segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Como sempre a Justiça brasileira esta ao lado os Ricos e Poderosos – por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

Pinheirinho: cenário de guerra em desocupação violenta - Por Adriana Delorenzo

Pinheirinho: cenário de guerra em desocupação violentaMesmo com decisão judicial federal em contrário, PM expulsa milhares de moradores de área que pertence a Naji Nahas
Cerca de 2 mil famílias, aproximadamente 10 mil pessoas, que ocupavam um terreno abandonado desde 2004, foram expulsas violentamente neste domingo, 22. A área, na cidade de São José dos Campos (SP), pertence ao empresário Naji Nahas, e a comunidade vinha requerendo o direito a permanecer no local. Na sexta-feira, 20, decisão do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, do desembargador Antonio Cedenho, suspendeu a ordem de reintegração de posse da ocupação.

Mesmo com a decisão federal, a polícia militar realizou a desocupação com forte aparato, com helicópteros, blindados, armas, bombas de gás e pimenta, a mando do governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, e do prefeito da cidade, Eduardo Cury, também do PSDB. A ação foi acompanhada pelo juiz do TJ paulista, Rodrigo Capez, irmão do deputado estadual tucano Fernando Capez.

O senador Eduardo Suplicy (PT), os deputados Paulo Teixeira (PT) e Ivan Valente (PSOL) e o presidente do PSTU, Zé Maria, tentaram entrar na área e negociar uma solução pacífica, porém foram impedidos. O senador teria telefonado para o governador do estado que afirmou que seguiria decisão da justiça paulista.

No momento, o clima é de tensão. Foram montadas tendas para que a população seja cadastrada. Segundo informações de pessoas que estão no local, o cenário é similar ao de um campo de refugiados, com crianças, cachorros, botijões de gás, senhoras chorando. O clima é de desespero entre os moradores.

Uma série de protestos tem sido chamado pelo país. No momento, acontece um ato na Av. Paulista, com concentração em frente ao MASP, onde já estão mais de 100 pessoas. Nesta segunda-feira, 23, estão sendo convocadas manifestações em Porto Alegre, Rio de Janeiro, Belém e Fortaleza.Fonte: http://www.revistaforum.com.br

Crueldade Nunca Mais: Passeata histórica em defesa dos animais reúne mais de 20 mil pessoas em SP - Por Lilian Regato Garrafa

Crueldade Nunca Mais: Passeata histórica em defesa dos animais reúne mais de 20 mil pessoas em SP22 de janeiro de 2012. Um dia histórico para a defesa dos direitos animais. Manifestações simultâneas em mais de 170 cidades brasileiras marcaram o domingo como um dia de luta pela punição contra crimes aos animais. Em São Paulo, o protesto reuniu mais de 20 mil pessoas.

Compareceram ativistas, integrantes de ONGs, protetores independentes, artistas, mas, principalmente, cidadãos comuns, que não pertencem a nenhum movimento e pela primeira vez foram às ruas emprestar sua voz e seu apoio aos animais que precisam ter seus direitos reconhecidos.Com início às 10h, o protesto convocado por organizadores do movimento Crueldade Nunca Mais saiu do Masp em direção à Rua da Consolação, tomando três faixas da Avenida Paulista. Em pouco tempo os acessos foram completamente bloqueados pelos manifestantes, que num ato pacífico pediam justiça, cadeia e leis rígidas que punam a violência que a cada dia é praticada contra animais em suas mais diversas formas e níveis de tortura.

As vozes das mais de 20 mil pessoas ecoaram e provocaram positivamente quem passava pela região. Muitos iam se juntando à passeata. Os motoristas dos carros apoiavam com buzinaço e os passageiros dos ônibus faziam gestos de apoio e aprovação.Trabalhadores de uma obra pararam e também pediram justiça empunhando cartazes.
Muitos artistas estiveram presentes. O ator Marcelo Médici, um grande ativista na proteção animal e um dos coordenadores da comissão Lei Lobo, compareceu para protestar contra a violência com os animais. A atriz Lúcia Veríssimo, vegana e ativista há mais de 20 anos, disse que “manifestações como esta nos dão a certeza de estarmos caminho certo. Pacificamente e com uma grande mobilização podemos chamar a atenção para uma causa de importância social imensa. Não podemos nos calar e nos omitir diante de crimes hediondos contra animais sem exigir que a justiça seja feita.”Outros artistas como a apresentadora Luisa Mell e o o ator Nico Puig estiveram presentes. Nico, que tutela três cachorros, integra a campanha contra leishmaniose e fez questão de participar do movimento e mostrar seu entusiasmo pela defesa da vida.

A modelo, atriz e apresentadora Gianne Albertoni participou ativamente da manifestação e afirmou que as penas para quem comete crimes contra animais são muito brandas, e a principal motivação de participar de ações como esta é pedir uma lei, que é a Lei Lobo, para a qual é necessário arracadar assinaturas a fim de obter sua aprovação no legislativo e ter um resultado mais rápido possível.

A empresária e socialite Marina de Sabrit, que também emprestou sua voz neste dia, declarou que, quando se fala em amor aos animais, o sentido é o de respeito ao próximo. “Muitas pessoas interpretam amor aos animais como fanatismo, mas o que se deve entender é que é apenas uma questão de respeito. O mesmo respeito que se dá ao ser humano se deve dar aos animais e à natureza”.O protetor voluntário e ativista Luiz Scalea reiterou a necessidade de se mudar a penalidade prevista em lei para maus-tratos a animais. Para isso foi organizada tal manifestação simultânea em muitos estados e cidades do país a fim de sensibilizar a sociedade e pedir enrijecimento das leis que deveriam protegem os animais.

Roberta Ropperto, protetora há vinte anos e ativista, mostrou-se orgulhosa ao ver a mobilização e a quantidade de pessoas se manifestando. Afirmou que agora os casos de crueldade têm vindo à tona na mídia diariamente, mas como protetora ela acompanha isso há muito tempo, atuando em resgates diários. Por isso considera fundamental que todos adquiram essa consciência e continuem se mobilizando.

As irmãs gêmeas Mariana e Carolina Azevedo, de 16 anos, compareceram pela primeira vez a uma manifestação em defesa dos animais. Voluntárias de uma ONG que acolhe cães, elas resgataram 3 gatos e 1 cachorro em situação de abandono. Um de seus gatos foi recolhido com o fêmur fraturado e passou por cirurgia. Declararam que, apesar de ser o primeiro protesto de que participam, é necessário que haja mais manifestações como a de hoje.Os representantes da Iniciativa das Religiões Unidas participaram do movimentos pelos animais.
Um pastor, um padre, um espiritualista, um hare-krishna e um rabino, juntos, representaram a Iniciativa das Religiões Unidas. O Reverendo Elias de Andrade Pinto destacou que, se não houver a paz também entre os animais, não haverá paz para o mundo, ressaltando que todos os líderes religiosos ali presentes são vegetarianos por questão de coerência. Afirmou haver debates para acelerar o processo de transparência e evolução de forma a evitar o uso e sofrimento de animais pelas religiões. Uma evolução planetária é o que está, segundo ele, em andamento.Também participaram da ação em São Paulo personalidades como a ex-vereadora Soninha Francine, o deputado federal Ricardo Izar, presidente da Frente Parlamentar em Defesa dos Animais, e o deputado estadual Feliciano Filho.

Fotos: ANDA
Fonte: http://www.anda.jor.br

sábado, 21 de janeiro de 2012

Editorial: Brasil pede justiça para os animais - por ANDA

Editorial: Brasil pede justiça para os animaisImagem: Reprodução/Internet

A divulgação de casos de crueldades cometidas contra animais tem comovido e indignado todo o país. A sociedade tem acompanhado a triste realidade de animais domésticos, domesticados, silvestres e exóticos que são mortos, espancados, brutalizados, sofrendo violências de todos os tipos sem que os criminosos sejam presos ou penalizados com rigor, porque não há amparo legal para que se faça verdadeiramente justiça.

As leis no Brasil são brandas para perigosos assassinos e pessoas cruéis porque parte do pressuposto que uma atrocidade contra um animal é um crime de menor poder ofensivo. Um entendimento absolutamente equivocado e que vai de encontro ao entendimento da Justiça de outros países e ao anseio da sociedade brasileira, que está clamando por mudanças na lei.

Este é um erro que precisa ser corrigido. Não se julga um crime a partir da vítima. Uma barbaridade cometida contra um cão, um mendigo, uma pessoa rica deve ser penalizada da mesma maneira. O que se deve punir é a violência em si e ela não é menor porque é cometida contra determinados seres. Julgar desta forma é estimular a crueldade contra os mais fracos. O abuso contra animais é um crime com consequências graves para todos.

Já está mais do que provado por pesquisas que a violência ao animal é sintoma de uma mente doentia. Já na década de 70, o resultado do levantamento da vida de serial killers feita pelo FBI, a polícia federal norte-americana, comprovava a relação entre crueldade contra animais e crueldade contra pessoas. Quase todos os assassinos em série começaram matando animais (veja uma pequena lista de casos abaixo).

Essa compreensão é a base do julgamento de crimes contra animais nos Estados Unidos. Apenas para citar um caso recente publicado pela ANDA, um homem que violentou um cão que sobreviveu, foi sentenciado a 10 anos de prisão em regime fechado no EUA. Além da pena de prisão, ele foi inscrito, pelo resto da vida, no registro de delinquentes sexuais. Uma sentença exemplar que deve ser aplicada também no Brasil.

Os animais têm direitos que precisam ser reconhecidos e respeitados. Este é o clamor de boa parte dos brasileiros e a legislação precisa atender. A lei deve obrigatoriamente acompanhar os avanços morais, tecnológicos, econômicos, culturais, de qualquer outra ordem, da sociedade.

Mobilização nacionalDe Norte a Sul do país, milhares de pessoas, num movimento lindo e histórico, estão mobilizadas em mais de 170 cidades e capitais para exigir que autoridades, legisladores, mudem as leis. Chega de impunidade, chega de tanto sofrimento e dor diante de injustiças. A legislação brasileira no que concerne aos crimes cometidos contra animais precisa mudar imediatamente.

A ANDA convoca todas as pessoas de bem, todos que estão se sentindo indignados com a violência aos animais para que compareçam neste domingo (22) em suas cidades à manifestação simultânea por justiça e pelo fim da crueldade aos animais. A paz só existe quando é vivida entre todos.

A ANDA vem divulgando e denunciando há três anos casos de violência contra animais, seria impossível listar todos aqui, relembre apenas alguns recentes:

- Gato é enterrado vivo em lata cheia de piche.
- Lobo, um rotweiller que foi arrastado pelo carro de seu próprio tutor e morreu depis de sofrer bastante.
- Uma égua vítima da exploração morreu de cansaço, em plena rua em SP
- Jade, uma rotweiller grávida, que foi trancada dentro do carro e queimada viva com gasolina pelo filho do tutor. Ela teve 80% do corpo queimado, ficou internada por semanas e agora está em recuperação.
- Um pobre cão assustado com os fogos na virada do ano, se escondeu embaixo de um carro e foi covardemente atacado com golpes de facas, teve o pulmão perfurado, mandíbula e morreu na clínica.
- O cão Titã foi enterrado vivo por seu “tutor” quando tinha apenas 4 meses. Ele sobreviveu, ficou internado semanas, fez transfusão de sangue e perdeu uma visão.
- Dois cães de 16 anos foram jogados do 5º andar por sua tutora que teve um “surto”.
- Lana, a yorkshire brutalmente espancada até a morte por sua tutora que justificou a atrocidade por estar “nervosa” aquele dia.
- Dalva, provavelmente a maior assassina de animais do mundo, matou em oito anos mais de 30 mil cães e gatos em sua casa na Vila Mariana, em SP.
- Uma idosa de 71 anos, do RJ, matava cães a pauladas e jogava em sacos de lixo na calçada.
- Um cão brutalmente espancado e quase enforcado ficou com distúrbios emocionais sérios.
- Um PM atirou sem qualquer motivo numa cadela grávida que vivia com um mendigo em Pouso Alegre.
- Cadelinha morre após ser abandonada dentro de saco em SC.
- Um burro idoso foi obrigado a trabalhar com a pata fraturada e pendurada por vários dias e quilômetros numa estrada.

Abaixo, publicamos uma relação com o nome de criminosos de alta periculosidade, os crimes que cometeram e a crueldade com os animais.

Albert de Salvo (O Estrangulador de Boston)
Assassinou 13 mulheres.
Na juventude prendia cães e gatos em jaulas para depois atirar flechas neles.

Brenda Spencer
Uma colegial que matou duas crianças nos EUA.
Costumava se divertir ateando fogo na cauda de cães e gatos e ninguém deu muita importância a isto.

David R. Davis
Assassinou a esposa para receber o seguro.
Matou dois poneys, jogava garrafas em gatinhos, era caçador.

Edward Kemperer
Matou os avós, a mãe e sete mulheres.
Cortou dois gatos em pedacinhos.

Henry L. Lucas
Matou a mãe, a companheira e um grande número de pessoas.
Matava animais e fazia sexo com os cadáveres.

Jack Bassenti
Estuprou e matou três mulheres.
Quando sua cadela deu cria enterrou os filhotes vivos.

Jeffrey Dahmer
Matou dezessete homens.
Empalava sapos quando crianças e matava animais deliberadamente com seu carro.

Johnny Rieken
Assassino de Christina Nytsch e Ulrike Everts.
Matava cães, gatos e outros animais quando tinha 11 ou 12 anos.

Luke Woodham
Aos 16 anos esfaqueou a mãe e matou a tiros duas adolescentes.
Incendiou seu próprio cachorro despejando um líquido inflamável na garganta e pondo fogo por fora e por dentro ao mesmo tempo. “No sábado da semana passada, cometi meu primeiro assassinato. A vítima foi minha querida cachorra Sparkle. Nunca vou esquecer o uivo que ela deu. Pereceu algo quase humano. Então nós rimos e batemos mais nela”. Esta frase foi extraída do diário de Luke Woodham.

Michael Cartier
Matou Kristen Lardner com três tiros na cabeça.
Aos quatro anos de idade puxou as pernas de um coelho até saírem da articulação e jogou um gatinho através de uma janela fechada.

Peter Kurten (O Monstro de Düsseldorf)
Matou ou tentou matar mais de 50 homens, mulheres e crianças.
Torturava cães e fazia sexo com eles, enquanto os matava.

Randy Roth
Matou duas esposas e tentou matar a terceira.
Passou um esmeril elétrico em um sapo e amarrou um gato ao motor de um carro.

Richard A. Davis
Assassinou uma criança de doze anos.
Incendiava gatos.

Richard Speck
Matou oito mulheres.
Jogava pássaros dentro do elevador.

Richard W. Leonard
Matava com arco e flecha ou degolando.
Quando criança a avó o forçava a matar e mutilar gatos com sua cria.

Rolf Diesterweg
O assassino de Kim Kerkowe e Sylke Meyer.
Na juventude matava lebres, gatos e outros animais.

Theodore R. Bundy
Matou 33 mulheres.
Presenciava o avô sendo cruel com os animais.
Fonte: http://www.anda.jor.br/

#StopSOPA: hipóteses sobre a luta pela internet livre - por Antonio Martins

#StopSOPA: hipóteses sobre a luta pela internet livreProtestos virtuais desta semana têm muito em comum com “indignados” ou “Occupy”. Por que alcançaram uma vitória parcial tão rápida?

Na noite de quarta-feira (18/1), quando alguns dos sites de maior audiência no planeta ainda exibiam os símbolos da campanha contra as leis de censura em debate nos EUA, surgiram os primeiros sinais claros de vitória. Diversos parlamentares, de ambos os partidos, que apoiavam os projetos denominados SOPA [1] (na Câmara de Representantes) e PIPA [2] (no Senado), anunciaram (no Twitter ou Facebook…) que estavam revendo suas posições. No Senado, a mudança de clima teve sabor de um gol nos últimos suspiros do segundo tempo. Há poucas semanas, o Comitê Judiciário (semelhante à Comissão de Constituição e Justiça no Brasil), havia aprovado a PIPA – por unanimidade e sem nenhuma controvérsia. A votação final começaria na semana que vem. Está suspensa. Mesmo os principais defensores do projeto agora se dizem favoráveis a “decidir sem pressa”.

Não foi, evidentemente, um resultado definitivo. Há mais de uma década, a internet está na mira de grandes corporações que não aceitam o compartilhamento livre de bens culturais – porque ganham dinheiro vendendo o que poderia ser de todos. Mesmo a SOPA e a PIPA não morreram: estão “esperando nas sombras”, como alerta a Wikipedia, em nota divulgada quinta-feira para celebrar e agradecer a mobilização dos internautas contra as leis.

Um sinal de que a disputa será longa e bruta deu-se já na quinta-feira. Uma mega-operação conjunta do Departamento de Justiça dos EUA e do FBI fechou, sob acusação de pirataria, o site MegaUpload. Era um espaço muito popular para troca de conteúdo digital entre internautas (72ª maior audiência da internet, segundo o comparador Alexa). Seu bloqueio deu-se com base em legislação já existente. Teve dimensão internacional: quatro pessoas estão presas na Nova Zelândia, por “crimes” (operar os servidores do site) que podem resultar em 55 anos de prisão. Foi consequência de uma ação movida contra o Megaload pelos cartéis da indústria cultural; Tiveram seu prêmio de consolação… [3]

Pelo menos dois grandes motivos convidam a examinar em profundidade a grande jornada de quarta-feira e seu resultado. Há muito em jogo: SOPA e PIPA poderão desencadear, se aprovadas, uma onda de proibições e limites capaz de desfigurar o que o sociólogo Manuel Castells vê como a “cultura de liberdade” na internet.

Além disso, há laços muito fortes entre a resistência às duas leis e as causas que sensibilizam os indignados, os participantes do Occupy, os manifestantes da Praça Tahrir ou os que resistem à militarização da Luz, em São Paulo.

> Em todos estes casos, quem luta são multidões (principalmente jovens) e não uma classe ou grupo social específico. Prevalece a autonomia: as campanhas são organizadas diretamente pelos envolvidos, sem que seja necessária a intermediação de grupos políticos ligados às dinâmicas da representação.

> Deseja-se impedir que o poder econômico capture o comum: riquezas (às vezes imateriais), direitos e bens como a internet livre, os serviços públicos, a possibilidade de encontrar uma ocupação ou almejar uma aposentadoria dignas. Mesmo na Tunísia e Egito, onde a luta assumiu forte conteúdo anti-ditatorial, ela foi deflagrada pelo desemprego e alta do preço dos alimentos, após medidas de “ajuste fiscal”.

> Denuncia-se o declínio da democracia (ou, no mundo árabe, sua ausência). Enfrentam-se decisões que atingem gravemente a sociedade, mas são tomadas sem nenhuma consulta a ela, de forma opaca, por “exigência” da oligarquia financeira.

> Propõem-se, ainda de forma embrionária e tateante, novas formas de organizar a vida social. Os laboratórios podem ser as praças (onde se reorganizam os serviços de alimentação, autoeducação, saúde, limpeza e segurança) ou a internet, grande praça global. Os valores que orientam esta busca têm forte caráter pós-capitalista: compartilhamento, cooperação, solidariedade, desierarquização, democracia direta, busca de consensos. Não se trata de disputar o comando das sociedades industriais, como fazia o socialismo dos séculos passados; mas de realizar a transição para sociedades articuladas segundo outras lógicas. Não são projetos oníricos, mas concretos e às vezes pragmáticos. A multidão já organiza a internet, em grande medida, segundo princípios de compartilhamento. Ao criar “serviços públicos alternativos” nas praças ocupadas do Egito, Espanha, Grécia ou Israel, os jovens sinalizavam que querem construir o novo agora, com suas mãos.

Em meio a tantas semelhanças, o protesto virtual desta semana distingue-se de todos os demais em algo essencial. Ele foi capaz de alcançar uma vitória. Concreta e muito relevante – ainda que parcial e provisória. Estudar as razões desta diferença, buscar o que separa uma mobilização bem-sucedida de outras que ainda amadurecem, é um exercício necessário e sedutor. Desde já, vale adiantar quatro hipóteses, complementares entre si.

A primeira, e mais óbvia, diz respeito às pretensões absurdas da SOPA/PIPA, em suas versões iniciais. Entre muitos outros pontos, as leis incluem uma forma de controle da internet (bloqueio ou desvio de DNS) idêntica à praticada na China, Irã ou Síria. Ferem o direito internacional: são extraterritoriais – ou seja, atingem cidadãos e empresas não submetidos às leis norte-americanas.

Estabelecem penas inteiramente desproporcionais, como prisão para os “culpados” de troca de arquivos. Permitem que os cartéis da indústria cultural façam justiça com as próprias mãos (dispensa-se ordem judicial para medidas como tirar um site do ar). Quem tramou semelhantes bizarrices confiou cedo demais no esvaziamento completo da democracia tradicional.Mas as demais hipóteses são as mais fascinantes, porque dizem respeito ao debate sobre estratégias, necessário também nos movimentos que reivindicam autonomia. Tudo indica que o #StopSOPA alcançou sua vitória parcial porque: a) definiu muito claramente um foco, um objetivo concreto a ser alcançado. Foi além das fórmulas ambiciosas porém genéricas demais, e portanto inócuas, do tipo no nos representan; b) apoiou-se no tecido pós-capitalista da internet – muito mais desenvolvido que nas demais relações sociais. A rede está povoada por iniciativas contra-hegemônicas de enorme alcance. A Wikipedia e o WordPress, por exemplo, servem centenas de milhões de pessoas todos os dias e articulam comunidades de milhões; c) explorou contradições no campo do capital. Nos protestos de quarta-feira, chamou enorme atenção a adesão do Google, cuja página de entrada exibiu uma tarja negra sobre seu próprio logotipo e a mensagem: “Diga ao Congresso: por favor, não censure a Web” – que remetia a um excelente texto (in)formativo. Que Parlamento ousará adotar uma posição antipopular tendo um adversário como estes?

Como se armou este conjunto de condições muito particulares? Será possível construir, em lutas futuras, cenários igualmente favoráveis? É o que tentaremos examinar, em textos futuros desta série.

[1] Stop Online Piracy Act, ou Lei contra a Pirataria Online.
[2] Protect Intellectual Property Act, ou Lei para a Proteção de Propriedade Intelectual.
[3] Como a ação contra o Megaload foi movida pelos cartéis da indústria cultural, o coletivo Anonymous lançou, em 20/1, uma onda de ataques que derrubou, por algumas horas, os sites do cartel fonográfico
Fonte: http://www.outraspalavras.net/

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Nietzsche, genealogia e História.

Nietzsche, genealogia e HistóriaPara o Historiador Nietzschiano, História é Genealogia

Nesse texto, discuto o texto de Foucault Nietzsche, Genealogia e História. Nesse texto que é o único em que Foucault discute Nietzsche diretamente, ele analisa que Nietzsche fala em genealogia para se contrapor ao livro do amigo, o médico e filósofo Paul Rée (A Origem das Sensações Morais), que fala em origem. Nietzsche oporia a genealogia mítica à origem metafísica e ao “desenvolvimento” hegeliano. O artigo também faz uma análise filológica de alguns termos usados por Nietzsche: proveniência (herkunft), origem (ursprung) e desenvolvimento (entwicklung). Foucault substituiu essa última pelo termo “emergência” ou “surgimento”, para marcar uma diferenciação com a história supostamente contínua que seria inspirada por Hegel. Ele não cita Marx, apenas se opõe à história-antiguidade, a história de nomes e datas de grandes eventos. A idéia é fazer uma história demagógica num certo sentido, uma história para o povo e saída do povo.

Em seu livro, Origens das Sensações Morais, Paul Rée teoriza que os conceitos de “bem” e “mal” têm sentido nas comunidades. A comunidade criou esses conceitos porque os que mais contribuíssem para a comunidade seriam assim chamados bons e os que não contribuíssem seriam os maus. Os termos foram pensados em termos de utilidade, condicionamento e evolução. As comunidades que mais conseguissem organizar o impulso coletivo contra o impulso egoísta seriam selecionadas e sobreviveriam. Nietzsche diverge totalmente e analisa bem e mal em termos de relações de poder, opondo-se a Paul Rée. Paul Rée também criticou Nietzsche e em cartas exibiu o seu conceito de Nietzsche: uma pessoa vaidosa, egoísta, que corria atrás da fama. Para ele, o melhor seria ser desinteressado, não-egoísta.
A genealogia é uma outra proposta de escrever história que Foucault está fazendo – e de fato ele fez trabalhos nesse sentido. Essa história efetiva seria descontínua. Mas essa história não busca a origem, para ele na origem tudo era o caos, era informe e confuso. Foucault pesquisa história para abalar o presente, para questionar a origem e dissolver a identidade do sujeito de conhecimento.

O genealogista teria também vontade de saber sobre a vontade de saber? Pode-se argumentar com Nietzsche e Foucault que nossa vontade de verdade e saber é determinada pelo nosso desejo de sobrevivência. Se soubermos a verdade, sobreviveremos. No entender dele, pesquisa-se história não para reforçar o presente, mas para descobrir que toda história é luta, é jogo de forças, mas ele não se prende ao referencial “classe social” e sim ao indivíduo, ao corpo, à mente (loucura), à história dos hospícios, hospitais, da sexualidade, etc. Não há um começo, apenas se pode verificar que existe um começo dentre os vários começos que existem.

O conceito de emergência ou de surgimento, usado para substituir o termo “desenvolvimento” (entwicklung) seria um determinado estado das forças. Analisando a proveniência, pode-se mostrar seu jogo, assim como a maneira como lutam as forças umas com as outras. Para Foucault, a relação de dominação não é mais de dominação, nem o lugar onde ela se exercer é um lugar. Existe um jogo da dominação. A genealogia é a história das morais, o jogo da história a investigar.
O corpo, nessa visão, não escapa à história. Ele opõe uma história diferente da tradicional e essa é uma história que não reconhece origem. O corpo não tem um eu e sim uma miríade de “eus”, de acontecimentos perdidos.

Diante das épocas nobres e elevadas, essa história busca uma perspectiva de rã. A história, assim pensada, adota um saber perspectivo. O historiador dessa nova história, que ele chama de história efetiva, não terá tanta preocupação com a objetividade, mas criticar o universal. O europeu, dessa perspectiva, é um homem mestiço, um homem de muitas almas. Nietzsche extrapola nesse ponto em Para Além do Bem e do Mal e Foucault não chega a criticar os aforismas onde Nietzsche escreve, bem ao gosto do século XIX, que o homem mestiço é “débil”. Isso ao meu ver é o ponto mais fraco e defasado desse texto de Foucault.

O historiador nietzschiano ou genealogista seria anti-platônico, mas faria uso da história para a vida, diferente do que Nietzsche mesmo afirmou em determinada altura. Seria mais uma palhaçada da história feita por bobos de Deus do que uma história-antiguidade.

A genealogia da história retomaria máscaras, fazendo a dissociação sistemática da individualidade. A identidade, para o historiador genealogista da história, ou seja, o historiador nietzschiano, identidade é uma máscara dentre várias máscaras, é uma paródia, uma disputa entre forças, também chamadas de inúmeras almas. Identidade não existe: existiriam identidades.

Para Foucault, o historiador nietzschiano, o conhecimento nasce da injustiça e o instinto de conhecimento é tido como mal. Ele opõe o querer-saber e a verdade universal. A paixão do conhecimento talvez mate a humanidade ou ela morrerá de fraqueza, essa é a oposição que ele coloca sobre o destino da humanidade. No entanto, o querer-saber nasce justamente do desejo da sobrevivência e da vontade de viver do ser humano.

Foucault mesmo observa que Nietzsche, com a investigação de Genealogia da Moral e Gaia Ciência, faz um uso da história que ele mesmo tinha criticado e não recomendado em Considerações Extemporâneas. Ele (e o historiador nietzschiano, nesse caso, vai contra Nietzsche) retoma as modalidades da história e seus usos. Assim, a vontade de saber só ela se ela colocar a si mesmo como problemática, assim como ela só faz sentido para esse historiador se ela dissolver continuidades, fizer dissociações sistemáticas e destruir o sujeito do conhecimento. Para ele, história é genealogia das morais, é história das forças em luta.
Fonte: http://www.revistacidadesol.blogspot.com/

Ano novo, velhos problemas - por Mauro Iasi.

Ano novo, velhos problemasUma estrela cruzou o céu escuro do deserto. Ninguém a seguia, nem reis, nem magos, nem pastores, nem virgens. As crianças que nasceram simplesmente nasceram, não mais repletas de esperança do que qualquer outra simples criança que vem ao mundo. Seus pais e mães olham preocupados com os modernos Erodes que ainda odeiam crianças e trabalhadores e renovam as alegrias que guardaram em seus olhos e corações, imprudentemente acreditando em um ano melhor.

Em 2011 mais de três mil palestinos foram presos pelas forças de ocupação de Israel. As forças israelenses soltaram 477 prisioneiros em outubro em troca de Gilad Shalit, mas de lá para cá prenderam 470 pessoas, incluindo 113 dos que haviam sido libertados em troca do soldado israelense [Ver "Mais de 3 mil palestinos presos pelas forças de ocupação em 2011" em www.pcb.org.br]. O representante da autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, pediu em seu discurso na ONU, em setembro de 2011, que a assembleia geral aprove a criação do Estado da Palestina, proposta que conta com a aprovação de mais de dois terços dos Estados ali representados. Na verdade, pede que se respeite uma votação que já ocorreu e já aprovou tal iniciativa… em 1988!

Os EUA, no entanto, mantêm sua decisão de vetar a criação do Estado da Palestina e repete a posição israelense de que tal criação só pode ser resultado das “negociações” (!?). Os quatro “mediadores” (EUA, Rússia, Comunidade Europeia e a própria ONU) deram o prazo de quatro semanas para que sejam obtidos “progressos substanciais”…

Uma estrela/obus cruza o céu gelado do deserto e pastores e carpinteiros se escondem assustados em meio aos escombros de suas casas. Um dos três reis Magos era negro, acredito que seu nome era Baltazar, ou Yazdegerd, ou ainda Bithisarea, não importa, mas vinha de Sabá. Enquanto o primeiro, um velho de barbas brancas, ofereceu ao menino que nascera um punhado de ouro, como se faziam aos reis; o segundo, um jovem chamado de Gaspar, um pote de incenso, o que remetia à divindade do bebe; o nosso terceiro trouxe mirra e profetizou que o menino ia morrer. Não há registro sobre um quarto rei, seja ele mago ou não, talvez porque nosso quarto membro da comitiva de “mediadores” tenha se calado, não deu presente algum, nem disse que o menino viveria ou morreria, permaneceu calado e omisso como está desde 1988.

Uma virgem sente as primeiras dores do parto e procura uma manjedoura… não encontra nenhuma. Fogos explodem nas areias de Copacabana, como antes já haviam pipocado em Tókio, na Austrália e na Nova Zelândia. Os palestinos continuam sem um Estado e sem um ano novo.

Os três ou quatro reis foram atraídos pelas luzes da Times Square e não estavam no deserto para presenciar o nascimento do menino que passa bem. Sua mãe o acolheu, embrulhando numa espécie de manto quadriculado em branco e negro, formando losângulos, com pingentes nas bordas, enquanto seu pai fez uma oração em árabe e o levantou em direção ao céu.

As tropas do Império não perdem por esperar. Feliz ano novo e um poema inédito:

Gaza, bombas e um feliz ano novo
Cada um luta como pode
fuzis, favelas, amuletos.
Na pré-história da humanidade
meu poema vive no gueto.

Em mim, que não tenho pátria, tudo explode.
Judeus e desterrados palestinos,
um velho alemão,
um jovem argentino.

Cada um luta como pode.
Sem bandeira e sem programa,
como água que não cabendo no pote
violenta se derrama.

Perdida no deserto em chamas,
cruzando um céu negro e gelado
a estrela de Belém, perdida,
cai sobre o messias que a conclama.

Tudo ou nada: intifada!

Sangue corre na terra santa.
Três reis magros, uma virgem, um carpinteiro
caminham no deserto
sem achar a manjedoura.

Quem já foi sem terra sabe da nossa sina.
Que sabe não foi o nazismo
que ensinou a vítima
Como se tornar assassina?
***
Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, presidente da ADUFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas).
Fonte: http://boitempoeditorial.wordpress.com/

Saiba quem são os Anonymous, que derrubaram o site do FBI - Por Renato Rovai

Saiba quem são os Anonymous, que derrubaram o site do FBIMatéria da edição 101 de Fórum explica como eles se organizam e quais seus objetivos.

Em 14 de janeiro de 2008, um vídeo com o ator Tom Cruise fazendo apologia das maravilhas da Igreja da Cientologia foi parar no YouTube. A seita das celebridades de Hollywood não gostou e entrou com um pedido de violação de direitos autorais contra o canal de internet, exigindo a imediata remoção do conteúdo. Ganhou na Justiça, mas a censura desencadeou uma série de ações contra a igreja. Tanto na rede quanto nas ruas.

Em 2 de fevereiro daquele ano, duas centenas de pessoas se reuniram em frente a um centro da Igreja, na Flórida, para protestar. Manifestações também foram realizadas no mesmo dia na Califórnia (EUA) e em Manchester (Inglaterra). No dia 10 e no dia 15, os atos continuaram, cada um com cerca de 8 mil pessoas protestando em aproximadamente uma centena de cidades, incluindo Chicago, Los Angeles, Londres, Paris, Vancouver e Berlim. Detalhe: os manifestantes escondiam seus rostos sob máscaras, boa parte delas do personagem do filme “V de Vingança”, que foi inspirado num personagem histórico inglês, Guy Fawkes.

O mundo começava a conhecer o Anonymous, grupo gerado pela ação das redes e que, desde 2003, se articulava e debatia ideias em fóruns, principalmente no site www.4chan e no Internet Relay Chat (IRC).

Alguns desses militantes são hackers, com conhecimentos avançados de programação, mas boa parte, não. “Eu, por exemplo, sou escritora, redatora e estou na faixa dos 30 anos. Normalmente não dizemos nossa idade, mas estou lhe revelando para tirar o mito de que somos adolescentes. Isso não é verdade. Para você ter uma ideia, não sei nada de informática, sou uma leiga”, revela Farfalla (borboleta em italiano), militante dos Anonymous Brasil, numa conversa que tivemos pelo IRC, plataforma de bate-papo que fez muito sucesso no final dos anos 1990 e início dos anos 2000.

Os Anonymous já realizaram várias ações depois da que os tirou do anonimato global, contra a Igreja da Cientologia. Uma das mais conhecidas se deu em dezembro de 2010, quando mais de mil deles se organizaram por meio de fóruns e redes sociais para congestionar os sistemas das redes Mastercard e Visa e o serviço de pagamento PayPal por se negarem a receber contribuições para o WikiLeaks, que acabava de revelar uma série de documentos secretos das embaixadas americanas espalhadas pelo mundo.

Na sequência, em janeiro deste ano, o Anonymous entrou em ação de novo, participando da Primavera Islâmica. Seus militantes protestaram em sites do Ministério da Indústria e da Bolsa de Valores da Tunísia, em solidariedade ao movimento contrário ao governo local, que cairia dias depois. Também organizou, em fevereiro, um ataque contra sites do governo do Iêmen e foi atuante na difusão de informações sobre a revolução no Egito, principalmente quando Hosni Mubarak derrubou o sinal de internet no país.

Na Espanha, os protestos que levaram milhares à Praça do Sol começaram a ganhar corpo na rede impulsionado pelos Anonymous. Em 20 de dezembro do ano passado, eles fizeram a primeira manifestação contra a Ley Sinde, que restringia a liberdade na internet. Depois fizeram outros atos, até chegar ao mais ruidoso, em 4 de março, e que resultou, depois de 11 dias, no movimento que ficou conhecido como 15M (15 de março), quando milhares de jovens passaram a acampar na Praça do Sol, reivindicando não só mudanças na lei, como uma nova democracia no país.

No Brasil, os Anonymous ainda não são um grupo com muito espaço na rede, mas já começam a testar sua força. Estão programando, por exemplo, protestos para o dia 7 de setembro e, de alguma forma, o nome do grupo ganhou a mídia quando dos ataques a sites do governo federal em julho. Protesto que eles não assumem e é reivindicado pelo Luzlsec (ver entrevista com SilverLords, do grupo, na pagina 10).

Mas antes de continuar este texto, parênteses para um esclarecimento que Farfalla me fez na primeira pergunta de nossa entrevista: “O Anonymous não é um grupo fechado, mas uma ideia, e todos que compartilham dessa ideia são Anonymous, e não do Anonymous.” O que parece um simples jogo de palavras é uma explicação importante para entender a lógica desse novo ativismo.
Fonte: www.revistaforum.com.br

SP: SOS ZL - Às margens de Itaquera, remoções - Por Leandro Uchoas

Às margens de Itaquera, remoçõesCarla Vaneide, moradora que quase teve a casa derrubada com os filhos dentro. Foto: Leandro Uchoas.

A experiência da Copa do Mundo de 2010, na África do Sul, já dava sinais de que o Brasil, como sede da edição seguinte, não tinha tanto o que celebrar. No país africano, de realidade social semelhante à brasileira, a regra foram as remoções forçadas e sem indenização justa, territórios sem lei criados para garantir os lucros da Fifa, informações não prestadas a contento, corrupção massiva, obras questionáveis e superfaturadas, elefantes brancos (depois do evento), violação de legislação ambiental e tráfico de pessoas. Em terras tupiniquins, todos os movimentos do poder público têm levado a crer que o roteiro não será muito diferente. Há um mês, a Articulação dos Comitês Populares da Copa, formada por representantes das 12 cidades-sede, lançou um dossiê completo constatando violações de direitos sociais e ambientais. Pela amplitude geográfica e pela fartura de abusos, o documento impressiona.

Na região de Itaquera, Zona Leste de São Paulo, está sendo construído o novo estádio do Corinthians, destinado a sediar a abertura da Copa. Será um dos três únicos estádios privados na lista da Copa; o único deles, entretanto, ainda a ser construído. O financiamento das obras, como em quase todos os casos, é público – tem origem no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Orgulhosos, torcedores do time visitam o local para tirar fotos e fazer filmagens. É nas redondezas do estádio, no entanto, que se percebem problemas pouco abordados pelos veículos tradicionais de mídia. Seis comunidades do entorno já têm sentido a ameaça de impacto de empreendimentos paralelos à construção do estádio.

A ampliação da Radial Leste, por exemplo, levou à remoção de casas na comunidade de Vila Progresso – cujas regiões mais próximas da rodovia têm mais de “vila” do que de “progresso”. Segundo os moradores locais, os agentes da subprefeitura chegaram repentinamente à área para promover a derrubada de casas. Os moradores conseguiram resistir, mas eles retornaram em seguida, em horário de trabalho. A moradora Carla Vaneide disse que sua casa quase foi derrubada com os três filhos dentro, já que estavam dormindo enquanto ela trabalhava. “Entraram em um acordo comigo. Disseram que não iriam derrubar agora, só depois. Mas vieram no momento em que eu fui trabalhar, e quase derrubaram. Com o que fizeram, minha televisão queimou. Paguei R$ 120 no concerto. Ninguém aparece pra falar nada”, disse, mostrando em sua casa as paredes tortas ou encharcadas de água.

Segundo os moradores da Vila Progresso, as remoções das casas do entorno são feitas de forma a também forçar os não removidos a querer sair o mais rápido possível. As casas que restaram, na região, têm as paredes empenadas, com infiltrações, e os moradores têm agora que conviver com ratos que surgem quando chove. Os que saíram contam com uma ajuda de custo de apenas R$ 300 para pagamento de aluguel, quantia insuficiente para as casas próximas ao local. “Não existe mais aluguel neste valor. O pessoal aí aluga casa pra pagar R$ 400, outros R$ 500. Quem saiu está muito insatisfeito. E aqui as coisas pioraram em todos os aspectos”, diz Cícero da Silva.

As contas de luz da região também ficaram, todas, repentinamente mais caras. Segundo os moradores, a subprefeitura avisou que o período de contrato de renda mínima teria acabado. “As contas de todo mundo aqui triplicaram. Eu pagava R$ 12, e agora veio R$ 30”, protesta Seu Aluízio. Segundo o professor Valter de Almeida Costa, são estratégias utilizadas justamente para se pressionar pela saída. Integrante das Comunidades Unidas da Zona Leste, espaço que articula as seis comunidades afetadas pelas obras da região, Valter protesta especialmente contra a falta de informação sobre o que se planeja para a região.

“O que seria justo é que a população de Itaquera tivesse acesso às informações, soubesse o que vai acontecer. Essa informação nós não temos. A população fica em completa insegurança. Às vezes nasce um filho ou neto, e a pessoa não sabe se pode construir um quarto pra ele. Não havendo informação oficial, o que existe é o terror dessas famílias”, reclama Valter. Segundo ele, está completando um ano que representantes das comunidades procuraram a subprefeitura para obter informação. No final de 2011, foi organizado um evento de suposto diálogo com a classe média local, sem que as comunidades fossem avisadas. No entanto, as lideranças ficaram sabendo e foram ao evento, sem encontrar qualquer espaço para dialogar.

“Vivo na comunidade há 37 anos. Criei meus três filhos aqui. A gente fica triste com o que está acontecendo”, diz Maria Nilza Severo, que guiou a reportagem pelas ruas de Vila Progresso, mas também se surpreendeu com os relatos dos moradores. “Nem eu sabia que estava acontecendo tanta coisa ruim”, disse, confirmando que a desinformação promovida por setores tradicionais da mídia atinge, inclusive, os vizinhos mais próximos dos atingidos. O que acontece em Vila Progresso também tende a ocorrer nas outras cinco comunidades – e, saliente-se, em todas as cidades-sede da Copa. Na Comunidade da Paz, os moradores também estão apreensivos, sem saber qual será seu destino. O comerciante Pedro Furtado sintetiza: “Parece que São Paulo só vai existir até 2014. Eles não conseguem entender que nós, das comunidades, somos o progresso de São Paulo.”
Fonte: http://www.fazendomedia.com/

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Manifestação Crueldade Nunca Mais! Dia 22 de Janeiro de 2012 em sua Cidade!

Manifestação Crueldade Nunca Mais! Dia 22 de Janeiro de 2012 em sua Cidade!

Fonte: http://www.crueldadenuncamais.com.br/

Ativistas e baleeiros japoneses entram em confronto na Antártida - BBC Brasil

Ativistas e baleeiros japoneses entram em confronto na Antártida

Três ativistas afirmam ter cortes e lesões pelo corpo depois de um confronto com a tripulação de um navio baleeiro japonês próximo à costa da Antártida. O incidente ocorreu nesta quarta-feira, cerca de 480 km ao norte da Península de Mawson, que fica no continente antártico.

Um comunicado no site do grupo Sea Shepherd, que combate a caça às baleias, disse que a tripulação do navio japonês Yushin Maru 2 usou ganchos e um bastão de bambu para atingir os ativistas, que estavam em dois pequenos botes.

Segundo o grupo, os ativistas tentavam reduzir a velocidade da embarcação japonesa, que estaria perseguindo seu barco, o Steve Irwin.

O Instituto de Pesquisa de Cetáceos (ICR, sigla em inglês), com sede no Japão, disse em comunicado que os ativistas tentaram "sabotar" o Yushin Maru 2, jogando ganchos amarrados a cordas e garrafas de vidro cheias de tinta.

Além disso, segundo o ICR, os ativistas tentaram cortar cordas e enroscá-las nas hélices do navio.

"Quando os ativistas começaram a usar uma faca para cortar as cordas e redes do bote salva-vidas do YS2, a tripulação do navio japonês usou varas de bambu como um meio de empurrar o bote (do Sea Shepherd) de volta", afirma a nota do instituto.

Os japoneses também divulgaram um vídeo do incidente, mostrando um canhão d'água do Yushin Maru 2 sendo usado contra um pequeno bote de borracha, enquanto os ativistas arremessavam objetos contra o navio.Canhão de ágia é disparado de embarcação baleeira japonesa contra pequeno barco da organização Sea Shepherd
A frota japonesa navega todo ano, durante o outono, em direção ao sul, retornando na primavera seguinte. Essas viagens são sempre acompanhadas por embarcações do Sea Shepherd, que tentam interromper as atividades de caça às baleias.

BANIMENTO À CAÇA
Depois que a Comissão Baleeira Internacional (CBI) proibiu a caça comercial às baleias, em 1986, o Japão criou o Programa Japonês de Pesquisa de Baleias na Antártida (Jarpa, sigla em inglês), que mata cerca de mil cetáceos por ano, alegando fins científicos.

O ICR afirma que o programa é legal e respeita as convenções internacionais. No entanto, grupos ambientalistas como o Sea Shepherd e o Greenpeace criticam a iniciativa, dizendo que ela é um meio para manter ativa a caça comercial das baleias, mas de forma acobertada.

Confrontos entre caçadores e ativistas já ocorreram anteriormente, bem como colisões entre embarcações do Sea Shepherd e navios baleeiros.

Na semana passada, o Japão deportou três ativistas de volta para a Austrália, depois que eles conseguiram embarcar em um navio de apoio a baleeiros.

Alguns países, como a Noruega, rejeitam e ignoram a moratória da CBI, enquanto outros - como o Japão - emitem "permissões científicas" unilaterais, algo que qualquer integrante da comissão pode fazer.

Apesar da proibição, a CBI concede permissões para a caça às baleias a grupos que têm os animais como forma de alimentação de subsistência - caso dos esquimós inupiat, que habitam o Alasca.
Fonte: BBC Brasil

SP: Verdurada de Janeiro - 29/01/2012

VERDURADA DE JANEIRO
Quando?
Domingo – 29/01/2012 – das 16h às 22h

Quanto? R$10

- Jantar VEGetariANO grátis e venda de material independente. -
Por favor, sem cigarros e sem álcool.
Contatos com a imprensa - André Mesquita: xdedex@hotmail.com

Internet:
http://www.verdurada.org
http://www.facebook.com/ groups/46092016450
verdurada@riseup.net

Após a épica e histórica edição de 15 anos, a Verdurada ajuda vocês a começar 2012. Por motivos de logística, desta vez será apenas um dia, diferentemente dos tradicionais festivais que costumamos realizar em janeiro. Mas não fará falta, porque a escalação está explosiva!

Teremos dois nomes tradicionalíssimos responsáveis por dois dos melhores lançamentos de 2011, O INIMIGO e QUESTIONS, combinados com duas bandas incrivelmente promissoras, o DEAF KIDS, que em um ano se tornou um dos nomes mais cult da cena e o MACHETE, que viajará milhares de quilômetros para mostrar que o Pará não vive só de Calipso, tecnobrega e guitarrada. E entre os velhos e os estreantes, os queridíssimos Santistas do LARUSSO, que voltam à Verdurada após alguns anos.

Como sempre, teremos uma atração não musical. Desta vez será uma palestra/debate sobre a polêmica construção da usina de Belo Monte.

BANDAS

O INIMIGO
O quinteto formado por personalidades de bandas como Discarga, Ratos de Porão, I Shot Cyrus, Againe, RHD e Kangaroos in Tilt volta ao palco onde faz seus melhores shows. A ocasião é especial: O Inimigo lança o segundo álbum, “Imaginário Absoluto” que mantém a influência das bandas oitentistas de Washington D.C., mas com doses extra de melodia e potência sonora.
http://www.myspace.com/ oinimigo

QUESTIONS
Uma das mais tradicionais bandas da cena hardcore paulistana, o Questions nos traz mais uma vez sua mistura explosiva de influências de hardcore novaiorquino e thrash/crossover clássicos. Desta vez, apresentam o álbum “Life is a Fight”, um dos lançamentos mais mosháveis do ano. Tocando por todo lado, são garantia de um dos shows mais afiados e carismáticos do underground nacional.
http://www.myspace.com/ questions

LARUSSO
Após algum tempo de pouca atividade, uma das grandes bandas da baixada santista volta ainda mais forte. Com integrantes de gigantes como Live By The Fist e Ralph Macchio, você sabe o que esperar: hardcore puro, bruto e pesado, à moda antiga sem um pingo de colesterol a mais, um verdadeiro Left For Dead praiano.
http://www.myspace.com/ larussohc

MACHETE
Diretamente de Belém temos a estréia paulistana deste petardo amazônico. Dando o que falar em sua terra natal, o Machete se destaca com um skate punk/hardcore garageiro eletrizante, evocando a década de 80 sem afetações retrô. Sob encomenda para você que curte cores vibrantes, guitarras sujas e emoções fortes.
http://www.myspace.com/ juventudexperdida

DEAF KIDS
Abrindo a tarde de domingo temos um dos nomes mais pedidos dos últimos tempos. Pouquíssimas vezes uma banda se destacou tão rapidamente como este projeto de inspiração escandinava e dischargeana formado no polo industrial pré-apocalíptico de Volta Redonda. Tema pela sua vida, mas não perca, quando virarem lenda você vai poder se gabar.
http://www.reverbnation.com/ deafkidspunx

+ Palestra/debate sobre a questão de Belo Monte.

SOBRE OS INGRESSOS
São Paulo (Capital): Os ingressos estão à venda nos seguintes locais:
Vegan Pride: Rua 24 de Maio, 62 - Loja 424 (Galeria do Rock).
The Records – Rua Barão de Itapetininga, 37, loja 43 - rua alta (Galeria Nova Barão).

Outras Cidades e Estados:
Envie um e-mail para verdurada@riseup.net (não faça pedidos através do site da Verdurada, Orkut, Facebook ou MySpace), informando nome completo, RG, cidade/estado. A retirada do ingresso será no dia do show. Os ingressos não retirados serão vendidos na portaria.

Coletivo Verdurada

Aviso Final zine #29 no Verão Revolução‏

Aviso Final zine #29 no Verão Revolução‏
Queridos amigos!
Sabadão, dia 21 de janeiro, a partir das 13:00 horas irei lançar novaedição do Aviso Final zine no evento Verão Revolução. A edição #29 temcapa do artista Fabio A, quadrinho de Thiago Gomes, resenhas de zinese cd´s e entrevistas com as bandas Besthöven, Lautstürmer (Suécia) eTest. Tiragem ultra-limitada em 90 exemplares. Estarei divulgando natenda dedicada aos fanzineiros.
O Verão Revolução acontece em várias cidades. Em São Caetano do Sul,na Estação Jovem, teremos dentre várias atividades shows comExcomungados, Hellsakura, Flicts, DZK, Asfixia Social e os hermanos da Argentina Muerte Lenta.
Conto com a presença de todos!
Renato Donisete
www.fotolog.com/aviso_final

VERÃO REVOLUÇÃO 2012
21/Janeiro/2012
Local: Estação Jovem (Pista de Skate de São Caetano do Sul)
Bandas: FLICTS, MUERTE LENTA (ARGENTINA), DZK, EXCOMUNGADOS,HELLSAKURA, ASFIXIA SOCIAL
Endereço: Rua Serafim Constantino s/n a partir das 13 hs. (Pisosuperior do módulo 2 do Terminal – em frente a estação de trem)
Entrada: gratuita
Horário: das 13:00 as 18:00
Organizador: Nenê Altro

Castells debate os dilemas da internet - Entrevista a Sergio Martin

Castells debate os dilemas da internetPara sociólogo, breve todo planeta estará conectado; Google e Facebook não são ameaça. Grande desafio é manter liberdade na rede

Nos Estados Unidos, o Congresso examina leis (SOPA e PIPA) que podem impedir a troca de conteúdos em rede — e, se adotadas, atingirão internautas em muitos países. Na China, a campanha anunciada pelo presidente Hu Jintao para “promover a identidade cultural” do país inclui endurecer a censura sobre certos conteúdos que circulam pela rede. Mas em todo o mundo, ela continua a ligar seres humanos sem intermediações de governos ou empresas — e, em casos cada vez mais numerosos, a viabilizar mobilizações que derrubam ditaduras e desafiam o poder econômico. Qual o futuro da internet, em meio a tendências tão contraditórias?

No início de janeiro, o sociólogo Manuel Castells concedeu ao programa Europa Abierta, da rádio e TV pública espanhola, uma entrevista de enorme importância para o debate destes temas. Conhecido por obras que estabeleceram novos conceitos (como a trilogia “A Era da Informação”) e, mais recentemente, por sua aposta na possibilidade de manter a internet como espaço de uma “cultura de liberdade”, Castells sustentou quatro pontos de vista essenciais:

> Está surgindo uma era de “autocomunicação de massas”: Em suas análises anteriores, e nas de outros autores, já se falava numa “era de comunicação compartilhada”, que substituiria, a “comunicação de massas”. Castells acrescenta, agora, um outro dado. Além de dispensar o conteúdo dos grandes meios, estabelecendo trocas conteúdos em pequenos grupos, os cidadãos estão se tornando capazes de falar às massas. As redes sociais permitem multiplicar mesmos mensagens transmitidas por pequenos grupos, quando estes são capazes de sensibilizar as sociedades. É o que ocorreu, por exemplo, nas revoluções tunisiana e egípcia.

> As grandes empresas com base na internet são aliadas, na luta pela liberdade — mas precisam ser reguladas: Google, Facebook e outros têm grande poder de influência sobre a rede. Porém, seu próprio modelo de negócio as leva a se oporem a medidas autoritárias de controle. Aprenderam a surfar na rede; precisam multiplicar a circulação de conteúdos, de todos os tipos, para ampliar sua receita. Ainda assim, Castells defende a criação de conselhos que regulem a internet em favor do interesse público. São eles que podem assegurar, por exemplo, a neutralidade da rede, impedindo que certos usuários tenham privilégios sobre os demais.

> A ideia de uma “internet elitista” não resiste aos fatos: 1,7 bilhão de pessoas estão conectadas — um quarto da população total do planeta. Nunca um meio de comunicação teve alcance tão maciço. Mas este número vai se ampliar novamente em breve, graças às tecnologias que levam a internet aos celulares, ou seja, a 4,7 bilhões de seres humanos.

> Nada está garantido: No momento, mesmo os controles estabelecidos pelos governos sobre a rede (como a censura a certas palavras-chaves, na China) são frágeis. No entanto, a horizontalidade radical da internet é lógica intrínseca da autoridade — que é controlar informações. A única garantia para manter a rede livre é a permanente mobilização dos cidadãos.

Num mundo que mudou muito, em pouco tempo, os meios de comunicação de massa estão se transformando ainda mais rapidamente. Qual sentido de suas transformações?
Os meios de comunicação tornaram-se ao mesmo tempo globais e locais. Com a transmissão digital, podem-se recombinar meios diferentes. O que antes era uma comunicação muito local e em que havia poucos canais e poucas formas de difusão de mensagens, transformou-se numa enorme constelação que está em todo mundo.

Mas a grande transformação foi produzida nos últimos dez ou doze anos, quando começou a se difundir a comunicação horizontal. Ou seja, não mais aquela que vai de um a muitos — e sim a que vai de muitos a muitos. Com cada um emitindo e selecionando suas próprias mensagens a partir da internet. Isso abriu as fronteiras. Qualquer pessoa pode organizar seu próprio canal e suas próprias redes de comunicação.

Portanto, estamos em um sistema de comunicação duplo, em que os meios de comunicação de massa já não reinam sozinhos. Surgiu o que chamamos de a “auto-comunicação de massa” — a comunicação que nós mesmos selecionamos, mas que tem o potencial de chegar às massas, ou àquele grupo de pessoas que definimos em nossas redes.

Em Comunicação e Poder, um de seus livros mais inspiradores, você difunde a utopia de um mundo melhor graças à livre comunicação entre as pessoas. Porém, percebemos, pelos ataques que têm sido lançados à liberdade na rede. Por isso, pergunto: nada parece ser tão simples, não é?
As coisas não são nada simples — mas não é difícil compreender a equação. Quem tem o poder, organiza a rede — seja poder econômico, midiático, político, qualquer um. E quem tem poder deseja mantê-lo, pois é a forma de assegurar que seus próprios interesses e valores estejam melhor servidos que os dos demais, na organização da sociedade. Por isso mesmo, quem tem poder rejeita as mudanças que ameaçam seu domínio.

Conservar o poder requer manter o máximo controle possível sobre a informação, e assegurar, sobretudo, que os canais de comunicação sejam verticais. Nessa lógica, alguns poucos devem controlar a comunicação dirigindo-se aos muitos que não a temos. Bem… isso é o que está mudando fundamentalmente!

Mas dizemos que não é tão fácil porque, ainda que a internet e as redes móveis permitam que uma multiplicidade e uma horizontalidade da comunicação, as grandes empresas também possuem os mesmos canais. E os governos possuem uma certa capacidade — não decisiva, por sorte — de controlar e intimidar a livre circulação de ideias na internet e nos meios de comunicação móveis. Ou seja, a princípio a tecnologia permite uma abertura do mundo da comunicação, mas poderes econômicos, políticos e midiáticos seguem tentando controlá-la. O resultado de tudo isso varia segundo os momentos e os países, e depende sempre da capacidade que as pessoas têm de mobilizar-se para defender seu direito à liberdade.

Poderia ser mera ilusão de ótica a sensação de que nossa capacidade de influência, e liberdade para nos informar, são agora muito maiores?
Creio que é uma ótima pergunta, mas não — claramente, não. Temos inúmeros estudos mostrando que as pessoas têm muitíssimo mais capacidade de intervir no espaço da comunicação, a partir da internet, que em qualquer outro momento na História. Tanto é assim que, falando concretamente, as grandes empresas de comunicação do mundo também usam as redes sociais

As barreiras de entrada no mundo de comunicação da internet diminuíram muito. A tecnologia está ao alcance de qualquer estudante formado. E o capital necessário para criar um canal no Youtube, por exemplo, é relativamente pequeno. Portanto, há centenas e centenas e centenas de alternativas, e algumas são mais sofisticadas que outros. E se o Youtube pratica a censura, ou se o Facebook controla o que se diz ou não se diz, as pessoas simplesmente mudam-se para outra rede social e abandonam o que havia.

É o que aconteceu com a primeira grande rede social de comunicação. Em sua época, o AOL.com, era o grande invento, a grande tecnologia. Quando a AOL tentou cortar a liberdade de expressão, simplesmente as pessoas abandonaram-na e ela praticamente acabou, em termos de rede. Então, de certo modo, para vender o que querem em termos de publicidade, em termos de obter dados sobre as pessoas, as empresas de internet têm de aceitar a liberdade de expressão. Porque é isso que as pessoas buscam: expressar-se, organizar-se e relacionar-se livremente.

O mesmo com os governos. Os governos odeiam a internet. Porque é um desafio básico ao que sempre foi o fundamento de seu poder: o controle da comunicação e da informação. Os governos dizem: internet sim, mas para o que me servir. Sempre usam os mesmos pretextos: a pornografia infantil, o terrorismo — como se fossem fundamentalmente problemas da rede. Ora, são problema da sociedade. E os terroristas usam a internet, mais para propaganda, não para se organizar. É o que fazemos todos. Todos utilizamos a internet para tudo: para o bem e para o mal. E os governos odeiam que algo escape a seu controle. Mas não pode haver “um pouquinho” de internet. A rede existe ou não existe: por ela se transmite todo tipo de informações.

Pode-se tentar controlar, como por exemplo na China, com meios muito potentes. Mas mesmo assim, não conseguem realmente controlar aquilo que as pessoas crêem. Como os governos fazem o controle da internet pelos governos? Por análise de conteúdo, com robôs: esses sistemas automáticos que buscam palavras-chave. Para escapar do controle, uma estratégia é não dizer nenhuma das palavras-chaves que um robô pode interpretar: democracia, Tian An Men, Tibete, Taiwan, pornografia, etc… Se nenhuma palavra de uma lista for usada, se não se comete nenhuma imprudência nesse sentido, os robôs não são capazes de controlar.

Existem outros sistemas mais manuais de intimidar o webmaster, a pessoa que maneja cada site, mas isso é muito mais artesanal e muito menos eficaz. Ou seja, o que os governos fazem para controlar a internet é o que sempre fez a polícia: manter uma lista de suspeitos habituais e buscar controlar os correios eletrônicos e os web destes suspeitos.

Mas há uma mudança a mais: o email deixou de ser a forma de comunicação mais importante, e mesmo mais comum, na internet. Desde julho de 2009, o número de usuários das redes sociais de comunicação, tipo Facebook e outros, é muito maior que o de email.

Ou o Twitter…
Twitter também… mas ele não é o maior. E está estancado, de certo modo, porque não permite uma interação suficientemente rica, como em outras redes sociais. E sobretudo porque o bom do Twitter era que se podia (e segue sendo assim) interagir facilmente pelo celular. Mas agora entramos na época do iPhone e outros dispositivos móveis que podem entrar diretamente na internet. Pode-se estar no Facebook sem nenhum problema e é uma grande vantagem das redes sociais com maior amplitude de banda.

Mas o controle de informação que os governos tinham não estará sendo transferido ao Google, por exemplo? É ele que seleciona o que se encontra e estabelece preferência de alguns sites sobre outros. Estaremos oferecendo a uma empresa privada o poder que tiramos do governo e das urnas?
Bem, os governos legitimados pelas urnas possuem muitos condicionamentos e existem apenas em uma parte do mundo. O Google tem enorme poder, sobretudo tecnológico, e pode ser um veículo de controle. Mas, na batalha que vivemos no momento, ele é mais um aliado que um inimigo. Os que realmente estão tentando controlar — e os que podem controlar mais — são as empresas proprietárias dos canais de comunicação, por meio dos quais flui a rede. Porque nesse caso, o tipo de censura é muito mais direto: cortam seu acesso, a menos que haja uma intervenção judicial. Podem cortá-lo restringi-lo, diferenciá-lo da maneira que quiserem. Por isso, é tão importante a batalha pela neutralidade da rede.

Nos Estados Unidos isso é decisivo. O governo Bush caminhava para entregar entregando as redes às grandes empresas de telecomunicação, com seus critérios. Obama fez uma campanha muito grande para preservar a neutralidade da rede, e delegou isso ao novo presidente da comissão geral de comunicações, que está tentando mantê-la.

O Google tem poder, naturalmente, à medida que é uma máquina de busca que utiliza seus próprios critérios. Dizem que os algorítmos são aleatórios, mas na realidade não é assim: eles utilizam seus próprios critérios e condicionam o que buscamos e o que não buscamos. Mas o que não podem fazer é controlar o acesso, controlar a comunicação, porque quanto mais tráfego, conteúdo e atividade na internet, melhor para eles. Eles vivem de incrementar a comunicação livre na internet, e não de limitar aquilo que ela nos entrega.

Google é um negócio, não uma ideologia. Quanto mais internet e mais comunicação, mais negócios para o Google. De qualquer maneira, como você disse, é absolutamente necessária uma regulação séria, em benefício do interesse público. Uma regulação de toda a comunicação, e em particular da internet. Por exemplo, na Catalunha, temos o Conselho Audiovisual, que tem uma atividade bastante séria e em função do interesse público. Esses conselhos reguladores às vezes são especialmente politizados, mas é fundamental que regulem em função do interesse público, não em função dos interesses do governo.

Os meios de comunicação passaram a transmitir fatos como o funeral de Michael Jackson via Facebook. Todos compartilhavam o que viam e compartilhavam seus sentimentos diretamente. Estaríamos vivendo uma globalização dos sentimentos, maior do que a já ocorrida até agora?
Sim, efetivamente. Este é um exemplo excelente. De forma menos interativa (porque não havia Facebook), ocorreu no funeral de Lady Di, como um momento de comunhão geral do lamento de milhões de pessoas no mundo.

Mas eu diria que mais importante que esse exemplo é a ideia da articulação dos meios de comunicação de massa tradicionais com os novos meios de comunicação pela internet. Ou seja, estamos em um processo de convergência tecnológica e também convergência comunicativa.

Vemos dois mundos diferentes: o mundo da comunicação de massas e o mundo da auto- comunicação de massas, mas hoje em dia eles estão interagindo. Qualquer canal de televisão sabe que tem que contar com a interação dos meios de comunicação pela internet. Está surgindo um híbrido. Mas atenção: como a internet não é controlável, para que os meios de comunicação de massa realmente interajam com a comunicação que chega à rede, será preciso que diminuam o nível de controle em relação ao que eles próprios difundem. Isso seria uma revolução, que ainda não chegou aos meios de comunicação.

O mesmo posso dizer em relação ao governos e políticos. Para que possam fazer uso eficiente da internet, precisam aceitar a autonomia dos cidadãos. Essa foi a genialidade de Obama e é difícil, pois quase nenhum político aceita liberar o sentimento dos cidadãos para que eles próprios se organizem. E mesmo Obama, desde que chegou à Casa Branca, limitou bastante o que os cidadãos podem e não podem fazer na internet.

Esse é o tema: a internet é um meio de comunicação livre. Qualquer tipo de articulação com a internet — seja política, midiática ou cultural — implica renunciar a boa parte do controle vertical que os meios de comunicação exercem. Esse, sim, é um processo de transformação que está acontecendo e que podemos ver no exemplo do funeral de Michael Jackson.

Quem não está na internet já não existe?
Na política, se alguém não está em comunicação — seja pelos meios de comunicação, ou pela internet –, não existe. As pessoas existem distantes da internet, é claro, mas limitam muito as possibilidades de relação e de informação. Os estudos mostram que quanto mais se está na internet, mais possibilidades de relações, mais amigos, mais atividade, mais informação social e política, mais informação cultural. O internauta é um ser ativo, a ideia de que a rede afasta as pessoas do mundo é refutada pela experiência empírica.

Mas eu diria que essa pergunta está começando a ficar um pouco velha. É como perguntar se existimos sem eletricidade. Sim, é claro que as pessoas podem viver felizes sem ela: em momentos na floresta, contemplando o correr do rio, lendo um livro… Por outro lado, a eletricidade é a base da civilização industrial que construímos.

Temos hoje 1,7 bilhão de usuários de internet no mundo (em 1996, havia aproximadamente 40 milhões…). Uma barreira para o desenvolvimento da rede era a falta de plataformas móveis: em 2012, a comunicação interpessoal já não se dá principalmente por meio de linhas fixas, mas a partir de dispositivos móveis, como os celulares. Pois bem: o número de linhas móveis passou de 16 milhões, em 1991, para 4,7 bilhões. O planeta está praticamente conectado — inclusive os países pobres. Essa plataforma puxará uma nova etapa de expansão e desenvolvimento da internet. Significa que a rede tem, hoje, o mesmo significado que a eletricidade representou para o desenvolvimento da sociedade industrial.

A pergunta, portanto, perde sentido. Não vivemos na internet, mas com ela. É uma parte essencial da nossa vida, além de uma cultura de liberdade. Se existem pessoas que não querem a internet — gente de mais idade, por exemplo, que identificamos em algumas de nossas pesquisas –, elas têm todo o direito de sustentar essa opinião. Deveríamos assegurar, por exemplo, que os serviços públicos não sejam distribuídos apenas pela rede, pois as pessoas sempre precisam ter o direito de optar por outras tecnologias. Mas insisto, é o mesmo que poder optar por não ter eletricidade.

Internet, celulares, redes sociais são elementos que mudam as formas de nos relacionarmos, e também abrem um mundo novo de oportunidades, numa hora de crise. É hora de sondar as oportunidades de ocupação e negócio por meio da rede?
Certamente. O que não é se sustentará é o modelo de capitalismo financeiro global que tínhamos. O núcleo deste sistema derreteu. Todo o crescimento econômico dependia de uma demanda atrelada a crédito fácil, crédito com capital inventado a partir de manipulações matemáticas dos mercados financeiros. Isto acabou, e surge um reflexo de contração total da economia, que os governos tentam reparar para logo dizer “voltamos ao que era antes, ao mesmo tipo de economia”.

Muitos economistas, em todo o mundo — e eu estou entre eles –, não acreditam ser possível ou viável voltar ao mesmo modelo. Não significa dizer que o capitalismo acabou, mas sim, este tipo de capitalismo especulativo financeiro. A saída, dentro dos marcos da economia de mercado não passa pelo estímulo da demanda, nem por contraí-la ainda mais — e sim por estimular um novo tipo de oferta, a produção de mais por menos. Consumir menos, com uma economia menor e mais dinâmica, com mais tempo livre, de modo o motor da produção não seja a demanda, mas a inovação, a capacidade de produzir coisas novas. Aqui temos a internet e mais amplamente todo o mundo da cultura e da produção digital. Esse é o elemento-chave, sobretudo se ligado a novas formas de mercado e à aplicação das novas tecnologias informáticas ao mundo da biogenética, da investigação biomédica.

Acredito que aqui está, hoje, a oportunidade de criar pequenas empresas, empreendimentos com muitos empresários jovens potenciais que têm conhecimentos, sabem e podem encontrar nichos de mercado. O problema é que, na Espanha e em toda a Europa, as instituições financeiras não aceitam trabalhar com a ideia do risco. Relacionam-se com os empreendedores com a ideia de que capital de risco é capital para o banco — e risco para o empreendedor…

Creio que há uma possibilidade aberta. Se conseguíssemos superar a cultura burocrática do governo e a cultura de controle bancário — especulam com nosso dinheiro, mas não arriscam o deles — será possível começar uma economia com bases mais sãs que as que vimos cair.

Entrevista a Sergio Martin, Rádio Europa Aberta | Tradução: Daniela Frabasile e Gabriela Leite Martins
Fonte: www.outraspalavras.net/

Operação policial na Cracolândia: fracasso (e negócios) à vista - por Gabriel Brito

Operação policial na Cracolândia: fracasso (e negócios) à vistaSubjugada pelo Reich tucano há duas décadas, desta vez São Paulo não tardou nada para começar o novo ano sob o signo da barbárie e da desumanidade, invariavelmente voltada contra os pobres e excluídos, isto é, os “vencidos” pelo modelo de sociedade individualista e de mercado que assola nossos dias. No momento, a nova investida contra a cidadania e os mais elementares direitos humanos se dá na famigerada Cracolândia.

Localizada no centro da cidade, na região das históricas estações da Luz e Julio Prestes, onde hoje também se encontram a Pinacoteca do Estado e a Sala São Paulo, o local é a mais nova e almejada menina dos olhos do setor imobiliário, verdadeiro mandante da Paulicéia e seus respectivos políticos.

Dessa forma, com vistas a dar vazão ao contestado projeto do prefeito Gilberto Kassab de revitalização da área, batizado de ‘Nova Luz’ e contestado pelos próprios moradores e comerciantes da área, o governo e a prefeitura de São Paulo deram início à operação “Sufoco”, sugestiva por si só, com vistas a combater o ostensivo tráfico e uso do crack, a droga mais consumida pelos miseráveis e moradores de rua, cujos efeitos são reconhecidamente os mais nefastos dentre todos os itens do varejo das drogas.

Aplaudida de pé pela mídia e seu público alienado, a operação conta apenas com a presença da Polícia Militar, que desde o início da última semana passou a contar com seu braço de elite, a Rota, no combate e dispersão dos usuários. No entanto, não há mais nada planejado seriamente no sentido de realmente extirpar essa chaga de nosso cotidiano.

Com o decorrer dos trabalhos, desde o início marcados pela violência e falta de bom senso dos PMs, descobriu-se que na verdade foi a corporação militar quem decidiu e deflagrou sozinha todo o plano. A idéia original previa, antes de tudo, a construção de um centro de assistência social, há cerca de um quilômetro da Cracolândia, habilitado a atender 1200 pessoas por dia. Depois, por volta de março, o braço militar do Estado seria acionado.

Dessa forma, o Ministério Público Estadual logo entrou em cena e qualificou como “desastrosa” a operação, de acordo com as palavras de alguns de seus promotores. Como não poderia deixar de ser, o secretário de segurança, Antonio Ferreira Pinto, rebateu a crítica e emendou com a acusação de que os promotores fazem “pirotecnia”, seguindo a lógica vigente de intolerância a todas as contestações sobre a truculência e ineficácia da PM, tal como se vê, por exemplo, na USP nos últimos meses.

"São Paulo é uma das (cidades) mais antigas no uso de crack, nossa Cracolândia é ‘original’, se comparada às outras que vêm surgindo. Na verdade São Paulo deveria estar pensando em estratégias e políticas públicas para replicar o resto do país, e não é o que vem acontecendo", afirma Bruno Ramos Gomes, do coletivo ‘Centro É De Lei’, que tem se debruçado sobre a questão do crack nos últimos tempos, em entrevista ao especial Nova Luz produzido pelo jornal Brasil de Fato.

Tal declaração serve para esclarecer a realidade nua e crua, de que a cidade negligencia completamente o tratamento humanizado de seus dependentes químicos. Quem caminha pela região, logo vê a exorbitante quantidade de policiais, a cavalo, moto, bicicleta, agrupados ao lado de viaturas, de modo a justificar inteiramente o nome da operação.

E, de fato, o plano tem surtido efeito, dentro de seus limitados propósitos. É notório que o número de viciados que perambulavam pela região diminuiu drasticamente, assim como o tráfico e consumo. No momento, os aturdidos dependentes circulam em pequenos e apressados grupos pelas calçadas da cidade, em caminhadas sem rumo que os levam aos mais diversos destinos, o que agora passa a incomodar a população de outras localidades.

Assim, a polícia começou a expandir levemente o acompanhamento dessas pessoas que só são lembradas pelo Estado para serem repelidas. Nas principais avenidas que cercam a região e conduzem a outros pontos da cidade, verifica-se claramente a presença de um maior contingente de policiais e viaturas circulando vagarosamente, de olho no movimento de “suspeitos” e nas direções que tomam. O objetivo, visível, é evitar a entrada em bairros mais abastados e a subseqüente histeria de seus moradores.

Com isso, e com um debate sempre empobrecido pela grande mídia, que só trata de espetacularizar a operação, raramente oferecendo uma visão mais humana dos dependentes, pouco se pensa sobre o que realmente fazer de efetivo para uma real solução do problema – vide a rede Record, cujo helicóptero se transformou no despertador oficial dos moradores do centro.

No mais, discute-se se a internação compulsória é uma alternativa válida, o que para muitos chega a ser inconstitucional, além de ineficaz, ou se meros albergues podem dar conta de ao menos tirá-los da visão dos transeuntes.

“Nos dias atuais, observa-se a implementação de diversos procedimentos descolados das diretrizes básicas de atenção aos usuários de álcool e outras drogas, que têm sido construídas e indiscutivelmente progredido, a partir dos trabalhos teórico-práticos desenvolvidos ao longo dos anos”, escreveu Fabiana Lustosa, psicóloga, no Portal Pró-Menino.

“Sob este ponto de vista, a reabilitação psicossocial e a reinserção do usuário apostam na potencialidade do território comunitário, valorizando-o no processo de saúde-doença em relação ao consumo de substâncias. Assim, tornou-se imperativo o incremento de ações extra-hospitalares, investindo nos conceitos de território e de rede para tecer o cuidado integral. Esta modalidade de cuidado vem de encontro ao que predomina no imaginário social, que tende a mitificar a internação, considerando-a como a única medida resolutiva no que tange aos usuários de drogas. Desta maneira, a hospitalização é utilizada de forma indiscriminada sem que haja uma avaliação adequada do caso”, completa Fabiana.

Tal idéia vai de encontro com as novas formas de tratamento de pessoas que sofrem de transtornos mentais, fora dos tradicionais manicômios, vistos como antros de morte e degradação. No entanto, em ambos os casos o governo tucano também mantém sua coerência, ignorando essas novas formas de tratamento e abusando das velhas práticas de proporcionar ainda mais “dor e sofrimento”, como bem declararam seus porta-vozes no início da operação.

Nesse sentido, vale lembrar o escândalo que causou a revelação de centenas de mortes nos manicômios do estado no ano passado, uma tendência que ainda não cessa, e pode ser explicada novamente pelos velhos interesses privados, neste caso dos donos de manicômios e hospitais psiquiátricos, em geral ligados politicamente ao tucanato.

Em ambos os casos, deixa-se de lado uma tentativa de verdadeiramente ressocializar essas pessoas, que continuam conhecendo apenas o braço repressor e desumano do Estado. Ao mesmo tempo em que os dependentes do crack vivem desterrados, sem lugar pra sequer dormir, salta aos olhos a enorme quantidade de prédios abandonados nas ruas da mesmíssima região.

Assim, fica mais que evidente os escusos e mesquinhos interesses políticos que movem Alckmin, Kassab e seus colegas. Pois se não, por que simplesmente não se começa a alojar os pobres usuários de crack em moradias que poderiam ser desapropriadas pelo Estado a qualquer momento com fins sociais? Por tabela, ocupando de forma digna o coração da cidade, tais pessoas ainda teriam acesso fácil aos centros de assistência médica e social e certamente mais condições de se reinserir rapidamente, na vida e no mercado de trabalho. Num centro que tem cerca de 200 mil apartamentos ociosos, por que é tão difícil promover essa fagulha de justiça?

Obviamente pelo fato de tais governos, especialmente os tucanos de São Paulo, estarem completamente seqüestrados pela especulação imobiliária, que os financia politicamente e em troca recebe sinal verde para fazer o que bem entender, não só no centro, mas também em qualquer área da cidade. Basta ver a absurda quantidade de prédios sendo levantados incessantemente aos quatro cantos, sem relação alguma com a correção de nosso estrondoso déficit habitacional.

"Se o projeto da Nova Luz for pra frente, vão desapropriar, demolir e os usuários vão continuar em situação de rua, fumando pedra, vendendo pedra e se prostituindo. Essa população vai acabar migrando para outras regiões, e não sei se vai continuar esse esforço tão grande da prefeitura em fazer coisas com eles, porque aí não vai estar mais influenciando o projeto urbanístico", adverte Bruno Ramos Gomes.

Além disso, a precipitação da operação tem tudo a ver com o fato de que o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e o próprio governo federal, desde a era Lula, vinham tramando soluções de combate ao crack em São Paulo – e também nacionalmente. Basta ver que o Planalto pretende investir 4 bilhões de reais nessa questão até 2014. Antevendo a derrota política, a dupla demotucana resolveu apressar os planos e iniciar do jeito que fosse a “limpeza” da Nova Luz.

Não se trata de louvar o plano federal, que segundo críticos mais especializados tampouco contempla as melhores alternativas de tratamento e ressocialização de usuários, baseando-se em internações, até forçadas, para manter os dependentes longe das drogas a todo custo, sem, no entanto, oferecer garantias de longo prazo de que conseguirão se afastar desse vício destruidor e retomar uma vida razoavelmente normalizada.

De acordo com estudos dos próprios centros sociais que trabalham com dependentes, cerca de 60% dos 1700 viciados pesquisados retomaram o vício após receberem tratamento. Diante da conhecida força da droga, fica notório que carecemos de uma visão que vá além do mero tratamento médico e permita uma verdadeira recuperação das vítimas do crack, acompanhada de reais perspectivas de uma vida digna.

Por isso é tão chocante ver policiais preparados para os mais duros combates, de exuberante força física, se digladiando com famélicos e estropiados usuários de crack pelas madrugadas paulistanas, “expurgando o mal” na porrada. Como diz uma pichação da avenida São João, “não adianta maquiar, a Cracolândia anda”.

Diante dessa tragicomédia, a própria polícia deu um passo atrás nesta segunda semana de operação: agora, a ordem é relaxar a dispersão dos usuários, cujo trânsito já notou ser incontrolável, além da esterilidade em fazê-los apenas migrar para novos locais, uma vez que não se desmaterializarão com balas de borracha e cacetadas nas costas.

A dura verdade é que nada relacionado à tragédia do crack e da vida nas ruas poderá se modificar enquanto gestores como Alckimin e Kassab estiverem à frente da cidade, atrelados até a medula aos interesses especulativos da terra e combatentes ferozes de toda e qualquer humanização das relações sociais numa cidade tão carente de saúde, paz, harmonia, esperança e outros estados de espírito que sempre fazem parte de nossos votos de cada novo ano.

Gabriel Brito é jornalista.
Fonte: http://www.correiocidadania.com.br/