terça-feira, 23 de outubro de 2012

Sobre novelas, esquerdas e mensalão - Por Daniel Caribé

Sobre novelas, esquerdas e mensalão

Se o STF condena um “capa” de forma sumária, o que entenderão os magistrados deste país adentro ao se defrontarem com julgamentos essencialmente políticos? Por Daniel Caribé

Confesso estar quase que completamente por fora das grandes polêmicas deste país. Desde que a televisão da sala quebrou e aderi à ditadura do automóvel (98% dos leitores pararão de ler o texto aqui) não sei muito bem o que as pessoas andam comentando. Mas tem assuntos que de tanto consumirem o povo até um aprendiz de eremita como eu é tocado, nem que seja pela timeline do Twitter.

Semana passada dois assuntos estavam em destaque, até mais que as eleições. O primeiro e na frente de forma disparada era a novela das oito (que passa às nove – uma explicação necessária aos leitores portugueses deste site) que está na sua reta final. Parece que o zagueiro do Vitória bateu na vilã e tem gente defendendo que ela merecia apanhar. O sujeito é até um bom jogador e vai ser um grande desfalque na briga pelo título da Série B, mas pô, aí não tem perdão!

O outro assunto é o tal do mensalão, uma piada que infelizmente não só os baianos compreendem.
Primeiro é que eu não entendo o porquê de escolherem como astro desta outra novela o único ministro que é negro. Se praticamente todos estão condenando os petistas, e estes mesmos petistas escolheram através de Lula e Dilma quase a totalidade destes ministros, por que o foco na melanina? Em qual roteiro está escrito que o sujeito que nasce negro tem que ser “de esquerda” e se não for merece o paredão? Entender a política por este caminho gera tanta confusão que o ministro em destaque a cada semana sai na capa de uma revista diferente, às vezes pertencentes a grupos rivais.

Depois, o que mais me assustou foi a posição de alguns setores da esquerda que comemoraram o encaminhamento dado pelo STF [Supremo Tribunal Federal] à situação. Eu não vou repetir o que todo mundo já sabe. Pessoas ligadas ao PT estão sendo julgadas e uma delas é José Dirceu. Um amigo em outra timeline também muito famosa fez a seguinte síntese do sujeito, com a qual concordo: “Eu nunca apoiei e acho que o José Dirceu representa coisas muito repugnantes de uma tradição de esquerda autoritária com a qual eu não compactuo – e que, no fim das contas, contribui para a emergência da classe gestorial capitalista. […] Ou seja, não o defendo, mas é de uma burrice sem tamanho comemorar, com sorriso nos dentes, algo que os amigos da ditadura – esses sim nunca julgados e condenados – estão a soltar rojões. De resto, o capitalismo só mexe as peças para continuar o jogo. Esse é o fato, e o Dirceu aceitou jogar o jogo e foi para o game over.” Nada mais a acrescentar a este respeito. Entretanto o sujeito (José Dirceu, não o meu amigo!) está sendo condenado sem provas e sem as garantias constitucionais que todo acusado de qualquer coisa merece. Ele já sentou no banco dos réus com a pecha de culpado e parece que ninguém nega este fato. E este fato gera implicações para muitos outros que nem sequer se identificam com o ex-militante clandestino, agora consultor empresarial entre outras coisas mais.

Ora, isso não é novidade neste país, e deve ser prática comum em todo canto deste mundo. Todos os dias dezenas de sujeitos, talvez centenas, são condenados sem ao menos chegar a um tribunal. É só ligar a TV – para quem tem uma – e ver os meninos pobres sendo taxados de assassinos, estupradores e ladrões pelos apresentadores de televisão em pleno horário de almoço. Se não forem para a cadeia logo em seguida, o que será da vida deles após esta exposição? Já nos tribunais, dentro dos quais os jornalistas quase nunca têm o interesse em entrar, estes mesmos sujeitos são sentenciados frequentemente sem os devidos direitos garantidos. Ninguém está nem aí para estes no país que está elegendo policiais a cargo de vereador com a campanha “bandido bom é bandido morto”.

Alguns dos poucos que chegaram até aqui irão me perguntar o que tem a ver José Dirceu com esses garotos pobres de nenhuma importância para o crescimento do PIB. Teria que fazer um longo caminho para tentar mostrar que os projetos de vida de ambos têm ligação através das políticas sociais implementadas das últimas duas décadas. Mas o objetivo deste texto é outro e falarei, assim como nas novelas, do óbvio.
Para nós há muitas clivagens na esquerda – esse grupo que se pretende ser a vanguarda dos trabalhadores. É fácil para a gente separar trotskistas de estalinistas, anarquistas de autonomistas, reformistas de conselhistas, e por aí segue. Mas para a população em geral pouco importa estas nada sutis diferenças. Portanto, mesmo José Dirceu sendo esse ser já definido com a ajuda do amigo em algum parágrafo anterior, ele não passa de um esquerdista na ótica da maioria. E quando condenam-no deste jeito, não estão a fazer outra coisa a não ser passar o recado para os demais. É sim uma vingança histórica. E não é porque não nos identificamos mais com o PT que ele deixa de nos criar problemas.

O objetivo aqui passa a ser o de chamar a atenção para o que farão com os outros lutadores sociais deste país, que a exemplo dos meninos pobres, e talvez de forma ainda mais raivosa e mais ilegal, já são condenados sem o devido julgamento cotidianamente. Será que esquecemos que os juízes deste país são formados em sua maioria por sujeitos avessos às transformações sociais? Se o STF condena um “capa” deste jeito, de forma sumária, o que entenderão os magistrados deste país adentro ao se defrontarem com julgamentos essencialmente políticos? O julgamento do mensalão extrapolou o espetáculo midiático e deixou de ser uma briga entre capitalistas pela divisão do bolo crescido pela nossa mais-valia. Agora há um precedente e um incentivo para caça às bruxas, que no caso são aqueles que, assim como elas faziam, andam incomodando os poderes estabelecidos.

E o que tanto alegra nisso a estes setores da esquerda? A ânsia de derrotar (ou substituir?) o PT é tão grande que alguns limites muito arduamente conquistados são rompidos sem um pingo de cerimônia. E parte desta esquerda que agora sorri é exatamente a que passou a desempenhar um papel significativo da política institucional brasileira após o primeiro turno das eleições municipais de 2012. A esquerda partidária fora do PT cresceu e não pode ser mais desprezada. Os seus equívocos, portanto, ganham uma ressonância maior daqui para frente.

Eu não vou entrar no mérito do complexo de Édipo que caracteriza esta nova esquerda institucional. Se eles querem ser iguais ao que os seus pais foram, talvez estejam fazendo um favor à gente. A questão passa a ficar complicada quando esta mesma esquerda pauta suas ações não na luta de classes, mas no puro e simples moralismo. Numa das mais significativas passagem do texto do coletivo Passa Palavra sobre as lutas que agora acontecem em Portugal contra a Troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional), pontuou-se o seguinte (ver o texto completo aqui):

Um teste infalível para avaliar o grau em que uma proposta de remodelação política se insere no capitalismo é a obsessão com o problema da corrupção […]. Mas veja-se com atenção. A corrupção consiste em não respeitar as regras estabelecidas pelo capitalismo nas relações entre capitalistas, não nas relações dos capitalistas com os trabalhadores. A corrupção não diz respeito à extorsão da mais-valia, ao processo de exploração dos trabalhadores, mas à repartição entre os capitalistas dos frutos dessa exploração. Compreendemos que o problema preocupe os capitalistas e os seus agentes políticos, mas é necessário que os trabalhadores sejam vítimas de profundas ilusões para se ocuparem com a questão.

Deste jeito, quando se faz uma luta tendo por horizonte a moralização da política, não se pode cair em outra coisa a não ser nas armadilhas que as próprias classes dominantes montam para a gente. Essa forma de se fazer política pode até ganhar alguns votos do setor dos trabalhadores que se situam próximos aos gestores, que almejam ser gestores também, e que por isso precisam que as regras do jogo político-econômico sejam claras. São estes que hoje comumente chamamos classe-média. Porém esta pauta não mobiliza o grosso da classe trabalhadora. Não foi por menos que o PT junto com o PSB foram entre os grandes partidos os únicos que cresceram nas eleições municipais deste mês, mesmo em meio à suposta crise do mensalão. A base do governo formada por um zilhão de outros partidos continua forte. Por isso não tem como não reconhecer o cinismo de Lula quando ele afirma, nas proximidades da cabine da urna eletrônica, que a população está mais preocupada com o rebaixamento do Palmeiras do que com o mensalão. A novela, como eu já disse, também se mostra mais importante, pois parece que a ilusão que vem da TV é mais real do que a que promete uma vida melhor em um mundo sem corruptos.
Quando digo que esta esquerda está abrindo mão de forma muito fácil de conquistas muito caras, me refiro à democracia. Claro está, e cada vez mais, que no que diz respeito ao processo eleitoral que há a cada biênio – o período que temos de férias da chateação que são as eleições para a maior parte da população, e que costuma fragmentar de forma irreversível muitos movimentos sociais – as esperanças em torno da transformação da realidade através do voto vêm caindo. O que vem equivocadamente sendo chamado de “voto de protesto” é prática crescente. A partir do momento em que as pessoas não enxergam mais o compromisso do eleito para com elas, então elas deixam de ter compromisso para com o voto. Mas esta mesma democracia instaurada após a Ditadura Militar tem outras facetas e uma delas é a que permite que entre nós haja aqueles que sejam mais radicais nas suas ações, outros menos. Que possamos sair por aí falando o que quisermos, nem que sejam as besteiras e os dogmatismos que caracterizam as crenças da maioria dos nossos companheiros. Já é tão difícil atuar dentro destes limites, imaginem-se numa arranjo institucional ainda mais restritivo porque mais policialesco, mais judicializado.

Aqueles que riem da desgraça de José Dirceu neste momento estão apoiando nada menos que a politização do judiciário. O problema todo é que isto não começa aqui e o próprio PT estava a aplaudir esta situação, quando não foi o seu maior criador. Um exemplo emblemático aconteceu quando transferiram para o Judiciário o debate sobre o casamento homoafetivo e a legalização do aborto, há pouco tempo atrás. Estava-se ali abrindo precedente para chegarmos na situação de hoje. Afinal, parece que não importa mais de onde saia o que queremos ouvir, pois o importante é que seja dito. Não é? Claro que a tática dos mais radicais, anticapitalistas e etc. é jogar todo peso nos movimentos sociais e através deles mudar as instituições. Entretanto, no plano institucional atual, que é onde os partidos de esquerda atuam, estes debates deveriam acontecer no Congresso Nacional. É o mínimo que se espera de uma sociedade democrática, de uma república.

Uma prova de que esta esquerda está botando fé no caráter progressista do STF é a mobilização que já se iniciou em torno da anulação das leis aprovadas através da compra de votos dos parlamentares. Poderiam também incluir no pedido a anulação das leis que foram aprovadas através de outros tantos mecanismos ilegais. Por que não? Subtraindo todas estas leis não teríamos quase lei nenhuma no país, o que caracteriza uma revolução, pois todas as regras de funcionamento da sociedade estariam por existir. Não deixa de ser uma proposta genial.

O Poder Legislativo perde sua função de forma muito acintosa quando os presidentes do país, desde de Fernando Henrique Cardoso e repetido por Lula e Dilma, adotam a tática do presidencialismo de coalizão para conseguir a tal da governabilidade, despolitizando desta maneira o Congresso Nacional e em consequência abrindo um vácuo institucional no país. O Legislativo anulado e ainda mais sem credibilidade após os escândalos seguidos de corrupção fica sem condições de cumprir a sua função constitucional de “casa do povo”. Os debates não passam mais por lá e muitas das leis, através de medidas provisórias, são encaminhadas pelo chefe do executivo. Esta era a oportunidade que o STF precisava para chamar para si esta função que não é sua, a de pautar os grande debates. Agora é a cobra comendo o próprio rabo.

O perigo é que se já não temos muito controle sobre o presidente e os parlamentares, o Judiciário é completamente imune à vontade popular. Quem vai pautar o STF? Quais as consequências em dar tanto poder a um órgão tão autônomo? Não vai demorar muito a aparecerem aqueles que defenderão que faz parte do equilíbrio entre os poderes tão necessário às democracias modernas a prática de funções atípicas por cada poder e que inevitavelmente em momentos de fragilidade de algum deles caberá aos demais manter a ordem através destas exceções. Só acho importante lembrar o óbvio: que democracia se faz através da participação popular e não através de equilíbrio entre poderes. E se já temos uma democracia esvaziada de sentido por falta de mecanismo de participação direta e pela inutilidade que é hoje o Legislativo, dar mais poder ao Judiciário só vai incrementar este quadro autoritário que está se pintando.

Quanto à novela que são as esquerdas, cheia de vilões e poucos mocinhos, todos à espera do capítulo final sem data marcada para acontecer e com baixa audiência na maior parte do tempo, precisa urgentemente sair deste roteiro bipolar. Combater o PT não pode passar de modo algum por adotar práticas e instituições ainda mais conservadoras. Tanto o PT quanto o STF estão restringindo o pouco que resta de democracia no país e deve haver alguma forma de se criticar um sem apoiar o outro. Já fomos, todos nós, mais criativos e menos irresponsáveis.
As fotografias que ilustram o artigo são de Sebastião Salgado.

O martírio da Grécia – por Latuff

Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

Cultura Digital, janela pra a pós-massificação? - Por Jéferson Assumção*

Cultura Digital, janela pra a pós-massificação?
Pela primeira vez na história, é possível superar indivíduo e homem-massa, construindo o comum. Seria trágico desperdiçar tal oportunidade

Em 2020, o mundo deverá ter mais de 24 bilhões de dispositivos conectados em rede, como apontam pesquisas da empresa Machina Research, especializada no tema. Com isso, haverá uma média de três aparelhos conectados por pessoa, incluindo celulares, eletrodomésticos, tablets e até computadores. Eles poderão ser utilizados heteronomamente. Ou de modo um pouco mais autônomo. Se de maneira heterônoma, continuarão gerando massificação, mesmo que venha a ser um tipo customizado de massificação. Se de forma mais autônoma, poderemos ver a emergência de indivíduos-redes desmassificados?

Certamente que os atuais avanços da era digital podem, se bem aproveitados, gerar um ambiente menos favorável à homogeneização cultural e à vigência do comportamento do que Ortega chamou de homem-massa – este produto da técnica da era industrial que se desenvolveu na virada do século XIX para o século XX. Agora, em pleno século XXI, mais uma vez o desenvolvimento técnico vem trazer questões importantes para se pensar sobre como o ser humano se comporta em relação à tecnologia que ele mesmo desenvolve.

Diferentemente do homem-massa delineado por Ortega na década de 30 do século XX, os seres humanos atuais, do ponto de vista tecnológico, têm abundantes condições de viver numa multidimensionalidade da cultura. Há mais acesso à diversidade cultural e às condições de se fazer as recombinações de elementos, processos e visões de mundo, muito mais do que em qualquer outro momento da humanidade. Portanto, em se tratando de cultura, essa palavra cujo sentido em muito tem a ver com modos de fazer, de técnicas e interação de indivíduos entre si e destes com a natureza, uma cultura ligada ao ambiente digital não pode ser desconsiderada numa leitura mais plena de nosso tempo.

A cultura digital e seus rebatimentos estéticos (diversidade cultural e recombinações), éticos (ética do compartilhamento) e políticos (ação cidadã em rede, descentralizada e com menos mediação de estruturas verticais) são, em termos mais amplos, um importante tema de nuestro tiempo. Não se trata mais da perda da aura da arte na época de sua reprodutibilidade técnica – como assinalava Walter Benjamin – mas, devido à desmaterialização dos suportes ocorrida nas últimas décadas, trata-se da perda da aura da obra de arte na época de sua infinita reprodutibilidade técnica. Há mais condições de heterogeneidade, diversidade, inter e transculturalidade, portanto mais condições (e responsabilidades) dos sujeitos contemporâneos fazerem a si próprios.

Foram décadas de unidimensionalidade (O homem unidimensional, de Herbert Marcuse). Nelas, a sociedade industrial impunha quase que uma única dimensão da vida: uma racionalidade “tecnológica” (físico-matemática, para Ortega) de mão única. Ela dominava e oprimia por meio de aparatos de controle das consciências humanas, meios de entretenimento e comunicação de massa que hiperdimensionavam em todos a pulsão de vida (sexo, jogos, entretenimento) e a pulsão de morte (violência urbana e sensação de insegurança extrema). O resultado eram homens e mulheres autômatos, incapazes de se opor ao sistema, pois vivendo a mecânica do conformismo, dentro das benesses do conforto.

Agora, com as novas condições, não há também mais desculpas: o homem-massa, paciente e agente de sua condição de massa, invertebrado habitante do ambiente técnico-consumista do século XX, dominado pelo mercado, por partidos, sindicatos e estados ortopédicos, de cima para baixo, não tem mais a quem jogar a responsabilidade. Ele pode recuperar sua autenticidade, como em nenhum outro momento da Humanidade. A técnica do século XIX engendrava o homem-massa, dizia Ortega. A técnica do século XXI pode engendrar o pós-homem-massa. Se para os frankfurtianos e para a teoria crítica, o comportamento heterônomo era inculcado pela indústria cultural nas cabeças das pessoas, hoje este elemento se fragmenta. Desaparecem dia a dia os mediadores e as indústrias de fabricação de suportes materiais da arte e, de todo lado, movimentos de indivíduos em rede trazem as visões da periferia para o centro do debate sobre cultura. Com tudo isso, é possível dizer que estão dadas as condições técnicas para a superação tanto do homem massificado quanto do homem atomizado, fechado em si, solipsista, consumista individualizado e não participante de sua circunstância?
II.
Pós-homens-massa 
Aqui e ali já se notam as estratégias das empresas na internet para gerar comportamentos massivos através de ambientes pós-massivos. São espécies de homens- massa customizados, a parecerem indivíduos autônomos, mas no fundo não só seguem como aprofundam os padrões de consumo da era industrial. Um perigo é que, com as novas tecnologias de produção pós-industriais, a produção capitalista atual sabe que não precisa mais fazer nada em série, nem seres humanos em série. Hoje, trabalhando com a tática de criar – eles dizem “descobrir” – nichos de mercado, ela amplia seu poder ao fazer homens-massa customizados, com aparência de autônomos. As roupas e os cabelos parecem diferentes entre si, mas este tipo de homem-massa customizado segue o mesmo por dentro: inautêntico e diminuído ao elemento fundamental do consumidor, em vez de responsável por fazer sua própria vida. Mesmo no ambiente pós-massivo, este tipo massificado pelo mercado continua massa, pois segue sendo educado pelo mercado e pelos usos da sociedade desvitalizada pelo pragmatismo utilitarista, materialista e agora pela internet para se comportar como massa, invertebrada e vaga.

Em sentido contrário, nunca se teve tantas condições de se hackear, fazer truques, implantes, rachas no sistema. A articulação da cultura colaborativa digital com a economia solidária tem revelado um potencial gigantesco de revitalização cultural, em todo o mundo onde ela se desenvolve. Uma das razões é que ela é capaz de “destampar” culturas populares rurais, urbanas, suburbanas, antes invisibilizadas, por sua capacidade de descentralizar e multidirecionar os fluxos de informação e de recursos, antes unidirecionalmente ativados desde um centro industrial para o consumo de massas.

Sua capacidade de transversalidade e transdisciplinariedade permite que se gerem soluções e alternativas, convergências entre futuro e passado, de saberes e fazeres tradicionais com as inovações de ponta, sem no entanto isso significar homogeneização, mas mistura, diversidade, amálgama ou síntese. E como seria este pós-homem-massa? De maneira dialética, é preciso procurar a virtuosa posição de convergência, como Aristóteles ensina com o seu certeiro meio-termo justo. Com as condições atuais, ele pode sair do binarismo. Pode não ser nem horizontalidade nem verticalidade somente. Pode deixar para trás a infértil ideia de não-sujeito da pós-modernidade, da quase anulação da possibilidade de agir esteticamente, politicamente e eticamente da pós-modernidade, mas não precisa retornar ao indivíduo solipsista cartesiano, cheio de uma moral e de uma razão mortas, como alertava o filósofo espanhol. Nos dias de hoje, começamos a ter a convivência de indivíduos solipsistas, homens-massa, homens-massa customizados e pós-homens-massa.
III.
Em vez de massa, o comum 
Pelo menos há mais condições de surgirem pessoas conscientes desta circunstância e que se conectam a outros, em rede, para gerar capacidade de influir e de produzir narrativas novas, mais autônomas que heterônomas. É também outra ideia de coletivo, não a que Ortega criticava, em cujo interior as ideologias das grandes narrativas achatavam as consciências. Trata-se de uma ideia de coletivo em que ponto a ponto, pessoa a pessoa, os sujeitos que o compõem têm liberdade de ser e de pensar por si próprios. Em vez de massa, poderemos falar em “comum”, em que os indivíduos, com mais liberdade do que antes se reúnem livremente, autonomamente, para colaborar, para trabalhar em conjunto. A massa é passiva, o comum é ativo. Estão dadas condições para um pós-homem-massa, integrante de uma humanidade-rede, diversa, amalgamada, em que aos traços da homogeneização cultural são acrescentados uma heterogeneidade viva de indivíduos em rede, formando coletivos que pensam o comum a partir da contribuição efetiva, ativa e crítica de seus integrantes.

A esses está colocado o problema de saber a que se ater e compreender o “tema de nosso tempo”. Também se pode falar na necessidade de construção de uma outra ideia de Estado, de partidos e ideologias, não ortopédicas (como criticava Ortega), mas também não ausentes a ponto de permitir o laissez-faire do século XIX, o liberalismo econômico (que ele também criticava pela substituição que este fazia dos valores, por preços) tomar conta da cultura. É tempo de falar sobre as condições de possibilidades da superação da dicotomia massa-minoria abordada por Ortega pois, como as condições da análise de Ortega mudaram – as circunstâncias técnicas se transformaram – a pedagogia social e o papel das minorias mudam também.

Precisamos de uma síntese nem horizontalista (massa) nem verticalista (minoria), mas uma espécie de diagonal provocadora de sínteses e convergências: é a era do “e”, das conjunções. O desafio é similar ao que Ortega colocou-se: o de não ser binário, idealista ou realista, nem racionalista nem vitalista, nem eu nem circunstância, mas amálgama de um e outro. Dessa maneira, a tensão massa-minoria das sociedades, pela descentralização dos meios de produção e reprodução da cultura, traz outro sentido: a pedagogia necessária não é aquela de poucos homens autênticos, nobres, seletos e esnobes do início do século XX, atuando sobre a massa, mas uma vanguarda formada por pessoas conectadas em rede no mundo todo, capazes de liderar processos locais e globais de combate à unidimensionalização do mundo, à massificação e à homogeneização cultural.

Autênticos, pode-se dizer, por professarem e viverem valores vitais, colaborativos, por trabalharem com uma razão com mais substância que a razão instrumental, físico-matemática. Não sabemos o que Ortega pensaria disso, hoje. Talvez não concordasse com estas conclusões. Mas, como pensar era, para ele, aventura de entusiasmo raciovital, assumimos seu raciovitalismo como ponto de partida para a aventura da razão. Não como ponto de chegada, o que seria também um ortopedismo que, seguramente, Ortega desaprovaria. Assim, tendo como base o “nem racionalismo, nem vitalismo: raciovitalismo”, de Ortega y Gasset, temos a possibilidade de pensar em um programa raciovitalista para a superação do problema da massificação nos tempos de hoje. Tempos em que vivemos um híbrido de era pré, industrial, e pós-industrial, e em que a homogeneização cultural e a padronização de comportamentos começam a ser contestadas em todos os cantos do mundo onde haja acesso à internet e sua consequente possibilidade de ação em rede, não do ponto de vista utilitário e consumista, mas cultural: a cultura digital.

Neste sentido, mais que a conexão física, obviamente fundamental, o que importa é a cultura de rede, a cultura colaborativa, pós-industrial e pós- massificante que vem sendo construída, pessoa a pessoa, nessas conexões. Em nosso entendimento ela, a cultura digital, é condição para revitalizar a própria ideia de cultura, pesadamente homogeneizada. Ela é condição de possibilidade de se desmassificar, “destampar” o vital da diversidade cultural, das culturas populares, do interior dos países (e seu conteúdo extremamente valioso do ponto de vista de uma metáfora daquilo que se tem dentro, que tem entranha, que tem conteúdo, em vez do superficial, ostentatório, distintivo ou apenas mercadológico da cultura de produção fordista para consumo de homens-massa).

Há uma razão sendo produzida nas redes, que não é apenas técnica nem puro vitalismo irracionalista, mas uma razão que vem da vida (de milhões de vidas de indivíduos eu-circunstâncias em rede), com um potencial enorme de trazer novos valores à tona. Se, como disse Ortega y Gasset no início do século XX, o sujeito é um eu-circunstância, devemos considerar a circunstância atual de intensa conectividade ponto a ponto. Nessa, não mais pela pedagogia social de minorias, mas pela exemplaridade da participação ponto a ponto, o homem-massa da sociedade massificada tem condições de se tornar um pós-homem-massa, desde que utilize as novas tecnologias para gerar autonomia, em vez de se utilizar dos mesmos para gerar heteronomia, homogeneização e consumo massificado.

O ambiente digital provoca, com suas possibilidades, o homem a fazer novas narrativas de si próprio, em termos de valores, propriedades, ideia de si e da sociedade etc. O digital é uma nova circunstância. Se o homem-massa é produto da era industrial que gerou o chamado “fenômeno do pleno”, o consumo em massa e a homogeneização da cultura, é preciso pensar se as mudanças tecnológicas do nosso tempo, com a emergência da internet e das redes também não dão condições para uma superação do problema criado pela relação desresponsabilizada do homem com os produtos da técnica daquela época, bárbaros a colherem seus produtos, como em estado de natureza. Conseguirão os sujeitos de hoje utilizar estes ambientes de rede de forma a gerar autonomia e sujeitos-redes, indivíduos-redes, eu-circunstâncias-redes, ou, ao contrário, o rearranjo do mercado conseguirá repor o quanto de elemento homogeneizador necessita para a sociedade continuar sendo massificada?

Jéferson Assumção é escritor gaúcho, autor de 17 livros, entre eles Máquina de Destruir Leitores (Sulina), O Mundo das Alternativas (Veraz) e A Vaca Azul é Ninja. Doutor em Filosofia pela Universidade de León, Espanha. Foi secretário municipal de cultura de Canoas-RS e coordenador-geral de Livro e Leitura do ministério da Cultura. Atualmente é diretor-geral e secretário adjunto de Cultura do Estado do Rio Grande do Sul. Mantém um blog.
Imagem: Bansky

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Abertas inscrições para o Fórum Social Mundial Palestina Livre!

Abertas inscrições para o Fórum Social Mundial Palestina Livre
Porto Alegre - Estão abertas as inscrições individuais para o Fórum Social Mundial Palestina Livre, que será realizado de 28 de novembro a 1º de dezembro, em Porto Alegre. Segundo o Comitê Organizador do FSMPL, elas se destinam a pessoas que queiram acompanhar as atividades do evento e que ainda não estão inscritas como representantes de organizações. Já há mais de 100 organizações inscritas e quase o mesmo número de atividades pré-inscritas, de mais de 20 países. O prazo para a inscrição de organizações e atividades termina no dia 22 de outubro e ela deve ser feita na página especial criada para este fim (http://www.inscricoesfsmpl.rs.gov.br).

As atividades do Fórum serão centralizadas na Usina do Gasômetro e adjacências.

As organizações inscritas podem propor atividade dentro de um dos eixos indicados na programação. Essa programação é integrada por cinco grandes conferências, além de oficinas, seminários e outros eventos autogestionados realizados pelas organizações participantes, em torno de cinco eixos temáticos: Autodeterminação e direito de retorno; Direitos humanos, direito internacional e julgamento de criminosos de guerra; Estratégias de luta e solidariedade – boicote, desinvestimento e sanções (BDS) contra Israel como um exemplo; Por um mundo sem muros, bloqueios, discriminação racista e patriarcado; e Resistência popular palestina e o apoio dos movimentos sociais

A realização das atividades inscritas é auto-gestionada. O Fórum oferece o local e inclui a atividade no programa. Mas a entidade proponente é responsável pela sua realização, viagem e presença de palestrantes. Cada organização inscrita deve inscrever também os/as seus participantes. As inscrições individuais dão direito a participar de toda a programação do FSM PL, assistir às conferências, oficinas e atividades culturais. Para isto, basta entrar no mesmo link (http://www.inscricoesfsmpl.rs.gov.br) e escolher o formulário "Participantes individuais".

Os profissionais de comunicação que farão a cobertura do evento também já podem se inscrever diretamente no site, informando também dados da mídia pela qual farão a cobertura. Interessados/as poderão participar de coberturas compartilhadas, desde que autorizada a livre reprodução de conteúdos ou mediante licenças copyleft e creative commons.

O pagamento de inscrições, segundo o comitê organizador do evento, é um chamado político à auto-sustentabilidade do Fórum Social Mundial Palestina Livre, e é uma contrapartida do conjunto das organizações e indivíduos participantes na sua construção. Consciente das diferentes condições de pagamento de seus participantes em um cenário de crise e de diminuição de recursos internacionalmente, o Comitê Organizador do FSMPL estipulou preços diferenciados de inscrição que ficaram assim definidos:

- Organizações (com direito a até 5 delegados/as): R$ 200. Caso sua organização pretenda enviar mais que cinco participantes, deverá adicionar ao valor da organização a quantia de R$ 20 (ou US$ 10) para cada delegado/a extra.

- Indivíduos e delegados/as adicionais: R$ 20

- Refugiados palestinos: isentos

- Centrais sindicais*: de 2.000 a 5.000 reais, segundo a capacidade de cada entidade.

Eles somos Nós - Por Pablo González Casanova, Luis Villoro e Gilberto López y Rivas

Eles somos Nós

Desconsiderar as palavras de indignação dos que se solidarizam com nossos irmãos zapatistas e reclamam o cessar imediato da investida criminal é um ato a mais de violência contra a humanidade. Por Pablo González Casanova, Luis Villoro e Gilberto López y Rivas

O movimento dos maias zapatistas encabeçado pelo EZLN converteu-se numa referência nacional e mundial por suas conquistas na construção de processos autônomos que se fundamentam nos princípios de uma democracia participativa na qual se manda obedecendo os acordos das comunidades, em que o governo se concebe como um serviço em que todos e todas têm responsabilidades a cumprir, em que seus objetivos e razão de ser são o bem da coletividade e em que se respeitam todas as crenças religiosas.

A partir de uma dignidade recuperada, endossada diariamente, as Juntas de Bom Governo e os governos autônomos municipais fizeram progressos em áreas significativamente importantes como saúde, educação, a produção e comercialização de produtos comunitários, a partir de uma perspectiva autossustentável e redistributiva. Em um contexto de emergência nacional causada pelo mau governo a serviço do capital e do imperialismo mundial encabeçado pelos Estados Unidos, as experiências zapatistas e as de outros povos indígenas que na geografia do país escolheram pela autonomia constituem o outro polo equidistante aos saldos de miséria, morte, entreguismo e repressão que deixa o atual período presidencial que termina e os maus agouros do que inicia por meio da fraude e imposição.
Esta outra forma de exercer o poder, praticar a política e assumir formas de convivência social solidárias desenvolve-se, apesar do assédio permanente de uma estratégia de Estado baseada na recolonização dos territórios para apoderar-se de seus recursos, na contrainsurgência, no cerco militar e policial, nas tentativas sistemáticas de cooptação, infiltração e provocação, e se tudo isto não funciona, a ação direta de grupos paramilitares que atacam abundantemente as comunidades, que invadem suas terras libertadas, queimam e destroem casas, escolas, clínicas, colheitas e utensílios, que provocam o deslocamento das populações e que adotam, gozando de impunidade, o papel de martelo estatal clandestino do Exército, sempre onipresente, e a gestão facciosa do Poder Judicial, pronto para criminalizar os zapatistas e os integrantes de suas bases de apoio. Conhecemos os ataques e fustigamentos a partir das denúncias das Juntas de Bom Governo de Morelia (em especial o ejido Moisés Gandhi), La Realidade e Roberto Barrios, e em particular, as ações de contrainsurgência contra a comunidade autônoma zapatista Comandante Abel, do município autônomo La Dignidade, que se encontra sitiada pelos paramilitares e polícia estatal, em um modus operandi que mostra a cumplicidade e vinculação direta entre paramilitarismo e as forças repressivas do Estado.

Esta agressão às comunidades maias zapatistas já foi denunciada nos âmbitos nacionais e internacionais por diversos coletivos, grêmios e organizações que consideram como próprios os alcances civilizatórios de seus processos autônomos e de suas propostas para o resgate-reconstrução de uma nação onde cabemos todos e todas e de uma luta anticapitalista baseada na participação coletiva e no protagonismo dos explorados, discriminados e oprimidos que abaixo e à esquerda resistem ao controle e à dominação dos trabalhadores, que se somam à luta dos povos contra a ocupação integral de seus territórios e recursos, que denunciam o esvaziamento e o descrédito de uma democracia tutelada pela ditadura midiática, os poderes fáticos e o crime organizado dentro e fora do mau governo.
Estes coletivos, que acompanham aos maias zapatistas e o seu Exército de Libertação Nacional, sentem também na carne a acometida do Estado mexicano pelo meio de suas forças armadas e seus paramilitares contra os municípios autônomos, a partir da compreensão de que eles somos nós, que não estiveram nem estão sós, que quando se toca a um nos tocam a todos.
Desconsiderar as palavras de indignação dos que na nação e no mundo inteiro nos solidarizamos com nossos irmãos zapatistas e reclamamos o cessar imediato da investida criminal é um ato a mais de violência suprema contra o México e contra a humanidade.

Tradução Passa Palavra
Original em http://www.jornada.unam.mx/2012/09/23/opinion/010a1pol

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A piada do Ano: Reinaldo vê toda a imprensa contra a Serra!

Fonte: http://www.brasil247.com/

A crise econômica da Grécia e seus Nazistas – por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

Senadores pretendem que a população pague seus impostos de renda: não com o nosso dinheiro! – por Wadih Damous


Caros amigos do Brasil,

É ultrajante! Os Senadores querem que o cidadão brasileiro pague as dívidas de imposto pessoais deles. Vamos nos mobilizar contra este abuso absurdo de seus cargos públicos!

Como Presidente da OAB-RJ (Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional do Rio de Janeiro), fiquei indignado ao descobrir, pelos jornais, que os Senadores, além de receberem 14º e 15º salários – o que já é completamente fora de propósito – não pagaram imposto de renda sobre esses salários entre 2007 e 2011. E, quando a Receita Federal descobriu, o Senado decidiu que essa dívida seria paga com dinheiro público! Mas tenho certeza de que se nos unirmos em uma enorme mobilização nacional o Senado voltará atrás nessa decisão absurda.

Junte-se a nós nessa grande corrente para barrar essa manobra lamentável. Clique aqui e assine a petição que, em conjunto com a Avaaz, eu entregarei diretamente aos Senadores diante de toda a mídia:

Se o Senado pagar o Imposto de Renda dos parlamentares, será uma afronta aos cidadãos brasileiros. Eles não apenas recebem dois salários a mais do que o resto da população brasileira, como querem que os contribuintes arquem com o imposto deles.

A justificativa usada pelos parlamentares é que eles receberam um conveniente mau conselho dizendo que não deveriam pagar imposto sobre seus 14º e 15º salários. Isso não faz sentido legalmente nem eticamente – qualquer cidadão que tivesse recebido o mesmo tipo de conselho teria que arcar com o imposto no fim das contas.

Não podemos aguentar calados que o nosso dinheiro pague o imposto dos Senadores. Somente a grande cobertura de mídia que a entrega de uma petição com milhares de assinaturas por mim e pela Avaaz diretamente aos Senadores dará vai ser capaz de reverter a decisão do Senado. Clique aqui e assine a petição que será entregue por mim e pela Avaaz em Brasilia e espalhe nossa indignação pelos quatro cantos do país:

No Brasil, a Avaaz ajudou a construir um vasto movimento de combate à corrupção e a desafiar deputados a votarem a favor da Lei da Ficha Limpa. Vamos nos unir mais uma vez, exercitar nossa cidadania e forçar nossos Senadores a tratar a si mesmos como cidadãos comuns.

Com determinação,

Wadih Damous e a equipe da Avaaz

Mais informações:
Senado decide pagar Imposto de Renda de salários extras de parlamentares (Último Segundo)
http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2012-09-25/senado-decide-pagar-imposto-de-renda-de-salarios-extras-de-parlamentares.html
Senado decide depositar em juízo IR de salários extras dos senadores (O Globo)
http://oglobo.globo.com/pais/senado-decide-depositar-em-juizo-ir-de-salarios-extras-dos-senadores-6194223

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Hobsbawm (1917 – 2012) - por Osvaldo Coggiola

Hobsbawm (1917 – 2012)
Que a morte de um historiador ocupe a primeira página de jornais do mundo inteiro não é coisa que ocorre todo dia. Marxista e vinculado ao Partido Comunista inglês (ou ao que dele sobrou) durante toda sua vida adulta, autor de uma obra monumental, política e intelectualmente ativo até sua morte aos 95 anos, professor universitário emérito, tudo isso foi assinalado pelas matérias necrológicas que lhe foram consagradas, sem falar da enorme quantidade de prêmios e reconhecimentos que obteve em vida, às vezes concedidos por representantes de instituições e governos que, com certeza, jamais tinham lido uma só das milhares de páginas que saíram de sua pena, e nem tinham proximidade alguma com a esquerda, com o marxismo ou coisa remotamente parecida. Até governos do tipo mais diverso emitiram notas de pesar e condolência por sua morte.

A imprensa de direita se encarregou de destacar sua fidelidade ao “totalitarismo comunista” e alguma imprensa de esquerda seu silêncio sobre o stalinismo e seus crimes. Ao se referir ao assunto, Hobsbawm disse que “para falar do gulag deveria ter escrito coisas difíceis de dizer para um comunista sem tocar minha militância ou a sensibilidade de meus companheiros”, uma afirmação que não caracteriza exatamente uma mente brilhante ou um historiador comprometido com a verdade. O crítico inglês Terry Eagleton apontou que, em sua última tentativa de revalorizar o marxismo para compreender a era contemporânea (Como Mudar o Mundo, uma coletânea de velhos e novos ensaios publicada em 2011), Hobsbawm, como sempre, evitou se confrontar com a crítica marxista ao stalinismo, ou seja, com Trotsky, cuja trajetória e obra tratou brevemente, com superficialidade, no livro A Era dos Extremos (1914-1991). Apesar da enorme quantidade de assuntos que abordou em seus livros e artigos sobre a era moderna e contemporânea, a Revolução de Outubro nunca esteve entre seus temas centrais (o pouco que disse a respeito, por outro lado, não se caracterizou pela riqueza ou originalidade).

A obra de Hobsbawn, por outro lado, é enorme e rica. Em parte inspirada pelo marxismo, em parte por sua própria trajetória de vida. Eric John Ernest Hobsbawm (Obstbaum) nasceu em Alexandria (Egito, então protetorado britânico) em 1917, em uma família de origem judia, e se educou na Áustria e Alemanha, onde, membro Sozialistischer Schülerbund, assistiu a ascensão e vitória do nazismo (1). Mudou-se pra Inglaterra com sua família para fugir da perseguição antissemita. Lá, se incorporou ao Partido Comunista em 1936 e manteve sua filiação muito depois de a burocracia russa massacrar o levante húngaro em 1956 (massacre que Hobsbawm recebeu de “coração pesado”) e a Primavera de Praga em 1968, ainda que tenha tomado distância das duas intervenções, sem romper com o partido, como fizeram muitos de seus colegas intelectuais comunistas (Cristopher Hill ou E. P. Thompson). A burocracia da URSS premiou a fidelidade de Hobsbawm não publicando, jamais, nenhuma de suas obras em russo (traduzidas a mais de 50 idiomas) ou sequer um mísero artigo.

Concluiu seus estudos em Cambridge, a cuja cátedra aspirou, sem jamais consegui-la (pelo boicote da direita acadêmica). A partir de 1947 se tornou professor conferencista de história no Birkbeck College, em Londres, onde permaneceu grande parte de sua vida. Foi membro criador do Grupo de Historiadores do Partido Comunista, com Cristopher Hill, Rodney Hilton, A. L. Morton, E. P. Thompson, John Saville e Raphael Samuel, entre outros, grupo que em 1952 fundou a revista Past & Present. Seu primeiro livro, Labour’s Turning Point (de 1948) foi uma coleção editada de documentos do socialismo fabiano; pouco depois foi publicado um debate famoso do qual participou sobre as conseqüências da Revolução Industrial, ao que se seguiu um sobre a transição do feudalismo ao capitalismo e outro sobre origens da Revolução Industrial. Sobre seus colegas ingleses, Hobsbawm possuía a vantagem, depois decisiva, de sua condição de poliglota e sua formação de base multicultural (seus anos egípcios e alemães, com a experiência decisiva do nazismo), que lhe deram uma “abertura ao mundo” que seus companheiros não conseguiram (às vezes, nem buscaram).

Nas décadas de 1950 e 1960, se dedicou a trabalhos sobre a classe e o movimento operários, em especial na Inglaterra, durante os séculos 18 e 19. Muito ricos e, até certo ponto, metodologicamente originais, seus trabalhos (artigos) dessa época foram reunidos depois em vários volumes de ampla difusão (Mundos do Trabalho, Trabalhadores e Revolucionários). À velha (e não acadêmica) história do movimento operário centrada sobre suas instituições (sindicatos, partidos, líderes, episódios marcantes – greves e insurreições) Hobsbawm e outros historiadores contrapunham um novo tipo de história operária e popular, inspirada nos avanços da historiografia acadêmica, baseada na pesquisa de fontes primárias de todo tipo, na qual as condições materiais de vida, as práticas cotidianas, hábitos, costumes e cultura ganhavam seu devido lugar, contribuindo para uma reconstrução histórica muito mais precisa, não dogmática ou hagiográfica (como era típico na historiografia social-democrata-trabalhista, ou pior ainda, stalinista) da história da classe operária.

O ponto máximo dessa nova historiografia, entretanto, não foram os trabalhos de Hobsbawm, mas a magna opus de Edward Palmer Thompson, The Making of the English Working Class, publicada em 1963. A obra alcançou difusão mundial na década seguinte, contribuindo, de modo involuntário (em especial na América Latina), ao ser interpretada unilateralmente, para a criação uma historiografia operária despolitizada, baseada em uma ridícula e cretina contraposição entre “cultura e política”, franca e estupidamente reacionária, e sempre pálida imitação (papagaiada) do modelo metropolitano. Os trabalhos paralelos de Hobsbawm, pelo contrário, se destacam pela constante preocupação política, a afirmação do enfrentamento (luta) de classes em cada aspecto da vida operária e suas conseqüências políticas.

Hobsbawm, por outro lado, ampliou consideravelmente, na década de 60, a pesquisa histórica das origens e manifestações da rebeldia social contemporânea, fazendo sua obra ganhar projeção mundial, com obras como Primitive Rebels (1959) ou Bandits (1968). Em Primitive Rebels, realizou um relato muito original das sociedades secretas e das culturas milenaristas do sul da Europa, retomando a questão em Captain Swing, um estudo detalhado do protesto rural no início do século 19 na Inglaterra, em coautoria com George Rudé. Em Bandidos, a síntese incluiu o “mundo periférico”, chegando a afirmações quase ingênuas (ou exageradas), ao atribuir caráter de “rebelião social” aos briganti italianos (os mesmos que Engels, em polêmica com Bakhunin, qualificava contemporaneamente de vulgares bandidos) ou, como foi recentemente bem pontuado por Luiz Bernardo Pericás, aos cangaceiros brasileiros (que Hobsbawm chegou quase a assimilar à rebelião dos “tenentes”). Simultaneamente, Labouring Men apareceu em 1964 (Worlds of Labour, outra compilação, seria publicado em 1984) e, principalmente, seu primeiro grande trabalho de síntese da história mundial, Industry and Empire, foi publicado em 1968.

Essa obra abriu o caminho para o grande trabalho de síntese da história contemporânea que fez de Hobsbawm mundialmente famoso, e leitura obrigatória desde a década de 1970, com os livros “A Era das Revoluções (1789-1848)”, “A Era do Capital (1848-1875)”, “A Era dos Impérios (1875-1914”) e “A Era dos Extremos (1914-1991)”. Para o muito conservador (pra não dizer direitista) historiador inglês Niall Ferguson, esses livros são “o melhor ponto de partida para qualquer pessoa que deseje começar a estudar a história moderna”. Como conciliar essa afirmação com o caráter supostamente marxista dessas obras? No obituário redigido por Martin Kettle e Dorothy Wedderburn, no Guardian, se lê: “Se Eric Hobsbwm tivesse morrido 25 anos atrás, as necrologias o descreveriam como o historiador marxista britânico mais notável e terminariam mais ou menos por aí. Mas ao morrer agora, aos 95 anos, alcançou uma posição única na vida intelectual do país. Nos últimos anos, era o historiador britânico mais respeitado de qualquer tipo, reconhecido (se não aprovado) tanto pela esquerda como pela direita” (itálico nosso).

A “quadrilogia” de Hobsbawm é um tour de force sem paralelos na historiografia contemporânea, marxista ou não. A agenda da obra, sua periodização do capitalismo, é claramente de inspiração marxista: a vitória, estabilização, expansão mundial e, finalmente, decadência do capitalismo, ocupando cada volume. A obra, no entanto, não é uma “vulgata” marxista (daí, entre outras virtudes, seu grande êxito), mas, como o próprio Hobsbawm definiu, haute vulgarisation. Hobsbawm partiu da tese do materialismo histórico (que dominava ampla e sofisticadamente, como demonstra, por exemplo, sua edição e introdução aos escritos de Marx sobre as sociedades pré-capitalistas) para confrontá-las e iluminá-las à luz de todos os avanços e trabalhos recentes da historiografia acadêmica (os quatro volumes são totalmente baseados em fontes secundárias), construindo um relato sintético magistral, de uma erudição sem precedentes em relação aos períodos considerados e de magnífica fluidez lógica e literária.

Nunca o “marxismo acadêmico” ou a síntese histórica contemporânea alcançaram esse nível. Assim, os textos sintéticos de Hobsbawm se transformaram em referência acadêmica obrigatória, em momentos em que as matrículas nas universidades batiam recordes no mundo inteiro, e se transformaram em manuais nos mais diversos países, em faculdades e até escolas secundárias (e inspirando, também, outros manuais de qualidade inferior, que em boa parte eram cópias dos textos de Hobsbawm): nunca um historiador acadêmico profissional havia alcançado tal grau de difusão escolar (e, com a expansão da escola, também de difusão popular). Hobsbawm continuou escrevendo (muito), cabendo mencionar, destacadamente, sua coordenação do monumental História do Marxismo, realizada inicialmente pela editora do PC italiano, em tempos de seu vínculo privilegiado (e esperançoso) com o efêmero “eurocomunismo”.

Cabe afirmar, então, como fazem os companheiros da Radical Socialist, que “a debilidade de Hobsbawm foi (só) sua ‘leitura’ sobre o século 20, a Revolução Russa e o stalinismo”? (2) Na realidade, para dar brilho acadêmico inédito ao marxismo, Hobsbawm pagou também um preço, que permeia toda a obra. Ao levar em conta a maior quantidade de interpretações possíveis para cada fenômeno ou processo, valorizando as virtudes de cada uma, Hobsbawm caiu com frequência em uma sorte de ecletismo teórico, às vezes raiando o relativismo. Isso é visível inclusive em sua interpretação das revoluções burguesas, ou da “dupla revolução” (econômica e política, inglesa e francesa) que deram origem à era contemporânea (capitalista).

Sua interpretação do imperialismo capitalista, por exemplo, partiu da “Grande Depressão” econômica do último quarto de século 19, que deu origem à exportação de capitais, mas concede a esse fator tanto peso quanto às questões de prestígio e orgulho nacional (obviamente existentes, e imprescindíveis em qualquer análise) que animaram as potências capitalistas na corrida colonial. Sua análise das causas “econômicas” do imperialismo é, por outro lado, basicamente descritiva (ou seja, não sequenciada lógica e casualmente). Tudo isso, e não só sua ruptura com o stalinismo, teve peso em sua análise do capitalismo no século 20.

Na Era dos Extremos, seu texto consagrado ao “Breve Século 20”, as limitações de Hobsbawm como marxista (e também como historiador) se manifestam mais abertamente, não somente em suas análises da Revolução Russa e do stalinismo. Em sua análise da Primeira Guerra Mundial, concedia preeminência causal a uma disseminação da “cultura da violência”, herança do período anterior. O século 20 não é o teatro histórico da decadência capitalista, mas, em concordância com o precedente, o século dos massacres e dos genocídios, executados em escala industrial, o que, sendo perfeitamente real, aparece separado da dinâmica histórica do capitalismo. Sua análise da crise de 1929 e da depressão da década de 1930 mescla todas as interpretações já realizadas, sem se fixar por nenhuma (nem superando qualquer uma delas).

Os acontecimentos de 1989-1991, que concluíram com o fim da URSS, e segundo Hobsbawm fecham o “Breve Século 20”, foram interpretados realmente por Hobsbawm como sendo o fim do socialismo (ou do comunismo) – ou seja, a vitória (histórica) do capitalismo. E se perguntou: “O que sobrou para os vencidos?” Em textos posteriores, incluindo um Manifesto pela História (obviamente contrapondo às teses do “Fim da História” de Fukuyama e outros pavões de menor valor que desfilaram durante o carnaval intelectual “neoliberal”) Hobsbawm concluiu reivindicando a tradição iluminista, e atribuindo o marxismo (ou o que dele sobrara) a esta tradição, como uma espécie de “avatar radical” dela. E nada havia de marxismo, no sentido estrito, em tudo isso, só uma vaga simpatia moral pelas lutas realizadas outrora em seu nome.

Era mais que uma manifestação tardia. Hobsbawm nunca abraçou o anticomunismo, porque se definia claramente como ex-comunista, “por lealdade a uma grande causa, por lealdade com todos os que por ele sacrificaram a própria vida, amigos e companheiros mortos, que sofreram cárceres e tortura, tanto nos regimes comunistas como nos capitalistas. Me arrependo? Não. Sei perfeitamente que a causa que abracei demonstrou que não funciona. Talvez não deveria ter abraçado. Mas, por outro lado, se os homens não nutrem um ideal de um mundo melhor, perdem algo. Eu acho que a humanidade não pode funcionar sem as grandes esperanças, sem as paixões absolutas”. Propor uma (falsa) ilusão poderia, talvez, alimentar uma atitude de revolta individual, mas não seria, com certeza, um meio para reconstruir um movimento histórico.

Hobsbawm, felizmente, viveu o suficiente para ver a explosão e o desenvolvimento de uma nova crise histórica e mundial do capitalismo, na primeira década do século 21, que se não o levou a corrigir suas afirmações precedentes, o levou a propor uma nova vigência do marxismo, embora de modo não claramente definido e sem ultrapassar as limitações já enunciadas: “O socialismo falhou. Agora o capitalismo está falindo. Então, o que vem depois?”, se perguntou. Não teve tempo ou forças suficientes para buscar uma resposta.

Poucas mentes do século XX mereceram, como a sua, viver mais de cem anos. Hobsbawm, bem ou mal, enfrentou todos os problemas de nossa era, deixando-nos uma obra ímpar, que deve, contudo, ser criticada e superada. Por historiadores, certamente, por direções políticas e culturais à altura das tarefas da nova fase histórica, pelas centenas de milhares de jovens que o lêem em todo o mundo, pelo movimento consciente e autêntico da crítica radical e incessante da realidade.

Notas:
(1) “Eu, que pertenço a um povo de refugiados, cuja experiência foi tamanha que ainda me sinto um pouco desconfortável se eu não tenho um passaporte válido e dinheiro suficiente para me transportar para o país mais próximo em um curto prazo, posso entender a situação dos quenianos asiáticos e tenho horror dos oficiais de imigração britânicos, de uma maneira muito mais profunda e visceral do que aqueles para quem a questão central é uma igualdade de direitos e liberdades civis em geral "(1969)

(2) “Tendeu a apresentar um pedido de desculpas objetivista, com o argumento essencial de que mesmo se o poder tivesse alguém menos cruel do que Stalin, as circunstâncias resultaram em similar violência de grande escala, empreendida em favor dos interesses da construção socialista. Isso implica, em primeiro lugar, que a avaliação das revoluções européias estavam fadadas ao fracasso. Segundo, isso significava não ver o stalinismo como um sistema de dominação burocrática do governo por estamento burocrático que tinha usurpado o poder, mas como características pessoais de Stalin".

Osvaldo Coggiola, historiador e economista, é professor do departamento de História da USP.

Quando os ruem... - Por Felipe Amin Filomeno

Quando os ruem...
Como nos anos 1930, estamos diante de bifurcação histórica. Ela pode levar ou a ordem mais justa, ou a pesadelos ultra-autoritários

Em 1944, foi publicado A Grande Transformação, livro em que Karl Polanyi argumentava que a crescente subordinação da ordem social às forças do mercado tinha efeitos disruptivos, os quais, afinal, despertavam na sociedade uma reação de auto-proteção na forma de regulação do mercado. Para Polanyi, a Grande Depressão dos anos 1930 representou o fracasso do projeto de mercado mundial auto-regulável centrado na Grã-Bretanha, o qual despertou reações progressistas (como o New Deal, nos EUA), mas também reações perversas (como o nazi-fascismo na Europa).

Em 2003, Giovanni Arrighi e Beverly Silver estenderam a análise de Polanyi, mostrando que o “movimento pendular” entre livre-mercado e regulação não era historicamente restrito ao período que vai do século XIX a meados do século XX. Em meados de 1970, como parte de seus processos cíclicos, o sistema-mundo capitalista entrou em uma nova fase de liberalização de mercados. Associada, desta vez, ao declínio da hegemonia norte-americana, esta onda foi orientada ideologicamente pelo neoliberalismo de Hayek e Friedman.

Assim como na primeira metade do século XX, a liberalização da economia pós-1970 despertou reações de auto-proteção na sociedade. Na América Latina, onde esta onda foi vivenciada na forma de programas de ajuste estrutural patrocinados pelo FMI, a reação tomou força após o ano 2000. As políticas neoliberais haviam contribuído para estabilizar a economia (especialmente a inflação), mas seus efeitos negativos sobre o crescimento econômico e a distribuição de renda reduziram sua legitimidade, levando a população a eleger governantes com programas anti-neoliberais. Neste caso, a “auto-proteção” da sociedade assumiu a forma de “social-democracia globalizada” (no Brasil, no Chile e no Uruguai) e de “socialismo bolivariano” (na Venezuela, Equador e Bolívia). A promoção do livre-mercado (que, nos anos 1990, conviveu com oligopólios no setor financeiro e em indústrias privatizadas) foi substituída, democraticamente, por uma maior intervenção do Estado na economia e uma recuperação das redes de proteção social para garantir crescimento com inclusão. Esta auto-proteção progressista não precisa (e nem deve) anular o mercado, mas sim, seguindo os preceitos de Adam Smith, usá-lo como instrumento de governo, para fazer os capitalistas competirem, reduzindo seus lucros ao mínimo necessário para compensá-los pelos riscos do empreendedorismo.

Na Europa, ao contrário, quando a crise mundial manifestou-se agudamente a partir de 2010, os governos — liderados pela Alemanha — responderam com medidas de austeridade fiscal e monetária. Na Espanha, França, Grécia, Irlanda e Portugal, tais medidas desencadearam protestos em massa pelas ruas de suas capitais. A insistência das elites na austeridade como solução única (salvo iniciativas na França de Hollande para fazer com que os mais ricos assumam parte maior do ônus da crise) criou um impasse que arrisca o processo de integração regional da Europa e prolonga a recessão.

Esta situação é solo fértil para a emergência de formas perversas de “auto-proteção” social contra o mercado. Nas eleições presidenciais francesas de abril, o partido de extrema-direita Frente Nacional, representado por Marine Le Pen, obteve seu maior número de votos até então (6,4 milhões, comparados a 5,5 milhões em 2002). Na Grécia, justamente o país mais afetado pela crise, o partido neo-nazista Aurora Dourada conquistou em maio seus primeiros assentos no Parlamento desde o fim do regime militar no país em 1974 (21 das 300 cadeiras).
Para Immanuel Wallerstein, o sistema-mundo capitalista vive uma conjuntura his
tórica de bifurcação, em que a ação coletiva da humanidade determinará que tipo de ordem mundial teremos no futuro, para o bem ou para o mal. Quando as elites estão dispostas a fazer concessões e movimentos anti-sistêmicos progressistas se tornam os porta-vozes da “auto-proteção” da sociedade, a probabilidade de uma ordem social mais justa e estável aumenta. Por outro lado, quando as elites são reacionárias e movimentos de fascistas, xenofóbicos e intolerantes encarnam a “auto-proteção” contra o mercado, o resultado pode ser desastroso. Se, na primeira metade dos anos 2000, os governantes argentinos tivessem insistido na austeridade econômica e reprimido duramente os cacerolazos e piqueteros, talvez nossa vizinha Argentina teria hoje um governo fascista.

* Felipe Amin Filomeno 
é doutor em Sociologia pela Johns Hopkins University e Professor Adjunto do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina. Mantém um blog.
Seus textos publicados em Outras Palavras podem ser lidos aqui.
Imagem: Diego Rivera, O Homem e a Encruzilhada (detalhe)