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sexta-feira, 22 de setembro de 2017
Os jantares tristes de Luís Felipe Pondé - por Thiago Dias da Silva
Os jantares tristes de Luís Felipe Pondé
Alguns pensamentos e sensações me ocorrem regularmente quando leio os textos de Luiz Felipe Pondé. Talvez o mais frequente se resuma na seguinte exclamação: este cara deve viver no pior círculo social da cidade! É claro que ninguém tem controle completo sobre as pessoas que compõem o entorno, mas parece existir alguma coisa que o aproxima de pessoas chatíssimas, que o aborrecem talvez diuturnamente. O resultado é a insistência com que ele reclama em seus textos das situações sociais em que se vê enfiado.
Esta impressão se impõe desde pelo menos seu grito contra os “jantares inteligentes”, apresentados com muito deboche, mas com uma precisão e uma argúcia acessíveis apenas a quem os frequenta. Estes jantares são marcados por um refinamento falso, fútil e passavelmente informado que satisfaz aos convivas por garantir-lhes sua posição na competição social mais mesquinha. Ninguém está inteiramente livre deste tipo de disputa, evidentemente, mas há níveis e aquele descrito pelo colunista é certamente um dos piores.
Em sua descrição, Pondé oferece uma lista do que é bem visto nestes lugares e curiosamente vincula à esquerda aquela situação toda. Digo que é curioso porque frequento o círculo social da FFLCH-USP há mais de uma década e a experiência mais próxima que tive de um “jantar inteligente” foi lendo aquele famoso texto de Joel Silveira sobre os grã-finos de São Paulo. Talvez este estranhamento não esteja tanto no conteúdo da tabela ali apresentada, mas na incapacidade do colunista em notar os afetos tristes que organizam todos os preconceitos ali colocados e que tão pouco têm a ver com a esquerda.
Neste “antro comunista” que frequento há anos, as festas raramente têm vinhos bons (quem dera!) e as cervejas baratas em botecos sem nome são a regra. Todo mundo prefere cervejas artesanais, mas, sabe como é, elas são mais caras e o pessoal em geral trabalha com educação…
Nestes encontros, até acontece de algum novato, talvez impressionado pelos diplomas e títulos acadêmicos dos presentes, aparecer falando seriamente sobre isto ou aquilo. Se ele for um pouco esperto, no entanto, percebe rapidamente que a única filosofia ali aceita por mais de dez minutos é a de boteco; nota que a única discussão que pode durar muito é entre um anarquista e um psolista embriagados, que interrompem a discussão às gargalhadas quando se lembram que ambos votaram na Dilma.
Talvez seja por isto que Pondé tenha reclamado que seu pessoal não é lá muito bom em “pegar mulher”, para usar os termos dele. Do lado de cá, é óbvio, há uns mais hábeis e outros menos, mas ele tem razão ao afirmar que a abertura aqui é muito maior. Ela é tão mais ampla, aliás, que é bastante comum – pasmem! – ver mulher pegar homem, e com muita habilidade. Isto sem falar dos homossexuais, sempre muito bem-vindos e dispensados de serem “exóticos”, como parece ser necessário nas soirées chiques que torturam o colunista.
Mais recentemente, Pondé afirmou ainda que é importunado reiteradas vezes com a pergunta a respeito da capacidade dos jovens de hoje mudarem o mundo de amanhã. Ele responde com a velha crítica aos melhoradores do mundo (tão antiga quanto Nietzsche, talvez Burke). De modo bem característico, no entanto, sua resposta vem na forma de um “choque de realidade”.
O chacoalhão se dirige claramente aos grã-finos de seus tristes jantares inteligentes, para quem é necessário repetir que “os jovens estão com medo, e com razão.” Isto porque a situação do capitalismo atual é assustadora e os laços sociais estão destruídos, de modo que “generosidade é um termo desconhecido no mundo em que os jovens habitam.”
Ora, o movimento dos estudantes secundaristas mobilizados nas ocupações das escolas oferece a evidência exatamente oposta. Eles também são jovens e também se veem diante desta “máquina do mundo [que] tritura esperanças, projetos e corpos a cada dia mais e de modo mais veloz.” Sua reação, no entanto, não é se apoiar no afeto triste do medo, mas se organizar em uma luta contra esta máquina, do que resulta a produção de muitos afetos alegres que se multiplicam na sociabilidade quente que eles têm criado. Entre esses jovens, a generosidade é abundante!
Além de colunas de jornal, Pondé escreve livros também. O único que eu li foi aquele que resulta de sua tese de doutorado – muito bom, aliás. Li ainda na graduação por insistência de um dos “vários” professores esquerdistas da FFLCH que “impedem o acesso a autores conservadores”. Certa vez, em pé numa livraria, comecei a ler seu Guia politicamente incorreto da filosofia. Lembro-me que o livro se abre com o relato em primeira pessoa de uma deslumbrante experiência de turismo feita, é claro, longe dos lugares comuns, como Paris e New York, e viajando de classe executiva, não no pombal que é a classe econômica. Perfeita para contar em um jantar inteligente, não?
Elaborando uma captatio benevolentia daquela classe média aspirante a grã-fina que reclamava do “rebaixamento” dos aeroportos a rodoviárias, Pondé mobiliza o mesmo “horror a povo” por ele denunciado no jantar inteligente. Como o livro parece ter vendido bastante, imagino que a captura deve ter funcionado e resultado na ampliação do círculo social que tanto o perturba. A sedução não me atingiu e minha leitura do livro, é claro, se interrompeu ali.
Mas não parei de ler porque a demora no check-in e os biscoitinhos das companhias aéreas me agradam. Parei porque não são estes os elementos que mobilizam meus afetos diante da tímida inclusão de pobres na sociedade. O incômodo gerado pela estreita estrutura por onde mais gente agora deve passar tem pouca força porque tem que conviver com a satisfação diante da alegria de ver alguém viajando pela primeira vez. A alegria dos recém-chegados à sociedade vence o incômodo que possam causar. O oposto acontece diante do faniquito de quem “perdeu seu aeroporto” ou “não aguenta mais esse país”.
Estas diferenças de afetos e sociabilidades devem ter algo a ver com o fato de Pondé se situar à direita no espectro político e frequentar o círculo social a ela correspondente. Embora eu tenha dificuldades de definir com precisão o que é a esquerda hoje em dia e tenha algumas reclamações a fazer do meu círculo social, fico bastante contente de estar ao lado de pessoas animadas pelos afetos opostos.
Fonte: http://outraspalavras.net/destaques/os-jantares-tristes-de-luis-felipe-ponde/
Irritam-no as mulheres, os jovens, os pobres. Em sua cruzada
contra a esquerda nosso autor expõe, talvez sem se dar conta, os preconceitos e
frustrações que povoam sua alma
Alguns pensamentos e sensações me ocorrem regularmente quando leio os textos de Luiz Felipe Pondé. Talvez o mais frequente se resuma na seguinte exclamação: este cara deve viver no pior círculo social da cidade! É claro que ninguém tem controle completo sobre as pessoas que compõem o entorno, mas parece existir alguma coisa que o aproxima de pessoas chatíssimas, que o aborrecem talvez diuturnamente. O resultado é a insistência com que ele reclama em seus textos das situações sociais em que se vê enfiado.
Esta impressão se impõe desde pelo menos seu grito contra os “jantares inteligentes”, apresentados com muito deboche, mas com uma precisão e uma argúcia acessíveis apenas a quem os frequenta. Estes jantares são marcados por um refinamento falso, fútil e passavelmente informado que satisfaz aos convivas por garantir-lhes sua posição na competição social mais mesquinha. Ninguém está inteiramente livre deste tipo de disputa, evidentemente, mas há níveis e aquele descrito pelo colunista é certamente um dos piores.
Em sua descrição, Pondé oferece uma lista do que é bem visto nestes lugares e curiosamente vincula à esquerda aquela situação toda. Digo que é curioso porque frequento o círculo social da FFLCH-USP há mais de uma década e a experiência mais próxima que tive de um “jantar inteligente” foi lendo aquele famoso texto de Joel Silveira sobre os grã-finos de São Paulo. Talvez este estranhamento não esteja tanto no conteúdo da tabela ali apresentada, mas na incapacidade do colunista em notar os afetos tristes que organizam todos os preconceitos ali colocados e que tão pouco têm a ver com a esquerda.
Neste “antro comunista” que frequento há anos, as festas raramente têm vinhos bons (quem dera!) e as cervejas baratas em botecos sem nome são a regra. Todo mundo prefere cervejas artesanais, mas, sabe como é, elas são mais caras e o pessoal em geral trabalha com educação…
Nestes encontros, até acontece de algum novato, talvez impressionado pelos diplomas e títulos acadêmicos dos presentes, aparecer falando seriamente sobre isto ou aquilo. Se ele for um pouco esperto, no entanto, percebe rapidamente que a única filosofia ali aceita por mais de dez minutos é a de boteco; nota que a única discussão que pode durar muito é entre um anarquista e um psolista embriagados, que interrompem a discussão às gargalhadas quando se lembram que ambos votaram na Dilma.
Talvez seja por isto que Pondé tenha reclamado que seu pessoal não é lá muito bom em “pegar mulher”, para usar os termos dele. Do lado de cá, é óbvio, há uns mais hábeis e outros menos, mas ele tem razão ao afirmar que a abertura aqui é muito maior. Ela é tão mais ampla, aliás, que é bastante comum – pasmem! – ver mulher pegar homem, e com muita habilidade. Isto sem falar dos homossexuais, sempre muito bem-vindos e dispensados de serem “exóticos”, como parece ser necessário nas soirées chiques que torturam o colunista.
Mais recentemente, Pondé afirmou ainda que é importunado reiteradas vezes com a pergunta a respeito da capacidade dos jovens de hoje mudarem o mundo de amanhã. Ele responde com a velha crítica aos melhoradores do mundo (tão antiga quanto Nietzsche, talvez Burke). De modo bem característico, no entanto, sua resposta vem na forma de um “choque de realidade”.
O chacoalhão se dirige claramente aos grã-finos de seus tristes jantares inteligentes, para quem é necessário repetir que “os jovens estão com medo, e com razão.” Isto porque a situação do capitalismo atual é assustadora e os laços sociais estão destruídos, de modo que “generosidade é um termo desconhecido no mundo em que os jovens habitam.”
Ora, o movimento dos estudantes secundaristas mobilizados nas ocupações das escolas oferece a evidência exatamente oposta. Eles também são jovens e também se veem diante desta “máquina do mundo [que] tritura esperanças, projetos e corpos a cada dia mais e de modo mais veloz.” Sua reação, no entanto, não é se apoiar no afeto triste do medo, mas se organizar em uma luta contra esta máquina, do que resulta a produção de muitos afetos alegres que se multiplicam na sociabilidade quente que eles têm criado. Entre esses jovens, a generosidade é abundante!
Além de colunas de jornal, Pondé escreve livros também. O único que eu li foi aquele que resulta de sua tese de doutorado – muito bom, aliás. Li ainda na graduação por insistência de um dos “vários” professores esquerdistas da FFLCH que “impedem o acesso a autores conservadores”. Certa vez, em pé numa livraria, comecei a ler seu Guia politicamente incorreto da filosofia. Lembro-me que o livro se abre com o relato em primeira pessoa de uma deslumbrante experiência de turismo feita, é claro, longe dos lugares comuns, como Paris e New York, e viajando de classe executiva, não no pombal que é a classe econômica. Perfeita para contar em um jantar inteligente, não?
Elaborando uma captatio benevolentia daquela classe média aspirante a grã-fina que reclamava do “rebaixamento” dos aeroportos a rodoviárias, Pondé mobiliza o mesmo “horror a povo” por ele denunciado no jantar inteligente. Como o livro parece ter vendido bastante, imagino que a captura deve ter funcionado e resultado na ampliação do círculo social que tanto o perturba. A sedução não me atingiu e minha leitura do livro, é claro, se interrompeu ali.
Mas não parei de ler porque a demora no check-in e os biscoitinhos das companhias aéreas me agradam. Parei porque não são estes os elementos que mobilizam meus afetos diante da tímida inclusão de pobres na sociedade. O incômodo gerado pela estreita estrutura por onde mais gente agora deve passar tem pouca força porque tem que conviver com a satisfação diante da alegria de ver alguém viajando pela primeira vez. A alegria dos recém-chegados à sociedade vence o incômodo que possam causar. O oposto acontece diante do faniquito de quem “perdeu seu aeroporto” ou “não aguenta mais esse país”.
Estas diferenças de afetos e sociabilidades devem ter algo a ver com o fato de Pondé se situar à direita no espectro político e frequentar o círculo social a ela correspondente. Embora eu tenha dificuldades de definir com precisão o que é a esquerda hoje em dia e tenha algumas reclamações a fazer do meu círculo social, fico bastante contente de estar ao lado de pessoas animadas pelos afetos opostos.
Fonte: http://outraspalavras.net/destaques/os-jantares-tristes-de-luis-felipe-ponde/
terça-feira, 19 de setembro de 2017
quinta-feira, 14 de setembro de 2017
quarta-feira, 13 de setembro de 2017
O professor de histeria e a História – por Lúcio de Castro
O professor de histeria e a História
Não ligava o nome à pessoa.
Embora tenha travado razoável contato com a maior parte da bibliografia dos grandes historiadores do Brasil nos quatro anos dos bancos escolares da saudosa faculdade de História, passei incólume pelo tal Marco Antônio Villa.
Não me lembro de nenhuma ida ali na sinuca, pedir pro Renato, responsável pela xerox (acho que hoje com a internet a pirataria mudou de forma!), e pedir: “vê pra mim o texto do Villa”.
Fui ouvir ontem, ao saber que ele andou se agarrando a sempre mais fácil forma de tentar um pouco de luz para quem não tem nenhuma produção relevante no currículo: pegar carona no brilho de um terceiro para tentar algum holofote. No caso, o jornalista Juca Kfouri. E, pelo que leio, podia ter ficado sem essa. Jogou conversa fora, inventou e, confrontado pessoalmente, cacarejou.
Não preciso falar sobre Juca. A trajetória, a história e o currículo falam por ele. Nem o caso precisa de repercussão ou solidariedade. O que me traz aqui é outra razão.
É que tive a curiosidade em saber quem era o tal “historiador”, cujo nome, como disse, jamais tinha ouvido no velho Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, o IFCS, do Largo de São Francisco. O que por si só era muito estranho, porque não se passa em branco durante uma formação de historiador por alguém com produção minimamente relevante. (tem alguns contemporâneos ifcsianos que andam virtualmente por aqui pela Agência Sportlight, como o Simas, o Almeidinha e tantos outros. Se lembrarem de algum texto recomendado de tal autor e eu tiver sendo injusto, me avisem).
E eis que me deparo com coisas absolutamente estarrecedoras. Que provavelmente expliquem a irrelevância do mesmo na produção historiográfica brasileira. Que explicam a irrelevância do mesmo.
Pois descubro que o tal Villa escreveu um texto na Folha (“Ditadura à brasileira) no qual, pasmem, argumenta que a ditadura brasileira só existiu entre 1968 e 1979 e não como classicamente se fala, entre 1964/1985. Em seus argumentos, diz que o período entre 1964 e 1968 não pode ser assim classificado. Com o AI-5, em 68, quando aí sim começaria a ditadura, segundo ele. Como sempre pode piorar, descubro que tal ideia virou um livro com o mesmo título do artigo.
Descubro mais, e algo que me deixa absolutamente perplexo: na gravação de um programa de TV, assente que a “tortura só teria começado em 1968”, pós-AI-5.
Carlos Fico, este sim historiador com produção reconhecida e respeitada no mundo inteiro e considerado unanimemente como um dos grandes especialistas sobre o período, quiçá o maior, não tem dúvidas em apontar em sua produção ou entrevistas: “Os primeiros anos do Castelo foram mais brandos mas já havia tortura”.
Confesso que aqui tenho dúvidas. Se o sujeito que nega ditadura e tortura no Brasil entre 64 e 68 realmente desconhece os fatos ou se é simplesmente um negacionista.
O segundo caso preocupa muito mais. Alguém que desconhece os fatos é provavelmente apenas um mero desconhecedor de fatos, um apedeuta clássico. Usado aqui e acolá em entrevistas e programas de TV quando convém a estes para ilustrar narrativas que vão ao encontro do que pretendem passar.
Já o negacionista é um tipo muito mais perigoso. É alguém que é cúmplice do horror. Alguém que é cúmplice de perpetuar a barbárie.
Em outros lugares, aponta-se para tal tipo de negacionistas e negacionismos com a devida ênfase que merecem. Para que não possam dar tintas mornas para os genocídios, para que tais coisas sejam tratadas como tal. Evitando-se assim que se repitam, se perpetuem.
Como entender um “historiador” negar a ditadura logo após o primeiro dia do golpe de 1964?
Em tais lugares, essas figuras são expostas em sua vilania ao serem cúmplices do holocausto. Ao serem sócios do horror.
Por aqui, por incrível que pareça, muitos não conseguem estabelecer a conexão de que a negação da tortura dos anos de chumbo, de que a não punição dos responsáveis, é massa de fermento para o genocídio diário de pretos e pobres de nossas cidades. De que a negação daquele horror responde pela perpetuação dele em outras formas.
Como entender um historiador negar a ditadura logo após o primeiro dia do golpe de 1964? Está lá, no Ato Institucional 1 (AI-1), de 9 de abril de 1964, portanto alguns dias depois do golpe, a ditadura configurada e expressa em todas as letras, o princípio da soberania popular afastado pela mano dura e fora da lei, a constituição rasgada desde o primeiro momento e trocada pela ditadura: “A revolução vitoriosa se investe no exercício do Poder Constituinte. Este se manifesta pela eleição popular ou pela revolução. Esta é a forma mais expressiva e mais radical do Poder Constituinte. Assim, a revolução vitoriosa, como Poder Constituinte, se legitima por si mesma.” Nota: o que chamavam de “Revolução” é só mesmo o golpe de 64, da mesma forma que o que alguns chamam de “impeachment” é também só um golpe mesmo.
Seguindo: o dia seguinte ao golpe de 64, já era a ditadura escancarada. Começou ali a perseguição das lideranças populares, assim como a perseguição e criminalização dos movimentos sociais. Menos de 24 horas depois do AI-1, vieram 102 cassações, direitos políticos suspensos por 10 anos, entre essas 41 deputados federais, como Leonel Brizola, Jango, Arraes, Rubens Paiva, Plínio de Arruda Sampaio, Celso Furtado, o embaixador Josué de Castro, Darcy Ribeiro, Nelson Werneck Sodré, entre tantos.
Muitos outros exemplos poderia ser citados do que era a ditadura pós-golpe de 64. São bem conhecidos. Fiquemos apenas na Lei de Segurança Nacional, de 3 de março de 1967, portanto também antes do que o tal Villa considera o início da ditadura.
Quanto a tortura, a clássica foto que ilustra essa página, do imenso Gregório Bezerra, deveria falar por ela mesmo. Mas ela não fala. Ela grita.
O episódio é por demais conhecido. Preso imediatamente, horas após o golpe de 64. Arrastado pelas ruas do Recife enquanto um militar incitava a população ao linchamento. Ainda teve os pés imersos em solução de bateria de automóvel e depois obrigado a andar na brita. Então não houve tortura entre 64 e 68…É algo tão estarrecedor…
É claro que a sistematização da tortura e todo o horror clássico em grande escala que conhecemos é pós-AI-5, assim como a Operação Condor. Mas a foto de Gregório é tapa na cara definitivo que não devia permitir aberrações parecidas. Não foi o único. Como tantos outros casos antes de 68.
A negação da tortura é hedionda. Assim como a negação da existência de uma ditadura desde suas primeiras manifestações. Contra isso, sempre será preciso gritar. Sobre o resto, o personagem, deixemos pra lá, não se fala mais nem se dá luz a quem não tem. Ou como diz o Juca, “não se briga com gambá. Mesmo ganhando, você acaba ficando com o cheiro dele”. Adelante. Vamos ao que e a quem interessa.
Fonte: http://agenciasportlight.com.br/index.php/2017/07/27/o-professor-de-histeria-e-a-historia/
Não ligava o nome à pessoa.
Embora tenha travado razoável contato com a maior parte da bibliografia dos grandes historiadores do Brasil nos quatro anos dos bancos escolares da saudosa faculdade de História, passei incólume pelo tal Marco Antônio Villa.
Não me lembro de nenhuma ida ali na sinuca, pedir pro Renato, responsável pela xerox (acho que hoje com a internet a pirataria mudou de forma!), e pedir: “vê pra mim o texto do Villa”.
Fui ouvir ontem, ao saber que ele andou se agarrando a sempre mais fácil forma de tentar um pouco de luz para quem não tem nenhuma produção relevante no currículo: pegar carona no brilho de um terceiro para tentar algum holofote. No caso, o jornalista Juca Kfouri. E, pelo que leio, podia ter ficado sem essa. Jogou conversa fora, inventou e, confrontado pessoalmente, cacarejou.
Não preciso falar sobre Juca. A trajetória, a história e o currículo falam por ele. Nem o caso precisa de repercussão ou solidariedade. O que me traz aqui é outra razão.
É que tive a curiosidade em saber quem era o tal “historiador”, cujo nome, como disse, jamais tinha ouvido no velho Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, o IFCS, do Largo de São Francisco. O que por si só era muito estranho, porque não se passa em branco durante uma formação de historiador por alguém com produção minimamente relevante. (tem alguns contemporâneos ifcsianos que andam virtualmente por aqui pela Agência Sportlight, como o Simas, o Almeidinha e tantos outros. Se lembrarem de algum texto recomendado de tal autor e eu tiver sendo injusto, me avisem).
E eis que me deparo com coisas absolutamente estarrecedoras. Que provavelmente expliquem a irrelevância do mesmo na produção historiográfica brasileira. Que explicam a irrelevância do mesmo.
Pois descubro que o tal Villa escreveu um texto na Folha (“Ditadura à brasileira) no qual, pasmem, argumenta que a ditadura brasileira só existiu entre 1968 e 1979 e não como classicamente se fala, entre 1964/1985. Em seus argumentos, diz que o período entre 1964 e 1968 não pode ser assim classificado. Com o AI-5, em 68, quando aí sim começaria a ditadura, segundo ele. Como sempre pode piorar, descubro que tal ideia virou um livro com o mesmo título do artigo.
Descubro mais, e algo que me deixa absolutamente perplexo: na gravação de um programa de TV, assente que a “tortura só teria começado em 1968”, pós-AI-5.
Carlos Fico, este sim historiador com produção reconhecida e respeitada no mundo inteiro e considerado unanimemente como um dos grandes especialistas sobre o período, quiçá o maior, não tem dúvidas em apontar em sua produção ou entrevistas: “Os primeiros anos do Castelo foram mais brandos mas já havia tortura”.
Confesso que aqui tenho dúvidas. Se o sujeito que nega ditadura e tortura no Brasil entre 64 e 68 realmente desconhece os fatos ou se é simplesmente um negacionista.
O segundo caso preocupa muito mais. Alguém que desconhece os fatos é provavelmente apenas um mero desconhecedor de fatos, um apedeuta clássico. Usado aqui e acolá em entrevistas e programas de TV quando convém a estes para ilustrar narrativas que vão ao encontro do que pretendem passar.
Já o negacionista é um tipo muito mais perigoso. É alguém que é cúmplice do horror. Alguém que é cúmplice de perpetuar a barbárie.
Em outros lugares, aponta-se para tal tipo de negacionistas e negacionismos com a devida ênfase que merecem. Para que não possam dar tintas mornas para os genocídios, para que tais coisas sejam tratadas como tal. Evitando-se assim que se repitam, se perpetuem.
Como entender um “historiador” negar a ditadura logo após o primeiro dia do golpe de 1964?
Em tais lugares, essas figuras são expostas em sua vilania ao serem cúmplices do holocausto. Ao serem sócios do horror.
Por aqui, por incrível que pareça, muitos não conseguem estabelecer a conexão de que a negação da tortura dos anos de chumbo, de que a não punição dos responsáveis, é massa de fermento para o genocídio diário de pretos e pobres de nossas cidades. De que a negação daquele horror responde pela perpetuação dele em outras formas.
Como entender um historiador negar a ditadura logo após o primeiro dia do golpe de 1964? Está lá, no Ato Institucional 1 (AI-1), de 9 de abril de 1964, portanto alguns dias depois do golpe, a ditadura configurada e expressa em todas as letras, o princípio da soberania popular afastado pela mano dura e fora da lei, a constituição rasgada desde o primeiro momento e trocada pela ditadura: “A revolução vitoriosa se investe no exercício do Poder Constituinte. Este se manifesta pela eleição popular ou pela revolução. Esta é a forma mais expressiva e mais radical do Poder Constituinte. Assim, a revolução vitoriosa, como Poder Constituinte, se legitima por si mesma.” Nota: o que chamavam de “Revolução” é só mesmo o golpe de 64, da mesma forma que o que alguns chamam de “impeachment” é também só um golpe mesmo.
Seguindo: o dia seguinte ao golpe de 64, já era a ditadura escancarada. Começou ali a perseguição das lideranças populares, assim como a perseguição e criminalização dos movimentos sociais. Menos de 24 horas depois do AI-1, vieram 102 cassações, direitos políticos suspensos por 10 anos, entre essas 41 deputados federais, como Leonel Brizola, Jango, Arraes, Rubens Paiva, Plínio de Arruda Sampaio, Celso Furtado, o embaixador Josué de Castro, Darcy Ribeiro, Nelson Werneck Sodré, entre tantos.
Muitos outros exemplos poderia ser citados do que era a ditadura pós-golpe de 64. São bem conhecidos. Fiquemos apenas na Lei de Segurança Nacional, de 3 de março de 1967, portanto também antes do que o tal Villa considera o início da ditadura.
Quanto a tortura, a clássica foto que ilustra essa página, do imenso Gregório Bezerra, deveria falar por ela mesmo. Mas ela não fala. Ela grita.
O episódio é por demais conhecido. Preso imediatamente, horas após o golpe de 64. Arrastado pelas ruas do Recife enquanto um militar incitava a população ao linchamento. Ainda teve os pés imersos em solução de bateria de automóvel e depois obrigado a andar na brita. Então não houve tortura entre 64 e 68…É algo tão estarrecedor…
É claro que a sistematização da tortura e todo o horror clássico em grande escala que conhecemos é pós-AI-5, assim como a Operação Condor. Mas a foto de Gregório é tapa na cara definitivo que não devia permitir aberrações parecidas. Não foi o único. Como tantos outros casos antes de 68.
A negação da tortura é hedionda. Assim como a negação da existência de uma ditadura desde suas primeiras manifestações. Contra isso, sempre será preciso gritar. Sobre o resto, o personagem, deixemos pra lá, não se fala mais nem se dá luz a quem não tem. Ou como diz o Juca, “não se briga com gambá. Mesmo ganhando, você acaba ficando com o cheiro dele”. Adelante. Vamos ao que e a quem interessa.
Fonte: http://agenciasportlight.com.br/index.php/2017/07/27/o-professor-de-histeria-e-a-historia/
terça-feira, 12 de setembro de 2017
SP: Campanha de financiamento coletivo para montagem da peça “Pour Louise ou A Desejada Virtude da Resistência” – por A.N.A.
[São Paulo-SP] Campanha de financiamento coletivo para
montagem da peça “Pour Louise ou A Desejada Virtude da Resistência”
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2016/10/11/espanha-lancamento-hqs-a-virgem-vermelha-de-mary-m-talbot-e-bryan-talbot/
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2013/12/03/leitura-dramatica-memorias-de-louise-sera-apresentada-em-sao-paulo-nesta-segunda-9/
As águas brilhando
no véu da cachoeira!
O projeto
Há 30 anos Beatriz Tragtenberg desejava interpretar e trazer
ao público a extraordinária mulher que, além de professora, poetisa, jornalista
e pesquisadora, foi uma militante libertária e heroína na Comuna de Paris.
A peça teatral Pour Louise ou A Desejada Virtude da
Resistência é baseada nos livros Memórias e História da Comuna de
Paris, ambos de Louise Michel, levando a sua própria voz para o palco.
Pour Louise revelará também as importantes realizações
que foram implementadas pela Comuna de Paris e que estavam ocultadas pela
historiografia tradicional.
A pesquisa de textos para a peça foi realizada em quatro
anos por Beatriz Tragtenberg e Hélio Muniz.
Com o montante financeiro dos apoios pelo Catarse, serão
feitos os cenários (com uma carroça especial, entre outros elementos),
figurinos e um aporte como ajuda de custos para os participantes.
O monólogo de Beatriz Tragtenberg será coadjuvado por quatro
músicos atores, uma atriz, uma cantora, uma cenógrafa e figurinista, um
iluminador, técnico de som, produtora. A direção está a cargo de Luciana Lyra,
que fez também a dramaturgia do texto. Laura Andreato é a cenógrafa e
figurinista. Soprano Lucila Tragtenberg. Música de Livio Tragtenberg.
O valor solicitado ao apoio solidário para a montagem é de
R$ 32.000,00.
A estreia da peça está marcada para janeiro de 2018.
Contamos com vocês para revelar a brilhante figura de Louise
Michel e as importantes conquistas que a Comuna de Paris implementou em sua
vigência.
Teaser promocional: https://vimeo.com/231402054
> Para colaborar clique aqui:
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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2013/12/03/leitura-dramatica-memorias-de-louise-sera-apresentada-em-sao-paulo-nesta-segunda-9/
agência de notícias anarquistas-ana
Luz do luar –As águas brilhando
no véu da cachoeira!
Bruno Mateus da Silva Castanheira – 10 anos
Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/09/12/sao-paulo-sp-campanha-de-financiamento-coletivo-para-montagem-da-peca-pour-louise-ou-a-desejada-virtude-da-resistencia/Kim Jong-un enxerga a impotência de Trump – por Immanuel Wallerstein
Kim Jong-un enxerga a impotência de Trump
Wallerstein analisa: Coreia do Norte ignora sanções internacionais porque sabe que ameaças dos EUA são retóricas – e revelam um superpoder em declínio
É evidente que a Coreia do Norte é hoje o regime mais criticado do mundo. Praticamente todos os outros governos, no sistema-mundo moderno, fariam qualquer coisa para forçar a Coreia do Norte a mudar suas políticas, tanto internas quanto externas. Isso, apesar de que parecem não poder fazer muita coisa – quase nada, na verdade.
Como esse regime tem sido capaz de ignorar todas as medidas punitivas votadas e até mesmo implementadas na prática por Estados Unidos, China, Japão e Coreia do Sul? A consideração básica de todos os que se opõem à Coreia do Norte tem sido o medo do que ela possa fazer, se pressionada em excesso. Devemos, contudo, distinguir entre o medo de suas possíveis ações internas e o medo de suas ações externas.
A Coreia do Norte está longe de ser o único regime que trata mal, de várias maneiras, os dissidentes. Muito pelo contrário. Maltratar as forças oposicionistas é atividade cotidiana ao redor do globo. O que distingue a Coreia do Norte de todos os outros nos maus tratos a seus opositores é a perversidade do comportamento do regime. Na dinastia Kim, que já dura três gerações, o governantes que ocupa hoje o poder parece ser o que reage mais rápido, e de modo mais mortífero. Isso pode ser interpretado como sinal de insegurança. Não importa. Seja qual for o motivo, parece uma realidade, o que leva seus vizinhos a hesitar em provocá-lo ainda mais.
Esse medo que outros regimes têm do comportamento interno da Coreia do Norte é, contudo, muito menor do que o medo de que, na arena internacional, o país possa um dia utilizar armas nucleares, deliberada ou inadvertidamente. Muitos governos afirmaram isso publicamente e adotaram várias sanções contra o regime norte-coreano pela falta de resposta às pressões para mudar sua política. A Coreia do Norte simplesmente as ignora.
Wallerstein analisa: Coreia do Norte ignora sanções internacionais porque sabe que ameaças dos EUA são retóricas – e revelam um superpoder em declínio
É evidente que a Coreia do Norte é hoje o regime mais criticado do mundo. Praticamente todos os outros governos, no sistema-mundo moderno, fariam qualquer coisa para forçar a Coreia do Norte a mudar suas políticas, tanto internas quanto externas. Isso, apesar de que parecem não poder fazer muita coisa – quase nada, na verdade.
Como esse regime tem sido capaz de ignorar todas as medidas punitivas votadas e até mesmo implementadas na prática por Estados Unidos, China, Japão e Coreia do Sul? A consideração básica de todos os que se opõem à Coreia do Norte tem sido o medo do que ela possa fazer, se pressionada em excesso. Devemos, contudo, distinguir entre o medo de suas possíveis ações internas e o medo de suas ações externas.
A Coreia do Norte está longe de ser o único regime que trata mal, de várias maneiras, os dissidentes. Muito pelo contrário. Maltratar as forças oposicionistas é atividade cotidiana ao redor do globo. O que distingue a Coreia do Norte de todos os outros nos maus tratos a seus opositores é a perversidade do comportamento do regime. Na dinastia Kim, que já dura três gerações, o governantes que ocupa hoje o poder parece ser o que reage mais rápido, e de modo mais mortífero. Isso pode ser interpretado como sinal de insegurança. Não importa. Seja qual for o motivo, parece uma realidade, o que leva seus vizinhos a hesitar em provocá-lo ainda mais.
Esse medo que outros regimes têm do comportamento interno da Coreia do Norte é, contudo, muito menor do que o medo de que, na arena internacional, o país possa um dia utilizar armas nucleares, deliberada ou inadvertidamente. Muitos governos afirmaram isso publicamente e adotaram várias sanções contra o regime norte-coreano pela falta de resposta às pressões para mudar sua política. A Coreia do Norte simplesmente as ignora.
Um modo de entender por que razão o regime norte-coreano é
capaz de ser tão impermeável a todas as pressões é pensar o que poderia
acontecer no dia seguinte, o day after, tanto interna quanto externamente.
Suponha que o regime desabe e deixe de ocupar o poder. O que viria depois? Isso
é particularmente preocupante para a China e a Coreia do Sul.
O que a China e a Coreia do Sul mais temem é uma súbita
queda do regime norte-coreano. Os dois preveem um movimento maciço de
norte-coreanos em direção a seus países. Consideram quase impossível deter esse
movimento, ou mesmo limitar suas dimensões. As consequências para a política
interna da China e da Coreia do Sul seriam enormes, levando talvez a
desestabilizar a unidade chinesa e a ordem interna sul-coreana.
Tanto China como Coreia do Sul perderam a confiança de que
os Estados Unidos poderiam intervir nessa situação de alguma forma
significativa. Os Estados Unidos tornam-se, portanto, um fator irrelevante em
suas decisões políticas. Isso, por sua vez, cria uma mudança na situação dos
países vizinhos. Japão, Coreia do Sul e Taiwan abstiveram-se de se tornar
potências nucleares supondo que os Estados Unidos seriam seu escudo nuclear.
Uma vez que não acreditam mais nisso, sentirão necessidade de criar sua própria
defesa atômica.
Isso, por sua vez, irá afetar as decisões de regimes no
sudeste da Ásia e na Australásia. Eles terão de criar seu
próprio escudo nuclear ou depender do escudo da China. Na medida em que esses
países se liguem à China, o maior perdedor geopolítico será a Índia. A forte
competição entre China e Índia levará a Déli a colocar maior ênfase ainda na
crescente colaboração com os Estados Unidos, muito embora os Estados Unidos sejam
um parceiro não-confiável para a Índia.
O maior beneficiado desses realinhamentos será o Irã, cujos
laços com a China, já consideráveis, irão intensificar-se. Isso vai
desestabilizar a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos (UAE, na sigla em
inglês), que por sua vez podem pensar em prosseguir com os armamentos
nucleares, embora estejam longe de adquirir a capacidade técnica para fazê-lo
com alguma velocidade. A despeito disso, precisarão fazer alguma coisa, ou
enfrentar conflitos internos.
Nessa nova situação, a Rússia é o país que terá maior
vantagem sobre o desconforto de todos os outros. Ela já o faz, ao se recusar a
implementar as sanções à Coreia do Norte. Também ao substituir os Estados
Unidos na zona árabe/muçulmana como a potência com maior capacidade de mediar
compromissos políticos.
Poderíamos seguir, discutindo as consequências para a
Indonésia, a Turquia, o Irã e a Síria, e para a Europa Ocidental. Mas tudo isso
explica por que a Coreia do Norte é capaz de prosseguir em seu próprio caminho,
como está fazendo. Pode-se notar a ironia de que o regime mais criticado do
mundo é, em certo sentido, o mais forte — porque o mais autônomo. Ele tem a
força que deriva do medo de todos os outros com relação ao day after.
A Coreia do Norte não tem interesse em um conflito nuclear.
O regime sabe que não sobreviveria. O que ele quer é que os Estados Unidos –
que enxergam como um inimigo permanente – garantam: (1) o reconhecimento de que
é um poder nuclear legítimo e (2) que se absterão de voltar a intevir na
política interna da Coreia do Norte.
A única coisa que pode reduzir o risco de caos nuclear é a
aceitação, pelos Estados Unidos, dos limites de seu próprio poder geopolítico e
de que terão de negociar diretamente com a Coreia do Norte. Por ora, nem o presidente
Trump, nem o Congresso norte-americano estão prontos para fazer esse movimento
radical. A questão, entretanto, é quanto tempo mais os Estados Unidos irão
demorar para engolir essa realidade geopolítica.
segunda-feira, 11 de setembro de 2017
Genocídio: garimpeiros “massacram” indígenas isolados na Amazônia – por A.N.A.
Genocídio:
garimpeiros “massacram” indígenas isolados na Amazônia
O Ministério Público Federal do Amazonas está investigando uma denúncia de que garimpeiros ilegais no rio Jandiatuba, na Amazônia, massacraram “mais de dez” membros de uma tribo isolada. Caso confirmado, isso significa que até um quinto de uma tribo inteira pode ter sido exterminada.
Dois garimpeiros foram presos.
As mortes ocorreram, supostamente, no mês passado na região do rio Jandiatuba dentro do território indígena Vale do Javari, mas a notícia foi revelada apenas após os garimpeiros se vangloriarem das mortes, mostrando “troféus” na cidade mais próxima.
Sertanistas da FUNAI confirmaram os detalhes do ataque à Survival International. Acredita-se que mulheres e crianças estão entre os mortos. A FUNAI e o Ministério Público Federal estão investigando atualmente.
A área é conhecida como a Fronteira Isolada Amazônica, pois é lar para mais tribos isoladas do que em qualquer outro lugar no mundo.
Diversas equipes do governo que protegem territórios de indígenas isolados tiveram seu orçamento reduzido pelo governo brasileiro, e diversas bases de proteção tiveram que ser fechadas.
O governo do Presidente Temer é extremamente anti-indígena, e possui laços fortes com a poderosa bancada ruralista.
Os territórios de outras duas tribos isoladas vulneráveis – os Kawahiva e os Piripkura – também foram supostamente invadidos. Ambos estão cercados por centenas de fazendeiros e invasores.
As tribos isoladas são os povos mais vulneráveis do planeta. No entanto, quando seus direitos são respeitados, elas continuam a prosperar.
Todas as tribos isoladas enfrentam uma catástrofe, a não ser que suas terras sejam protegidas. A Survival International está fazendo tudo o que pode para garanti-las a essas tribos e dar-lhes a oportunidade de determinar seus próprios futuros.
O diretor da Survival International, Stephen Corry, disse: “Caso tais relatos sejam confirmados, o Presidente Temer e seu governo possuem uma grande responsabilidade por este ataque genocida. O corte no orçamento da FUNAI deixou dezenas de tribos isoladas sem defesa contra milhares de invasores – garimpeiros, fazendeiros e madeireiros – que estão desesperados para roubar e pilhar suas terras. Todas estas tribos deveriam ter tido suas terras devidamente reconhecidas e protegidas há anos – o apoio aberto do governo àqueles que querem abrir territórios indígenas é extremamente vergonhoso, e está retrocedendo os direitos indígenas em décadas.”
furiosamente aberta
a sua juba de penas.
O Ministério Público Federal do Amazonas está investigando uma denúncia de que garimpeiros ilegais no rio Jandiatuba, na Amazônia, massacraram “mais de dez” membros de uma tribo isolada. Caso confirmado, isso significa que até um quinto de uma tribo inteira pode ter sido exterminada.
Dois garimpeiros foram presos.
As mortes ocorreram, supostamente, no mês passado na região do rio Jandiatuba dentro do território indígena Vale do Javari, mas a notícia foi revelada apenas após os garimpeiros se vangloriarem das mortes, mostrando “troféus” na cidade mais próxima.
Sertanistas da FUNAI confirmaram os detalhes do ataque à Survival International. Acredita-se que mulheres e crianças estão entre os mortos. A FUNAI e o Ministério Público Federal estão investigando atualmente.
A área é conhecida como a Fronteira Isolada Amazônica, pois é lar para mais tribos isoladas do que em qualquer outro lugar no mundo.
Diversas equipes do governo que protegem territórios de indígenas isolados tiveram seu orçamento reduzido pelo governo brasileiro, e diversas bases de proteção tiveram que ser fechadas.
O governo do Presidente Temer é extremamente anti-indígena, e possui laços fortes com a poderosa bancada ruralista.
Os territórios de outras duas tribos isoladas vulneráveis – os Kawahiva e os Piripkura – também foram supostamente invadidos. Ambos estão cercados por centenas de fazendeiros e invasores.
As tribos isoladas são os povos mais vulneráveis do planeta. No entanto, quando seus direitos são respeitados, elas continuam a prosperar.
Todas as tribos isoladas enfrentam uma catástrofe, a não ser que suas terras sejam protegidas. A Survival International está fazendo tudo o que pode para garanti-las a essas tribos e dar-lhes a oportunidade de determinar seus próprios futuros.
O diretor da Survival International, Stephen Corry, disse: “Caso tais relatos sejam confirmados, o Presidente Temer e seu governo possuem uma grande responsabilidade por este ataque genocida. O corte no orçamento da FUNAI deixou dezenas de tribos isoladas sem defesa contra milhares de invasores – garimpeiros, fazendeiros e madeireiros – que estão desesperados para roubar e pilhar suas terras. Todas estas tribos deveriam ter tido suas terras devidamente reconhecidas e protegidas há anos – o apoio aberto do governo àqueles que querem abrir territórios indígenas é extremamente vergonhoso, e está retrocedendo os direitos indígenas em décadas.”
> Foto: Tribos isoladas na Amazônia brasileira,
imagem aérea em 2010.
Fonte: https://www.survivalbrasil.org/ultimas-noticias/11811
agência de notícias anarquistas-ana
O galo é um leãofuriosamente aberta
a sua juba de penas.
Kikaku
Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/09/11/genocidio-garimpeiros-massacram-indigenas-isolados-na-amazonia/
sexta-feira, 8 de setembro de 2017
Anarquistas são presos em São Paulo – por A.N.A.
Anarquistas
são presos em São Paulo
Memória: Deu no Jornal do Brasil, 8 de setembro de 1993.
● Ativistas ‘anarco-punks’ protestavam contra ‘militarismo’ e massacres da polícia
Mais de 100 militantes anarquistas foram detidos, ontem pela manhã, durante a parada militar de 7 de setembro, sob as acusações de provocar tumulto e portar armas brancas (machadinhas, facas e correntes). Os manifestantes, que pertencem a vários grupos anarquistas e punks – Movimento Anarquista de São paulo, Agência de Notícias Anarquistas, Coletivo Traça, Movimento Anarco-Punk, Coletivo Anarco-Feminista, Grupo Consciência Anarquista e Coletivo Libertário Edgar Leuenroth – distribuíam panfletos e protestavam “contra o militarismo”.
O delegado Aparecido Borba Zandoná, de plantão no 2º Distrito Policial, no Bom Retiro, na Zona Central, para onde foram levados os detidos, explicou que eles foram presos para evitar tumultos. “Na verdade não foi uma prisão”, explicou. “Foi uma retenção. Eles ficaram retidos até que terminasse a cerimônia de 7 de setembro. Havia informações de que poderia haver conflitos com grupos rivais. Também quisemos evitar que as autoridades fossem ofendidas”.
Os manifestantes presos negam que quisessem causar tumultos. “Nosso protesto era pacífico”, garantiu Ivan de Souza, um dos líderes dos detidos. “Nós estávamos protestando contra o militarismo e o massacre constante da polícias contra a população”.
agência de notícias anarquistas-ana
Memória: Deu no Jornal do Brasil, 8 de setembro de 1993.
● Ativistas ‘anarco-punks’ protestavam contra ‘militarismo’ e massacres da polícia
Mais de 100 militantes anarquistas foram detidos, ontem pela manhã, durante a parada militar de 7 de setembro, sob as acusações de provocar tumulto e portar armas brancas (machadinhas, facas e correntes). Os manifestantes, que pertencem a vários grupos anarquistas e punks – Movimento Anarquista de São paulo, Agência de Notícias Anarquistas, Coletivo Traça, Movimento Anarco-Punk, Coletivo Anarco-Feminista, Grupo Consciência Anarquista e Coletivo Libertário Edgar Leuenroth – distribuíam panfletos e protestavam “contra o militarismo”.
O delegado Aparecido Borba Zandoná, de plantão no 2º Distrito Policial, no Bom Retiro, na Zona Central, para onde foram levados os detidos, explicou que eles foram presos para evitar tumultos. “Na verdade não foi uma prisão”, explicou. “Foi uma retenção. Eles ficaram retidos até que terminasse a cerimônia de 7 de setembro. Havia informações de que poderia haver conflitos com grupos rivais. Também quisemos evitar que as autoridades fossem ofendidas”.
Os manifestantes presos negam que quisessem causar tumultos. “Nosso protesto era pacífico”, garantiu Ivan de Souza, um dos líderes dos detidos. “Nós estávamos protestando contra o militarismo e o massacre constante da polícias contra a população”.
agência de notícias anarquistas-ana
As folhas vermelhas
brilham num dia de sol:
o inverno se alegra.
brilham num dia de sol:
o inverno se alegra.
Thiago Souza
terça-feira, 5 de setembro de 2017
Onde está o busto de Lamarca? – por Natalia Viana
Onde está o busto de Lamarca?
Por aqui, em Cajati, onde fica o Parque do Rio Turvo, os cerca de 30 mil habitantes mal ficaram sabendo da queda da estátua. O artefato tampouco lembra o garboso monumento americano: pesa 40 quilos, é feito de cimento e coberto de piche. E não guarda lá tanta semelhança com Lamarca.
Feita de maneira sorrateira e sem anúncio no Diário Oficial, a retirada do busto e do painel – este custou aos cofres públicos cerca de R$ 12 mil – foram justificados por Ricardo Salles por meio de nota ao site Direto da Ciência: “Narrar fatos é uma coisa. Erguer bustos com dinheiro público e em parque público é bem diferente. Marighella [sic] foi um guerrilheiro, desertor e responsável pela morte de inúmeras pessoas. A presença desse busto no local é inadmissível”. À coluna de Mônica Bergamo, na Folha, o secretário disse: “Parque não é lugar para ter busto de herói ideológico de nenhum lado”.
A retirada não gerou protestos da população, mas um zunzunzum no Facebook. A filha de Lamarca, Claudia Pavan Lamarca, chamou o ato de “autoritário”. “Resta a figura minimizada e patética do homem, travando uma ‘luta’ irracional com um fragmento de rocha e metal inerte. A cena, mais do que grotesca e medieval, traduz o MEDO que a figura do Lamarca ainda provoca nos representantes da direita”.
A professora de geografia e pesquisadora Lisângela Kati do Nascimento, que estudou o ensino de história nas escolas ao redor do parque, manifestou sua indignação em outro post. “Eu joguei nas redes sociais e falei a população não está sabendo sobre isso. Foi totalmente arbitrário da parte do secretário”, disse em entrevista à Pública. “A referência a Lamarca é superforte na memória da população de Cajati. Poderia ser retirado se tivesse uma consulta pública, junto à população, decidindo tirar. Mas ele mandar tirar é tipo chamar a população de ignorante.”
Inaugurada em 2012, a estátua foi uma decisão do Conselho do Parque, integrado por membros do poder público e da comunidade. Um deles é o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Adilson Vieira Alves. “A intenção quando se levantou essa proposta era ele ser mais um atrativo para visitação. Aqui no parque tem a própria cachoeira, com o nome de Noiva do Capitão, e tem uma cachoeira menor que tem o nome de cachoeira do Lamarca, que foi onde eles ficaram na época da guerrilha.” Os recursos vieram da construção de um pedágio da rodovia BR-116. O valor total da construção do museu foi de R$ 640 mil. “O mais interessante é que ele é o terceiro secretário que visitou o núcleo e os dois anteriores não se importaram, nem o Xico Graziano nem o Pedro Ubiratan.”
Luiz dos Passos, o jornalista e autor da obra, tinha apenas oito anos quando caíram as bombas. “Eu vi os bombardeios. A minha casa era de frente pra serra onde era feita a busca deles pelo Exército. E via o comentário das pessoas que vinham do sítio, contavam que o pessoal do Exército abordava os moradores”, lembra.
“Tem pesquisadores que dizem que o vale tem antes do Lamarca e depois do Lamarca”, explica Ocimar Bin, pesquisador do Parque do Rio Turvo e ex-gestor da área. “Depois vieram investimentos em infraestrutura, escolas. O Estado passou a ter um olhar para a região.” Para ele, o cerco é ainda mais relevante na memória de uma população que é extremamente rural ainda hoje. “O acontecimento na época foi uma coisa muito grandiosa, bombardeio, 3 mil homens, houve um grande tiroteio em Eldorado, que é uma cidadezinha. A figura de Lamarca ficou muito comentada. E essas histórias de tortura deixaram marcas nas pessoas.”
Fonte: http://apublica.org/2017/09/onde-esta-o-busto-de-lamarca/
O ato final do ex-secretário de Meio Ambiente paulista foi
sumir com uma estátua do guerrilheiro no Vale do Ribeira, esbravejando contra
“herói ideológico”. Reavivou uma memória incômoda, que inclui bombardeios de
napalm pela ditadura
Encaixotado e escondido em um canto qualquer está o símbolo
maior do ocaso do ex-secretário do Meio Ambiente de São Paulo, Ricardo Salles
(PP), que deixou o governo de Geraldo Alckmin (PSDB) na semana passada. No dia
8 de agosto, um dia depois de ter assinado a carta de renúncia da pasta que
comandou por um ano, Salles decidiu marcar sua saída com um gesto grandioso.
Em visita ao Parque do Rio Turvo, na região do Vale da
Ribeira, sul do Estado de São Paulo, indignou-se com um busto do capitão Carlos
Lamarca, líder guerrilheiro da organização VPR, que lutava contra a ditadura, e
ordenou que o coronel Alberto Maufe Sardilli, comandante da PM Ambiental, que
estava ao seu lado, retirasse a estátua. Além dela, o secretário proibiu de
figurar no Museu do Parque um painel que contava a passagem de Lamarca e outros
oito guerrilheiros por aquela região em 1970, onde estabeleceram um campo de
treinamento.
Em visita ao Vale do Ribeira, o ex-secretário do Meio
Ambiente de São Paulo, Ricardo Salles (PP), ordenou a retirada do busto de
Lamarca (Foto: Pedro Calado/ Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São
Paulo)
Segundo relatos de funcionários do parque, o então
secretário esbravejou que a estátua estava “plantando o comunismo no coração
das crianças”.
“Pra mim ele não justificou nada não”, disse o prefeito de
Cajati, que acompanhava a visita, à Agência Pública. “Simplesmente quando veio
o secretário junto com o coronel, ele disse: ‘Pode tirar isso aqui’. Quem
retirou foi o funcionário do parque, e perguntou se tinha como eu ajudar a
tirar, pôr no carro.”
Busto de Lamarca antes de ser retirado do Parque do Rio
Turvo (Foto: Reprodução)
O gesto de Ricardo Salles, advogado e fundador da página
Endireita Brasil, antecedeu em cinco dias o conflito que eclodiu em
Charlottesville, nos Estados Unidos, por conta justamente dos planos de retirar
a estátua em homenagem a Robert E. Lee, um general confederado durante a Guerra
Civil Americana, símbolo dos brancos sulistas que defendiam a permanência da
escravidão. Em protesto, uma marcha de brancos supremacistas levou a confrontos
que deixaram três mortos e 34 feridos. Nos dias seguintes, dezenas de
estátuas semelhantes foram derrubadas em diversas cidades dos Estados Unidos,
abrindo uma grande discussão sobre o papel da preservação da história e a
exaltação de ideologias racistas. Por aqui, em Cajati, onde fica o Parque do Rio Turvo, os cerca de 30 mil habitantes mal ficaram sabendo da queda da estátua. O artefato tampouco lembra o garboso monumento americano: pesa 40 quilos, é feito de cimento e coberto de piche. E não guarda lá tanta semelhança com Lamarca.
Feita de maneira sorrateira e sem anúncio no Diário Oficial, a retirada do busto e do painel – este custou aos cofres públicos cerca de R$ 12 mil – foram justificados por Ricardo Salles por meio de nota ao site Direto da Ciência: “Narrar fatos é uma coisa. Erguer bustos com dinheiro público e em parque público é bem diferente. Marighella [sic] foi um guerrilheiro, desertor e responsável pela morte de inúmeras pessoas. A presença desse busto no local é inadmissível”. À coluna de Mônica Bergamo, na Folha, o secretário disse: “Parque não é lugar para ter busto de herói ideológico de nenhum lado”.
A retirada não gerou protestos da população, mas um zunzunzum no Facebook. A filha de Lamarca, Claudia Pavan Lamarca, chamou o ato de “autoritário”. “Resta a figura minimizada e patética do homem, travando uma ‘luta’ irracional com um fragmento de rocha e metal inerte. A cena, mais do que grotesca e medieval, traduz o MEDO que a figura do Lamarca ainda provoca nos representantes da direita”.
A professora de geografia e pesquisadora Lisângela Kati do Nascimento, que estudou o ensino de história nas escolas ao redor do parque, manifestou sua indignação em outro post. “Eu joguei nas redes sociais e falei a população não está sabendo sobre isso. Foi totalmente arbitrário da parte do secretário”, disse em entrevista à Pública. “A referência a Lamarca é superforte na memória da população de Cajati. Poderia ser retirado se tivesse uma consulta pública, junto à população, decidindo tirar. Mas ele mandar tirar é tipo chamar a população de ignorante.”
Ex-secretário do Meio Ambiente de São Paulo durante a visita
ao Parque do Rio Turvo (Foto: Reprodução)
Inaugurada em 2012, a estátua foi uma decisão do Conselho do Parque, integrado por membros do poder público e da comunidade. Um deles é o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Adilson Vieira Alves. “A intenção quando se levantou essa proposta era ele ser mais um atrativo para visitação. Aqui no parque tem a própria cachoeira, com o nome de Noiva do Capitão, e tem uma cachoeira menor que tem o nome de cachoeira do Lamarca, que foi onde eles ficaram na época da guerrilha.” Os recursos vieram da construção de um pedágio da rodovia BR-116. O valor total da construção do museu foi de R$ 640 mil. “O mais interessante é que ele é o terceiro secretário que visitou o núcleo e os dois anteriores não se importaram, nem o Xico Graziano nem o Pedro Ubiratan.”
No dia da inauguração, alguns dos ex-integrantes da
guerrilha foram participar das fotos oficiais. “Tem uma foto com os
companheiros, o sargento Darcy Rodrigues também foi lá, eu fui convidado por um
camarada que trabalhava na secretaria do Meio Ambiente”, relembra José Araújo
Nóbrega, o sargento Nóbrega, um dos militares que se juntaram a Lamarca para
treinamentos na região. “Pra ser sincero, eu nunca pensei que fossem chegar ao
nível a que chegaram. Isso é muito baixo”, revolta-se. “Isso é tão pequeno…
Eles vão mexer com um busto!”. Para ele, a ação do ex-secretário não foi nada
mais do que uma “jogada de marketing”. “Ele fez isso pra aparecer. Pra poder
aparecer como de direita.”
Passaram-se semanas até que a reclamação fosse ouvida por
alguns políticos. Mais precisamente, dois. O deputado Luiz Turco, do PT, fez
uma moção de repúdio na Assembleia Legislativa estadual no dia 24 de agosto.
“Você já pensou se qualquer cidadão sair quebrando estátua por aí porque gosta
ou não gosta? Pega o pessoal da esquerda e sai quebrando essas estátuas que tem
aqui em São Paulo, com nome de torturador, generais?”, disse à Pública o
vice-presidente da comissão de Meio Ambiente do Legislativo. “Não é justo. É
uma coisa simples, mas simbólica.”
O deputado Carlos Giannazi, do Psol, foi além e protocolou
uma ação do Ministério Público Estadual por improbidade administrativa e
dilapidação do patrimônio público. A ação ainda não foi distribuída, mas,
segundo o deputado, Salles terá de responder mesmo longe da vida pública. “Ele
não podia ter feito aquilo pelo fato de ter diferenças ideológicas.”
Foto de Lamarca que inspirou a obra
Mas, afinal, onde foi parar o busto? Procurada pela Pública,
a Secretaria do Meio Ambiente se recusou a responder. “A
Fundação Florestal está apurando o caso, mas, como estamos passando
por um momento de transição de comando tanto na FF como na Secretaria de Meio
Ambiente, não temos nada a comentar no momento”, afirmou em nota a
fundação responsável pelos parques paulistas.
Já o prefeito de Cajati, que garante que na cidade ninguém
ligou muito para a retirada do busto, disse que também não tem nem ideia do seu
paradeiro. “O busto saiu numa viatura da Policia Ambiental. Levou o busto, não
sei se tá aqui no registro pra onde foi. Parece, pelo que eu vi, que iam
devolver o rapaz que não recebeu o pagamento”, explica o prefeito. É que a
pendenga também levantou fantasmas antigos, como o do pagamento do jornalista
Luiz dos Passos, que garante ter feito o busto e jamais ter sido recompensado.
Luiz disse que demorou 15 dias para fazer a estátua, que pesa 40 quilos e é
feita de ferro, cimento e brita. “É bem artesanal mesmo. Depois que o cimento
secou, foi pintado com piche para ficar preto”, diz ele, que se baseou em uma
foto que achou na internet. A estátua, entretanto, ainda não está finalizada.
“O que falta? Como só foi passado piche, não foi lixada, eu ia passar uma resina
para ficar com a aparência bem legal.”
E agora?
A saída de Salles foi à Trump: dois dias antes de sua
renúncia ter aparecido no Diário Oficial, ele anunciou no seu Facebook com
alarde que sairia da pasta, deixando a secretaria uma bagunça – e um rastro de
acusações no seu encalço. É alvo de uma ação civil pública sob a acusação de
ter alterado ilegalmente o zoneamento da Área de Proteção Ambiental da Várzea
do Rio Tietê, que envolve 12 municípios , alterando mapas para beneficiar
indústrias e empresas de mineração. O MP estadual também instaurou um inquérito
para investigar sua iniciativa de chamar empresários para discutir a concessão
ou venda de 34 áreas do Instituto Florestal sem a devida autorização do
legislativo.
Além do busto, claro, que virou um enorme pepino para o novo
secretário do Meio Ambiente, Maurício Brusadin, expert em comunicação digital e
sócio de Xico Graziano.
“Essa é uma pergunta que eu faço querendo esclarecimento. O
que ele [Ricardo Salles] fez com o busto? Ele vai ter que devolver esse busto.
Vou acompanhar”, garante o deputado Carlos Giannazi, celebrando a saída do
ex-secretário. “Já vai tarde.”
Procurado por e-mail, Ricardo Salles não respondeu ao pedido
de entrevista.
Passada a onda de repercussão pelo Facebook, Lisângela Kati
diz ter poucas esperanças de que a estátua volte à cidade onde nasceu. “Eu
gostaria muito que tivesse alguma resposta, mas eu não acredito muito que
tenha. Só teria se a população estivesse se mobilizando mais intensamente”,
diz.
Já o sargento Nóbrega revela certo otimismo. “Aquele busto
não atrapalhava nada, inclusive era um busto muito malfeito, me desculpe dizer.
Tomara que agora façam um busto melhor.”
Um passado mais horroroso do que a estátua
Embora feio e coberto de piche, o busto de Lamarca
representava para a pequena comunidade de Cajati algo muito maior do que o
próprio guerrilheiro: uma história de terror em que foi envolvida no ano 1970 e
sobre a qual não se aprende nas escolas.
A Pública descobriu em 2015 que o local foi alvo de bombardeios de
napalm pela Força Aérea Brasileira durante a ditadura, na busca para
capturar Lamarca e outros oito guerrilheiros que alugaram um sítio no local para
fazer treinamentos. Além de um documento relatando o uso, assinado pelo adido
militar francês, encontramos fragmentos das bombas de napalm atiradas pelos
aviões T6 e B26, da FAB. Os fragmentos foram entregues para o Ministério
Público estadual. Encontramos 12 testemunhas dos bombardeios e fomos levados
por moradores a locais onde ainda se veem crateras feitas pelas bombas.
A Operação Registro mobilizou 2.954 homens, entre membros do
Centro de Informações do Exército, regimentos de infantaria e paraquedistas das
forças especiais, policiais da Policia Militar e Rodoviária de São Paulo e do
Dops. Durante 30 dias de cerco, a população foi torturada, houve prisões
massivas e bombardeios. Os militares decretaram “toque de recolher” durante a
noite. Os que se atreviam a sair sem permissão eram presos durante dias.
Luiz dos Passos, o jornalista e autor da obra, tinha apenas oito anos quando caíram as bombas. “Eu vi os bombardeios. A minha casa era de frente pra serra onde era feita a busca deles pelo Exército. E via o comentário das pessoas que vinham do sítio, contavam que o pessoal do Exército abordava os moradores”, lembra.
“Tem pesquisadores que dizem que o vale tem antes do Lamarca e depois do Lamarca”, explica Ocimar Bin, pesquisador do Parque do Rio Turvo e ex-gestor da área. “Depois vieram investimentos em infraestrutura, escolas. O Estado passou a ter um olhar para a região.” Para ele, o cerco é ainda mais relevante na memória de uma população que é extremamente rural ainda hoje. “O acontecimento na época foi uma coisa muito grandiosa, bombardeio, 3 mil homens, houve um grande tiroteio em Eldorado, que é uma cidadezinha. A figura de Lamarca ficou muito comentada. E essas histórias de tortura deixaram marcas nas pessoas.”
Fonte: http://apublica.org/2017/09/onde-esta-o-busto-de-lamarca/
1921-1953: uma cronologia do anarquismo russo - por Nick Heath
1921-1953: uma cronologia do anarquismo russo
Breve cronologia do movimento e das atividades anarquistas e
da repressão que sofreram das autoridades soviéticas após a Revolução Russa.
“Mas nós não tememos vocês ou seus carrascos. A ‘justiça’
soviética pode até nos matar, mas vocês jamais matarão nossos ideais.
Morreremos como anarquistas e não como bandidos.”
Anarquista Fedor Petrovich Machanovski em seu julgamento,
antes do Tribunal Revolucionário de Petrogrado, 13 e 22 de dezembro
de 1922.
Após o extermínio dos Machanovistas, das insurreições na
Sibéria e da Revolta de Kronstadt, a propaganda anarquista no interior da URSS
foi severamente reprimida em março de 1921. Foram poucas as atividades após
esse período como, por exemplo, a publicação de um livro de iniciativa de Golos
Truda em Moscou e em Petrogrado; as ações do Black Cross, um grupo
anarquista de apoio aos prisioneiros e a abertura do Museu Kropotkin – assim
nomeado após a morte do anarquista russo Peter Kropotkin; e a publicação das
obras completas de Bakunin e um livro de Alexander Borovoi sobre o anarquismo
russo de iniciativa do jornal Golos Truda. Além disso, o museu Kropotkin
foi inaugurado em 1921 na casa onde ele vivera em Moscou e foi estimulado por
um grupo de anarquistas e pela sua esposa.
Os visitantes do museu, no entanto, eram fotografados, como
forma de intimidação, pelo organismo contrarrevolucionário Cheka. O Black
Cross foi igualmente tolerado, mas suas atividades ficaram bastante
reduzidas, e ainda assim a Cheka colocou informantes infiltrados na
organização. Fora de Moscou e Petrogrado a repressão foi generalizada. As duas
grandes cidades russas sempre estiveram abertas ao ocidente e o regime quis apresentar
uma imagem de tolerância para com os radicais para a Europa e Estados Unidos.
Já em outros lugares do país, os trabalhos de Kropotkin foram desapropriados em
Yaroslav – uma cidade próxima de Moscou – e o mesmo aconteceu com os livros
publicados pelo Golos Truda em Kharkov, leste da Ucrânia.
1921
A velha política de exílio do Czar é restaurada, e as
primeiras vítimas são três jovens mulheres anarquistas, estudantes da
Universidade de Moscou. Enviadas para Arkhangelsk – cidade localizada na costa
do Mar Branco – por um ano, Isayeva, Ganshina e Sturner ainda se encontravam lá
três anos depois.
Alexei Borovoi, um notável anarquista acadêmico, foi
demitido da Universidade de Moscou (ele tinha permissão para lecionar sob o
governo do Czar) e permaneceu um longo período desempregado. No entanto, os
estudantes da Academia Comunista (localizada nas dependências que
foram previamente ocupadas pela Federação de Grupos Anarquistas de Moscou)
decidiram organizar uma discussão sobre “Anarquismo versus Marxismo” e convidaram
Borovaoi e Bukharin para defenderem suas ideias. Mas a discussão foi banida
pelas autoridades Bolcheviques.
Verão
Em Zhmerinka – centro-oeste da Ucrânia – um grupo de 40
anarquistas é descoberto. Todos são fuzilados.
Em Odessa – centro-sul da Ucrânia – vários anarquistas são
alvejados por “razões de Estado”.
Julho
Greve de fome de 13 prisioneiros anarquistas (incluindo
Voline e Aron Baron) na prisão de Taganka em Moscou.
Setembro
Fanya Baron, Lev Tcherny, Potekhin, Tikhon Kachirin, Ivan
Gavrilov e outros nove anarquistas que trabalhavam clandestinamente são mortos
a tiros nos porões da Cheka.
17 de setembro
Sob pressão, o regime libera dez anarquistas de Taganka:
Voline, Vorobiov, Mratchny, Mikhailov, Yudin, Yartchuk, Goreik, Feldman e
Fedorov. A maioria deles é deportada para Berlim.
Novembro-Dezembro
Os Anarco-Universalistas de Moscou são reprimidos. Alexander
Shapiro, Stetzenko e Askarov são presos.
Fim
92 Tolstoianos são executados por se recusarem a servir no
exército.
Em um determinado dia de 1921 o trabalhador anarquista
Gordeyev é baleado por quebrar a disciplina do trabalho em uma fábrica em
Izhevsk, centro-oeste da Rússia. No mesmo ano a Juventude Anarquista é
liquidada. Os Bolcheviques estão bastante preparados para evitar a difusão das
ideias anarquistas entre os jovens.
I.S. Bleikhman morre em virtude do tratamento recebido em um
campo de trabalho bolchevique.
O trabalhador anarquista Nikolai Beliaiv é exilado em
Arkhangelsk.
Maria Veger (Weguer), professora, é presa em Petrogrado
(atual São Petesburgo, oeste da Rússia) por possuir livros anarquistas.
Condenada ao exílio por dois em Arkhangelsk, contrai malária.
1922
Veger foge e se esconde com um nome falso em Petrogrado.
É dada a permissão para Aron Baron, preso desde 1920, deixar
a Rússia. No entanto, a GPU (sigla dada à antiga Cheka, após esta se
transformar em um órgão de administração política do estado) se opõe à decisão
e ele acaba preso e posteriormente condenado sem julgamento a três anos no
campo de Pertominsk, costa do Mar Branco. Em 1923 é transferido para Solovki
(uma ilha, localizada também no Mar Branco), onde contrai uma infecção séria
nos olhos e então é novamente transferido para a Sibéria. Em 1925 é novamente
preso, depois de se corresponder com anarquistas de outros países, e é enviado
à Lenissei, uma cidade na região central da Rússia. Ali, preso novamente, é
enviado a um vilarejo isolado, onde os postais chegam somente três vezes ao
ano.
Janeiro
O anarquista russo-americano Alexander Berkman e Emma
Goldman, após total desilusão com o regime bolchevique, deixam a URSS.
Primavera
Novas incursões sobre o movimento anarquista em toda Rússia.
Novas incursões sobre o movimento anarquista em toda Rússia.
O trabalhador anarquista Fedor Machanovski é preso em
Petrogrado e sentenciado à morte, que foi atenuada para 10 anos na prisão de
Butirki, Moscou, (onde Makhno e Arshinov tinham sido presos sob o Czar) em
1927.
22 de maio
Tentativa de suicídio coletivo dos anarquistas que tentaram
se queimar em resposta às aterradoras condições no campo de Pertominsk.
1° de novembro
Os anarquistas Mollie Steimer e Senya Flechin são presos e
mandados para a Sibéria.
Dezembro
Mais anarquistas são expulsos da Rússia.
Mais anarquistas são expulsos da Rússia.
Fim
O trabalhador anarquista Moise Zuckermann é preso em Moscou.
É aprisionado no terrível campo prisional de Solovki por três anos e então no
campo de Verknei-Uralsk, onde permanece até 1925. Realizou várias greves de
fome entre os dias 7 e 13. Contrai malária e infecção intestinal. É transferido
para Solovki em 1925. Muito doente, ele é internado na enfermaria da prisão e é
operado. Logo depois, ainda fraco e doente, é mandado para um exílio de três
anos no vilarejo de Kolpatchevo na Sibéria. Isso exigiu uma longa e dolorosa
viagem de três meses.
Ao longo do ano de 1922, anarquistas são enviados para um
dos primeiros campos de concentração, o de Kholmogory, no Mar Branco.
1923
Zilberg, um alfaiate anarquista preso em Moscou por ter
feito parte de um círculo de estudos de livros anarquistas proibidos pela
censura do Estado, pega três anos de exílio em Tobolsk, na Sibéria. E
posteriormente condenado novamente a três anos de exílio em Tver, uma cidade
próxima a Moscou.
Yuri Reidmane, preso e enviado para o vilarejo Parabel, no
distrito de Tomsk, no centro-sul da Rússia. Outros anarquistas também são
enviados para lá – Boris Neerzki, e os irmãos Yuri e Alexander.
De 26 de fevereiro a 12 de abril
Prisão em massa de anarquistas, Maximalistas e membros da
Esquerda Socialista Revolucionária no extremo leste da União Soviética.
Vários dissidentes são fuzilados na cidade de Nikolaievsk,
em Amur, extremo leste russo.
Primavera
Participação dos anarquistas em uma greve de fome de 17 dias
em Pertominsk.
Julho
Maria Veger é presa novamente e enviada para o campo Solovki
e então para Verkhnei-Uralsk (noroeste do Cazaquistão) e, em 1926, é exilada em
Arkhangelsk. Contrai malária e escorbuto e perde todos os seus dentes. Faz
greve de fome de seis a onze dias em várias ocasiões.
9 de Julho
Steimer e Flechin são presos novamente.
Steimer e Flechin são presos novamente.
19 de Julho
Julgamento em Chita (cidade a leste do país) de alguns
daqueles que foram presos em fevereiro no extremo oriente. Oito são fuzilados e
outros dez pegam longas penas.
Agosto
No jornal Correspondência Internacional (porta-voz do regime) é publicada a Declaração dos Anarquistas e Anarco-sindicalistas Russos anunciando apoio ao regime Bolchevique: Geitsman Gopner, Vinogradova, Simonovic, Lepin, Tinovitskaia, Bekovski, Rotemberg. A tática dos bolcheviques é também usada contra os Mencheviques e os Socialistas-Revolucionários. Como desdobramento, esses indivíduos são expulsos de suas organizações, ao mesmo tempo em que continuam sendo vistos com desconfiança pela GPU.
No jornal Correspondência Internacional (porta-voz do regime) é publicada a Declaração dos Anarquistas e Anarco-sindicalistas Russos anunciando apoio ao regime Bolchevique: Geitsman Gopner, Vinogradova, Simonovic, Lepin, Tinovitskaia, Bekovski, Rotemberg. A tática dos bolcheviques é também usada contra os Mencheviques e os Socialistas-Revolucionários. Como desdobramento, esses indivíduos são expulsos de suas organizações, ao mesmo tempo em que continuam sendo vistos com desconfiança pela GPU.
Fim
Tatiana Polosova, trabalhando na editora de Golos Truda, é
presa como membro do Comitê de Apoio aos Prisioneiros Anarquistas e condenada a
três anos em Solovki, posteriormente transferida para Verjne-Uralsk e cumpre o
fim da sua sentença em Tver.
1924
Um grupo relativamente ativo de anarquistas existente entre
os trabalhadores de Petrogrado cessa suas atividades após ser descoberto pelo
GPU.
Iurtchenko, um trabalhador membro do grupo Karelin, uma
organização anarquista que é tolerada pelo regime, é preso na província de
Minsk, região central da Bielorússia, por portar livros de Kropotkin e Tolstoi
(livros que, inclusive, estavam liberados pela censura) e exilado em
Arkhangelsk.
Nicolas Lazarevitch organiza um grupo anarcossindicalista
com outros trabalhadores na fábrica Dynamo em Moscou. O grupo é responsável por
publicar vários folhetos contra os baixos salários, contra o tratado econômico
entre Grã-Bretanha e a URSS, contra as campanhas pelo taylorismo promovidas
pelo regime, sempre oferecendo uma alternativa libertária. Escondidos sob os
casacos, os folhetos são distribuídos à noite e colados sobre as notícias
oficiais.
Na Ucrânia, o Grupo de Anarquistas do Sul da Rússia lança um
documento que é enviado aos camaradas exilados e publicado em um jornal no
oeste do país. Essa é a sua única atividade conhecida.
Outubro
Fechamento forçado da comuna anarquista de Yalta, no extremo
sul da Criméia.
1925
O Black Cross é liquidado e seus principais
ativistas são presos.
Yarchuk retorna à Rússia e se junta ao Partido Comunista.
Um grupo de alfaiates anarquistas é exilado de Moscou por
ter liderado uma greve contra os altos salários dados aos “especialistas” em
uma fábrica.
Fevereiro
Pavel Uskov, um trabalhador anarquista é preso em
Petrogrado. Após uma greve de fome de seis dias é espancado pelos carcereiros e
enviado a um pequeno vilarejo de Khantaik, em Turukhansk, distrito da Sibéria.
8 de fevereiro
Campos de Utilidade Especial de Solovki (SLON): primeiros
campos de concentração soviéticos, criados pelos bolcheviques em 1923.
Maria Poliakova é presa em Leningrado junto com outros 80
trabalhadores e estudantes. Ela e outros 15 deles são sentenciados a três anos
de prisão. Estudante de medicina, abandona seus estudos para se tornar uma
enfermeira em um hospital e posteriormente em uma fábrica. Enfrenta uma greve
de fome antes de ser enviada à Solovki e colocada entre criminosos comuns.
Enfrenta uma nova greve de fome. Os carcereiros a despem e a jogam só com as
roupas de baixo no alojamento de criminosos comuns. É finalmente exilada em
Khantaik em 1927.
Raia Chulmann também é presa e enviada à Verkhne-Uralsk. As
terríveis punições que ela testemunha lá causaram um colapso mental em 1926.
Transferida para um hospital em Moscou, ela é posteriormente mandada de volta à
prisão. A caminho de lá ela enfrenta novamente um profundo colapso mental.
1926
O camponês anarquista Grigoriev tenta se matar ateando fogo
em seu corpo para escapar do confinamento numa solitária. Enfrenta uma greve de
fome de sete dias junto com outros prisioneiros, reivindicando ser colocado em
uma cela junto com o anarquista Kalimassov. Sem obter sucesso, Grigoriev acaba
morrendo em uma segunda tentativa de suicídio.
Em Tobolsk, os vigias provocam os anarquistas da cela número
6, após frustrar uma tentativa de fuga. Como forma de protesto eles tombam o
vaso sanitário no corredor. A cela é declarada coletivamente responsável e
todos são punidos. Dá-se início a uma greve de fome. Ao nono dia de greve, o
diretor da prisão volta atrás da decisão, mas dois prisioneiros, Axelrod e
Gurievitch, são transferidos para Moscou. Acusados de desobediência, são
enviados para os campos de Solovki.
Golos Truda publica um panfleto sobre o 50° aniversário da
morte de Bakunin, com a permissão dos censores do Estado. A Cheka, no entanto,
apreende os panfletos e os queima. Um membro do Golos Truda, Ukhin, é preso e
exilado em Tashkent, centro-oeste russo, por distribuir os panfletos.
Fim do verão
Vários anarquistas são presos em Leningrado sob a acusação de propaganda proibida.
Vários anarquistas são presos em Leningrado sob a acusação de propaganda proibida.
1926/1927
Um grupo de anarcossindicalistas é preso em Moscou.
Um grupo de anarcossindicalistas é preso em Moscou.
1927
Segundo as informações oficiais, 60 anarquistas foram presos
em Verkne-Uralsk.
Verão
O anarquista Jonas Warchawski edita e distribui secretamente
panfletos abordando a hipocrisia do Regime Soviético em defender a causa de
Sacco e Vanzetti ao mesmo tempo em que persegue anarquistas em seu território.
Acaba preso em Odessa.
2 de outubro
Nikolai Beliaev e Artyon Pankratov, anarquistas exilados em
Kizil Orda, centro-sul do Cazaquistão, presos quando organizavam uma reunião e
um protesto contra uma base aérea que mais tarde receberia o nome de Sacco e
Vanzetti, são, mais tarde, mandados ao exílio na Sibéria.
1928
De acordo com oficiais do governo, 30 anarquistas são presos
em Verhne-Uralsk. No final de 1928 e início de 1929, Avraam Budanov e
Panteleimon Belochub junto com sete ou oito outros anarquistas são presos por
organizarem um grupo de resistência Makhanovista-anarquista na Ucrânia. Budanov
e Belochub são fuzilados, os outros são sentenciados a 10 anos de prisão.
Início da década de 1930
Socialistas-Revolucionários, sociais-democratas e
anarquistas exilados em Tchimkent começam a levantar um fundo para ajudar seus
camaradas exilados no norte. O trabalho de encontrar exilados em Tchimkent foi
relativamente fácil, ao contrário do que foi no norte, bem como com relação à
formação do fundo.
1930
Ivan Kologriv, um estivador anarquista, é preso e
sentenciado por propaganda antimilitarista.
50 anarquistas e socialistas estão presos em Verkhne-Uralsk,
de acordo com o escritor e opositor do regime Ciliga.
Um grupo de 50 anarquistas é massacrado em Tchelianbinsk, no
sudoeste da Rússia. Eles possuíam uma gráfica que publicava textos anarquistas,
a maioria deles com tradução em outras línguas, e tinham contatos com
anarquistas de fora da URSS. Sergei Sergeyevich Tuzhilkin (Tujilkin) (nascido
em 1909), um jovem eletricista natural de Kazan, que gerenciava a gráfica, é
sentenciado a cinco anos no isolador político de Verkhne-Uralsk. Ele diz a
Ciliga que os anarquistas estão ativos e obtêm êxito em fundar uma organização
eficiente.
Olga Andreevna, W. W. Kozhukov and Alexander S. Pastukhov
organizam o grupo de resistência clandestino União dos Trabalhadores
Anarquistas, baseado nos princípios da Plataforma Organizacional do grupo Dielo
Truda. São descobertos pela Cheka e presos.
1933
80 anarquistas estão presos em Verkhne-Uralsk, também de
acordo com Ciliga.
1934
Julho
Um artigo aparece na revista anarquista belga QFD, editada
por Hem Day, falando sobre a perseguição aos anarquistas. Ele se refere a
Nikolai Rogdaiev e Alfonso Petrini e menciona outros 98 anarquistas
perseguidos, dentre eles Andrei Andreyev exilado em Novosibirsk e Andrei
Zolotarev, exilado em Poltava, leste da Ucrânia.
1935
O anarquista italiano Alfonso Petrini é expulso da Rússia
para a Itália fascista depois de cumprir cinco anos em um campo prisional desde
o outono de 1927!
Novembro
Borovoi morre no exílio em Vladimir, cidade localizada a
leste de Moscou.
1935-1938
Muitos dos anarquistas que se uniram ao regime “desaparecem”
durante o expurgo. São vítimas desse processo alguns anarquistas notáveis como
Novomirsky, Sandomirskii, Bill Shatov e Yarchuk em 1936; e Arshinov, Dimitri
Venediktov de Tobolsk, e o italiano Otello Gaggi em 1937.
1936
Nikolai Lebedev, quem gerenciava o Museu Kropotkin morre de
causas naturais.
1937
Janeiro
Última greve de fome coletiva dos prisioneiros de Solovki no
isolador de Yaroslav. Após 15 dias de greve, são forçados a comer, e obtêm,
somente meses depois, apenas algumas das demandas que reivindicavam. Essa foi a
última ação coletiva unificada entre os prisioneiros anarquistas,
socialistas-revolucionários e social-democratas.
O alfaiate judeu e anarquista Aizenberg, que ficou preso por
sete anos nas prisões do Czar, é torturado pela polícia secreta em um campo
prisional por 31 dias ininterruptos – aparentemente um recorde. Ao final,
enlouqueceu. “De 12 mil detidos, ele foi o único que lutou por uma ideia. Nós?
Nós fomos vítimas da opressão. Ele? Ele lutou contra a opressão” – Alexander
Weissberg.
O anarquista italiano Francesco Ghezzi é preso e deportado
para o campo prisional de Vorkuta – centro norte do país.
Em 5 de agosto de 1937 o NKVD – Comissariado do Povo Para
Assuntos internos, que incorporara o GPU – da região de Omsk, sul da Rússia,
sentencia os seguintes anarquistas à morte: Prokop Evdokimovich Budakov,
Zinaida Alekseevna Budakova, Avram Venetsky, Ivan Golovchanskii, Vsevolod
Grigorievich Denisov, Nikolai Desyatkov, Ivan Dudarin, Andrei Zolotarev, Andrei
Pavlovich Kislitsin (o mais velho, nascido em 1873), Alexander Pastukhov, Anna
Aronovna Sangorodetskaya, Mikhail G. Tvelnev, Vladimir Khudolei-Gradin, Yuri I.
Hometovsky-Izgodin, Nahum Aaronovch Eppelbaum (trata-se de uma lista parcial,
pois suspeita-se que outros, como Shabalin, também tenham sido condenados à
morte ao mesmo tempo). Eles foram executados no dia 12 de agosto em Tobolsk,
centro-oeste da Rússia.
Em 19 de agosto o anarquista Alexander Lukyanchikov é
fuzilado em Novosibirsk, cidade do sudoeste russo.
No dia 28 o anarco-comunista Fritz Ernestovich Stubis foi
executado na região de Moscou.
No dia 7 de setembro o anarcossindicalista Igor
Vladimirovich Rimsky-Korsakov é fuzilado em Omsk. No mesmo dia, na região de
Moscou, o membro da Golos Truda e soviete anarquista, Vladimir Filippovich
Oborin, também é fuzilado.
Antes, no dia 3 do mesmo mês, o veterano revolucionário
Fyodor Lavrentyevich, que primeiro fora um socialista-revolucionário e depois
um anarquista, é fuzilado em Moscou. No mesmo dia, Yegor Maltsev,
anarcossindicalista, também é fuzilado em Sverdlovsk, região do centro-oeste
russo.
No dia 8 de setembro de 1937, em Leningrado, o velho
anarquista da Nabat (Confederação Anarquista da Ucrania), Boris Nemiritsky, é
fuzilado junto com Samuil Grigorevich Riss, que tinha sido bastante ativo entre
os estudantes anarquistas de Petrogrado na década de 1920 e enfrentou uma longa
sentença na prisão. Georgy Karlovich Weber, anarco-místico, também é fuzilado
em 1937.
1938
Museu Kropotkin.
O Museu Kropotkin é fechado.
No dia 8 de fevereiro Olga Taratuta é julgada e executada.
No dia 5 de abril o anarquista búlgaro Hristo Zarezankov
também é executado. No dia 26 do mesmo mês o Makhanovista Ivan Chuchko tem o
mesmo destino. O mesmo acontece com Sergei Tuzhilkhin e com um grupo de
mencheviques, no dia 20 de julho. No dia 1° de abril, 40 makhanovistas do
vilarejo ucraniano de Gulyai Polye são sentenciados e ao longo dos meses de
abril, maio e julho são executados em conjunto. No dia 7 de julho o
makhanovista Nazar Zuychenko também é executado. Lev Zadov e Daniilo Zadov, que
tinham sido umas das principais lideranças do movimento makhanovista são
igualmente executados no dia 25 de setembro. O mesmo acontece com outro
importante makhanovista, Viktor Belash. Antes, no dia 27 de agosto, o
anarcossindicalista Efrem Borisovich Rubinchik-Meer, é igualmente executado na
região de Moscou. Também na região de Moscou, no dia 7 de setembro, o membro da
Golos Truda, que depois se tornou um anarquista soviético, Vladimir Filippovich
Oborin, é fuzilado.
1941
Ghezzi morre em Vorkuta.
1941-1945
Na Ucrânia, durante a II Guerra Mundial, uma guerrilha
anarquista, o grupo Makhanovist Black Cat, opera na Bielorrússia. Osip
Tsebry organiza o “Exército Verde”, uma unidade organizada em torno dos
princípios makhanovistas e anarquistas que luta tanto contra o exército
vermelho como contra os nazistas, também na Ucrânia. Os anarquistas estão
presentes entre as forças de ocupação russas na Europa Oriental: os
“Bakuninistas” na Bulgária e os Zavietti Kronstadta na Alemanha.
1947
Anarquistas tomam parte nas revoltas nos campos de
Promyshleny, Jeleznodorjny. Em Vorkuta são os “Anarquistas Religiosos”
(tolstoianos).
1950
Um pequeno grupo de “anarco-marxistas” é formado em Moscou.
1952
Anarquistas espanhóis, membros da CNT-FAI, se envolvem nas
revoltas no campo de Karaganda – sudoeste do país, na divisa com Cazaquistão.
1953
Os anarquistas participam de diversas revoltas nos campos,
com destaque para Norilsk – centro-norte do país. As bandeiras negras tremulam
nas revoltas do campo de Vorkuta.
A maioria dos testemunhos dos campos de concentração contam
que os anarquistas se mostravam rebeldes, presos às suas convicções, duros como
cascalhos, polidos pela crueldade e pelos maus-tratos” – Louis Mercier Vega.
Fontes
Skirda, Alexandre – Nestor Makhno
Skirda, Alexandre – Les anarchistes dans la revolution russe
Ciliga, Ante – The Russian Enigma
Mercier-Vega, Louis – L’increvable anarchism
Avrich, Paul – The Russian Anarchists
Iztok no. 1 – Sur l’anarchisme en URSS (1921-1979)
Maximov, G. P. – The Guillotine at work
Skirda, Alexandre – Nestor Makhno
Skirda, Alexandre – Les anarchistes dans la revolution russe
Ciliga, Ante – The Russian Enigma
Mercier-Vega, Louis – L’increvable anarchism
Avrich, Paul – The Russian Anarchists
Iztok no. 1 – Sur l’anarchisme en URSS (1921-1979)
Maximov, G. P. – The Guillotine at work
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