quarta-feira, 24 de agosto de 2011

As aventuras do Eduardo Paetinhas - por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Como mudar o mundo, novo livro de Hobsbawm - por Fernando Bogado - Página/12

Como mudar o mundo, novo livro de Hobsbawm
Após se sentir parte da geração com a qual se extinguiria o marxismo da vida política e intelectual do ocidente, as crises financeiras, a espiral conflitiva do capitalismo e as mudanças na América Latina deram a Eric Hobsbawm, aos 94 anos, a alegria de voltar a Marx. Em seu novo livro, que tem o sugestivo título "Como mudar o mundo", o historiador refuta com sua habitual lucidez as más interpretações, arquiva os preceitos que envelheceram e utiliza as ferramentas oferecidas pelo autor de "O Capital" para entender o mundo no século XXI e fazê-lo um lugar melhor.

Aos 94 anos, depois de publicar suas extraordinárias memórias (Tempos Interessantes), o grande historiador inglês Eric Hobsbawm – que dedicou sua vida à análise e explicação da era moderna, desde a Revolução Francesa até os estertores do século XX – tinha um livro a mais para escrever: Como mudar o mundo. Após se sentir parte da geração com a qual se extinguiria o marxismo da vida política e intelectual do ocidente, as crises financeiras, a espiral conflitiva do capitalismo e as mudanças na América Latina lhe deram a alegria de voltar ao seu querido Marx. No livro, refuta com sua habitual lucidez as más interpretações, arquiva os preceitos que envelheceram e utiliza as ferramentas oferecidas pelo autor de O Capital para entender o mundo no século XXI e fazê-lo um lugar melhor.

Imaginem a cena: Eric Hobsbawm, reconhecido historiador inglês de corte marxista, e George Soros, uma das mentes financeiras mais importantes do mundo, encontram-se para um jantar. Soros, talvez para iniciar a conversa, talvez com o objetivo de continuar alguma outra, pergunta a Hobsbawm sobre a opinião que este tem de Marx. Hobsbawm escolhe dar uma resposta ambígua para evitar o conflito, e respondendo em parte a esse culto à reflexão antes que ao confronto direto que caracteriza seus trabalhos. Soros, ao contrário, é conclusivo: “Há 150 anos esse homem descobriu algo sobre o capitalismo que devemos levar em conta”.

A estória parece quase seguir a estrutura de uma piada (“Soros e Hobsbawm se encontram em um bar...”), mas é o melhor exemplo que o historiador inglês encontra para mostrar, no começo do seu livro, essa ideia que está pairando no ar há tempos: o legado filosófico de Karl Marx (1818-1883) está longe de ter se esgotado e, muito pelo contrário, as publicações especializadas da atualidade, o discurso político cotidiano, a organização social de qualquer país não fazem outra coisa que invocar o seu fantasma para lidar com esse angustiante problema que tomou o nome histórico de “capitalismo”.

No livro, recentemente publicado em castelhano, que leva o sugestivo título Como mudar o mundo, Hobsbawm volta a oferecer seu indiscutível talento para colocar as proposições daquele filósofo alemão que seguem tendo uma vigência definidora para construir o presente.

Repassemos antes a presunção de morte que se pendurou no pescoço de Marx durante o último quartel do século XX: a crise do petróleo de 1973 desencadeou um processo político e econômico que organizou o que Hobsbawm qualificou como reductio ad absurdum das tendências da economia de mercado. A situação provocou o surgimento de governos conservadores nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha (com Ronald Reagan e Margaret Thatcher à frente de seus países), ao mesmo tempo que implicou em diversos territórios a implantação de economias de claro corte financeiro, situação que na América Latina trouxe aparelhado o surgimento de governos de fato que impuseram este tipo de organização pela força, suplantando as estratégias de desenvolvimento industrial e substituição das importações por facilidades para os capitais andorinha, a especulação e a desestruturação das organizações sindicais (somados, é claro, às estratégias de repressão dispostas há muito tempo antes dos golpes, como mostra a história nacional).

Aquela série de mudanças culminou com a queda do Muro de Berlim e do bloco soviético em 1989-1991: a URSS não podia resistir muito mais tempo com sua particular versão do marxismo e sua economia planejada. Francis Fukuyama, pensador norte-americano de corte neoliberal, se apropriou de algumas noções da filosofia hegeliana para dar a sentença final acerca desta sucessão de acontecimentos: estávamos diante do “fim da História”, o desaparecimento do mundo organizado em blocos opostos que havia marcado o destino de tudo o que conhecemos desde o final da Segunda Guerra Mundial em diante.

É neste panorama conciliador da economia globalizada e aparente pacificação social que, ao longo da década de 1990, todo o mundo deu por enterrado o pensamento marxista, inclusive, com certas justificativas de índole éticas: o nome de Karl Marx sempre vinha acompanhado de Joseph Stalin, entre muitos outros. Marx não era apenas uma má palavra para um guru econômico, mas também para um cidadão das zonas mais pobres da Rússia, que via com prazer a forma como caíam as estátuas de Lênin, Stalin e do próprio Marx.

Quem teria dito então que veríamos uma foto de Sarkozy lendo O Capital e o papa Bento XVI elogiando a capacidade analítica de seu autor?

Entre 2007 e 2009 (2001, para nós), uma série de crises do sistema capitalista financeiro (ou “capitalismo tardio” tal como o identificaram pensadores como Frederic Jameson ou Jürgen Habermas), demonstraram que o que se pensou como o começo de uma era de tranquilidade em termos políticos, sociais e, sobretudo, econômicos para depois de 1989, na verdade não era nada disso. O mercado entregue pura e exclusivamente à “mão invisível” de Adam Smith, amparado pela domesticação do Estado, começou a trincar sem necessidade de conflito com outro sistema econômico-político.

A revolução não é um sonho eterno
Disse-o muito bem a Times após a queda financeira de 2008: “Voltou”. Quem? Marx. Três anos depois, o panorama não melhorou e neste clima pouco promissor, muitos revisam sua figura para recuperar o que foi que disse e o que se pode extrair de sua análise com o objetivo de superar a crise que afeta por estes dias as principais economias do mundo globalizado (basta revisar como começamos cada semana com uma nova “segunda-feira negra”, por não somar mais dias ao calendário).

Aos 94 anos, Hobsbawm observa acertadamente que Marx havia sentenciado qual seria o destino do capitalismo ao seguir a linha que em meados do século XIX insinuava com perfeita clareza: a concentração do capital em poucas mãos produziria um mundo onde apenas um número muito pequeno de pessoas teria o maior número de riquezas, ao passo que o sistema não poderia seguir o ritmo de seu próprio crescimento desproporcionado. A quantidade de riquezas produzidas e o contínuo aumento da população não permitiriam o desenvolvimento igualitário de todos os indivíduos, ao que se somava o fato de que o ritmo de crises cíclicas acabaria aumentando com o tempo até chegar ao ponto da inevitável queda do sistema.

Em 2002, o economista indiano Meghnad Desai já anunciava em um trabalho, “A vingança de Marx”, onde afirmava que muitos acreditaram que o pensamento do alemão se extinguiria com a queda dos estados socialistas, mas as teses e observações realizadas nos trabalhos iniciais vão muito além desses 70 anos de governos comunistas que constituíram apenas um “episódio” da virada para o socialismo: os marxismos não ofuscam as observações de Marx, e é esse núcleo básico que é preciso voltar a ler.

Hobsbawm concorda com Desai: uma coisa são os trabalhos originais e outra a maneira como esses livros (com seus avatares particulares, suas más traduções ou suas publicações tardias) formaram escolas ao longo de todo o mundo. Essa história da escola marxista é a que terminou com a queda do Muro, e não a força política e filosófica das primeiras explicações. Este renascer de Marx é o que entusiasma agora um Hobsbawm que se apresentava um tanto decepcionado com a ideia de que, durante a década de 1980 até finais de 2000, o “mundo marxista ficou reduzido a pouco mais que um conjunto de ideias de um corpo de sobreviventes anciãos e de média idade que lentamente se ia erodindo”.

Quais são essas ideias? Que coisas de Marx é preciso conservar? Em primeiro lugar, a natureza política de seu pensamento. Para ele, mudar o mundo é o mesmo que interpretá-lo (parafraseando uma das míticas “Teses de Feuerbach”); Hobsbawm considera que há um temor político em vários marxistas de se verem comprometidos com uma causa, sabendo de antemão que para entrar na leitura de Marx teve que haver primeiro um desejo de tipo político: a intenção de mudar o mundo.

Em segundo lugar, a grande descoberta científica de Marx, a mais-valia, também tem lugar neste ensaio histórico de erro e acerto. Reconhecer que há parte do salário do operário que o capitalista conserva para si com o objetivo de aumentar os lucros, com a passagem do tempo é encontrar a prova de uma opressão histórica, o primeiro passo para chegar a uma verdadeira sociedade sem classes, sem oprimidos. Os operários estão conscientes dessa injustiça e só mediante uma organização política coerente poderão “dar uma reviravolta”. Ao contrário do que acreditavam os gurus da globalização, nem os operários nem o Estado são conceitos em desuso: Hobsbawm esclarece que “os movimentos operários continuam existindo porque o Estado-nação não está em vias de extinção”.

Por último, a existência de uma economia globalizada demonstra aquilo que Marx reconheceu como a capacidade destruidora do capitalismo, mais um problema a resolver que um sistema histórico definitivo. Hobsbawm chama a atenção, a partir do filósofo alemão, para essa “irresistível dinâmica global do desenvolvimento econômico capitalista e sua capacidade de destruir todo o anterior, incluindo também aqueles aspectos da herança do passado humano dos quais o capitalismo se beneficiou, como, por exemplo, as estruturas familiares”. O capitalismo é selvagem por natureza e seu final – ao menos, o final da ideia clássica de capitalismo – é evidente para qualquer pessoa no mundo.

É muito difícil dizer que da análise de Marx se possa tirar um plano de ação “à prova de bala”. A teoria marxista clássica falou muito pouco sobre modelos de Estado ou do que aconteceria uma vez instalada a revolução, mas muito sobre análise econômica: pensando o que acontece é que se pode saber como agir. O que Marx deu foram ferramentas, não receitas dogmáticas. Como bem disse Hobsbawm, os livros de Marx “não formam um corpus acabado, mas são, como todo pensamento que merece este nome, um interminável trabalho em curso. Ninguém vai convertê-lo em dogma, e menos ainda em uma ortodoxia institucionalmente ancorada”.

Mas, claro, a vida oferece surpresas: embora haja colocações de Marx que se conservam, há muitas outras que o curso da História (e dos homens que a vivem) mudou. Por exemplo, um dos paradoxos do século é que, embora Marx acreditasse que a revolução acabaria se dando em todo o mundo (“Trabalhadores do mundo, uni-vos!”), os levantamentos que terminaram com o marxismo no poder durante o século XX se deram em países bem diferentes da Alemanha, Inglaterra e França, o triângulo em que, para Marx, tudo começaria.

Por sua vez, o marxismo se misturaria com movimentos de mudança ou grupos que reconheciam diferentes injustiças sociais em territórios insuspeitados. Na Rússia, por exemplo, a filosofia marxista se mesclou com o nacionalismo agrário narodnik, ao menos, em um primeiro momento. Na China, a revolução se deu em uma cultura agrícola não ocidental, imperial e milenar. Por sua vez, todos esses modelos de país tinham muito pouco com a ideia original: assim como afirma Hobsbawm, “no período posterior a 1956, uma grande maioria de marxistas se viu obrigado a concluir que os regimes socialistas existentes, desde a URSS até Cuba e Vietnã, estavam longe daquilo que eles mesmos teriam desejado que fosse uma sociedade socialista, ou uma sociedade encaminhada ao socialismo”.

Talvez o artigo mais determinante seja aquele dedicado à redação do Manifesto do Partido Comunista, o texto breve de 1848 onde Marx e Engels declaravam a inevitável presença de um partido que não era, nessa época, o mesmo tipo de organização que o século XX conhecerá depois das propostas operativas de Lênin. O objetivo fundamental da criação de um PC era distinguir sua proposta da de toda outra forma de avatar socialista, sobretudo em suas variáveis utópicas: de Saint-Simon aos falanstérios de Fourier, onde a liberdade sexual (e as correspondentes “orgias coreografadas”) se equiparavam a uma liberdade de trabalho. Um século e pouco depois, talvez esse PC tenha sido mal entendido.

Pensar a transição de sociedades agrárias para sociedades socialistas, ou revisar a mudança histórica do feudalismo ao capitalismo, foi um dos pontos que mais preocuparam o último Marx: ali se encontra a possibilidade de entender desde o presente os movimentos revolucionários em países com estruturas agrárias como as presentes na América Latina, África ou algumas zonas do Oriente. Para além das condições para que se dê a mudança (descontentamento social, consciência do conflito, etc.), o marxismo clássico do século XIX defendia a necessidade de certas condições objetivas para a revolução: desenvolvimento industrial e comercial em grande escala (longe do artesanato e do comércio “cara a cara”). A América Latina conheceu a refutação destas condições no Che Guevara: onde havia uma necessidade, não havia apenas um direito, mas também uma possível revolução. Hobsbawm, atento a este tipo de experiência, demonstra o interesse particular que existe para revisar a mudança ao socialismo fora dos limites da Europa.

A cintura cósmica de Marx
Em uma entrevista concedida ao jornal The Guardian, e realizada por Tristram Hunt – que acaba de publicar, oh casualidade, a biografia de Engels também resenhada nestas páginas – e publicada em janeiro deste ano, Eric Hobsbawm falou com entusiasmo da recuperação de certa linguagem econômica e política que se acreditava esgotada depois do auge liberal das últimas décadas do século XX: “Atualmente, ideologicamente, sinto-se mais em casa na América Latina porque segue sendo a única parte do mundo onde as pessoas ainda falam e conduzem sua política na velha linguagem, na linguagem do século XIX e do século XX do socialismo, do comunismo e do marxismo”. Embora a pergunta apontasse para a saída de Lula do governo e a localização do Brasil dentro do grupo de países com perspectivas de liderança mundial (o BRIC, junto com a Rússia, a Índia e a China), a resposta renova a repercussão da conjuntura política latino-americana dentro do panorama mundial e a presença de diversos governos de esquerda e centro-esquerda no continente.

Um dos últimos artigos do livro, “Marx e o trabalho: o longo século”, assinala precisamente que as organizações proletárias com fins políticos não necessariamente vão de mãos dadas com a teoria marxista. O melhor caso para explicar seu ponto de vista o encontra em nosso intrigante país: “Os socialistas e comunistas, frustrados há tempo na Argentina, não podiam compreender como um movimento operário radical e politicamente independente podia desenvolver-se, na década de 1940, naquele país, cuja ideologia (o peronismo) consistia basicamente na lealdade a um general demagogo”.

A vitória de partidos operários no continente, alimentados pela perspectiva marxista de justiça e progresso igualitário, mas não ligados a organizações de claro corte comunista, apresenta a possibilidade de uma transição a um Estado socialista não mediada por uma revolução, assim como se colocou nos termos da URSS e da histórica Revolução de 1917, ou como o imaginário atual lê o futuro da revolução cubana de 1959. Em definitiva, há coisas que a própria História, não Marx ou suas muitas interpretações, demonstraram que são inviáveis: o socialismo russo fracassou por manter uma economia de guerra a curto prazo que se propunha objetivos difíceis que implicavam esforços e sacrifícios excessivos (desde concentrar todo o excedente e o esforço produtivo com a finalidade de conquistar o espaço exterior a mudar as práticas de produção agrária). Distinguir Lênin e Stalin do pensamento de Marx é um acontecimento dado nos últimos anos que pode mostrar as facetas mais interessantes para uma teoria do presente. Ou seja, algo necessário que permite pensar as circunstâncias atuais para escorar a mudança dentro da complexa geografia latino-americana.

O marxismo teve várias crises ao longo de sua história. Desde que se propôs colocar Hegel “de pernas para o ar” e transformar todo o discurso do espiritual em atenção ao material, já em 1890 apareceram os primeiros críticos às formulações básicas desta filosofia. Contudo, há algo nas ideias de Marx que segue interpelando o homem contemporâneo, que segue falando de uma mudança não considerada como mero desejo existencial ou aspiração utópica, mas como situação possível de levar a cabo na atualidade, sobretudo, pela via democrática e partidária.

Como bem pergunta Soros, e como escreve Hobsbawm: “Não podemos prever as soluções para os problemas que o mundo enfrentará no século XXI, mas para que haja alguma possibilidade de êxito devemos fazer-nos as perguntas de Marx”.
Fonte: Carta Maior

Real interesse da OTAN na Líbia - por Latuff


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Como os protestos contra Israel (e o homem da bandeira) salvaram vidas em Gaza - Por Ali Abunimah

Como os protestos contra Israel (e o homem da bandeira) salvaram vidas em Gaza
"4.000 pessoas determinadas e pacíficas não podem ser paradas com gás lacrimogêneo ou balas de borracha", disse um oficial do exército israelense de ocupação.

Israel parece ter desistido de um ataque ainda mais massivo a Gaza—por enquanto--, em grande parte por causa dos protestos no Egito e da sensação mais ampla de que “falta legitimidade” a Israel para realizar mais agressões, apesar da garantia de cobertura diplomática dos Estados Unidos. Esta é uma grande vitória do poder do povo e, como consequência, sem dúvida, vidas foram salvas.

Nos últimos dias, os palestinos de Gaza, ao ouvir os sons de jatos de guerra israelenses, explosões e aviões não pilotados à sua volta o tempo todo, se preocuparam com a possibilidade de que Israel estivesse preparando um ataque massivo a Gaza, semelhante à Operação Chumbo Grosso, de 2008, que matou 1.400 pessoas, feriu milhares e destruiu a infraestrutura civil.

O ataque não provocado de Israel a Gaza depois da operação em Eliat
A partir do dia 18 de agosto, Israel lançou uma série de ataques aéreos e realizou várias execuções extrajudiciais em Gaza, como resposta pelo ataque em Eilat daquele dia, no qual desconhecidos mataram oito israelenses, incluindo dois soldados, de acordo com relatos oficiais israelenses.

Apesar de suas acusações iniciais, Israel não ofereceu absolutamente nenhuma prova de que o ataque em Eliat tivesse qualquer coisa a ver com Gaza. No entanto, Israel se lançou a uma matança que ceifou catorze vidas em Gaza, incluindo uma criança de 2 anos de idade, um garoto de 13, um médico e vários membros de facções da resistência.

Antes mesmo da operação em Eliat, Israel já continuava com sua matança de sempre em Gaza, com o assassinato em estilo execução de Sa'ad al-Majdalawi, um adolescente com deficiência mental, em cuja cabeça as forças de ocupação israelenses atiraram dez vezes no dia 16 de agosto.

Apesar da destruição horrorosa, Israel desistiu de um ataque ainda maior e concordou com uma trégua com as facções palestinas que atiravam foguetes em resposta aos ataques aéreos israelenses a Gaza.

Um civil israelense foi morto na cidade de Bir Al-Saba como resultado da retaliação palestina. Até agora, a trégua parece estar sendo mantida.

“Falta legitimidade” a Israel
O ministério israelense decidiu ontem não realizar nenhuma ação que pudesse levar a uma escalada no sul e cooperar indiretamente com a trégua declarada pelo Hamas no domingo, o Haaretz noticiou hoje. O jornal acrescenta:

O que ficou mais claro nas declarações de de Netanyahu e Barak ao ministério é que falta a Israel a legitimidade necessária para uma operação em larga escala em Gaza. A crise diplomática com o Egito limita ainda mais a liberdade de ação de Israel.

“O primeiro ministro crê que seria equivocado apressar uma guerra total em Gaza agora,” disse um dos conselheiros de Netanyahu. “Estamos nos preparando para responder se o fogo continuar, mas Israel não será arrastado a lugares aonde não quer ir”.

Vários assessores de Netanyahu detalharam os limites à ação militar israelense, a maioria dos quais é diplomática.

“Há uma situação sensível no Oriente Médio, que é um grande caldeirão fervente; existe a arena internacional; existe a ida palestina às Nações Unidas em setembro, com a qual os palestinos esperam obter reconhecimento da ONU como estado. Temos que escolher nosso caminho cuidadosamente”.

O jornal reconheceu que a dissuasão militar—a incapacidade de Israel de se defender de forma efetiva contra os foguetes retaliatórios das facções da resistência palestina—cumpriu um papel menor, mas significativo, na interrupção da escalada.

O poder do povo parou o ataque israelense
O que é claro é que os limites “diplomáticos” a Israel não foram obra dos governos mundiais, que permanecem, em grande medida, silenciosos e cúmplices ante os constantes crimes israelenses.

Na verdade, trata-se de governos tendo que responder ao poder do povo, especialmente no Egito, onde dezenas de milhares de pessoas se juntaram em frente à embaixada de Israel no Cairo, em protesto contra o assassinato israelense de cinco militares egípcios durante a operação de Eliat e contra os ataques de Israel aos palestinos.

O protesto produziu um novo herói popular, Ahmad al-Shehat, o chamado #Flagman [homem da bandeira], que escalou o prédio de 22 andares no qual se situa a embaixada e substituiu a bandeira israelense pela bandeira egípcia.

Minha avaliação durante os acontecimentos é que, apesar da retórica bélica, da matança e das ameaças, incluída uma ameaça horrenda de decapitação, feita por Ehud Barak, Israel não iria muito mais longe.

Israel se aterroriza com o poder não-violento do povo
Como a notícia do Haaretz demonstra, os líderes de guerra de Israel também chegaram à mesma conclusão, a de que Israel está estreitamente limitado. Os protestos no Egito foram o fator mais imediato, mas podemos deduzir também que o contexto mais amplo da região também não favorece o comportamento comum de Israel.

Desde os massivos protestos de refugiados palestinos no dia do Nakba, nas fronteiras controladas por Israel com o Líbano e a Síria, Israel tem se aterrorizado com a possibilidade de protestos não-violentos massivos explodirem na Cisjordânia.

Em junho, oficiais israelenses avisaram que o exército não poderia deter protestos massivos até mesmo de alguns poucos milhares de pessoas. Como o Haaretz noticiou:

“Um protesto não-violento de 4.000 pessoas ou mais, mesmo que eles somente marchem até um posto de controle ou um assentamento, e especialmente se a polícia palestina não os detiver, seria imparável”, disse um oficial do exército de ocupação. “Tal número de pessoas determinadas não pode ser parado com gás lacrimogêneo ou balas de borracha”.

Outro oficial do exército de ocupação nos territórios afirmou que “se nós tivermos que encarar protestos parecidos com os do Egito ou da Tunísia, não seremos capazes de fazer nada”.

Portanto, não só protestos reais, mas a mera ameaça de protestos populares de massa, não-violentos, podem limitar os ocupantes israelenses.

Sem dúvida, a ampla campanha de solidariedade internacional, incluindo as flotilhas a Gaza, os esforços de levar os criminosos de guerra israelenses à Justiça através da jurisdição universal e a campanha de boicote, desinvestimento e sanções estão forçando os líderes de Israel a internalizar o fato de que “falta legitimidade” a suas ações e que elas trazem consequências.

Apesar de uma sólida muralha de cumplicidade internacional oficial, para Israel, matar árabes já não é coisa tão desprovida de custos como antes. E isso é graças à ação popular.

Mas não podemos jamais ser complacentes. A mensagem a todos os que estão engajados no trabalho de solidariedade e protestos populares pelos direitos palestinos é: em frente! Essas ações não só fazem com que a justiça e a igualdade estejam mais perto de nós. Elas também, a curto prazo, podem até salvar vidas.

Fonte: www.revistaforum.com.br/

As nova bandeiras da Líbia - por Latuff


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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Sobre algumas declarações... - por Juliana Borges

"Belo Monte será fundamental para o desenvolvimento da região e do país"

Fonte: http://peledaterra.blogspot.com/

O novo herói egípcio – por Latuff


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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Estado Assassino: Violência entre Israel e Gaza aumenta; Egito protesta - Por Nidal al-Mughrabi

Violência entre Israel e Gaza aumenta; Egito protesta
GAZA (Reuters) - Aeronaves israelenses atacaram postos militantes em Gaza e os palestinos dispararam mais de uma dezena de foguetes contra o sul de Israel na sexta-feira, enquanto a violência escalava após ataques a bala com vítimas ao longo da fronteira de Israel e Egito.

A tensão entre Israel e Egito também aumentou, com o Cairo emitindo um protesto formal pela morte de três guardas de segurança quando forças israelenses caçavam os homens armados por trás das emboscadas de quinta-feira.

Oito israelenses morreram no ataque na fronteira e pelo menos sete agressores também perderam a vida enquanto forças israelenses os perseguiam ao longo da fronteira aberta com o Egito.

Israel imediatamente pôs a culpa em um grupo palestino que é independente do movimento islâmico Hamas que governa Gaza. Um ataque aéreo matou a liderança da facção na quinta-feira e houve outros numerosos ataques durante a sexta-feira.

"Temos uma política de pedir um preço muito alto de qualquer pessoa que nos ataque e esta política está sendo implementada", disse o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu na sexta-feira, enquanto visitava compatriotas feridos em um hospital.

Os palestinos disseram que pelo menos nove militantes morreram em ataques múltiplos, assim como duas crianças, uma de dois anos e outra de 13 anos de idade. Multidões se reuniram para os funerais, gritando slogans contra Israel e prometendo vingança.

Militantes no estreito enclave costeiro dispararam 14 foguetes contra cidades israelenses do sul na sexta-feira, disse o exército de Israel. Dois deles contra a cidade de Ashdod atingiram uma sinagoga e uma escola, ferindo duas pessoas.

Israel disse que os atacantes de quinta-feira saíram de Gaza em direção ao deserto do Sinai, no Egito, e então seguiram para o sul antes de se infiltrarem em Israel perto do resort de Eilat no Mar Vermelho.

Líderes israelenses acusaram os novos líderes militares do Egito de perder o controle sobre a península do Sinai. Cairo rejeitou a acusação, mas Israel teme que seu flanco sul esteja se tornando rapidamente uma ameaça a sua segurança.

"Esperamos que o ataque terrorista de ontem na fronteira sirva de ímpeto para o lado egípcio exercitar de forma mais efetiva sua soberania no Sinai", disse uma autoridade israelense, que não quis ser identificada.
Fonte: Reuters

“Comuns”: novo projeto para a revolução? Por Ed Emery*

“Comuns”: novo projeto para a revolução?
Quando Toni Negri, agora aos 78 anos, escreve e fala, há sempre algum latim na sua fala profunda, mas o discurso é claro, disciplinado, lúcido e prazeroso. É como um abraço viril, muscular e poderoso, como tudo que sua formidável inteligência produz. Precisamos muito desse tipo de pensamento, porque os modelos esquerdistas do passado já não funcionam e algo novo tinha, sim, de ser inventado.

Seu livro Império não sai das listas de mais vendidos nos EUA, mas Negri não tem partido, nem organização, nem legiões de seguidores. Diz ele: “Sinto-me um pouco isolado, porque sou e sempre fui extremista. Quem queira fazer carreira, ou manter relacionamento ‘estável’ com o mundo da política ordinária evita envolver-se comigo.” Seu trabalho é teorizar as práticas passadas e as possibilidades futuras da revolução. Já há mais de vinte anos, escreve que as “classes” deram lugar à “multidão” como conceito e termo analítico. Seus adversários e detratores dizem que as massas não estão nas ruas, nas barricadas, aos gritos de “Somos a multidão”.

A Primavera Árabe pareceu bom momento para visitar Negri, uma vez que o que se vê nas principais praças de várias capitais em torno do Mediterrâneo é bem semelhante à multidão em ação, o que Negri disse em inúmeros artigos para vários jornais. Conversar com ele é diferente de ler o que ele escreve, sobretudo no meu caso, que traduzo seus escritos para o inglês.

Num trem para Veneza, no trevo ferroviário de Mestre, esse espaço paradisíaco de terra, vento e água, dou-me conta de que já fazem 40 anos que traduzo o que o Negri escreve. Vejo-me outra vez em Londres, no início dos anos 1970, ambos ativistas recém-saídos da universidade, vivendo numa comuna frequentemente visitada pela polícia. Tínhamos uma sala de impressão montada no porão (ainda sinto saudades do chug-chug da impressora Multilith 1250 Offset e do cheiro acre dos panfletos recém impressos). Um grande mapa da Itália na parede, porque a Itália era o coração do território da revolução da classe trabalhadora, para todas as fábricas da Europa.

Acabaram por concluir que éramos parte de uma conspiração internacional, o que, em certo sentido, éramos. Mostraram especial interesse por um documento que encontraram na minha gaveta, os papéis da Conferência da organização Potere Operaio (Poder Operário), que revolucionou o modo como entendíamos a luta de classes, pela periodização histórica das lutas trabalhistas, dividindo-as em ciclos. Negri foi uma das vozes no Potere Operaio que teorizou o “trabalhador-massa” e levou às lutas dos anos 1970s. Foi a fonte inspiracional que me pôs a traduzir tudo que ele escrevesse, embora meus esforços iniciais tenham sido descartados pela polícia e por patrulhas ideológicas.

A paisagem política era, então, a do “trabalhador-massa” empregado em sistemas de trabalho medido por dia, povoada por trabalhadores da indústria automobilística, estivadores, mineiros, operários da construção civil e seus sindicatos: um ciclo internacional de lutas trabalhistas capazes de derrubar governos. Tudo aquilo mudou. O capitalismo industrial baseado em classes trabalhadoras fabris deu lugar a um novo capitalismo, baseado em serviços financeiros, na economia digital, na produção e no comércio do conhecimento: “capitalismo cognitivo”. No território capitalista, já não se veem bancadas de ferramentas, mas manipulam-se, criam-se e valorizam-se dados e redes digitais. Facebook e Google são maiores que a General Motors. As novas massas, de “trabalho imaterial”, são a “multidão” de Negri.

Quando a onda de lutas fabris recuou, derrotada, a Itália entrou nos “anos de chumbo” (anni di piombo), o terrorismo político dos anos 1970-80s. Negri foi preso, com centenas de outros da esquerda autonomista (autonomia operaia) numa série de prisões em massa que começou dia 7 de abril de 1979. Passou quatro anos na prisão, a partir de 1979, depois em exílio na França e depois novamente a prisão, na Itália. Negri conta a história desses anos em Diario di un’evasione (1985, Hachette) e Pipe-line. Lettere da Rebibbia (2009, Feltrinelli). Com o fim do sistema soviético, havia carência absoluta de reflexão forte que explicasse o novo estado do mundo. Negri embarcou em seu maior trabalho, com Michael Hardt na Duke University, e publicaram Império (2000), Multidão (2004) e Commonwealth (2009).

A ideia do “comum”: Escapando ao bloqueio histórico a que a experiência soviética condenara o comunismo, Negri voltou à ideia do “comum” que sempre esteve na raiz daquele pensamento. Discute uma realidade gêmea de “commons”. Identificando a raiz da atual crise econômica, vê um “comum” capitalista, uma unificação e comunalidade (comunanza) dos interesses capitalistas, sobretudo nas finanças. “Às vezes, usando as palavras com excessiva imprecisão, há quem veja nisso ‘o comunismo do capital’. Aí está um ‘comum’ do qual temos de dar conta. E que temos de expropriar.”

O conceito fundamental da tradição do operaísmo italiano é que o capitalismo sempre mapeia seus desenvolvimentos segundo as lutas e a resistência dos trabalhadores. Hoje, como efeito das lutas do trabalho nos anos 1970-80s, há uma comunalidade no trabalho, caracterizada pela imaterialidade, pelos conteúdos cognitivos e pela comunicação implícita em todas as áreas do trabalho em mundo capitalista. Nesse quadro, é indispensável modificar o modo como pensamos a organização da mudança social. Nas palavras de Negri: “A revolução já não visa a tomar o Palácio de Inverno, como no tempo dos bolcheviques. Em vez disso, temos hoje essas formas de comum, essas formas de interação, a potência das redes, a pluralidade, a policontextualidade, que se vão expandindo cada vez mais amplamente”.

Mas como se pode organizar a fúria, a urgência e a agressividade que se viu no norte da África e na Espanha, Portugal e Grécia? Em Commonwealth, Negri discute essa questão.

Chama à fúria indignação e encontra raízes em Spinoza, que diz que na indignação descobrimos nossa força para agir contra a opressão. Mas o problema é como transformar esses momentos de fúria popular em instituições duráveis do poder do povo? Para Negri e seus companheiros, nessa fase do capitalismo todas as metrópoles tornaram-se arenas de produção e de resistência. Vivemos sob um sistema “biopolítico” (toda o campo da vida é político). A teoria revolucionária tem de ser desenvolvida no contexto biopolítico: inserir Marx no pensamento de Foucault. Assim sendo, qual a tarefa dos revolucionários? “Nossa tarefa é investigar o quadro organizacional das subjetividades antagonistas que nascem de baixo, baseados na indignação manifestada pelos sujeitos ante a opressão (…) a exploração (…) e a expropriação” (Michael Hardt e Toni Negri, Commonwealth).

Indignação talvez pareça conceito vago, mas, no instante em que escrevo, vejo pela televisão imagens da praça Sintagma, em Atenas, com milhares de manifestantes cercando o Parlamento grego, em protesto contra novas leis de “austeridade”. Numa enorme faixa, lê-se a palavra que simboliza o movimento: Aganaktismeni. Os indignados. Como, antes dos gregos, os espanhóis, Los indignados. Negri lá estava, de pleno direito.

Negri é sempre muito acessível. Nos anos 1980s, traduzi e publiquei um volume dos escritos de sua autoria, Revolution Retrieved (Toni Negri, Revolution Retrieved: Writings on Marx, Keynes, capitalist crisis and new social subjects (1967-83), ed. e trad. Ed Emery e John Merrington, Londres: Red Notes, 1983), em colaboração com John Merrington. Ainda tenho algumas cópias; da venda, recolho dinheiro que azeita as engrenagens da revolução.

Semana passada, descobri que o livro foi escaneado por “Libertarian Communists” e distribuído pela rede gratuitamente, o que explica que minhas vendas, de repente, tenham caído a zero. Pedi que tirassem de lá o meu livro, mas não tiraram. Portanto, como presentinho meu aos leitores, aqui vão as instruções para baixar e imprimir, gratuitamente: basta clicar em Revolution Retrieved e imprimir. O livro leva o título de “Negri — Revolt at Trani Prison”. Aproveitem.

Viajando para entrevistar Negri, também tinha planos de capturar algumas das histórias engraçadas que ele conta, de uma longa e profícua vida como filósofo, teórico, ativista, exilado e prisioneiro. O resultado são 13 curta-metragens que se encontram em YouTube; o primeiro é “The Revolt at Trani Prison” (1980) (Racconti curiosi no 13: “The Revolt at Trani Prison”.

A tragédia e as gargalhadas contêm um segredinho para a decifração do último parágrafo da trilogia. O coração e a alma da revolução, diz Negri, serão o riso. “Nossa risada é, afinal, a risada da destruição, a risada de anjos armados que acompanha o último combate contra o mal. Na luta contra a exploração capitalista (…) todos sofreremos terrivelmente, mas, seja como for, haverá risos de alegria. Nós os enterraremos por rir deles.” Ou, mais poeticamente, em italiano, Sarà una risata che vi seppellirà. Será uma risada que os enterrará…

Por Ed Emery*, na edição inglesa do Le Monde Diplomatique | Tradução: Vila Vudu
Fonte: http://www.outraspalavras.net/

É hoje!!! Tarifa Zero em São Paulo!!!



“Como sempre poucos lutando pela coletividade”

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

II Anuário de Fanzines, Zines e Publicações Alternativas

II Anuário de Fanzines, Zines e Publicações Alternativas
Zineiros, faneditores e editores alternativos: é com grande prazer que a Ugra Press lança a convocatória para o II Anuário de Fanzines, Zines e Publicações Alternativas. A meta, a exemplo da primeira edição, é mapear, catalogar, divulgar e estabelecer um espaço crítico para a imprensa alternativa. A novidade é que dessa vez estamos convocando editores de toda a América do Sul, o que certamente fará do próximo Anuário uma grande referência para todos aqueles que pretendem divulgar seus trabalhos, fazer contatos e conhecer a fundo a fanedição sul-americana.

QUEM PODE PARTICIPAR?
O Anuário pretende cobrir a produção de fanzines, zines e publicações alternativas impressas em toda sua abrangência: quadrinhos, música, cinema, literatura, arte urbana, espiritualidade, perzines, artzines, queerzines… vale tudo! Não existem restrições temáticas, mas boletins partidários ou religiosos (como órgãos informativos de igrejas, por exemplo) serão desconsiderados. Publicações experimentais e autorais, como sempre, são mais do que bem vindas.

COMO PARTICIPAR?
1 – Envie sua(s) publicação(ções) para o seguinte endereço:

c/o Douglas Junior Utescher Alves
Caixa Postal 777
São Paulo / SP
CEP: 01031-970
2 – Não esqueça de enviar também um e-mail para contato! Será imprescindível para confirmar sua presença no Anuário.

3 – Assim que recebermos o material, enviaremos por e-mail uma ficha de inclusão que o editor deverá preencher e devolver (também por e-mail). Essa ficha conterá as informações necessárias para a correta catalogação da sua publicação. Sem o preenchimento da ficha, a publicação NÃO entrará no Anuário.

Mas não é só isso!
Na edição anterior, além das resenhas dos zines, publicamos matérias sobre as Fanzinotecas brasileiras e sobre os fanzines como instrumento pedagógico. Para o próximo Anuário, gostaríamos de abordar o fanzine como objeto de estudo. Portanto, você, estudante que fez ou está fazendo monografia, dissertação, artigo ou documentário sobre o tema, entre em contato e conte-nos mais sobre sua pesquisa!

DEADLINE
As publicações devem ser enviadas até 10 de dezembro de 2011. Material enviado após essa data ficará arquivado para o Anuário seguinte. Portanto, não deixe para a última hora!

A publicação do anuário está prevista para março de 2012.

CONTAMOS COM SUA COLABORAÇÃO!
Ajude a espalhar esta convocatória divulgando-a em seu blog, site, fotolog, coluna em jornal, programa de rádio alternativo ou seja lá o que for!

Downloads (clique para fazer o download):
> Cartaz em alta resolução (29,7 x 42 cm / 300 dpi)
> Cartaz em baixa resolução (400 x 565 pixels / 72 dpi)
> Banner para internet (139 x 139 pixels / 72 dpi). O banner deve ser linkado para a seguinte url: http://ugrapress.wordpress.com/ii-anuario

Se precisar de algum outro material, entre em contato pelo e-mail ugra.press@gmail.com

PERGUNTAS FREQUENTES
Participei do anuário do ano passado. Posso participar deste também?Pode e deve! Caso tenham sido lançadas novas edições da sua publicação neste meio tempo, não deixe de enviá-las.

Eu edito várias publicações diferentes. Posso mandar todas?
Sim. Todos os títulos recebidos serão resenhados.

Minha publicação está na vigésima edição. Posso mandar todas?
Sim, mas por questões práticas só serão resenhadas as 3 edições mais recentes.

Ao invés de mandar uma cópia física da minha publicação, posso enviar um arquivo PDF?
Não. Um dos aspectos que nos interessam é justamente compreender como são impressas as publicações alternativas atuais.

Minha publicação circula apenas em versão virtual (um arquivo PDF, por exemplo). Posso enviá-la?
Não. O foco do Anuário são as publicações impressas.

Se eu enviar minha publicação, eu receberei um Anuário em troca?
Infelizmente, isso não é possível. O Anuário é volumoso e de produção relativamente cara para nós. Arcar com os custos de impressão e envio para todos que participarem está muito além das nossas possibilidades. O que fizemos na primeira edição e continuaremos fazendo na segunda é determinar um preço especial para os participantes. Haverá também a versão digital do Anuário no formato PDF, distribuída gratuitamente.

O QUE DISSERAM SOBRE O I ANUÁRIO:
“(…) um dos mais completos levantamentos já feitos no país sobre essas versões impressas da estética do faça você mesmo”
Carlos Albuquerque – Jornal O Globo

“Muito caprichado, com humor, informação e promovendo discussão: o Anuário é obrigatório para quem lê e quem faz fanzines.”
Marcelo Viegas – blog Zinismo, revista 100% Skate

“Um ponto extra para o Anuário foi a capacidade de levar o discurso a respeito dos Fanzines além do banal e da nostalgia.”
Flávio Grão – blog Zinismo, zine Manufatura

“Não bastasse todo o trabalho de leitura e catalogação, Douglas e Leandro analisam cada publicação de forma perspicaz e prazerosa, traçando um verdadeiro diagnóstico da riqueza editorial independente do país.”
Henrique Magalhães – Editora Marca de Fantasia

“(…) as obras não foram apenas catalogadas, mas resenhadas de forma atenta e objetiva, em análises concisas que fogem do superficialismo. É nítida a dedicação com que os editores encararam a empreitada.”
Wagner Nyhyw – Anormal Zine, blog Partes Fora do Todo
Fonte: http://ugrapress.wordpress.com/

Os saqueadores do dia contra os saqueadores da noite - por Naomi Klein - The Nation

Os saqueadores do dia contra os saqueadores da noite
Claro que os tumultos de rua em Londres não foram protesto político. Mas o pessoal dos saques noturnos com certeza absoluta sabe que suas elites passaram o dia dedicadas aos saques diários. Saques são contagiosos. Alimentados por um sentido patológico de ‘direitos adquiridos’ pelos ricos, o grande saque global está em andamento à luz do dia, como se nada houvesse a esconder. Mas há, sim, temores ocultados. No início de julho, o Wall Street Journal, citando pesquisa recente, noticiava que 94% dos milionários temiam “a violência nas ruas”.

Leio comparações entre os tumultos em Londres e em outras cidades europeias – vitrines quebradas em Atenas, carros incendiados em Paris. E há paralelos, sem dúvida: uma fagulha lançada pela violência policial, um geração que se sente esquecida. Esses eventos foram marcados por destruição em massa, com poucos saques.

Mas tem havido saques em massa em anos recentes e acho que temos de falar também deles. Houve em Bagdá, logo depois da invasão norte-americana – um frenesi de destruição e saques que esvaziou bibliotecas e museus. Também em fábricas. Em 2004, visitei uma fábrica de refrigeradores. Os trabalhadores tinham saqueado tudo que havia ali de aproveitável, empilharam e incendiaram. No armazém ainda havia uma escultura gigantesca de placas de metal retorcido.

Naquela ocasião, os noticiários entenderam que teria sido saque altamente político. Diziam que aquilo exatamente seria o que aconteceria sempre que um governo não é considerado legítimo pelos cidadãos. Depois de ter assistido durante tanto tempo ao espetáculo de Saddam e filhos roubarem o que conseguissem e de quem conseguissem roubar, os iraquianos comuns sentir-se-iam, então, merecedores do direito de também roubar um pouco. Mas Londres não é Bagdá e o primeiro-ministro britânico David Cameron não é Saddam. Assim sendo, nada haveria a aprender dos saques em Londres.

Mas há exemplos no mundo democrático. A Argentina, em 2001. A economia em queda livre e milhares de pessoas vivendo em periferias destruídas (que haviam sido prósperas zonas fabris, antes da era neoliberal) invadiram e saquearam supermercados de propriedade de empresas estrangeiras. Saíam empurrando carrinhos abarrotados dos produtos que perderam condições para comprar – roupas, aparelhos eletrônicos, carne. O governo implantou “estado de sítio” para restaurar a ordem; a população não gostou e derrubou o governo.

Na Argentina, o episódio ficou conhecido como El Saqueo – o saque[1]. É exemplo politicamente significativo, porque a palavra aplica-se, na Argentina, também ao que as elites do país fizeram, ao vender patrimônio da nação à guisa de ‘privatizar’, em negócios de corrupção flagrante e enviando para o exterior o produto das ‘privatizações’, para, em seguida, cobrar do povo obediência a um brutal pacote de ‘austeridade’. Os argentinos entenderam que o saque dos supermercados jamais teria acontecido sem o saque anterior, muito maior, do próprio país; e que os reais gângsteres estavam no governo.

Mas a Inglaterra não é a América Latina e, na Inglaterra, não há tumultos políticos – ou, pelo menos, é o que nunca se cansam de repetir. Os jovens que devastaram ruas em Londres são crianças sem lei, que se aproveitam de uma situação, para roubar o que não lhes pertence. E a sociedade britânica, diz-nos Cameron, tem ojeriza a esse tipo de gente mal comportada.

Disse, e com ar sério. Como se os ‘resgates’ massivos dos bancos jamais tivessem acontecido, seguidos imediatamente do pagamento de escandalosos bônus recordes aos altos executivos. Depois, as reuniões de emergência do G-8 e do G-20, mas quais os líderes decidiram, coletivamente, nada fazer para punir os banqueiros por esse ou aquele crime, além de também nada fazer para impedir que crises semelhantes voltem a acontecer. Em vez disso, cada um daqueles líderes nacionais voltou aos seus respectivos países para impor sacrifícios ainda maiores aos mais vulneráveis. Como? A receita é sempre a mesma: despedir trabalhadores do setor público, fazer dos professores bodes expiatórios, cancelar acordos previamente firmados com sindicatos, aumentar as mensalidades escolares, promover rápida privatização de patrimônio público e reduzir aposentadorias e pensões. – Cada um que prepare a mistura específica para o país onde viva. E quem lá está, na televisão, pontificando sobre a necessidade de abrir mãos desses “benefícios”? Os banqueiros e gerentes de empresas de hedge-fund, claro.

É o Saqueo global, tempo de saques imensos! Alimentados por um sentido patológico de ‘direitos adquiridos’ pelos ricos, o grande saque global está em andamento à luz do dia, como se nada houvesse a esconder. Mas há, sim, temores ocultados. No início de julho, o Wall Street Journal, citando pesquisa recente, noticiava que 94% dos milionários temiam “a violência nas ruas”. Aí, afinal, um medo compreensível.

Claro que os tumultos de rua em Londres não foram protesto político. Mas o pessoal dos saques noturnos com certeza absoluta sabe que suas elites passaram o dia dedicadas aos saques diários. Saqueos são contagiosos.

Os Conservadores acertam quando dizem que os tumultos nada têm a ver com os cortes. Mas, sim, têm muito a ver com os cortados que os cortes cortaram. Presos longe, numa subclasse que infla dia a dia e sem as vias de escape que antes havia – um emprego no sindicato, educação barata e de boa qualidade –, eles estão sendo descartados. Os cortes são um sinal: dizem a todos os setores da sociedade que os pobres estão fixados onde estão – como dizem também aos imigrantes e refugiados impedidos de ultrapassar fronteiras nacionais cada dia mais militarizadas e fechadas.

A resposta de David Cameron às agitações de rua é tornar literal e completo o descarte dos mais pobres: fim dos abrigos públicos, ameaças de censura e corte das ferramentas de comunicação social e penas de prisão absolutamente inadmissíveis; uma mulher foi condenada a cinco meses de cadeia, por ter recebido um short roubado [e hoje, 17/8/2011, dois homens foram condenados a quatro anos de prisão, por incitarem tumultos pela internet, apesar de não se ter provado que sua ‘incitação’ levou a alguma consequência (NTs, com informações de Guardian em http://www.guardian.co.uk/uk/2011/aug/17/facebook-cases-criticism-riot-sentences)]. Mais uma vez a mensagem é clara contra os pobres que incomodam: sumam. E sumam em silêncio.

Na reunião “de austeridade” do G-20 em Toronto, os protestos viraram tumultos e vários carros da polícia foram incendiados. Nada que se compare a Londres 2011, mas o suficiente para deixar-nos, os canadenses, muito chocados. A grande discussão naquela ocasião era que o governo havia consumido $675 milhões de dólares na “segurança” da reunião (e ninguém conseguia sequer impedir o incêndio de carros da polícia). Naquele momento, muitos dissemos que o novo e caríssimo novo armamento que a polícia havia comprado – canhões de água, canhões de som, granadas de gás lacrimogêneo e munição revestida de borracha – não havia sido comprado para ser usado contra os manifestantes nas ruas; que, no longo prazo, aquele equipamento seria usado para disciplinar os pobres que, na nova era de ‘austeridade’, seriam empurrados para a perigosa posição de pouco terem a perder.

Isso, precisamente, é o que David Cameron absolutamente não entende: é impossível cortar orçamentos militares ou policiais, no mesmo momento em que você corta todos os gastos públicos. Porque, se o estado rouba os cidadãos, tirando deles o pouco que ainda têm, pensando em proteger os interesses dos que acumulam muito mais do que qualquer ser humano precisa para viver, é claro que deve esperar o troco ou, pelo menos, deve esperar resistência – seja a resistência de protestos organizados, seja a resistência das ondas de saques. Não é propriamente problema político: é problema matemático, físico.

[1] Ver, sobre esse período, Memoria del Saqueo, filme de Fernando “Pino” Solanas, Argentina, 2004. Pode ser baixado de http://docverdade.blogspot.com/2009/03/memorias-do-saque-memoria-del-saqueo.html [NTs].
Fonte:
http://www.thenation.com/article/162809/daylight-robbery-meet-nighttime-robbery?rel=emailNation
Tradução: Coletivo Vila Vudu
Retirado do: Carta Maior

[EUA] Repressão violenta contra os Ameríndios e aos ecologistas - por ANA

[EUA] Repressão violenta contra os Ameríndios e aos ecologistas
Os Estados Unidos da América, país da liberdade (das finanças...), que adora dar lições ao mundo, não são mais que um monte de irresponsáveis, de fascistas, de fanáticos religiosos e de racistas...

Os Picos de São Francisco (região de Flagstaff, Arizona), montanha sagrada dos índios Navajos e de outras tribos, floresta incomensurável de plantas medicinais ainda desconhecidas da ciência (conhecidas apenas pelos xamãs) será massacrada para se construir uma estação de esqui de verão, com várias máquinas de fazer neve.Essas máquinas de fazer neve serão alimentadas por águas já utilizadas, cheias de produtos ainda tóxicos e resíduos de medicamentos - uma catástrofe ecológica.

Nesse momento, os Navajos, ecologistas, anarquistas e outros defensores do lugar estão se manifestando para impedir os trabalhos.A polícia intervêm com uma violência inaudita contra os manifestantes ameríndios, considerados por eles como sub-homens.

Ou são os verdadeiros americanos (humanos)?
Os defensores dos picos sagrados se reuniram novamente dias atrás próximos à sede da estação de esqui Snowbowl.

Klee Benally acorrentou-se a uma das máquinas. Ele foi de novo levado pela polícia, indiciado por baderna à ordem pública e depois liberado.

A escritora de Flagstaff, Mary Sojourner, foi igualmente levada e acusada. Rudy Preston, membro da organização "Protect the Peaks" e responsável pelo diálogo com a polícia, também foi novamente preso e indiciado por baderna à ordem pública e "intrusão".

Nesta segunda-feira, 15 de agosto, seis pessoas presas na semana passada deveriam passar pelo tribunal.

Vídeo das prisões de manifestantes:
› http://www.youtube.com/watch?v=i5XZmfA8sGc

Vídeos de uma ação direta (bloqueio de uma estrada):
› http://www.youtube.com/watch?v=JJX05_a57Ik&NR=1
› http://www.youtube.com/watch?v=9Uk8j-zMKQ0&NR=1

Escreva um e-mail para enviar seus protestos, em inglês:
› council@flagstaffaz.gov (Câmara Municipal de Flagstaff)
› spresler@flagstaffaz.gov (Sara Presler, prefeita)
› rwilson@azdailysun.com (Arizona Daily Sun, o jornal que cobre a região de Flagstaff)

Na foto em anexo, você poderá ver a prisão violenta de Klee, cantor do grupo punk ameríndio Black Fire.

Aqui um vídeo do Black Fire:
› http://www.youtube.com/watch?v=sGOn0S0-Dck&feature=youtu.be

Infos atualizadas:
› http://www.indigenousaction.org/
› http://southwestearthfirst.wordpress.com/
Tradução > Tio TAZ

agência de notícias anarquistas-ana
Noite escura
Estrelas
Pastam no chão...

Maria do Céu Lopes Heinrich

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Vinte anos para mudar o mundo - por Immanuel Wallerstein

Vinte anos para mudar o mundo
Immanuel Wallerstein alerta: Estados Unidos declinarão mais rapidamente, mas isso não garante nada. É hora dos projetos de longo prazo

Há uma década, quando eu e alguns outros falamos do declínio dos Estados Unidos no sistema-mundo, fomos recebidos no máximo com sorrisos de pena por nossa ingenuidade. Os EUA não eram o superpoder, envolvidos em cada canto remoto do planeta, capazes de obter o que queriam em quase todas as ocasiões? Essa era uma visão difundida em todo o cenário político.

Hoje, a visão de que os Estados Unidos declinaram, e declinaram seriamente, é uma banalidade. Todos dizem isso, com exceção de alguns políticos norte-americanos que temem ser culpados pela decadência, se a debaterem. O fato é que hoje quase todos acreditam na realidade desse declínio.

O que, entretanto, é muito menos discutido é quais foram, e quais serão as consequências mundiais desse fato. O declínio tem raízes econômicas, é claro. Mas a perda do quase-monopólio de poder geopolítico, que os Estados Unidos já exerceram, tem conseqüências políticas importantes em todo o mundo.

Vamos começar com uma história contada na seção de negócios do The New York Times em 7 de agosto. Um administrador de fortunas em Atlanta “apertou o botão de pânico” em nome de dois clientes ricos que o encarregaram de vender todas as ações e investir o dinheiro em algum fundo mútuo de alguma maneira isolado da crise. O administrador contou que, em 22 anos de trabalho, nunca tinha ouvido um pedido desses. “Isso não tem precedentes”. Os jornais chamaram a decisão de o equivalente de Wall Street ao “botão nuclear”. Foi algo inteiramente contra o conselho tradicional santificado, de “evitar o pânico” diante das turbulências do mercado.

A Standard & Poor`s reduziu o rating de crédito de dos Estados Unidos de AAA para AA+, outro fato “inédito”. Mas isso é uma ação relativamente leve. A agência equivalente na China, Dagong, já reduziu a credibilidade dos Estados Unidos para A+ em novembro, e agora para A-. O economista peruano Oscar Ugarteche declarou que os Estados Unidos tornaram-se uma “república de bananas”. Ele diz que o país “escolheu a política da avestruz, como modo de não perder as esperanças [de melhora]”. Em Lima, nessa última semana, o encontro dos ministros de Finanças dos países sul-americanos discutiu medidas urgentes para isolar a região dos efeitos do declínio econômico dos Estados Unidos.

O problema que todos enfrentam é que é muito difícil isolar-se dos efeitos do declínio dos Estados Unidos. Apesar da severidade de seu declínio político e econômico, os Estados Unidos continuam um gigante no cenário mundial, e qualquer coisa que acontecer lá ainda provoca grandes ondas no resto do mundo.

É claro que o maior impacto do declínio é, e vai continuar sendo sentido, nos próprios Estados Unidos. Políticos e jornalistas estão falando abertamente da “disfuncionalidade” da situação política no país. Mas o que mais essa situação pode ser, além de disfuncional? O fato mais elementar é que os cidadãos dos Estados Unidos estão chocados pelo simples fato do declínio. Não é apenas que os estejam sofrendo materialmente com esse declínio, temam sofrer ainda mais, com o tempo. Eles acreditaram que os EUA eram a “nação escolhida”, designada por Deus ou pela história para ser um modelo para o mundo. E ainda ouvem o presidente Obama assegurar que seu país será sempre um “triplo A”.

O problema para Obama e para todos os políticos é que muito poucas pessoas ainda acreditam nisso. O choque para o orgulho e a auto-imagem nacional é formidável e além de tudo repentino. O país está lidando muito mail com ele. A população busca bodes espiatórios e esbraveja, de modo selvagem e pouco inteligente, contra os suspeitos de sempre. A última esperança parece ser a de descobrir que alguém é culpado e ver, como remédio, mudanças no comando.

Em geral, as autoridades federais são vistas como as mais fáceis de culpar – o presidente, o Congresso, os dois grandes partidos. Há uma tendência forte em direção a cortes no envolvimento militar fora dos Estados Unidos. Culpar o “povo de Washington” por tudo produz volatilidade política e disputas locais ainda mais violentas. Os EUA tornaram-se, eu diria, uma das entidades menos estáveis no sistema-mundo.

Isso torna EUA um país não apenas de disputas políticas são disfuncionais, mas, além disso, pouco hábil para exercer poder real na cena internacional. Há uma grande queda na confiança nos Estados Unidos e seu presidente, entre grandes aliados no exterior e entre a própria base política interna do presidente. Os jornais estão cheios de análises sobre os erros políticos de Barack Obama. Quem pode argumentar contra isso? Eu poderia listar facilmente dezenas de decisões de Obama que, segundo meu ponto de vista, foram erradas, covardes e algumas vezes inteiramente imorais. Mas eu me pergunto se teria feito muita diferença, caso ele tivesse ele agido como sua base desejaria. O declínio dos Estados Unidos não é uma consequência de decisões medíocres de seu presidente, mas de realidades estruturais no sistema-mundo. Obama pode ser o indivíduo mais poderoso no mundo, mas nenhum preesidente dos EUA é ou poderia ser hoje tão poderoso como os de antes.

Estamos entrando numa era de turbulências agudas, constantes e rápidas – nas taxas de câmbio, nas taxas de emprego, nas alianças geopolíticas, nas definições ideológicas da situação. A extensão e rapidez destas flutuações torna impossível fazer previsões de curto prazo. E sem alguma estabilidade razoável nas previsões de curto prazo (três anos, digamos), a economia-mundo estanca. Todos os países terão de ser mais protecionistas e voltados para dentro. Os padrões de vida vão cair. Não é um quadro agradável. E embora haja aspectos positivos para muitos, no declínio norte-americano, nada garante que, com os sacolejos do barco mundial, outros países possam tirar da nova situação o proveito que esperam.

É hora para análises muito mais sóbrias e de longo prazo, julgamentos morais muito mais claros sobre o que estas análises revelam, e ação política muito mais efetiva no esforço de criar, nos próximos 20 ou 30 anos, um sistema-mundo melhor do que aquele em que estamos hoje enrascados.

Tradução: Daniela Frabasile | Imagem: Henri Rousseau, Navio na Tempestade (detalhe)
Fonte: http://www.outraspalavras.net/

Egito & Israel os canalhas se unem! – por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Para Bauman, protestos em Londres foram “motim de consumidores excluídos” - por Redação

Para Bauman, protestos em Londres foram “motim de consumidores excluídos”O sociólogo polonês Zygmunt Bauman considera que “tais explosões são uma combinação de desigualdade social e consumismo”.

Radicado em Londres desde 1968, o sociólogo Zygmunt Bauman, afirmou, em entrevista para o Globo, que as imagens da cidade representaram uma revolta motivada pelo desejo de consumir, não por qualquer preocupação maior com mudanças na ordem social. Para ele, a capital britânica viu os distúrbios do consumidor excluído e insatisfeito. Leia trechos abaixo e original aqui.

O quão irônico foi para o senhor ver os distúrbios se concentrando na pilhagem de roupas e artigos eletrônicos?
Esses distúrbios eram uma explosão pronta para acontecer a qualquer momento. É como um campo minado: sabemos que alguns dos explosivos cumprirão sua natureza, só não se sabe como e quando. Num campo minado social, porém, a explosão se propaga, ainda mais com os avanços nas tecnologias de comunicação. Tais explosões são uma combinação de desigualdade social e consumismo. Não estamos falando de uma revolta de gente miserável ou faminta ou de minorias étnicas e religiosas reprimidas. Foi um motim de consumidores excluídos e frustrados.

Mas qual a mensagem que poderia ser comunicada?
Estamos falando de pessoas humilhadas por aquilo que, na opinião delas, é um desfile de riquezas às quais não têm acesso. Todos nós fomos coagidos e seduzidos para ver o consumo como uma receita para uma boa vida e a principal solução para os problemas. O problema é que a receita está além do alcance de boa parte da população.

Trata-se de um desafio a mais para as autoridades na tarefa de acalmar os ânimos, não?
O governo britânico está mais uma vez equivocado. Assim como foi errado injetar dinheiro nos bancos na época do abalo global para que tudo voltasse ao normal - isso é, as mesmas atividades financeiras que causaram a crise inicial - as autoridades agora querem conter o motim dos humilhados sem realmente atacar suas causas. A resposta robusta em termos de segurança vai controlar o incêndio agora, mas o campo minado persistirá, pronto para novos incêndios. Problemas sociais jamais serão controlados pelo toque de recolher. A única solução é uma mudança cultural e uma série de reformas sociais. Senão, a mistura fica volátil quando a polícia se desmobilizar do estado de emergência atual.

Mais problemas são inevitáveis, então?
Enquanto não repensarmos a maneira como medimos o bem-estar, sim. A busca da felicidade não deve ser atrelada a indicadores de riqueza, pois isso apenas resulta numa erosão do espírito comunitário em prol de competição e egoísmo. A prosperidade hoje em dia está sendo medida em termos de produção material e isso só tende a criar mais problemas em sociedades em que a desigualdade está em crescimento, como no Reino Unido.
Fonte: http://www.revistaforum.com.br/

[Colômbia] Um sonho coletivo se torna realidade, Centro Social e Cultural Libertário - por ANA

[Colômbia] Um sonho coletivo se torna realidade, Centro Social e Cultural Libertário Sempre nos disseram que as coisas não podem mudar, que o mundo é assim mesmo e não há como voltar atrás, e que se esforçar e lutar para mudá-lo é uma perda de tempo. Esse pensamento é apenas uma amostra de uma mentalidade colonizada. Dá conta do submetido que está nossa sociedade onde o pensamento crítico é proibido e agir é um crime. Esta é a lógica que move o mundo atual e nossa cidade não está imune a ele; onde todo o tempo nos dizem: “não pode”, “se você não trabalha não come”, “sem futuro”, “acabará sem onde cair morto”. Mas a chama da resistência, que acenderam os lutadores da liberdade, resiste como o sol e hoje segue ardendo em nossos corações.

Na cidade de Medellín, por vários anos diferentes individualidades e grupos vêm realizando atividades políticas e culturais, reuniões, feiras, congressos e diversos espaços que têm posto em prática as idéias anarquistas; confluência de ações e conspiração que alimentam o sonho da revolução e de uma busca de liberdade no meio de um contexto violento e repressivo.

Este caminho não tem sido fácil. A persistência e unidade nos permitem continuar na luta e nos fortalece como movimento. Assim, nasce a proposta de articular na cidade, a partir da diversidade de pensamento e ações anarquistas, um projeto de organização que permitiu a autonomia de cada grupo e individuo. Assim surgiu a Coordenação local Anarquista, com dois objetivos claros: de um lado fortalecer o movimento anarquista local e, por outro, continuar atuando com outros setores e organizações sociais na resistência.Esta aprendizagem organizativa permitiu dar conta de certas dificuldades inerentes à organização, incluindo a falta de espaço físico. Foi aí, a partir de abril em 2011, que se abriu uma casa e fundou-se o Centro Social e Cultural Libertário. Um espaço autônomo, autogerido e sem financiamento estatal ou institucional, uma proposta sem fins lucrativos. Apenas com fins sociais e políticos, para continuar a articulação, organização, disseminação e fortalecimento do movimento anarquista na cidade. Este é um dos frutos mais suculentos da nossa unidade e luta libertária - um sonho coletivo tornando-se realidade.

Agora, o CSCL é um espaço social, político e comunitário, onde interagem as pessoas, idéias, pensamentos e ações a partir de discussões, palestras, grupos de estudo, grupos de discussão, oficinas, feiras, exposições, cinema, etc. É também um espaço aberto às novas propostas que vêm sempre e que tenham afinidade política com o que é aqui proposto. Não somos um grande grupo, somos uma confluência de grupos e indivíduos, cada um com sua autonomia e sua forma de fazer. A tomada de decisões e coordenação do espaço se faz por assembléia, onde chegam a ela e acreditam no projeto e se apropria da proposta.O espaço livre e autônomo abre as portas para a comunidade e a todos aqueles ou aquelas que queiram trabalhar por um novo mundo e em liberdade. A casa está aberta de segunda a segunda, de 13 a 18 horas. Até o momento, contamos com o centro de documentação anarquista Mauricio Morales Duarte, aberto de segunda a segunda, das 14 as 18 horas, e a cozinha solidaria Ted Kaczinsky, toda sexta-feira de 12 as 14 horas.

Convidamos você a conspirar, destruir e construir um mundo novo em nossos corações.

Centro Social e Cultural Libertário
Medellin, Valle del Aburra, Planeta Terra.
Contato: centrosocialyculturallibertario@riseup.net

agência de notícias anarquistas-ana
Roçando grama
Bem-te-vis e os Tejos;
Caçam insetos.

Ze de Bonifácio

A insurreição urbana britânica - Por Paul Tiyambe Zeleza

A insurreição urbana britânica
Não é preciso ser um gênio para prever que os motins hão-de regressar periodicamente se não ocorrerem transformações nesta sociedade fundamentalmente desigual e racista. Por Paul Tiyambe Zeleza
Recentemente, durante quatro dias e quatro noites, as cidades britânicas, de Londres até Manchester, Birmingham e outras cidades menores, foram atravessadas pelas chamas da raiva. Os motins urbanos lançaram fogo a bairros e lojas, transformaram ruas em zonas de guerra, levaram a centenas de prisões e deixaram este ex-império em declínio profundamente abalado e em busca de respostas, de reparações, de culpados. Os políticos proferiram as banalidades previsíveis de líderes desligados da realidade, chamando aos motins, nas palavras do primeiro-ministro David Cameron, de “criminalidade pura e simples”. Especialistas pretenciosos afadigam-se em dar explicações e lançar insultos contra os manifestantes e os revoltosos, enquanto o público aturdido busca desesperadamente a restauração da ordem.Como é comum em momentos de perturbação nacional, posições ideológicas e discursos de longa data são frequentemente ressuscitados e reforçados. Previsivelmente, especialistas de direita fazem-se eco das posições do governo, condenando os manifestantes. The Telegraph recusa-se mesmo a chamá-los de “manifestantes”, preferindo taxá-los de “saqueadores, vândalos e ladrões”. Indo além dos “marginais” e dos “gangues”, lançam as culpas sobre os pais por abdicarem dos valores da família, da disciplina e da responsabilidade. Gostam de chamar a atenção para a juventude dos revoltosos. Nas palavras de um comentarista do jornal, “os pais ausentes têm grandes responsabilidades”. Outro acha que a polícia perdeu o controle porque “ficou tão sensível à questão racial que isso a impede de fazer o seu trabalho”; preocupam-se “mais em ter boas relações com a comunidade do que em impor a lei.” Lançam-se as culpas sobre o multiculturalismo por criar um clima permissivo para a cultura de gangues que se desenvolve na comunidade negra, uma cultura “que rejeita todos os princípios da sociedade liberal. É violenta, sexista, homofóbica e racista.” Um que tem o telhado de vidro e que lança pedras no do vizinho!Quanto aos liberais, eles se equivocam quando, por um lado, condenam a violência e, por outro, sentem pena dos manifestantes e apontam as condições que os levaram à explosão de fúria. Esta ambiguidade pode encontrar-se em The Guardian. Em um editorial o jornal foi inequívoco: “Os motins britânicos de 2011 tornaram-se um confronto definidor entre a desordem e a ordem. Neste confronto, e apesar de importantes ressalvas, só se deve estar de um dos lados. Tem de se pôr cobro aos ataques, à destruição, à criminalidade e ao reino do medo […] Pode discutir-se depois questões mais vastas. Hoje, neste momento de perigo, é necessário apoiar a polícia.” Enquanto isso, os colunistas do jornal atribuem os motins, diversamente, ao aumento da desigualdade e à implementação de drásticas medidas de austeridade; à brutalidade da pobreza e à psicologia explosiva de aspirações consumistas não realizadas entre os pobres; à cultura de exercício de direito e irresponsabilidade que perdeu as estribeiras entre os jovens; e ao resultado perverso de comunidades estimuladas a preencher vazios deixados pelo Estado.

Em momentos de insurreição nacional também é tentadora a busca de analogias. The Independent pretende que a Grã Bretanha experimentou seu momento Katrina. Tal como sucedeu em Nova Orleans, rebentaram os diques destinados a manter a ordem social e, do mesmo modo que a administração republicana do presidente Bush, o governo de coligação parece não saber o que há-de fazer, além de ameaçar com ações policiais ainda mais severas. Tal como com o furacão Katrina, este tem sido um momento angustiante para a Grã-Bretanha, fazendo as atenções incidirem nas classes subalternas, frequentemente invisíveis tanto para o Estado quanto para a elite. “Muito pouco tem sido feito por gerações sucessivas de políticos e servidores públicos para integrar estes indivíduos na sociedade normal. O rastilho desta explosão tem estado a arder desde há anos, talvez mesmo desde há décadas. Se algo bom pode emergir dos horrores dos últimos dias será que nós finalmente enfrentaremos a escandalosa exclusão de nossas classes subalternas.”

Alguns procedem a comparações mais evidentes. O caso dos motins franceses de 2005 é especialmente sedutor. Ambas estas explosões de fúria urbana foram desencadeadas por policiais matando homens negros em comunidades relativamente pobres, com uma vasta população minoritária e uma longa tradição de violência policial, de discriminação política e econômica e de privação de direitos. Os motins de Londres são ainda mais assustadores, afirma um observador, por conta de sua geografia social expansiva e de seu impacto. Enquanto as revoltas francesas estavam confinadas às banlieues [periferias], aos subúrbios remotos da linda Paris das elites e dos turistas, os motins britânicas estão “a chegar à porta das confortáveis residências das classes médias e médias-altas.” Isto é facilitado pelo fato de Londres ser uma cidade que se alastra e pelo fato de a demografia dos bairros pobres se caracterizar por uma mistura sócio-económico-étnica.

Outra analogia européia intrigante é a Grécia, onde a morte a tiro de um jovem em dezembro de 2008 desencadeou manifestações generalizadas, que agitaram Atenas ao longo de uma semana e pressagiaram os motins anti-austeridade dos meses recentes. Um autor que presenciou os dois conjuntos de manifestações observa que “ambos ocorreram sob governos conservadores que se recusaram até mesmo a reconhecer, e muito menos a tentar responder, às razões da insatisfação.” Como deveria ser desnecessário dizer, “uma violência urbana de tamanha intensidade não pode ser meramente atribuída a motivos oportunistas […] Se a Inglaterra quiser aprender com a violência urbana de outras cidades européias, deverá incidir a atenção nas motivações e nas razões de queixa dos participantes. Se não o fizer, na próxima vez as coisas serão piores e mais dolorosas, como sucedeu em Atenas.”Todas estas comparações ajudam a esclarecer a insurreição britânica de 2011. Ainda mais pertinente é situar os recentes motins generalizados no contexto da história britânica. Nos séculos XVIII e XIX abundaram na Grã-Bretanha os motins desencadeados pela insatisfação política, econômica ou social. No século XX, a questão racial cada vez mais juntou a sua dinâmica incendiária aos surtos periódicos de perturbações e de insatisfação pública. No pós-guerra, o grande número de imigrantes oriundos do Caribe, da África e da Ásia, todos eles chamados “negros”, quebrou os elos de caráter inglês e branco, de caráter britânico e europeu, e reorganizou as relações e as tensões entre raça e classe.

Raça e classe sempre estiveram entrelaçadas no contexto da Grã-Bretanha imperial, a principal nação comerciante de escravos no século XVIII e a principal potência colonial nos séculos XIX e XX. Isto só para chamar a atenção para a circulação permanente das ideologias de raça e de classe entre a Grã-Bretanha e o seu império, que marcou as relações sociais tanto nas periferias coloniais como no centro metropolitano durante o apogeu do império e posteriormente. Em resumo, a Grã-Bretanha tem um problema persistente de desigualdade e exclusão raciais e de classe, que leva ocasionalmente à eclosão de motins. No pós-guerra irromperam motins raciais com uma frequência previsível: os motins de Notting Hill em 1958, os motins de Brixton em 1981, os motins de Handsworth e Broadwater Farm em 1985 e os motins de Brixton e Bradford em 1995.É claro que variam os contextos específicos de cada uma destas revoltas, mas a situação subjacente, as condições estruturais, permanecem profundamente enraizadas nas hierarquias e marginalizações raciais e de classe da sociedade britânica, sustentada por uma classe política cada vez mais incompetente. Quanto aos motins de 2011, importa especialmente considerar dois contextos: primeiro, a redução das oportunidades econômicas e, segundo, a decadência da democracia. Tal como boa parte da Euro-América, a Grã-Bretanha foi devastada pela Grande Recessão e a economia está mancando desde que foi declarado oficialmente o termo da recessão. Na última estimativa, o Banco da Inglaterra “reduziu para 1,5% sua estimativa de crescimento em 2011 no Reino Unido, quando a previsão anterior fora de aproximadamente 1,8%, e baixou a sua estimativa para 2012 de 2,5% para cerca de 2%.”A adoção de um programa drástico de austeridade pelo governo de coligação, envolvendo cortes massivos nos setores sociais e de serviços, incluindo a educação, ameaça converter a prolongada recessão, sentida pela classe trabalhadora e pela classe média inferior, numa depressão permanente. Em consequência, aumentou o nível de desemprego para essas classes, em que as minorias raciais jovens têm uma participação muito superior à média. Assim, em grande medida os motins representam uma irrupção dos marginalizados, numa altura em que os seus dirigentes políticos gozavam férias no estrangeiro, das quais ignominiosamente regressaram a um país em chamas. Não há dúvida de que estes motins britânicos são mais multi-raciais do que os motins de 1981 ou 1985, e muito mais ainda do que os motins franceses de 2005. Isto os torna potencialmente mais ameaçadores e é mais difícil para o Estado contê-los com ataques baratos contra os “hooligans negros” ou contra as promessas vazias do multiculturalismo.

No fundo, este é um país falido liderado por uma classe política falida, apesar da retórica barata de “Grande Sociedade” do primeiro-ministro Cameron ou da extravagante encenação das núpcias reais. O Estado e seus funcionários policiais estão amplamente desacreditados. A capacidade da classe política para administrar a economia em benefício da maioria mais do que da minoria foi severamente danificada pela Grande Recessão e evaporou-se com o brutal regime de austeridade. Enquanto isso, políticos, policiais e a imprensa ficaram desacreditados pelo escândalo de escutas telefônicas envolvendo o império midiático de Murdoch. Os imperadores da classe política britânica nunca apareceram tão nus.

Muitas pessoas comuns não se deixaram impressionar, e menos do que todos as minorias marginalizadas e os trabalhadores mal pagos e subempregados. Alguns perguntam abertamente por que seus saques são piores do que os das elites. Para citar um escritor, “Enquanto os banqueiros saquearam publicamente as riquezas do país e não lhes sucedeu mal nenhum, não custa a entender o motivo por que aqueles que são excluídos do trem da alegria podem pensar que têm direito a meter no bolso um celular [telemóvel]. Alguns dos amotinados são explícitos. ‘Os políticos dizem que nós saqueamos e roubamos, mas eles são os verdadeiros gangsters,’ disse um deles a um repórter.”

Nas palavras pungentes de um comentarista, “Os amotinados de Londres são o produto de uma nação que se desmorona e de uma classe política insensível que lhes virou as costas.” A amplitude do desastre social é surpreendente. “Na bolha da década de 1920, os 5% mais ricos apoderaram-se de 1/3 da renda pessoal. Hoje, na Grã-Bretanha, a desigualdade em salários, riqueza e oportunidades de vida é a maior desde então. Só no ano passado, a fortuna conjunta dos 1.000 mais ricos da Grã-Bretanha subiu 30%, atingindo 333,5 bilhões [milhares de milhões] de libras.” O autor lamenta que “sucessivos governos britânicos conspiraram para gerar pobreza, desigualdade e desumanidade, exacerbadas agora pela perturbação financeira” e alerta, “Olhem para os bandos de jovens destruidores nas ruas das cidades e chorem todo o nosso futuro. A ‘geração perdida’ está a juntar-se para a guerra.”

O segundo contexto é a decadência da democracia britânica, a desestabilização ou desmobilização da participação popular em nível local e a centralização do poder manifestada pelo crescimento da vigilância eletrônica para a população como um todo e da vigilância policial contra os grupos marginalizados. Como observou um jornalista veterano, “Compreende-se que forasteiros presenciando os motins urbanos nesta semana pudessem pensar que as cidades britânicas sejam comandadas pela polícia e pelo ministro do Interior. É certo que existem conselhos municipais e que Londres tem um prefeito eleito, mas em lugar nenhum os vemos nos postos de comando. Não têm poder real e, portanto, gozam de pouco ou nenhum status como líderes cívicos. Na linha de frente está a polícia, e por trás dela apenas o poder central do Estado […] Não existe nada que em qualquer nível de governo substitua uma democracia adequada, aberta, receptiva.”O crescimento da vigilância eletrônica foi estimulado pelos atentados terroristas do dia 7 de julho de 2005. Por ocasião de uma visita a Oxford e Londres, há três semanas atrás, eu estava atônito ao ver quão extensa a vigilância eletrônica se tornou neste país. Em 2009, um jornal conservador, The Daily Mail, mostrou-se chocado: “A Big Brother Grã-Bretanha tem mais câmeras de vídeo de circuito fechado do que a China.” Segundo este jornal, “Existem aqui 4,2 milhões de câmeras de vídeo de circuito fechado, uma para cada 14 pessoas. Mas no Estado policial da China, com uma população de 1,3 bilhões [milhares de milhões], há apenas 2,75 milhões de câmeras, o equivalente a uma para cada 472.000 cidadãos.”Tal como sucedeu nos Estados Unidos, as medidas antiterroristas adotadas pelo governo britânico ameaçaram corroer a liberdade interna. Os suspeitos de sempre nos Estados de vigilância policial são as minorias pobres e raciais. As relações entre a polícia e essas comunidades, particularmente a juventude, se tornaram mais intromissoras e repressivas. Tão flagrante é o fichamento racial que “As pessoas negras têm 26 vezes mais probabilidades do que as brancas de ser abordadas pela polícia e sujeitas a buscas na Inglaterra e no País de Gales” (em comparação, há apenas 50 professores universitários negros num total de 14.000 professores nas universidades britânicas). E, assim, as lições dos motins das décadas de 1980 e 1990 ficaram perdidas na demência da vigilância antiterrorista e da centralização do poder de Estado.

Viu-se que a conjugação da austeridade econômica e da brutalidade policial é uma mistura combustível que tem alimentado as chamas da fúria nas cidades britânicas e agitado o país. Não é preciso ser um gênio para prever que os motins hão-de regressar periodicamente se não ocorrerem transformações nesta sociedade fundamentalmente desigual e racista. Como consequência desta insurreição, o modelo de austeridade britânico perdeu sua aura e agora serve como alerta para os limites da paciência popular perante as devastações selvagens do neoliberalismo, que levou à Grande Recessão e está desesperadamente tentando renascer das cinzas.

Este artigo foi publicado originalmente em The Zeleza Post.
Acerca do autor, veja aqui.
Traduzido para o Passa Palavra por Lucas Morais.
Fonte: http://passapalavra.info/