segunda-feira, 24 de outubro de 2011

[EUA] Participação e influências anarquistas no Movimento “Occupy Wall Street” - por ANA

[EUA] Participação e influências anarquistas no Movimento “Occupy Wall Street”Tenho acompanhado os debates em espanhol sobre o movimento “Occupy Wall Street” e vejo que há muita falta de informação e curiosidade acerca de como surgiu esse movimento, como se organiza e qual tem sido a posição dos anarquistas a respeito. A informação que compartilho vem de conversas com David Graeber, que foi um dos organizadores originais das assembléias em Nova York de onde surgiu o movimento, nossas próprias observações dos eventos “Occupy” em Austin, Texas, e dos debates entre ativistas anarquistas nas listas e fóruns de discussão aqui nos Estados Unidos, entre outras fontes¹.

Uma revista cultura canadense que critica os anúncios comercias – Adbusters – convocou, em sua edição de julho de 2011 e por sua mala direta de aproximadamente 90.000 pessoas nos Canadá e nos EUA, uma ocupação de Wall Street em 17 de setembro. Parece que Adbusters acreditava na idéia que é difundida na mídia ultimamente, acerca dos movimentos no Egito e Tunísia: que hoje em dia a revolução se arma por correio eletrônico e Facebook. Como resposta, formou-se uma coalizão de ONGs, sindicatos e grupos socialistas, que anunciaram uma “Assembléia Geral” em 2 de agosto em um parque perto de Wall Street (“Bowling Green”) para organizar a ocupação, que a Adbusters logo anunciou. A notícia se espalhou pelos meios militantes de Nova York. Uns tantos ativistas anarquistas de lá começaram a debater sobre como responder. A revista Adbusters tem certa fama e influência, era muito possível que chegasse muitos grupos ao parque devido a sua convocatória: deveriam, os anarquistas, assistir à assembléia para tentar instigar algo interessante? Alguns disseram que não queriam nada com algo convocado por socialistas e pela Adbusters, uma revista “progressista” um tanto burguesa. Outros decidiram ir, incluindo pessoas que haviam participado na Rede de Ação Direta (Direct Action Network – DAN) que coordenava as manifestações e ações diretas na América do Norte entre 1999 (Seattle) e 2003.

Quando chegaram os ativistas anarquistas e anti-autoritários ao parque em 2 de agosto, já estavam ali os do Workers World Party (“Partido Mundial dos Trabalhadores” - que os anarquistas conhecem como Stalinistas), com seus microfones e bandeiras, dizendo às pessoas ali congregadas que o plano (seu plano) era marchar à Wall Street imediatamente. Também haviam chegado os Trotskistas da ISO – International Socialist Organization (Organização Internacional Socialista), vários ativistas de movimentos estudantis e ativistas que haviam participado em um protesto (“Bloombergville”) contra o novo programa de austeridade implementado pelo prefeito da cidade de Nova York, que haviam se dispersado um pouco antes.

O coletivo de anarquistas caminhou entre os grupos buscando pessoas de possível afinidade política, reconhecendo rostos e camisas do “Comida, Não Bombas”, coletivos Zapatistas, a Cruz Negra, etc. Perguntaram a estas pessoas se queriam ter uma verdadeira assembléia para organizar uma ocupação, em vez de seguir aos líderes do WWP em uma marcha. Pouco depois, o grupo anti-autoritário – agora mais amplo - convocou uma assembléia para as 20 horas ali mesmo e a informação correu entre os demais grupos que estavam no parque. Entretanto, os WWP foram a sua marcha. Os ISO (os Trotskistas) se dividiram entre a marcha do WWP e a assembléia. Muitos estudantes e os ativistas de “Bloombergville” ficaram para a assembléia. Estiveram também um casal da Espanha que havia participado no movimento dos “indignados” durante os meses anteriores na Espanha, um homem da Tunísia que esteve lá durante a rebelião, e uma mulher anarquista da rede anti-autoritária VOID da Grécia, e todos compartilharam suas perspectivas e conselhos.

A primeira coisa que foi discutida na primeira assembléia foi a questão do processo: decidiram que a assembléia funcionaria por “consenso modificado”, quer dizer, primeiro se tenta chegar a acordos por consenso unânime, mas se depois de muito debate permanecer conflito não resolvido, ou seja, se pelo menos duas pessoas seguem bloqueando, com um voto de 2/3 será tomada uma decisão. Decidiram que houvesse uma Assembléia Geral todos os sábados para organizar a ocupação. Comitês foram formados (“working groups”): um grupo para organizar oficinas de formação em moderação/consenso, um grupo para organizar oficinas de desobediência civil, de como trabalhar em grupos de afinidade, de ação direta, etc. (hoje em dia existem muitos comitês mais - há mais de 35 comitês, incluindo um de saúde, uma biblioteca pública, uma junta médica, etc.). Decidiu-se inicialmente que os comitês seriam autônomos em seu processo interno, e que relatariam seus progressos e planos para a Assembléia Geral. No entanto, como a AG também decidiu que seria respeitado o princípio da “diversidade de táticas”, disse que se um grupo de afinidade quisesse preparar uma ação sem informar a AG por razões práticas ou de segurança, teria todo o direito de fazê-lo. Para que este modelo servisse, concordaram que, se um grupo de afinidade quisesse fazer algo muito combativo, que o fariam de tal forma a evitar, tanto quanto possível, colocar os outros ativistas em perigo, e por sua vez os outros ativistas não questionariam a decisão de realizar tal ação.

Entre 2 de agosto e 17 de setembro os anarquistas que estiveram no início tentaram atrair mais ativistas anarquistas para que o movimento não fosse dominado por seitas autoritárias, e para auxiliá-los em oficinas de ação direta, consenso, etc. Mais pessoas chegaram da velha Rede de Ação Direta (DAN), alguns dos “War Resisters League”, U. S. Uncut, Food Not Bombs, a IWW, e outros insurrecionalistas. Muitos anarquistas, no entanto, se recusaram a envolver-se, dizendo que não tinham fé ou interesse no movimento por ser uma coalizão de gente com muita diversidade política, isto é, pessoas sem muita experiência política, reformistas liberais, marxistas, etc., e também porque acreditavam que uma ocupação não seria suficientemente combativa taticamente. É verdade que era, e continua sendo, uma coalizão muito ampla, com todos os desafios envolvidos. Os WWP se foram, mas muitos do ISO seguem envolvidos como indivíduos (ISO mandou que seus membros se retirassem, mas vários não obedeceram), e segue havendo ainda vários conflitos entre os anarquistas e eles. Por exemplo, tiveram que lutar pelo controle do site, e é por isso que existem duas páginas². Entretanto, milhares de pessoas se agregaram mais - cada vez que a polícia tenta reprimir, mais gente sai às ruas. A energia, a raiva e a loucura que se mostra em vez da habitual apatia têm surpreendido a todos nós. E parece que, embora haja pessoas muito diferentes politicamente, como já foi estabelecida a assembléia e seus processos, incluindo a “diversidade de táticas”, todos agitam a sua própria maneira, e até agora têm sido capazes de cooperar sem grandes problemas.

Tudo isso sobre o movimento em Nova York. A descrição anterior não se aplica necessariamente aos movimentos em outras cidades. Em todos os lugares se ocupa em consenso, organiza-se uma assembléia geral e comissões, e compartilha-se a idéia de que sejam “autônomos”. Mas, em alguns casos, a definição de autonomia não é muito precisa, e não respeitam o princípio da “diversidade de táticas”. Por exemplo, aqui em Austin, Texas, tem havido uma grande polêmica nas últimas duas semanas sobre um grupo de “sem-teto” que tentou fazer um protesto no lado oposto do protesto principal do “Occupy Austin” junto com um grupo de anarquistas que se solidarizam com eles. A assembléia geral do “Occupy Austin” denunciou o acampamento dos sem-teto, dizendo que estavam “seqüestrando” o movimento “autêntico” do Occupy Austin, cujo objetivo é simplesmente “apoiar o movimento de Wall Street”. Também disseram que este outro protesto “sujaria” o nome do movimento “real”, porque os sem-teto deveriam solicitar uma “permissão para acampar”, como eles fizeram. Claro que essa gente branca de classe média do primeiro protesto não reflete sobre como o privilégio ajuda-os a obter uma “permissão para acampar”, e também estão negando completamente a definição de “ocupação”. Finalmente os anarquistas aqui em Austin responderam apresentando uma proposta à assembléia geral em Nova York, solicitando uma palavra oficial em apoio ao acampamento dos sem-teto. Portanto, os Occupy Austin não podem dizer que estão “apoiando o movimento em Wall Street” se não apóiam os sem-teto. A assembléia em NY aceitou a proposta, e expressaram seu apoio em 15 de outubro. Vamos ver o que acontece... É muito provável que existam duas ocupações diferentes.

Conto-lhes essa história como um exemplo: o conflito em Austin tem sido somente um entre vários conflitos parecidos que estão surgindo no movimento nacional acerca de como e quanto o movimento responde à opressão e necessidades particulares das pessoas mais marginalizadas, das pessoas de cor, dos sem-teto, das mulheres, e dos indígenas cujas terras têm sido “ocupadas” por uma população colonizadora. Para visibilizar esta última questão, em Montreal, Canadá (de onde sou), foram feitas ações simultâneas em 15 de outubro: “Ocupar Montreal” e “Descolonizar Montreal”, organizadas pelos anarquistas. Em Nova York e outras cidades estão se formando assembléias gerais em espanhol que se coordenam com a assembléia geral em inglês, para melhor envolver as pessoas que tem por idioma o espanhol. Ou seja, há muito debate, muitas tentativas, e muitos caminhos.

Tem havido debate constante entre anarquistas nos EUA sobre se deveríamos participar, e como. Em todas as cidades há anarquistas que se envolvem porque mesmo que o movimento não seja tão radical quanto queiram, o vêem como uma oportunidade de compartilhar ferramentas, experiência, inspiração, e uma análise mais profunda e histórica sobre a situação social, econômica e política atual. Também, em todas as cidades, há anarquistas que se abstêm. Conta um companheiro em um dos vários debates:

“Anarquistas por todos os lados se queixam e criticam o reformismo do movimento Occupy. Considero esta atitude legítima e problemática ao mesmo tempo... Nós que temos estado envolvidos nos movimentos anarquistas há muito tempo tendemos a ser céticos quanto a movimentos sem uma ideologia bem definida, e com razão... Mas este cinismo às vezes nos cega a eventos e ações que buscam capturar o imaginário popular de uma maneira que não podemos predizer ou controlar.

Algumas das ações mais emocionantes durante a rebelião na Grécia foram, a princípio, condenadas por anarquistas pela “inocência” das pessoas que participaram, mas logo se transformaram em assembléias gerais amplas, onde assistiam trabalhadores, aposentados, donas de casa, imigrantes e os anarquistas. Os anarquistas abriram o espaço e asseguraram que se escutassem diversas vozes. As palavras e ações que logo surgiram destas assembléias populares não eram as mais “sofisticadas” ideologicamente, mas eram palavras e ações que surgiram de encontros autenticamente populares, que respondiam a problemas práticos, legítimos e reais, em vez de puros discursos... A verdade é que acredito que deveria emocionar-nos que as pessoas de fora de nosso “meio militante” esteja tomando as ruas e manifestando um discurso tão radical quanto “Ocupar”... Se isto não é uma oportunidade para radicalização em grande escala, não sei o que poderia sê-lo...

A ISO e seu grupo são adeptos de seqüestrar coalizões. Isso é devido a serem autoritários e vanguardistas. Não proponho que façamos como a ISO, mas creio que deveríamos nos meter em coalizões, agitar e tentar instigar o movimento para uma direção mais libertária e radical, e não excluir a cada um que não leve um moicano ou tenha o mesmo vocabulário sofisticado como nós...

Isto posto, em qualquer coalizão, está claro que se deve ser muito cuidadoso com a infiltração de pessoas de direita. Por um lado creio que vale a pena nos envolvermos no movimento simplesmente para evitar que os direitistas o dominem. A ala anti-imigrante da direita “libertária” tentou infiltrar o movimento contra a guerra, com lemas como “Que regressem as tropas, que os coloquemos na fronteira”... Se a direita se apodera deste movimento durante sua formação, poderia ser bem perigoso. Não queremos estar em coalizão com estes desgraçados, mas tampouco não queremos deixá-los apoderarem-se e guiar o movimento.

E ao final pode ser que fracassemos. Talvez iremos investir muito tempo e energia neste fenômeno para logo terminar sem conquistar nada. Mas se não se morre, e ao invés disso nos mantemos ali apenas observando, que fracasso maior seria esse! Queremos ser agentes ou espectadores da história?”


Creio que podemos constatar que a presença e a influência anarquista neste movimento tem sido significante - pela influência anarquista em sua organização inicial e como os anarquistas têm conduzido suas formas e processos internos desde então. Além disso, o fato de não haver “demandas claras” (uma crítica comum nos meios comerciais) tem a ver com o fato da maioria das pessoas envolvidas não ter nenhuma ponta de fé no Estado para resolver a situação econômica. Muitos dizem “não vamos reivindicar nada do Estado, nem respeitar sua autoridade para pedir-lhe coisas; o desafio é buscar outra maneira de fazer a sociedade aqui e agora mesmo”. De certa maneira esta posição é implicitamente anarquista, e muita gente envolvida não tem uma linha política clara, nem uma clara análise histórica do Estado ou do capitalismo. Nós os anarquistas levamos tudo isso em conta, refletimos e debatemos, e ao final cada qual decide de maneira autônoma se quer envolver-se ou não, e respeitamos as decisões dos demais.

Escrito em 21 de outubro de 2011 em Austin, Texas, EUA, por Erica Lagalisse
[1] Veja também um artigo próprio de David Graeber (em inglês) em: http://www.nakedcapitalism.com/2011/10/david-graeber-on-playing-by-the-rules-%E2%80%93-the-strange-success-of-occupy-wall-street.html
[2] http://www.nycga.net/, http://occupywallst.org/

agência de notícias anarquistas-ana
Um cão sonolento
esticou as patas
e soltou um vento
Eugénia Tabosa

Dilmismo e a Corrupção Moral. Poderia ficar pior? - por Juliana Borges


Fonte: http://peledaterra.blogspot.com/

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Os gangsters imperialistas - por Guillermo Almeyra (*)

Os gangsters imperialistasKadafi foi assassinado para que não fosse levado a nenhum tribunal, onde poderia contar tudo o que sabia sobre as relações entre seu governo e a CIA, o governo e os serviços de inteligência britânicos, Sarkozy e seus “barbudos”, Berlusconi e a máfia, e poderia também lembrar quem são Jibril e Jalil, principais líderes atuais do Conselho Nacional de Transição e, até bem pouco tempo, seus fieis agentes e servidores.

Um vídeo, publicado pelo Le Monde, mostra Muammar Kadafi capturado vivo e lichado por seus inimigos. Ele não morreu, portanto, em um bombardeio da OTAN quando fugia em um comboio nem em consequência das feridas recebidas quando o levavam em uma ambulância.

Ele foi simplesmente assassinado para que não fosse levado a nenhum tribunal porque aí poderia contar tudo o que sabia sobre as relações entre seu governo e a CIA, o governo e os serviços de inteligência britânicos, Sarkozy e seus “barbudos”, Berlusconi e a máfia, e poderia também lembrar quem são Jibril e Jalil, principais líderes atuais do Conselho Nacional de Transição e, até bem pouco tempo, seus fieis agentes e servidores.

A lista dos limões espremidos é longa: o panamenho Noriega, agente da CIA convertido em um estorvo, salvou-se do bombardeio ao Panamá que tentava assassiná-lo e jamais foi apresentado em um tribunal legítimo. Saddam Hussein, agentes dos EUA durante a longa guerra de oito anos contra os curdos e contra o Irã, teve sim um processo em um tribunal, mas composto por funcionários dos EUA e carrascos, nada de sua defesa política ganhou repercussão e terminou enforcado de modo infame.

Bin Laden, agente da CIA junto com os talibãs durante toda a guerra contra os soviéticos no Afeganistão e sócio do presidente George Bush na indústria petroleira, foi assassinado desarmado em uma grande operação típica de gangsters e foi lançado ao mar para que não falasse em um processo e para que nem sequer sua tumba pudesse servir como ponto de encontro a todos os que no Paquistão e no Afeganistão repudiam o colonialismo dos criminosos imperialistas.

Agora, os imperialistas franco-anglo-estadunidenses acabam de utilizar a barbárie e o ódio inter-tribal para se livrar de Kadafi que, como prisioneiro, era um perigo para eles. O novo governo líbio que surgirá depois de uma luta feroz entre os diversos clãs e interesses que integram o atual CNT, poderá renegociar assim a relação de forças entre as diferentes regiões e tribos sem o kadafismo e sob a tentativa imperialista de submetê-lo, mas afogou o passado em um banho de sangue e nasce coberto de horror e de infâmia perante o mundo.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer
Kadafi não será lembrado pelos líbios como um novo Omar Mukhtar, o líder da resistência ao imperialismo italiano enforcado pelos fascistas, porque antes de ser assassinado por seus ex-sócios e servidores também foi responsável por inúmeros crimes e enormes traições. Mas seu linchamento cairá como uma mancha a mais sobre seus executores e sobre os mandantes da turba feroz que o despedaçou aplicando-lhe a pena de morte selvagem que os imperialistas decretam contra seus agentes que precisam despachar.

(*) Professor de Relações Sociais da UNAM ( Universidade Autônoma do México) e colaborador do jornal mexicano La Jornada.
Tradução: Marco Aurélio Weissheimer
Fonte: www.cartamaior.com.br/
Charge: Latuff : http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

Na Dança de 'Dinam-Nietzsche'* por Eduardo Lamas

Na Dança de 'Dinam-Nietzsche'Filólogo, poeta, pianista e, mais que tudo, filósofo, Friedrich Wilhelm Nietzsche foi um iconoclasta que passou a vida inteira questionando o homem e a sua vida na sociedade, que de seu tempo para cá, na essência, pouco ou nada mudou. Há algumas semanas o jornal O Globo publicou uma matéria afirmando que o estudo de Nietzsche virou moda no Rio. Depois que Che, Gandhi, Jesus Cristo e outros revolucionários foram transformados pela sociedade capitalista em ícones para ávido consumo, não é de se estranhar que o filósofo alemão também entre na dança.

Mas, quem não ficar apenas vestido com uma estampa do bigodudo na camisa saberá que a dança do autor de Assim falou Zaratustra não tem coreografia, é livre e libertadora. E saberá, a partir da leitura do que escreveu Nietzsche, que da verdade mesmo, ninguém a suporta. Para ele a vida precisava ser vivida com a linha esticada ao máximo e desancava quem vendia terrenos no céu ou transmundos, como dizia. A noção de que existe vida após a morte era inconcebível para Nietzsche. Como se vê, o debate é mais do que atual.

"Eu só poderia crer num Deus que soubesse dançar"

Esse alemão, que admirou e depois se afastou de Richard Wagner, elaborou o conceito do eterno retorno e do super-homem, mas não o herói de Kriptônia. Para ele, o homem deve superar-se, usando ao máximo sua sensibilidade, mas sem perder a sua racionalidade. A vontade de poder a que se refere Nietzsche é exatamente esta: a do poder sobre si mesmo. Portanto, mais um ótimo tema para a discussão dos vários vícios a que se entregou a sociedade contemporânea.

A fraqueza do homem, segundo Nietzsche, o transformou num ressentido e a compaixão, a caridade, a anulação do indivíduo pelo coletivo nasce dessa reação a que o rebanho - as massas - se entrega com devoção. O filósofo alemão pregou a transvaloração dos valores, pois entendia que os valores tradicionais, especialmente os cristãos, nada mais eram do que uma moralidade escrava. “Deus está morto”, decretou na voz de Zaratustra.

Nietzsche era autor de frases verdadeiramente bombásticas, algumas proféticas. Alguém duvida da atualidade do que disse, no século em que viveu, o XVIII: “Mais um século de jornais e as palavras se corromperão”? E, em tempos de guerras sob justificativas absurdas, há como negar que ele estivesse certo quando afirmou que “As convicções são mais inimigas da verdade do que as mentiras”? E quem, senão os covardes, ousaria descrer no conselho “Floresça onde você estiver plantado”?

Em suma, Nietzsche buscou em toda a sua vida o que ensinou: a busca pelo conhecimento, mas não para segui-lo como doutrina e sim para a criação, a transformação, a reinvenção do mundo. Um trabalho, sem dúvida, para um super-homem ou, numa melhor tradução, para quem busca o além do homem.

"Agora sou leve, agora eu vôo... agora um deus dança em mim"

Para quem quer mesmo conhecer esse polêmico filósofo alemão, que teve a obra deturpada pela irmã ao associá-la ao nazismo, do qual ela era simpatizante, antes mesmo de ler seus livros uma boa pedida é a biografia intelectual traçada por Rüdiger Safranski em “Nietzsche, a biografia de uma tragédia”, lançado no Brasil pela Geração Editorial.

Lá está, por exemplo: “O animal consciente homem, com horizonte de passado e futuro, raramente se satisfaz de todo com o seu presente, e por isso sente algo que certamente nenhum animal conhece, isto é, o tédio. Fugindo do tédio, essa singular criatura procura uma excitação que, se não for encontrada, tem de ser inventada. O homem se torna um animal que brinca. O jogo é uma invenção que entretém os afetos. O jogo é a arte de auto-excitação dos afetos, a música, por exemplo. A fórmula antropológico-fisiológica para o segredo da arte é pois: a fuga do tédio é a mãe das artes.”Mini-biografia - Nietzsche nasceu em 15 de outubro de 1844, em Rocken, na Saxônia, e perdeu seu pai, que era luterano, aos cinco anos de idade. Foi criado pela mãe com sua avó, duas tias e uma irmã. Estudou filologia em Bonn e Leipzig e com 24 anos já era professor. No entanto, a prejudicada visão e as fortes dores de cabeça que o perseguiram até o fim da vida, em 25 de agosto de 1900, em Weimar, causaram a sua aposentadoria precoce em 1879. Dez anos depois ele sofreu um grave problema mental do qual nunca se recuperou.

Além da influência da cultura grega, da qual era mestre, Nietzsche foi influenciado por outro filósofo alemão, Schopenhauer, pela teoria da evolução e pelo seu amigo compositor Richard Wagner. Mas a todos questionou, afastou-se e criou seus próprios conceitos.

Entre seus principais livros estão O Nascimento da Tragédia (1872), Assim falou Zaratustra, um livro para todos e para ninguém (1883-85), Além do Bem e do Mal (1886), Sobre a Genealogia da Moral (1887), O Anticristo (1888), Ecce Homo (1889) e A Vontade de Poder (1901).

“Conheço minha sina. Algum dia meu nome estará ligado a qualquer coisa enorme – a uma crise como nunca houve na terra, ao mais profundo conflito de consciência, a uma decisão invocada contra tudo aquilo que, até aqui, se acreditou, se estimulou, se santificou. Eu não sou um ser humano, sou dinamite...” “...Tenho um medo horrível de que um dia me proclamem santo.” (Fridriech Nietzsche, em Ecce Homo)

* Este texto foi escrito em 2003
Fonte: http://www.eduardolamas.blogspot.com/

Por que precisamos de outra democracia - Por Toni Negri e Michael Hart

Por que precisamos de outra democraciaMovimentos não protestam apenas contra injustiça. Perceberam que instituições submeteram-se aos interesses financeiros – e precisam ser mudadas

As manifestações sob a bandeira de Occupy Wall Street ressoam em tantas pessoas, não só porque dão voz a uma sensação de injustiça econômica, mas também, e talvez mais importante, porque manifestam sofrimentos e aspirações políticas. Ao espalharem-se da parte sul de Manhattan para cidades grandes e pequenas por todo o país, mostraram que a indignação contra a ganância das grandes corporações e a desigualdade econômica é real e profunda. Mas, no mínimo tão importante quanto isso, é o protesto contra a falta – ou o fracasso – da representação política. Não é tanto a questão de se um ou outro político, esse ou aquele partido, nada faz ou é corrupto (embora isso, também, seja verdade), mas de se o sistema político representativo é, em termos gerais, inadequado. Esse movimento de protesto pode, e talvez consiga, converter-se processo democrático constituinte genuíno.

A face política dos protestos de Occupy Wall Street aparece quando o pomos ao lado de outros “acampamentos” do ano em curso. Juntos, formam um ciclo emergente de lutas. Em muitos casos, as linhas de influência são claras. Occupy Wall Street inspirou-se nos acampamentos das praças centrais na Espanha, que começaram dia 15 de maio, depois da ocupação da Praça Tahrir, no Cairo, no início da primavera. A essa sucessão de manifestações, é preciso acrescentar vários outros protestos, como as longas manifestações na Assembleia Estadual em Wisconsin, a ocupação da Praça Syntagma em Atenas, os acampamentos de israelenses por justiça econômica. O contexto desses vários protestos são muito diferentes, claro; e não são simplesmente repetição do que acontecera noutros lugares. Mas cada um desses movimentos conseguiu traduzir para a própria situação alguns elementos comuns.

Na Praça Tahrir, a natureza política do acampamento e o fato de que os manifestantes não eram nem jamais seriam representados, em nenhum sentido, pelo atual regime, eram visíveis. A exigência “Mubarak tem de sair” mostrou-se suficientemente potente para envolver todas as demais questões. Depois, nos acampamentos da Porta do Sol em Madri e da Praça Catalunha em Barcelona, a crítica da representação política foi mais complexa. O protesto espanhol reuniu vasto conjunto de demandas sociais e econômicas – sobre o déficit público, moradia e educação, dentre outras –, mas sua “indignação”, que a imprensa espanhola rapidamente apontou como a emoção que os definia, foi claramente dirigida contra um sistema político incapaz de tratar daquelas questões. Contra o arremedo de democracia que o atual sistema representativo oferece, os manifestantes dirigiram um dos seus principais slogans: “Democracia real ya,” ou “Democracia real, já”.

Occupy Wall Street deve ser entendido, então, como mais um desenvolvimento ou permutação dessas exigências políticas. Mensagem alta e clara dos protestos, é claro, é que os banqueiros e as indústrias da finança de modo algum nos representam: O que é bom para Wall Street com certeza não é bom para o país (ou para o mundo). E parte mais significativa do fracasso da representação, portanto, deve ser atribuída aos políticos e aos partidos políticos aos quais compete representar os interesses do povo, mas que, de fato, só representam, mais claramente, os bancos e os agentes que emprestam dinheiro. Esse reconhecimento leva a uma questão aparentemente simplória, básica: a democracia não deveria ser o governo do povo sobre a pólis – quer dizer, sobre toda a vida social e econômica? Em vez disso, o que se vê é que a política tornou-se subserviente aos interesses econômicos e financeiros.

Ao insistir na natureza política dos protestos de Occupy Wall Street, não estamos dizendo que todas as questões políticas possam ser equacionadas em termos das disputas entre Republicanos ou Democratas, ou os resultados do governo Obama. Se o movimento continuar a crescer, é claro, talvez force a Casa Branca ou o Congresso a tomar novos rumos de ação, e pode vir a ser, mesmo, significativo ponto de contenção durante o próximo ciclo eleitoral presidencial.

Mas tanto o governo Obama quanto o governo George W. Bush são autores de “resgates” de bancos e banqueiros. A falta de representação, que os protestos evidenciaram, aplica-se aos dois partidos. Nessas circunstâncias, o clamor dos espanhóis por “democracia real, já” soa ao mesmo tempo, urgente e desafiador.

Se observados em conjunto, esses diferentes acampamentos de protesto – do Cairo a Atenas, Madison, Telavive, Madrid e, agora, New York – manifestam uma insatisfação com as estruturas da representação política. O que oferecem, como alternativa? O que é a “democracia real” que tantos propõem?

As pistas mais claras estão na própria organização interna dos movimentos – especificamente, no modo como os acampamentos oferecem novas práticas democráticas. Esses movimentos desenvolveram-se segundo o que designamos como “uma forma multitudinária” e são caracterizados por frequentes assembleias e estruturas participativas para construir e tomar decisões. (E vale a pena observar que, quanto a isso, Occupy Wall Street e várias das demais manifestações também têm raízes nos movimentos de protesto antiglobalização que se estenderam, no mínimo, de Seattle em 1999 a Gênova em 2001.)

Muito se tem dito sobre mídias sociais como Facebook e Twitter, sempre usados nos acampamentos. Esses instrumentos de rede, evidentemente, não criam os movimentos, mas são ferramentas úteis, porque, em vários sentidos, correspondem à estrutura dos experimentos horizontais e democráticos dos próprios movimentos. Em outras palavras, o Twitter é útil, não porque divulga eventos, mas porque reúne as ideias de uma grande assembleia, para uma específica decisão, em tempo real.

Não espere que os acampamentos, então, desenvolvam líderes ou representantes políticos. Nenhum Martin Luther King, Jr. vai emergir das ocupações de Wall Street e outras. Para melhor ou para o pior – e certamente estamos entre aqueles que consideram OccupyWallStreet um assunto promissor – este ciclo emergente de movimentos vai se expressar através de estruturas de participação horizontal, sem representantes específicos. Tais experiências de organização democrática em pequena escala teria que se desenvolver muito mais, é claro, antes de se poder elaborar modelos eficazes para uma alternativa social, mas os ocupantes expressam poderosamente sua aspiração por uma “democracia real”.

Enfrentando a crise (financeira do capitalismo) e vendo claramente a forma como ela está sendo gerenciada pelo sistema político atual, os jovens que participam dos vários acampamentos fazem, e com inesperada maturidade, a desafiadora pergunta: “Se a democracia – ou seja, a democracia que temos hoje – está atônita sob os golpes da crise econômica e é impotente para fazer valer a vontade e os interesses da multidão, não seria a hora , talvez, de considerar que esta forma de democracia seja obsoleta?”.

Se as forças políticas geradas pelo poder da riqueza e das finanças passaram a defender interesses supostamente democráticos das atuais Constituições, incluindo a dos EUA, não é possível e mesmo necessário, hoje, propor e construir novos valores constitucionais que possam abrir avenidas e retomar o processo de busca coletiva da felicidade? Tal raciocínio e tais demandas, já vivamente explicitados nos movimentos idênticos que acontecem na Europa e na África Mediterrânea que se implantaram pelos EUA a partir de Wall Street, mostram a necessidade de um novo processo Constituinte e democrático.

Fonte:http:www.outraspalavras.net

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O Fim dos ditadores - por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

Palestinos. Impessoas. Livres!

Palestinos. Impessoas. Livres!Ao analisar troca de prisioneiros Hamas-Israel, Noam Chomsky sustenta: elites ocidentais e mídia tratam 3/5 do planeta como sub-humanos
Depoimento a Amy Goodman, do Democracy Now | Tradução: Antonio Martins

Noam Chomsky, professor emérito do Massachussets Institute of Technology (MIT), linguista mundialmente renomado e ativista politico, falou segunda-feira (17/10) à noite no Barnard College, em Nova York, sobre o conflito entre Israel e Palestina. Poucas horas antes, as duas partes haviam completado uma troca histórica de prisioneiros. O soldado israelense Gilad Shalit voltou para casa, depois de cinco anos no cativeiro em Gaza. Em contrapartida, Israel libertou 477 prisioneiros palestinos. Outros 550 estarão livres em dois meses. Quarenta dos prisioneiros serão deportados para Síria, Qatar, Turquia e Jordânia. Na terça-feira (18/10), houve celebração gigantesca em Gaza (foto). Grupos de apoio aos palestinos aprisionados frisam que mais de 4 mil permanecem no cárcere em Israel.

Horas antes de sua conferência, Chomsky foi entrevistado por Amy Goodman, do site “Democracy Now”. “Penso que o soldado israelense Gilad Shalit deveria ter sido libertado muito tempo atrás”, disse ele. Mas provocou: “Falta algo nesta história. Não há imagens das mulheres palestinas e nenhuma discussão sobre a história dos palestinos libertados. De onde eles vêm?”

Para explicar este ocultamento, Chomsky usou um neologismo poderoso e terrível: impessoas. A legislação dos Estados Unidos e da maior parte dos países ocidentais conserva princípios jurídicos democráticos. Porém, para ele, três décadas de retrocessos políticos e culturais reinstituíram uma forma ideológica de racismo que era comum no período da caça aos índios, ou da escravidão. É como se a parte não-branca da humanidade estivesse excluída dos das garantias civis, por ser sub-humana. Este retrocesso explicaria, por exemplo, a campanha de execuções praticada por Washington, em várias partes do mundo, por meio de aviões não-tripulados. E tornaria ainda mais indispensável a onda de rebeldia “contra políticos e banqueiros”, que se espalha precisamente nos países onde o retrocesso é mais grave. Ou mesmo vitórias parciais, como a libertação dos 477 prisioneiros palestinos e do soldado Gilad Shalit.

Leia, a seguir, a fala de Chomsky a “Democracy Now” – que inclui, quase ao final, curiosa menção ao Brasil….

Há cerca de uma semana, o New York Times publicou uma matéria intitulada “O Ocidente celebra a morte de um clérigo”. Era Anwar al-Awlaki, morto por um avião não-tripulado (drone). Não foi apenas morte: foi assassinato, e outro passo a mais na campanha global de assassinatos do governo Obama, que está quebrando recordes em matéria de terrorismo internacional.

Bem, nem todo o Ocidente celebrou. Houve alguns críticos. Quase todos criticam a ação pelo fato de Awlaki ser um cidadão norte-americano. Ou seja, ele era uma pessoa, ao contrário de suspeitos que são assassinados intencionalmente ou por “dano colateral”. Significa que os tratamos como formigas em que se pisa quando se anda pela rua. Não são cidadãos norte-americanos – portanto, são impessoas, e podem ser livremente mortos.

Alguns lembrarão – se tiverem boa memória – que havia um conceito jurídico anglo-saxão chamado “presunção de inocência”. Todos éramos inocentes até prova em contrário em juízo. Ele está tão mergulhado na história que é quase impossível resgatá-lo – mas de fato, existiu. Alguns dos críticos ao assassinato lembraram a Quinta Emenda à Constituição norte-americana, segundo a qual nenhuma pessoa – “pessoa”, atentem – será privada da vida, liberdade ou propriedade sem o devido processo legal. Bem, é claro que nunca se pretendeu aplicar a emenda a impessoas.

E há impessoas de diversas categorias, Em primeiro lugar, a população indígena, seja nos territórios já então possuídos ou nos seria conquistados depois. O princípio não se aplicava a eles. E, é claro, não valeu para os negros e não-brancos, que constituem três quintos da população do planeta.Esta segunda categoria de impessoas foi, em tese, promovida pela 14ª Emenda. Essencialmente com as mesmas palavras da Quinta Emenda, ela passava a incluir os antigos escravos negros. Bem, ao menos em teoria. Na prática, quase não aconteceu. Depois de aproximadamente dez anos, os três quintos da espécie foram reconduzidos à categoria de impessoas pela criminalização segregacionista da vida negra. Em essência, ela restabeleceu a escravidão – talvez em condições até piores – e estendeu-se até a Segunda Guerra Mundial. E está sendo reinstituída agora, depois de trinta anos de severo retrocesso moral e social nos Estados Unidos.

Bem, a 14ª Emenda está sendo vista agora como problemática. O conceito de pessoa era ao mesmo tempo muito amplo e muito estreito. As cortes trabalharam para superar ambos os problemas. O conceito de pessoa foi ampliado para incluir ficções legais, criadas e conservadas pelo Estado, que são chamadas de corporações; e foi estreitado para excluir alienígenas indocumentados. Isso vem até o presente: casos recentes da Suprema Corte deixa claro que as corporações não apenas são pessoas, mas pessoas com direitos bem superiores às de carne e osso: um tipo de superpessoas. Os mal-chamados “acordos de livre comércio” deram-lhes direitos assombrosos. E, é claro, a Suprema Corte acrescentou alguns.

Mas a necessidade crucial era assegurar que a categoria de impessoas incluísse os que escaparam dos horrores que criamos na América Central e México, e tentam chegar aqui. Eles não são pessoas, são impessoas. Isso inclui, é claro, os estrangeiros, especialmente se acusados do terror . É, aliás, um conceito que passou por uma transformação interessantíssima desde 1981, quando Ronald Reagan chegou ao governo e declarou a guerra global ao terror – GWOT, na terminologia fantasiosa de hoje. Não vou me aprofundar no assunto, exceto para um breve comentário sobre como o termo é usado atualmente, quase de modo imperceptível.

Tomemos, por exemplo, Omar Khadr. É um garoto de quinze anos, um canadense. Foi acusado de um crime muito severo – ou seja, a tentativa de defender seu povoado no Afganistão contra invasores norte-americanos. É, óbvio, um crime grave praticado por um terrorista perigoso. Por isso, Omar foi enviado primeiro para a prisão secreta de Bagram, depois para Guntánamo, por oito anos. Foi considerado culpado de alguns crimes. Todos sabemos o que isso significa. Quem quiser, pode obter alguns detalhes na própria Wikipedia – ou mais, em outras fontes.

Omar declarou-se culpado de alguns crimes e foi condenado a mais oito anos. Poderiam ser mais – até trinta – se não tivesse confessado a culpa. Afinal de contas, é um crime grave. Como ele é canadense, o país poderia requerer sua extradição. Mas recuou, com a coragem que lhe é peculiar. Não querem ofender o chefe, compreensivelmente.

Bem, o crime de resistência à agressão não é uma nova categoria de terrorismo. Talvez alguns de vocês sejam velhos o suficiente para lembrar do slogan “terror contra o terror”, que foi usado pela Gestapo, e que nós recuperamos. Nada disso desperta interesse, porque todas as vítimas pertencem à categoria de impessoas.

Para voltar a nosso assunto, o conceito de impessoas é central no debate desta noite. Os judeus israelenses são pessoas; os palestinos, impessoas. E muitas consequências emergem daí, como se vê frequentemente. Tenho comigo um clipping do New York Times. Matéria de capa de quarta-feira, 12 de Outubro: “Acordo com Hamas libertará israelenses preso desde 2006”. É Gilad Shalit. E bem próxima à matéria, uma imagem de quatro mulheres quase em agonia pela sorte de Gilad. “Amigos e apoiadores da família do sargento Gilad Shalit recebem informação sobre o acordo, na tenda de protesto da família, em Jerusalém”, é a legenda.

É compreensível. Penso que o soldado deveria ter sido libertado há muito tempo. Mas falta algo em toda esta história. Não há imagens das mulheres palestinas, nem discussão alguma sobre a história dos palestinos que serão libertados. De onde vêm?

Haveria muito a dizer sobre isso. Não sabemos, por exemplo – ao menos, não consegui ler no NYTimes – se a libertação inclui os palestinos – as autoridades palestinas eleitas – que foram sequestradas e aprisionadas por Israel em 2007, quando os Estados Unidos, a União Europeia e Israel decidiram dissolver o único parlamento eleito livremente no mundo árabe. A este gesto, chamou-se “promoção da democracia”.

Não sei o que aconteceu com eles. Há mais gente mantida na prisão exatamente há tanto tempo quanto Gilad Shalit – na verdade, um dia a mais. Na véspera da captura do soldado, na fronteira, as tropas de Israel entraram em Gaza, sequestraram dois irmãos – os irmãos Muamar – e fizeram-nos atravessar a fronteira, evidentemente numa violação às Convenções de Genebra. Eles desapareceram no sistema prisional de Israel. Eu não tenho a mínima ideia sobre o que lhes aconteceu: nunca li uma palavra sobre isso. Tanto quanto eu saiba, ninguém se importa, o que é compreensível. Afinal de contas, impessoas.

O que quer que pensemos sobre a captura do soldado – um membro de um exército agressor –, o sequestro de civis é um crime muito mais severo. Mas apenas se fossem pessoas. O assunto realmente não tem importância. Não é que seja ignorado. Você consulta os jornais do dia seguinte à captura dos irmãos Muamar e lê algumas linhas, aqui e ali. Mas é insignificante, claro – o que faz algum sentido, já que há milhares de palestinos nas prisões israelenses, muitos sem acusação.

Além disso, há o sistema de prisões secretas — como a Facility 1391, se você quiser pesquisar na internet. É uma prisão secreta, ou seja, certamente uma câmara de torturas, em Israel. Quando foi descoberta, houve vasta reportagem no país, assim como na Inglaterra e no resto da Europa. Mas não vi uma linha nos Estados Unidos, ao menos nos meios que as pessoas leem mais frequentemente. Escrevi sobre o tema, assim como alguns outros. Mas são, outra vez, impessoas, e naturalmente ninguém se importa. O racismo é tão profundo que se converte em algo como o ar que respiramos: não o notamos, ele permeia tudo.

O título da fala de hoje [Os Estados Unidos e Israel-Palestina: Guerra e Paz] tem certa ambiguidade. Poderia ser interpretado, erroneamente, como algo que confirma a imagem convencional das negociações. Os Estados Unidos interessados aqui, e duas forças recalcitrantes lá. Os EUA como um jogador sereno, tentando reunir dois grupos militantes e difíceis, que não parecem capazes de falar um com o outro. É uma versão inteiramente falsa. Se houvesse alguma negociação séria, ela seria organizada por uma parte neutra – talvez, o Brasil. De um lado, teríamos os Estados Unidos e Israel. De outro, o mundo. É rigorosamente verdadeiro. Mas é uma destas coisas infaláveis.
Fonte: http://www.outraspalavras.net/

Megaoperação policial contra anarquistas na Itália - por ANA

Megaoperação policial contra anarquistas na ItáliaA polícia italiana faz desde a madrugada de segunda-feira (17 de outubro) uma vasta operação centrada nos ambientes anarquistas, com registros de residências e centro sociais, controles e apreensão de equipamentos de informática, sem fazer, por enquanto, novas prisões.

A operação repressiva, que envolve centenas de homens das forças de ordem, está afetando todas as regiões da Itália, desde Trentino até Lombardia, de Lazio até a Sicília.

A polícia está à procura dos autores dos incidentes que ocorreram no último sábado, em Roma, onde centenas de manifestantes quebraram as vitrines dos bancos, incendiaram veículos e lançaram bombas contra as forças de ordem em meio ao protesto dos "indignados".

Para os 12 detidos pelos conflitos de sábado durante a manifestação dos “indignados”, com idades entre 19 e 30 anos, a Procuradoria de Roma pediu a prisão preventiva sob a acusação de resistência às autoridades agravada pelo lançamento de objetos contundentes.

Os detidos podem enfrentar penas de prisão entre três e 15 anos, o que deverá ser decidido por um juiz nas próximas 48 horas, que decretará ou não a prisão preventiva.

Endurecer as leis
Segundo as agências de notícias, o ministro do Interior da Itália, Roberto Maroni, vai propor reviver uma lei dos sangrentos "anos de chumbo" do país para combater protestos violentos.

Maroni disse que concordava com o político da oposição Antonio Di Pietro, um ex-magistrado que sugeriu reviver uma lei dos anos 1970, quando a Itália era assolada por protestos de esquerda e pela violência da guerrilha urbana.

A lei permitia que a polícia usasse armas de fogo e proibia o uso de capacetes ou máscaras durante protestos. Também liberava a detenção preventiva de manifestantes suspeitos de planejar atos violentos.

Outras medidas que estão sendo consideradas incluem a extensão das leis criadas para conter torcedores violentos de futebol a demonstrações públicas e o uso de tinta colorida em mangueiras de alta pressão contra manifestantes, assim como julgamentos acelerados para detidos.

agência de notícias anarquistas-ana
primavera
até a cadeira
olha pela janela
Alice Ruiz

Maus-tratos no Ringling Brothers: PETA oferece recompensa para quem captar imagens de abuso de elefantes em circo - por ANDA

Maus-tratos no Ringling Brothers: PETA oferece recompensa para quem captar imagens de abuso de elefantes em circo
Por Natalia Cesana (da Redação)
Foto: Reprodução/Cleveland.com
O circo Ringling Brothers e o seu “Maior Espetáculo da Terra” estão voltando para Cleveland, em Ohio (EUA). A PETA (People for the Ethical Treatment of Animals) também, e desta vez com dinheiro. “Estamos oferecendo a recompensa de US$ 500 para quem conseguir captar uma imagem de um funcionário do circo usando ganchos em elefantes”, disse Virginia Fort, da PETA, ao site WSBT.com.

O Ringling Brothers e o Barnum & Bailey Circus se apresentarão de quarta a segunda na Quicken Loans Arena. Este será o local onde a PETA fará seu protesto.

“As pessoas ficam chocadas quando escutam o que acontece por trás da tenda do circo. E nós simplesmente pedimos a essas pessoas que boicotem os espetáculos do Ringling Brothers até que eles parem de usar animais em suas apresentações”, explicou Virginia.

Os elefantes chegaram na manhã de terça-feira (18). “Os treinadores acertam pontos sensíveis do elefante, como cotovelos e atrás das orelhas, onde a pele não é tão grossa, para conduzi-los e garantir que eles obedecerão às ordens dadas”, disse a representante da PETA.

Um representante do circo, apesar das constantes denúncias e evidências de maus-tratos, insiste em defender o uso desses animais, afirmando que eles são ‘muito bem tratados’.

Fonte: www.anda.jor.br/

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Num trânsito que mata, inclusive ciclistas, prefeito de Curitiba vai inaugurar ciclovia que só funciona 1 vez por mês! - por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

Arrentela: violência policial em 15 de Outubro - Passa Palavra

Arrentela: violência policial em 15 de Outubro

Perguntamos àqueles e àquelas que reclamavam por uma democracia real se continuarão a fechar os olhos a estes acontecimentos. Ou se na democracia que ambicionam há lugar para esta violência racista.

Em 15 de Outubro, por volta das 22h, a polícia agrediu violentamente vários jovens da Arrentela, homens e mulheres, alguns dos quais frente aos seus filhos.

Em resposta a uma denúncia sobre barulho a polícia interveio com socos, pontapés e tiros. Tudo depois de uma festa do primeiro aniversário de um bebé do bairro, nas instalações da Khapaz, festa essa que acabou exactamente às 22h. Terminada a festa, algumas das pessoas continuaram no jardim a conviver e isto motivou a chamada da polícia, que por sua vez abordou as pessoas com a violência a que já nos habituou.

Eram 22h30, nada mais. Teria a polícia respondido assim a uma queixa de barulho no Bairro Alto ou na Avenida 24 de Julho? Não, pois lá os filhos de papás saberiam motivar uma resposta.

Porquê aqui, então? Porque são negros, negras, brancos pobres ou ciganos que não conhecem os seus direitos e são constantemente submetidos à violência deste sistema que nos relegou para o desemprego em massa, para a pobreza, e tem que manter-nos disciplinados nas reservas de mão-de-obra barata ou sucatas dos ex-operários e seus filhos: os desproletarizados, descidanizados e dessocializados.

Restos de uma democracia que sempre se afirmou na exploração e repressão dos negros e negras e dos pobres. Dos bairros e dos países pobres da mão-de-obra escrava e barata. Democracia que se impõe ao mundo dentro e fora de fronteiras pelas armas.

Pelos bombardeamentos e pelas bastonadas. Perguntamos se é esta a democracia que se quer. Perguntamos àqueles e àquelas que reclamavam por uma democracia real se continuarão a fechar os olhos a estes acontecimentos. Ou se na democracia que ambicionam há lugar para esta violência racista.

Estes são os mesmos polícias que os impediram de tomar a Assembleia da República, escalados para conter o descontentamento dos jovens, dos desempregados e desempregadas, e dos precarizados e precarizadas. Estes e estas também fazem parte dessa democracia. Indignem-se por um verdadeiro 15 de Outubro.

São as imagens que mostram, contrariamente ao que pretendem a SIC e o Correio da Manhã (instrumentos da propaganda racista e capitalista), que não foi nenhuma luta de gangs, não foi nenhuma resistência à autoridade.


Fonte: http://passapalavra.info/

terça-feira, 18 de outubro de 2011

[EUA] 12 anos de prisão para Walter Bond - por ANA

[EUA] 12 anos de prisão para Walter Bond(Walter Bond foi condenado na última quinta-feira (13 de outubro) a 87 meses de prisão por dois incêndios provocados em Utah. Esta nova sentença será somada ao seu tempo de condenação no Colorado. Isto dá a Walter um total de 12 anos de prisão por suas ações como o “Lobo Solitário” da Frente de Libertação Animal.)

Declaração final no Tribunal:
"Estou aqui hoje pelos incêndios que cometi na Fábrica de Couro Tandy em Salt Lake City e no Restaurante Tiburon em Sandy, Utah, que vende o incrivelmente cruel foie gras. Os juízes dos EUA querem me dar à pena máxima e não apenas por causa dos meus "crimes", mas porque não me arrependo e sou sincero. Minha intuição me diz que este tribunal não vai mostrar misericórdia comigo. Então, ao invés de mentir ao tribunal em uma débil tentativa de salvar a mim mesmo, como estou certo de que muitos fazem isso quando enfrentam seu dia de sentença, deixe-me dizer-lhe como me sinto.

Lamento que quando tinha 19 anos eu construí dois matadouros que continuam a matar animais, mesmo agora, enquanto eu falo. Lamento que Tandy Leather comercialize peles arrancadas de mortos, e muitas vezes com os corpos de animais, como vacas, avestruzes, coelhos, cobras e porcos. Lamento que os curtumes que abastecem a fábrica Tandy envenenem a Terra com produtos químicos perigosos.

Lamento que os lucros do restaurante Tiburon sejam obtidos a partir da alimentação forçada de gansos e patos até que seus fígados explodam para que as pessoas ricas possam usar isso como um patê para biscoitos e pão. Lamento que ganhe a vida com os cadáveres de animais selvagens e exóticos. Sinto que vivemos em uma época onde se pode estuprar uma criança ou bater brutalmente numa mulher até ela ficar inconsciente e receber menos tempo de prisão do que um ativista pela libertação animal que atacou a propriedade em vez de pessoas.

Lamento que o meu irmão estivesse tão desesperado para sair de uma dívida que voou desde Iowa para o Colorado apenas para me meter em uma conversa gravada e monitorada para obter o dinheiro da recompensa. Lamento estar relacionado biologicamente a um informante de pouco valor. Lamento ter esperado tanto tempo para se tornar um membro da Frente de Libertação Animal. Por todas estas coisas sempre terei algum pesar. Mas pelos incêndios na fábrica de couro e no restaurante Tiburon, não tenho nenhum remorso.

Estou ciente de que as leis da terra favorecem as empresas para que elas obtenham mais benefícios sobre a vida dos animais. Que elas também tendem a favorecer os proprietários brancos para que lucrem com a escravização de pessoas negras. Igualmente que elas são utilizadas para favorecer a capacidade dos maridos para atacar brutalmente suas esposas e agir sobre elas como se fossem um objeto. Aqueles que violaram a lei e danificaram a propriedade para se opor a opressão também eram chamados de "terroristas" e "fanáticos" em seu tempo, mas isso não muda o fato de que a sociedade avançou e continua avançando.

Então, hoje eu sou o cara mau. Esta é apenas uma questão de coincidência histórica. Quem sabe, talvez uma sociedade menos brutal e menos violenta se um dia existir entenderá que a Vida e a Terra são mais importantes que os produtos da morte e da crueldade. E se não, então para o inferno com tudo isso de qualquer maneira! Que os que me apóiam ou os meus críticos pensem que eu sou um lutador pela liberdade ou um louco com um galão de gasolina na mão não faz nenhuma diferença para mim. Passei anos comprováveis promovendo, apoiando e lutando pela libertação animal. Eu vi animais vítimas da injustiça humana, milhares deles com meus próprios olhos, e o que vi foi sangue, vísceras e sangue! Eu fiz uma promessa para os animais e a mim mesmo, lutar por eles de todas as formas que pudesse. Não me arrependo de nada disso, e nunca me arrependerei!

Podem tomar a minha liberdade, mas não podem ter a minha submissão.”

http://www.supportwalter.org

agência de notícias anarquistas-ana
Passarinho foi
gestos ao vento
a sombra cala
Leonardo Leitão

In the Meantime . Uma história do Helmet e além - por Bernardo Pacheco

In the Meantime . Uma história do Helmet e além.

Page Hamilton revela os bastidores do fim e do renascimento do grupo.Page Hamilton, vocalista, guitarrista e fundador do Helmet

O Helmet trouxe o noise rock para as massas na esteira do boom de bandas alternativas fisgadas por grandes gravadoras, detonado pelo sucesso repentino do Nirvana em 1991. Após ganhar notoriedade na época por ter assinado um contrato de 1 milhão de dólares com a Interscope Records, mesmo mantendo seu estilo quebrado, minimalista e dissonante, e na sequência pela honra ambígua de ter sido grande influência no rock pesado mainstream do final da década de 90, a banda se separou em 1998, depois de quatro discos antológicos. O baterista John Stanier foi parar no Battles e no Tomahawk, entre outros, e o guitarrista e vocalista Page Hamilton passou alguns anos excursionando com David Bowie, montando e desmontando a banda Gandhi e tocando guitarra em trilhas sonoras de filmes de Hollywood como Fogo Contra Fogo e Across the Universe, antes de reformar o Helmet em 2004. Conversei com Hamilton, o capitão da banda (já em sua terceira passagem pelo Brasil) nas entranhas do Beco 203 SP, e depois via Skype.

Você veio de Oregon e se mudou pra Nova York pra estudar guitarra de jazz, certo?
Isso.

Você sempre se interessou pelo lado mais experimental da guitarra, ou isso aconteceu quando estava em Nova York?
Eu sinceramente não lembro. Sempre gostei de todo tipo de música desde pequeno, de America e The Eagles a Cheap Trick, Led Zeppelin, AC/DC, Aerosmith... No jazz me interessei primeiro pelo George Benson, nunca tinha ouvido ninguém tocar guitarra daquele jeito. Depois me interessei por Grant Greene, Miles Davis, o Coltrane da fase modal, tipo 64 ou 65, e fui atrás das coisas mais antigas. Fiquei fascinado com a harmonia. Eu amo harmonia, todas as suas possibilidades, ouvir as cores, os centros tonais. Por exemplo, como o John Lennon fazia (canta “I'm Only Sleeping”), como a nota da melodia permanece a mesma e os acordes mudam. É como olhar para uma constelação: você vê a de Órion, tem aquela estrela mais forte e a forma como a constelação se relaciona, criando um padrão lindo no céu. É assim que os acordes são pra mim, são formas, e eu sou fascinado pela ideia de que existem possibilidades infinitas para as combinações de doze notas – que é basicamente tudo que temos na música ocidental, essas doze notas e a escala cromática.

É, acho uma asneira completa quando alguém diz coisas como “tudo já foi feito, só resta repetir o que já existe”.
Merda total, uma desculpa preguiçosa.

E você acabou indo tocar no grupo do Glenn Branca (compositor de vanguarda famoso por suas orquestras de guitarra, das quais já fizeram parte Lee Ranaldo e Thurston Moore). Como rolou essa transição, se é que foi uma transição?
Bom, eu terminei os estudos e comecei a fazer testes pra tudo que aparecia, tipo classificados de bandas procurando músicos. Acabei entrando no Band of Susans. Pouco tempo depois fiz um teste com o Glenn e entrei pro grupo dele...

O Helmet veio logo em seguida, certo?
Em 1989, isso. Um ano depois. Fiquei no Band of Susans por um disco (Love Agenda) e oito meses e adorei, foi um ótimo aprendizado. Mas eles não achavam as minhas músicas adequadas para o grupo, então decidi montar minha banda.

John Stanier (bateria) e Henry Bogdan (baixo) estavam com você desde o começo?
John sim, acho que ele foi a pessoa ao redor da qual eu decidi formar a banda. Coloquei um anúncio no Village Voice procurando músicos e conheci ele. Ele tocava em uma banda de hardcore, e a música não era nada de mais, mas a bateria era. John tinha a energia exata que eu estava procurando. Eu queria alguém com o tempo firme e um feeling bom, mas que soubesse tocar coisas rápidas e pesadas.

O lance do som do Helmet, do meu ponto de vista, é se basear na repetição e na disciplina em ser ultra coeso e quase mecânico – “Repetition”, inclusive, é o nome da primeira música do primeiro disco da banda (Strap It On, de 1990). Como você chegou a um estilo tão definido?
Nas primeiras coisas que eu compus, antes do primeiro LP, as minhas influências eram mais aparentes, de Hüsker Dü e Gang of Four a Led Zeppelin, e dava pra ouvir algumas das minhas influências de jazz, como “Geisha-to-Go” (da coletânea Born Annoying), em que o baixo é em 5/4, as guitarras em 3/4 e a bateria em 4/4, três ritmos diferentes tocando ao mesmo tempo. Sempre achei interessante esse tipo de coisa. Até que um dia eu estava voltando pra casa, de madrugada, e o riff de “Repetition” apareceu na minha cabeça. Fiquei com ele na mente até chegar em casa e pegar a guitarra. Mas não dava pra tocar o riff nela, eu tive que afinar mais grave. Era em ré (cantarola o riff inicial da música), e eu pensei: “Legal pra caralho!”. Eu sabia que dava pra afinar mais grave, mas sempre tive preguiça de tentar. O Bruce Gilbert, do Wire, me contou que afinava em ré, e eu pensava: “Que trampo”.

Mas, depois que ouvi esse riff, parei de ser tão derivativo. De repente eu estava me baseando no riff para compor, no tema, e foi aí que minha música tomou a forma do som do Helmet: desenvolver variações de um motivo musical. É simples em muitos sentidos.

As estruturas das músicas não são longas e complexas – como no rock progressivo ou em vários tipos de metal –, o foco é mais nos detalhes...
Nós sempre gostamos, por exemplo, de que cada repetição do verso fosse um pouco diferente das outras, com alguma batida ou nota a mais ou a menos. O jeito como cada tema é tocado dá margem a muitas variações. É uma coisa na qual muita gente não repara e que é bem importante pra mim. Por exemplo: o John fazia uma levada reta, com aquele tempo firme dele, e eu pedia pra ele ficar repetindo. Ao contrário de muitos bateristas que se sentem na obrigação de inventar firulas, ele não tinha problema nenhum em fazer uma levada muito simples, quase AC/DC, e eu tocava a minha parte em cima. Mas a gente experimentava uma variedade de coisas e depois trabalhava detalhadamente nas viradas de bateria. Elas eram muito importantes – o exemplo mais explícito é a música “Rollo” –, e ele inventava viradas incríveis.

Depois que vocês assinaram com uma grande gravadora (a Interscope, pro disco Meantime, de 1992) a percepção das pessoas sobre o Helmet mudou. No início vocês eram do selo Amphetamine Reptile, que tinha na maioria bandas de noise rock. Você sentia que o Helmet era parte dessa primeira turma, no sentido de escutar esse tipo de som e conviver com essas bandas, ou acha que simplesmente calhou de dividirem o mesmo espaço por algum tempo?
A gente adorava ser parte da AmRep. Aqueles caras eram nossos amigos, assim como as bandas, mas a gente não soava como nenhuma delas.

Aqueles não eram os discos que você ouvia na época...
Eu escutava Halo of Flies (banda do dono do selo, Tom Hazelmeyer), Tar, fizemos turnês com o God Bullies e o Surgery. Eu gostava dessas bandas todas, mas elas são completamente diferentes entre si. A Sub Pop, por exemplo, tinha um som bem mais específico do que a Amphetamine Reptile. A AmRep tinha muitas bandas diferentes, uma variedade grande, e a Sub Pop era bem retrô, tipo um rock dos anos 70 repaginado.

Vocês também tiveram acesso a uma estrutura bem maior pra fazer discos. Dois deles (Meantime e Betty, de 1994) foram mixados pelo Andy Wallace (Nirvana, Sepultura, Faith no More), que passou a ser talvez o engenheiro de rock mais conhecido do mundo. Você sentiu a diferença?
A gente nunca mudou a forma de trabalhar. Eu ainda compunha normalmente e nós ensaiávamos num espaço alugado. Ainda ensaiávamos três dias por semana, invariavelmente, e de uma hora pra outra podíamos passar mais tempo lá, porque estávamos vivendo de música. Mas nunca mudamos nosso jeito de compor, nunca tentamos agradar a gravadora.

Mas as músicas começaram a ser mais baseadas nos vocais. Não que tenham ficado mais comerciais, mas eram mais baseadas nas melodias dos refrões e tudo mais.
Sim, mas a gente sempre teve – já no primeiro disco tem, por exemplo, a faixa “Make Room”. “Unsung” é uma canção, mas é estranha, porque tem essa estrutura normal de intro/ verso/ refrão/ verso/ refrão, e depois entra uma música inteiramente nova. Usei essa estrutura pra ela e “Milquetoast”. Também usei a mesma estrutura de “Sinatra” (de Strap it On) pra “Pure” (de Aftertaste), e era um lance bem Helmet, a gente ia aumentando a tensão e a dinâmica até desembocar na mudança de acorde.

Isso funciona bem em “Turned Out”, que tem aquela jam no meio...
“Turned Out” é outra estrutura, meio como “Unsung”, só que volta pro refrão no fim. Eu ouço tantos tipos de música diferentes, como jazz e clássico e reggae e sei lá mais o quê... Já ouvi mil músicas de pop e rock, e os Beatles, e os Stones, e bandas como o Wire, que me fizeram voltar a ter interesse no rock. Killing Joke, Gang of Four... Sempre tentei fazer as coisas de que eu gostava, esperando que os caras da banda também gostassem. Ficava muito ansioso quando ia mostrar músicas novas pra eles. Sempre me senti meio culpado, porque no começo a gente tentava criar juntos, mas depois comecei a compor tanto que acabei dominando.

Algum deles reagia de forma negativa?
Eu não sei. John e Henry acabaram deixando a banda, então... Após dez anos, acho que eles não queriam mais fazer aquilo.

Então a formação original acabou porque o resto da banda saiu?
É, a gente nunca se reuniu, eu só recebi um telefonema. Já sabia que o Henry ia sair, e alguns meses depois do fim da turnê do Aftertaste, no início de 1998, recebi um telefonema do nosso empresário dizendo que o John tinha saído da banda... (Hamilton ri) Ele nem me ligou, então pra mim foi tipo “ah, beleza...”. Eu queria tirar um ano de férias. A gente tinha dinheiro suficiente, mas eles quiseram sair da banda, então não tinha nada que eu pudesse fazer a respeito.
E pouco tempo depois você entrou pra banda do David Bowie.
É, isso rolou tipo um ano depois. Eu montei uma banda com alguns amigos, chamada Gandhi, e compus algumas músicas que foram parar em discos do Helmet, como “LA Water” e “Money Shot”. Eu vinha compondo um monte de músicas, tentando algo diferente. Fizemos alguns shows pelo noroeste dos EUA, sem empresário nem nada, e o Bowie ligou mais ou menos no meio disso, em 1999. Foi divertido tocar com ele.

Você ficou com o Bowie por uma turnê?
Isso.

Como foi?
Foi incrível. Quando eu estava compondo o Betty, em 93 e 94, o vinil do Alladin Sane ficava na minha cabeceira o tempo todo. Eu lia as letras e era uma grande fonte de inspiração. Foi um trampo legal, ele é muito gente fina.

Alguns guitarristas lendários tinham passado por aquela banda, como Robert Fripp (King Crimson), Nile Rodgers (Chic), Adrian Belew (Zappa, Talking Heads, King Crimson)...
Mick Ronson!

Como foi estar nessa posição, pra você?
Bom, tive que aprender todas as músicas, e eu tinha me acostumado a compor as minhas próprias por anos, tinha meu próprio estilo de tocar. O Helmet tem a afinação mais grave, e o estilo é meio que invenção minha, então falei pro Bowie: “Olha, eu não sou bem um guitarrista, estou mais pra um escultor em merda”. Ele riu e disse: “Não precisa tocar o mesmo que os outros, é só tocar no espírito da música”. Isso foi legal, ele é bem cabeça aberta, um dos caras mais legais e certamente o maior compositor que já conheci pessoalmente. E é um grande cantor, também. Foi uma honra tocar aquelas músicas, me senti privilegiado mesmo.

Seu trabalho com as trilhas sonoras pra cinema, como começou?
Isso veio pela Warner. Tim Carr e Lenny Waronker, que já tinham tentado contratar o Helmet, estavam envolvidos na trilha sonora para o filme Fogo Contra Fogo (1995). O compositor, Elliott Goldenthal, estava procurando texturas e coisas novas, e esses caras falaram de mim, disseram que eu tinha tocado com o Glenn Branca. Aí eles me ligaram e eu contratei mais três amigos pra tocar guitarra comigo (incluindo Andy Hawkins, do Blind Idiot God, banda pioneira em misturar metal instrumental e dub nos anos 80). Nós criamos o que eles batizaram de Orquestra dos Alces Surdos, porque éramos altos e esguios e tocávamos muito alto, era um barato. Desde então, comecei uma relação duradoura com Elliott, Teese Gohl e essa turma toda.

Você ainda faz isso, ainda está rolando, ou nem tanto?
O último filme que eu fiz com ele é da esposa dele, Julie Taymor, e se chama Tempest. Eu trabalhei na trilha de três filmes dela: Titus, Across the Universe e Tempest, que foi o último, há mais ou menos um ano e meio. É difícil agora porque eu estou em Los Angeles e eles em Nova York, e é mais caro pra me levar agora.

Eu achava que era o contrário, que você tinha se mudado pra LA e esse tipo de trabalho tinha ficado mais próximo...
Ironicamente o Elliott não gosta de LA, então fica em Nova York. Tem compositores de trilha sonora em NY, meu amigo Paul Camelot mora lá também, mas o grosso da indústria do cinema está aqui. Eu trabalhei numa trilha com James Newton Howard, pro filme Colateral, e com um cara chamado Klaus Badelt, pro filme Mulher Gato, mas o que eu faço é bem estranho e único, acho que é um gosto adquirido. O Elliott adora porque é bem cabeça aberta e curte coisas estranhas, mas pra outras pessoas talvez não funcione.

Você gravou um disco em dueto com o Caspar Brötzmann (filho do saxofonista de free jazz Peter Brötzmann). Como foi isso?
Eu adoro o Caspar, ele é um músico impressionante, me influenciou muito. Um alemão fanático por música me mostrou um disco do Massaker, a banda dele, quando fui tocar com o Glenn Branca na Expo 92 (em Sevilha) e pirei. Comecei a falar dele direto em entrevistas, até que ele me pediu uma frase pra ajudar na divulgação do disco e eu disse: “Vocês deviam fazer uns shows com a gente”. Uma coisa levou à outra, eles abriram pra gente na Alemanha, depois vieram tocar nos EUA e fizemos um disco juntos (Zulutime, de 1996). Acho que fizemos tudo em dois dias. Montamos dois sets completos de guitarra e amplificadores, o dele e o meu numa sala, um de frente pro outro. Um de nós começava uma música e o outro começava a seguinte, só improvisando. Foi um disco bem divertido de fazer, não é música pop, é bem legal. Provavelmente vou fazer algo assim de novo, um lance de orquestra que eu venho bolando.

O que é?
Meu amigo Patrick Kirst, pianista clássico e compositor alemão, vive pegando no meu pé para compor uma peça orquestral de guitarra. Quando esta turnê terminar, em novembro, é o meu próximo plano. E também tenho outro projeto de anos: fazer standards de jazz. Está na minha cabeça, mas ainda não sou muito fluente em orquestração (mostra algumas ideias no teclado e guitarra). É meio insano, porque trabalho só com quartetos de rock há muitos anos. Não é o que estou acostumado a fazer, por isso é um processo lento. Mas vai rolar. Vai ser diferente de qualquer coisa que alguém já ouviu, com certeza.

Você trabalhou com o Charlie Clouser (Nine Inch Nails), e isso acabou levando ao primeiro disco da volta do Helmet, certo?
Charlie foi importantíssimo pra esse disco acontecer. Em 1998 eu estava por baixo, esgotado pelas turnês, e o Helmet tinha acabado de se desmanchar, até que um amigo em comum nos colocou em contato. Eu já conhecia os caras do Nine Inch Nails desde uma turnê que fizemos juntos em 94, e era meio amigo do Trent Reznor. Peguei um avião pra New Orleans e começamos a trabalhar. Eles me arrumaram um apartamento, que eu dividi com Clint Mansell (ex-Pop Will Eat Itself), hoje em dia um compositor bem-sucedido de trilhas pra cinema (cuja carreira no ramo decolou com a trilha de Réquiem Para Um Sonho), era um ambiente ótimo.

Eles me ensinaram a usar o [programa de edição] Logic Audio e até criaram minha própria área de trabalho na sala de gravação. Eu aparecia no estúdio com a guitarra, Charlie e eu trocávamos ideias e fazíamos as músicas. Eram dois jeitos bem diferentes de compor. Ele, um gênio do computador que sabe usar qualquer tipo de engenhoca que você imaginar. Eu sou péssimo com essas coisas: só toco guitarra, canto e escrevo, um estilo mais tradicional. Foi incrível. Fizemos isso por três anos, algumas semanas de cada vez. Não tenho palavras pra descrever como esses caras foram importantes pra mim. Não fazíamos ideia sobre que nome a banda teria, não havia uma banda. Eu tinha o Gandhi na época, mas estava acabando, não rolava dinheiro suficiente pra pagar ninguém. Eu já vinha pensando em sair de NY depois do meu divórcio e aí me mudei pra Los Angeles, em 2001. O Charlie também se mudou pra lá meio simultaneamente, acho, e fez sentido total a gente trabalhar juntos.

Quando você estava fazendo o Size Matters (lançado em 2004), já era pra ser um disco do Helmet?
Eu já tinha a banda a essa altura, já tinha o baterista John Tempesta (White Zombie, Testament, Exodus) e estávamos tocando com Blasko (apelido de Rob Nicholson, ex-Cryptic Slaughter e Rob Zombie, hoje com Ozzy Osbourne). Mas não tínhamos nenhum plano específico. Jay Baumgardner, dono do NRG Studios, foi outro cara fundamental pro álbum da volta, gravou a gente de graça. Ele é um grande fã e um cara muito generoso. Mixou o disco e me tirou da roubada tantas vezes que não dá pra contar. E aí, do nada, Jimmy Iovine (cabeça da Interscope) me ligou e perguntou o que eu andava fazendo. Nos encontramos, e ele disse: “Quero que você faça um disco do Helmet, produza algumas bandas e toque guitarra em alguns discos”. E eu fui.
Quando o Helmet se separou, não parecia certo usar o nome da banda, mas depois de uns quatro anos comecei a ver de outra forma. Uma vez, por exemplo, a revista Decibel foi fazer uma matéria sobre o Meantime, e quando chegou a vez de entrevistar o John e o Henry eles não quiseram falar. Ou seja, deixaram bem claro que, apesar de o Helmet ser parte do legado musical deles, de ter contribuído para o que eles são hoje como pessoas e músicos, para melhor ou pior, ambos preferiram negar isso. E eu entendi que não posso fazer nada a respeito, é o meu legado. Disse pra mim mesmo: coloquei minha vida toda, meu coração e alma, sangue, suor e lágrimas nessa banda.

Ver os caras indo embora foi triste, mas, pelo jeito, pra eles era mais triste continuar trabalhando comigo. Então eles fizeram o que tinham que fazer e eu fiz o que tinha que fazer. Eu escrevo as letras, componho as músicas, faço os arranjos, formei a banda e tenho orgulho dela. Nunca fiz nada que me deixasse envergonhado, as intenções eram puras desde o início, e ainda são.

O disco seguinte, Monochrome (2006), veio meio rápido, certo?
Sim, eu estava no embalo, tinha uma banda e muitas ideias. Não queria fazer mais um disco como o Size Matters, que demorou e envolveu gente demais. Queria um disco mais como Strap It On e Meantime, então achei que seria legal voltar pra Nova York e trabalhar com Wharton Tiers (engenheiro de som dos primeiros discos da banda) de novo. Tenho sentimentos contraditórios sobre o resultado desse disco. Gosto muito das músicas, mas sentia uma vibe ruim do selo...

Estávamos num selo chamado Warcon, e eles não entendiam nada, não se interessavam por música. Queriam ganhar dinheiro, era a única preocupação deles. Não pagaram a gente e ficaram me apressando. Wharton estava ocupado com seus afazeres de pai e outras coisas, e sentia que ele estava me pressionando pra acabar logo. Eu também fiquei doente, era primavera e em NY estava mais frio do que em LA, gravei os vocais gripado. Cantei bem em algumas músicas, mas ao vivo os vocais ficam bem melhores.

O que me deixou realmente feliz e orgulhoso é que pela primeira vez [consegui executar] ideias de saxofone que vinha trabalhando na guitarra, aquelas camadas de som estilo Coltrane, com modos superpostos. Toquei, acho, os melhores solos da minha vida nos últimos dois discos. Tem uma crueza nos discos velhos que é legal, mas tem um lado meio espasmódico também. Agora está mais focado.

Houve um intervalo grande entre esse disco e o seguinte (Eye Seeing Dog, 2010)
É, eu estava bem abalado pela situação da indústria musical – com o Warcon em especial, porque eles me roubaram bastante dinheiro. Para um artista independente como eu, perder esse tanto de dinheiro é um prejuízo grande, e eu não sabia que eles seriam picaretas. Te digo o nome dos caras se quiser, tem três em particular que podem chupar o meu pau. Várias gravadoras entraram em contato, mas eu estava bem receoso, fomos com calma.
Aí, nosso empresário tem um selo com o cantor, compositor e produtor Joe Henry (com quem Hamilton já tinha tocado nos anos 90), e eles se interessaram pelo disco. Cobraram da gente três ou quatro por cento de taxas administrativas... Não quero ter um selo, custaria dez mil dólares pra colocar o negócio de pé e eu não tenho interesse na área, não sou um homem de negócios. Eu toco guitarra de jazz, estou me concentrando nesses trabalhos orquestrais e tenho o Helmet. É por isso que tenho um empresário, um advogado e pessoas que me aconselham. Funcionou perfeitamente, espero continuar trabalhando com o David e o Joe.

E agora você está com o Helmet por quase tanto tempo quanto na primeira fase. A fase atual parece ser bem diferente, porque os membros da banda mudam bastante, cada disco foi com um baterista diferente. No passado, você tocou com a mesma cozinha, baixo e bateria, por nove anos seguidos, e agora as pessoas mudam e a música permanece. Faz muita diferença pra você?
É uma questão de necessidade, não foi por escolha minha que John e Henry saíram, mas eu tive que lidar com essa realidade. O Kyle (baterista atual) está na banda desde 2006 e fez um trabalho incrível. Ele toca bem as músicas antigas, que o John Stanier tocava, mas aquele era o estilo particular do Stanier, é difícil fazer exatamente igual.

O John Tempesta fazia coisas que o Stanier não era capaz de fazer, e vice-versa. O Kyle tambem é diferente, ele também canta, e o groove dele é ótimo. No disco novo ele matou a pau, trouxe ideias ótimas. Sempre trabalho com os integrantes da banda pra garantir que estou feliz com cada parte, e eles entendem o papel deles no Helmet, como eu entendia o meu quando toquei no Band of Susans e depois com o David Bowie.
Os shows no Brasil em 2011 foram da turnê do Eye Seeing Dog, certo?
É, vamos seguir nessa turnê até novembro. Tenho umas semanas de folga agora, amanhã vou visitar minha família e depois fazer uma masterclass para crianças em Portland, Oregon, em uma filial da Escola do Rock. A gente toca “Unsung” juntos e depois eu falo sobre música, é bem divertido.

Você tem algum plano específico pro Helmet depois da turnê?
Meu próximo plano é fazer esse álbum de standards do jazz. Quero entrar em estúdio até o fim do ano. Depois esse lance de orquestra, vou ver como vai ser. Quero fazer outro disco do Helmet, mas preciso de dinheiro pra isso. Fizemos o último álbum por uma quantia pequena, se comparada aos nossos discos de gravadora grande, mas mesmo assim é mais do que tenho pra gastar no momento.

Você tem uma influência grande de bandas punk e pós-punk, que normalmente têm um jeito mais instintivo e autodidata pra música. Além disso, o fato de você ter tocado com o Glenn Branca e pertencer àquela geração de músicos de Nova York te colocaria mais próximo do jazz experimental, de John Zorn pra baixo. Mas na verdade seu background é bem diferente. Fico pensando que aquela música dos Beatles no seu último disco fala mais sobre as suas raízes do que ter tocado com o Glenn Branca, por exemplo.

Eu tive essa epifania ano passado: acho que o Glenn foi uma das maiores influências nas minhas composições pro Helmet, porque ele pegou aquela ideia minimalista e levou adiante, como a noção das afinações abertas. Dá pra combinar duas ou cem guitarras e criar esses harmônicos que surgem acima das notas. E as ideias de ritmo dele foram uma grande influência. O Glenn sobrepunha exatamente as coisas que eu ficava batucando na perna quando estava no metrô, tipo três por quatro com quatro por quatro, algo como (batuca na mesa), sabe? Ele mistura isso com um monte de guitarras, é lindo, e com um ritmo que é basicamente como “ba-bar-baraann” (canta “Barbara Ann”, dos Beach Boys). Isso é o resumo do Helmet: “Kashmir” (do Led Zeppelin) misturado com Glenn Branca. Eu fico surpreso que mais bandas não tenham se inspirado nessa parte nossa, eles param na ideia do “ei, dá pra afinar a primeira corda mais grave, tocar um acorde com um dedo, fazer um riff pesado e tá resolvido”.

Bom, isso é mais fácil.
É, e é só o que eles entenderam. É meio patético, mas não é problema meu.

Fonte: http://soma.am/noticia

Liberdade a Feras Bugnah!!! - por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

O tempo em que podemos mudar o mundo - Immanuel Wallerstein

O tempo em que podemos mudar o mundoImmanuel Wallerstein, provocador: capitalismo está condenado: resta saber quê irá substituí-lo. Transição não será apocalíptica: dependerá das escolhas que fizermos agora

Entrevista a Sophie Shevardnadze | Tradução: Daniela Frabasile
A entrevista durou pouco mais de onze minutos, mas alimentará horas de debates em todo o mundo e certamente ajudará a enxergar melhor o período tormentoso que vivemos. Aos 81 anos, o sociólogo estadunidense Immanuel Wallerstein, acredita que o capitalismo chegou ao fim da linha: já não pode mais sobreviver como sistema. Mas – e aqui começam as provocações – o que surgirá em seu lugar pode ser melhor (mais igualitário e democrático) ou pior (mais polarizado e explorador) do que temos hoje em dia.

Estamos, pensa este professor da Universidade de Yale e personagem assíduo dos Fóruns Sociais Mundiais, em meio a uma bifurcação, um momento histórico único nos últimos 500 anos. Ao contrário do que pensava Karl Marx, o sistema não sucumbirá num ato heróico. Desabará sobre suas próprias contradições. Mas atenção: diferente de certos críticos do filósofo alemão, Wallerstein não está sugerindo que as ações humanas são irrelevantes.

Ao contrário: para ele, vivemos o momento preciso em que as ações coletivas, e mesmo individuais, podem causar impactos decisivos sobre o destino comum da humanidade e do planeta. Ou seja, nossas escolhas realmente importam. “Quando o sistema está estável, é relativamente determinista. Mas, quando passa por crise estrutural, o livre-arbítrio torna-se importante.”

É no emblemático 1968, referência e inspiração de tantas iniciativas contemporâneas, que Wallerstein situa o início da bifurcação. Lá teria se quebrado “a ilusão liberal que governava o sistema-mundo”. Abertura de um período em que o sistema hegemônico começa a declinar e o futuro abre-se a rumos muito distintos, as revoltas daquele ano seriam, na opinião do sociólogo, o fato mais potente do século passado – superiores, por exemplo, à revolução soviética de 1917 ou a 1945, quando os EUA emergiram com grande poder mundial.

Há exatamente dois anos, você disse ao RT que o colapso real da economia ainda demoraria alguns anos. Esse colapso está acontecendo agora?
Não, ainda vai demorar um ano ou dois, mas está claro que essa quebra está chegando.

Quem está em maiores apuros: Os Estados Unidos, a União Europeia ou o mundo todo?
Na verdade, o mundo todo vive problemas. Os Estados Unidos e União Europeia, claramente. Mas também acredito que os chamados países emergentes, ou em desenvolvimento – Brasil, Índia, China – também enfrentarão dificuldades. Não vejo ninguém em situação tranquila.

Você está dizendo que o sistema financeiro está claramente quebrado. O que há de errado com o capitalismo contemporâneo?
Essa é uma história muito longa. Na minha visão, o capitalismo chegou ao fim da linha e já não pode sobreviver como sistema. A crise estrutural que atravessamos começou há bastante tempo. Segundo meu ponto de vista, por volta dos anos 1970 – e ainda vai durar mais uns vinte, trinta ou quarenta anos. Não é uma crise de um ano, ou de curta duração: é o grande desabamento de um sistema. Estamos num momento de transição. Na verdade, na luta política que acontece no mundo — que a maioria das pessoas se recusa a reconhecer — não está em questão se o capitalismo sobreviverá ou não, mas o que irá sucedê-lo. E é claro: podem existir duas pontos de vista extremamente diferentes sobre o que deve tomar o lugar do capitalismo.

Qual a sua visão?
Eu gostaria de um sistema relativamente mais democrático, mais relativamente igualitário e moral. Essa é uma visão, nós nunca tivemos isso na história do mundo – mas é possível. A outra visão é de um sistema desigual, polarizado e explorador. O capitalismo já é assim, mas pode advir um sistema muito pior que ele. É como vejo a luta política que vivemos. Tecnicamente, significa é uma bifurcação de um sistema.

Então, a bifurcação do sistema capitalista está diretamente ligada aos caos econômico?
Sim, as raízes da crise são, de muitas maneiras, a incapacidade de reproduzir o princípio básico do capitalismo, que é a acumulação sistemática de capital. Esse é o ponto central do capitalismo como um sistema, e funcionou perfeitamente bem por 500 anos. Foi um sistema muito bem sucedido no que se propõe a fazer. Mas se desfez, como acontece com todos os sistemas.

Esses tremores econômicos, políticos e sociais são perigosos? Quais são os prós e contras?
Se você pergunta se os tremores são perigosos para você e para mim, então a resposta é sim, eles são extremamente perigosos para nós. Na verdade, num dos livros que escrevi, chamei-os de “inferno na terra”. É um período no qual quase tudo é relativamente imprevisível a curto prazo – e as pessoas não podem conviver com o imprevisível a curto prazo. Podemos nos ajustar ao imprevisível no longo prazo, mas não com a incerteza sobre o que vai acontecer no dia seguinte ou no ano seguinte. Você não sabe o que fazer, e é basicamente o que estamos vendo no mundo da economia hoje. É uma paralisia, pois ninguém está investindo, já que ninguém sabe se daqui a um ano ou dois vai ter esse dinheiro de volta. Quem não tem certeza de que em três anos vai receber seu dinheiro, não investe – mas não investir torna a situação ainda pior. As pessoas não sentem que têm muitas opções, e estão certas, as opções são escassas.

Então, estamos nesse processo de abalos, e não existem prós ou contras, não temos opção, a não ser estar nesse processo. Você vê uma saída?
Sim! O que acontece numa bifurcação é que, em algum momento, pendemos para um dos lados, e voltamos a uma situação relativamente estável. Quando a crise acabar, estaremos em um novo sistema, que não sabemos qual será. É uma situação muito otimista no sentido de que, na situação em que nos encontramos, o que eu e você fizermos realmente importa. Isso não acontece quando vivemos num sistema que funciona perfeitamente bem. Nesse caso, investimos uma quantidade imensa de energia e, no fim, tudo volta a ser o que era antes. Um pequeno exemplo. Estamos na Rússia. Aqui aconteceu uma coisa chamada Revolução Russa, em 1917. Foi um enorme esforço social, um número incrível de pessoas colocou muita energia nisso. Fizeram coisas incríveis, mas no final, onde está a Rússia, em relação ao lugar que ocupava em 1917? Em muitos aspectos, está de volta ao mesmo lugar, ou mudou muito pouco. A mesma coisa poderia ser dita sobre a Revolução Francesa.

O que isso diz sobre a importância das escolhas pessoais?
A situação muda quando você está em uma crise estrutural. Se, normalmente, muito esforço se traduz em pouca mudança, nessas situações raras um pequeno esforço traz um conjunto enorme de mudanças – porque o sistema, agora, está muito instável e volátil. Qualquer esforço leva a uma ou outra direção. Às vezes, digo que essa é a “historização” da velha distinção filosófica entre determinismo e livre-arbítrio. Quando o sistema está relativamente estável, é relativamente determinista, com pouco espaço para o livre-arbítrio. Mas, quando está instável, passando por uma crise estrutural, o livre-arbítrio torna-se importante. As ações de cada um realmente importam, de uma maneira que não se viu nos últimos 500 anos. Esse é meu argumento básico.

Você sempre apontou Karl Marx como uma de suas maiores influências. Você acredita que ele ainda seja tão relevante no século 21?
Bem, Karl Marx foi um grande pensador no século 19. Ele teve todas as virtudes, com suas ideias e percepções, e todas as limitações, por ser um homem do século 19. Uma de suas grandes limitações é que ele era um economista clássico demais, e era determinista demais. Ele viu que os sistemas tinham um fim, mas achou que esse fim se dava como resultado de um processo de revolução. Eu estou sugerindo que o fim é reflexo de contradições internas. Todos somos prisioneiros de nosso tempo, disso não há dúvidas. Marx foi um prisioneiro do fato de ter sido um pensador do século 19; eu sou prisioneiro do fato de ser um pensador do século 20.

Do século 21, agora.
É, mas eu nasci em 1930, eu vivi 70 anos no século 20, eu sinto que sou um produto do século 20. Isso provavelmente se revela como limitação no meu próprio pensamento.

Quanto – e de que maneiras – esses dois séculos se diferem? Eles são realmente tão diferentes?
Eu acredito que sim. Acredito que o ponto de virada deu-se por volta de 1970. Primeiro, pela revolução mundial de 1968, que não foi um evento sem importância. Na verdade, eu o considero o evento mais significantes do século 20. Mais importante que a Revolução Russa e mais importante que os Estados Unidos terem se tornado o poder hegemônico, em 1945. Porque 1968 quebrou a ilusão liberal que governava o sistema mundial e anunciou a bifurcação que viria. Vivemos, desde então, na esteira de 1968, em todo o mundo.

Você disse que vivemos a retomada de 68 desde que a revolução aconteceu. As pessoas às vezes dizem que o mundo ficou mais valente nas últimas duas décadas. O mundo ficou mais violento?
Eu acho que as pessoas sentem um desconforto, embora ele talvez não corresponda à realidade. Não há dúvidas de que as pessoas estavam relativamente tranquilas quanto à violência em 1950 ou 1960. Hoje, elas têm medo e, em muitos sentidos, têm o direito de sentir medo.

Você acredita que, com todo o progresso tecnológico, e com o fato de gostarmos de pensar que somos mais civilizados, não haverá mais guerras? O que isso diz sobre a natureza humana?
Significa que as pessoas estão prontas para serem violentas em muitas circunstâncias. Somos mais civilizados? Eu não sei. Esse é um conceito dúbio, primeiro porque o civilizado causa mais problemas que o não civilizado; os civilizados tentam destruir os bárbaros, não são os bárbaros que tentam destruir os civilizados. Os civilizados definem os bárbaros: os outros são bárbaros; nós, os civilizados.

É isso que vemos hoje? O Ocidente tentando ensinar os bárbaros de todo o mundo?
É o que vemos há 500 anos.

As declarações foram colhidas no dia 4 de outubro pela jornalista Sophie Shevardnadze, que conduz o programa Interview na emissora de televisão russa RT.
Fonte: Outras Palavras.