sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A ameaça que vem de CUBA! - por Latuff

Fonte: http://latuffcartoons.wordpress.com/

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Escribas de Aluguel – por Emir Sader



Escribas de Aluguel
 
Somente depois do fim da ditadura passou a surgir no Brasil o fenômeno de artistas e intelectuais que, até ali, estavam nas filas da oposição democrática, passassem a buscar abrigo nos espaços das elites conservadoras. A própria forma que assumiu a transição favoreceu essa conversão.

Seu caráter conciliador entre o velho e o novo, chancelado pela aliança promiscua no Colégio Eleitoral entre o PMDB e o então PFL, no bojo do qual os que não ficavam com a candidatura de Paulo Maluf, recebiam o epíteto de “democratas” ou de “liberais”, como o próprio nome do partido originário da ditadura mencionava. Antonio Carlos Magalhães, Marco Maciel, José Sarney – entre outros – embarcaram nessa canoa e foram recebidos de braços abertos pelos que organizaram a transição conservadora da ditadura à democracia.

O processo de conversão de gente de esquerda para a direita tem uma longa história. O principal mecanismo para essa transição é a critica de erros – reais ou supostos – da esquerda, como justificativa para distanciar-se desta e caminhar – de forma célere ou lenta – para a adesão à direita. Passar da critica à demonização da URSS foi a forma clássica dessa transição. Se o projeto que encarnava o socialismo de Marx, Lenin, Trotski, tinha se degenerado tão brutalmente, haveria que jogar no lixo não apenas aquela primeira forma de existência de um projeto socialista, mas o socialismo e seus teóricos e dirigentes.

Faziam essa expurgação e eram acolhidos ou na social democracia ou – passando às vezes por aí como transição – diretamente para a direita. A teoria do totalitarismo teve o papel de tentar centrar o debate não na polarização capitalismo/socialismo, buscando identificar a URSS com o nazismo, Stalin com Hitler, todos na mesma canoa do totalitarismo.

Claro que não era apenas um processo de reconversão intelectual. Era um processo de reconversão de classe social. Quem fazia esse trajeto era acolhido e bem recompensado pela direita – com edição de livros de denuncia do comunismo ou da esquerda –, com amplas entrevistas na mídia conservadora, afora outras recompensas materiais.

Nada muito diferente do que acontece no mundo nas ultimas décadas. Os pretextos podem ser o fim da URSS – confundido com o fim do socialismo –, críticas levantadas pela direita sobre corrupção em partidos de esquerda, politicas que não respeitariam o meio ambiente, etc., etc. O objetivo é encontrar álibis para deixar de ser de esquerda.

As formas que essa conversão assume são, via de regra, pelos generosos espaços que a mídia de direita reserva carinhosamente aos que se dispõem a criticar sistematicamente a esquerda, com a suposta autoridade de quem foi de esquerda ou diz que foi. Contanto que não dirijam os fuzis que a direita lhes concede contra a própria direita.

Jornais como O Globo, O Estado de São Paulo, a Folha de São Paulo, a Veja, entre outros, estão cheios de esquerdistas “arrependidos”, que poupam seus patrões – que, todos, apoiaram o golpe de 1964 –, para concentrar seu fogo na esquerda – no PT, nos governos do Lula e da Dilma, na CUT, no MST, etc., etc.

São escritores e músicos em fim de carreira, que já não produzem nada que valha a pena há décadas, que vivem do seu passado e do serviço que prestam à direita. Ganham seu dinheirinho, têm seu espaço numa imprensa cada vez menos lida, ou na TV como clowns da burguesia.

Escribas de aluguel terminam suas carreiras – que às vezes tiveram algum brilho no passado – comendo da mão da direita oligárquica, fazendo ainda pose de artistas ou de intelectuais, odiando o Brasil que se transforma, se democratiza, apesar de e contra eles.

***
Emir Sader nasceu em São Paulo, em 1943. Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, é cientista político e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). 

Fonte:  http://blogdaboitempo.com.br/

Muito além do selinho… - por Latuff


Brasileiro detido em Londres é vítima de cão farejador dos EUA - por Latuff


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

[EUA] Entrevista a Mumia Abu-Jamal sobre a música negra - por ANA



[EUA] Entrevista a Mumia Abu-Jamal sobre a música negra

[Mumia conversa com Michael Coard sobre música negra desde os tempos da escravidão até a época do hip hop, passando por sua entrevista com Bob Marley em 1980. É o segundo episódio do Radio Prision Show realizado em 3 de julho em 900AM-WURD, na Filadélfia. Agora este programa se transmite todas as primeiras quartas-feiras de cada mês, às 11 horas da manhã, durante o último segmento do programa Radio Courtroom (Tribunal pela Rádio). Se perdeste o programa, leia a transcrição abaixo.]

Michael Coard > Este é o Radio Prision Show, um segmento do Radio Courtoom Show, aqui em 900AM WURD, apresentando Mumia Abu-Jamal. Vocês se lembrarão de que mês passado Mumia esteve conosco para a estreia do Radio Prision Show. Vamos conversar sobre vários temas, mas para alguns de vocês que talvez não conheçam o nome de Mumia Abu-Jamal, digamos que tem vivido em uma jaula durante as últimas duas décadas, permitam-me lhes dizer quem é: um pai, um esposo, um autor e um inquilino temporário de uma prisão, mas um revolucionário permanente. Sem mais delongas, aqui está conosco Mumia Abu-Jamal. Como está Mumia?

Mumia Abu-Jamal < Mais ou menos bem, Michael. É um bom dia para estar vivo. E um bom dia para estar conversando contigo.

Michael > Bem dito, Mumia. Tenho que te dizer que no mês passado quando fizemos nosso primeiro programa, a sala estava abarrotada, não sobravam assentos, se tal coisa é possível para um show de rádio. As pessoas ficaram assombradas. As convidei a mandar suas perguntas para conversar contigo sobre elas, mas disse que nos primeiros programas queremos escutar sua voz e o que tem a dizer. Agora estamos no mês de julho e você vai estar conosco nas primeiras quartas-feiras de cada mês. Mas uma das coisas que não tivemos a oportunidade de conversar contigo foi a respeito de música. Impressiona-me cada vez que escuto mais sobre você. O que quero dizer é que conheço seu trabalho para os despossuídos, os desamparados, conheço sua luta como revolucionário, mas esta não é a totalidade de Mumia Abu-Jamal. De fato, me interei ao conversar com outras pessoas que você sabe muito mais de música que alguns chamados profissionais da música. Alguém me perguntou por que não havia falado contigo mês passado sobre o mês da Música Negra e o que significa para você, o que significa para nosso povo e o que significa para os revolucionários, porque há aqueles que pensam que se você está ai, na primeira linha lutando pelas pessoas, não pode apreciar a música. Fale-nos sobre tudo isto, começando com a importância da música, se é que é importante, e em particular a música negra.

Mumia < Então, acho que a música negra tem uma importância vital. Quando pensa em nossos antepassados que chegaram principalmente de várias partes da África Ocidental, o que nos ajudou a suportar a noite escura da escravidão foi a música. Por que seria um crime tocar tambores? O que aprenderam os inteligentes observadores da gente africana foi que na África e em outras partes das Américas, era possível enviar mensagens sobre imensos espaços com os tambores. Assim se comunicaram e por isso o fizeram ilegal. O que fizemos é o que sempre fazemos. Usamos o que tínhamos para superar a situação e prevalecer. Os irmãos e irmãs em grilhetas bailaram. Seus pés descalços golpearam a terra. Bailaram. Cantaram. Deixa eu te dar um exemplo.

Michael > Sim, sim.

Mumia < Há vários anos li um livro autobiográfico escrito por uma das pessoas mais importantes das Américas. Chama-se “A Narrativa da Vida de Frederick Douglass”, publicado primeiro em 1845. Te dou uma breve citação.

Michael > Sim, por favor.

Mumia < É sobre o poder das canções que se conhecem como “as espirituais”, para que entenda. Diz: “Quando eu fui escravo não compreendi o significado profundo dessas canções rudes e aparentemente incoerentes, eu mesmo estava dentro do círculo, por isso não via, tampouco escutava o que alguém de fora poderia ver ou escutar. Contaram uma história de infortúnio que ia além de minha pobre compreensão. Os tons eram fortes, longos e profundos. Exaltaram as preces e queixas de almas que ferviam com a angústia mais amarga. Cada tom foi um testemunho contra a escravidão e uma oração a deus para libertá-los de suas correntes. Escutar essas notas selvagens sempre deprimia o meu espírito e me enchia de uma tristeza indescritível. Com frequência eu chorava ao escutá-las. Até agora a repetição dessas canções me aflige. E enquanto escrevo estas linhas uma expressão de sentimento me corre pelo rosto. Essas canções me levaram a minha primeira tênue percepção do caráter desumanizante da escravidão. Nunca posso me desfazer dela. Essas canções me perseguem para afiar meu ódio pela escravidão e avivar minha simpatia com meus irmãos e irmãs em grilhões”.

Este é Frederick Douglass quem nos dá um sentido da força que nossa gente conseguiu comunicar, do profundo sentimento que transmitiram em nossas “espirituais”, as quais eram nossa primeira forma de música nas Américas. Devido ao fato desta ser a nossa única maneira de se expressar, houve uma explosão, geração após geração de gente negra se expressando através da música. Este era o espaço onde dizíamos: somos seres humanos, exigimos liberdade e isto é o que sentimos. Era uma maneira de nos comunicarmos não só entre nós, senão com todo o mundo. E agora, que música negra não é mundial? O rap se escuta em cada canto do planeta. A música pode ser uma ferramenta revolucionária se usada corretamente.

Michael > Bem dito, Mumia, e me agrada que ao princípio de seu comentário deixou claro que estava citando a narrativa de vida de Frederick Douglass escrita em 1845. Se você não tivesse esclarecido, eu poderia ter pensado que se referia a John Coltrane em 1965.

Mumia < (risos) Soa assim, sério?

Michael > Absolutamente. É muito poderoso. Antes que se acabe o tempo Mumia, gostaria de escutar seu ponto de vista sobre o rap, sobre o hip hop. Tenho lido seus escritos sobre muitos artistas. O que diz agora? Eu dou aulas sobre hip hop e me parece que muitas pessoas que tem mais de 40 anos o desaprovam. Dizem que é destrutivo, que é negativo, que não tem nada a ver com os velhos tempos, com a idade dourada do hip hop. Que acha disso tudo?

Mumia < Se me permite, tenho duas respostas. Uma é de memória e outra é uma nota que escrevi em preparação para momentos como este.

Quando Miles, o grande Miles Davis ainda vivia e estava tocando todo tipo de música, algumas pessoas o criticavam por suas mudanças, suas adaptações, suas criações. E Miles, sendo Miles, disse “Só há dois tipos de música – boa e ruim”. Pois bem, existem dois tipos de rap, bom e ruim. A música que te prende obviamente é a boa. A que não te alcança é ruim para você. Mas eu entendo que não se componha para pessoas de sua idade ou para minha idade. Compõe-se para gente mais jovem.

Michael > Sim, sim.

Mumia < Tenho outra citação. Do livro de Jay-Z, “Decoded” (Decifrado). Esta citação me impressionou porque penso que nos diz muito: “Penso que nós, os rappers, os DJs, os produtores fomos capazes de contrabandear algo da magia daquela civilização moribunda em nossa música e usá-la para construir um novo mundo. Éramos meninos sem pais. Por isso encontramos nossos pais na cera, nas ruas e na história. Em certo sentido, isto é um presente. Podemos escolher os antepassados que haviam inspirado o mundo que íamos criar para nós mesmos. Era parte do espírito e valores dos tempos e do lugar e se incorporou na cultura que nós criamos. Já se tinham partido nossos pais. Normalmente, se recuperaram. Mas tomamos seus velhos discos e os usamos para construir algo fresco”.

Isto é poderoso em muitos níveis.

Michael > Sim, é sim. Nunca imaginei que chegaria o dia quando estaria citando Mumia e Jay-Z ao mesmo tempo, mas é exatamente o que vou fazer. Mumia, você mencionou que há bom rap e mal rap. Qual sua posição sobre a chamada vulgaridade, a profanidade que vem até dos chamados rappers conscientes ou progressistas? Vê isso como algo desfavorável, algo negativo?

Mumia < Bem, eu não sou doutrinário sobre isso, por haver estado perto do pessoal do MOVE durante tantos anos, me acostumei a escuta-los usar o que se chama de “profanidade”. Mas eles dizem que não há nada mais profano que uma bomba, uma bomba atômica ou uma bomba de hidrogênio. Há gente que as constrói e as utiliza e isto não é entendido como uma profanidade. Por outro lado, se escuta uma palavra, te tiram uma onda. Eles queriam dizer que as palavras seguramente tem seu poder, mas os governos e estados tem outro tipo de poder e usam sua lei, seus exércitos, seus policiais e tudo para impor um tipo de obscenidade às pessoas diariamente. E suas ações não se entendem como obscenidade. A mim não me molestam as palavras porque todos as usamos. A questão é para quê.

Michael > Falando das palavras, sei que as usa para falar dos grandes músicos que você como jornalista entrevistou, entre eles Bob Marley. Conte-nos sobre isto.

Mumia < Uau! Em que ano foi?  1980, creio. Ele havia chegado a Filadélfia e se encontrava em um hotel na cidade. Falei com seu agente e consegui uma entrevista. Fui ao hotel com uns irmãos e, como te direi? Compartimos o sagrado sacramento.

Michael > (risos) Ah sim, a comunhão, como não.

Mumia < Tremendo. Poderoso. (risos) Bob Marley era uma alma realmente linda. Uma alma amorosa negra. Uma alma amorosa do mundo. Fizemos uma entrevista de mais ou menos vinte minutos.

Michael > Sim, te escutamos.

Mumia < Ele falava de como quisera que o povo negro neste país conhecesse ao movimento rastafári e escutasse ao reggae, que usasse dreadlocs e pensasse na África, coisas assim. Doía-lhe que poucas pessoas negras neste país assistissem a seus shows ou escutassem sua música ou a de outros artistas do reggae. E isto era certo naquele momento. Não acredito que seja agora. Mas sim o doía. Na verdade fizemos uma entrevista maravilhosa, muito bonita. Foi algo do mais memorável na minha vida, conhecer um dos meus heróis musicais, Bob Marley.

Michael > E falando de entrevistas maravilhosas, esta está para terminar. Conte pra gente nos últimos quarenta segundos, quem são alguns dos seus favoritos MCs e artistas de hip hop. Seguramente Public Enemy, Dead Prez, The Coup, Immortal Technique.

Mumia < Eu gosto dos irmãos que dizem muita verdade e colocam muita alma, muito espírito em sua música. KRS é lendário. Existem muitos irmãos talentosos e irmãs também.

Michael > Immortal Technique. Que acha?

Mumia < Immortal Tech. Um monstro.

Tradução > Caróu

Notícia relacionada:


agência de notícias anarquistas-ana

No final da tarde

compridas sombras no muro.

E o som dos teus passos...

Regina Carvalho

O "Wild West" está de volta à Palestina – por Jamal Juma e Maren Mantovani (*)



O "Wild West" está de volta à Palestina
O "renovado processo de paz palestino-israelense" já parece um sucesso para o empreendimento ilegal dos assentamentos de Israel e o imperialismo dos Estados Unidos. Entre os palestinos, a confiança e a esperança em negociações mediadas pelos EUA há muito tempo evaporaram. Enquanto a rua está dividida entre a raiva, o cinismo e a indiferença frente às negociações, a OLP adotou a proposta de Abu Mazen de renunciar à demanda de um congelamento dos assentamentos como pré-condição de negociações. 

Qualquer atividade coletiva em que todos os envolvidos estão cientes de que as metas estabelecidas não serão alcançadas é uma falência planejada. Exceto no caso em que os verdadeiros objetivos são diferentes daqueles abertamente declarados. Neste sentido, o "renovado processo de paz palestino-israelense" já parece um sucesso para o empreendimento ilegal dos assentamentos de Israel e o imperialismo dos Estados Unidos.

O processo de negociações, que começou em 1991 com a Conferência de Madrid e levou aos Acordos de Oslo, deveria ter assegurado a criação de Estado palestino dentro das fronteiras de 1967 e um acordo sobre outras "questões de status final", incluindo o direito de retorno dos refugiados palestinos, antes do ano 2000. As negociações tinham início sob a liderança dos EUA num momento que a sua posição diplomática com respeito ao Oriente Médio tinha chegado a vertiginosas alturas, impulsionado, entre outros, pela vitória militar geralmente aplaudida sobre Saddam Hussein no Iraque.

Washington tinha conquistado apoio multilateral para o seu papel de liderança nas negociações palestino-israelenses e o regime de Bush pai tinha sequer encontrado a coragem de bloquear dez bilhões de dólares em garantias de empréstimo para Israel devido as preocupações de que as garantias anteriores haviam sido usadas para financiar a expansão de assentamentos ilegais no território palestino ocupado.

Vinte anos depois da assinatura dos Acordos de Oslo, o processo é considerado pelos palestinos e observadores internacionais como um fracasso. O Estado palestino e a autodeterminação do povo Palestino tem sido desmoronada pela construção israelense do Muro e dos assentamentos ilegais e a implementação de suas políticas de apartheid. Oslo não conseguiu impedir massacres israelenses, como o que destruiu Gaza em 2008-09, e muito menos ajudar a alcançar a justiça para os palestinos.

A Casa Branca começou esta rodada de negociações sob condições completamente diferentes. Por décadas, os EUA não foram tão fracos no Oriente Médio. As guerras perdidas no Iraque e no Afeganistão e a crise econômica moldam um imagem de sintomas de super-extensão imperial dos EUA. A instabilidade em todo o mundo árabe complica o cenário. Ainda assim, o Secretário de Estado John Kerry queria atuar sozinho e a sua própria maneira: manteve a ONU, seus estados membros e mesmo a União Europeia fora do novo processo de negociações. Os países árabes são apenas marginalmente consultados. Pior ainda, a administração Obama nomeou como intermediário nas negociações Martin Indyk, um agente de longa data do poderoso lobby pró-Israel AIPAC e um homem que havia sido acusado pelo FBI de envolvimento no roubo de segredos de negócios nos EUA para Israel, fato que alguns estimam ter causado danos no valor de até cem bilhões de dólares.

Outra grande diferença desta vez é que o primeiro-ministro israelense Netanyahu parece muito mais preocupado em manter sua coalizão de governo feliz do que com a pressão dos EUA ou do mundo árabe.

Entre os palestinos, a confiança e a esperança em negociações mediadas pelos EUA há muito tempo evaporaram. Enquanto a rua está dividida entre a raiva, o cinismo e a indiferença frente às negociações, a OLP adotou a proposta de Abu Mazen de renunciar à demanda de um congelamento dos assentamentos como pré-condição de negociações, embora ela tenha apoio de apenas uma minoria.

Muito poucos dentro da OLP parecem dispostos a falar abertamente em apoio das negociações. Mesmo al Fatah está dividido. Jornalistas reclamam que as autoridades palestinas respondem às suas perguntas sobre o porquê da decisão de voltar às negociações de forma evasiva ou agressiva.

Então não surpreende que seja improvável que a nova rodada de negociações consiga alcançar uma solução duradoura, e muito menos uma paz justa na qual possam ser obtidos os direitos de todos os palestinos, incluindo os refugiados. Parece quase impossível acreditar com seriedade que Washington realmente espera criar uma solução de status final no prazo de nove meses. Então, quais são os objetivos reais dos EUA e Israel?

A retomada das negociações já alcançou um objetivo fundamental: o enfraquecimento das conquistas fundamentais da iniciativa para o reconhecimento de um Estado palestino na ONU. Embora o reconhecimento da ONU não faça mudanças tangíveis se não for acompanhado com pressão internacional para Israel acabar com o seu regime de ocupação, de apartheid e do colonialismo, a iniciativa pelo estado palestino permitiu um avanço político importante pelos palestinos no nível estratégico. Com isso, ganhou-se o apoio de uma aliança internacional impulsionado pelo sul global, levou-se a questão da Palestina das mãos dos EUA e do Conselho de Segurança e trouxe-o de volta para a Assembleia Geral da ONU, um terreno em que a Palestina pode contar com apoio esmagador. Finalmente, se introduziu a questão do direito internacional e do direito à autodeterminação novamente como um pilar para a solução da questão palestina.

Diante da crescente percepção de que estão perdendo o seu papel como protagonista maior e árbitro, a Casa Branca foi forçada a apresentar uma contra-iniciativa no Oriente Médio. Na Síria, a Rússia está bloqueando uma solução dominada pelos EUA e no Egito, Irã e o Oriente Médio em geral, a administração Obama tem demonstrado uma falta de visão ou capacidade de ir além da reação errática aos acontecimentos. Portanto, os chefes da política externa dos EUA provavelmente escolheram a opção de recuo: a Palestina para restabelecer a sua posição dominante no Oriente Médio.

Para Israel, as novas negociações constituem uma grande vitória para a sua empreitada dos assentamentos. Não só os EUA pressionaram com sucesso os negociadores palestinos para abrir mão da pré-condição de um congelamento dos assentamentos, como estes mostram uma aceleração da colonização israelense quase sem precedentes: desde o 1º de agosto, Israel anunciou planos para construir cerca de 3.000 novas unidades de assentamentos e deixou claro sua intenção de continuar com a limpeza étnica de 50 mil palestinos no deserto do Naqab/Negev e com o deslocamento forçado de 1.300 palestinos na Cisjordânia para dar espaço para um campo de treinamento militar. Além de tudo isso, Israel se recusa a discutir uma solução de dois Estados com base nas fronteiras de 1967. Membros do gabinete, como Naftali Bennett, o ministro da Economia, afirmaram claramente que os palestinos "podem esquecer" um estado.

A ironia de Israel iniciar negociações para uma solução de dois estados, negando e minando a possibilidade de um Estado palestino parece estar perdida na diplomacia dos EUA. Em vez de ter que enfrentar uma ação coletiva contra as iniciativas de colonização na Cisjordânia e as suas políticas de limpeza étnica, Israel tem sido recompensado pelos EUA com a criação de uma comissão especial formada por militares estadunidenses e israelenses que discutem "as necessidades de segurança de Israel". Este é atalho para um esforço que mina os direitos palestinos à soberania efetiva e inclui discussões sobre “trocas de terras”, controle de fronteiras, controle sobre o espaço aéreo e territorial, a não interferência e muito mais.

Enquanto os EUA e Israel podem considerar estes resultados como uma vitória hoje, uma vez que as negociações colapsem novamente, prováveis consequências de longo prazo podem fazer que esses ganhos de curto prazo pareçam caros.

Primeiro de tudo, a necessidade dos EUA de liderarem a iniciativa por conta própria significa que dificilmente podem se livrar da culpa pelo colapso previsível das negociações. Ao fechar os espaços políticos no curto prazo, isto convida implicitamente à tomada do palco por parte de outros protagonistas, que apresentam menos preconceito e novas ideias.

Em segundo lugar, Israel parece convencer os EUA a ignorarem a contínua expansão dos assentamentos, mas a União Europeia acaba de seguir a condenação dos assentamentos com ações concretas, incluindo a introdução de novas regras que proíbem recursos públicos da UE nos assentamentos. O eventual fracasso das negociações provavelmente vai empurrar alguns governos da UE a ir mais longe, talvez até proibir o comércio com os assentamentos israelenses ilegais.

Finalmente, esta rodada de negociações já aprofundou severamente a crise de legitimidade enfrentada pela Autoridade Palestina. Ampliar a divisão e a crescente instabilidade é (ainda) mais prejudicial para os interesses de Israel e EUA do que para o povo palestino. É certamente difícil imaginar que qualquer estrutura de pós-Autoridade Palestina possa ser tão maleável como a estrutura político palestina atual.

Para concluir, embora o "Wild West" norte-americano esteja de volta na Palestina no momento, ele não parece capaz de criar qualquer mudança duradoura. O que é realmente necessário é a criação de uma conjuntura política que se baseie no apoio global aos direitos palestinos de autodeterminação, no direito internacional e nos direitos humanos, capaz de construir meios eficazes para pressionar Israel a implementá-las. Para a Palestina, entrar em um processo de negociação multilateral sobre como forjar estas alianças e ferramentas são as conversações mais urgentes a serem realizadas nesta fase.

(*) Jamal Juma é coordenador geral da Campanha Stop the Wall. Maren Mantovani é relações internacionais da Stop the Wall.

Fonte: http://www.cartamaior.com.br

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Exclusivo: Documentos revelam conexão entre Itamaraty e Operação Condor - Por Dario Pignotti



Exclusivo: Documentos revelam conexão entre Itamaraty e Operação Condor


Exclusivo: Documentos – um elaborado por um agregado militar na Embaixada do Brasil em Buenos Aires, e o outro redigido por um quadro do Centro de Informações no Exterior do Itamaraty – descrevem o rapto do coronel Cardim 
Osorio, considerado um inimigo do general Geisel. 
Brasília – A primeira pista sobre a Operação Condor surgiu no Brasil e envolve um ex-chanceler que pouco foi investigado. O homem de confiança de Henry Kissinger no Brasil durante os anos da coordenação repressiva sul-americana foi Francisco Azeredo da Silveira, titular do Ministério de Relações Exteriores durante o governo do general Ernesto Geisel entre 1974 e 1979.

Ele ascendeu ao cargo depois de ser embaixador na Argentina, "onde ganhou a confiança dos militares, principalmente de Geisel, por ter executado muito bem o trabalho duplo de diplomata e colaborador dos serviços de inteligência que perseguiam e, quando necessário, eliminavam os opositores prófugos", denunciou Jarbas Silva Marques, um ex-prisioneiro político que foi também "testemunha direta da selvageria dos diplomatas que estavam em Buenos Aires fazendo trabalho sujo”.

“Azeredo autorizou não só pessoalmente, como supervisionou o sequestro e a tortura do coronel Jefferson Cardim, em Buenos Aires. Sei disso porque Jefferson Cardim me disse na prisão, onde fomos companheiros", completou Marques.

Até hoje pouco se sabe sobre a participação do Brasil no submundo repressivo regional devido a várias razões. Uma das principais é que os Estados Unidos tem evitado, tanto quanto possível, tornar públicos os documentos sobre ações encobertas executadas com a colaboração do Itamaraty e seu Centro de Informações no Exterior, o Ciex – discreto braço de espiões criado pelo ex-embaixador na Argentina e no Uruguai e suposto informante da CIA Manuel Pio Correa, uma década antes do surgimento da Operação Condor, criada em 1975, durante uma reunião convocada pela ditadura de Augusto Pinochet.

Apesar da escassez (por ocultação) de informações sobre as operações clandestinas e da ainda vigente lenda de que os generais brasileiros não se misturavam muito com seus primos, os gorilas do Cone Sul, qualquer análise sensata chegará à conclusão de que o Planalto, por ser o mensageiro do Departamento de Estado nesta parte do mundo, foi o fiador da Condor. Se Brasília não houvesse bendito – e instigado – o acionar dessa associação ilícita, ela seguramente teria sucumbido.

A gritante assimetria nos critérios adotados pelos governos recentes dos Estados Unidos para jogar luz sobre o ocorrido é sugestiva. Sob os governos de Bill Clinton e George W. Bush, foram desclassificados milhares de relatórios secretos sobre os regimes de exceção chileno, argentino e uruguaio, a partir dos anos 70, enquanto são contados os papéis relativos ao Brasil. Inclusive, é muito pouco o que foi liberado sobre o golpe de Estado contra João Goulart em 1964, depois do qual ele teve de exiliar-se em Montevidéu, onde, desde então, cada movimento seu foi seguido por uma camarilha de espiões brasileiros e uruguaios.

Será que, ao manter na sombra os crimes brasileiros, os Estados Unidos estão preservando a si mesmos?

Ou será que a Condor, como todo crime de Estado, jamais chegará a ser completamente esclarecido, e seus verdadeiros responsáveis gozarão de eterna impunidade?

O Brasil era, desde abril de 1964, o aliado mais confiável de Washington em sua guerra sem fronteiras para "conter" o avanço comunista, mas talvez 1971 tenha sido o ano chave: foi quando surgiu, do alto do poder, no encontro entre Richard Nixon e Emilio Garrastazú Médici, na Casa Branca, o pacto para semear a desestabilização dos governos inimigos e autorizar a caçada de opositores além das fronteiras nacionais.

"Acredito que a intensidade da organização entre Brasil, Argentina, Uruguai e Chile se iniciou depois de alguns sequestros de diplomatas, no Brasil, (embaixador norte-americano Charles Elbrick , 1969) e do agente norte-americano (Dan Mitrione, 1970), no Uruguai, pelas mãos dos Tupamaros, o cônsul brasileiro em Montevidéu (Aloísio Dias Gomide, 1970), as operações de guerrilha argentina dos Montoneros, que eram fortes", declarou o filho do coronel Jefferson Cardim Ossorio, Jefferson "Jeffinho" Lopetegui Ossorio, em entrevista à Carta Maior, a quem assegurou a "participação total, a responsabilidade criminal que teve no sequestro meu, de meu pai e do embaixador Azeredo da Silveira, que nos acompanhou pessoalmente ao avião que nos deportou clandestinamente ao Brasil".

Certamente, Azeredo da Silveira, que havia sucedido o suposto colaborador da CIA, Correa, no cargo, atuou em sintonia com a política de Estado terrorista acordada entre Nixon e Médici, e agiu em consequência a autorizar e acompanhar o rapto do coronel dissidente Cardim Osorio, que foi apenas o primeiro de vários delitos similares perpetrados na capital argentina desde 1970.

Documentos
Dos documentos obtidos em primeira mão por este cronista, um, encontrado em 2011 e elaborado por um agregado militar na embaixada de Buenos Aires, e o outro, redigido por um quadro do Ciex, descrevem com farta informação o rapto do coronel Cardim Osorio, "que sempre foi um inimigo jurado do general Geisel, desde os anos 50", conta seu filho Jeffinho, perpetrado a pouco de desembarcar em Buenos Aires vindo de Montevidéu.

Depois de ter sido espionado na capital uruguaia por serviços brasileiros e daquele país, o coronel “Jeffinho" e um sobrinho do militar foram raptados em uma doca de Buenos Aires no dia 11 de dezembro de 1970, ou seja, cinco anos antes que a ditadura de Pinochet trouxesse militares de outros quatro países para institucionalizar a Condor.

Um dos telegramas secretos que narra o acontecido com o militar brizolista leva em seu canto superior direito um carimbo da Agência Central do Serviço Nacional de Informações e o número de protocolo 001061.

No documento de seis páginas, originado da embaixada brasileira no dia 19 de dezembro de 1970, se revelam os detalhes da operação coordenada entre brasileiros, argentinos e uruguaios que se consumou com o sequestro do coronel Jefferson Cardim, um dos troféus mais cobiçados pela ditadura, e que finalmente seria deportado clandestinamente ao Rio de Janeiro, depois de ser torturado em uma sede da polícia federal do regime do ditador argentino, general Roberto Marcelo Levingston, que também foi informado de todo o acontecido.

"Esse material é uma peça para ser estudada profundamente, eu o chamo de primeira prova documentada sobre uma ação repressiva internacional, seguindo o modelo de coordenação e repressão dele. Sempre disse que o conceito do Condor foi inventado pelo Brasil e essa comunicação secreta, elaborada na Embaixada em Buenos Aires, está confirmando perfeitamente esta tese", declarou Jair Krischke, presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos.

Formalmente, a Condor foi fundada em 1975 no Chile, em uma reunião em novembro daquele ano, onde havia correspondentes brasileiros, uruguaios, argentinos, paraguaios, etc.… mas esses papéis não deixam dúvidas de que o sistema existia desde muito antes, porque o rapto e a deportação de Jefferson são fatos pioneiros que depois se repetiriam em casos similares nos anos de 1976, 1977, 1978.

Mas não se deve perder de vista que isso aconteceu em 1970 e que não foi um fato isolado, porque, em outro operativo internacional, em 1971, no aeroporto de Buenos Aires, foi sequestrado quando chegava do Chile Edmur Pericles Camargo, o "Gauchão", que continua desaparecido.

E é muito significativo que, como exposto nesses papeis, o sequestro de Jefferson em 1970 tenha se comunicado com as principais figuras militares e diplomáticas dos governos brasileiro e argentino, e que estes autorizaram tudo o que se fez com o coronel e seu filho, muito jovem naquele momento. Ou seja, se enterra a ideia de que os repressores eram delinquentes que desobedeciam as ordens superiores", observa Krischke.

É verdade que a contribuição entre diplomatas e repressores do Brasil e da Argentina foi motivo de comentários elogiosos no relatório elaborado pelo agregado militar no dia 19 de dezembro de 1970.

No telegrama, se acrescenta também, parte das declarações arrancadas dos dois prisioneiros, Jefferson e seu filho (o terceiro detido foi libertado quase que imediatamente), sob tortura na "Subdelegacia de Assuntos Estrangeiros da Polícia Federal", onde o "Coronel Cáceres (argentino)” recebeu dois agregados militares brasileiros, um disposto na Argentina e o outro em Montevidéu, aos quais manifestou um "notável interesse por parte das autoridades argentinas em colaborar", diz a nota.

"Depois de informar (o coronel argentino Cáceres) sobre os antecedentes de Jefferson e a importância de sua detenção, lhe expressei nosso interesse em que seja entregue às autoridades brasileiras", narra o memorando.

Em um dos fragmentos mais reveladores do cabo (página 5) o autor admite estar surpreso de que, pouco menos de um dia depois da detenção dos opositores brasileiros "fui informado pela Coordenação Federal da Polícia de que o presidente (general Roberto Marcelo) Levingston havia firmado o decreto (autorizando a deportação) e esse fato foi comunicado ao Itamaraty (Chancelaria)", se lê na nota de 19 de dezembro.

Em outro despacho secreto do dia 22 de dezembro de 1970, esse originado no Ciex se menciona que o presidente uruguaio Jorge Pacheco Areco teria sido informado da operação que se executou em Buenos Aires a partir de informações procedentes de Montevidéu, onde residiam as vítimas junto a outros exilados notórios, como o presidente deposto João Goulart e o governador Leonel Brizola.

"Quando li esses papeis descobertos por vocês, a princípio me surpreendi, fiquei meio chocado. Mas depois me dei conta que estava tudo escrito, e eu sabia que por trás de tudo o que nos aconteceu estava a Condor, ou a coordenação repressiva que ainda não se chamava dessa forma. Me veio um calafrio. Depois de informar (o coronel argentino Cáceres) sobre os antecedentes de Jefferson e a importância de sua detenção, lhe expressei nosso interesse em que seja entregue às autoridades brasileiras", narra o memorando. “Porque, pela primeira vez, havia um papel, algo oficial escrito pelos militares, com o carimbo oficial, demonstrando que o Itamaraty estava absolutamente inserido por trás do sequestro meu e de meu pai", resume Jefferson Osorio Lopeteguy Cardim.

*@DarioPignotti

Tradução: Liborio Júnior

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/