sexta-feira, 27 de maio de 2011

Charge do dia!


Fonte: http://blogdolute.blogspot.com/

As mesquinharias e a História - Por José Luís Fiori

As mesquinharias e a História
Para Foucault, grandes fatos podem originar-se em bobagens. No Brasil, um mesmo político repete deslizes parecidos, mas com consequências opostas

“Foi de mesquinharia em mesquinharia,
de pequena em pequena coisa,
que finalmente as grandes coisas se formaram”

Michel Foucault, “A verdade e as formas jurídicas”

O filósofo francês, Michel Foucault (1926-1984), teve participação decisiva no debate epistemológico da segunda metade do século XX, questionando de cima a baixo, a visão clássica da filosofia ocidental, a respeito da ciência e da história. Junto com vários outros pensadores europeus e norte-americanos, colocou sob suspeita a existência de um conhecimento e de um “método científico” universal, e criticou a idéia de uma história humana evolutiva, progressiva e teleológica. Para Foucault, a história é descontínua, plural e dispersa, e “as coisas que parecem ser as mais evidentes, nascem sempre da confluência de encontros, acasos, ao longo de uma história frágil e precária.” A visão da ciência e do conhecimento de Michel Foucault remete à uma discussão epistemológica extremamente complexa. Mas sua visão da história acabou se popularizando, ao se associar de forma simplificada à sua própria afirmação de que sempre houve alguma “mesquinharia” na origem de todos os grandes acontecimentos históricos. Como ele dizia, toda grande mudança teve “pequenos começos, baixos, mesquinhos, inconfessáveis.” O que Foulcault nunca explicou foi como identificar e distinguir uma “mesquinharia” que terá “grandes conseqüências”, de uma “mesquinharia” que será esquecida imediatam,ente pelos seus contemporâneos.

Com certeza, o problema não é simples nem fácil de responder. Basta comparar alguns acontecimentos bem conhecidos.. Por exemplo, todos os que assistiram pela televisão, os atentados de 11 de setembro de 2001, tiveram certeza imediata de que estavam frente à uma “mesquinharia” que mudaria o rumo da história. Mas quase ninguém conseguiu perceber – na hora – a importância e as conseqüências catastróficas do tiro que foi dado pelo estudante Gavrilo Princip, de 19 anos de idade, no dia 28 de junto de 1914, na cidade de Sarajevo, na Boznia-Hersogovina, responsável pela morte do arquiduque Francisco Ferdinando, e de sua esposa, Sofia Chotek, herdeiros do trono da Áustria. Uma micro-história rocambolesca, que deu origem à Primeira Guerra Mundial, foi responsável por um dos maiores genocídios da história humana, e mudou radicalmente a história da Europa e do mundo. Outra dificuldade aparece quando se compara uma mesma “mesquinharia” e suas consequências, em momentos e contextos distintos. Como é o caso, por exemplo, da “compulsão sexual” do presidente Kennedy, que contribuiu para sua aura de jovem rico, de sucesso e traquinas. Ao contrário do presidente Clinton, que tinha o mesmo entusiasmo sexual, e quase sofreu um impeachement por conta de sua relação com Monica Lewinski, que paralizou inteiramente o seu segundo mandato. Para não falar do caso mais recente do senhor Dominique Strauss-Kahn, que perdeu a presidência do FMI e da França (provavelmente), graças às suas “mesquinharias sexuais”. Ou seja, como se pode ver, não é fácil de saber, de antemão, quais mesquinharias ficarão e quais irão para a lata de lixo da história.

Agora mesmo, o Brasil está vivendo uma experiência epistemológica extremamente interessante e ilustrativa, a respeito deste assunto. O caso de um mesmo personagem político, que comete duas vezes duas “mesquinharias” parecidas, mas com consequências opostas. Primeiro, foi a quebra do sigilo bancário do jardineiro Francenildo; agora, a denúncia do seu enriquecimento súbito, segundo parece, no tráfico de influências dentro do setor público. O mais provável é que estas duas mesquinharias tivessem passado desapercebidas, caso se tratasse apenas de um homem comum, sanitarista de interior, ou representante de algum laboratório produtor de vacinas, com grande compulsão financeira e que subiu rápido na vida, fazendo uso de suas boas relações publicas. Mas tudo isto muda obviamente de figura e importância quando se está falando de um homem de estado, que esteve situado no epicentro da política econômica, e agora supervisiona as nomeações e decisões estratégicas de um governo em pleno processo de formação. No caso do jardineiro Fracenildo, o afastamento do ministro da Fazenda permitiu uma virada à esquerda que abriu as portas para o sucesso do segundo governo Lula. Mas neste segundo caso, as consequências que estão em pleno curso estão apontando numa direção absolutamente oposta. Graças às novas “mesquinharias financeiras” do mesmo personagem, o que vinha sendo apenas um governo insípido e tecnocrático – de economistas para economistas – agora está assumindo a imagem do seu principal condutor político: a de um velho lobbista do setor privado, junto aos centros de poder responsáveis pelas compras, vendas e investimentos do setor publico; e a de um representante político ativo, e membro novo-rico da direita econômica.
Fonte: http://www.outraspalavras.net/

Os ''indignados'' e a Comuna de Paris - por Atilio Borón

Os ''indignados'' e a Comuna de Paris
Talvez por uma dessas surpresas da história, o grande levantamento popular que hoje comove a Espanha (e que começa a reverberar no resto da Europa) estala na coincidência com o 140° aniversário da Comuna de Paris, um gesto heróico, no qual a demanda fundamental também era a democracia. Mas uma democracia concebida como governo do povo, pelo povo e para o povo, e não como um regime a serviço do patronato e no qual a vontade e os interesses populares estão inexoravelmente subordinados ao imperativo da ganância empresarial.

Precisamente por isso as demandas dos "indignados" têm ressonâncias que evocam imediatamente aqueles que, com as armas em mãos, saíram para defender os parisienses nas heróicas jornadas de 1871, culminando na constituição do primeiro governo da classe trabalhadora, claro que restrito à cidade de Paris.

Um governo que durou pouco mais de dois meses e que logo foi massacrado pelo exército francês com a aberta cumplicidade e cooperação das tropas de Bismarck, que pouco antes havia infligido uma humilhante derrota aos herdeiros dos exércitos napoleônicos. A crueldade contra os parisienses que tiveram a ousadia de querer tomar o céu por assalto e fundar uma democracia verdadeira foi terrível: calcula-se que mais de trinta mil comuneiros foram esmagados pelas armas, em execuções sumárias sem juízo prévio.

A Comuna foi afogada em um rio de sangue e, para indenizar seus "crimes," a Assembléia Nacional decidiu erigir, na coluna mais elevada de Paris, em Montmartre, a basílica de Sacré Coeur, construída com os fundos recolhidos por uma subscrição popular por toda a França - para honra dos parisienses, só uma ínfima parte do arrecadado proveio da cidade martirizada pela reação.

Paris foi derrotada, mas as parisienses e os parisienses não foram postos de joelhos. A Comuna desacreditava a institucionalidade burguesa, insanavelmente corrupta porque sabia que, ao aparatoso emaranhado de leis, normas e agências governamentais, só lhe preocupava consolidar a riqueza e os privilégios das classes dominantes e manter o povo submetido; exigia uma democracia direta e participativa e a derrogação do parlamentarismo, essa viciosa deformação da política convertida em oca charlatanice e âmbito de todo tipo de transações e negociações completamente alheias ao bem-estar das maiorias; demandava a criação de uma nova ordem política, executiva e legislativa, desta vez baseada no sufrágio universal (homens e mulheres igualmente, não como ocorreria depois nos capitalismos democráticos, nos quais o "universal" se referiria exclusivamente aos machões) e com representantes revogáveis e diretamente responsáveis ante seus mandantes.

Os comuneiros queriam uma democracia genuína, não fictícia, na qual tanto os representantes do povo como a burocracia estatal não gozassem de privilégios, com remuneração equivalente à do salário médio de um operário, entre outras medidas, tais como a consumação da separação entre a Igreja e o Estado e a universalização da educação laica, livre e obrigatória para homens e mulheres igualmente.

Basta olhar os documentos dos "indignados" de hoje para comprovar a assombrosa atualidade das demandas dos comuneiros e o pouco, muito pouco, que mudou na política do capitalismo. Os jovens e não tão jovens que reinventam cerca de 150 praças da Espanha não são "apolíticos", ou "anti-políticos", como certa imprensa nos quer fazer acreditar, mas pessoas profundamente politizadas que levam a sério a promessa de democracia e que, por isso mesmo, rebelam-se contra a falsa democracia, oriunda das entranhas do franquismo e consagrada no tão aplaudido Pacto de la Moncloa, exibido como um ato exemplar de engenharia política democrática ante os povos latino-americanos.

Uma democracia que os acampados denunciam como um engano, um simulacro que, sob suas roupas engomadas, oculta a persistência de uma cruel ditadura que descarrega o peso da crise desatada pelos capitalistas sobre os ombros dos trabalhadores. O que a "exemplar" democracia da Moncloa propõe para enfrentá-la é o despotismo do mercado, inimigo irreconciliável de qualquer projeto democrático: facilitar as demissões dos trabalhadores, reduzir seus salários, cortar os direitos trabalhistas, congelar as pensões e aumentar a idade necessária para aposentar-se, diminuir o emprego público, cortar os orçamentos de saúde e educação, privatizar empresas e programas governamentais e, coroando tudo isto, reduzir ainda mais os impostos às grandes fortunas e às empresas para que, com o dinheiro excedente, invistam em novos empreendimentos.

A famosa e mil vezes refutada "teoria do derrame", uma vez mais, supõe que o povo é idiota e que não se dá conta de que, se os ricos têm mais dinheiro, é necessário um milagre para que não sucumbam à tentação do cassino financeiro global, de modo a investir na criação de empresas geradoras de novas fontes de trabalho. A experiência indica que a tentação é muito grande.

A resposta da falsa democracia espanhola – na realidade, uma sórdida plutocracia que os jovens querem destronar e substituir por uma democracia digna desse nome – ante a crise provocada pela insaciável voracidade da burguesia é aprofundar o capitalismo, aplicando as receitas do FMI até que a sociedade sangre e afunde no desânimo, na miséria e aceite uma "solução neofascista" que recomponha a ordem perdida. Não há transformação possível dentro da trama pseudo-democrática espanhola porque seu famoso bipartidarismo demonstrou não ser outra coisa que as duas caras de um só partido: o do capital.

Mas agora a conspiração entre o PSOE e o PP encontrou-se com um obstáculo inesperado: alentados pelos ventos que desde o norte da África cruzam o Mediterrâneo, os jovens, vítimas principais do saque, "disseram basta e começaram a andar", como uma vez expressou o Comandante Ernesto "Che" Guevara em seu célebre discurso de 1964 ante a Assembléia Geral das Nações Unidas.

Nada voltará a ser como antes na Espanha. O desprestígio de sua classe política parece ter ultrapassado o ponto de não retorno e a crise de legitimidade da pseudo-democracia chega a profundidades insondáveis; se egípcios e tunisianos puderam desfazer-se das corruptas camarilhas governantes, por que também não poderiam fazer os "indignados"?

As obscenas incoerências éticas do verdadeiro reitor da economia espanhola, o FMI, não podem mais que irritar e mobilizar as camadas cada vez mais amplas de cidadãs e cidadãos: enquanto estes padecem todo tipo de corte em suas rendas e seus direitos trabalhistas, os bandidos do FMI decidem premiar Dominique Strauss-Kahn com uma indenização de 250 mil dólares por ter renunciado antecipadamente ao seu cargo... E por ter incorrido em um gravíssimo delito como o assalto sexual a uma trabalhadora africana em um hotel de Nova York! Afora isso, desfrutará de uma suculenta aposentadoria que é negada a milhões de espanhóis e europeus em Portugal, Grécia, Irlanda, Islândia...

E essas são as pessoas que dizem saber como se sai da situação na qual está afundando o mundo, a pior crise econômica da história! Sem haver lido os clássicos do marxismo, a vida ensinou aos "indignados" que não há democracia possível sob o capitalismo. Como dizia Rosa Luxemburgo, sem socialismo não há nem haverá democracia, e o capitalismo é insanavelmente antagônico à democracia. A história deu um veredicto inapelável: mais capitalismo, menos democracia, no Norte opulento e industrializado e igualmente no Sul global.

A vida lhes ensinou também que, quando juntam suas vontades, se organizam e se educam no debate de idéias para superar a idiotização de massas programadas pela indústria cultural do capitalismo, sua força é capaz de paralisar a partidocracia e colocar em crise a pseudo-democracia que os enganava. Se persistem em sua luta poderão também derrotar a prepotência do capital e, eventualmente, iniciar uma nova etapa na história, não somente da Espanha, mas também da Europa. Os povos do mundo inteiro apontam hoje seus olhos às ruas e praças da Espanha, onde está sendo realizado um combate decisivo.

Atilio Borón é doutor em Ciência Política pela Harvard University, professor titular de Filosofia Política da Universidade de Buenos Aires e ex-secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO).
Traduzido por Lucas Morais, do Diário Liberdade.
Retirado de Kaos En La Red
Fonte: http://www.correiocidadania.com.br/

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Neocórtex - por Juliana Borges


"Eu uso a palavra 'especismo' ,para descrever a discriminação habitual que é praticada pelo homem contra outras espécies (…) Especismo e racismo ignoram ou subestimam as semelhanças entre o discriminador e aqueles que são discriminados." Rychard D.Ryder

Fonte: http://peledaterra.blogspot.com/

Aqui tramamos a Marcha da Liberdade - Por Bruno Torturra

Aqui tramamos a Marcha da Liberdade

Crônica da longa tarde em que fomos reprimidos por defender a consciência — e decidimos voltar à luta

Por Bruno Torturra, do Coletivo DAR – Desentorpecendo a Razão
Sabem de uma coisa? Sábado eu fui à marcha da maconha e usei tóxicos. Usei mesmo! Eu e uma cambada que descia a Consolação. Ficamos com os olhos vermelhinhos, tossindo pra caramba. Como a gente descolou a parada? Ora, com a Polícia Militar de São Paulo, com quem mais? O tóxico, no caso, chama-se Clorobenzilidenemalononitrila, o gás CS, mais conhecido como gás lacrimogênio. É considerado uma “arma branca” pelas forças de segurança, e toda tropa de choque que se preza porta um belo estoque quando vai às ruas.

Sábado, tive a involuntária chance de tragar o gás em quatro oportunidades. A primeira foi na frente de um abandonado cinema Belas Artes. Uma bomba de efeito moral estourou bem ao meu lado, e meu ouvido zuniu pelo resto do dia. Corri, e tive a sabedoria de não olhar para trás quando escutei os tiros de escopetas com balas de borracha. Elas não matam, mas cegam facilmente quem as toma nos olhos. Estava seguindo em frente pelo canteiro do meio da Consolação, entre os desavisados cidadãos que esperavam um ônibus no ponto do corredor. Foi ali que o gás chegou primeiro em meus olhos e narinas. Bem como nas mucosas de crianças, jovens, adultos e idosos de ambos os sexos que esperavam uma condução apenas.

A última inalada, e mais intensa, foi entre as esquinas da Consolação com Sergipe e Maria Antônia. Eu já não estava mais no miolo da manifestação, mas seguia pelo outro lado da rua, tirando fotos da tropa de choque e me juntando ao coro de manifestantes que, já meio dispersos, apontavam suas palavras contra a polícia. Foi quando duas bombas foram atiradas na pista oposta, sentido Paulista, onde não havia marcha, nem manifestantes em grande número. Apenas automóveis engarrafados, pedestres atravessando a rua e o comércio aberto. Segui em frente, protegendo minhas vias com um lenço verde (distribuído aos montes no começo da marcha como mordaça pela censura, tornou-se máscara).

Vi dezenas de pessoas levando a mão ao rosto, vi senhoras correndo com dificuldade para fugir da fumaça, um pasteleiro sufocado, encurralado pelo gás dentro de seu trailler. Queima, quimicamente falando. A pior coisa que já respirei. Ainda pior do que o gás de pimenta que sorvi ano passado, na marcha da maconha de 2010, no Parque do Ibirapuera. Com o gás lacrimogênio, a pele e os olhos sentem uma agressão corrosiva, intolerável. Prendi a respiração e corri em frente. Tentando alcançar o resto do pessoal. Eu precisava estar lá para ver o desfecho.A foto é mais ou menos, mas mostra o momento em que o gás lacrimogênio foi atirado entre cidadãos desavisados
A Consolação foi intoxicada porque a “lei” não tolera outra fumaça. Aliás, a “lei” não tolera quem fale sobre a tal fumaça sem condená-la. Pelo entendimento do Tribunal de Justiça de São Paulo, em uma decisão tomada menos de 24hs antes da realização da Marcha, é ilegal dizer que maconha não deveria ser ilegal. Proibido, o evento se concentrou no MASP, levantou cartazes e cantos, e acordou com o Capitão Benedito Del Vecchio, comandante da 1a companhia do 7o batalhão da PM, a realização da marcha pela liberdade de expressão, condenando a censura sofrida.

A interpretação do Tenente ao texto do TJ, foi a seguinte: qualquer um que leve cartaz, camiseta, material ou slogans que incluam a palavras maconha, ou legalização, ou qualquer referência que induza à maconha, serão punidos. Cobriu-se a maioria dos cartazes com faixas ou tinta preta, e a polícia disse que apenas iria escoltar a marcha – e seria esse o saldo do dia.E quando o assunto é proibido?
Eu arrisco dizer que havia duas mil pessoas marchando pela Paulista. A causa não era mais a legalização da maconha, exatamente. Era um protesto pelo direito de pedir a legalização da maconha. Uma planta de inequívocas propriedades medicinais, industriais e e dona de uma amistosa psicoatividade. Eis todo o problema. Psicoatividade. Que, para mim, mostra o que está por trás dessa tarde de sábado: consciência. E o que fazer para alterá-la. Aos fatos:

Análises médicas do gás lacrimogênio indicam que ele causa danos ao fígado e ao coração. Também é indutor de anomalias genéticas em células mamárias (aka câncer de mama). Quando metabolizado, o gás CS deixa traços de cianureto no corpo humano… coisas assim. Fatos que duvido que conste nas cartilhas de formação de um PM como o capitão. Del Vacchio (no mesmo sábado, 93 novos soldados ganharam seus espadins, gaba-se o único tweet do dia do @pmesp). Ou nos calhamaços dos excelentíssimos desmbargadores do Tribunal de Justiça. Duvido que a toxidade do gás lacrimogênio conste no repertório do médico Geraldo Alckmin, hoje governador de São Paulo. Mas foi essa a substância que a força sobre seu comando atirou, em pleno sábado de sol, em gente indefesa, pelas costas, por discordar de uma lei – o que apenas circulavam por São Paulo na hora errada.Tá aqui sua democracia. ass: Cap. Del Vecchio. (fonte AE)
A troco de que? O parecer do desembargador Teodomiro Mendes é claro: “o evento que se quer coibir não trata de um debate de ideias, apenas, mas de uma manifestação de uso público coletivo de maconha, presentes indícios de práticas delitivas no ato questionado, especialmente porque, por fim, favorecem a fomentação do tráfico ilícito de drogas (crime equiparado aos hediondos)”.

Sim, eu vi gente acendendo baseados na marcha. Imediatamente reprimidos pelos próprios participantes que, em grupo, falavam que “não era a hora”. Toda a argumentação que vi na Marcha é em torno de um debate de ideias que, invariavelmente, aponta para a extinção do tráfico (“equiparado aos crimes hediondos”) através do cultivo legal de canabis (equiparado à jardinagem).

Sim, eu vi gente sendo presa na marcha. Ninguém por porte de drogas. Apenas por distribuir um jornal, e debater ideias, chamado “O Anti-proibicionista”, feito pelo coletivo DAR. A polícia não deu satisfações aos jornalistas que questionavam o motivo da prisão. Tive uma escopeta (com balas de borracha, suponho) apontada para mim quando tentei me aproximar para fotografar um dos membros do coletivo indo em cana.

Marchei até o fim, e peguei um táxi para o 78º DP na Rua Estados Unidos, para tentar entrevistar o delegado e os presos na marcha. Saber qual era, enfim, o B.O. Cheguei no primeiro grupo de pessoas, e não pude, nem como repórter, falar com o delegado ou os presos. Foi de lá que mandei meu primeiro de muitos tweets do dia, e vi chegar mais tropa de choque, um helicóptero, e vi a rua Estados Unidos ser fechada para impedir a chegada dos manifestantes mais resolutos que subiram e desceram de novo a Augusta para pedir a soltura dos dois que ainda restavam presos no 78. E foi quando entendi que aquela não era mais uma marcha da maconha. Não era sequer uma marcha pela liberdade de expressão. Era um explícito enfrentamento da consciência coletiva consigo mesma.PMs da ROCAM sem idenficação para esculachar sem maiores problemas
Consciência era o tema de hoje, eu preveni. E o que fazer para alterá-la. Nossa extrema e recente capacidade de obter informação e conexões redimiu os libertários. Temos a rede, os argumentos, a vontade de união. Mas como em um pesadelo junguiano, esse despertar gera seu exato oposto… a sedimentação de preconceitos e discriminações que infla os intolerantes, os donos da verdade, os demagogos. As balas não eram contra nós, era contra nossos argumentos, contra nossa capacidade de demonstrar que o mundo que a ignorância oferece é pior do que o da tolerância. Com o twitter na mão, vi meus breves relatos sendo retransmitidos e espalhados para muitos milhares de pessoas em segundos. Assim como tantos por ali, meu telefone era só um uma sinapse de um cérebro maior, coletivo.

Não, essa briga não é pela maconha. Assim como a luta por direitos LGBT, das mulheres, dos negros… nada disso é apologia de raça, sexo ou formas de amor. São gritos por tolerância, respeito, igualdade de direitos. E uma luta da consciência por mais consciência. E pela transformação dela em grupo, em rede, em sociedade.Repórter da Globo cobre a marcha atrás do Choque. Deu na lamentável matéria do JN
Consciência! Eu insisto. E especulo aqui, com pouco medo de errar: PMs, juízes, governadores, legisladores… devem saber tanto sobre o males do gás lacrimogênio quanto sobre os da maconha. Nada. E não serei eu o infinitésimo mártir a enumerar fatos científicos e culturais sobre a planta que provam, sem controvérsia, que ela pode conviver entre nós como uma verdadeira aliada, em vez de uma falsa ameaça. Ameaça que se tornou violentamente real com a proibição. É um mercado bilionário que flui diretamente para os cofres do crime organizado e da inevitável corrupção policial. É a base da renda da enorme malha criminosa. Tudo por causa de uma planta quase sempre benigna.

Consciência… e me lembro das pessoas não envolvidas com a marcha que viram a brutalidade da polícia, respiraram um gás trocentas vezes mais tóxico do que a mais vil das maconhas de bocada, e não se indignaram com a PM. Mas conosco, os maconheiros, os vagabundos que financiam o tráfico de drogas. “Porque vocês não vão trabalhar?”, me sugeriram no twitter enquanto eu reportava abusos da polícia. Não tiveram a chance, a boa-vontade (ou a inteligência?) de pensar um pouco além do que lhes oferece o mais ignóbil jornalismo televisivo. Ainda assim, fazem parte do mesmo cérebro em que pia meu twitter.

Hoje, sentimos na pele o que é viver no meio de um nó cego de ignorância, ideias preconcebidas e uma sórdida conveniência comercial e política. Eis a receita invariável da qual a direira (a extrema direita, eu quero dizer) se alimenta. E provo o que digo com uma uma cena, a mais importante de todo o evento para mim.

Durante a concentração no MASP, a maioria ainda nem havia chegado, uma turma de uns vinte neonazistas, facistas, ultra-nacionalitas, se colocou em fila para protestar contra a marcha. Diziam defender a família, o Brasil, o nacional-socialismo. A polícia não os molestou. Ao contrário, fez um cordão para os manter isolados das centenas de manifestantes que foram chegando. Quando as primeiras bombas voaram, o pequeno grupo nazi aplaudiu. Eu vi. Eu e muita gente viu. E você também pode ver se procurar na rede. Facistas batendo palmas para a polícia que reprimia com extrema violência um protesto pedindo liberdade de expressão.Neo-nazistas, ultra nacionalistas, contra a marcha. Protegidos pela polícia, aplaudiram a violência
Essa é uma cena triste? Não ainda. Ela é um sintoma, apenas, dessa bipolaridade social que estamos vivendo. E a cena diz mais sobre quem não estava lá do que sobre a PM, os nazis, ou os maconheiros. Sobre as centenas de milhares de pessoas que sabiam da marcha, e preferiram não ir, por preguiça, por medo de ridículo, por medo da polícia ou por puro descaso. Sobre os incontáveis artistas e figuras públicas que adoram um baseado, mas se escondem na hora do debate. Um silêncio que dá força às balas de borracha, às liminares de última hora, a uma política cínica sobre drogas no país. Um silêncio que abafa o eco da bombas de gás e dá mais voz aos desinformadores de plantão.

Eu saí indignado da marcha. Mas não saí triste. O protesto durou mais de seis horas. Andamos metade da Paulista, descemos toda a Consolação, voltamos até os jardins, sob porrada e abusos, para soltar nossos companheiros. Temos que nos orgulhar. A marcha de São Paulo nunca mais será a mesma. Mas viramos mais do que uma página na luta pela legalização e regulação do mercado de maconha no Brasil. Ficou evidente, em fotos, vídeos, relatos, cicatrizes e saudações integralistas que nossa democracia é tudo, menos madura.

E se isso não é motivo para lotar a Paulista no sábado que vem, então, lamento informar, mas os facistas terão muitos motivos para aplaudir a PM de São Paulo. Na esquina da Augusta com a Estados Unidos foi decidido que um novo protesto, contra a violência policial, será feito no MASP, às 14hs do dia 28. É hora de mostrar para o governo Alckmin o significado do lema da bandeira do nosso estado: Non ducor, duco. Em latim: não sou conduzido, conduzo.Os mais resistentes esperaram sentados a libertação dos dois presos no 78 DP. Ali, combinamos nova manifestação para sábado que vem
Por isso, eu dedico esse texto a todos que fumam maconha e que não foram hoje à Marcha da Maconha. Peço, humildemente, que antes de enrolar o próximo baseado dêem uma olhada na sua erva. Tente imaginar por quais mãos ela passou. Para quem esse dinheiro foi. Pense em quantas pessoas morrem todo dia por conta desse mercado criminoso que a lei criou. E pense também nas duas mil pessoas que foram às ruas por você. Para que sua maconha seja limpa, em carma e substância. E não se culpe pela ausência de hoje, digo isso com sinceridade. Apenas acenda o baseado, fume, e prometa a si mesmo que na próxima marcha você vai. E que vai levar gente consigo. E que vai fazer o impossível para aparecer sábado que vem, no MASP, às 14hs, para protestar na rua contra a violência do Estado de São Paulo. Eu vou.
***

Um breve comentário: há tempos que minha relação com a maconha anda em crise. Não tenho mais tanto prazer quando fumo um baseado. Ao longo dos anos, os efeitos foram mudando em mim. Hoje posso ficar ansioso, confuso, anti-social, durmo pior… Raramente fumo, pois com frequência me arrependo. Mas semana passada ganhei uma pequena belota de uma maconha caseira, cultivada por um amigo do interior. Hoje, ao chegar da marcha, tomei um banho, vi a repercussão no twitter, e enrolei a erva. Perfumada, verde, saborosa. Fumei. Há anos não me sentia tão amigo da maconha. Sentei, chapado, para escrever meu relato, e meu desabafo. Com uma florzinha solta, colhida por amigo, eu a maconha fizemos as pazes. Vou dormir bem.
Fonte: http://www.outraspalavras.net

Aborto legal - Graffiti no centro de Concepcíon, Chile - por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

Desmond Tutu, Israel e Eu - por Jordan Ash - Common Dreams

Desmond Tutu, Israel e EuPara mim, é tão imoral empresas lucrarem com a ocupação israelense da Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Leste quanto era no caso das empresas que lucravam com o apartheid sul-africano. Como o mundo e eu aprendemos há 25 anos, a pressão externa é muitas vezes necessária para provocar mudanças políticas e deter um governo opressor. A geração de hoje está preparada para desempenhar um papel histórico, ajudando a trazer a paz, a justiça e a igualdade para o Oriente Médio.

Quando eu era criança, minha mãe incutiu-me um forte sentido de certo e errado. A moral que ela transmitiu estava firmemente enraizada na história do povo judeu. Minha mãe falou-me dos pogroms na Rússia, das duras condições de trabalho que os judeus tiveram que suportar e da discriminação que enfrentaram nos Estados Unidos. Ela também me falou de Samuel Gompers, que fundou a Federação Americana do Trabalho, e de Michael Schwerner e Andrew Goodman que deram suas vidas, ao lado de James Chaney, no movimento em defesa dos direitos civis.

As lições que aprendi foram claras. Devemos lutar pela Justiça. A discriminação e o preconceito são coisas erradas. Todas as pessoas são iguais e merecem ser tratadas com dignidade e respeito.

Nos feriados, comemorávamos momentos onde praticamos essas lições. Na Páscoa, nos lembrávamos que éramos escravos no Egito. A Chanukah é a história de como Judas Macabeu e um pequeno grupo de homens derrotaram o exército grego para que pudéssemos praticar a nossa religião. No Purim, nós vaiávamos quando ouvíamos o nome de Haman, que queria destruir os judeus e brindávamos a Ester que arriscou a vida para salvar seu povo.

E, é claro, ela me falou do Holocausto, das formas heroicas com os quais os judeus lutaram e dos modos horríveis pelos quais morreram. Esta foi a história que deu tanta importância à fundação de Israel. Era como se, após uma sucessão de tragédias, a história do nosso povo tivesse um final feliz.
Como fui ensinado, os árabes queriam negar-nos esse final feliz e jogar todos os judeus no mar, simplesmente porque eram judeus. Eu, como tantos outros judeus, não fui ensinado que a fundação de Israel exigiu a remoção forçada de 700 mil palestinos.

Quando cheguei à faculdade, em 1985, rapidamente me envolvi em uma tentativa de envolver a escola em um boicote contra empresas que faziam negócios com a África do Sul. Fui preso em um ato de desobediência civil, juntamente com outros dez estudantes, incluindo Amy Carter, filha do ex-presidente e ganhador do Prêmio Nobel da Paz, Jimmy Carter.

Por volta dessa época, vi um panfleto que falava sobre a aliança profana entre os Estados Unidos, África do Sul e Israel. Eu quis acreditar que se tratava de uma falsa acusação promovida por anti-semitas contra Israel, mas não era. Israel forneceu armas para o regime do apartheid.

Alguns anos mais tarde, quando Nelson Mandela foi libertado da prisão e visitou os Estados Unidos, alguns judeus ameaçaram protestar por causa de declarações de Mandela, comparando a luta dos palestinos com a dos negros sul-africanos.

O fato de essa verdade sobre Israel ser algo muito doloroso, eu ignorei-a. Mesmo eu que procurava viver com os valores transmitidos por minha meu, que trabalhava com os sindicatos e organizações da comunidade, ignorei o que as pessoas estavam dizendo sobre a opressão contra os palestinos. Eu coloquei Israel fora da minha mente e, por um longo tempo, também coloquei os judeus fora de minha mente.

Então, vinte anos depois, ouvi um grupo de jovens judeus se manifestarem contra o que Israel estava fazendo nos territórios ocupados e como eles – como judeus – se sentiram obrigados a fazer tudo o que podiam para impedir isso.

Eu fui para Israel então, para ver com meus próprios olhos. Eu vi que Israel estava construindo um muro de 425 milhas, separando comunidades e famílias umas das outras, agricultores de suas terras e impedindo os palestinos de chegarem ao trabalho ou à escola. Vi que o governo israelense estava demolindo casas palestinas, enquanto continuava permitindo a construção de novos assentamentos judaicos.

Ficou claro para mim que o principal interesse de Israel não era alcançar a paz, mas tomar as melhores terras para si, enquanto forçava os palestinos a uma vida de pobreza cheia de lembranças diárias de seu “status inferior”. A minha experiência confirmou o que Jimmy Carter tinha dito: que Israel criou um sistema de apartheid.

Pouco tempo depois de ter voltado, a Universidade de St. Thomas, em St.Paul, desconvidou o arcebispo Desmond Tutu para uma atividade, após o Conselho de Relações da Comunidade Judaica ter dito que Tutu teria feito comentários ofensivos à comunidade.

O que Tutu havia dito? “Eu fiquei profundamente angustiado na minha visita à Terra Santa, que me lembrou muito do que aconteceu com nós, negros, na África do Sul. Eu vi a humilhação dos palestinos nos postos de controle e de bloqueio nas estradas, sofrendo como nós, quando os jovens policiais brancos nos impediam de nos locomover”. Às vezes a verdade dói.

O site JCRC Minnesota apresenta uma citação do líder zulu sul-africano Chefe Buthelezi dizendo que “o regime israelense não é o apartheid”. Quem é o chefe Buthelezi? Ele foi um dos únicos negros sul-africanos a se opor ao boicote e a incentivar o investimento estrangeiro na África do Sul, alegando que era uma coisa boa para o povo negro. A comunidade empresarial internacional abraçou-o e ignorou o fato de que todos os líderes negros do movimento anti-apartheid eram a favor de sanções e do boicote.

Inspirado pelo sucesso do movimento de boicote e de desinvestimento contra o apartheid sul-africano, uma ampla fama de organizações da sociedade civil palestina fez um apelo em 2005 em favor da campanha Boicote, Desinvestimento e Sanções como parte de uma campanha não violenta para acabar com a ocupação israelense.

As pessoas que se opunham ao boicote à África do Sul 25 anos atrás argumentavam que a melhor maneira de mudar o apartheid era por meio do “engajamento construtivo” das corporações com o regime do apartheid. Elas estavam erradas.

Para mim, é tão imoral empresas lucrarem com a ocupação israelense da Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Leste quanto era no caso das empresas que lucravam com o apartheid sul-africano. Como o mundo e eu aprendemos há 25 anos, a pressão externa é muitas vezes necessária para provocar mudanças políticas e deter um governo opressor. A geração de hoje está preparada para desempenhar um papel histórico, ajudando a trazer a paz, a justiça e a igualdade para o Oriente Médio.

(*) Jordan Ash é representante do movimento Jewish Voice for Peace, em Minnesota (EUA)
Tradução: Katarina Peixoto
Fonte: Carta Maior

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Adeus ao guerreiro

Adeus ao guerreiro
Morre Abdias Nascimento, o lutador brasileiro pela igualdade racial

Ativista político e precursor do movimento negro no país, o ex-senador Abdias Nascimento morreu ontem à noite (23), aos 97 anos, vítima de complicações decorrentes de diabetes. A informação foi confirmada pela fundação que ele mantinha e também por integrantes do movimento negro. Abdias estava internado há dois meses no Hospital dos Servidores do Estado, no centro do Rio.

A trajetória de vida do líder negro foi destacada pelo fundador do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (Ceap), Ivanir Santos. “Foi um lutador incansável pela igualdade racial no Brasil, em defesa das comunidades negras. Tanto em suas contribuições no teatro quanto nas artes plásticas e na política, ele sempre levou à sociedade a denúncia do racismo”, frisou Ivanir.

A luta de Abdias pela instituição de cotas nas universidades foi lembrada pelo diretor executivo da organização não governamental (ONG) Educafro, Frei David dos Santos. “O Abdias deixa um legado fortíssimo. Ele tinha uma convicção: jamais o Brasil será melhor, se o negro não tiver melhores condições e oportunidades. Em 2005, quando fazíamos um protesto em frente à UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro], Abdias fez questão de participar, mesmo em cadeira de rodas”, recordou Frei David, que ainda cobra da universidade maior presença de alunos negros nos cursos.

Abdias Nascimento também teve participação no jornalismo, com registro profissional desde 1947 no sindicato da categoria, conforme lembrou Angélica Basthi, da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-RJ). “Ele foi, durante muito tempo, uma das principais – se não uma das únicas – vozes de combate ao racismo. Deixa de legado a necessidade de se dar continuidade à proposta de corrigir desigualdades com base na raça e na cor e também prosseguir com as ações e os sonhos que ele teve, de uma sociedade mais justa e mais igualitária”, disse Angélica.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro lançou este ano o Prêmio Abdias Nascimento, que está com inscrições abertas até 19 de agosto. Entre os assuntos sugeridos para as matérias que poderão concorrer ao prêmio, estão saúde da população negra, intolerância religiosa, juventude negra, ações afirmativas, empreendedorismo, desigualdades, direitos humanos, relações raciais, políticas públicas, comunidades tradicionais e discriminação racial.

Nascido em 1914, no município de Franca, em São Paulo, Abdias Nascimento começou cedo a luta pela igualdade racial. “Em 1936, ele foi preso por protestar contra a exigência de entrar numa boate da capital paulista pela porta dos fundos, por ser negro”, lembrou a esposa, Elisa Larkin Nascimento, diretora do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro).

Em 1944, já vivendo no Rio de Janeiro, ele fundou o Teatro Experimental do Negro. Marco na luta pela cidadania do artista negro, o grupo contribuiu para a formação profissional de dezenas de atores. O jornal Quilombo, criado por Abdias em 1947, já abordava questões que só bem mais tarde foram concretizadas em políticas públicas no Brasil.

O ativista sofreu pressões durante a ditadura militar e ficou exilado 13 anos nos Estados Unidos. De volta ao Brasil, Abdias Nascimento iniciou carreira política, tendo sido deputado federal, nos anos 80, e senador, de 1991 a 1992 e de 1997 a 1999 pelo PDT.

Fonte: http://www.ciranda.net

Cornel West: Obama é marionete de Wall Street - por Idelber Avelar

Cornel West: Obama é marionete de Wall Street
Um dos principais filósofos estadunidenses, líder cristão de esquerda e presença decisiva na campanha, declarou Obama “marionete negra dos oligarcas de Wall Street e dos plutocratas capitalistas".

A comunidade negra dos EUA está em polvorosa. Nos últimos dias, o presidente Barack Obama recebeu a mais violenta crítica de uma personalidade afro-americana desde o início de seu governo. Cornel West, um dos principais filósofos estadunidenses, líder cristão de esquerda e presença decisiva na campanha, perdeu as esperanças e declarou Obama “marionete negra dos oligarcas de Wall Street e dos plutocratas capitalistas, agora também cabeça da máquina americana de matar, e orgulhoso disso”. As declarações foram dadas a Chris Hedges, do site TruthDig, e vêm repercutindo na imprensa.

“Eu pensei que talvez ele tivesse pelo menos alguns instintos progressistas populistas que poderiam se manifestar depois das políticas cautelosas que adotou no Senado, com Joe Liberman como mentor. Mas ficou bem claro quando vi a equipe econômica neoliberal. No primeiro anúncio, de Summers e Geithner, já fiquei furioso. Pensei 'meu Deus, eu realmente fui enganado num nível bem profundo'. Eu tinha a impressão de que ele pudesse trazer as vozes do irmão Joseph Stiglitz e do irmão Paul Krugman. Imaginei 'ok, dada a estrutura e os limites do procedimento capitalista democrático, provavelmente é o melhor ele vai conseguir fazer'. Mas pelo menos ele teria algumas vozes preocupadas com os trabalhadores, com a questão dos empregos, das demissões e dos bancos, alguma aparência de responsabilização democrática dos oligarcas de Wall Street e dos plutocratas capitalistas que estão deitando e rolando, enlouquecidos. Eu estava completamente errado”.

“Você imagina se Barack Obama tivesse assumido o poder e deliberadamente educado e ensinado o povo americano sobre a natureza da catástrofe financeira e da cobiça que estava acontecendo? Se ele tivesse nos dito que tipo de mecanismos de responsabilização precisavam ser estabelecidos, se ele tivesse priorizado o socorro aos proprietários das casas ao invés dos bancos de investimento, e tivesse se lançado à criação massiva de empregos, ele teria decepado o populismo de direita da turma do Tea Party. Essa turma está correta quando diz que o governo é corrupto. Os grandes negócios e bancos sequestraram nosso governo e o corromperam de forma profunda. Eu não acho que eu poderia, em boa consciência, pedir a alguém que votasse em Obama.”

O ataque de Cornel West também incluiu uma série de outros elementos, mais pessoais, e por estes ele foi bastante criticado. Eles valem a pena serem lidos, não pela mágoa, mas porque são um indício de como andam as relações de Obama com West e com uma série de lideranças da comunidade negra, das quais ele parece fazer questão de manter distância: “eu costumava ligar para o meu querido irmão [Obama] a cada duas semanas. Eu rezava uma oração no telefone para ele, especialmente antes de um debate. Ele nunca me ligava de volta. Quando me encontrei com ele na Assembleia Legislativa da Carolina do Sul, durante a campanha, ele foi bastante gentil. A primeira coisa que me disse foi 'irmão West, me sinto mal de não ter telefonado. Você tem me ligado tanto, me dado tanto amor, carinho', e não sei mais o quê. Eu disse: 'sei que você anda ocupado'. Mas um mês e meio depois, me encontro com as outras pessoas da campanha, e ele telefona para elas o tempo todo. Pensei 'isso é meio estranho'. Ele não tem tempo, nem dois segundos para dizer 'obrigado', ou 'me alegro de que você esteja torcendo por mim e rezando por mim', mas está ligando para todas essas outras pessoas”.

A análise da personalidade de Obama feita por Cornel West, certa ou errada, é um testemunho das feridas raciais ainda tão nítidas nos EUA: “Eu acho que meu querido irmão Barack Obama tem um certo medo de homens negros livres. É compreensível. Ele se criou num contexto branco, com pai africano brilhante. Ele sempre teve que temer ser um homem branco em pele negra. Tudo o que ele conheceu, culturalmente, é branco. Quando ele encontra um irmão negro independente, isso lhe mete medo. Vale também para um irmão branco. Quando um irmão branco encontra um homem negro livre, independente, ele precisa ser maduro para realmente abraçar o que o irmão lhe está dizendo. Há uma tensão, dada a história. Ela pode ser superada. Obama, vindo da influência de Kansas, com avós brancos, amorosos, do Havaí e da Indonésia, quando ele encontra negros independentes que trazem uma história de escravidão, Jim Crow, Jane Crow e tudo mais, ele fica muito apreensivo. Ele sofre de um certo desenraizamento, de desarraigo.”

O veredito de West sobre os EUA pós-Obama não é nada alentador: “Talvez esta tenha sido a última chance dos EUA lutarem contra a cobiça dos oligarcas de Wall Street e dos plutocratas capitalistas, de gerarem alguma discussão séria sobre o interesse público e o bem comum, que é o que sustenta qualquer experimento democrático. Está indo embora todo o sumo democrático que temos. Mais e mais trabalhados abatidos. Cansados do mundo. Auto-medicados. Culpando-se uns aos outros. Tomando como bode expiatório os mais vulneráveis, ao invés de enfrentarem os mais poderosos. É uma resposta profundamente humana ao pânico e à catástrofe. Eu achava que Barack Obama poderia ter apontado uma saída. Mas ele não tem peito para isso.”

Fonte: http://www.revistaforum.com.br/

O fim do Consenso de Washington e a mudança dos cursos de economia - por Centro de Estudos para a Mudança Social - Página/12

O fim do Consenso de Washington e a mudança dos cursos de economia
Nos cursos de Economia de Universidades como La Plata, Córdoba, Rosario e Buenos Aires ainda se ensinam e se continua aprendendo que a Argentina deveria especializar-se na produção de matérias-primas e importar bens manufaturados, que é imperativo privatizar as empresas públicas e flexibilizar o mercado de trabalho. A análise é da equipe de Economia Política do Centro de Estudos para a Mudança Social e de integrantes do Agrupamento Unidade de Graduados de Economia (UNLP) em artigo para o Página/12.

A formação dos cursos de Economia nas universidades públicas em nosso país exige um debate. Qual tem sido o itinerário das licenciaturas na Economia nos últimos 35 anos? Por que tem sido assim? As coisas mudaram nos últimos dez anos? Irão mudar? Como se sabe, o plano da ditadura civil-militar, instaurado desde 1976 na Argentina abrangeu um vasto leque de objetivos entre os quais se destacam: a destruição da organização operária, a instauração de um modelo econômico liberal rentista e financeiro que abandonou a proteção social e o desaparecimento dos atores políticos que colocavam em questionamento a ordem vigente.

As unidades acadêmicas não foram exceção nisso tudo: muitos professores foram expulsos, perseguidos, assassinados ou desaparecidos, enquanto o currículo foi violentamente alterado. A outrora licenciatura em Economia Política deixou lugar à Economia, seco assim.

Desde então, os currículos foram adaptando-se ao projeto neoliberal e eliminando progressivamente as disciplinas de caráter social e buscando a identificação da Economia como ciência exata. Simultaneamente, se foram suprimindo as escolas de pensamento críticas à visão neoliberal. Separou-se o estudo do pensamento econômico do resto das matérias “práticas”, tais como comércio, desenvolvimento e macroeconomia; desta forma, as frutíferas discussões de toda a história do pensamento econômico se reduziram ao reduto do pensamento heterodoxo como sendo a “verdadeira economia” – as questões práticas passaram a serem estudas exclusivamente a partir do enfoque neoclássico.

Nos anos 90, o programa neoliberal apoiado por um governo constitucional exigiu na academia o aprofundamento da ortodoxia econômica. Foram dez anos de conversibilidade, e, não coincidentemente, uma década de receitas vindas de Washington. Para aumentar o emprego, mercado de trabalho flexível; para melhorar a eficiência dos serviços públicos, privatização da maior parte das empresas estatais; para apoiar a paridade 1-1 se gerou endividamento e dependência do FMI que para emprestar dinheiro exigia que se cumprisse redução dos gastos públicos e redução dos salários e pensões, etc. Estas medidas respondiam ao enfoque que nossas universidades públicas se encarregavam de ensinar e difundir, dissociando seus nefastos efeitos sociais das insuficiências teóricas da teoria dominante (neoclássica).

O ano de 2001 marcou uma reviravolta. Depois de 25 anos, as políticas de ajuste entraram em colapso na Argentina. A esse enredo adicione-se entre 2008-2009, a maior crise do mundo capitalista desde os anos 30 do século passado. Paradoxalmente, a ortodoxia carece de um corpus teórico relevante e consistente para explicar a crise, uma vez que se presume que os mercados são o equilíbrio. O que eles poderiam dizer desses modelos em nosso país, um dos laboratórios mais bem sucedidos em matéria de crise ao longo de seus 200 anos?

O que deveríamos esperar em matéria acadêmica nos últimos dez anos?

Caída em desgraça a partir da crise, a teoria neoclássica apresentou “fichamentos” para abordagens alternativas em vários países do mundo e na América Latina em particular. No entanto, os Planos de Estudo dos cursos de Economia nas universidades do país (com exceção dos cursos que surgiram em algumas universidades da província de Buenos Aires, como por exemplo, a General Sarmiento), continuaram com a visão neoclássica tradicional instaurada a sangue e fogo pela ditadura e reforçadas pelo Consenso de Washington.

Os cursos de Economia de universidades como La Plata, Córdoba, Rosario e Buenos Aires ainda se ensinam e se continua aprendendo que a Argentina deveria "especializar" na produção de matérias-primas e importar bens manufaturados, que é imperativo privatizar as empresas públicas e flexibilizar o "mercado de trabalho. Soa insólito.

Atualmente, a Faculdade de Economia da Universidade Nacional de La Plata está prestes a mudar seus currículos, incluindo a sua licenciatura em Economia. A proposta é reduzir o número de matérias (35-32), em face de matérias optativas quase todas de conteúdo social (História do Pensamento Econômico, História da América Latina) e garantindo a permanência de disciplinas neoclássicas por definição (a chamada “Teoria dos Jogos” e todas as sucessivas microeconomia por conseguinte). Como se observa, espera-se intensificar a formação neoclássica entendida como a "economia real" em detrimento das visões de muitas das outras escolas de pensamento (o keynesianismo, o marxismo, a regulação, o estruturalismo, etc).

A crise internacional e as catástrofes sociais causadas pelas políticas neoliberais em países como Argentina e, mais recentemente, a Grécia e a Espanha, obrigam que este reduto acadêmico mesmo que vinculado aos preceitos que foram o furor há 15 anos que mude. Tanto por reparação histórica, como por necessidade de formar profissionais que incorporem diferentes visões de mundo e da economia política, a licenciatura em Economia deve renunciar à doutrina dogmática e avançar em uma formação que responda às necessidades da sua sociedade.

Tradução: Cepat
(*) Artigo publicado originalmente em português no IHU/Unisinos.
Fonte: Carta Maior

Latuff espalhando sua Arte Revolucionária pelo mundo!



Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

terça-feira, 24 de maio de 2011

Morre aos 97 anos o líder negro Abdias do Nascimento

Morre aos 97 anos o líder negro Abdias do NascimentoMorreu na manhã desta terça-feira, no Rio de Janeiro, o ativista do movimento negro Abdias do Nascimento, 97. Ex-deputado, secretário estadual e senador, Abdias foi também pintor autodidata, escritor, jornalista, poeta e ator.

Ele estava internado desde abril. Ainda não há informação sobre a causa da morte e do horário do enterro.

Sua defesa dos direitos humanos dos afrodescendentes lhe rendeu uma indicação ao Prêmio Nobel da Paz em 2010.

Em março deste ano, esteve entre as lideranças negras convidadas para o encontro com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, no Rio de Janeiro.

Na ocasião, Nascimento afirmou: "a visita do Obama é importantíssima para aprofundar as relações entre o Brasil e os EUA. O fato deles terem eleito um presidente negro é uma lição para o Brasil".

Foi dele a sugestão de instituir, em São Paulo, o Dia da Consciência Negra, comemorado em 20 de novembro desde 2006.

POLÍTICA
Abdias do Nascimento foi o primeiro deputado federal do país a se dedicar à defesa dos direitos dos afro-brasileiros, de acordo com o PDT, sigla que o ativista representou no Congresso. Ele assumiu o cargo em 1983, eleito pelo Rio de Janeiro. Em seu mandato de quatro anos, segundo dados da Ipeafro (Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros), foi de autoria de Nascimento o primeiro projeto de lei de políticas afirmativas da história do Brasil.

O ativista também foi suplente de antropólogo Darcy Ribeiro no Senado e assumiu a cadeira entre 1991 e 1992 e de 1997 a 1999.

Abdias nasceu em 14 de março de 1914 na cidade de Franca, localizada no interior de São Paulo, a 400 km da capital. Filho de uma doceira e de um sapateiro, viveu a maior parte da vida no Rio de Janeiro, onde se formou em economia.

Começou a militar na década de 30, quando ingressou na Frente Negra Brasileira. Em uma viagem pela América do Sul com um grupo de poetas, assistiu a um espetáculo onde um ator branco pintava o rosto para interpretar um negro.

O episódio marcou Abdias e o levou a fundar o Teatro Experimental do Negro, em 1994, após ter cumprido pena na penitenciária do Carandiruo, preso pelo governo de Getúlio Vargas por resistir a agressões racistas.

O Teatro Experimental do Negro formou a primeira geração de atores e atrizes afrodescendentes do Brasil, e também contribuiu para a criação da literurgia dramática afro-brasileira.

Abdias se encontrava nos Estados Unidos quando o regime militar promulgou o Ato Institucional nº 5 e, por causa de diversos inquéritos policiais dos quais era alvo, foi impedido de retornar ao Brasil.

Seu exílio durou 12 anos.
Além do Teatro Experimental do Negro, o legado de Abdias inclui também o Ipeafro, fundado por ele em 1981, o jornal "Quilombo", criado em 1968 e mais de 20 livros publicados durante várias décadas.

Além da indicação ao Prêmio Nobel da paz, Abdias recebeu honrarias dos Estados Unidos, Nigéria, México, Unesco e ONU. No Brasil, recebeu das mãos do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Ordem do Rio Branco, no grau de Comendador --a honraria mais alta outorgada pelo governo brasileiro.
Fonte: UOL

Cineasta Silvio Tendler lança o livro “Quatro baianos porretas” - por Gabriela Moncau

Cineasta Silvio Tendler lança o livro “Quatro baianos porretas”Castro Alves, Milton Santos, Glauber Rocha e Carlos Marighella. Um poeta, um cientista, um cineasta e um guerrilheiro. Existe conexão entre esses importantes nomes da história brasileira, além de terem a Bahia como estado natal? Silvio Tendler, um dos grandes documentaristas do país que lançou recentemente “Utopia e Barbárie” (2010) acredita que sim. Conhecido como “o cineasta dos sonhos interrompidos”, dentre a sua extensa produção cinematográfica de cerca de 40 filmes entre curtas, médias e longas-metragens, Tendler dirigiu em diferentes momentos documentários que retratam a vida desses quatro baianos ilustres, ou porretas, como os caracteriza o próprio cineasta: “Castro Alves: o retrato falado do poeta” (1999), “Marighella: retrato falado do guerrilheiro” (2000), “Glauber, o filme: labirinto do Brasil” (2003), “Encontro com Milton Santos: o mundo global visto do lado de cá” (2007).

Não por acaso, agora o diretor está lançando um livro reunindo os roteiros integrais desses quatro filmes: “A matriz é Castro Alves. Glauber, Milton e Marighella eram castroalvistas. Todos admiradores do poeta, seus versos românticos e a verve revolucionária. Cada um deles foi Castro Alves, seja no cinema, na política ou na geografia, todos geniais”, explica Tendler. O livro, “Quatro baianos porretas”, está sendo lançado pela Editora Garamond e Editora PUC-RIO, junto com os quatro DVDs.

Castro Alves salta do século XIX em reconstrução documental. Pela ausência de imagens, Tendler lhe deu vida em um manifesto. Em “Marighella”, é a força libertária resistindo aos anos de chumbo que nos chama a refletir. Entre a realidade e o universo onírico, Glauber Rocha impôs aos brasileiros que era a hora e a vez do Terceiro Mundo. Este é o mesmo pensar de “Encontro com Milton Santos”. No momento em que o mundo aclamava a globalização neoliberal, Santos não se opôs pela negação, mas pela elaboração crítica sob os olhos de um mundo de exclusão.

O cineasta revela que na publicação do roteiro desses filmes vai um bom pedaço de sua vida, seus sonhos. “Eles representam o que sinto de uma vida revolucionária no mais amplo sentido do termo, seja no território de ação como a arte, a política ou a ciência e também nas atitudes de vida que os quatro sempre tiveram”, relata.

Ao final do livro, em uma longa entrevista que Tendler concede a Miguel Pereira, quando questionado a respeito do compromisso político do documentarista, diz que não é algo que ele obrigatoriamente tem que ter, mas que no seu trabalho não consegue ver a arte dissociada da política. “Gosto de interferir no mundo em que vivo. Contando histórias, formo consciências e como cineasta exerço minha cidadania. Meus modelos são artistas militantes, Boal e Thiago de Mello, por exemplo. Meu cinema é assim”, salienta para a Caros Amigos. Lembra também do conceito de “câmera militante” do documentarista Carlos Pronzato, “viajante solitário munido de uma pequena câmera, viaja buscando histórias como um navegador que vai desbravando territórios até então desconhecidos. Revelador no mais amplo sentido do termo, Pronzato é um companheiro da utopia”, conta.

No prefácio do livro, Orlando Senna brinca que muitas das ideias audiovisuais de Tendler ficam um tempo em maturação e quando menos se espera são lançadas, como julga ter acontecido com “Utopia e Barbárie”. Cita que um dos projetos que está em planejamento é o “Santiago de las Américas”, a respeito do cineasta cubano Santiago Álvarez. Se será seu próximo filme, no entanto, permaneceremos na curiosidade apesar de Silvio Tendler ter afirmado que pretende terminar o filme logo, “sem dúvidas”, mas faz uma confissão ao não elencar quais serão os próximos projetos: “Atualmente são tantos que me recuso a nomear todos para não correr o risco de ser chamado de mentiroso. Sonhador, sim”.

Fonte: http://www.fazendomedia.com/

Enquanto isso, naquela empresa mafiomidiática…


Fonte: http://pranchetadagrafar.blogspot.com/

O novo código da Morte!

O novo código da Morte!Novamente a sede destrutiva do Capital Corporativo grava seus dentes da Morte em nossas Matas e Florestas, isso é claro com o apoio total dos Políticos mercenários e ladrões que assolam Brasília.Em pleno século XXI para o desespero de muitos eles novamente miram para as Matas atrás de mais lucros e dividendos para suas Companhias da Morte.

Com todo apelo universal que pede pelo fim do desmatamento nós aqui no Brasil aparados por uma classe políticas nefasta e corrupta o incentivamos ainda mais, e para ajudar ainda mais nossa desgraça anunciada temos um Mídia corrupta que se utiliza da insensatez para sempre deixar as coisas como estão, ou seja, ao poderosos e destruidores da Nação tudo.Chega!
- Latifundiários!
- Mineradoras!
- Grilagem!
- Pecuária!
- Monocultura!

* charges retiradas da rede!

[Portugal] Crônica da Feira do Livro Anarquista de Lisboa - por ANA

[Portugal] Crônica da Feira do Livro Anarquista de Lisboa
De 20 a 22 de maio aconteceu nas dependências da Barbuda a 4ª edição da Feira do Livro Anarquista de Lisboa. Para além da divulgação das idéias anarquistas a partir dos livros e das publicações ali presentes, cumpriu o objetivo de levar a debate idéias e análises sobre questões “que assaltam a vida em tempos de guerra social” tal como é referido no manifesto de apresentação da Feira.

A noite de sexta-feira (20), lua cheia à vista e com cheirinho de verão, convidou a ocupar a praça, e assim, ao redobrado prazer de rever o/as companheiro/as juntou-se o relato do mês de ocupação da “ES.COL.A” através de dois interventores, da desocupação violenta de que foram alvo, da luta que continua. A 10 de maio, no Porto, a antiga escola do Alto da Fontinha, ocupada um mês antes, após cinco anos de desativação, foi violentamente desocupada e com sete ocupantes detidos. Um projeto educativo para as crianças do bairro estava a ser implementado no momento. Uma iniciativa antiautoritária que incomodou o poder. Esse seria aliás o único motivo que poderia levar a que um edifício abandonado e totalmente degradado durante tanto tempo ao ser recuperado e posto à serviço da comunidade fosse violentamente desocupado e emparedado. Neste momento luta-se. E foi essa forma de luta que levantou mais questões... mas também a constatação de como durante um mês foi uma fonte de inspiração, um exemplo de autonomia e de luta contra a gentrificação.

Gentrificação. Este foi um tema presente ao longo dos três dias do evento, especialmente no domingo, através da exibição do excelente documentário “Império St. Pauli”, que aborda os vários aspectos da gentrificação e as formas de luta adotadas contra ela, num bairro de Hamburgo, na Alemanha.

No sábado (21) foi abordado o tema do “Desenvolvimento” através dos seus efeitos nefastos, caso do TGV (Trem de Alta Velocidade), ou da gentrificação resultante de outros planos, particularmente nas cidades. Um debate a continuar, já que as formas de travar esse desenvolvimento e de se passar ao ataque são vários.

As recentes manifestações massivas de descontentamento nas ruas, na Espanha e em Portugal, convocadas por diversos movimentos sociais, foram alvo de atenção e motivo de discussões múltiplas no domingo (22). Refletiu-se, em seguida, sobre os caminhos que poderão levar a uma ruptura com o Estado e com a economia, procurando os pontos de confluência entre eles.

A repressão policial no 1º Maio anticapitalista e anti-autoritário de Setubal suscitou, como seria de esperar, uma análise viva e amplamente participativa que abordou, entre outras coisas, as questões da comunicação e da intervenção social anarquista assim como a luta contra toda a autoridade. Em particular o fascismo, travestido ele de que forma estiver.

Foi dado destaque ao recrudescimento dos ataques da extrema-direita em toda a Europa, seja pela cobertura dada pela polícia, em muitos casos, seja devido à conjuntura econômica, pois potencia o recrudescimento da xenofobia. Em particular, o caso da Grécia, tendo sido transmitido o apelo à solidariedade internacional feito por companheiro/as gregos em luta contra uma brutal repressão estatal e a perseguição dos imigrantes. Neonazis, juntamente com a polícia, têm vindo a atacar okupas do centro de Atenas, levando companheiro/as a uma situação em que é preciso defendê-los contra o perigo de perder a própria vida, contra a brutalidade policial e a barbárie fascista Também o número de imigrantes assassinados tem vindo a aumentar. Neste ano e nos dias que se seguiram à greve geral de 11 de maio dezenas de imigrantes foram seriamente feridos e um imigrante foi morto, em pogrons (linchamentos) realizados em vários bairros da capital grega.

A saborosa comida vegan, os momentos de poesia surrealista, a simpatia do coletivo que nos acolheu, os livros e revistas que nos animam ali tão perto, os exemplos de luta e de resistência, ficarão na memória de todo/as. As afinidades que resultam, a compreensão de outros pontos de vista, o reforço da auto-organização, a quebra do isolamento, a alegria de sermos mais e mais a cada ano que passa, a descoberta, a criatividade, a desmontagem do machismo ainda presente, constituem recordações já, motivos redobrados para se começar a pensar na próxima edição desta outra forma de luta. Anarquista.

Emília Cerqueira

agência de notícias anarquistas-ana
Um chapéu de chuva
flutua no horizonte;
pela tarde cai a neve.

Yaha

segunda-feira, 23 de maio de 2011

"O cinema de Guy Debord" - Giorgio Agamben

"O cinema de Guy Debord" - Giorgio AgambenO meu intuito é o de aqui definir certos aspectos da poética, ou melhor, da técnica composicional de Guy Debord no domínio do cinema. Evito voluntariamente a expressão “obra cinematográfica”, nominação que ele próprio rejeitou e que se pudesse utilizar a seu propósito. “Considerando a história da minha vida, escreveu ele em In girum imus nocte et consumimur igni [1978], não podia fazer aquilo a que se chama uma obra cinematográfica”. De resto, não apenas penso que o conceito de obra não é útil no caso de Debord, como sobretudo me pergunto se hoje, cada vez que se quer analisar aquilo a que se chama de obra, quer seja literária, cinematográfica ou outra, não seria necessário colocar em questão o seu próprio estatuto. Em vez de interrogar a obra enquanto tal, penso que é preciso perguntar que relação existe entre o que se podia fazer e o que foi feito. Uma vez, como estava tentado (e ainda estou) a considerá-lo um filósofo, Debord disse-me: “Não sou um filósofo, sou um estrategista”. Ele viu o seu tempo como uma guerra incessante em que toda a sua vida estava empenhada numa estratégia. É por isso que penso ser preciso interrogar-nos sobre o sentido do cinema nessa estratégia. Porquê o cinema e não, por exemplo, a poesia, como o foi no caso de Isou, que tinha sido tão importante para os situacionistas, ou porquê não a pintura, como para um dos seus amigos, Asger Jorn?

Creio que isso se deve à ligação estreita que existe entre o cinema e a história. De onde vem essa ligação, e de que história se trata?

Tal deve-se à função específica da imagem e ao seu carácter eminentemente histórico. É preciso especificar aqui alguns detalhes importantes. O homem é o único animal que se interessa às imagens enquanto tais. Os animais interessam-se bastante pelas imagens, mas na medida em que são enganados por elas. Podemos mostrar a um peixe a imagem de uma fêmea, ele irá ejectar o seu esperma; ou mostrar a um pássaro a imagem de outro pássaro para o capturar, e ele será enganado. Mas quando o animal se dá conta que se trata de uma imagem, desinteressa-se totalmente. Ora, o homem é um animal que se interessa pelas imagens uma vez que as tenha reconhecido enquanto tais. É por isso que se interessa pela pintura e vai ao cinema. Uma definição do homem, do nosso ponto de vista específico, poderia ser que o homem é o animal que vai ao cinema. Ele interessa-se pelas imagens uma vez que tenha reconhecido que não se tratam de seres verdadeiros. Um outro aspecto é que, como mostrou Gilles Deleuze, a imagem no cinema (e não apenas no cinema, mas nos Tempos modernos em geral) já não é algo de imóvel, já não é um arquétipo, quer dizer, algo fora da história: é um corte ele próprio móvel, uma imagem-movimento, carregada enquanto tal de uma tensão dinâmica. É essa carga dinâmica que se vê muito bem na fotos de Marey e de Muybridge que estão na origem do cinema, imagens carregadas de movimento. É uma carga deste gênero que via Benjamin naquilo a que chamava uma imagem dialéctica, que era para ele o próprio elemento da experiência histórica. A experiência histórica faz-se pela imagem, e as imagens estão elas próprias carregadas de história. Poderíamos considerar a nossa relação à pintura sob este aspecto: não se trata de imagens imóveis, mas antes de fotogramas carregados de movimento que provêem de um filme que nos falta. Era preciso restituí-las a esse filme (vocês terão reconhecido o projeto de Aby Warburg).

Mas de que história se trata? É preciso esclarecer que não se trata aqui de uma história cronológica, mas a bem dizer de uma história messiânica. A história messiânica define-se antes de mais nada por dois caracteres. É uma história da Salvação, é preciso salvar alguma coisa. E é uma história última, é uma história escatológica, em que alguma coisa deve ser consumada, julgada, deve passar-se aqui, mas num tempo outro, deve, portanto, subtrair-se à cronologia, sem sair para um exterior. É essa a razão pela qual a história messiânica é incalculável. Na tradição judaica há toda uma ironia do cálculo, os rabinos faziam cálculos muito complicados para prever o dia da chegada do Messias, mas não paravam de repetir que se tratavam de cálculos proibidos, pois a chegada do Messias é incalculável. Mas, ao mesmo tempo, cada momento histórico é aquele da sua chegada, o Messias é sempre já chegado, está sempre já aí. Cada momento, cada imagem está carregada de história, porque ela é a pequena porta pela qual o Messias entra. É esta situação messiânica do cinema que Debord partilha com o Godard das Histoire(s) du cinéma. Apesar da sua antiga rivalidade – Debord disse em 68 de Godard que ele era o mais tolo de todos os Suíços pró-chineses –, Godard reencontrou o mesmo paradigma que Debord tinha sido o primeiro a traçar. Qual é esse paradigma, qual é essa técnica de composição? Serge Daney, acerca das Histoire(s) de Godard, explicou que era a montagem: “O cinema procurava uma coisa, a montagem, e era dessa coisa que o homem do século XX tinha uma necessidade terrível”. É o que mostra Godard nas Histoire(s) du cinéma.O carácter mais próprio do cinema é a montagem. Mas o que é a montagem, ou antes, quais são as condições de possibilidade da montagem? Em filosofia, depois de Kant, chama-se às condições de possibilidade de alguma coisa os transcendentais. Quais são então os transcendentais da montagem? Existem duas condições transcendentais da montagem, a repetição e a paragem. Isto, Debord não o inventou, mas fê-lo vir à luz, exibiu estes transcendentais enquanto tais. E Godard fará o mesmo nas suas Histoire(s). Já não temos necessidade de filmar, basta-nos repetir e parar. Esta é uma nova forma epocal por relação à história do cinema. Este fenômeno espantou-me bastante em Locarno em 1995. A técnica composicional não mudou, é ainda a montagem, mas agora a montagem passa para primeiro plano, e mostra-se enquanto tal. É por isto que se pode considerar que o cinema entra numa zona de indiferença em que todos os gêneros tendem a coincidir; o documentário e a narração, a realidade e a ficção. Faz-se cinema a partir das imagens do cinema.

Mas voltemos às condições de possibilidade do cinema, a repetição e a paragem. O que é uma repetição? Há na Modernidade quatro grandes pensadores da repetição: Kierkegaard, Nietzsche, Heidegger e Gilles Deleuze. Os quatro mostraram-nos que a repetição não é o retorno do idêntico, do mesmo enquanto tal que retorna. A força e a graça da repetição, a novidade que traz, é o retorno em possibilidade daquilo que foi. A repetição restitui a possibilidade daquilo que foi, torna-o de novo possível. Repetir uma coisa é torná-la de novo possível. É aí que reside a proximidade entre a repetição e a memória. Dado que a memória não pode também ela devolver-nos tal qual aquilo que foi. Seria o inferno. A memória restitui ao passado a sua possibilidade. É o sentido desta experiência teológica que Benjamin via na memória, quando dizia que a recordação faz do inacabado um acabado, e do acabado um inacabado. A memória é, por assim dizer, o órgão de modalização do real, aquilo que pode transformar o real em possível e o possível em real. Ora, se pensarmos nisso, trata-se também da definição do cinema. Não faz o cinema sempre isso, transformar o real em possível, e o possível em real? Podemos definir o já visto como o fato de “perceber algo do presente como se já tivesse sido”, e o inverso, o fato de perceber como presente algo que já foi. O cinema tem lugar nessa zona de indiferença. Compreendemos então porque o trabalho com imagens pode ter uma tal importância histórica e messiânica, pois é uma forma de projetar a potência e a possibilidade em direção ao que é por definição impossível, em direção ao passado. O cinema faz então o contrário do que fazem as mídias. As mídias dão-nos sempre o fato, o que foi, sem a sua possibilidade, sem a sua potência, dão-nos portanto um fato sobre o qual somos impotentes. As mídias adoram o cidadão indignado mas impotente. É o mesmo objetivo do telejornal. É a má memória, a que produz o homem do ressentimento.

Ao colocar a repetição no centro da sua técnica composicional, Debord torna de novo possível aquilo que nos mostra, ou melhor, abre uma zona de indecidibilidade entre o real e o possível. Quando mostra um trecho do telejornal, a força da repetição é tal que deixa de ser um fato consumado, e volta a ser, por assim dizer, possível. Nos perguntamos: “Como isto foi possível?” – primeira reação –, mas ao mesmo tempo compreendemos que sim, tudo é possível, mesmo o horror que nos fazem ver. Hannah Arendt definiu um dia a experiência final dos campos como o princípio do “tudo é possível”. É também nesse sentido extremo que a repetição restitui a possibilidade.O segundo elemento, a segunda condição transcendental do cinema é a paragem. É o poder de interromper, a “interrupção revolucionária” de que falava Benjamin. É muito importante no cinema, mas, mais uma vez, não apenas no cinema. É o que faz a diferença entre o cinema e a narração, a prosa narrativa, com a qual se tem tendência a comparar o cinema. A paragem mostra-nos, pelo contrário, que o cinema está muito mais próximo da poesia que da prosa. Os teóricos da literatura sempre tiveram bastante dificuldades em definir a diferença entre a prosa e a poesia. Muitos elementos que caracterizam a poesia podem dar-se na prosa (que, por exemplo, do ponto de vista do número de sílabas, pode conter versos). A única coisa que se pode fazer na poesia e não na prosa são os enjambements e as cesuras. O poeta pode opor um limite sonoro, métrico, a um limite sintático. Não se trata apenas de uma pausa, mas de uma não-coincidência, uma disjunção entre o som e o sentido. Por isso Valéry pôde uma vez dar ao poema esta definição tão bela: “O poema, uma hesitação prolongada entre o som e o sentido”. É também por isso que Hölderlin pôde dizer que a cesura, ao parar o ritmo e o desenrolar das palavras e das representações, faz aparecer a palavra e a representação enquanto tais. Parar a palavra é subtraí-la do fluxo do sentido para a exibir enquanto tal. Poderíamos dizer a mesma coisa da paragem tal como Debord a pratica, enquanto constitutiva de uma condição transcendental da montagem. Poderíamos retomar a definição de Valéry e dizer do cinema, pelo menos de um certo cinema, que é uma hesitação prolongada entre a imagem e o sentido. Não se trata de uma paragem no sentido de uma pausa, cronológica, mas antes de uma potência de paragem que trabalha a própria imagem, que a subtrai do poder narrativo para a expor enquanto tal. É neste sentido que Debord nos seus filmes e Godard nas suas Histoire(s) trabalham com essa potência da paragem.

Estas duas condições transcendentais não podem nunca estar separadas, elas formam un sistema conjuntamente. No último filme de Debord há um texto muito importante logo no início: “Mostrei que o cinema se pode reduzir à esta tela branca, e à esta tela preta”. O que Debord entende por isto é precisamente a repetição e a paragem, indissolúveis enquanto condições transcendentais da montagem. O preto e o branco, o fundo em que as imagens estão tão presentes que nem as conseguimos ver, e o vazio em que não há imagem alguma. Existem aqui analogias com o trabalho teórico de Debord. Se tomarmos, por exemplo, o conceito de “situação construída” que deu nome ao situacionismo, uma situação é uma zona de indecidibilidade, de indiferença entre uma unicidade e uma repetição. Quando Debord diz que é preciso construir situações trata-se sempre de algo que se pode repetir e também algo de único.

Debord o menciona ainda no final de In girum imus nocte et consumimur igni, quando, em vez da tradicional palavra “Fim”, aparece a frase: “A retomar do início”. Há aqui igualmente o princípio que trabalha no próprio título do filme, que é um palíndromo, uma frase que se volta nela mesma. Neste sentido, há uma palindromia essencial no cinema de Debord.

Juntas, a repetição e a paragem realizam a tarefa messiânica do cinema de que falávamos. Esta tarefa tem essencialmente a ver com a criação. Mas não é uma nova criação depois da primeira. Não se deve considerar o trabalho do artista unicamente em termos de criação: pelo contrário, no fundo de cada ato de criação há um ato de des-criação. Deleuze disse um dia, acerca do cinema, que cada ato de criação é sempre um ato de resistência [O Ato de Criação por Gilles Deleuze]. Mas o que significa resistir? É antes de mais nada ter a força de des-criar o que existe, des-criar o real, ser mais forte que o fato que aí está. Todo ato de criação é também um ato de pensamento, e um ato de pensamento é um ato criativo, pois o pensamento define-se antes de tudo pela sua capacidade de des-criar o real.

Se esta é a tarefa do cinema, o que é uma imagem que foi assim trabalhada pelas potências da repetição e da paragem? O que muda no estatuto da imagem? É preciso repensar aqui toda a nossa concepção tradicional da expressão. A concepção corrente da expressão é dominada pelo modelo hegeliano segundo o qual toda a expressão se realiza numa mídia quer seja uma imagem, uma palavra ou uma cor, que no fim deve desaparecer na expressão acabada. O ato expressivo é consumado quando o meio, a mídia, já não é percebida enquanto tal. É preciso que a mídia desapareça no que nos dá a ver, no absoluto em que se mostra, que nele resplandece. Pelo contrário, a imagem que foi trabalhada pela repetição e pela paragem é um meio, uma mídia que não desaparece no que nos dá a ver. É o que eu chamaria de “meio puro”, que se mostra enquanto tal. A imagem dá-se a ver ela própria em vez de desaparecer no que nos dá a ver. Os historiadores do cinema assinalaram como uma novidade desconcertante o fato de que, em Monika de Bergman (1952), a protagonista, Harriet Andersson, fixa de repente o seu olhar na objetiva da câmara. O próprio Bergman escreveu a propósito desta sequência: “Aqui e pela primeira vez na história do cinema estabelece-se de súbito um contato direto com o espectador”. Desde então, a fotografia e a publicidade banalizaram este procedimento. Estamos habituados ao olhar da estrela de pornô que, enquanto faz aquilo que tem a fazer, olha fixamente a câmara, mostrando assim que se interessa mais pelos espectadores do que pelo seu partner.

Desde os seus primeiros filmes e de forma cada vez mais clara, Debord mostra-nos a imagem enquanto tal, isto é, e segundo um dos princípios teóricos fundamentais de A sociedade do Espetáculo, enquanto zona de indecidibilidade entre o verdadeiro e o falso. Mas existem duas maneiras de mostrar uma imagem. A imagem exposta enquanto tal já não é imagem de nada, é ela própria sem imagem. A única coisa da qual não se pode fazer imagem é, por assim dizer, ser imagem da imagem. O signo pode significar tudo, exceto o fato de estar a significar. Wittgenstein dizia que o que não se pode significar, ou dizer num discurso, o que é de alguma forma indizível, isso mostra-se no discurso. Existem duas formas de mostrar essa relação com o “sem-imagem”, duas formas de fazer ver o que já não há nada para ver. Uma é o pornô e a publicidade, que fazem como se houvesse sempre o que ver, ainda e sempre imagens por detrás das imagens; a outra a que, nessa imagem exposta enquanto imagem, deixa aparecer esse “sem-imagem”, o que é, como dizia Benjamin, o refúgio de toda a imagem. É nesta diferença que se articulam toda a ética e toda a política do cinema.

(Giorgio Agamben, «Le cinéma de Guy Debord» (1995), in Image et mémoire, Hoëbeke, 1998, pp. 65-76.)
Fonte: http://epifenomenos.blogspot.com/

Protesto anti-G8 na França - por ANA

Protesto anti-G8 na França
Milhares de pessoas participaram neste sábado (21 de maio) na cidade portuária de Le Havre, de uma passeata contra a cúpula do G8 (grupo composto por Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Rússia, Alemanha, Japão, Itália e Canadá) que será realizada nos dias 26 e 27 de maio em Deauville, balneário luxuoso do noroeste francês.

Diversas organizações convocaram a manifestação, que percorreu as ruas centrais da cidade. Os protestantes carregavam muitas faixas, cartazes, bandeiras, panfletos e não paravam de gritar palavras de ordem contra o G8.

No final da passeata um grupo de anarquistas atacou com pedras e paus alguns estabelecimentos bancários e fizeram pichações anticapitalistas.

As autoridades francesas mobilizaram um forte dispositivo policial por causa da manifestação, a primeira organizada na França contra a cúpula. Outros protestos estão sendo organizados para os próximos dias.

Mais de 12 mil homens serão mobilizados para proteger presidentes e chefes de governo que participarão da cúpula do G8 e evitar o acesso a uma área do centro de Deauville. Quarenta helicópteros das forças armadas e da defesa civil estarão disponíveis na área, assim como aviões teleguiados para vigiar a partir do céu e uma dezena de veículos blindados, navios de guerra e lanchas rápidas e duas baterias de mísseis terra-ar, posicionadas em locais estratégicos da cidade, que também terá o espaço aéreo fechado durante a cúpula.

agência de notícias anarquistas-ana
a borboleta
pousa sobre o sino do templo
adormecido

Buson