quarta-feira, 30 de maio de 2018
Michael Löwy: A descoberta do último Marx - Michael Löwy,
Michael Löwy: A descoberta do último Marx
"Karl Marx não era dos que se aposentam da revolução: continuou pensando, escrevendo, lutando, até seu último suspiro. A morte interrompeu um extraordinário processo de reelaboração, de reformulação, de reinvenção do materialismo histórico e da teoria da revolução."
Fonte: https://blogdaboitempo.com.br/2018/05/30/michael-lowy-a-descoberta-do-ultimo-marx/#prettyPhoto
"Karl Marx não era dos que se aposentam da revolução: continuou pensando, escrevendo, lutando, até seu último suspiro. A morte interrompeu um extraordinário processo de reelaboração, de reformulação, de reinvenção do materialismo histórico e da teoria da revolução."
Os últimos anos da
vida de Marx costumam ser vistos como um período em que ele já teria saciado a
própria curiosidade intelectual e parado de trabalhar. O novo livro de Marcello
Musto que a Boitempo lança agora no bicentenário do barbudo chega para desfazer
de uma vez por todas essa lenda e abrir novos caminhos para impulsionar o
pensamento crítico e a transformação social hoje! A partir do estudo de
manuscritos que vieram a público recentemente e ainda não foram traduzidos do
alemão nem publicados em livro, O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos (1881-1893) demonstra como Marx passa a se
interessar por antropologia, pelas sociedades não ocidentais e pela crítica ao
colonialismo europeu. Ele defende que por trás disso, não havia, como se tem
dito, mera curiosidade intelectual, mas o propósito teórico-político de alargar
e refinar a compreensão do capitalismo. Confira, abaixo, o que Michael Löwy tem a dizer sobre o livro.Marcello
Musto vem ao Brasil para uma
série de debates de lançamento da obra em três diferentes estados. Saiba mais
ao final deste post!
* * *
Karl Marx não era dos que se aposentam da revolução:
continuou pensando, escrevendo, lutando, até seu último suspiro. Muitos
pesquisadores – inclusive quem vos escreve – se interessaram pelo jovem Marx;
outros preferiram estudar a grande obra “da maturidade”, O capital. Marcello Musto, no
formidável livro O velho Marx: uma biografia de seus últimos
anos, é o primeiro a analisar com profundidade o “último Marx”
(1881-1883), descobrindo as fascinantes pistas que abriu, em seus derradeiros
anos, o grande adversário do capitalismo. Conhecido por seus excelentes
trabalhos sobre a história da Primeira Internacional, Musto explora o novo
material publicado pela MEGA (a nova edição das obras completas de Marx e
Engels), assim como documentos e cadernos de notas ainda inéditos, para
examinar estas pistas: a antropologia, nos famosos mas pouco estudados Cadernos etnográficos; as formas
pré-capitalistas de propriedade comunal; o colonialismo; os desenvolvimentos
econômicos e sociais em países não ocidentais, tais como a Rússia, a Argélia e
a Índia.
O quadro que esses escritos – certo, inacabados e não
sistemáticos – vão desenhando é de um Marx extraordinariamente “heterodoxo”,
isto é, pouco conforme com o marxismo pseudo-ortodoxo que tanto estrago fez no
curso do século XX. Um Marx que critica impiedosamente o economicismo, a
ideologia do progresso linear, o evolucionismo, o fatalismo histórico, o
determinismo mecânico. A morte interrompeu um extraordinário processo de
reelaboração, de reformulação, de reinvenção do materialismo histórico e da
teoria da revolução.
Um dos exemplos mais impressionantes da “heresia” do
velho Mouro são seus últimos escritos sobre a Rússia, em particular a
carta, com seus rascunhos, a Vera Zasulitch. Em 1881, essa jovem revolucionária
russa havia consultado o autor de O capital sobre o futuro
da tradicional comuna rural no país dela. Na resposta, Marx manifesta sua
simpatia pelos integrantes do movimento Narodnaia Volia (A Vontade do Povo) e
avança a hipótese de um caminho russo ao socialismo, que pudesse evitar a esse
povo todos os horrores do capitalismo. Um caminho que se apoiaria nas tradições
coletivistas “arcaicas” da comuna rural russa para desenvolver um processo
revolucionário ao mesmo tempo antitsarista e anticapitalista – em associação
com a revolução social nos países industrializados da Europa.
Este belo livro de Marcello Musto confirma, mais uma vez,
que a obra de Marx é um arsenal inesgotável de armas não só para entender mas
também, e sobretudo, para transformar a realidade. Na verdade, mais que uma
“obra” acabada, é um imenso canteiro de obras, que segue aberto e em expansão…
***
“Todos nós estamos rediscutindo Marx. Dentre a vasta
literatura existente, o novo trabalho de Marcello Musto se destaca como uma
cuidadosa análise contextual dos últimos escritos e contributos de Marx para a
nossa compreensão do mundo – ontem, hoje e amanhã. O
velho Marx é uma obra excepcional e essencial para todos nós.” – Immanuel Wallerstein
Michael Löwy,
sociólogo, é nascido no Brasil, formado em Ciências Sociais na
Universidade de São Paulo, e vive em Paris desde 1969.
Marx, 200 anos: como reinventar a emancipação? – por Luisa Barreto
Marx, 200 anos: como reinventar a emancipação?
Em Berlim, Toni Negri, Michael Hart e novos movimentos debatem: por que “primaveras” de 2011-2013 fracassaram? Pode-se combinar horizontalismo com construção de programas e estratégias?
Em Berlim, Toni Negri, Michael Hart e novos movimentos debatem: por que “primaveras” de 2011-2013 fracassaram? Pode-se combinar horizontalismo com construção de programas e estratégias?
No início de
maio, aconteceu em Berlim o Congresso Marx200: Política – Teoria –Socialismo,
na Fundação Rosa Luxemburgo, em cooperação com o Teatro HAU Hebbel am Ufer.
Foram quatro dias de extensa programação sobre a vida e obra de Karl Marx, em
comemoração dos 200 anos de seu nascimento, em 5 de Maio de 1818. Foram dezenas
de workshops, palestras e eventos paralelos como a exposição: Revoltem-se! Maio
de 68/Poder e Impotência de uma Utopia (Empört euch! Mai 68/ Macht und Ohnmacht
einer Utopie). Autores foram convidados para falar a partir das mais variadas
perspectivas dentro da chamada crítica pós-marxista, temas atuais como o
colonialismo, o feminismo e os movimentos sociais contemporâneos.
O evento, um
painel a demonstrar que Marx revive principalmente na crítica pós-colonial e
feminista, não se restringiu aos debatedores europeus. Estiveram lá pensadores
árabes, latino-americanos, japoneses, africanos, indianos, chineses, que
abordaram uma ampla diversidade de temas em composição com conceitos
fundamentais da obra de Marx, como luta de classes hoje, relação entre Estado,
sociedade e democracia; trabalho, antropologia. Outros temas presentes:
Marxismo e feminismo, Psicanálise e Marxismo, Marx no Japão, Cyber-Marx, Marx na
China, na África do Sul, Ecossocialismo e mostraram a força do pensamento
marxista hoje.
Kavita Krishnan,
secretária da Associação das Mulheres Progressistas da Índia (All India
Progressive Women’s Association – AIPWA), membro do Partido Comunista da Índia
– Marxist-Leninist (CPI-ML) e editora da revista Liberation falou sobre a
revolta dos Dalits e a luta contra o fascismo, resistência e imaginação
política, numa mesa sobre Linhas de Fuga da Perspectiva Socialista/Comunista e
Utopia (Die Fluchtlinien sozialistisch/kommunistischer Perspektive und Utopie).
Discussões sobre como a tradição marxista é transposta para outros contextos e
quais os usos que se faz da interpretação sobre as relações entre Estado e
sociedade na China, com Zhang Shuangli, da Universidade de Fudan e da
Universidade de Shanghai, tiveram destaque na programação, assim como a
palestra Marx Global, Classes e Política com Gayatri Spivak. Essas não foram as
únicas mulheres; a presença feminina foi marcante em todas as mesas e debates.
Hardt e Negri:
perguntas que importam
Não por acaso a
palestra inaugural foi proferida por Michael Hardt, filósofo político e teórico
literário conhecido pelos livros que escreveu com Antônio Negri, especialmente,
a trilogia Império (2001), Multidão: guerra e democracia na era do império
(2005) e Bem-Estar Comum (2016). Intitulada Assembly (para nós assembleia
ou reunião), o assunto pairou em todas as discussões posteriores sobre como
pensar resistência, utopia e imaginação hoje, e como desempoar o vocabulário da
esquerda marxista trazendo-o para as lutas contemporâneas.
Assembly (2017)
também é título do mais recente livro de Hardt e Negri, ainda sem tradução para
o português. O livro não deixa de ser contíguo aos outros e nasce da pergunta
que permaneceu em suspenso para os autores desde os movimentos globais contra
governos autoritários e o neoliberalismo, que eclodiram desde 2011, numa linha
temporal que segue até hoje. A onda iniciada com a Primavera Árabe em 2010 e
atingiu países como a Tunísia, Egito, Líbia e outros do Oriente Médio e da
África; que reverberou no 15-M, na Espanha e no Ocuppy Wall Street, desde 2011;
e nas Jornadas de Junho de 2013 no Brasil, para citar alguns, repercutiu nos
movimentos estudantis mundo afora, na revolta dos Dalits na Índia, no Black
Lives Matter, no Ni Una Menos.
A pergunta que
Hardt colocou na inauguração do evento foi: “Por que esses movimentos, que
expressaram tantas necessidades e desejos não foram capazes de realizar as
mudanças que estavam buscando?”
Ela leva a
retomar questões sobre liderança e estratégia, dois pontos críticos na obra dos
autores e que vez ou outra retornam na crítica aos escritos deles. Hardt
reforçou que, principalmente após a eleição de Donald Trump, a pergunta se
tornou inevitável e emergente, já que os protestos não parecem mais
suficientes.
Muito se
argumenta hoje em dia, a partir do conceito de multidão tal como elaborado por
Hardt e Negri, se a falta de projeto claro a ser sustentado pelas revoltas e
manifestações não é uma característica da própria horizontalidade dos
movimentos atuais, que lutam contra temas diversos, porém imbrincados, sendo
extremamente árdua a tarefa de criar um projeto que se efetive e concretize
numa reorganização estratégica da esquerda global.
Onde estão os
novos Rudi Dutschke, Martin Luther King, Antonio Gramsci, Nelson Mandela, Che
Guevara e a própria Rosa Luxemburgo? – perguntou ele. Afinal, precisamos ou não
de líderes carismáticos como os de outrora? O sentido de urgência desta
pergunta não tem a ver com não reconhecer a potência e as ações dos movimentos
que irrompem mundo afora, mas com recolocar a questão sobre o que significa
assumir uma posição de liderança e quais seriam os requisitos e perigos de
incumbir-se deste lugar, uma vez que ser um líder carismático é assumir uma
posição de risco, disse o autor.
Eis aqui o
paradoxo que emerge da própria questão e também dos livros escritos pelos
autores. A tendência a recusa das formas centralizadas de liderança da esquerda
tradicional, associadas ao elogio a multidão resultaram numa rejeição a
autoridade, à liderança e, em consequência, na recusa a organização. Nos
movimentos sociais dos últimos 50 anos, feministas, estudantis, dos
trabalhadores, a posição de liderança foi duramente atacada e criticada, dentro
dos próprios grupos, especificamente no que diz respeito à centralização da
figura do líder, fato que deu início a uma série de práticas de democratização
dentro dos próprios grupos, como garantir que todos falem, organizar
assembleias e coordenar narrativas nas redes sociais e meios de comunicação.
Hardt citou o
movimento Black Lives Matter, que vem constantemente rejeitando ou ao menos
problematizando o modelo do líder carismático masculino, tão celebrado na
história do movimento negro nos Estados Unidos, na forma de um acionamento do
sistema imunológico do próprio movimento, como mecanismo de proteção e defesa
das figuras proeminentes que coreografam ações e discursos através das mídias
sociais. E não somente, mas também como estratégia de contenção do avanço de
alguma figura, em particular, que se torne a representação do grupo como um
todo, suprimindo a comunicação democrática e horizontal.
A relevância
deste ponto na fase atual da obra de Hardt e Negri demonstra a necessidade de
desatar o nó, até então amarrado, sobre a confusão entre criticar a posição de
liderança e disto ter sido traduzido muitas vezes como recusa da organização,
das instituições ou como falta de projeto político. Afinal, o lugar da
liderança pressupõe uma certa expertise, capacidade de monitoramento sobre os
movimentos da polícia e da própria multidão, de comunicação, de ouvir e aplicar
ideias discutidas em comum, estratégias de defesa e de proteção, ou seja, ainda
que esta capacidade que se aplicava geralmente a figura do líder seja
generalizada pelo próprio intelecto geral, a multidão precisa se tornar
multidão estratégica, disse Hardt.
Estratégia,
nesse sentido, como uma forma de entender a própria liderança e como habilidade
de tomar decisões, ter uma visão ampliada das questões em disputa, buscar uma
continuidade para projetos de longa duração. Diferente, portanto, de tática,
cujo campo de ação tende a ser temporal e espacialmente limitado. A questão da
generalização da habilidade é fundamental, pois ainda que se tenha como
pressuposto a democratização dos movimentos e a não concentração da tomada de
decisão ou da definição da estratégia na figura do líder, é a generalização da
habilidade de criar e de dar continuidade às estratégias criadas coletivamente
que estão em jogo. Ou seja, o movimento centrífugo da multidão, que teria como
partitura e ponto de partida o próprio intelecto geral, seria ou deveria ser
radicalizado a partir da capacidade de criar estratégia.
Logo, a multidão
estratégica seria a fundação da assembleia, estrutura e base das ações de
resistência hoje, tendo como ponto de partida a inversão das funções comumente
associadas a estratégia e a tática. A estratégia, nas palavras de Hardt,
deveria ser função da multidão e dos movimentos e a tática deveria limitar-se à
liderança. Multidão-estratégica e liderança-tática seriam os polos
constitutivos de movimentos como o chamado municipalismo espanhol e o partido
político Podemos, fundado na Espanha em 2014, o movimento Ni Una Menos na
Argentina e o Diem25, Democracia na Europa 2025, movimento político pan-europeu
de esquerda fundado por Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças da Grécia.
No Brasil
crescem não só os movimentos organizados como a Frente Povo Sem Medo (FPSM) e o
MTST, mas lideranças como Marielle Franco, Sônia Guajajara, Davi Kopenawa
Yanomami, Raoni Metuktire, Guilherme Boulos, Manuela D´Ávila, Jean Wyllys e
tantos outros mais ou menos populares, mais ou menos escondidos. Seriam eles
líderes estratégicos e carismáticos?
Após um breve
apanhado das questões que motivara os primeiros livros, como os conceitos de
produção social ou biopolítica, multidão, comum, Hardt tocou no conceito de
empreendedorismo da multidão, “o mais irritante do último livro”, segundo ele.
O termo, que nos transformou em empreendedores de si endividados, saturado pelo
discurso neoliberal e pilar da crítica ao capital humano, foi reformulado pelos
autores com novo sentido. Hardt afirmou a necessidade de restaurar o
vocabulário da esquerda capturado pelo discurso econômico, como democracia e
amor, fazer novo uso de conceitos que vem sendo apagados, negativizados ou
substituídos. Empreendedorismo, longe de ser um vocabulário da esquerda, traz
em si a ideia de empreender, criar. Segundo o autor, não há nada em comum com
preencher um lugar deixado vazio pelo Estado; empreender, nesse sentido, não
tem a ver com iniciativa privada, inovação, nem com uma forma de ascensão do
precariado.
Como
organizarmo-nos contra o avanço conservador e como empreender novos mundos? São
as perguntas antigas com as quais estamos lidando em momentos como o atual. A
palestra, muito bem amarrada e dentro do tempo, acabou com a dúvida também
antiga: protesto e resistência são suficientes do ponto de vista estratégico e
da construção de novos modos de vida?
As perguntas
feitas ao autor ao final levantaram questões importantes sobre como estamos
lidando com a ascensão dos líderes carismáticos de direita, e com o crescimento
do conservadorismo em tempos de revolta da multidão. O papel do intelectual
público, o qual Hardt e Negri exercem, foi questionado e colocado como forma de
ausência de responsabilidade e de criação de estratégia. Ao final, com todos já
cansados e sem respostas, pairou uma atmosfera de dúvida onde havia, de fato,
mais perguntas que respostas. Michael esboçou uma justificativa, dizendo que
seu lugar é o de trabalhar com os movimentos e aprender com eles, working with
e learning from. Serão os próximos conceitos a serem tratados pelos autores os
de risco e de responsabilidade?
quinta-feira, 17 de maio de 2018
Israel: 70 anos de brutalidade - por Greg Shupak
Desde a criação do Estado hebreu, palestinos são expulsos de suas casas,
presos, torturados, mortos e submetidos a violência econômica grosseira. É a
“nakba”. Poderia ser a “solução final” de Hitler
Em
14 de maio de 1948, setenta anos atrás, Israel lançou sua “declaração de
independência”. Desde então, todo dia 15 de maio tem sido o Dia Nakba
quando os palestinos marcam a limpeza étnica sofria por seu povo depois da
criação de Israel. [Nakba é uma palavra árabe que significa “desastre”
ou “catástrofe”, termo similar a shoá em hebraico, que os judeus
utilizam para designar o massacre nazista – nota OP]. Este Dia Nakba foi
marcado pela Grande Marcha de Retorno, uma grande mobilização em massa até a
cerca que Israel ergueu para separar Gaza e Israel, para manifestar seu desejo
de passar pela barreira. Até o momento, Israel já matou pelo menos 52
manifestantes palestinos, no que a Anistia Internacional chamou de “uma
violação repugnante da lei internacional”, envolvendo “o que parecem ser
assassinatos intencionais, que constituem crimes de guerra”.
Como
outros estados coloniais, Israel pretende asfixiar a vida social das populações
dos territórios ocupados que procura dominar. Esse imperativo é particularmente
urgente no caso de Israel, onde as populações judias e não-judias são de
tamanho equivalente e a terra em questão é relativamente pequena. A negação
discriminatória de direitos estende-se aos palestinos em outros países -são
cidadãos de segunda classe em Israel, sob ocupação, na diáspora ou em campos de
refugiados. Todos são impedidos de retornar às suas casas através do uso da
violência e com a ajuda decisiva dos EUA.
A
mensagem inconfundível para os palestinos de todas as gerações, desde antes da Nakba
até a Grande Marcha de Retorno, é que a menor resistência ao etnoestado
erigido em sua terra natal será combatido com prisões e mortes.
Anatomia
da repressão
A
violência israelense permeia todos os aspectos da vida dos palestinos, com
estratégias de controle que assumiram uma variedade de formas ao longo do
tempo. Para criar o Estado em 1948, as forças sionistas expulsaram 750.000
palestinos de suas casas. No processo, realizaram cerca de dez massacres em
grande escala, cada um com pelo menos cinquenta vítimas, juntamente com cerca
de cem massacres menores. As forças dos paramilitares israelenses mataram
palestinos em quase todas as suas aldeias, despejando repetidamente os corpos
das vítimas em covas, antes da oficialização do Estado de Israel. Em várias
ocasiões, milícias sionistas mataram crianças e estupraram mulheres palestinas.
Atrocidades
semelhantes continuaram nos primeiros anos do Estado de Israel. Em 1953, as
forças israelenses massacraram 69 aldeões palestinos em Qibya, depois de
alegarem “infiltração” do território israelense por refugiados palestinos.
Durante o conflito de Suez, três anos depois, eles mataram 48 trabalhadores
palestinos em Kafr Kassim; 275 civis palestinos em Khan Yunis e num campo de
refugiados próximo; em seguida, mais 111 palestinos no campo de refugiados de
Rafah.
Depois
de 1967, com o estado de Israel consolidado, o governo começou a perseguir o
que Tariq Dana e Ali Jarbawi chamam de “sonho de uma ‘Grande Israel’ com o
máximo de terra e o mínimo de árabes”. Mais de 350.000 palestinos foram
expulsos de suas casas, enquanto Israel ocupava a Cisjordânia, Gaza e Jerusalém
Oriental (assim como as Colinas de Golan da Síria e o Sinai do Egito). Quase
600.000 colonos adentraram ilegalmente nos territórios ocupados com o apoio do
Estado. E os massacres de palestinos em Israel continuaram desde então: no
verão de 2014, Israel matou 2.251 palestinos – incluindo 1.462 civis e 556
crianças – durante a fúria assassina chamada Operação Margem Protetora.
Como observou o estudioso canadense Nahla Abdo, a violência dos palestinos deve
ser vista no contexto dessa “relação assimétrica” entre os dois lados.
Enquanto
isso, aos palestinos nos territórios ocupados é sistematicamente negado o
devido a processo legal: mantidos sem julgamento em detenções administrativas
ou submetidos a processos militares e rotineiramente torturados. Tal tratamento
estende-se às crianças palestinas, sujeitas a práticas que, nas palavras da
UNICEF, “resultam em tratamento ou punição cruel, desumano ou degradante, de
acordo com a Convenção sobre os Direitos da Criança e a Convenção contra a
Tortura”, incluindo ameaças de “morte, violência física, confinamento solitário
e agressão sexual, contra si mesmos ou um membro da família”. Atualmente,
existem mais de 6.000 presos políticos palestinos em prisões israelenses.
Quando
os palestinos não estão sendo algemados, torturados, bombardeados ou abatidos,
eles vivem sob a ameaça contínua de tais ações. Depois da guerra de 1967,
Israel estabeleceu um regime para examinar tudo, desde oficinas palestinas que
fabricam móveis, sabão, tecidos, produtos de azeitonas e doces, até listar
quantos televisores, refrigeradores, fogões a gás, pomares, animais e tratores
os palestinos possuem, muitas vezes censurando livros, romances, filmes,
jornais e panfletos políticos.
Expropriação
econômica
A
violência econômica – a expropriação da riqueza palestina e a destruição da
capacidade dos palestinos de se sustentarem – marcou o tratamento de Israel aos
palestinos desde o início do Estado israelense. Nos anos imediatamente
posteriores a 1948, Israel adotou políticas destinadas a confiscar e controlar
a terra palestina, destacadamente com a Lei da Propriedade Desocupada de 1950,
pela qual Israel garantiu para si 90% da terra, designando como “desocupada”
toda terra que os palestinos tivessem sido obrigados a abandoar devido
repartição conduzida pelas Nações Unidas em 1947.
Os
assentamentos israelenses são construídos em áreas ricas em recursos,
projetados para explorar a água palestina e a terra arável – uma política que
aumenta os recursos de Israel e priva os palestinos de desenvolvimento
econômico. Após a ocupação de 1967, Israel construiu um regime econômico
destinado a incorporar a economia palestina à economia de Israel, tornando seu
governo colonial um empreendimento barato e, ao mesmo tempo, frustrando o
desenvolvimento econômico palestino. Entre as medidas adotadas estavam o
fechamento de instituições financeiras e monetárias árabes, a imposição da
moeda israelense, a proibição de exportações e importações, exceto através de
fronteiras controladas por Israel, a imposição de altos impostos (alfândega,
imposto de renda, IVA), quase nenhum investimento em infraestrutura nas áreas
palestinas, licenciamento restrito para atividades industriais e controle sobre
comunicações, recursos de eletricidade, água e recursos naturais. As políticas
israelenses transformaram o mercado palestino num mercado cativo, que se tornou
um conveniente lixão para produtos industriais israelenses de má
qualidade que não podiam competir com os fabricantes dos países
industrializados da Europa e EUA. Isso não só trouxe grande lucro para a
economia israelense, mas igualmente formou uma nova classe de capitalistas
israelenses, cujas principais atividades industriais foram projetadas para os territórios
ocupados.
Assim,
as políticas israelenses provocaram uma deterioração da base econômica
palestina e criaram uma dependência estrutural à economia de Israel, na medida
em que o Estado ocupante controla os principais pontos nodais da atividade econômica,
como fronteiras, terras, recursos naturais, comércio, movimentação de
mão-de-obra, gestão fiscal e zoneamento industrial. Por mais de uma década,
além disso, um brutal cerco militar combinado entre EUA e Israel e o Egito
dizimou Gaza, a ponto de em breve a região ser inabitável. Militares e colonos
de Israel arrancaram centenas de milhares de oliveiras palestinas na
Cisjordânia e na Faixa de Gaza e nos primeiros anos do milênio o exército
israelense arrasou quatro milhões de metros quadrados de terra cultivada.
A
Grande Marcha do Retorno
Desde
o início da Grande Marcha do Retorno, em 30 de março, Israel matou dezenas de
palestinos e feriu quase 4.000. Nenhum israelenses foi morto ou ferido. O poder
da Marcha é que ela chama a atenção para a ilegitimidade de manter
artificialmente uma maioria demográfica judaica na Palestina histórica.
Enquanto massas de palestinos aproximam-se da cerca entre Gaza e Israel, os
manifestantes personificam a “ameaça” de palestinos retornando a seus lares e
vivendo em uma Palestina-Israel que não pode ter como premissa manter os
palestinos fora e perpetuamente apátridas -como refugiados ou como uma minoria
oprimida dentro de Israel.
Os
manifestantes estão, em suma, tentando afirmar, pelo menos temporária e
simbolicamente, seu direito à sua terra, identidade, nacionalidade, liberdade
-o que as negociações com Israel e seu patrono norte-americano não produziram
até hoje.
terça-feira, 15 de maio de 2018
quarta-feira, 9 de maio de 2018
O ano em que o velho mundo balançou - por Jean Tible
Estudantes manifestam-se na Cidade do México, em setembro de 1968.
Protesto espalhou-se pelo mundo, na forma de lutas da juventude e do
acirramento das guerras de libertação, no Terceiro Mundo
Há meio século, um vírus de desobediência contagiou
o planeta. Todas as hierarquias foram postas em xeque. Mas 1968 está sendo?
Onde foi parar sua explosão inventiva?
A barricada fecha a rua, mas abre caminhos.
Uma das frases símbolos dos muros de Paris em maio de 1968.
68, uma revolução mundial.
Um vírus da desobediência contagiou todo o planeta: Paris, Senegal, Japão, Vietnã, Cidade do México, Praga, Estados Unidos, Palestina, dentre outros pedaços.
Uma explosão de vida. A palavra-chave: experimentação. Novos desejos, aspirações e conexões brotam e desabrocham em todos os cantos do mundo. Um novo espírito do tempo, tempo do mundo.
Uma das frases símbolos dos muros de Paris em maio de 1968.
68, uma revolução mundial.
Um vírus da desobediência contagiou todo o planeta: Paris, Senegal, Japão, Vietnã, Cidade do México, Praga, Estados Unidos, Palestina, dentre outros pedaços.
Uma explosão de vida. A palavra-chave: experimentação. Novos desejos, aspirações e conexões brotam e desabrocham em todos os cantos do mundo. Um novo espírito do tempo, tempo do mundo.
O que parecia sólido se desmanchou no ar, o que parecia estável vazou
(ainda que somente por alguns dias, semanas, meses – mas os efeitos ainda nos
atingem). Colonialismo, patriarcado, supremacia branca, capitalismo e
socialismo autoritário bambearam. Ou pereceram ou se reorganizaram – e
continuam sendo questionados por inúmeras ações. Apesar da diversidade de
situações e países, um elemento comum: o anticonformismo – seja encarando uma
ditadura militar, poderes coloniais, sociedades capitalista ou socialista. Tratou-se
de uma irrupção em defesa do direito de discordar, da multiplicação de vozes,
da polifonia.
Abrir as portas dos asilos, das prisões e das escolas foi outro
lema-pixo forte. Ninguém mais quis cumprir seu papel social habitual,
embarcando num êxodo de libertação e busca de novas vias: operários (ocupando
fábricas e locais de trabalho), estudantes (tomando universidades), artistas e
criadores (dando outros significados para seus espaços e práticas), camponeses
(se levantando), negros (se sublevando), mulheres, gays, lésbicas e muitas
outras (afirmando novos corpos). Fuga do trabalho e busca da vida. Isso tudo já
vinha ocorrendo, mas em 68 se acelerou e se reforçou, encontrou e produziu
novos caminhos, pessoas, coletividades. Inspirações.
Todas as autoridades foram questionadas e hierarquias postas em xeque:
patrões, professores, pais, chefes, tiranos, colonizadores, padres, pastores,
rabinos, irmãs, representantes culturais e midiáticos… Uma viralidade do
dissenso, um deslocamento das dominações e opressões e uma afirmação das
singularidades. Desejos de autonomia, de novas vidas: o levante de uma nova
geração político-existencial. Político e existencial: quem separou um dia essas
esferas? A revolução é uma eztetyka (Glauber Rocha, 1967).
Política e vida, política e arte – a busca pelo fim da representação em ambas.
Impossível separar. Política e jogo, política e humor, política e festa,
política e prazer, política e psicoativos. Política é criação – o resto é
burocracia. Só interessa o que é inventor: “o trabalho criador propõe uma nova
sociedade” (Helio Oiticica).
1968 é também (e sobretudo!) uma insubordinação anticolonial nos países
da periferia (Argélia, Vietnã, Angola, Cuba…) e nos do centro (Panteras Negras
e muitas outras nos EUA e outras partes). O Vietnã (e sua heroica resistência
de camponeses pobres contra o maior Império) constituíram um poderoso
catalisador das imaginações subversivas. Criar, um, dois, mil Vietnãs,
declamava Che Guevara. Reforçando os nexos política-cultura, Zé
Celso desloca essa frase ao dizer que o “objetivo é abrir uma série de
Vietnãs no campo da cultura, uma guerra contra a cultura oficial, de consumo
fácil”. O oposto da morte é o desejo – práticas de descolonização dos corpos.
No Brasil, 1968 são as lindas e corajosas greves de Osasco e Contagem, as
irrupções estudantis e, também, uma busca coletiva para se libertar
definitivamente do complexo colonial – conectando-se com a busca de Oswald
de Andrade pela exportação de poesia (e não mais sua importação enlatada).
Consideramos 1922 como início de uma revolução cultural no Brasil, nos disse
Glauber Rocha em 1969.
1968 marca o início do nosso mundo contemporâneo. Uma revolução sempre
acompanha-se das reações, da contrarrevolução, daí a reação-repressão por todos
os lados nos anos seguintes. A economia se reorganizou e buscou capturar a
inventividade expressada, os poderes viram um excesso de democracia (onde ela
existia minimamente) e de demandas sociais e existenciais. A partir daí, as
desigualdades entraram numa perigosa espiral de aumento generalizado, tendo o
Chile de Pinochet como laboratório desse novo modelo (neoliberalismo). No
Brasil, o contragolpe veio bem rápido: o golpe civil-militar de 1964 reforçou
ainda mais seu autoritarismo com o AI-5 de 13 de dezembro de 1968, e, na
sequência, milhares de pessoas punidas, cassadas, presas, torturadas e centenas
de filmes, peças, livros, programas de rádio, letras de música, revistas
censurados.
1968 está sendo? Continua sua explosão inventiva? Vive, creio, numa nova
sensibilidade, numa transesquerda (Zé Celso), num protagonismo negro,
feminista, dos trabalhadores e criadores, em sua rebelião sempre renovada. Os
tempos são outros mas guardam semelhanças, no Brasil contemporâneo e alhures, e
nos pedem: criemos com alegria e cuidemo-nos – só nos resta resistir e criar,
reexistir.
SP - Vídeo independente do desastre na ocupação do Largo do Paissandu - por Juliano Angelin
SP - Vídeo independente do desastre na ocupação do Largo do
Paissandu
“Quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça”.
“Quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça”.
Foi a frase que ficou na minha cabeça ao
longo do dia.
Fiquei pensando sobre como é estar do lado
detrás da câmera registrando um desastre desse.
Como registrar e comunicar o acontecimento e
a situação sem chover no molhado e sem explorar a condição delicada dessas
pessoas? Muitas vezes tive vergonha de mim por estar ali numa situação de
privilégio, preocupado em pegar bons takes e entrevistas,
enquanto as pessoas acabaram de perder sua moradia, seus pertences e seus entes
queridos.
Por um momento tive a impressão de ser o
único ali incomodado com esse comportamento carniceiro da mídia. Quer dizer,
único não, havia um grupo de crianças revoltadas gritando para não serem
filmadas ou fotografadas. Ainda assim, a mídia fez (e está fazendo) seu papel:
espreme a ferida para o sangue jorrar.
Isso sem contar com as especulações e boatos
sobre a causa do incêndio. Histórias confusas e até com requintes de crueldade.
Cheguei a ouvir que um casal brigando ateou fogo num bebê de 5 meses e o
incêndio começou (!!!).
Claro, para o senso comum, as pessoas que
moram em ocupações são maníacos selvagens capazes dos atos mais terríveis.
E a história do aluguel… Realmente, aquelas
pessoas pagavam para uma galera, que se dizia do movimento e que na hora do
desastre evaporou, ninguém sabe onde está. E mais uma vez, depois de tudo,
quem leva a culpa é o pobre. Já que essa história do aluguel vai ser mais um
argumento para criminalizar os movimentos sociais e combater as ocupações.
Conversei com uma repórter que pediu para não
aparecer no vídeo. Quando perguntei para ela “Será que a corda não vai estourar
novamente para o lado mais fraco”, ela me respondeu com a pergunta “Você
trabalha para quem?”
Quando questionei um jornalista que filmava,
sem autorização e de forma bastante invasiva algumas crianças dormindo, ele se
escondeu atrás da câmera e focou em mim, como se o equipamento de filmagem fosse
ao mesmo tempo um escudo e uma arma que o tornasse invencível contra qualquer
lei ou ética.
O cenário é bastante desolador e triste. Na
volta para casa, passei pelo show da CUT (Central Única dos Trabalhadores), e
não entendi como era possível haver aquilo ali, enquanto a poucos metros
trabalhadores e trabalhadoras estavam sem ter onde dormir ou queimavam debaixo
dos escombros.
Em entrevista, uma das sobreviventes disse
chorando: “…Mas a vida continua“.
Voltei pensando: “Continua, mas nunca será
como antes”.
> Assista o vídeo (06:42) aqui:
agência de notícias anarquistas-ana
que flor é esta,
que perfuma assim
toda a floresta?
que perfuma assim
toda a floresta?
Carlos Seabra
quinta-feira, 26 de abril de 2018
“A liberdade não se concede, conquista-se. Que a conquistem os negros!” - por Lucinda Canelas
“A liberdade não se
concede, conquista-se. Que a conquistem os negros!”
A Mário Domingues devem-se, nos anos 20, os primeiros textos da imprensa portuguesa a defender abertamente a independência das colônias. Hoje são poucos os que conhecem a obra deste anarquista, que denunciou as brutalidades cometidas pelo império na África e que, com o Estado Novo, trocou os jornais pela ficção. Um breve ensaio volta agora a recuperar parte da sua história.
A Mário Domingues devem-se, nos anos 20, os primeiros textos da imprensa portuguesa a defender abertamente a independência das colônias. Hoje são poucos os que conhecem a obra deste anarquista, que denunciou as brutalidades cometidas pelo império na África e que, com o Estado Novo, trocou os jornais pela ficção. Um breve ensaio volta agora a recuperar parte da sua história.
O bilhete de identidade basta para que comecemos a falar de
uma história singular – a de um rapaz que nasceu na ilha do Príncipe no final
do século XIX, filho de um homem branco e de uma angolana que para lá tinha
sido levada para trabalhar nas plantações de cacau da roça Infante D. Henrique.
Quem lhe faz o registro, já em Portugal, onde chegou com apenas 18 meses para
viver com a família paterna numa casa onde não faltava nada, não tem sequer a
certeza do dia exato em que nasceu – Junho ou Julho de 1899 –, nem do nome da
sua mãe – “Congala” ou “Manga” é o que consta no espaço que lhe é destinado,
assim, sem quaisquer apelidos, ao passo que o pai tem direito a nome completo (António
Alexandre José Domingues).
“Isto era o que acontecia com os escravos, não se lhes
conheciam apelidos”, diz José Luís Garcia, sociólogo que há mais de 20 anos
reúne informação sobre o jornalista e escritor Mário Domingues (1899-1977), um
dos primeiros que em Lisboa levantou a voz pela independência das colônias na
África, na década de 1920, numa série de artigos que são verdadeiros manifestos
de defesa dos direitos humanos sustentados pelas leituras que fazia do
movimento de libertação dos negros norte-americanos e pelos ideais anarquistas
e, ao mesmo tempo, notas de denúncia das barbaridades cometidas pelo império
português, sobretudo em São Tomé e Príncipe e em Angola.
No artigo de 20 páginas que agora publica no volume Media and the Portuguese Empire(coord.
de José Luís Garcia, Chandrika Kaul, Filipa Subtil e Alexandra Santos, Ed.
Palgrave Macmillan, 2017), uma edição em inglês que reúne 17 ensaios que
analisam as relações entre o poder e a informação e olham para o império
português tomando os meios de comunicação como agentes das lutas sociais,
políticas e culturais, José Luís Garcia concentra-se em alguns dos 30 artigos
que Mário Domingues escreveu nos anos 1920 nas páginas do diário
anarquista A Batalha.
Estes artigos, escreve o sociólogo, revelam três atitudes de
base: uma oposição sistemática a todas as formas dissimuladas de escravatura,
que continuava a existir nos territórios portugueses na África sob o rótulo de
trabalho forçado; a denúncia do racismo que atravessava toda a política e
administração coloniais, e a que as instituições eram também altamente
permeáveis; e a consciência da importância da independência africana.
A Batalha é,
a partir de 1919, um jornal que critica abertamente a estratégia republicana
para os territórios africanos e apoia as reivindicações da população negra em
Portugal continental e nas colônias.
É neste quadro, em que se “começa a consolidar uma
consciência anticolonial em alguns setores”, que Mário Domingues escreve os
seus artigos “absolutamente visionários inspirados pelas leituras que faz sobre
o movimento identitário dos afro-americanos”, diz José Luís Garcia.
“Vários jornalistas do Batalha começam a escrever sobre a
corrupção entre os funcionários administrativos das colônias, sobre o
tratamento privilegiado que é dado a muitas empresas que têm lá atividade, o
racismo, a perseguição aos negros que reivindicam os seus direitos e que têm
jornais próprios (O Angolense ou A Verdade) para o fazer e,
sobretudo, sobre o trabalho escravo”, explica, expondo um regime de servidão
que não é muito diferente daquele em que milhares viviam antes da abolição da
escravatura em todo o território português, em 1869.
O regime republicano persegue todo aquele que ousa resistir
às regras impostas ou manifestar-se contra as condições degradantes em que se
vive, enquanto os altos-funcionários inescrupulosos vão abusando do seu poder e
enriquecendo à boleia de negócios com as multinacionais e com as minas da
antiga Rodésia (Zimbabwe) e da África do Sul, ex-colônias britânicas, para onde
enviam grandes contingentes de trabalhadores negros. As prisões estão cheias de
pessoas que ficam detidas durante longos períodos sem saberem sequer do que são
acusadas – prisões onde os castigos físicos são severos e o jejum uma imposição
recorrente.
“Outros escrevem sobre estas situações degradantes, mas o
Mário Domingues é o primeiro a defender claramente a independência das colônias
portuguesas de forma coerente num jornal português de grande popularidade”, diz
este sociólogo, que tem na cabeça uma exposição e na gaveta um livro sobre este
jornalista que desde cedo mostrou ter uma inclinação para a escrita e uma
apetência invulgar para as línguas (inglês, alemão e francês). “O fato de ler
jornais e revistas internacionais e de estar a par das mais atuais
reivindicações de direitos humanos que vinham dos Estados Unidos fazem dele um
caso muito singular.” Domingues saúda a criação, em 1921, do Partido Nacional
Africano (PNA), naturalmente anticolonial, que A Batalha apoia de imediato, e acompanha o
pensamento de ativistas da justiça racial como o norte-americano W.E. Burghardt
Du Bois e o jamaicano Marcus Garvey, uma das figuras mais importantes do
movimento nacionalista negro.
“Ele tira partido da sua diferença racial e politiza-a. Ele
é um mulato que pega nas leituras que faz sobre a identidade e os direitos dos
negros a que muitos não tinham acesso e adapta-as à realidade que conhece.” E
fá-lo escrevendo e escrevendo na primeira pessoa ou inventando personagens para
ilustrar pontos de vista.
Liberdade
pela luta
Para melhor compreender os artigos de Domingues n’A Batalha importa olhar
para o contexto em que são publicados, só brevemente enunciado no ensaio que
Garcia assina no volume Media
and the Portuguese Empire.
A República empenha-se em dar continuidade à política
colonial da monarquia, que iniciara uma nova fase nas relações com África nas
duas últimas décadas do século XIX, com a ocupação militar e administrativa dos
territórios ultramarinos, escreve muito antes este investigador do Instituto de
Ciências Sociais no artigo “A
Batalha e a questão colonial”, que publica com o colega José
Castro em 1995 na revista acadêmica Ler
História.
É a República que cria o Ministério das Colônias, logo em
1911, e que nomeia para a sua administração figuras importantes dos seus
quadros (Norton de Matos e Brito Camacho). É também com a República, nas
décadas de 1910 e 1920, que os brancos se começam a estabelecer em força nas
colônias portuguesas na África e que a presença militar se consolida, abrindo
caminho a uma administração civil cada vez mais abrangente e incisiva, que
beneficia da aprovação do “estatuto jurídico das populações indígenas”, lembram
os autores.
“Os vetores fundamentais desta construção ideológica são a
ideia da vocação colonial civilizadora dos portugueses e o paternalismo
humanitário em relação aos negros”, defendem Castro e Garcia, falando de uma
“missão civilizadora” que não passa de um falso pretexto para pôr em prática um
projeto político que tem sobretudo grandes motivações econômicas.
“O que eles queriam de fato era garantir, tal como a
monarquia já queria, que as colônias continuavam a dar matérias-primas baratas
e a servir de destino aos produtos que se faziam em Portugal continental, e
isto sem levantar problemas. Os militares e administração estavam lá para
isso”, diz Garcia, lembrando que não se olhava a meios para atingir estes fins.
“A escravatura já tinha sido abolida formalmente, mas ela continuava nas
colônias, sob a forma de trabalho forçado [criado em 1890]. Ninguém tem dúvidas
disso hoje ou ninguém devia ter. A forma como se trabalhava nas roças do cacau
em São Tomé e Príncipe é típica de um quadro de escravatura.”
O aumento da população branca nos territórios africanos
alimentou, naturalmente, o racismo. A República, lembram Castro e Garcia,
dividia a população negra entre “crioulos ‘assimilados'” e “indígenas”, e
recusava-se a que os primeiros servissem de mediadores entre os colonos e os
segundos. Ora, isso fez crescer entre os “crioulos” o sentimento de pertença à
raça negra e a necessidade de combater o racismo.
É neste quadro que Mário Domingues assina no jornal
anarquista uma série de artigos denunciadores, alguns deles verdadeiros
manifestos, ainda que apoiados em fatos, em que desmonta o sistema colonialista
da República e o que o sustenta, defendendo a independência da África.
Escreve o primeiro desses artigos (“O ideal da
independência”, 5 de Julho de 1922) depois de ler outro que o deixou indignado,
assinado pelo seu colega Cristiano Lima (“Na Feira Mayer. Uma exibição cruel e
aviltante”, 28 de Junho de 1922), e nele assegura que “o espírito separatista”
existe em quase toda a África portuguesa, “revigorado a cada perseguição,
robustecido pela própria tirania de alguns brancos sem escrúpulos”.
Cristiano Lima parte de uma barraca de feira em que um homem
branco com o rosto pintado de preto serve de alvo aos que lhe atiram bolas de
pano e serradura para ganhar um charuto – por cima desta “diversão” havia “um
dístico chamariz” onde se podia ler “o preto que resiste a todos os
portugueses” – para denunciar uma “brutal e inútil selvajaria” com que
compactuam todos os que permanecem em silêncio perante tamanho ataque à
dignidade humana que evoca “épocas longínquas de escravidão e despotismo”, mas
sem nunca se referir às condições em que vivem os negros nas colônias.
O que escreve Mário Domingues logo no primeiro título da
série, por seu turno, não deixa dúvidas sobre o que pensa do domínio colonial
na África, garantindo ser missão de todos proclamar a verdade corajosamente:
“(…) O separatismo alojou-se definitivamente no cérebro e no coração do negro
escravizado e vexado por uma colonização iníqua. (…) Porque não houve ainda
quem, público e raso, afirmasse desassombradamente que talvez não tardem dez,
15 ou 20 anos que Portugal corra o risco de ficar sem colônias para explorar,
sem negros para tiranizar?” E continua: “Às infâmias praticadas pelo despotismo
branco, na África, só um ideal de independência se pode opor com eficácia.” E
insta os negros a lutarem pela sua liberdade, “unidos numa consciência rácica”
e com a certeza de que as suas reivindicações são mais do que justas. “A
liberdade não se concede, conquista-se. Que a conquistem os negros!” “Têm ou
não os negros direito à independência? Têm. Como alcançá-la? Lutando.”
E termina, num artigo carregado de interrogações e
exclamações que parece destinar-se mais a ser ouvido que lido, apelando a uma
grande manifestação dos negros de Lisboa como forma de tornar pública a
urgência da libertação das colônias. “Desejamos ardentemente a independência do
povo negro, porque somos partidários da independência de todos os povos, porque
queremos ver a humanidade livre, absolutamente livre, vivendo em paz e
harmonia!”
Noutro texto, o último desta série a que deu o nome Para a história da colonização
portuguesa, apela a que os “organismos negros” exijam de imediato o
fim dos castigos corporais, a anistia para todos os presos políticos, a
equiparação de salários entre brancos e negros e a liberdade de trabalho e
imprensa, em consonância com outros movimentos revolucionários que vão surgindo
no plano internacional. “É preciso que o negro português ingresse também nesse
movimento colossal… que tem por objetivo a independência da África.”
“Ele não escreve sobre a libertação das colônias portuguesas
na África como se fosse uma utopia distante e eternamente inalcançável. Nem o
faz como se este movimento se pudesse isolar de outros que se opõem ao
imperialismo europeu e ao seu sistema de dominação”, sublinha José Luís Garcia.
“O Mário Domingues faz exigências muito concretas e quer ver resultados.”
O
guarda-livros contrariado
Mário Domingues não seria o único na redação do A
Batalha a defender estes ideais independentistas e a denunciar as
atrocidades cometidas pelo colonialismo português, atrocidades que a República
perpetuara, apesar de (algumas) boas intenções iniciais, mas é o primeiro a
escrever abertamente sobre a total libertação dos territórios ultramarinos.
Tudo isto é publicado por um diário claramente vinculado aos
ideais anarquistas e não está isento de contradições. São artigos que defendem
os direitos humanos em geral e o direito dos negros a serem livres em
particular, mas não podem ser isolados de um contexto em que as reivindicações
do proletariado também estão muito presentes. “Mas o Mário Domingues fala muito
mais de raça e da emancipação dos negros” do que os seus colegas Cristiano Lima
e Ferreira de Castro, por exemplo. “Quase todo o seu trabalho jornalístico
tinha que ver com o fato de ele ser um homem negro a trabalhar num meio
dominado por homens brancos e a viver numa sociedade em que aos negros não eram
reconhecidos os mesmos direitos que aos brancos”, acrescenta José Luís Garcia.
Domingues chegou a Lisboa com apenas 18 meses para viver com
os seus avós paternos num ambiente de classe média. O pai queria que recebesse
uma educação séria e a casa dos avós proporcionou-lhe um ambiente seguro.
Nunca mais viu a mãe e, durante anos, por causa da
informação que lhe era transmitida pela família paterna, acreditou que morrera
quando ele era ainda bebê.
Há uma passagem em O
Menino entre Gigantes – romance autobiográfico que publica em
1960 numa edição cuja capa é assinada pelo seu filho, o pintor surrealista
António Domingues – em que a avó do protagonista foge às perguntas que ele lhe
faz sobre a mãe ao pegar numa camisa de bebê que estava guardada numa gaveta.
“Havia nele uma tristeza que vinha da ausência da mãe e do
fato de ter descoberto que as pessoas que lhe mentiram sobre ela foram das que
mais amou na vida. Essa mágoa ficou. Falava muito da mãe, do fato de ela ser
negra”, diz José Luís Garcia, que chegou a conversar com pessoas que o
conheciam bem e a quem a nora do escritor, Adelina Domingues, confiou muitas
das suas fotografias e documentos.
Em Lisboa acaba por fazer, contrariado, o Curso Comercial no
antigo Colégio Francês, começando a trabalhar como ajudante de guarda-livros,
mesmo tendo consciência da atração que sentia pela escrita desde sempre. Foi
pela ficção, aliás, que chegou ao jornalismo, carreira que viveu intensamente
durante quase 20 anos. Publicou o seu primeiro conto no diário A
Batalha quando tinha apenas 19, tendo escrito e até ajudado a criar
outros jornais e revistas (ABC,
Ilustração, África Magazine, Imprensa Livre, Repórter X, Detective).
Se o entusiasmo pela escrita não bastasse para abandonar a contabilidade,
bastaria o salário – Alexandre Vieira, o então diretor do Batalha,
prometeu pagar-lhe o dobro do que ganhava e cumpriu, contou Domingues num
programa da RTP, em Agosto de 1970.
Sempre
no meio
Até ao final de 1919, começos de 1920, Mário Domingues
assinou sobretudo ficção e crítica de arte (era um entusiasta de modernistas
como Amadeo de Souza-Cardoso e Almada Negreiros), escreve Garcia, embora
defendendo que é natural que alguns dos artigos contra a política colonial que
já antes disso A Batalha publicava
sob anonimato fossem, na realidade, do jornalista. “É o estilo dele, a ironia
com que escreve”, diz o sociólogo, fazendo referência a um em particular, em
que o autor aborda o problema da escravatura nas roças de São Tomé, descrita
como a mais próspera das colônias portuguesas, procurando desmontar o sistema
falacioso de contratação dos chamados “serviçais”, completamente explorados e
deixados à mercê das vontades dos proprietários das grandes fazendas de cacau,
trabalhando das seis da manhã às seis da tarde e vendo os seus contratos
renovados automaticamente, sem que fosse essa a sua intenção. Mas depois, e até
ao começo dos anos 1930, assina a série da colonização portuguesa, transformada
num apelo ao “belo ideal da independência africana”.
São 30 artigos em que denuncia mortes e violações, em que
ataca as grandes companhias que usam a abusam da força para disciplinar os seus
trabalhadores que tratam como escravos, em que contesta as limitações à
liberdade de imprensa e em que expõe a falsidade da “missão civilizadora dos
portugueses” na África. “Falar de brancos e negros implica falar da
colonização, e a colonização, mesmo hoje, não pode ser definida senão numa
palavra – crime”, escreve num dos textos desta série em que passa em revista
500 anos de império.
“O primeiro artigo em que fala de uma África independente é
de uma falta de cautela deliciosa e vai pagar o resto da vida por ela.” Porquê?
“Porque fica eternamente no meio – vê-se inicialmente arredado pelo Estado Novo
e pelo salazarismo e, depois, é menosprezado pelo anti-salazarismo e por aquela
parte da elite portuguesa que se habituou a menorizar o jornalismo e a
literatura de aventuras e de cordel, coisas muito importantes para a criação de
imaginários.”
Domingues viveu sempre esta condição de quem está “no meio”,
uma condição que começa na cor da sua pele: “Não podemos esquecer que ele fez
tudo o que fez sendo um mulato, com tudo o que isso implicava no Portugal do
seu tempo.” Por isso, e sobretudo pelo caráter visionário e pela qualidade da
sua escrita, José Luís Garcia não podia deixar de o incluir no volume que a
Palgrave Macmillan lançou em Dezembro (disponível em papel e em versão
digital): “Eu não podia perder a oportunidade de o apresentar no plano
internacional que ele merece, já que em Portugal está ainda muito longe de ser
devidamente reconhecido.”
Um
não-alinhado
Entre artigos de opinião e a reportagem, gênero a que dedica
boa parte da sua energia em jornais como o Detective, chegando a disfarçar-se de mendigo,
pedindo esmola e dormindo nas ruas para depois poder escrever, a partir de
dentro, sobre o apoio aos mais pobres e sobre as condições de vida nas prisões,
Mário Domingues continuou a ter tempo para a ficção, publicando o seu primeiro
livro em 1923, Audácia de
Um Tímido, a que se seguiram Anastácio José (1927), O Preto do Charleston (1930), Uma Luz na Escuridão (1937)
ou já referido O Menino
entre Gigantes (1960), romance que dedica à mãe e em que,
dando voz a Zezinho, um menino mulato educado em Lisboa por uma família
burguesa que não pode ser outro se não o próprio autor, escreve: “Eu ficara
sucumbido como se me vibrassem uma bofetada à traição. Era a primeira vez que
me faziam sentir, de maneira humilhante, a cor negra da minha pele. Talvez não
acredites, Marisa adorada: eu nunca fizera até então reparo em que era muito
diferente das pessoas que me cercavam.”
“Percebi a dada altura que persistir na minha carreira
jornalística era prejudicar a minha carreira nas letras”, diz na mesma
entrevista à televisão pública, justificando o abandono dos jornais. Em momento
algum do programa em que a RTP o acompanha pelas ruas e praias da Costa da
Caparica, onde vivia, se lhe houve qualquer comentário às limitações à
liberdade de imprensa impostas pelo Estado Novo, o que é natural, já que o
programa passa quatro anos antes da revolução que depõe a ditadura.
Trocado o jornalismo pela ficção, Mário Domingues passa a
dedicar-se aos romances policiais e de aventuras, sob pseudônimo – Os Mistérios da Índia, Segredos da
Espionagem Oriental, Perdidos na África –, conseguindo viver
da sua escrita, como queria desde a adolescência: “Durante dez, 15 anos escrevi
uns 160 ou 170 livrinhos desses de cerca de 200 páginas, recheados de
aventuras, cheios de imprevistos, com índios e cowboys, viagens extraordinárias por regiões do
mundo que eu nunca tinha visto.”
A estes romances seguiram-se as biografias de grandes vultos
da história de Portugal (D. Manuel I, Padre António Vieira, Nun’Álvares
Pereira), figuras que serviam na perfeição a retórica do Estado Novo. E isto
tendo ainda no “currículo” traduções de obras de Charles Dickens e George
Eliot.
“Mário Domingues era um escritor notável. Primeiro foi um
jornalista incrível, repórter impressionante, e depois transformou-se no nosso
Emilio Salgari [o escritor italiano que criou o corsário Sandokan]. Nunca parou
de escrever, porque sempre quis viver da escrita”, diz Garcia.
Mas, se foi autor de uma obra tão vasta quanto
diversificada, e sobretudo de uma série de textos absolutamente pioneiros no
que toca à defesa da independência das colônias portuguesas, por que razão
permanece Mário Domingues praticamente esquecido e, com raras exceções,
confinado a publicações acadêmicas? Porque durante o Estado Novo troca os
artigos revolucionários nos jornais por livros de cowboys e de aventuras?
Porque a dada altura decide escrever sobre os “heróis” que tanto agradavam ao
regime e acaba por ele condecorado?
“Fica oculto, porque não alinha com o PCP. Termina a vida
pouco crítico, mas sem deixar o anarquismo, nem a ideia de viver apenas da
escrita, condição típica e desgraçada do intelectual do século XX. É um
não-alinhado”, acrescenta este investigador que está habituado a estudar as
relações entre os meios
de comunicação e o poder político – Garcia coordenou, com
Tânia Alves e Yves Léonard, a obra Salazar, o Estado Novo e os Meios de Comunicação,
que saiu no ano passado com a chancela das Edições 70 –, e que gosta de tratar
os jornais como “arquivos da realidade” e não como meras ferramentas
instrumentalizáveis ao serviço de determinado programa que lhes é exterior.
“Os meios de comunicação influenciam
estilos de vida, comportamentos, opiniões, e são, nessa medida, atores de
primeiríssimo plano da história, pelo menos a partir da segunda metade do
século XX. (…) A política faz-se com ideias, linguagens, correntes de opinião,
e isso coloca os meios de
comunicação no coração do processo.”
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entra toda a vida
que o sol empresta
Alice Ruizentra toda a vida
que o sol empresta
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