quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

53 mortes em São Paulo, quem é o responsável?



Foto acima da região do bairro do Ipiranga, bairro esse que sofreu um grande aumento na sua taxa de IPTU!

Já ocorrem em todo o Estado de São Paulo 53 vítimas fatais!

E as autoridades ainda continuam colocando a culpa na chuva!

Os cidadãos mortos pouco importam, eles (os políticos) sabem que as chuvas não duraram para sempre, então, vão empurrando com a barriga, e os que perderam seus entes queridos que os enterrem!

Provos Brasil

Nóis - By Laerçon



Fonte: http://bocasujafanzine.blogspot.com/

O declínio do mentiroso! Por Latuff

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Naomi Klein alerta para "capitalismo do desastre" no Haiti


Naomi Klein alerta para "capitalismo do desastre" no Haiti

A jornalista e escritora Naomi Klein alerta para que a tragédia no Haiti, não deve servir para endividar ainda mais o país e para impor políticas anti-populares a favor das empresas dos EUA. Naomi Klein alertou na Democracy Now em relação à crise no Haiti.

"Devemos ter muito claro que esta tragédia - que é em parte natural e em parte não - não deve, em nenhuma circunstância, ser usada para: primeiro, endividar ainda mais o Haiti, e segundo, impor políticas impopulares a favor das nossas corporações. Isto não é teoria da conspiração. Tem-no feito repetidamente", disse.

No seu site (naomiklein.org), Naomi denuncia que a Heritage Foundation, "uma das principais exploradoras dos desastres para impulsionar políticas impopulares a favor das grandes empresas norte-americanas", já está a fazer campanha para que a resposta dos EUA ao terremoto no Haiti deva servir para aplicar "reformas" na economia e no governo do país e também para "melhorar a imagem dos Estados Unidos na região".

Lado A Lado B por Latuff


Os pecados do Haiti - Por Eduardo Galeano



Os pecados do Haiti

A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental. Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objetivos: cobrar as dívidas do City Bank e abolir o artigo constitucional que proibia vender plantações aos estrangeiros.

O artigo é de Eduardo Galeano.
Data: 19/01/2010

A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde, ressuscitou. Depois de haver posto e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca idéia de querer um país menos injusto.

O voto e o veto
Para apagar as pegadas da participação estadunidense na ditadura sangrenta do general Cedras, os fuzileiros navais levaram 160 mil páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe permissão para recuperar o governo, mas proibiram-lhe o poder. O seu sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos votos, mas mais poder do que Préval tem qualquer chefete de quarta categoria do Fundo Monetário ou do Banco Mundial, ainda que o povo haitiano não o tenha eleito com um voto sequer.

Mais do que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que Préval, ou algum dos seus ministros, pede créditos internacionais para dar pão aos famintos, letras aos analfabetos ou terra aos camponeses, não recebe resposta, ou respondem ordenando-lhe:

– Recite a lição. E como o governo haitiano não acaba de aprender que é preciso desmantelar os poucos serviços públicos que restam, últimos pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo, os professores dão o exame por perdido.

O álibi demográfico
Em fins do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti. Mal chegaram, a miséria do povo feriu-lhes os olhos. Então o embaixador da Alemanha explicou-lhe, em Port-au-Prince, qual é o problema:

– Este é um país superpovoado, disse ele. A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode.

E riu. Os deputados calaram-se. Nessa noite, um deles, Winfried Wolf, consultou os números. E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o país mais superpovoado das Américas, mas está tão superpovoado quanto a Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quilômetro quadrado.

Durante os seus dias no Haiti, o deputado Wolf não só foi golpeado pela miséria como também foi deslumbrado pela capacidade de beleza dos pintores populares. E chegou à conclusão de que o Haiti está superpovoado... de artistas.

Na realidade, o álibi demográfico é mais ou menos recente. Até há alguns anos, as potências ocidentais falavam mais claro.

A tradição racista
Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objetivos: cobrar as dívidas do City Bank e abolir o artigo constitucional que proibia vender plantações aos estrangeiros. Então Robert Lansing, secretário de Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem "uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização". Um dos responsáveis da invasão, William Philips, havia incubado tempos antes a ideia sagaz: "Este é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que haviam deixado os franceses".

O Haiti fora a pérola da coroa, a colónia mais rica da França: uma grande plantação de açúcar, com mão-de-obra escrava. No Espírito das Leis, Montesquieu havia explicado sem papas na língua: "O açúcar seria demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os referidos escravos são negros desde os pés até à cabeça e têm o nariz tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro".

Em contrapartida, Deus havia posto um açoite na mão do capataz. Os escravos não se distinguiam pela sua vontade de trabalhar. Os negros eram escravos por natureza e vagos também por natureza, e a natureza, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o amo e o amo devia castigar o escravo, que não mostrava o menor entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino. Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: "Vagabundo, preguiçoso, negligente, indolente e de costumes dissolutos". Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado que o negro "pode desenvolver certas habilidades humanas, tal como o papagaio que fala algumas palavras".

A humilhação imperdoável
Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos tinham conquistado antes a sua independência, mas meio milhão de escravos trabalhavam nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.

A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi condenada à solidão. Ninguém comprava do Haiti, ninguém vendia, ninguém reconhecia a nova nação.

O delito da dignidade
Nem sequer Simón Bolívar, que tão valente soube ser, teve a coragem de firmar o reconhecimento diplomático do país negro. Bolívar conseguiu reiniciar a sua luta pela independência americana, quando a Espanha já o havia derrotado, graças ao apoio do Haiti. O governo haitiano havia-lhe entregue sete naves e muitas armas e soldados, com a única condição de que Bolívar libertasse os escravos, uma idéia que não havia ocorrido ao Libertador. Bolívar cumpriu com este compromisso, mas depois da sua vitória, quando já governava a Grande Colômbia, deu as costas ao país que o havia salvo. E quando convocou as nações americanas à reunião do Panamá, não convidou o Haiti mas convidou a Inglaterra.

Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um gênio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque têm pouca distância entre o umbigo e o pênis. A essa altura, o Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que destinavam os famélicos recursos do país ao pagamento da dívida francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França uma indemnização gigantesca, a modo de perda por haver cometido o delito da dignidade.

A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental.

Fonte: www.cartamaior.com.br

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Apagando a memória – Por Latuff

O asterisco sombrio do Mundial de 78 - Por Iuri Müller

O asterisco sombrio do Mundial de 78



O Mundial de 78 é um daqueles títulos que sempre virá com um asterisco. Tudo porque o futebol ficou, naqueles anos, a serviço de um planejamento violento

“Me parece que soy

De la quinta que vio el Mundial 78

Me tocó crecer viendo a mi alrededor

Paranoia y dolor

La moneda cayó por el lado de la soledad

Otra vez…”

(Andres Calamaro, Crimenes Perfectos)


O sonho argentino de levantar um Mundial se concretizou no inverno de 1978, entre uma e outra noite fria e escura. Foi o primeiro título portenho, ansiado desde a Copa de 30, quando o selecionado argentino atravessou o Rio da Prata sem a taça, que ficara com os uruguaios em Montevideo. O Mundial de 78, porém, é um daqueles títulos que sempre virá com um asterisco – em qualquer registro, histórico ou literário, ou ainda em uma narrativa familiar, de vô para neto, a conquista será contada com um “mas”. Tudo porque o futebol ficou, naqueles anos, a serviço de um planejamento violento. Ou, se este jogo possui mesmo um caráter inteiramente independente do contexto, ao menos foi o elemento secundário da repressão que caía sobre a Argentina.

A Copa do Mundo – ou simplesmente o “Mundial”, nos países de língua castelhana – foi organizada pelo regime militar que desde 1976 controlava política e, é evidente, militarmente todo o território argentino. Um ano antes do acontecimento esportivo, o impacto da repressão havia se acentuado. Em 77, a estratégia mais desumana de liquidar com as ameaças subversivas entrou em vigor – a prática se tornou o símbolo do poderio militar na Argentina, ilustrando a ditadura provavelmente mais cínica que castigou a América Latina naqueles anos em que as armas e os tanques estavam em alta. Eram os voos da morte: neles, os prisioneiros eram primeiramente dopados e empilhados em aviões da força aérea argentina. Por uma hora, os voos se distanciavam da costa argentina. E então os presos eram jogados ao mar – a maior parte ainda com vida.

Segundo o incompreensível Adolfo Scilingo, ex-militar argentino que havia participado de algumas destas expedições, cerca de quatro mil e quatrocentas pessoas foram eliminadas nos voos da morte. Scilingo é um dos milicos que mais esteve próximo dos holofotes: tudo porque, sete anos após o fim do governo militar, tomado por uma suposta loucura desesperadora, resolveu contar tudo o que sabia. Delatou companheiros de massacre e desvelou os detalhes mais sórdidos da última viagem de muitos dos tidos como subversivos. Ele conta, em uma entrevista para a Rádio Onda Cero, em outubro de 1997, que o sistema de execução aérea tinha o apoio da igreja argentina, por ser uma forma “cristiana y humanitária” de separar o joio do trigo. Entre as particularidades dos afogamentos, o ex-capitão conta que um médico viajava junto com os presos, para controlar as doses de anestesia – mas que ele se retirava da cabine para não violar o juramento hipocrático. Enquanto isso, Kempes, Passarella e Fillol se preparavam para o grande evento de logo mais.

Para amenizar as contestações que surgiam, ainda por parte de uma parcela bastante reduzida da população, os militares decidiram por erguer um Mundial naquela Argentina banhada por águas já sangrentas. A ideia era simples e explorava o que havia de mais óbvio nos eventos massivos: a alienação do povo, que estaria ocupado demais com o “sonhar em ser campeão” para buscar as informações desencontradas que boa parte da imprensa omitia nos grandes jornais. Mas a realização do Mundial perigava, muito porque, na Europa, os métodos rudimentares empregados por um governo ainda mais primitivo não era visto com olhos omissos. Da França e da Holanda partiram os protestos mais fortes – mas chegou o “sim” para a Argentina, e uma das versões da história indica a participação de um brasileiro notável na autorização.

Quando da realização do Mundial, o presidente da FIFA era o carioca João Havelange. Segundo a boataria causada pela pressão europeia, o Mundial poderia cair no Brasil em razão do grande campo de concentração que havia se tornado a Argentina. A autorização, segundo o jornalista Pablo Llonto, que até livro publicou sobre o tema, só veio a partir de uma libertação. O brasileiro Paulo Antônio Paranaguá, filho de diplomata, penava nos porões portenhos desde 1977, assim como a sua namorada, ambos presos pelo exército. O jornalista aponta que Havelange fechou os olhos para o Mundial após a liberdade de Paulo Antônio, que serviu como moeda de troca na negociação com os militares argentinos. Confirmada a participação, era a hora de levantar canchas, esparramar dólares e criar um cenário majestoso – passando por cima de tudo, como era a orientação primária da ditadura.

Programado desde 1976, o Mundial teria o seu comitê organizador encabeçado por Omar Actis e Carlos Alberto Lacoste. O primeiro, que defendia uma Copa sem devaneios financeiros, teve as ideias atoradas pela raiz: a caminho de uma entrevista coletiva na qual dissertaria sobre os planos para o Mundial, Actis foi assassinado – primeiramente, a baixa foi creditada às guerrilhas de esquerda, mas as indicações mais fortes dão conta de que as desavenças entre os organizadores é que afastaram Omar Actis do comando daquele Mundial. Solto para lavar os seus dólares, Lacoste tratou de, primeiro, erguer três canchas: o estádio Malvinas Argentinas, de Mendoza, o Olímpico de Córdoba e o José María Minella, de Mar del Plata. Mais além dos que nasceram do vazio, outros palcos foram remodelados – o Monumental de Nuñez, do River, situado a três quadras de uma delegacia onde prisioneiros eram torturados, o José Amalfitani, do Vélez, e o Gigante de Arroyito, do Rosario Central.

Estruturados os estádios, cabia então ao “Flaco” César Luis Menotti a armação do escrete argentino que iria a campo com missões incertas: pelear por vencer o Mundial e elevar ao real o sonho popular ou mostrar um posicionamento contrário às atrocidades que ocorriam no país e que se utilizavam daquela jaqueta, a celeste e branca tão cultuada, para assegurar a popularidade do regime com a população. A verdade é que era uma tarefa complexa demais para chutadores de pelota – boicotar uma ditadura era uma ilusão para uma classe historicamente alienada, mesmo na Argentina. Além do mais, havia o fervor popular, a responsabilidade de sair campeão como local e a oportunidade, talvez única, de gravar o nome na memória da maior competição futebolística. O que os atletas de 78 dizem é que marcar gols, frear os atacantes adversários ou gambetear naquelas jornadas são significava compactuar com o regime – era simplesmente cumprir um papel há muito designado. E que nem os malditos anos de exceção poderiam alterar.

É o que afirmava o atacante Leopoldo Luque, que em 1978 defendia o River Plate: “¿A quién no le hubiera gustado jugar y salir campeón mundial con un gobierno democrático? Pero yo tiraba paredes con Kempes y Bertoni, no con la Junta”. Se julgar os jogadores parece forjar uma conscientização apenas utópica, o mesmo não se pode direcionar a Menotti. Ele, que assumia a condição de homem de esquerda, politizado e oposicionista do governo militar, não fez nem menção de dirigir o esperado discurso aos generais. Cabia a Menotti explicitar para a imensa torcida argentina a independência daquela seleção – mas, por temer as consequências, o cargo ou por estar também dopado pela fantasia mundialista, não abriu a boca. Jorge Valdano, ex-jogador e treinador argentino, opina sobre Menotti: “en defensa de Menotti debo decir que yo oí las palabras que él dirigió a los jugadores antes de la final. El dijo: ‘Nosotros somos el pueblo, pertenecemos a las clases perjudicadas, nosotros somos las víctimas y nosotros representamos lo único legítimo en este país: el fútbol. Nosotros no jugamos para las tribunas oficiales llenas de militares sino que jugamos para la gente.”

Se para Menotti e os jogadores o sentimento em relação ao desempenho naquela Copa já não era dos mais claros, para alguns torcedores o torcer incondicionalmente para a Argentina era uma tarefa que exigia reflexão prévia. Um dos relatos mais interessantes é o do jornalista Roberto Benedetto, que escreve sobre o Mundial na sua perspectiva de hincha. Benedetto esteve em Rosario na primeira partida da segunda fase, quando a Argentina enfrentaria a Polônia. Pendendo entre a decisão de ignorar totalmente a partida, o apoio para uma seleção que representava, apesar de tudo, um país muito maior do que o contingente dos quartéis, e a torcida para a seleção européia, como forma de protesto, o jornalista decidiu por soltar o grito dos inconformados: as ofensas dirigidas aos milicos das tribunas, no entanto, não encontraram coro entre os 40 mil torcedores – Videla, o presidente da época, e a alta cúpula do governo, presentes na partida, receberam até aplausos.

Após o absurdo presenciado no Gigante de Arroyito, Benedetto decidiu expurgar o Mundial dos seus pensamentos – mas quando a maldita Copa surgiu na cabeça, ele conta que desejava a eliminação imediata da Argentina, para que aquele torpor massivo enfim tivesse o seu final. Como se sabe, a partir de cada desarme preciso de Passarella e dos gols infindáveis de Kempes, a Argentina alcançou a finalíssima, na qual bateu a Holanda que não tinha Cruyff: o camisa 14 recusou-se a viajar ao se interar da situação política no sul da América. Houve a festa inevitável pelas principais ruas de Buenos Aires, La Plata, Avellaneda, Salta e os milicos repetiam insistentemente que a realização do Mundial havia sido magistral: os argentinos haviam vivenciado a maior competição futebolística da história.

Mas o golpe doeu fundo demais e, ao acordar daquela anestesia – tão semelhante à aplicada nos vôos da morte – o argentino se envergonhou da sua primeira taça. Porque no troféu não só a conquista do campeonato de futebol aparecia. Ao observar com atenção os detalhes do caneco, surgiam as acusações logo confirmadas da tortura, dos desaparecimentos, dos vôos derradeiros e inclusive da morte pura e simples. Agora, a morte não era a mesma que poderia ser superada nas canções dos clubes de Buenos Aires – “ni la muerte nos va a separar, en el cielo nos vamos a encontrar” ou a intransponível da cantiga do Cerro de Montevideo: “y la muerte nos va a separar, pero será la muerta y nada más”. A morte agora não era o ingrediente dramático de uma canção da barra-brava – e sim o aspecto mais vergonhoso do Mundial de 78.

Iuri Müller é jornalista e colunista do blog Impedimento, Solamente futebol sul-americano.

Fonte: http://www.brasildefato.com.br/

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Como nascem os bancos!

Direitos Humanos no Brasil - Por Latuff

Pirataria e Ética Hacker - Por Jamile Borges



PIRATARIA E ÉTICA HACKER
Jamile Borges

Antropóloga, Professora da FACED-UFBA e Coord. técnica do Museu Digital da Memória Afro-Brasileira. http://www.arquivoafro.ufba.br

Eles já foram símbolo de medo, terror e morte. Já povoaram nossas fantasias e as telas de Hollywood. Hoje, representam a promessa de liberdade na política e na sociedade. De quem estou falando? PIRATAS!

Atos de pirataria eram praticados por tripulantes de navios sem bandeira, em alto-mar, contra propriedades ou pessoas, numa época em que o comércio era primordialmente realizado por vias marítimas. Eram homens que não se submetiam a qualquer tipo de lei; saqueavam embarcações de mercadores e percorriam as rotas comerciais em busca de objetos de valor. Eram vistos como mercenários, assassinos, párias da sociedade.

O mundo mudou e as formas de vender e comprar também mudou. Dos regimes mercantilistas e feudais ao capitalismo globalizado de agora, ser pirata pode até dar certo “status”.

Pirataria nos dias atuais tem outra definição; são novas formas de comércio intelectual, representando uma nova ética: aquela que vai contra a propriedade do conhecimento e a favor da livre circulação de bits. É a chamada Ética hacker. Na prática, isto significa trabalhar sob um sistema de três pilares: colaboração, conhecimento e liberdade.

Noam Chomsky (1928- ) famoso linguista e professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT-EUA), no prefácio de seu livro “Piratas & Imperadores, Antigos & Modernos”, (editado pela Bertrand Brasil em 2006) relata a seguinte história: "Santo Agostinho conta a história de um pirata capturado por Alexandre, o Grande, que lhe perguntou: 'Como você ousa molestar o mar?' 'E como você ousa desafiar o mundo inteiro?', replicou o pirata. 'Pois, por fazer isso apenas com um pequeno navio, sou chamado de ladrão; mas você, que o faz com uma marinha enorme, é chamado de imperador.”

Esse relato pode nos ajudar a entender as dimensões da pirataria em seu sentido político. Há alguns anos atrás, nomes como Tim Berners-Lee, Steve Wozniak e Linus Torvalds foram também considerados perigosos, hackers, por rejeitarem os modelos propostos para o que se prenunciava como sociedade da informação. Foi o compromisso com a partilha e a livre circulação da informação que os tornou responsáveis por criar aquilo que hoje conhecemos como Internet, World Wide Web (WWW) e a plataforma livre LINUX, concorrente direto da mais difundida empresa de software proprietário do mundo: a Microsoft Windows.
Importante destacar também que aquekes indivíduos que praticam a quebra (ou cracking) de um sistema de segurança, de forma ilegal ou antiética são chamados de Crackers para distingui-los dos Hackers.

Pekka Himanen, um jovem pesquisador finlandês, autor de uma das mais famosa obras do gênero, The Hacker Ethic and the Spirit of the Information Age diz que estamos assistindo a emergência de uma nova ética, que quer se distanciar da ética protestante anunciada pelo sociólogo e economista alemão Max Weber e distante também da ética do trabalho do mundo capitalista. O hacker, segundo ele, deve ser visto como aquele sujeito que no inicio dos anos 60 do século XX, contagiava os jovens com a promessa de um mundo mais solidário e mais colaborativo. Uma espécie de resistência ao modelo de acumulação produtiva do sistema capitalista.

Para Himanen o motor da sociedade do conhecimento não deve ser o capital ou a lógica do trabalho industrial, mas a lógica da paixão criativa, geradora de saberes, colaborativa, não-hierárquica e participativa.

Acho importante ressaltar que este fenômeno, típico da chamada “sociedade em rede”, parafraseando o sociólogo Manuel Castells, deve ser lido mais do ponto de vista socio-antropológico que sob a ótica do desenvolvimento técnico, isto é, a transformação em curso na sociedade contemporânea resulta menos do entendimento e da importância da técnica pelas pessoas e mais da vivência sociológica e do uso contumaz e cotidiano das redes sociais, twitter, facebook, Orkut e outros ambientes de comunicação em massa.

Enfim, odiados pelas grandes corporações e endeusados por jovens no mundo afora, os novos piratas tem causas maiores e mais complexas que pilhar navios e singrar mares.

O que antes era idéia de um pequeno grupo de ativistas transformou-se num partido político, motivado pela condenação, em abril de 2006, dos quatro criadores do Pirate Bay, um dos maiores sites de compartilhamento de arquivos do mundo.

O Partido Pirata foi fundado em 2006 na Suécia, mas obteve apenas um por cento dos votos nas eleições legislativas daquele ano. Após o resultado do processo contra o Pirate Bay condenando seus criadores, o Partido Pirata conseguiu 7,1% dos votos na Suécia no total de votos de toda a Europa, o suficiente para ganhar um assento representativo. As bandeiras principais do partido repousam na tríade: desregulamentação de direitos autorais; abolição do sistema de patente (copyright); redução da vigilância na internet, isto é, diminuição da intervenção das grandes corporações na vida privada dos usuários de serviços de provedores e de compartilhamento de arquivos, combatendo, é claro, a pedofilia, homofobia e outros crimes sexuais e hediondos.
No Brasil, o partido pirata começou a se organizar em 2007 e no final do ano seguinte, seu fórum já contava com mais de 300 partipantes cadastrados.

Compartilhando a mesma bandeira do Partido Sueco, atua na defesa dos direitos humanos, na liberdade de expressão e no direito à privacidade, hoje ameaçadas pela tentativa de controlar e banir a troca de arquivos e o compartilhamento no conhecimento.

Um dos entusiastas dessa nova era, o filósofo Pierre Levy diz vivemos um destes raros momentos, em que, a partir de uma nova configuração técnica, quer dizer, de uma nova relação com o cosmos, um novo estilo de humanidade é inventado.

Para John Perry Barlow, ativista pela liberdade na Internet e autor da Declaração de independência do ciberespaço, quanto mais um programa é pirateado, mais provavelmente ele se tornará um padrão. Segundo ele, todos esses exemplos acerca dos partidos piratas e o crescimento de websites de downloads gratuitos, apontam para a mesma conclusão: a distribuição não comercial de informação aumenta a venda de informações comerciais. A abundância gera abundância.

Precisamos aprender a lidar com as novas demandas postas pela contemporaneidade para a nova sociedade da informação, o que significa dizer: lidar com as novas formas de ser e habitar esse novo cenário, cada vez mais palco de múltiplos avatares, hiperexposição, criação de novas e híbridas linguagens que nos desafia a sermos melhores leitores e intérpretes do que ainda está por vir.

Fonte: http://www.novae.inf.br/

“Devemos buscar uma revolução midiática”



“Devemos buscar uma revolução midiática”
Por Redação, 16.01.2010
Por Tatiana Merlino, Cristiano Navarro*, Igor Ojeda* e Nilton Viana* (*)

O silêncio é, paradoxalmente, um dos principais mecanismos adotados pelos meios de comunicação para manipular os fatos. Se uma notícia não interessa aos donos da imprensa e, consequentemente, aos donos do mundo, ela simplesmente não é veiculada. Tal denúncia é feita pelo jornalista espanhol Pascual Serrano, um dos fundadores da página alternativa Rebelión e autor do livro “Desinformación. Como los médios ocultan el mundo”, lançado no ano passado.

“Se contarem muitas mentiras, perderão sua credibilidade, perderiam sua eficácia como mecanismo de formação de opinião”, diz, em conversa na Escola Nacional Florestan Fernandes, em Guararema (SP). Portanto, segundo ele, os meios, além de ignorarem seletivamente determinados fatos, lançam mão de outros expedientes, como a descontextualização e a linguagem enviesada. Para Serrano, só há um modo da esquerda se defender de tamanha manipulação. Criar seus próprios meios, em vez de ficar esperando por pequenos espaços na grande mídia.

Você tem um livro chamado “Desinformação. Como os meios ocultam o mundo”. Quais são os principais mecanismos que os meios utilizam para ocultar o mundo?

Eu dividiria em dois mecanismos. Por um lado, os estruturais: ou seja, os mecanismos cotidianos de funcionamento da imprensa que, por seu modelo de trabalho, são incompatíveis com a explicação do mundo.

Fundamentalmente, seria a falta de antecedentes sobre um contexto para se compreender uma situação complexa, a dinâmica da televisão – que, com seu ritmo trepidante, impede a compreensão, sobretudo, de assuntos complicados – e o culto ao sensacionalismo da imagem – que ocorre muito na televisão. Isso impede aprofundar as questões e enviar uma mensagem complexa. Por exemplo, quando você quer dar um sentido simples – que o Irã tem bomba atômica ou que o Chávez é um ditador –, isso pode ser dito em poucas palavras. Mas se você quer explicar que a política dos EUA está provocando um genocídio no Afeganistão, isso exige uma explicação mais complexa.

Uma outra situação é quando há um consenso e um plano premeditado por parte dos grandes meios para enviar uma mensagem concreta. Isso contempla estigmatizar ou criminalizar líderes políticos que não são do gosto do establishment mundial, até criminalizar movimentos sociais, ou determinados coletivos ou causas. Atentem para o fato de que o mecanismo não é somente a mentira, que essa existe, mas não é a mais habitual. Porque eles sabem que sua principal carta é a credibilidade. Se contarem muitas mentiras, perderão sua credibilidade, perderiam sua eficácia como mecanismo de formação de opinião. Ou seja, o plano é mais refinado: utilizam-se de silenciamentos de notícias que eles não gostam.

Por exemplo: a missão Milagre, realizada em uma parceria entre Venezuela e Cuba, que fez com que um milhão de pessoas de origem humilde na América Latina e Caribe conseguissem recuperar a visão, é notícia, parece evidentemente relevante , mas isso está silenciado. Além disso, eles também jogam com o enquadro, o enfoque da notícia, buscando elementos dentro de um contexto que levem para uma tese e não para outra. E o que fica claro no livro é que o modelo muda de uma região para outra, de um tema para outro. Por exemplo: no conflito Palestina-Israel, o problema é a falta de contexto. Ninguém, neste momento, parece saber dizer a origem deste conflito, apesar dele estar presente todos os dias no noticiário. Utilizam a linguagem como método de manipulação, de maneira que sistematicamente chamam de terrorista os palestinos. Chamam de sequestrados os soldados israelenses capturados. Chamam de detidos os civis palestinos que são sequestrados pelo exército israelense. Na África, por exemplo, aplica-se o silenciamento, ou apresenta-se os conflitos como questões tribais, em vez de mostrarem os interesses de empresas e poderes coloniais como França e EUA. E, na América Latina, utilizam a estigmatização e criminalização constante dos líderes, como Hugo Chávez, Evo Morales ou Fidel Castro.

No caso da Venezuela, é curioso, porque apresentam como escândalos notícias que se apresentam como normais em outros países. Reivindicam como escândalos a não renovação de uma concessão de TV cujo prazo acabou e a mudança de um fuso horário. Há outra pauta habitual em relação à América Latina, através da qual o presidente ou o líder político são apresentados sempre em meio a uma imagem de crise, desestabilizações e caos. Isso faz com que, na Europa, todo mundo conheça os nomes dos presidentes da Bolívia e da Venezuela, mas não conheçam o nome do presidente do Peru ou do México. Inclusive, se você pergunta quem teria sido outro presidente da Bolívia ou da Venezuela, não sabem dizer. E dos últimos anos, Evo Morales e Hugo Chávez, todo mundo sabe quem é.

Quais foram os métodos utilizados para fazer o livro, como foi a pesquisa?

O livro nasceu um pouco da minha experiência como diretor da Telesur, onde observei que tudo que chega das agências de notícia e, inclusive, os hábitos dos jovens jornalistas, impedem explicar em profundidade o está acontecendo no mundo. Então, refleti sobre como explicar o mundo com suficiente complexidade na televisão.

Tudo que eu quis fazer na Telesur muitas vezes não é possível fazer em uma televisão por imperativos técnicos, econômicos, logísticos ou de imagem. Assim, comecei a entrevistar especialistas e jornalistas que considero autores de confiança e que conhecem em profundidade diferentes regiões – por exemplo, sobre Afeganistão, Congo, Cuba, China. Enfim, perguntei a estes especialistas sobre a zona que conheciam. Perguntei se o que passa na imprensa se ajusta ao que acontece. Eles, evidentemente, opinaram e mostraram como determinadas situações não estão ajustadas ao que está sendo contado nos meios de comunicação. Falei com as organizações de direitos humanos que estão nos locais. Busquei analistas que trabalham com meios de comunicação, observatórios de meios de comunicação, especialistas nos seguimentos de notícia em âmbito acadêmico. Conversei com meios alternativos que não estão tão influenciados por interesses publicitários ou de grupos econômicos empresariais.

Você acredita que existe uma espécie de plano estabelecido entre os diversos meios para desinformar ou as coisas acontecem de forma mais natural e automática, como sendo uma espécie de ação de imprensa que vai se estabelecendo?

Não é um plano desenhado, mas parte da evolução espontânea do mecanismo de funcionamento dos meios de comunicação. Seguindo a ideia: meios de comunicação são propriedades de grandes grupos empresariais. Interesses econômicos de grandes empresas multinacionais pedem grandes investimentos em publicidade. Políticos liberais que não gostam de políticas progressistas reagem em conjunto com estes atores. Ou seja, assim se forma um consenso para satanizar o Hugo Chávez ou para satanizar ou criminalizar a Revolução Cubana.

A grande imprensa não se reúne para dizer: “como vamos atacar Cuba ou Chávez?”. Os interesses destes grupos econômicos é que vão atuar em consenso, sem necessidade de se coordenarem. Um exemplo claro são os países latino-americanos que passam por reformas nas leis de comunicação. A reação dos grandes meios de comunicação na Venezuela, na Argentina e no Equador foi igual. Governos que iniciam processos de democratização dos meios de comunicação, cedendo espaço aos movimentos sociais, meios independentes e imprensa livre, encontram sistemática oposição de grupos midiáticos espanhóis, bolivianos, argentinos e equatorianos. E, se amanhã houver uma iniciativa como essa no Brasil, será igual.

Mas, se por um lado não há um plano, por outro existe uma articulação dos meios, como, por exemplo, a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) ou a ONG Repórteres Sem fronteira. Como é esta articulação?

Sim, eles têm mecanismos de combate comum. E é bom decifrar como operam e como não têm nenhuma legitimidade ou representatividade. Por exemplo, quando se fala da Sociedade Interamericana de Imprensa, não devemos nos cansar de explicar que se trata de uma associação patronal. Que defende as empresas e não representa nenhuma liberdade de expressão. É como se empresas que constroem estradas falassem da falta de liberdade de movimento porque estão impedidas de construírem uma estrada na Amazônia. Não, liberdade de movimento é diferente de construir estradas.

Além disso, temos que esclarecer que quando as empresas falam de liberdade de expressão, estão reivindicando o seu direito de censura. Ou seja, querem continuar com seu direito de manter o oligopólio e o controle da informação. Dizer o que pode ir ou não para a tela e chegar ao público. A Repórteres Sem Fronteiras é algo similar. Tem denunciado os jornalistas mortos no Iraque, mas muda de reação quando fala da Colômbia. Recentemente, fiz em uma entrevista com um jornalista colombiano que disse que uma vez perguntou a um representante da Repórteres Sem Fronteiras como ele considerava a liberdade de expressão na Colômbia. Ele respondeu: “Sim, é verdade que nos matam, mas na Colômbia a liberdade de expressão existe”!

Quais são os países onde a desinformação é maior? Em qual nação os meios estão mais concentrados?

Eu acredito que o país mais desinformado é os EUA, considerando a quantidade de recursos que o governo estadunidense tem para infiltrar analistas, comprar jornalistas, pressionar as linhas informativas aos seus interesses. Ademais, os lobbies das empresas, como as de armas, sobre conteúdos jornalísticos, ficou claro na guerra do Iraque. Em alguns países, as denúncias de que não haviam armas de destruição massiva ou de que era uma invasão ilegal ao país do Oriente Médio tiveram uma certa aceitação.

Nos EUA, dados de analistas e informações mostraram que a desinformação publicada a respeito da invasão era totalmente a favor da intervenção. Ao ponto em que 51% dos estadunidenses acreditavam que Saddam Hussein havia participado pessoalmente nos atentados de 11 de setembro. O que demonstra claramente que foram enganados.

Mas acredito que o país onde a desinformação levou ao enlouquecimento manipulador de maneira mais violenta e radical é a Venezuela. O livro narra exemplos impressionantes. Não só como os meios de comunicação venezuelanos tratavam o Chavéz, mas como as informações chegavam a outros países. Me lembro de uma manifestação a favor de Chávez que as televisões, ao vivo, para mostrarem que haviam poucas pessoas, filmaram a dois quilômetros de onde estava acontecendo o ato. Ou mostravam e repassavam para outros países imagens de manifestação em oposição a Chávez com imagens gravadas há anos!

Como é possível se contrapor a este poder?

Neste momento, o principal mecanismo de combate que o capital e a burguesia possuem contra os governos progressistas não é sequer a ameaça de um golpe militar, são os meios de comunicação. Já conseguiram coisas que nenhuma empresa e nenhum governo conseguiram. Maior impunidade, menos controle por parte das legislações. Creio que os governos progressistas reagiram demasiadamente atrasados. Evo Morales ou o Lula passaram anos reclamando que os meios de comunicação não paravam de atacá-los e agredi-los. Apenas reclamar me parece uma política ineficaz.

Se um governo progressista é atacado, o que ele tem a fazer é desenvolver políticas públicas para evitar isso. É como em educação: se não há colégio para todas as crianças, os governos não devem vir se queixar, devem construir escolas. E estes governos devem criar políticas públicas de democratização da comunicação. Mas estes meios públicos e comunitários não podem se converter em meios de governo, presidentes e partidos. Devem ser participativos, democráticos e estar sob controle do cidadão. Esses são pontos imprescindíveis e que estão se desenvolvendo lentamente, mas com passos firmes. A Venezuela está na primeira linha de desenvolvimento de meios comunitários e públicos, à frente da Europa.

Você acredita que a esquerda, de maneira geral, já se deu conta da importância dos meios de comunicação como mecanismo de resistência à dominação das elites?

A esquerda se deu conta, ela é consciente de que tem grandes inimigos nos meios de comunicação, mas não sabe o que fazer. Durante muitos anos, a esquerda achou que deveria pactuar com os grandes meios. Organizando entrevistas coletivas, passando as informações, dando subvenção fiscais. Assim, acreditaram em um acordo com o capital, pensando que ele os poderiam deixar governar. A esquerda tradicional, seja em governos progressistas ou em partidos políticos, precisa compreender que não há pacto possível. Os grandes meios somente hipotecam espaços, mas não deixarão que nada se mova. O que devemos buscar é uma revolução midiática. Pois o dilema da mídia é o mesmo dilema que há em outros setores. Então, não há pacto com latifundiário, porque ele nunca vai querer perder o latifúndio, nem de terra, nem de mídia. Porque são empresas de comunicação e, por trás, grupos de empresários e um modelo econômico.

Como é o panorama da imprensa de esquerda na Espanha?

É deprimente. O México tem um excelente jornal, que é o La Jornada. No Brasil, vocês têm o Brasil de Fato, que é uma experiência muito bonita de coordenação dos movimentos sociais para ter uma publicação, o que é algo muito difícil. Na Itália, ainda há o Il Manifesto e outros ligados à esquerda. Mas na Espanha não.

* Do jornal Brasil de Fato.

Fonte: http://www.fazendomedia.com/

Israel ameaça Abbas de transformar a Cisjordânia em “uma segunda Gaza” se o presidente palestino não adiar votação do Relatório Goldstone



Israel ameaça Abbas de transformar a Cisjordânia em “uma segunda Gaza” se o presidente palestino não adiar votação do Relatório Goldstone

Israel ameaçou o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, para que adiasse uma votação no Conselho de Direitos Humanos da ONU do relatório do juiz Richard Goldstone sobre a última ofensiva israelense na Faixa de Gaza, informa hoje o jornal “Haaretz”.

“O pedido veio depois de um encontro particularmente tenso com o chefe do serviço de segurança interno, o Shin Bet”, informa hoje edição eletrônica do jornal israelense.

Segundo o “Haaretz”, a reunião entre o chefe do Shin Bet, Yuval Diskin, e Abbas ocorreu na Muqata, sede do governo de Ramalá.

Nela, Diskin disse a Abbas que, se não pedisse o adiamento da votação, Israel transformaria a Cisjordânia em “uma segunda Gaza”.

O relatório de Goldstone, estudado pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU em Genebra no mês de Outubro, denuncia crimes de guerra cometidos por Israel e pelo movimento islamita Hamas durante os 22 dias de confronto na Faixa de Gaza entre Dezembro de 2008 e Janeiro de 2009.

Durante a ofensiva militar israelwnse, a de maior envergadura em Gaza desde 1967, mil e 400 palestinos morreram – em sua maioria civis, enquanto 13 israelitas faleceram.

Por causa do pedido da ANP, o Conselho de Direitos Humanos apoiou o adiamento de uma votação para transferir o relatório para o Conselho de Segurança das Nações Unidas com a recomendação de que, se as partes não investigassem as denúncias até Março, o caso deveria ser levado para o Tribunal Penal Internacional.

Após o Hamas aproveitar a situação para desprestigiar Abbas, o presidente da ANP voltou a dar a ordem para pedir que o relatório fosse votado o mais rápido possível, e assim ocorreu.

Israel considera que as conclusões da comissão liderada por Goldstone são tendenciosas e que o relatório se dedicou desde o início a condenar o Estado judeu.

Segundo uma fonte palestiniana próxima a Abbas, o “Haaretz” assegura que Diskin chegou à Muqata como parte de uma missão diplomática estrangeira, e que altos comandantes do Exército fizeram paralelamente as mesmas ameaças a outros líderes palestinos.

De acordo com o jornal, Diskin ameaçou cancelar as medidas aplicadas por Israel durante 2009 para facilitar a liberdade de movimento na Cisjordânia, e retirar sua aprovação a uma nova operadora de telefonia celular, Watania, com quem o Governo da ANP tinha um contrato que, caso não cumprido, levaria ao pagamento de dezenas de milhões de dólares norte-americanos em compensações.

Diante de uma comissão palestina que investigou a estranha solicitação da ANP à ONU, Abbas assegurou que a decisão não respondia a pressões externas, disse que tinha cometido um erro e lamentou que a decisão tivesse sido aproveitada por seus adversários para prejudicá-lo.

no Blog do Atheneu

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Libertados, os paramilitares voltam a Chiapas



Gloria Muñoz Ramírez

Desinformémonos

Acteal, Chiapas


Libertados, os paramilitares voltam a Chiapas

12 anos do massacre da etnia tzotil, segue a impunidade, com o agravante de que os 30paramilitares presos foram libertados, alguns deles assassinos confessos dos 45 tzotziles que rezavam em uma igreja

No dia 22 de dezembro de 2009, completam-se 12 anos do massacre em Acteal, comunidade dos Altos de Chiapas, da etnia tzotil. Mais um ano de impunidade, agora, com o agravante de que os 30 paramilitares que haviam sido presos foram libertados, alguns deles assassinos confessos dos 45 tzotziles (18 crianças, 22 mulheres e 6 homens) que estavam rezando em uma igreja.

É novembro, e, na comunidade, as crianças brincam no campo construído em cima do cemitério onde estão enterradas as vítimas. Acteal mudou sua fisionomia ao longo desses anos. O centro de toda comunidade está marcado pelo pesadelo do dia 22 de dezembro de 1997. A neblina nos Altos vai e vem. O ambiente frio como de costume, está carregado pela recente notícia da libertação de um segundo grupo de nove paramilitares que, assim como os 20 libertados em agosto deste ano, são responsáveis pela matança, segundo informações de Las Abeja, associação próxima à igreja à qual pertenciam todas as vítimas.

Sebastián Pérez Vázquez, presidente da mesa diretora da Associação Civil Las Abejas, afirma que os paramilitares continuam armados nas comunidades. “Atualmente tem muitas armas de paramilitares nas comunidades de Puebla, Yaxchemel, Los Chorros, Kanolal, La Esperanza e Acteal. As denúncias vêm sendo feitas há mais de 11 anos e a situação segue igual. Chiapas continua sendo um campo de batalha com mortos, desaparecidos, presos... As terras continuam sendo ocupadas por paramilitares. Estão dadas as condições para novas violências”.

Entrevistado na sede da associação, no centro do povoado, Pérez Vázquez alerta que, ao contrário do que preveem as indicações jurídicas que proíbem o retorno dos ex-detentos para a região, “ao menos dois deles já estão aqui”.

Mariano Luna Ruiz, sobrevivente do massacre, acrescenta: “Queremos a justiça, mas o governo não a faz. Nossa denúncia não é mentira, é a pura verdade. Sou testemunha disso, vimos àqueles que nos mataram. Mataram minha esposa, Juana Pérez Pérez, meu filho, meu cunhado, minha irmã e meus sobrinhos. Ficamos sabendo que já libertaram 29 pessoas e não queremos que nenhuma delas retorne aqui para a comunidade. Sabemos que foram eles que as mataram, e isso ainda me causa muita dor, mesmo depois de 12 anos. Não vamos parar de denunciar e de falar... que culpa tinha minha mulher?”.

María Vázquez Gómez, outra testemunha e sobrevivente, protesta: “Foram mortos minha mãe, meus irmãos e sobrinhos. São meus irmãos e companheiros que estão mortos. Estamos muito incomodados com o fato de os paramilitares terem sido libertados. Ainda hoje nos dói bastante, ficamos indignados quando soubemos que a Suprema Corte os libertaria... Estivemos lá e não nos levaram em consideração. Não voltaremos a ver nossos mortos, mas os familiares dos paramilitares, sim, voltarão a encontrá-los”.

Sete franguinhos para cada família

O líder da Las Abejas destaca que a atual estratégia do governo de Chiapas é dividir as comunidades. “Há menos de um mês vieram aqui pessoas do governo para nos oferecer bicicletas. Queriam entrar aqui para fazer seu palanque e queriam trazer uma Virgem de Guadalupe para Las Abejas. Aqui não estávamos sabendo de nada e recusamos a entrega. A esposa do governador veio para entregar sete franguinhos para cada família. Isso é uma clara provocação para dividir as comunidades. Agora mesmo, enquanto conversamos, a esposa do governador está aqui perto entregando coisas. Como é possível acreditar que vamos transformar a justiça com franguinhos?”, questiona, indignado, Pérez Vázquez.

Fonte: http://www.brasildefato.com.br

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Daniel Bensaid: a atualidade de um comunismo radical

Daniel Bensaid: a atualidade de um comunismo radical

A crise, social, econômica, ecológica e moral de um capitalismo que não retrocede diante de seus próprios limites e cuja desmedida e irracionalidade crescentes ameaçam ao mesmo tempo a espécie humana e o planeta, volta a colocar na ordem do dia “a atualidade de um comunismo radical”, invocado por Benjamin diante do aumento dos perigos do período entre guerras. Em seu último artigo, Daniel Bensaïd, falecido terça-feira, em Paris, analisa a atualidade do Manfiesto Comunista.

Daniel Bensaïd

Gravemente enfermo há vários meses, morreu terça-feira (12), em Paris, Daniel Bensaïd. Militante de esquerda desde a adolescência, Bensaïd foi um dos fundadores da Jeunesse Communiste Révolutionnaire (JCR), em 1966, e participou ativamente do movimento de Maio de 68, antes de participar da criação da Ligue Communiste (LCR), em 1969. Durante muitos anos, foi dirigente da LCR e da Quarta Internacional. Em 2009, engajou-se na criação de um novo partido de esquerda na França, o NPA (Novo Partido Anti-Capitalista).

Professor de Filosofia na Universidade de Paris VIII, Bensaid publicou diversos livros de filosofia e debate político, ajudou a construir as revistas Critique Communiste e ContreTemps e participou ativamente da criação da Fundação Louise Michel, defendendo nestes espaços um marxismo aberto e não dogmático. Também foi um participante ativo do processo de construção do Fórum Social Mundial.

Publicamos a seguir o último texto de Daniel Bensaïd, intitulado “Potências do comunismo”, uma análise sobre a atualidade do Manifesto Comunista:

Potências do comunismo
Em um artigo de 1843 sobre “os progressos da reforma social no continente”, o jovem Engels (20 anos) via o comunismo como “uma conclusão necessária que se é claramente obrigado a tirar a partir das condições gerais da civilização moderna”. Um comunismo lógico em resumo, produto da revolução de 1830, na qual os operários “voltaram às fontes vivas e ao estudo da grande revolução e se apoderaram vivamente do comunismo de Babeuf”. Para o jovem Marx, em troca, este comunismo não era ainda mais do que “uma abstração dogmática”, uma “manifestação original do princípio do humanismo”. O proletariado nascente havia “se jogado nos braços dos doutrinários de sua emancipação”, das “seitas socialistas”, e dos espíritos confusos que “divagam como humanistas” sobre “o milênio da fraternidade universal” como “abolição imaginária das relações de classe”.

Antes de 1848, este comunismo espectral, sem programa preciso, estava presente na atmosfera do tempo sob as formas “pouco polidas” das seitas igualitárias ou dos sonhos icarianos. No entanto, já então a superação do ateísmo abstrato implicava um novo materialismo social que não era outra coisa que o comunismo. “Assim como o ateísmo, enquanto negação de Deus, é o desenvolvimento do humanismo teórico, também o comunismo, enquanto negação da propriedade privada, é a reivindicação da vida humana verdadeira”. Longe de todo anticlericalismo vulgar, este comunismo era “o desenvolvimento de um humanismo prático”, para o qual não se tratava já só de combater a alienação religiosa, mas sim a alienação e a miséria sociais reais de onde nasce a necessidade da religião.

Da experiência fundadora de 1848 - ano que marca a primeira publicação do Manifesto Comunista, de Marx - à experiência da Comuna de Paris (1871), o “movimento real” que busca abolir a ordem estabelecida tomou forma e também força, dissipando as “loucuras sectárias” de então e expondo ao ridículo “o tom de oráculo da infalibilidade científica”. Dito de outra forma, o comunismo, que foi primeiramente mais um estado de espírito ou um, por assim dizer, “comunismo filosófico”, encontrava finalmente a sua forma de expressão política. Em um quarto de século, concretizou-se a sua mudança: de seus modos iniciais de aparição, de caráter filosófico e utópico, à sua forma política, por fim encontrada: a da emancipação.

1. As palavras da emancipação não saíram incólumes das tormentas do século passado. Pode-se dizer delas, como dos animais da fábula, que não morreram todas, mas que todas foram gravemente feridas. “Socialismo”, “revolução”, “anarquia” não estão em situação muito melhor que “comunismo”. O socialismo implicou-se no assassinato de Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo, nas guerras coloniais e colaborações governamentais até o ponto de perder todo o conteúdo à medida que ganhava em extensão. Uma metódica campanha ideológica conseguiu identificar, aos olhos de muitos, a revolução com a violência e o terror. Mas, de todas as palavras ontem portadoras de grandes promessas e sonhos de futuro, a do comunismo foi a que sofreu maior dano, por causa de sua captura pela razão burocrática do Estado e sua submissão a um empreendimento totalitário. Resta saber se, entre todas essas palavras feridas, há algumas que vale a pena reparar e pôr de novo em movimento.

2. É necessário para isso pensar o que ocorreu com o comunismo do século XX. A palavra e a coisa não podem ficar fora do tempo das provas históricas a que foram submetidos. O uso massivo do título “comunista” para designar o Estado liberal autoritário chinês pesará muito mais durante longo tempo, aos olhos da grande maioria, do que os frágeis brotos teóricos e experimentais de uma hipótese comunista. A tentação de subtrair um inventário histórico crítico conduziria a reduzir a idéia comunista a “invariantes” atemporais, a fazer dela um sinônimo das idéias indeterminadas de justiça ou de emancipação, e não a forma específica da emancipação na época da dominação capitalista. A palavra perde então em precisão política o que ganha em extensão ética ou filosófica. Uma das questões cruciais é saber se o despotismo burocrático é a continuação legítima da Revolução de Outubro ou o fruto de uma contra-revolução burocrática, verificada não só pelos processos, as purgas, as deportações massivas, mas também pelas convulsões dos anos 30 na sociedade e no aparato de Estado soviético.

3. Não se inventa uma nova palavra por decreto. O vocabulário se forma com o tempo, por meio de usos e experiências. Ceder à identificação do comunismo com a ditadura totalitária stalinista seria capitular diante dos vencedores provisórios, confundir a revolução e a contra-revolução burocrática, e fechar assim o capítulo das bifurcações, o único aberto à esperança. E seria cometer uma irreparável injustiça para com os vencidos, todas as pessoas, anônimas ou não, que viveram apaixonadamente a idéia comunista e que a vivenciaram contra suas caricaturas e falsificações. Vergonha daqueles que deixaram de ser comunistas ao deixar de ser stalinistas e que só foram comunistas enquanto foram stalinistas! (1)

4. De todas as formas de nomear “ao outro” necessário e possível do capitalismo imundo, a palavra comunismo é que conserva maior sentido histórico e carga programática explosiva. É a que evoca melhor o comum da partilha e da igualdade, o funcionamento comum do poder, a solidariedade frente ao cálculo egoísta e à concorrência generalizada, a defesa dos bens comuns da humanidade, naturais e culturais, a extensão aos bens de primeira necessidade de um espaço de gratuidade (desmercantilização) dos serviços, contra a rapina generalizada e a privatização do mundo.

5. É também o nome de uma medida diferente da riqueza social daquela da lei do valor e da avaliação mercantil. A competição “livre e não falseada” repousa sobre “o roubo do tempo de trabalho do outro”. Pretende quantificar o inquantificável e reduzir a sua miserável medida comum, mediante o tempo de trabalho abstrato, a incomensurável relação da espécie humana com as condições naturais de sua reprodução. O comunismo é o nome de um critério diferente de riqueza, de um desenvolvimento ecológico qualitativamente diferente da corrida quantitativa pelo crescimento. A lógica da acumulação do capital exige não só a produção para o lucro e não para as necessidades sociais, mas também “a produção de novo consumo”, a ampliação constante do círculo do consumo “mediante a criação de novas necessidades e pela criação de novos valores de uso”... “Daí a exploração da natureza inteira” e “a exploração da terra em todos os sentidos”. Esta desmedida devastadora do capital funda a atualidade de um eco-comunismo radical.

6. A questão do comunismo é primeiro, no Manifesto Comunista, a da propriedade: “Os comunistas podem resumir sua teoria nesta fórmula única: supressão da propriedade privada” dos meios de produção e de troca; não confundir com a propriedade individual dos bens de uso. Em “todos os movimentos, põem na frente a questão da propriedade, seja qual for o grau de evolução que tenha atingido, como a questão fundamental do movimento”. Dos dez pontos que concluem o primeiro capítulo, sete concernem às formas de propriedade: a expropriação da propriedade latifundiária e a vinculação da renda da terra aos gastos do Estado; a instauração de uma tributação fortemente progressiva; a supressão da herança dos meios de produção e de troca; o confisco dos bens dos emigrados rebeldes; a centralização do crédito em um banco público; a socialização dos meios de transporte e a construção de uma educação pública e gratuita para todos; a criação de manufaturas nacionais e a ocupação (para plantio) das terras sem cultivar. Estas medidas tendem todas elas a estabelecer o controle da democracia política sobre a economia, a primazia do bem comum sobre o interesse egoísta, do espaço público sobre o espaço privado. Não se trata de abolir toda forma de propriedade, mas sim “a propriedade privada de hoje, a propriedade burguesa”, o “modo de apropriação” fundado na exploração de uns pelos outros.

7. Entre dois direitos, o dos proprietários apropriarem-se dos bens comuns, e o dos despossuídos à existência, “é a força que decide”, diz Marx. Toda a história moderna da luta de classes, da guerra dos camponeses na Alemanha às revoluções sociais do século passado, passando pelas revoluções inglesa e francesa, é a história deste conflito. Resolve-se pela emergência de uma legitimidade oposta à legalidade dos dominantes. Como “forma política encontrada da emancipação”, como “abolição” do poder de Estado, como realização da república social, a Comuna ilustra a emergência desta nova legitimidade. Sua experiência inspirou as formas de auto-organização e de auto-gestão populares aparecidas nas crises revolucionárias: conselhos operários, soviets, comitês de milícias, cordões industriais, associações de vizinhos, comunas agrárias, que tendem a desprofissionalizar a política, a modificar a divisão social do trabalho, a criar as condições de extinção do Estado enquanto corpo burocrático separado.

8. Sob o reino do capital, todo progresso aparente tem sua contrapartida de regressão e de destruição. Em última instância, não consiste em mais do que mudar a forma de servidão. O comunismo exige uma idéia diferente e alguns critérios diferentes do que os do rendimento e da rentabilidade monetária. A começar pela redução drástica do tempo de trabalho obrigatório e a mudança da própria noção de trabalho: não poderá haver completo desenvolvimento individual no ócio ou no “tempo livre” enquanto o trabalhador permanecer alienado e mutilado no trabalho. A perspectiva comunista exige também uma mudança radical da relação entre o homem e a mulher: a experiência da relação entre os gêneros é a primeira experiência da alteridade e enquanto subsista essa relação de opressão, todo ser diferente, por sua cultura, sua cor, ou sua orientação sexual, será vítima de formas de discriminação e de dominação. O progresso autêntico reside, enfim, no desenvolvimento e na diferenciação de necessidades cuja combinação original faz de cada um e de cada uma um ser único, cuja singularidade contribui para o enriquecimento da espécie.

9. O Manifesto concebe o comunismo como “uma associação na qual o livre desenvolvimento de um é condição do livre desenvolvimento de todos”. Aparece assim como a máxima de um livre desenvolvimento individual que não deveria ser confundido nem com as ilusões de um individualismo sem individualidade submetido ao conformismo publicitário, nem como igualitarismo grosseiro de um socialismo de quartel. O desenvolvimento das necessidades e das capacidades singulares de cada um e de cada uma contribui para o desenvolvimento universal da espécie humana. Reciprocamente, o livre desenvolvimento de cada um e de cada uma implica o livre desenvolvimento de todos, pois a emancipação não é um prazer solitário.

10. O comunismo não é uma idéia pura, nem um modelo doutrinário de sociedade. Não é o nome de um regime estatal, nem o de um novo modo de produção. É o de um movimento que, de forma permanente, supera/suprime a ordem estabelecida. Mas é também o objetivo que, surgido deste movimento, o orienta e permite, contra políticas sem princípios, ações sem continuidade, improvisações diárias, determinar o que aproxima e o que afasta deste objetivo. Neste sentido, não é um conhecimento científico do objetivo e do caminho, mas sim uma hipótese estratégica reguladora. Nomeia, indissociavelmente, o sonho irredutível de um mundo diferente, de justiça, de igualdade e de solidariedade; o movimento permanente que aponta para a derrocada da ordem existente na época do capitalismo; e a hipótese que orienta este movimento na direção de uma mudança radical das relações de propriedade e de poder, a distância dos acomodamentos com um mal menor que seria o caminho mais curto para o pior.

11. A crise, social, econômica, ecológica e moral de um capitalismo que não retrocede diante de seus próprios limites e cuja desmedida e irracionalidade crescentes ameaçam ao mesmo tempo a espécie humana e o planeta, volta a colocar na ordem do dia “a atualidade de um comunismo radical”, invocado por Benjamin diante do aumento dos perigos do período entre guerras.

Nota
(1) Ver Mascolo, D. (2000) A la recherche d´un communisme de pensée. Paris : Editions Fourbis, p. 113.

Versão em espanhol publicada na Revista Viento Sur, traducción de Alberto Nadal (http://www.vientosur.info/). Tradução para o português: Marco Aurélio Weissheimer.

Fonte: www.cartamaior.com.br

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Abaixo a Impunidade! Por Latuff



Contra a impunidade dos crimes cometidos pela ditadura civil militar brasileira

Desde a Lei da Anistia, os familiares dos mortos e desaparecidos políticos da ditadura militar lutam na justiça ou em qualquer instância possível para terem o direito de saber o que aconteceu com seus entes e receberem seus restos mortais para enterrar e seguir em frente. Ao conversar com as representantes da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos, Suzana Lisbôa e Criméia Almeida, a impressão é de uma luta infinita, difícil e dolorosa e de escassos resultados. Coube aos familiares dos desaparecidos ? com seu luto inacabado ? contar, além da história dessas pessoas que morreram sob condições brutais lutando contra a ditadura, essa parte ainda desconhecida de nossa história. Até hoje, apenas quatro corpos foram encontrados dos 176 desaparecidos e os governos que sucederam os militares vêm ignorando sistematicamente todos os pedidos e determinações ? Comitê de Direitos Humanos da ONU e OEA ? para abrir os arquivos secretos da ditadura, e dar uma resposta concreta a essas famílias.

http://www.arlesophia.com.br/

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

EUA já têm 13 bases militares em torno da Venezuela - Por Ignacio Ramonet



EUA já têm 13 bases militares em torno da Venezuela

A Venezuela e sua Revolução Bolivariana estão rodeadas hoje por nada menos do que 13 bases estadunidenses na Colômbia, Panamá, Aruba e Curazao, assim como pelos porta-aviões e navios de guerra da IV Frota. Em outubro, o presidente conservador do Panamá, Ricardo Martinelli, admite que cedeu aos EUA o uso de quatro novas bases militares. O presidente Barack Obama parece ter deixado o Pentágono de mãos livres neste tema. E o presidente venezuelano Hugo Chávez denuncia que está sendo tramada uma agressão contra o país. O artigo é de Ignacio Ramonet.

Data: 11/01/2010

A chegada de Hugo Chávez ao poder, na Venezuela, em 2 de fevereiro de 1999, coincidiu com um acontecimento militar traumático para os Estados Unidos: o fechamento de sua principal instalação militar na região, a base Howard, situada no Panamá (fechada em virtude dos Tratados Torrijos-Carter, de 1977).

Em troca, o Pentágono escolheu quatro localidades para controlar a região: Manta, no Equador; Comalapa, em El Salvador, e as ilhas de Aruba e Curazao (de soberania holandesa). A suas – por assim dizer –“tradicionais” missões de espionagem, acrescentou novas atribuições oficiais a estas bases (vigiar o narcotráfico e combater a imigração clandestina para os EUA) e outras tarefas encobertas: lutar contra os insurgentes colombianos; controlar os fluxos de petróleo e minerais, os recursos de água doce e a biodiversidade. Mas, desde o início, seus principais objetivos foram vigiar a Venezuela e desestabilizar a Revolução Bolivariana.

Após os atentados de 11 de setembro de 2001, o Secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, definiu uma nova doutrina militar para enfrentar o “terrorismo internacional”. Modificou a estratégia de deslocamento no exterior, fundada na existência de enormes bases dotados de numeroso pessoal. E decidiu substituir essas mega-bases por um número mais elevado de Foreing Operating Location (FOL) e de Cooperative Security Locations (CSL), com pouco pessoal militar, mas equipado com tecnologias ultramodernas de detecção.

Resultado: em pouco tempo, a quantidade de instalações militares estadunidenses no estrangeiro de multiplicou, alcançando a insólita soma de 865 bases de tipo FOL ou CSL distribuídas em 46 países. Jamais na história uma potência multiplicou de tal modo seus postos militares de controle para espalhar-se pelo planeta.

Na América Latina, a reorganização de bases permitiu que a de Manta (Equador) colaborasse com o fracassado golpe de Estado de 11 de abril de 2002 contra o presidente Chávez. A partir daí, uma campanha midiática dirigida por Washington começou a difundir falsas informações sobre a suposta presença neste país de céculas de organizações como Hamás, Hezbolá e até Al Qaeda.

Com o pretexto de vigiar tais movimentos e em represália contra o governo de Caracas que, em maio de 2004, pôs fim a meio século de presença militar estadunidense na Venezuela, o Pentágono ampliou o uso de suas bases militares nas ilhas de Aruba e Curazao, situadas muito perto das costas venezuelanas, onde ultimamente tem se incrementado a visita de navios de guerra dos EUA. Esse fato foi recentemente denunciado pelo presidente Chávez:

“É bom que a Europa saiba que o império norte-americano está armando-se até os dentes, enchendo de aviões e navios de guerra as ilhas de Aruba e Curazao. (...) Estou acusando a Holanda de estar preparando, junto com o império yanqui, uma agressão contra a Venezuela” (1).

Em 2006, começa-se a falar em Caracas do “socialismo do século XXI, nasce a Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA) e Hugo Chávez é reeleito presidente. Washington reage impondo um embargo sobre a venda de armas para a Venezuela, sob o pretexto de que Caracas “não colabora suficientemente na guerra contra o terrorismo”. Os aviões F-16 da Força Aérea Venezuela ficaram sem peças de reposição. Diante desta situação, as autoridades venezuelanas estabeleceram um acordo com a Rússia para dotar a sua força aérea de aviões Sukhoi. Washington denunciou um suposto “rearmamento massivo” da Venezuela, omitindo que os principais orçamentos militares na América Latina, hoje, são os do Brasil, da Colômbia e do Chile. E que, a cada ano, a Colômbia recebe uma ajuda militar estadunidense de 630 milhões de dólares.

A partir daí, os acontecimentos se aceleram. No dia 1° de março de 2008, apoiadas pela base de Manta, as forças colombianas atacam um acampamento das Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia (FARC), situado no interior do território do Equador. Quito, em represália, decide não renovar o acordo sobre a base de Manta, que vencia em novembro de 2009. Washington respondeu, no mês seguinte, com a reativação da IV Frota (desativada em 1948, há 60 anos...) cuja missão é vigiar a costa atlântica da América do Sul. Um mês mais tarde, os Estados sulamericanos, reunidos em Brasília, replicam criando a União de Nações Sulamericanas (UNASUL) e, em março de 2009, o Conselho de Defesa Sulamericano.

Algumas semanas depois, o embaixador do EUA em Bogotá anuncia que a base de Manta seria transferida para Palanquero, na Colômbia.

Em junho, com o apoio da base estadunidense de Soto Cano, se produz o golpe de Estado em Honduras contra o presidente Manuel Zelaya que havia conseguido integrar seu país na ALBA. Em agosto, o pentágono anuncia que terá sete novas bases militares na Colômbia. E, em outubro, o presidente conservador do Panamá, Ricardo Martinelli, admite que cedeu aos EUA o uso de quatro novas bases militares.

Deste modo, a Venezuela e a Revolução Bolivariana se vêem hoje rodeadas por nada menos do que 13 bases estadunidenses na Colômbia, Panamá, Aruba e Curazao, assim como pelos porta-aviões e navios de guerra da IV Frota. O presidente Obama parece ter deixado o Pentágono de mãos livres neste tema. Tudo anuncia uma agressão iminente. Os povos da América Latina consentirão que um novo crime contra a democracia seja cometido na região?

(1) Discurso no Encontro da ALBA com movimentos sociais da Dinamarca, em Copenhague, dia 17 de dezembro de 2009

Ignacio Ramonet é jornalista, foi diretor do Le Monde Diplomatique entre 1990 e 2008.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: www.cartamaior.com.br

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Punidos e Impunes da Ansitia - Por Latuff



Com todo esse burburinho sobre a revisão da Lei de Anistia prevista no Programa Nacional de Direitos Humanos, um discurso tem sido frequente. Que se deva apurar os crimes cometidos de ambos os lados durante o regime militar, tanto dos militantes de esquerda quanto das forças de repressão.

O que a primeira vista pode parecer uma posição de aparente equilíbrio, traz na verdade um conceito reacionário, de que a resistência armada a um regime de exceção seja vista como crime (criminalização).

Não nos esqueçamos de que os militantes de esquerda que lutaram contra a ditadura militar no Brasil já tiveram punição suficiente. Foram presos, cassados, implacavelmente torturados, executados, desaparecidos. Já seus carrascos, sem nenhum arranhão, escaparam tranquilos da Justiça, indo se refugiar nos braços da Lei de Anistia, inclusive reverenciados pelos seus atuais colegas de farda nos clubes militares da vida.

Levar ao banco dos réus ex-militantes que pegaram em armas para enfrentar fascistas no Brasil seria tão absurdo quanto julgar os partisans pelos atentados cometidos contra militares alemães durante a ocupação da França na Segunda Guerra Mundial. É confundir, maliciosamente, vítimas com algozes...mais uma vez.

Por isso, meus caros internautas, eu lhes trago este checklist (acima), para que possam imprimir em papel cartão, num tamanho que caiba no bolso ou dentro da carteira. Quando o assunto for revisão da Lei de Anistia e alguém lhe disser que "ambos os lados devam ser punidos", mostre essa charge, só como um lembrete de mais essa verdade inconveniente.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Encontro de Zineiros – São Paulo, capital – Combat Rock

Encontro de Zineiros – São Paulo, capital – Combat Rock



Para quem tem interesse na cultura do Fanzine, e principalmente do Fanzine impresso (cada dia mais caro) esse encontro de zineiros tem como objetivo mostrar como anda o cenário atual, Zines que estão sendo lançados, trocar informações e procurar alternativas para manter esse estilo de arte mesmo com todas as dificuldades!

Venha divulgar seu Zine, ou simplesmente dar apoio para nossos zineiros que ainda mantém o espírito do Fanzine Vivo!!!






Evento
Dia 16/01/2010 – Sábado as 14 Horas
Rock Combat – Rua Barão de Itapetininga, 37 loja 66 (rua alta) Galeria Nova Barão






Provos Brasil: O Fanzine é uma forma de mídia poderosíssima, mas pouco utilizada. Os Zines fazem parte da nossa cultural.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Protesto contra o aumento dos transportes em São Paulo







Os cachorros do Estado como sempre aos seus postos, para correr e agredir aqueles a quem deveriam proteger!

Os poderosos se divertem, os empresários terão mais dinheiro para financiar as megalomaníacas campanhas eleitorais de se aproximam, e o povo o, povo sobre cassetetes e bombas de efeito moral – que moral é essa!

Os ônibus da cidade de São Paulo são um lixo, aí vêm esses hipócritas com propagandas televisivas que só iludem os estúpidos e mal-informados, que apelam as mais escabrosas mentiras, e enquanto somos obrigados a pagar caro por esse péssimo transporte que nos é oferecido a preço de ouro!

E quando alguns se sentem indignados porrada neles – 2,70 é crime contra o trabalhador e ter que pagar 4,00 pelo metrô é barbárie – esse outro meio de transporte é um engodo, na TV dos bacanas tudo funcionam, na hora do rush o bicho pega, superpopulação, um calor infernal, e se garoar já era, se chover então perderá nó mínimo 4 horas em pouco mais de 33 quilômetros os dois mandatários da cidade só circulam em suas belas águias metálicas.

E como sempre o povo assiste a tudo isso e nada!

Provos Brasil

Campanha tarifa zero!

Fotos: Julia Chequer – R7

Os EUA e a "pacificação presidencial" na América Latina - Por Noam Chomsky



Os EUA e a "pacificação presidencial" na América Latina

O presidente Barack Obama distanciou os EUA de quase toda América Latina e Europa ao aceitar o golpe militar que derrubou a democracia hondurenha em junho passado. O apoio ao processo eleitoral garantiu para os EUA o uso da base aérea de Palmerola, em território hondurenho, cujo valor para o exército estadunidense aumenta na medida em que está sendo expulso da maior parte da América Latina. Obama abriu a brecha ao apoiar um golpe militar, repetindo uma prática dos EUAbem conhecida na América Latina. O artigo é de Noam Chomsky.
Data: 07/01/2010

Barack Obama é o quarto presidente estadunidense a ganhar o Prêmio Nobel da Paz, unindo-se a outros dentro de uma longa tradição de pacificação que desde sempre serviu aos interesses dos EUA. Os quatro presidentes deixaram sua marca em nossa “pequena região” ("nosso quintal"), que "nunca incomodou ninguém", como caracterizou o secretário de Guerra, Henry L. Stimson, em 1945. Dada a postura do governo de Obama diante das eleições em Honduras, em novembro último, vale a pena examinar esse histórico.

Theodore Roosevelt
Em seu segundo mandato como presidente, Theodore Roosevelt disse que a expansão de povos de sangue branco ou europeu durante os quatro últimos séculos viu-se ameaçada por benefícios permanentes aos povos que já existiam nas terras onde ocorreu essa expansão (apesar do que possam pensar os africanos nativos, americanos, filipinos e outros supostos beneficiados).

Portanto, era inevitável e, em grande medida, desejável para a humanidade em geral que o povo estadunidense terminasse por ser maioria sobre os mexicanos ao conquistar a metade do México, além do que estava fora de qualquer debate esperar que os (texanos) se submetessem à supremacia de uma raça inferior. Utilizar a diplomacia dos navios de artilharia para roubar o Panamá da Colômbia e construir um canal também foi um presente para a humanidade.

Woodrow Wilson
Woodrow Wilson é o mais honrado dos presidentes premiados com o Nobel e, possivelmente, o pior para a América Latina. Sua invasão do Haiti, em 1915, matou milhares de pessoas, praticamente reinstaurou a escravidão e deixou grande parte do país em ruínas.

Para demonstrar seu amor à democracia, Wilson ordenou a seus mariners que desintegrassem o Parlamento haitiano a ponta de pistola em represália pela não aprovação de uma legislação progressista que permitiria às corporações estadunidenses comprar o país caribenho. O problema foi resolvido quando os haitianos adotaram uma Constituição ditada pelos Estados Unidos e redigida sob as armas dos mariners. Tratava-se de um esforço que resultaria benéfico para o Haiti, assegurou o Departamento de Estado a seus cativos.

Wilson também invadiu a República Dominicana para garantir seu bem-estar. Esta nação e o Haiti ficaram sob o mando de violentos guardas civis. Décadas de tortura, violência e miséria em ambos países foram o legado do idealismo wilsoniano, que se converteu em um princípio da política externa dos EUA.

Jimmy Carter
Para o presidente Jimmy Carter, os direitos humanos eram a alma de nossa política externa. Robert Pastor, assessor de segurança nacional para temas da América Latina, explicou que havia importantes distinções entre direitos e política: lamentavelmente a administração teve que respaldar o regime do ditador nicaragüense Anastásio Somoza, e quando isso se tornou impossível, manteve-se no país uma Guarda Nacional treinada nos EUA, mesmo depois de terem ocorrido massacres contra a população com uma brutalidade que as nações reservam para seus inimigos, segundo assinalou o mesmo funcionário, e onde morreram cerca de 40 mil pessoas.

Para Pastor, a razão era elementar: os EUA não queriam controlar a Nicarágua nem nenhum outro país da região, mas tampouco queria que os acontecimentos saíssem do seu controle. Queria que os nicaragüenses atuassem de forma independente, exceto quando essa independência afetasse os interesses dos Estados Unidos.

Barack Obama
O presidente Barack Obama distanciou os EUA de quase toda América Latina e Europa ao aceitar o golpe militar que derrubou a democracia hondurenha em junho passado. A quartelada refletiu abismais e crescentes divisões políticas e socioeconômicas, segundo o New York Times. Para a reduzida classe social alta, o presidente hondurenho Manuel Zelaya converteu-se em uma ameaça para o que esta classe chama de democracia, que, na verdade, é o governo das forças empresariais e políticas mais fortes do país.

Selaya adotou medidas tão perigosas como o incremento do salário mínimo em um país onde 60% da população vive na pobreza. Tinha que ir embora. Praticamente sozinho, os EUA reconheceram as eleições de novembro (nas quais saiu vitorioso Pepe Lobo), realizadas sob um governo militar e que foram uma “grande celebração da democracia”, segundo o embaixador de Obama em Honduras, Hugo Llorens. O apoio ao processo eleitoral garantiu para os EUA o uso da base aérea de Palmerola, em território hondurenho, cujo valor para o exército estadunidense aumenta na medida em que está sendo expulso da maior parte da América Latina.

Depois das eleições, Lewis Anselem, representante de Obama na Organização de Estados Americanos (OEA), aconselhou aos atrasados latinoamericanos que aceitassem o golpe militar e seguissem os EUA no mundo real e não no mundo do realismo mágico.

Obama abriu a brecha ao apoiar um golpe militar. O governo estadunidense financia o Instituto Internacional Republicano (IRI, na sigla em inglês) e o Instituto Nacional Democrático (NDI) que, supostamente, promovem a democracia. O IRI apóia regularmente golpes militares para derrubar governos eleitos, como ocorreu na Veenzuela, em 2002, e no Haiti, em 2004. O NDI tem se contido. Em Honduras, pela primeira vez, esse instituto concordou em observar as eleições realizadas sob um governo militar de facto, ao contrário da OEA e da ONU, que seguiram guiando-se pelo mundo do realismo mágico.

Devido à estreita relação entre o Pentágono e o exército de Honduras e à enorme influência econômica estadunidense no país centroamericano, teria sido muito simples para Obama unir-se aos esforços latinoamericanos e europeus para defender a democracia em Honduras. Mas Barack Obama optou pela política tradicional.

Em sua história das relações hemisféricas, o acadêmico britânico Gordon Connell-Smith escreve: "Enquanto fala, da boca para fora, em defesa de uma democracia representativa para a América Latina, os Estados Unidos têm importantes interesses que vão justamente na direção contrária e que exigem um modelo de democracia meramente formal, especialmente com eleições que, com muita freqüência, resultam numa farsa".

Uma democracia funcional pode responder às preocupações do povo, enquanto os EUA estão mais preocupados em construir as condições mais favoráveis para seus investimentos privados no exterior? Requer-se uma grande dose do que às vezes se chama de ignorância intencional para não ver esses fatos. Uma cegueira assim deve ser zelosamente guardada se é que se deseja que a violência de Estado siga seu curso e cumpra sua função. Sempre em favor da humanidade, é claro, como nos lembrou Obama mais uma vez ao receber o Prêmio Nobel.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: www.cartacapital.com.br