segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
sábado, 12 de janeiro de 2013
Wallerstein: capitalismo, “austeridade” e saídas
Wallerstein: capitalismo, “austeridade” e saídas
Em todo o mundo, direitos sociais estão ameaçados. Exceções, China e Brasil estimulam consumo popular. Não é uma alternativa real
A austeridade está, em todo o mundo, no centro das politicas. Há aparentes exceções, em alguns países – China, Brasil, os Estados do Golfo e talvez outros. Mas são exceções a algo que permeia o sistema mundial, hoje – e que equivale, em parte, a uma grande impostura. Quais são as questões?
Por um lado, o incrível desperdício de um sistema capitalista levou a uma situação na qual o sistema mundial está ameaçado por sua real incapacidade de continuar consumindo, globalmente, nos níveis que eram habituais — em especial, porque isso provoca um crescimento constante do consumo global. Estamos esgotando os elementos básicos para a sobrevivência humana, dado que o consumismo tem sido a base de nossas atividades produtivas e especulativas.
Por outro lado, sabemos que o consumo global tem sido altamente desigual, tanto entre os países quanto dentro de cada país. Além disso, a lacuna entre os beneficiários e perdedores atuais cresce persistentemente. Essas discrepâncias constituem a polarização fundamental de nosso sistema mundial, não apenas economicamente, mas política e culturalmente.
E já nem se trata de um segredo, para as populações do mundo. A mudança climática e suas consequências, a escassez de comida e água e suas consequências são visíveis para cada vez mais pessoas, muitas das quais estão começando a clamar por uma mudança de valores civilizacionais – que supere o consumismo.
As consequências políticas são muito preocupantes para alguns dos maiores produtores capitalistas. Eles estão percebendo que não oferecem mais uma proposta política convincente, e portanto enfrentam a restrição inevitável de sua habilidade para controlar os recursos e riquezas. As demandas atuais por austeridade são um tipo de esforço de última hora para segurar a onda da crise estrutural do sistema mundial.
A austeridade que está sendo praticada é uma política imposta aos setores economicamente mais fracos da população mundial. Os governos estão procurando salvar-se da perspectiva de quebras bancárias e blindar as megacorporações (especialmente, mas não somente os megabancos), para que estas não paguem o preço de suas loucuras notórias e sofrimentos autoinfligidos. A forma de fazê-lo é, essencialmente, cortar (ou eliminar completamente) as redes de seguridade social que foram erguidas historicamente para proteger os cidadãos das consequências do desemprego, de doenças sérias, incapacidade de pagar hipotecas e todos os outros problemas concretos que as pessoas e suas famílias regularmente enfrentam.
Quem busca vantagens de curto prazo continua a apostar no mercado financeiro, em transações constantes e rápidas. Mas também esse jogo depende, no médio prazo, na capacidade de encontrar compradores para as mercadorias produzidas. E a demanda efetiva está desaparecendo, tanto devido aos cortes nos sistemas de seguridade quanto por causa do medo generalizado de que haja ainda mais cortes adiante.
Os defensores da austeridade costumam assegurar, de tempos em tempos, que estamos virando a página ou vamos fazê-lo em breve, de modo que os tempos de prosperidade voltarão. Na verdade, nunca estivemos próximos deste ponto mítico de virada, e as promessas de retomada vão se tornando cada vez mais modestas e projetadas para mais tarde
Há quem pense, também que uma saída social-democrata ainda exista. Ao invés de austeridade, deveríamos ampliar os gastos governamentais e tributar os mais ricos. Mesmo se isso fosse politicamente realizável, daria certo? Os defensores da austeridade têm um único argumento plausível. Não há, no mundo, recursos suficientes para sustentar o nível de consumo que hoje todos desejam – já que cada vez mais indivíduos reivindicam ampliar seu poder aquisitivo.
Aqui entram as exceções às quais me referi. Não são países que estão alterando o grupo dos que mais consomem, mas expandindo-o. As exceções estão, portanto, ampliando os dilemas econômicos relacionados à crise — e não resolvendo-os.
Há apenas duas saídas para tais dilemas. Uma é estabelecer um sistema mundo autoritário e não-capitalista, que usará a força e a dissuasão, ao invés do “mercado”, para manter e ampliar a distribuição desigual do consumo básico. A outra é mudar nossos valores civilizacionais.
Para construir um sistema histórico relativamente democrático e relativamente igualitário, não precisamos de “crescimento”, mas do que tem sido chamado, na América Latina, de bien vivir. Significa promover continua discussão racional sobre como alocar os recursos do planeta de modo que todos possam ter acesso a tudo o que é realmente necessário para viver — e, além disso, assegurar que as futuras gerações tenham a possibilidade de desfrutar do mesmo.
Para parte das populações do mundo, isso significa que seus filhos irão consumir menos; para outras, que consumirão mais. Mas esse sistema torna possível que todos tenham a “rede de segurança” de uma vida garantida pela solidariedade social.
Nos próximos vinte a quarenta anos, assistiremos a uma enorme batalha política. O que estará em jogo não é a sobrevivência do capitalismo (que já esgotou suas possibilidades), mas o tipo de sistema que iremos, coletivamente, “escolher” para substituí-lo. Ou um modelo autoritário, que impõe polarização continuada (e expandida); ou um outro, relativamente democrático e relativamente igualitário.
Por Immanuel Wallerstein | Tradução: Gabriela Leite e Antonio Martins | Imagem: Julian Behal
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
China e EUA disputarão Ásia. Europa seguirá em crise. Obama pode encerrar bloqueio de Cuba. Israel tentará bombardear Irã – por Ignacio Ramonet
China e EUA disputarão Ásia. Europa seguirá em crise. Obama pode encerrar bloqueio de Cuba. Israel tentará bombardear Irã
Marinheiros chineses perfilam-se em cerimônia de recepção ao secretário de Defesa dos EUA. Para Ramonet, “Beijing suporta cada vez menos a presença militar dos EUA na Ásia”
Depois de termos sobrevivido ao anunciado fim do mundo, resta-nos agora tratar de prever nosso futuro imediato. Com raciocínios prudentes, porém mais cartesianos; baseando-nos nos princípios da geopolítica, uma disciplina que permite compreender o jogo geral das potências e avaliar os principais riscos e perigos. Para antecipar, como nos tabuleiros de xadrez, os movimentos de cada adversário potencial.
Se contemplarmos, nestes início de ano, um mapa do planeta, imediatamente observaremos vários pontos com luzes vermelhas acesas. Quatro deles apresentam altos níveis de perigo: Europa, América Latina, Oriente Médio e Ásia.
Na União Europeia (UE), 2013 será o pior ano desde que começou a crise. A “austeridade” como crença única e os ataques ao Estado de bem-estar social continuarão, porque assim exige a Alemanha que, pela primeira vez na História, domina a Europa e a dirige com mão de ferro. Berlim não aceitará nenhuma mudança até as eleições do próximo 22 de setembro, em que a chanceler Angela Merkel poderia obter um terceiro mandato.
Na Espanha, as tensões políticas aumentarão na medida em que a Generalitat de Catalunya comece a tornar precisos os termos da consulta aos cidadãos sobre o futuro desta comunidade autônoma. Processo que os nacionalistas bascos seguirão com o maior interesse. A situação da economia, já péssima, dependerá do que ocorrer… na Itália, nas próximas eleições (em 24 de fevereiro). E das reações dos mercados, diante ou de uma eventual vitória dos amigos do conservador Mario Monti (que conta com o apoio de Berlim e do Vaticano), ou do candidato de centro-esquerda, Pier Luigi Bersani, melhor colocado nas pesquisas.
Também dependerá das condições (sem dúvida brutais) que Bruxelas exigirá, para o resgate que o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, acabará pedindo. Sem falar dos protestos, que continuam espalhando-se como rastro de gasolina – e acabarão por se encontrar com algum fósforo aceso… Podem ocorrer explosões em qualquer uma das sociedades do sul europeu (Grécia, Portugal, Itália, Espanha), exasperadas pelos cortes sociais permanentes. A UE não sairá do túnel em 2013, e tudo pode piorar se, além disso, os mercados decidirem voltar-se (como os neoliberais os incitam a fazer) (1) contra a França, do moderadíssimo socialista François Hollande.
Na América Latina, 2013 também estará cheio de desafios. Em primeiro lugar, na Venezuela, que desde 1999 desempenha um papel importante nas mudanças progressistas em toda a região. A recaída imprevista do presidente Hugo Chávez – reeleito em 7 de outubro último – cria incertezas. Embora o dirigente esteja se restabelecendo de sua nova operação contra o câncer, não se podem descartar novas eleições presidenciais em fevereiro. Designado por Chávez, o candidato da revolução bolivariana seria o atual vice-presidente Nicolás Maduro, um líder muito sólido, com qualidades humanas e políticas para se impor.
Também haverá eleições, dia 17 de fevereiro, no Equador. Quase ninguém duvida da reeleição do presidente Rafael Correa, outro dirigente latino-americano fundamental. Honduras (onde, em junho de 2009, um golpe derrubou Manuel Zelaya) viverá importante pleito. O atual presidente, Porfirio Lobo, não pode disputar um segundo mandato consecutivo. E o Tribunal Eleitoral Supremo autorizou a inscrição do partido Liberdade e Refundação (Libre), que, liderado por Zelaya, apresenta como candidata sua esposa, Xiomara Castro. Já no Chile, que terá eleições presidenciais em 17 de novembro, a impopularidade atual do presidente conservador Sebastián Piñera oferece possibilidades de vitória à socialista Michelle Bachelet.
A atenção internacional também se voltará para Cuba. Por duas razões. Continuam em Havana as conversações entre o governo colombiano e as FARC, para tentar acabar com o último conflito armada na América Latina. E esperam-se decisões de Washington. Nas eleições do último 6 de novembro, Barack Obama venceu na Flórida: obteve 75% do voto hispânico e – muito importante – 53% do voto cubano. São resultados que dão ao presidente, em seu último mandato, ampla margem de manobra para avançar rumo ao fim do bloqueio econômico e comercial da ilha.
Onde nada parece avançar é, mais uma vez, o Oriente Médio. Ali encontra-se o atual foco de perturbações no mundo. As revoltas da “primavera árabe” conseguiram derrotar vários ditadores locais: Bem Alí, da Tunísia; Mubarak, do Egito; Gadafi, na Líbia; Saleh, no Yêmen. Mas as eleições livres permitiram que partidos islâmicos com tendências reacionárias (os Irmãos Muçulmanos) conquistassem o poder. Agora querem, como se vê no Egito, conservá-lo a todo custo. Para consternação da população laica, que, por ter sido a primeira a se sublevar, nega-se a aceitar esta nova forma de autoritarismo. Um cenário idêntico está armado na Tunísia.
Depois de terem acompanhado com interesse as explosões de liberdade na primavera de 2011 nesta região, as sociedades europeias estão de novo desinteressando-se do que nela ocorre. Talvez por ser muito complicado. Um exemplo: a inextricável guerra civil na Síria. Ali, o que está claro é que as grandes potências ocidentais (Estados Unidos, Reino Unido e França), aliadas à Arábia Saudita, Qatar e Turquia, decidiram apoiar (com dinheiro, armas e instrutores) a insurgência islâmica sunita. Esta continua ganhando terreno, em distintas frentes. Quanto tempo resistirá o governo de Bashar El Assad? Sua sorte parece lançada. A Rússia e a China, seus aliados diplomáticos, não darão sinal verde na ONU para um ataque da OTAN, como na Líbia, em 2011. Mas tanto Moscou quanto Beijing consideram que a situação do regime de Damasco é militarmente irreversível, e começaram a negociar com Washington uma saída que preserve seus interesses.
Diante do “eixo xiita” (Hezbolá libanês, Síria e Irã), os Estados Unidos constituíram, na região, um amplo “eixo sunita” (desde a Turquia e Arábia Saudita até o Marrocos, passando pelo Cairo, Trípoli e Túnis). Objetivo: derrubar Bashar El Assad e despojar Teerã de seu grande aliado regional – antes da próxima primavera. Por que? Porque em 14 de junho haverá, no Irã, eleições presidenciais (2). Nelas, Mahmud Ahmadinejad, atual mandatário, não pode concorrer, já que a Constituição não permite exercer mais de dois mandatos. Ou seja, durante o próximo semestre, o Irã estará imerso em ácidas disputas eleitorais, entre os partidários de uma linha dura diante de Washington e os que defendem a via da negociação.
Diante desta situação iraniana de certo desgoverno, Israel estará em ordem de marcha para um eventual ataque contra as instalações nucleares de Teerã (3). No Estado judeu, as eleições gerais de 22 de janeiro produzirão provavelmente a vitória da coalizão ultraconservadora que reforçará o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, partidário de bombardear o Irã o quanto antes.
Este ataque não pode ser executado sem a participação militar dos Estados Unidos. Washington irá aceitá-lo? É pouco provável. Barack Obama, que toma passoe em 21 de janeiro, sente-se mais seguro depois da reeleição. Sabe que a imensa maioria da opinião pública estadunidense (4) não deseja mais guerras. O front do Afeganistão segue aberto. O da Síria, também. Outro pode abrir-se no norte do Mali. O novo secretário de Estado, John Kerry, terá a delicada missão de acalmar o aliado israelense.
Enquanto isso, Obama olha para a Ásia, zona prioritária desde que Washington decidiu a reorientação estratégica de sua política externa. Os Estados Unidos tratam de frear, ali, a expansão da China. Cercam-na de bases militares e apoiam-se em seus parceiros tradicionais: Japão, Coreia do Sul e Taiwan. É significativo que a primeira viagem de Barack Obama, depois de sua reeleição, tenha sido para a Birmânia, Camboja e Tailândia. São três membros da Associação de Nações do Sudeste Aiático (Asean), uma organização que reúne aliados de Washington na região e cuja maioria dos membros tem problemas de limites marítimos com Beijing.
A China designará Xi Jinping presidente, em março próximo. Seus mares converteram-se nas zonas de maior potencial de conflito armado da área Ásia-Pacífico. As tensões de Beijing com Tóquio, a respeito da soberania das ilhas Senkaku (Diaoyú, para os chineses), podem agravar-se depois da vitória eleitoral, em 15 de dezembro último, do Partido Liberal-Democrata (PLD), cujo líder e novo primeiro-ministro, Shinzo Abe, é um “falcão” nacionalista, conhecido por suas críticas à China. Também a disputa com o Vietnã, sobre a propriedade das ilhas Spratley, está subindo perigosamente de tom. Sobretudo, depois que as autoridades vietnamitas colocaram oficialmente o arquipélago sob sua soberania, em junho passado.
A China está modernizando a todo vapor sua marinha de guerra. Em 25 de setembro último, lançou seu primeiro porta-aviões, o Liaoning, com intenção de intimidar seus vizinhos. Beijing suporta cada vez menos a presença militar dos Estados Unidos na Ásia. Entre os dois gigantes, está se instalando uma perigosa “desconfiança estratégica” (5) que, sem dúvidas, marcará a política internacional do século XXI.
(1) Ler o dossiê “France and the euro. The time-bomb at the heart of Europe”, The Economist, Londres, 17 de noviembre de 2012.
(2) No Irã, o presidente não é o chefe de Estado. Este papel é exercido pelo Guia Supremo, com mandato perpétuo, função exercida atualmente por Ali Khamenei.
(3) Ler, em Outras Palavras, “Ignacio Ramonet vê o xadrez das ameaças ao Irã”.
(4) The New York Times, Nova York, 12 de noviembre de 2012.
(5) Ler, de Wang Jisi y Kenneth G. Lieberthal, “Adressing U.S.-China Strategic Distrust”, Brookings Institution, 30 de marzo de 2012.
Por Ignacio Ramonet | Tradução: Antonio Martins
De como o FBI coordenou a repressão ao Occupy Wall Street – por Naomi Wolf
De como o FBI coordenou a repressão ao Occupy Wall Street
Novos documentos provam o que um dia foi tratado como paranoia: a repressão aos ocupas se dava com o Estado e as corporações trabalhando juntos. Uma rede que coordena o Departamento de Segurança, o FBI, a polícia local e setores privados, foi formada, em alguns casos até com um pomposo nome próprio, como Conselho da Aliança pela Segurança Doméstica.
Era mais sofisticado do que pensávamos: novos documentos mostram que a repressão sofrida pelos "ocupas" no último outono não foi coordenada somente pelo FBI, pelo Departamento de Segurança Nacional e pelas polícias locais. A repressão - que envolveu prisões violentas, rompimento de grupos, bombas de gás, manifestantes algemados até que sangrassem seus pulsos, pessoas mantidas em cativeiro - foi coordenada também pelos próprios bancos.
Os documentos foram requisitados pelo Fundo de Parceria pela Justiça Civil [PCJF, do original inglês] (por que entidades sem fins lucrativos são as únicas que ainda reportam o desrespeito às liberdades civis?). Eles mostram uma rede que coordena o Departamento de Segurança, o FBI, a polícia local e atividades do setor privado, tudo tão integrado que formou-se um só monstro: em alguns casos há até um nome próprio, Conselho da Aliança pela Segurança Doméstica”. Também revela-se que a entidade cumpre uma só missão, definida nacionalmente e planejada localmente. Numa palavra, os documentos revelam que policiais trabalham para os bancos e com os bancos, e o fazem alvejando, prendendo e incapacitando politicamente cidadãos norte-americanos pacíficos.
Revelados com muito atraso, na semana entre o Natal e o Ano Novo, os documentos mostram um plano que se desdobrava cidade a cidade de maneira orwelliana: seis universidades estadunidenses eram usadas pelo FBI como campos de coleta de informação sobre os estudantes envolvidos com o Occupy Wall Street, tudo feito com aprovação dos reitores; dirigentes de bancos sentaram-se com oficiais do FBI para acumular informações sobre os manifestantes do Occupy; planos de repressão a manifestações desenvolvidos pelo FBI foram oferecidos às organizações alvos de protestos; e até planos de ameaças de assassinato a líderes do Occupy Wall Street por atiradores - conduta contrária à do FBI, que costumeiramente informa e defende lideranças políticas de ameaças do tipo.
Como notou Mara Verheyden-Hilliard, diretora executiva do PCJF, os documentos mostram que o FBI, apesar de reconhecer o movimento Occupy como pacífico, descreve os manifestantes como “ameaça terrorista”:
“documentos do FBI obtidos pelo Fundo de Parceria pela Justiça Civil (...) revelam que o FBI tratou os ativistas de Occupy Wall Street como uma ameaça terrorista e potencialmente criminosa. O PCJF obteve documentos que relatam a atuação do FBI no caso desde agosto de 2011, um mês antes do estabelecimento do acampamento em Zuccotti Park.”
Verheyden-Hilliard aponta para a parceria entre bancos, a Bolsa de Valores de Nova Iorque, a Reserva Federal, o FBI e o Departamento de Segurança Nacional e chama essa conduta de “estatismo policial”:
“esta publicação [de documentos], que acreditamos ser somente a ponta do iceberg, é uma janela para a abrangência nacional do monitoramento pelo FBI dos manifestantes pacíficos organizados no movimento dos ocupas. Estes documentos também mostram as agências federais de segurança pública funcionando como um braço de Wall Street e das grandes corporações”.
Os documentos revelam um alcance impressionante: em Denver, Colorado, uma parte do FBI e um “Grupo de Trabalho contra Fraudes a Bancos” encontrou-se em novembro de 2011, durante as ocupações, para monitorar a ocupação. A Reserva Federal de Richmond, Virginia, tinha segurança privada vigiando o Occupy Tampa e repassava informações para o FBI local que, por sua vez, colocou a unidade contra “terrorismo doméstico” para tomar conta dos manifestantes. Na cidade de Anchorage, no Alaska, a “força antiterrorista” cuidava do Occupy Anchorage. Em Jackson, Michigan, as “forças unidas antiterroristas” criaram um “alerta para preparação antiterrorista”. Também lá, o FBI e o “Grupo de Segurança Bancária”, formado por múltiplos bancos privados, encontraram-se para discutir como seria a reação ao Dia Nacional de Ocupação dos Bancos Ruins. Em Virginia, o FBI enviou detalhes dos membros da ocupação para o centro de inteligência antiterrorista. O FBI de Memphis monitorou o Occupy Wall Street por sua ”central de informações” antiterrorista. E por aí vai, por mais de 100 páginas.
Jason Leopold, no site Truthout.org, reportou que o FBI falsamente afirmou a inexistência de documentos que ligassem a instituição à infiltração nos ocupas. Mas o lançamento pode ser estratégico: para um ativista que vê seus dados sendo enviados a forças antiterroristas e centrais de informação, sem mencionar os “planos de longo prazo” de alvejá-lo, o documento é muito intimidador.
A novidade é que a aliança entre o setor privado, o Departamento de Segurança Nacional e o FBI significa que uma enorme área de vulnerabilidade da sociedade civil – a renda e as finanças das pessoas – agora está nas mãos dos mesmos bancos cujo novo negócio é perseguir dissidências.
Por que o grande crescimento no apoio às “centrais de informação antiterrorista”, a militarização de departamentos de polícia por parte do Departamento de Segurança Nacional e assim por diante? Tudo isso nunca esteve relacionado a “terroristas”. Nem à própria inquietação social. Os investimentos se dão em função de momentos como o atual, em que vastos crimes podem ser descobertos por cidadãos comuns – eles se dão, por assim dizer, por causa de você.
(*) Tradução de André Cristi.
(*) A escritora e ativista política Naomi Wolf é autora do best-seller “The End of America” (O Fim da América) e, mais recentemente, “Give me Liberty: a handbook for american revolutionaries”(Dê-me Liberdade: um manual para revolucionários americanos). Sua grande obra, O Mito da Beleza, desafia a indústria de cosméticos e a propaganda de padrões de beleza irrealistas.
Os documentos foram requisitados pelo Fundo de Parceria pela Justiça Civil [PCJF, do original inglês] (por que entidades sem fins lucrativos são as únicas que ainda reportam o desrespeito às liberdades civis?). Eles mostram uma rede que coordena o Departamento de Segurança, o FBI, a polícia local e atividades do setor privado, tudo tão integrado que formou-se um só monstro: em alguns casos há até um nome próprio, Conselho da Aliança pela Segurança Doméstica”. Também revela-se que a entidade cumpre uma só missão, definida nacionalmente e planejada localmente. Numa palavra, os documentos revelam que policiais trabalham para os bancos e com os bancos, e o fazem alvejando, prendendo e incapacitando politicamente cidadãos norte-americanos pacíficos.
Revelados com muito atraso, na semana entre o Natal e o Ano Novo, os documentos mostram um plano que se desdobrava cidade a cidade de maneira orwelliana: seis universidades estadunidenses eram usadas pelo FBI como campos de coleta de informação sobre os estudantes envolvidos com o Occupy Wall Street, tudo feito com aprovação dos reitores; dirigentes de bancos sentaram-se com oficiais do FBI para acumular informações sobre os manifestantes do Occupy; planos de repressão a manifestações desenvolvidos pelo FBI foram oferecidos às organizações alvos de protestos; e até planos de ameaças de assassinato a líderes do Occupy Wall Street por atiradores - conduta contrária à do FBI, que costumeiramente informa e defende lideranças políticas de ameaças do tipo.
Como notou Mara Verheyden-Hilliard, diretora executiva do PCJF, os documentos mostram que o FBI, apesar de reconhecer o movimento Occupy como pacífico, descreve os manifestantes como “ameaça terrorista”:
“documentos do FBI obtidos pelo Fundo de Parceria pela Justiça Civil (...) revelam que o FBI tratou os ativistas de Occupy Wall Street como uma ameaça terrorista e potencialmente criminosa. O PCJF obteve documentos que relatam a atuação do FBI no caso desde agosto de 2011, um mês antes do estabelecimento do acampamento em Zuccotti Park.”
Verheyden-Hilliard aponta para a parceria entre bancos, a Bolsa de Valores de Nova Iorque, a Reserva Federal, o FBI e o Departamento de Segurança Nacional e chama essa conduta de “estatismo policial”:
“esta publicação [de documentos], que acreditamos ser somente a ponta do iceberg, é uma janela para a abrangência nacional do monitoramento pelo FBI dos manifestantes pacíficos organizados no movimento dos ocupas. Estes documentos também mostram as agências federais de segurança pública funcionando como um braço de Wall Street e das grandes corporações”.
Os documentos revelam um alcance impressionante: em Denver, Colorado, uma parte do FBI e um “Grupo de Trabalho contra Fraudes a Bancos” encontrou-se em novembro de 2011, durante as ocupações, para monitorar a ocupação. A Reserva Federal de Richmond, Virginia, tinha segurança privada vigiando o Occupy Tampa e repassava informações para o FBI local que, por sua vez, colocou a unidade contra “terrorismo doméstico” para tomar conta dos manifestantes. Na cidade de Anchorage, no Alaska, a “força antiterrorista” cuidava do Occupy Anchorage. Em Jackson, Michigan, as “forças unidas antiterroristas” criaram um “alerta para preparação antiterrorista”. Também lá, o FBI e o “Grupo de Segurança Bancária”, formado por múltiplos bancos privados, encontraram-se para discutir como seria a reação ao Dia Nacional de Ocupação dos Bancos Ruins. Em Virginia, o FBI enviou detalhes dos membros da ocupação para o centro de inteligência antiterrorista. O FBI de Memphis monitorou o Occupy Wall Street por sua ”central de informações” antiterrorista. E por aí vai, por mais de 100 páginas.
Jason Leopold, no site Truthout.org, reportou que o FBI falsamente afirmou a inexistência de documentos que ligassem a instituição à infiltração nos ocupas. Mas o lançamento pode ser estratégico: para um ativista que vê seus dados sendo enviados a forças antiterroristas e centrais de informação, sem mencionar os “planos de longo prazo” de alvejá-lo, o documento é muito intimidador.
A novidade é que a aliança entre o setor privado, o Departamento de Segurança Nacional e o FBI significa que uma enorme área de vulnerabilidade da sociedade civil – a renda e as finanças das pessoas – agora está nas mãos dos mesmos bancos cujo novo negócio é perseguir dissidências.
Por que o grande crescimento no apoio às “centrais de informação antiterrorista”, a militarização de departamentos de polícia por parte do Departamento de Segurança Nacional e assim por diante? Tudo isso nunca esteve relacionado a “terroristas”. Nem à própria inquietação social. Os investimentos se dão em função de momentos como o atual, em que vastos crimes podem ser descobertos por cidadãos comuns – eles se dão, por assim dizer, por causa de você.
(*) Tradução de André Cristi.
(*) A escritora e ativista política Naomi Wolf é autora do best-seller “The End of America” (O Fim da América) e, mais recentemente, “Give me Liberty: a handbook for american revolutionaries”(Dê-me Liberdade: um manual para revolucionários americanos). Sua grande obra, O Mito da Beleza, desafia a indústria de cosméticos e a propaganda de padrões de beleza irrealistas.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
sábado, 5 de janeiro de 2013
O retorno do zapatismo no México – por Eduardo Febbro
O retorno do zapatismo no México
Após um período de poucas intervenções, o subcomandante Marcos reapareceu com seu verbo e com ação para reinstalar o movimento zapatista no horizonte da agenda política do recém- eleito presidente Enrique Peña Nieto, cuja vitória marcou o retorno do Partido Revolucionário Institucional (PRI) ao poder. Em uma marcha realizada dia 21 de dezembro, da qual participaram cerca de 40 mil pessoas, Marcos divulgou um comunicado dizendo: "Escutaram? É o som de seu mundo desmoronando, é o do nosso ressurgindo".
Cidade do México – Dezembro é o mês dos levantes. Ao término de um largo período de poucas intervenções, o subcomandante Marcos reapareceu com sua prosa e com a ação para instalar o movimento zapatista no horizonte da agenda política do recém- eleito presidente Enrique Peña Nieto, cuja vitória marcou o retorno do Partido Revolucionário Institucional (PRI) ao poder, após 12 anos na oposição.
Já se passaram cerca de duas décadas desde que, logo após a meia noite de 31 de dezembro de 1993, o então presidente mexicano Carlos Salinas de Gortari ingressou no ano de 1994 com um brinde aguado: estava festejando o ano novo e a entrada em vigor do Tratado de Livre Comércio da América do Norte quando o ministro da Defesa da época o informou que um grupo armado acabava de tomar a localidade de San Cristóbal de las Casas e vários pontos de Chiapas, o Estado situado ao sul da península de Yucatã.
O Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) impôs-se na política mexicana junto a seu líder, o subcomandante Marcos. O subcomandante e os zapatistas romperam o modelo dos tradicionais grupos revolucionários latino-americanos: eram majoritariamente indígenas e seu discurso e suas demandas estavam distantes das entonações marxistas, desenhando uma exigência democrática para um México que ainda era governador ininterruptamente pelo PRI. Os combates daquele primeiro levante duraram quase duas semanas ao final das quais houve centenas de mortos. Salinas de Gortari decretou um cessar-fogo e o subcomandante Marcos ganhou a batalha, não com as armas, mas sim com as palavras.
Em um inesquecível comunicado dirigido à imprensa, Marcos respondeu ao suposto “perdão” oferecido pelo governo federal: Do que devemos pedir perdão? Do que vão nos perdoar? De não morrermos de fome? De não nos calarmos em nossa miséria? De não ter aceitado humildemente a gigantesca carga histórica de desprezo e abandono? De termos nos levantado em armas quando encontramos todos os outros caminhos fechados? De não termos observado o Código Penal de Chiapas, o mais absurdo e repressivo do qual se tem memória? De ter demonstrado ao resto do país e ao mundo inteiro que a dignidade humana ainda vive e está presente em seus habitantes mais empobrecidos? De termos nos preparado bem e de forma consciente antes de iniciar? De ter levado fuzis para o combate, no lugar de arcos e flechas. De ter aprendido a lutar antes de fazê-lo? De todos sermos mexicanos? De sermos majoritariamente indígenas? De chamar todo o povo mexicano a lutar de todas as formas possíveis em defesa do que lhes pertence? De lutar pela liberdade, democracia e justiça? De não seguir os padrões das guerrilhas anteriores? De não nos rendermos? De não nos vendermos? De não nos trairmos?
Denso, legítimo, inapagável. Transcorreram quase vinte anos, houve muitos mortos em Chiapas, repressão, matanças como as Acteal (com 45 indígenas assassinados), centenas de páginas da prosa literária com a qual o subcomandante Marcos seduziu o mundo, um enorme terremoto político no México e, sobretudo, o fim do mandato interrompido do PRI e a chegada ao poder de outra força política, o conservador Partido da Ação Nacional (PAN), que governou o México durante dois mandatos consecutivos: Vicente Fox (2000-2006) e Felipe Calderón (2006-2012).
O PRI retornou ao poder em dezembro de 2012, após seu candidato, Enrique Peña Nieto, ganhar as eleições presidenciais de julho do ano passado. E com o PRI voltou também o zapatismo, com a ação e a palavra. Após um longo período de recesso, o Exército Zapatista de Libertação Nacional irrompeu no espaço público em dois tempos: primeiro, no dia 21 de dezembro com uma mobilização silenciosa da qual participaram 40 mil pessoas com o rosto coberto com o gorro popularizado pelo subcomandante. Marcos divulgou um comunicado nesta marcha zapatista que percorreu várias comunidades dizendo: Escutaram? É o som de seu mundo desmoronando, e o do nosso ressurgindo. A marcha do dia 21 foi a maior mobilização protagonizada pelos zapatistas desde que pegaram em armas no dia 1º de janeiro de 1994.
A escolha da data não foi casual: coincidiu com o décimo-quinto aniversário do massacre de Acteal perpetrado por paramilitares e no qual morreram 45 indígenas, em sua grande maioria mulheres e crianças. O governo mexicano atribuiu à matança a um conflito étnico e condenou 20 indígenas. Após 11 anos de prisão, os acusados recuperaram a liberdade devido a irregularidades no processo.
O segundo tempo da instalação do zapatismo na agenda política foi assumido pelo subcomandante Marcos mediante duas cartas e um copioso comunicado nos quais, com sua verve habitual, entre crítico, poético e guerreiro, interpela e despedaça a classe política em seu conjunto, esquerda e direita, os meios de comunicação e o presidente Enrique Peña Nieto, a quem exige que cumpra com os acordos de San Andrés (Acordos de San Andrés sobre Direitos e Cultura Indígena firmados em 16 de fevereiro de 1996 pelo governo mexicano do presidente Ernesto Zedillo e pelo EZLN).
Estes textos que figuram nas cartas do Comitê Clandestino Revolucionário Indígena são os primeiros em extensão que, nos últimos dois anos, levam a assinatura do subcomandante Marcos. O líder mexicano anuncia uma série de ações cívicas e, desde o princípio, assinala o caminho que será seguido: “A nossa mensagem não é de resignação, não é de guerra, morte ou destruição. Nossa mensagem é de luta e de resistência”.
O subcomandante arremete contra o atual presidente, acusando-o de ter chegado ao poder mediante um “golpe midiático” e destaca que “estamos aqui presentes para que eles saibam que se eles nunca se forem, nós tampouco”. O insurgente zapatista não livrou ninguém: critica a esquerda de Manuel López Obrador, os governos passados e presentes e a imprensa por ter pretendido sentenciar a desaparição do zapatismo. “Nos atacaram militar, política, social e ideologicamente. Os grandes meios de comunicação tentaram fazer com que desaparecêssemos, com a calúnia servir e oportunista em um primeiro momento, com o silêncio e cumplicidade, depois”.
Marcos celebra o nível de vida que gozam os indígenas da região, muito superior, escreve, “ao das comunidades indígenas simpáticas aos governos de plantão, que recebem as esmolas e as gastam em álcool e artigos inúteis. Nossas casas melhoraram sem danificar a natureza, impondo a ela caminhos que lhe são alheios. Em nossas comunidades, a terra que antes era usada para engordar o gado de latifundiários, agora é para cultivar o milho, o feijão e as verduras que iluminam nossas mesas”.
Este comunicado constitui um aparato crítico e um programa de ação que compreende “iniciativas de caráter civil e pacífico”, uma tentativa de “construir as pontes necessárias na direção dos movimentos sociais que surgiram e surgirão”, e, sobretudo, a preservação irredutível de uma “distância crítica frente à classe política mexicana”. O subcomandante Marcos coloca o governo ante o desafio de demonstrar “se continua a estratégia desonesta de seu antecessor, que além de corrupto e mentiroso, tomou dinheiro do povo de Chiapas para o enriquecimento próprio e de seus cúmplices”. Sem piedade ante o novo Executivo, Marcos dedica extensos parágrafos a lembrar o passado de alguns membros do atual governo.
Com o PRI no poder o zapatismo voltou a ocupar espaço na agenda nacional como soube fazer com tanto êxito em anos anteriores. Os analistas, partidários e adversários de Marcos, estão divididos acerca da capacidade que o subcomandante ainda possui para mobilizar um país açoitado pela violência gerada por esse novo ator decisivo que é o narcotráfico.
Tradução: Katarina Peixoto
Já se passaram cerca de duas décadas desde que, logo após a meia noite de 31 de dezembro de 1993, o então presidente mexicano Carlos Salinas de Gortari ingressou no ano de 1994 com um brinde aguado: estava festejando o ano novo e a entrada em vigor do Tratado de Livre Comércio da América do Norte quando o ministro da Defesa da época o informou que um grupo armado acabava de tomar a localidade de San Cristóbal de las Casas e vários pontos de Chiapas, o Estado situado ao sul da península de Yucatã.
O Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) impôs-se na política mexicana junto a seu líder, o subcomandante Marcos. O subcomandante e os zapatistas romperam o modelo dos tradicionais grupos revolucionários latino-americanos: eram majoritariamente indígenas e seu discurso e suas demandas estavam distantes das entonações marxistas, desenhando uma exigência democrática para um México que ainda era governador ininterruptamente pelo PRI. Os combates daquele primeiro levante duraram quase duas semanas ao final das quais houve centenas de mortos. Salinas de Gortari decretou um cessar-fogo e o subcomandante Marcos ganhou a batalha, não com as armas, mas sim com as palavras.
Em um inesquecível comunicado dirigido à imprensa, Marcos respondeu ao suposto “perdão” oferecido pelo governo federal: Do que devemos pedir perdão? Do que vão nos perdoar? De não morrermos de fome? De não nos calarmos em nossa miséria? De não ter aceitado humildemente a gigantesca carga histórica de desprezo e abandono? De termos nos levantado em armas quando encontramos todos os outros caminhos fechados? De não termos observado o Código Penal de Chiapas, o mais absurdo e repressivo do qual se tem memória? De ter demonstrado ao resto do país e ao mundo inteiro que a dignidade humana ainda vive e está presente em seus habitantes mais empobrecidos? De termos nos preparado bem e de forma consciente antes de iniciar? De ter levado fuzis para o combate, no lugar de arcos e flechas. De ter aprendido a lutar antes de fazê-lo? De todos sermos mexicanos? De sermos majoritariamente indígenas? De chamar todo o povo mexicano a lutar de todas as formas possíveis em defesa do que lhes pertence? De lutar pela liberdade, democracia e justiça? De não seguir os padrões das guerrilhas anteriores? De não nos rendermos? De não nos vendermos? De não nos trairmos?
Denso, legítimo, inapagável. Transcorreram quase vinte anos, houve muitos mortos em Chiapas, repressão, matanças como as Acteal (com 45 indígenas assassinados), centenas de páginas da prosa literária com a qual o subcomandante Marcos seduziu o mundo, um enorme terremoto político no México e, sobretudo, o fim do mandato interrompido do PRI e a chegada ao poder de outra força política, o conservador Partido da Ação Nacional (PAN), que governou o México durante dois mandatos consecutivos: Vicente Fox (2000-2006) e Felipe Calderón (2006-2012).
O PRI retornou ao poder em dezembro de 2012, após seu candidato, Enrique Peña Nieto, ganhar as eleições presidenciais de julho do ano passado. E com o PRI voltou também o zapatismo, com a ação e a palavra. Após um longo período de recesso, o Exército Zapatista de Libertação Nacional irrompeu no espaço público em dois tempos: primeiro, no dia 21 de dezembro com uma mobilização silenciosa da qual participaram 40 mil pessoas com o rosto coberto com o gorro popularizado pelo subcomandante. Marcos divulgou um comunicado nesta marcha zapatista que percorreu várias comunidades dizendo: Escutaram? É o som de seu mundo desmoronando, e o do nosso ressurgindo. A marcha do dia 21 foi a maior mobilização protagonizada pelos zapatistas desde que pegaram em armas no dia 1º de janeiro de 1994.
A escolha da data não foi casual: coincidiu com o décimo-quinto aniversário do massacre de Acteal perpetrado por paramilitares e no qual morreram 45 indígenas, em sua grande maioria mulheres e crianças. O governo mexicano atribuiu à matança a um conflito étnico e condenou 20 indígenas. Após 11 anos de prisão, os acusados recuperaram a liberdade devido a irregularidades no processo.
O segundo tempo da instalação do zapatismo na agenda política foi assumido pelo subcomandante Marcos mediante duas cartas e um copioso comunicado nos quais, com sua verve habitual, entre crítico, poético e guerreiro, interpela e despedaça a classe política em seu conjunto, esquerda e direita, os meios de comunicação e o presidente Enrique Peña Nieto, a quem exige que cumpra com os acordos de San Andrés (Acordos de San Andrés sobre Direitos e Cultura Indígena firmados em 16 de fevereiro de 1996 pelo governo mexicano do presidente Ernesto Zedillo e pelo EZLN).
Estes textos que figuram nas cartas do Comitê Clandestino Revolucionário Indígena são os primeiros em extensão que, nos últimos dois anos, levam a assinatura do subcomandante Marcos. O líder mexicano anuncia uma série de ações cívicas e, desde o princípio, assinala o caminho que será seguido: “A nossa mensagem não é de resignação, não é de guerra, morte ou destruição. Nossa mensagem é de luta e de resistência”.
O subcomandante arremete contra o atual presidente, acusando-o de ter chegado ao poder mediante um “golpe midiático” e destaca que “estamos aqui presentes para que eles saibam que se eles nunca se forem, nós tampouco”. O insurgente zapatista não livrou ninguém: critica a esquerda de Manuel López Obrador, os governos passados e presentes e a imprensa por ter pretendido sentenciar a desaparição do zapatismo. “Nos atacaram militar, política, social e ideologicamente. Os grandes meios de comunicação tentaram fazer com que desaparecêssemos, com a calúnia servir e oportunista em um primeiro momento, com o silêncio e cumplicidade, depois”.
Marcos celebra o nível de vida que gozam os indígenas da região, muito superior, escreve, “ao das comunidades indígenas simpáticas aos governos de plantão, que recebem as esmolas e as gastam em álcool e artigos inúteis. Nossas casas melhoraram sem danificar a natureza, impondo a ela caminhos que lhe são alheios. Em nossas comunidades, a terra que antes era usada para engordar o gado de latifundiários, agora é para cultivar o milho, o feijão e as verduras que iluminam nossas mesas”.
Este comunicado constitui um aparato crítico e um programa de ação que compreende “iniciativas de caráter civil e pacífico”, uma tentativa de “construir as pontes necessárias na direção dos movimentos sociais que surgiram e surgirão”, e, sobretudo, a preservação irredutível de uma “distância crítica frente à classe política mexicana”. O subcomandante Marcos coloca o governo ante o desafio de demonstrar “se continua a estratégia desonesta de seu antecessor, que além de corrupto e mentiroso, tomou dinheiro do povo de Chiapas para o enriquecimento próprio e de seus cúmplices”. Sem piedade ante o novo Executivo, Marcos dedica extensos parágrafos a lembrar o passado de alguns membros do atual governo.
Com o PRI no poder o zapatismo voltou a ocupar espaço na agenda nacional como soube fazer com tanto êxito em anos anteriores. Os analistas, partidários e adversários de Marcos, estão divididos acerca da capacidade que o subcomandante ainda possui para mobilizar um país açoitado pela violência gerada por esse novo ator decisivo que é o narcotráfico.
Tradução: Katarina Peixoto
domingo, 30 de dezembro de 2012
Caso Latuff: A inversão ideológica; como fazer do ocupante uma vítima – por Luciana Garcia de Oliveira (*)
Caso Latuff: A inversão ideológica; como fazer do ocupante uma vítima
Um temor emerge por parte daqueles que fazem críticas contra o governo israelense: ser alvo da acusação de antissemitismo. A manipulação do conceito de antissemitismo comporta muitas armadilhas intelectuais e morais. Criticar Israel não significa negar o direito ao Estado, o direito à crítica é vital para todas as sociedades democráticas e, as sociedades que protegem esse direito têm mais chances de sobreviver do que as que negam.
Um breve resgate histórico sobre a formação do Oriente Médio, nos permite constatar que a fundação do Estado de Israel esta intimamente relacionado à muitos conflitos regionais. Porém desde a internacionalização do conflito Israel – Palestina decorrente da emergência do problema dos refugiados palestinos em 1948, o assunto passou a ser amplamente discutido nos meios jornalísticos, artísticos e acadêmicos no mundo inteiro.
A partir de então, entre tantos adversários da política israelense, muitos antissemitas confessos também passaram a configurar nessa mesma lista. Motivo pelo qual existem hoje a assimilação de toda crítica à Israel e de sua política à uma nova versão do antissemitismo. Mesmo sentimento pelo qual acarretou na ira de muitos deputados do Knesset (parlamento israelense), no momento em que o líder Yasser Arafat, à convite oficial do governo norte-americano, visitou o museu do Holocausto em Washington, em 1998. Cabe indagar, no entanto, o que teria acontecido se ele recusasse o convite?
Analisar a atual amplitude do termo antissemitismo requer antes de mais nada, eliminar qualquer confusão entre judaísmo e política israelense, distinguir entre crítica política e antissionismo e, sobretudo diferenciar antissemitismo e antissionismo. Essa confusão conceitual, propositadamente utilizada, teve início, muito provavelmente antes da segunda Intifada, no momento em que Ariel Sharon, de maneira provocativa visitou a Esplanada das Mesquitas/Monte do Templo em Jerusalém sob um forte esquema de segurança, às vistas de cerca de centenas de palestinos que estavam naquele local, a presença do primeiro ministro acarretaram violentos confrontos e muitas mortes, naquela ocasião.
Desde então um grupo de intelectuais da comunidade judaica – sionista, tem se dedicado à explorar politicamente a possibilidade dos desvios antissemitas a fim de angariar apoio em direção à política pró- israelense.
Se os atos discriminatórios aos judeus são intoleráveis, não é indiferente constatar que atualmente esses casos estejam intimamente ligados aos conflitos no Oriente Médio. Por outro lado, a suspeita de que os verdadeiros antissemitas se apropriam da causa palestina, não é considerado praticamente ilegítima.
Diante de todos esses fatores, um grande temor emerge por parte daqueles que estão dispostos à fazer críticas contra o governo israelense, sob pena de serem alvo de difamação, por intermédio da acusação de cometerem atos antissemita. De acordo com essa ideologia então predominante, o sionismo passa a ser sinônimo de Israel, ou seja, deixa de ser um movimento político e se torna o próprio Estado.
Os estragos causados por essa deformação são enormes, atingem desde a questão do véu islâmico, vai de encontro ao demasiado apoio à visão dos neoconservadores norte-americanos, até à obsessão securitária. Ao mesmo tempo, esses porta-vozes da comunidade judaica-sionista banalizam o antissemitismo e difamam centenas de judeus que rejeitam publicamente todas essas manipulações. De fato, quando a acusação de antissemitismo é sistematicamente utilizada para defender Israel à qualquer preço, inviabiliza, da mesma forma para que a eficácia dessas acusações recaiam de fato, naqueles que depredam as sinagogas ao redor do mundo, em conformidade à bandeira neonazista.
O sentimento antissemita, para esses autores, podem ser encontrado em todos os lados, mas principalmente na esquerda politica, dentro das comunidades árabes e islâmicas e, entre os judeus de esquerda. Esse inconveniente, acarreta no atual processo de transformação de toda a comunidade árabe, em um grande alvo de perseguições, ocupado no passado pela figura do judeu, de acordo com as palavras de Edward Said, em sua obra Orientalismo – O Oriente como uma invenção do Ocidente.
O antigo enredo da conspiração, a qual revelava a figura do judeu como o promotor de um empreendimento mundial desapareceu. Em seu lugar, emerge a representação simétrica com relação aos árabes e muçulmanos, na imagem dos grandes detentores das riquezas petrolíferas e do terrorismo suicida internacional.
Essa mesma imagem também foi explorada pelo comediante brasileiro, Marcelo Adnet, em um dos programas Comédia MTV, a qual de maneira irresponsável apresentou em formato de humor o que seria uma seleção dos melhores vídeo clips no Mundo Árabe e Islâmico. Adnet personifica um apresentador afegão, em um cenário deserto, com cavernas e vestido com uma roupa típica dos talebans e explora demasiadamente muitos esteriótipos árabes e islâmicos.
Um dos esteriótipos mais marcantes é a questão do ódio e da intolerância irracional nata por parte de todos os muçulmanos ao ocidente, simbolizada na referência irônica do apresentador ao sequestro dos jornalistas europeus no Afeganistão e no obsessivo projeto de destruição da cultura ocidental e norte-americana no mundo. Sobre esse aspecto, o muçulmano, representado por Adnet é apresentado como um sujeito ignorante, preconceituoso e violento, em um dos vídeos clipes apresentados, a sua esposa (encenada por um ator) usa uma burca preta, semelhante às utilizadas pelas mulheres na Arábia Saudita.
A violência contra a mulher muçulmana é apresentada de forma espontânea e generalizada, sobretudo quando o marido dela (no vídeo clipe) a ameaça com violência, diante da possibilidade de adultério. No mesmo instante em que a música estava sendo cantada pelo humorista, outro ator da mesma emissora realiza uma coreografia ao fundo, com um figurino jihadista e muitos explosivos ao redor do seu corpo, numa imagem que remete ao incurável fanatismo islâmico.
Além da prática de islamofobia (termo que denota aversão ao islã), o mesmo programa, de maneira debochada, apresentou em um dos “vídeos clipes premiados”, um palestino na Cisjordânia ocupada, representado por um funkeiro armado com duas metralhadoras, cuja a música retrata a banalização da violência contra os seus inimigos. A distorção das imagens utilizadas pelo programa juvenil e pelo humorista retrata o palestino de modo a ressaltar uma série de esteriótipos que vão muito além dos preceitos islamofóbicos. O palestino, o “Mc Mata” canta o funk É nois que tá, sob um refrão “Cisjordânia é nóis que tá”.
Ainda diante das graves conseqüências do emprego à islamofobia, muito recentemente, o embaixador norte-americano na Líbia, J. Christopher Stevens e três colegas de trabalho foram mortos na cidade de Benghazi, em um ataque de manifestantes salafistas (em sua maioria) ao escritório do consulado americano na cidade. O trágico ataque teria sido motivado por uma grande revolta gerada pelas informações contidas no filme Innocence of Muslims, produzido pelo americano-israelense Sam Bacile, as quais retratam o profeta Mohammed de modo caricato.
O auge da revolta no entanto, ocorreu após uma entrevista do diretor do filme ao Wall Street Journal, a qual declarou publicamente “que o Islã é um câncer”. O que de fato culminou para que as revoltas se espalhassem para outros países de maioria muçulmana, como o Egito. No Cairo, enquanto cerca de milhares de manifestantes protestavam em frente à embaixada dos Estados Unidos, alguns representantes da Fraternidade Muçulmana muito oportunamente puderam convocar novos protestos pacíficos contra o filme para a sexta-feira seguinte (dia sagrado na religião muçulmana).
A repercussão negativa da produção cinematográfica, ecoou, da mesma forma, dentro do grupo Taliban (no Afeganistão). Na quarta-feira (dia 12 de setembro), líderes talibans pediram à comunidade afegã para que se preparem para uma “guerra” contra os americanos e apelaram para que insurgentes “se vinguem” nos soldados norte-americanos ainda presentes no país.
Por esse lado, e afim de evitar tanta violência decorrente de distorções conceituais, todas as questões relativas ao sionismo, antissionismo, antissemitismo e islamofobia, deveriam ser formuladas no espaço público, de modo eqüitativo, de preferência dentro das Universidades, de acordo com o comprometimento dessas instituições na promoção ao debate político e acadêmico. Porém, muito diferentemente do papel que deveriam exercer, as Universidades, cada vez mais, têm sido palco de uma campanha de censura de informações e de difamação, capazes de distorcer qualquer trabalho artístico e acadêmico pró-palestino sob a acusação de práticas de antissemitismo.
Um dos principais alvos de difamação no Brasil, o cartunista Carlos Latuff, em algumas ocasiões teve o seu nome registrado em citações jornalistas e acadêmicas como um exemplo de artista antissemita, desde que começou a posicionar-se politicamente por meio de suas criações sobre a questão palestina, ao transmitir em seus desenhos à realidade dos territórios ocupados, a discriminação, a política de expansão dos assentamentos, o muro e muitos outros casos de desrespeito aos direitos humanos. Toda a campanha de difamação pessoal, atingiu o seu auge, sobretudo no momento em que participou de um concurso de cartoons sobre o Holocausto em Teerã (muito condenado internacionalmente). Cabe ressaltar que o evento iraniano foi criado em resposta à divulgação de alguns cartoons dinamarqueses sobre a imagem do profeta Mohammed, líder religioso da religião muçulmana.
Nessa altura, ao classificar-se em segundo lugar com um trabalho que retratava um palestino chorando diante de um muro erguido pelo governo de Israel, toda a polêmica do desenho, girou em torno do detalhe da roupa do palestino: um uniforme de prisioneiros dos campos de concentração nazista. A inevitável comparação do nazismo à política israelense nos territórios ocupados palestinos, rotulou à partir daí, todos os trabalhos do cartunista como sendo de natureza tendenciosa, antissemita e não comprometida com a promoção da paz.
Por outro lado, são ainda poucos o que conseguem de fato diferenciar os trabalhos preconceituosos dos trabalhos sérios, comprometidos com questões políticas e sociais relevantes. Ao tratarmos sobre os nomes citados, Marcelo Adnet, Sam Bacile e Carlos Latuff respectivamente, é bem possível constatar o uso apelativo dos dois primeiros aos estereótipos de modo à prejudicar a imagem da comunidade árabe, da mulher muçulmana, do anseios do povo palestino e da religião. Muito diferente dos desenhos de Carlos Latuff que, muito embora retratem de maneira crítica alguns integrantes do governo de Israel e de seu Exército, nunca o fazem de forma pejorativa e estereotipada, como eram feitos no passado, pelos publicitários do Reich alemão. Foi durante essa época que os judeus, de uma maneira geral, costumavam serem retratados na imagem do banqueiro explorador e mercenário, na figura do comunista perigoso e violento e suas feições geralmente ressaltavam o nariz e uma cartola mais extravagante do que o normal.
Aqui no Brasil, mesmo diante da gravidade das imagens retratadas nos programas humorísticos apresentados por Marcelo Adnet transmitido pelo canal MTV, o seu nome nunca esteve envolvido em quaisquer acusações de prática de discriminação de teor islamofóbico, qualificado como uma forma de racismo, de acordo com as palavras do secretario das Nações Unidos, Ban Ki-Moon, durante discurso proferido em uma Conferência Internacional contra o Racismo, em Genebra (Suiça). Muito diferente, dos prestigiados trabalhos do Latuff, que frequentemente são alvos de acusações por práticas de antissemitismo, sem qualquer tipo de critério.
A manipulação do conceito de antissemitismo comporta, nesse sentido, muitas armadilhas intelectuais e morais. Criticar Israel não significa negar o direito ao Estado, o direito à crítica é vital para todas as sociedades democráticas e, as sociedades que protegem esse direito têm mais chances de sobreviver do que as que negam.
(*) Integrante do Grupo de Trabalho sobre o Oriente Médio e o Mundo Muçulmano do Laboratório de Estudos sobre a Ásia da Universidade de São Paulo (LEA-USP).
A partir de então, entre tantos adversários da política israelense, muitos antissemitas confessos também passaram a configurar nessa mesma lista. Motivo pelo qual existem hoje a assimilação de toda crítica à Israel e de sua política à uma nova versão do antissemitismo. Mesmo sentimento pelo qual acarretou na ira de muitos deputados do Knesset (parlamento israelense), no momento em que o líder Yasser Arafat, à convite oficial do governo norte-americano, visitou o museu do Holocausto em Washington, em 1998. Cabe indagar, no entanto, o que teria acontecido se ele recusasse o convite?
Analisar a atual amplitude do termo antissemitismo requer antes de mais nada, eliminar qualquer confusão entre judaísmo e política israelense, distinguir entre crítica política e antissionismo e, sobretudo diferenciar antissemitismo e antissionismo. Essa confusão conceitual, propositadamente utilizada, teve início, muito provavelmente antes da segunda Intifada, no momento em que Ariel Sharon, de maneira provocativa visitou a Esplanada das Mesquitas/Monte do Templo em Jerusalém sob um forte esquema de segurança, às vistas de cerca de centenas de palestinos que estavam naquele local, a presença do primeiro ministro acarretaram violentos confrontos e muitas mortes, naquela ocasião.
Desde então um grupo de intelectuais da comunidade judaica – sionista, tem se dedicado à explorar politicamente a possibilidade dos desvios antissemitas a fim de angariar apoio em direção à política pró- israelense.
Se os atos discriminatórios aos judeus são intoleráveis, não é indiferente constatar que atualmente esses casos estejam intimamente ligados aos conflitos no Oriente Médio. Por outro lado, a suspeita de que os verdadeiros antissemitas se apropriam da causa palestina, não é considerado praticamente ilegítima.
Diante de todos esses fatores, um grande temor emerge por parte daqueles que estão dispostos à fazer críticas contra o governo israelense, sob pena de serem alvo de difamação, por intermédio da acusação de cometerem atos antissemita. De acordo com essa ideologia então predominante, o sionismo passa a ser sinônimo de Israel, ou seja, deixa de ser um movimento político e se torna o próprio Estado.
Os estragos causados por essa deformação são enormes, atingem desde a questão do véu islâmico, vai de encontro ao demasiado apoio à visão dos neoconservadores norte-americanos, até à obsessão securitária. Ao mesmo tempo, esses porta-vozes da comunidade judaica-sionista banalizam o antissemitismo e difamam centenas de judeus que rejeitam publicamente todas essas manipulações. De fato, quando a acusação de antissemitismo é sistematicamente utilizada para defender Israel à qualquer preço, inviabiliza, da mesma forma para que a eficácia dessas acusações recaiam de fato, naqueles que depredam as sinagogas ao redor do mundo, em conformidade à bandeira neonazista.
O sentimento antissemita, para esses autores, podem ser encontrado em todos os lados, mas principalmente na esquerda politica, dentro das comunidades árabes e islâmicas e, entre os judeus de esquerda. Esse inconveniente, acarreta no atual processo de transformação de toda a comunidade árabe, em um grande alvo de perseguições, ocupado no passado pela figura do judeu, de acordo com as palavras de Edward Said, em sua obra Orientalismo – O Oriente como uma invenção do Ocidente.
O antigo enredo da conspiração, a qual revelava a figura do judeu como o promotor de um empreendimento mundial desapareceu. Em seu lugar, emerge a representação simétrica com relação aos árabes e muçulmanos, na imagem dos grandes detentores das riquezas petrolíferas e do terrorismo suicida internacional.
Essa mesma imagem também foi explorada pelo comediante brasileiro, Marcelo Adnet, em um dos programas Comédia MTV, a qual de maneira irresponsável apresentou em formato de humor o que seria uma seleção dos melhores vídeo clips no Mundo Árabe e Islâmico. Adnet personifica um apresentador afegão, em um cenário deserto, com cavernas e vestido com uma roupa típica dos talebans e explora demasiadamente muitos esteriótipos árabes e islâmicos.
Um dos esteriótipos mais marcantes é a questão do ódio e da intolerância irracional nata por parte de todos os muçulmanos ao ocidente, simbolizada na referência irônica do apresentador ao sequestro dos jornalistas europeus no Afeganistão e no obsessivo projeto de destruição da cultura ocidental e norte-americana no mundo. Sobre esse aspecto, o muçulmano, representado por Adnet é apresentado como um sujeito ignorante, preconceituoso e violento, em um dos vídeos clipes apresentados, a sua esposa (encenada por um ator) usa uma burca preta, semelhante às utilizadas pelas mulheres na Arábia Saudita.
A violência contra a mulher muçulmana é apresentada de forma espontânea e generalizada, sobretudo quando o marido dela (no vídeo clipe) a ameaça com violência, diante da possibilidade de adultério. No mesmo instante em que a música estava sendo cantada pelo humorista, outro ator da mesma emissora realiza uma coreografia ao fundo, com um figurino jihadista e muitos explosivos ao redor do seu corpo, numa imagem que remete ao incurável fanatismo islâmico.
Além da prática de islamofobia (termo que denota aversão ao islã), o mesmo programa, de maneira debochada, apresentou em um dos “vídeos clipes premiados”, um palestino na Cisjordânia ocupada, representado por um funkeiro armado com duas metralhadoras, cuja a música retrata a banalização da violência contra os seus inimigos. A distorção das imagens utilizadas pelo programa juvenil e pelo humorista retrata o palestino de modo a ressaltar uma série de esteriótipos que vão muito além dos preceitos islamofóbicos. O palestino, o “Mc Mata” canta o funk É nois que tá, sob um refrão “Cisjordânia é nóis que tá”.
Ainda diante das graves conseqüências do emprego à islamofobia, muito recentemente, o embaixador norte-americano na Líbia, J. Christopher Stevens e três colegas de trabalho foram mortos na cidade de Benghazi, em um ataque de manifestantes salafistas (em sua maioria) ao escritório do consulado americano na cidade. O trágico ataque teria sido motivado por uma grande revolta gerada pelas informações contidas no filme Innocence of Muslims, produzido pelo americano-israelense Sam Bacile, as quais retratam o profeta Mohammed de modo caricato.
O auge da revolta no entanto, ocorreu após uma entrevista do diretor do filme ao Wall Street Journal, a qual declarou publicamente “que o Islã é um câncer”. O que de fato culminou para que as revoltas se espalhassem para outros países de maioria muçulmana, como o Egito. No Cairo, enquanto cerca de milhares de manifestantes protestavam em frente à embaixada dos Estados Unidos, alguns representantes da Fraternidade Muçulmana muito oportunamente puderam convocar novos protestos pacíficos contra o filme para a sexta-feira seguinte (dia sagrado na religião muçulmana).
A repercussão negativa da produção cinematográfica, ecoou, da mesma forma, dentro do grupo Taliban (no Afeganistão). Na quarta-feira (dia 12 de setembro), líderes talibans pediram à comunidade afegã para que se preparem para uma “guerra” contra os americanos e apelaram para que insurgentes “se vinguem” nos soldados norte-americanos ainda presentes no país.
Por esse lado, e afim de evitar tanta violência decorrente de distorções conceituais, todas as questões relativas ao sionismo, antissionismo, antissemitismo e islamofobia, deveriam ser formuladas no espaço público, de modo eqüitativo, de preferência dentro das Universidades, de acordo com o comprometimento dessas instituições na promoção ao debate político e acadêmico. Porém, muito diferentemente do papel que deveriam exercer, as Universidades, cada vez mais, têm sido palco de uma campanha de censura de informações e de difamação, capazes de distorcer qualquer trabalho artístico e acadêmico pró-palestino sob a acusação de práticas de antissemitismo.
Um dos principais alvos de difamação no Brasil, o cartunista Carlos Latuff, em algumas ocasiões teve o seu nome registrado em citações jornalistas e acadêmicas como um exemplo de artista antissemita, desde que começou a posicionar-se politicamente por meio de suas criações sobre a questão palestina, ao transmitir em seus desenhos à realidade dos territórios ocupados, a discriminação, a política de expansão dos assentamentos, o muro e muitos outros casos de desrespeito aos direitos humanos. Toda a campanha de difamação pessoal, atingiu o seu auge, sobretudo no momento em que participou de um concurso de cartoons sobre o Holocausto em Teerã (muito condenado internacionalmente). Cabe ressaltar que o evento iraniano foi criado em resposta à divulgação de alguns cartoons dinamarqueses sobre a imagem do profeta Mohammed, líder religioso da religião muçulmana.
Nessa altura, ao classificar-se em segundo lugar com um trabalho que retratava um palestino chorando diante de um muro erguido pelo governo de Israel, toda a polêmica do desenho, girou em torno do detalhe da roupa do palestino: um uniforme de prisioneiros dos campos de concentração nazista. A inevitável comparação do nazismo à política israelense nos territórios ocupados palestinos, rotulou à partir daí, todos os trabalhos do cartunista como sendo de natureza tendenciosa, antissemita e não comprometida com a promoção da paz.
Por outro lado, são ainda poucos o que conseguem de fato diferenciar os trabalhos preconceituosos dos trabalhos sérios, comprometidos com questões políticas e sociais relevantes. Ao tratarmos sobre os nomes citados, Marcelo Adnet, Sam Bacile e Carlos Latuff respectivamente, é bem possível constatar o uso apelativo dos dois primeiros aos estereótipos de modo à prejudicar a imagem da comunidade árabe, da mulher muçulmana, do anseios do povo palestino e da religião. Muito diferente dos desenhos de Carlos Latuff que, muito embora retratem de maneira crítica alguns integrantes do governo de Israel e de seu Exército, nunca o fazem de forma pejorativa e estereotipada, como eram feitos no passado, pelos publicitários do Reich alemão. Foi durante essa época que os judeus, de uma maneira geral, costumavam serem retratados na imagem do banqueiro explorador e mercenário, na figura do comunista perigoso e violento e suas feições geralmente ressaltavam o nariz e uma cartola mais extravagante do que o normal.
Aqui no Brasil, mesmo diante da gravidade das imagens retratadas nos programas humorísticos apresentados por Marcelo Adnet transmitido pelo canal MTV, o seu nome nunca esteve envolvido em quaisquer acusações de prática de discriminação de teor islamofóbico, qualificado como uma forma de racismo, de acordo com as palavras do secretario das Nações Unidos, Ban Ki-Moon, durante discurso proferido em uma Conferência Internacional contra o Racismo, em Genebra (Suiça). Muito diferente, dos prestigiados trabalhos do Latuff, que frequentemente são alvos de acusações por práticas de antissemitismo, sem qualquer tipo de critério.
A manipulação do conceito de antissemitismo comporta, nesse sentido, muitas armadilhas intelectuais e morais. Criticar Israel não significa negar o direito ao Estado, o direito à crítica é vital para todas as sociedades democráticas e, as sociedades que protegem esse direito têm mais chances de sobreviver do que as que negam.
(*) Integrante do Grupo de Trabalho sobre o Oriente Médio e o Mundo Muçulmano do Laboratório de Estudos sobre a Ásia da Universidade de São Paulo (LEA-USP).
sábado, 29 de dezembro de 2012
"Governo israelense não representa o povo judeu", diz cartunista listado como antissemita - por Marina Mattar
"Governo israelense não representa o povo judeu", diz cartunista listado como antissemita
A organização Simon Wiesenthal divulgou nesta quinta-feira (27/12) sua edição anual do ranking dos “10 maiores antissemitas” ao redor do mundo. O cartunista brasileiro e colaborador do Opera Mundi Carlos Latuff aparece na terceira posição na lista de 2012 por conta de suas charges críticas à operação Pilar Defensivo, mais recente investida militar israelense na Faixa de Gaza.
"Crítica ou mesmo ataque a entidade política chamada Israel não é ódio aos judeus porque o governo israelense não representa o povo judeu, assim como nenhum governo representa a totalidade de seu povo”, escreveu ele em nota (veja a íntegra abaixo).
"Crítica ou mesmo ataque a entidade política chamada Israel não é ódio aos judeus porque o governo israelense não representa o povo judeu, assim como nenhum governo representa a totalidade de seu povo”, escreveu ele em nota (veja a íntegra abaixo).
Latuff diz que o lobby pró-Israel tenta associar questionamentos ao Estado de Israel com o sentimento antijudaico para criminalizar a manifestação de posturas críticas e confundir a opinião pública: “Nenhuma campanha de difamação vai fazer com que eu abra mão da minha solidariedade com o povo palestino”.
Conhecido internacionalmente por suas charges, o artista se aproximou da luta palestina no final dos anos 1990 quando viajou para o país e, desde então, imprime críticas à política israelense.
Conhecido internacionalmente por suas charges, o artista se aproximou da luta palestina no final dos anos 1990 quando viajou para o país e, desde então, imprime críticas à política israelense.
Abaixo da Irmandade Muçulmana do Egito e do líder iraniano Mahmoud Ahmadinejad, o artista brasileiro aparece em terceiro na lista, na frente de torcidas organizadas e partidos políticos neonazistas no ranking, que incluiu também o jornalista e editor alemão Jakob Augstein.
“Durante os conflitos recentes instigados pelo Hamas contra o Estado judaico, o brasileiro criticou Israel e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu por fazer o que qualquer outro líder mundial teria feito para proteger civis inocentes”, afirma o texto da organização.
A menção a Latuff é ilustrada por uma charge (veja ao lado) na qual o premiê aparece torcendo o corpo de uma criança palestina em cima de uma urna. A imagem faz referência às possíveis motivações políticas de Netanyahu, em plena campanha para a eleição legislativa marcada para 22 de janeiro, no ataque ao território palestino em novembro deste ano. A charge, no entanto, não tem nenhuma menção à religião judaica.
O desenho já havia sido criticado publicamente pelo rabino Marvin Hiers, fundador do Centro Simon Wiesenthal, quando foi divulgado pelo site norte-americano Huffington Post no mês passado. O ativista judeu acusou Latuff de “pior que antissemita” e pediu que o site retirasse a charge do ar.
“Estou no caminho certo”
O artista, que classificou sua colocação no ranking de “piada digna de filme de Woody Allen”, disse ao Opera Mundi se sentir “motivado” pelas críticas do centro judaico. “Se organizações do lobby pró-Israel estão incomodadas com minhas charges, é porque estou no caminho certo”, afirmou ele.
Ele lembra que o escritor português José Saramago, o ativista sul-africano Desmond Tutu e o ex-presidente norte-americano Jimmy Carter, e muitos outros também sofreram com esse tipo de acusações: “Estou em boa companhia”.
Leia a nota do cartunista em resposta ao Instituto Simon Wiesenthal na íntegra.
A menção a Latuff é ilustrada por uma charge (veja ao lado) na qual o premiê aparece torcendo o corpo de uma criança palestina em cima de uma urna. A imagem faz referência às possíveis motivações políticas de Netanyahu, em plena campanha para a eleição legislativa marcada para 22 de janeiro, no ataque ao território palestino em novembro deste ano. A charge, no entanto, não tem nenhuma menção à religião judaica.
O desenho já havia sido criticado publicamente pelo rabino Marvin Hiers, fundador do Centro Simon Wiesenthal, quando foi divulgado pelo site norte-americano Huffington Post no mês passado. O ativista judeu acusou Latuff de “pior que antissemita” e pediu que o site retirasse a charge do ar.
“Estou no caminho certo”
O artista, que classificou sua colocação no ranking de “piada digna de filme de Woody Allen”, disse ao Opera Mundi se sentir “motivado” pelas críticas do centro judaico. “Se organizações do lobby pró-Israel estão incomodadas com minhas charges, é porque estou no caminho certo”, afirmou ele.
Ele lembra que o escritor português José Saramago, o ativista sul-africano Desmond Tutu e o ex-presidente norte-americano Jimmy Carter, e muitos outros também sofreram com esse tipo de acusações: “Estou em boa companhia”.
Leia a nota do cartunista em resposta ao Instituto Simon Wiesenthal na íntegra.
"Recebo com tranquilidade a citação de meu nome numa lista dos '10 mais antissemitas' pelo Centro Simon Wiesenthal. A organização, que leva o nome de um célebre caçador de nazistas, sob o argumento da proteção aos direitos humanos e combate ao antissemitismo, promove a agenda da política israelense.
A minha charge que acompanha o relatório mostra o primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu tirando proveito eleitoral dos recentes bombardeios a faixa de Gaza (o ataque foi realizado a 2 meses das eleições em Israel). Em novembro desse ano, o rabino Marvin Hiers, fundador do Centro Simon Wiesenthal, me acusou publicamente na Internet de ser "pior que antissemita" por fazer tal crítica através do desenho.
Não é por acaso que meu nome foi citado junto com o de diversos extremistas e racistas. É uma estratégia do lobby pró-Israel associar de maneira maliciosa críticas ao estado de Israel com ódio racial/religioso, numa tentativa de criminalizar a dissidência.
Crítica ou mesmo ataque a entidade política chamada Israel não é ódio aos judeus porque o governo israelense NÃO representa o povo judeu, assim como nenhum governo representa a totalidade de seu povo. Essa não foi a primeira e nem será a última vez que tal incidente acontece, e por entender que tais acusações são orquestradas por quem apoia a colonização da Palestina, seguirei com minha solidariedade ao povo palestino."
A minha charge que acompanha o relatório mostra o primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu tirando proveito eleitoral dos recentes bombardeios a faixa de Gaza (o ataque foi realizado a 2 meses das eleições em Israel). Em novembro desse ano, o rabino Marvin Hiers, fundador do Centro Simon Wiesenthal, me acusou publicamente na Internet de ser "pior que antissemita" por fazer tal crítica através do desenho.
Não é por acaso que meu nome foi citado junto com o de diversos extremistas e racistas. É uma estratégia do lobby pró-Israel associar de maneira maliciosa críticas ao estado de Israel com ódio racial/religioso, numa tentativa de criminalizar a dissidência.
Crítica ou mesmo ataque a entidade política chamada Israel não é ódio aos judeus porque o governo israelense NÃO representa o povo judeu, assim como nenhum governo representa a totalidade de seu povo. Essa não foi a primeira e nem será a última vez que tal incidente acontece, e por entender que tais acusações são orquestradas por quem apoia a colonização da Palestina, seguirei com minha solidariedade ao povo palestino."
Fonte: http://operamundi.uol.com.br/
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
Michael Löwy: "Sem indignação, nada de grande e significativo ocorre na história humana" - Fundação Oswaldo Cruz
Michael Löwy: "Sem indignação, nada de grande e significativo ocorre na história humana"
Nesta entrevista à Fundação Oswaldo Cruz, o investigador do Centre National de la Recherce Scientifique (CNRS) diz que a dinâmica de movimentos como o dos “Indignados” é de uma crescente radicalização anticapitalista, embora nem sempre de forma consciente. Michael Löwy esteve no Brasil em dezembro para lançar ‘A teoria da revolução no jovem Marx', publicado em 1970 na França e que só agora ganha edição em português.
Michael Löwy esteve no Brasil no final de 2012 para lançar o livro ‘A teoria da revolução no jovem Marx', que foi publicado em 1970 na França e só agora tem uma edição em português.
Durante a sua estada no país, participou de muitos eventos e falou sobre temas diversos, como literatura e a questão ecológica. Nada que surpreenda no perfil de um pesquisador que circula com desenvoltura entre o estudo dos clássicos e a análise da conjuntura atual, e isso sem abrir mão da militância política de esquerda. Nesta entrevista, ele lança mão dos conceitos que aprendeu com os clássicos – principalmente Marx e Walter Benjamin – para discutir a crise que o capitalismo atravessa e os movimentos reivindicatórios que têm surgido em diferentes cantos do mundo. Além disso, explica os princípios e limitações da ideia de ‘ecossocialismo', com a propriedade de ter sido um dos autores do Manifesto que defende essa bandeira.
Brasileiro residente na França desde 1969, Löwy é diretor de pesquisas do Centre National de la Recherce Scientifique (CNRS) e responsável por um seminário na Écoles de Hautes Études en Sciences Sociales. Só em português, é autor de mais de 20 livros.
Como a teoria da revolução do jovem Marx, de que trata o seu livro, nos ajuda a entender o momento atual, com mobilizações de indignados no Estado espanhol, Grécia e vários outros países da Europa, além de movimentos de ‘ocupação' em vários locais do mundo? Esses são movimentos anticapitalistas?
Os movimentos de ‘Indignados' opõem-se às políticas ditadas pelo capital financeiro, pela oligarquia dos bancos e aplicadas por governos de corte neoliberal, cujo principal objetivo é fazer com que os trabalhadores, os pobres, a juventude, as mulheres, os pensionistas e aposentados – isto é, 99% da população – paguem a conta pela crise do capitalismo. Esta indignação é fundamental. Sem indignação, nada de grande e de significativo ocorre na história humana. A dinâmica destes movimentos é de uma crescente radicalização anticapitalista, embora nem sempre de forma consciente. É no curso de sua ação coletiva, de sua prática subversiva, que estes movimentos poderão tomar um caráter radical e emancipador. É o que explicava Marx na sua teoria da revolução, inspirada pela filosofia da práxis.
Marx escreveu no século XIX. As revoluções socialistas a que assistimos aconteceram no século 20. O que a realidade trouxe de diferente na forma como se concretizaram e na forma como se entende revolução nos séculos 19, 20 e 21?
As revoluções sempre tomam formas imprevistas, inovadoras, originais. Nenhuma se assemelha às anteriores. A Comuna de Paris (1871) foi um formidável levante da população trabalhadora da grande cidade e a Revolução Russa foi uma convergência explosiva entre proletariado urbano e massas camponesas. Nas demais revoluções do século 20, desde a Mexicana de 1911 até a Cubana de 1959, ou nas revoluções asiáticas (China, Vietname), foram os camponeses o principal sujeito do processo revolucionário. Não podemos prever como serão as revoluções do século 21: sem dúvida, não repetirão as experiências do passado. Por outro lado, existe o que Walter Benjamin chamava de ‘a tradição dos oprimidos': a experiência da Comuna de Paris inspirou a Revolução Russa e é ainda até hoje um exemplo de autoemancipação revolucionária das classes subalternas.
Com a crise capitalista de 2008 e o movimento de intervenção dos Estados para salvar a economia dos países, acreditou-se que a era neoliberal havia chegado ao fim. No entanto, tem sido intensificada cada vez mais a destruição dos direitos conquistados com o Estado de Bem-Estar Social, como temos visto acontecer na Europa (França, agora Espanha...). O que isso significa?
A intervenção dos Estados não significou de forma alguma o fim do neoliberalismo. O único objetivo desta intervenção era salvar os bancos, resgatar a dívida e assegurar os interesses dos mercados financeiros. Para este objetivo, foram sacrificadas conquistas de dezenas de anos de lutas dos trabalhadores: direitos sociais, serviços públicos, pensões e aposentadorias, etc. Para a lógica de chumbo do capitalismo neoliberal, tudo isto são ‘despesas inúteis'.
Um debate antigo da esquerda é sobre a relação entre revolução e reforma. O contexto do final do século 20 e do início do século 21, com situações como, por exemplo, a vitória eleitoral de partidos de esquerda na América Latina e mesmo em alguns países da Europa recolocam essa questão. Como analisa essa relação hoje?
Rosa Luxemburgo já havia explicado, em seu belo livro ‘Reforma ou Revolução?' (1899), que os marxistas não são contra as reformas; pelo contrário, apoiam qualquer reforma que seja favorável aos interesses dos trabalhadores: salário mínimo, seguro médico, seguro desemprego, por exemplo. Simplesmente, lembrava ela, não podemos chegar ao socialismo pela acumulação gradual de reformas; só uma ação revolucionária, que derruba o muro de pedra do poder político da burguesia, pode iniciar uma transição ao socialismo. O problema da maioria dos governos de centro-esquerda, seja na Europa ou na América Latina, é que as ‘reformas' que aplicam são muitas vezes de corte neoliberal: privatizações, regressões no estatuto dos pensionistas, etc. Tratam-se de variantes do social-liberalismo, que aceitam o quadro económico capitalista mas, contrariamente ao neoliberalismo reacionário, têm algumas preocupações sociais. É o caso dos governos Lula-Dilma no Brasil. Temo que no caso da França (François Hollande, recentemente eleito), nem a isto chegue...
Um desafio dessa esquerda que chegou ao poder na América Latina tem sido equacionar a dependência econômica da exploração de recursos naturais (como o petróleo na Venezuela e o gás natural na Bolívia) com a tentativa de superação da lógica capitalista de destruição do meio ambiente. Na sua opinião, essa equação é possível?
Contrariamente aos governos social-liberais, os da Venezuela, Bolívia e Equador têm levado adiante uma verdadeira rutura com o neoliberalismo, enfrentando as oligarquias locais e o imperialismo. Mas dependem, para a sua sobrevivência económica, e para financiar os seus programas sociais, da exploração de energias fósseis – petróleo, gás –, que são os principais responsáveis pelo desastre ecológico que ameaça o futuro da humanidade.
É difícil exigir destes governos que deixem de explorar estes recursos naturais, mas eles poderiam utilizar uma parte do rendimento do petróleo para desenvolver energias sustentáveis – o que fazem muito pouco. Uma iniciativa interessante é o projeto ‘Parque Yasuni', do Equador, proposta dos movimentos indígenas e dos ecologistas assumida, após algumas hesitações, pelo governo de Rafael Correa. Trata-se de preservar uma vasta região de florestas tropicais, deixando o petróleo embaixo da terra, mas exigindo, ao mesmo tempo, que os países ricos paguem metade do valor (9 bilhões de dólares) deste petróleo. Até agora, não houve iniciativas comparáveis na Venezuela ou na Bolívia.
A crítica à destruição do meio ambiente como intrínseca ao capitalismo já estava presente na obra de Marx?
Muitos ecologistas criticam Marx por considerá-lo um produtivista, tanto quanto os capitalistas. Tal crítica parece-me completamente equivocada: ao fazer a crítica do fetichismo da mercadoria, é justamente Marx quem coloca a crítica mais radical à lógica produtivista do capitalismo, à ideia de que a produção de mais e mais mercadorias é o objetivo fundamental da economia e da sociedade. O objetivo do socialismo, explica Marx, não é produzir uma quantidade infinita de bens, mas sim reduzir a jornada de trabalho, dar ao trabalhador tempo livre para participar da vida política, estudar, jogar, amar.
Portanto, Marx fornece as armas para uma crítica radical do produtivismo e, notadamente, do produtivismo capitalista. No primeiro volume de O Capital, Marx explica como o capitalismo esgota não só as energias do trabalhador, mas também as próprias forças da Terra, esgotando as riquezas naturais, destruindo o próprio planeta. Assim, essa perspetiva, essa sensibilidade está presente nos escritos de Marx, embora não tenha sido suficientemente desenvolvida.
O Manifesto Ecossocialista, que o sr. ajudou a escrever em 2001, diz que o capitalismo não é capaz de resolver a crise ecológica que ele produz. Como o sr. analisa as soluções a esse problema que vêm sendo apresentadas pelo capitalismo, como é o caso da economia verde?
A assim chamada ‘economia verde', propagada por governos e instituições internacionais (Banco Mundial, etc), não é outra coisa senão uma economia capitalista de mercado que busca traduzir em termos de lucro e rentabilidade algumas propostas técnicas ‘verdes' bastante limitadas.
Claro, tanto melhor se alguma empresa trata de desenvolver a energia eólica ou fotovoltaica, mas isto não trará modificações substanciais se não for acompanhado de drásticas reduções no consumo das energias fósseis.
Mas nada disto é possível sem romper com a lógica de competição mercantil e rentabilidade do capital. Outras propostas ‘técnicas' são bem piores: por exemplo, os famigerados ‘biocombustíveis' que, como bem diz Frei Betto, deveriam ser chamados de ‘necrocombustíveis', pois tratam de utilizar os solos férteis para produzir uma pseudogasolina ‘verde', para encher os tanques dos carros – em vez de comida para encher o estômago dos famintos da terra.
É possível implementar uma perspetiva como a do ecossocialismo no capitalismo?
O ecossocialismo é anticapitalista por excelência. Como perspectiva, implica a superação do capitalismo, já que se propõe como uma alternativa radical à civilização capitalista/industrial ocidental moderna. Por outro lado, a luta pelo ecossocialismo começa aqui e agora, na convergência entre lutas sociais e ecológicas, no desenvolvimento de ações coletivas em defesa do meio ambiente e dos bens comuns. É através destas experiências de luta, de auto-organizaçâo, que se desenvolverá a consciência socialista e ecológica.
A perspectiva ecossocialista pressupõe uma crítica à noção de progresso. Em que consiste essa crítica?
Walter Benjamin insistia, com razão, que o marxismo precisa libertar-se da ideologia burguesa do progresso, que contaminou a cultura de amplos setores da esquerda. Trata-se de uma visão da história como processo linear, de avanços, levando, necessariamente, à democracia, ao socialismo.
Estes avanços teriam sua base material no desenvolvimento das forças produtivas, nas conquistas da ciência e da técnica. Em rutura com esta visão – pouco compatível com a história do século 20, de guerras imperialistas, fascismo, massacres, bombas atómicas –, precisamos de uma visão radicalmente distinta do progresso humano, que não se mede pelo PIB [Produto Interno Bruto], pela produtividade ou pela quantidade de mercadorias vendidas e compradas, mas sim pela liberdade humana, pela possibilidade, para os individuos, de realizarem suas potencialidades; uma visão para a qual o progresso não é a quantidade de bens consumidos, mas a qualidade de vida, o tempo livre - para a cultura, o ócio, o desporto, o amor, a democracia - e uma nova relação com a natureza. Para o ecossocialismo, a emancipaçâo humana não é uma ‘lei da história', mas uma possibilidade objetiva.
Quais as principais diferenças entre o ecossocialismo e a forma como o socialismo real lidou com os problemas ambientais? E a socialdemocracia, conseguiu construir alternativas a essa lógica destrutiva do capital?
O assim chamado ‘socialismo real' - muito real, mas pouco socialista - que se instalou na URSS sob a ditadura burocrática de Stalin e seus sucessores tratou de imitar o produtivismo capitalista, com resultados ambientais desastrosos, tão negativos quanto os equivalentes no Ocidente. O mesmo vale para os outros países da Europa Oriental e para a China. As intuições ecológicas de Marx foram ignoradas e se levou a cabo uma forma de industrialização forçada, copiando os métodos do capitalismo. A social-democracia é um outro exemplo negativo: nem tentou questionar o sistema capitalista, limitando-se a uma gestão mais ‘social' de seu funcionamento.
Mesmo nos países em que governou em aliança com os partidos verdes, a social-democracia não foi capaz de tomar nenhuma medida ecológica radical. O ecossocialismo corresponde ao projeto de um socialismo do século 21, que se distingue dos modelos que fracassaram no curso do século 20. Ele implica uma rutura com o modelo de civilização capitalista e propõe uma visão radicalmente democrática da planificação socialista e ecológica.
Durante a sua estada no país, participou de muitos eventos e falou sobre temas diversos, como literatura e a questão ecológica. Nada que surpreenda no perfil de um pesquisador que circula com desenvoltura entre o estudo dos clássicos e a análise da conjuntura atual, e isso sem abrir mão da militância política de esquerda. Nesta entrevista, ele lança mão dos conceitos que aprendeu com os clássicos – principalmente Marx e Walter Benjamin – para discutir a crise que o capitalismo atravessa e os movimentos reivindicatórios que têm surgido em diferentes cantos do mundo. Além disso, explica os princípios e limitações da ideia de ‘ecossocialismo', com a propriedade de ter sido um dos autores do Manifesto que defende essa bandeira.
Brasileiro residente na França desde 1969, Löwy é diretor de pesquisas do Centre National de la Recherce Scientifique (CNRS) e responsável por um seminário na Écoles de Hautes Études en Sciences Sociales. Só em português, é autor de mais de 20 livros.
Como a teoria da revolução do jovem Marx, de que trata o seu livro, nos ajuda a entender o momento atual, com mobilizações de indignados no Estado espanhol, Grécia e vários outros países da Europa, além de movimentos de ‘ocupação' em vários locais do mundo? Esses são movimentos anticapitalistas?
Os movimentos de ‘Indignados' opõem-se às políticas ditadas pelo capital financeiro, pela oligarquia dos bancos e aplicadas por governos de corte neoliberal, cujo principal objetivo é fazer com que os trabalhadores, os pobres, a juventude, as mulheres, os pensionistas e aposentados – isto é, 99% da população – paguem a conta pela crise do capitalismo. Esta indignação é fundamental. Sem indignação, nada de grande e de significativo ocorre na história humana. A dinâmica destes movimentos é de uma crescente radicalização anticapitalista, embora nem sempre de forma consciente. É no curso de sua ação coletiva, de sua prática subversiva, que estes movimentos poderão tomar um caráter radical e emancipador. É o que explicava Marx na sua teoria da revolução, inspirada pela filosofia da práxis.
Marx escreveu no século XIX. As revoluções socialistas a que assistimos aconteceram no século 20. O que a realidade trouxe de diferente na forma como se concretizaram e na forma como se entende revolução nos séculos 19, 20 e 21?
As revoluções sempre tomam formas imprevistas, inovadoras, originais. Nenhuma se assemelha às anteriores. A Comuna de Paris (1871) foi um formidável levante da população trabalhadora da grande cidade e a Revolução Russa foi uma convergência explosiva entre proletariado urbano e massas camponesas. Nas demais revoluções do século 20, desde a Mexicana de 1911 até a Cubana de 1959, ou nas revoluções asiáticas (China, Vietname), foram os camponeses o principal sujeito do processo revolucionário. Não podemos prever como serão as revoluções do século 21: sem dúvida, não repetirão as experiências do passado. Por outro lado, existe o que Walter Benjamin chamava de ‘a tradição dos oprimidos': a experiência da Comuna de Paris inspirou a Revolução Russa e é ainda até hoje um exemplo de autoemancipação revolucionária das classes subalternas.
Com a crise capitalista de 2008 e o movimento de intervenção dos Estados para salvar a economia dos países, acreditou-se que a era neoliberal havia chegado ao fim. No entanto, tem sido intensificada cada vez mais a destruição dos direitos conquistados com o Estado de Bem-Estar Social, como temos visto acontecer na Europa (França, agora Espanha...). O que isso significa?
A intervenção dos Estados não significou de forma alguma o fim do neoliberalismo. O único objetivo desta intervenção era salvar os bancos, resgatar a dívida e assegurar os interesses dos mercados financeiros. Para este objetivo, foram sacrificadas conquistas de dezenas de anos de lutas dos trabalhadores: direitos sociais, serviços públicos, pensões e aposentadorias, etc. Para a lógica de chumbo do capitalismo neoliberal, tudo isto são ‘despesas inúteis'.
Um debate antigo da esquerda é sobre a relação entre revolução e reforma. O contexto do final do século 20 e do início do século 21, com situações como, por exemplo, a vitória eleitoral de partidos de esquerda na América Latina e mesmo em alguns países da Europa recolocam essa questão. Como analisa essa relação hoje?
Rosa Luxemburgo já havia explicado, em seu belo livro ‘Reforma ou Revolução?' (1899), que os marxistas não são contra as reformas; pelo contrário, apoiam qualquer reforma que seja favorável aos interesses dos trabalhadores: salário mínimo, seguro médico, seguro desemprego, por exemplo. Simplesmente, lembrava ela, não podemos chegar ao socialismo pela acumulação gradual de reformas; só uma ação revolucionária, que derruba o muro de pedra do poder político da burguesia, pode iniciar uma transição ao socialismo. O problema da maioria dos governos de centro-esquerda, seja na Europa ou na América Latina, é que as ‘reformas' que aplicam são muitas vezes de corte neoliberal: privatizações, regressões no estatuto dos pensionistas, etc. Tratam-se de variantes do social-liberalismo, que aceitam o quadro económico capitalista mas, contrariamente ao neoliberalismo reacionário, têm algumas preocupações sociais. É o caso dos governos Lula-Dilma no Brasil. Temo que no caso da França (François Hollande, recentemente eleito), nem a isto chegue...
Um desafio dessa esquerda que chegou ao poder na América Latina tem sido equacionar a dependência econômica da exploração de recursos naturais (como o petróleo na Venezuela e o gás natural na Bolívia) com a tentativa de superação da lógica capitalista de destruição do meio ambiente. Na sua opinião, essa equação é possível?
Contrariamente aos governos social-liberais, os da Venezuela, Bolívia e Equador têm levado adiante uma verdadeira rutura com o neoliberalismo, enfrentando as oligarquias locais e o imperialismo. Mas dependem, para a sua sobrevivência económica, e para financiar os seus programas sociais, da exploração de energias fósseis – petróleo, gás –, que são os principais responsáveis pelo desastre ecológico que ameaça o futuro da humanidade.
É difícil exigir destes governos que deixem de explorar estes recursos naturais, mas eles poderiam utilizar uma parte do rendimento do petróleo para desenvolver energias sustentáveis – o que fazem muito pouco. Uma iniciativa interessante é o projeto ‘Parque Yasuni', do Equador, proposta dos movimentos indígenas e dos ecologistas assumida, após algumas hesitações, pelo governo de Rafael Correa. Trata-se de preservar uma vasta região de florestas tropicais, deixando o petróleo embaixo da terra, mas exigindo, ao mesmo tempo, que os países ricos paguem metade do valor (9 bilhões de dólares) deste petróleo. Até agora, não houve iniciativas comparáveis na Venezuela ou na Bolívia.
A crítica à destruição do meio ambiente como intrínseca ao capitalismo já estava presente na obra de Marx?
Muitos ecologistas criticam Marx por considerá-lo um produtivista, tanto quanto os capitalistas. Tal crítica parece-me completamente equivocada: ao fazer a crítica do fetichismo da mercadoria, é justamente Marx quem coloca a crítica mais radical à lógica produtivista do capitalismo, à ideia de que a produção de mais e mais mercadorias é o objetivo fundamental da economia e da sociedade. O objetivo do socialismo, explica Marx, não é produzir uma quantidade infinita de bens, mas sim reduzir a jornada de trabalho, dar ao trabalhador tempo livre para participar da vida política, estudar, jogar, amar.
Portanto, Marx fornece as armas para uma crítica radical do produtivismo e, notadamente, do produtivismo capitalista. No primeiro volume de O Capital, Marx explica como o capitalismo esgota não só as energias do trabalhador, mas também as próprias forças da Terra, esgotando as riquezas naturais, destruindo o próprio planeta. Assim, essa perspetiva, essa sensibilidade está presente nos escritos de Marx, embora não tenha sido suficientemente desenvolvida.
O Manifesto Ecossocialista, que o sr. ajudou a escrever em 2001, diz que o capitalismo não é capaz de resolver a crise ecológica que ele produz. Como o sr. analisa as soluções a esse problema que vêm sendo apresentadas pelo capitalismo, como é o caso da economia verde?
A assim chamada ‘economia verde', propagada por governos e instituições internacionais (Banco Mundial, etc), não é outra coisa senão uma economia capitalista de mercado que busca traduzir em termos de lucro e rentabilidade algumas propostas técnicas ‘verdes' bastante limitadas.
Claro, tanto melhor se alguma empresa trata de desenvolver a energia eólica ou fotovoltaica, mas isto não trará modificações substanciais se não for acompanhado de drásticas reduções no consumo das energias fósseis.
Mas nada disto é possível sem romper com a lógica de competição mercantil e rentabilidade do capital. Outras propostas ‘técnicas' são bem piores: por exemplo, os famigerados ‘biocombustíveis' que, como bem diz Frei Betto, deveriam ser chamados de ‘necrocombustíveis', pois tratam de utilizar os solos férteis para produzir uma pseudogasolina ‘verde', para encher os tanques dos carros – em vez de comida para encher o estômago dos famintos da terra.
É possível implementar uma perspetiva como a do ecossocialismo no capitalismo?
O ecossocialismo é anticapitalista por excelência. Como perspectiva, implica a superação do capitalismo, já que se propõe como uma alternativa radical à civilização capitalista/industrial ocidental moderna. Por outro lado, a luta pelo ecossocialismo começa aqui e agora, na convergência entre lutas sociais e ecológicas, no desenvolvimento de ações coletivas em defesa do meio ambiente e dos bens comuns. É através destas experiências de luta, de auto-organizaçâo, que se desenvolverá a consciência socialista e ecológica.
A perspectiva ecossocialista pressupõe uma crítica à noção de progresso. Em que consiste essa crítica?
Walter Benjamin insistia, com razão, que o marxismo precisa libertar-se da ideologia burguesa do progresso, que contaminou a cultura de amplos setores da esquerda. Trata-se de uma visão da história como processo linear, de avanços, levando, necessariamente, à democracia, ao socialismo.
Estes avanços teriam sua base material no desenvolvimento das forças produtivas, nas conquistas da ciência e da técnica. Em rutura com esta visão – pouco compatível com a história do século 20, de guerras imperialistas, fascismo, massacres, bombas atómicas –, precisamos de uma visão radicalmente distinta do progresso humano, que não se mede pelo PIB [Produto Interno Bruto], pela produtividade ou pela quantidade de mercadorias vendidas e compradas, mas sim pela liberdade humana, pela possibilidade, para os individuos, de realizarem suas potencialidades; uma visão para a qual o progresso não é a quantidade de bens consumidos, mas a qualidade de vida, o tempo livre - para a cultura, o ócio, o desporto, o amor, a democracia - e uma nova relação com a natureza. Para o ecossocialismo, a emancipaçâo humana não é uma ‘lei da história', mas uma possibilidade objetiva.
Quais as principais diferenças entre o ecossocialismo e a forma como o socialismo real lidou com os problemas ambientais? E a socialdemocracia, conseguiu construir alternativas a essa lógica destrutiva do capital?
O assim chamado ‘socialismo real' - muito real, mas pouco socialista - que se instalou na URSS sob a ditadura burocrática de Stalin e seus sucessores tratou de imitar o produtivismo capitalista, com resultados ambientais desastrosos, tão negativos quanto os equivalentes no Ocidente. O mesmo vale para os outros países da Europa Oriental e para a China. As intuições ecológicas de Marx foram ignoradas e se levou a cabo uma forma de industrialização forçada, copiando os métodos do capitalismo. A social-democracia é um outro exemplo negativo: nem tentou questionar o sistema capitalista, limitando-se a uma gestão mais ‘social' de seu funcionamento.
Mesmo nos países em que governou em aliança com os partidos verdes, a social-democracia não foi capaz de tomar nenhuma medida ecológica radical. O ecossocialismo corresponde ao projeto de um socialismo do século 21, que se distingue dos modelos que fracassaram no curso do século 20. Ele implica uma rutura com o modelo de civilização capitalista e propõe uma visão radicalmente democrática da planificação socialista e ecológica.
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
De Spinoza e Marx ao materialismo negriano – por Bruno Cava
De Spinoza e Marx ao materialismo negriano
As bases conceituais da ontologia negriana se assentam, principalmente, sobre dois pilares materialistas da história da filosofia, da Europa maldita, da antimodernidade européia. Os filósofos Baruch de Spinoza e Karl Marx. Marxista e spinozano, o trabalho teórico e político de Negri se constrói por meio de uma releitura incessante desses dois pensadores. Seja pensando Spinoza a partir de Marx, ou Marx a partir de Spinoza, e assim sucessivamente, em leitura cruzada, Negri pôde configurar um pensamento radical da revolução e do sujeito. Criticado com frequência tanto por marxistas quanto spinozanos mais ortodoxos, amiúde mais interessados em firmar a interpretação canônica sobre a letra fria dos autores do passado, e assim disputá-la como quem briga pela posse de uma múmia; em Negri a recomposição do marxismo e do spinozismo está inteiramente atrelada a um projeto político. É o projeto comunista. Sua primazia como animador de teoria e prática não faz concessões ao beletrismo filosófico, e seu rigor será tanto maior a olhos desprendidos, quanto maior se valorizar a dimensão política e o primado da práxis na tradição da escrita revolucionária. Spinoza e Marx constituem antídotos clássicos contra toda forma de teologia política, bem como todo socialismo utópico deslumbrado, este que toma o comunismo como ideia fora da história. O comunismo não virá do céu, não será anunciado por profetas e não se construirá sob a espécie da utopia. Longe de arroubos retóricos ou vagos apelos à emancipação humana, o materialismo se concretiza paulatinamente na análise do sujeito revolucionário, na escuta da composição da classe proletária, suas mutações, e os modos de sua inscrição no processo produtivo. Um trabalho de formiguinha.
Renunciar à transitividade entre a teoria do sujeito e a atividade constituinte e imanente que produz o mundo, — i.e., o processo produtivo em sentido amplo, — só pode significar se descolar da materialidade das forças em ação, e assim distanciar em demasiado a prática da teoria. Idealizar o pensamento, tornar o texto depurado da força desagregadora de toda a energia exercida pelas mobilizações e paixões das massas, ou da premência das dominações e injunções com que o intolerável se exerce, em sua surda repetição cotidiana. A política precisa de chão. Precisa que os materialistas caminhem sobre a terra, de preferência descalços. O militante, — o legítimo portador do método “científico”, — nada produz, em termos de conhecimento, se não se situa à altura das lutas de seu tempo, se não fizer pesquisa nas entranhas dos sujeitos existentes, se não se impregnar dos processos de organização, se não tiver mãos, pés, estômago e algo mais.
A tarefa de reconstrução das bases spinozanas e marxistas, para uma ontologia constituinte (arrisco dizer: uma ontologia comunista!), se impõe na medida em que me filio àqueles que advogam o direito como potência, e não como norma. O direito como componente de uma prática de transformação das condições presentes, e não como dever-ser, como valor a efetivar-se num segundo estágio, — uma tarefa supostamente para outras instâncias de poder que não a mediação jurídica: a política, a economia, o “trabalho social”, a “construção do socialismo”. Aqui, a proposta é reafirmar o direito, sim, o direito contra a norma. A norma em qualquer acepção: regras ou princípios, leis ordinárias ou lei constitucional, heterônomas ou autônomas (penso em Kant), atributivas ou prescritivas. Em vez de renunciar ao campo do direito como um todo, é caso de reapropriar-se do direito como arma para o empoderamento. “Reapropriar do direito como instrumento de positivação de práticas sociais.”[1] Mesmo a legalidade, servir-se dela como arma surrupiada do adversário. Se a modernidade encapsulou o direito —, aquele reconhecido pelas ciências, — dentro do estado, como enunciador da validade ou mediador da eficácia, continuam as latências subterrâneas por outro direito. Outra forma de pensar e viver o direito. Um direito afirmado na dureza dos embates e na criatividade dos movimentos. Está em questão a autoprodução de um direito vivo. Porque essas forças operantes no tecido social se exprimem coletivamente num exercício do direito, como atividade, concretização e assanhamento de suas capacidades, quereres e potências de agir. Não precisam que lhes concedam, necessariamente, âmbitos de legitimidade ou legalidade, para poderem ser tudo o que podem. Não precisam de instâncias externas para lhes dizer o que fazer, para lhes reconhecer o quanto valem, para lhes atribuir o que podem, e decidir o certo do errado, a regra da exceção. Não lhes é essencial, aos genuínos criadores do direito, o reconhecimento legal-estatal de grupos de pertencimento. Sem prejuízo do uso derivado, posterior e segundo, de regimes discursivos dessa natureza como tática de luta. O sujeito revolucionário investiga e encontra dentro de si, — da essência produtiva imanente à malha de relações e encontros, — os valores com que se autovaloriza e se autoproduz como força política. As condições ontológicas da liberdade não estão distantes. Elas não dependem de monumentais e mirabolantes projetos de libertação da humanidade. É mais simples do que isso, e não suplanta a ética do dia a dia.
É preciso reapropriar-se dessas condições da liberdade, tomá-las para si se preciso, ter para nós o que sempre foi de direito, a nossa potência e singularidade. A intensidade com que o sujeito afirma a sua forma de vida, e antagoniza às tentativas de confinamento, é quem define o seu direito, a dignidade com que reafirmam o propósito e a vontade de viver além das constrições, ameaças e explorações, a vontade de viver simplesmente. Nesse sujeito que deseja afirmar-se, não estão presentes causas ausentes, as teleologias, os finalismos, a duplicidade de Céu e Inferno. O resultado não é nada de efetivo, se for abstraído do movimento pelo qual se engendrou, passo a passo, na gênese das forças. E tampouco é a falta de algo que os move para frente. Não desejam o que os sábios e gerentes do estado possam lhes oferecer: já que a riqueza social está à mão. O direito não é mais do que isso, mas também não é menos do que isso. O que já é muita coisa, em termos de resistência.
Pensar o direito com Negri, a partir de Marx e Spinoza, é pensá-lo como diretamente produzido pelo ser e no ser, pela afirmação de razão e desejo de quem vive. Razão e desejo, nesse marco teórico, não se opõem. O desejo pode fortalecer a razão e vice-versa. Do mesmo modo que o coração tem razões que a razão desconhece, a razão também tem lá os seus corações. Muitas vezes a razão que se apresenta como depurada de desejo, desinteressada e “autônoma”, essa não passa de um afeto passivo. Uma paixão triste disfarçada de razão. Uma planta venenosa do desejo que nada mais é que o desejo voltado contra si mesmo: ascetismo e moral de sacerdote. Na práxis, desejo e razão se expressam materialmente, e arregaçam elementos de autonomia no interior da ação política. Não há lugar, aqui, para concepções platônicas que tripartem o ser humano em razão, vontade e apetite, onde caberia à razão superior (o estado) dirigir a vontade (os interesses individuais) para controlar os apetites inferiores (a incontinência, o crime). As paixões se digladiam no domínio das paixões, em graus de intensidade que cruzam sem distinção real o plano da razão. Não existe estado desapaixonado, como sabe muito bem quem já apanhou da polícia, tanto mais sórdida quanto mais desinteressada em você. Orientar o carnaval de paixões e amores, no melhor moralismo de tradição francesa (Montaigne, Molière, Pascal, La Bruyère), continua sendo uma tarefa eminentemente política. Cada sujeito é animado por uma pulsação interna, um ímpeto propulsivo, um ânimo de desenvolvimento expansivo, — que porventura, ou quase sempre, vem a debater-se contra as condições limitadoras e antagonistas impostas pela ordem. Vai-se do ser ao sujeito por meio do desejo. A essência afirmativa do sujeito acelera a sua propagação na rede de relações sociais. Exprime-se sem negatividade nas formas reais de sua efetuação. E se, por acaso, desenvolve a potência do não, o faz reflexamente, o faz ao afirmar seu processo constitutivo, despojado de referência ao vazio ou ao não-ser.
A pulsação do desejo no sujeito impele a afirmação radical e exaustiva de seu poder causal, de tudo aquilo que ele quer e que ele pode (e poder querer o que se pode marca a máxima potência). Desse vórtice, tende a realizar todos os efeitos de seu ser, enquanto constitutivos desse mesmo ser em ato, aliás a única modalidade da existência para Spinoza. Essa realização plena assume imediata dimensão ética, inseparável da política, e se projeta diretamente no terreno da libertação. O desejo provoca a combinação de afetos. Eles se buscam, se excitam, se encontram, se alegram. Os encontros mais gratuitos e as combinações mais desarranjadas contêm a sua produtividade, ainda que inservível na lógica e métrica do capital. A combinação dos afetos ativos termina por potenciar a alegria do conjunto. Quer dizer, a potência de efetuação de todos juntos sem depor suas diferenças internas e irredutíveis. Daí que o desejo é o próprio mecanismo de libertação. O poder constituinte embute um mundo ético a efetuar-se, um horizonte político de contestação das formas de represamento do desejo. As relações de produção ordenam as forças produtivas para desviar, bloquear, explorar e expropriar a potência comum de produção de ser. Aí, nesse circuito de coações, se instala o regime de acumulação do capitalismo. Mas eis também o paradoxo intrínseco do capitalismo. Se ele precisa jogar com o desejo, a base última de todo o sistema produtivo, para possibilitar a exploração e aprofundar a dominação, esse mesmo desejo é revolucionário, imprevisível, agressivo, — e lhe ameaça como um espectro índio a rondar a civilização. A afirmação do desejo se revela uma política da constituição, uma prática de liberdade, uma abertura ontológica para o novo, uma subjetividade que se propaga e desarranja, destravando bloqueios e potenciando encontros; uma força incontável dentro, contra e além do “modo de produção”.
Lênin talvez tenha sido o primeiro a desenvolver uma práxis em que a organização da produção é a essência da política. O soviete original tinha por rendimento articular a decisão (o conselho) ao desenvolvimento produtivo (a industrialização). A arte da política está em organizar os bons encontros, do que convém ao plano de composição política dos diferentes, em combinar as potências produtivas. E dessa maneira maximizar a existência, como riqueza crescente de relações, afetos e produções. Organizar os encontros: multiplicar os nós de cooperação e sinergia, conferir e sustentar-lhes as condições de expansão e contágio e duração. Uma produtividade mobilizada pela alegria dos agentes de produção, que produzem na medida em que se produzem na sua desejada esfera de realização pessoal e aprendizado. Tem-se aí um direito voltado ao máximo existencial, na arte da expansão da potência combinada dos homens. Esse direito do máximo existencial depende da construção de uma base produtiva, do estabelecimento concreto de redes de empoderamento, educação, saúde e renda para todos. Eis uma engenhosidade da alegria: concretizar instituições que deem suporte à democratização de uma produção em que todos são sujeitos, de uma produção qualitativa voltada à combinação e recriação desses mesmos sujeitos. Esse engenho se situa do lado da afirmação, da pars construens implícita em qualquer processo de transformação. Uma imaginação voltada a elaborar novos modos de organizar as relações, além do capitalismo. A construção desse direito e dessas instituições não significa reproduzir as instâncias de normatividade e a economia das coações na base do capital. Mas, sim, conferir duração às condições necessárias da expressão ativa e alegre do desejo e da razão, fortalecendo dinâmicas alternativas que já existem e lutam para continuar existindo. O direito como potência não se deixa enquadrar como outra norma dotada de coerção, pairando sobre súditos amedrontados.
Mas, por outro lado, não se furta a instituir-se. Essa instituição da potência de agir pode ser definida como instituição de um exercício comum de direitos[2], implicado na reunião das capacidades sociais, da multiplicação de encontros produtivos, do lançamento de redes colaborativas e, como consequência, a libertação da cidade diante do tirano e sua manipulação de medo e morte. Nesse direito, não opera a guilhotina entre eficácia e validade, nenhuma deontologia mascarada de humanismo pequeno-burguês. Viver o direito com Negri significa também colocar-se no nível da produtividade imanente da vida. Habitar a beira do dizível e do visível, o que não aparece nas narrativas convencionais, essa coisa louca, a franja constituinte a partir do qual sujeitos e objetos situados na história vêm a existir. As instituições do direito comum se constroem sob esse ponto de vista, por dentro da franja de emergência do novo. Jamais da perspectiva do estado ou do poder constituído, do tirano e da economia mórbida de inseguranças, de tudo isso que sustenta a perpetuação do que já está, em toda a sua carga de intolerável e injustiça inscrita nas relações de produção. Não dá pra falar em direito comum sem se impregnar de copesquisa no seio dos novos movimentos e da política radical. Perquirir um direito em movimento, uma alternativa política de constituição de autonomia e produção além do estado e do mercado, do público e do privado[3]. É verdade que essa instituição do direito comum pode até vir a operar como instância externa ao agente. Uma organização das relações com que ele se depara sem participação direta anterior. Ele não se identifica inteiramente com o processo de sua constituição, mas nessa distância, ainda assim, ele pode produzir, abraçar a diferença sem renunciar à própria, conjugando e potenciando-a. Isto indica a necessidade de abertura na formulação das instituições do comum, bem como um desapego a identidades e propostas enrijecidas. A instituição não pode prescindir de um forte componente mutante. Só, assim, pode evitar a redução ou síntese das diferenças em mínimos denominadores, empobrecendo as dinâmicas, entristecendo os que não se ajustam à identidade coletiva. Essa forma de produzir depende também do cultivo da alegria, no sentido rigoroso e filosófico do termo: aumento da potência de agir e existir propiciado pelo bom encontro. Não é outra a definição spinozana de amor: “a alegria acompanhada da ideia de uma causa exterior”[4]. E ainda: “minha liberdade começa quando começa a do outro. O que nos convém, pois, são os entrelaçamentos, os entretecimentos, as vinculações (relações de composição), os compromissos que produzam cada vez maior intensidade, quer dizer, maior liberdade em nossos encontros.”[5] Uma vez instituído o exercício comum dos direitos, na base material de condições desse exercício, é preciso continuar propiciando a combinação alegre de desejos e razões, a cooperação, a adequação mútua dos muitos componentes diferentes na sua diferença, tudo o que, funcionando, realiza o amor: o amor da construção comum.
A imanência entre ser, ética, política e direito indicia a necessidade de articular a teoria do sujeito com a crítica do sistema produtivo. Em Negri leitor de Spinoza, uma vez que o próprio ser é atividade produtiva infinita de todas as coisas, — em suma, como essentia actuosa[6], — o conceito de “modo de produção” assume uma dimensão ontológica, na dobradura e redobradura de política e vida, ou biopolítica. O capitalismo não se resolve como uma forma de estruturar as relações sociais somente na sua dimensão econômica. Em Negri leitor de Marx, a ideia de produção não se resume a concepções objetivistas, que achatam o conceito de produção à mera produção, distribuição e consumo de coisas e bens, à organização objetiva e/ou estrutural dos circuitos de acumulação e valorização, — segundo o reducionismo da ortodoxia marxista e/ou estruturalista. A produção quer dizer também produção de subjetividade, o campo prolífico em que se geram permanentemente processos de efetuação de objetos e sujeitos, bem como a articulação e animação entre eles.
A produção de subjetividade não se situa do lado do objeto, nem do sujeito, mas no interstício, no entre eles, e se desenreda por uma dinâmica intensiva, por uma escala de intensidades no próprio interior da produção. Isto é, não é questão de produzir ou consumir mais ou menos, mas contestar a própria lógica quantitativa. Desafiar a métrica com que o capital faz comungar capital e trabalho, lucro e salário, dívida e renda, patrão e empregado. Noutras palavras, a métrica definida pela comunhão do dinheiro, esse líquido amniótico do mundo capitalista. Na subsunção real, o dinheiro se torna o operador com que um sistema financeiro demiúrgico controla os fluxos produtivos numa escala ao mesmo tempo vasta e infinitesimal. A moeda é a polícia do capital. Nessa operação de captura, o capital investe as subjetividades imanentes aos corpos sociais à moda do sujeito transcendental. O sujeito transcendental exprime o conceito com que a forma capitalista drena os conteúdos. Refiro-me ao sujeito kantiano, o conjunto de formas e sínteses que possibilitam o conhecimento e a organização dos fenômenos a partir do númeno incognoscível (o “em-si” das coisas). Com a mesma analítica transcendental, o capital se apresenta como a única instância competente para organizar as forças produtivas (o “em-si” da produção), e assim efetuar objetos e sujeitos no mundo. O capital se apresenta como campo transcendental, o único uso legítimo das sínteses da produção de sujeitos e objetos. Nessa metafísica, o caráter produtivo do trabalho depende da ação indispensável do capital.
O processo do capital se disfarça de transcendental, e nenhum conhecimento, moral ou produtividade poderiam existir sem a sua mediação “imanente”. Sem o capital, reinaria o caos numênico, a desordem social como improdução e estado de natureza. Autônomo, mesmo, só o burguês. Diante dessa mistificação, a coloca-se a necessidade teórica de exercer uma crítica imanente às condições transcendentais da produção capitalista, num esforço teórico além de Kant. A hipótese negriana da subsunção real, — absolutamente imprescindível em sua ontologia comunista, — avança as armas críticas do marxismo por sobre esse campo transcendental. Não se limita a criticar sujeitos e objetos, mas o campo transcendental que os sintetiza. É uma crítica à própria metafísica do capital, enquanto máquina abstracionista de sínteses. Nessa tarefa, Negri não se limita a descrever minuciosamente o campo transcendental, em que o capital inscreve os objetos e sujeitos, como engrenagens e agentes de produção. Não o faz, quer pelo lado dos objetos: como sociologia do capital, a destrinchar os dispositivos e estruturas que sustentam a economia política. Nem pelo lado dos sujeitos: por quaisquer das vias disponíveis no pensamento radical: a crítica da indústria cultural, da sociedade do espetáculo ou de consumo. A crítica imanente negriana se orienta pela percepção de como o campo transcendental da sociedade capitalista já é posterior, ontologicamente segundo. O campo transcendental se ordena internamente como relações de produção. Os objetos e sujeitos são dispostos como termos dessas relações mediadoras. Mas esse campo das relações de produção já é um desdobramento das próprias forças produtivas, um desdobramento menor, menos potente. Aí a crítica avança além das relações de produção, mostrando a sua correlação com as forças produtivas. Além (e aquém) do transcendental, a imanência produtiva. As relações de produção consistem num recalcamento de tudo o que as forças produtivas podem, uma separação do que elas podem. As relações de produção se assentam nas forças produtivas como uma espécie de casca apodrecida ou armação esquelética, aplicada na substância primeira: o ser produtivo, vivente, constituinte. A manobra consiste, assim, em resgatar essa produtividade imanente à política (primeiro momento) e à vida dentro do escopo da crítica, sem se limitar à crítica da produção de sujeitos e objetos (segundo momento). Tem-se assim uma crítica da própria mediação (passagem despotenciante do primeiro ao segundo momento). Se, no capitalismo, o sujeito transcendental é imposto como mediação necessária e civilizatória, trata-se de desafiar as suas condições e sínteses, para colocar imediatamentea imanência da produtividade, a produção biopolítica como suficiente para a organização da produção.
Na subsunção real, a ontologia do ser é tal que essa produção biopolítica reúne qualidades suficientes para auto-organizar-se. Trata-se das qualidades cooperativas e imaginativas do saber social de massa, o intelecto geral social. A liberdade spinozana, afinal, não coincide com a transformação da realidade dos objetos por um sujeito que lhe é externo. Como se o sujeito se apropriasse do objeto fora, usando-o segundo um entendimento transformador. Essa liberdade acontece na expressão imediata de um poder ontológico que produz o sujeito no ato mesmo em que o conecta no sistema múltiplo e relacional (o ser produtivo), onde as ações e produções se sucedem, num processo dinâmico de deslocamentos intensivos e extensivos. Desta forma a imediata produtividade que é a liberdade material opõe-se às metafísicas que prescrevem medições entre o transcendental ao constituinte. A implosão do “modo de produção” livra o campo transcendental, com todas as mediações implícitas, para a geração de sujeitos e objetos outros, formas de vida outras, imediatamente na auto-organização.
Formam-se novas subjetividades com velocidade de escape às operações de acumulação e exploração do capital. Acelera-se, e desta vez sem mediações, um processo de multiplicação de relações, afetos, perspectivas e instituições de tipo novo, — um desbloqueio geral das capacidades naturais e culturais. Com isso, podem ser maquinados seres híbridos ao capital, formações subjetivas em estado deliquescente, trânsitos entre os planos heterogêneos de formas de vida, e instituições onde se pratica a autonomia. Essa maquinação depende de um perspectivismo. Só pode obter êxito ao materializar um plano de composição política, em que as diferenças possam atuar e produzir juntas. Juntas sem perder a força implicada nas próprias diferenças, organizando o viver na distância constitutiva entre elas, — e sem se reduzir a fórmulas vazias, palavras de ordem ou seitazinhas enfadonhas que confundem suas fraquezas psíquicas, desgraças íntimas e credos religiosos com trabalho político de verdade. O caso é reunir a imaginação com o pragmatismo, num ativismo alegre, porém não deslumbrado. O comunismo desmonta a lógica transcendental com que o capital se autojustifica. E assim, — só por esse fato e nada mais, — o sujeito liberta a produtividade do parasitismo capitalista, seus limites e suas brutais desigualdades.
Este é o subcapítulo 3.1 da dissertação de minha lavra: “Produzir direitos, gerar o comunismo; teoria do sujeito em Badiou e Negri“. Para baixar na íntegra: http://www.4shared.com/office/V4llFHPP/CAVA_Bruno_-_Produzir_direitos.html
[1] FLORES, Joaquín H. Teoria crítica dos direitos humanos… Op. cit. p. 27
[2] Sirvo-me da elaboração teórica do direito comum, sob a inspiração da ética spinozana, por GUIMARAENS, Francisco de. Direito, ética e política em Spinoza. Op. cit. Recomendo especialmente o cotejamento com a deontologia kantiana, origem de muitos normativismos modernos, p. 163-210.
[3] Sirvo-me também das formulações do direito do comum, uma linha de elaboração do direito e das instituições fora da dialética moderna do público e do privado, do estado e do mercado. Por todos, Dentro/contro il diritto sovrano; Dallo Stato dei partiti ai movimenti della governance. Verona: ombre corte, 2009. Recomendo ainda a tese recém-publicada de MENDES, Alexandre F. Além da ‘tragédia do comum.’ 2012. 202 f. Tese (Doutorado em Direito) – Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. Disponível online em http://www.4shared.com/office/v4y85rOf/tese_Comum_AFMENDES.html. Acesso em 20 ago. 2012.
[4] SPINOZA, Ética. Tradução de Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica, 2007. 6ª definição dos afetos. p. 241.
[5] FLORES, Joaquín H. Teoria crítica dos direitos humanos. Op. cit. p. 185
[6] “Deus age pela mesma necessidade pela qual compreende a si próprio, isto é, que assim se segue da necessidade da natureza divina que Deus compreende a si próprio (como, unanimemente, afirmam todos), também se segue da mesma necessidade que Deus faça infinitas coisas, de infinitas maneiras. (…) a potência de Deus não é senão sua essência atuante [actuosam essentiam]” SPINOZA, Ética. Op. cit. II, 3, escólio. p. 83.
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