quinta-feira, 25 de setembro de 2014
Mídia ignora apoio de 7,7 milhões à reforma política...brasil247
http://www.brasil247.com/pt/247/poder/154718/M%C3%ADdia-ignora-apoio-de-77-milh%C3%B5es-%C3%A0-reforma-pol%C3%ADtica.htm
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
Ramonet: o bloqueio a Cuba próximo do fim?
Ramonet: o bloqueio a Cuba próximo do fim?
Hillary Clinton reconhece que política norte-americana é erro histórico. População concorda, mostram pesquisas. Agora, só direita e Obama parecem sustentar embargo
No livro que se acaba de publicar sobre suas experiências
como secretária de Estado, durante o primeiro mandato (2008-2012) do presidente
dos Estados Unidos, Barack Obama, intitulado Decisões difíceis (1), Hillary
Clinton escreve, a propósito de Cuba, algo fundamental: “ao terminar meu
mandato, pedi ao presidente Obama que reconsiderasse nosso embargo contra Cuba.
Não cumpre nenhuma função e obstrui nossos projetos com toda America Latina”.
Pela primeira vez, uma personalidade que aspira à
presidência dos Estados Unidos afirma publicamente que o bloqueio imposto por
Washington – desde mais de cinquenta anos! – à maior ilha do Caribe não cumpre
“nenhuma função”. Isto é, não se tem permitido submeter esse pequeno país
apesar. do grande sofrimento injusto que se tem causado a sua população. Nesse
sentido, o fundamental, na constatação de Hillary Clinton, são dois aspectos:
Primeiro, rompe o tabu, dizendo em voz alta o que desde
muito tempo todos já sabem em Washington: que o bloqueio não serve para nada. E
segundo, de maior importância, é declarar isto no momento em que arranca na
corrida à candidatura do Partido Democrata à Casa Branca. Isto quer dizer, não
teme que essa afirmação – na contracorrente de toda a política de Washington
diante de Cuba no ultimo meio século – constitua, para ela, um obstáculo, na
larga batalha eleitoral que tem daqui até as eleições de 8 de novembro de 2016.
Se Hillary Clinton sustenta uma postura tão pouco
convencional, em primeiro lugar, é porque assume o desafio de responder sem
temor as duras criticas que não deixaram de formular seus adversários
republicanos, ferozmente hostis a toda mudança de Washington com respeito a
Cuba. E, em segundo lugar, porque não ignora que a opinião publica
estadunidense tem evoluído sobre esse tema, sendo hoje majoritariamente
favorável ao fim do bloqueio.
Do mesmo modo que Hillary Clinton, um grupo de cinquenta
importantes empresários (2), ex-altos funcionários estadunidenses de distintas
tendências políticas e intelectuais, acaba de pedir a Obama, em carta aberta
(3), que utilize as prerrogativas do Poder Executivo para introduzir mudanças
mais inteligentes com relação a Cuba e se aproxime mais de Havana. Seria uma
forma de minimizar o impasse, sabendo que o presidente dos Estados Unidos
não possui a faculdade de acabar com o embargo — o que depende de uma maioria
qualificada de democratas e republicanos no Congresso. Assinalam que a
sociedade apoiaria este primeiro passo.
Com efeito, uma pesquisa realizada em fevereiro desse ano
pelo centro de investigação Atlantic Council afirma que 56% dos estadunidenses
querem uma mudança na política de Washington com Havana. E, mais significativo,
na Florida, o Estado com maior sensibilidade neste tema, 63% dos cidadãos (e
62% dos latinos) desejam o fim do bloqueio (4). Outra consulta mais recente,
realizada pelo Instituto de Investigação Cubano da Universidade Internacional
da Florida, demonstra que a maioria da própria comunidade cubana de Miami (5)
pede pelo fim do bloqueio à ilha (71% dos consultados considera que o embargo
“não tem funcionado”, e uns 81% votaria por um candidato que substituísse o
bloqueio por uma estratégia que promovesse o reestabelecimento diplomático
entre ambos os países) (6).
Ocorre que, contrariamente às esperanças que surgiram depois
da eleição de Barack Obama em novembro de 2008, Washington manteve-se
estacionado em suas relações com Cuba. Justamente depois de assumir seu cargo
de presidente, Obama anunciou – na Cúpula das Américas, celebrada em Trindad e
Tobago, abril de 2009 – que daria um novo rumo nas relações com Havana.
Todavia, limitou-se a gestos pouco mais que simbólicos:
autorizou que os estadunidenses de origem cubana viajassem à ilha e enviassem
quantidades restritas de dinheiro a suas famílias. Depois, em 2011, adotou
novas medidas, mas também de pequeno alcance: permitiu que grupos religiosos e
estudantes viajassem a Cuba, consentiu que aeroportos estadunidenses recebessem
voos da ilha e ampliou o limite de remessas que os cubanos-estadunidenses
poderiam transferir a seus parentes. Pouca coisa, diante do formidável bloqueio
que separa os dois países.
Entre as divergências, está o caso dos Cinco Cubanos (7),
que tem comovido a opinião publica internacional (8). Estes agentes da
inteligência de Havana, detidos na Florida pelo FBI em setembro de 1998 quando
realizavam missões de prevenção contra o terrorismo anticubano, foram
condenados a altas penas de prisão, num julgamento político típico da Guerra
Fria (autêntico linchamento jurídico).
Condenação ainda mais injusta porque “Os Cinco” não
cometeram nenhum ato de violência, nem procuraram informação sobre a segurança
dos Estados Unidos. O único que fizeram, correndo riscos mortais, foi prevenir
atentados e salvar vidas humanas. Washington não é coerente quando diz combater
o “terrorismo internacional” e segue abrigando, em seu próprio território,
grupos terroristas anticubanos (9). Sem ir mais longe, em abril passado, as
autoridades da ilha detiveram um novo grupo de quatro indivíduos, vinculados a
Luis Posada Carriles (10), vindo mais uma vez da Florida com a intenção de
cometer atentados.
Tampouco há coerência quando acusam “Os Cinco” de atividades
antiestadunidenses que jamais existiram, enquanto Washington segue empenhado em
imiscuir-se nos assuntos internos de Cuba e na fomentação de mudanças do
sistema político.
Há meses, voltaram a demonstrar tais intenções, nas recentes
revelações sobre o assunto “ZunZuneo” (11), uma falsa rede social que uma
agência do Departamento de Estado (12), criou e financiou ocultamente entre
2010 e 2012 com a intenção de provocar na ilha protestos semelhantes ao das
“Revoluções Coloridas” do ex-mundo soviético, da Primavera Árabe ou das
“Guarimbas” venezuelanas, para exigir depois, a partir da Casa Branca ou do
Capitólio, uma mudança política. Tudo isso demonstra que Washington segue tendo
sobre Cuba uma atitude retrógrada, tipicamente da Guerra Fria, etapa que
terminou a quase um quarto de século.
Semelhante arcaísmo choca com a postura de outras potências.
Por exemplo, todos os Estados da América Latina e do Caribe, quaisquer que
sejam suas orientações políticas, têm estreitado ultimamente seus laços com
Cuba, denunciando o bloqueio.
Pode-se comprovar isto no inicio do ano, na Cúpula da
Comunidade dos Estados Latino Americanos e do Caribe (CELAC) reunida
precisamente em Havana. Washington sofreu um novo desprezo no há pouco, em
Cochabamba (Bolivia), durante a Assembleia Geral da Organização dos Estados
Americanos (OEA), quando os países latino-americanos – numa nova mostra de
solidariedade com Havana – não participar da próxima Cúpula das Américas, que
terá lugar em 2015 no Panamá, se Cuba não for convidada a participar.
Por sua parte, a União Europeia (UE) decidiu, em fevereiro,
abandonar a chamada “posição comum” com relação à ilha, imposta em 1996 por
José Maria Aznar, então presidente do Governo da Espanha, para “castigar” Cuba
rechaçando todo dialogo com as autoridades da ilha. Porém, o gesto resultou
estéril e fracassado.
Bruxelas tem reconhecido e dado inicio agora a uma
negociação com Havana para alcançar um acordo de cooperação política e
econômica. A UE é o primeiro investidor estrangeiro em Cuba e seu segundo sócio
comercial. Com este novo espírito, vários ministros europeus já visitaram a
ilha. Entre estes, em abril, Laurent Fabius, – primeiro chanceler francês que
realizou uma visita a nação caribenha em mais de trinta anos – declarou que
buscava promover as alianças entre as empresas dos dois países, bem como apoiar
as companhias francesas que desejassem desenvolver projetos ou se fixar em Cuba
(13).
Contrastando com o imobilismo de Washington, muitas
chancelarias europeias observam com interesse as mudanças que estão se
produzindo em Cuba, impulsionadas sobretudo pelo presidente Raúl Castro, no
marco da atualização do modelo econômico e na linha definida em 2011 no VI
Congresso do Partido Comunista de Cuba (PCC). Representam transformações muito
importantes na economia e na sociedade. Em particular, a recente criação da
Zona Especial de Desenvolvimento em torno do porto de Mariel — assim como a
aprovação, em março, de uma nova Lei de Investimento Estrangeiro — suscitam um
grande interesse internacional.
As autoridades consideram que não existe contradição entre o
socialismo e a iniciativa privada (14). E alguns responsáveis estimam que esta
última (que incluiria as inversões estrangeiras) poderia abarcar até 40% da
economia do país, enquanto o Estado e o setor público conservariam 60%. O
objetivo é que a economia cubana seja cada vez mais compatível com a de seus
principais sócios na região (Venezuela, Brasil, Argentina, Equador, Bolívia),
onde coexistem setor publico e setor privado, Estado e mercado.
Todas estas transformações sublinham, por contraste, o
impedimento do governo estadounidense, autobloqueado em uma posição ideológica
de outra época. Inclusive, como temos visto, cada dia são mais numerosos
aqueles que, em Washington, admitem que essa postura seja equivocada e que, em
relação a Cuba, os EUA têm urgência em sair do isolamento internacional. O
presidente Obama saberá escutá-los?
—
(1) Hillary Rodham Clinton, Hard Choices, Simon &
Schuster, Nueva York, 2014.
(2) Entre los empresarios que figuran: J. Ricky Arriola,
presidente del poderoso consorcio Inktel; los magnates del azúcar y del sector
inmobiliario Andrés Fanjul y Jorge Pérez; el empresario Carlos Saladrigas, y el
petrolero Enrique Sosa, además de otros emprendedores multimillonarios.
(3) Léase El Nuevo Herald, Miami, 20 de mayo de 2014.
(4) Léase Abraham Zembrano, “¿Se acerca el fin del embargo a
Cuba?”, BBC Mundo, Londres, 20 de febrero de 2014.
http://www.bbc.co.uk/mundo/noticias/2014/02/140211_cuba_eeuu_embargo_az.shtml
(5) En Miami, principal ciudad de Florida, viven unos
650.000 expatriados cubanos.
(6) El País, Madrid, 17 de junio de 2014.
http://internacional.elpais.com/internacional/2014/06/17/actualidad/1403022248_144582.html
(7) Los Cinco son: Antonio Guerrero, Ramón Labañino, Gerardo
Hernández, René González y Fernando González. Estos dos últimos han sido
liberados y se hallan en Cuba.
(8) En Washington, del 4 al 10 de junio pasado, tuvo lugar
el Tercer Encuentro “Cinco días por los Cinco” que reunió a participantes
procedentes de decenas de países del mundo, los cuales se manifestaron delante
de la Casa Blanca y del Capitolio exigiendo la liberación de “los Cinco”. http://www.answercoalition.org/national/news/5-days-forthe-Cuban-5.html
(9) Cuba es uno de los países del mundo que más ha padecido
la lacra del terrorismo (3.500 personas asesinadas y más de 2.000
discapacitados de por vida).
(10) Jefe de diversos grupos terroristas anticubanos, Posada
Carriles es en particular el responsable del atentado contra el avión de
pasajeros de Cubana de Aviación cuya explosión en vuelo provocó, en 1976, 73
muertos. Reside en Florida, donde goza de la protección de las autoridades estadounidenses.
(11) Las revelaciones fueron realizadas por la agencia de
prensa AP (Associated Press).
http://www.bbc.co.uk/mundo/noticias/2014/04/140403_zunzuneo_cuba_eeuu_msd.shtml
(12) La Agencia para el Desarrollo Internacional de Estados
Unidos (USAID, por sus siglas en inglés), un organismo que opera bajo la
dirección del Departamento de Estado.
(13) Alrededor de sesenta grandes empresas francesas están
presentes en Cuba. Entre las principales, destacan el grupo Pernod Ricard, que
comercializa el ron Havana Club en el mundo, los grupos Accor, Nouvelles
frontières, FRAM voyages en el sector del turismo, Bouygues en obras públicas,
Alcatel-Lucent en telecomunicaciones, Total y Alstom en energía, y Air France
en transporte, entre otros.
(14) Se estima que ya hay unos 450.000 “cuentapropistas”
(trabajadores por cuenta propia, comerciantes y pequeños empresarios) en Cuba.
Tradução João Victor More Ramos
Fonte: http://outraspalavras.net
domingo, 21 de setembro de 2014
Nas pegadas de Orwell e Huxley – por Elenita Malta Pereira
Nas pegadas de Orwell e Huxley
Inspirado em clássicos, “O doador de memórias” retoma
distopia do controle social absoluto. É algo indispensável, em tempos de NSA e
internet vigiada
Quem controla o passado, controla o futuro.
Quem controla o presente, controla o passado.
George Orwell, em 1984
Quem controla o presente, controla o passado.
George Orwell, em 1984
O instigante O doador de memórias chega às telonas na
esteira de blockbusters juvenis, como Jogos Vorazes e Divergente, distopias
sobre jovens que se rebelam contra as sociedades em que vivem. No entanto, não
é mera cópia ou versão desses filmes anteriores, até porque ele se baseia no
premiado livro The giver (O doador), publicado pela escritora norte americana
Lois Lowry, em 1993. Retomando elementos das famosas distopias escritas na
primeira metade do século XX, 1984 (George Orwell) e Admirável Mundo Novo
(Aldoux Huxley), o filme aborda com profundidade questões importantes da
existência humana.
Narrada do ponto de vista do personagem juvenil Jonas
(Brenton Thwaites), a história começa em preto e branco, e, à medida que o
garoto toma consciência do funcionamento de seu próprio mundo, vai ganhando
cores. Inicialmente, todos veem em preto e branco, escolha do diretor Philip
Noyce para ressaltar a “mesmice” do local onde vivem.
“A comunidade” onde Jonas mora com sua família é uma das
tantas que formam um mundo totalmente controlado. As pessoas não têm livre
arbítrio; até mesmo suas profissões são escolhidas por um grupo de anciãos.
Estes decidem qual seria a melhor contribuição de cada um para a comunidade. Tal
mundo é liderado por uma mulher (Meryl Streep), que tem a pretensão de estar em
todos os lugares ao mesmo tempo para que nenhuma mudança aconteça. Ali não há
guerras, dores nem tristezas, mas também as alegrias e as paixões não estão
presentes. As angústias e os prazeres foram suprimidos tempos atrás, para a
manutenção de um sociedade harmônica e seus cidadãos “felizes”.
Assim como na “teletela” de 1984, as pessoas são vigiadas
constantemente, desde a infância, por câmeras – dispositivos onipresentes nas comunidades.
Os atos de todos são seguidos 24 horas por dia. Antes de sair de casa (a
“unidade familiar”), cada um precisa tomar sua “injeção matinal”, que lembra o
“soma”, a droga diária de Admirável mundo novo. Dopados o dia inteiro, são
incapazes de sentir emoções que possam afetar o equilíbrio da comunidade.
Também não há livros, pois são muito perigosos: poderiam difundir ideias
diferentes das repetidas pelo sistema, e causar rebelião. Nesse ponto, lembra o
romance Fahrenheit 451 (Ray Bradbury) e sua queima de livros, outra distopia
pós-II Guerra Mundial.
Nesse mundo perfeito, não há toque e não há sexo – os bebês
são fabricados geneticamente. As pessoas não sabem o que é sentir amor (como em
1984 e Admirável mundo novo).
A falta de liberdade interfere também no modo de falar da
comunidade. Como a “novilíngua” criada por George Orwell, em O doador de
memórias os habitantes se preocupam com a “precisão de linguagem”, uma forma de
falar que elimina referências a sentimentos e emoções. É na “precisão de linguagem”,
na vigilância e na supressão das memórias que se alicerça esse mundo
totalitário.
As memórias foram surrupiadas da população e concentradas em
apenas uma pessoa, o “doador”, interpretado por Jeff Bridges (que também é um
dos produtores do filme). Ele, com suas dores e alegrias, é o guardião da
memória coletiva. Quando Jonas recebe a designação de “receptor”, passa a ser
dele o dever de carregar as memórias dentro de si. À medida que Jonas vai
conhecendo o passado, seu olhar sobre o mundo vai mudando, e ele passa a
enxergar as cores que os demais não podem ver.
O controle das memórias é o ponto chave do filme, é o que
possibilita a apatia das pessoas. Elas aceitam que seus direitos, lembranças e
senso moral sejam suprimidos. Esse apagamento mnemônico retira o sentido ético
das pessoas no momento de suas escolhas, pois com ele perde-se também qualquer
tábua de valores. Sem a referência do passado, como podemos saber se agimos de
forma certa ou errada? Provocar a morte de alguém, num mundo como esse, pode
ser algo correto e inquestionável, porque você não tem como dimensionar seus
próprios atos.
E essa é a maior semelhança de O doador de memórias com 1984.
Como escreveu George Orwell, “quem controla o passado, controla o futuro”.
Também o historiador Jacques Le Goff, em seu livro História e Memória,
referiu-se à importância desse controle: “tornarem-se senhores da memória e do
esquecimento é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos
indivíduos que dominaram e dominam as sociedades históricas. Os esquecimentos e
os silêncios da história são reveladores desses mecanismos de manipulação da
memória coletiva”. A história e a memória são instrumentos poderosos que podem
mudar a vida das pessoas. Seu conhecimento pode levar tanto a guerras e genocídios,
quanto a conquistas de liberdade no plano social ou individual. O passado é
muito perigoso para sociedades totalitárias, que querem controlar cada passo do
indivíduo.
Recentemente, o mundo assombrou-se com
o esquema de vigilância internacional da Agência Nacional de Segurança dos
Estados Unidos (National Security Agency, ou NSA), revelado pelo analista
Edward Snowden. Nem pessoas comuns, nem autoridades escaparam de serem
espionadas. De certa forma, já estamos vivenciando uma demo do que seria um mundo
vigiado pelo “big brother” de 1984. Ainda que não haja teletelas nem anciãos
seguindo nossos passos, ou injeções matinais obrigatórias, nossos movimentos na
internet não são privados. Embora a desculpa seja a garantia da segurança
nacional, ou mesmo a oferta de produtos compatíveis aos nossos gostos e
necessidades, isso, por si só, já é uma forma de controle indevido.
Indo além da pura diversão, distopias como O doador de
memórias são alertas contra um mundo totalmente controlado, em que o poder de
decisão e as escolhas seriam retirados dos cidadãos e transferidos aos
“líderes”. O filme pode ser o ponto de partida para interessantes debates nas
escolas, com o público juvenil, sobre livre arbítrio, cidadania, invasão de
privacidade, a importância da história e da memória para as sociedades e,
sobretudo, as ameaças do totalitarismo. Na verdade, esses temas sempre deveriam
estar presentes nas discussões de jovens de todas as idades. Através da
distopia, o filme nos passa a mensagem de que a construção de um mundo livre e
igualitário é possível. Essa sim é a utopia a ser perseguida.
Fonte: http://outraspalavras.net/
sexta-feira, 19 de setembro de 2014
Ajuda humanitária de Obama para a Libéria - por Latuff
Wallerstein: Império em pânico no Oriente Médio
Wallerstein: Império em pânico no Oriente Médio
Mal explicada pelos militares e Obama, nova guerra na região será provável desastre. Em grave declínio, EUA cometem desatinos que ameaçam planeta
O presidente Barack Obama disse aos Estados Unidos, e em
particular ao Congresso, que o país deve fazer algo no Oriente Médio, para
interromper um desastre. Sua análise do suposto problema é extremamente turva,
mas os tambores do patriotismo estão batendo forte e, no momento, quase todo
mundo, nos EUA, está cotagiado. Alguém mais sensato diria que todos estão se
debatendo em desespero, diante de uma situação pela qual Washington é o
principal responsável. Não sabem o que fazer. Por isso, agem em pânico.
A explicação é simples. Os Estados Unidos estão em grave
declínio. Tudo dá errado. E, em pânico, seus governantes assemelham-se ao
condutor de um automóvel possante, que perdeu o controle da máquina e não sabe
como reduzir a velocidade. Em vez disso, ele acelera rumo a um grande desastre.
O carro trafega em ziguezague e derrapa. Tornou-se um enorme perigo – não
apenas para o motorista, mas também para o resto do mundo.
As análises atuais concentram-se sobre o que Obama fez ou
deixou de fazer. Mesmo seus defensores mais próximos parecem duvidar do
presidente. Um comentarista australiano escreveu, no Financial Times, que “em
2014, o mundo subitamente cansou-se de Barack Obama”. Imagino que talvez o
próprio Obama tenha se cansado de si mesmo. Mas seria um erro culpar apenas o
presidente. Virtualmente ninguém, entres os líderes norte-americanos,
apresentou alternativa mais inteligente. Bem ao contrário. Há os profetas da
guerra, que estimulam o presidente a bombardear todo mundo, e já. Há os
políticos que realmente creem que as próximas eleições norte-americanas farão
grande diferença…
Uma rara voz de sensatez surgiu numa entrevista do New York
Times com Daniel Benjamin, que foi, no primeiro governo Obama, o principal
conselheiro antiterrorismo do Departamento de Estado. Ele considera a suposta
ameaça do ISIS uma “farsa”, em que “membros do governo e do alto comando
militar descrevem a ameaça, todo o tempo, em termos escabrosos, que não se
justificam”. Ele diz que as alegações são feitas sem nenhuma “evidência
comprovada”, o que só demonstra como é fácil, para altos funcionários e a
mídia, “mergulhar o público em pânico”. Mas quem dá ouvidos a Benjamin?
Neste instante, e com a ajuda de fotos macabras da
decapitação de dois jornalistas norte-americanos pelo califado, as pesquisas
mostram enorme apoio a uma ação militar. Mas quanto isso perdurará? O apoio só
será sustentado enquanto houver resultados concretos. Mesmo o chefe do
Estado-Maior militar, Martin Dempsey, reconhece, quando defende ação bélica,
que ela se estenderá por pelo menos três anos. Multiplique três por cinco, para
se aproximar de uma estimativa de duração mais real. A população
norte-americana, com certeza, irá se desencantar rapidamente.
Por enquanto, Obama propõe alguns bombardeios na Síria,
nenhum soldado norte-americano “em solo”, mas um número maior de soldados
especiais, em atividades de treinamento no Iraque (e provavelmente em outras
partes). Quando disputou a presidência, em 2008, Obama fez muitas promessas,
como é normal para um político. Mas sua promessa-chave foi sair do Iraque e
Afeganistão. Ele não irá mantê-la. Na verdade, está envolvendo os EUA em novas
guerras.
A coalizão liderada por Obama oferecerá “treinamento” a quem
o presidente define como “gente de bem” [orig: “good guys”]. Aparentemente, o
treinamento ocorrerá na Arábia Saudita. Bom para os governantes do pais. Eles
podem vetar qualquer participante dos exercícios e escolher em quem confiam ou
não. Isso tornará possível, ao regime saudita (hoje, ao menos tão desnorteado
quanto o norte-americano), sugerir que está fazendo algo e sobreviver um pouco
mais.
Há maneiras de alterar este cenário catastrófico. Mas elas
exigem uma decisão de substituir a guerra por acordos políticos entre muitos
grupos, que não se gostam, nem confiam uns nos outros. Tais acordos políticos
não são impossíveis, mas são difíceis de articular – e, depois de firmados,
são, num primeiro momento, frágeis. Uma das principais condições para que eles
tenham espaço no Oriente Médio é um menor envolvimento dos Estados Unidos.
Ninguém acredita em Washington, ainda que alguns atores convoquem assistência
norte-americana momentaneamente, para executar certas tarefas. O New York Times
lembra que, no encontro que Obama montou, para lançar sua nova coalizão, o
apoio dos países do Oriente Médio presente foi “morno” e “relutante”, por haver
“crescente desconfiança nos Estados Unidos, partindo de todos os lados”.
Portanto, ainda que alguns se alinhem de forma limitada, ninguém mostrará
gratidão por algum tipo de assistência norte-americana. É provável que os
atores políticos do Oriente Médio desejem agora produzir seu próprio cenário,
ao inveś de encenar a visão dos EUA sobre o que lhes convém.
Por Immanuel Wallerstein | Tradução: Antonio Martins
Fonte: http://outraspalavras.net/
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
SP: UGRA ZINE FEST 2014!
Enfim é chegada a hora de dizer: UGRA ZINE FEST 2014 VEM AÍ!
A quarta edição do UZF acontecerá no Centro Cultural São Paulo nos dias 20 e 21 de setembro e promete reunir o que há de melhor no panorama dos zines, dos quadrinhos independentes e da cultura alternativa atuais em uma programação intensa e diversificada. Ao todo serão 4 palestras, 2 debates, 2 oficinas 2 exposições, 2 shows e, obviamente, uma deliciosa feira de publicações!
Fonte: http://ugrapress.wordpress.com/
Como o governo norte-americano ameaçou o Yahoo! para espionar usuários – por Jon Queally
Como o governo norte-americano ameaçou o Yahoo! para
espionar usuários
Investigação evidencia a cumplicidade entre as maiores
companhias de internet dos EUA e a NSA, além de desvelar práticas de
espionagem.
Quando a gigante da internet Yahoo! tentou recusar os pedidos
de acesso da NSA para os dados de milhões de usuários da companhia, o
Departamento de Justiça dos EUA ameaçou multar a companhia por $250,000 por
dia, de acordo com documentos secretos revelados na última quinta-feira (11).
Em um caso que data do ano de 2007 e 2008, Yahoo! afirmou à Corte de Vigilância de Inteligência Estrangeira (Fisc) que as demandas da NSA pelos dados dos usuários eram "inconstitucionais e abusivas". O apelo da companhia foi negado pela Corte e os todos os arquivos do caso foram protegidos contra revisão. Não somente o público foi excluído do caso, até os advogados da Yahoo! foram mantidos no escuro sobre aspectos chave da questão.
O conselheiro geral da companhia e advogado chefe do caso explicou:
"Apesar da desclassificação e da divulgação, porções dos documentos ainda estão selados e são confidenciais até hoje, desconhecidos até para o nosso time. Os documentos divulgados mostram o quanto tivemos que lutar para desafiar os esforços de vigilância do governo norte-americano. Num certo ponto, o governo nos ameaçou com a imposição de U$250,000 em multa por dia caso recusássemos a cooperação.
Nossa luta continua. Ainda tentamos obrigar a Fisc a divulgar materiais do caso de 2007-2008 no tribunal de primeira instância. A Fisc indicou anteriormente que estava esperando ordens da sua corte superior, a Fisc-R, em relação a 2008 para ir adiante. Agora que a questão do Fisc-R está resolvida, iremos continuar a luta para obtermos mais material."
O caso é significativo pois evidencia o nível de cumplicidade entre as maiores companhias de internet norte-americanas e a NSA, além de desvelar as práticas de vigilância em massa que foram conduzidas sem o conhecimento do público antes do vazamento de documentos promovidos pelo denunciante Edward Snowden. Como o Guardian relata:
"Quase todas as maiores firmas de tecnologia incluindo a AOL, Apple, Google e Microsoft foram listadas pela NSA como participantes do programa, o qual foi conduzido em conjunção com a equivalente britânica da NSA, GCHQ."
Iniciado sob a administração Bush, o programa coletou informação das maiores empresas de tecnologia sob o Ato de Emendas da FISA. Os slides da NSA obtidos por Snowden continham uma apresentação breve a qual dizia que o programa federal de espionagem Prism garantia acesso a arquivos como e-mails, conversas de chat, ligações de voz e mais.
Patrick Toomey, advogado que cuida da pasta de segurança nacional da Associação Norte-americana pelas Liberdades Civis, disse ainda não ter revisado todos os documentos mas já ter notado que "a Yahoo! desafiou o programa de escutas do governo mais do qualquer um dos seus competidores."
Em um caso que data do ano de 2007 e 2008, Yahoo! afirmou à Corte de Vigilância de Inteligência Estrangeira (Fisc) que as demandas da NSA pelos dados dos usuários eram "inconstitucionais e abusivas". O apelo da companhia foi negado pela Corte e os todos os arquivos do caso foram protegidos contra revisão. Não somente o público foi excluído do caso, até os advogados da Yahoo! foram mantidos no escuro sobre aspectos chave da questão.
O conselheiro geral da companhia e advogado chefe do caso explicou:
"Apesar da desclassificação e da divulgação, porções dos documentos ainda estão selados e são confidenciais até hoje, desconhecidos até para o nosso time. Os documentos divulgados mostram o quanto tivemos que lutar para desafiar os esforços de vigilância do governo norte-americano. Num certo ponto, o governo nos ameaçou com a imposição de U$250,000 em multa por dia caso recusássemos a cooperação.
Nossa luta continua. Ainda tentamos obrigar a Fisc a divulgar materiais do caso de 2007-2008 no tribunal de primeira instância. A Fisc indicou anteriormente que estava esperando ordens da sua corte superior, a Fisc-R, em relação a 2008 para ir adiante. Agora que a questão do Fisc-R está resolvida, iremos continuar a luta para obtermos mais material."
O caso é significativo pois evidencia o nível de cumplicidade entre as maiores companhias de internet norte-americanas e a NSA, além de desvelar as práticas de vigilância em massa que foram conduzidas sem o conhecimento do público antes do vazamento de documentos promovidos pelo denunciante Edward Snowden. Como o Guardian relata:
"Quase todas as maiores firmas de tecnologia incluindo a AOL, Apple, Google e Microsoft foram listadas pela NSA como participantes do programa, o qual foi conduzido em conjunção com a equivalente britânica da NSA, GCHQ."
Iniciado sob a administração Bush, o programa coletou informação das maiores empresas de tecnologia sob o Ato de Emendas da FISA. Os slides da NSA obtidos por Snowden continham uma apresentação breve a qual dizia que o programa federal de espionagem Prism garantia acesso a arquivos como e-mails, conversas de chat, ligações de voz e mais.
Patrick Toomey, advogado que cuida da pasta de segurança nacional da Associação Norte-americana pelas Liberdades Civis, disse ainda não ter revisado todos os documentos mas já ter notado que "a Yahoo! desafiou o programa de escutas do governo mais do qualquer um dos seus competidores."
do Common Dreams
A tradução é de Isabela Palhares.
terça-feira, 16 de setembro de 2014
O dia em que Marcuse encarou a PM – por Deni Rubbo
O dia em que Marcuse encarou a PM
Retrato da selvageria policial no centro de São Paulo, com
um lembrete: não seremos derrotados, enquanto “conseguirmos ficar juntos”
Nas explosões do ano de 1968, o filósofo Hebert Marcuse foi
perguntado em uma palestra se se poderia combater o medo com a violência. O
autor de O homem unidimensional respondeu que a violência é algo muito perigoso
aos mais frágeis. E acrescentou que existem diferentes aspectos de violência
com funções igualmente diferentes. Assim, existiriam dois modus operandi que
regulam a violência: a violência da agressão e a violência da defesa. Ou seja,
existe a violência da polícia, do Exército, da Ku Klux Klan e uma violência de
oposição que responde a essas manifestações agressivas de violência.
Hoje em São Paulo, mais de 45 anos depois das palavras de
Marcuse o cruzamento da violência da agressão com a violência de oposição
cruzaram-se no cruzamento da Ipiranga com a avenida São João. Trabalhadores,
moradores do centro, negros, mulheres, grávidas, crianças e sem teto
enfrentaram a violência da sociedade, a violência legal, a violência
institucional. Sua violência, a violência dos moradores (sem moradia) foi
defensiva. Eles têm razão.
Por volta das dez horas, no cruzamento, aglomeraram-se uma
multidão de pessoas e alguns ocupantes da Frente de Luta por Moradia (FLM) que
haviam saído do prédio logo após a liminar de reintegração de posse em um hotel
abandonado na São João, para observar os próximos movimentos da ação policial.
Havia muita indignação. A polícia fez um cordão e não deixou ninguém passar.
Depois de alguns minutos, um policial chamou uma das pessoas que ali se
encontrava e disse:
– Não queremos entrar em conflito. Só entraremos em ação
caso sejamos provocados. Prometemos.
A moradora concordou com o policial, virou-se para o
restante do grupo e anunciou:
– Nós não vamos arremessar nada neles, nem pedras, nem paus.
Nós nunca damos o primeiro tapa, ouviram? Por favor, vamos permanecer aqui de
maneira pacífica.
Todos concordaram, aplaudiram e cumpriram com o prometido.
Quinze minutos depois, a mesma polícia, descumpriu sua
promessa e executou a violência da agressão, explicada por Marcuse. Balas de
borracha e gás lacrimogênio espalharam-se pelas ruas tão rapidamente que quanto
mais se corria, mais elas apareciam. A ardência dos olhos só era um detalhe.
Nesse mesmo momento, a televisão transmitia que “vândalos” haviam iniciado a
violência e a polícia simplesmente estava retaliando. Curiosamente, graças ao
manejo de habilidade linguística da sociedade estabelecida, nunca se chama a
violência policial de violência. Por outro lado, com toda facilidade, se nomeia
violência à ação dos moradores que se defendem da polícia. Nesse mesmo momento
uma mulher grávida caiu na rua, bem ao meu lado. Rapidamente a socorri e então
ela me disse.
– Precisamos resistir, eu e ele (o bebê). Precisamos de
futuro. Precisamos estar juntos.
Desnorteado, apavorado, em frações de milésimos de segundos,
consegui não sei como nem porque lembrar de Eles não usam Black-Tie (Leon
Hirzman, 1981) e da cena em que Maria (Bete Mendes), grávida, levava chutes na
barriga da polícia. E aquelas palavras, tão fortes, intensas, também me
recordaram outra cena de um outro filme, Segunda Feira ao sol (Fernando León de
Aranoa, 2002) em que o personagem Sanca (Javier Bardem) é questionado sobre o
fracasso da greve que desencadearam e, posteriormente, foi pretexto para sua
demissão. “De que adianta? Não conseguiram nada e, além disso, ninguém mais se
lembra”. Ele responde: “fizemos que as pessoas soubessem e conseguimos ficar
juntos”. Nem ela, nem eu, nem quem estava lá vai esquecer.
Para mim, de agora em diante a música de Caetano Veloso,
“Sampa”, inspirada no cruzamento da Ipiranga e a avenida São João ganha uma
triste paródia: a “dura poesia concreta das tuas esquinas” tornou-se repressão
concreta de tuas armas; a “deselegância discreta de tuas meninas” transmutou-se
para estupidez indiscreta das autoridades, do povo oprimido pela falta de
moradia, da propriedade sagrada que expulsa ocupantes, da feia fumaça que
circula as ruas, intoxica, arde. Eu vejo surgir policia por todos os cantos,
mas vejo, em meio às nuvens de gás pimenta, o “possível novo quilombo de Zumbi”
Por Deni Rubbo | Fotos Ponte
Fonte: http://outraspalavras.net/
São Paulo: Conferência “Os Anarquista e a Educação: da AIT até hoje” - ANA
São Paulo: Conferência “Os Anarquista e a Educação: da AIT até hoje”
C o m u n i c a d o:
No próximo sábado (20 de setembro), a Biblioteca Terra Livre
em conjunto com o Instituto de Estudos Libertários (IEL), a Editora Imaginário
e o Centro de Cultura Social (CCS/SP) promoverão a conferência:
Os Anarquistas e a Educação: da Associação Internacional dos
Trabalhadores até hoje.
A conferência será ministrada por Hugues Lenoir (Professor
de Ciências da Educação na Universidade Paris X) e terá tradução simultânea
para o português.
Hugues Lenoir (hugueslenoir.fr)
é hoje um dos principais difusores da pedagogia libertária na França. Sua obra
já foi traduzida para o inglês, o espanhol e para o português, cabendo destacar
o livro Educar para Emancipar, publicado pela Editora Imaginário no ano de 2007
por ocasião do I Colóquio Internacional de Educação Libertária.
A presença do professor Lenoir se deve a uma série de
atividades em comemoração aos 150 anos da AIT – Associação Internacional dos
Trabalhadores, que estão sendo realizadas no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Neste dia será realizado ainda o lançamento do livro
Compêndio de Educação Libertária de Hugues Lenoir. Esta nova obra de Lenoir,
recém traduzida para o português pela Editora Imaginário, oferece subsídios
para aprofundar ainda mais o debate sobre uma educação libertária, resgatando
teorias e práticas históricas e dialogando com as experiências e desafios de
hoje.
A atividade ocorrerá no Centro de Cultura Social e terá
início às 15h. A entrada é aberta a todas as pessoas.
Endereço: Rua General Jardim, 253, sala 22 (Próximo ao
Metro República), São Paulo.
Dia e Hora: 20 de setembro (Sábado), às 15h.
Organização: Biblioteca Terra Livre, Instituto de
Estudos Libertários (IEL), Editora Imaginário e Centro de Cultura Social
(CCS/SP).
Evento no facebook:
agência de notícias anarquistas-ana
Bolha de sabão.
Uma explosão colorida
sem nenhum estrondo.
Uma explosão colorida
sem nenhum estrondo.
Maria Reginato Labruciano
domingo, 14 de setembro de 2014
Ramonet: por que o Oriente Médio está em chamas...
Ramonet: por que o Oriente Médio está em chamas...
Três guerras, um quebra-cabeças. Em declínio, EUA recuam,
mas agem por meio de satélites. Irã busca mais espaço. Sauditas apelam para
ultra-fundamentalismo.
Com Síria, Iraque e os confrontos entre Israel e os
palestinos na Faixa de Gaza, há agora três guerras abertas ocorrendo
simultaneamente no Oriente Médio. A estas hostilidades militares, é preciso
acrescentar as tensões com o Irã, envolvendo seu programa de energia nuclear, e
as rivalidades diplomáticas entre diversas potências regionais, como
Arábia Saudita e Egito. Tudo confirma: a região é o “barril de pólvora” do
planeta e a “ante-sala da confusão” no mundo.
Uma primeira pergunta vem à mente: porque essa
acirramento repentino? As causas locais são múltiplas, devido à própriaa
diversidade dos atores envolvidos e de seus motivos (religiosos, étnicos,
territoriais, políticos, petrolíferos etc). Mas um fato geopolítico parece
determinante: a decisão dos Estados Unidos de reduzir seu envolvimento militar no
teatro do Oriente Médio e se focar no leste da Ásia. Após os belicosos anos
Bush, o governo Obama parece ter chegado a duas conclusões estratégicas:
primeiro, um poderoso aparato militar não pode fazer tudo; e o país, atingido
pela crise, já não tem os meios para exercer uma hegemonia absoluta.
Resultado: os Estados Unidos estão se retirando do Oriente
Médio. Sobretudo, desde que o argumento principal para sua presença na região,
o petróleo, vem perdendo a cada dia um pouco mais de importância, na medida em
que o gás ou petróleo de xisto, no subsolo americano, substituem gradualmente
as importações de hidrocarbonetos do Oriente Médio.
É este o momento geopolítico preciso que a região atravessa:
uma potência hegemônica, os EUA retiram-se progressivamente; e outras potências
e forças locais confrontam-se para ocupar o espaço político abandonado. Os
acontecimentos parecem se acelerar de repente, como se todas as partes
envolvidas começassem a pressentir a aproximação de um acontecimento decisivo,
quando novas cartas serão colocadas na mesa. Isto dá espaço para os conflitos
atuais, num contexto regional sacudido pelo crescimento do conflito entre
sunitas e xiitas que incendeia toda a região do Crescente Fértil, de Gaza ao
Golfo Pérsico.
Uma leitura fragmentada – a que os jornais diários oferecem
– não captura o movimento geral, no cenário de operações. Temos a
impressão de que aquilo que está acontecendo em Gaza não tem nada a ver com os
acontecimentos na Síria, e que eles são independentes das hostilidades no Iraque
ou as negociações com o Irã. Na realidade, é uma falsa impressão, uma vez que
todos os acontecimento são articulados entre si.
Começamos por Gaza. Por que a ofensiva atual de Telaviv?
Aparentemente as coisas são simples: tudo começou em 12 de junho, quando três
jovens israelenses foram sequestrados na Cisjordânia. O governo de Israel
acusou imediatamente o Hamas (que governa Gaza) de estar por trás do sequestro
e, em seus esforços para tentar deter os sequestradores dos jovens, multiplicou
as detenções arbitrárias. O Hamas nega qualquer responsabilidade no sequestro
de três jovens. Mas isso não impede que as autoridades israelenses prendam
quatrocentos palestinos supostamente próximos do Hamas. Outros são mortos.
Casas e apartamentos pertencentes a suspeitos são destruídos. Em retaliação,
foguetes são disparados de Gaza contra Israel. Em 30 de junho os corpos dos
três jovens desaparecidos são encontrados: foram assassinados perto de Halhoul,
na Cisjordânia. O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu disse: “O
Hamas é responsável; o Hamas pagará”. Nada, nenhuma prova ou evidência do
envolvimento do Hamas no sequestro e assassinato hediondo dos três jovens
israelenses. No entanto, nada impediu, alguns dias depois, a “punição” militar
lançada contra Gaza.
Qual é a verdadeira razão? É preciso voltar a 29 de
março. Naquele dia, Israel recusou-se a libertar, conforme acordado, um último
grupo de prisioneiros palestinos, exigindo uma extensão das negociações de paz
para além do prazo previsto de 29 de abril. É preciso dizer que o governo de
Netanyahu – o mais à direita na história de Israel – não demonstrou vontade
real em negociar com a Autoridade Palestina e abandonar sua política de
colonização, conforme demonstrou a iniciativa natimorta do secretário de Estado
norte-americano John Kerry, lançada ano passado.
O presidente palestino, Mahmoud Abbas, declarou-se disposto
a prolongar as discussões, com a condição de que Israel libertasse os
prisioneiros, congelasse os assentamentos e aceitasse discutir a demarcação das
fronteiras do futuro Estado palestino. O governo de Telaviv rejeitou as
demandas. E a partir desse momento, as hostilidades entre israelenses e
palestinos aumentaram.
Neste contexto, no momento em que o processo de paz encontra-se
totalmente atolado, uma sucessão de eventos ocorre: os palestinos assinam, em
23 de abril, um acordo de reconciliação entre o Fatah — que governa a
Cisjordânia — e o movimento islâmico Hamas, no poder em Gaza. Juntos, decidem
formar um governo de “consenso nacional”. Liderado pelo premiê Rami Hamdallah,
e composto por tecnocratas, ele não conta com nenhum membro filiado ao Hamas.
Os líderes israelenses ficam furiosos, e acusam o presidente palestino Abbas de
ter escolhido “o Hamas, e não a paz”.
Afim de tranquilizar os israelenses e a comunidade
internacional, o presidente Abbas prometeu que o novo governo da unidade
nacional, rejeitará a violência, reconhecerá Israel e respeitará os
compromissos internacionais. Por sua vez, Washington anunciou sua intenção de
colaborar com o novo governo palestino e acrescentou que manterá sua ajuda
financeira à Autoridade Palestina. A União Europeia também declarou apoio
ao novo gabinete palestino.
Mas o primeiro-ministro israelense, Bejamin Netanyahu,
afirma: “O Hamas é uma organização terrorista que visa a liquidação de Israel;
esta aliança é inaceitável”. Logo após, ocorre o sequestro dos três jovens
israelenses. E como os acontecimentos estão ligados, fornecem o pretexto
para o governo israelense “destruir o Hamas”.
Na verdade, as coisas são ainda mais complexas. Pois, de
fato, o Hamas vem sofrendo as consequências de uma reversão de alianças feitas
recentemente. Lembremos de que, sob a influência de dois Estados próximos da
Irmandade Muçulmana, Turquia e Qatar, o Hamas – ele mesmo, uma ramificação da
Irmandade – mudou sua diplomacia regional no ano passado e fez escolhas
geopolíticas que se mostraram desastrosas: afastou-se do presidente sírio,
Bashar Al-Assad (e, portanto, do Irã) em plena guerra civil na Síria, pensando
em forjar uma nova aliança com a Irmandade Muçulmana no Egito, que poderia
ajudar o Hamas em Gaza.
Foi um grande erro: todas as previsões fracassaram. A
Irmandade Muçulmana, que a Arábia Saudita também combate, foi derrubada no
Egito — onde o general Al-Sissi assumiu o poder e não está, obviamente, ansioso
por ajudar o Hamas — ligado à mesma Irmandade Muçulmana que ele persegue sem
tréguas em seu solo. Em troca, Cairo tem restaurado a cooperação de
segurança com Israel, em prejuízo de Gaza, onde condições de vida
estão degradadas e os cidadãos estão culpabilizando os dirigentes islâmicos.
Sem o poder necessário, o Hamas não conseguiu melhorar a
vida dos dois milhões de habitantes de Gaza. O movimento islâmico permanece
sujeito à escalada local de grupos radicais, como a Jihad Islâmica, responsável
pelo disparo contínuo de foguetes contra o território israelense. Assim, em um
ano, o Hamas perdeu seus principais aliados — a Síria, o Irã e o Egito.
Constrangido, aproximou-se do Fatah e da Autoridade Palestina. Atraindo ainda
mais a ira do governo de Israel…
Além disso, Bashar el-Assad continua no poder na Síria,
apoiado pela Rússia, Irã e o Hezbollah libanês. Embora a guerra em seu país
esteja longe de acabar, está claro que as autoridades em Damasco marcaram
pontos e, agora, retomaram a iniciativa na guerra.
É neste contexto regional que se desenvolvem os recentes
acontecimentos no Iraque. Em especial a tomada, por um grupo de jihadistas
sunitas, da importante região de Mosul — não só rica em petróleo, mas também
território que concentra os Curdos. Este acontecimento inesperado ocorre no
momento preciso em que as negociações entre o Irã e as potências
ocidentais, sobre o programa nuclear, estão mais próximas que nunca de levar a
um acordo, em que a Arábia Saudita perde sua aposta na Síria.
O reino saudita, ligado a uma vertente radical do islamismo
— o wahhabismo — investiu pesadamente na luta para derrubar o presidente Assad.
Durante três anos, cerca de 45 mil combatentes estrangeiros, financiados pela
Arábia Saudita, foram enviados ao território sírio para lutar contra as
autoridades de Damasco. Eles chegaram a oferecer, para engrossar o efetivo dos
grupos islâmicos, prisioneiros já condenados à morte, acenando com a
possibilidade de se redimir, caso fizessem a guerra santa (jihad) na Síria. O
reino não só abriu seus depósitos de armas para a oposição, como teria
comprado fábricas de armas na Ucrânia, cuja produção era enviada
diretamente para os combatentes na Síria, através da Jordânia. Apesar desta impressionante
manobra, as autoridades de Damasco conseguiram manter o equilíbrio de forças no
terreno.
É por isso que a resposta chegou no Iraque. Rejeitados na
Síria, os jihadistas sunitas juntaram-se ao grupo islâmico ISIS (Estado
Islâmico do Iraque e do Levante, em inglês) para lançar uma ofensiva-relâmpago
em junho, ameaçando Bagdá. Grupos sunitas armados, menos radicais, aderiram ao
movimento com o propósito de criar um califado através das fronteiras entre
Síria e Iraque.
Os curdos aproveitaram a chance para apoderar-se de outra
cidade, Kirkuk, rica em petróleo, cujo controle disputaram, durante vários
anos, com o governo de Bagdá. A incompetência do governo central e sua
política favorável aos xiitas criaram as condições perfeitas para a insurgência
sunita. Em todo caso, o golpe de força dos jihadistas do ISIS coloca em
dificuldades o primeiro ministro iraquiano (xiita) Nouri al-Maliki, aliado de
Teerã.
Este embaralhamento de cartas deve resultar no retorno da
Arábia Saudita às negociações no Iraque. E ao mesmo tempo esse novo contexto
permite, sobretudo, que o Irã volte a ser uma potência regional decisiva.
Porque compartilha alguns interesses-chave com os ocidentais, especialmente os
Estados Unidos. Os americanos têm em comum com o Irã xiita o mesmo inimigo: o
jihadismo sunita, e particularmente seu grupo atual mais ativo, o ISIS,
financiado pela Arábia Saudita, oficialmente um aliado de Washington…
Como podemos ver, num Oriente Médio em chamas em plena
recomposição, a grande questão estratégica atual é o confronto entre
Arábia Saudita e Irã — travado, “por procuração”, por meio de aliados locais
destes dois países. O Estado-tampão que constituía o Iraque é agora disputado
abertamente por ambos os lados. Com o pano de fundo do conflito na Síria e no
Iraque, e a continuação do confronto do exército israelense contra o Hamas na
Faixa de Gaza, a região vive uma virada geopolitica. A diplomacia parece
paralisada, interrompida, o governo norte-americano e os europeus estão cada
vez mais convencidos de que a estabilidade no Oriente Médio não pode ser
alcançada sem a contribuição do Irã. Este quer ser reconhecido como
potência (inclusive, no desenvolvimento de um programa nuclear civil). Não será
algo que a Arábia Saudita engolirá com facilidade. E ela ainda não
pronunciou sua última palavra.
Tradução Cauê Seignemartin Ameni
Fonte: http://outraspalavras.net/
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
Existe fascismo em São Paulo - por Guilherme Boulos
Existe fascismo em São Paulo
Numa cidade de muros, arame farpado e rampas antimendigo,
novo incêndio em favela demonstra: para afastar pobres, mercado imobiliário
paulistano brinca com fogo…
Se existe amor em São Paulo eu não sei. Mas fascismo, esse
existe. E a elite paulistana não faz nenhuma questão de escondê-lo.
Sabemos que não é de hoje. A história da segregação
territorial em São Paulo vem dos anos 1940, quando se inicia de forma mais
sistemática a demolição dos cortiços e das residências operárias nas regiões centrais.
Pobre tem que vir ao centro para trabalhar e servir, mas morar ali? Não, aí já
é vandalismo!
Foi assim que surgiram e se expandiram as periferias da
cidade. Numa jogada de mestre e sempre com o apoio do Estado, os agentes
imobiliários conseguiram, ao mesmo tempo, tirar os pobres do convívio nos
bairros centrais, ganhar um bom dinheiro com loteamentos clandestinos na
periferia e reservar áreas intermediárias para a especulação. Nessas áreas
estabeleceram-se depois os verdadeiros nichos da elite paulistana.
O que estava em jogo era materializar no território a
segregação social entre ricos e pobres.
Até hoje a dinâmica do mercado imobiliário reproduz esse
fenômeno. Quando um bairro recebe investimentos ou passa a hospedar grandes
empreendimentos privados – condomínios de alto padrão, shoppings, etc – sofre
um processo intenso de valorização. Expulsa assim os moradores mais pobres, por
vezes através de despejos coletivos e mais frequentemente pela hipervalorização
dos aluguéis.
Esta dinâmica econômica sedimentou uma mentalidade
higienista na elite e nas camadas médias. Veio junto com uma fobia, um nojo,
uma recusa da convivência. Seu ideal seria que os pobres trabalhassem para
servi-los, mas ao fim do expediente evaporassem, para retornar apenas no dia
seguinte. Pobres podem até existir, desde que longe de seus olhos.
Há casos emblemáticos e recentes. Em 2010, os seletos
moradores de Higienópolis iniciaram um movimento contra uma estação de metrô
nas redondezas. Motivo: traria ao bairro “gente diferenciada”. Em 2011 foi a
vez de uma turma de comerciantes e moradores de Pinheiros, que se organizaram
contra um albergue para moradores de rua no bairro. “Ficaremos acuados em
casa”, alegaram na ocasião. As rampas antimendigo, iniciadas na gestão de José
Serra para impedir moradores de rua em certas partes da cidade, deram a
chancela do poder público.
Mas o pior ainda estava por vir. A face mais perversa deste
fenômeno foram os incêndios em favelas. O mercado imobiliário é mesmo muito
criativo. Quando, por alguma eventualidade, o judiciário barra o despejo de uma
favela localizada em zona de expansão imobiliária eles fazem a seu modo.
Incendiar favelas tornou-se um recurso habitual para afastar pobres dos
condomínios de alto padrão.
Em muitos casos é difícil provar, o que permitiu aos
interessados atribuir os incêndios à baixa umidade do ar. Mas os indícios são
avassaladores. O site Fogo no
Barraco reuniu o mapa de todos os incêndios em favelas paulistanas de 2005
a 2014 e comparou as regiões incendiadas com o índice de valorização
imobiliária. O mapa mostra como a enorme maioria dos incêndios ocorreu nas
zonas de valorização. Mais inflamável que o clima seco é a especulação.
Os dados dizem ainda que metade dos incêndios dos últimos 20
anos ocorreram entre 2008 e 2012, isto é, durante a gestão de Gilberto Kassab
(PSD) como prefeito, que foi marcada pela promiscuidade com o mercado
imobiliário. A conivência do poder público também é inflamável.
No último domingo (7), o tema voltou com o incêndio em uma
favela na região do Campo Belo. O bairro valorizou-se 130% nos últimos 5 anos,
de acordo com o Índice Fipe/Zap. Tinha uma pedra no sapato do mercado imobiliário
e da mentalidade fascista que foi novamente varrida com fogo. Os bombeiros que
foram até o local afirmaram em reportagem que o incêndio foi mais uma vez
criminoso.
Também nos últimos dias, a Folha noticiou que
condomínios do Morumbi estão se mobilizando contra a ocupação Chico Mendes,
organizada pelo MTST num terreno municipal com destinação prevista para
habitação popular. Uma das ilustres moradoras disse tudo: “Atrapalhando eles
estão, é desconfortável”. Atrapalhando a vista de sua sacada, pobres, ali, ao
lado.
A realidade é mesmo desconfortável. A mentalidade fascista
atua para negar, queimar, expulsar este desconforto para bem longe. Que os
pobres existam, mas em algum lugar de Ferraz de Vasconcelos, bem longe da minha
sacada.
São Paulo é uma das cidades mais desiguais do mundo. A
cidade dos muros. Dos muros, incêndios criminosos, despejos, rampas antimendigo
e dos condomínios exclusivos. O fascismo da elite só coloca mais combustível
neste barril de pólvora.
Fonte: http://outraspalavras.net/
Assinar:
Postagens (Atom)


















