sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Estado Assassino: Governo de Israel suspeito de executar autoridade palestina


Governo de Israel suspeito de executar autoridade palestina
Por Gustavo Barreto, 18.02.2010

Silvan Shalom e Moshe Ya’alon, Vice-Primeiros-ministros do Governo de Israel (ambos do partido Likud), são assasinados por insurgentes do Movimento de Resistência Islâmico, o Hamas, com apoio de lideranças palestinas e cidadãos sírios, iranianos e libaneses.

Caso o cenário acima tivesse ocorrido, o tema teria ganho rapidamente todas as pautas de tevês e rádios nacionais e internacionais. Reuniões seriam convocadas em diversos âmbitos diplomáticos e, possivelmente, o Governo de Israel convocaria forças militares para responder violentamente ao ocorrido.

O cenário acima ocorreu. Só que mais ou menos ao contrário. E a reação foi pífia, principalmente por parte da imprensa nacional.

Um dos principais dirigentes do Hamas, Mahmoud al-Mabhouh, foi assassinado no último dia 20 de janeiro, num hotel de Dubai, pelo serviço secreto israelense, o Mossad, com a participação de três irlandeses, seis britânicos, um francês e um alemão. O caso abriu uma crise diplomática internacional. Mas os jornais e telejornais brasileiros deram três vezes mais destaque, por exemplo, à companhia circense Cirque du Soleil.

“É 99%, se não 100% seguro que o Mossad está por trás do assassinato”, declarou hoje (18) o general Dahi Jalfan Tamin, chefe da Polícia de Dubai, ao jornal emirati em inglês The National. Dubai registrou em câmeras de segurança a ação envolvendo o Mossad, com requintes de produção cinematográfica. Os assassinos teriam usado passaportes falsos para entrar no país. O chefe policial lembrou que os agentes de migração do aeroporto não detectaram irregularidades nos documentos dos suspeitos quando entraram no país, mas nos últimos dias pelo menos o Reino Unido e a Irlanda confirmaram que os passaportes eram falsos, informou a agência de notícias EFE.

Em um boletim policial divulgado hoje, o chefe policial antecipou que “nos próximos dias serão apresentadas novas surpresas que não deixarão qualquer dúvida” sobre a identidade dos supostos assassinos do dirigente do Hamas. Os suspeitos estavam disfarçados de turistas, usando perucas e barbas falsas. Segundo as autoridades locais, o trabalho “foi executado por um time profissional, altamente habilitado para esse tipo de operação”, noticiou a BBC Brasil [1]. São comuns ações clandestinas do Mossad contra autoridades palestinas, bem como a impunidade que se segue (leia histórico mais abaixo).

Britânicos cobram explicações
O Ministério de Assuntos Exteriores do Reino Unido convocou hoje mesmo o embaixador israelense em Londres, Ron Prosor, para falar do uso de passaportes britânicos falsos no assassinato. O embaixador israelense se reuniu por 20 minutos com o chefe do serviço diplomático britânico, Peter Ricketts, informou hoje a imprensa em Londres. O primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, prometeu ontem uma “investigação a fundo” sobre o caso. As fotografias e as assinaturas não coincidiam com o documento de seus proprietários.

Segundo a agência EFE, após a morte do líder do Hamas, a Polícia de Dubai emitiu ordem de busca e prisão contra 11 pessoas, cujos passaportes falsos incluíam os três irlandeses e os seis britânicos citados, assim como um alemão e um francês. As autoridades francesas e alemãs também levantaram suspeitas sobre as identidades dos suspeitos com passaportes de seus países.

O governo de Israel negou que houvesse evidências da participação de seu serviço secreto no assassinato do comandante do Hamas. Entretanto, segundo a BBC Brasil, o ministro das Relações Exteriores de Israel, Avigdor Lieberman, não chegou a negar formalmente que Israel tivesse participação no crime, seguindo a política de ambiguidade do governo israelense em relação a questões de segurança.

O braço que atua como partido político do Hamas foi eleito democraticamente em junho de 2007 nas eleições para o Parlamento Palestino, reconhecidas como legítimas pela comunidade internacional, obtendo larga maioria dos votos.

Em sua carta fundamental, em seus escritos e muitas de suas declarações públicas, o Hamas frequentemente usa o discurso de ódio contra Israel. No entanto, dirigentes do grupo afirmam que a Carta de Princípios da organização não prega de modo algum a destruição de Israel: em árabe, a intenção expressa seria a de colocar um fim na ocupação israelense da Palestina. [2]

O Governo de Israel frequentemente utiliza de um vocabulário de “ódio” contra o Hamas e outros grupos palestinos, mas na imprensa as declarações são quase sempre tratadas como “alertas”. Emir Sader complementa a notável ambiguidade: “(…) enquanto Hamas ‘odeia’ Israel, nenhum partido ou líder israelita jamais ‘odeia’ os palestinos, mesmo quando pregam sua expulsão.” [3]

Histórico de violência contra Hamas
O histórico de violência do Governo de Israel, que já foi julgado como governo terrorista por dezenas de vezes, contra grupos palestinos é notável. Em uma das últimas ações, em dezembro de 2008, o Hamas teve sua rede de assistência social e educacional na Faixa de Gaza destruída, durante a “Operação Chumbo Fundido”. Nesta ocasião, uma ofensiva militar das Forças de Defesa de Israel, realizada a partir do dia 27 de dezembro, ficou conhecida na maior parte do mundo árabe como o “Massacre de Gaza”.

Em 15 de setembro de 2009, uma comissão do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas (ONU) apresentou um relatório, concluindo que Israel “cometeu crimes de guerra e, possivelmente, contra a humanidade”, e que “embora o governo israelense tenha procurado caracterizar suas operações essencialmente como uma resposta aos ataques de foguetes, no exercício do seu direito de auto-defesa, a comissão considera que o plano visava, pelo menos em parte, um alvo diferente: a população de Gaza como um todo”. O mesmo relatório reconheceu que o lançamento de foguetes pelos insurgentes palestinos também configura crime de guerra. [4]

Segundo a ONG israelense de direitos humanos B’Tselem, a Operação Chumbo Fundido resultou na morte de 1.387 palestinos, mais da metade deles civis. 773 deles não participaram nos combates, incluindo 320 jovens ou crianças (252 com menos de 16 anos) e 111 mulheres. Do lado de Israel, houve 13 mortos, sendo três deles por “fogo amigo”. [5]


Ações criminosas do Mossad

A organização foi fundada em 1949, um ano após a criação do Estado de Israel, e seu primeiro diretor foi Reuven Shiloah (leia perfil da BBC Brasil). A agência de notícias France Presse publicou nesta quinta (18) um histórico das ações do Mossad, desde 1973, marcados pela violência e pela impunidade. Confira a seguir.

•Noruega, julho de 1973: após a morte de 11 atletas israelenses nos Jogos Olímpicos de Munique em 1972, Israel tenta assassinar todos os chefes do movimento palestino Setembro Negro, responsável pelo atentado. Em julho de 1973, agentes do Mossad matam por engano Ahmed Bushuki, um garçom de origem marroquina na cidade norueguesa de Lillehammer, ao confundi-lo com Hasan Salameh. O líder de Setembro Negro foi assassinado posteriormente em Beirute por agentes israelenses. Dez agentes de Israel conseguem fugir da Noruega. Outros três são condenados em 1974 por um tribunal de Oslo a cinco anos e meio de prisão. São libertados 22 meses depois.

•Chipre, abril de 1991: um policial do Chipre prende quatro agentes do Mossad que queriam colocar escutas na embaixada do Irã em Nicósia. Chipre e Israel solucionam a questão em duas semanas e os agentes são condenados apenas a uma multa.

•Jordânia, setembro de 1997: dois agentes israelenses são descobertos na Jordânia quando tentavam assassinar o chefe do braço político do Hamas, Khaled Mechaal, aplicando veneno. Khaled, que estava em coma, é salvo pela intervenção do rei Hussein da Jordânia, que exigiu que Israel entregasse um antídoto ameaçando romper as relações diplomáticas com o país. Para obter a libertação de seus agentes, Israel também precisou libertar o guia espiritual do Hamas, o xeque Ahmed Yasin.

•Suíça, 19 de fevereiro de 1998: a polícia surpreende cinco espiões do Mossad que instalavam um sistema de escutas telefônicas no sótão da casa de um homem de origem libanesa perto de Berna. Quatro deles ficaram em liberdade após enganarem os policiais. O outro foi preso e colocado em liberdade em abril de 1998. Em julho de 2000, foi condendo a 12 meses de prisão em Lausanne, com suspensão de pena.

•Chipre, 7 de novembro de 1998: dois israelenses, Udi Hargov, de 27 anos, e Igal Damari, de 49 anos, são presos no Chipre, na região costeira de Zigi, por espionarem as Forças Armadas greco cipriotas. A polícia do Chipre encontra em seu apartamento material que inclui mapas topográficos e um computador equipado para transmitir mensagens cifradas. São libertados em agosto de 1999.

•Nova Zelândia, 23 de março de 2004: Uriel Zoshe Kelman e Eli Cara são presos pela polícia, que os seguiu até o lugar onde deveriam retirar um passaporte para o qual foram apresentados documentos falsos. Condenados a seis meses de prisão, são colocados em liberdade em setembro de 2004. A partir deste caso, a Nova Zelândia suspendeu seus contatos mais próximos com Israel.

Referências
[1] BBC Brasil. “Grã-Bretanha questiona Israel sobre assassinato em Dubai”, Fevereiro 18, 2010. Disponível em http://www.bbc.co.uk/
[2] Spiegel Online International. “Anti-semitic Hate Speech in the Name of Islam”, Maio 16, 2008. Disponível em http://www.spiegel.de/
[3] Emir Sader, Fazendo Media. “A palavra e as coisas”. Março 23, 2007. Disponível em http://www.fazendomedia.com/
[4] The New York Times. “While the Israeli government has sought to portray its operations as essentially a response to rocket attacks in the exercises of its right to self-defense, the mission considers the plan to have been directed, at least in part, at a different target: the people of Gaza as a whole.” Setembro 19, 2009. The Gaza Report’s Wasted Opportunity, por David Landau. Disponível em http://www.nytimes.com/. Ver também http://pt.wikipedia.org/
[5] Folha Online. “ONG israelense diz que civis foram maioria das vítimas de ofensiva em Gaza”. Setembro 09, 2009. Disponível em
http://www1.folha.uol.com.br/; Portal G1. “Cronologia da ofensiva israelense contra a Faixa de Gaza entre 2008 e 2009″. Setembro 15, 2009. Disponível em http://g1.globo.com/

Fonte: http://www.fazendomedia.com/

Daniel Bensaïd: um lutador irredutível


Daniel Bensaïd: um lutador irredutível

Pensador francês, morto em janeiro, concedeu esta entrevista em 2008, na qual discute a união da esquerda e os efeitos da crise

11/02/2010 - Mariana Santos - de São Paulo (SP)

O filósofo e militante comunista Daniel Bensaïd morreu em janeiro aos 64 anos, em Paris, lutando, como em maio de 1968, pela união das esquerdas contra o capitalismo, com a fundação do Novo Partido Anticapitalista (NPA). Professor de Filosofia da Universidade de Paris VIII, foi fundador da Juventude Comunista Revolucionária, em 1966, e da Liga Comunista Revolucionária, em 1969, e dirigente da Quarta Internacional.

Nesta entrevista, concedida durante o lançamento do livro “Os irredutíveis” (Boitempo), em São Paulo (SP), em 2008, Bensaïd discute a força simbólica das lutas operárias e estudantis de 1968 na França, as conseqüências da aliança da socialdemocracia com o Estado neoliberal, a crise capitalista e a união das esquerdas anticapitalistas. Um dos fundadores do Fórum Social Mundial, Bensaïd sugeria uma nova palavra de ordem sob a pressão da crise capitalista: “outro mundo é necessário e urgente”.

Brasil de Fato – Como o senhor avalia as manifestações de maio de 68 na França?
Daniel Bensaïd – Acho que muitas vezes se lembra do maio de 1968 insistindo muito no aspecto estudantil. Então nós que fomos estudantes, somos conhecidos, mas isso tende a esconder o que faz de 68 uma data simbólica. Eu acho que a característica foi a greve geral. Em proporção à população, é a mais importante pelo menos da história da França. Quase 10 milhões de trabalhadores em greve durante três semanas. Por outro lado, também porque participa de uma série de acontecimentos internacionais. Não se pode pensar em 68 francês sem relacioná-lo com a ofensiva de fevereiro no Vietnã, a Primavera de Praga, o movimento dos estudantes no México e no Paquistão. É um conjunto de muita carta simbólica. Isso eu acho que tem certa importância, porque a greve – não digo que poderia ser feita uma revolução socialista, mas derrubar o governo como na greve geral – abria um cenário, não só para a França, mas para Europa, totalmente distinto durante os anos 70.

Quem são os irredutíveis, hoje?
Os que lutam. São muitos, das mobilizações da juventude, que conquistaram, dois anos atrás [em 2006], uma das poucas vitórias sociais dos 15 últimos anos. A grande mobilização da juventude conseguiu a retirada da lei chamada de contrato de primeiro emprego, que precarizava o trabalho da juventude, mas tem que ver também com um contrato parecido para os desempregados. Tem começado a aparecer coletivos de jovens desempregados que estão ocupando os supermercados para repartir comida, não no sentido Robin Hood, mas para denunciar a alta dos preços. São os trabalhadores que se mobilizam contra a privatização, o fechamento de fábricas. Tem muitas atividades sociais com poucas ou muito excepcionais vitórias. A mobilização sobre pensões, seguro social, ou educação, tanto em 1995, com as grandes greves, como em 2003, foram derrotados, e também a última, a mobilização juvenil do ano passado [2007] sobre a reforma da universidade. Tudo isso se perdeu, mas há possibilidade de se recompor um espaço não só de resistência social, mas também de radicalidade política. Isso em formas distintas significa quase em todos os países da Europa, uma remobilização social sem vitórias e o início de recomposição política até com certo impacto eleitoral. Isso tem a ver também com a crise, a quase desaparição dos partidos comunistas, e um debilitamento da social-democracia.

O senhor acredita que os valores neoliberais foram desmistificados com essa crise econômica?
Não quero generalizar, mas na França agora quase ninguém se diz liberal. Liberal parece sinônimo de capitalismo mau, mafioso, desonesto, imoral. Então, todo mundo, o governo primeiro, fala que é necessário moralizar o capitalismo, reinventar, refundar o capitalismo. Então, isso é importante no sentido simbólico. Todo discurso nos 25, quase 30 últimos anos de legitimar o capitalismo, de fetichismo de mercado, tudo isso de fato eu acho que feriu de morte o deus mercado. Agora, não significa que automaticamente tenha alternativa a isso e tampouco se sabe que tipo de novo discurso se pode inventar do lado do governo ou da socialdemocracia. A crise é muito recente, é só o início, mas já abalou a socialdemocracia. Então, tem mudado o discurso, alguns que pedem a nacionalização dos bancos. O próprio governo tem desistido agora da privatização do Correio que estava prevista para este ano [2008]. Está claro que é indecente, porque o motivo, o pretexto para privatizar era para atrair 3 bilhões de euros da iniciativa privada, enquanto o governo acaba de encontrar 40 bilhões de euros para salvar os bancos. Então, isso também está deslegitimado no momento. Vai ser muito difícil, por exemplo, seguir com a reforma do seguro social com a falência dos Fundos de Pensão nos Estados Unidos. Então não sei que discurso vão inventar para tentar encontrar uma nova legitimidade. Ademais, um problema que tem a Europa é que qualquer discurso, não digo revolucionário, mas de reforma um tanto sério, imediatamente se choca com o conjunto dos tratados da Constituição européia. Então, não vai ser uma crise econômica, mas também uma crise política da Constituição européia. Com que saída, ninguém sabe, depende das lutas e a crise vai ter efeitos contraditórios, de um lado intentos de dar um passo adiante na construção política da Europa. Por exemplo, criar o que [o presidente francês Nicolas] Sarkozy reivindica: um fundo soberano, uma reserva comum financeira européia. Mas, por outro lado, a crise provoca tendências centrífugas, porque cada país tenta salvar seus bancos, como a Alemanha, a Irlanda. Então, o que vai prevalecer das tentativas vai depender muito das lutas sociais.

Como o senhor avalia hoje o contexto internacional, a crise na Europa, o crescimento do fascismo e a articulação dos partidos de esquerda?
Eu acho que a esquerda européia é distinta da América Latina, é organizada desde os anos 1920 praticamente, em torno de corrente comunista stalinista e a socialdemocracia. Os partidos comunistas, com a desaparição da União Soviética, estão muito debilitados, alguns agonizando. Por outro lado, a socialdemocracia – que necessitaria confirmar minha hipótese – tem participado durante 25 anos do desmantelamento do Estado social, que é sua base de sustentação, porque é um mecanismo de manutenção da paz social, para assegurar um certo crescimento do nível de vida. Nesse processo, foi se destruindo metodicamente tanto o sistema de seguro social, como os serviços públicos e as empresas públicas com as privatizações. As lideranças, as cúpulas da socialdemocracia também têm mudado muito. Não são só funcionários de Estado, com em um certo sentido do serviço público, agora são organicamente associados ao capital financeiro e industrial. São os gerentes de confiança do capital. Isso eu duvido que será reversível. A conseqüência de tudo isso, o debilitamento dos PCs e a mudança da socialdemocracia, é a abertura de um espaço à esquerda da esquerda tradicional. Um espaço que não é ocupado de forma homogênea. A posição é que, para um futuro previsível pelo menos, haja uma total independência da socialdemocracia, nenhuma coligação, nem a nível de prefeitura, nem de governo etc. Isso parte da idéia de que saímos de uma derrota histórica no século 20. Então, é um início de reconstrução e, se queremos reconstruir algo sólido, não se pode confundir desde o início com operações táticas que confundem a gente. Tem que traçar para médio ou longo prazo uma perspectiva de reconstrução de verdade. Ora, a crise facilita, de certo modo, porque mostra quem quer reconstruir ou refundar o capitalismo e quem quer destruí-lo. É um ponto de divisão de águas bastante visível. Digamos que a nova esquerda, na Europa, está paralisada. Eu acho que tem um espaço da esquerda em disputa, tem várias opções. O que tentamos fazer é agrupar, não conclamar um partido, mas uma esquerda anticapitalista européia, para tentar fazer com nome comum a campanha à eleição européia de 2009. Com chapa na Polônia, Espanha, Itália, França, Inglaterra vai ser complicado, mas isso começa a firmar não só uma opção anticapitalista na França, mas dar, já jogando com um desenvolvimento desigual, uma perspectiva européia.

Na sua opinião, pode-se ter alguma perspectiva de uma retomada revolucionária nesse contexto de crise econômica internacional? Quais as tarefas da esquerda?
De um lado, digamos que a palavra simbólica de ordem dos fóruns sociais “outro mundo é possível”, hoje teria de ser mudada: “outro mundo é necessário e urgente”, o problema é fazê-lo possível, mas aqui tem que ser lúcido também. Se a hipótese seria de que o ponto de partida é uma derrota, não qualquer, mas uma derrota histórica das esperanças de libertação do século 20, se pode imaginar o início de um processo de reconstrução. Falo para a Europa. Revolução social do “dia para a noite” com a correlação de força atual..., porque não se trata só de reconstruir uma esquerda política, mas também de reconstruir os movimentos sociais. É preciso saber que na França os sindicalistas são apenas 10% da força de trabalho. É muito minoritária. Então se trata verdadeiramente de uma reconstrução, depois de uma derrota política, e em condições difíceis, porque o obstáculo não é só ideológico. Os efeitos da individualização do salário, do emprego, do seguro de pensão e flexibilização, tudo isso obstaculiza a organização coletiva. Então a reconstrução, a crise pode favorecer por um lado, mas vai ter efeitos contraditórios, gente que vai tentar salvar-se por si mesmo. Então é uma batalha política aberta. Na América Latina pode ser diferente. Que efeito vai ter a crise no processo bolivariano? Se vai retroceder, ou avançar, se a convergência Bolívia e Equador se fortalece, que resposta à crise, que uso do Banco do Sul, tem aparecido o tema de uma moeda latino-americana para desvincular-se do dólar, e não sofrer com o enfraquecimento do dólar. Tudo isso está em aberto. Eu acho que a mudança com a crise é que o discurso sobre o socialismo, o comunismo, está ganhando legitimidade. A ideia de que o capitalismo era o fim da história agora terminou. Eu acho que ninguém pode imaginar ou pretender saber que forma vão tomar as revoluções do século 21. Ninguém sabia em 1789 que ia haver uma revolução em Paris. Dizer que tem uma oposição quase sistemática entre uma lógica do capital, de concorrência, de todos com todos, de ganância privada, de egoísmo, falta de solidariedade, privatização do espaço público etc. E uma lógica alternativa que é de reconstrução do espaço público, defesa do serviço público, dos bens comuns da humanidade, como terra, água, ar etc., uma política solidária de energia, que tem também mais que uma dimensão ecológica, porque o que está em crise na realidade é a lei do valor como forma de organizar a vida social, que se traduz por uma crise social e ecológica. Não é para fazer manobras políticas, mas é o núcleo de um programa alternativo. Logo se vai ter essa envergadura de 1968, fazemos propaganda para isso, mas não depende de propaganda, acontece ou não acontece. Veremos. Mas, o importante é já convencer a gente que outra coisa é possível, o capitalismo não é fatal, não é o estado terminal da história, e que há outra lógica possível.

Fonte: http://www.brasildefato.com.br

No Metrô, Serra inaugura era do neoliberalismo total


No Metrô, Serra inaugura era do neoliberalismo total
Marcada por acidente, linha 4 deve dar início à privatização do sistema

18/02/2010
Renato Godoy de Toledo da Redação

A linha 4 Amarela do Metrô paulistano deve ser a principal vitrine eleitoral do governador de São Paulo e pré-candidato à presidência José Serra (PSDB). A obra está prevista para ser inaugurada até o fim de março, dias antes do limite para o tucano se licenciar do cargo.

Essa nova rota inaugura um novo modelo de gestão na Companhia do Metropolitano de São Paulo. Um consórcio controlado pela CCR, chamado Via Quatro, será responsável pela administração da linha, assim como pela fiscalização. Essa holding é composta por empreiteiras como Camargo Correa e Andrade Gutierrez e a principal acionista é a própria Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). O grupo já explora pedágios em estradas paulistas e federais, como a Via Dutra.

A principal premissa no contrato de Parceria Público-Privada (PPP) firmado entre governo estadual e empresa parece ser a lucratividade, baseada no baixo custo com a gestão. A garantia da taxa de lucro aos concessionários está inclusive em contrato. Se o valor acertado não for atingido com a cobrança de tarifas, o Estado tem que aportar o recurso restante.

A execução da obra foi marcada pelo acidente que vitimou 7 pessoas em janeiro de 2007. A CCR garante que a linha 4 será uma das mais modernas e seguras do mundo. Mas para o sindicato dos metroviários, a busca pelo lucro e a redução de custos planejados pelo governo e pela iniciativa privada podem vir em detrimento da segurança dos trabalhadores e dos usuários da linha.

Primazia do privado
O início da operação da linha 4 pode dar fôlego a novas licitações similares, num processo que culminaria na privatização completa do Metrô. Para justificar a preferência pelo modelo privado, a nova linha deve servir como um modelo de gestão, segundo críticos do governo paulista.

“A ideia da privatização das linhas é prejudicial, pois o Metrô é um sistema muito bem operado pelo setor público, com profissionais capacitados. Adotaram uma ideia de que as políticas públicas têm que resultar em bons negócios para o setor privado. Nesse sentido, como a linha 4 representa uma lucratividade importante, indo do Morumbi ao Centro, a passaram para a iniciativa privada. Isso é o inicio da privatização. Vão criar dois metrôs, um público e outro privado”, afirma o deputado estadual Simão Pedro (PT-SP). Ainda em 2006, após acidentes com operários, o parlamentar pediu ao Ministério Público uma investigação sobre as obras da linha por ameaças à “ordem urbanística” e por colocarem em “risco a segurança, integridade física, saúde e vida” dos moradores da região.

De acordo com o diretor do Sindicato dos Metroviários, Manuel Xavier, o governo pode dar um privilégio logístico ao setor privado, deslocando recursos humanos para as novas estações. “Eles já terão tratamento privilegiado relacionado à tarifa. Eles não receberão o valor da tarifa, receberão um valor estipulado, que ainda não sabemos, mas que deve melhorar ano a ano, conforme previsto no contrato. Isso causa um desequilíbrio, uma distorção do tratamento entre o setor público e o privado”, contesta o sindicalista.

“Trem fantasma”
O primeiro posto dispensado nesse novo Metrô será o de operador de trem. A CCR se gaba de ser a primeira a implementar, em nível mundial, o sistema driverless (sem motorista, em tradução livre). Os trens seriam comandados pelo Centro de Controle Operacional. Segundo a empresa, o sistema coibiria o excesso de velocidade.

Para Xavier, o sistema ainda é uma incógnita, já que não há qualquer experiência semelhante no mundo. “São cerca de um milhão de passageiros que vão ser transportados, sem nenhum condutor”, diz.

Outra preocupação advém do termo contratual que exige apenas um funcionário da ViaQuatro por estação da nova linha. “Não sabemos se os usuários serão bem atendidos ou se sentirão perdidos [pela falta de funcionários]. Se a exigência é de um funcionário por estação, este pode estar dentro de uma sala, isolado, cheio de monitores. Não sabemos se o consórcio será capaz de atender às dúvidas dos usuários”, aponta Xavier.

Além do contrato de concessão ao setor privado na operação da linha, o governo do Estado e a Prefeitura de São Paulo levam em frente um projeto de terceirizar a arrecadação das tarifas de trem, metrô e ônibus na Grande São Paulo. O processo de licitação já foi feito, mas um grupo que foi derrotado conseguiu barrar a decisão na Justiça, alegando favorecimento governamental aos vencedores.

“Tínhamos conseguido barrar, anteriormente, essa terceirização junto ao tribunal de contas. Agora, foi o grupo empresarial que barrou, mas isso não significa que o projeto não será levado a cabo”, analisa Simão Pedro.

Com a concessão a um grupo privado, o Estado perde o protagonismo na arrecadação das tarifas e na fiscalização. A tendência é que funcionários do Metrô que hoje exercem essa função sejam deslocados ou demitidos. “A fiscalização é um grande problema. Acho que o governo não tem controle sobre o que ocorre na arrecadação das rodovias. A Artesp (Agência Reguladora do Transporte do Estado) é um grande escritório de advocacia das empreiteiras”, dispara o deputado.

Fonte: http://www.brasildefato.com.br

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O “medo da dívida” da Regina Duarte, ops, do Estadão…


O “medo da dívida” da Regina Duarte, ops, do Estadão…
Do Luís Nassif Online

Por Jotavê
Manchete do Estadão: “Endividamento dos brasileiros bate redorde e chega aos R$ 555 bilhões”. No pé da página, um caso particular que ganha ares de caso típico: “Diarista se enrola com contas que não fecham”. O pano de fundo é a crise de inadimplência no mercado imobiliário norte-americano. A pergunta que paira no ar: “Não estaríamos na rota de um desastre?” A solução que também parece estar pairando no mesmo ar, só que um pouco mais ao fundo, em meio à bruma: “Não seria o caso de elevarmos as taxas de juros?”

Aí, o leigo (eu) vai ler a matéria para ver do que se trata. Em média, o brasileiro está com uma dívida equivalente a cinco meses de rendimentos. O leigo não entende nada disso, e começa a fazer algumas ponderações simples, enquanto lê a matéria. “Bom, depende do TIPO de dívida… Cinco meses de salário financiados em vinte anos é uma coisa. Os mesmos cinco meses no cheque especial significam a bancarrota.”

O dado fundamental é o comprometimento da renda mensal. Claro. E, de fato, DO MEIO PARA O FIM da reportagem, ficamos sabendo que esse comprometimento está CAINDO. Subiu muito de 2002 a 2006 (expansão do crédito durante o governo Lula, eu suponho), e depois começou a cair de forma consistente. ESTÁ CAINDO neste exato momento. Por que, então, escolher esse tom para a manchete? Por que dar destaque ao caso de uma dona de casa pobre que não consegue pagar suas dívidas? Afinal de contas, um comprometimento médio de 15% no pagamento de dívidas é preocupante, ou não? O bom senso me diz que é absolutamente RAZOÁVEL, ainda mais quando sabemos que o índice está em QUEDA. (Corrijam-me, por obséquio, os bam-bam-bãns de plantão se as coisas não forem assim tão simples.)

Uma continha rápida me indica que dona Amédia (uma brasileira típica) tem dívidas equivalentes a cinco salários, mas está empenhando apenas 15% de sua renda mensal no pagamento das dívidas. Ou eu muito me engano, ou dona Amédia (i) não tem com que se preocupar, (ii) tem financiamentos de médio e longo prazo e (iii) irá pagar suas dívidas pontualmente, caso não perca o emprego. Por que não entrevistar a dona Amédia, então? Por que eleger a dona Núbia, diarista atolada em dívidas? Tem alguma coisa estranha nessa história.

Retirado: http://www.estadoanarquista.org/blog/

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

EUA: Presidência e conversa mole - Por Tariq Ali


EUA: Presidência e conversa mole

Um ano depois de a presidência dos Estados Unidos ter mudado de mãos, o que mudou no império norte-americano? Durante o governo Bush, a "grande" imprensa e boa parte da seção amnésica da esquerda repetia que os EUA estariam sob o poder de um regime aberrante, produto de praticamente um golpe de Estado aplicado por um pequeno grupo de direitistas fanáticos – combinado à corporações ultrarreacionárias – que teria sequestrado a democracia, pondo-a a serviço de agressões jamais vistas contra o Oriente Médio.

Em resposta a isso, os EUA teriam eleito um mestiço filiado ao Partido Democrata que prometia curar todas as feridas "domésticas" e restaurar a boa reputação dos EUA no mundo. Esse presidente foi recebido com uma onda de euforia ideológica jamais vista desde os dias de Kennedy. Outra vez, os EUA mostrariam sua verdadeira face – decididos, mas pacíficos; firmes, mas generosos; humanos, respeitosos, multiculturalistas – ao mundo.

Naturalmente, como um Lincoln ou um Roosevelt de nossos tempos, o novo jovem presidente dos EUA teria de fazer concessões, como qualquer estadista. Mas, pelo menos, estaria acabado o vergonhoso interlúdio de bandidagem e criminalidade dos republicanos. Bush e Cheney haviam interrompido a continuidade de uma liderança norte-americana multilateral que tanto bem fizera ao país durante a Guerra Fria e depois dela. Obama recuperaria esse fio da meada.

Em raras vezes a mitologia da autopromoção – ou ingenuidade bem-intencionada – foi tão rapidamente desmascarada. Não houve qualquer rompimento fundamental na política externa, como oposta às cantilenas diplomáticas, entre os governos Bush 1, Clinton e Bush 2; tampouco houve qualquer mudança importante entre os governos Bush e Obama. Os objetivos estratégicos e imperativos dos EUA continuam os mesmos; tampouco mudaram os principais teatros e os meios de operação.

Desde o colapso da União Soviética, a Doutrina Carter (a construção de um novo pilar democrático de direitos humanos) definiu o Oriente Médio estendido como campo de batalha central para a imposição do poder norte-americano em todo o mundo. Basta olhar para cada setor para ver que Obama é produto de Bush, como Bush, de Clinton; e Clinton, de Bush-pai, em ritmo de filiação bíblica.

Ignorando Gaza
A posição de Obama a favor de Israel já estava manifesta antes da posse. No dia 27/12/2008, o Exército de Israel lançou um ataque mortífero, por terra e ar, contra a população de Gaza. Os bombardeios, incêndios provocados e a matança generalizada continuaram sem interrupção por 22 dias, tempo durante o qual o presidente-eleito não enunciou uma sílaba sequer de reprovação.

Conforme planos já existentes, Tel-Aviv suspendeu os ataques algumas horas antes da posse de Obama, dia 20/1/2009, para não estragar a festa. Àquela altura, Obama já nomeara um doberman ultra-sionista de Chicago, Rahm Emanuel, ex-voluntário do Exército de Israel, para trabalhar em seu gabinete como principal assessor da presidência.

Imediatamente depois da posse, Obama – como todos os presidentes dos EUA – falou a favor da paz entre os dois povos sofredores da Terra Santa e, outra vez como todos os que o antecederam, pediu que os palestinos reconhecessem Israel e que Israel suspendesse as construções nos territórios que invadiu e ocupou em 1967. Uma semana depois do discurso de Obama no Cairo, em que se manifestou contra a criação de novas colônias israelenses na Palestina, a coalizão de Netanyahu já ampliava impunemente o roubo de terra árabe em Jerusalém Oriental.

No segundo trimestre, a secretária de Estado, Hillary Clinton, deu parabéns a Netanyahu por ter feito “concessões sem precedentes”. Numa entrevista coletiva em Jerusalém, o correspondente Mark Landler, do New York Times, perguntou à secretária: “Quando a senhora esteve aqui na primeira visita, falou duramente contra a demolição de casas de árabes em Jerusalém Oriental. Mesmo assim, as demolições prosseguiram e, de fato, há alguns dias, o prefeito de Jerusalém assinou nova ordem para demolir mais casas de árabes. O que a senhora teria a comentar hoje sobre a mesma política?”.

Hillary ignorou a pergunta.
Um mês antes, uma comissão de investigação da ONU nomeada para examinar denúncias sobre a invasão de Gaza relatara que o Exército de Israel praticara atos criminosos que não deixavam de ser criminosos por terem sido ou provocados ou respondidos com foguetes caseiros disparados pelo Hamas.

Comandada por um dos mais aplicados e reconhecidos juízes especialistas em "direito internacional", o juiz sul-africano Richard Goldstone, que já trabalhara em sessão pré-orquestrada do Tribunal de Haia sobre a Iugoslávia e é um conhecido e professo sionista, as acusações contra Israel foram reduzidas ao mínimo necessário para garantir alguma credibilidade ao relatório. Há impressionantes diferenças entre os testemunhos que a Comissão da ONU realmente ouviu e o que se lê no relatório.

Mas, não habituada a receber críticas de qualquer tipo, Tel-Aviv reagiu com fúria e Washington ordenou a seu cliente e chefe do complô, Mahmoud Abbas, que se opusesse ao relatório na ONU.

Pareceu demais até para os seguidores de Abbas, e Abbas desobedeceu. Mas houve reações violentas e Abbas teve de se retratar, o que o desacreditou ainda mais. O episódio confirmou que o controle do AIPAC sobre Washington continua tão forte como sempre – ao contrário do que supõem alguns iludidos da esquerda dos EUA, para os quais o lobby israelense estaria envelhecido e sem força, e estaria sendo substituído por algum ramo mais "ilustrado" do sionismo norte-americano.

Guerra civil
No teatro palestino do sistema norte-americano, a ausência de novidade significativa não implica ausência de movimento. Considerada de um ponto de vista mais amplo, a política dos EUA tem sido, há algum tempo, estimular a ação de Israel na direção de criar um ou mais bantustões, o que atende perfeitamente bem seus interesses.

Para tanto, é claro, é indispensável eliminar qualquer possível liderança palestina legítima, ou Estado palestino real. Os acordos de Oslo foram um primeiro passo desse processo, destruindo a credibilidade da OLP e instaurando uma "Autoridade Palestina" que não passe de fachada para a única real autoridade nos territórios ocupados: o Exército de Israel.

Incapaz de obter qualquer respeitabilidade ou autoridade, por mais cerimonial que fosse, a liderança da OLP na Cisjordânia passou a dedicar-se a fazer fortuna, abandonando definitivamente a luta pelos interesses do povo palestino, entregue à pobreza mais absoluta e regularmente exposto à violência dos colonos judeus.

Trabalhando na direção oposta, e criando um sistema primitivo mais eficaz de bem-estar social, capaz de distribuir assistência médica, remédios e alimentos nas áreas mais miseravelmente pobres, e com creches e asilos para velhos e doentes, o Hamas conseguiu ganhar apoio popular e venceu as eleições palestinas de 2006. Europa e EUA reagiram imediatamente com o boicote político-econômico e apoiaram a volta do partido Fatah ao poder na Cisjordânia.

Em Gaza, onde o Hamas era mais forte, Israel tentou durante algum tempo inflar Mohammed Dahlan para que liderasse um golpe – Dahlan é o chefe-de-quadrilha favorito de Washington, dentro do aparelho de segurança da OLP. Em depoimento à Comissão de Negócios Estrangeiros e Defesa da Knesset (parlamento de Israel), ministro da Defesa, Ben-Eliezer, contou que, em 2002, quando o Exército de Israel retirou-se de Gaza, ofereceu a Faixa a Dahlan, que desejava provocar a guerra civil na Palestina que tanto perturbava a vida dos colonos judeus.

Convergência
Quatro anos antes, Dahlan recebera ajuda de Washington para promover um golpe militar na Faixa de Gaza, mas foi vencido pelo Hamas, que assumiu o controle do território em meados de 2007. Depois do bloqueio como punição política e econômica pelo fato de os eleitores palestinos terem resistido aos desejos expressos euro-norte-americanos, veio o ataque israelense do final de 2008 –, em relação ao qual Obama "piscou".

Mas o resultado, agora, não é o impasse sempre regular e pontualmente lamentado pelos sonhadores que ainda esperam “acordos de paz”. Depois de repetidos golpes, e cada vez mais isolada, a resistência palestina está sendo paulatinamente minada e enfraquecida, a ponto de o próprio Hamas – sem conseguir desenvolver qualquer estratégia coerente, nem de romper o compromisso dos acordos de Oslo, dos quais também o Hamas tornou-se prisioneiro – começar a considerar a possibilidade de aceitar o nada que Israel oferece, paramentado com outros "nadas" que o ocidente oferece.

Não há nenhum tipo significativo de Autoridade Palestina. Deputados eleitos pela Cisjordânia ou Gaza são tratados como enviados de ONGs de mendigos: recebem migalhas se permanecem ajoelhados e seguem o que o ocidente ordena; e castigos, se saem da linha.

Racionalmente, os palestinos fariam melhor se dissolvessem a Autoridade e exigissem direitos iguais de cidadania num único Estado, apoiados em campanha internacional a favor do boicote a Israel, desinvestimento e sanções, até que se desmantelem todas as estruturas de apartheid vigentes em Israel.

Na prática, há pouca ou nenhuma probabilidade de isso acontecer em futuro próximo. O que se deve prever, muito mais provavelmente, é a convergência – já promovida e elogiada no jornal israelense Haaretz como mais brilhantemente iluminada que a de Rabin – de Obama e Netanyahu, na direção de uma solução final, com várias entidades ‘palestinas’ com as quais Israel poderá conviver e nas quais morrerá a Palestina.

*Tariq Ali é historiador, autor de Choque de Fundamentalismos, entre outros livros. Artigo publicado na revista New Left Review.

Fonte: http://www.operamundi.com.br/

A crise econômica na Grécia! Por Latuff

Blowback: o legado da CIA no Irã, Afeganistão e Paquistão

Blowback: o legado da CIA no Irã, Afeganistão e Paquistão

O mínimo que se pode dizer é que no Irã, Afeganistão e Paquistão os EUA colhem hoje o que a CIA plantou com a colaboração de gente como o deputado Charlie Wilson. Osama Bin Laden foi treinado pela CIA para atacar os russos; gostou e atacou depois o World Trade Center em Nova York. E as bombas atômicas do Paquistão (real) e do Irã (hipotética) devem-se, ao menos em parte, à igual cortesia da CIA. A situação atual destes três países reflete o passado irresponsável da espionagem dos EUA.
O artigo é de Argemiro Ferreira.
Data: 16/02/2010

A imagem do herói no cavalo branco a salvar a mocinha das garras do vilão, seja este assaltante de banco ou índio em defesa de suas terras invadidas, é recorrente na ficção de Hollywood. O deputado Charlie Wilson morreu, aos 76 anos, no dia 10 de fevereiro, certo de que era herói na vida real. Motivo: no Congresso injetou bilhões de dólares para financiar os que lutavam contra os russos no Afeganistão.

Ao morrer do coração Wilson já estava aposentado. Mas ele representou o Texas por 14 mandatos sucessivos na Câmara. Um livro (“Charlie Wilson’s War - The Extraordinary Story of the Largest Covert Operation in History”, de George Crile) e um filme (“Charlie Wilson’s War”, de Mike Nichols, com Tom Hanks no papel-título) o retrataram como herói.

A semana marcou ainda o 31° aniversário da revolução dos aiatolás do Irã, ocorrida apenas alguns meses antes da invasão do Afeganistão. Os iranianos derrubaram o regime do xá Reza Pahlevi, instalado em 1953 graças a golpe planejado pela mesma CIA que usou as verbas secretas do deputado Wilson para recrutar e armar os radicais islâmicos do lado paquistanês da fronteira com o Afeganistão.

O mínimo que se pode dizer é que no Irã, Afeganistão e Paquistão os EUA colhem hoje o que a CIA plantou com a colaboração de gente como o deputado Wilson. Osama Bin Laden foi treinado pela CIA para atacar os russos; gostou e atacou depois o World Trade Center em Nova York. E as bombas atômicas do Paquistão (real) e do Irã (hipotética) devem-se, ao menos em parte, à igual cortesia da CIA.

A lambança atual no Afeganistão (largamente nas mãos dos radicais islâmicos usados pela CIA a partir de 1979), no Paquistão (onde a CIA instalou acampamentos para os ataques aos russos no país vizinho e encorajou o sonho paquistanês da bomba nuclear islâmica) e no Irã (que se nega hoje a abandonar o enriquecimento de urânio) reflete o passado irresponsável da espionagem dos EUA.

No Irã o golpe da CIA instalou o xá no lugar do premier nacionalista Mohamed Mossadegh, anulou a nacionalização do petróleo e com faustosa coroação em 1967 impôs a ficção do “trono de 2.500 anos”. As corporações anglo-americanas ganharam mais um quarto de século para explorar o petróleo do Irã, já que a CIA ainda concebeu a tenebrosa Savak, serviço secreto celebrizado pelas câmaras de tortura.

Ainda naquela década de 1950 o Irã foi premiado pelo governo do presidente Eisenhower com relações muito especiais - que incluiram “acordo de cooperação nuclear para fins pacíficos”, deixando o país com alguma base para, em seguida à revolução dos aiatolás, assustar os EUA com a disposição de ampliar o programa nuclear e rumar para o enriquecimento de urânio.

Para o Irã submisso de Reza Pahlevi, nada era bom demais: além de favorecer o desenvolvimento nuclear, Washington ainda dotou o país de armas sofisticadas e modernizou a máquina da repressão - tudo pago com a receita do petróleo, que regalou nos EUA as indústrias bélica, aeronáutica, nuclear e de segurança. Só que hoje, tomado pelos rebeldes radicalizados nas câmaras de tortura, o Irã é outro.

De tal forma o Irã do xá era criatura da CIA que, no final de 1973, o presidente Nixon concluiu que ninguém melhor para ser embaixador em Teerã do que o próprio diretor da central de espionagem, Richard Helms - “dada a intimidade dele com o xá”, explicou. Como se fosse o posto final de uma carreira de sucesso na CIA, dirigida por Helms durante quase sete anos, antes dos três que passou no Irã.

Com a contribuição do deputado Charlie Wilson, anticomunista meio fanático, o capítulo Afeganistão-Paquistão foi ainda mais vivo, excitante e insólito - ou “colorful”, para usar adjetivo talvez mais apropriado à conduta do parlamentar excêntrico que quando não estava “salvando o mundo” da suposta “ameaça vermelha” dedicava-se ao consumo de álcool e drogas com prostitutas de luxo.

Ele ficou obviamente encantado com os relatos do livro e do filme que o tornaram celebridade. Seu papel pode ter sido singular pelo conhecimento de sutilezas do processo legislativo na Câmara, onde integrava a comissão de verbas (appropriations) e sua subcomissão sobre operações no exterior - além de cultivar contatos na comissão que supervisiona a espionagem.

Não só estava familiarizado com mecanismos e artifícios para ocultar a destinação de recursos. Também revelara-se mestre na troca de favores com colegas interessados em abocanhar verbas para projetos de seus distritos eleitorais. Certos especialistas acham que hoje teria mais dificuldades: o processo legislativo sofreu reformas depois, reduzindo - em nome da transparência - a prática do sigilo.

O fato é que Wilson começou por canalizar uma verba de US$ 5 milhões para os radicais do Afeganistão. E, no fim da década de 1980, aqueles recursos elevavam-se a nada menos de US$ 750 milhões por ano. Pode ter sido ajudado por pertencer ao partido da oposição (Democrata) numa década dominada por governos republicanos (Reagan e Bush I) obstinados em estender ainda mais as ações militares dos EUA pelo mundo.

No Afeganistão e Paquistão, sabe-se hoje, a lambança foi bipartidária - devido a uma armadilha do governo do presidente democrata Jimmy Carter. Seu assessor de segurança nacional na Casa Branca, Zbigniew Brzezinski, confessaria 20 anos depois ter atraído a URSS para a idéia de invadir o Afeganistão. A invasão veio a 24 de dezembro de 1979, após seis meses de ajuda crescente da CIA aos rebeldes radicais.

Em entrevista à revista francesa “Nouvel Observateur”, em 1998, Brzezinski vangloriou-se de seu papel: “Carter assinou a 3 de julho de 1979 a primeira diretiva (à CIA) para a ajuda secreta aos opositores do regime pro-soviético de Kabul. Naquele dia eu tinha enviado nota ao presidente na qual expliquei que, na minha opinião, tal ajuda americana iria levar a uma intervenção militar soviética”.

Quando o jornalista perguntou se a ação clandestina dos EUA tivera a intenção de provocar a invasão russa, Brzezinski amenizou: “Não provocamos os russos para que invadissem, mas ampliamos conscientemente a probabilidade de que isso viesse a ocorrer”. No dia em que os russos cruzaram a fronteira, disse, escreveu de novo a Carter: “Agora temos a oportunidade de dar aos soviéticos o Vietnã deles”.

Brzezinski contestou, assim, a tese republicana que atribui a Reagan a glória pelo fim da URSS. “Durante quase 10 anos a URSS amargou guerra insuportável - um conflito que trouxe a desmoralização e, afinal, a dissolução do império soviético”, alegou. Mas o exagero é comparável ao do mérito republicano. O desfecho, após meio século, deveu-se aos dois partidos e muita gente mais - inclusive os que erraram na própria URSS.

As avaliações atuais tentam ignorar os efeitos negativos das ações da espionagem. Ao financiar, treinar e armar (até com mísseis Stinger, capazes de destruir aviões em vôo) os radicais que batizou de “combatentes da liberdade” a CIA extremou as ambições deles. Hoje ela os repudia como “terroristas”, indiferente ao fato de que aprenderam na CIA a pensar o impensável - como atacar o coração do império americano.

Com os russos fora do Afeganistão os EUA deixaram o país para os radicais que a CIA diplomou em terrorismo. Com armas como o Stinger, os talibãs tomaram o poder e ficaram até 2001. Bin Laden, saudita de nascimento, ainda dirige de lá a rede al-Qaeda, que opera no mundo a partir do território afegão. E a CIA ainda tenta “recomprar” Stinger mas nem sabe quantos distribuiu - a estimativa vai de 500 a 2.000.

O deputado Wilson, ao invés de herói, foi cúmplice das trapalhadas. Livro e filme dizem que atuava com assistência da CIA. A culpa dos EUA e sua agência ia mais longe na relação promíscua com o general-ditador paquistanês Zia-ul-Haq, que em troca do apoio à operação na fronteira afegã obteve luz verde e deu carta branca ao construtor da bomba atômica islâmica, o cientista Abdul Qadeer Khan.

No desdobramento, a receita da bomba-A do Paquistão foi parar no Irã, Coréia do Norte, Líbia e talvez outros. Assim, além de fazer a “guerra (sem fronteiras) ao terrorismo” e lutar no Afeganistão contra os que antes chamava de “combatentes da liberdade”, os EUA hoje têm de vigiar o Dr. Khan, o serviço secreto (ISI) do Paquistão, os progressos nucleares do Irã e da Coréia do Norte e sabe-se-lá-mais-o-que.

A própria CIA adotou a expressão “blowback” para designar os efeitos opostos ao que pretendia em cada uma de suas operações clandestinas. A palavra apareceu pela primeira vez em relatório secreto de 1954 sobre o golpe da CIA no Irã. O “blowback” da derrubada de Mossadegh foi a tirania de 25 anos e a revolução (antiamericana) dos aiatolás. Já no Afeganistão os ataques do 11/9 nos EUA tendem a ficar como exemplo maior.

Blog de Argemiro Ferreira
Fonte: www.cartamaior.com.br

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Google: uma nova abordagem para a privacidade?


Google: uma nova abordagem para a privacidade?

Após um ataque chinês, o Google ameaça encerrar as atividades na China sob pretexto de liberdade de expressão. Por Gus e Pietro

O Google, o Yahoo, a Microsoft e outras empresas de tecnologia da informação publicamente colaboram com o governo chinês a censurar e reprimir os seus cidadãos. Isso não é nenhum segredo ou dito envergonhadamente. Muito pelo contrário, desde 2006, a gigantesca corporação de Mountain View, o Google, mantém parte da sua infra-estrutura técnica hospedada em território chinês e disponibiliza seus serviços no país através do site “google.cn”.

Um dos mecanismos mais cotidianos da colaboração é a filtragem do conteúdo das buscas. Por exemplo, quando um internauta chinês busca por “Praça da Paz Celestial”, dos resultados são eliminados todos os sites relacionados ao massacre dos estudantes chineses em 1989 - a famosa cena do homem enfrentando os tanques do governo não é exibida - e uma nota explicativa é mostrada: “Os resultados da pesquisa que podem não cumprir as leis, regulamentações e políticas, não serão mostrados” [1].

Entretanto, num comunicado publicado no dia 12 de Janeiro [2], no blog oficial da empresa, o vice-presidente sênior de Desenvolvimento Corporativo e Diretor Jurídico do Google, David Drummond, afirma que recentemente sofreram um grande e sofisticado ataque. Após investigação interna descobriram que o mesmo partiu do território chinês e “resultou no roubo de propriedade intelectual do Google”. E ainda, o ataque atingiu outras vinte grandes empresas - sem identificar quais -, mas que estão trabalhando com as autoridades competentes dos Estados Unidos para notificá-las.

Nessa investigação também foi revelado que contas de emails de ativistas de direitos humanos - dos Estados Unidos, da Europa e da China - que apóiam a dissidência chinesa têm sido acessadas por terceiros, acesso esse obtido através de outros ataques virtuais mais comuns (virus, trojans e phishing scams).

Há rumores de que o governo chinês seria o responsável pelo ataque, apesar de não haver provas. Mesmo assim, a secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, fez uma declaração exigindo explicações do governo chinês [3]. Perante essa situação hostil, o Google decidiu tomar uma nova posição em relação à China. Pela “liberdade de expressão” não irão mais se autocensurar: “Nós decidimos que não estamos mais dispostos a continuar censurando nossos resultados no Google.cn”. Caso o governo chinês não aceite negociar, talvez os seus serviços não serão mais oferecidos e a empresa encerrará suas atividades no país.

No decorrer das reportagens sobre o caso, um funcionário da empresa revelou na imprensa que os invasores utilizaram um sistema interno de interceptação criado pelo Google para que pudesse executar os mandados de busca e entregar informações dos usuários [4]. Outro caso de colaboração do Google com o governo ocorre no Brasil. Desde 2006 a empresa disponibilizou uma ferramenta semelhante para que a Polícia Federal possa rastrear usuários do site Orkut, sem necessidade de ordem judicial [5]. Assim, cabe questionar: se o Google está ameaçando abandonar a China e encerrar as atividades no país, porque não toma a mesma postura em relação aos outros países, isto é, porque não se recusa a violar a privacidade de seus usuários? Ou ainda, porque não torna público o uso dessas ferramentas por outros governos?

A política dos serviços prestados pelo Google é tema de diversos debates sobre privacidade, ou melhor, sobre a sua violação. Sob o famoso lema “Don’t be evil” (“Não ser mau”), o Google construiu uma grande rede de serviços online que coletam dados de seus usuários. Após a coleta ocorre um processo de garimpagem de dados (data mining) para tipificar os usuários segundo padrões de gosto e comportamento. É uma técnica que pode ser utilizada para tornar a publicidade mais eficiente, isto é, a propaganda passa a ser orientada com base no que os usuários estão pesquisando, enviando, assistindo ou digitando. Certa vez, quando duas estudantes conversavam pelo GMail sobre comer comida japonesa à noite, não demorou para que surgisse uma propaganda ao lado da conversa oferecendo o delivery de sushi. Um exemplo entre muitos, essas propagandas ocorrem na maioria dos serviços do Google e seus usuários já se habituaram com a invasão de espaço e de privacidade.

Para os diretores do Google, privacidade não combina com liberdade ou ainda liberdade de expressão. Como afirmou o CEO do Google Eric Schmidt, em 2009, “Se você faz algo e não quer que ninguém saiba, talvez, primeiramente, não devesse fazê-lo”. Essa argumentação foi respondida com sarcasmo, pois em 2006 o mesmo negou-se a dar entrevista ao site CNET após terem feito um dossiê sobre a sua vida: salário, onde morava, entre outras descrições. Todo material fora obtido através do próprio site. Pois, então, perguntaram-lhe: “Se você não quer que saibamos seu salário, porque você não deixa de ganhá-lo?”

Muito além do Big Brother… “Scroogled”
Palavras-chave de buscas, os resultados clicados, sites visitados, os emails lidos e enviados, com quem conversa e com qual frequência, os vídeos assistidos, a lista de contatos… Todos esses dados são coletados pelo Google e isso é informado em sua política de privacidade. O que aconteceria se todo esse material fosse parar na mão dos governos? Baseado nisso, o jornalista canadense e escritor de ficção-científica Cory Doctorow escreveu em 2007 o conto “Scroogled” [6]. Nesse texto encomendado pela revista Radar, o futuro próximo é uma distopia[7] em que o Google é contratado pelo governo estadunidense para ajudá-lo no combate ao terrorismo. A história pode ser lida aqui.

O autor apresenta a vida de Greg Lupinski, um ex-funcionário do Google que ao voltar das férias no México e ao passar pelo interrogatório no aeroporto, torna-se um suspeito de terrorismo. Para contornar a situação e escapar dos agentes do Departamento de Segurança Nacional, a sua amiga e funcionária do Google, Maya, ajuda-o com um programa para reinventar sua identidade virtual. Mas um programa seria capaz de enganá-los? A dúvida tira-se lendo. Entretanto, a qualidade deste escrito está justamente em não ser um devaneio futurístico, mas em ser constituído por informações e hipóteses plausíveis sobre a dimensão dessa empresa.

Descritas ao longo do conto, as ferramentas do Google podem ser muito eficientes em extrair informações. Por exemplo, em uma das passagens de “Scroogled”, durante o interrogatório no aeroporto, Greg revela o caráter íntimo e privado das suas buscas:

“Greg sentiu um aperto. ‘Você está vendo as minhas buscas e meu e-mail?’ Ele não tocava num teclado há mais de um mês, mas sabia que o quer que tivesse introduzido naquele campo de busca seria bem mais revelador do que tudo o que ele já havia dito ao seu psiquiatra.”

A garimpagem e o armazenamento de dados sobre a vida das pessoas permite a elaboração de dossiês biográficos que nenhum regime ditatorial pode escrever tão detalhadamente e com tanta precisão. As informações não são obtidas por torturas, mas sim por colaboração voluntária através de uma interface amigável.

Entre distopias, uma obra de grande referência é 1984, de George Orwell, onde a tecnologia empregada pelo governo “Big Brother” eram as teletelas [écrãs gigantes], que asseguravam um monitoramento constante e uma comunicação imperativa que coagia os indivíduos a realizarem suas tarefas, sendo assim uma forma de evitar a subversão. O dia-a-dia dos indivíduos desse romance era tomado pela ausência da liberdade. A teletela [écrãs gigantes] aí possui a função de tutelar, ou ainda, de disciplinar os indivíduos. Mas o Google controla-os: sabe tudo, sobre todos os que usam seus serviços. A cada clique o indivíduo produz uma prova contra si próprio; a cada email enviado, uma delação de si próprio. No caso do “Scroogled”, os indivíduos são supostamente livres e apenas os comportamentos típicos de “terroristas” é que são o alvo de investigações. Apesar da natureza diferente dessas ferramentas - uma de origem governamental e outra do setor privado - e de serem concebidas de modos tecnologicamente diferentes - uma baseia-se na vigilância forçada e a outra é um ato voluntário -, elas não são excludentes e podem funcionar em complemento uma com a outra, de modo que os indivíduos estejam sempre a ser capturados, registrados e armazenados num banco de dados. De um jeito ou de outro, mas sempre conectados.

Da ficção à realidade
A Grã-Bretanha é reconhecida internacionalmente como um dos países que mais investe e utiliza as câmeras de circuito interno (CCTV). Porém, as estimadas 4 milhões de câmeras não diminuíram significativamente os crimes. Segundo o periódico Telegraph: “Para cada 1.000 câmeras em Londres, menos de um crime é resolvido por ano” [8]. O efeito da implantação das CCTV possui muito mais valor simbólico, isto é, de introjetar o medo na população, do que consegue evitar ou resolver crimes.

No Brasil o governo mantém uma rede dos bancos de dados de segurança pública, a Infoseg, mantida pelo Ministério da Justiça através da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp). Nela é possível consultar os dados sigilosos de qualquer cidadão brasileiro. Nas ruas do centro de São Paulo o acesso a essa rede era vendido ilegalmente pelo pagamento de R$2.000 [9]. Além desses bancos de dados já existentes, em 2009 quase foi aprovada a “Lei Azeredo”, de autoria do senador Eduardo Azeredo, para tipificar os “cibercrimes”. Nela, buscava-se autorizar o monitoramento de todos os internautas brasileiros tornando obrigatório que os provedores de internet e locais de acesso a internet (como as lan houses) guardassem um registro de todos os usuários por pelo menos 6 meses. Além disso, os provedores eram obrigados a fiscalizar seus usuários para saber se faziam algo ilegal. Ativistas, blogueiros e demais nomearam o projeto como o “AI-5 digital”. Porém, diferente do que aconteceu em 1968, este não saiu do papel devido à pressão contra a sua votação e resultou em seu congelamento.

Já no caso da coleta e armazenamento de dados por empresas e governos, o autor de “Scroogled” traz uma metáfora interessante. Diz ele que esses dados pessoais são como lixo nuclear: perigoso, de longa duração e uma vez que há vazamento não há volta [10]. Um vazamento desse tipo ocorreu em 2006, quando o site America On Line (AOL) disponibilizou por acidente mais de vinte milhões de termos de busca de mais de 650 mil usuários. Apesar dos usuários serem identificados apenas por um número, ainda assim foi possível identificar alguns deles. Quanto tempo levará para esses dados se tornarem obsoletos?

Tanto as câmeras como as ferramentas de interceptação de dados representam a quebra do princípio da privacidade e a construção de uma infra-estrutura de controle ininterrupto das populações. Desse ponto de vista, a fronteira entre o governo chinês e os países democráticos desaparece. Não é descabido afirmar que hoje o Google sabe mais sobre os cidadãos do que qualquer governo, pesquisa de mercado ou mesmo o seu psicólogo. O caso do ataque chinês e a ameaça do Google tornam claro que não se trata de liberdade de expressão, mas sim de uma encruzilhada: ou abandonar o maior mercado do mundo ou ver serem revelados a sua propriedade intelectual - e os seus segredos.

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Notas
[1] Mensagem original em inglês: “Search results may not comply with the relevant laws, regulations and policy, can not be displayed”
[2] “New approach to China” (“Nova abordagem para China”): http://googleblog.blogspot.com/2010/01/new-approach-to-china.html
[3] http://www.state.gov/secretary/rm/2010/01/135105.htm
[4] “Google attack part of widespread spying effort” http://www.computerworld.com/s/article/9144221/Google_attack_part_of_widespread_spying_effort?taxonomyId=13&pageNumber=1
[5] http://www1.folha.uol.com.br/folha/informatica/ult124u21063.shtml
[6] Scroogled: um neologismo que une “Screwed” (ferrado) e “Google”.
[7] Segundo o Houaiss (BR) é “localização anómala de um órgão”. Segundo o Porto Editora (PT) é «lugar imaginário onde tudo é negativo».
[8] http://www.telegraph.co.uk/news/uknews/crime/6082530/1000-CCTV-cameras-to-solve-just-one-crime-Met-Police-admits.html
[9] PF apura venda de senha para rede de dados, 29/08/2008 http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u439202.shtml
[10] “Personal data is as hot as nuclear waste” http://www.guardian.co.uk/technology/2008/jan/15/data.security

http://passapalavra.info/

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A história por trás da libertação de Mandela - Por Danny Schechter


A história por trás da libertação de Mandela

Faz 20 anos que a banda da libertação de Nelson Mandela começou a tocar. Enquanto o mundo olhava sem fazer nada, um grande drama humano estava sendo construído a todo vapor na África do Sul.

Nelson Mandela esteve em Groot Drakenstein, mais conhecida como a prisão de segurança mínima Victor Verster, por 14 meses. Havia um grito distante vindo da isolada e draconiana penitenciária da ilha Robben, na qual ele havia passado mais de 27 anos em uma cela minúscula, visitada por mim pela primeira vez em 1995. Ele a tinha designado como sua própria pequena casa, com um carcereiro africâner que progressivamente veio a se tornar seu companheiro de campo.

No último mês de seu longo período de prisão, líderes do CNA (Congresso Nacional Africano) se reuniram com ele. Ele usava terno e foi até mesmo levado para fora da prisão em sigilo, parando em lojas e postos de gasolina onde, na maior parte do tempo, não foi reconhecido por conta das leis de cobertura da mídia durante o apartheid que proibiam qualquer foto dele na imprensa. A libertação estava sendo preparada, e o movimento, o CNA, havia criado um “comitê de recepção” para organizar a sua transição de prisioneiro para líder político.

Enquanto a atenção da mídia estava em Mandela como uma personalidade heróica, sabia-se que sua libertação não fora concedida apenas pelo regime do apartheid. Havia sido vencida. Anos antes, o CNA tomou a decisão de montar uma campanha em torno dele, assegurando que ele se tornasse uma personalidade bem conhecida, e logo a celebridade mais famosa do mundo. Sua história de vida tornou-se objeto de lendas. Seu rosto estava em cartazes, seu nome passou a ter status de marca.

Como advogado de formação, ele próprio negociou os termos de sua libertação – e, antes, a soltura de seus companheiros com ministros e oficiais do governo. Houve diversas reuniões secretas na prisão e fora dela. Ele recusou todas as condições impostas, incluindo a exigência de que abandonasse a violência.

Além disso, outras forças foram responsáveis pela criação de condições políticas condenadas no apartheid. Um movimento global anti-apartheid não estava somente protestando, mas exigindo sanções. Quando o Chase Manhattan Bank se recusou a rolar os empréstimos do governo, ficou iminente que algo aconteceria. A pressão estava subindo.

Sun City
Amplamente desconhecido é o papel que a exigência para sanções culturais desempenhou em grande parte da campanha. Tive o privilégio de ter participado do projeto Sun City que mobilizou 54 artistas conhecidos, sob a liderança de Little Steven e produção de Arthur Baker, para popularizar a necessidade de sanções por meio da música Sun City e vídeo. Isso foi em 1985 e contribuiu para o ambiente político que levou o Congresso norte-americano a anular o veto do presidente Reagan sobre um projeto de sanções apresentado por Ron Dellums. Dellums e outros líderes negros foram presos na Embaixada da África do Sul em Washington. Grupos anti-apharteid protestaram nas universidades de todo o país.

Ao mesmo tempo, os assentamentos da África do Sul foram tomados por uma campanha para tornar o país ingovernável. Houve violência e prisões em massa com 14 mil pessoas na cadeia, em sua maioria, ativistas jovens. Isso chamou a atenção da comunidade internacional e resultou na pressão das Nações Unidas, que enviou pessoas influentes para encontrar Mandela e encontrar uma solução para o agravamento da crise.

Também fora do país, a força da guerrilha do CNA intensificou sua ofensiva quando o governo de Pretória retaliou com bombardeios o vizinho Front Line States (FLS). A campanha de desestabilização estava em andamento com o sul da África apoiado por procuração guerras em Angola e Moçambique e esquadrões da morte secretos desencadeados contra ativistas. Importantes figuras anti-apartheid foram mortas, incluindo brancos como David Webster, em Natal, e Ruth First, em Maputo. Steve Biko foi assassinado antes.

Em 1986, visitei o sul da África com o reverendo Jesse Jackson para fazer uma reportagem desta, em grande parte, não declarada guerra, que levou bilhões de afetados nos países pobres ao programa 20/20 da rede americana ABC.

Eu ajudei o grupo de rap Stetsasonic a produzir um vídeo da música A.F.R.I.C.A, educando jovens sobre o Front Line States.

Os africâners se viram lutando uma guerra contra o pró-soviético Total Assault, uma invenção de sua propaganda. Grupos de direita nos EUA estavam aliados com suas tentativas de parar a independência da Namíbia. A direta norte-americana fez lobby junto a Jack Abramoff, agora na prisão por subornar membros do Congresso, que estava por trás de um filme de propaganda chamado Red Dawn para demonizar as lutas de libertação. Como Obama hoje, ele foi rotulado como marxista e coisa pior.

Cubanos
O que os sul-africanos não contavam era com o papel desempenhado pelo exército cubano que derrotou os sul-africanos na batalha no sul da cidade angolana de Cuito Carnivale e obrigou o regime a recuar. Aquela vitória, acompanhada da independência da Namíbia, foi um precursor do que estava por vir na África do Sul. Foi por isso que Fidel Castro participou e foi aclamado na posse de Nelson Mandela como presidente, em 1994.

Esses foram os pilares da luta para libertação de Mandela e a liberdade da África do Sul. Eles raramente foram mencionados ou explicados pela nossa mídia. O CNA foi considerado uma força terrorista em Pretória e pela administração Reagan. Quando o Congresso pediu a libertação de Mandela, Dick Cheney votou contra a resolução da Secretaria de Estado e se recusou a encontrar-se com o líder do CNA Oliver Tambo, antigo parceiro de Mandela, quando ele visitou Washington.

Toda esta pressão vinda de baixo levou a mudanças no alto. A história não é feita apenas por grandes homens, mesmo aqueles que aparecem na cobertura da TV. Nelson Mandela, que foi libertado há 20 anos, falou isso várias vezes, mesmo quando todas as redes de TV queriam era uma entrevista “exclusiva” com o “Grande Homem”. Eles se referiam a isso como o “Grande Encontro”. A tentativa da Globalvision de contestar esta narrativa, disse, na verdade era outro caminho para contar a história, de um jeito mais verdadeiro.

Danny Schechter é colaborador do Global Research.

Fonte: http://www.operamundi.com.br/

A inserção do Brasil e da América do Sul na segunda década do século XXI


A inserção do Brasil e da América do Sul na segunda década do século XXI

O futuro do projeto sul-americano dependerá cada vez mais das escolhas brasileiras e da forma pela qual o Brasil desenvolva suas relações com os Estados Unidos. No campo político, depois da hegemonia das idéias neoliberais e privatistas, e de uma coalizão de poder partidária do “cosmopolitismo subserviente”, no campo internacional, está se consolidando no Brasil um novo consenso desenvolvimentista, democrático e popular que transcende cada vez mais as siglas partidárias. As perspectivas futuras desta nova coalizão dependerão da estratégia internacional dos próximos governos. A análise é de José Luis Fiori.

NOTAS PARA UMA REFLEXÃO SOBRE A INSERÇÃO INTERNACIONAL DO BRASIL E DA AMÉRICA DO SUL, NA SEGUNDA DÉCADA DO SÉCULO XXI.

1. Brasil e América do Sul: história e conjuntura
i. As guerras e disputas políticas e territoriais, durante a formação dos estados sul-americanos, no século XIX, não produziram as mesmas conseqüências sistêmicas - políticas e econômicas - das guerras de centralização do poder e de formação dos estados e das economias nacionais européias. E mesmo no século XX, não se consolidou no continente sul-americano, um sistema integrado e competitivo, de estados e economias nacionais, como ocorreu na Ásia, depois da sua descolonização. Por isto, nunca existiu na América do Sul uma disputa hegemônica, entre os seus próprios estados e economias nacionais, e nenhum dos seus estados jamais disputou a hegemonia continental com as grandes potências.

De fato, desde sua independência, o continente sul-americano viveu sob a tutela anglo-saxônica: primeiro, da Grã Bretanha, até o fim do século XIX, e depois, dos Estados Unidos, até o início do século XXI. Como conseqüência, os estados latino-americanos nunca ocuparam posição importante nas grandes disputas geopolíticas do sistema mundial, e funcionaram durante todo o século XIX, como zona de experimentação do “imperialismo de livre comércio” da Grã Bretanha. No século XX, e em particular depois da 2ª. Guerra Mundial, quase todos estados sul-americanos alinharam sua política externa, com os Estados Unidos, durante a Guerra Fria, e aderiram com graus diferentes de sucesso, às políticas econômicas desenvolvimentistas, apoiada pelos Estados Unidos, até a década de 1970. Depois do fim da Guerra Fria, durante a década de 1990, de novo, a maioria dos governos da região voltaram a se alinhar ao lado da política externa e da política econômica preconizada pelos EUA e seu projeto de “globalização liberal”.

ii. No início do século XXI, entretanto, a situação política do continente mudou, com a vitória - em quase todos os países da América do Sul – de partidos e coalizões políticas nacionalistas, desenvolvimentistas e socialistas, que mudaram o rumo político-ideológico do continente, durante a primeira década do século. No início do período, quase todos os novos governos de esquerda mantiveram a política macroeconômica ortodoxa dos neoliberais da década de 90, e só aos poucos foram mudando, em alguns casos, o rumo mais amplo de sua política econômica, sem conseguir alterar a estrutura e o modelo tradicional de inserção internacional da economia continental.

Assim mesmo, todos estes novos governos se posicionaram ideologicamente contra o neoliberalismo da década anterior, e mudaram sua política externa, apoiando a integração político-econômica da América do Sul, e criticando intervencionismo norte-americano no continente. Este giro político à esquerda ocorreu de forma simultânea, em quase todo o continente, e coincidiu com a mudança do governo e da política externa americana, com a nova administração republicana de George Bush, que engavetou, na prática, o globalismo econômico liberal, da Administração Clinton, e o seu projeto da ALCA, para as Américas.

Este giro à esquerda coincidiu também com um novo ciclo de expansão da economia mundial, que se prolongou até 2008, e permitiu a retomada do crescimento, alto e generalizado, de todas as economias nacionais da região. A grande novidade foi a participação da China, que se transformou na grande compradora das exportações sul-americanas de minérios, energia e grãos. Neste período também, os altos preços das commodities fortaleceram a capacidade fiscal dos estados e ajudaram a financiar várias iniciativas do projeto de integração da infra-estrutura energética e de transportes do continente. Além disto, permitiram a acumulação de reservas e a diminuição da fragilidade externa do continente, aumentando o poder de resistência e negociação da região.

iii. Durante esta primeira década do século, destacou-se dentro do continente, a rápida mudança da posição política e econômica do Brasil, que retomou – aos poucos e de forma ainda irregular - a trilha do crescimento e aumentou sua participação no produto e no comércio dentro e fora da América do Sul. Ao mesmo tempo, o Brasil assumiu a liderança do processo de integração do continente e expandiu suas relações comerciais e financeiras com outras regiões do mundo, projetando sua presença diplomática em várias instâncias e fóruns multinacionais de negociação, dentro e fora das Nações Unidas. E hoje o Brasil já tem praticamente assegurada, até o fim da próxima década, uma posição entre as cinco maiores economias do mundo, quando deverá ser provavelmente, o maior produtor mundial de alimentos, e um dos maiores produtores e exportadores mundiais de petróleo, além de seguir controlando a maior parte dos recursos hídricos e da biodiversidade da Amazônia.

Neste movimento duplo, em direção à América do Sul e aos demais continentes, e zonas de expansão e conflito internacional, o Brasil tem se apoiado, aliado e competido, a um só tempo, com outros estados e economias nacionais que também estão se expandindo rapidamente e reivindicando uma maior participação nas decisões do núcleo central de poder do sistema mundial, entre as quais se destacam ,sobretudo, a China e a Índia.

iv. Agora bem, depois de quase uma década convergente, a crise financeira de 2008 provocou uma queda abrupta do crescimento regional e uma desaceleração do projeto integração econômica do continente sul-americano. E quase ao mesmo tempo, ainda na Administração George Bush, os Estados Unidos abandonaram sua passividade no continente, e decidiram reativar sua IVº Frota Naval responsável pelo controle marítimo do Atlântico Sul. E logo em seguida, já na administração democrata do presidente Barak Obama, os Estados Unidos assinaram o acordo militar com a Colômbia que lhe deu acesso a sete bases militares dentro do território colombiano, e com isto fragilizou o processo de integração política, e os planos de defesa conjunta e autônoma do continente.

Logo em seguida, os EUA tiveram uma participação ativa na crise política de Honduras, e unilateral no terremoto que destruiu o Haiti, demonstrando vontade e decisão de retomar ou reafirmar sua presença e sua supremaca dentro do “hemisfério ocidental”. Por outro lado, no início de 2010, o Chile interrompeu a sucessão de vitórias eleitorais da esquerda, e elegeu um presidente de centro-direita, que reforçará a aliança estratégica com os Estados Unidos do “eixo anti-bolivariano”, na Região Andina. E com isto, deverá aumentar as divisões que sempre facilitaram – através da história - a tutela externa do continente. De qualquer maneira, a configuração completa deste novo cenário político ainda dependerá das eleições presidenciais no Brasil e Colômbia, em 2010, e na Argentina e Peru, em 2011.

v. Neste momento de incerteza política, uma discussão sobre a inserção do Brasil e da América do Sul, no cenário internacional, na segunda década do século XXI, tem que partir de uma definição do que seja uma “inserção soberana”. Com relação ao que seja uma política externa soberana, nosso ponto de partida é muito simples: um estado e um governo que se proponham expandir o seu poder internacional, inevitavelmente terão que questionar e lutar contra a distribuição prévia do poder, dentro do próprio sistema. Como condição preliminar, eles terão que ter sua própria teoria e sua própria leitura dos fatos, dos conflitos, e das assimetrias e disputas globais, e de cada um dos “tabuleiros” geopolíticos regionais ao redor do mundo.

Para poder estabelecer de forma sustentada e autônoma, os seus próprios objetivos estratégicos, diferentes das potencias dominantes, e conseqüentes com sua intenção de mudar a distribuição do poder e da hierarquia mundial. Por isto, não é possível conceber uma política externa soberana e inovadora, que não questione e enfrente os consensos éticos e estratégicos das potencias que controlam o núcleo central do poder mundial. Neste campo, não estão excluídas as convergências e as alianças táticas, e temporárias, com uma ou várias das antigas potencias dominantes. Mas toda política externa soberana e inovadora, sabe que está e estará em permanente competição com estas potencias, e que terá que assumir as suas divergências, com a visão de mundo, com os diagnósticos e com as estratégias defendidas por elas, seja no espaço regional, seja a escala global. Isto não é uma veleidade irrelevante, nem é o fruto de uma animosidade ideológica, é uma conseqüência de uma “lei” essencial do sistema inter-estatal, e de uma determinação que é em grande medida geográfica, porque o objetivo do “estado questionador”, é ampliar sempre e cada vez mais, a sua capacidade de decisão e iniciativa estratégica autônoma, no campo político, econômico e militar, para poder difundir melhor e aumentar a eficácia de suas idéias e propostas de mudança do sistema mundial.

vi. Do lado oposto, fica mais fácil de definir e identificar as características essenciais de uma política externa conservadora ou subalterna. Em primeiro lugar, os conservadores não se propõem mudar a distribuição do poder internacional, nem questionam a hierarquia do sistema mundial. Sua reação frente aos desafios colocados pela agenda internacional, é quase sempre empírica, isolada, e moralista. Os conservadores não têm uma teoria nem uma visão histórica própria do sistema internacional e dos seus acontecimentos conjunturais, e são partidários, em geral, de uma política externa de baixo teor, sem grandes iniciativas estratégicas nacionais, e com uma alta taxa de submissão aos valores, juízos, e decisões estratégicas das potencias dominantes. Por isto, consciente ou inconscientemente, os conservadores delegam a terceiros, uma parte da soberania decisória de sua política externa, e acabam assumindo, invariavelmente, uma posição subalterna dentro da política internacional.

2. Um balanço no final da primeira década do século XXI
Ao terminar a primeira década do século XXI, entre crise e guerras, é possível fazer um balanço preliminar da estratégia imperial americana, que nasceu da crise dos 70 e se aprofundou depois do fim da Guerra Fria:

i. O poder militar americano cresceu de forma contínua e se projetou sobre todo o mundo, mas a própria dinâmica contraditória da sua expansão, fortaleceu politicamente e “ressuscitou” militarmente, a Alemanha, a Rússia e o Japão, e contribuiu para o fortalecimento da China, Índia, Irã, Turquia, Brasil, países que disputam zonas de influência com os EUA, e participam da “corrida imperialista” que se explicitou nesta primeira década, e que deve se intensificar nos próximos anos. Os revezes políticos e militares dos EUA, na primeira década do século XXI desaceleraram o projeto imperial americano, mas ele não foi abandonado. Mas apesar disto, estes revezes criaram novas fraturas e divisões dentro dos EUA. E depois da Guerra do Iraque, está em curso um realinhamento interno de forças e posições, como ocorreu também na década de 70, e não é improvável que surja daí uma nova estratégia internacional. Mas estes processos de realinhamento interno do establishment americano costumam ser lentos, e os seus resultados finais dependerão ainda da própria luta interna e da evolução dos conflitos dos EUA com os seus principais concorrentes nas várias regiões do mundo. Porque apesar dos seus revezes recentes, e de suas dificuldades econômicas, os EUA seguem sendo o único player global, que está presente e disputa posições em cada uma, e em todas as regiões do mundo.

De qualquer forma, do nosso ponto de vista, não há possibilidade que os EUA abdiquem do seu poder, ou renunciem à expandi-lo permanentemente. Pelo contrário, deverão seguir aumentando sua capacidade militar em escala geométrica, numa velocidade que aumentará na medida em que se aproxime a sua ultrapassagem econômica pela China. Qualquer mudança mais substantiva, nesta correlação de forças, só ocorrerá com o aumento da capacidade e do poder regional e global das novas potências que estão se projetando neste início do século XXI.

ii. Por outro lado, do ponto de vista econômico, também se pode dizer que a resposta americana à crise de Bretton Woods acabou se transformando numa estratégia, que levou à recuperação e à expansão contínua da economia americana, cada vez mais associada ao crescimento da economia chinesa, sobretudo a partir de 1990. Este novo eixo dinâmico da economia mundial, por sua vez, provocou uma mudança estrutural da economia mundial, com o deslocamento para a Ásia, do seu principal centro de produção e acumulação de capital, e com o surgimento de uma economia nacional – a chinesa - com um poder gravitacional, sobre o conjunto da economia capitalista, equivalente ao dos Estados Unidos. Esta nova configuração estrutural, e sua expansão contínua, explica o aumento da “pressão competitiva”, dentro da economia mundial, na primeira década do século XXI.

iii. Por isto, do nosso ponto de vista, esta pressão econômica, somada à competição geopolítica, e à corrida imperialista que está em curso, são manifestações essenciais, e são ao mesmo tempo o anuncio de que o “sistema inter-estatal capitalista” está atravessando uma grande “explosão expansiva”. Nestes momentos, é impossível prever com precisão o futuro. O o único que se pode dizer, é que são transformações seculares dentro de um mesmo universo, que seguirá se expandindo, enquanto for constituído e liderado por “estados-economias nacionais” capitalistas, complementares e competitivas.

iv. Assim mesmo, no horizonte de curto prazo, entretanto, o “núcleo duro” da competição geopolítica mundial deverá estar composto velos Estados Unidos, China e Rússia. Três “estados continentais”, que detém um quarto da superfície da terra, e mais de um terço da população mundial. Nesta nova “geopolítica das nações”, a União Européia terá um papel secundário, ao lado dos Estados Unidos, enquanto não dispuser de um poder unificado, com capacidade de iniciativa estratégica autônoma. E a Índia, Irã, Brasil, Turquia, África do Sul, e talvez a Indonésia, deverão aumentar o seu poder regional, em escalas diferentes, mas não serão poderes globais, ainda por muito tempo. Na segunda década do século XXI, a nova “corrida imperialista” provocará um aumento dos conflitos localizados, entre os principais estados e economias do sistema, mas ainda não está no horizonte uma nova “guerra hegemônica”.

Por outro lado, do ponto de vista econômico, as novas crises financeiras que seguirão não deverão interromper o processo em curso de deslocamento do centro da acumulação capitalista, para a Ásia, e para algumas outras economias nacionais, dispersas pelo mundo, entre as quais, o Brasil e a Rússia, e em menor escala, a África do Sul, a Turquia, a Indonésia e o próprio Irã. Ou seja, no médio prazo, deverá ocorrer uma convergência assintótica, envolvendo numa mesma competição geopolítica e econômica, quase os mesmos estados e economias que deverão alcançar as primeiras posições na hierarquia internacional do poder e da riqueza mundial, ao lado dos Estados Unidos e da velha Europa.

v. Por último, para avaliar a importância das próximas crises financeiras e políticas que deverão se manifestar e ocorrer na próxima década, é importante compreender que: em primeiro lugar, quase todas as grandes crises do sistema mundial foram provocadas até hoje, pela própria potência hegemônica; em segundo lugar, que estas crises são provocadas quase sempre, pela expansão vitoriosa (e não pelo declínio) das potências capazes de atropelar as regras e instituições que eles mesmos criaram, num momento anterior, e que depois se transformam num obstáculo no caminho da sua própria expansão; e em terceiro lugar, que o sucesso econômico e a expansão da potência líder é sempre uma força e um impulso fundamental para o fortalecimento de todos os demais estados e economias que se proponham concorrer ou “substituir” a potência hegemônica. Mas o que é mais esdrúxulo é que, as crises provocadas pela “exuberância expansiva” da potência líder, quase sempre afetam, de forma mais perversa e destrutiva, aos “concorrentes” mais do que ao próprio líder ou hegemon, que costuma se recuperar de forma mais rápida e poderosa do que os demais.

Seja como for, é dentro deste contexto geopolítico e econômico, que se pode e deve pensar as alternativas de mais longo prazo, de inserção internacional soberana da América do Sul e do Brasil, na segunda década do Século XXI.

3. Brasil: possibilidades e escolhas
i. Brasil é - hoje - o segundo player mais importante, dentro do tabuleiro geopolítico da América do Sul ,e já tem tido uma importância maior nos desdobramentos político-ideológicos da América Central e do Caribe. Depois de assumir a liderança militar da missão de paz das Nações Unidas no Haiti, o Brasil tomou uma posição decidida a favor da reintegração de Cuba na comunidade americana e tem defendido, em todos os foros internacionais, o fim do bloqueio econômico norte-americano à Cuba. Ao mesmo tempo, tem assumido sua influência políitico-ideológica sobre alguns novos governos de esquerda da América Central, e tomou uma posição rápida e dura frente ao golpe de estado militar de Honduras, em junho de 2009, e frente à crise provocada pelo terremoto do Haiti, no início de 2010.

Mas apesar do seu maior ativismo diplomático, o Brasil ainda não tem capacidade de projetar seu poder afirmativo ou de veto, à região centro-americana, nem tem nenhuma disposição de competir ou questionar o poder americano no seu “mar interior caribenho”. Mais ao sul, entretanto, o Brasil tem exercido uma política cada vez mais ativa, mesmo quando conviva com uma desaceleração temporário do processo de integração econômica do continente. Com a criação da UNASUAL, e do Conselho Sulamericano de Defesa, o Brasil se distanciou e esvaziou o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca e a Junta Interamericana de Defesa que sempre contaram com o aval norte-americano. Além disto, nesta últimos dois anos, o Brasil teve uma participação ativa e pacificadora, nos conflitos entre Equador e Colômbia e entre Colômbia e Venezuela, na conflito interno da Bolívia, quando se transformou numa ameaça de guerra civil e de secessão territorial.

ii. De qualquer forma, uma coisa é certa: o futuro do projeto sul-americano dependerá cada vez mais das escolhas brasileiras, e da forma que o Brasil desenvolva suas relações com os Estados Unidos. Do ponto de vista econômico, a pressão dos mercados internacionais e as novas descobertas do petróleo da camada do pré-sal, também estão oferecendo para o Brasil a possibilidade de se transformar numa economia exportadora de alta intensidade, uma espécie de “periferia de luxo” dos grandes potências compradoras do mundo, como foram no seu devido tempo, a Austrália e a Argentina, entre outros. Mas existe a possibilidade do Brasil escolher um outro caminho que combine seu potencial exportador, como uma estrutura produtiva industrial associada e liderada por uma economia mais dinâmica, como é o caso contemporâneo do Canadá, por exemplo.

Além disto, neste momento, o Brasil também dispõe de uma terceira alternativa, absolutamente nova para o país, e que aponta de certa maneira, para a reprodução da estrutura produtiva da economia norte-americana: com uma indústria de alto valor agregado, e uma enorme capacidade de produção e exportação de alimentos e outras commodities de alta produtividade, incluindo o petróleo, no caso brasileiro. Por outro lado, no campo político, depois da hegemonia das idéias neoliberais e privatistas, e de uma coalizão de poder partidária do “cosmopolitismo subserviente”, no campo internacional, está se consolidando no Brasil um novo consenso desenvolvimentista, democrático e popular que transcende cada vez mais as siglas partidárias. As perspectivas futuras desta nova coalizão, entretanto, dependerão da estratégia internacional dos próximos governos brasileiros.

O Brasil pode se transformar num “aliado estratégico” dos Estados Unidos, da Grã Bretanha e da França, com direito de acesso à uma parte de sua tecnologia de ponta, como no caso do Japão ou mesmo de Israel, que construiu seu arsenal atômico com a ajuda da França. Mas o Brasil também pode escolher um caminho próprio de afirmação internacional. Mas, se o Brasil quiser mudar de posição e de estratégia, dentro das “regras” do sistema mundial, terá que desenvolver um trabalho extremamente complexo de administração contínua das relações de complementaridade e competição com os Estados Unidos, e com as outras grandes potências, a partir dos seus próprios interesses econômicos e geopolíticos. Numa disputa prolongada pela hegemonia da América do Sul, como se fosse uma “luta oriental” com os Estados Unidos. Caminhando através de uma trilha muito estreita e durante um tempo que pode se prolongar por várias décadas. Além isto, para liderar a integração sul-americana no mundo, o Brasil terá que inventar uma nova forma de expansão econômica e política continental e mundial, sem “destino manifesto” nem missão missionária, e sem o imperialismo bélico das duas grandes potências anglo-saxônicas.

Fonte: www.cartamaior.com.br

Tortura e morte na Polinter (RJ) - Por Latuff

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Mumia não pode morrer! Exijamos novo julgamento!


Mumia não pode morrer! Exijamos novo julgamento!

Mumia Abu-Jamal é um preso político norte-americano, em isolamento há quase trinta anos. Decisões recentes do Supremo Tribunal dos EUA colocam a sua vida em perigo. Neste artigo pretende-se dar, a quem não o tem, um enquadramento geral do caso e assim suscitar o reforço da campanha pela libertação de Mumia [participe na campanha aqui]. Por Colectivo Mumia Abu-Jamal (Portugal)

Mumia Abu-Jamal é um conhecido jornalista e radialista revolucionário norte-americano, que está há quase 30 anos em isolamento total no corredor da morte da Pensilvânia, falsamente acusado da morte de um polícia. Mumia foi vítima de um julgamento-farsa em que lhe foram negados os mais elementares direitos de defesa, incluindo a imposição de um advogado incompetente, depoimentos obtidos sob coacção e uma «confissão» que só a polícia ouviu. Provas obtidas mais recentemente têm vindo a esclarecer o que realmente se passou nesse julgamento de 1982 e o modo como a polícia e o tribunal filtraram os jurados numa base racista, falsificaram provas, intimidaram testemunhas e condenaram Mumia à morte.

Em Abril de 2009, o Supremo Tribunal dos EUA rejeitou um pedido de Mumia Abu-Jamal para que fosse repetida a fase de decisão de culpabilidade do seu julgamento, com base numa decisão do Supremo Tribunal dos EUA em 1986, de que os réus têm direito a um novo julgamento se ficar provado que a acusação usou as chamadas «medidas irrevogáveis» para afastar jurados com base na origem étnica dos mesmos. No julgamento original de Mumia em 1982, o procurador Joseph McGill usou pelo menos 10 dessas medidas (das 15 a que tinha direito) para afastar jurados negros que, de outra forma, poderiam ter integrado o júri.

No meio da longa batalha legal que Mumia tem enfrentado em defesa dos seus direitos, em Março de 2008 o Tribunal de Recurso de Filadélfia decidiu «comutar» a pena de morte original em prisão perpétua, reconhecendo a existência de irregularidades durante o julgamento de 1982. No entanto, o Estado da Pensilvânia recorreu para o Supremo Tribunal Federal e, a 19 de Janeiro deste ano, este decidiu devolver o processo ao Tribunal de Filadélfia para reapreciação à luz de algumas decisões legais recentes. Isto não é necessariamente mau. Depois de Mumia ter esgotado todos os recursos ao Supremo, o regresso a um tribunal inferior implica que tudo pode voltar agora a ser decidido, tanto a reafirmação da pena de morte, como também a possibilidade de um novo julgamento.


De qualquer forma, a situação de Mumia é grave e requer uma acção urgente. Na sequência desta decisão, foi lançada uma grande campanha de apoio a Mumia, incluindo uma petição ao Presidente Obama, pedindo-lhe nomeadamente uma moratória global sobre a pena de morte nos EUA. Mais de 15.000 pessoas já a assinaram, incluindo Günter Grass (Prémio Nobel da Literatura); o bispo Desmond Tutu (Prémio Nobel da Paz); Danielle Mitterrand (ex-primeira dama de França); Fatima Bhutto (escritora paquistanesa); Noam Chomsky (filósofo, escritor e professor no MIT); Ed Asner (actor); Mike Farrell (actor) e Michael Radford (realizador do filme O Carteiro de Pablo Neruda, detentor de um Óscar da Academia). A tua assinatura é importante: http://www.petitiononline.com/Mumialaw/petition.html

MUMIA NÃO PODE MORRER!
EXIJAMOS UM NOVO JULGAMENTO!
LIBERDADE PARA TODOS OS PRESOS POLÍTICOS!

O Colectivo Mumia Abu-Jamal
Site: http://cma-j.blogspot.com
Contacto de email: cmaj@mail.pt

Fonte: http://passapalavra.info/