terça-feira, 16 de abril de 2013
ANDA e Vira-lata é 10! realizam bazar vegano e bingo beneficente em SP - Por Renata Takahashi
ANDA e Vira-lata é 10! realizam bazar vegano e bingo beneficente em SP
Ajude a ANDA e a ONG Vira Lata é 10! a divulgar o evento compartilhando este cartaz de divulgação com seus amigos. E venha se divertir com a gente no próximo domingo!
Está chegando! No próximo domingo, dia 21, as ONGs Vira-Lata é 10! e Agência de Notícias de Direitos Animais (ANDA) realizam um evento para arrecadar recursos para a manutenção de seus trabalhos. A Vira-Lata é 10! abriga aproximadamente mil cães e gatos, e a ANDA realiza um importante trabalho de comunicação pelos direitos animais.
O evento é um bingo e bazar beneficente, que será realizado no próximo dia 21, das 15h às 20h, no Centro de Convenções do Espaço APAS, em São Paulo (SP). Todos os produtos e alimentos à venda no local serão veganos.
A entrada é gratuita. Para participar do bingo é preciso adquirir convites, que já estão a venda. O valor é de R$ 25,00 com direito a 10 cartelas para concorrer a 20 prêmios, além de um sorteio. Entre os prêmios estão bicicleta, televisão, secador de cabelo, liquidificador e outros.
No bazar, que será realizado no hall de recepção, haverá venda de material de ambas as ONGs, além de mais de 10 expositores, como Emporium Vida, Cooperativa Manjeiricão, Saluna Vegan, SOB – Será o Benedito, JMA Br, Flor do Cacau, Taioba Nativa, e outros. Entre os produtos estão itens artesanais, cosméticos, roupas, sapatos, bolsas, acessórios e alimentos, todos sem ingredientes nem materiais de origem animal.
Todo espaço e estrutura foram gentilmente cedidos pelo Espaço APAS, incluindo uma cozinha profissional totalmente equipada. O bingo será realizado no Salão Europa. O Espaço APAS é um dos mais completos e premiados Centros de Convenções do Brasil, com ambientes espaçosos, confortáveis e infraestrutura completa. Haverá estacionamento coberto e com seguro, pelo valor de R$10,00.
Espaço APAS.
Convide os amigos, venha passar uma gostosa e divertida tarde de domingo conosco e ainda concorrer a prêmios. Além de ajudar os animais!
Serviço:
Bingo e Bazar Vegano – Anda e Vira Lata é 10!
Domingo, 21 de abril
Das 15 às 20h
Centro de Convenções do Espaço APAS
Rua Pio XI, 1200 – Alto da Lapa
Domingo, 21 de abril
Das 15 às 20h
Centro de Convenções do Espaço APAS
Rua Pio XI, 1200 – Alto da Lapa
Convites para o bingo e mais informações sobre o evento:
(11) 9 7394-8044 – Fátima
faleconosco@anda.jor.br – Silvana
(11) 9 7394-8044 – Fátima
faleconosco@anda.jor.br – Silvana
Mapa de localização do Espaço APAS, local gentilmente cedido para a realização deste importante evento em prol dos animais.
Fonte: http://www.anda.jor.br/
segunda-feira, 15 de abril de 2013
sábado, 13 de abril de 2013
Vida e morte Pastrana - Por Vange Leonel
Vida e morte Pastrana
Quantas mulheres escravizadas sexualmente são passadas de mão em mão, de dono para dono e expostas em vitrines? E os índios, com terras a demarcar e jogados daqui pra lá como se pertencessem à outra espécie?
Assim que os tambores silenciaram, após o carnaval de 2013, foi finalmente enterrado em Sinaloa, México, o corpo de Julia Pastrana, morta em 1860. Julia fez sucesso numa carreira bastante infame: peluda feito um macaco, foi exibida em circos de horrores por toda a sua vida. Se preparem, porque é uma saga de tirar o fôlego.
Julia trabalhava como serviçal do governador de Sinaloa quando um tal senhor Rates resolveu levá-la a Nova Iorque para mostrá-la a amigos cientistas e jornalistas. Acredita-se hoje que Julia sofresse de duas doenças distintas: hipertricose lanuginosa (que lhe conferia abundância de pelos no corpo e no rosto) e de hiperplasia gengival (responsável por suas feições simiescas).
Sob a tutela de Rates, Julia se apresentava em shows, onde expunha sua aparência monstruosa, mas também demonstrava sua inteligência, delicadeza e voz belíssima. Não demorou muito para que outro senhor se interessasse pelo “espécime” e comprasse o passe de Julia: J. W. Beach passou a mostrá-la como um híbrido de mulher e orangotango, com o aval de um doutor Brainerd, que a reputou pertencente a uma espécie distinta.
Após várias viagens pelos Estados Unidos, Pastrana caiu nas mãos de Theodore Lent, que a levou para uma turnê na Europa, com enorme sucesso. O público se impressionava com a cultura e boas maneiras de Pastrana, além de sua voz de cantora. Julia foi até escalada para um trabalho “sério” em teatro, em Leipzig, onde interpretava uma mulher de voz linda, coberta sob um véu, que se revelava no final da peça. O próprio Charles Darwin se encantou com Pastrana, agradecendo-a no prefácio de “Variação de Animais e Plantas Domesticados”: “Uma mulher admirável, com uma barba grossa e masculina.”
Aproveitando o sucesso de público e mídia, Lent lançou uma campanha para arranjar um marido para Julia. Apareceram muitos pretendentes, mas ela rejeitou todos, dizendo (sob orientação de Lent) que queria um marido rico. No final, temendo perder o controle sobre sua tutelada, Lent casou-se com Pastrana. Meses depois, ela engravidou e deu à luz a um bebê peludo. O bebê viveu apenas 35 horas e Pastrana, mais cinco dias.
Após sua morte, Lent vendeu os corpos da esposa e filho ao professor Sukolov, da Universidade de Moscou, que os mumificou, deixando-os à mostra no Museu de Anatomia. Ao saber que o russo lucrava com os corpos embalsamados, Lent reclamou-os de volta e conseguiu recuperá-los. Aí a história se repete: Lent circulou com os corpos embalsamados, o interesse minguou e ele os alugou para um circo de horrores da Noruega. Em 1943, durante a ocupação nazista, o circo foi poupado pelos nazistas, e o corpo de Pastrana circulou nas cidades ocupadas pelo Reich. Em 1953, o dono do circo em Oslo trancou todas as suas maravilhas num galpão, e lá ficou o corpo de Julia, até 2013.
Em 2012, a artista mexicana Laura Barbata, cuja irmã escreveu uma peça de teatro sobre Pastrana, iniciou uma campanha para recuperar o corpo de Julia e enterrá-lo com todas as honras em sua cidade natal. Finalmente, Pastrana foi sepultada (do filho, não se sabe o paradeiro). Sua vida de “animal especial”, exibida em vida e após a morte como um monstro-maravilha, só escancara preconceitos e iniquidades atuais. Você acha que não existem Julias Pastranas hoje em dia? Quantas mulheres escravizadas sexualmente são passadas de mão em mão, de dono para dono e expostas em vitrines? Quantos trabalhadores escravizados? E os índios, com terras a demarcar e jogados daqui pra lá como se pertencessem à outra espécie? Pensem. Há muitas Pastranas por aí.
Fonte: http://revistaforum.com.br/
Alerta: Cuidados com medicamentos tóxicos para cães e gatos - ANDA
Alerta: Cuidados com medicamentos tóxicos para cães e gatos
Pode parecer óbvio, mas os remédios que compramos nas farmácias servem apenas para a nossa medicação, e não para os animais. Muitos tutores, ao perceberem que os cães e gatos não estão passando bem, receitam, por conta própria, um diclofenaco ou paracetamol qualquer. No entanto, segundo a médica veterinária Rhea Cassuli Lima dos Santos do Hospital Veterinário Pró Vita, a atitude é errada porque os animais precisam de medicações específicas.
“O tratamento deve ser específico. Em muitos casos, inclusive, os tutores deixam de nos contar que deram algum remédio para o animal, o que acaba atrasando o tratamento e piorando o caso”, comenta a veterinária.
Entre as piores medicações está o diclofenaco, princípio ativo dos conhecidos Cataflan e Voltarem. O remédio, se aplicado em quantidade errada, provoca gastrite e insuficiência renal aguda. “O cachorro apresenta vômito, diarreia e tem a urina alterada”, explica Rhea, que ainda acrescenta: “é bom ressaltar que os remédios podem ser usados para tratamentos em animais, mas as doses são sempre menores e isso deve ser feito somente com orientação médica”.
A veterinária se lembrou de um caso curioso que serve de alerta para os tutores. “Me lembro de um caso em que o animal lambeu a pele da tutora, que havia acabado de passar um remédio em gel, e começou a passar mal. Portanto, não são apenas os comprimidos que devemos deixar longe deles, mas cuidar com o uso de medicamento em gel que, sem querer, pode fazer mal para o bichinho”.
Em relação ao tratamento, cada caso deve ser avaliado, mas geralmente os animais devem ser internados para tomar soro e voltar a ter o rim funcionando normalmente.
Fonte: Bem Paraná
Retirado: http://www.anda.jor.br/
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Palestinos com passagem para o apartheid - Por Mel Frykberg
Palestinos com passagem para o apartheid
Israel lançou na Cisjordânia uma nova linha de ônibus exclusivos para palestinos, após reclamações de colonos judeus de que sua segurança estaria “ameaçada”
“Pelo menos não nos tratam como cães”, disse à IPS o diarista Amjad Samara, de 30 anos, da cidade de Naplusa, na Cisjordânia, em referência a como se sente utilizando um novo serviço de ônibus exclusivo para palestinos. Ele e um grupo de palestinos estavam em um posto de controle próximo da localidade de Qalqilia, esperando seu transporte para Israel para um dia de trabalho.
Israel lançou na Cisjordânia uma nova linha de ônibus exclusivos para palestinos, para que os colonos judeus possam “evitar” o “incômodo” de compartilhar o transporte com árabes. O serviço foi criado depois da queixa apresentada pelos colonos no ano passado às autoridades militares israelenses segundo a qual os palestinos que viajavam em “seus ônibus” representavam uma ameaça para sua segurança.
O governo israelense rechaçou as acusações de organizações de direitos humanos, de que o novo serviço é racista e representa uma forma de apartheid (sistema de segregação), e argumentou que a linha foi “planejada para melhorar o transporte de palestinos que entram em Israel”. Mas alguns membros liberais do parlamento israelense não estão convencidos. “Isto se parece com o apartheid”, escreveu a presidente do partido Meretz, Zahava Gal, em seu mural no Facebook.
Yariv Oppenheimer, do movimento Peace Now, contrário às colônias judias, afirmou que a criação do novo serviço envia uma mensagem inadequada. “Em vez de lutar contra o racismo, este governo de fato colabora com o sistema racista e cria ônibus diferentes para palestinos e para colonos israelenses. Na Cisjordânia não há democracia. Se parece mais com o apartheid do que com a democracia”, afirmou.
Funcionários do Ministério do Transporte israelense asseguram que os palestinos não estão oficialmente excluídos dos ônibus para colonos, mas os diaristas contam experiências que contradizem essa afirmação.
“Antes eu procurava pegar ônibus de colonos, mas, em geral, o veículo não parava e seguia viagem. Ou, se parava, para a entrada de colonos, o motorista me dizia que não podia entrar”, contou à IPS o palestino Adnan Omar, de 28 anos, da localidade de Azzun Atme. “E, quando nos deixavam subir, era uma experiência muito desagradável ter de viajar com os colonos, que nos deixavam bem claro que não éramos bem-vindos. Nos olhavam feio e às vezes nos insultavam”, disse Samara à IPS
Motoristas da empresa de ônibus Afikim asseguraram que não são eles que impedem a entrada de palestinos nos veículos, mas os soldados israelenses nos postos de controle. Vários jornalistas que acompanharam de perto a situação informaram que viram palestinos impedidos de subir nos ônibus, ou obrigados a descer deles.
Yirsael Maidad, porta-voz do Conselho de Colonos Judeus, disse que a resistência dos israelenses em compartilhar ônibus com os palestinos se explica pela constante ameaça dos atacantes suicidas. Apesar das críticas de ativistas, alguns dos 29 mil diaristas palestinos que viajam todos os dias a Israel consideram que o novo serviço tem vantagens.
“Esses veículos são mais baratos do que os micro-ônibus palestinos que muitos colegas meus usam para atravessar a Linha Verde para Israel. Também nos sentimos mais seguros do que nos ônibus com colonos, porque não sofremos hostilidades que, às vezes incluíam ataques físicos”, disse Omar à IPS. O novo serviço de transporte para palestinos, que funcionários israelenses admitiram de forma particular que não foi criado por razões altruístas, alimenta os argumentos dos que acusam Israel de adotar um sistema segregacionista.
A Cisjordânia está dividida nas áreas A, sob teórico controle palestino; B, sob controle misto, e C (que representa mais de 60% do território) sob pleno domínio israelense. Os mais de 300 mil colonos judeus na área C gozam de todos os privilégios que foram tirados da população local.
“Os palestinos sofrem uma discriminação sistemática simplesmente por sua raça, etnia e origem nacional. São privados de eletricidade, água, educação e acesso a estradas, enquanto os colonos judeus gozam de todos estes benefícios”, disse Carroll Bogert, subdiretora-executiva para relações exteriores da organização Human Rights Watch (HRW).
“Enquanto se multiplicam os assentamentos, os palestinos sob controle israelense vivem em um túnel do tempo, não apenas separados e em condição desigual, mas também, às vezes, expulsos de suas próprias terras e casas”, lamentou Bogert. “Ao tornarem suas comunidades praticamente inabitáveis, as políticas discriminatórias de Israel frequentemente têm o efeito de obrigar os residentes a abandoná-las”, acrescentou.
A HRW investigou a área C e Jerusalém oriental, e concluiu que a administração israelense fornece generosos benefícios financeiros e infraestrutura aos colonos judeus, enquanto deliberadamente priva de serviços básicos e impõe duras condições às comunidades palestinas. Essa discriminação é feita com base em critérios raciais, de etnia e de nação, o que viola o direito internacional, afirmou a organização.
Fonte: http://revistaforum.com.br/
No Pará, a Justiça tarda e falha – por Maíra Kubík Mano
No Pará, a Justiça tarda e falha
A libertação do suspeito de ser mandante do assassinato do casal de extrativistas foi a cereja no bolo de um julgamento com suspeita de falso testemunho, ameaças, pregação bíblica e uma discussão científica sobre a validade do exame de DNA. Para governo federal, resultado traz “sensação de impunidade”.
Marabá (PA) – “E agora, você vai organizar a morte da Laisa?”. A fala, embargada e alta, tomou conta do Fórum de Justiça de Marabá (PA). Claudelice, a dona da voz que ecoou pela sala, é irmã de José Cláudio Ribeiro da Silva e cunhada de Maria do Espírito Santo, cujos responsáveis pelo assassinato estão sendo julgados naquele 04/04/2013. Laisa, a próxima vítima declarada, é irmã de Maria e desde que o crime ocorreu ela está sob constante ameaça de morte.
A voz de Claudelice é rapidamente sobreposta por muitas outras, unidas em coro. O barulho vem do lado de fora, da multidão que aguarda o final da leitura da sentença. “Aos nossos mortos, nem um minuto de silêncio, mas toda uma vida de luta”. “O povo, unido, jamais será vencido”. “Justiça, justiça, justiça”. MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), Fetagri (Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Pará) e CPT (Comissão Pastoral da Terra), entre outros, organizaram uma vigília durante o julgamento.
O juiz Murilo Lemos continua seu pronunciamento. Momentos antes de ser surpreendido pelas manifestações, ele havia declarado José Rodrigues Moreira, acusado de mandante do crime, inocente. As famílias das vítimas estão atônitas. Em choque. Em sua sentença, o juiz afirmara ainda que José Claudio havia contribuído para a própria morte: “O comportamento das vítimas contribuiu de certa maneira para o crime pois tentaram fazer justiça pelas próprias mãos, utilizando terceiros posseiros, sem terras, para impedir José Rodrigues de ter a posse de um imóvel rural, acarretando o agravamento do conflito”.
Segundo Murilo Lemos, as vítimas deveriam ter denunciado as ameaças e os conflitos no assentamento agroextrativista Praia Alta Piranheira, onde moravam. O texto foi motivo de contestação do julgamento pelos movimentos sociais, entre eles Fetagri, MST e CPT. “Uma afirmação absurda, mentirosa e sem qualquer fundamento. José Claudio e Maria do Espírito Santo denunciaram o caso às autoridades constituídas”, divulgaram, em nota. “O juiz tenta de forma irresponsável criminalizar as vítimas e legitimar a ação do assassino”.
“[Antes do julgamento] eu estava muito ansiosa e acreditando. Mas hoje eu vejo que, parece, ocorreram muitas coisas sujas e contraditórias, que terminam sendo favoráveis à visão arcaica de que os ambientalistas são nocivos à sociedade. Ao dizer que eles são responsáveis, o juiz disse que estava certo quem matou e quem mandou matar”, afirmou Laisa Sampaio.
Os dois outros réus no processo, Lindonjonson Silva Rocha, irmão de José Rodrigues, e Alberto Lopes do Nascimento, acusados da execução propriamente dita, foram condenados a 42 anos e oito meses e a 45 anos de reclusão, respectivamente. A crueldade de cortarem uma das orelhas de José Claudio foi considerada um agravante e aumentou a pena. Segundo o inquérito, o pedaço do corpo seria uma das maneiras de comprovar que o “serviço”, apesar de, ironicamente, a empreitada criminosa agora não ter mandante.
Julgamento
A libertação de José Rodrigues foi a cereja no bolo de um julgamento com suspeita de falso testemunho, pregação bíblica e uma discussão científica sobre a validade do exame de DNA.
“As nossas testemunhas falaram a verdade com convicção e a deles mentiu em juízo”, disse uma inconformada Claudelice sobre o depoimento de Joeuza Pereira da Silva. A testemunha, que a princípio afirmara ter visto Lindonjonson em outro município na mesma data e local do crime, acabou se calando ao ser questionada de maneira mais incisiva pela promotora Ana Maria Magalhães, uma das responsáveis pela acusação.
Outra testemunha, Nilton José Ferreira, falou exatamente o contrário: havia visto sim Lindonjonson saindo pelo que seria uma rota de fuga do local do crime pouco depois dos assassinatos. E apontou para ele na frente do júri. “Esse aqui”.
Os advogados de defesa tentaram desconstruir a versão afirmando que seria impossível, na distância que ele estava, cerca de 15 metros, reconhecer alguém de costas. “Mas eu vi de frente de primeiro”, disse Nilton. Logo após o depoimento, ele foi abordado por um dos irmão de José Rodrigues e Lindonjonson. Recebeu três tapinhas no peito e um olhar fulminante. Estava marcado. Agora, Nilton, escondido, aguarda proteção.
Em outro momento simbólico, José Rodrigues se jogou no chão do Fórum com uma pequena bíblia nas mãos e rezou por todos os presentes, se dizendo pai de família. Convertido ao Evangelho na cadeia, Rodrigues pregou longamente sobre seu amor a Jesus e a justiça divina, curiosamente desabonando o papel do tribunal diante dele. Uma das juradas chorou. Ficou tocada com o que, soube-se depois, era seu irmão de culto.
“A única coisa que o juiz fez foi oferecer lenços para que o acusado enxugasse as lágrimas”, atacaram os movimentos sociais. “Quando avisado em particular pelo Ministério Público (MP) da reação da jurada, fato que demonstrava claramente a sua parcialidade, o juiz respondeu ao representante do MP que caso suscitasse a parcialidade da jurada e o júri fosse suspenso, ele iria revogar a prisão e mandar soltar imediatamente os três acusados. Frente à ameaça do juiz o MP recuou da decisão de pedir a suspeição da jurada”, continua o texto.
“Acabamos desacreditando no preparo da sociedade representada ali”, avalia Laisa. “Vão pela emoção da religião, não pela razão”.
A razão, aliás, foi também colocada à prova pelos advogados de defesa de Rodrigues e Lindonjonson, Arnaldo Ramos de Barros Jr. e Wandergleisson Fernandes Silva. Em sua sustentação, eles afirmaram que o exame de DNA feito em uma touca de mergulho encontrada na cena do crime – e cujo resultado incriminava os irmãos – não poderia ser levado em consideração porque havia sido realizado com DNA mitocondrial, e não do núcleo da célula. Segundo eles, isso mapearia todo um grupo populacional, como negros e indígenas, o que não permitiria uma identificação apurada. Só não explicaram ao júri que o “grupo populacional” a que se referiam partia da linhagem materna daquela família.
O Ministério Público já recorreu da sentença, assim como os advogados de defesa.
Crime
José Claudio e sua esposa foram assassinados em 24 de maio de 2011 no assentamento agroextrativista Praia Alta Piranheira, onde moravam. Sofreram uma emboscada quando cruzavam uma das pequenas pontes de troncos de madeira que levavam à cidade mais próxima, Nova Ipixuna.
O motivo do crime seria uma disputa em torno de uma área que Rodrigues havia comprado ilegalmente por R$ 100 mil. No local, já residiam três famílias, que foram expulsas pelo novo dono. José Claudio e Maria, duas lideranças no assentamento, acolheram os pequenos produtores e denunciaram Rodrigues. Esta denúncia somou-se a inúmeras outras feitas anteriormente pelo casal ao Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e ao Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis), ao Ministério Público e à Polícia Federal contra o desmatamento desenfreado.
O lote de José Claudio e Maria é ainda hoje uma das áreas de floresta mais preservadas do assentamento. O local permanece intacto, como eles deixaram no dia do crime. Nas paredes, retratos da Irmã Dorothy e de Chico Mendes parecem hoje uma previsão macabra – em especial sabendo que os mandantes de ambos os crimes já estão soltos após cumprirem parte das penas. Nos fundos, as ferramentas para extração do óleo de castanha. Árvores de todos os tipos. Cacau, limão e goiaba continuam nos pés, esperando para serem colhidos.
Proteção policial
Após o término do julgamento, Laisa Sampaio, irmã de Maria do Espírito Santo, foi imediatamente retirada de Marabá pelo governo federal. Não teve tempo de buscar nada em casa. Durante os dois anos entre o crime e o julgamento, Laisa sofreu ameaças constantes por não se calar diante da morte da irmã. Em 2012, ela recebeu, em nome de José Claudio e Maria, o prêmio Heróis da Floresta, concedido pela ONU (Organização das Nações Unidas) em Nova York.
Agora Laisa está em Brasília, onde aguarda, angustiada, uma solução para a sua situação. Ela já se encontrou com a ministra Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. O governo considerou grave que nenhum mandante tenha sido responsabilizado e divulgou um comunicado sobre a questão: “A absolvição do mandante desse crime traz como conseqüência a sensação de impunidade no que se refere a homicídios de trabalhadores na zona rural. E, ainda, prejudica a luta de trabalhadores que defendem a geração de renda com preservação da floresta.”
“Estamos numa discussão. Tive uma reunião com o pessoal do Programa de Proteção à Vítimas e Testemunhas Ameaçadas”, conta Laisa. Há cerca de um ano ela tentava ingressar, sem sucesso, no Programa. Agora o problema é outro: o convênio com o governo do estado está vencido. “Não tem como eu voltar para lá sem ter essa proteção. Mas eu preciso voltar, eu quero voltar.” Laisa, que é professora na escola do assentamento, também trabalha com outras mulheres do entorno em atividades extrativistas. “O trabalho não para. Vamos ter uma oficina agora de boas práticas sustentáveis para aprendermos a usar a prensa para extrair o óleo da castanha. Quero ter motivos para acreditar, mas agora não tem perspectiva favorável. Tenho que emendar os pedaços e continuar a luta”.
Seu marido, José Rondon, também testemunha no processo, continua no lote junto com seus filhos. “Não saio daqui antes do final da safra de andiroba”, afirma, orgulhoso da produção. O óleo recolhido é transformado em sabonete e remédio, comercializados pela família.
Em casa, cercado de mata, galinhas, cachorros e gatos, Rondon mostra um punhado de cartas que ele e Laisa receberam, via Anistia Internacional, dos mais diferentes lugares do mundo. A maioria ainda nem foi aberta. “Não sabemos essas línguas”, diz. Espanhol, inglês, alemão, francês. Em todas, uma mesma mensagem: “Vocês não estão sozinhos”. Será mesmo?
A voz de Claudelice é rapidamente sobreposta por muitas outras, unidas em coro. O barulho vem do lado de fora, da multidão que aguarda o final da leitura da sentença. “Aos nossos mortos, nem um minuto de silêncio, mas toda uma vida de luta”. “O povo, unido, jamais será vencido”. “Justiça, justiça, justiça”. MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), Fetagri (Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Pará) e CPT (Comissão Pastoral da Terra), entre outros, organizaram uma vigília durante o julgamento.
O juiz Murilo Lemos continua seu pronunciamento. Momentos antes de ser surpreendido pelas manifestações, ele havia declarado José Rodrigues Moreira, acusado de mandante do crime, inocente. As famílias das vítimas estão atônitas. Em choque. Em sua sentença, o juiz afirmara ainda que José Claudio havia contribuído para a própria morte: “O comportamento das vítimas contribuiu de certa maneira para o crime pois tentaram fazer justiça pelas próprias mãos, utilizando terceiros posseiros, sem terras, para impedir José Rodrigues de ter a posse de um imóvel rural, acarretando o agravamento do conflito”.
Segundo Murilo Lemos, as vítimas deveriam ter denunciado as ameaças e os conflitos no assentamento agroextrativista Praia Alta Piranheira, onde moravam. O texto foi motivo de contestação do julgamento pelos movimentos sociais, entre eles Fetagri, MST e CPT. “Uma afirmação absurda, mentirosa e sem qualquer fundamento. José Claudio e Maria do Espírito Santo denunciaram o caso às autoridades constituídas”, divulgaram, em nota. “O juiz tenta de forma irresponsável criminalizar as vítimas e legitimar a ação do assassino”.
“[Antes do julgamento] eu estava muito ansiosa e acreditando. Mas hoje eu vejo que, parece, ocorreram muitas coisas sujas e contraditórias, que terminam sendo favoráveis à visão arcaica de que os ambientalistas são nocivos à sociedade. Ao dizer que eles são responsáveis, o juiz disse que estava certo quem matou e quem mandou matar”, afirmou Laisa Sampaio.
Os dois outros réus no processo, Lindonjonson Silva Rocha, irmão de José Rodrigues, e Alberto Lopes do Nascimento, acusados da execução propriamente dita, foram condenados a 42 anos e oito meses e a 45 anos de reclusão, respectivamente. A crueldade de cortarem uma das orelhas de José Claudio foi considerada um agravante e aumentou a pena. Segundo o inquérito, o pedaço do corpo seria uma das maneiras de comprovar que o “serviço”, apesar de, ironicamente, a empreitada criminosa agora não ter mandante.
Julgamento
A libertação de José Rodrigues foi a cereja no bolo de um julgamento com suspeita de falso testemunho, pregação bíblica e uma discussão científica sobre a validade do exame de DNA.
“As nossas testemunhas falaram a verdade com convicção e a deles mentiu em juízo”, disse uma inconformada Claudelice sobre o depoimento de Joeuza Pereira da Silva. A testemunha, que a princípio afirmara ter visto Lindonjonson em outro município na mesma data e local do crime, acabou se calando ao ser questionada de maneira mais incisiva pela promotora Ana Maria Magalhães, uma das responsáveis pela acusação.
Outra testemunha, Nilton José Ferreira, falou exatamente o contrário: havia visto sim Lindonjonson saindo pelo que seria uma rota de fuga do local do crime pouco depois dos assassinatos. E apontou para ele na frente do júri. “Esse aqui”.
Os advogados de defesa tentaram desconstruir a versão afirmando que seria impossível, na distância que ele estava, cerca de 15 metros, reconhecer alguém de costas. “Mas eu vi de frente de primeiro”, disse Nilton. Logo após o depoimento, ele foi abordado por um dos irmão de José Rodrigues e Lindonjonson. Recebeu três tapinhas no peito e um olhar fulminante. Estava marcado. Agora, Nilton, escondido, aguarda proteção.
Em outro momento simbólico, José Rodrigues se jogou no chão do Fórum com uma pequena bíblia nas mãos e rezou por todos os presentes, se dizendo pai de família. Convertido ao Evangelho na cadeia, Rodrigues pregou longamente sobre seu amor a Jesus e a justiça divina, curiosamente desabonando o papel do tribunal diante dele. Uma das juradas chorou. Ficou tocada com o que, soube-se depois, era seu irmão de culto.
“A única coisa que o juiz fez foi oferecer lenços para que o acusado enxugasse as lágrimas”, atacaram os movimentos sociais. “Quando avisado em particular pelo Ministério Público (MP) da reação da jurada, fato que demonstrava claramente a sua parcialidade, o juiz respondeu ao representante do MP que caso suscitasse a parcialidade da jurada e o júri fosse suspenso, ele iria revogar a prisão e mandar soltar imediatamente os três acusados. Frente à ameaça do juiz o MP recuou da decisão de pedir a suspeição da jurada”, continua o texto.
“Acabamos desacreditando no preparo da sociedade representada ali”, avalia Laisa. “Vão pela emoção da religião, não pela razão”.
A razão, aliás, foi também colocada à prova pelos advogados de defesa de Rodrigues e Lindonjonson, Arnaldo Ramos de Barros Jr. e Wandergleisson Fernandes Silva. Em sua sustentação, eles afirmaram que o exame de DNA feito em uma touca de mergulho encontrada na cena do crime – e cujo resultado incriminava os irmãos – não poderia ser levado em consideração porque havia sido realizado com DNA mitocondrial, e não do núcleo da célula. Segundo eles, isso mapearia todo um grupo populacional, como negros e indígenas, o que não permitiria uma identificação apurada. Só não explicaram ao júri que o “grupo populacional” a que se referiam partia da linhagem materna daquela família.
O Ministério Público já recorreu da sentença, assim como os advogados de defesa.
Crime
José Claudio e sua esposa foram assassinados em 24 de maio de 2011 no assentamento agroextrativista Praia Alta Piranheira, onde moravam. Sofreram uma emboscada quando cruzavam uma das pequenas pontes de troncos de madeira que levavam à cidade mais próxima, Nova Ipixuna.
O motivo do crime seria uma disputa em torno de uma área que Rodrigues havia comprado ilegalmente por R$ 100 mil. No local, já residiam três famílias, que foram expulsas pelo novo dono. José Claudio e Maria, duas lideranças no assentamento, acolheram os pequenos produtores e denunciaram Rodrigues. Esta denúncia somou-se a inúmeras outras feitas anteriormente pelo casal ao Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e ao Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis), ao Ministério Público e à Polícia Federal contra o desmatamento desenfreado.
O lote de José Claudio e Maria é ainda hoje uma das áreas de floresta mais preservadas do assentamento. O local permanece intacto, como eles deixaram no dia do crime. Nas paredes, retratos da Irmã Dorothy e de Chico Mendes parecem hoje uma previsão macabra – em especial sabendo que os mandantes de ambos os crimes já estão soltos após cumprirem parte das penas. Nos fundos, as ferramentas para extração do óleo de castanha. Árvores de todos os tipos. Cacau, limão e goiaba continuam nos pés, esperando para serem colhidos.
Proteção policial
Após o término do julgamento, Laisa Sampaio, irmã de Maria do Espírito Santo, foi imediatamente retirada de Marabá pelo governo federal. Não teve tempo de buscar nada em casa. Durante os dois anos entre o crime e o julgamento, Laisa sofreu ameaças constantes por não se calar diante da morte da irmã. Em 2012, ela recebeu, em nome de José Claudio e Maria, o prêmio Heróis da Floresta, concedido pela ONU (Organização das Nações Unidas) em Nova York.
Agora Laisa está em Brasília, onde aguarda, angustiada, uma solução para a sua situação. Ela já se encontrou com a ministra Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. O governo considerou grave que nenhum mandante tenha sido responsabilizado e divulgou um comunicado sobre a questão: “A absolvição do mandante desse crime traz como conseqüência a sensação de impunidade no que se refere a homicídios de trabalhadores na zona rural. E, ainda, prejudica a luta de trabalhadores que defendem a geração de renda com preservação da floresta.”
“Estamos numa discussão. Tive uma reunião com o pessoal do Programa de Proteção à Vítimas e Testemunhas Ameaçadas”, conta Laisa. Há cerca de um ano ela tentava ingressar, sem sucesso, no Programa. Agora o problema é outro: o convênio com o governo do estado está vencido. “Não tem como eu voltar para lá sem ter essa proteção. Mas eu preciso voltar, eu quero voltar.” Laisa, que é professora na escola do assentamento, também trabalha com outras mulheres do entorno em atividades extrativistas. “O trabalho não para. Vamos ter uma oficina agora de boas práticas sustentáveis para aprendermos a usar a prensa para extrair o óleo da castanha. Quero ter motivos para acreditar, mas agora não tem perspectiva favorável. Tenho que emendar os pedaços e continuar a luta”.
Seu marido, José Rondon, também testemunha no processo, continua no lote junto com seus filhos. “Não saio daqui antes do final da safra de andiroba”, afirma, orgulhoso da produção. O óleo recolhido é transformado em sabonete e remédio, comercializados pela família.
Em casa, cercado de mata, galinhas, cachorros e gatos, Rondon mostra um punhado de cartas que ele e Laisa receberam, via Anistia Internacional, dos mais diferentes lugares do mundo. A maioria ainda nem foi aberta. “Não sabemos essas línguas”, diz. Espanhol, inglês, alemão, francês. Em todas, uma mesma mensagem: “Vocês não estão sozinhos”. Será mesmo?
segunda-feira, 8 de abril de 2013
Offshore Leaks: as caixas pretas do poder global – por Antonio Martins
Offshore Leaks: as caixas pretas do poder global
Vazamento inédito revela pontos obscuros da globalização, onde bancos e multinacionais misturam-se ao crime organizado, para se esconder das sociedades
Um facho de luz está iluminando o lado obscuro do poder global desde o início do mês, sem que os jornais brasileiros pareçam interessados em segui-lo. Após 15 meses de trabalho, uma equipe do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, em inglês) começou a publicar reportagens muito constrangedoras sobre os centros financeiros offshore, também conhecidos pelo termo eufemístico de “paraísos fiscais”. Por envolverem políticos e magnatas conhecidos do público, as revelações já estão provocando sobressaltos políticos em países tão diferentes como França (onde caiu o ministro das Finanças), Canadá, Indonésia, Filipinas, Venezuela, Rússia e Azerbaijão.
O trabalho do ICIJ tem como fonte um vazamento de informações extraordinário. Um operador anônimo, de uma instituição financeira que opera nas Ilhas Virgens britânicas, enviou a Gerard Ryle, diretor do Consórcio, um disco rígido de computador contendo 260 gigabytes de dados – 2,5 milhões de documentos, acumulados ao longo de trinta anos. Em volume, são 160 vezes mais dados que o material vazado, pelo Wikileaks, a partir do Departamento de Estado dos EUA. Por isso, o caso tornou-se internacionalmente conhecido como o “offshore leaks”. Uma equipe de 86 jornalistas, de 37 publicações (nenhuma brasileira…) analisou as informações e está produzindo as reportagens. É possível acompanhá-las, por exemplo, em seções especiais criadas no próprio site do ICIJ, mas também no Guardian, de Londres, e no Le Monde, de Paris.
A importância política dos documentos é proporcional a seu tamanho. Até o momento, estes jornais preferem destacar o lado mais vistoso das revelações: governantes, super-ricos e celebridades que escondem dinheiro em pontos longínquos do planeta, para sonegar impostos. Mas o que já foi publicado permite outra leitura, menos superficial. As praças offshore não podem mais ser vistas como ilhas tropicais paradisíacas, para onde flui a riqueza resultante de alguns negócios marginais. Elas são uma engrenagem fundamental no centro do capitalismo contemporâneo.
Primeiro, por seu próprio tamanho. Conforme estudos citados pelo ICIJ, os centros offshore acumulam depósitos estimados entre 21 e 31 trilhões de dólares – entre um terço e metade do PIB anual do planeta. Segundo, por sua própria constituição. As ilhotas pitorescas que compõem a galáxia do offshore são apenas a franja (e, num certo sentido, a fachada), numa vasta rede oculta em cujo centro está Londres – a principal praça financeira do mundo.
A geografia política de tal rede é descrita, numa entrevista que Outras Palavras publica também hoje, por Nicholas Shaxon, autor de obra recente e fundamental sobre o offshore: Treasure Islands: Uncovering the Damage of Offshore Banking and Tax Havens1. Ele explica: a grande teia do sistema financeiro nas sombras parte da capital britânica e articula-se por meio de dois núcleos intermediários, de onde se estende por todo o planeta. Um dos núcleos tem base em três ilhas do litoral inglês – Jersey, Guernsey e Man – e abre-se para Ásia e África. Outro, baseia-se nas Ilhas Cayman e Bermundas, voltando-se para as Américas.
A Grã-Bretanha articula a enorme estrutura de captação de recursos. Mas os Estados Unidos são o principal destino do dinheiro, prossegue Shaxon. Maiores devedores do planeta há décadas, os EUA abriram-se, a partir dos anos 1970, ao mundo offshore. Acostumaram-se a fechar suas contas externas, cronicamente deficitárias, atraindo também dinheiro de origem duvidosa – ao qual oferecem isenções fiscais e proteção legal.
É neste mundo de finanças ocultas e anonimatos, relata o ICIJ, que escondem e “lavam” (legalizam) seu dinheiro as grandes redes do crime organizado: máfias de distintas nacionalidades, políticos corruptos que se apropriam de recursos públicos, traficantes de seres humanos, beneficiários de caça proibida, escroques de todos os tipos. O esquema é conhecido. Quem precisa dar aparência de legalidade a uma soma obtida por meios ilícitos transfere-a para uma conta bancária offshore. Aproveita-se dos impostos muito baixos cobrados pelos “paraísos fiscais”. Mais tarde, reintroduz o dinheiro no país, na forma de crédito proveniente de uma instituição respeitável, com sede na Suíça, em Luxemburgo ou nas Ilhas Virgens. Quem irá investigar a origem primeira do dinheiro?
Mas o circuito que abastece o crime seria insustentável, continua Nicholas Shaxon, sem uma presença luxuosa: a das grandes corporações transnacionais. Praticamente todas as empresas com atuação internacional, relata ele, atuam offshore. Fazê-lo tornou-se quase obrigatório, na dinâmica que a globalização assumiu. Permite evasão sistemática de impostos, explicada na entrevista. A tal ponto que não operar offshore penalizaria as corporações eventualmente dispostas a respeitar seus sistemas tributários nacionais, obrigando-as a cobrar preços superiores aos das concorrentes.
Surge, aqui, um primeiro círculo de conveniências e cumplicidades. Se as transnacionais deixassem o circuito offshore, raciocina Shaxon, ele ira tornar-se rapidamente insustentável. Seria uma confraria frágil de milionários fora-da-lei, facilmente denunciável e desmontável. Sua força, e sua suposta honorabilidade, é transferidas pelas grandes corporações.
Por elas e, é claro, pelos bancos. Quase todas as instituições bancárias importantes, conta a reportagem do ICIJ, têm relações com a rede financeira das sombras. Por meio delas, tornam-se capazes de oferecer aos clientes premium a faculdade de ocultar dinheiro obtido legal ou ilegalmente – e de reintroduzi-lo no país, sempre que necessário.
Os bancos chegam a competir entre si, na oferta de serviços eficazes de ocultamento de recursos. Num documento vazado, o Crédit Suisse, com sede em Zurique e representações em todo o mundo (inclusive no Brasil, onde “patrocina” a Orquestra Sinfônica de São Paulo), é descrito como “o Santo Graal” da rede. Os procedimentos que adota nas transferências de recursos são tão “eficientes” – admira-se um operador offshore – que autoridades policiais ou bancárias eventualmente interessadas em descobrir a identidade de um depositante irão “deparar-se com uma muralha blindada”… Mas não se trata de um exemplo isolado. Reportagens do Der Spiegel e do Le Monde estão revelando como instituições “respeitáveis” como o Deutsche Bank (alemão), Banque National de Paris e Paribas (franceses), IMG e Amro (holandeses) envolveram-se no esquema.
Nem mesmo a crise iniciada em 2008 parece abalar o mundo financeiro clandestino. Segundo o ICIF, entre 2005 e 2010, os depósitos dos 50 maiores bancos do mundo mais que duplicaram, avançando de 5,4 para 12 trilhões de dólares. Este salto ajuda, aliás, a compreender o cenário global em que se alastra o universo offshore; e também o ambiente ideológico que o alimenta. Na última década, a desigualdade espalhou-se pelo mundo (com a exceção notável da América do Sul). Mesmo num país como os Estados Unidos, 400 pessoas detêm tanta riqueza quanto metade da população. O grupo restrito dos ultra-ricos formou o que o filósofo francês Patrick Viveret chamou de uma oligarquia financeira. Esta possível “nova classe” tem enorme poder econômico e político. Deseja ter mãos livres tanto para intervir nas decisões dos Estados nacionais quanto para driblá-las, quando contrariam seus interesses. Vê, numa galáxia financeira opaca, um instrumento extremamente funcional para preservar seus privilégios e ampliar seu poder.
É possível enfrentar o universo offshore? Do ponto de vista técnico, não faltam alternativas, explica Nicholas Shaxon. Os fluxos de recursos para os “paraísos fiscais” podem ser limitados tanto por tributação mais elevada – que inibe as transferências – quanto por restrições diretas dos Estados. O difícil, ressalta o autor de Threasury Islands, é enfrentar a força política da oligarquia financeira. Entre os grupos diretamente interessados em manter a situação atual estão banqueiros, grandes empresas, bancadas políticas corruptas e crime organizado.
A mídia exerce um papel central na resistência às mudanças. Os jornalistas dos meios tradicionais normalmente sabem muito pouco sobre finanças internacionais, observa Shaxon. Nas raras vezes em que escrevem sobre o tema, recorrem aos “especialistas do mercado financeiro” – precisamente os que mais têm interesse em que nada mude.
É sintomático que nenhum jornal, TV, rádio ou portal de internet brasileiro tenha dado destaque ao Offshore Leaks. Considere a participação dos bancos e das transnacionais em sua carteira de anunciantes…
Mas é animador que, em todo o mundo, o episódio tenha alcançado tanta repercussão. A crise financeira tornou as sociedades mais críticas. A vida de luxo e ostentação dos altos executivos é vista com desconfiança e desconforto crescentes. Muitos julgam-na uma afronta, diante do empobrecimento de vastos setores sociais.
Nunca houve condições tão favoráveis para abrir um debate sobre o assunto. Um sintoma é o fato de você estar lendo este texto, apesar do boicote da mídia brasileira sobre o tema…
Não haverá tiros de misericórdia em Ruanda – por Flávio Ricardo Vassoler
Não haverá tiros de misericórdia em Ruanda
‘Tiros em Ruanda’ (2005), filme dirigido por Michael Caton-Jones, narra o caos legado pelos antigos colonizadores belgas. Consta que antes da chegada dos europeus, não havia hostilidade entre tutsis e hutus. Mas era preciso dividir para reinar.
“Ruanda, 1994. Durante 30 anos, o governo da maioria (étnica) hutu perseguiu a minoria tutsi. Sob pressão do Ocidente, o presidente hutu concordou, não sem relutância, em dividir o poder com os tutsis. A ONU enviou uma pequena força à capital Kigali para monitorar a frágil paz”.
Eis a epígrafe de Tiros em Ruanda (2005), filme dirigido por Michael Caton-Jones. Eis o caos legado pelos antigos colonizadores belgas. Consta que antes da chegada dos europeus, não havia hostilidade entre tutsis e hutus. Mas é preciso dividir para reinar. Assim, os belgas decidem arregimentar entre os nativos os negros com traços menos africanos para estabelecer um governo colonizador híbrido. Administração eugênica: os tutsis seriam mais altos, teriam narizes mais afilados. Segundo os parâmetros protonazistas dos colonizadores, não poderiam ser considerados europeus, mas tampouco seriam rebaixados a hutus. “Sub-humanos” elevados a cargos administrativos sob a tutela belga.
Com o processo de descolonização do continente africano após a Segunda Guerra, os belgas saíram de cena. A maioria hutu, então, começou a dar vazão ao ressentimento colonial. Já que os europeus não poderiam ser batidos, que tal aniquilar a minoria étnica que tratava os hutus como escravos? Outrora apêndices dos senhores brancos, os tutsis passaram a ser chamados de baratas. (No que os hutus se mostraram bons estudantes de história: afinal, o antissemitismo europeu não tratara os judeus como piolhos?) Que fazemos com as baratas? Os leitores de Franz Kafka bem conhecem as agruras pelas quais o jovem Gregor Samsa teve que passar após sofrer A metamorfose (1915) que o transformou em um inseto.
− Inseto tutsi! – arrematariam os genocidas hutus munidos de seus facões ensanguentados.
Em abril de 1994, um golpe de Estado hutu faz a paz se esgueirar entre os escombros. Os tutsis tentarão rezar, mas logo haverá bem mais do que choro e ranger de dentes. As comportas do caos serão abertas. Haverá o silêncio impassível de mais de 800 mil cadáveres étnicos.
Uma Escola Técnica Oficial (ETO) se transforma em base para os soldados da ONU e em inusitado campo de refugiados tutsis. Os soldados irão intervir no massacre? Corpos e mais corpos retalhados se amontoam ao redor da ETO. Os hutus desconhecem a matança clínica e industrial dos campos de concentração europeus. Os facões picam os corpos como outrora cortavam a relva pela mão dos escravos que agora só querem retaliação. Os soldados da ONU irão intervir no massacre?
− Não somos pacificadores, isto é, não estamos aqui para manter a paz. Estamos aqui para observá-la e monitorá-la. Só podemos disparar em legítima defesa. E a utilização das metralhadoras requer autorização prévia do comando subordinado ao Conselho de Segurança.
A Organização das Nações Unidas protege os direitos humanos: os 40 europeus que haviam se refugiado na ETO logo são levados ao aeroporto de Kigali sob forte escolta da Legião Francesa. A Organização das Nações Unidas vela os detritos humanos: os tutsis sitiados na ETO ficarão sob a proteção dos soldados até que o alto comando faça os militares bater em retirada. Então, os rebeldes poderão cruzar os portões para cumprir os desígnios da rádio hutu:
− Quem vai encher os túmulos vazios? As baratas estão escondidas nas igrejas! As baratas estão escondidas nas escolas!
Mas não, não: os soldados irão intervir no massacre. Os cachorros ruandeses – o manual do colonizador não especificou se os cães seriam tutsis ou hutus – começam a devorar os cadáveres. “Eis um risco gravíssimo de contaminação!” O capitão pede ao padre, o responsável pela ETO, que acalme os tutsis ainda vivos. “Vamos atirar nos cães. Eles não podem continuar a devorar os mortos. Para que não haja pânico, avise a todos que, por ora, os tiros serão amigos”. Enfurecido diante de um mundo que seu Deus parece ter abandonado, o padre prega ao capitão não o Sermão da Montanha, mas o Sermão da Estepe:
− Vocês não têm permissão para atirar apenas em legítima defesa? Por que então pretendem alvejar os cães? Acaso eles lhes fizeram algum mal? Os cadáveres não podem mais comer, mas os cachorros ainda sentem fome – os cães que vocês querem matar e os cachorros humanos. Os cães não sabem que estão comendo seres humanos. Mas os tutsis sabem que serão devorados.
O clérigo tenta romper a inércia da ONU de todas as formas. Jornalistas já não se interessam pelo destino dos tutsis. “Afinal, o que há de novo em uma guerra civil africana?” Mas as câmeras se põem a postos quando o padre revela que há europeus na ETO. Enquanto Ruanda sangra aos olhos indiferentes do Ocidente, a Bósnia ariana recebe as forças de intervenção das Nações Unidas. Uma jornalista inglesa apresenta o critério de seleção das notícias mundo afora:
− Sempre que eu via uma mulher bósnia, uma mulher branca, eu sentia que ela poderia ser minha mãe. Aqui em Ruanda são só africanos.
Mas a repórter ainda tem tempo para se armar com o microfone e transferir o ônus do genocídio para o capitão inerte da ONU:
REPÓRTER: O senhor qualificaria as ações da maioria étnica hutu como um genocídio?
CAPITÃO (belga) DA ONU: (Hesita e gagueja antes de falar): Não sei exatamente, seria preciso quantificar as mortes. De qualquer forma, estamos aqui para observar a paz.
A paz entre os cadáveres – e o cães.
REPÓRTER: Mas o senhor sabe que, se estivermos diante de um genocídio, a ONU tem a obrigação de intervir... (As reticências tentam apresentar ao leitor e potencial espectador de Tiros em Ruanda a interrupção abrupta da entrevista por conta do punho do capitão contra a câmera.)
Mas ainda há tempo para agir: enfim o capitão recebe ordens de seu alto comando. “É hora de partir, padre”. Se o militar se lembrasse das aulas de catecismo, teria uma citação evangélica na ponta da língua para fazer com que Jesus Cristo caminhasse não sobre as águas, mas sobre os corpos de Ruanda:
− É hora de partir, padre. Deixemos que os mortos enterrem os mortos.
Mas ainda há tempo para suplicar: um representante tutsi se dirige ao capitão da ONU com uma carta. “Um último pedido, capitão”.
− Nós, refugiados tutsis da Escola Técnica Oficial, suplicamos aos soldados das Nações Unidas que nos fuzilem. Será muito mais rápido e indolor do que morrer sob os facões hutus. Por favor, matem primeiro nossas crianças, poupem-nas do sofrimento!
A câmera dá um close no rosto do capitão belga.
Os tutsis revisitam a descoberta dos prisioneiros de Auschwitz: em campos de concentração e de refugiados, a morte deixa de ser uma temeridade. A morte redime.
A câmera continua a dar um close na máscara do capitão da ONU.
O último pedido dos condenados ruandeses não poderá ser realizado. Afinal, as Nações Unidas não empregam assassinos. Monitorar a paz implica não fazer a guerra. Monitorar a paz implica terceirizar a guerra. O capitão belga não fará as pazes com o passado imperialista de sua nação. Não haverá tiros de misericórdia em Ruanda.
*Flávio Ricardo Vassoler é mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP e escritor. Seu primeiro livro, O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos), será lançado no dia 20 de abril, às 18h, na livraria Martins Fontes – Avenida Paulista, 509, ao lado da estação Brigadeiro do metrô. Link com mais informações: http://subsolodasmemorias.blogspot.com.br/2013/03/lancamento-do-livro-o-evangelho-segundo.html. Periodicamente, atualiza o Subsolo das Memórias, www.subsolodasmemorias.blogspot.com, página em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.
Dedico este texto à minha querida amiga Vânya Tsutsui, que neste momento trabalha em Ruanda para que tutsis e hutus convivam pacificamente apesar da Lei de Talião que o colonizador europeu lhes legou.
Eis a epígrafe de Tiros em Ruanda (2005), filme dirigido por Michael Caton-Jones. Eis o caos legado pelos antigos colonizadores belgas. Consta que antes da chegada dos europeus, não havia hostilidade entre tutsis e hutus. Mas é preciso dividir para reinar. Assim, os belgas decidem arregimentar entre os nativos os negros com traços menos africanos para estabelecer um governo colonizador híbrido. Administração eugênica: os tutsis seriam mais altos, teriam narizes mais afilados. Segundo os parâmetros protonazistas dos colonizadores, não poderiam ser considerados europeus, mas tampouco seriam rebaixados a hutus. “Sub-humanos” elevados a cargos administrativos sob a tutela belga.
Com o processo de descolonização do continente africano após a Segunda Guerra, os belgas saíram de cena. A maioria hutu, então, começou a dar vazão ao ressentimento colonial. Já que os europeus não poderiam ser batidos, que tal aniquilar a minoria étnica que tratava os hutus como escravos? Outrora apêndices dos senhores brancos, os tutsis passaram a ser chamados de baratas. (No que os hutus se mostraram bons estudantes de história: afinal, o antissemitismo europeu não tratara os judeus como piolhos?) Que fazemos com as baratas? Os leitores de Franz Kafka bem conhecem as agruras pelas quais o jovem Gregor Samsa teve que passar após sofrer A metamorfose (1915) que o transformou em um inseto.
− Inseto tutsi! – arrematariam os genocidas hutus munidos de seus facões ensanguentados.
Em abril de 1994, um golpe de Estado hutu faz a paz se esgueirar entre os escombros. Os tutsis tentarão rezar, mas logo haverá bem mais do que choro e ranger de dentes. As comportas do caos serão abertas. Haverá o silêncio impassível de mais de 800 mil cadáveres étnicos.
Uma Escola Técnica Oficial (ETO) se transforma em base para os soldados da ONU e em inusitado campo de refugiados tutsis. Os soldados irão intervir no massacre? Corpos e mais corpos retalhados se amontoam ao redor da ETO. Os hutus desconhecem a matança clínica e industrial dos campos de concentração europeus. Os facões picam os corpos como outrora cortavam a relva pela mão dos escravos que agora só querem retaliação. Os soldados da ONU irão intervir no massacre?
− Não somos pacificadores, isto é, não estamos aqui para manter a paz. Estamos aqui para observá-la e monitorá-la. Só podemos disparar em legítima defesa. E a utilização das metralhadoras requer autorização prévia do comando subordinado ao Conselho de Segurança.
A Organização das Nações Unidas protege os direitos humanos: os 40 europeus que haviam se refugiado na ETO logo são levados ao aeroporto de Kigali sob forte escolta da Legião Francesa. A Organização das Nações Unidas vela os detritos humanos: os tutsis sitiados na ETO ficarão sob a proteção dos soldados até que o alto comando faça os militares bater em retirada. Então, os rebeldes poderão cruzar os portões para cumprir os desígnios da rádio hutu:
− Quem vai encher os túmulos vazios? As baratas estão escondidas nas igrejas! As baratas estão escondidas nas escolas!
Mas não, não: os soldados irão intervir no massacre. Os cachorros ruandeses – o manual do colonizador não especificou se os cães seriam tutsis ou hutus – começam a devorar os cadáveres. “Eis um risco gravíssimo de contaminação!” O capitão pede ao padre, o responsável pela ETO, que acalme os tutsis ainda vivos. “Vamos atirar nos cães. Eles não podem continuar a devorar os mortos. Para que não haja pânico, avise a todos que, por ora, os tiros serão amigos”. Enfurecido diante de um mundo que seu Deus parece ter abandonado, o padre prega ao capitão não o Sermão da Montanha, mas o Sermão da Estepe:
− Vocês não têm permissão para atirar apenas em legítima defesa? Por que então pretendem alvejar os cães? Acaso eles lhes fizeram algum mal? Os cadáveres não podem mais comer, mas os cachorros ainda sentem fome – os cães que vocês querem matar e os cachorros humanos. Os cães não sabem que estão comendo seres humanos. Mas os tutsis sabem que serão devorados.
O clérigo tenta romper a inércia da ONU de todas as formas. Jornalistas já não se interessam pelo destino dos tutsis. “Afinal, o que há de novo em uma guerra civil africana?” Mas as câmeras se põem a postos quando o padre revela que há europeus na ETO. Enquanto Ruanda sangra aos olhos indiferentes do Ocidente, a Bósnia ariana recebe as forças de intervenção das Nações Unidas. Uma jornalista inglesa apresenta o critério de seleção das notícias mundo afora:
− Sempre que eu via uma mulher bósnia, uma mulher branca, eu sentia que ela poderia ser minha mãe. Aqui em Ruanda são só africanos.
Mas a repórter ainda tem tempo para se armar com o microfone e transferir o ônus do genocídio para o capitão inerte da ONU:
REPÓRTER: O senhor qualificaria as ações da maioria étnica hutu como um genocídio?
CAPITÃO (belga) DA ONU: (Hesita e gagueja antes de falar): Não sei exatamente, seria preciso quantificar as mortes. De qualquer forma, estamos aqui para observar a paz.
A paz entre os cadáveres – e o cães.
REPÓRTER: Mas o senhor sabe que, se estivermos diante de um genocídio, a ONU tem a obrigação de intervir... (As reticências tentam apresentar ao leitor e potencial espectador de Tiros em Ruanda a interrupção abrupta da entrevista por conta do punho do capitão contra a câmera.)
Mas ainda há tempo para agir: enfim o capitão recebe ordens de seu alto comando. “É hora de partir, padre”. Se o militar se lembrasse das aulas de catecismo, teria uma citação evangélica na ponta da língua para fazer com que Jesus Cristo caminhasse não sobre as águas, mas sobre os corpos de Ruanda:
− É hora de partir, padre. Deixemos que os mortos enterrem os mortos.
Mas ainda há tempo para suplicar: um representante tutsi se dirige ao capitão da ONU com uma carta. “Um último pedido, capitão”.
− Nós, refugiados tutsis da Escola Técnica Oficial, suplicamos aos soldados das Nações Unidas que nos fuzilem. Será muito mais rápido e indolor do que morrer sob os facões hutus. Por favor, matem primeiro nossas crianças, poupem-nas do sofrimento!
A câmera dá um close no rosto do capitão belga.
Os tutsis revisitam a descoberta dos prisioneiros de Auschwitz: em campos de concentração e de refugiados, a morte deixa de ser uma temeridade. A morte redime.
A câmera continua a dar um close na máscara do capitão da ONU.
O último pedido dos condenados ruandeses não poderá ser realizado. Afinal, as Nações Unidas não empregam assassinos. Monitorar a paz implica não fazer a guerra. Monitorar a paz implica terceirizar a guerra. O capitão belga não fará as pazes com o passado imperialista de sua nação. Não haverá tiros de misericórdia em Ruanda.
*Flávio Ricardo Vassoler é mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP e escritor. Seu primeiro livro, O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos), será lançado no dia 20 de abril, às 18h, na livraria Martins Fontes – Avenida Paulista, 509, ao lado da estação Brigadeiro do metrô. Link com mais informações: http://subsolodasmemorias.blogspot.com.br/2013/03/lancamento-do-livro-o-evangelho-segundo.html. Periodicamente, atualiza o Subsolo das Memórias, www.subsolodasmemorias.blogspot.com, página em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.
Dedico este texto à minha querida amiga Vânya Tsutsui, que neste momento trabalha em Ruanda para que tutsis e hutus convivam pacificamente apesar da Lei de Talião que o colonizador europeu lhes legou.
Fonte: http://www.cartamaior.com.br
sábado, 6 de abril de 2013
Nossa política de boa vizinhança: um ensaio de Noam Chomsky - por DCM
Nossa política de boa vizinhança: um ensaio de Noam Chomsky
O que move a política externa dos Estados Unidos.

O ditador Castelo Branco com o embaixador americano Lincoln Gordon, que participou da conspiração que levou à queda de uma democracia

O ditador Castelo Branco com o embaixador americano Lincoln Gordon, que participou da conspiração que levou à queda de uma democracia
Abaixo, um trecho do livro ‘O que Tio Sam Realmente Quer’, do escritor americano Noam Chomsky. Ele mergulha, nesta passagem, na política externa dos Estados Unidos, e dedica várias linhas ao Brasil.
Vamos focalizar a América Latina, e começar olhando para os direitos humanos. Um estudo feito por Lars Schoultz, um destacado acadêmico especialista em direitos humanos da América Latina, mostra que “a ajuda norte-americana tende a ser desproporcionalmente distribuída para os governos “latino-americanos que torturam seus cidadãos”.
Não tem nada a ver com quanto o país precisa de ajuda, somente com sua disposição em servir à riqueza e ao privilégio.
Estudos mais profundos, feitos pelo economista Edward Herman, revelam uma estreita correlação em todo o mundo entre a tortura e a ajuda norte-americana e fornecem uma explicação: ambas se correlacionam com a melhoria das condições de operações das empresas. Em comparação com este guia de princípios morais, assuntos tais como tortura e carnificina caem na insignificância.
E a elevação do padrão de vida? Isso foi supostamente tratado na Aliança para o Progresso pelo presidente Kennedy, mas o tipo de desenvolvimento imposto foi direcionado, em sua maior parte, para as necessidades dos investidores norte-americanos. A Aliança fortificou e ampliou o sistema vigente, pelo qual os latino-americanos produzem colheitas para exportação e reduzem as colheitas de subsistência, como milho e feijão, cultivadas para o consumo local. Com o programa da Aliança, por exemplo, a produção de carne aumentou, enquanto o consumo interno de carne diminuiu.
Esse modelo agroexportativo de desenvolvimento, em geral, produz um “milagre econômico” em que o PNB – Produto Nacional Bruto – sobe, enquanto a maioria da população morre de fome. Quando se segue tal orientação política, a oposição popular aumenta, o que, então, se reprime com terror e tortura.
(O uso do terror é profundamente arraigado em nosso caráter. Nos idos de 1818, John Quincy Adams elogiou a “eficácia salutar” do terror em se tratando das “hordas misturadas de índios e negros sem lei”. Ele escreveu isso para justificar a violência de Andrew Jackson, na Flórida, que praticamente exterminou a população nativa e deixou a província espanhola sob o controle americano, impressionando muito Thomas Jefferson e outros mais com sua sabedoria.)
O primeiro passo é o uso da polícia; ela é decisiva porque sabe detectar logo o descontentamento e eliminá-lo antes da “grande cirurgia” (como é chamada nos documentos de planejamento) ser necessária. Se a “grande cirurgia” for necessária, nós contamos com o Exército. Quando não conseguimos mais controlar o Exército dos países da América Latina – particularmente a região do Caribe e da América Central – é tempo de derrubar o governo.

Em 1954, os americanos derrubaram o presidente da Guatemala e puseram em seus lugar militares, para proteger os interesses de suas empresas

Em 1954, os americanos derrubaram o presidente da Guatemala e puseram em seus lugar militares, para proteger os interesses de suas empresas
Os países que tentaram inverter as regras, como a Guatemala, sob os governos capitalistas democráticos de Arévalo e Arbenz, ou a República Dominicana, sob o regime capitalista democrático de Bosch, tornaram-se alvo da hostilidade e da violência dos Estados Unidos.
O segundo passo é utilizar os militares. Os EUA sempre tentaram estabelecer relações estreitas com os militares de países estrangeiros, porque essa é uma das maneiras de derrubar um governo que saiu fora do controle. Assim foram assentadas as bases para os golpes militares no Chile, em 1973, e na Indonésia, em 1965.
Antes desses golpes, éramos bastante hostis aos governos do Chile e da Indonésia, mas continuávamos enviando armas. Mantenha boas relações com os oficiais certos e eles derrubarão o governo para você. O mesmo raciocínio motivou o fluxo de armas dos Estados Unidos para o Irã via Israel, desde o início de 1980. De acordo com altos oficiais israelenses envolvidos, esses fatos eram conhecidos já em 1982, muito antes de haver reféns.
Durante o governo Kennedy, a missão dos militares latino-americanos, dominados pelos EUA mudou de “defesa hemisférica” para “segurança interna” (que basicamente significa guerra contra a própria população). Essa decisão fatídica implicou a “direta cumplicidade [dos Estados Unidos]” com “os métodos dos esquadrões de extermínio de Heinrich Himler”, no julgamento retrospectivo de Charles Maechling, que foi encarregado do planejamento de contra-insurgência, de 1961 a 1966.
O governo Kennedy preparou o caminho para o golpe militar no Brasil em 1964, ajudando a derrubar a democracia brasileira, que se estava tornando independente demais. Enquanto os Estados Unidos davam entusiasmado apoio ao golpe, os chefes militares instituíam um estado de segurança nacional de estilo neonazista, com repressão, tortura, etc. Isso provocou uma explosão de acontecimentos semelhantes na Argentina, no Chile e em todo o hemisfério, desde os meados de 1960 até 1980 – um período extremamente sangrento.
(Eu penso, falando do ponto de vista legal, que há um motivo bem sólido para acusar todos os presidentes norte-americanos desde a Segunda Guerra Mundial. Eles todos têm sido verdadeiros criminosos de guerra ou estiveram envolvidos em crimes de guerra.)
Os militares agem de maneira típica para criar um desastre econômico, seguindo frequentemente receita de conselheiros norte-americanos, e depois decidem entregar os problemas para os civis administrarem. Um controle militar aberto não é mais necessário, pois já existem novas técnicas disponíveis, por exemplo, o controle exercido pelo Fundo Monetário Internacional (o qual, assim como o Banco Mundial, empresta fundos às nações do Terceiro Mundo, a maior parte fornecida em larga escala pelas potências industriais).
Em retribuição aos seus empréstimos, o FMI impõe a “liberalização”: uma economia aberta à penetração e ao controle estrangeiros, além de profundos cortes nos serviços públicos em geral para a maior parte da população, etc. Essas medidas colocam o poder decididamente nas mãos das classes dominantes e de investidores estrangeiros (“estabilidade”), além de reforçar as duas clássicas camadas sociais do Terceiro Mundo – a dos super-ricos (mais a classe dos profissionais bem sucedidos que a serve) e a da enorme massa de miseráveis e sofredores.

Pinochet foi fruto dos Estados Unidos

Pinochet foi fruto dos Estados Unidos
A dívida e o caos econômico deixados pelos militares garantem, de forma geral, que as regras do FMI serão obedecidas – a menos que as forças populares queiram entrar na arena política. Neste caso, os militares talvez tenham de reinstalar a “estabilidade”.
O Brasil é um exemplo esclarecedor desse caso. Sendo um país muito bem dotado de recursos naturais, além de ter um alto desenvolvimento industrial, deveria ser uma das nações mais ricas do mundo. Mas graças, em grande parte, ao golpe de 1964 e ao tão aclamado “milagre econômico” que se seguiu ao golpe (sem falar nas torturas, assassinatos e outros instrumentos de “controle da
população”), a situação de muitos brasileiros foi, durante muitos anos, provavelmente parecida com a da Etiópia – e bem pior que a da Europa Oriental, por exemplo.
Em 1993, três décadas depois do golpe militar, o Brasil tinha uma taxa de mortalidade infantil maior que a do Sri Lanka. Um terço da população vivia abaixo da linha da miséria e, nas palavras de uma revista dedicada aos países pobres, “sete milhões de crianças abandonadas pediam esmola, roubavam e cheiravam cola nas ruas. E para milhares delas a casa era um barraco na favela… ou cada vez mais um pedaço de terra embaixo da ponte”.
Isso é o Brasil, um dos países de natureza mais rica do planeta. A situação era semelhante em toda a América Latina. Apenas na América Central o número de pessoas assassinadas pelas forças apoiadas pelos EUA, desde o final de 1970 até meados dos anos 1990, girava em torno de duzentos mil, ao mesmo tempo que os movimentos populares, que visavam obter a democracia e a reforma social, foram dizimados.
Essas façanhas qualificam os Estados Unidos como fonte de “inspiração para o triunfo da democracia em nosso tempo”, nas admiráveis palavras da revista liberal New Republic. Tom Wolfe conta-nos que a década de 1980 foi “um dos grandes momentos de ouro da humanidade”. Como diria Stalin: “Estamos deslumbrados com tanto sucesso.”
Violência, a marca do poder masculino – por Henrique Carneiro
Violência, a marca do poder masculino
Vasta sequência de dados revela: desde pré-história, domínio machista está associado à especialização cultural dos homens no exercício da força bruta
A masculinidade, como todas as identidades, é social e historicamente construída em cada sociedade. Em quase todas, entretanto, há uma especialização masculina na violência.
Partilhamos de uma herança ocidental que traz nos étimos da própria língua os traços arcaicos, mas presentes, de formas de pensamento de longa duração. O radical latino que identifica o masculino, vir, é o mesmo que formará a palavra virtude, definindo a própria noção de virtude como algo masculino e, portanto, guerreiro. A violência viril é um emblema da masculinidade que nasce com as primeiras civilizações e permanece como essência do próprio conceito de civilização, uma civitas apenas de homens, mesmo quando concebida na forma republicana ilustrada moderna[1], onde mesmo o direito de voto feminino foi mais que tardio.
Tal situação nem sempre ocorreu. Mesmo que a ideia de um matriarcado historicamente anterior ao advento das civilizações patriarcais não seja algo demonstrável de forma generalizada, inúmeros autores admitem que “os namoros, dos quais dizem que Zeus teria cultivado com Metis, Themis, Eurinome, Demeter, Leto, Hera, Semele, Alkmena, etc., não são apenas expressões de antigas relações sexuais patriarcais, mas também ressonância de uma vitória de grande amplitude, que, no espaço do Mediterrâneo, tribos patriarcais haviam conquistado sobre tribos organizadas por matriarcado”[2]. A literatura antropológica também é rica de relatos de sociedades indígenas mais igualitárias e com papéis sexuais de gênero muito diversificados[3].
Apesar de referências antigas às deusas mães e a existência de descendências predominantemente matrilineares em certas culturas, o domínio patriarcal sobre a narrativa da história foi universal, atingindo até a pré-história.
O debate arqueológico também foi um campo no qual se construiu uma visão idealizada da supremacia masculina a partir da força física e da prática da caça da megafauna, praticada por homens, quando outros estudos vêm apontando, pelo contrário, o papel central da mulher e da sociabilidade feminina ligada ao parto assistido e à presença crescente do hormônio oxitocina, e à ideia da cooperatividade como padrão cultural bem sucedido na história da humanidade[4]. A “revolução criativa” de cerca de 40 mil anos atrás foi o resultado de uma sociotropia baseada no interacionismo cooperativo que levou aos utensílios complexos, à imagística e à arquitetura e não uma suposta “corrida armamentista do Paleolítico superior” de machos caçadores.
Foi o guerreiro masculino, entretanto, que despontou como o grande agente da história das civilizações. Briseida, como cativa de guerra de Aquiles, no relato da Ilíada, de Homero, é um exemplo prototípico do papel de prendas sexuais, de botim humano, que as mulheres foram submetidas ao longo de boa parte da história da humanidade[5]. Uma formulação explícita dessa ideia se encontra em Adolf Hitler, que escreveu em Mein Kampf que “as mulheres (…) assim também as massas gostam mais dos que mandam do que dos que pedem”.
Essa condição de uma atribuição guerreira ao homem e de pilhagem para a predação sexual à mulher acompanhou as sociedades humanas das primeiras civilizações ao século XX. Na segunda guerra mundial, a violência sexual contra mulheres alcançou dimensões quase sistemáticas, especialmente na vingança contra a população alemã desencadeada pelos exércitos vitoriosos, especialmente o soviético no front oriental[6]. No final do século XX, o uso do estupro como arma de guerra continuou a ocorrer em massa, da ex-Iugoslávia ao Congo.
Os homens são responsáveis, mesmo em “tempos de paz”, por 90% de todos os assassinatos cometidos na atualidade no mundo e por praticamente 100% dos estupros. Isso não deve, entretanto, nos levar a aceitar a tese do senso-comum de que o homem é naturalmente (“biologicamente”) mais propenso à violência do que a mulher. No artigo “Why Are Men So Violent?”[7], por exemplo, Jesse J. Prinz argumenta contra os que vêm determinações biológicas na maior propensão masculina à violência refutando a tese do “macho guerreiro” por natureza. As formações sociais surgidas após o Neolítico tenderam a reforçar o poder patriarcal e as condições históricas das representações da masculinidade como violência reforçaram as formas materiais da desigualdade no trabalho, na reprodução e na família.
A menor incidência feminina nos crimes violentos não impediu que muitas mulheres também cometessem assassinatos, mas no panorama europeu do final do século XIX, poucas eram as condenadas por esses crimes, especialmente se fossem mulheres de classes sociais mais abastadas. A tendência dos tribunais naquela época, sobretudo na França, sempre foi de absolvição dos crimes passionais femininos, sob o argumento da maior fragilidade emocional e mental feminina e sua maior suscetibilidade aos rompantes de passionalidade.
Os homens tinham o direito público à expressão da violência, não só como soldados nas guerras, mas por meio da ritualização masculina da ofensa à honra e sua reparação por meio do desafio ao duelo. Às mulheres, vetado seu espaço no teatro masculino da violência “honrada” em conflitos bélicos ou em duelos pessoais, restava um uso de violência por meios espetaculares emblemáticos, como os ataques com ácido sulfúrico, conhecido como vitríolo, que fez da mulher “vitriólica” uma expressão particular de uma violência vista como especificamente feminina: a da “criminosa passional”. Com a emoção excessiva, a mulher era vista sempre como uma histérica em potencial, e na visão médica oficial, a “superficialidade, infantilismo, imprevisibilidade e sugestionabilidade” eram as características femininas[8]. Isso, que também era chamado de “caráter mercurial”, opunha-se ao ideal de masculinidade do absoluto “sangue frio” diante do risco, da dor e da morte. Nesse aspecto, o duelo foi um emblema dessa identidade masculina e proibido às mulheres. Ao resenhar três livros sobre o assunto em “The Duel in the History of Masculinity” W. Scott Haine resume o enfoque historiográfico europeu sobre o tema[9].
A noção de “código de honra” com origem medieval evoluiu na época moderna para contemplar a burguesia em um novo padrão de conduta e num novo ideal de masculinidade que buscava disciplinar três atividades correlatas ligadas à agressividade e à competitividade que definiam o modelo de comportamento ético masculino: a guerra, o duelo e o esporte.
O código de honra masculino que regeu os duelos era um código costumeiro que subsistiu mesmo diante da proibição formal dos duelos, feita na França por Richelieu, assim como em outros países nos quais o estado moderno absolutista buscou um monopólio da violência.
Com a publicação de um novo código dos duelos na França em 1836 pelo conde de Chatauvillard, o Essai sur le duel, estabeleceu-se a primazia do duelo por esgrima até o “primeiro sangue”, o que fazia ser mínimo o número de mortes. Na Inglaterra, após 1850 também declinou a moda dos duelos. Mas na França ela se manteve numa média de 200 por ano subindo quando havia crises políticas como o caso Dreyfus. Na Alemanha, um padrão mais aristocrático militar prevaleceu fazendo da pistola a arma por excelência dos duelos, o que causava falecimentos em ao menos um quinto deles. Havia menos duelos na Alemanha, mas com resultados muito mais mortíferos. Até mesmo uma figura como o líder socialista F. Lassalle envolveu-se em um duelo, morrendo por isso em 1864. Embora formalmente proibido, até mesmo o chanceler Bismarck desafiou em 1865 o político e cientista Virchow a um duelo que não se realizou.
Na Itália moderna e contemporânea os duelos teriam perdurado mais tempo do que em qualquer outro país europeu e o próprio Mussolini teria participado ao menos de cinco quando jovem[10]. O modelo de identidade hipermasculina da Itália teria, dessa forma, muito a ver com a exaltação da violência agonística ritualizada.
No Brasil, o duelo sempre foi proibido, mas mesmo assim realizado. Como escreve J. R. M. Remedi, “em razão da proibição vigente desde os tempos coloniais das práticas de duelos, era considerado um crime lesa-majestade, ou seja, contra a honra do próprio imperador”, mas, “apesar de proibido pela lei brasileira, os duelos eram mais frequentes que imaginamos e, raramente, produziam condenações maiores aos praticantes”[11]. O caso mais célebre talvez seja o que envolveu o general Bento Gonçalves que, em 1844, considerando-se insultado desafiou seu camarada de armas, o coronel Onofre Pires, ambos líderes da revolução Farroupilha, e este último, ferido, acabou morrendo após alguns dias.
Esse duelo é emblemático, pois ambos os contendores eram primos-irmãos e amigos e camaradas de armas havia trinta anos. Bento, general dos Farrapos, começou a ser questionado pela facção liderada por David Canabarro, à qual se passou Onofre Pires. Após intrigas e acusações, Bento escreve uma carta pedindo confirmação das acusações e Onofre escreve outra confirmando, o que leva Bento a desafiá-lo ao duelo de espadas. Na manhã de 27 de fevereiro de 1844, vão a cavalo para um local onde lutam e, mesmo sendo mais jovem que Bento em 11 anos e de imensa estatura, Onofre é ferido no antebraço direito. O duelo acaba, o próprio Bento o socorre, mas a ferida gangrena e ele morre em poucos dias. Esse duelo, que foi tema de vasta literatura[12] e é encenado até hoje em comemorações de tradições gaúchas, sintetiza a tragédia da violência por honra que irrompe entre homens que se amavam como irmãos, mas chegam a se ferir de morte duelando.
A honra era ferida por palavras proferidas em público sem que tivesse havido posteriores desculpas também públicas, o que trazia ao ofendido, caso não buscasse uma reparação, a pior das vergonhas. A ofensa podia ser também a uma mulher, por palavras ou atos, o que levaria imediatamente aos seus parentes diretos a necessidade de restaurá-la por meio do sangue. Nesse caso, a escolha das armas cabia ao ofendido, sendo tradicional também no Brasil a opção entre a espada e a pistola. No caso gaúcho, especialmente na cultura da fronteira, uma modalidade de duelo comum era com o uso de facas.
Da mesma forma que no código francês de 1836, também no Brasil eram “frequentes os relatos dos duelos cavalheirescos em que os tiros são disparados para o alto, sem intenção de ferir o oponente. Tal situação se dava devido ao entendimento de que bastava entre homens de honra colocar-se de peito aberto frente a uma pistola para provar a sua coragem e resolução. Assim como muitos duelos acabavam nos primeiros ferimentos que vertessem sangue, quase sempre com a enunciação da conhecida sentença: um gota de sangue de um homem honrado é suficiente para retirar as nódoas da ofensa”.[13]
O estado mental da violência é assemelhado às vezes ao da fúria e, na busca dessa condição, os homens usaram, muitas vezes em condições de monopólio de gênero, drogas psicoativas capazes de alterar a consciência e aumentar a predisposição para a violência. A mais comum dessas drogas sempre foi o álcool, proibido ou censurado para as mulheres em muitas sociedades.
No livro Selvagens bebedeiras, João Azevedo Fernandes mostra como o uso das bebidas alcoólicas para fins de agonismo masculino, ou seja, de disputa e combate, foi uma característica marcante das sociedades ameríndias, servindo para a construção do “ethos guerreiro”.
Esse beber viril continuou a existir na cultura masculina dos bares, em que a quantidade de bebida ingerida equivalia à suposta masculinidade que se buscava demonstrar. Como escreve Jack London, em suas Memórias alcoólicas, “quando moço, graças à taverna escapei às limitações da influência feminina e me lancei no vasto e livre mundo dos homens” (p.14).
No Brasil, a cultura da aguardente foi fundamental para o desempenho da mão de obra escrava, especialmente no âmbito da mineração. Mais tarde, a vida urbana nacional também conheceu um uso de bebidas que eram servidas em estabelecimentos específicos, de frequência majoritariamente masculina.
O beber como “macho” toma também uma forma de duelo, em que se disputa a capacidade de ingerir maiores quantidades em menor tempo. O ambiente do bar se constitui como o espaço de socialização prioritário do trabalhador masculino, em contraposição ao ambiente doméstico governado pelos princípios femininos da vida familiar.
Em contraposição a essa vida pública masculina nos espaços da alcoolização, emergiu desde o século XIX um discurso médico, de matriz eugenista, que condenava as bebidas alcoólicas sob o argumento de que elas comprometem a masculinidade tanto organicamente, por provocarem impotência, atrofia dos testículos e até mesmo a morte, como do ponto de vista moral, por afastarem os homens da família e do trabalho[14].
O declínio da prática dos duelos no mundo ocidental foi acompanhado da institucionalização cada vez maior dos esportes como arena das disputas masculinas, onde a própria esgrima e as artes marciais em geral assumiram cada vez mais a condição de uma prática esportiva do que de uma luta. Por essa razão, a participação feminina nos esportes foi muito limitada até o final do século XX. Mesmo em maratonas, mulheres não eram admitidas até os anos de 1970. A elevação do duelo esportivo à condição emblemática da disputa viril ritualizada com violência atenuada pode se verificar numa pesquisa da ocorrência da palavra “duelo” num programa de busca na Internet, em que praticamente todas as menções vão tratar de esportes.
O exercício da violência como prerrogativa masculina extravasou a esfera direta do conflito militar para investir toda a representação da masculinidade com os seus atributos: códigos de honra como “códigos de cavalheiros” na ritualização da agressividade e no seu direcionamento a formas atenuadas de disputa, tanto no âmbito dos esportes, como nos duelos e nas práticas de ingestão alcoólicas, todas codificadas como exercícios de masculinidade. A virilidade assim se constitui como um conjunto de hábitos e símbolos, como vícios da violência codificada e protocolada em que o lutar, o jogar, o beber, o brigar são socialmente moldados como representações do duelo, de forma a inscrever a diferença dos sexos num teatro social em que o protagonismo da violência literal e simbólica é estabelecida como a virtude por excelência dos homens, mesmo que estes cenários venham sendo, nas últimas décadas, alterados pela emergência dos movimentos feministas e de igualdade de direitos que conquistaram para as mulheres espaços crescentes na vida pública, nos esportes, no consumo alcoólico e mesmo nas atividades militares.
do Blog Convergência | Imagem: AntoonVan Dyck, Sansão e Dalila (1630)
Henrique Carneiro é historiador, bacharel, mestre e doutor em História Social pela USP. Professor na cadeira de História Moderna no Departamento de História da USP (Universidade de São Paulo), é também pesquisador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (NEIP).
Referências bibliográficas:
BESSEL, Richard, Alemanha, 1945, São Paulo, Companhia das Letras, 2010.
FERNANDES, João Azevedo, Selvagens bebedeiras. Álcool, embriaguez e contatos culturais no Brasil colonial (séculos XVI-XVII), São Paulo, Alameda, 2011.
HARRIS, Ruth, Assassinato e loucura. Medicina, leis e sociedade no fin de siècle, Rocco, Rio de Janeiro, 1993.
LONDON, Jack, Memórias alcoólicas, São Paulo, Editora Paulicéia, 1993.
MATOS, Maria Izilda Santos de, Meu lar é um botequim. Alcoolismo e masculinidade, São Paulo, CEN, 2000.
REMEDI, José Martinho Rodrigues, Palavras de Honra: um estudo acerca da honorabilidade na sociedade sul-rio-grandense no século XIX, a partir dos romances de Caldre e Fião, Tese de Doutorado em História apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História, Área de Concentração: Estudos Históricos Latino-Americanos, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos-UNISINOS, São Leopoldo- RS, 2011.
TÜCKER, Christoph, Filosofia do sonho, Ijuí, Editora Unijuí, 2010.
Notas:
[1] Para uma crítica feminista à história da dominação masculina no campo da teoria política do contrato, vide O Contrato sexual, de Carole Pateman (São Paulo, Paz e Terra, 1993)
[2] C. Tücker, Filosofia do sonho, Ijuí, Editora Unijuí, 2010, p.61.
[3] Eleanor B. Leacock, em Myths of Male Dominance. Collected Articles on Women Cross-Culturally (Monthly Review Press, 1982) traz uma ampla discussão sobre esta temática revendo as teses de Morgan, Bachofen, Engels, etc.
[4] Vide Sexo invisível. O verdadeiro papel da mulher na pré-história, J. M. Adovasio; Olga Soffer e Jake Page, Rio de Janeiro, Record, 2009.
[5] Sobre as relações entre as identidades masculinas e a prática da guerra e a história dos códigos cavalheirescos vide Robert A. Nye, Western Masculinities in War and Peace, The American Historical Review, vol. 112, nº 2, abril de 2007, inhttp://www.historycooperative.org/journals/ahr/112.2/nye.html
[6] Richard Bessel, em Alemanha, 1945 (p.151) escreve que “a necessidade de humilhar a outrora poderosa e agora impotente “raça dominante” era muito forte. Isso, e não apenas o desejo sexual desenfreado, é que parece ter estimulado a maior parte da violência sexual das tropas invasoras na Alemanha em 1945.”
[7] Jesse J. Prinz, in http://my.psychologytoday.com/print/86893
[8] Vide Ruth Harris, Assassinato e Loucura. Medicina, leis e sociedade no fin de siècle (Rio de Janeiro, Rocco, 1993), p.247.
[9] Comentando desde o livro de V. G. Kiernan, The Duel in European History: Honor and the Reign of Aristocracy (Oxford: Oxford University Press, 1986) até três livros mais recentes: Peter Gay, The Cultivation of Hatred. Vol. III, The Bourgeois Experience: Victoria to Freud (New York and London: W. W. Norton & Co., 1993); Kevin McAleer, Dueling: The Cult of Honor in fin-de-siècle Germany (Princeton: Princeton University Press, 1994) e Robert A. Nye, Masculinity and Male Codes of Honor in Modern France. Studies in the History of Sexuality (New York and Oxford: Oxford University Press, 1993).
[10] Steven Hughes, Politics of the sword. Dueling, Honor, and Masculinity in Modern Italy, Ohio State University press, 2007.
[11] Palavras de Honra: um estudo acerca da honorabilidade na sociedade sul-rio-grandense no século XIX, a partir dos romances de Caldre e Fião, de José Martinho Rodrigues Remedi, Tese de Doutorado em História apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História, Área de Concentração: Estudos Históricos Latino-Americanos, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos-UNISINOS, São Leopoldo- RS, 2011, pp.216 e 220.
[12] A tese de J. M. R. Remedi trata especialmente da obra literária de José Antonio do Vale Caldre e Fião, cujo livro O Corsário: romance rio-grandense (1979) trata do tema do duelo.
[13] Idem, p.218.
[14] MATOS, Maria Izilda Santos de, Meu lar é um botequim. Alcoolismo e masculinidade, São Paulo, CEN, 2000.
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