca.
[ii] 12/12/1969. Sobre o atentado, ver
http://it.wikipedia.org/wiki/Strage_di_Piazza_Fontana.
[iii] Em 1977, Enrico Berlinguer, do PCI, disse, em discurso sobre os movimento da autonomia de Bolonha: "Esses pestilentos [it. untorelli] não destruirão Bolonha". Falava de jovens radicais que pregavam comportamentos de ruptura, como modos de se apropriarem da vida quotidiana para fazer um tipo de revolução "aqui e agora". Sobre "os untorelli", ver Franco Berardi, "Les untorelli", s/d, Recherches (Fontenay-sous-Bois).
[iv] Giulio Cesare Evola (1898-1974), filósofo italiano, em cuja obra neopagã se têm inspirado várias organismos e correntes políticas do fascismo. Sobre isso, ver http://pt.wikipedia.org/wiki/Julius_Evola.
[v] Região do extremo norte da Itália onde houve, nos anos 1950, um movimento separatista para reunificar a região à Áustria.
[vi] Sobre isso, ver http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=9556.
[vii] Barragem construída nas montanhas do Vêneto onde, por falhas dos estudos de geologia, um pedaço gigantesco da montanha tombou no lago artificial. O tsunami assim gerado matou milhares de habitantes dos vilarejos próximos.
[viii] Professor de história da mesma universidade.
[ix] Lema da Università degli Studi di Padova, Universidade de Pádua, fundada no século 13 e das mais antigas do mundo: Universa Universis Patavina Libertas.
[x] Colunista ultra-conservador do diário Corriere della Sera.
[xi] Zona industrial de Veneza, com grande pólo petroquímico.
* Tradução do italiano, de Caia Fittipaldi. 2/4/2009, São Paulo. Correções e comentários são bem-vindos para caia.fittipaldi@uol.com.br
Fonte: www.novae.inf.br
Toni Negri, Paris, 25/3/2009
Rua 8 de Fevereiro[i]? Não!. "Rua 7 de Abril". Um professor universitário local Pádua propôs essa modificação na toponímia da cidade de Pádua, imediatamente depois das prisões. Não sei se fizeram alguma mudança, mas os tempos agora estão maduros.
Dia 7 de abril de 1979 teve início um affaire judicial improvável. Desde o início pareceu à maioria coisa improvisada e, dali em diante, mal remendada. Até as modalidades nas quais aconteceu a grande operação de prisões daquela manhã foram totalmente confusas. Antes de prenderem-me, por exemplo, a polícia, que chegara "para executar mandato de busca e apreensão" às 10h da manhã (não às 5h, como sempre fizera nos meses precedentes), muito pouco convicta do que fazia, demorou até às 13h para exibir o mandato de prisão. O delegado, constrangido, passou duas horas ao telefone, falando com toda a Itália para saber o que fazer (falava do meu telefone e eu absurdamente só pensava na conta...). Coisa parecida contaram também outros presos.
De fato, Fais e Calogero (os dois procuradores de Pádua) não estavam ainda preparados para as prisões; mas, de Roma, Gallucci e Vitalone exigiam pressa, fosse como fosse: precisavam de acontecimento novo, de muito barulho ("descobertos e presos os assassinos de Moro"), para encobrir o barulho que tinha feito, algumas semanas antes, o homicídio Pecorella. Além disso, aproximavam-se as eleições e era preciso – o hábito republicano – prender algum grande criminoso. “A certeza da pena” pode ter muitas variantes, mas sempre eleitoralmente úteis. Assim, a improvável tese acusatória de Calogero (“a Autonomia é Organização que controla e dirige os movimentos sociais, os operários e os armados") entrou em cena. Foi como jogada em mesa de pôquer, que pode ser mágica e pode ser blefe: era blefe.
Que a operação "7 de Abril" tenha sido juridicamente uma invenção indecente e, politicamente, uma precária operação repressiva, não significa que já não estivesse sendo preparada há longo tempo; pelo menos desde 68, se não desde antes. Desde imediatamente depois do atentado da Praça Fontana[ii], os Servizi (Serviços Reservados de inteligência italianos e “atlânticos") já haviam construído o projeto sórdido dos "extremismos opostos". Que significava isso? Que eles mesmos explodiam as bombas e, depois, a culpa tinha de recair sobre os movimentos extra-parlamentares. Já haviam feito com os anarquistas, depois da Praça Fontana (1969), mas já não se podia repetir com os mesmos anarquistas, o que as polícias européias e norte-americanas eram acostumadas a fazer por pelo menos um século: os anarquistas já estavam protegidos pela compaixão universal e pela simpatia geral e não podiam ser outra vez declarados culpados. Foi o fruto distante de Sacco e Vanzetti e do sacrifício ainda recente de Pinelli. Então... os Servizi resolveram que o bode expiatório seria a Autonomia. Pobres untorelli[iii]! Ainda não haviam compreendido o quanto a autonomia estudantil, proletária e operária pode ser forte e honesta.
E sabem algo disso os funcionários do PCI que se puseram à disposição, coração e mente, da operação de repressão.
O que resta desses desgraçados? Infâmia e desonra, que ficaram aderidas à pele deles. Carregam também aquela responsabilidade convertida em máscara da traição. Hoje talvez estejam começando a entender: perderam o pelo e também os vícios, na corrida ao poder e nos seus muitos compromissos, converteram-se em nada, e o ódio dos traídos ainda os persegue.
Por outro lado, que cooperação falha e imprevidente tinham a oferecer! Com que vergonhosa trupe de provocadores tiveram de trabalhar! Havia de tudo, de fato, naquele bando de acusadores da Autonomia: de jovens romancistas fascinados por spenglerianos declínios ocidentais, a filósofos discípulos de Evola[iv]; de policiais adestrados para o terrorismo no Sul-Tirol[v] a jovens neofascistas organizados para a infiltração, a provocação e o terror nas legiões anticomunistas da operação Gladio[vi]; de algum débil propagandista do pós-moderno até alguns professores de história de nobre ascendência stalinista; jovens aprendizes da federação vêneta do PCI; e uma nuvem de jornalistas vendidos, aos quais se oferecia fartura – nesse caso, antecipada – de notícias, informações, esquemas de interpretação, respostas em interrogatórios, transcrição de conversas gravadas em telefones, depoimentos a procuradores, modelos para mistificar notícias, fatos etc. E sobretudo, mentiras: caluniosas e difamantes.
Lembro-me de foto em que apareço ao lado do terrorista Carlos, no aeroporto de Argel, evidente e grosseira fotomontagem; lembro a quantidade enorme de pseudo-documentos reunidos para demonstrar que Luciano Ferrari Bravo, Ferruccio Gambino, Sergio Bolonha e Nanni Balestrini (além de mim) havíamos sido treinados em campos de treinamento atrás da Cortina de Ferro. Lembro de uma gravação da minha voz apresentada ao público como se fosse a voz do assassino de Moro, distribuída como encarte de uma revista semanal. Todas lorotas, de que jamais me pediram desculpas.
No meio de tudo isso, Pietro Calogero, posto a trabalhar sem de nada entender. Acusação grotesca, acusador patético: em quatro anos e meio de prisão preventiva, só o vi duas vezes. A primeira, dia 10 de abril, na Delegacia de Pádua, eu já preso, leu-me o texto da acusação; quando eu, incrédulo, ri na sua cara, mandou-me sair da sala; a segunda vez, em junho de 1983, enquanto eu esperava o resultado da eleição que me teria levado ao Parlamento, veio encontrar-me (acho que para estragar meu dia...) na prisão de Rebibbia; e eu o mandei sair. Sentia-se como se fosse portador de uma verdade revelada. De início convicto, depois gaguejante. Tabacômano sempre. Pelo menos nisso nos parecíamos. Era adulado pelos compadres, pelos políticos, investido no papel de "salvador da pátria". Estávamos presos há dois dias, e o Presidente da República, o inefável Pertini, enviou-lhe telegrama de congratulações.
Conforme a Constituição e as leis, devíamos, no mínimo, ser presumidos inocentes. Não. Pertini estava de tal modo convencido do contrário, que continuou a considerar o processo "7 de abril" essencial para o desenvolvimento da cultura jurídica italiana e, correspondentemente, não escondeu que via em mim "homem que Lombroso definiria como delinquente nato" – o que se lia em artigo de jornal daqueles anos, que recortei, e até hoje me causa náuseas. Imagine-se então a que ponto o procurador Calogero, "salvador da pátria", sentiu-se enfeitiçado por essa iluminação científica de um "pai da pátria".
Quanto à Universidade de Pádua, o Reitorado teve comportamento simplesmente ignóbil. Para compreender, é preciso lembrar um dado essencial: o 68 italiano durou dez anos. Explode em 68, mas estende-se por dez anos. Ora, em Pádua, nos ambientes culturais e universitários, sentiu-se pouco o maio francês. O que se formou em 68 (os vários grupos políticos estudantis), em vez de tomar o rumo da universidade, articulou-se e confundiu-se imediatamente com as transformações industriais e com a modernização cultural daquele nosso território. Em nenhum outro lugar da Itália, 68 teve efeitos de tanta radicalização – cultural, política e produtiva – sobre a composição de uma sociedade até aquele momento terrivelmente retraída, dominada por elites da Democracia Cristã, seguramente menos brutal que os seguidores da Liga Norte, mas, sim, ainda mais reacionária.
68 quebrou essa crosta, mudou não só a cultura, mas a antropologia dos vênetos. Quando, pois, nos anos 70s, os novos movimentos fizeram-se sentir dentro da universidade, a classe acadêmica (partícipe em grande parte das velhas tradições acomodadas e reacionárias e satisfeita em sua acomodação ao mesmo tempo aristocrática e de empreendimento) ficou em pânico.
Era uma classe dirigente ainda chocada com a tragédia do Vajont[vii] pela qual fora cientificamente e empresarialmente responsável, pela qual foi processada e da qual (mas com muito esforço!) fora absolvida. Uma classe acadêmica envelhecida e isolada, mesmo na cidade.
Os dois outros pólos de poder em Pádua, o bispado e as classes comercial e industrial, consideravam a classe acadêmica local – bem como merecia – sobrevivente financeira e simbolicamente desnecessária; um grupo de parasitas, do ponto de vista industrial; barrocos, do ponto de vista cultural. Nos anos subseqüentes, a Universidade de Pádua seria desagregada dos poderes centrais e distribuída por vários pontos do território vêneto, para correr atrás da indústria difusa.
Portanto, quando, como já acontecera dez anos antes em Roma, Turim, Milão ou Bolonha, e também em Paris e Berlim, algumas violências estudantis machucaram, a reação em Pádua foi desproporcional e aterrorizada, duríssima, fora da medida. Expressão dos grupos que viviam na universidade, assediados como se fossem um pequeno Kremlim. O que podiam fazer então aqueles acadêmicos, que, além do mais, pouco entendiam do que estava acontecendo? Produziram a cena estrelada por Angelo Ventura[viii], para vergonha eterna da honrada história da Patavina Libertas[ix]. Na abertura do ano letivo, com a presença de Pertini, Angelo Ventura leu o ato acusatório de Calogero contra os presos de "7 de abril", como prelúdio para os anos seguintes. A Rivista Storica Italiana, patrocinada por Leo Valiani[x], publicou aquele prelúdio.
Como é possível que tenha acontecido, na mesma cátedra da qual Concetto Marchesi proclamara o início da Resistência na Itália do Norte? Como é possível que a Rivista Storica Italiana tenha publicado um texto não apenas falso do início ao fim, e ignóbil pela finalidade repressiva, mas também sectário na própria proposta política?
Ainda mais: como é possível que – com desprezo à verdade e à inocência absolutamente evidentes e em situação pelo menos duvidosa – a totalidade da grande imprensa tenha-se posto de tal modo unanimemente a favor da condenação dos presos no caso "7 de Abril"? Do Corriere della Sera sabe-se bem que, naquele momento havia sido comprado pela Loja P2. La Repubblica teve, ao contrário, comportamento emblemático. Ante uma operação (a do "compromisso histórico") que defendia, o jornal desenvolveu – e bem de acordo com o completo absurdo do caso “7 de Abril” – duas linhas. Pela primeira delas, com perfeita hipocrisia, o jornal justificava (não sem alguma pietas) a operação "7 de Abril", por razões de Estado: foi a linha de Eugenio Scalfari. Giorgio Bocca, por sua vez, fez o jogo de uma comiseração irônica: vocês são inocentes... mas por que desafiar tanto as razões de Estado?
Devo acrescentar que, dentro da universidade, muitos professores duvidaram e lutaram contra essa terrível vocação acadêmica para a repressão. Minha lembrança agradecida e amiga àquele professor de Glotologia que destruiu, frente aos funcionários da Central Intelligence Agency (CIA), o registro acústico que provaria que eu teria telefonado à Sra. Moro para avisá-la da morte do marido.
Alguns membros do PCI de Pádua foram cúmplices, no meu caso, da CIA. Para não falar de um egrégio linguista italiano, sempre ligado ao PCI, que pôs a mão no fogo para garantir, com segurança acadêmica, o que logo se revelaria completamente falso.
Minha lembrança muito agradecida vai também para muitos jornalistas, de jornais grandes e pequenos, e sobretudo da RAI, que muitas vezes, insistentemente, generosamente, se opuseram à montagem do "7 de Abril".
Cerca de um mês depois de ter sido preso, encontrei-me com Luciano Ferrari Bravo, na seção de “alta segurança” da agradável prisão de Rebibbia. Luciano disse, logo que me viu: "Mas estão completamente loucos!". Respondi "Estão, é claro. Mas acho que, depois do bordel e da infâmia que foi a operação, ficaremos aqui os primeiros quatro ou cinco anos." Foi o que aconteceu.
Os presos da operação "7 de Abril" – em conjunto – cumpriram cerca de 300 anos de prisão preventiva, antes de serem completamente absolvidos, como aconteceu na grande maioria dos casos – e falo só dos que foram presos dia 7 de Abril, não dos que foram presos depois e depois absolvidos, em março, em dezembro etc.
Pecchioli, Ministro (sombra) do Interno do PCI; Tarsitano, advogado para assaltos daquele partido; Iblio Paolucci, o jornalista falsário da Unità – são três tipos que uma criminologia um pouco mais moderna e um pouco menos selvagem e menos positivista que a criminologia do século 18 (coerente com o modo de sentir de Pertini) poderia descrever como delinquentes da sociedade da comunicação do século 20.
Mas contra o quê, de fato, lutaram esses senhores? Em primeiro lugar, contra um instituto universitário: o Instituto de Ciências Políticas de Pádua. Quase todos os professores do Instituto foram presos naquele 7 de Abril – acusados de terem constituído organização subversiva e grupo armado. Também, porque o Instituto foi exemplo de didática aberta e um excepcional laboratório de produção científica. Reconhecido pelas grandes instituições estrangeiras e grandes casas editoras europeias e norte-americanas, o Instituto construíra um modelo de "ensino participativo" e desenvolvera várias pesquisas sobre transformações sociais e políticas na Itália e na Europa sobre problemas do sul e sobre a imigração, sobre sociologia industrial e sindical. Ora – disseram os poucos cúmplices universitários de Calogero –, tudo isso contraria os cânones da ataraxia acadêmica!
Passados 30 anos, as pesquisas do instituto paduano de então ainda são consideradas base metodológica e científica em várias das grandes universidades globalizadas. E mesmo sem tentar nos comparar a Galileu e Giordano Bruno – para não mencionar tantos outros infelizes vênetos – temos de reconhecer humildemente que estamos entre os que experimentamos e sofremos o que eles experimentaram e sofreram.
Em segundo lugar, tratava-se de destruir a capacidade dos grupos de estudantes e professores da Faculdade de Pádua em revolta, de associar-se às lutas da classe operária. Antes do 7 de Abril, já haviam sido demitidos da Fiat 61 operários, sob a única acusação de liderarem as lutas e de manterem contato com professores universitários vênetos.
No que nos diga respeito diretamente, não se deve esquecer a importância da participação de estudantes de Pádua na construção das novas instituições do proletariado de Marghera[xi]. Organizaram-se lutas operárias colossais, para as quais também muito colaboraram os estudantes de Pádua; desenvolvia-se, assim nutrido, um amplo processo de emancipação que aproximava as fábricas e a universidade. São daquela época as primeiras denúncias sobre "fábricas da morte" que cresciam em Marghera; as batalhas ecológicas que hoje são comuns também foram inventadas e promovidas então. Tudo isso portanto tinha de ser destruído. Não por acaso, aliaram-se e comprometeram-se contra tudo isso os oportunistas do PCI e representantes da classe dirigente vêneta (Il Gazzettino à frente).
Mas o comando industrial e sindical até então considerado forte – apesar dos golpes que lhe aplicou a insurreição operária –, estava acabado. Naquele momento, estavam tentando construir, com a expulsão de muitos operários da indústria-massa dos epicentros produtores vênetos, aquele imenso fenômeno que foi a fábrica difusa, descentralizada, do nordeste da Itália.
Nesse campo, os alunos e professores revolucionários de Pádua já estavam pesquisando novas formas de relações sociais, políticas e produtivas – e haviam construído as categorias de "operário social" e "trabalho cognitivo" que receberam muitos desenvolvimentos nas décadas seguintes.
Do outro lado, o grupelho dos amigos de Calogero – os quais, já no século 21, parecem ainda querer reunir-se (velhotes pervertidos) para encobrir o fracasso de sua operação de repressão e para reencenar uma verdade burlada – nada entendiam das transformações pelas quais passava a região do Vêneto, nem dos resultados políticos.
Quanto aos "ilustradíssimos" professores, essa ignorância afinal revelada é ainda pior do que a violência já denunciada com que agiram.
O que falta dizer? Que a Itália não conheceu revolução verdadeira propriamente dita; que foi unificada por fora, por monarcas estrangeiros; que, por dentro, continua, dominante, um poder integralista e tirânico, como o Vaticano – tudo isso já se sabe. Que o grande movimento socialista e comunista construíra durante um século, do fim do Oitocentos ao fim de 68, uma grande alternativa, ao mesmo tempo italiana e internacionalista, àquele destino secular de submissão e exploração (o qual, no melhor dos casos, fora travestido em ideal patriótico) – isso também já se sabe.
Mas por que, nos anos 70s (e o "7 de Abril" é elo fundamental desse processo), na continuação da reação que sempre dominou a Itália, somou-se a ela a loucura stalinista, e todos se alimentaram do imbróglio ideológico de uma esquerda que se pretendera comunista? Isso, não compreendemos até hoje. E nos felicitamos de não o compreender – porque bem pode acontecer que, ao compreender a corrupção, a inteligência também se corrompa e a alma adoeça.
A história posterior mostrou contudo que aquela passagem foi fatal e produziu poderosas toxinas que o organismo inteiro da esquerda italiana nunca mais conseguiu digerir. Tampouco conseguiu neutralizá-las e transfigurá-las politicamente mediante uma autocrítica necessária.
Todas as acusações feitas na operação "7 de Abril" são falsas – e aqui só comentamos as acusações de agitação nas ruas e nas fábricas. Não comentamos a acusação grotesca que identificava a Autonomia às Brigadas Vermelhas; nem a acusação ridícula de que o Instituto de Ciências Políticas de Pádua seria o centro de organização da luta armada na Itália e em toda a Europa; nem as acusações infamantes (que vieram logo depois, quando se desmascararam as primeiras mentiras, e foi preciso inventar outras para nos manter na prisão) que foram feitas, mediante um jogo sórdido com espiões improvisados, mentirosos infiltrados e subornados (eufemisticamente chamados de "arrependidos"), os crimes terríveis de que foram acusados os presos de 7 de Abril.
Todas as acusações eram falsas, exceto uma: a acusação de insurreição. Os movimentos italianos dos anos 70s foram verdadeiramente tentativa de transformar, pela via extra-parlamentar, a constituição do país. E isso conseguiram. Apesar de tudo, isso conseguiram: porque, de fato, a sociedade italiana foi atravessada por um novo desejo, de justiça, de criatividade, que permanece no cérebro e na consciência da maior parte dos jovens daquela geração.
E, para terminar, houve o efeito de desmitificação. Deram-se mal todos os nossos adversários. Até um Berlusconi escarnece hoje da tradição (comunista e católica-reformista) da qual eram portadores. E, paradoxalmente, só cabe a vergonha. Pena para a Itália, pena para eles.
Assim sendo, apesar do cortejo de inocentes acusados e condenados a tantos anos de prisão sem qualquer explicação; apesar das famílias destruídas; das carreiras truncadas; dos filhos criados sem pai ou sem mãe; das mortes precoces; das vidas desencaminhadas por mentiras e pela força tremenda da razão de Estado (pois é a razão de Estado que quer falsos culpados para mascarar as suas próprias responsabilidades), apesar também daquela profunda, nauseante injustiça... É hora, sim, de brindarmos em homenagem ao 7 de Abril, afinal nome de rua, em Pádua!*
NOTAS DA TRADUÇÃO
[i] "8 de Fevereiro" é o nome da rua em que se localiza a Universidade de Pádua. Homenageia um levante de estudantes, em 1848, em luta contra a ocupação austríaca.
[ii] 12/12/1969. Sobre o atentado, ver
http://it.wikipedia.org/wiki/Strage_di_Piazza_Fontana.
[iii] Em 1977, Enrico Berlinguer, do PCI, disse, em discurso sobre os movimento da autonomia de Bolonha: "Esses pestilentos [it. untorelli] não destruirão Bolonha". Falava de jovens radicais que pregavam comportamentos de ruptura, como modos de se apropriarem da vida quotidiana para fazer um tipo de revolução "aqui e agora". Sobre "os untorelli", ver Franco Berardi, "Les untorelli", s/d, Recherches (Fontenay-sous-Bois).
[iv] Giulio Cesare Evola (1898-1974), filósofo italiano, em cuja obra neopagã se têm inspirado várias organismos e correntes políticas do fascismo. Sobre isso, ver http://pt.wikipedia.org/wiki/Julius_Evola.
[v] Região do extremo norte da Itália onde houve, nos anos 1950, um movimento separatista para reunificar a região à Áustria.
[vi] Sobre isso, ver http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=9556.
[vii] Barragem construída nas montanhas do Vêneto onde, por falhas dos estudos de geologia, um pedaço gigantesco da montanha tombou no lago artificial. O tsunami assim gerado matou milhares de habitantes dos vilarejos próximos.
[viii] Professor de história da mesma universidade.
[ix] Lema da Università degli Studi di Padova, Universidade de Pádua, fundada no século 13 e das mais antigas do mundo: Universa Universis Patavina Libertas.
[x] Colunista ultra-conservador do diário Corriere della Sera.
[xi] Zona industrial de Veneza, com grande pólo petroquímico.
* Tradução do italiano, de Caia Fittipaldi. 2/4/2009, São Paulo. Correções e comentários são bem-vindos para caia.fittipaldi@uol.com.br
Fonte: www.novae.inf.br
sábado, 4 de abril de 2009
Protesto no centro financeiro de Londres contra o G20 - ANA
Protesto no centro financeiro de Londres contra o G20
Milhares de manifestantes tomaram as ruas do centro de Londres nesta quarta-feira (1) em protestos contra o encontro do G20, mais conhecido como “Contos do vigário”. O clima foi tenso no distrito financeiro da cidade, principalmente em frente ao Banco da Inglaterra, o banco central britânico, ponto de convergência de quatro grandes passeatas, organizadas por ativistas antiglobalização, ambientalistas e anarquistas - apelidadas de "Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse", que partiram de pontos diferentes de Londres e se encontraram em frente ao Banco da Inglaterra.
Durante a manifestação, um grupo de anarquistas atacou uma agência do Royal Bank of Scotland (RBS), destruindo as vitrines e invadindo partes do edifício.
"Tivemos um grande dia. Foi fantástico! Dissemos que atacaríamos o banco e fizemos isso. Eles não nos podiam parar. Forçamos as linhas de policiais e arremetemos contra o Royal Bank of Scotland”, disse um anarquista.
O RBS foi uma das instituições financeiras que receberam socorro do governo após o colapso do sistema financeiro internacional no final de 2008.
Os ativistas foram reprimidos por agentes especiais da polícia britânica, que foram enviados ao local para conter os protestos.
“A polícia usou cassetetes para reprimir as pessoas. O curioso é que os policiais estavam menos agressivos, isso porque a imprensa estava ali, fato que os intimidou. Podiam ter sido mais agressivos. Podia ter sido pior", explicou um ativista.
A Scotland Yard prendeu por volta de 23 pessoas que participavam dos protestos. Pelo menos 83 mil policiais foram empregados nas ruas da cidade pela operação de segurança.
Mais infos e imagens: http://www.indymedia.org.uk/
agência de notícias anarquistas-ana
noite
estrelas lua brilham
suave é a noite
João Batista dos Santos
Milhares de manifestantes tomaram as ruas do centro de Londres nesta quarta-feira (1) em protestos contra o encontro do G20, mais conhecido como “Contos do vigário”. O clima foi tenso no distrito financeiro da cidade, principalmente em frente ao Banco da Inglaterra, o banco central britânico, ponto de convergência de quatro grandes passeatas, organizadas por ativistas antiglobalização, ambientalistas e anarquistas - apelidadas de "Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse", que partiram de pontos diferentes de Londres e se encontraram em frente ao Banco da Inglaterra.
Durante a manifestação, um grupo de anarquistas atacou uma agência do Royal Bank of Scotland (RBS), destruindo as vitrines e invadindo partes do edifício.
"Tivemos um grande dia. Foi fantástico! Dissemos que atacaríamos o banco e fizemos isso. Eles não nos podiam parar. Forçamos as linhas de policiais e arremetemos contra o Royal Bank of Scotland”, disse um anarquista.
O RBS foi uma das instituições financeiras que receberam socorro do governo após o colapso do sistema financeiro internacional no final de 2008.
Os ativistas foram reprimidos por agentes especiais da polícia britânica, que foram enviados ao local para conter os protestos.
“A polícia usou cassetetes para reprimir as pessoas. O curioso é que os policiais estavam menos agressivos, isso porque a imprensa estava ali, fato que os intimidou. Podiam ter sido mais agressivos. Podia ter sido pior", explicou um ativista.
A Scotland Yard prendeu por volta de 23 pessoas que participavam dos protestos. Pelo menos 83 mil policiais foram empregados nas ruas da cidade pela operação de segurança.
Mais infos e imagens: http://www.indymedia.org.uk/
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noite
estrelas lua brilham
suave é a noite
João Batista dos Santos
Anarquistas causam um grande estrago em protesto contra a Otan em Estrasburgo, polícia prende mais de 100 - ANA
Anarquistas causam um grande estrago em protesto contra a Otan em Estrasburgo, polícia prende mais de 100
[Vestidos de negro e encapuzados, armados com paus, pedras, bandeiras negras e muita disposição, centenas de anarquistas invadiram e causaram um grande estrago no centro da cidade de Estrasburgo, num protesto anti-Otan.]
Polícia francesa deteve nesta quinta-feira (2) mais de 100 ativistas após um confronto entre militantes anti-Otan e as forças de segurança na cidade de Estrasburgo, onde a Otan realiza uma reunião de cúpula na sexta (3) e sábado (5), que marca o 60º aniversário da aliança atlântica.
A tropa de choque usou gás lacrimogêneo contra os manifestantes forçando-os a recuar para o “Vilarejo/Acampamento Autogestionário”, situado no sul da cidade, numa floresta. Contudo dezenas de manifestantes foram detidos e colocados de bruços.
No centro da cidade, os cerca de 500 ativistas quebraram vitrines, vandalizaram carros, viaturas e montaram barricadas nas ruas. Não houve feridos
Os manifestantes também atacaram um veículo policial que cruzou seu caminho. Um jovem enfiou uma vara pelo pára-brisa. Um dos dois policiais chegou a sacar sua arma e a apontou para cima, dando tempo para que o motorista manobrasse e fugisse.
Desde terça-feira (31) à noite vem sendo registrados incidentes entre a polícia e militantes anti-Otan, que estão concentrados num "Vilarejo/Acampamento Autogestionário", local onde estão sendo realizadas diversas atividades, que tiveram início nesta terça-feira (31) e vai até domingo (5). Granadas ensurdecedoras e de gás lacrimogêneo já foram lançadas pelas forças de ordem nos arredores do acampamento.
Estrasburgo foi transformada numa cidade em estado sítio. Milhares de policiais estão espalhados pela cidade. Centenas de pessoas estão sendo impedidas de entrarem no município para os protestos. Há controles em todas as fronteiras francesas. Autoridades francesas e alemãs elaboram uma “lista negra” de militantes “fichados” e "perigosos". França e Alemanha organizam a cúpula conjuntamente.
Os eventos oficiais em comemoração ao 60º aniversário da Otan vão acontecer na cidade francesa de Estrasburgo e as alemãs de Baden Baden e Kehl, nesta sexta-feira e no sábado. No total, 28 chefes de Estado ou de governo, entre eles o presidente estadunidense, Barack Obama, vão participar da cúpula.
Vídeo do protesto:
http://www.dailymotion.com/video/x8uw5c_premier-jour-demeutes-sommet-de-lot_news
Mais infos:
Federação Anarquista Estrasburgo: http://fastrasbg.lautre.net/?+-Sommet-OTAN-Strasbourg-Kehl-2009-+
Rádio Anti-Otan: http://stream.giss.tv:8000/antinato.mp3.m3u
Coordenação Anti-Otan Estrasburgo: http://sommet-otan-2009.blogspot.com
Dissent: http://dissent.fr
Vilarejo/Acampamento Autogestionário: http://village2009.blogsport.de
Anti-repressão em Estrasburgo: http://www.antirepression.org
agência de notícias anarquistas-ana
Como um prisioneiro
a lua me espia pelas
grades do banheiro
Luiz Bacellar
[Vestidos de negro e encapuzados, armados com paus, pedras, bandeiras negras e muita disposição, centenas de anarquistas invadiram e causaram um grande estrago no centro da cidade de Estrasburgo, num protesto anti-Otan.]
Polícia francesa deteve nesta quinta-feira (2) mais de 100 ativistas após um confronto entre militantes anti-Otan e as forças de segurança na cidade de Estrasburgo, onde a Otan realiza uma reunião de cúpula na sexta (3) e sábado (5), que marca o 60º aniversário da aliança atlântica.
A tropa de choque usou gás lacrimogêneo contra os manifestantes forçando-os a recuar para o “Vilarejo/Acampamento Autogestionário”, situado no sul da cidade, numa floresta. Contudo dezenas de manifestantes foram detidos e colocados de bruços.
No centro da cidade, os cerca de 500 ativistas quebraram vitrines, vandalizaram carros, viaturas e montaram barricadas nas ruas. Não houve feridos
Os manifestantes também atacaram um veículo policial que cruzou seu caminho. Um jovem enfiou uma vara pelo pára-brisa. Um dos dois policiais chegou a sacar sua arma e a apontou para cima, dando tempo para que o motorista manobrasse e fugisse.
Desde terça-feira (31) à noite vem sendo registrados incidentes entre a polícia e militantes anti-Otan, que estão concentrados num "Vilarejo/Acampamento Autogestionário", local onde estão sendo realizadas diversas atividades, que tiveram início nesta terça-feira (31) e vai até domingo (5). Granadas ensurdecedoras e de gás lacrimogêneo já foram lançadas pelas forças de ordem nos arredores do acampamento.
Estrasburgo foi transformada numa cidade em estado sítio. Milhares de policiais estão espalhados pela cidade. Centenas de pessoas estão sendo impedidas de entrarem no município para os protestos. Há controles em todas as fronteiras francesas. Autoridades francesas e alemãs elaboram uma “lista negra” de militantes “fichados” e "perigosos". França e Alemanha organizam a cúpula conjuntamente.
Os eventos oficiais em comemoração ao 60º aniversário da Otan vão acontecer na cidade francesa de Estrasburgo e as alemãs de Baden Baden e Kehl, nesta sexta-feira e no sábado. No total, 28 chefes de Estado ou de governo, entre eles o presidente estadunidense, Barack Obama, vão participar da cúpula.
Vídeo do protesto:
http://www.dailymotion.com/video/x8uw5c_premier-jour-demeutes-sommet-de-lot_news
Mais infos:
Federação Anarquista Estrasburgo: http://fastrasbg.lautre.net/?+-Sommet-OTAN-Strasbourg-Kehl-2009-+
Rádio Anti-Otan: http://stream.giss.tv:8000/antinato.mp3.m3u
Coordenação Anti-Otan Estrasburgo: http://sommet-otan-2009.blogspot.com
Dissent: http://dissent.fr
Vilarejo/Acampamento Autogestionário: http://village2009.blogsport.de
Anti-repressão em Estrasburgo: http://www.antirepression.org
agência de notícias anarquistas-ana
Como um prisioneiro
a lua me espia pelas
grades do banheiro
Luiz Bacellar
Jovem anarquista/vegano é detido em Guadalajara - ANA
Jovem anarquista/vegano é detido em Guadalajara
Na madrugada do último sábado (28), ao redor das 5 horas da manhã, foi preso pela policia municipal e estatal de Guadalajara o jovem anarquista/vegano Erick, momentos depois de executar uma sabotagem contra uma multinacional.
Desgraçadamente, momentos depois de se retirar do local da ação, algumas pessoas que estavam perto do lugar perseguiram-no, e o detiveram, entregando-o à polícia.
Até agora o paradeiro do companheiro é desconhecido, já que diferentes estâncias da polícia se negam a fornecer qualquer informação. Seus companheiros temem pelo seu bem estar, inclusive, por sua vida, visto que é nativo da cidade do México, conhecida como "D.F." (Distrito Federal), e a polícia, assim como a sociedade e o governo nesse estado, é ultra-direitista e conservador, e tem um profundo "ódio" contra as pessoas nativas da cidade do México.
Erick é um membro muito "ativo" da comunidade anarquista e vegana no Distrito Federal, que se encontrava em Guadalajara para assistir um encontro de Liberação Animal.
agência de notícias anarquistas-ana
Noite no sertão:
Um vagalume
Alumia lá longe.
Jair Barbosa
Na madrugada do último sábado (28), ao redor das 5 horas da manhã, foi preso pela policia municipal e estatal de Guadalajara o jovem anarquista/vegano Erick, momentos depois de executar uma sabotagem contra uma multinacional.
Desgraçadamente, momentos depois de se retirar do local da ação, algumas pessoas que estavam perto do lugar perseguiram-no, e o detiveram, entregando-o à polícia.
Até agora o paradeiro do companheiro é desconhecido, já que diferentes estâncias da polícia se negam a fornecer qualquer informação. Seus companheiros temem pelo seu bem estar, inclusive, por sua vida, visto que é nativo da cidade do México, conhecida como "D.F." (Distrito Federal), e a polícia, assim como a sociedade e o governo nesse estado, é ultra-direitista e conservador, e tem um profundo "ódio" contra as pessoas nativas da cidade do México.
Erick é um membro muito "ativo" da comunidade anarquista e vegana no Distrito Federal, que se encontrava em Guadalajara para assistir um encontro de Liberação Animal.
agência de notícias anarquistas-ana
Noite no sertão:
Um vagalume
Alumia lá longe.
Jair Barbosa
sexta-feira, 3 de abril de 2009
Vitória de Luís Nassif no processo da Veja
Vitória de Luís Nassif no processo da Veja
Algo importante aconteceu na blogosfera brasileira quando o jornalista Luis Nassif começou a publicar reportagens a respeito da revista Veja: o debate mudou de plano. O que Nassif batizou de dossiê analisa, com farto material, o jornalismo praticado pela publicação semanal. Nesta semana, o Juiz Carlos Henrique Abrão, da 42ª Vara Cível do Foro Central de São Paulo, julgou improcedente a ação de danos morais movida pelo ediretor de redação Eurípides Alcântara contra Nassif.
Redação - Carta Maior
“O maior fenômeno de anti-jornalismo dos últimos anos foi o que ocorreu com a revista Veja. Gradativamente, o maior semanário brasileiro foi se transformando em um pasquim sem compromisso com o jornalismo, recorrendo a ataques desqualificadores contra quem atravessasse seu caminho, envolvendo-se em guerras comerciais e aceitando que suas páginas e sites abrigassem matérias e colunas do mais puro esgoto jornalístico”, é o que se lê logo no primeiro parágrafo do visualmente simples blog de Luis Nassif.
A fundamentação do jornalista contra a revista baseia-se em três afirmativas. Segundo ele, é necessário juntar um conjunto de peças. “O primeiro conjunto são as mudanças estruturais que a mídia vem atravessando em todo mundo. O segundo, a maneira como esses processos se refletiram na crise política brasileira e nas grandes disputas empresariais, a partir do advento dos banqueiros de negócio que sobem à cena política e econômica na última década. A terceira, as características específicas da revista Veja, e as mudanças pelas quais passou nos últimos anos”.
Não há dúvida de que o blog é leitura fundamental, para se pensar o jornalismo contemporâneo. Diversos blogs, inclusive, lançaram campanhas para que a página de Nassif figurasse no topo do site de buscas Google, quando a palavra Veja fosse procurada. A Revista Veja chegou a impor dificuldades tecnológicas de busca e os próprios leitores do blog passaram a ajudar o Nassif a encontrar reportagens específicas.
Em sentença anunciada esta semana, o juiz Carlos Henrique Abrão, da 42ª Vara Cível do Foro Central de São Paulo, julgou improcedente a ação de danos morais movida pela Revista Veja e seu diretor de redação Eurípides Alcântara contra Nassif. “A fundamentação da sentença é magnífica e a decisão é histórica, na medida em que não é muito comum que um grupo de mídia processe um jornalista por reportagens dedicadas a estudar esse mesmo veículo”, analisa Idelber Avelar, do blog Biscoito Fino e a Massa.
“A liberdade plena de imprensa, maior conquista das democracias ocidentais, observa o ângulo da transparência, seriedade e compromisso com a verdade. Difícil manter a harmonia quando interesses econômicos, políticos, sobretudo empresariais, sem sobra de dúvida, flexionam os limites da ética e da moralidade da imprensa”, diz a sentença.
“Desenhada a arquitetura da lide, o seu ambiente divergente, feito o bosquejo do essencial, e tendo em mira a mudança de mentalidade surgida com a guerra midiática dos informes eletrônicos, blogs, equipamentos disponíveis, sopesando, um a um, todos os aspectos, a prova amealhada não permite, salvo melhor juízo, o acolhimento desta ação. Explicando a procura de justificativa, embora forte e contundente na sua crítica, Luis Nassif se cercou do contexto que tinha em suas mãos para escrever a matéria e não patinar nas informações, abordou assunto próprio de sua característica e o desagrado, como não poderia deixar de ser, fora generalizado”, prossegue o juiz.
“Técnico, impecável, o magistrado reitera que julga a ação, não a veracidade da reportagem de Nassif. Mas estabelece claramente que Nassif seguiu pautas jornalísticas em seu trabalho. Categórico, o Juiz desmonta a pretensão da Revista Veja de extorquir cem mil reais de indenização do jornalista.Muito pouco apreço pela verdade e pela própria dignidade terá qualquer advogado que recorra desta decisão em nome da Revista Veja. Trata-se de uma sentença histórica em defesa da genuína liberdade de imprensa, não desse falso slogan que evocam os grupos de mídia quando são contrariados”, avaliou Avelar em sua página.
O diretor de redação de Veja, Eurípedes Alcântara, e o editor especial Lauro Jardim entraram em fevereiro de 2008 com as ações civis na Justiça de São Paulo. Foram quatro ações: duas de Alcântara contra o jornalista e o portal que hospeda seu blog, o iG, cujo mantenedor é a Brasil Telecom, e outras duas de Jardim também contra Nassif e o iG.
Fonte: agência carta maior
Algo importante aconteceu na blogosfera brasileira quando o jornalista Luis Nassif começou a publicar reportagens a respeito da revista Veja: o debate mudou de plano. O que Nassif batizou de dossiê analisa, com farto material, o jornalismo praticado pela publicação semanal. Nesta semana, o Juiz Carlos Henrique Abrão, da 42ª Vara Cível do Foro Central de São Paulo, julgou improcedente a ação de danos morais movida pelo ediretor de redação Eurípides Alcântara contra Nassif.
Redação - Carta Maior
“O maior fenômeno de anti-jornalismo dos últimos anos foi o que ocorreu com a revista Veja. Gradativamente, o maior semanário brasileiro foi se transformando em um pasquim sem compromisso com o jornalismo, recorrendo a ataques desqualificadores contra quem atravessasse seu caminho, envolvendo-se em guerras comerciais e aceitando que suas páginas e sites abrigassem matérias e colunas do mais puro esgoto jornalístico”, é o que se lê logo no primeiro parágrafo do visualmente simples blog de Luis Nassif.
A fundamentação do jornalista contra a revista baseia-se em três afirmativas. Segundo ele, é necessário juntar um conjunto de peças. “O primeiro conjunto são as mudanças estruturais que a mídia vem atravessando em todo mundo. O segundo, a maneira como esses processos se refletiram na crise política brasileira e nas grandes disputas empresariais, a partir do advento dos banqueiros de negócio que sobem à cena política e econômica na última década. A terceira, as características específicas da revista Veja, e as mudanças pelas quais passou nos últimos anos”.
Não há dúvida de que o blog é leitura fundamental, para se pensar o jornalismo contemporâneo. Diversos blogs, inclusive, lançaram campanhas para que a página de Nassif figurasse no topo do site de buscas Google, quando a palavra Veja fosse procurada. A Revista Veja chegou a impor dificuldades tecnológicas de busca e os próprios leitores do blog passaram a ajudar o Nassif a encontrar reportagens específicas.
Em sentença anunciada esta semana, o juiz Carlos Henrique Abrão, da 42ª Vara Cível do Foro Central de São Paulo, julgou improcedente a ação de danos morais movida pela Revista Veja e seu diretor de redação Eurípides Alcântara contra Nassif. “A fundamentação da sentença é magnífica e a decisão é histórica, na medida em que não é muito comum que um grupo de mídia processe um jornalista por reportagens dedicadas a estudar esse mesmo veículo”, analisa Idelber Avelar, do blog Biscoito Fino e a Massa.
“A liberdade plena de imprensa, maior conquista das democracias ocidentais, observa o ângulo da transparência, seriedade e compromisso com a verdade. Difícil manter a harmonia quando interesses econômicos, políticos, sobretudo empresariais, sem sobra de dúvida, flexionam os limites da ética e da moralidade da imprensa”, diz a sentença.
“Desenhada a arquitetura da lide, o seu ambiente divergente, feito o bosquejo do essencial, e tendo em mira a mudança de mentalidade surgida com a guerra midiática dos informes eletrônicos, blogs, equipamentos disponíveis, sopesando, um a um, todos os aspectos, a prova amealhada não permite, salvo melhor juízo, o acolhimento desta ação. Explicando a procura de justificativa, embora forte e contundente na sua crítica, Luis Nassif se cercou do contexto que tinha em suas mãos para escrever a matéria e não patinar nas informações, abordou assunto próprio de sua característica e o desagrado, como não poderia deixar de ser, fora generalizado”, prossegue o juiz.
“Técnico, impecável, o magistrado reitera que julga a ação, não a veracidade da reportagem de Nassif. Mas estabelece claramente que Nassif seguiu pautas jornalísticas em seu trabalho. Categórico, o Juiz desmonta a pretensão da Revista Veja de extorquir cem mil reais de indenização do jornalista.Muito pouco apreço pela verdade e pela própria dignidade terá qualquer advogado que recorra desta decisão em nome da Revista Veja. Trata-se de uma sentença histórica em defesa da genuína liberdade de imprensa, não desse falso slogan que evocam os grupos de mídia quando são contrariados”, avaliou Avelar em sua página.
O diretor de redação de Veja, Eurípedes Alcântara, e o editor especial Lauro Jardim entraram em fevereiro de 2008 com as ações civis na Justiça de São Paulo. Foram quatro ações: duas de Alcântara contra o jornalista e o portal que hospeda seu blog, o iG, cujo mantenedor é a Brasil Telecom, e outras duas de Jardim também contra Nassif e o iG.
Fonte: agência carta maior
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Crise financeira? por Francisco de Oliveira
Crise financeira?
Teoricamente, temos uma crise clássica na interpretação marxista: é de realização do valor, mas aqui está sua novidade: a produção do valor se dá na China e sua realização nos EUA. É no que pode dar a assimetria entre os 10% de crescimento da China e os modestos 3 a 4% dos EUA. Nos últimos vinte anos, o capitalismo experimenta uma violentíssima expansão: 800 milhões de trabalhadores foram transformados em operários entre a Índia e a China, e em todos os países do arco asiático. Uma ampliação quase sem precedentes na história mundial das fronteiras da mais-valia. A análise é de Francisco de Oliveira.
Francisco de Oliveira
Data: 01/04/2009
Tornou-se dominante interpretar a atual crise econômica mundial como financeira, inclusive nos arraiais marxistas, seguindo-se as indicações elaboradas por François Chesnais sobre os regimes de acumulação à dominância financeira. E as evidências empíricas levam água ao moinho dessa explicação, haja visto que foi o estouro das chamadas hipotecas subprime, que acendeu, finalmente, a luz vermelha de uma intervenção urgente e profunda. Bush ainda brincou, e deixou o Lehmann Brothers ir à breca, bem no receituário liberal. Mas o tsunami não perdeu o poder destrutivo e agora o elegante Barack Obama tenta domá-lo, sem muito êxito, até aqui.
A crise que aí está é a primeira da globalização, não a primeira global, pois de há muito todas as crises produzidas no centro do sistema propagam-se imediatamente. Uma crise da globalização é diferente: ela pode ser gestada nas periferias do sistema, atingir o centro e daí propagar-se. Teoricamente, ela é uma crise clássica na interpretação marxista: é de realização do valor, mas aqui está sua novidade: a produção do valor se dá na China e sua realização nos EUA. É no que pode dar a assimetria entre os 10% de crescimento da China e os modestos 3 a 4% dos EUA. Nos últimos vinte anos, o capitalismo mundial experimenta uma violentíssima expansão: 800 milhões de trabalhadores foram transformados em operários entre a Índia e a China, e em todos os países do vastíssimo arco asiático. Ficaram de fora nessa verdadeira revolução capitalista, a África, como sempre, e praticamente toda a América Latina.
Uma ampliação quase sem precedentes na história mundial das fronteiras da mais-valia. Descentralidade do trabalho? Vade retro! Com certeza, quem escreve e quem lê estão calçando um tênis e usando um relógio digital produzidos nessa nova fronteira. Isto quer dizer em teoria do valor que o custo de reprodução da força de trabalho nos países que importam tais bens de consumo foi drasticamente reduzido, sem a contrapartida de um aumento do salário monetário das suas classes trabalhadoras; Robert Kurz já os chamou, faz tempo, “sujeitos monetários sem dinheiro”. Flynt (GM), Dearborn (Ford) e toda Detroit são hoje cidades fantasmas, casas abandonadas, com desempregos duas vezes superiores à taxa nacional norte-americana, e uma cena medieval diária, inimaginavel na América das oportunidades: trabalhadores em filas recebendo refeições; ao invés de Lutero e Calvino, São Francisco de Assis..
Atenção: esta revolução nos mercados de trabalho mundiais não poderia ter sido feita sem uma pesada mudança técnico-científica nos métodos e produtos. O relógio digital que se descarta é banal porque produzido por uma enorme infra-estrutura técnico-científica que tornou as imensas reservas de mão-de-obra baratíssimas. A China hoje tem mais estudantes de curso universitário que os EUA, e mais pós-graduandos que o total de estudantes universitários do Brasil.
Nos EUA isto significou que a não-contrapartida em salário monetário deixou um buraco nas contas dos consumidores e das famílias, que no boom da especulação imobiliária tinham adquirido a casa dos seus sonhos. Cujos empréstimos os norte-americanos imediatamente deixam de pagar, abandonam as casas e vão morar nos trailers de seus carrões, estacionados à noite nos parkings, onde dormem. E os bancos e financeiras hipotecárias deixaram até de cobrar, porque o crédito novo, obtido através do FED e dos empréstimos chineses, era mais barato do que cobrar dos inadimplentes.
A oferta de dinheiro barato, as subprimes, veio das aplicações chinesas em títulos do tesouro americano, cujo FED deixou os bancos privados expandirem o crédito para além de qualquer critério. Já em março de 2005, Ben Bernanke, então importante economista de Princeton, alertava para o risco da utilização dos empréstimos chineses para financiar os pesados gastos das famílias norte-americanas, em hipotecas de casas e carros. Ben é hoje o todo-poderoso presidente do FED, e de crítico converteu-se em administrador da bancarrota (citado em Mark Landler, “Somente os bolsos chineses se enchiam” Folha de S.Paulo, 5/jan/2009, artigos selecionados do The New York Times).
Francisco de Oliveira é Professor Emérito da FFLCH-USP.
Fonte: agência carta maior
Teoricamente, temos uma crise clássica na interpretação marxista: é de realização do valor, mas aqui está sua novidade: a produção do valor se dá na China e sua realização nos EUA. É no que pode dar a assimetria entre os 10% de crescimento da China e os modestos 3 a 4% dos EUA. Nos últimos vinte anos, o capitalismo experimenta uma violentíssima expansão: 800 milhões de trabalhadores foram transformados em operários entre a Índia e a China, e em todos os países do arco asiático. Uma ampliação quase sem precedentes na história mundial das fronteiras da mais-valia. A análise é de Francisco de Oliveira.
Francisco de Oliveira
Data: 01/04/2009
Tornou-se dominante interpretar a atual crise econômica mundial como financeira, inclusive nos arraiais marxistas, seguindo-se as indicações elaboradas por François Chesnais sobre os regimes de acumulação à dominância financeira. E as evidências empíricas levam água ao moinho dessa explicação, haja visto que foi o estouro das chamadas hipotecas subprime, que acendeu, finalmente, a luz vermelha de uma intervenção urgente e profunda. Bush ainda brincou, e deixou o Lehmann Brothers ir à breca, bem no receituário liberal. Mas o tsunami não perdeu o poder destrutivo e agora o elegante Barack Obama tenta domá-lo, sem muito êxito, até aqui.
A crise que aí está é a primeira da globalização, não a primeira global, pois de há muito todas as crises produzidas no centro do sistema propagam-se imediatamente. Uma crise da globalização é diferente: ela pode ser gestada nas periferias do sistema, atingir o centro e daí propagar-se. Teoricamente, ela é uma crise clássica na interpretação marxista: é de realização do valor, mas aqui está sua novidade: a produção do valor se dá na China e sua realização nos EUA. É no que pode dar a assimetria entre os 10% de crescimento da China e os modestos 3 a 4% dos EUA. Nos últimos vinte anos, o capitalismo mundial experimenta uma violentíssima expansão: 800 milhões de trabalhadores foram transformados em operários entre a Índia e a China, e em todos os países do vastíssimo arco asiático. Ficaram de fora nessa verdadeira revolução capitalista, a África, como sempre, e praticamente toda a América Latina.
Uma ampliação quase sem precedentes na história mundial das fronteiras da mais-valia. Descentralidade do trabalho? Vade retro! Com certeza, quem escreve e quem lê estão calçando um tênis e usando um relógio digital produzidos nessa nova fronteira. Isto quer dizer em teoria do valor que o custo de reprodução da força de trabalho nos países que importam tais bens de consumo foi drasticamente reduzido, sem a contrapartida de um aumento do salário monetário das suas classes trabalhadoras; Robert Kurz já os chamou, faz tempo, “sujeitos monetários sem dinheiro”. Flynt (GM), Dearborn (Ford) e toda Detroit são hoje cidades fantasmas, casas abandonadas, com desempregos duas vezes superiores à taxa nacional norte-americana, e uma cena medieval diária, inimaginavel na América das oportunidades: trabalhadores em filas recebendo refeições; ao invés de Lutero e Calvino, São Francisco de Assis..
Atenção: esta revolução nos mercados de trabalho mundiais não poderia ter sido feita sem uma pesada mudança técnico-científica nos métodos e produtos. O relógio digital que se descarta é banal porque produzido por uma enorme infra-estrutura técnico-científica que tornou as imensas reservas de mão-de-obra baratíssimas. A China hoje tem mais estudantes de curso universitário que os EUA, e mais pós-graduandos que o total de estudantes universitários do Brasil.
Nos EUA isto significou que a não-contrapartida em salário monetário deixou um buraco nas contas dos consumidores e das famílias, que no boom da especulação imobiliária tinham adquirido a casa dos seus sonhos. Cujos empréstimos os norte-americanos imediatamente deixam de pagar, abandonam as casas e vão morar nos trailers de seus carrões, estacionados à noite nos parkings, onde dormem. E os bancos e financeiras hipotecárias deixaram até de cobrar, porque o crédito novo, obtido através do FED e dos empréstimos chineses, era mais barato do que cobrar dos inadimplentes.
A oferta de dinheiro barato, as subprimes, veio das aplicações chinesas em títulos do tesouro americano, cujo FED deixou os bancos privados expandirem o crédito para além de qualquer critério. Já em março de 2005, Ben Bernanke, então importante economista de Princeton, alertava para o risco da utilização dos empréstimos chineses para financiar os pesados gastos das famílias norte-americanas, em hipotecas de casas e carros. Ben é hoje o todo-poderoso presidente do FED, e de crítico converteu-se em administrador da bancarrota (citado em Mark Landler, “Somente os bolsos chineses se enchiam” Folha de S.Paulo, 5/jan/2009, artigos selecionados do The New York Times).
Francisco de Oliveira é Professor Emérito da FFLCH-USP.
Fonte: agência carta maior
segunda-feira, 30 de março de 2009
A cara antidemocrática do capitalismo. Por Noam Chomsky
A cara antidemocrática do capitalismo
NOAM CHOMSKY, Carta Clacso, Buenos Aires, mar./2009
http://www.clacso.org.ar/clacso/debates/debates-2009/a-cara-antidemocratica-do-capitalismo
A liberalização financeira teve efeitos para muito além da economia. Há muito que se compreendeu que era uma arma poderosa contra a democracia. O movimento livre dos capitais cria o que alguns chamaram um "parlamento virtual" de investidores e credores que controlam de perto os programas governamentais e "votam" contra eles, se os consideram "irracionais", quer dizer, se são em benefício do povo e não do poder privado concentrado. (NC, Sin Permiso)
O desenvolvimento de uma campanha presidencial norte-americana simultaneamente ao desenlace da crise dos mercados financeiros oferece uma dessas ocasiões em que os sistemas político e econômico revelam vigorosamente sua natureza.
Pode ser que a paixão pela campanha não seja uma coisa universalmente compartilhada, mas quase todo mundo pode perceber a ansiedade desencadeada pela execução hipotecária de um milhão de residências, assim como a preocupação com os riscos que correm os postos de trabalho, as poupanças e os serviços de saúde.
As propostas iniciais de Bush para lidar com a crise fediam a tal ponto a totalitarismo que não tardaram a ser modificadas. Sob intensa pressão dos lobbies, foram reformuladas "para o claro benefício das maiores instituições do sistema...uma forma de desfazer-se dos ativos sem necessidade de fracassar ou quase", segundo descreveu James Rickards, que negociou o resgate federal por parte do fundo de cobertura de derivativos financeiros Long Term Capital Management em 1998, lembrando-nos de que estamos caminhando em terreno conhecido.
As origens imediatas do desmoronamento atual estão no colapso da bolha imobiliária supervisionada pelo presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, que foi quem sustentou a coitada da economia dos anos Bush, misturando o gasto de consumo fundado na dívida com a tomada de empréstimos do exterior. Mas as razões são mais profundas. Em parte, fala-se no triunfo da liberalização financeira dos últimos 30 anos, quer dizer, nas políticas consistentes em liberar o máximo possível os mercados da regulação estatal.
Como era previsível, as medidas tomadas a esse respeito incrementaram a frequência e a profundidade dos grandes reveses econômicos, e agora estamos diante da ameaça de que se desencadeie a pior crise desde a Grande Depressão.
Também era previsível que os poucos setores que cresceram com os enormes lucros oriundos da liberalização demandariam uma intervenção maciça do Estado, a fim de resgatar as instituições financeiras colapsadas.
Esse tipo de intervencionismo é um traço característico do capitalismo de Estado, ainda que na escala atual seja inesperado. Um estudo dos pesquisadores em economia internacional Winfried Ruigrok e Rob van Tulder descobriu, há 15 anos, que pelo menos 20 companhias entre as 100 primeiras do ranking da revista Fortune, não teriam sobrevivido se não tivessem sido salvas por seus respectivos governos, e que muitas, entre as 80 restantes, obtiveram ganhos substanciais através das demandas aos governos para que "socializassem suas perdas", como hoje o é o resgate financiado pelo contribuinte. Tal intervenção pública "foi a regra, mais que a exceção, nos dois últimos séculos", concluíram.
Numa sociedade democrática efetiva, uma campanha política teria de abordar esses assuntos fundamentais, observar as causas e os remédios para essas causas, e propor os meios através dos quais o povo que sofre as conseqüências pudesse chegar a exercer um controle efetivo.
O mercado financeiro "despreza o risco" e é "sistematicamente ineficiente", como escreveram há uma década os economistas John Eatwell e Lance Taylor, alertando sobre os gravísimos perigos que a liberalização financeira engendrava, e mostrando os custos em que já se tinha incorrido.
Ademais, propuseram soluções que, deve-se dizer, foram ignoradas. Um fator de peso é a incapacidade de calcular os custos por parte daqueles que não participam dessas transações. Essas "externalidades" podem ser enormes. A ignorância do risco sistêmico leva a uma maior aceitação de riscos do que se daria numa economia eficiente, e isso adotando, inclusive, os critérios menos exigentes.
A tarefa das instituições financeiras é arriscar-se e, se são bem gestionadas, assegurar que as potenciais perdas em que elas mesmas podem incorrer serão cobertas. A ênfase há que pôr-se "nelas mesmas". Segundo as regras do capitalismo de estado, levar em conta os custos que para os outros possam ter – as "externalidades" de uma sobrevivência decente – umas práticas que levem, como espectro, a crises financeiras é algo que não lhes diz respeito.
A liberalização financeira teve efeitos para muito além da economia. Há muito que se compreendeu que era uma arma poderosa contra a democracia. O movimento livre dos capitais cria o que alguns chamaram um "parlamento virtual" de investidores e credores que controlam de perto os programas governamentais e "votam" contra eles, se os consideram "irracionais", quer dizer, se são em benefício do povo e não do poder privado concentrado.
Os investidores e credores podem "votar" com a fuga de capitais, com ataques às divisas e com outros instrumentos que a liberalização financeira lhes serve de bandeja. Essa é uma das razões pelas quais o sistema de Bretton Woods, estabelecido pelos EUA e pela Grã Bretanha depois da II Guerra Mundial, instituiu controle de capitais e regulou o mercado de divisas (1).
A Grande Depressão e a Guerra puseram em marcha poderosas correntes democráticas radicais que iam desde a resistência antifascita até as organizações da classe trabalhadora.
Essas pressões tornaram possível que se tolerassem políticas sociais democráticas. O sistema Bretton Woods foi, em parte, concebido para criar um espaço no qual a ação governamental pudesse responder à vontade pública cidadã, quer dizer, para permitir certa democracia.
John Maynard Keynes, o negociador britânico, considerou o direito dos governos a restringir os movimentos de capitais a mais importante conquista estabelecida em Bretton Woods.
Num contraste espetacular, na fase neoliberal que se seguiu ao desmonte do sistema de Bretton Woods nos anos 70, o Tesouro norte-americano passa a considerar a livre circulalação de capitais um "direito fundamental". À diferença, nem precisa dizer, dos pretensos "direitos" garantidos pela Declaração Universal dos Direitos Humanos: direito à saúde, à educação, ao emprego decente, à segurança e outros direitos que as administrações de Reagan e de Bush chamaram com desprezo de "cartas a Papai Noel", "ridículos" ou meros "mitos".
Nos primeiros anos, as pessoas não tiveram maiores problemas com o assunto. As razões disso Barry Eichengreen estudou em sua história, impecavelmente acadêmica, do sistema monetário. Nessa obra se explica que, no século XIX, os governos "ainda não estavam politizados pelo sufrágio universal masculino, o sindicalismo e os partidos trabalhistas parlamentares. Por conseguinte, os graves custos impostos pelo parlamento virtual podiam se transferidos para toda a população.
Porém, com a radicalização da população e da opinião pública que se seguiu à Grande Depressão e à guerra antifascista, o poder e a riqueza privados privaram-se desse luxo.
Daí que no sistema Bretton Woods "os limites da democracia como fonte de resistência às pressões do mercado foram substituídos por limites à circulação de capitais."
O corolário óbvio é que no rastro do desmantelamento do sistema do pós-guerra a democracia tenha sido restringida. Fez-se necessário controlar e marginalizar de algum modo a população e a opinião pública, processos particularmente evidentes nas sociedades mais avançadas no mundo dos negócios, como os EUA. A gestão das extravagâncias eleitorais por parte da indústria de relações públicas constitui uma boa ilustração.
"A política é a sombra da grande empresa sobre a sociedade", concluiu em seus dias o maior filósofo norte-americano do século XX, John Dewey, e assim seguirá sendo, enquanto o poder consista "nos negócios para benefício privado através do controle da banca, do território e da indústria que agora se vê reforçada pelo controle da imprensa, dos jornalistas e sobretudo dos meios de publicidade e propaganda."
Os EUA tem efetivamente um sistema de um só partido, o partido dos negócios, com duas facções, republicanos e democratas. Há diferenças entre eles. Em seu estudo sobre A Democracia Desigual: a economia política da nova Era da Cobiça, Larry Bartels mostra que durante as últimas seis décadas "a renda real das famílias de classe média cresceu duas vezes mais rápido sob administração democrata que republicana, enquanto a renda real das famílias pobres da classe trabalhadora cresceu seis vezes mais rápido sob os democratas que sob os republicanos".
Essas diferenças também podem ser vistas nestas eleições. Os eleitores deveriam tê-las em conta, mas sem ter ilusões sobre os partidos políticos, e reconhecendo o padrão regular que, nos últimos séculos, vem revelando que a legislação progressista e de bem-estar social sempre foram conquistas das lutas populares, nunca presentes dos de cima.
Essas lutas seguem ciclos de êxitos e de retrocessos. Hão de ser travadas a cada dia, não só a cada quatro anos, e sempre visando à criação de uma sociedade genuinamente democrática, capaz de resposta em toda parte, nas urnas não menos do que no posto de trabalho.
Fonte: www.novae.inf.br
NOAM CHOMSKY, Carta Clacso, Buenos Aires, mar./2009
http://www.clacso.org.ar/clacso/debates/debates-2009/a-cara-antidemocratica-do-capitalismo
A liberalização financeira teve efeitos para muito além da economia. Há muito que se compreendeu que era uma arma poderosa contra a democracia. O movimento livre dos capitais cria o que alguns chamaram um "parlamento virtual" de investidores e credores que controlam de perto os programas governamentais e "votam" contra eles, se os consideram "irracionais", quer dizer, se são em benefício do povo e não do poder privado concentrado. (NC, Sin Permiso)
O desenvolvimento de uma campanha presidencial norte-americana simultaneamente ao desenlace da crise dos mercados financeiros oferece uma dessas ocasiões em que os sistemas político e econômico revelam vigorosamente sua natureza.
Pode ser que a paixão pela campanha não seja uma coisa universalmente compartilhada, mas quase todo mundo pode perceber a ansiedade desencadeada pela execução hipotecária de um milhão de residências, assim como a preocupação com os riscos que correm os postos de trabalho, as poupanças e os serviços de saúde.
As propostas iniciais de Bush para lidar com a crise fediam a tal ponto a totalitarismo que não tardaram a ser modificadas. Sob intensa pressão dos lobbies, foram reformuladas "para o claro benefício das maiores instituições do sistema...uma forma de desfazer-se dos ativos sem necessidade de fracassar ou quase", segundo descreveu James Rickards, que negociou o resgate federal por parte do fundo de cobertura de derivativos financeiros Long Term Capital Management em 1998, lembrando-nos de que estamos caminhando em terreno conhecido.
As origens imediatas do desmoronamento atual estão no colapso da bolha imobiliária supervisionada pelo presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, que foi quem sustentou a coitada da economia dos anos Bush, misturando o gasto de consumo fundado na dívida com a tomada de empréstimos do exterior. Mas as razões são mais profundas. Em parte, fala-se no triunfo da liberalização financeira dos últimos 30 anos, quer dizer, nas políticas consistentes em liberar o máximo possível os mercados da regulação estatal.
Como era previsível, as medidas tomadas a esse respeito incrementaram a frequência e a profundidade dos grandes reveses econômicos, e agora estamos diante da ameaça de que se desencadeie a pior crise desde a Grande Depressão.
Também era previsível que os poucos setores que cresceram com os enormes lucros oriundos da liberalização demandariam uma intervenção maciça do Estado, a fim de resgatar as instituições financeiras colapsadas.
Esse tipo de intervencionismo é um traço característico do capitalismo de Estado, ainda que na escala atual seja inesperado. Um estudo dos pesquisadores em economia internacional Winfried Ruigrok e Rob van Tulder descobriu, há 15 anos, que pelo menos 20 companhias entre as 100 primeiras do ranking da revista Fortune, não teriam sobrevivido se não tivessem sido salvas por seus respectivos governos, e que muitas, entre as 80 restantes, obtiveram ganhos substanciais através das demandas aos governos para que "socializassem suas perdas", como hoje o é o resgate financiado pelo contribuinte. Tal intervenção pública "foi a regra, mais que a exceção, nos dois últimos séculos", concluíram.
Numa sociedade democrática efetiva, uma campanha política teria de abordar esses assuntos fundamentais, observar as causas e os remédios para essas causas, e propor os meios através dos quais o povo que sofre as conseqüências pudesse chegar a exercer um controle efetivo.
O mercado financeiro "despreza o risco" e é "sistematicamente ineficiente", como escreveram há uma década os economistas John Eatwell e Lance Taylor, alertando sobre os gravísimos perigos que a liberalização financeira engendrava, e mostrando os custos em que já se tinha incorrido.
Ademais, propuseram soluções que, deve-se dizer, foram ignoradas. Um fator de peso é a incapacidade de calcular os custos por parte daqueles que não participam dessas transações. Essas "externalidades" podem ser enormes. A ignorância do risco sistêmico leva a uma maior aceitação de riscos do que se daria numa economia eficiente, e isso adotando, inclusive, os critérios menos exigentes.
A tarefa das instituições financeiras é arriscar-se e, se são bem gestionadas, assegurar que as potenciais perdas em que elas mesmas podem incorrer serão cobertas. A ênfase há que pôr-se "nelas mesmas". Segundo as regras do capitalismo de estado, levar em conta os custos que para os outros possam ter – as "externalidades" de uma sobrevivência decente – umas práticas que levem, como espectro, a crises financeiras é algo que não lhes diz respeito.
A liberalização financeira teve efeitos para muito além da economia. Há muito que se compreendeu que era uma arma poderosa contra a democracia. O movimento livre dos capitais cria o que alguns chamaram um "parlamento virtual" de investidores e credores que controlam de perto os programas governamentais e "votam" contra eles, se os consideram "irracionais", quer dizer, se são em benefício do povo e não do poder privado concentrado.
Os investidores e credores podem "votar" com a fuga de capitais, com ataques às divisas e com outros instrumentos que a liberalização financeira lhes serve de bandeja. Essa é uma das razões pelas quais o sistema de Bretton Woods, estabelecido pelos EUA e pela Grã Bretanha depois da II Guerra Mundial, instituiu controle de capitais e regulou o mercado de divisas (1).
A Grande Depressão e a Guerra puseram em marcha poderosas correntes democráticas radicais que iam desde a resistência antifascita até as organizações da classe trabalhadora.
Essas pressões tornaram possível que se tolerassem políticas sociais democráticas. O sistema Bretton Woods foi, em parte, concebido para criar um espaço no qual a ação governamental pudesse responder à vontade pública cidadã, quer dizer, para permitir certa democracia.
John Maynard Keynes, o negociador britânico, considerou o direito dos governos a restringir os movimentos de capitais a mais importante conquista estabelecida em Bretton Woods.
Num contraste espetacular, na fase neoliberal que se seguiu ao desmonte do sistema de Bretton Woods nos anos 70, o Tesouro norte-americano passa a considerar a livre circulalação de capitais um "direito fundamental". À diferença, nem precisa dizer, dos pretensos "direitos" garantidos pela Declaração Universal dos Direitos Humanos: direito à saúde, à educação, ao emprego decente, à segurança e outros direitos que as administrações de Reagan e de Bush chamaram com desprezo de "cartas a Papai Noel", "ridículos" ou meros "mitos".
Nos primeiros anos, as pessoas não tiveram maiores problemas com o assunto. As razões disso Barry Eichengreen estudou em sua história, impecavelmente acadêmica, do sistema monetário. Nessa obra se explica que, no século XIX, os governos "ainda não estavam politizados pelo sufrágio universal masculino, o sindicalismo e os partidos trabalhistas parlamentares. Por conseguinte, os graves custos impostos pelo parlamento virtual podiam se transferidos para toda a população.
Porém, com a radicalização da população e da opinião pública que se seguiu à Grande Depressão e à guerra antifascista, o poder e a riqueza privados privaram-se desse luxo.
Daí que no sistema Bretton Woods "os limites da democracia como fonte de resistência às pressões do mercado foram substituídos por limites à circulação de capitais."
O corolário óbvio é que no rastro do desmantelamento do sistema do pós-guerra a democracia tenha sido restringida. Fez-se necessário controlar e marginalizar de algum modo a população e a opinião pública, processos particularmente evidentes nas sociedades mais avançadas no mundo dos negócios, como os EUA. A gestão das extravagâncias eleitorais por parte da indústria de relações públicas constitui uma boa ilustração.
"A política é a sombra da grande empresa sobre a sociedade", concluiu em seus dias o maior filósofo norte-americano do século XX, John Dewey, e assim seguirá sendo, enquanto o poder consista "nos negócios para benefício privado através do controle da banca, do território e da indústria que agora se vê reforçada pelo controle da imprensa, dos jornalistas e sobretudo dos meios de publicidade e propaganda."
Os EUA tem efetivamente um sistema de um só partido, o partido dos negócios, com duas facções, republicanos e democratas. Há diferenças entre eles. Em seu estudo sobre A Democracia Desigual: a economia política da nova Era da Cobiça, Larry Bartels mostra que durante as últimas seis décadas "a renda real das famílias de classe média cresceu duas vezes mais rápido sob administração democrata que republicana, enquanto a renda real das famílias pobres da classe trabalhadora cresceu seis vezes mais rápido sob os democratas que sob os republicanos".
Essas diferenças também podem ser vistas nestas eleições. Os eleitores deveriam tê-las em conta, mas sem ter ilusões sobre os partidos políticos, e reconhecendo o padrão regular que, nos últimos séculos, vem revelando que a legislação progressista e de bem-estar social sempre foram conquistas das lutas populares, nunca presentes dos de cima.
Essas lutas seguem ciclos de êxitos e de retrocessos. Hão de ser travadas a cada dia, não só a cada quatro anos, e sempre visando à criação de uma sociedade genuinamente democrática, capaz de resposta em toda parte, nas urnas não menos do que no posto de trabalho.
Fonte: www.novae.inf.br
"Com liberdade total para o mercado, quem atende aos pobres?" Eric Hobsbawm
"Com liberdade total para o mercado, quem atende aos pobres?"
Em entrevista publicada no jornal Página 12, o historiador britânico Eric Hobsbawm fala da crise atual e de suas possíveis implicações políticas. Para ele, o mundo está entrando em um período de depressão e os grandes riscos, diante da fragilidade da esquerda mundial, são o crescimento da xenofobia e da extrema-direita. Hobsbawm destaca o que está acontecendo na América Latina e elogia o presidente brasileiro. "É o verdadeiro introdutor da democracia no Brasil. No Brasil há muitos pobres e ninguém jamais fez tantas coisas concretas por eles".
Martin Granovsky - Página12
Em junho ele completa 92 anos. Lúcido e ativo, o historiador que escreveu "Rebeldes Primitivos", "A Era da Revolução" e a "História do Século XX", entre outros livros, aceitou falar de sua própria vida, da crise de 30, do fascismo e do antifascismo e da crise atual. Segundo ele, uma crise da economia do fundamentalismo de mercado é o que a queda do Muro de Berlim foi para a lógica soviética do socialismo.
Hobsbawm aparece na porta da embaixada da Alemanha, em Londres. São pouco mais de três da tarde na bela Belgrave Square e se enxergam as bandeiras das embaixadas por trás das copas das árvores. De óculos, chapéu na cabeça e um casaco muito pesado, cumprimenta. Tem mãos grandes e ossudas, mas não parecem as mãos de um velho. Nenhuma deformação de artrite as atacou. Rapidamente uma pequena prova demonstra que as pernas de Hobsbawm também estão em boa forma. Com agilidade desce três degraus que levam do corrimão a calçada. Parece enxergar bem. Tem uma bengala na mão direita. Não se apóia nela, mas talvez a use como segurança, em caso de tropeçar, ou como um sensor de alerta rápido que detecta degraus, poças e, de imediato, o meio-fio da calçada. Hobsbawm é alto e magro. Uns oitenta e bicos. Não pede ajuda. O motorista do Foreign Office lhe abre a porta esquerda do jaguar preto. Entra no carro com facilidade. O carro é grande, por sorte, e cabe, mas a viagem é curta.
- Acabo de me encontrar com um historiador alemão, por isso estou na embaixada, e devo voltar – avisa. Ele chegou de visita a Londres e quis conversar com alguns de nós. Sei que vamos a Canning House. Está bem. Poucas voltas, não?
O carro dá meia volta na Belgrave Square e pára na frente de outro palacete branco de três andares, com uma varanda rodeada de colunas e a porta de madeira pesada. Por algum motivo mágico o motorista de cabelos brancos com uma mecha sobre o rosto, traje azul e sorridente como um ajudante do inspetor Morse de Oxford, já abre a porta a Hobsbawm. Entre essas construções tão parecidas, a elegância do Jaguar o assemelha a uma carruagem recém polida. O motorista sorri quando Hobsbawm desce. O professor lhe devolve a simpatia enquanto sobe com facilidade num hall obscuro. Já entrou em Canning House e à direita vê uma enorme imagem de José de San Martin. À esquerda do corredor, uma grande sala. O chá está servido. Quer dizer, o chá, os pães e uma torta. Outro quadro do mesmo tamanho que o de San Martin. É Simon Bolívar. E também é Bolívar o cavalheiro do busto sobre o aparador.
Quanto chá tomaram Bolívar e San Martin antes de saírem de Londres para a América do Sul, em princípios do século XIX, para cumprir seus planos de independência?
Hobsbawm pega a primeira taça e quer ser quem faz a primeira pergunta.
- Como está a Argentina? - interroga mas não muito, porque não espera e comenta – No ano passado Cristina esteve para vir a Londres para uma reunião de presidentes progressistas e pediu para me ver. Eu disse sim, mas ela não veio. Não foi sua culpa. Estava no meio do confronto com a Sociedade Rural.
Hobsbawm fala um inglês sem afetação nem os trejeitos de alguns acadêmicos do Reino Unido. Mas acaba de pronunciar “Sociedade Rural” em castellhano.
- O que aconteceu com esse conflito?
Durante a explicação, o professor inclina a cabeça, mais curioso que antes, enquanto com a mão direita seu garfo tenta cortar a torta de maçã. É uma tarefa difícil. Então se desconcentra da torta e fixa o olhar esperando, agora sim, alguma pergunta.
- O mundo está complicado – afirma ainda mantendo a iniciativa. Não quero cair em slogans, mas é indubitável que o Consenso de Washington morreu. A desregulação selvagem já não é somente má: é impossível. Há que se reorganizar o sistema financeiro internacional. Minha esperança é que os líderes do mundo se dêem conta de que não se pode renegociar a situação para voltar atrás, senão que há que se redesenhar tudo em direção ao futuro.
A Argentina experimentou várias crises, a última forte em 2001. Em 2005 o presidente Néstor Kirchner, de acordo com o governo brasileiro, que também o fez, pagou ao FMI e desvinculou a Argentina do organismo para que o país não continuasse submetido a suas condicionalidades.
- É que a esta altura se necessita de um FMI absolutamente distinto, com outros princípios que não dependam apenas dos países mais desenvolvidos e em que uma ou duas pessoas tomam as decisões. É muito importante o que o Brasil e a Argentina estão propondo, para mudar o sistema atual. Como estão as relações de vocês?
- Muito bem
- Isso é muito importante. Mantenham-nas assim. As boas relações entre governos como os de vocês são muito importantes em meio a uma crise que também implica riscos políticos. Para os padrões estadunidenses, o país está girando à esquerda e não à extrema direita. Isso também é bom. A Grande Depressão levou politicamente o mundo para a extrema direita em quase todo o planeta, com exceção dos países escandinavos e dos Estados Unidos de Roosevelt. Inclusive o Reino Unido chegou a ter membros do Parlamento que eram de extrema direita [e começa a entrevista propriamente].
- E que alternativa aparece?
- Não sei. Sabe qual é o drama? O giro à direita teve onde se apoiar: nos conservadores. O giro à esquerda também teve em quem descansar: nos trabalhistas.
- Os trabalhistas governam o Reino Unido.
- Sim, mas eu gostaria de considerar um quadro mais geral. Já não existe esquerda tal como era.
- Isso lhe é estranho?
- Faço apenas o registro.
- A quê se refere quando diz “a esquerda tal como era”?
- Às distintas variantes da esquerda clássica. Aos comunistas, naturalmente. E aos socialdemocratas. Mas, sabe o que acontece? Todas as variantes da esquerda precisam do Estado. E durante décadas de giro à direita conservadora, o controle do Estado se tornou impossível.
- Por que?
- Muito simples. Como você controla o estado em condições de globalização? Convém recordar que, em princípios dos anos 80 não só triunfaram Ronald Reagan e Margareth Thatcher. Na França, François Miterrand não obteve uma vitória.
- Havia vencido para a presidência dem 1974 e repetiu a vitória em 1981.
- Sim. Mas quando tentou uma unidade das esquerdas para nacionalizar um setor maior da economia, não teve poder suficiente para fazê-lo. Fracassou completamente. A esquerda e os partidos socialdemocratas se retiraram de cena, derrotados, convencidos de que nada se podia fazer. E, então, não só na França como em todo mundo ficou claro que o único modelo que se podia impor com poder real era o capitalismo absolutamente livre.
- Livre, sim. Por que diz “absolutamente”?
- Porque com liberdade absoluta para o mercado, quem atende aos pobres? Essa política, ou a política da não-política, é a que se desenvolveu com Margareth Thatcher e Ronald Reagan. E funcionou – dentro de sua lógica, claro, que não compartilho – até a crise que começou em 2008. Frente à situação anterior a esquerda não tinha alternativa. E frente a esta? Prestemos atenção, por exemplo, à esquerda mais clássica da Europa. É muito débil na Europa. Ou está fragmentada. Ou desapareceu. A Refundação Comunista na Itália é débil e os outros ramos do ex Partido Comunista Italiano estão muito mal. A Esquerda Unida na Espanha também está descendo ladeira abaixo. Algo permaneceu na Alemanha. Algo na França, como Partido Comunista. Nem essas forças, nem menos ainda a extrema esquerda, como os trotskistas, e nem sequer uma socialdemocracia como a que descrevi antes alcançam uma resposta a esta crise a seus perigos, contudo. A mesma debilidade da esquerda aumenta os riscos.
- Que riscos?
- Em períodos de grande descontentamento como o que começamos a viver, o grande perigo é a xenofobia, que alimentará e será por sua vez alimentada pela extrema direita. E quem essa extrema direita buscará? Buscará atrair os “estúpidos” cidadãos que se preocupam com seu trabalho e têm medo de perdê-lo. E digo estúpidos ironicamente, quero deixar claro. Porque aí reside outro fracasso evidente do fundamentalismo de mercado. Deu liberdade para todos, e a verdadeira liberdade de trabalho? A de mudá-lo e melhorar em todos os aspectos? Essa liberdade não foi respeitada porque, para o fundamentalismo de mercado isso tinha se tornado intolerável. Também teriam sido politicamente intoleráveis a liberdade absoluta e a desregulação absoluta em matéria laboral, ao menos na Europa. Eu temo uma era de depressão.
- Você ainda tem dúvidas de que entraremos em depressão?
- Se você quiser posso falar tecnicamente, como os economistas, e quantificar trimestres. Mas isso não é necessário. Que outra palavra pode se usar para denominar um tempo em que muito velozmente milhões de pessoas perdem seu emprego? De qualquer maneira, até o momento no vejo um cenário de uma extrema direita ganhando maioria em eleições, como ocorreu em 1933, quando a Alemanha elegeu Adolf Hitler. É paradoxal, mas com um mundo muito globalizado um fator impedirá a imigração, que por sua vez aparece como a desculpa para a xenofobia e para o giro à extrema direita. E esse fator é que as pessoas emigrarão menos – falo em termos de emigração em massa – ao verem que nos países desenvolvidos a crise é tão grave. Voltando à xenofobia, o problema é que, ainda que a extrema direita não ganhe, poderia ser muito importante na fixação da agenda pública de temas e terminaria por imprimir uma face muito feia na política.
- Deixemos de lado a economia, por um momento. Pensando em política, o que diminuiria o risco da xenofobia?
- Me parece bem, vamos à prática. O perigo diminuiria com governos que gozem de confiança política suficiente por parte do povo em virtude de sua capacidade de restaurar o bem-estar econômico. As pessoas devem ver os políticos como gente capaz de garantir a democracia, os direitos individuais e ao mesmo tempo coordenar planos eficazes para se sair da crise. Agora que falamos deste tema, sabe que vejo os países da América Latina surpreendentemente imunes à xenofobia?
- Por que?
- Eu lhe pergunto se é assim. É assim?
- É possível. Não diria que são imunes, se pensamos, por exemplo, no tratamento racista de um setor da Bolívia frente a Evo Morales, mas ao menos nos últimos 25 anos de democracia, para tomar a idade da democracia argentina, a xenofobia e o racismo nunca foram massivos nem nutriram partidos de extrema direita, que são muito pequenos. Nem sequer com a crise de 2001, que culminou o processo de destruição de milhões de empregos, apesar de que a imigração boliviana já era muito importante em número. Agora, não falamos dos cantos das torcidas de futebol, não é?
- Não, eu penso em termos massivos.
- Então as coisas parecem ser como você pensa, professor. E, como em outros lugares do mundo, o pensamento da extrema direita aparece, por exemplo, com a crispação sobre a segurança e a insegurança das ruas.
- Sim, a América Latina é interessante. Tenho essa intuição. Pense num país maior, o Brasil. Lula manteve algumas idéias de estabilidade econômica de Fernando Henrique Cardoso, mas ampliou enormemente os serviços sociais e a distribuição. Alguns dizem que não é suficiente...
- E você, o que diz?
- Que não é suficiente. Mas que Lula fez, fez. E é muito significativo. Lula é o verdadeiro introdutor da democracia no Brasil. E ninguém o havia feito nunca na história desse país. Por isso hoje tem 70% de popularidade, apesar dos problemas prévios às últimas eleições. Porque no Brasil há muitos pobres e ninguém jamais fez tantas coisas concretas por eles, desenvolvendo ao mesmo tempo a indústria e a exportação de produtos manufaturados. A desigualdade ainda assim segue sendo horrorosa. Mas ainda faltam muitos anos para mudar as cosias. Muitos.
- E você pensa que serão de anos de depressão mundial
- Sim. Lamento dizê-lo, mas apostaria que haverá depressão e que durará alguns anos. Estamos entrando em depressão. Sabem como se pode dar conta disso? Falando com gente de negócios. Bom, eles estão mais deprimidos que os economistas e os políticos. E, por sua vez, esta depressão é uma grande mudança para a economia capitalista global.
- Por que está tão seguro desse diagnóstico?
- Porque não há volta atrás para o mercado absoluto que regeu os últimos 40 anos, desde a década de 70. Já não é mais uma questão de ciclos. O sistema deve ser reestruturado.
- Posso lhe perguntar de novo por que está tão seguro?
- Porque esse modelo não é apenas injusto: agora é impossível. As noções básicas segundo as quais as políticas públicas deviam ser abandonadas, agora estão sendo deixadas de lado. Pense no que fazem e às vezes dizem, dirigentes importantes de países desenvolvidos. Estão querendo reestruturar as economias para sair da crise. Não estou elogiando. Estou descrevendo um fenômeno. E esse fenômeno tem um elemento central: ninguém mais se anima a pensar que o Estado pode não ser necessário ao desenvolvimento econômico. Ninguém mais diz que bastará deixar que o mercado flua, com sua liberdade total. Não vê que o sistema financeiro internacional já nem funciona mais? Num sentido, essa crise é pior do que a de 1929-1933, porque é absolutamente global. Nem os bancos funcionam.
- Onde você vivia nesse momento, no começo dos anos 30?
- Nada menos que em Viena e Berlim. Era um menino. Que momento horroroso. Falemos de coisas melhores, como Franklin Delano Roosevelt.
- Numa entrevista para a BBC no começo da crise você o resgatou.
- Sim, e resgato os motivos políticos de Roosevelt. Na política ele aplicou o princípio do “Nunca mais”. Com tantos pobres, com tantos famintos nos Estados Unidos, nunca mais o mercado como fator exclusivo de obtenção de recursos. Por isso decidiu realizar sua política do pleno emprego. E desse modo não somente atenuou os efeitos sociais da crise como seus eventuais efeitos políticos de fascistização com base no medo massivo. O sistema de pleno emprego não modificou a raiz da sociedade, mas funcionou durante décadas. Funcionou razoavelmente bem nos Estados Unidos, funcionou na França, produziu a inclusão social de muita gente, baseou-se no bem-estar combinado com uma economia mista que teve resultados muito razoáveis no mundo do pós-Segunda Guerra. Alguns estados foram mais sistemáticos, como a França, que implantou o capitalismo dirigido, mas em geral as economias eram mistas e o Estado estava presente de um modo ou de outro. Poderemos fazê-lo de novo? Não sei. O que sei é que a solução não estará só na tecnologia e no desenvolvimento econômico. Roosevelt levou em conta o custo humano da situação de crise.
- Quer dizer que para você as sociedades não se suicidam.
(Pensa) – Não deliberadamente. Sim, podem ir cometendo erros que as levam a catástrofes terríveis. Ou ao desastre. Com que razoabilidade, durante esses anos, se podia acreditar que o crescimento com tamanho nível de uma bolha seria ilimitado? Cedo ou tarde isso terminaria e algo deveria ser feito.
- De maneira que não haverá catástrofe.
- Não me interessam as previsões. Observe, se acontece, acontece. Mas se há algo que se possa fazer, façamos-no. Não se pode perdoar alguém por não ter feito nada. Pelo menos uma tentativa. O desastre sobrevirá se permanecermos quietos. A sociedade não pode basear-se numa concepção automática dos processos políticos. Minha geração não ficou quieta nos anos 30 nem nos 40. Na Inglaterra eu cresci, participei ativamente da política, fui acadêmico estudando em Cambridge. E todos éramos muito politizados. A Guerra Civil espanhola nos tocou muito. Por isso fomos firmemente antifascistas.
- Tocou a esquerda de todo o mundo. Também na América Latina
- Claro, foi um tema muito forte para todos. E nós, em Cambridge, víamos que os governos não faziam nada para defender a República. Por isso reagimos contra as velhas gerações e os governos que as representavam. Anos depois entendi a lógica de por quê o governo do Reino Unido, onde nós estávamos, não fez nada contra Francisco Franco. Já tinha a lucidez de se saber um império em decadência e tinha consciência de sua debilidade. A Espanha funcionou como uma distração. E os governos não deviam tê-la tomado assim. Equivocaram-se. O levante contra a República foi um dos feitos mais importantes do século XX. Logo depois, na Segunda Guerra...
- Pouco depois, não? Porque o fim da Guerra Civil Espanhola e a invasão alemã da Tchecoslováquia ocorreu no mesmo ano.
- É verdade. Dizia-lhe que logo depois o liberalismo e o comunismo tiveram uma causa comum. Se deram conta de que, assim não fosse, eram débeis frente ao nazismo. E no caso da América Latina o modelo de Franco influenciou mais que o de Benito Mussolini, com suas idéias conspiratórias da sinarquia, por exemplo. Não tome isso como uma desculpa para Mussolini, por favor. O fascismo europeu em geral é uma ideologia inaceitável, oposta a valores universais.
- Você fala da América Latina...
- Mas não me pergunte da Argentina. Não sei o suficiente de seu país. Todos me perguntam do peronismo. Para mim está claro que não pode ser tomado como um movimento de extrema direita. Foi um movimento popular que organizou os trabalhadores e isso talvez explique sua permanência no tempo. Nem os socialistas nem os comunistas puderam estabelecer uma base forte no movimento sindical. Sei das crises que a Argentina sofreu e sei algo de sua história, do peso da classe média, de sua sociedade avançada culturalmente dentro da América Latina, fenômeno que creio ainda se mantém. Sei da idade de ouro dos anos 20 e sei dos exemplos obscenos de desigualdade comuns a toda a América Latina.
- Você sempre se definiu com um homem de esquerda. Também segue tendo confiança nela?
- Sigo na esquerda, sem dúvida com mais interesse em Marx do que em Lênin. Porque sejamos sinceros, o socialismo soviético fracassou. Foi uma forma extrema de aplicar a lógica do socialismo, assimo como o fundamentalismo de mercado foi uma forma extrema de aplicação da lógica do liberalismo econômico. E também fracassou. A crise global que começou no ano passado é, para a economia de mercado, equivalente ao que foi a queda do Muro de Berlim em 1989. Por isso Marx segue me interessando. Como o capitalismo segue existindo, a análise marxista ainda é uma boa ferramenta para analisá-lo. Ao mesmo tempo, está claro que não só não é possível como não é desejável uma economia socialista sem mercado nem uma economia em geral sem Estado.
- Por que não?
- Se se mira a história e o presente, não há dúvida alguma de que os problemas principais, sobretudo no meio de uma crise profunda, devem e podem ser solucionados pela ação política. O mercado não tem condições de fazê-lo.
(*) Martin Granovsky é analista internacional e presidente da agência de notícias Télam.
Publicado no jornal Página 12, em 29 de março de 2009
Tradução: Katarina Peixoto
FONTE: AGÊNCIA CARTA MAIOR
Em entrevista publicada no jornal Página 12, o historiador britânico Eric Hobsbawm fala da crise atual e de suas possíveis implicações políticas. Para ele, o mundo está entrando em um período de depressão e os grandes riscos, diante da fragilidade da esquerda mundial, são o crescimento da xenofobia e da extrema-direita. Hobsbawm destaca o que está acontecendo na América Latina e elogia o presidente brasileiro. "É o verdadeiro introdutor da democracia no Brasil. No Brasil há muitos pobres e ninguém jamais fez tantas coisas concretas por eles".
Martin Granovsky - Página12
Em junho ele completa 92 anos. Lúcido e ativo, o historiador que escreveu "Rebeldes Primitivos", "A Era da Revolução" e a "História do Século XX", entre outros livros, aceitou falar de sua própria vida, da crise de 30, do fascismo e do antifascismo e da crise atual. Segundo ele, uma crise da economia do fundamentalismo de mercado é o que a queda do Muro de Berlim foi para a lógica soviética do socialismo.
Hobsbawm aparece na porta da embaixada da Alemanha, em Londres. São pouco mais de três da tarde na bela Belgrave Square e se enxergam as bandeiras das embaixadas por trás das copas das árvores. De óculos, chapéu na cabeça e um casaco muito pesado, cumprimenta. Tem mãos grandes e ossudas, mas não parecem as mãos de um velho. Nenhuma deformação de artrite as atacou. Rapidamente uma pequena prova demonstra que as pernas de Hobsbawm também estão em boa forma. Com agilidade desce três degraus que levam do corrimão a calçada. Parece enxergar bem. Tem uma bengala na mão direita. Não se apóia nela, mas talvez a use como segurança, em caso de tropeçar, ou como um sensor de alerta rápido que detecta degraus, poças e, de imediato, o meio-fio da calçada. Hobsbawm é alto e magro. Uns oitenta e bicos. Não pede ajuda. O motorista do Foreign Office lhe abre a porta esquerda do jaguar preto. Entra no carro com facilidade. O carro é grande, por sorte, e cabe, mas a viagem é curta.
- Acabo de me encontrar com um historiador alemão, por isso estou na embaixada, e devo voltar – avisa. Ele chegou de visita a Londres e quis conversar com alguns de nós. Sei que vamos a Canning House. Está bem. Poucas voltas, não?
O carro dá meia volta na Belgrave Square e pára na frente de outro palacete branco de três andares, com uma varanda rodeada de colunas e a porta de madeira pesada. Por algum motivo mágico o motorista de cabelos brancos com uma mecha sobre o rosto, traje azul e sorridente como um ajudante do inspetor Morse de Oxford, já abre a porta a Hobsbawm. Entre essas construções tão parecidas, a elegância do Jaguar o assemelha a uma carruagem recém polida. O motorista sorri quando Hobsbawm desce. O professor lhe devolve a simpatia enquanto sobe com facilidade num hall obscuro. Já entrou em Canning House e à direita vê uma enorme imagem de José de San Martin. À esquerda do corredor, uma grande sala. O chá está servido. Quer dizer, o chá, os pães e uma torta. Outro quadro do mesmo tamanho que o de San Martin. É Simon Bolívar. E também é Bolívar o cavalheiro do busto sobre o aparador.
Quanto chá tomaram Bolívar e San Martin antes de saírem de Londres para a América do Sul, em princípios do século XIX, para cumprir seus planos de independência?
Hobsbawm pega a primeira taça e quer ser quem faz a primeira pergunta.
- Como está a Argentina? - interroga mas não muito, porque não espera e comenta – No ano passado Cristina esteve para vir a Londres para uma reunião de presidentes progressistas e pediu para me ver. Eu disse sim, mas ela não veio. Não foi sua culpa. Estava no meio do confronto com a Sociedade Rural.
Hobsbawm fala um inglês sem afetação nem os trejeitos de alguns acadêmicos do Reino Unido. Mas acaba de pronunciar “Sociedade Rural” em castellhano.
- O que aconteceu com esse conflito?
Durante a explicação, o professor inclina a cabeça, mais curioso que antes, enquanto com a mão direita seu garfo tenta cortar a torta de maçã. É uma tarefa difícil. Então se desconcentra da torta e fixa o olhar esperando, agora sim, alguma pergunta.
- O mundo está complicado – afirma ainda mantendo a iniciativa. Não quero cair em slogans, mas é indubitável que o Consenso de Washington morreu. A desregulação selvagem já não é somente má: é impossível. Há que se reorganizar o sistema financeiro internacional. Minha esperança é que os líderes do mundo se dêem conta de que não se pode renegociar a situação para voltar atrás, senão que há que se redesenhar tudo em direção ao futuro.
A Argentina experimentou várias crises, a última forte em 2001. Em 2005 o presidente Néstor Kirchner, de acordo com o governo brasileiro, que também o fez, pagou ao FMI e desvinculou a Argentina do organismo para que o país não continuasse submetido a suas condicionalidades.
- É que a esta altura se necessita de um FMI absolutamente distinto, com outros princípios que não dependam apenas dos países mais desenvolvidos e em que uma ou duas pessoas tomam as decisões. É muito importante o que o Brasil e a Argentina estão propondo, para mudar o sistema atual. Como estão as relações de vocês?
- Muito bem
- Isso é muito importante. Mantenham-nas assim. As boas relações entre governos como os de vocês são muito importantes em meio a uma crise que também implica riscos políticos. Para os padrões estadunidenses, o país está girando à esquerda e não à extrema direita. Isso também é bom. A Grande Depressão levou politicamente o mundo para a extrema direita em quase todo o planeta, com exceção dos países escandinavos e dos Estados Unidos de Roosevelt. Inclusive o Reino Unido chegou a ter membros do Parlamento que eram de extrema direita [e começa a entrevista propriamente].
- E que alternativa aparece?
- Não sei. Sabe qual é o drama? O giro à direita teve onde se apoiar: nos conservadores. O giro à esquerda também teve em quem descansar: nos trabalhistas.
- Os trabalhistas governam o Reino Unido.
- Sim, mas eu gostaria de considerar um quadro mais geral. Já não existe esquerda tal como era.
- Isso lhe é estranho?
- Faço apenas o registro.
- A quê se refere quando diz “a esquerda tal como era”?
- Às distintas variantes da esquerda clássica. Aos comunistas, naturalmente. E aos socialdemocratas. Mas, sabe o que acontece? Todas as variantes da esquerda precisam do Estado. E durante décadas de giro à direita conservadora, o controle do Estado se tornou impossível.
- Por que?
- Muito simples. Como você controla o estado em condições de globalização? Convém recordar que, em princípios dos anos 80 não só triunfaram Ronald Reagan e Margareth Thatcher. Na França, François Miterrand não obteve uma vitória.
- Havia vencido para a presidência dem 1974 e repetiu a vitória em 1981.
- Sim. Mas quando tentou uma unidade das esquerdas para nacionalizar um setor maior da economia, não teve poder suficiente para fazê-lo. Fracassou completamente. A esquerda e os partidos socialdemocratas se retiraram de cena, derrotados, convencidos de que nada se podia fazer. E, então, não só na França como em todo mundo ficou claro que o único modelo que se podia impor com poder real era o capitalismo absolutamente livre.
- Livre, sim. Por que diz “absolutamente”?
- Porque com liberdade absoluta para o mercado, quem atende aos pobres? Essa política, ou a política da não-política, é a que se desenvolveu com Margareth Thatcher e Ronald Reagan. E funcionou – dentro de sua lógica, claro, que não compartilho – até a crise que começou em 2008. Frente à situação anterior a esquerda não tinha alternativa. E frente a esta? Prestemos atenção, por exemplo, à esquerda mais clássica da Europa. É muito débil na Europa. Ou está fragmentada. Ou desapareceu. A Refundação Comunista na Itália é débil e os outros ramos do ex Partido Comunista Italiano estão muito mal. A Esquerda Unida na Espanha também está descendo ladeira abaixo. Algo permaneceu na Alemanha. Algo na França, como Partido Comunista. Nem essas forças, nem menos ainda a extrema esquerda, como os trotskistas, e nem sequer uma socialdemocracia como a que descrevi antes alcançam uma resposta a esta crise a seus perigos, contudo. A mesma debilidade da esquerda aumenta os riscos.
- Que riscos?
- Em períodos de grande descontentamento como o que começamos a viver, o grande perigo é a xenofobia, que alimentará e será por sua vez alimentada pela extrema direita. E quem essa extrema direita buscará? Buscará atrair os “estúpidos” cidadãos que se preocupam com seu trabalho e têm medo de perdê-lo. E digo estúpidos ironicamente, quero deixar claro. Porque aí reside outro fracasso evidente do fundamentalismo de mercado. Deu liberdade para todos, e a verdadeira liberdade de trabalho? A de mudá-lo e melhorar em todos os aspectos? Essa liberdade não foi respeitada porque, para o fundamentalismo de mercado isso tinha se tornado intolerável. Também teriam sido politicamente intoleráveis a liberdade absoluta e a desregulação absoluta em matéria laboral, ao menos na Europa. Eu temo uma era de depressão.
- Você ainda tem dúvidas de que entraremos em depressão?
- Se você quiser posso falar tecnicamente, como os economistas, e quantificar trimestres. Mas isso não é necessário. Que outra palavra pode se usar para denominar um tempo em que muito velozmente milhões de pessoas perdem seu emprego? De qualquer maneira, até o momento no vejo um cenário de uma extrema direita ganhando maioria em eleições, como ocorreu em 1933, quando a Alemanha elegeu Adolf Hitler. É paradoxal, mas com um mundo muito globalizado um fator impedirá a imigração, que por sua vez aparece como a desculpa para a xenofobia e para o giro à extrema direita. E esse fator é que as pessoas emigrarão menos – falo em termos de emigração em massa – ao verem que nos países desenvolvidos a crise é tão grave. Voltando à xenofobia, o problema é que, ainda que a extrema direita não ganhe, poderia ser muito importante na fixação da agenda pública de temas e terminaria por imprimir uma face muito feia na política.
- Deixemos de lado a economia, por um momento. Pensando em política, o que diminuiria o risco da xenofobia?
- Me parece bem, vamos à prática. O perigo diminuiria com governos que gozem de confiança política suficiente por parte do povo em virtude de sua capacidade de restaurar o bem-estar econômico. As pessoas devem ver os políticos como gente capaz de garantir a democracia, os direitos individuais e ao mesmo tempo coordenar planos eficazes para se sair da crise. Agora que falamos deste tema, sabe que vejo os países da América Latina surpreendentemente imunes à xenofobia?
- Por que?
- Eu lhe pergunto se é assim. É assim?
- É possível. Não diria que são imunes, se pensamos, por exemplo, no tratamento racista de um setor da Bolívia frente a Evo Morales, mas ao menos nos últimos 25 anos de democracia, para tomar a idade da democracia argentina, a xenofobia e o racismo nunca foram massivos nem nutriram partidos de extrema direita, que são muito pequenos. Nem sequer com a crise de 2001, que culminou o processo de destruição de milhões de empregos, apesar de que a imigração boliviana já era muito importante em número. Agora, não falamos dos cantos das torcidas de futebol, não é?
- Não, eu penso em termos massivos.
- Então as coisas parecem ser como você pensa, professor. E, como em outros lugares do mundo, o pensamento da extrema direita aparece, por exemplo, com a crispação sobre a segurança e a insegurança das ruas.
- Sim, a América Latina é interessante. Tenho essa intuição. Pense num país maior, o Brasil. Lula manteve algumas idéias de estabilidade econômica de Fernando Henrique Cardoso, mas ampliou enormemente os serviços sociais e a distribuição. Alguns dizem que não é suficiente...
- E você, o que diz?
- Que não é suficiente. Mas que Lula fez, fez. E é muito significativo. Lula é o verdadeiro introdutor da democracia no Brasil. E ninguém o havia feito nunca na história desse país. Por isso hoje tem 70% de popularidade, apesar dos problemas prévios às últimas eleições. Porque no Brasil há muitos pobres e ninguém jamais fez tantas coisas concretas por eles, desenvolvendo ao mesmo tempo a indústria e a exportação de produtos manufaturados. A desigualdade ainda assim segue sendo horrorosa. Mas ainda faltam muitos anos para mudar as cosias. Muitos.
- E você pensa que serão de anos de depressão mundial
- Sim. Lamento dizê-lo, mas apostaria que haverá depressão e que durará alguns anos. Estamos entrando em depressão. Sabem como se pode dar conta disso? Falando com gente de negócios. Bom, eles estão mais deprimidos que os economistas e os políticos. E, por sua vez, esta depressão é uma grande mudança para a economia capitalista global.
- Por que está tão seguro desse diagnóstico?
- Porque não há volta atrás para o mercado absoluto que regeu os últimos 40 anos, desde a década de 70. Já não é mais uma questão de ciclos. O sistema deve ser reestruturado.
- Posso lhe perguntar de novo por que está tão seguro?
- Porque esse modelo não é apenas injusto: agora é impossível. As noções básicas segundo as quais as políticas públicas deviam ser abandonadas, agora estão sendo deixadas de lado. Pense no que fazem e às vezes dizem, dirigentes importantes de países desenvolvidos. Estão querendo reestruturar as economias para sair da crise. Não estou elogiando. Estou descrevendo um fenômeno. E esse fenômeno tem um elemento central: ninguém mais se anima a pensar que o Estado pode não ser necessário ao desenvolvimento econômico. Ninguém mais diz que bastará deixar que o mercado flua, com sua liberdade total. Não vê que o sistema financeiro internacional já nem funciona mais? Num sentido, essa crise é pior do que a de 1929-1933, porque é absolutamente global. Nem os bancos funcionam.
- Onde você vivia nesse momento, no começo dos anos 30?
- Nada menos que em Viena e Berlim. Era um menino. Que momento horroroso. Falemos de coisas melhores, como Franklin Delano Roosevelt.
- Numa entrevista para a BBC no começo da crise você o resgatou.
- Sim, e resgato os motivos políticos de Roosevelt. Na política ele aplicou o princípio do “Nunca mais”. Com tantos pobres, com tantos famintos nos Estados Unidos, nunca mais o mercado como fator exclusivo de obtenção de recursos. Por isso decidiu realizar sua política do pleno emprego. E desse modo não somente atenuou os efeitos sociais da crise como seus eventuais efeitos políticos de fascistização com base no medo massivo. O sistema de pleno emprego não modificou a raiz da sociedade, mas funcionou durante décadas. Funcionou razoavelmente bem nos Estados Unidos, funcionou na França, produziu a inclusão social de muita gente, baseou-se no bem-estar combinado com uma economia mista que teve resultados muito razoáveis no mundo do pós-Segunda Guerra. Alguns estados foram mais sistemáticos, como a França, que implantou o capitalismo dirigido, mas em geral as economias eram mistas e o Estado estava presente de um modo ou de outro. Poderemos fazê-lo de novo? Não sei. O que sei é que a solução não estará só na tecnologia e no desenvolvimento econômico. Roosevelt levou em conta o custo humano da situação de crise.
- Quer dizer que para você as sociedades não se suicidam.
(Pensa) – Não deliberadamente. Sim, podem ir cometendo erros que as levam a catástrofes terríveis. Ou ao desastre. Com que razoabilidade, durante esses anos, se podia acreditar que o crescimento com tamanho nível de uma bolha seria ilimitado? Cedo ou tarde isso terminaria e algo deveria ser feito.
- De maneira que não haverá catástrofe.
- Não me interessam as previsões. Observe, se acontece, acontece. Mas se há algo que se possa fazer, façamos-no. Não se pode perdoar alguém por não ter feito nada. Pelo menos uma tentativa. O desastre sobrevirá se permanecermos quietos. A sociedade não pode basear-se numa concepção automática dos processos políticos. Minha geração não ficou quieta nos anos 30 nem nos 40. Na Inglaterra eu cresci, participei ativamente da política, fui acadêmico estudando em Cambridge. E todos éramos muito politizados. A Guerra Civil espanhola nos tocou muito. Por isso fomos firmemente antifascistas.
- Tocou a esquerda de todo o mundo. Também na América Latina
- Claro, foi um tema muito forte para todos. E nós, em Cambridge, víamos que os governos não faziam nada para defender a República. Por isso reagimos contra as velhas gerações e os governos que as representavam. Anos depois entendi a lógica de por quê o governo do Reino Unido, onde nós estávamos, não fez nada contra Francisco Franco. Já tinha a lucidez de se saber um império em decadência e tinha consciência de sua debilidade. A Espanha funcionou como uma distração. E os governos não deviam tê-la tomado assim. Equivocaram-se. O levante contra a República foi um dos feitos mais importantes do século XX. Logo depois, na Segunda Guerra...
- Pouco depois, não? Porque o fim da Guerra Civil Espanhola e a invasão alemã da Tchecoslováquia ocorreu no mesmo ano.
- É verdade. Dizia-lhe que logo depois o liberalismo e o comunismo tiveram uma causa comum. Se deram conta de que, assim não fosse, eram débeis frente ao nazismo. E no caso da América Latina o modelo de Franco influenciou mais que o de Benito Mussolini, com suas idéias conspiratórias da sinarquia, por exemplo. Não tome isso como uma desculpa para Mussolini, por favor. O fascismo europeu em geral é uma ideologia inaceitável, oposta a valores universais.
- Você fala da América Latina...
- Mas não me pergunte da Argentina. Não sei o suficiente de seu país. Todos me perguntam do peronismo. Para mim está claro que não pode ser tomado como um movimento de extrema direita. Foi um movimento popular que organizou os trabalhadores e isso talvez explique sua permanência no tempo. Nem os socialistas nem os comunistas puderam estabelecer uma base forte no movimento sindical. Sei das crises que a Argentina sofreu e sei algo de sua história, do peso da classe média, de sua sociedade avançada culturalmente dentro da América Latina, fenômeno que creio ainda se mantém. Sei da idade de ouro dos anos 20 e sei dos exemplos obscenos de desigualdade comuns a toda a América Latina.
- Você sempre se definiu com um homem de esquerda. Também segue tendo confiança nela?
- Sigo na esquerda, sem dúvida com mais interesse em Marx do que em Lênin. Porque sejamos sinceros, o socialismo soviético fracassou. Foi uma forma extrema de aplicar a lógica do socialismo, assimo como o fundamentalismo de mercado foi uma forma extrema de aplicação da lógica do liberalismo econômico. E também fracassou. A crise global que começou no ano passado é, para a economia de mercado, equivalente ao que foi a queda do Muro de Berlim em 1989. Por isso Marx segue me interessando. Como o capitalismo segue existindo, a análise marxista ainda é uma boa ferramenta para analisá-lo. Ao mesmo tempo, está claro que não só não é possível como não é desejável uma economia socialista sem mercado nem uma economia em geral sem Estado.
- Por que não?
- Se se mira a história e o presente, não há dúvida alguma de que os problemas principais, sobretudo no meio de uma crise profunda, devem e podem ser solucionados pela ação política. O mercado não tem condições de fazê-lo.
(*) Martin Granovsky é analista internacional e presidente da agência de notícias Télam.
Publicado no jornal Página 12, em 29 de março de 2009
Tradução: Katarina Peixoto
FONTE: AGÊNCIA CARTA MAIOR
sexta-feira, 27 de março de 2009
Denúncias de crimes de guerra atingem imagem do exército de Israel. Por Clarissa Pont
Denúncias de crimes de guerra atingem imagem do exército de Israel
Dois meses depois da ofensiva de Israel na Faixa de Gaza, deflagrada entre 27 de dezembro e 18 de janeiro, surgem novas denúncias sobre crimes que teriam sido cometidos contra civis palestinos – muitas delas provenientes de jornais e entidades israelenses. Nos últimos dias, o grupo de proteção dos direitos civis Human Rights Watch, o diário inglês The Guardian e o jornal israelense Haaretz publicaram matérias e divulgaram documentos sobre o tema.
Clarissa Pont
Data: 26/03/2009
Entre as denúncias publicadas pelo The Guardian figuram ataques diretos contra médicos e hospitais, que foram relatados em um documento divulgado dia 22 de março pela organização Médicos pelos Direitos Humanos. Médicos e motoristas de ambulâncias contaram ter sido alvo de disparos israelenses e denunciaram 16 mortes nestas condições, algo estritamente proibido pelas convenções de Genebra. O jornal britânico disse ter provas de ataques contra civis realizados por aviões não-tripulados. No total, a ofensiva teria matado mais de 1000 civis.
O Guardian publicou três vídeos feitos que dão força à chamada internacional para que se investigue a operação israelense contra o Hamas, em Gaza. Dentre os relatos, está o de três irmãos adolescentes da família Al-Attar, que contam terem sido utilizados como escudo humano em frente a carros de combate israelenses. Os irmãos contam também que soldados israelenses os enviaram a casas de famílias palestinas para também servirem de escudo para as primeiras balas. A utilização de escudos humanos foi declarada ilegal em 2005 pela Suprema Corte israelense após vários incidentes do tipo.
Degradação ética
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, mais da metade dos 27 hospitais e das 44 clínicas de Gaza foram bombardeadas pelos israelenses. Em relatório publicado esta semana a própria organização Médicos pelos Direitos Humanos de Israel denuncia as violações. "Observamos uma forte degradação ética por parte das Forças de Defesa Israelenses no que se refere ao tratamento da população civil de Gaza, que equivale de fato a um total desprezo pelas vidas dos palestinos", critica a organização.
O Canal 10 da televisão israelense divulgou um documentário com imagens de uma reunião militar, no qual o comandante exigiria “agressividade” aos seus homens. “Se estiver alguém suspeito no andar de cima de uma casa temos de bombardear. Se tivermos uma casa suspeita, temos de botar abaixo”, ordenou o oficial.
As imagens alimentam a polêmica que o Haaretz começou ao divulgar testemunhos de soldados que admitem terem matado civis em Gaza e destruído casas, no cumprimento de ordens. Logo em seguida, a Breaking the Silence, organização de antigos militares, contou ao Guardian ter conseguido o testemunho de 15 soldados que confirmaram as denúncias de mortes indiscriminadas e de vandalismo pelas forças israelenses. “Não estamos falando de algumas unidades que foram mais agressivas do que outras, mas denunciando uma política. De tal forma que os soldados nos disseram que tiveram de refrear as ordens que receberam”, disse um dos ativistas do grupo ao Guardian.
"Um tiro, duas mortes"
O jornalista Uri Blau, do Haaretz, relatou outras práticas habituais entre militares, como a fabricação de camisetas. As encomendas que chegaram nos últimos meses às lojas de estampagem retratam uma violência sem precedentes. Uma camiseta encomendada mostra uma mulher grávida na mira e em baixo os dizeres: “Um tiro, duas mortes”.
Por meio de um porta-voz, o exército de Israel disse desconhecer as denúncias. Também afirmou que a credibilidade das informações será verificada e, se for o caso, será aberta uma investigação. Grupos israelenses de defesa dos direitos humanos pediram uma apuração independente sobre os supostos crimes de guerra. Várias organizações afirmaram em comunicado que a decisão do governo de investigar a morte de civis palestinos não garante a isenção necessária para a tarefa.
O relator das Nações Unidas para os Territórios Palestinos, Richard Falk, também declarou que há indícios de que os israelenses cometeram abusos na ofensiva. Segundo Falk, se não é possível distinguir os alvos militares e os civis, “então lançar os ataques é inerentemente ilegal e poderia constituir um crime de guerra da maior magnitude sob a legislação internacional”. Para Falk, outro agravante é o fato de que a fronteira de Gaza ficou fechada, de forma que “os civis não podiam escapar dos locais atacados”.
As bombas de fósforo branco
Em outra matéria publicada dia 25 de março, o Guardian diz que Israel “atirou bombas de fósforo branco sobre áreas lotadas de Gaza repetidas e indiscriminadas vezes em três semanas, matando e ferindo civis e cometendo crime de guerra”. A matéria também cita o relatório de 71 páginas do Human Rights Watch onde o grupo diz que a repetida utilização de bombas de fósforo branco como artilharia em zonas povoadas de Gaza não foi fortuita ou acidental, “mas revelou um padrão, ou uma política de conduta”. O relatório afirma que os militares israelenses estavam conscientes dos perigos do fósforo branco, não quiseram usar alternativas menos perigosas e, em um dos casos, Israel ignorou repetidas advertências das Nações Unidas sobre o assunto.
"Em Gaza, os militares israelenses não utilizaram apenas fósforo branco em áreas abertas como proteção para suas tropas", afirmou Fred Abrahams, investigador do Human Rights Watch. "Dispararam fósforo branco repetidamente ao longo de áreas densamente povoadas, mesmo quando as suas tropas não estavam na área e bombas mais seguras estavam disponíveis. Como resultado, civis sofreram e morreram desnecessariamente".
Após a publicação do relatório, o Human Rights Watch convocou o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, a lançar uma comissão internacional de inquérito para investigar as violações do direito internacional na Guerra de Gaza pelas forças militares israelenses e do Hamas. Israel defende sua conduta em Gaza e diz que seus soldados não atingiram intencionalmente alvos civis. Ainda segundo o Guardian, quando o uso de fósforo branco por Israel surgiu durante a guerra, os militares primeiro negaram que estariam usando a arma, então disseram que só utilizaram as armas em conformidade com o direito internacional. Mais tarde, anunciaram que um inquérito interno seria realizado.
O jornal britânico também afirma ter encontrado, em janeiro, uma cápsula de fósforo branco ainda queimando vários dias após ter sido despejada, fora da casa da família Abu Halima, em Atatra. Uma bomba de fósforo branco atingiu diretamente a casa, matando o pai e quatro dos filhos da família. A esposa ficou gravemente queimada. O mesmo caso foi relatado pelo Human Rights Watch. As novas denúncias estão produzindo um significativo abalo na imagem do exército de Israel, inclusive dentro do próprio país.
FONTE: AGÊNCIA CARTA MAIOR
Dois meses depois da ofensiva de Israel na Faixa de Gaza, deflagrada entre 27 de dezembro e 18 de janeiro, surgem novas denúncias sobre crimes que teriam sido cometidos contra civis palestinos – muitas delas provenientes de jornais e entidades israelenses. Nos últimos dias, o grupo de proteção dos direitos civis Human Rights Watch, o diário inglês The Guardian e o jornal israelense Haaretz publicaram matérias e divulgaram documentos sobre o tema.
Clarissa Pont
Data: 26/03/2009
Entre as denúncias publicadas pelo The Guardian figuram ataques diretos contra médicos e hospitais, que foram relatados em um documento divulgado dia 22 de março pela organização Médicos pelos Direitos Humanos. Médicos e motoristas de ambulâncias contaram ter sido alvo de disparos israelenses e denunciaram 16 mortes nestas condições, algo estritamente proibido pelas convenções de Genebra. O jornal britânico disse ter provas de ataques contra civis realizados por aviões não-tripulados. No total, a ofensiva teria matado mais de 1000 civis.
O Guardian publicou três vídeos feitos que dão força à chamada internacional para que se investigue a operação israelense contra o Hamas, em Gaza. Dentre os relatos, está o de três irmãos adolescentes da família Al-Attar, que contam terem sido utilizados como escudo humano em frente a carros de combate israelenses. Os irmãos contam também que soldados israelenses os enviaram a casas de famílias palestinas para também servirem de escudo para as primeiras balas. A utilização de escudos humanos foi declarada ilegal em 2005 pela Suprema Corte israelense após vários incidentes do tipo.
Degradação ética
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, mais da metade dos 27 hospitais e das 44 clínicas de Gaza foram bombardeadas pelos israelenses. Em relatório publicado esta semana a própria organização Médicos pelos Direitos Humanos de Israel denuncia as violações. "Observamos uma forte degradação ética por parte das Forças de Defesa Israelenses no que se refere ao tratamento da população civil de Gaza, que equivale de fato a um total desprezo pelas vidas dos palestinos", critica a organização.
O Canal 10 da televisão israelense divulgou um documentário com imagens de uma reunião militar, no qual o comandante exigiria “agressividade” aos seus homens. “Se estiver alguém suspeito no andar de cima de uma casa temos de bombardear. Se tivermos uma casa suspeita, temos de botar abaixo”, ordenou o oficial.
As imagens alimentam a polêmica que o Haaretz começou ao divulgar testemunhos de soldados que admitem terem matado civis em Gaza e destruído casas, no cumprimento de ordens. Logo em seguida, a Breaking the Silence, organização de antigos militares, contou ao Guardian ter conseguido o testemunho de 15 soldados que confirmaram as denúncias de mortes indiscriminadas e de vandalismo pelas forças israelenses. “Não estamos falando de algumas unidades que foram mais agressivas do que outras, mas denunciando uma política. De tal forma que os soldados nos disseram que tiveram de refrear as ordens que receberam”, disse um dos ativistas do grupo ao Guardian.
"Um tiro, duas mortes"
O jornalista Uri Blau, do Haaretz, relatou outras práticas habituais entre militares, como a fabricação de camisetas. As encomendas que chegaram nos últimos meses às lojas de estampagem retratam uma violência sem precedentes. Uma camiseta encomendada mostra uma mulher grávida na mira e em baixo os dizeres: “Um tiro, duas mortes”.
Por meio de um porta-voz, o exército de Israel disse desconhecer as denúncias. Também afirmou que a credibilidade das informações será verificada e, se for o caso, será aberta uma investigação. Grupos israelenses de defesa dos direitos humanos pediram uma apuração independente sobre os supostos crimes de guerra. Várias organizações afirmaram em comunicado que a decisão do governo de investigar a morte de civis palestinos não garante a isenção necessária para a tarefa.
O relator das Nações Unidas para os Territórios Palestinos, Richard Falk, também declarou que há indícios de que os israelenses cometeram abusos na ofensiva. Segundo Falk, se não é possível distinguir os alvos militares e os civis, “então lançar os ataques é inerentemente ilegal e poderia constituir um crime de guerra da maior magnitude sob a legislação internacional”. Para Falk, outro agravante é o fato de que a fronteira de Gaza ficou fechada, de forma que “os civis não podiam escapar dos locais atacados”.
As bombas de fósforo branco
Em outra matéria publicada dia 25 de março, o Guardian diz que Israel “atirou bombas de fósforo branco sobre áreas lotadas de Gaza repetidas e indiscriminadas vezes em três semanas, matando e ferindo civis e cometendo crime de guerra”. A matéria também cita o relatório de 71 páginas do Human Rights Watch onde o grupo diz que a repetida utilização de bombas de fósforo branco como artilharia em zonas povoadas de Gaza não foi fortuita ou acidental, “mas revelou um padrão, ou uma política de conduta”. O relatório afirma que os militares israelenses estavam conscientes dos perigos do fósforo branco, não quiseram usar alternativas menos perigosas e, em um dos casos, Israel ignorou repetidas advertências das Nações Unidas sobre o assunto.
"Em Gaza, os militares israelenses não utilizaram apenas fósforo branco em áreas abertas como proteção para suas tropas", afirmou Fred Abrahams, investigador do Human Rights Watch. "Dispararam fósforo branco repetidamente ao longo de áreas densamente povoadas, mesmo quando as suas tropas não estavam na área e bombas mais seguras estavam disponíveis. Como resultado, civis sofreram e morreram desnecessariamente".
Após a publicação do relatório, o Human Rights Watch convocou o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, a lançar uma comissão internacional de inquérito para investigar as violações do direito internacional na Guerra de Gaza pelas forças militares israelenses e do Hamas. Israel defende sua conduta em Gaza e diz que seus soldados não atingiram intencionalmente alvos civis. Ainda segundo o Guardian, quando o uso de fósforo branco por Israel surgiu durante a guerra, os militares primeiro negaram que estariam usando a arma, então disseram que só utilizaram as armas em conformidade com o direito internacional. Mais tarde, anunciaram que um inquérito interno seria realizado.
O jornal britânico também afirma ter encontrado, em janeiro, uma cápsula de fósforo branco ainda queimando vários dias após ter sido despejada, fora da casa da família Abu Halima, em Atatra. Uma bomba de fósforo branco atingiu diretamente a casa, matando o pai e quatro dos filhos da família. A esposa ficou gravemente queimada. O mesmo caso foi relatado pelo Human Rights Watch. As novas denúncias estão produzindo um significativo abalo na imagem do exército de Israel, inclusive dentro do próprio país.
FONTE: AGÊNCIA CARTA MAIOR
terça-feira, 24 de março de 2009
segunda-feira, 23 de março de 2009
sexta-feira, 20 de março de 2009
quinta-feira, 19 de março de 2009
O carnaval está em marcha. Por David Gaeber
O CARNAVAL ESTÁ EM MARCHA
David Graeber
Ondas de desilusão sobre as possibilidade de mudança social não são novidade. O século passado às vezes parece uma contínua sucessão delas. Cada geração cresceu na crença ingênua de que a tecnologia, o progresso ou a dialética a catapultaria para um mundo melhor, somente para ver essa esperança desmoronar (nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, na Grande Depressão, no Holocausto, na bomba...). Não está totalmente claro se hoje estamos no meio de uma dessas ondas.
O colapso da fé nas mudanças revolucionárias após o desmoronamento dos regimes marxistas foi seguindo quase imediatamente de uma nova onda de movimentos sociais visionários, inspirados principalmente pelos zapatistas, que efetivamente contiveram o neoliberalismo global. As elites mundiais começaram a entrar em pânico e, como tendem a fazer as elites globais quando entram em pânico, tentam iniciar uma guerra: uma tarefa nesse caso muito facilitada pelo súbito ressurgimento, desafiando as velhas economias do Atlântico Norte, de uma economia-mundo muito mais antiga, baseada no oceano Índico, com seu candidato a avatar político, Osama bin Laden. O resultado é, mais que qualquer coisa, um momento de confusão.
O que estamos presenciando é definitivamente uma desilusão sobre as possibilidades de se mudar o mundo tomando o controle do Estado. Mas parece-me que esse é realmente um sinal positivo, e que de fato estamos vivendo um momento muito esperançoso. Porque a antiga estratégia de mudar o mundo apoderando-se do Estado – que em última análise não passa de um mecanismo de violência – sempre foi criticamente defeituosa. Existem motivos pelos quais um dia ela pode ter parecido realista. Mas nunca poderia funcionar realmente.
O fato de os revolucionários e os reformadores sociais a estarem abandonado amplamente abrirá, em última instância, um mundo de possibilidades. Ele nos Permite, por um lado, repensar completamente o que entendemos pelo termo “democracia”.
Para chegar a esse ponto, porém, precisamos imaginar uma maneira de nos livrarmos dos argumentos dos filósofos liberais, que tendem a aparecer nessas conjunturas com novas razões pelas quais é impossível uma verdadeira transformação radical. Isso não é tão difícil, na verdade. Os filósofos liberais são artistas do desespero. Muitas vezes parece que sua própria existência é uma tentativa de elucidar o que um marxista à moda antiga chamaria de contradição social: a existência de um grande grupo de classe média razoavelmente confortável que, coletivamente, adota princípios sociais – igualdade, liberdade, justiça social – que, se levados a suas conclusões lógicas, implicariam que a sociedade precisa mudar de maneiras muito fundamentais.
Sua tarefa, ao que parece, é apresentar constantemente novos motivos pelos quais esses princípios não poderiam ou não deveriam ser levados a suas conclusões lógicas. Pelo menos parece haver um mercado permanente para esse tipo de argumento. Na verdade, é tão forte a demanda que os próprios argumentos não precisam fazer muito sentido lógico. Ás vezes parece que quase qualquer coisa serve. Nas décadas de 1980 e 90, por exemplo, muitas pessoas consideradas inteligentes nas universidades começaram a adotar avidamente teorias que afirmam que o reformismo liberal – buscar uma melhora situação para as minorias e os grupos de identidade marginalizados, celebrar estilos de vida subversivos etc. – era na realidade a coisa mais radical que se poderia fazer, muito mais radical do que, por exemplo, algo que pudesse contestar o capitalismo ou o Estado (essa posição foi chamada de “pós-modernismo”). Hoje em dia isso finalmente está começando a parecer depois da insurreição global contra o neoliberalismo, por isso a nova tendência é argumentar exatamente o contrário.
Quando para os pós-modernos não havia mais grandes sistemas totalitários e tudo estava reduzido a fluxos e fragmentos (e todos deveríamos ignorar a interminável expansão do mercado mundial, o maior e mais totalitário sistema da história mundial, que naquela época tentava subjugar absolutamente tudo), agora o argumento tornou-se precisamente o oposto. O capitalismo é uma enorme sistema totalitário que subjuga tudo o que toca. Portanto, não adianta tentar combatê-lo.
Os argumentos de Heath
A última versão deste argumento foi apresentada recentemente pelos filósofos canadenses Joseph Heath e Andrew Potter. É a seguinte: o capitalismo é invencível porque qualquer meio que você empregue para contestá-lo – uma nova subcultura subversiva, alguma forma de rebelião jovem, um movimento social revolucionário, uma tentativa de desenvolver um sistema alternativo de troca – é em última instância apenas mais um estratagema de marketing. Os capitalistas vão simplesmente apanhá-los e vendê-lo de volta para você.
Na verdade, o capitalismo precisa de rebelião para se reproduzir. Por isso, eles afirmam, tudo isso simplesmente faz parte da própria lógica interna do capitalismo. Portanto, vamos apenas esquecer as tentativas de contestar o sistema. É melhor operar dentro dele, pedir a seus representantes políticos para limitar os piores abusos, empregar incentivos de mercado para encorajar as corporações a não poluir tanto a assim por diante, Você sequer conseguirá isso se minar seus esforços fazendo exigências radicais e, excesso.
O argumento é perfeitamente circular. Ele define princípios a partir de sua conclusão. Se o capitalismo nunca poderá ser derrotado, então, sim, todos os movimentos anticapitalistas estão em última instância destinados a serem reabsorvidos pela lógica do capitalismo. Se o capitalismo é um sistema total cuja lógica abrange tudo, então, é verdade, qualquer coisa que pareça se opor a ele é somente mais um aspecto do capitalismo. Mas apenas dizer isso não prova nada.
Na verdade, argumentos como esse invariavelmente começam a parecer ridículos no momento em que são colocados em algum tipo de perspectiva histórica maior. Deixe-me dar um exemplo revelador.
Os camponeses da Europa medieval costumavam realizar grandes festas carnavalescas em que zombavam de seus superiores feudais e encenavam fantasias elaboradas de uma terra sem reis ou senhores, onde eles podiam se fartar com a abundância de comida e bebida. Isso certamente parece muito subversivo. Os teóricos sociais, porém, há muito afirmam que na verdade não é. Realmente, tudo faz parte do sistema feudal – uma maneira de deixar os camponeses liberarem energia, brincar de rebelião, se desintoxicar, de modo a serem mais capazes de voltar a sua vida rotineira de labuta.
Muitas pessoas usavam esse argumento já na época (uma grande parte do motivo pelo qual os senhores aceitavam esse tipo de coisa). É basicamente o mesmo argumento de Heath e Potter: como o feudalismo é um sistema totalitário que sempre existirá, esses atos de rebeldia realmente são apenas uma parte de sua própria lógica interna. O problema é que o feudalismo não existe mais.
Revoltas camponesas
Na verdade, se reexaminarmos os registros, descobriremos que praticamente todas as grandes revoltas camponesas na história européia começaram durante o carnaval (o Primeiro de Maio era o equivalente inglês – e é por isso que hoje é o feriado internacional dos trabalhadores; as rebeliões populares na Inglaterra quase sempre irromperam no primeiro de maio). É verdade que as revoltas reais tenderam a ser reprimidas com grande brutalidade, mas tiveram um papel importante para produzir o mundo de hoje – no qual os descendentes daqueles camponeses europeus realmente vivem em um mundo sem reis ou senhores, em que eles podem se fartar com uma abundância aparentemente infinita de comida e bebida (mas, obviamente, chegar a isso acarretou certos problemas imprevistos). Então o capitalismo está destinado a seguir o caminho do feudalismo (ou como quisermos chamar hoje o sistema medieval)?
Parece inevitável.
Veja como aqueles que afirmam o contrário, que o capitalismo sempre existirá, quase nunca nos dizem exatamente o que eles pensam sobre o capitalismo. Geralmente há uma razão para isso. Geralmente eles só podem defender sua tese alterando constantemente entre definições completamente contraditórias.
Por exemplo: muitas vezes ouvimos o argumento de que o capitalismo existe há 5.000 anos e que, portanto, é tolice queixar-se da existência do McDonald´s ou Starbucks ou outras óbvias emanações do capitalismo. Se você definir o capitalismo como, digamos, “pessoas ricas usando seu dinheiro para ganhar mais dinheiro”, então certamente pode afirmar que ele existe há muito tempo. Mas nesse caso você também teria de admitir que o capitalismo conseguiu existir por pelo menos 4.950 anos sem criar algo remotamente parecido com uma franquia de lanchonetes.
Usar esse argumento para considerar esse fato como inevitável parece muito estranho. Mesmo fazer uma versão mais sofisticada desse argumento – digamos, definir o capitalismo como um sistema mundial em que a economia global é dominada por financistas e industriais privados movidos pela necessidade de continuamente expandir suas operações e conquistar lucros sempre maiores – e dizer que portanto o capitalismo existe desde 1492, ou talvez 1750, também, significaria que uma economia mundial capitalista ainda pode encontrar espaço para fenômenos como o Império Otomano, a União Soviética ou as elaboradas redes de trocas de porcos na Papua Nova Guiné. Em outras palavras, quase qualquer coisa. Ainda há espaço para experiência sociais.
Alternativamente, se definirmos o capitalismo como uma vasta máquina movida por enormes corporações e consumo de massa determinado a abraçar todo o globo, então estaremos lidando com uma criatura que existe em uma parcela minúscula, quase infinitesimal, da história mundial. Honestamente: qual a probabilidade de que um sistema que existe há apenas algumas décadas dure pelo resto da história humana? Realmente acreditamos que, se a China, por exemplo, torna-se a hegemonia global no final do século, o mundo será conduzido exatamente da mesma maneira? Qual probabilidade de que daqui a 50 ou cem anos o mundo seja dirigido por corporações maciças empregando trabalhadores assalariados, vendendo seus produtos por meio de redes de consumo e envolvida numa expansão interminável em busca de lucros?
Colocadas nesses termos, a pergunta torna-se óbvia. A questão não é se o capitalismo em sua forma atual será substituído. A questão é pelo quê: uma forma diferente de capitalismo? Um conjunto heterogêneo de sistemas econômicos? E, é claro, alguma coisa que substitua o capitalismo será melhor ou ainda mais catastrófica para a maioria da população mundial? Ao insistir que o capitalismo em sua forma atual é o fim da história, estamos efetivamente nos excluindo do que provavelmente será uma das mais importantes conversas na história humana.
O que é a democracia?
“Todo mundo ama a democracia. Todo mundo odeia o governo. Anarquismo: isso é exatamente democracia sem governo” – “The Crimethinc Collective”.
Neste ponto posso voltar à minha tese principal.
O motivo pelo qual considero este momento particularmente esperançoso é que os revolucionários e até os reformistas sociais começaram a perceber que não é possível realizar seus objetivos tomando o controle do Estado. Grande parte da frustração dos últimos anos veio da percepção de que, se desafiarmos o capitalismo tentando dominar o governo, provavelmente terminaremos (como colocou recentemente meu amigo Andrej Grubacic) como (Jean-Bertrand) Aristide (presidente deposto do Haiti), como (Fidel) Castro ou como Lula – derrubado, presidindo apesar de si mesmo algum tipo de horrível Estado policial, ou sendo obrigado a abandonar quase todos os princípios que o inspiraram a tentar se eleger.
É por isso que o movimento por justiça global foi iniciado principalmente por grupos que rejeitavam explicitamente a idéia de tomar o governo, e em vez disso se apoiavam em idéias desenvolvidas na tradição anarquista – auto-organização, associação voluntária, ajuda mútua -, mesmo que apenas raramente usassem a palavra “anarquia” (a preferência era geralmente por: horizontalidade, autonomia, associativismo, autogestão, zapatismo... Mas, como diria a maioria dos anarquista, os rótulos não importam). Nos últimos anos, muitos sentiram-se encorajados por seu próprio sucesso a buscar o poder, ou pelo menos a começar a trabalhar com os que o buscam. Os resultados foram ambivalentes, para dizer o mínimo.
Há bons motivos para isso. Se há um grande tema no movimento por justiça global, é a reinvenção da democracia. Os Estados, porém, nunca podem ser genuinamente democráticos, e as pessoas estão começando a percebê-lo.
Para compreender o que quero dizer seria útil voltar aos revolucionários do século 18 que criaram os primeiros modelos do que hoje chamamos de constituições “democráticas”. Todos eles eram abertamente hostis à democracia, que entendiam como algo nas linhas das antiga Atenas, em que a comunidade como um todo toma suas decisões por meio de debates em assembléias públicas. Eles tendiam a ver Atenas como um exemplo de regime de turba. Os federalistas norte-americanos também foram explícitos ao insistir que com a verdadeira democracia seria impossível sustentar o aparato de força necessário para manter as grandes desigualdades de propriedade. Eles aditaram como modelo a “constituição mista” da República Romana, que combinava elementos de monarquia (um presidente), aristocracia (o senado) e alguns elementos democráticos limitados.
O que tornou tudo isso possível, é claro, foi a idéia relativamente nova de representação política. Originalmente, os representantes populares eram na verdade embaixadores, que “representavam” os interesses do povo diante do soberano. Sob as novas constituições republicanas, os poderes soberanos passaram aos próprios deputados, que governavam em nome do povo.
Foi somente quando a franquia se estendeu mais amplamente, nas décadas de 1830 e 40, candidatos populistas na França e nos Estados Unidos começaram a ganhar eleições chamando-se de “democratas” e seus adversários foram obrigados a imitá-los, que as repúblicas foram rebatizadas de “democracia”. O fato de as elites políticas terem sido obrigadas a mudar a terminologia é testemunho do poder persistente da idéia democrática: que pessoas livres deveriam governar seus próprios assuntos. Mas foi exatamente isso: uma mudança de terminologia, e não de forma. Como os conservadores norte-americanos às vezes ainda apontam: os EUA não são uma democracia, são uma república.
Mesmo as maiores conquistas da forma de governo republicana se baseiam na supressão do autogoverno popular: os princípios de liberdade de expressão é liberdade de reunião, por exemplo, só se tornaram direitos sagrados e inalienáveis no exato momento em que se estabeleceu que a expressão e a reunião públicas não seriam meios reais para se tomar decisões políticas, mas no máximo de protestar contra decisões tomadas pelos governantes.
De fato, a própria idéia de um “Estado democrático” sempre foi uma espécie de contradição em termos. “Democracia” refere-se a um sistema em que “o povo”, seja como for definido, governa seus próprios assuntos. Um Estado é um aparato de coerção sistemática destinado a obrigar as pessoas a obedecerem ordens sob a ameaça de violência. Elementos de ambos podem no máximo existir em uma proximidade desconfortável, mas nunca mistura-se. Mesmo nos Estados mais democráticos, por exemplo, os mecanismos pelos quais a violência é de fato exercida – polícia, tribunais, prisões – operam sobre princípios completamente autoritários.
Se alguém chegar a sugerir que algum aspecto desse sistema seja democratizado – digamos, permitindo que os júris operem fora das ordens de juízes -, provavelmente receberiam a mesma reação horrorizada que alguém que procurasse uma constituição democrática na época de Carlos Magno ou da rainha Elizabeth. “Mas isso significaria o governo da turba”.
Como Michael Mann observou recentemente, os Estados sempre parecem ter a necessidade de citar “o povo” em tribunais e locais de execução, ou seja, no momento em que infligem julgamento ou punição, para justificar seus atos. Mas o povo não pode realmente ser envolvido. Ainda mais porque nas repúblicas liberais nunca está muito claro quem é realmente “o povo”. Mann sugere que são exatamente os esforços pragmáticos para elucidar essa contradição, usar o aparato da violência para identificar e constituir um “povo”, que aqueles sue sustentam esse aparato consideram dignos de ser a fonte de sua autoridade, que no pior dos casos foi responsável por pelo menos 60 milhões de assassinatos somente no século 21.
A sociedade contra o voto
Então a nova idéia é voltar a algo semelhante à democracia ateniense? Provavelmente não. Ou não exatamente. Se examinarmos as comunidades ao redor do mundo que administram seus próprios assuntos em uma base relativamente igualitária – seja porque não há Estado ou porque o Estado realmente não se importa com a administração local –, descobrimos que essas comunidades que nunca usam o voto majoritário no estilo da Grécia Antiga.
Quase invariavelmente elas têm algum tipo de processo de consenso – todos os envolvido na tomada de uma decisão, mesmo que não gostem muito dela, têm de pelo menos oferecer seu consentimento passivo. Isso realmente faz muito sentido se não podemos - ou–não desejamos – obrigar fisicamente alguém a acatar a decisão do grupo. Porque é muito mais fácil, em uma comunidade realmente igualitária, descobrir o que a maioria das pessoas quer do que descobrir como convencera minoria a aceitar a decisão. A última coisa que se deseja é realizar um concurso público em que a minoria será vista publicamente como perdedora. Isso quase certamente garantirá ressentimento e resistência.
O próprio voto majoritário parece ter nascido de uma circunstância incomum: um sistema em que havia ao mesmo tempo um ideal de que “o povo” deveria tomar suas próprias decisões e também um aparato de coerção capaz de impor essas decisões a qualquer um que concordasse. A própria Atenas foi uma espécie de anomalia histórica nesse sentido, uma polis situada em algum lugar entre uma comunidade tradicional autogovernante e um Estado real, (Vemos vestígios dessas polis democrática espalhados pelo mundo, na Índia, na China e também no Oriente Médio, sempre nos primórdios do registro histórico. Quase sempre elas foram desprezadas pelos filósofos e poetas que são responsáveis por preservar esse “registro histórico”; quase sempre elas desapareceram em algumas centenas de anos e foram substituídas por impérios, que duraram milênios. Esse é incidentalmente um dos motivos pelos quais os argumentos de que a democracia é de certa forma um produto da tradição “ocidental” são tão ridículos.)
Na Grécia Antiga, a democracia era basicamente uma instituição militar: como notou Aristóteles, as democracias ocorriam nas cidades onde todos os homens adultos livres estavam supostamente armados. Podemos ver claramente como a lógica funcionava na “Anábasis” de Xenofonte, que conta a história de um exército de mercenários gregos que repente se vê sem líder e perdido no meio da Pérsia. Eles elegem novos oficiais e então realizam uma votação coletiva para decidir o que farão. Em um caso como esse, mesmo que a votação fosse 60/40, todos podiam ver o equilíbrio de forças e o que aconteceria se as coisas realmente chegassem a um conflito. Cada voto era, num sentido real, uma conquista. Em outras palavras, essas foram formas mínimas, muito cruas, de Estado, onde potencialmente não havia distinção entre o aparato de tomada de decisões e o aparato de coerção. O próprio eleitorado podia impor sua vontade.
Considerando tudo isso, é notável que o sistema raramente tenha degenerado em guerra civil, mas não é de surpreender que os revolucionários norte-americanos e franceses suspeitassem dele. O sistema representativos que eles inventaram era realmente apenas uma maneira de adotar uma lógica parecida ao Estado burocrático moderno, em que o aparato coercitivo foi entregue a especialistas.
O que temos hoje, então, é um mundo dividido entre uma interminável sucessão de repúblicas. Algumas são mais “democráticas” que outras, é claro: pelo menos no sentido de que têm muito menor probabilidade de matar dissidentes e maior probabilidade de permitir que os cidadãos ocasionalmente escolham entre grupos diferentes de potenciais governantes. (Quando poderes imperiais como os Estados Unidos afirmam estar “disseminando a democracia”, por outro lado, tudo o que Realmente querem dizer é que desejam ver mais repúblicas com maior respeito pelo Estado de direito, pelo menos na medida em que o direito seja amistosa com os investidores estrangeiros.)
Assim como o capitalismo, as repúblicas desse tipo só existem há um período muito curto do tempo histórico. Elas não existiram para sempre. Certamente não existiram por tanto tempo quanto as comunidades de pequena escala que realmente se governam por consenso igualitário: estas existem desde o início da história e escondidas em partes obscuras do globo.
O trabalho de criar alternativas genuinamente democráticas apropriadas às condições modernas está apenas começando: embora estejam ocorrendo esforços enormes seja nos “caracoles” de Chiapas, nas “asambleas” e fábricas ocupadas na Argentina, cos conselhos de cidadãos norte-americanos, ocupações e centros sociais da Itália, guetos da África do Sul, ninhos de hackers de computador em toda parte e outras brechas e fissuras na estrutura de poder mundial que provavelmente ainda nem conhecemos. Parece-me que a grande pergunta do dia é se um número significativo de liberais, que afinal acreditam nos princípios de liberdade e igualdade, eventualmente começarão a unir-se a eles ou se continuarão buscando novas garantias de que nada que eles façam realmente possa contribuir para um mundo fundamentalmente melhor.
Anarquista, Graeber foi desligado de Yale.
Professor do departamento de antropologia da Universidade Yale (EUA) até maio deste ano, David Graeber, teórico do anarquismo, é o centro de uma da principais celeumas da vida acadêmica norte-americana atualmente. A renovação de seu contrato foi negada no início de 2005, após dois dos quatro anos do padrão para professor associado na instituição, apesar de o antropólogo ter realizado todas as suas obrigações no período.
A decisão, não explicada pelo conselho do departamento, que votou secretamente pelo seu desligamento, acarretou manifestações dentro da própria universidade mas também em outros centros de excelência de ensino de antropologia, como o da Universidade de Chicago, que é um dos mais importantes na área, e o da London School of Economics (LSE).
Intelectuais de peso, como Marshall Sahlins – o principal especialista em antropologia econômica vivo – e Maurice Bloch – professor da LSE, que se manifestou afirmando que Graeber é “o melhor teórico da antropologia de sua geração no mundo” – se juntaram a outros quase 4.000 assinantes de uma petição on-line que apoia o pedido de Graeber para que seu caso seja reavaliado. O abaixo-assinado virtual pode ser encontrado no site www.petitiononline.com/graeber.
Em seu apelo, Graeber protesta contra o fato de não ter havido nenhuma justificativa para a decisão, o que normalmente é obrigatório pela política da instituição, Questionada, a direção de Yale disse que as razões para a negação para renovar o contrato não poderiam ser revelada.
Conhecido por teses anarquistas, Graeber tem reputação internacional como professor e pesquisador. É autor dos livro “Fragments of an Anarchist Anthropology” (Fragmentos de uma Antropologia Anarquista”, Prickly Paradigm Press) e “Toward an Anthropological Theory of Valeu – The False Coin of Our Own Dreams” (Para uma teoria Antropológica do Valor – A Moeda Falsa de Nossos Próprios Sonhos, Palgrave Macmillan), além de ter publicado artigos em mais de 12 idiomas.
Tradução:
Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Retirado do caderno Mais! da Folha de São Paulo 14 de agosto de 2005
David Graeber
Ondas de desilusão sobre as possibilidade de mudança social não são novidade. O século passado às vezes parece uma contínua sucessão delas. Cada geração cresceu na crença ingênua de que a tecnologia, o progresso ou a dialética a catapultaria para um mundo melhor, somente para ver essa esperança desmoronar (nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, na Grande Depressão, no Holocausto, na bomba...). Não está totalmente claro se hoje estamos no meio de uma dessas ondas.
O colapso da fé nas mudanças revolucionárias após o desmoronamento dos regimes marxistas foi seguindo quase imediatamente de uma nova onda de movimentos sociais visionários, inspirados principalmente pelos zapatistas, que efetivamente contiveram o neoliberalismo global. As elites mundiais começaram a entrar em pânico e, como tendem a fazer as elites globais quando entram em pânico, tentam iniciar uma guerra: uma tarefa nesse caso muito facilitada pelo súbito ressurgimento, desafiando as velhas economias do Atlântico Norte, de uma economia-mundo muito mais antiga, baseada no oceano Índico, com seu candidato a avatar político, Osama bin Laden. O resultado é, mais que qualquer coisa, um momento de confusão.
O que estamos presenciando é definitivamente uma desilusão sobre as possibilidades de se mudar o mundo tomando o controle do Estado. Mas parece-me que esse é realmente um sinal positivo, e que de fato estamos vivendo um momento muito esperançoso. Porque a antiga estratégia de mudar o mundo apoderando-se do Estado – que em última análise não passa de um mecanismo de violência – sempre foi criticamente defeituosa. Existem motivos pelos quais um dia ela pode ter parecido realista. Mas nunca poderia funcionar realmente.
O fato de os revolucionários e os reformadores sociais a estarem abandonado amplamente abrirá, em última instância, um mundo de possibilidades. Ele nos Permite, por um lado, repensar completamente o que entendemos pelo termo “democracia”.
Para chegar a esse ponto, porém, precisamos imaginar uma maneira de nos livrarmos dos argumentos dos filósofos liberais, que tendem a aparecer nessas conjunturas com novas razões pelas quais é impossível uma verdadeira transformação radical. Isso não é tão difícil, na verdade. Os filósofos liberais são artistas do desespero. Muitas vezes parece que sua própria existência é uma tentativa de elucidar o que um marxista à moda antiga chamaria de contradição social: a existência de um grande grupo de classe média razoavelmente confortável que, coletivamente, adota princípios sociais – igualdade, liberdade, justiça social – que, se levados a suas conclusões lógicas, implicariam que a sociedade precisa mudar de maneiras muito fundamentais.
Sua tarefa, ao que parece, é apresentar constantemente novos motivos pelos quais esses princípios não poderiam ou não deveriam ser levados a suas conclusões lógicas. Pelo menos parece haver um mercado permanente para esse tipo de argumento. Na verdade, é tão forte a demanda que os próprios argumentos não precisam fazer muito sentido lógico. Ás vezes parece que quase qualquer coisa serve. Nas décadas de 1980 e 90, por exemplo, muitas pessoas consideradas inteligentes nas universidades começaram a adotar avidamente teorias que afirmam que o reformismo liberal – buscar uma melhora situação para as minorias e os grupos de identidade marginalizados, celebrar estilos de vida subversivos etc. – era na realidade a coisa mais radical que se poderia fazer, muito mais radical do que, por exemplo, algo que pudesse contestar o capitalismo ou o Estado (essa posição foi chamada de “pós-modernismo”). Hoje em dia isso finalmente está começando a parecer depois da insurreição global contra o neoliberalismo, por isso a nova tendência é argumentar exatamente o contrário.
Quando para os pós-modernos não havia mais grandes sistemas totalitários e tudo estava reduzido a fluxos e fragmentos (e todos deveríamos ignorar a interminável expansão do mercado mundial, o maior e mais totalitário sistema da história mundial, que naquela época tentava subjugar absolutamente tudo), agora o argumento tornou-se precisamente o oposto. O capitalismo é uma enorme sistema totalitário que subjuga tudo o que toca. Portanto, não adianta tentar combatê-lo.
Os argumentos de Heath
A última versão deste argumento foi apresentada recentemente pelos filósofos canadenses Joseph Heath e Andrew Potter. É a seguinte: o capitalismo é invencível porque qualquer meio que você empregue para contestá-lo – uma nova subcultura subversiva, alguma forma de rebelião jovem, um movimento social revolucionário, uma tentativa de desenvolver um sistema alternativo de troca – é em última instância apenas mais um estratagema de marketing. Os capitalistas vão simplesmente apanhá-los e vendê-lo de volta para você.
Na verdade, o capitalismo precisa de rebelião para se reproduzir. Por isso, eles afirmam, tudo isso simplesmente faz parte da própria lógica interna do capitalismo. Portanto, vamos apenas esquecer as tentativas de contestar o sistema. É melhor operar dentro dele, pedir a seus representantes políticos para limitar os piores abusos, empregar incentivos de mercado para encorajar as corporações a não poluir tanto a assim por diante, Você sequer conseguirá isso se minar seus esforços fazendo exigências radicais e, excesso.
O argumento é perfeitamente circular. Ele define princípios a partir de sua conclusão. Se o capitalismo nunca poderá ser derrotado, então, sim, todos os movimentos anticapitalistas estão em última instância destinados a serem reabsorvidos pela lógica do capitalismo. Se o capitalismo é um sistema total cuja lógica abrange tudo, então, é verdade, qualquer coisa que pareça se opor a ele é somente mais um aspecto do capitalismo. Mas apenas dizer isso não prova nada.
Na verdade, argumentos como esse invariavelmente começam a parecer ridículos no momento em que são colocados em algum tipo de perspectiva histórica maior. Deixe-me dar um exemplo revelador.
Os camponeses da Europa medieval costumavam realizar grandes festas carnavalescas em que zombavam de seus superiores feudais e encenavam fantasias elaboradas de uma terra sem reis ou senhores, onde eles podiam se fartar com a abundância de comida e bebida. Isso certamente parece muito subversivo. Os teóricos sociais, porém, há muito afirmam que na verdade não é. Realmente, tudo faz parte do sistema feudal – uma maneira de deixar os camponeses liberarem energia, brincar de rebelião, se desintoxicar, de modo a serem mais capazes de voltar a sua vida rotineira de labuta.
Muitas pessoas usavam esse argumento já na época (uma grande parte do motivo pelo qual os senhores aceitavam esse tipo de coisa). É basicamente o mesmo argumento de Heath e Potter: como o feudalismo é um sistema totalitário que sempre existirá, esses atos de rebeldia realmente são apenas uma parte de sua própria lógica interna. O problema é que o feudalismo não existe mais.
Revoltas camponesas
Na verdade, se reexaminarmos os registros, descobriremos que praticamente todas as grandes revoltas camponesas na história européia começaram durante o carnaval (o Primeiro de Maio era o equivalente inglês – e é por isso que hoje é o feriado internacional dos trabalhadores; as rebeliões populares na Inglaterra quase sempre irromperam no primeiro de maio). É verdade que as revoltas reais tenderam a ser reprimidas com grande brutalidade, mas tiveram um papel importante para produzir o mundo de hoje – no qual os descendentes daqueles camponeses europeus realmente vivem em um mundo sem reis ou senhores, em que eles podem se fartar com uma abundância aparentemente infinita de comida e bebida (mas, obviamente, chegar a isso acarretou certos problemas imprevistos). Então o capitalismo está destinado a seguir o caminho do feudalismo (ou como quisermos chamar hoje o sistema medieval)?
Parece inevitável.
Veja como aqueles que afirmam o contrário, que o capitalismo sempre existirá, quase nunca nos dizem exatamente o que eles pensam sobre o capitalismo. Geralmente há uma razão para isso. Geralmente eles só podem defender sua tese alterando constantemente entre definições completamente contraditórias.
Por exemplo: muitas vezes ouvimos o argumento de que o capitalismo existe há 5.000 anos e que, portanto, é tolice queixar-se da existência do McDonald´s ou Starbucks ou outras óbvias emanações do capitalismo. Se você definir o capitalismo como, digamos, “pessoas ricas usando seu dinheiro para ganhar mais dinheiro”, então certamente pode afirmar que ele existe há muito tempo. Mas nesse caso você também teria de admitir que o capitalismo conseguiu existir por pelo menos 4.950 anos sem criar algo remotamente parecido com uma franquia de lanchonetes.
Usar esse argumento para considerar esse fato como inevitável parece muito estranho. Mesmo fazer uma versão mais sofisticada desse argumento – digamos, definir o capitalismo como um sistema mundial em que a economia global é dominada por financistas e industriais privados movidos pela necessidade de continuamente expandir suas operações e conquistar lucros sempre maiores – e dizer que portanto o capitalismo existe desde 1492, ou talvez 1750, também, significaria que uma economia mundial capitalista ainda pode encontrar espaço para fenômenos como o Império Otomano, a União Soviética ou as elaboradas redes de trocas de porcos na Papua Nova Guiné. Em outras palavras, quase qualquer coisa. Ainda há espaço para experiência sociais.
Alternativamente, se definirmos o capitalismo como uma vasta máquina movida por enormes corporações e consumo de massa determinado a abraçar todo o globo, então estaremos lidando com uma criatura que existe em uma parcela minúscula, quase infinitesimal, da história mundial. Honestamente: qual a probabilidade de que um sistema que existe há apenas algumas décadas dure pelo resto da história humana? Realmente acreditamos que, se a China, por exemplo, torna-se a hegemonia global no final do século, o mundo será conduzido exatamente da mesma maneira? Qual probabilidade de que daqui a 50 ou cem anos o mundo seja dirigido por corporações maciças empregando trabalhadores assalariados, vendendo seus produtos por meio de redes de consumo e envolvida numa expansão interminável em busca de lucros?
Colocadas nesses termos, a pergunta torna-se óbvia. A questão não é se o capitalismo em sua forma atual será substituído. A questão é pelo quê: uma forma diferente de capitalismo? Um conjunto heterogêneo de sistemas econômicos? E, é claro, alguma coisa que substitua o capitalismo será melhor ou ainda mais catastrófica para a maioria da população mundial? Ao insistir que o capitalismo em sua forma atual é o fim da história, estamos efetivamente nos excluindo do que provavelmente será uma das mais importantes conversas na história humana.
O que é a democracia?
“Todo mundo ama a democracia. Todo mundo odeia o governo. Anarquismo: isso é exatamente democracia sem governo” – “The Crimethinc Collective”.
Neste ponto posso voltar à minha tese principal.
O motivo pelo qual considero este momento particularmente esperançoso é que os revolucionários e até os reformistas sociais começaram a perceber que não é possível realizar seus objetivos tomando o controle do Estado. Grande parte da frustração dos últimos anos veio da percepção de que, se desafiarmos o capitalismo tentando dominar o governo, provavelmente terminaremos (como colocou recentemente meu amigo Andrej Grubacic) como (Jean-Bertrand) Aristide (presidente deposto do Haiti), como (Fidel) Castro ou como Lula – derrubado, presidindo apesar de si mesmo algum tipo de horrível Estado policial, ou sendo obrigado a abandonar quase todos os princípios que o inspiraram a tentar se eleger.
É por isso que o movimento por justiça global foi iniciado principalmente por grupos que rejeitavam explicitamente a idéia de tomar o governo, e em vez disso se apoiavam em idéias desenvolvidas na tradição anarquista – auto-organização, associação voluntária, ajuda mútua -, mesmo que apenas raramente usassem a palavra “anarquia” (a preferência era geralmente por: horizontalidade, autonomia, associativismo, autogestão, zapatismo... Mas, como diria a maioria dos anarquista, os rótulos não importam). Nos últimos anos, muitos sentiram-se encorajados por seu próprio sucesso a buscar o poder, ou pelo menos a começar a trabalhar com os que o buscam. Os resultados foram ambivalentes, para dizer o mínimo.
Há bons motivos para isso. Se há um grande tema no movimento por justiça global, é a reinvenção da democracia. Os Estados, porém, nunca podem ser genuinamente democráticos, e as pessoas estão começando a percebê-lo.
Para compreender o que quero dizer seria útil voltar aos revolucionários do século 18 que criaram os primeiros modelos do que hoje chamamos de constituições “democráticas”. Todos eles eram abertamente hostis à democracia, que entendiam como algo nas linhas das antiga Atenas, em que a comunidade como um todo toma suas decisões por meio de debates em assembléias públicas. Eles tendiam a ver Atenas como um exemplo de regime de turba. Os federalistas norte-americanos também foram explícitos ao insistir que com a verdadeira democracia seria impossível sustentar o aparato de força necessário para manter as grandes desigualdades de propriedade. Eles aditaram como modelo a “constituição mista” da República Romana, que combinava elementos de monarquia (um presidente), aristocracia (o senado) e alguns elementos democráticos limitados.
O que tornou tudo isso possível, é claro, foi a idéia relativamente nova de representação política. Originalmente, os representantes populares eram na verdade embaixadores, que “representavam” os interesses do povo diante do soberano. Sob as novas constituições republicanas, os poderes soberanos passaram aos próprios deputados, que governavam em nome do povo.
Foi somente quando a franquia se estendeu mais amplamente, nas décadas de 1830 e 40, candidatos populistas na França e nos Estados Unidos começaram a ganhar eleições chamando-se de “democratas” e seus adversários foram obrigados a imitá-los, que as repúblicas foram rebatizadas de “democracia”. O fato de as elites políticas terem sido obrigadas a mudar a terminologia é testemunho do poder persistente da idéia democrática: que pessoas livres deveriam governar seus próprios assuntos. Mas foi exatamente isso: uma mudança de terminologia, e não de forma. Como os conservadores norte-americanos às vezes ainda apontam: os EUA não são uma democracia, são uma república.
Mesmo as maiores conquistas da forma de governo republicana se baseiam na supressão do autogoverno popular: os princípios de liberdade de expressão é liberdade de reunião, por exemplo, só se tornaram direitos sagrados e inalienáveis no exato momento em que se estabeleceu que a expressão e a reunião públicas não seriam meios reais para se tomar decisões políticas, mas no máximo de protestar contra decisões tomadas pelos governantes.
De fato, a própria idéia de um “Estado democrático” sempre foi uma espécie de contradição em termos. “Democracia” refere-se a um sistema em que “o povo”, seja como for definido, governa seus próprios assuntos. Um Estado é um aparato de coerção sistemática destinado a obrigar as pessoas a obedecerem ordens sob a ameaça de violência. Elementos de ambos podem no máximo existir em uma proximidade desconfortável, mas nunca mistura-se. Mesmo nos Estados mais democráticos, por exemplo, os mecanismos pelos quais a violência é de fato exercida – polícia, tribunais, prisões – operam sobre princípios completamente autoritários.
Se alguém chegar a sugerir que algum aspecto desse sistema seja democratizado – digamos, permitindo que os júris operem fora das ordens de juízes -, provavelmente receberiam a mesma reação horrorizada que alguém que procurasse uma constituição democrática na época de Carlos Magno ou da rainha Elizabeth. “Mas isso significaria o governo da turba”.
Como Michael Mann observou recentemente, os Estados sempre parecem ter a necessidade de citar “o povo” em tribunais e locais de execução, ou seja, no momento em que infligem julgamento ou punição, para justificar seus atos. Mas o povo não pode realmente ser envolvido. Ainda mais porque nas repúblicas liberais nunca está muito claro quem é realmente “o povo”. Mann sugere que são exatamente os esforços pragmáticos para elucidar essa contradição, usar o aparato da violência para identificar e constituir um “povo”, que aqueles sue sustentam esse aparato consideram dignos de ser a fonte de sua autoridade, que no pior dos casos foi responsável por pelo menos 60 milhões de assassinatos somente no século 21.
A sociedade contra o voto
Então a nova idéia é voltar a algo semelhante à democracia ateniense? Provavelmente não. Ou não exatamente. Se examinarmos as comunidades ao redor do mundo que administram seus próprios assuntos em uma base relativamente igualitária – seja porque não há Estado ou porque o Estado realmente não se importa com a administração local –, descobrimos que essas comunidades que nunca usam o voto majoritário no estilo da Grécia Antiga.
Quase invariavelmente elas têm algum tipo de processo de consenso – todos os envolvido na tomada de uma decisão, mesmo que não gostem muito dela, têm de pelo menos oferecer seu consentimento passivo. Isso realmente faz muito sentido se não podemos - ou–não desejamos – obrigar fisicamente alguém a acatar a decisão do grupo. Porque é muito mais fácil, em uma comunidade realmente igualitária, descobrir o que a maioria das pessoas quer do que descobrir como convencera minoria a aceitar a decisão. A última coisa que se deseja é realizar um concurso público em que a minoria será vista publicamente como perdedora. Isso quase certamente garantirá ressentimento e resistência.
O próprio voto majoritário parece ter nascido de uma circunstância incomum: um sistema em que havia ao mesmo tempo um ideal de que “o povo” deveria tomar suas próprias decisões e também um aparato de coerção capaz de impor essas decisões a qualquer um que concordasse. A própria Atenas foi uma espécie de anomalia histórica nesse sentido, uma polis situada em algum lugar entre uma comunidade tradicional autogovernante e um Estado real, (Vemos vestígios dessas polis democrática espalhados pelo mundo, na Índia, na China e também no Oriente Médio, sempre nos primórdios do registro histórico. Quase sempre elas foram desprezadas pelos filósofos e poetas que são responsáveis por preservar esse “registro histórico”; quase sempre elas desapareceram em algumas centenas de anos e foram substituídas por impérios, que duraram milênios. Esse é incidentalmente um dos motivos pelos quais os argumentos de que a democracia é de certa forma um produto da tradição “ocidental” são tão ridículos.)
Na Grécia Antiga, a democracia era basicamente uma instituição militar: como notou Aristóteles, as democracias ocorriam nas cidades onde todos os homens adultos livres estavam supostamente armados. Podemos ver claramente como a lógica funcionava na “Anábasis” de Xenofonte, que conta a história de um exército de mercenários gregos que repente se vê sem líder e perdido no meio da Pérsia. Eles elegem novos oficiais e então realizam uma votação coletiva para decidir o que farão. Em um caso como esse, mesmo que a votação fosse 60/40, todos podiam ver o equilíbrio de forças e o que aconteceria se as coisas realmente chegassem a um conflito. Cada voto era, num sentido real, uma conquista. Em outras palavras, essas foram formas mínimas, muito cruas, de Estado, onde potencialmente não havia distinção entre o aparato de tomada de decisões e o aparato de coerção. O próprio eleitorado podia impor sua vontade.
Considerando tudo isso, é notável que o sistema raramente tenha degenerado em guerra civil, mas não é de surpreender que os revolucionários norte-americanos e franceses suspeitassem dele. O sistema representativos que eles inventaram era realmente apenas uma maneira de adotar uma lógica parecida ao Estado burocrático moderno, em que o aparato coercitivo foi entregue a especialistas.
O que temos hoje, então, é um mundo dividido entre uma interminável sucessão de repúblicas. Algumas são mais “democráticas” que outras, é claro: pelo menos no sentido de que têm muito menor probabilidade de matar dissidentes e maior probabilidade de permitir que os cidadãos ocasionalmente escolham entre grupos diferentes de potenciais governantes. (Quando poderes imperiais como os Estados Unidos afirmam estar “disseminando a democracia”, por outro lado, tudo o que Realmente querem dizer é que desejam ver mais repúblicas com maior respeito pelo Estado de direito, pelo menos na medida em que o direito seja amistosa com os investidores estrangeiros.)
Assim como o capitalismo, as repúblicas desse tipo só existem há um período muito curto do tempo histórico. Elas não existiram para sempre. Certamente não existiram por tanto tempo quanto as comunidades de pequena escala que realmente se governam por consenso igualitário: estas existem desde o início da história e escondidas em partes obscuras do globo.
O trabalho de criar alternativas genuinamente democráticas apropriadas às condições modernas está apenas começando: embora estejam ocorrendo esforços enormes seja nos “caracoles” de Chiapas, nas “asambleas” e fábricas ocupadas na Argentina, cos conselhos de cidadãos norte-americanos, ocupações e centros sociais da Itália, guetos da África do Sul, ninhos de hackers de computador em toda parte e outras brechas e fissuras na estrutura de poder mundial que provavelmente ainda nem conhecemos. Parece-me que a grande pergunta do dia é se um número significativo de liberais, que afinal acreditam nos princípios de liberdade e igualdade, eventualmente começarão a unir-se a eles ou se continuarão buscando novas garantias de que nada que eles façam realmente possa contribuir para um mundo fundamentalmente melhor.
Anarquista, Graeber foi desligado de Yale.
Professor do departamento de antropologia da Universidade Yale (EUA) até maio deste ano, David Graeber, teórico do anarquismo, é o centro de uma da principais celeumas da vida acadêmica norte-americana atualmente. A renovação de seu contrato foi negada no início de 2005, após dois dos quatro anos do padrão para professor associado na instituição, apesar de o antropólogo ter realizado todas as suas obrigações no período.
A decisão, não explicada pelo conselho do departamento, que votou secretamente pelo seu desligamento, acarretou manifestações dentro da própria universidade mas também em outros centros de excelência de ensino de antropologia, como o da Universidade de Chicago, que é um dos mais importantes na área, e o da London School of Economics (LSE).
Intelectuais de peso, como Marshall Sahlins – o principal especialista em antropologia econômica vivo – e Maurice Bloch – professor da LSE, que se manifestou afirmando que Graeber é “o melhor teórico da antropologia de sua geração no mundo” – se juntaram a outros quase 4.000 assinantes de uma petição on-line que apoia o pedido de Graeber para que seu caso seja reavaliado. O abaixo-assinado virtual pode ser encontrado no site www.petitiononline.com/graeber.
Em seu apelo, Graeber protesta contra o fato de não ter havido nenhuma justificativa para a decisão, o que normalmente é obrigatório pela política da instituição, Questionada, a direção de Yale disse que as razões para a negação para renovar o contrato não poderiam ser revelada.
Conhecido por teses anarquistas, Graeber tem reputação internacional como professor e pesquisador. É autor dos livro “Fragments of an Anarchist Anthropology” (Fragmentos de uma Antropologia Anarquista”, Prickly Paradigm Press) e “Toward an Anthropological Theory of Valeu – The False Coin of Our Own Dreams” (Para uma teoria Antropológica do Valor – A Moeda Falsa de Nossos Próprios Sonhos, Palgrave Macmillan), além de ter publicado artigos em mais de 12 idiomas.
Tradução:
Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Retirado do caderno Mais! da Folha de São Paulo 14 de agosto de 2005
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