terça-feira, 25 de julho de 2017

O programa secreto do capitalismo totalitário – Por George Monbiot


O programa secreto do capitalismo totalitário
Como Charles Koch e outros bilionários financiaram, nas sombras, um projeto político que implica devastar o serviço público e o bem comum, para estabelecer a “liberdade total” do 1% mais rico

É o capítulo que faltava, uma chave para entender a política dos últimos cinquenta anos. Ler o novo livro de Nancy MacLean, Democracy in Chains: the deep history of the radical right’s stealth plan for America [“Democracia Aprisionada: a história profunda do plano oculto da direita para a América] é enxergar o que antes permanecia invisível.
O trabalho da professora de História começou por acidente. Em 2013, ela deparou-se com uma casa de madeira abandonada no campus da Universidade George Mason, em Virgínia (EUA). O lugar estava repleto com os arquivos desorganizados de um homem que havia morrido naquele ano, e cujo nome é provavelmente pouco familiar a você: James McGill Buchanan. Ela conta que a primeira coisa que despertou sua atenção foi uma pilha de cartas confidenciais relativas a milhões de dólares transferidos para a universidade pelo bilionário Charles Koch1.

Suas descobertas naquela casa de horrores revelam como Buchanan desenvolveu, em colaboração com magnatas e os institutos fundados por eles, um programa oculto para suprimir a democracia em favor dos muito ricos. Tal programa está agora redefinindo a política, e não apenas nos Estados Unidos.
Buchanan foi fortemente influenciado pelo neoliberalismo de Friedrich Hayek e Ludwig von Mises e pelo supremacismo de proprietários de John C Carlhoun. Este último argumentava, na primeira metade do século XIX, que a liberdade consiste no direito absoluto de usar a propriedade – inclusive os escravos – segundo o desejo de cada um. Qualquer instituição que limitasse este direito era, para ele, um agente de opressão, que oprime homens proprietários em nome das massas desqualificadas.

James Buchanan reuniu estas influências para criar o que chamou de “teoria da escolha pública. Argumentou que uma sociedade não poderia ser considerada livre exceto se cada cidadão tivesse o direito de vetar suas decisões. Queria dizer que ninguém deveria ser tributado contra sua vontade. Mas os ricos, dizia ele, estavam sendo explorados por gente que usa o voto para reivindicar o dinheiro que outros ganharam, por meio de impostos involuntários usados para assegurar o gasto e o bem-estar social. Permitir que os trabalhadores formassem sindicatos e estabelecer tributos progressivos eram, sempre segundo sua teoria, formas de “legislação diferencial e discriminatória” sobre os proprietários do capital.
Qualquer conflito entre o que ele chamava de “liberdade” (permitir aos ricos fazer o que quiserem) e a democracia deveria ser resolvido em favor da “liberdade”. Em seu livro The Limits of Liberty [“Os limites da liberdade”], ele frisou que “o despotismo pode ser ser a única alternativa para a estrutura política que temos”. O despotismo em defesa da liberdade…
Ele prescrevia o que chamou de uma “revolução constitucional”: criar barreiras irrevogáveis para reduzir a escolha democrática. Patrocinado durante toda sua vida por fundações riquíssimas, bilionários e corporações, ele desenvolveu uma noção teórica sobre o que esta revolução constitucional seria e uma estratégia para implementá-la.
Ele descreveu como as tentativas de superar a segregação racial no sistema escolar do sul dos Estados Unidos poderiam ser frustradas com o estabelecimento de uma rede de escolas privadas, patrocinadas pelo Estado. Foi ele quem primeiro propôs a privatização das universidades e cobrança de mensalidades sem nenhum subsídio estatal: seu propósito original era esmagar o ativismo estudantil. Ele recomendou a privatização da Seguridade Social e de muitas outras ações do Estado. Queria romper os laços entre os cidadãos e o governo e demolir a confiança nas instituições públicas. Ele queria, em síntese, salvar o capitalismo da democracia.
Em 1980, pôde colocar este programa em prática. Foi chamado ao Chile, onde ajudou a ditadura Pinochet a escrever uma nova Constituição – a qual, em parte devido aos dispositivos que Buchanan propôs, tornou-se quase impossível de revogar. Em meio às torturas e assassinados, ele aconselhou o governo a ampliar seus programas de privatazação, austeridade, restrição monetária, desregulamentação e destruição dos sindicatos: um pacote que ajudou a produzir o colapso econômico de 1982.
Nada disso perturbou a Academia Sueca que, por meio de Assar Lindbeck, um devoto na Universidade de Estocolomo, conferiu a James Buchanan o Nobel de Economia de 1986. Foi uma das diversas decisões que tornaram duvidosa a honraria.
Mas seu poder realmente intensificou-se quando Charles Koch, hoje o sétimo homem mais rico nos EUA, dicidiu que Buchanan tinha a chave para a transformação que desejava. Para Koch, mesmo ideólogos neoliberais como Milton Friedman e Alan Greenspan eram vendidos, já que tentavam aperfeiçoar a eficiência dos governos, ao invés de destruí-los de uma vez. Buchanan era o realmente radical.
Nancy MacLean afirma que Charles Koch despejou milhões de dólares no trabalho de Buchanan na Universidade George Mason, cujos departamentos de Direito e Economia parecem muito mais thinktanks corporativos que instituições acadêmicas. Ele encarregou o economista de selecionar o “quadro” revolucionário que implementaria seu programa (Murray Rothbard, do Cato Institute, fundado por Koch, havia sugerido ao bilionário estudar as técnicas de Lenin e aplicá-las em favor da causa ultraliberal). Juntos, começaram a desenvolver um programa para mudar as regras.
Os documentos que Nancy Maclean descobriu mostram que Buchanan via o sigilo como crucial. Ele afirmava a seus colaboradores que “o sigilo conspirativo é essencial em todos os momentos”. Ao invés de revelar seu objetivo último, eles deveriam agir por meio de etapas sucessivas. Por exemplo, ao tentar destruir o sistema de Seguridade Social, sustentariam que estavam salvando-o e argumentariam que ele quebraria sem uma série de “reformas” radicais. Aos poucos, construiriam uma “contra-inteligência”, articulada como uma “vasta rede de poder político” para, ao final, constituir um novo establishment.
Por meio da rede de thinktanks financiada por Koch e outros bilionários; da transformação do Partido Republicano; de centenas de milhões de dólares que destinaram a disputas legislativas e judiciais; da colonização maciça do governo Trump por membros de sua rede e de campanhas muito efetivas contra tudo – da Saúde pública às ações para enfrentar a mudança climática, seria justo dizer que a visão de mundo de Buchanan está aflorando nos EUA.
Mas não apenas lá. Ler seu livro desvendou, para mim, muito da política britânica atual. O ataque às regulamentações evidenciado pelo incêndio da Torre Grenfell, a destruição dos serviços públicos por meio da “austeridade”, a regras de restrição do orçamento, as taxas universitárias e o controle das escolas: todas estas medidas seguem à risca o programa de Buchanan.
Em um aspecto, ele estava certo: há um conflito inerente entre o que ele chamava de “liberdade econômica” e a liberdade política. Deixar os bilionários de mãos livres significa, para todos os demais, pobreza, insegurança, contaminação das águas e do ar, colapso dos serviços públicos. Como ninguém votará em favor deste programa, ele só pode ser imposto por meio de decepção e controle autoritário. A escolha é entre o capitalismo irrestrito e a democracia. Não se pode ter os dois.
O programa de Buchanan equivale à prescrição de capitalismo totalitário. E seus discípulos apenas começaram a implementá-lo. Mas ao menos, graças às descobertas de Nancy Maclean, agora podemos compreender a agenda. Uma das primeiras regras da política é conhecer seu inimigo. Estamos a caminho.
1Nos últimos anos, reportagens e vídeos têm começado a jogar luz sobre a atividade política dos irmãos Charles e David Koch, e seus vínculos com a ultra-direita nos EUA e em outras parte do mundo. Vale assistir, por exemplo, a Koch Brothers exposed, documentário de Robert Greenwald (https://www.youtube.com/watch?v=2N8y2SVerW8); ou ler “Por dentro do império tóxico dos irmãos Koch”, publicado pela revista Rolling Stones (em inglês) http://www.rollingstone.com/politics/news/inside-the-koch-brothers-toxic-empire-20140924
Fonte: http://outraspalavras.net/capa/o-programa-secreto-do-capitalismo-totalitario/

terça-feira, 11 de outubro de 2016

terça-feira, 7 de junho de 2016

Latuff e a primeira medalha de ouro do Brasil, sil ,sil

Fonte: http://www.sul21.com.br/jornal/latuff-e-a-primeira-medalha-de-ouro-do-brasil-sil-sil/

quinta-feira, 19 de maio de 2016

'Gangue de ladrões' tenta destituir Dilma Rousseff em 'golpe brando', diz Noam Chomsky



'Gangue de ladrões' tenta destituir Dilma Rousseff em 'golpe brando'...
Para linguista e ativista norte-americano, elite brasileira 'detesta o PT e está usando essa oportunidade para se livrar do partido que venceu as eleições'

O linguista norte-americano e professor emérito do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, na sigla em inglês) Noam Chomsky disse nesta terça-feira (17/05) que "uma gangue de ladrões" está tentando destituir a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, orquestrando "um golpe brando" no país. Chomsky fez a declaração em entrevista so site norte-americano Democracy Now!.

“Na verdade, temos a única líder política [Dilma] que não roubou para enriquecer e está sendo impedida por uma gangue de ladrões, que fizeram isso. Isso conta como um golpe brando”, disse Chomsky ao ser perguntado sobre se o que está ocorrendo na política brasileira pode ser classificado como “golpe de Estado”.

O linguista afirmou que os opositores de Dilma buscam chegar ao poder apesar da derrota nas últimas eleições presidenciais, em 2014. “A elite detestava o Partido dos Trabalhadores e está usando essa oportunidade para se livrar do partido que venceu as eleições. Eles não estão esperando pelas eleições, em que provavelmente perderiam, mas querem se livrar do PT, explorando uma recessão econômica, que é séria, e a corrupção massiva que foi exposta”, afirmou.

 Chomsky pontuou que nos últimos “10 ou 15 anos” a América Latina “se libertou” do domínio estrangeiro, notadamente dos Estados Unidos. “É um desenvolvimento dramático nas relações mundiais, é a primeira vez em 500 anos”, disse. Ele afirmou ainda que, no passado, os EUA tinham capacidade e ainda tentam derrubar governos no continente, citando os golpes e as tentativas de golpe na Venezuela em 2002, no Haiti em 2004, em Honduras em 2009 e no Paraguai em 2012.

Chomsky também fez críticas aos governos do PT, que, segundo ele, “tiveram uma oportunidade real de realizar algo extremamente significante, fizeram algumas consideráveis mudanças positivas, mas apesar disso se juntaram ao resto — a elite tradicional no roubo indiscriminado”.

O Brasil dos rato$$$ - por Latuff

Fonte: https://latuffcartoons.wordpress.com/#jp-carousel-4674

Michael Temer e o Capitalismo de Desastre – por Gustavo Henrique Freire Barbosa


Michael Temer e o Capitalismo de Desastre
Pode haver mais que trapalhadas, no festival de erros bizarros que marca os primeiros dias do golpe. Naomi Klein já ensinou: o caos é o melhor caminho para levar sociedades a aceitar as “terapias de choque”

El Ladrillo era o nome do programa de governo apresentado pelos chamados Chicago Boys, discípulos do monetarista Milton Friedman, no Chile de 1973, quando o cadáver de Salvador Allende ainda estava quente. Sabiam que sob o regime ditatorial de Pinochet teriam a oportunidade única de levar aos limites um projeto ultraliberal e privatizante que jamais passaria pelo crivo das urnas. Na toada de seu guru, viam na crise a grande oportunidade de pôr em prática seus ensinamentos. O próprio Friedman sentenciou certa vez no famoso ensaio Inflation: causes and consequences que “somente uma crise – real ou pressentida – produz mudança verdadeira. Esta, eu acredito, é a nossa função primordial: desenvolver alternativas às políticas existentes, mantê-las em evidência e acessíveis até que o politicamente impossível se torne politicamente inevitável”.

Arautos do projeto neoliberal preconizado pelo mestre da Escola de Chicago ainda hoje se aglomeram como abutres tão logo sentem o cheiro de inabaláveis catástrofes naturais e profundas crises políticas e econômicas. Foi assim em Nova Orleans no ano de 2005, com a privatizante política escolar aplicada após as inundações causadas pelo furacão Katrina, e no Sri Lanka em 2004 depois da calamidade causada por um tsunami, ocasião em que pescadores e moradores de comunidades ribeirinhas foram expulsos de suas casas para que o litoral pudesse ser loteado para a construção de luxuosos resorts. A política de “terrenos limpos”, expressão cunhada pelos próprios empreendedores de Nova Orleans, prossegue com o mesmo e inabalável fim: aproveitar oportunidades excepcionais para promover os interesses de corporações e, na esteira de traumas coletivos, implementar uma engenharia econômica e radical praticamente impossível de ser aplicada em condições normais de temperatura e pressão democráticas.

Mesmo em situações onde plataformas eleitorais baseadas em políticas de livre-mercado puderam ser levadas à frente pela via democrática, como é o caso da vitoriosa campanha de Ronald Reagan nos EUA no início da década de 80, concessões tiveram de ser feitas diante da exposição das fragilidades e contradições de suas ideias à luz dos embates eleitorais e de fortes pressões populares. Reagan viu-se, assim, obrigado a manter, contra a vontade de seu staff, um núcleo intangível do Estado de bem-estar social, além da seguridade social e escolas públicas. Esta situação levou Friedman, mentor filosófico e intelectual da política econômica do então presidente – a obra Free to choice, escrita em coautoria com sua esposa, tornou-se um dos principais amparos legitimadores da política reaganiana – a qualificar essa situação como uma “ligação irracional a um sistema socialista”. Algo semelhante aconteceu com a submissão do projeto liberalizante ao escrutínio popular nas eleições presidenciais brasileiras de 2006, quando o candidato Geraldo Alckmin teve dois milhões de votos a menos que no primeiro turno após seu adversário, o ex-presidente Lula, conseguir emplacar a pecha de privatizador no atual governador de São Paulo.

Voltando ao Chile, o mais curioso é que, mesmo em circunstâncias políticas antidemocráticas onde não havia quaisquer obstáculos para o laboratório das políticas de livre-mercado, o projeto neoliberal não conseguiu ser aplicado em sua íntegra, uma vez que a Codelco, estatal chilena de mineração e cobre, uma das principais atividades econômicas chilenas, passou longe das sucessivas séries de desestatizações promovidas por Pinochet, permanecendo ainda hoje sob o controle do Estado.

As invasões do Iraque e Afeganistão e o desastre do 11 de setembro foram episódios que serviram, da mesma forma, para que fosse feita a terraplenagem necessária ao que Naomi Klein chama, no livro A Doutrina do Choque, de capitalismo de desastre. Somente a Halliburton, por exemplo, lucrou 20 bilhões de dólares com a guerra do Iraque. O mais interessante é que Dick Cheney, vice do ex-presidente George W. Bush e entusiasta da belicosa política externa dos EUA, já exercera a função de CEO da empresa, uma tradicional e benevolente abastecedora dos fundos do Partido Republicano.

No lastro da experiência chilena, graves rupturas democráticas também foram de bom alvitre, para os que buscam abrir as porteiras para a triunfal entrada do fundamentalismo de mercado. A introdução de reformas econômicas radicais na Argentina na década de 1970 deu-se no contexto de uma ditadura militar que deu cabo da vida de mais de trinta mil pessoas. Na China, em 1989, o massacre da praça Tiananmen e a repressão subsequente possibilitaram o loteamento do país sob o olhar assustado e impotente dos sindicatos. O ritmo crescente das privatizações russas iniciadas em 1993 sob o governo de Yeltsin, por sua vez, veio no contexto de uma aguda crise política em que membros da oposição foram presos e tanques foram enviados para bombardear o parlamento.

No entanto, as  catástrofes naturais e as quebras beligerantes da normalidade democrática não são os únicos fatores úteis a pavimentar a efetivação do projeto global de livre-mercado, imposto por grandes conglomerados transnacionais. Na América Latina e na África dos anos 1980, por exemplo, foi a crise da dívida que forçou países a “privatizar ou morrer”, como bem afirmou Davison Budhoo, executivo do FMI. O sacrossanto compromisso com a eliminação gradual da esfera pública, a diminuição de gastos sociais e a autorização para que corporações agissem conforme suas vontades fizeram surgir nos países que abraçaram a cartilha do Consenso de Washington uma completa promiscuidade entre o poder político e o econômico. Elites corporativas e agentes políticos se mancomunam para abocanhar valiosos recursos antes situados sob o domínio público, aprofundando ainda mais os laços de dependência pós-colonial entre o mundo capitalista central e o periférico.

Assim como os oportunistas empreendedores imobiliários no Sri Lanka e os lobistas da educação privada em Nova Orleans, o vice-presidente Michel Temer vislumbrou no quadro de profunda instabilidade institucional pela qual passa o Brasil a oportunidade perfeita para tornar público seu programa de governo chamado “Ponte para o futuro”, cujo manifesto propósito é privatizar “tudo o que for possível”. Temer está perfeitamente ciente de que uma sincera plataforma eleitoral contendo as diretrizes do seu programa diminuiria ainda mais seu 1% de intenções de voto apontado por recente pesquisa do Datafolha.

A versão do capitalismo idealizada por Milton Friedman e abraçada com fervor por Temer possui, segundo Naomi Klein, o declarado e perigoso desejo de chegar a uma pureza inatingível, arvorando-se no inconfessável desejo de começar do zero e no ímpeto totalitário da criação total, razão pela qual os ideólogos do livre-mercado possuem tamanho fetiche por crises e desastres. A “Ponte para o futuro” apresentada por Temer, frontalmente contrária ao projeto vitorioso de sua própria chapa nas eleições de 2014, dá uma dupla dimensão ao golpe, vez que, além de estar em vias de chegar ao poder por caminhos ilegítimos, busca aplicar um programa que dificilmente seria chancelado pelo voto – ainda que a presidente Dilma sequer tenha colocado o programa vitorioso em prática, iniciando seu segundo mandato nomeando de cara Joaquim Levy, um autêntico chicago boy, para o Ministério da Fazenda. São as urnas, porém, o foro adequado para decidir sobre as escolhas e a permanência do governo petista, de maneira que a iniciativa de Temer em tornar o “politicamente impossível em politicamente inevitável” não passa de mais uma reedição de uma tragédia histórica sob o patético rompante de farsa.

Golpe no Brasil: a conexão internacional - por Pedro Marin


Golpe no Brasil: a conexão internacional
Thomas Shannon, com quem Aloysio Nunes encontrou-se logo após o impeachment passar na Câmara. Ex-embaixador no Brasil, entre 2013 e 16, é agora o “número 3″ no Departamento de Estado

Como fundações norte-americanas financiaram grupos como o MBL, que dizem agir “pelo bem do Brasil”. Os encontros de Aloysio Nunes em Washington, e a visita de Temer ao cônsul geral dos EUA

Auditórios cheios, carros de som, escritórios. Organizações como Instituto Millenium, Movimento Brasil Livre (MBL), Instituto Liberal, Instituto Ludwig Von Mises e Estudantes Pela Liberdade, como num passe de mágica, emergiram no cenário político brasileiro, publicando livros e realizando manifestações com enormes estruturas, treinamentos e palestras – um processo que encontrou terreno fértil no país, devido à crise mundial e à Operação Lava Jato.

Apesar das tentativas de seus fundadores e por parte da imprensa em pintar os projetos que defendem como algo “para o bem do Brasil”, oriundo “do povo brasileiro” e “espontâneo”, todas estas organizações contam com financiamento e articulação estrangeira, conforme detalhou a reportagem de Marina Amaral na Agência Pública, mostrando como uma rede de ONGs promove treinamento de lideranças, patrocina “intelectuais” para aglutinar consensos nas redes e movimentos para incendiar as ruas. Entre as organizações presentes na América Latina e leste europeu chama atenção, em especial, a Atlas Network.

Fundada em 1981 com objetivo de “promover políticas econômicas do livre mercado pelo mundo”, a Atlas é um think-tank que financia declaradamente as atividades da direita em mais de 90 países. Com um orçamento anual de US$ 11,5 milhões, ela atua patrocinando a formação de quadros neoliberais. Como a legislação dos EUA impede que essas entidades financiem agitações políticas mundo afora, cada movimento é amparado por “institutos de formação”, que estão liberados para receber os recursos. Esse é o caso da relação do centro de formação Estudantes pela Liberdade (EPL) com a militância profissional do MBL, por exemplo. O orçamento do EPL deste ano saltou para R$ 300 mil. “No primeiro ano, a gente teve mais ou menos R$ 8 mil, o segundo foi para R$ 20 e poucos mil, de 2014 para 2015 cresceu bastante. A gente recebe de outras organizações externas também, como a Atlas. A Atlas, junto com a Students for Liberty, são nossos principais doadores. No Brasil, as principais organizações doadoras são a Friederich Naumann, que é uma organização alemã, que não são autorizados a doar dinheiro, mas pagam despesas para a gente”, declarou Juliano Torres diretor executivo do EPL.

Na Ucrânia – onde em 2014 houve um golpe contra o Presidente eleito Viktor Yanukovich -, a Atlas financiou, por exemplo, o Centro de Liberdade Econômica Bendukidzke e o Centro Para Pesquisa Econômica e Social. O primeiro tem como membros o ex-Presidente da Georgia e atual governador de Odessa, Mikheil Saakashvili, além do vice-chefe da administração (pós-golpe) do Presidente Petro Poroshenko, Alexander Danyluk. O segundo é também financiado pela Open Society Foundation, do famoso especulador e homem das revoluções coloridas, George Soros, e tem como parceiros agências governamentais ucranianas, canadenses e inglesas, além da USAID (EUA) e o Banco Mundial.

Em 2014, a Atlas despejou US$ 4,5 milhões mundo afora em uma série de organizações mais ou menos similares, segundo o formulário 990, que as organizações filantrópicas têm de entregar a Receita Federal nos EUA. Somente na América Latina, foram alocados US$ 984 mil equivalente a R$ 3,9 milhões a organizações que seguem o pensamento de liberais como Milton Friedman, Hayek e Mises, e fazem oposição aos governos progressistas da região. É o caso de Cedice Libertad, da Venezuela, e de organizações como a norte-americana Human Rights Foundation, criada pelo venezuelano Thor Halvorssen, primo de Leopoldo López e filho de embaixador durante o governo de Andrés Pérez, que mira em especial os países com governos não-alinhados a Washington (Venezuela, Cuba, Rússia) e que se tornou conhecida em 2015 por criar uma campanha para lançar propaganda em território norte-coreano por meio de balões de gás.

A Atlas por sua vez também é financiada por uma série de grandes corporações e outras fundações. Empresas como Google, a gigante do petróleo Exxon Mobil e organizações como a DonorsTrust [1], State Policy Network, criada pelo empresário e conselheiro de Ronald Reagan Tom Roe, e a Charles G. Koch Foundation [3], ligada às famigeradas Indústrias Koch, são alguns dos nomes que colaboraram para que a Atlas, no ano de 2014, doasse mais de 10 milhões de dólares pelo mundo.

Uma revolução colorida para o Brasil?

É claro que é motivo para fazer soar os alarmes: a direita liberal cresce exponencialmente e combate num país com 31 anos de tradição democrática, de abismos sociais no campo e nas cidades, onde um partido governou nos últimos 12 anos com apoio maciço e manteve alianças com governos populares da região. Até a rua, historicamente monopolizada pela esquerda, foi tomada.

A isso se somam outras estranhíssimas casualidades: o juiz Sérgio Moro, há pouco responsável pelas fagulhas que incendiaram o país, fez em 2009 um “curso para potenciais líderes” nos EUA, patrocinado pelo Departamento de Estado. É também notável o fato de que no processo da Lava-Jato, somente empresas brasileiras tenham sido atingidas, ainda que diferentes denúncias contra companhias estrangeiras tenham sido feitas. Um dia após a aprovação do impeachment na Câmara dos Deputados o Senador Aloysio “quero ver ela sangrar” Nunes viajou para o quartel-general do poder global: Washington. Por lá, conforme revelou o colunista Mark Weisbrot, no Huffington Post, encontrou-se com o ex-embaixador dos EUA no Brasil e atual “número três” no escalão do Departamento de Estado, Thomas Shannon: “A disposição por parte de Shannon em encontrar-se com Nunes alguns dias depois da votação do impeachment envia um poderoso sinal de que Washington está com a oposição nesse empreendimento. Como sabemos disso? Muito simples, Shannon não precisava ter comparecido a esse encontro. Se ele quisesse mostrar que Washington estava neutro em relação a esse feroz e altamente polarizador conflito, ele não teria se encontrado com protagonistas notáveis de nenhum dos lados, especialmente nesse momento.”

Por fim, para o ansiedade dos desconfiados e o choque dos distraídos, é importante notar os laços que o Sr. Michel “quero jantar com Biden” Temer manteve com seus parceiros do norte. Em 19 de Junho de 2006, por exemplo, Temer – à época presidente do PMDB – encontrou-se com o cônsul-geral dos EUA no Brasil, em São Paulo, e respondeu a perguntas em relação às eleições, os candidatos, e seu partido. Diz o cônsul para Washington, em mensagem vazada pelo Wikileaks em 2011: “Tratando do destino de seu próprio partido, Temer confirmou que o PMDB não terá um candidato para a Presidência, e não entrará em nenhuma aliança formal com o PSDB ou o PT. […] O PMDB continua rachado quase ao meio entre grupos pró e contra Lula. O último busca alianças com o PT e busca diversos ministérios na segunda administração de Lula. Temer, que é anti-Lula, foi altamente crítico em relação à facção pró-Lula e falou com ironia em relação a algumas das divisões e contradições internas do partido.”
Para o cientista político e historiador Moniz Bandeira, os alarmes dispararam há muito tempo. “Essas manifestações que começaram no ano passado e antes da Copa não foram espontâneas. Foram preparadas antecipadamente, com elementos treinados, agitadores treinados”, diz ele, que em “A Segunda Guerra Fria” (Civilização Brasileira, 2013), descreve em detalhes o papel de certas ONGs e think-tanks nas chamadas revoluções coloridas pelo mundo. “O que é necessário no Brasil é que o governo faça como Putin: obrigue o registro de todas as ONGs, o registro do dinheiro que recebem, de onde recebem e como e onde aplicam.”

Moniz aponta como interesses norte-americanos a prevalência do dólar como moeda global – segundo ele, ameaçada pelo BRICS – e a inexistência de potências no continente. “É isto que os Estados Unidos não querem: que o Brasil tenha submarino nuclear, eles não querem uma potência na América do Sul – ainda mais ligada à China e à Rússia. E há um detalhe que o brasileiro não sabe: há uma luta pela moeda de reserva internacional. Porque o fato de que os EUA detém o direito de emitir o dólar o quanto queiram e ser o dólar a moeda internacional; é aí que repousa a hegemonia dos EUA. E o que a China e Putin querem acabar é com isso – daí a criação do modelo dos BRICS.”
[1] organização que possibilita doações anônimas para a “causa da liberdade”, criada pela Donors Capital Fund, considerada no relatório Fear, Inc uma das 10 maiores organizações contribuintes para o ódio contra islâmicos nos EUA)
[2] Em 2014 a fundação doou 25 mil dólares (cerca de 90,5 mil reais) à Atlas.
[3] A Koch Industries é uma empresa ligada ao setor do petróleo. Como Soros, os irmãos Koch são famosos por financiar instituições e revoluções coloridas pelo mundo.

Fonte: http://outraspalavras.net/brasil/golpe-no-brasil-a-conexao-internacional/