quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Mídia ignora apoio de 7,7 milhões à reforma política...brasil247


http://www.brasil247.com/pt/247/poder/154718/M%C3%ADdia-ignora-apoio-de-77-milh%C3%B5es-%C3%A0-reforma-pol%C3%ADtica.htm


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Instituto de pesquisa e atirador de faca! - por Latuff

Fonte: http://latuffcartoons.wordpress.com/

Ramonet: o bloqueio a Cuba próximo do fim?


Ramonet: o bloqueio a Cuba próximo do fim?
Hillary Clinton reconhece que política norte-americana é erro histórico. População concorda, mostram pesquisas. Agora, só direita e Obama parecem sustentar embargo

No livro que se acaba de publicar sobre suas experiências como secretária de Estado, durante o primeiro mandato (2008-2012) do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, intitulado Decisões difíceis (1), Hillary Clinton escreve, a propósito de Cuba, algo fundamental: “ao terminar meu mandato, pedi ao presidente Obama que reconsiderasse nosso embargo contra Cuba. Não cumpre nenhuma função e obstrui nossos projetos com toda America Latina”.

Pela primeira vez, uma personalidade que aspira à presidência dos Estados Unidos afirma publicamente que o bloqueio imposto por Washington – desde mais de cinquenta anos! – à maior ilha do Caribe não cumpre “nenhuma função”. Isto é, não se tem permitido submeter esse pequeno país apesar. do grande sofrimento injusto que se tem causado a sua população. Nesse sentido, o fundamental, na constatação de Hillary Clinton, são dois aspectos:

Primeiro, rompe o tabu, dizendo em voz alta o que desde muito tempo todos já sabem em Washington: que o bloqueio não serve para nada. E segundo, de maior importância, é declarar isto no momento em que arranca na corrida à candidatura do Partido Democrata à Casa Branca. Isto quer dizer, não teme que essa afirmação – na contracorrente de toda a política de Washington diante de Cuba no ultimo meio século – constitua, para ela, um obstáculo, na larga batalha eleitoral que tem daqui até as eleições de 8 de novembro de 2016.

Se Hillary Clinton sustenta uma postura tão pouco convencional, em primeiro lugar, é porque assume o desafio de responder sem temor as duras criticas que não deixaram de formular seus adversários republicanos, ferozmente hostis a toda mudança de Washington com respeito a Cuba. E, em segundo lugar, porque não ignora que a opinião publica estadunidense tem evoluído sobre esse tema, sendo hoje majoritariamente favorável ao fim do bloqueio.

Do mesmo modo que Hillary Clinton, um grupo de cinquenta importantes empresários (2), ex-altos funcionários estadunidenses de distintas tendências políticas e intelectuais, acaba de pedir a Obama, em carta aberta (3), que utilize as prerrogativas do Poder Executivo para introduzir mudanças mais inteligentes com relação a Cuba e se aproxime mais de Havana. Seria uma forma de minimizar o impasse, sabendo que o presidente dos Estados Unidos não possui a faculdade de acabar com o embargo — o que depende de uma maioria qualificada de democratas e republicanos no Congresso. Assinalam que a sociedade apoiaria este primeiro passo.

Com efeito, uma pesquisa realizada em fevereiro desse ano pelo centro de investigação Atlantic Council afirma que 56% dos estadunidenses querem uma mudança na política de Washington com Havana. E, mais significativo, na Florida, o Estado com maior sensibilidade neste tema, 63% dos cidadãos (e 62% dos latinos) desejam o fim do bloqueio (4). Outra consulta mais recente, realizada pelo Instituto de Investigação Cubano da Universidade Internacional da Florida, demonstra que a maioria da própria comunidade cubana de Miami (5) pede pelo fim do bloqueio à ilha (71% dos consultados considera que o embargo “não tem funcionado”, e uns 81% votaria por um candidato que substituísse o bloqueio por uma estratégia que promovesse o reestabelecimento diplomático entre ambos os países) (6).

Ocorre que, contrariamente às esperanças que surgiram depois da eleição de Barack Obama em novembro de 2008, Washington manteve-se estacionado em suas relações com Cuba. Justamente depois de assumir seu cargo de presidente, Obama anunciou – na Cúpula das Américas, celebrada em Trindad e Tobago, abril de 2009 – que daria um novo rumo nas relações com Havana.

Todavia, limitou-se a gestos pouco mais que simbólicos: autorizou que os estadunidenses de origem cubana viajassem à ilha e enviassem quantidades restritas de dinheiro a suas famílias. Depois, em 2011, adotou novas medidas, mas também de pequeno alcance: permitiu que grupos religiosos e estudantes viajassem a Cuba, consentiu que aeroportos estadunidenses recebessem voos da ilha e ampliou o limite de remessas que os cubanos-estadunidenses poderiam transferir a seus parentes. Pouca coisa, diante do formidável bloqueio que separa os dois países.

Entre as divergências, está o caso dos Cinco Cubanos (7), que tem comovido a opinião publica internacional (8). Estes agentes da inteligência de Havana, detidos na Florida pelo FBI em setembro de 1998 quando realizavam missões de prevenção contra o terrorismo anticubano, foram condenados a altas penas de prisão, num julgamento político típico da Guerra Fria (autêntico linchamento jurídico).
Condenação ainda mais injusta porque “Os Cinco” não cometeram nenhum ato de violência, nem procuraram informação sobre a segurança dos Estados Unidos. O único que fizeram, correndo riscos mortais, foi prevenir atentados e salvar vidas humanas. Washington não é coerente quando diz combater o “terrorismo internacional” e segue abrigando, em seu próprio território, grupos terroristas anticubanos (9). Sem ir mais longe, em abril passado, as autoridades da ilha detiveram um novo grupo de quatro indivíduos, vinculados a Luis Posada Carriles (10), vindo mais uma vez da Florida com a intenção de cometer atentados.

Tampouco há coerência quando acusam “Os Cinco” de atividades antiestadunidenses que jamais existiram, enquanto Washington segue empenhado em imiscuir-se nos assuntos internos de Cuba e na fomentação de mudanças do sistema político.

Há meses, voltaram a demonstrar tais intenções, nas recentes revelações sobre o assunto “ZunZuneo” (11), uma falsa rede social que uma agência do Departamento de Estado (12), criou e financiou ocultamente entre 2010 e 2012 com a intenção de provocar na ilha protestos semelhantes ao das “Revoluções Coloridas” do ex-mundo soviético, da Primavera Árabe ou das “Guarimbas” venezuelanas, para exigir depois, a partir da Casa Branca ou do Capitólio, uma mudança política. Tudo isso demonstra que Washington segue tendo sobre Cuba uma atitude retrógrada, tipicamente da Guerra Fria, etapa que terminou a quase um quarto de século.

Semelhante arcaísmo choca com a postura de outras potências. Por exemplo, todos os Estados da América Latina e do Caribe, quaisquer que sejam suas orientações políticas, têm estreitado ultimamente seus laços com Cuba, denunciando o bloqueio.

Pode-se comprovar isto no inicio do ano, na Cúpula da Comunidade dos Estados Latino Americanos e do Caribe (CELAC) reunida precisamente em Havana. Washington sofreu um novo desprezo no há pouco, em Cochabamba (Bolivia), durante a Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), quando os países latino-americanos – numa nova mostra de solidariedade com Havana – não participar da próxima Cúpula das Américas, que terá lugar em 2015 no Panamá, se Cuba não for convidada a participar.
Por sua parte, a União Europeia (UE) decidiu, em fevereiro, abandonar a chamada “posição comum” com relação à ilha, imposta em 1996 por José Maria Aznar, então presidente do Governo da Espanha, para “castigar” Cuba rechaçando todo dialogo com as autoridades da ilha. Porém, o gesto resultou estéril e fracassado.

Bruxelas tem reconhecido e dado inicio agora a uma negociação com Havana para alcançar um acordo de cooperação política e econômica. A UE é o primeiro investidor estrangeiro em Cuba e seu segundo sócio comercial. Com este novo espírito, vários ministros europeus já visitaram a ilha. Entre estes, em abril, Laurent Fabius, – primeiro chanceler francês que realizou uma visita a nação caribenha em mais de trinta anos – declarou que buscava promover as alianças entre as empresas dos dois países, bem como apoiar as companhias francesas que desejassem desenvolver projetos ou se fixar em Cuba (13).

Contrastando com o imobilismo de Washington, muitas chancelarias europeias observam com interesse as mudanças que estão se produzindo em Cuba, impulsionadas sobretudo pelo presidente Raúl Castro, no marco da atualização do modelo econômico e na linha definida em 2011 no VI Congresso do Partido Comunista de Cuba (PCC). Representam transformações muito importantes na economia e na sociedade. Em particular, a recente criação da Zona Especial de Desenvolvimento em torno do porto de Mariel — assim como a aprovação, em março, de uma nova Lei de Investimento Estrangeiro — suscitam um grande interesse internacional.

As autoridades consideram que não existe contradição entre o socialismo e a iniciativa privada (14). E alguns responsáveis estimam que esta última (que incluiria as inversões estrangeiras) poderia abarcar até 40% da economia do país, enquanto o Estado e o setor público conservariam 60%. O objetivo é que a economia cubana seja cada vez mais compatível com a de seus principais sócios na região (Venezuela, Brasil, Argentina, Equador, Bolívia), onde coexistem setor publico e setor privado, Estado e mercado.
Todas estas transformações sublinham, por contraste, o impedimento do governo estadounidense, autobloqueado em uma posição ideológica de outra época. Inclusive, como temos visto, cada dia são mais numerosos aqueles que, em Washington, admitem que essa postura seja equivocada e que, em relação a Cuba, os EUA têm urgência em sair do isolamento internacional. O presidente Obama saberá escutá-los?
(1) Hillary Rodham Clinton, Hard Choices, Simon & Schuster, Nueva York, 2014.
(2) Entre los empresarios que figuran: J. Ricky Arriola, presidente del poderoso consorcio Inktel; los magnates del azúcar y del sector inmobiliario Andrés Fanjul y Jorge Pérez; el empresario Carlos Saladrigas, y el petrolero Enrique Sosa, además de otros emprendedores multimillonarios.
(3) Léase El Nuevo Herald, Miami, 20 de mayo de 2014.
(4) Léase Abraham Zembrano, “¿Se acerca el fin del embargo a Cuba?”, BBC Mundo, Londres, 20 de febrero de 2014. http://www.bbc.co.uk/mundo/noticias/2014/02/140211_cuba_eeuu_embargo_az.shtml
(5) En Miami, principal ciudad de Florida, viven unos 650.000 expatriados cubanos.
(6) El País, Madrid, 17 de junio de 2014. http://internacional.elpais.com/internacional/2014/06/17/actualidad/1403022248_144582.html
(7) Los Cinco son: Antonio Guerrero, Ramón Labañino, Gerardo Hernández, René González y Fernando González. Estos dos últimos han sido liberados y se hallan en Cuba.
(8) En Washington, del 4 al 10 de junio pasado, tuvo lugar el Tercer Encuentro “Cinco días por los Cinco” que reunió a participantes procedentes de decenas de países del mundo, los cuales se manifestaron delante de la Casa Blanca y del Capitolio exigiendo la liberación de “los Cinco”. http://www.answercoalition.org/national/news/5-days-forthe-Cuban-5.html
(9) Cuba es uno de los países del mundo que más ha padecido la lacra del terrorismo (3.500 personas asesinadas y más de 2.000 discapacitados de por vida).
(10) Jefe de diversos grupos terroristas anticubanos, Posada Carriles es en particular el responsable del atentado contra el avión de pasajeros de Cubana de Aviación cuya explosión en vuelo provocó, en 1976, 73 muertos. Reside en Florida, donde goza de la protección de las autoridades estadounidenses.
(11) Las revelaciones fueron realizadas por la agencia de prensa AP (Associated Press). http://www.bbc.co.uk/mundo/noticias/2014/04/140403_zunzuneo_cuba_eeuu_msd.shtml
(12) La Agencia para el Desarrollo Internacional de Estados Unidos (USAID, por sus siglas en inglés), un organismo que opera bajo la dirección del Departamento de Estado.
(13) Alrededor de sesenta grandes empresas francesas están presentes en Cuba. Entre las principales, destacan el grupo Pernod Ricard, que comercializa el ron Havana Club en el mundo, los grupos Accor, Nouvelles frontières, FRAM voyages en el sector del turismo, Bouygues en obras públicas, Alcatel-Lucent en telecomunicaciones, Total y Alstom en energía, y Air France en transporte, entre otros.
(14) Se estima que ya hay unos 450.000 “cuentapropistas” (trabajadores por cuenta propia, comerciantes y pequeños empresarios) en Cuba.

Tradução João Victor More Ramos

domingo, 21 de setembro de 2014

Resumo das eleições no Brasil - por Latuff

Fonte: http://latuffcartoons.wordpress.com/

Nas pegadas de Orwell e Huxley – por Elenita Malta Pereira


Nas pegadas de Orwell e Huxley
Inspirado em clássicos, “O doador de memórias” retoma distopia do controle social absoluto. É algo indispensável, em tempos de NSA e internet vigiada

Quem controla o passado, controla o futuro.
Quem controla o presente, controla o passado.

George Orwell, em 1984

O instigante O doador de memórias chega às telonas na esteira de blockbusters juvenis, como Jogos Vorazes e Divergente, distopias sobre jovens que se rebelam contra as sociedades em que vivem. No entanto, não é mera cópia ou versão desses filmes anteriores, até porque ele se baseia no premiado livro The giver (O doador), publicado pela escritora norte americana Lois Lowry, em 1993. Retomando elementos das famosas distopias escritas na primeira metade do século XX, 1984 (George Orwell) e Admirável Mundo Novo (Aldoux Huxley), o filme aborda com profundidade questões importantes da existência humana.

Narrada do ponto de vista do personagem juvenil Jonas (Brenton Thwaites), a história começa em preto e branco, e, à medida que o garoto toma consciência do funcionamento de seu próprio mundo, vai ganhando cores. Inicialmente, todos veem em preto e branco, escolha do diretor Philip Noyce para ressaltar a “mesmice” do local onde vivem. 

“A comunidade” onde Jonas mora com sua família é uma das tantas que formam um mundo totalmente controlado. As pessoas não têm livre arbítrio; até mesmo suas profissões são escolhidas por um grupo de anciãos. Estes decidem qual seria a melhor contribuição de cada um para a comunidade. Tal mundo é liderado por uma mulher (Meryl Streep), que tem a pretensão de estar em todos os lugares ao mesmo tempo para que nenhuma mudança aconteça. Ali não há guerras, dores nem tristezas, mas também as alegrias e as paixões não estão presentes. As angústias e os prazeres foram suprimidos tempos atrás, para a manutenção de um sociedade harmônica e seus cidadãos “felizes”.

Assim como na “teletela” de 1984, as pessoas são vigiadas constantemente, desde a infância, por câmeras – dispositivos onipresentes nas comunidades. Os atos de todos são seguidos 24 horas por dia. Antes de sair de casa (a “unidade familiar”), cada um precisa tomar sua “injeção matinal”, que lembra o “soma”, a droga diária de Admirável mundo novo. Dopados o dia inteiro, são incapazes de sentir emoções que possam afetar o equilíbrio da comunidade. Também não há livros, pois são muito perigosos: poderiam difundir ideias diferentes das repetidas pelo sistema, e causar rebelião. Nesse ponto, lembra o romance Fahrenheit 451 (Ray Bradbury) e sua queima de livros, outra distopia pós-II Guerra Mundial.

Nesse mundo perfeito, não há toque e não há sexo – os bebês são fabricados geneticamente. As pessoas não sabem o que é sentir amor (como em 1984 e Admirável mundo novo).

A falta de liberdade interfere também no modo de falar da comunidade. Como a “novilíngua” criada por George Orwell, em O doador de memórias os habitantes se preocupam com a “precisão de linguagem”, uma forma de falar que elimina referências a sentimentos e emoções. É na “precisão de linguagem”, na vigilância e na supressão das memórias que se alicerça esse mundo totalitário.

As memórias foram surrupiadas da população e concentradas em apenas uma pessoa, o “doador”, interpretado por Jeff Bridges (que também é um dos produtores do filme). Ele, com suas dores e alegrias, é o guardião da memória coletiva. Quando Jonas recebe a designação de “receptor”, passa a ser dele o dever de carregar as memórias dentro de si. À medida que Jonas vai conhecendo o passado, seu olhar sobre o mundo vai mudando, e ele passa a enxergar as cores que os demais não podem ver. 

O controle das memórias é o ponto chave do filme, é o que possibilita a apatia das pessoas. Elas aceitam que seus direitos, lembranças e senso moral sejam suprimidos. Esse apagamento mnemônico retira o sentido ético das pessoas no momento de suas escolhas, pois com ele perde-se também qualquer tábua de valores. Sem a referência do passado, como podemos saber se agimos de forma certa ou errada? Provocar a morte de alguém, num mundo como esse, pode ser algo correto e inquestionável, porque você não tem como dimensionar seus próprios atos.

E essa é a maior semelhança de O doador de memórias com 1984. Como escreveu George Orwell, “quem controla o passado, controla o futuro”. Também o historiador Jacques Le Goff, em seu livro História e Memória, referiu-se à importância desse controle: “tornarem-se senhores da memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que dominaram e dominam as sociedades históricas. Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores desses mecanismos de manipulação da memória coletiva”. A história e a memória são instrumentos poderosos que podem mudar a vida das pessoas. Seu conhecimento pode levar tanto a guerras e genocídios, quanto a conquistas de liberdade no plano social ou individual. O passado é muito perigoso para sociedades totalitárias, que querem controlar cada passo do indivíduo.

Recentemente, o mundo assombrou-se com o esquema de vigilância internacional da Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos (National Security Agency, ou NSA), revelado pelo analista Edward Snowden. Nem pessoas comuns, nem autoridades escaparam de serem espionadas. De certa forma, já estamos vivenciando uma demo do que seria um mundo vigiado pelo “big brother” de 1984. Ainda que não haja teletelas nem anciãos seguindo nossos passos, ou injeções matinais obrigatórias, nossos movimentos na internet não são privados. Embora a desculpa seja a garantia da segurança nacional, ou mesmo a oferta de produtos compatíveis aos nossos gostos e necessidades, isso, por si só, já é uma forma de controle indevido.

Indo além da pura diversão, distopias como O doador de memórias são alertas contra um mundo totalmente controlado, em que o poder de decisão e as escolhas seriam retirados dos cidadãos e transferidos aos “líderes”. O filme pode ser o ponto de partida para interessantes debates nas escolas, com o público juvenil, sobre livre arbítrio, cidadania, invasão de privacidade, a importância da história e da memória para as sociedades e, sobretudo, as ameaças do totalitarismo. Na verdade, esses temas sempre deveriam estar presentes nas discussões de jovens de todas as idades. Através da distopia, o filme nos passa a mensagem de que a construção de um mundo livre e igualitário é possível. Essa sim é a utopia a ser perseguida.

Fonte: http://outraspalavras.net/

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Ajuda humanitária de Obama para a Libéria - por Latuff

Fonte: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/37910/ajuda+humanitaria+de+obama+para+a+liberia.shtml

Wallerstein: Império em pânico no Oriente Médio


Wallerstein: Império em pânico no Oriente Médio 
Mal explicada pelos militares e Obama, nova guerra na região será provável desastre. Em grave declínio, EUA cometem desatinos que ameaçam planeta

O presidente Barack Obama disse aos Estados Unidos, e em particular ao Congresso, que o país deve fazer algo no Oriente Médio, para interromper um desastre. Sua análise do suposto problema é extremamente turva, mas os tambores do patriotismo estão batendo forte e, no momento, quase todo mundo, nos EUA, está cotagiado. Alguém mais sensato diria que todos estão se debatendo em desespero, diante de uma situação pela qual Washington é o principal responsável. Não sabem o que fazer. Por isso, agem em pânico.

A explicação é simples. Os Estados Unidos estão em grave declínio. Tudo dá errado. E, em pânico, seus governantes assemelham-se ao condutor de um automóvel possante, que perdeu o controle da máquina e não sabe como reduzir a velocidade. Em vez disso, ele acelera rumo a um grande desastre. O carro trafega em ziguezague e derrapa. Tornou-se um enorme perigo – não apenas para o motorista, mas também para o resto do mundo.

As análises atuais concentram-se sobre o que Obama fez ou deixou de fazer. Mesmo seus defensores mais próximos parecem duvidar do presidente. Um comentarista australiano escreveu, no Financial Times, que “em 2014, o mundo subitamente cansou-se de Barack Obama”. Imagino que talvez o próprio Obama tenha se cansado de si mesmo. Mas seria um erro culpar apenas o presidente. Virtualmente ninguém, entres os líderes norte-americanos, apresentou alternativa mais inteligente. Bem ao contrário. Há os profetas da guerra, que estimulam o presidente a bombardear todo mundo, e já. Há os políticos que realmente creem que as próximas eleições norte-americanas farão grande diferença…

Uma rara voz de sensatez surgiu numa entrevista do New York Times com Daniel Benjamin, que foi, no primeiro governo Obama, o principal conselheiro antiterrorismo do Departamento de Estado. Ele considera a suposta ameaça do ISIS uma “farsa”, em que “membros do governo e do alto comando militar descrevem a ameaça, todo o tempo, em termos escabrosos, que não se justificam”. Ele diz que as alegações são feitas sem nenhuma “evidência comprovada”, o que só demonstra como é fácil, para altos funcionários e a mídia, “mergulhar o público em pânico”. Mas quem dá ouvidos a Benjamin?

Neste instante, e com a ajuda de fotos macabras da decapitação de dois jornalistas norte-americanos pelo califado, as pesquisas mostram enorme apoio a uma ação militar. Mas quanto isso perdurará? O apoio só será sustentado enquanto houver resultados concretos. Mesmo o chefe do Estado-Maior militar, Martin Dempsey, reconhece, quando defende ação bélica, que ela se estenderá por pelo menos três anos. Multiplique três por cinco, para se aproximar de uma estimativa de duração mais real. A população norte-americana, com certeza, irá se desencantar rapidamente.

Por enquanto, Obama propõe alguns bombardeios na Síria, nenhum soldado norte-americano “em solo”, mas um número maior de soldados especiais, em atividades de treinamento no Iraque (e provavelmente em outras partes). Quando disputou a presidência, em 2008, Obama fez muitas promessas, como é normal para um político. Mas sua promessa-chave foi sair do Iraque e Afeganistão. Ele não irá mantê-la. Na verdade, está envolvendo os EUA em novas guerras.

A coalizão liderada por Obama oferecerá “treinamento” a quem o presidente define como “gente de bem” [orig: “good guys”]. Aparentemente, o treinamento ocorrerá na Arábia Saudita. Bom para os governantes do pais. Eles podem vetar qualquer participante dos exercícios e escolher em quem confiam ou não. Isso tornará possível, ao regime saudita (hoje, ao menos tão desnorteado quanto o norte-americano), sugerir que está fazendo algo e sobreviver um pouco mais.

Há maneiras de alterar este cenário catastrófico. Mas elas exigem uma decisão de substituir a guerra por acordos políticos entre muitos grupos, que não se gostam, nem confiam uns nos outros. Tais acordos políticos não são impossíveis, mas são difíceis de articular – e, depois de firmados, são, num primeiro momento, frágeis. Uma das principais condições para que eles tenham espaço no Oriente Médio é um menor envolvimento dos Estados Unidos. Ninguém acredita em Washington, ainda que alguns atores convoquem assistência norte-americana momentaneamente, para executar certas tarefas. O New York Times lembra que, no encontro que Obama montou, para lançar sua nova coalizão, o apoio dos países do Oriente Médio presente foi “morno” e “relutante”, por haver “crescente desconfiança nos Estados Unidos, partindo de todos os lados”. Portanto, ainda que alguns se alinhem de forma limitada, ninguém mostrará gratidão por algum tipo de assistência norte-americana. É provável que os atores políticos do Oriente Médio desejem agora produzir seu próprio cenário, ao inveś de encenar a visão dos EUA sobre o que lhes convém.

Por Immanuel Wallerstein | Tradução: Antonio Martins

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

SP: UGRA ZINE FEST 2014!

UGRA ZINE FEST 2014 
Enfim é chegada a hora de dizer: UGRA ZINE FEST 2014 VEM AÍ!

A quarta edição do UZF acontecerá no Centro Cultural São Paulo nos dias 20 e 21 de setembro e promete reunir o que há de melhor no panorama dos zines, dos quadrinhos independentes e da cultura alternativa atuais em uma programação intensa e diversificada. Ao todo serão 4 palestras, 2 debates, 2 oficinas 2 exposições, 2 shows e, obviamente, uma deliciosa feira de publicações!

Fonte: http://ugrapress.wordpress.com/

Como o governo norte-americano ameaçou o Yahoo! para espionar usuários – por Jon Queally


Como o governo norte-americano ameaçou o Yahoo! para espionar usuários
Investigação evidencia a cumplicidade entre as maiores companhias de internet dos EUA e a NSA, além de desvelar práticas de espionagem.

Quando a gigante da internet Yahoo! tentou recusar os pedidos de acesso da NSA para os dados de milhões de usuários da companhia, o Departamento de Justiça dos EUA ameaçou multar a companhia por $250,000 por dia, de acordo com documentos secretos revelados na última quinta-feira (11).

Em um caso que data do ano de 2007 e 2008, Yahoo! afirmou à Corte de Vigilância de Inteligência Estrangeira (Fisc) que as demandas da NSA pelos dados dos usuários eram "inconstitucionais e abusivas". O apelo da companhia foi negado pela Corte e os todos os arquivos do caso foram protegidos contra revisão. Não somente o público foi excluído do caso, até os advogados da Yahoo! foram mantidos no escuro sobre aspectos chave da questão.

O conselheiro geral da companhia e advogado chefe do caso explicou:

"Apesar da desclassificação e da divulgação, porções dos documentos ainda estão selados e são confidenciais até hoje, desconhecidos até para o nosso time. Os documentos divulgados mostram o quanto tivemos que lutar para desafiar os esforços de vigilância do governo norte-americano.  Num certo ponto, o governo nos ameaçou com a imposição de U$250,000 em multa por dia caso recusássemos a cooperação.

Nossa luta continua. Ainda tentamos obrigar a Fisc a divulgar materiais do caso de 2007-2008 no tribunal de primeira instância. A Fisc indicou anteriormente que estava esperando ordens da sua corte superior, a Fisc-R, em relação a 2008 para ir adiante. Agora que a questão do Fisc-R está resolvida, iremos continuar a luta para obtermos mais material."

O caso é significativo pois evidencia o nível de cumplicidade entre as maiores companhias de internet norte-americanas e a NSA, além de desvelar as práticas de vigilância em massa que foram conduzidas sem o conhecimento do público antes do vazamento de documentos promovidos pelo denunciante Edward Snowden. Como o Guardian relata:

"Quase todas as maiores firmas de tecnologia incluindo a AOL, Apple, Google e Microsoft foram listadas pela NSA como participantes do programa, o qual foi conduzido em conjunção com a equivalente britânica da NSA, GCHQ."

Iniciado sob a administração Bush, o programa coletou informação das maiores empresas de tecnologia sob o Ato de Emendas da FISA. Os slides da NSA obtidos por Snowden continham uma apresentação breve a qual dizia que o programa federal de espionagem Prism garantia acesso a arquivos como e-mails, conversas de chat, ligações de voz e mais.

Patrick Toomey, advogado que cuida da pasta de segurança nacional da Associação Norte-americana pelas Liberdades Civis, disse ainda não ter revisado todos os documentos mas já ter notado que "a Yahoo! desafiou o programa de escutas do governo mais do qualquer um dos seus competidores."


do Common Dreams

A tradução é de Isabela Palhares.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

O dia em que Marcuse encarou a PM – por Deni Rubbo

O dia em que Marcuse encarou a PM
Retrato da selvageria policial no centro de São Paulo, com um lembrete: não seremos derrotados, enquanto “conseguirmos ficar juntos”

Nas explosões do ano de 1968, o filósofo Hebert Marcuse foi perguntado em uma palestra se se poderia combater o medo com a violência. O autor de O homem unidimensional respondeu que a violência é algo muito perigoso aos mais frágeis. E acrescentou que existem diferentes aspectos de violência com funções igualmente diferentes. Assim, existiriam dois modus operandi que regulam a violência: a violência da agressão e a violência da defesa. Ou seja, existe a violência da polícia, do Exército, da Ku Klux Klan e uma violência de oposição que responde a essas manifestações agressivas de violência.
Hoje em São Paulo, mais de 45 anos depois das palavras de Marcuse o cruzamento da violência da agressão com a violência de oposição cruzaram-se no cruzamento da Ipiranga com a avenida São João. Trabalhadores, moradores do centro, negros, mulheres, grávidas, crianças e sem teto enfrentaram a violência da sociedade, a violência legal, a violência institucional. Sua violência, a violência dos moradores (sem moradia) foi defensiva. Eles têm razão.
Por volta das dez horas, no cruzamento, aglomeraram-se uma multidão de pessoas e alguns ocupantes da Frente de Luta por Moradia (FLM) que haviam saído do prédio logo após a liminar de reintegração de posse em um hotel abandonado na São João, para observar os próximos movimentos da ação policial. Havia muita indignação. A polícia fez um cordão e não deixou ninguém passar. Depois de alguns minutos, um policial chamou uma das pessoas que ali se encontrava e disse:

– Não queremos entrar em conflito. Só entraremos em ação caso sejamos provocados. Prometemos.

A moradora concordou com o policial, virou-se para o restante do grupo e anunciou:

– Nós não vamos arremessar nada neles, nem pedras, nem paus. Nós nunca damos o primeiro tapa, ouviram? Por favor, vamos permanecer aqui de maneira pacífica.

Todos concordaram, aplaudiram e cumpriram com o prometido.
Quinze minutos depois, a mesma polícia, descumpriu sua promessa e executou a violência da agressão, explicada por Marcuse. Balas de borracha e gás lacrimogênio espalharam-se pelas ruas tão rapidamente que quanto mais se corria, mais elas apareciam. A ardência dos olhos só era um detalhe. Nesse mesmo momento, a televisão transmitia que “vândalos” haviam iniciado a violência e a polícia simplesmente estava retaliando. Curiosamente, graças ao manejo de habilidade linguística da sociedade estabelecida, nunca se chama a violência policial de violência. Por outro lado, com toda facilidade, se nomeia violência à ação dos moradores que se defendem da polícia. Nesse mesmo momento uma mulher grávida caiu na rua, bem ao meu lado. Rapidamente a socorri e então ela me disse.

– Precisamos resistir, eu e ele (o bebê). Precisamos de futuro. Precisamos estar juntos.
Desnorteado, apavorado, em frações de milésimos de segundos, consegui não sei como nem porque lembrar de Eles não usam Black-Tie (Leon Hirzman, 1981) e da cena em que Maria (Bete Mendes), grávida, levava chutes na barriga da polícia. E aquelas palavras, tão fortes, intensas, também me recordaram outra cena de um outro filme, Segunda Feira ao sol (Fernando León de Aranoa, 2002) em que o personagem Sanca (Javier Bardem) é questionado sobre o fracasso da greve que desencadearam e, posteriormente, foi pretexto para sua demissão. “De que adianta? Não conseguiram nada e, além disso, ninguém mais se lembra”. Ele responde: “fizemos que as pessoas soubessem e conseguimos ficar juntos”. Nem ela, nem eu, nem quem estava lá vai esquecer.
Para mim, de agora em diante a música de Caetano Veloso, “Sampa”, inspirada no cruzamento da Ipiranga e a avenida São João ganha uma triste paródia: a “dura poesia concreta das tuas esquinas” tornou-se repressão concreta de tuas armas; a “deselegância discreta de tuas meninas” transmutou-se para estupidez indiscreta das autoridades, do povo oprimido pela falta de moradia, da propriedade sagrada que expulsa ocupantes, da feia fumaça que circula as ruas, intoxica, arde. Eu vejo surgir policia por todos os cantos, mas vejo, em meio às nuvens de gás pimenta, o “possível novo quilombo de Zumbi”

Por Deni Rubbo | Fotos Ponte

São Paulo: Conferência “Os Anarquista e a Educação: da AIT até hoje” - ANA


São Paulo: Conferência “Os Anarquista e a Educação: da AIT até hoje”
C o m u n i c a d o:

No próximo sábado (20 de setembro), a Biblioteca Terra Livre em conjunto com o Instituto de Estudos Libertários (IEL), a Editora Imaginário e o Centro de Cultura Social (CCS/SP) promoverão a conferência:

Os Anarquistas e a Educação: da Associação Internacional dos Trabalhadores até hoje.

A conferência será ministrada por Hugues Lenoir (Professor de Ciências da Educação na Universidade Paris X) e terá tradução simultânea para o português.

Hugues Lenoir (hugueslenoir.fr) é hoje um dos principais difusores da pedagogia libertária na França. Sua obra já foi traduzida para o inglês, o espanhol e para o português, cabendo destacar o livro Educar para Emancipar, publicado pela Editora Imaginário no ano de 2007 por ocasião do I Colóquio Internacional de Educação Libertária.

A presença do professor Lenoir se deve a uma série de atividades em comemoração aos 150 anos da AIT – Associação Internacional dos Trabalhadores, que estão sendo realizadas no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Neste dia será realizado ainda o lançamento do livro Compêndio de Educação Libertária de Hugues Lenoir. Esta nova obra de Lenoir, recém traduzida para o português pela Editora Imaginário, oferece subsídios para aprofundar ainda mais o debate sobre uma educação libertária, resgatando teorias e práticas históricas e dialogando com as experiências e desafios de hoje.

A atividade ocorrerá no Centro de Cultura Social e terá início às 15h. A entrada é aberta a todas as pessoas.

Endereço: Rua General Jardim, 253, sala 22 (Próximo ao Metro República), São Paulo.
Dia e Hora: 20 de setembro (Sábado), às 15h.

Organização: Biblioteca Terra Livre, Instituto de Estudos Libertários (IEL), Editora Imaginário e Centro de Cultura Social (CCS/SP).

Evento no facebook:

agência de notícias anarquistas-ana

Bolha de sabão.
Uma explosão colorida
sem nenhum estrondo.
Maria Reginato Labruciano

domingo, 14 de setembro de 2014

Redesenhando o Oriente Médio - por Latuff

Fonte: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/37845/redesenhando+o+oriente+medio.shtml

Ramonet: por que o Oriente Médio está em chamas...


Ramonet: por que o Oriente Médio está em chamas...
Três guerras, um quebra-cabeças. Em declínio, EUA recuam, mas agem por meio de satélites. Irã busca mais espaço. Sauditas apelam para ultra-fundamentalismo.

Com Síria, Iraque e os confrontos entre Israel e os palestinos na Faixa de Gaza, há agora três guerras abertas ocorrendo simultaneamente no Oriente Médio. A estas hostilidades militares, é preciso acrescentar as tensões com o Irã, envolvendo seu programa de energia nuclear, e as rivalidades diplomáticas entre diversas potências  regionais, como Arábia Saudita e Egito. Tudo confirma: a região é o “barril de pólvora” do planeta e a “ante-sala da confusão” no mundo.

Uma primeira pergunta vem à mente: porque essa acirramento repentino? As causas locais são múltiplas, devido à própriaa diversidade dos atores envolvidos e de seus motivos (religiosos, étnicos, territoriais, políticos, petrolíferos etc). Mas um fato geopolítico parece determinante: a decisão dos Estados Unidos de reduzir seu envolvimento militar no teatro do Oriente Médio e se focar no leste da Ásia. Após os belicosos anos Bush, o governo Obama parece ter chegado a duas conclusões estratégicas: primeiro, um poderoso aparato militar não pode fazer tudo; e o país, atingido pela crise, já não tem os meios para exercer uma hegemonia absoluta.

Resultado: os Estados Unidos estão se retirando do Oriente Médio. Sobretudo, desde que o argumento principal para sua presença na região, o petróleo, vem perdendo a cada dia um pouco mais de importância, na medida em que o gás ou petróleo de xisto, no subsolo americano, substituem gradualmente as importações de hidrocarbonetos do Oriente Médio.

É este o momento geopolítico preciso que a região atravessa: uma potência hegemônica, os EUA retiram-se progressivamente; e outras potências e forças locais confrontam-se para ocupar o espaço político abandonado. Os acontecimentos parecem se acelerar de repente, como se todas as partes envolvidas começassem a pressentir a aproximação de um acontecimento decisivo, quando novas cartas serão colocadas na mesa. Isto dá espaço para os conflitos atuais, num contexto regional sacudido pelo crescimento do conflito entre sunitas e xiitas que incendeia toda a região do Crescente Fértil, de Gaza ao Golfo Pérsico.

Uma leitura fragmentada – a que os jornais diários oferecem  – não captura o movimento geral, no cenário de operações. Temos a impressão de que aquilo que está acontecendo em Gaza não tem nada a ver com os acontecimentos na Síria, e que eles são independentes das hostilidades no Iraque ou as negociações com o Irã. Na realidade, é uma falsa impressão, uma vez que todos os acontecimento são articulados entre si.
Começamos por Gaza. Por que a ofensiva atual de Telaviv? Aparentemente as coisas são simples: tudo começou em 12 de junho, quando três jovens israelenses foram sequestrados na Cisjordânia. O governo de Israel acusou imediatamente o Hamas (que governa Gaza) de estar por trás do sequestro e, em seus esforços para tentar deter os sequestradores dos jovens, multiplicou as detenções arbitrárias. O Hamas nega qualquer responsabilidade no sequestro de três jovens. Mas isso não impede que as autoridades israelenses prendam quatrocentos palestinos supostamente próximos do Hamas. Outros são mortos. Casas e apartamentos pertencentes a suspeitos são destruídos. Em retaliação, foguetes são disparados de Gaza contra Israel. Em 30 de junho os corpos dos três jovens desaparecidos são encontrados: foram assassinados perto de Halhoul, na Cisjordânia. O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu disse: “O Hamas é responsável; o Hamas pagará”. Nada, nenhuma prova ou evidência do envolvimento do Hamas no sequestro e assassinato hediondo dos três jovens israelenses. No entanto, nada impediu, alguns dias depois, a “punição” militar lançada contra Gaza.

Qual é a verdadeira razão? É preciso voltar a 29 de março. Naquele dia, Israel recusou-se a libertar, conforme acordado, um último grupo de prisioneiros palestinos, exigindo uma extensão das negociações de paz para além do prazo previsto de 29 de abril. É preciso dizer que o governo de Netanyahu – o mais à direita na história de Israel – não demonstrou vontade real em negociar com a Autoridade Palestina e abandonar sua política de colonização, conforme demonstrou a iniciativa natimorta do secretário de Estado norte-americano John Kerry, lançada ano passado.

O presidente palestino, Mahmoud Abbas, declarou-se disposto a prolongar as discussões, com a condição de que Israel libertasse os prisioneiros, congelasse os assentamentos e aceitasse discutir a demarcação das fronteiras do futuro Estado palestino. O governo de Telaviv rejeitou as demandas. E a partir desse momento, as hostilidades entre israelenses e palestinos aumentaram.

Neste contexto, no momento em que o processo de paz encontra-se totalmente atolado, uma sucessão de eventos ocorre: os palestinos assinam, em 23 de abril, um acordo de reconciliação entre o Fatah — que governa a Cisjordânia — e o movimento islâmico Hamas, no poder em Gaza. Juntos, decidem formar um governo de “consenso nacional”. Liderado pelo premiê Rami Hamdallah, e composto por tecnocratas, ele não conta com nenhum membro filiado ao Hamas. Os líderes israelenses ficam furiosos, e acusam o presidente palestino Abbas de ter escolhido “o Hamas, e não a paz”.

Afim de tranquilizar os israelenses e a comunidade internacional, o presidente Abbas prometeu que o novo governo da unidade nacional, rejeitará a violência, reconhecerá Israel e respeitará os compromissos internacionais. Por sua vez, Washington anunciou sua intenção de colaborar com o novo governo palestino e acrescentou que manterá sua ajuda financeira à Autoridade Palestina. A União Europeia também declarou apoio ao novo gabinete palestino.

Mas o primeiro-ministro israelense, Bejamin Netanyahu, afirma: “O Hamas é uma organização terrorista que visa a liquidação de Israel; esta aliança é inaceitável”. Logo após, ocorre o sequestro dos três jovens israelenses. E como os acontecimentos estão ligados, fornecem o pretexto para o governo israelense “destruir o Hamas”.

Na verdade, as coisas são ainda mais complexas. Pois, de fato, o Hamas vem sofrendo as consequências de uma reversão de alianças feitas recentemente. Lembremos de que, sob a influência de dois Estados próximos da Irmandade Muçulmana, Turquia e Qatar, o Hamas – ele mesmo, uma ramificação da Irmandade – mudou sua diplomacia regional no ano passado e fez escolhas geopolíticas que se mostraram desastrosas: afastou-se do presidente sírio, Bashar Al-Assad (e, portanto, do Irã) em plena guerra civil na Síria, pensando em forjar uma nova aliança com a Irmandade Muçulmana no Egito, que poderia ajudar o Hamas em Gaza.

Foi um grande erro: todas as previsões fracassaram. A Irmandade Muçulmana, que a Arábia Saudita também combate, foi derrubada no Egito — onde o general Al-Sissi assumiu o poder e não está, obviamente, ansioso por ajudar o Hamas — ligado à mesma Irmandade Muçulmana que ele persegue sem tréguas em seu solo. Em troca, Cairo tem restaurado a cooperação de segurança com Israel, em prejuízo de Gaza, onde condições de vida estão degradadas e os cidadãos estão culpabilizando os dirigentes islâmicos.
Sem o poder necessário, o Hamas não conseguiu melhorar a vida dos dois milhões de habitantes de Gaza. O movimento islâmico permanece sujeito à escalada local de grupos radicais, como a Jihad Islâmica, responsável pelo disparo contínuo de foguetes contra o território israelense. Assim, em um ano, o Hamas perdeu seus principais aliados — a Síria, o Irã e o Egito. Constrangido, aproximou-se do Fatah e da Autoridade Palestina. Atraindo ainda mais a ira do governo de Israel…

Além disso, Bashar el-Assad continua no poder na Síria, apoiado pela Rússia, Irã e o Hezbollah libanês. Embora a guerra em seu país esteja longe de acabar, está claro que as autoridades em Damasco marcaram pontos e, agora, retomaram a iniciativa na guerra.

É neste contexto regional que se desenvolvem os recentes acontecimentos no Iraque. Em especial a tomada, por um grupo de jihadistas sunitas, da importante região de Mosul — não só rica em petróleo, mas também território que concentra os Curdos. Este acontecimento inesperado ocorre no momento preciso em que as negociações entre o Irã e as potências ocidentais, sobre o programa nuclear, estão mais próximas que nunca de levar a um acordo, em que a Arábia Saudita perde sua aposta na Síria.

O reino saudita, ligado a uma vertente radical do islamismo — o wahhabismo — investiu pesadamente na luta para derrubar o presidente Assad. Durante três anos, cerca de 45 mil combatentes estrangeiros, financiados pela Arábia Saudita, foram enviados ao território sírio para lutar contra as autoridades de Damasco. Eles chegaram a oferecer, para engrossar o efetivo dos grupos islâmicos, prisioneiros já condenados à morte, acenando com a possibilidade de se redimir, caso fizessem a guerra santa (jihad) na Síria. O reino não só abriu seus depósitos de armas para a oposição, como teria comprado fábricas de armas na Ucrânia, cuja produção era enviada diretamente para os combatentes na Síria, através da Jordânia. Apesar desta impressionante manobra, as autoridades de Damasco conseguiram manter o equilíbrio de forças no terreno.

É por isso que a resposta chegou no Iraque. Rejeitados na Síria, os jihadistas sunitas juntaram-se ao grupo islâmico ISIS (Estado Islâmico do Iraque e do Levante, em inglês) para lançar uma ofensiva-relâmpago em junho, ameaçando Bagdá. Grupos sunitas armados, menos radicais, aderiram ao movimento com o propósito de criar um califado através das fronteiras entre Síria e Iraque.

Os curdos aproveitaram a chance para apoderar-se de outra cidade, Kirkuk, rica em petróleo, cujo controle disputaram, durante vários anos, com o governo de Bagdá. A incompetência do governo central e sua política favorável aos xiitas criaram as condições perfeitas para a insurgência sunita. Em todo caso, o golpe de força dos jihadistas do ISIS coloca em dificuldades o primeiro ministro iraquiano (xiita) Nouri al-Maliki, aliado de Teerã.

Este embaralhamento de cartas deve resultar no retorno da Arábia Saudita às negociações no Iraque. E ao mesmo tempo esse novo contexto permite, sobretudo, que o Irã volte a ser uma potência regional decisiva. Porque compartilha alguns interesses-chave com os ocidentais, especialmente os Estados Unidos. Os americanos têm em comum com o Irã xiita o mesmo inimigo: o jihadismo sunita, e particularmente seu grupo atual mais ativo, o ISIS, financiado pela Arábia Saudita, oficialmente um aliado de Washington…

Como podemos ver, num Oriente Médio em chamas em plena recomposição, a grande questão estratégica atual é o confronto entre Arábia Saudita e Irã — travado, “por procuração”, por meio de aliados locais destes dois países. O Estado-tampão que constituía o Iraque é agora disputado abertamente por ambos os lados. Com o pano de fundo do conflito na Síria e no Iraque, e a continuação do confronto do exército israelense contra o Hamas na Faixa de Gaza, a região vive uma virada geopolitica. A diplomacia parece paralisada, interrompida, o governo norte-americano e os europeus estão cada vez mais convencidos de que a estabilidade no Oriente Médio não pode ser alcançada sem a contribuição do Irã. Este quer ser reconhecido como potência (inclusive, no desenvolvimento de um programa nuclear civil). Não será algo que a Arábia Saudita engolirá com facilidade. E ela ainda não pronunciou sua última palavra.

Tradução Cauê Seignemartin Ameni

Israel Lobby em ação! - por Latuff

Fonte: http://latuffcartoons.wordpress.com/

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Existe fascismo em São Paulo - por Guilherme Boulos


Existe fascismo em São Paulo
Numa cidade de muros, arame farpado e rampas antimendigo, novo incêndio em favela demonstra: para afastar pobres, mercado imobiliário paulistano brinca com fogo… 

Se existe amor em São Paulo eu não sei. Mas fascismo, esse existe. E a elite paulistana não faz nenhuma questão de escondê-lo.

Sabemos que não é de hoje. A história da segregação territorial em São Paulo vem dos anos 1940, quando se inicia de forma mais sistemática a demolição dos cortiços e das residências operárias nas regiões centrais. Pobre tem que vir ao centro para trabalhar e servir, mas morar ali? Não, aí já é vandalismo!

Foi assim que surgiram e se expandiram as periferias da cidade. Numa jogada de mestre e sempre com o apoio do Estado, os agentes imobiliários conseguiram, ao mesmo tempo, tirar os pobres do convívio nos bairros centrais, ganhar um bom dinheiro com loteamentos clandestinos na periferia e reservar áreas intermediárias para a especulação. Nessas áreas estabeleceram-se depois os verdadeiros nichos da elite paulistana.

O que estava em jogo era materializar no território a segregação social entre ricos e pobres.
Até hoje a dinâmica do mercado imobiliário reproduz esse fenômeno. Quando um bairro recebe investimentos ou passa a hospedar grandes empreendimentos privados – condomínios de alto padrão, shoppings, etc – sofre um processo intenso de valorização. Expulsa assim os moradores mais pobres, por vezes através de despejos coletivos e mais frequentemente pela hipervalorização dos aluguéis.

Esta dinâmica econômica sedimentou uma mentalidade higienista na elite e nas camadas médias. Veio junto com uma fobia, um nojo, uma recusa da convivência. Seu ideal seria que os pobres trabalhassem para servi-los, mas ao fim do expediente evaporassem, para retornar apenas no dia seguinte. Pobres podem até existir, desde que longe de seus olhos.

Há casos emblemáticos e recentes. Em 2010, os seletos moradores de Higienópolis iniciaram um movimento contra uma estação de metrô nas redondezas. Motivo: traria ao bairro “gente diferenciada”. Em 2011 foi a vez de uma turma de comerciantes e moradores de Pinheiros, que se organizaram contra um albergue para moradores de rua no bairro. “Ficaremos acuados em casa”, alegaram na ocasião. As rampas antimendigo, iniciadas na gestão de José Serra para impedir moradores de rua em certas partes da cidade, deram a chancela do poder público.

Mas o pior ainda estava por vir. A face mais perversa deste fenômeno foram os incêndios em favelas. O mercado imobiliário é mesmo muito criativo. Quando, por alguma eventualidade, o judiciário barra o despejo de uma favela localizada em zona de expansão imobiliária eles fazem a seu modo. Incendiar favelas tornou-se um recurso habitual para afastar pobres dos condomínios de alto padrão.

Em muitos casos é difícil provar, o que permitiu aos interessados atribuir os incêndios à baixa umidade do ar. Mas os indícios são avassaladores. O site Fogo no Barraco reuniu o mapa de todos os incêndios em favelas paulistanas de 2005 a 2014 e comparou as regiões incendiadas com o índice de valorização imobiliária. O mapa mostra como a enorme maioria dos incêndios ocorreu nas zonas de valorização. Mais inflamável que o clima seco é a especulação.

Os dados dizem ainda que metade dos incêndios dos últimos 20 anos ocorreram entre 2008 e 2012, isto é, durante a gestão de Gilberto Kassab (PSD) como prefeito, que foi marcada pela promiscuidade com o mercado imobiliário. A conivência do poder público também é inflamável.

No último domingo (7), o tema voltou com o incêndio em uma favela na região do Campo Belo. O bairro valorizou-se 130% nos últimos 5 anos, de acordo com o Índice Fipe/Zap. Tinha uma pedra no sapato do mercado imobiliário e da mentalidade fascista que foi novamente varrida com fogo. Os bombeiros que foram até o local afirmaram em reportagem que o incêndio foi mais uma vez criminoso.

Também nos últimos dias, a Folha noticiou que condomínios do Morumbi estão se mobilizando contra a ocupação Chico Mendes, organizada pelo MTST num terreno municipal com destinação prevista para habitação popular. Uma das ilustres moradoras disse tudo: “Atrapalhando eles estão, é desconfortável”. Atrapalhando a vista de sua sacada, pobres, ali, ao lado.

A realidade é mesmo desconfortável. A mentalidade fascista atua para negar, queimar, expulsar este desconforto para bem longe. Que os pobres existam, mas em algum lugar de Ferraz de Vasconcelos, bem longe da minha sacada.

São Paulo é uma das cidades mais desiguais do mundo. A cidade dos muros. Dos muros, incêndios criminosos, despejos, rampas antimendigo e dos condomínios exclusivos. O fascismo da elite só coloca mais combustível neste barril de pólvora.