segunda-feira, 26 de abril de 2010

Escândalo da Goldman Sachs mostra jogatina financeira - Por Carlos Drummond


Escândalo da Goldman Sachs mostra jogatina financeira
Carlos Drummond De Campinas (SP)

Está provado e publicado nas mídias digitais e não digitais que o maior banco de investimento do mundo, o Goldman Sachs, atraiu cidadãos para uma armadilha na véspera do estouro da bolha imobiliária americana em 2008, inflada por uma plêiade de instituições respeitáveis e outras nem tanto. A sucessão interminável de episódios vergonhosos inscritos na crônica da crise das hipotecas subprime mostra não se tratar de uma exceção este caso do Goldman Sachs, escancarado há uma semana pela Securities and Exchange Comission, órgão do governo americano que fiscaliza o mercado de capitais.

A repetição do roubo tosco e do roubo refinado, em grandes proporções, nas crises do capitalismo protagonizadas por bancos, fundos de investimento, corretoras, seguradoras, avaliadoras de risco e auditorias aponta para uma outra questão: é possível imaginar o sistema financeiro atual sem jogatina e sem trapaça?

Não, não é possível, já disse o banqueiro Ernest Cassel, gestor da fortuna do rei Eduardo VII, rei da Grã-Bretanha e da Irlanda entre o final do século 19 e o início do século 20. Homem culto e conhecedor profundo dos meandros da economia e das finanças, Cassel afirmou não haver fronteiras entre atividade financeira e jogatina.

A diferença é somente de escala, como fica claro nessa sua afirmação com tom de depoimento histórico: "Quando eu era jo¬vem, diziam que eu era um jogador. Quando a escala das minhas operações aumentou, tornei-me conhecido como especulador. Hoje sou chamado de banqueiro. Mas eu tenho feito a mesma coisa o tempo todo!".

Especulação elevada caracteriza 40 crises financeiras de proporções consideráveis ocorridas nos últimos 50 anos, constataram quatro pesquisadores em um estudo sobre características recorrentes nos colapsos econômico financeiros. Em 1923, um operador da bolsa de Nova York disse: "em parte nenhuma a história se compraz em repetições com tanta freqüência e uniformidade quanto em Wall Street. Quando lemos relatos contemporâneos sobre surtos altistas ou pânicos, o que mais nos impressiona é que a especulação ou os especuladores do mercado acionário de hoje diferem pouquíssimo dos de ontem. O jogo não muda, como também não muda a natureza humana".

O problema tem impacto sísmico no contexto contemporâneo, de poder e abrangência hiperdimensionadas do sistema e da lógica financeira sobre todas as esferas de vida. Esse poder e essa abrangência ficam claros quando se examina o avanço do segmento sobre as demais atividades econômicas. No período que antecedeu a crise das hipotecas subprime, os lucros do segmento financeiro dobraram em relação ao final da década de 1980 e representaram trinta por cento do total obtido pelo conjunto das empresas americanas, como lembrou há uma semana o economista Paul Krugman.

O sistema justificava a sua hipertrofia e o gigantismo dos lucros dizendo que cumpria um papel de equilíbrio econômico e social ao distribuir recursos com eficiência para usos produtivos, diluir riscos, ampliar a estabilidade e perenizá-la através da inovação constante. O que se viu, lembra Krugman em coro com legiões de economistas tornados mais lúcidos e mais críticos a partir da débâcle, foi o sistema financeiro canalizar recursos para empresas não inovadoras nem geradoras de emprego, aumentar a instabilidade econômica e social, concentrar o risco e multiplicá-lo com o emprego de inovações que eram puro "lixo tóxico".

O dia-a-dia do sistema financeiro americano e europeu, principalmente, passou a girar em torno da lógica de apostas cada vez mais altas com dinheiro alheio, até a banca quebrar. Nada de novo a banca financeira mostrar-se banca de jogo, diria Ernest Cassel, fosse ele contemporâneo da segunda maior crise da história do capitalismo.

No episódio do Goldman Sachs ocorrido no ápice da bolha imobiliária, sobrava cinismo ou excesso de confiança. Em e-mails revelados no final da semana pelo Congresso americano, executivos do banco comemoraram os ganhos de um bilhão de dólares com a atração de investidores para apostas na continuidade do ciclo de ganhos do mercado enquanto a própria instituição colocava dinheiro grosso em operações que presumiam a hipótese contrária, isto é, de estouro da bolha.

Em janeiro deste ano Lloyd Craig Blankfein, presidente da Goldman Sachs, prestou depoimento sobre o mesmo escândalo na Financial Crisis Inquiry Commission, comissão bipartidária criada pelo presidente Barak Obama para investigar as causas da crise das hipotecas subprime. Interpelado pelo senador Phil Angelides, presidente da FCIC, Blankfein alegou que a Goldman "é apenas um participante de mercado e pode ser uma vencedora ou uma perdedora após cada operação".

Para Angelides, as ações de Blankfein no mercado de hipotecas são comparáveis a vender um automóvel sem freios e então comprar uma apólice de seguro do veículo. A lista de episódios de falta de lisura do Goldman Sachs é longa e inclui um episódio recente. Ao lado de outros bancos, ajudou o governo da Grécia a mascarar a verdadeira extensão do seu déficit, com o uso de derivativos, para contornar os limites de déficit aceitos para países integrantes da União Europeia. Os gestores da dívida da Grécia fecharam negócio com o Goldman Sachs em 2002.

A operação envolveu os chamados cross-currency swaps, nos quais a dívida do governo emitida em dólares e yens é trocada por uma dívida em euros para ser reconvertida nas moedas originais depois de um certo prazo. Diversos países europeus obtém normalmente fundos de investidores ao redor do mundo com esse tipo de operação. Mas no caso da Grécia, observou a revista alemã Der Spiegel, o Goldman Sachs e outros bancos americanos inventaram um tipo especial de swap com "taxas de câmbio ficcionais".

A inovação possibilitou que a Grécia recebesse "uma soma muito mais alta do que o valor efetivo no euromercado, de dez bilhões de dólares ou yens". Por meio desse expediente, o Goldman Sachs conseguiu secretamente um crédito adicional superior a um bilhão de dólares para a Grécia. Esse crédito, disfarçado como swap, não aparece nas estatísticas de endividamento do país.

As regras de Maastricht, definidas pelos países da União Européia, puderam ser tranquilamente contornadas dentro da lei através desse tipo de swap. Este tipo de operação, considerado uma inovação brilhante pelos donos de Wall Street, nada tem de novo, no entanto, no seu princípio de trapaça denunciado de forma tão clara pelo banqueiro Cassel.

Carlos Drummond é jornalista. (Fale com Carlos Drummond: carlos_drummond@terra.com.br)
Fonte: http://terramagazine.terra.com.br

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Quilombo de Palmas cercado! Por Coletivo Catarse.

(Vídeo) Quilombo de Palmas cercado!

A Comunidade do Quilombo de Palmas, na região de Bagé [Rio Grande do Sul - RS], está sofrendo pressão de fazendeiros, que estão em vigília na entrada do quilombo há mais de 15 dias. Por Coletivo Catarse.

Representantes do Movimento Negro denunciaram ao Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia [RS], ao Ministério Público Federal e Estadual, além de outros órgãos, esta presença ostensiva em via pública gerando constrangimentos e impedindo, inclusive, a entrada do INCRA para a realização do trabalho de demarcação da área.

Um documento elaborado pelos representantes do Movimento Negro no dia 20/04/10 exige providências aos órgãos responsáveis, como a Polícia Federal, Secretaria de Segurança Pública [RS], Ministério Publico Federal e Estadual, a Procuradoria do INCRA entre outros. Exige-se que estes órgãos garantam a integridade física e moral dos quilombolas e das lideranças da Associação, bem como a defesa do território que se encontra com a presença dos ruralistas fiscalizando o movimento de quem passa para impedir que o INCRA acesse o quilombo.

Veja o vídeo realizado pelo Coletivo Catarse em apoio ao Quilombo de Palmas.


Fonte: http://passapalavra.info/
http://www.coletivocatarse.com.br/

Banksy, o artista anônimo mais conhecido do mundo - Por Renato Roschel


Banksy, o artista anônimo mais conhecido do mundo - Por Renato Roschel

No Reino Unido, todo mundo o conhece, mas ninguém sabe quem ele é. Seu nome de guerra é Banksy. Ele é hoje o grafiteiro mais famoso da Europa e talvez do mundo. Suas obras são marcadas pela ironia, a crítica e a tiração de sarro mais descarada. Provocador, fenômeno pop e criminoso, agora, esse incrível artista também vai se tornar conhecido do público do resto da Europa e dos Estados Unidos com o documentário Exit Through The Gift Shop, o qual, segundo disse o próprio Banksy é “o primeiro filme-catástrofe de arte de rua”.

No filme, a rotina de Banksy é acompanhada pelo documentarista francês Thierry Guetta, o qual o seguiu em seu noturno e ilegal trabalho artístico. O longa segue uma linha à Sacha Baron Cohen. É uma espécie de tiração de sarro em forma de documentário. Como os melhores anarquistas, Banksy conseguiu brincar com o mundo idiota e sem sentido das celebridades. Hoje, ele é uma delas. Só que ao contrário desse pessoal que faz qualquer negócio para mostrar a cara, Banksy não aparece nunca. No filme, seu rosto está sempre desfocado e o som de sua voz parece uma mistura de Darth Vader com Tetê Spínola.

De certa forma, Exit Through The Gift Shop conta um pedaço da história da arte de rua nos anos 1990 no Reino Unido, parte da carreira do artista e sua maneira de trabalhar. Também fala a respeito de um novo e forte movimento de arte de rua em Los Angeles, nos EUA. Em sua estréia no Festival de Berlim, em fevereiro deste ano, Bansky disse que gostaria que o filme representasse para a arte de rua o que Karatê Kid representou para as artes marciais. Portanto, a idéia do grafiteiro é popularizar ainda mais sua arte.

Quem assiste o filme, sai do cinema sem saber exatamente o que pensar. Como o diretor Thierry Guetta é meio maluco e um tanto quanto picareta, não sabemos se o filme foi realmente uma idéia dele ou se ele foi utilizado pelo grafiteiro como uma espécie de “diretor de fachada”. Também não dá para saber o que é verdade e o que não é. Se Banksy é o artista que aparece sempre com o rosto coberto na tela ou se é tudo uma grande piada. O “diretor” francês jura de pé junto que foi ele quem conduziu as filmagens. No fundo, sentimos que o espírito de Banksy pode realmente estar por trás de tudo. Depois de pensar um pouco, percebemos que o filme pode ser entendido como primeiro grafite na tela branca do cinema. Tão fugaz e ao mesmo tempo eterno quanto as brilhantes obras de Banksy.

Leia mais: http://obviousmag.org/archives/2010/03/banksy_o_artista_anonimo_mais_conhecido_do_mundo.html#ixzz0lvcAcB5d



Fonte: http://obviousmag.org/

Serra tira os sapatinhos para os EUA - Novae.Inf

Serra tira os sapatinhos para os EUA

O presidenciável demotucano José Serra vai aos poucos soltando suas asinhas. Quando sua pré-candidatura foi oficializada, no início de abril, ele se fingiu de bonzinho. Evitando se confrontar com a alta popularidade do presidente Lula, afirmou que manteria o que há de positivo no atual governo e lançou o bordão adocicado “O Brasil pode mais” – que logo foi encampado pela TV Globo numa desastrada propaganda subliminar. Mas o “Serrinha paz e amor” não se sustenta. É pura estratégia eleitoral, coisa de marqueteiro esperto para embalar um produto falsificado.

Na semana passada, num evento com empresários de Minas Gerais, José Serra começou a fazer a demarcação dos projetos em disputa da eleição de outubro. Ele criticou o Plano de Aceleração do Crescimento, o que reforça a confissão à revista Veja do presidente do PSDB, Sérgio Guerra, de que o PAC será extinto. Também afirmou que irá “rever o papel” do BNDES. O que chamou a atenção no seu discurso, porém, foi o ataque ao Mercosul. Para ele, o bloco regional “atrapalha as relações comerciais do Brasil”. O discurso deve ter agradado aos seus amos dos EUA.

“Alinhamento automático” com o império
De há muito que a política externa do presidente Lula, mais altiva e ativa na defesa da soberania nacional, é motivo de duras críticas da oposição neoliberal-conservadora. Os demotucanos nunca engoliram a prioridade dada ao Mercosul e à integração regional; tentaram sabotar o ingresso da Venezuela no bloco regional e são inimigos declarados dos governos progressistas da região; não se pronunciaram contra o golpe militar em Honduras, mas condenaram o governo por dar abrigo ao presidente deposto. Para eles, como revela José Serra, a integração latino-americana atrapalha.

Presença nauseante nos telejornais da Globo e nas páginas dos jornalões e revistonas direitistas, os embaixadores tucanos Celso Lafer, Rubens Barbosa e Luiz Felipe Lampreia sempre pregaram o retorno à política de FHC do “alinhamento automático” com os EUA. No episódio recente da ameaça do governo Lula de retaliar produtos ianques em oposição ao seu protecionismo, alguns deles saíram em defesa dos EUA. Eles temem qualquer postura mais soberana diante do império. São contra a política de diversificação comercial do Brasil, contra a ênfase nas relações Sul-Sul.

Complexo de vira-lata dos demotucanos
Este é o time do candidato José Serra. Essa é a sua orientação para a política externa. Na prática, a oposição neoliberal-conservadora sonha com o retorno ao “alinhamento automático”. Mercosul e outras iniciativas visando quebrar o unilateralismo imperial seriam enterradas com a eleição do demotucano. O Brasil regrediria para o triste período de FHC, de total subserviência às potências capitalistas – do complexo de “vira-lata”. Serra tenta se afastar da imagem desgastada de FHC, mas sua política externa seria idêntica – não como farsa, mas como tragédia no mundo atual.

Para entender o que representaria este retrocesso vale a pena ler o livro “As relações perigosas: Brasil-Estados Unidos (de Collor a Lula, 1990-2004)”, do renomado historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira. Ele comprova, como farta documentação, como a política externa regrediu nos oito anos de reinado de FHC. Neste período nefasto, o país só não aderiu ao tratado neocolonial dos EUA, a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), devido à reação da sociedade. Esta resistência também evitou que Alcântara, no Maranhão, virasse uma base militar ianque.

Tratamento humilhante para o Brasil
Entre outros casos vexatórios da política de FHC, Moniz Bandeira relata a sumária exoneração do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (IPRI) do Itamaraty, por este ter alertado o governo para os graves riscos da Alca. Cita a atitude acovardada do ex-ministro Celso Lafer diante das pressões dos EUA para afastar o embaixador brasileiro José Maurício Bustani da direção da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ), ligada à ONU, por este ter tentado evitar a guerra genocida no Iraque. Lembra ainda os discursos do ex-ministro de FHC propondo a participação do Brasil no genocídio no Iraque com base no draconiano Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR).

O ápice dessa postura subserviente se deu quando o diplomata aceitou tirar seus sapatinhos nos aeroportos dos EUA. “Em 31 de janeiro de 2002, Celso Lafer, ministro das Relações Exteriores do Brasil, sujeitou-se a tirar os sapatos e ficar descalço, a fim de ser revistado por seguranças do aeroporto, ao desembarcar em Miami. Esse desaire, ele novamente aceitou antes de tomar o avião para Washington, e mais uma vez desrespeitou a si próprio e desonrou não apenas o cargo de ministro, como também o governo ao qual servia. E, ao desembarcar em Nova York, voltou a tirar os sapatos, submetendo-se, pela terceira vez, ao mesmo tratamento humilhante”.

Subserviência ou soberania nacional?
Com base nas suas pesquisas, Moniz Bandeira garante que a eleição de Lula deu início a uma guinada na política externa, retomando a trajetória seguida por Vargas e outros nacionalistas. Ele lembra os discursos do então candidato contra a Alca, a indicação de Celso Amorim e de Samuel Pinheiro para o seu Ministério de Relações Exteriores, a prioridade às negociações do Mercosul, os esforços para a construção de um bloco regional sul-americano e a frenética investida na diversificação das relações com outros países em desenvolvimento – como China, Índia e Rússia. Cita ainda os duros discursos contra a ocupação do Iraque e o veto à base ianque em Alcântara.

Para o autor, após a longa fase de subserviência ao império, as relações do Brasil com os EUA voltaram a ficar tensas. Ele registra os vários discursos hidrófobos da direita estadunidense e não descarta manobras ardilosas e violentas para sabotar o atual projeto de autonomia nacional. Mas se mostra confiante na habilidade e ousadia da atual equipe do Itamaraty. Reproduzindo artigo do jornal O Globo, ele afirma que “há tempos (Celso Amorim) avisou a embaixadora dos EUA que não há força no mundo capaz de fazê-lo tirar os sapatos durante a revista de segurança dos aeroportos americanos. ‘Vou preso, mas não tiro o sapato’”. Conforme indica Moniz Bandeira, este é o dilema do Brasil na atualidade: subserviência ou soberania nacional?

Fonte: http://www.novae.inf.br/

A Foto do Mal na Terra - Por Latuff


quinta-feira, 22 de abril de 2010

Naomi Klein: “Temos que levar a responsabilidade aos países ricos”

Naomi Klein: “Temos que levar a responsabilidade aos países ricos”


Na Conferência Mundial dos Povos sobre as Mudanças Climáticas (CMPCC), a jornalista e escritora canadense pediu maior pressão sobre os países desenvolvidos.

21/04/2010 - Vinicius Mansur, de Tiquipaya, Cochabamba, Bolivia

Durante o painel “Dívida climática: o que é e quem são os responsáveis”, realizado na manhã desta quarta-feira (21), Naomi Klein enfatizou que mudanças concretas na questão ambiental dependem de mudanças nos países de capitalismo avançando, uma vez que eles, que correspondem a cerca de 20 % da população mundial, são responsáveis por mais de 70% das emissões de poluentes.

“Temos que levar a responsabilidade aos países ricos. O meu país [Canadá] assinou o protocolo de Kioto, mas desde então, ao invés de reduzir, aumentaram em 35% a poluição. Há que se buscar algum tipo de punição para isso”, afirmou.

Klein ressaltou que os países pobres, além de emitir muito menos gases poluentes, são os que mais são afetados pelos efeitos das mudanças climáticas: “Na Conferência de Copenhague vimos a falta de poder de países como as Maldivas, um país de ilhas que podem desaparecer pelo aumento do nível do mar. Eles tem que negociar para poder sobreviver! E, pior, não chegam a um acordo.”

Sem pressão política aos países ricos, a canadense disse que eles seguirão buscando soluções para a crise ambiental através das “empresas que estão se preparando para as mudanças climáticas com a bioengenharia, criando sementes mais resistentes, por exemplo”.

As colocações de Naomi Klein coincidem com as posições do presidente da Bolívia, Evo Morales, que, em uma coletiva de imprensa nessa quarta-feira (21), afirmou que a próxima conferência mundial de movimentos sociais deveria ser na Europa. “Os movimentos da Europa deveriam dizer em qual país [deveria ser realizada a conferência]. Creio que é importante ir ao centro dos países desenvolvidos para debater com eles”, completou Morales.

Mesa 18
A polêmica “Mesa 18” foi instalada nesta terça-feira (21), funcionando também na quarta (22). Com o intuito de debater exclusivamente os impactos ambientais na Bolívia, assunto não aceitado pelo governo boliviano sob alegação de que a CMPCC tratava de temas globais e não nacionais, organizações sociais armaram paralelamente a Mesa 18. Entre elas estão o Conselho Nacional de Ayllus e Markas do Qullasuyu (Conamaq), a Confederação dos Povos Indígenas da Bolívia (Cidob) e o Centro de Estudos Jurídicos e Investigação Social (Cejis).

“O Evo em seus discursos afirma que a causa da depredação ambiental é o capitalismo. E são as empresas capitalistas com presença na Bolívia que estão produzindo uma série de impactos, destruindo populações e ecossistemas, aos quais o governo boliviano não está protegendo. Ao contrário, está com uma estratégia de industrialização forçada”, explicou o organizador da Mesa 18 e pesquisador da Universidad Mayor de San Simón, carlos Crespo.

De acordo com Crespo, há um mapa amplo de conflitos ambientais, onde as comunidades indígenas e camponesas estão brigando contra atividades econômicas legitimadas por políticas públicas:

“Há a construção de uma hidroelétrica no norte-amazônico boliviano, para exportar energia ao Brasil, as explorações mineiras em Coro-coro (norte de La Paz) e no Salar do Uyuni (Potosí), onde atua a empresa japonesa Sumitomo, uma das maiores do mundo e que demanda 40 a 50 mil metros cúbicos de água por dia, numa região desértica. No tema de hidrocarbonetos, o governo decidiu explorar petróleo em parques nacionais e terras de povos indígenas, em associação com capital venezuelano e capital gringo. Além da construção da estrada Villa Tunari-San Ignácio de Mojos, que parte pela metade um parque nacional e um território indígena.”

Porém, o pesquisador garantiu que a Mesa 18 não é um espaço da oposição ao governo.

“Pelo contrário, as comunidades que estão vindo denunciar seus casos são apoiadores integrais do governo. Evo é seu líder, apóiam o processo de mudanças, mas dizem ‘esperamos que nosso líder nos defenda, nos proteja’”, completou.

Fonte: http://www.brasildefato.com.br

[Espanha] Zaragoza: “Reclame as ruas sem fronteiras” - ANA


[Espanha] Zaragoza: “Reclame as ruas sem fronteiras”

[Entre os dias 15 e 16 de abril os ministros de imigração dos países que formam a União Européia se reuniram em Zaragoza para falar de imigração. Em paralelo, diversos coletivos, redes e associações organizaram uma série de atividades para denunciar a intolerável política de imigração da União Européia. A seguir um resumo de alguns eventos.]

Manifestação "Que os Ricos Paguem a Crise"

[Domingo, 18 de abril]

Aproximadamente 2000 pessoas manifestaram-se em Zaragoza convocadas pela Plataforma “Que os Ricos Paguem a Crise”. Os manifestantes invadiram o centro da cidade num ambiente festivo e colorido, mas sem esquecer o seu tema reivindicativo, com referências às causas da crise, banqueiros, políticos e empresários, e gritos a favor da Greve Geral e críticas contra os chamados sindicatos majoritários, UGT e CO, cúmplices do sistema e também culpáveis da crise. O protesto terminou com a leitura de um manifesto conjunto no qual se apelou à união de todos para lutar para sair da crise, entre outras coisas.

"Reclame as ruas sem fronteiras"

[Sábado, 17 de abril]

Cerca de 5 mil pessoas manifestaram-se nas ruas de Zaragoza sob o lema “Dignidade, Respeito e Direitos para todos e todas”, numa ação convocada pela Plataforma Cidadã pela Igualdade e a Interculturalidade, que aglutina numerosas organizações sociais integradas na Cúpula Alternativa de Imigração.

Previamente, cerca de 600 pessoas tinham participado numa passeata que partiu de diferentes bairros de Zaragoza, como parte da campanha de apresentação pública na cidade, referente à campanha internacional "Cidades Sem Fronteiras".

A passeata, convocada como "Reclame as ruas sem fronteiras", compôs-se por cinco colunas procedentes dos bairros de Las Fuentes, Torrero, La Madalena, Ensanche e Actur. Uma vez na Praça Paraíso, todas as colunas se juntaram ao protesto, apesar de algumas tentativas da Polícia Nacional para dissolver a coluna que vinha da Praça de San Francisco, que contava com um numeroso grupo de imigrantes indocumentados.

O que reclama “Ruas Sem Fronteiras” (Extrato da convocatória):

• Liberdade de Movimento na cidade: Basta de exclusões, controles de documentação e detenções arbitrárias contra o/as migrantes em todos os bairros.

• Direitos para todas as pessoas: Igualdade de acesso aos direitos sociais e às prestações e serviços a eles associados para todas as pessoas, independente do país de origem e da situação administrativa.

• Regularização e direitos laborais para todas as pessoas como medida inalienável para evitar as situações de exclusão e exploração laboral que sofrem os/as migrantes indocumentados.

• Incremento dos pressupostos destinados a políticas sociais: que garantam o acesso para todas as pessoas aos serviços e prestações sociais básicas, tais como a saúde, a educação, os equipamentos públicos, etc., evitando a atual competição entre a cidadania por uns recursos públicos escassos.

• Fim dos Centros de Internamento para Estrangeiros (CIE): existentes e compromisso de não construção de mais nenhum CIE em nenhuma cidade.

Fotos: http://media.noblezabaturra.org/v/Derechos_civiles/no_sobra_nadie/reclama/

Duas ações diretas denunciam as políticas migratórias européias

[Sexta-feira, 16 de abril]

Por volta do meio-dia, um primeiro grupo de ativistas conseguiu chegar bem perto da entrada do edifício (Palácio de Congressos) onde estavam reunidos os ministros. Vestidos com macacão, luvas brancas e máscaras, anunciaram por um megafone que havia sido descoberto um foco infeccioso do vírus racista “frontex xenofobiae”, e que o seu trabalho consistia em prevenir o seu contágio assim como realizar uma desinfecção do lugar. A equipe de desinfecção agradeceu a presença do Corpo Nacional de Polícia "para proteger todas as entradas e saídas do recinto e manter as pessoas infectadas no interior do edifício".

Entretanto, era feita a impermeabilização da zona, frente à barreira policial estabelecida entre o grupo e as portas.

Momentos depois, um segundo grupo de pessoas aproveitava a confusão criada para também se aproximar da entrada do edifício e jogar tinta vermelha sobre ela, representando as mortes provocadas pelas políticas das fronteiras européias e devido à perseguição aos imigrantes no território da União Européia.

Mais tarde, o grupo vestido de macacão branco expôs vários banners em que se podia ler mensagens como "Política Européia de imigração mata?" ou " Aqui não poupam ninguém?" e foram gritados vários slogans contra o racismo. Por último, a polícia identificou todos os participantes na ação e os fizeram retroceder vários metros, para fora da zona de segurança do recinto.

A sessão desta manhã da Conferência Ministerial sobre Integração de Imigrantes, nome oficial da Cúpula intitulava-se "A integração como motor de desenvolvimento e coesão social", e tinha como objetivo discutir as políticas de imigração da União Européia, justamente o foco de críticas dos ativistas.

Entre os assistentes encontrava-se a secretária de Estado para a Imigração e Emigração Anna Terron, e a Comissária dos Assuntos Internos da União Européia, Cecilia Malmström, que afirmou recentemente que a "Espanha não pode tolerar a entrada de imigrantes ilegais no censo?", apoiando assim o plano do Conselho da cidade de Vic de informar o governo dos indocumentados que se registrarem na região.

Em contraste com o título da conferência, o porta-voz do grupo de ativistas afirmou que "ninguém pode falar de integração se não garantir os direitos básicos para todos os povos". E argumentou que as perseguições aos centros de detenção de estrangeiros e a falta de direitos laborais são os fatores que impedem a integração dos migrantes.

Fotos: http://picasaweb.google.es/117794366953077380725/AccionDirectaNoViolenta#

Mais infos: http://www.zaragozasinfronteras.tk/

Tradução > Liberdade à Solta

agência de notícias anarquistas-ana
Marchando no tempo,
antes de tudo e após tudo,
soberbo, o silêncio.

Alexei Bueno

Direitos humanos e direitos da natureza: dois nomes da mesma dignidade - Por Eduardo Galeano

Direitos humanos e direitos da natureza: dois nomes da mesma dignidade


(Carta de Eduardo Galeano aos participantes da Cúpula de Cochabamba)

Lamentavelmente, não poderei estar com vocês.

Um pedaço de pau se atravessou na minha roda, o que me impede de viajar.

Mas quero acompanhar de alguma forma essa reunião de vocês, essa reunião dos meus, já que não tenho mais remédio do que fazer o pouquinho que posso e não o muitinho que quero.

E por estar sem estar estando, pelo menos lhes envio estas palavras.

Quero lhes dizer que tomara que se possa fazer todo o possível, e o impossível também, para que a Cúpula da Mãe Terra seja a primeira etapa rumo a uma expressão coletiva dos povos que não dirigem a política mundial, mas a padecem.

Tomara que sejamos capazes de levar adiante essas duas iniciativas do companheiro Evo, o Tribunal da Justiça Climática e o Referendo Mundial contra um sistema de poder fundado na guerra e no esbanjamento, que despreza a vida humana e põe bandeira de leilão em nossos bens terrenos.

Tomara que sejamos capazes de falar pouco e fazer muito. Graves danos nos fez, e continua fazendo, a inflação palavrária, que, na América Latina, é mais novica do que a inflação monetária. E também, e principalmente, estamos fartos da hipocrisia dos países ricos, que estão nos deixando sem planeta, enquanto pronunciam pomposos discursos para dissimular o sequestro.

Há aqueles que dizem que a hipocrisia é o imposto que o vício para à virtude. Outros dizem que a hipocrisia é a única prova da existência do infinito. E a discursaria da chamada “comunidade internacional” , esse clube de banqueiros e guerreiros, prova que as duas definições são corretas.

Eu quero celebrar, em troca, a força de verdade que irradiam as palavras e os silêncios que nascem da comunhão humana com a natureza. E não é por casualidade que essa Cúpula da Mãe Terra é realizada na Bolívia, essa nação de nações que está se redescobrindo a si mesmo ao término de dois séculos de vida mentida.

A Bolívia acaba de celebrar os 10 anos da vitória popular na guerra da água, quando povo de Cochabamba foi capaz de derrotar uma todo-poderosa empresa da Califórnia, dona da água por obra e graça de um governo que dizia ser boliviano e era muito generoso com o que era alheio.

Essa guerra da água foi uma das batalhas que essa terra segue lutando em defesa de seus recursos naturais, ou seja: em defesa de sua identidade com a natureza.

Há vozes do passado que falam ao futuro.

A Bolívia é uma das nações americanas onde as culturas indígenas souberam sobreviver, e essas vozes ressoam agora com mais força do que nunca, apesar do longo tempo da perseguição e do desprezo.

O mundo inteiro, aturdido como está, deambulando como cego em tiroteio,, teria que escutar essas vozes. Elas nos ensinam que nós, os humaninhos, somos parte da natureza, parentes de todos os que têm pernas, patas, asas ou raízes. A conquista europeia condenou por idolatria os indígenas que viviam essa comunhão, e por crer nela foram açoitados, degolados ou queimados vivos.

Desde aqueles tempos do Renascimento europeu, a natureza se converteu em mercadoria ou em obstáculo ao progresso humano. E até hoje esse divórcio entre nós e ela persistiu, a tal ponto que ainda há gente de boa vontade que se comove com a pobre natureza, tão maltratada, tão ferida, mas vendo-a a partir de fora.

As culturas indígenas a veem a partir de dentro. Vendo-a, me vejo. O que faço contra ela é feito contra mim. Nela me encontro, minhas pernas são também o caminho que as anda.

Celebremos, pois, essa Cúpula da Mãe Terra. E tomara que os surdos escutem: os direitos humanos e os direitos da natureza são dois nomes da mesma dignidade.


*Eduardo Galeano é escritor e jornalista uruguaio, autor de As Veias Abertas da América Latina e Memórias do Fogo. Artigo originalmente publicado no site do PSOL. Tradução: Moisés Sbardelotto.

Fonte: http://www.operamundi.com.br/

A mídia esconde sua posição política, diz especialista Ana Cláudia Barros

A mídia esconde sua posição política, diz especialista Ana Cláudia Barros


Considerada mito sob os olhares mais críticos, a imparcialidade nos meios de comunicação sempre foi objeto de discussões infindáveis, sobretudo, do lado de dentro dos muros acadêmicos. Em tempos de corrida eleitoral, a questão, polêmica por excelência, volta a monopolizar os debates, na maioria das vezes, inflamados pelas paixões partidárias. Estaria a grande imprensa se portando de maneira equilibrada em relação aos candidatos, principalmente, no que diz respeito aos postulantes à cobiçada vaga de "comandante-mor" da nação? Na análise do sociólogo e jornalista Laurindo Leal Filho, professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP), a resposta é não.

"A diferença entre quase todos os meios de comunicação do Brasil e os do exterior é que, no exterior, eles assumem, publicamente, o candidato ou o partido que estão apoiando", afirma. Categórico, ele diz que a mídia brasileira esconde sua posição política."É praticamente impossível a isenção total", dispara.

Leal defende que a mesma postura adotada por outros países seja incorporada pelos veículos impressos daqui, para evitar que gatos e lebres sejam colocados em um balaio comum. "É o caminho mais honesto. Do contrário, você acaba enganando o leitor com a suposta imparcialidade que, na verdade, não existe."

Terra Magazine - Como o senhor avalia a atual cobertura eleitoral feita pela mídia? Na sua opinião, os candidatos são retratados com equilíbrio? Laurindo Leal Filho - Não. A mídia, de uma maneira geral, não só no Brasil, mas em todos os países mais desenvolvidos, sempre assume uma posição, principalmente, nos pleitos majoritários, como é o caso de uma eleição para presidente da República. É praticamente impossível a isenção total. Os meios de comunicação, na maioria dos países, não têm nenhuma preocupação com isso. A diferença entre quase todos os meios de comunicação do Brasil e os do exterior é que, no exterior, eles assumem, publicamente, o candidato ou o partido que estão apoiando. Isso não quer dizer que vão fazer uma cobertura distorcida do pleito. Eles não escondem que têm preferência por esse ou aquele candidato. Isso, na França, na Inglaterra, é muito comum. Os jornais acompanham uma determinada tendência política, e o leitor sabe disso.

Estabelece-se uma relação mais franca com o leitor...
Infelizmente, no Brasil, alguns jornais ou a maioria deles anuncia que é independente, equidistante dos candidatos, mas, na verdade, acabam exercendo isso, que é muito ruim. Acabam escondendo do leitor a sua posição política. Acho que duas honrosas exceções no Brasil, na mídia impressa, são o Jornal O Estado de S.Paulo - que, nas duas últimas eleições, tem apoiado os candidatos do PSDB explicitamente - e a revista Carta Capital, que tem apoiado os candidatos do PT.

O senhor acredita que esse deveria ser o caminho adotado pela mídia impressa de maneira geral?
É o caminho mais honesto. Do contrário, você acaba enganando o leitor com a suposta imparcialidade que, na verdade, não existe. Basta ver o que os jornais já estão fazendo hoje nesta eleição, com posições claramente a favor do candidato da oposição. Os três grandes jornais brasileiros, Globo, Folha (de São Paulo) e Estado (de São Paulo) estão nitidamente se colocando a favor do candidato da oposição. E as revistas semanais, com exceção da Carta Capital, também. Especialmente, a Veja. Claramente, estão fazendo uma cobertura da cena política brasileira muito favorável à oposição.

Para o senhor, isso torna a disputa desleal?
Contribui. No Brasil, é pior ainda, porque os jornais impressos têm uma abrangência de cobertura relativamente pequena em relação à população, mas eles acabam pautando o rádio e a televisão. Estes, sim, atingem, praticamente, toda a população brasileira. Acompanham essa tendência não só por serem pautados nas suas linhas editoriais, nas suas coberturas, pelos grandes jornais, mas por também assumirem as candidaturas da oposição. Estou falando das grandes redes, o que é pior, porque se trata de uma ação ilegal.
A televisão e o rádio são concessões públicas, diferente da mídia impressa, que são empresas particulares. São concessões públicas que estão usando o espaço público para interesses privados, que são os interesses políticos em relação a determinados candidatos. Então, eu acho que, para responder claramente, há uma distorção do processo eleitoral brasileiro no que diz respeito à cobertura da imprensa. Jornais impressos e revistas deveriam claramente divulgar para o leitor qual é a sua posição, e o rádio e a televisão deveriam se abster de fazer esse tipo de opção. Deveriam buscar o máximo possível a insenção, coisa que não fazem.

Na sua opinião, a imprensa tem o poder de eleger um candidato?
Não tem poder absoluto, porque se defronta com outras variáveis, mas contribui. Em outros momentos, a imprensa já teve mais força. Hoje, no caso específico das últimas eleições, está provado que a ação política do governo tem superado o jogo eleitoral da imprensa, mas não de uma forma absoluta.

Quais seriam essas variáveis?
Por exemplo, ações do governo que atingem diretamente o cidadão e melhoram sua condição de vida.

O Bolsa Família (programa de transferência de renda do Governo Federal), por exemplo?
Bolsa Família, projetos urbanos de habitação, de transporte. O Bolsa Família talvez seja o principal. Eles atingem de forma tão direta o cidadão que, por mais que a imprensa tome posição contrária, não consegue mudar a tendência de voto. Agora, não que isso seja absoluto. Nas eleições de 2006, a ação da imprensa foi decisiva para levar o candidato Geraldo Alckmin para o segundo turno. No final do primeiro turno, quando se previa uma vitória de Lula, a ação concentrada dos meios de comunicação a favor do candidato Geraldo Alckmin mudou o panorama. Não determinou a vitória dele, mas o levou ao segundo turno. A história do dossiê, que supostamente o PT teria comprado, colocada nas primeiras páginas dos jornais. Mas não foi só. Foi colocada no Jornal Nacional. Em outros momentos mais antigos, como no famoso debate Lula x Collor, foi decisiva a ação da televisão, editando o debate na véspera da eleição, mostrando que um dos candidatos tinha melhores condições e qualidade do que o outro. A ordem da Globo foi editar o debate com todos os momentos ruins de Lula e os minutos bons do Collor. Aquilo foi decisivo. Acho que a imprensa não define 100% um pleito, mas ela influi bastante.

O senhor acha que o eleitor brasileiro está preparado para fazer uma leitura crítica disso tudo?
Infelizmente, não. Temos no Brasil um processo de concentração da mídia que impede ao leitor, ao telespectador, ao ouvinte estabelecer comparações, alternativas. Temos uma mídia praticamente homogênea. Então, isso dificulta muito o que chamamos de leitura crítica da comunicação. Há a possibilidade de estabelecer essa crítica de que você está falando ou nos bancos escolares, o que não existe, ou então através de um outro leque de opções de meios de comunicação, que deem a possibilidade de você perceber que um trata a política de um jeito e outro, de outro jeito. Aí, você pode fazer escolha crítica. No Brasil, não existe isso. Há uma situação quase que homogênea dos veículos, então, o telespectador, o leitor, o ouvinte têm dificuldade para fazer a crítica.

Isso, de certa forma, não compromete o processo democrático?
Sem dúvida. Tenho convicção de que, enquanto não tivermos uma redefinição do quadro de comunicação no Brasil, uma legislação, por exemplo, no caso do rádio e da TV, que estabeleça critérios mais rígidos, não para censurar, mas para aumentar a diversidade. No caso dos meios impressos, que se tenha mais atores nesse processo, jornais de outras tendências, enquanto não tivermos isso, nós não teremos completado o processo democrático. A democracia continuará meio capenga.

Para o senhor, a internet pode ser um instrumento nesse processo, uma vez que ela abre espaço para o debate?
Ela já é uma alternativa. Só que é muito restrita no Brasil. Às vezes, as pessoas acham, porque é na classe média onde os formadores de opinião circulam, que toda a população está sendo beneficiada pela internet. A internet só atinge, hoje, 18% da população brasileira. É uma parcela muito pequena. Ainda vai demorar um bom tempo para a democratização dela, 18% é o acesso domiciliar à internet, e não são 100% que têm acesso à banda larga. Acho que, no Brasil, a internet é um instrumento de democratização, mas ainda limitado a uma parcela pequena da sociedade.

Fonte: http://terramagazine.terra.com.br/

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O alerta verde: a criação do novo inimigo muçulmano - Por Deepa Kumar

O alerta verde: a criação do novo inimigo muçulmano

Os eventos do 11 de Setembro criaram as bases para o surgimento de uma terrível forma de islamofobia que facilitou os objetivos dos Estados Unidos de construção de império no século 21. Esta forma de islamofobia concentrou-se no inimigo "lá fora", contra o qual os EUA tinham supostamente de ir à guerra para se proteger, do Afeganistão ao Iraque.

Como George W. Bush disse notoriamente, "nós os combatemos lá, portanto não precisamos combatê-los aqui". Ou como ele afirmou em seu discurso na academia militar de West Point em 2002: "Precisamos travar a batalha contra o inimigo em seu território, frustrar seus planos e enfrentar as piores ameaças." Em resumo, uma infindável "guerra ao terror" contra o inimigo além das fronteiras dos EUA estava então justificada, na visão de Bush.

Esta iniciativa levou à prisão e ao assédio de inúmeros árabes e muçulmanos inocentes em todo o território norte-americano, onde comunidades inteiras foram postas sob suspeita, quando não criminalizadas, no rastro do 11/9.

Mas a reação contra os muçulmanos foi ainda mais forte em vários países europeus. Os conservadores do continente argumentaram que os muçulmanos não estavam adequadamente "integrados" à sociedade e, portanto, eram suscetíveis à propaganda jihadista. Liberais e social-democratas ecoaram esses argumentos com frequência.

Esta dimensão da islamofobia agora chegou aos EUA. Ao longo dos últimos oito meses, uma série de casos que receberam grande atenção levou a um furor midiático em torno do "terrorismo feito em casa". Com isso, a mídia não se refere aos lunáticos da Milícia de Michigan ou do movimento Tea Party, mas sim a uma série de casos envolvendo cidadãos ou residentes muçulmanos nos EUA acusados de planejar ou participar de atividades terroristas.

Seja planejada ou acidental, essa exposição na mídia resultou em uma nova variação da islamofobia e da política do medo que guarda um paralelo notável com o Alerta Vermelho da Guerra Fria. Como o Alerta Vermelho, este novo "Alerta Verde" (a cor se refere aqui ao Islã, e não aos ambientalistas) também busca promover o medo e a desconfiança em relação a nossos amigos, vizinhos e colegas de trabalho.

A mais virulenta expressão do "Alerta Verde" foi articulada por Tunku Varadarajan, professor da Universidade de Nova York. Em um artigo intitulado "Virando muçulmano", publicado em novembro de 2009 no site Forbes.com, Varadarajan argumentou que o fato que precipitou a tragédia de Fort Hood – onde o major Nidal Hasan disparou uma arma contra seus colegas e matou 13 – não foi o assédio racista que Hasan sofria no Exército ou a fragilidade emocional decorrente do trabalho excessivo como psiquiatra militar, e sim uma condição que o acadêmico vê como inerente a todos os muçulmanos: a tendência à violência.

Ele argumentou que Hasan não "virou carteiro" - isto é, não entrou em crise e se tornou violento, como às vezes ocorre com funcionários do correio. Na verdade, disse o professor, Hasan simplesmente pôs em prática, de modo frio e calculista, os ensinamentos do Islã.

Varadarajan escreveu: "Esta expressão ('virando muçulmano') descreveria o evento no qual um muçulmano norte-americano supostamente integrado – um amigável vendedor de rosquinhas em Nova York, digamos, ou um oficial do Exército dos EUA em Fort Hood – deixa de lado sua aparente integração à sociedade norte-americana e opta por vingar sua religião em um ato de violência messiânica contra seus companheiros norte-americanos."

Em resumo, Varadarajan argumenta que todos os muçulmanos norte-americanos são "iminentemente violentos" e, embora pareçam integrados à sociedade, na verdade são bombas-relógio que inevitavelmente explodirão em um acesso de fúria violenta e assassina. O professor apoia seu ponto de vista nas ações de Hasan e Najibullah Zazi (o "amigável vendedor de rosquinhas"), escolhidos para representar todos os muçulmanos norte-americanos.

O caso de Zazi, cidadão afegão e residente legal nos EUA que foi preso em setembro de 2009 sob acusações de conspiração para usar "armas de destruição em massa", recebeu atenção significativa da mídia.

Um mês depois, o cidadão norte-americano David Coleman Headley foi preso por planejar um ataque contra o jornal dinamarquês que havia publicado cartuns racistas sobre o profeta Maomé. Acredita-se que Headley também esteve envolvido com o Lashkar-e-Taiba, grupo paquistanês que promoveu os ataques de 2008 em Mumbai. Em dezembro de 2009, cinco jovens da Virgínia, todos cidadãos norte-americanos e alguns nascidos nos EUA, foram presos no Paquistão por ter viajado ao país para trabalhar com o Talibã.

A rápida sucessão desses casos e a atenção da mídia noticiosa inaugurou um novo léxico em torno do "terrorismo feito em casa". O jornal The Washington Post fez um comentário típico: "As prisões ocorrem em um momento de preocupação crescente com o terrorismo feito em casa, depois do recente tiroteio na base militar de Fort Hood, no Texas (o caso de Hasan), e acusações feitas nesta semana contra um homem de Chicago (Headley) por envolvimento nos ataques terroristas do ano passado em Mumbai." Assentavam-se as bases para o novo "Alerta Verde".

Afeganistão
Para o governo Obama, esses casos de grande repercussão na mídia ofereceram o contexto perfeito para o anúncio da escalada da guerra no Afeganistão. O próprio Obama liderou a ofensiva em dezembro de 2009, em um discurso em West Point:

"Estou convencido de que nossa segurança está em jogo no Afeganistão e no Paquistão. Este é o epicentro do extremismo violento praticado pela Al-Qaeda. Foi a partir daí que fomos atacados em 11/9 e é aí que novos ataques são tramados enquanto falo. Não se trata de um perigo inativo; não se trata de uma ameaça hipotética. Só nos últimos meses, detivemos dentro de nossas fronteiras extremistas enviados da região fronteiriça do Afeganistão e Paquistão para cometer novos atos de terror."

O discurso de Obama não faz referência direta ao "terrorismo feito em casa". Mas explora o medo do 11/9 e a ameaça do terror "vindo para casa", assim como os discursos de Bush citados acima.

Ele também se apoia no contexto criado pela cobertura noticiosa dos casos de Zazi, Headley e da Virgínia, todos relacionados ao Afeganistão e ao Paquistão. Assim, a referência de Obama aos "extremistas dentro de nossas fronteiras" reforça o falatório sobre o grave perigo que o terrorismo e o "extremismo violento" supostamente representam para os cidadãos dos EUA. Convenientemente, esta ameaça também serviu para justificar o envio de mais 30 mil soldados ao Afeganistão.

Realidade é diferente
A realidade, contudo, entra em choque direto com essa retórica. A "ameaça" do "terrorismo global" contra os norte-americanos é mínima, e mesmo esta ameaça desprezível tem diminuído junto com o número de "complôs terroristas" ao longo dos últimos cinco anos. Como muitos especialistas observaram, tem ocorrido um declínio dramático e constante desde 2004, com apenas um ligeiro aumento nessa tendência geral em 2009. A opinião pública também se voltou contra essas atividades nos países de maioria muçulmana.

Até mesmo Gregory Treverton, do instituto direitista Rand Corporation, admitiu que o perigo do "terrorismo" para os norte-americanos é limitado. Em artigo publicado no jornal Los Angeles Times, ele observou que, "nos cinco anos posteriores a 2001, o número de norte-americanos mortos por ano em ataques terroristas no mundo não passou de 100, e o saldo em determinados anos mal atingiu dois dígitos. Compare-se isso com uma média de 63 mortos por tornados, 692 em acidentes de bicicleta e 46.616 em acidentes envolvendo veículos motorizados". De fato.

Além disso, afirma o relatório sobre terrorismo divulgado em abril de 2009 pelo Departamento de Estado, "a Al-Qaeda (AQ) e as redes associadas continuam a perder terreno, tanto estruturalmente quanto aos olhos da opinião pública mundial". Não obstante, o relatório declara que essas organizações "continuavam sendo a maior ameaça terrorista aos EUA e seus aliados em 2008".

O que tudo isso revela não é apenas a desconexão entre a retórica e a realidade, mas também a mecânica envolvida na mobilização de uma política do medo. O resultado final é um "Alerta Verde" que atende a pelo menos dois objetivos: justificar a existência de medidas draconianas como aquelas introduzidas pelo Ato Patriótico e conquistar apoio público para as guerras no exterior - não só no Iraque e no Afeganistão, mas potencialmente no Iêmen e em outros países.

Em resumo, a nova islamofobia ou "Alerta Verde" funciona de modo bastante similar ao "Alerta Vermelho" da Guerra Fria, quando o medo do comunismo era suficiente para justificar a caça às bruxas e o policiamento da dissidência doméstica promovidos por McCarthy, ao mesmo tempo conquistando apoio para as guerras na Coréia e no Vietnã.

O mais sensacional tratamento midiático do "terrorismo feito em casa" se concentrou no recente caso de "Jihad Jane". Se o episódio do norte da Virgínia inspirou especulações na imprensa sobre o que teria levado cinco rapazes "normais" a lutar ao lado do Talibã, o caso de Colleen LaRose – uma mulher branca, miúda, loira e de olhos verdes – causou um verdadeiro frenesi na mídia. LaRose, que se converteu ao Islã, foi indiciada por conspiração para cometer atos terroristas na Europa.

Ilustrando o tom de várias reportagens veiculadas pela mídia, um correspondente da CNN concluiu que "o indiciamento de Jihad Jane destrói qualquer ideia de que podemos identificar um terrorista apenas pela aparência". À semelhança dos vermelhos que espreitavam em nossas vizinhanças, escolas e locais de trabalho, os "verdes" como LaRose - que, segundo somos informados, constumavam viver "misturados" ao norte-americano médio - são a nova ameaça. Ao cobrir essa história, a grande mídia chegou perto do tipo de argumento promovido por Vardarajan e outros ideólogos direitistas.

A série de casos também motivou relatórios como aquele divulgado em março passado pelo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. Concentrando-se em Zazi, Headley e Hasan, assim como nos casos do norte da Virgínia e outros de Minnesota, o relatório sugere que os EUA precisam reprimir a "radicalização da internet" e continuar a "minar" a história do "choque de civilizações" usada pela Al-Qaeda em suas campanhas de recrutamento.

O relatório observa, em tom de aprovação, que "funcionários da Casa Branca já descartaram expressões como 'guerra contra o Islã radical'". Mas os autores acrescentam que tais gestos retóricos são insuficientes diante da realidade da guerra. O desafio fundamental, diz o documento, é "como equilibrar a necessidade de combater o terrorismo global [leia-se: expandir o império] e as desvantagens da intervenção militar direta em grande escala [leia-se: vítimas em grande escala e os problemas da ocupação]".

Desafios de Obama
De fato, este é o desafio herdado pelo governo Obama. O atual presidente pode ter abandonado o uso de expressões como "guerra ao terror" e amenizado parte da pior retórica islamofóbica do governo Bush, mas deu continuidade ao projeto de dominação imperial.

A islamofobia é o braço ideológico deste projeto e Obama vai usá-lo quando necessário. Não nos esqueçamos de que, "acusado" de ser muçulmano durante a campanha eleitoral, ele se "defendeu" em vez de assumir uma postura de princípios em respeito ao Islã e à liberdade religiosa. Aquele momento apenas fortaleceu o racismo cultural da direita e parece ter contribuído para a nova islamofobia.

O Alerta Vermelho destruiu as vidas de muita gente e criou um clima de intimidação e medo. Hoje, o nascente "Alerta Verde" tem um potencial similar. Ele pode, no entanto, ser combatido com sucesso por uma esquerda capaz de enxergar além do deslumbramento com o Prêmio Nobel da Paz de Obama e expor o projeto imperialista dos EUA como ele é.

No fim das contas, o Alerta Vermelho e o macarthismo foram derrubados pelos movimentos sociais dos anos 1960. Precisamos enfrentar uma ameaça similar hoje.

*Deepa Kumar é professora adjunta de jornalismo e estudos da mídia na Universidade Rutgers. Trabalha atualmente em um livro sobre a política externa dos EUA, o Islã político e a notícia. Artigo originalmente publicado no site Common Dreams

Fonte: http://www.operamundi.com.br/

Carta Aberta a Arnaldo Jabor - Por Mauro Carrara


Carta Aberta a Arnaldo Jabor
De Mauro Carrara

Quase perfeitíssimo truão,

Primeiramente, atente ao substantivo, e não desconfie de insulto. Os bobos da corte são, historicamente, mais que promotores de fuzarca ou desvalidos a serviço do entretenimento. Os realmente talentosos urdiam na teia das anedotas a crítica a seus senhores monarcas, traduzindo pela ironia a bronca popular.

Era o caso do ácido e desengonçado Triboulet, vosso patrono, uma espécie de grilo falante capaz de estimular as consciências de Luís XII e Francisco I. Tantos outros venceram no ofício, como o impagável Cristobal de Pernia, uma espécie de conselheiro extra-oficial de Felipe IV.

Neste Brasil da pós-modernidade globalizante, el rei Dom Fernando Henrique Cardoso reviveu a bufonaria. No entanto, empregou-a de modo diverso, quase sempre como dissimulação hilariante para desviar atenções de sua ética de conveniência mercantil, tão bem definida por Dom José A. Gianotti, seu filósofo e encanador.

O ex-monarca utilizou ainda sua trupe de falastrões para promover a alienante festa pública sugerida por Maquiavel. Portanto, nunca é exagero te parabenizar pelo empenho profissional. Há anos, na ribalta televisiva, te devotas a divertir e iludir os "psites do sofá", mesmo depois que o tiranete a quem servias foi apeado do trono. Sempre diligente, conclamas e incitas, rebolando patranhas tal qual histriônico cabo de esquadra do restauracionismo.

Recentemente, contudo, causou-me espanto tua fúria salivante para edulcorar a participação do embusteiro Geraldo Alckmin no embate contra o grisalho herói de todos os sertões.

Como é próprio de teu ofício, fizeste rir ao embaralhar significados, ao abusar das hipérboles, ao exceder-se nos adjetivos impróprios, ao viajar na maionese das idéias desconexas.

No entanto, truão Jabor, prosperou aqui a dúvida. Que quiseste dizer com o clichê "choque de capitalismo"? Seria referência ao rombo de R$ 1,2 bilhão legado pelo embusteiro alquimista ao ressabiado governador Lembo? Ou seria apenas ironia herdada de teus predecessores, na profecia zombeteira de um novo "que comam brioches"?

Destacam-se também, como enigmas, tuas dupletas acres de escassa teoria. São os casos de "socialismo degradado", "populismo estatista" e "getulismo tardio". Eita, nóis! Que essas vigarices binárias nos viessem, ao menos, com sal de fruta. Né? Ora, de qual "socialismo" tratas? Será que resolveste, no supletivo dos sexagenários, estudar a industria cultural e as idéias de Adorno? Hum... Pouco provável.

No que tange ao termo "populismo", arrisco uma resposta. Tu o compraste na escribaria de ordenança dos novos donatários. É coisa do bazar de tolices de Civita e Frias Filho. Acertei? Diga aí...

Mas o que queres dizer com "getulismo"? Pelo que percebi, escapa-te o fenômeno à compreensão histórica. Tratas daquele do Departamento de Imprensa e Propaganda? Ou te referes àquele das necessárias justiças trabalhistas?

Outros exageros me encafifaram em tua anedota de encomenda. Tratas lisergicamente de um São Paulo "rico", como se construído dos empenhos da malta quatrocentona. Em teus seminários de apedeuta, desapareceu o povo. Evaporaram-se João Ramalho, Bartira, Tibiriçá, Anchieta, tantos mamelucos arabizados, tantos avós europeus aqui remixados, tantos irmãos nordestinos que ergueram nossos arranha-céus. Teu São Paulo mítico, tristemente, não admite a antropofagia.

E tem mais... Em tua pregação, o embusteiro Alckmin surge como legítimo herdeiro da alva elite construtora do progresso. Nesse delírio pós-positivista e lombrosiano, não há rastro da gestão criminosa dos privateiros tucanos, dos sonegadores dasluzeiros, dos pedageiros corruptos e dos sócios do marcolismo. Não te rendeste ao excesso? Ai, ai, ai...

Agitando guizos, executas tua prestidigitação. Empregas, em simultâneo, o sapato pontudo para alojar sob o tapete o sacrifício juvenil na Febem, as nove centenas de contratos irregulares e o estupendo assalto ao tesouro da gente bandeirante. Não exageraste? És bufão ou advogado, truão Jabor?

Entre tuas deformações, tão valiosas ao ofício, suponho até mesmo a cegueira de um olho. Ignoras o júbilo de milhões de vassalos não mais famintos, agora metidos a escrever o próprio nome. Vê, quanto atrevimento! Tampouco registras a voz de ameríndios e afro-descendentes, agora perigosamente mais próximos de ti, a tomar lugar nos bancos da universidades. Não enxergas a energia elétrica nos grotões nem o canto de esperança dos humildes da terra, fortalecidos em cooperativas de produção.

Depois, qual demiurgo de botequim, dizes que o nasolongo Alckmin é "incisivo", enquanto o outro te parece "evasivo". Ladino que és, julgas os combatentes pelo aspecto cênico e não pela natureza das idéias. No caso do embusteiro alquimista, excedes ao elogiar o espantalho bélico, aplicadíssimo ao método stanislavskiano. Ora, magnífico truão, todos vimos que o herói de todos os sertões é adepto de outra técnica. Pisa o palco de Brecht, revelando-se como realmente é, antes que se mistifique no papel de fundeiro de microfone.

Cantaste, portanto, a vitória do "limpinho", do "sem barba", do malcriado que imita Tyson. Como líder de torcida, vibraste na platéia, tuas pernas flácidas saltitando de contentamento, as mãos agitando invisíveis fitas coloridas. Ah, mas perdeste a razão...

Depois, destilaste teu parvo sarcasmo sobre o "povo", sobre a "mãe analfabeta" do operário e sobre os "pobres", em suma, sobre esses todos do "lado de cá". Na piada rancorosa, revelaste um desprezo moldado para a auto-proteção.

Sabes o quanto é doloroso viver deste lado da linha, no território dos anônimos, dos que sofrem e trabalham de verdade.

Se há dialética nesta missiva, agrego teus motivos. Sabes o valor de uma adoção real, ainda que precises caminhar de quatro, atado à coleirinha de el rei. Sabes o quanto é estratégica essa assepsia, esse descontato com o ímpio das ruas, dos campos e das construções.

Assim, me permito uma visita a teu passado. Tua obra "séria" resultou, caro truão, em enorme fracasso. E, disso, bem sabes. Por um tempo, tuas ventosas de sanguessuga agarraram algumas tetas públicas. Desse modo, pudeste alimentar teus espetáculos de terceira categoria, ainda que fizessem rir quando a intenção era pretensiosamente induzir à reflexão.

Incerto dia, pobre de ti, todo o oportunismo de parasita foi castigado, de modo que te encontraste novamente vadio, mergulhado na mais profunda frustração. Naquele momento, julgo, buscaste inspiração em Triboulet...

Na Vênus Platinada do decrépito Marinho, iniciaste tua pândega panfletária, calcada na manipulação marota de cacos de idéias. Nada por inteiro. Coerente para quem, por natureza, carece de integridade.

Esse flashback permite, portanto, compreender melhor o roteiro cínico. Tanto faz se teu senhor largou o reino às escuras, se destacou piratas para pilhar o patrimônio público, se foi incompetente até mesmo para empreender no capitalismo que tanto celebras. Às tuas costas, no tempo, estende-se a terra arrasada pela peste do egoísmo, habitada de fariseus neoliberais e de peruas ridículas e mesquinhas. Por meio da ruidosa retórica de falso indignado, desvias o olhar público dessa paisagem da tragédia.

Para seguir o ato farsesco, fazes descer o pano da falácia sinistra do golpismo lacerdista, da distorção, da maledicência e da espetacularização do rito inquisitório. Simulas ver aqui, em alto grau, o que ignoras ali. Na telinha da "Grobo", distribui sofismas, injetas no sangue de Otello a desconfiança, patrocinas a intriga nacional.

Poder-se-ia encontrar em ti o personagem Sacripante. Uma observação acurada, entretanto, revela mais um Silvério dos Reis das artes cênicas. Certa vez, me disse Henfil: "o pior humorista é o que vende sua comédia aos canalhas que fazem o povo chorar". Simples, didático, serve à elaboração de um código de ética de tua categoria.

Pois, tua notícia deturpada do embate, devotado truão, mostrou-se cômico engodo. Foi lá, teu embusteiro "truco-lento" dar com as fuças na parede. Saiu do campo laureado e enganado, pior que Pirro. Este, menos imbecil, admitiu que a vitória contra os romanos fora uma tragédia, o prólogo de sua ruína.

Portanto, o exemplo da derrota também te serve. Decisivamente, ainda que te gabes, jamais superaste Paulo Francis, o bobo da corte mais destro nessas artes de sabujo-rabujo. E se cultivas alguma pretensão de hegemonia, te sugiro mover o pescocinho atrofiado. Pilantrinhas peraltas, como Mainardi e Azevedo, emparelham já contigo, disputam hidrofobicamente a suprema magistratura da bufonaria.

E, percebe truão, que a dupla tonto-fascista não te fica a dever: são também inescrupulosos, traiçoeiros e carregam a poderosa energia do ressentimento, sem contar que igualmente migraram do fracasso profissional para a aventura mercenária midiática.

Por fim, adorável truão, ajusta o relógio da tua soberba. Não é hora de celebrar a ignomínia convertida em comédia. Nem é momento de levantar a horda de rufiões da "ética" para cantar a vitória restauracionista. Para além dos simulacros do teu moralismo cínico, lambuzado de paroxismos impróprios, exercita-se o sabre do julgamento público, implacável, aquele cuja lâmina é afiada pelo tempo. Subiram os letreiros... Perdeste o charme. Perdeste a graça.

Nota de Boca de Mídia sobre o autor:
Mauro Carrara é jornalista, nascido em 1939, no Brás, em São Paulo. É o segundo filho de Giuseppe Carrara, professor de Filosofia em Bologna, e de Grazia Benedetti, uma operária e militante comunista de Nápoli. O casal chegou ao Brasil em 1934, fugindo da perseguição fascista. Mauro foi para a Itália em 1959, por sugestão do amigo dramaturgo G. Guarnieri. Em Firenze, estudou arte, ciências sociais e comunicação. De volta ao Brasil, passou dois anos na Amazônia. Ao atuar na defesa dos povos indígenas, foi preso pelo regime militar. Libertado, voltou à Itália. Como free-lancer, produziu reportagens para jornais como L’Unita e Il Manifesto. Com o primo Antonino, esteve no Vietnã, no início da década de 70. Em 1973, no Chile, juntou-se à resistência ao golpe contra Allende. No Brasil, como clandestino, aproximou-se do cartunista Henfil, cujos trabalhos traduziu para uma revista alternativa italiana. Na década de 80, prestou serviços para a ONU em países como China, Iraque e Marrocos. Nos anos 90, assessorou ONGs brasileiras, especialmente na área de Direitos Humanos. Ainda atua na área de comunicação e relações internacionais.

Fonte: http://www.novae.inf.br

terça-feira, 20 de abril de 2010

Do protesto à tortura - CMI

Do protesto à tortura


Sábado, dia 17 de Abril de 2010, foi mais um dia que entrou para a História do Distrito Federal, dentro do contexto da maior crise Institucional-Política já enfrentada pela Capital desde sua Fundação, 50 anos atras. Os protestos se iniciaram na sexta-feira a noite, através de uma vigília convocada pelo Movimento Fora Arruda e Toda Máfia em frente à Câmara Legislativa do Distrito Federal. Na vigília houve músicas, brincadeiras como Mímica e reflexões.

O sábado começou agitado, das cerca de 30 pessoas que dormiram na vigília, às 14h da tarde o número saltou para quase 300 pessoas , uma hora antes de iniciar a seção da Câmara que elegeu o escolhido de Arruda pra Governar Interinamente o Distrito Federal até 31 de Dezembro. Estudantes, trabalhadores, cidadãos vieram de toda parte do DF protestar contra uma eleição totalmente ilegitima, que dos 24 votantes do seu colégio eleitoral, 10 parlamentares e suplentes foram flagrados na Operação Caixa de Pandora: a Eurides da Bolsa, o Geraldo Naves que saiu da Penitenciaria 4 dias antes da votação, entre outros.

Às 15h, quando iniciava-se a seção dentro da Câmara, na rua que dá acesso à CLDF manifestantes atearam fogo em pneus interditando por 10 minutos a via. Às 16h dezenas de manifestantes tentaram entrar na galeria para garantirem o ideal democrático de que na casa do povo, o povo, não pode ser impedido de entrar, ainda mais quando em nome dele, corruptos decidem. A resposta imediata da polícia militar, sobre o comando do Coronel Silva Filho (aquele que em 09 de Dezembro, a mando de Arruda, massacrou com cavalaria e muita violência 5mil cidadãos que protestavam em frente ao Palácio Buriti) foi de repressão violenta, cacetadas para todo lado, gás de pimenta, socos e pontapés. 20 pessoas ficaram feridas, 8 tiveram que ser atendidas em hospitais, 2 policias se feriram, 6 pessoas foram presas. Eu fui o segundo a ser preso.

Quando prenderam o primeiro companheiro, eu era um dos que gritavam para soltá-lo, e gritei bem forte várias vezes 'Vocês têm que prender os filhos da puta que estão aí dentro votando em nosso nome'. No meio do caos, muita confusão, um tenente já conhecido meu de outros protestos, olhou no meu olho enfurecido e disse que prenderia a mim. Eu disse 'Prende então, não estou fazendo nada'. Fui preso por desacato a autoridade.

A PM estava enfurecida, mas fui conduzido primeiro para a 2º DP, onde já encontrei rapidamente com o advogado do Movimento Fora Arruda e Toda Máfia, que me orientou a ficar em silêncio até a chegada dele na DRPI, para onde eu estava sendo transferido, pois era um direito constitucional meu. Fiquei 30 minutos na viatura, sem sofrer qualquer violência dos Policiais Militares. Chegando na DRPI, ainda sozinho, na presença apenas dos 3 policiais militares e 3 policiais civis, sentei-me no banco e aguardei, então começou a tortura moral. O policial civil agente Barcelar, que me torturou fisicamente momentos adiante, iniciou o diálogo com os policias militares dizendo que esses baderneiros deviam ser todos viados, porque ao invés de estarem em casa fudendo uma mulher, estavam nas ruas protestando, e aí seguiram-se as ofensas verbais, eu, calado.

Num dado momento o agente Barcelar me perguntou se minha identidade era do Distrito Federal, eu disse que era de Minas Gerais, aí, mais ofensas 'O que você tá fazendo aqui seu merda? Você nem de Brasília é seu bosta e tá protestando, puta que pariu, etc'. Em seguida perguntou meu nome para puxar minha ficha, eu disse 'Só vou falar quando meu advogado chegar' isso foi o suficiente para dar início a tortura.

O agente Barcelar, (ex-carcereiro por mais de 15 anos, agora trabalhando no 'Administrativo') após a minha simples frase de que estava aguardando meu advogado, deu a volta no balcão de atendimento, foi até a cadeira em que eu permanecia sentado, me pegou pela camisa me jogando com violência no chão, rasgando toda a lateral da camisa, e já iniciando uma série de murros na cabeça, chute, e me arrastando pelos cabelos junto a outro agente da polícia civil, que eu não soube identificar posteriormente porque eu estava no chão, e as duas mãos do agente Barcelar a a mão do outro agente me arrastaram pelos cabelos, pelos corredores da DRPI, até chegar na cela, onde, por estar sendo arrastado lesionei a coluna na barra de ferro do chão da cela.

O agente bateu a porta da cela e disse que eu era um merda e que iria apanhar mais. 10 minutos depois o advogado e minha namorada chegaram, de dentro da cela eu escutava o agente Barcelar dizer que eu tinha me jogado no chão, de lá da cela eu gritava que tinha sido espancado. Quando o advogado chegou diante da cela, lhe disse que fui espancado, o agente chegou a admitir na frente do advogado, dizendo que me puxou pelos cabelos porque eu não quis fornecer os dados que me solicitou. Mais adiante, conforme mais pessoas chegaram, o agente passou a dizer que nada aconteceu, que eu estava com a camisa rasgada e com visíveis marcas de agressão porque me joguei no chão.

Depois, fui conduzido enjaulado em uma viatura da Polícia Civil até o Instituto Médico Legal, onde foram constatadas todas as agressões que sofri na DRPI. O mesmo agente Barcelar tomou meu depoimento e se negou a colocar no inquérito as agressões que sofri, colocando a si próprio como vitima, me acusando de ter resistido a prestar informações. Eis o Estado de Direito, onde Parlamentares corruptos nunca vão, e quando vão, nunca permanecem presos. Eis o Estado de Direito, onde você vai preso por desacato por protestar, e quando chega sozinho na Delegacia de Polícia, é ofendido verbalmente e em seguida espancado covardemente na presença de 6 polícias.

Parabéns Brasília. 50 anos de Quê?

Diogo Ramalho é estudante de Letras Espanhol da Universidade de Brasília; membro do Movimento Fora Arruda e Toda Máfia; coordenador executivo e editor político do Jornal O MIRACULOSO.

Fonte: http://www.midiaindependente.org/

Tributação desigual e miséria, saldos da hegemonia neoliberal - Por Hideyo Saito


Tributação desigual e miséria, saldos da hegemonia neoliberal

Sistemas tributários favoráveis aos ricos são herança da fase de hegemonia neoliberal no mundo, consolidada a partir do final dos anos 1970. Houve ampliação do fosso entre ricos e pobres e aumentou a miséria e a fome no mundo, em pleno século XXI, quando a humanidade dispõe de meios técnicos e recursos para erradicá-las definitivamente. É o mundo do "capitalismo puro", forjado pelo neoliberalismo em ação.

O artigo é de Hideyo Saito. Data: 20/04/2010
Apesar de aplaudir os avanços no combate à pobreza e à fome no Brasil desde o início do governo Lula, em 2002, recente relatório da ONU apontou para a necessidade de um sistema tributário progressivo, para que o país possa se livrar dessas mazelas de forma definitiva. O diagnóstico foi elaborado pelo relator especial das Nações Unidas contra a Fome, Olivier De Schutter, que se declarou impressionado pelo grau de compromisso e pela diversidade dos esforços realizados para melhorar a situação. Mas o fulcro da questão, segundo analisou, é que os problemas sociais brasileiros estão sendo enfrentados com recursos obtidos principalmente das camadas mais pobres da sociedade, justamente por causa da tributação desigual.

De acordo com a visão expressa no relatório da ONU, uma reforma tributária progressista é tão imprescindível quanto outras transformações estruturais que incidem sobre a concentração da riqueza e da terra no país. Citando dados do próprio governo, lembra que famílias com receita até dois salários mínimos pagam aproximadamente 46% a título de impostos indiretos (isto é, embutidos nos preços de bens e de alguns serviços), enquanto as que têm renda superior a 30 salários mínimos arcam com apenas 16%. Apesar da vergonhosa concentração da terra agricultável – apenas 47 mil grandes propriedades ocupam 43% de todo o espaço disponível, enquanto 2,4 milhões ficam com apenas 2,5% - o Imposto Territorial Rural arrecada apenas 0,01% do PIB. "O sistema tributário regressivo limita seriamente o impacto redistributivo desses programas [sociais]”, sublinha o relatório da ONU.

A desigualdade tributária em favor dos ricos é um dos saldos da fase de hegemonia neoliberal no mundo, imposta a partir do final dos anos 1970. Não é casual que os próceres dessa corrente, como entre nós o ex-ministro e ex-senador Roberto Campos, por exemplo, pregaram incansavelmente contra a tributação da renda e do capital. O país só poderia crescer se conseguisse atrair capital, oferecendo-lhe mais vantagens numa competição sem quartel com outros países subdesenvolvidos. Seguindo essa política de leilão ao contrário, o governo FHC derrubou tributos para investimento estrangeiro na bolsa de valores, eliminou quaisquer diferenças no tratamento dado ao capital externo, em relação ao capital nacional, e congelou a aprovação do Imposto sobre Grandes Fortunas, que ele mesmo havia proposto quando senador. É verdade que nessa gestão a carga tributária teve enorme crescimento, mas sempre reforçando unicamente os tributos indiretos. Trata-se de assunto pouco grato à mídia oligopólica, mas que se torna cada vez mais visível como fator fundamental para que, naquele período de “pensamento único”, aumentasse a brecha entre países ricos e países pobres, bem como a desigualdade social dentro de cada um. Exatamente ao contrário do que prometia a cartilha do fundamentalismo de mercado.

Como a tributação regressiva minou as finanças gregas
De fato, um aspecto dos mais relevantes (e mais ignorados) da crise de dívida pública da Grécia é que seu sistema tributário é bastante regressivo e que, além disso, a sonegação dos setores mais abastados é muito elevada, como mostraram artigos recentes do Le Monde Diplomatique. Segundo o ministério das Finanças, em 2008 os profissionais liberais gregos declararam ao fisco uma renda anual média de pouco mais de € 10 mil, enquanto empresários e comerciantes admitiram receita de € 13 mil. Em contraste, os trabalhadores e aposentados informaram recebimento de € 16 mil. A evasão fiscal provoca um rombo de € 20 bilhões anuais na receita pública, sem considerar a renúncia fiscal representada pela regressividade do sistema (1). O resultado é que, para financiar suas atividades, o Estado é obrigado a apelar para que credores privados adquiram títulos do tesouro. Ora, os que vêm a ser credores são justamente os cidadãos das classes mais abastadas, que cobram juro para emprestar ao governo o dinheiro que este deixou de recolher por causa da sonegação e de um sistema tributário exageradamente benevolente em relação ao rico!

Esses mesmos setores dominantes, não satisfeitos, empenham agora seu poder em impor ao governo do Pasok (movimento socialista pan-helênico) a adoção de um pacote de ajuste fiscal ao gosto do neoliberalismo, com redução de salários do funcionalismo e de aposentadorias e pensões, além de cortes drásticos em políticas sociais e nos investimentos públicos. Tudo isso certamente agravará a recessão e a situação dos trabalhadores do setor privado, que já sofrem um desemprego da ordem de 10,6% (índice oficial) ou 18%, conforme outras fontes. Evidentemente, eles se contrapõem ao aumento da tributação direta sobre a renda, o patrimônio e a herança, que seria parte de um programa “natural” de solução, conforme preconizam os economistas franceses Laurent Cordonnier e Frédéric Lordon. Para o primeiro, isso “equivaleria a suprimir essa espécie de direito censitário da era neoliberal, que consiste em deixar às classes mais abastadas a livre escolha de como aplicar o excedente de ganhos não consumíveis: destinar esses fundos ao pagamento de impostos ou aplicá-los no mercado financeiro, para financiar a dívida pública”. Segundo Cordonnier, a elevação da carga tributária para os mais ricos seria como exigir deles o pagamento de impostos atrasados, de que ficaram livres há pelo menos 20 anos, período em que ainda receberam juros do governo sobre o dinheiro assim poupado (2).

Maior fosso entre ricos e pobres da história dos EUA
Outra manifestação no mesmo sentido teve como pano de fundo a realidade dos Estados Unidos, onde os números também indicam a existência de regressividade tributária. Segundo o jornalista Les Leopold, do Huffington Post, a carga marginal de impostos incidente sobre rendimentos a partir de US$ 3 milhões anuais caiu de 91% nos anos 1950 para apenas 28% nos 90 (3). Max Castro, do Progreso Semanal, menciona números recém divulgados pelo Internal Revenue Service (a Receita Federal dos EUA), segundo os quais os 400 estadunidenses mais ricos, que tiveram receita média de US$ 345 milhões em 2007, pagaram apenas 16,6% de impostos. Foi a tributação real mais baixa desde 1962. Em conseqüência, a receita desses bilionários aumentou 31% naquele ano, em comparação com 2006 (4). Leopold acrescenta que os altos executivos do setor financeiro receberam aproximadamente US$ 150 bilhões em bônus, “como se fossem uma recompensa por quebrarem a economia”. Em 1970, a diferença de ganho de 100 presidentes (CEOs) de grandes corporações em relação ao trabalhador médio foi de 45 para um. Em 2008 havia subido para 1.071 para um. “O fosso entre ricos e pobres é maior hoje do que em qualquer momento da história dos EUA”, assegura o jornalista.

Os sucessivos cortes de impostos desde o final da década de 1970 foram apresentados como indispensáveis para que houvesse mais investimentos produtivos, mais empregos e mais prosperidade no país. Mas a renúncia fiscal – sublinha o jornalista – transformou-se em especulação em Wall Street, gerando sucessivas “bolhas” financeiras. Os ganhos do setor financeiro, que correspondiam a cerca de 15% do total dos lucros gerados na economia dos EUA em 1960, passaram a representar quase 40% em 2008 (antes do desastre). Em resumo, “o setor financeiro quebrou [e quebrou o país] como resultado direto da redução de impostos para os super-ricos e a desregulamentação de Wall Street”, denuncia. Agora, trata-se de fazer o trajeto contrário, não apenas impondo uma regulação do setor financeiro de interesse da sociedade, mas também um sistema progressivo de tributos, que seja capaz de promover uma redistribuição da renda e da riqueza.

Panorama semelhante é traçado pelo jornalista do The Wall Street Journal, Robert Frank, em um livro que conta como vivem os multimilionários estadunidenses, cujo número cresceu exponencialmente a partir dos anos 1990. Ele diz que a política tributária teve papel importante nesse boom, ao se tornar cada vez mais favorável aos ricos. “A alíquota máxima do imposto de renda federal caiu de 91% em 1963 para 35% em 2007. A taxa máxima do imposto sobre ganhos de capital de longo prazo – lucros com ações, títulos e outros direitos financeiros – caiu de 20 para 15% nos últimos cinco anos. Atualmente, o imposto máximo sobre a maior parte dos dividendos é de 15%, quando em 2002 era de 38,6%”, escreve. De acordo com Frank, o Centro de Política Tributária do já mencionado IRS calcula que 80% da renúncia fiscal do governo Busch beneficiou os 10% mais ricos da população, sendo que quase um quinto foi colhido por um décimo do 1%, que constitui o universo dos multimilionários (5).

Apesar de tão clara situação, qualquer política redistributiva continua a ser um anátema nos Estados Unidos. Leopold lembra que o assuntou rendeu muitas críticas a Barack Obama durante a campanha eleitoral, quando foi acusado de querer “punir o sucesso”, ao defender um sistema tributário progressivo. Da mesma forma, a recente reforma do setor da saúde rendeu uma fortíssima campanha contra Obama, que chegou a ser acusado de querer arrastar o país ao comunismo, porque, entre outras coisas, aumentou em 0,09% o imposto de contribuintes com renda superior a US$ 250 mil para financiar o Medicare (assistência médica) (6). Enquanto isso, um grupo de trabalho criado pelo governo dos Estados Unidos para estudar uma estratégia de segurança nacional para o país, conhecido como “Seminar 11”, concluiu que o ponto mais vulnerável do país é a economia, que está caminhando para o desastre. Seu relatório, divulgado em março último, considerou alarmantes o déficit público próximo de US$ 1 trilhão e a perspectiva de que a dívida pública mais que dobre até 2020. Mesmo assim, as recomendações do grupo incluem, sobretudo, corte de benefícios sociais, especialmente os ligados à previdência e ao Medicare.

A outra face da moeda: aumenta a fome no mundo
Ampliando o foco, os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), assumidos no ano 2000 pelos países-membros da ONU para reduzir a pobreza extrema e a fome no mundo até 2015, estão prestes a fracassar, segundo reconheceu o informe apresentado à Assembléia-Geral da organização pelo secretário-geral, Ban Ki-Moon. O documento diz que a pobreza extrema (pessoa que vive com menos de um dólar por dia) caiu de 1,8 bilhão de vítimas em 1990, para 1,4 bilhão em 2005, mas a maior parte da redução se registrou na China. Quando se desconsidera esse país, a pobreza extrema no mundo aumentou, com o aparecimento de 36 milhões de novos miseráveis no mesmo período. O número de pessoas que passam fome cresceu de 842 milhões em 1990 para 1,02 bilhão em 2009, resultado, em boa parte, da alta dos preços dos alimentos nos últimos três anos e da crise financeira e econômica do capitalismo (7). Desses, 642 milhões vivem na Ásia e no Pacífico; 256 milhões na África subsaariana; 53 milhões na América Latina e no Caribe; 42 milhões no Oriente Médio e norte da África; e 15 milhões nos países ricos (8).

Um estudo produzido por especialistas da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) e do Programa Mundial de Alimentação (PMA), também da ONU, mostra que a fome se expandiu de forma significativa entre 2004 e 2007. Nada menos que 31 países e 195 milhões de crianças padecem de fome crônica. A perspectiva é de piora desse cenário catastrófico, com novas quedas de safras e consequente aumento de preços no mercado internacional, como resultado do aquecimento global. As classes dominantes mundiais continuam insensíveis ao assunto, como mostra a ausência de representantes graduados do G8 e dos demais países desenvolvidos na Reunião sobre Segurança Alimentar, realizada em Roma de 16 a 18 de novembro último. Estiveram presentes cerca de 60 chefes de estado de países do terceiro mundo (9). No final do encontro foi divulgado um melancólico comunicado que manifesta o compromisso dos governos de lutar para que não aumente o número de famintos e de miseráveis no mundo.

Dois dias antes da reunião, antevendo seu fracasso, o diretor geral da FAO, Jacques Diouf, começou um jejum para alertar para a urgência de se adotar medidas “para dar um fim à vergonha da fome”, mais intolerável do que nunca, porque a humanidade conta com meios técnicos e com recursos para eliminá-la definitivamente. Por fim, uma pesquisa efetuada em 2009 por especialistas das universidades de Stanford e de Washington sustenta que, sem uma sistemática redistribuição dos resultados econômicos, o final do século XXI verá a metade da população mundial sofrendo os efeitos da crise alimentar, que será agravada por problemas resultantes do efeito do aquecimento global sobre as regiões tropicais e subtropicais do mundo (10).

Um último lembrete cabível é que o mundo que não consegue acabar com a fome, ou sequer reduzi-la de forma consistente em pleno século XXI, é o mundo do "capitalismo puro", forjado pelo neoliberalismo.

(*) Hideyo Saito é jornalista

(1) Niels Kadritzke. A Grécia é a bola da vez. Le Monde Diplomatique Brasil, março/2010.
(2) Laurent Cordonnier. Banco Central Europeu – Rumo à falência. Le Monde Diplomatique Brasil, março/2010; Frédéric Lordon. A urgência do contrachoque. Le Monde Diplomatique, março/2010.
(3) Les Leopold. Por que estamos com medo de taxar os super-ricos? Huffington Post, 12/03/2010. http://www.huffingtonpost.com/les-leopold/why-are-we-afraid-to-tax_b_496302.html
(4) Max J. Castro. Debemos retornar de la plutocracia a la democracia. Progreso Semanal, 24/02/2010. http://progreso-semanal.com/4/index.php?option=com_content&view=article&id=1939:debemos-retornar-de-la-plutocracia-a-la-democracia&catid=4:en-cuba&Itemid=3.
(5) Robert Frank. Riquistão. Tradução Alessandra Mussi. Manole: Barueri (SP), 2008, pp. 42-43.
(6) Walter Pincus (The Washington Post). Segurança dos EUA começa na economia. O Estado de S. Paulo, 14/04/2010.
(7) Víctor M. Carriba (Prensa Latina).Objetivos del Milenio: el fracaso. Contralínea, 04/04/2010. http://contralinea.info/archivo-revista/index.php/2010/04/04/objetivos-del-milenio-el-fracaso/.
(8) Katia Monteagudo (Prensa Latina). Un mundo de hambre. Contralínea, 28/03/2010. http://contralinea.info/archivo-revista/index.php/2010/03/28/un-mundo-de-hambre/.
(9) Ernesto Montero Acuña (Prensa Latina). Alarma por el hambre. Contralínea, 13/12/2009. http://contralinea.info/archivo-revista/index.php/2009/12/13/alarma-por-el-hambre/.
(10) Ernesto Montero Acuña (Prensa Latina). Siglo de explosión demográfica y hambruna mundial. Contralínea, 21/02/2010.

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/

segunda-feira, 19 de abril de 2010

É o fim da picada!



Como sempre os poderosos mentem, manipulam, falseiam, enganam, desmentem!
O jogo político no Brasil sempre foi sujo, escroto e sórdido. Os homens que fazem a política neste país vivem da mentira da manipulação da desonestidade.
Aos brasileiros que não querem ser manipulado por esses crápulas é simples!
VOTE NULO!

Provos Brasil

Mais do que um festival, múltiplas formas de resistência em todo o país - Passa Palavra

Mais do que um festival, múltiplas formas de resistência em todo o país

Realizado no México em março deste ano, o Festival das Resistências, além de construir as pontes necessárias entre a música e outra formas de expressão artísticas, procurou unir as lutas de “los de abajo”, dos movimentos que estão em luta por um mundo diferente. Por Jóvenes en Resistencia Alternativa

Viva Zapata!
Viva Sandino!
Viva Zumbi, Antonio Conselheiro!
Todos os Panteras Negras!
Lampião sua imagem e semelhança…
eu tenho certeza, eles também cantaram um dia.

Chico Science & Nação Zumbi/Monólogo ao pé do ouvido


I
Todas as culturas criaram seus instrumentos, suas formas estéticas, seus ritmos, seus cantos, que acompanharam sempre os momentos mais importantes das coletividades: os nascimentos, os ritos de transição, a colheita, a guerra, a morte… a insubordinação, e a rebelião. A tradição latinoamericana é muito rica nesse sentido, e em qualquer lugar aonde a globalização chegou, ela supõe uma grande ameaça para toda língua, música, cultura, história.

Todo esse universo que chamamos de cultura tem enorme significado hoje, sobretudo para aqueles que resistem, lutam e constroem processos de resistência. No México, como em muitos lugares de todo o planeta, “la banda” resiste de múltiplas e insuspeitas formas, no graffiti de parede, na roupa, no corpo, na produção de histórias, na cultura popular e na narrativa musical… é verdade, a cultura é uma arma de luta…

Se o capitalismo invadiu todas as dimensões, materiais e simbólicas, transformando potencialmente tudo em mercadoria, isto quer dizer que a resistência à exploração e à dominação não têm um lugar ou forma privilegiada, que a resistência se constrói a partir de todos os espaços: a terra é arrebatada ao camponês e o trabalhador é subordinado através dos meios de produção privados; os bairros, os povos, são despojados da sua história, da sua memória, para mercantilizar as culturas, para que os meios milenários de trasmissão da identidade e a história se tornem dependentes das corporações ou do Estado.

Justamente, os órgãos corporativos da música e do entretenimento da indústria cultural lutam pela captura e apropiação das energias e relações no âmbito da cultura: a indústria cultural toma conta dos processos de produção subjetiva de povos, comunidades e bairros, e assim os destrói/aproveita. A dominação simbólica (cultural) é hoje uma das formas principais de dominação e nós estamos lutando também (como muitos e muitas) contra ela.

Mas, da mesma forma que a terra e as fábricas… Se a palavra de ordem dos sem terra (Ocupar!, Resistir!, Produzir!) tornou-se programa global, então podemos dizer também: a luta de classes começa no corpo que trabalha, que sente a fome, o desprezo, que se põe em marcha para se libertar daquilo que o oprime, que sente e sofre a dominação e resiste-constrói a insubordinação… e também no corpo que dança, pula, e sente a alegria…

II
A organização de grandes festivais massivos de rock surgiu no México como forma organizativa no contexto das formas de solidariedade com o levante zapatista de 1994. Desde então, muitos foram organizados, por distintas articulações de músicos e organizações sociais e coletivos de solidariedade. Com a música, a proposta foi sempre difundir a luta zapatista, gerar recursos econômicos e construir a solidaridade junto com centenas e talvez milhares de pessoas que organizaram esses festivais massivos, dos quais fomos e somos parte [1], impulsionados de forma autônoma e autogestiva, independente de governos, partidos políticos e corporações.

O Festival das Resistências, herdeiro dessa tradição, foi uma iniciativa para dar visibilidade e apoiar 10 movimentos sociais, indígenas, camponeses, populares e de trabalhadores mexicanos [2]. Como muitos outros, nosso coletivo respondeu em 2005 ao chamado do Exército Zapatista na Sexta Declaração da Selva Lacandona, que convoca a um processo de organização e luta popular, chamado de “Outra Campanha”. Enfrentando um complexo contexto sociopolítico e uma forte repressão, que só vem aumentando durante os 4 anos do governo Calderón, as organizações da esquerda não institucional, anticapitalistas e de esquerda mais radical vêm tentando se articular de diversas formas. Nesse contexto, nosso coletivo conseguiu sobreviver e manter relações de apoio e solidariedade com várias dessas organizações, e participar de algumas iniciativas de articulação. Foi dessa forma que se teceram as relações com as organizações que foram agora apoiadas pelo Festival.

III
Este aconteceu, finalmente, depois de um complexo processo organizativo, no passado 13 de março. Assistiram a ele mais de 11 mil pessoas, com uma participação de 250 artistas e de cerca de 750 pessoas nas tarefas de organização e logística, que foram coordenadas pelo Frente Popular Francisco Villa-UNOPII (organização política de massas, de moradores e trabalhadores da periferia da cidade) e integrantes e colaboradores do coletivo Jóvenes en Resistencia Alternativa (JRA), sendo transmitido por 9 rádios mexicanas e 4 internacionais: Chile, Barcelona, Itália e Brasil (neste último, pela Rádio UFSCAR), além de ter sido transmitido por vários sites na internet, conseguindo um ampla repercussão política e na mídia [3].

Os objetivos políticos do Festival foram: 1) Difundir a luta de diversos movimentos em luta contra projetos do grande capital, ignorados pela grande mídia, invisibilizados pela academia e criminalizados pelos governos estaduais e federal, criando, mais do que um festival, um acontecimento político, resultado do processo organizativo de construção, involvendo nele os próprios músicos, alguns dos quais vêm participando deste tipo de iniciativas desde 1994; mas, sobretudo, pelo processo transitório de articulação de lutas de diversos cantos do país, com um peso político e simbólico bem importante no momento atual, em que a dinâmica do capital e do processo de integração total ao nosso vizinho do Norte [4] estão levando ao extremo a destruição do tecido social e das estruturas coletivas, criando um cenário de anomia e descomposição social terrivelmente perigoso; e 2) apontar para a geração de recursos econômicos para projetos de saúde, educação, comunicação, formação e produção dos diversos movimentos e organizações. Em relação a este objetivo, conseguiu-se um sucesso econômico total, gerando uns $730,000 pesos mexicanos (aproximadamente uns R$105.000), a serem divididos entre as 10 lutas e organizações (pois foram incluídas, por consenso entre os organizadores, as Juntas de Bom Governo Zapatistas) [5].

Ambos os objetivos foram atingidos, mas é importante sublinhar o intenso trabalho organizativo que esteve por trás deste resultado. Para além das atividades que o coletivo tem desenvolvido durante 2008 e 2009, o Festival das Resistências envolveu um processo de construção de quase dois anos, que se dividiu em várias fases: a construção da proposta e dos objetivos políticos, o processo de re-aproximação com os músicos para ajustar uma data e a apresentação da proposta às lutas. O aspecto financieiro a levar em conta é que, de fato, os gastos de produção (que se elevaram a uns $700,000 pesos mexicanos, cerca de R$100,000) só foram pagos, na sua maioria, no dia do evento, constituindo portanto uma aposta de grande risco, tanto do ponto de vista financeiro quanto do ponto de vista político. Previamente, o coletivo e os colaboradores fizeram uma “vaquinha” [fundo coletivo], para os gastos de divulgação: 350.000 panfletos que foram distribuídos na cidade por compaheirxs e organizações solidárias em todos os cantos da cidade, 20.000 cartazes colados e 100 paredes que foram pintadas por duas equipes de “profissionais”.

O lugar do Festival foi alvo de uma negociação com o governo da cidade, na qual teve um papel de pressão a Frente Popular Francisco Villa, enquanto organização de massas, mas, pressionado pelo corporativo da indústria cultural OCESA, o governo não abriu mão. Entretanto, o deportivo do Sindicato Mexicano de Electricistas, no sul da cidade, abriu o jogo…

Finalmente, no passado 28 de março, teve lugar a ceremônia de entrega de recursos aos movimentos, um emocionante momento em que reunimo-nos de novo, ativistas e organizações, músicos, coletivos de graffiti e artes cénicas, no assentamento “La Polvorilla”, da Frente Popular Francisco Villa Independente. Com esta iniciativa, para além de construir as pontes necessárias entre a música e outra formas de expressão artísticas e culturais, procuramos unir as lutas de “los de abajo”, os movimentos que estão em luta por um mundo diferente [6]. Aliás, obtivemos um triunfo na disputa pelos espaços urbanos, contra o governo da Cidade (que se chama a si próprio de esquerda) e o corporativo OCESA; ganhando um espaço para gritar nosso descontentamento contra a militarização do país; contra a crescente miséria e desigualdade; para demonstrar que nós, jovens, sabemos nos organizar, que não precisamos de policiais para nos cuidar, para construir nossas vozes através da música, da dança, do graffiti, da expressão cênica; através da organização autônoma, horizontal e coletiva, sem necessidade de estruturas burocráticas, construindo articulação com outras organizações em luta contra o capitalismo, gerando um processo de convergência com o movimento de mídia livre, para dizer que existem muitas resistências em todo o país e em todo o mundo, para dizer que resistimos e seguimos…

autogestão! autonomia! horizontalidade!

jóvenes en resistencia alternativa México DF (Cidade Monstruo), março-abril 2010

Notas:
[1] Uma breve história sobre os festivais massivos em solidariedade com o movimento zapatista no: http://espora.org/jra/index.php?option=com_content&task=view&id=238&Itemid=1
[2] Conheça os movimentos e lutas mexicanas: http://espora.org/jra/index.php?option=com_content&task=view&id=236&Itemid=1

Confira a declaração política de organizações, movimentos e músicos no Festival: http://www.youtube.com/watch?v=cCxvCz0C48o&feature=related
[3] Confira outras matérias sobre o Festival das Resistências; em La Jornada, jornal mexicano: http://www.jornada.unam.mx/2010/03/13/index.php?section=politica&article=011n1pol http://www.jornada.unam.mx/2010/03/14/index.php?section=politica&article=008n1pol em Telesur: http://www.youtube.com/watch?v=PWt5z81L9Mg
[4] Essa é a expressão “política” do atual proceso de acumulação por despossessão no nosso país, da destruição da nossa soberanía alimentar, da devastação ecológica, da submissão da elite política, da violência estatal e da militarização (disfarçada de “guerra contra as drogas”) contra os movimentos sociais, os jornalistas, as mulheres, as comunidades indígenas, e em geral contra toda a população civil que vive o nosso país. Escute aqui a secretária de Seguranca Interior dos Estados Unidos, Janet Napolitano, falar sobre sobre as novas diretrizes e formas de “colaboração” do governo mexicano na “luta contra as drogas”: http://www.npr.org/templates/player/mediaPlayer.html?action=1&t=1&islist=false&id=125143645&m=125142817 (versão em inglês). Confira, de outra parte, o secretário do Ministério da Defesa do México, chamando de “danos coleterais” as mortes de civis, resultado de enfrentamentos entre o Exército e traficantes: http://www.jornada.unam.mx/2010/04/13/index.php?section=politica&article=005n1pol
[5] Confira o resumo do informe financeiro, galeria de imagens e mais informações sobre o Festival em: www.espora.org/jra
[6] Escute os áudios dos grupos e bandas participantes no Festival http://vientos.info/cml/audios/conciertofestivalresistencias

Fonte: http://passapalavra.info/