Fonte: https://twitter.com/LatuffCartoons
quinta-feira, 2 de agosto de 2018
A nova ordem mundial do petróleo – por José Luís Fiori
A nova ordem mundial do petróleo
Nesse contexto geopolítico, e nessa nova ordem mundial do petróleo, só uma elite inteiramente corrompida e rebaixada, do ponto de vista moral, e completamente imbecilizada, do ponto de vista intelectual, pode abrir mão do controle estatal de seus recursos energéticos nacionais já conquistados.
José Luís Fiori é Professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional, e do Programa de Pós-Graduação em Bioética e Ética Aplicada da UFRJ; Coordenador do Grupo de Pesquisa do CNPq/UFRJ, "Poder Global e Geopolítica do Capitalismo", www.poderglobal.net, e do Laboratório de "Ética e Poder Global", do PPGBIOS e consultor do GEEP-FUP.
*Publicado originalmente no site a AEPET - Associação dos Engenheiros da Petrobrás.
Fonte: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Soberania-Nacional/A-nova-ordem-mundial-do-petroleo/46/41117
"Na nova ordem mundial do petróleo, só uma elite
inteiramente corrompida e rebaixada, do ponto de vista moral, e completamente
imbecilizada, do ponto de vista intelectual, pode abrir mão do controle estatal
de seus recursos energéticos nacionais já conquistados"
Nas duas últimas décadas do século passado, a Guerra
Irã-Iraque, entre 1980 e 1988, a Guerra do Golfo, entre 1990 e 1991, e o fim da
URSS, em 1991, atingiram em cheio alguns dos maiores produtores e exportadores
mundiais de petróleo, dividindo e enfraquecendo a OPEP, e destruindo a
capacidade de produção russa. Foi um período de anarquia no mercado mundial de
petróleo, e ocorreu no mesmo momento em que as grandes corporações petroleiras
privadas promoveram uma grande desconcentração e "desverticalização"
do seu capital e de suas estratégias, enquanto o petróleo era transformado num
"ativo financeiro" cujo preço era renegociado diariamente nas Bolsas
de Nova York e Londres. Entretanto, no final dos anos 90 e início do século
XXI, esta tendência foi revertida de forma abrupta e radical. E tudo começou,
surpreendentemente, pelas próprias petroleiras privadas anglo-americanas, que
comandaram - a partir de 1998 - uma nova revolução na indústria privada do
petróleo, envolvendo-se num processo gigantesco de fusões de empresas que já
eram as maiores do mundo, e que deram origem às atuais Exxon-Mobil,
ConocoPhillips, Chevron, BP, Total, ou mesmo, à norueguesa StatoilHydro.
Esse terremoto inicial assumiu logo em seguida novas formas
com a reestatização e reorganização das grandes empresas energéticas russas,
chinesas e indianas, junto com a expansão das empresas estatais da Arábia
Saudita e de vários outros países incluindo o Brasil, sobretudo depois da
descoberta do petróleo em águas profundas, em 2006. E de um passo decisivo com
as novas formas de exploração intensiva do petróleo de xisto que recolocou os
EUA entre os três maiores produtores mundiais de óleo. Uma transformação tão
rápida e profunda que levou o grande especialista norte-americano, Michael Klare
em petróleo, a afirmar que o mundo havia entrado numa "nova ordem
energética internacional", caracterizada pela hiperconcentração do capital
petroleiro privado, pela multiplicação das grandes petroleiras estatais, e pela
crescente hegemonia do nacionalismo econômico e do "nacionalismo
energético", entre as grandes potências do sistema mundial, mesmo entre as
chamadas "potências liberais", incluindo os Estados Unidos de Donald
Trump, o último dos "conversos". E de fato, 20 anos depois do início
desta transformação, cerca de dois terços das reservas de petróleo do mundo se
concentram no território de 15 países, e em 13 deles são de propriedade
estatal; das 20 maiores empresas petroleiras do mundo, 15 são estatais e
controlam 80% das reservas mundiais. As outras cinco empresas são privadas e
controlam menos de 15% da oferta mundial do petróleo. Por isso, tem toda razão
Daniel Yergin – outro grande especialista americano – quando diz que nos dias
de hoje as principais decisões relativas ao petróleo – da definição dos preços
ao traçado das grandes estratégias – são tomadas pelos Estados nacionais e suas
grandes empresas públicas.
É muito difícil identificar uma causa única que explique
esta revolução na ordem mundial do petróleo. Mas é possível pelo menos destacar
algumas turbulências fundamentais, que ocorreram simultaneamente. No plano
econômico, o enorme crescimento dos países asiáticos e, em particular, da China
e da Índia, que produziu um verdadeiro "choque de demanda" sobre o
mercado mundial de petróleo. Por outro lado, no plano geopolítico, a guerra
quase contínua no Oriente Médio, que já se prolonga desde 2001, provocando um
verdadeiro "choque de expectativas" negativas no mercado mundial, com
a perspectiva de uma guerra permanente envolvendo as grandes potências, e quase
todos os países de dentro e fora daquela região com grandes reservas de
petróleo. Por fim, como consequência destes acontecimentos intensificou a
concorrência das grandes potências, e sua luta para conquistar e monopolizar os
novos recursos descobertos neste período, sobretudo no Canadá, Venezuela e
Brasil. Assim mesmo, olhando de maneira mais ampla, se pode dizer também que
esta nova "ordem do petróleo" é de fato um produto de longo prazo da
expansão do sistema interestatal capitalista, ocorrida na segunda metade do
século XX. Não se trata apenas da entrada da China e da Índia; trata-se de um
sistema com 200 Estados nacionais que disputam hoje um recurso absolutamente
escasso, concentrado e essencial para sua sobrevivência como sociedades e economias
nacionais, mas também como unidades territoriais soberanas que participam de
uma luta sem quartel pelo poder e pela riqueza mundial.Nesse contexto geopolítico, e nessa nova ordem mundial do petróleo, só uma elite inteiramente corrompida e rebaixada, do ponto de vista moral, e completamente imbecilizada, do ponto de vista intelectual, pode abrir mão do controle estatal de seus recursos energéticos nacionais já conquistados.
José Luís Fiori é Professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional, e do Programa de Pós-Graduação em Bioética e Ética Aplicada da UFRJ; Coordenador do Grupo de Pesquisa do CNPq/UFRJ, "Poder Global e Geopolítica do Capitalismo", www.poderglobal.net, e do Laboratório de "Ética e Poder Global", do PPGBIOS e consultor do GEEP-FUP.
*Publicado originalmente no site a AEPET - Associação dos Engenheiros da Petrobrás.
A história dos dez adolescentes queimados vivos em Goiás - por Latuff
https://diaonline.com.br/reportagem-especial/a-historia-dos-dez-adolescentes-queimados-vivos-em-goias/
Fonte: https://twitter.com/LatuffCartoons
Fonte: https://twitter.com/LatuffCartoons
9ª. Edição da Feira Anarquista de São Paulo acontece em novembro – A.N.A.
9ª. Edição da Feira
Anarquista de São Paulo acontece em novembro
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/07/06/chamada-para-criar-cartaz-da-ix-feira-anarquista-de-sao-paulo/
Os coletivos
Ativismo ABC, Biblioteca Terra Livre, CCS e Nelca organizam a IX Feira
Anarquista de São Paulo, dando continuidade ao já tradicional encontro anual de
anarquistas e simpatizantes do mundo inteiro.
Na edição deste
ano, assim como nas anteriores, acontecerá mostra editorial e venda de livros,
jornais, revistas, fanzines e outros materiais libertários. A Feira de São
Paulo pretende reunir editoras libertárias do país e do exterior.
Paralelamente à
mostra editorial haverá palestras e debates, assim como diversas atividades
culturais, como exposições, poesias, apresentações teatrais, musicais e outras
atividades.
Todas e todos estão
convidados!
Organização: Ativismo ABC | Biblioteca Terra Livre
| Centro de Cultura Social | Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri
Data: Domingo – 11 de novembro de 2018
Horário: das 10h às 20h
Local: Espaço Cultural Tendal da Lapa | Rua
Constança, 72 – Lapa, São Paulo (SP) | Próximo à estação de trem e terminal de
ônibus Lapa
Entrada Gratuita
Blog: feiranarquistasp.wordpress.com
FB: Feira Anarquista de São Paulo
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agência de notícias
anarquistas-ana
os juncos no lago
estão verdes
curva-se a garça branca
Rita Schultzcurva-se a garça branca
sexta-feira, 20 de julho de 2018
[São Paulo-SP] Chamado para uma Feira de Materiais Independentes – Atividades da “sexta semana internacional em solidariedade pelxs anarquistas presxs” – por A.N.A.
[São
Paulo-SP] Chamado para uma Feira de Materiais Independentes – Atividades da
“sexta semana internacional em solidariedade pelxs anarquistas presxs".
Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/07/19/sao-paulo-sp-chamado-para-uma-feira-de-materiais-independentes-atividades-da-sexta-semana-internacional-em-solidariedade-pelxs-anarquistas-presxs/
Em resposta ao chamado da “sexta semana internacional em
solidariedade pelxs anarquistas presxs“, que acontecerá do dia 23 ao 30 de
agosto, haverá uma primeira Feira de Inverno de Materiais Independentes no dia
25 deste mês.
Este é um chamado aberto para quem quiser nos enviar
propostas com o foco antiautoritário para somar na atividade. Além disso, é
principalmente um convite para participar dessa iniciativa no espaço Tia
Estela, situado debaixo do “Viaduto Alcântara Machado” em São Paulo. Toda
contribuição para autogestão do espaço é bem-vinda.
A luta pela liberdade não acontece sem a luta contra as
prisões. Estes espaços repugnantes estão cercados por muralhas, formas
violentas de controle, dispositivos de segurança e vigilância constante. Sem
uma estrutura como estas seria impossível de algum Estado ou qualquer governo
manter-se no poder. É necessário enxergar as cadeias não só como a principal
ferramenta da dominação contra as pessoas subversivas que preferem a guerra à
passividade das massas, mas também como laboratório do sistema e um dos
principais meios para perpetuar a escravidão e o trabalho.
Uma batalha foi perdida porém mesmo atrás das grades a
luta continua. Dentro das cadeias está, de maneira contida e continuada, os
conflitos contra os aparatos jurídicos dos Estados nação e toda sociedade
moralista que lhe dá suporte. Essa realidade prolonga a caminhada pela
destruição da civilização, das máquinas predatórias do mundo cibernético e
industrial, de todas as grades, muros e fronteiras que massacram a vida na
terra.
Por essas e muito mais coisas, é necessário apoiar xs
anarquistas presxs, não deixá-los sós e, com isso, voltar nosso olhar para as
pedras pilares que dão corpo ao inimigo.
“Viver a anarquia comporta o risco de acabar no cárcere”
– Marco, cárcere de Alexandria.
O cronograma completo estará disponível no dia 23 de
Agosto. Envie uma mensagem, envie uma contribuição!
Inverno Anárquico
Contato: invernoanarquico@riseup.net
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agência de notícias anarquistas-ana
O frêmito cessou.
A árvore abre-se
para conter a lua.
A árvore abre-se
para conter a lua.
Eugenia Faraon
Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/07/19/sao-paulo-sp-chamado-para-uma-feira-de-materiais-independentes-atividades-da-sexta-semana-internacional-em-solidariedade-pelxs-anarquistas-presxs/
segunda-feira, 16 de julho de 2018
Anticapitalismo, ecossocialismo e movimentos sociais: uma entrevista com Michael Löwy – por Marco Álvarez*
Anticapitalismo, ecossocialismo e movimentos sociais: uma entrevista com
Michael Löwy
Pensador marxista fala sobre América Latina e os desafios do Anticapitalismo
Pensador marxista fala sobre América Latina e os desafios do Anticapitalismo
Michael Löwy, sociólogo brasileiro radicado na França / José Eduardo
Bernardes/Brasil de Fato
O franco-brasileiro Michael Löwy é um dos mais destacados intelectuais
revolucionários em nível mundial. O sociólogo e filósofo marxista é um dos
principais impulsionadores da alternativa ecossocialista. Em uma entrevista
exclusiva para a Fundação Miguel Enríquez, do Chile, ele dialoga sobre o
marxismo na América Latina, movimentos sociais, o novo internacionalismo e os
desafios do anticapitalismo.
Fundação Miguel Enríquez: Michael, no seu livro O Marxismo na América
Latina, você assinala três períodos na história do marxismo na região: um “período
revolucionário”, a partir dos anos de 1920 até meados dos anos 30, no qual se
sobressaem o aporte teórico de [José Carlos] Mariátegui e a experiência de
insurreição em El Salvador, em 1932; um “período stalinista”, iniciado em
meados dos anos 1930 até 1959, marcado pela hegemonia soviética; e um terceiro
que você denomina “novo período revolucionário”, iniciado com o triunfo da
revolução cubana. Continuando com essa classificação, como você denominaria a
etapa do marxismo na América Latina dos últimos 25 anos e quais seriam suas
principais características?
Michael Löwy: Boa pergunta… É difícil saber se o período revolucionário
aberto pela Revolução Cubana segue até hoje, de alguma forma, ou se ele
terminou logo depois de 1990 (derrota dos Sandinistas [Nicarágua], dos Acordos
de Paz em El Salvador). Talvez o futuro nos dê a resposta. Outra hipótese é
considerar terminado o capítulo iniciado em 1959 e definir os últimos 25 anos
como “a batalha antineoliberal”: é um período no qual se ensaia, em vários países
do continente, saídas do inferno neoliberal. Uma hipótese mais otimista seria
falar de um período de “socialismo do século 21”, mas isso é, por enquanto,
mais um horizonte de esperanças que uma realidade social. O que
caracteriza esse período é: 1) a grande dispersão da referência marxista, que
já não é limitada às correntes “clássicas” da esquerda; 2) a vitória eleitoral
da esquerda na maioria dos países, mas com uma diferenciação muito clara entre
os governos social-liberais (Brasil, Uruguai, Chile) e os anti-imperialistas
(Venezuela, Bolívia, Equador), com várias situações intermediárias.
No prefácio da reedição do livro A Teoria da Revolução no Jovem Marx,
você se refere às “numerosas lacunas, limitações e insuficiências de Marx e da
tradição marxista” e sugere corrigi-las “por meio de um comportamento aberto,
uma disposição a aprender e se enriquecer com as críticas e contribuições
de outros setores”. Nesse contexto, como se expressaria esse comportamento
aberto e quais são esses “outros setores” chaves para corrigir a teoria
marxista e suas contribuições?
Em primeiro lugar, acredito que nós, os marxistas, temos que estar
dispostos a aprender com os movimentos sociais: sejam os mais “clássicos”, como
o movimento operário e o camponês, ou os mais “heterodoxos”, como o feminismo,
o indigenismo, as redes de luta contra o racismo. Trata-se, nestes últimos
casos, de problemáticas – as formas não classistas de opressão – pouco
desenvolvidas na tradição marxista. Vale a pena também “reinventar” as outras correntes
revolucionárias do socialismo – incluindo as que Marx e Engels já haviam
“refutado” – como os socialistas utópicos, os anarquistas e o que eu chamaria
de “socialistas românticos”: William Morris, Georges Sorel, Charles Péguy.
Temos também que estar abertos às contribuições do pensamento social não
marxista, de Max Weber a Sigmund Freud, ou de Karl Mannheim a Hannah Arendt, o
que não significa, claro, aceitar todos seus apontamentos.
Mas penso que a principal insuficiência da tradição marxista – ainda que
se encontrem alguns elementos importantes sobre essa temática na obra de Marx e
Engels – é a questão ecológica. Uma reflexão marxista no século 21 tem que dar
a isso uma importância central pela ameaça que representa, para a humanidade, o
processo de destruição capitalista acelerada do meio ambiente e dos equilíbrios
ecológicos (mudança climática); isso implica uma revisão da visão tradicional
do “desenvolvimento das forças produtivas” e mesmo do socialismo. O conceito de
“ecossocialismo” busca traduzir essa nova visão ecológica e antiprodutivista da
revolução socialista.
No Chile, desde 2011, encontramos um forte protagonismo dos
movimentos sociais, como o estudantil, os regionalistas, etc. Que avaliação
você faz desses movimentos sociais e qual deve ser, na sua opinião, a relação
entre eles e as organizações anticapitalistas?
O movimento da juventude estudantil no Chile e a luta dos Mapuches são
alguns dos movimentos sociais mais importantes da América Latina nos últimos
anos. Creio que os anticapitalistas devem apoiar sem reservas essas
mobilizações, tratando de impulsionar sua dimensão antissistêmica e fazendo
propostas concretas que enfrentem a lógica do capitalismo neoliberal.
Duas das referências históricas do marxismo que você estudou são Walter
Benjamin e Rosa Luxemburgo. Quais seriam, na atualidade, as principais
contribuições ao marxismo dessas referências?
O que os dois têm em comum é a ênfase na luta de classes como eixo
central do pensamento e da ação marxista. Rosa Luxemburgo representa uma das
formas mais radicais da filosofia da práxis: é na ação coletiva, na luta, que
se desenvolve a consciência de classe e a auto-organização dos oprimidos. Por
isso, a democracia, ou seja, a participação efetiva da classe explorada nas
decisões, é uma condição fundamental do processo de transformação
revolucionária da sociedade.
Walter Benjamin se propôs a entender a história “à contramão”, do ponto
de vista dos oprimidos. A partir dessa perspectiva, ele rechaça a visão
burguesa – compartilhada por boa parte da esquerda – da história como
“progresso”. Para ele, a revolução não é a conclusão de uma longa evolução
“progressista”, mas a interrupção da cadeia milenar da dominação.
Você militou junto com Daniel Bensaïd [filósofo francês, teórico do
movimento trotskista na França e dirigente da Quarta Internacional]
durante muitos anos. Qual é, no seu ponto de vista, o principal legado teórico
dele?
São muitas as contribuições de Daniel Bensaïd, mas a mais importante me
parece ser seu apontamento – inspirado por Pascal e pelos trabalhos do marxista
heterodoxo Lucien Goldmann – da revolução como “aposta melancólica”.
“Aposta” porque não há nenhuma certeza no triunfo do socialismo, na
emancipação dos oprimidos. O revolucionário só pode apostar em um
futuro possível, jogando sua vida e sua ação nessa esperança, correndo o risco
da derrota. E “melancólica” porque, até agora, os grandes revolucionários
– Rosa Luxemburgo, León Trotsky, Che Guevara, Miguel Enríquez – foram
derrotados e assassinados.
Você também escreveu bastante sobre Che Guevara. Onde você acredita que
se encontra a vigência de seu pensamento?
Por um lado, no seu apontamento estratégico: “não há outra revolução a
fazer – ou é revolução socialista ou caricatura de revolução”. Por
outro lado, em sua tentativa, durante sua estadia em Cuba, de propor um
caminho em direção ao socialismo alternativo ao modelo soviético, com maior
democracia e um conteúdo ético comunista. É um erro reduzir Guevara ao
“guerrilheiro heroico”. Ele foi um dos pensadores marxistas mais
importante da América Latina. O humanismo marxista dele encontra sua
máxima expressão em seu internacionalismo, na convicção de que um comunista tem
que sentir como uma agressão pessoal um golpe que atinge um lutador em qualquer
país do mundo.
Você sempre foi um internacionalista. Existe um novo internacionalismo?
De que forma se expressa hoje esse novo internacionalismo?
Parece-me que o novo internacionalismo, tal como se apresenta em
movimentos como a Via Campesina, em iniciativas como o altermundialismo ou nos
levantes dos “indignados”, tem um conteúdo anticapitalista e/ou antissistêmico.
Já não apresenta, como nos anos 1960, a “solidariedade” com as lutas do Sul,
mas sim uma aliança entre movimentos do Norte e do Sul contra seus inimigos
comuns: o neoliberalismo, o FMI [Fundo Monetário Internacional], o Banco
Mundial, as multinacionais, o imperialismo. Os herdeiros das melhores tradições
do internacionalismo do passado – os anarquistas, os marxistas da
Quarta Internacional, os guevaristas – participam das mobilizações do novo
internacionalismo.
Você é um dos grandes impulsionadores da alternativa
ecossocialista. O livro O Que É o Ecossocialismo? compila
vários artigos seus sobre o tema. A respeito disso, poderia explicar brevemente
o que é o ecossocialismo e quais são seus principais fundamentos teóricos?
O ecossocialismo reivindica a herança marxista, da crítica da economia
política capitalista por Marx e o programa socialista. Ao mesmo tempo, se
dissocia das vertente produtivistas do marxismo – que predominaram no curso do
século 21 – e rompe com o modelo soviético (antidemocrático e antiecológico) de
pretensa “construção do socialismo”.
Muitos ecologistas criticam Marx por considerá-lo um produtivista. Tal
crítica nos parece equivocada: ao fazer a crítica do fetichismo da mercadoria,
é justamente Marx quem coloca a crítica mais radical à lógica produtivista do
capitalismo, a ideia que a produção de mais e mais mercadorias é o objeto
fundamental da economia e da sociedade.
O objetivo do socialismo, explica Marx, não é produzir uma quantidade
infinita de bens, mas sim reduzir a jornada de trabalho, dar ao trabalhador
tempo livre para participar da vida política, estudar, jogar, amar. Portanto,
Marx proporciona as armas para uma crítica radical do produtivismo e,
notavelmente, do produtivismo capitalista. No primeiro volume de O Capital,
Marx explica como o capitalismo esgota não só as forças do trabalhador, mas
também as próprias forças da terra, extinguindo as riquezas naturais. Assim,
essa perspectiva, essa sensibilidade, está presente nos escritos de Marx, e, no
entanto, não foi suficientemente desenvolvida.
Uma reorganização do conjunto dos modos de produção e de consumo é
necessária, baseada em critérios exteriores ao mercado capitalista: as
necessidades reais da população e a defesa do equilíbrio ecológico. Isso
significa uma economia de transição ao socialismo ecológico, na qual a própria
população – e não as “leis de mercado” ou um comitê político
central autoritário – decidam, em um processo de planejamento democrático,
as prioridades e os investimentos. Essa transição conduziria não só a um novo
modo de produção e a uma sociedade mais igualitária, mais solidária e mais
democrática, mas também a um modo de vida alternativo, uma nova civilização
ecossocialista, para além do reino do dinheiro e da produção ao infinito de
mercadorias inúteis.
Quais seriam, na sua opinião, as principais tarefas das e dos militantes
ecossocialistas nos países da América Latina?
Participar em todas as lutas e mobilizações socioecológicas, dos
indígenas e dos camponeses contra a fúria destruidora do agronegócio e das
multinacionais, com a juventude e a população periférica pelo transporte
público e gratuito, etc. No seio dessas lutas, contribuir na tomada
de consciência anticapitalista e na apresentação de propostas concretas e uma
perspectiva alternativa radical, o ecossocialismo.
Para finalizar, você poderia falar sobre a importância que, na
atualidade, adquire a unidade das e dos anticapitalistas?
Permita-me citar um bonito artigo de José Carlos Mariátegui para o
Primeiro de Maio de 1924: “Uma variedade de tendências e grupos bem definidos e
distintos não é um mal; ao contrário, é um sinal de um período avançado no
processo revolucionário. O que importa é que esses grupos e essas tendências
saibam como atuar em conciliação, frente à realidade concreta do dia a
dia. (…) Que não empreguem suas armas (…) para ferir um ao outro, mas sim para
combater a ordem social, suas instituições e seus crimes”.
É importante constituir, em um primeiro momento, uma Frente Única das e
dos anticapitalistas, com base nas tarefas concretas da luta social e
ecológica; e, em um segundo momento, tratar de criar, pela convergência de
múltiplas correntes, uma Federação Anticapitalista capaz de atuar com uma
perspectiva de transformação revolucionária da sociedade.
*Marco Álvarez é diretor da Fundação Miguel Enríquez.
Edição: Fundação Miguel Enríquez | Tradução: Vivian Neves Fer
terça-feira, 10 de julho de 2018
Brasil, uma metamorfose ambulante ... (Charge – jota camelo)
Fonte: https://jornaloexpresso.wordpress.com/2017/06/23/jota-camelo-e-os-dramas-contemporeneos-do-brasil/
NOS – Comunicado 1 – por A.N.A.
NOS – Comunicado
1
A todxs
Até agora.
Não somos políticxs, não somos ligadxs a partidos, não acreditamos em eleições, não obedecemos leis, não seguimos calendários: somos anarquistas, agimos pelo que é certo e só obedecemos ao tribunal de nossa consciência. Fazemos “ação direta”, atacando o sistema via seus pilares de sustentação em guerra de baixa escala.
Nos olhos da libélula
Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/07/07/nos-comunicado-1/
A todxs
O mundo
capitalista está em crise. E o Brasil também, no pior momento de sua História.
Crise econômica, política, moral, desemprego, violência, corrupção, destruição
da natureza, desesperança.
A última
tentativa de resistir foi a greve dos caminhoneiros, que apesar de ter caráter
reacionário, derrotou o governo brasileiro e podia virar a greve geral
defendida por sindicatos e centrais sindicais. Mas nada aconteceu! Não teve nem
greve dxs petroleirxs, ameaçadxs por terceirização, demissões e privatização.
Nem precisava piquete, centenas de caminhoneiros nas portas das refinarias da
estatal Petrobras eram o piquete. E aí? Deixaram a greve dos caminhoneiros
acabar para fazer uma grevinha fraca logo encerrada pela proibição autoritária
e imoral de uma juíza qualquer. E o povo? Em vez de parar, ficaram horas em
filas de postos pagando combustível mais caro!
E o pior é as burocracias sindicais acovardadas “justificar” sua covardia alegando seguir um “calendário”. Só se for o calendário de Temer. Pois o que não falta é traidorxs do povo que falam “fora Temer” da boca pra fora. Eles querem “fica Temer”, pois ele não tem futuro, e por não ter nada a perder é o único que pode fazer a nojenta “reforma” da Previdência, assim como fez a criminosa “reforma” trabalhista que destrói empregos. Bom só para as grandes empresas que pagam salários miseráveis, e banqueiros, que querem obrigar o povo a ter previdência privada. Para esses patifes, danem-se dezenas de milhões de pobres que não podem pagar previdência privada, que trabalhem até morrer.
Xs militantes honestxs sindicais, sociais e de partidos e movimentos sociais e populares são enganadxs pelas burocracias traidoras que não querem mudanças. Assim como a maioria do povo, são levadxs a crer que a farsa das eleições é a solução. Mentira! Pois os dois primeiros colocados nas pesquisas estão sendo postos fora da eleição: um foi preso por um juiz a serviço de um partido político (protege seus comparsas de partido enquanto condena adversários), sem provas (não é prova o apartamento de praia que mais parece um chiqueiro) e é mantido preso por decisão política e contra a Constituição (uma das ministras do STF, suprema corte do Estado Burguês, disse que votava contra o habeas corpus mesmo sendo inconstitucional, após pressão do comandante do exército, uma vergonha) só para não concorrer. O outro candidato (criado pela direita e hoje rejeitado por ela pois virou uma ameaça em potencial) é um fascista acusado de homofobia, machismo e outros crimes, e sofre processo para ter mandato e candidatura cassados. Golpe contra a vontade da maioria dxs eleitorxs, que o sistema diz obedecer! As corporações e seus lacaios da mídia empresarial e do podre judiciário não querem que povo eleja presidentx, querem impor um gerente de seus negócios que lhes seja totalmente confiável.
E o pior é as burocracias sindicais acovardadas “justificar” sua covardia alegando seguir um “calendário”. Só se for o calendário de Temer. Pois o que não falta é traidorxs do povo que falam “fora Temer” da boca pra fora. Eles querem “fica Temer”, pois ele não tem futuro, e por não ter nada a perder é o único que pode fazer a nojenta “reforma” da Previdência, assim como fez a criminosa “reforma” trabalhista que destrói empregos. Bom só para as grandes empresas que pagam salários miseráveis, e banqueiros, que querem obrigar o povo a ter previdência privada. Para esses patifes, danem-se dezenas de milhões de pobres que não podem pagar previdência privada, que trabalhem até morrer.
Xs militantes honestxs sindicais, sociais e de partidos e movimentos sociais e populares são enganadxs pelas burocracias traidoras que não querem mudanças. Assim como a maioria do povo, são levadxs a crer que a farsa das eleições é a solução. Mentira! Pois os dois primeiros colocados nas pesquisas estão sendo postos fora da eleição: um foi preso por um juiz a serviço de um partido político (protege seus comparsas de partido enquanto condena adversários), sem provas (não é prova o apartamento de praia que mais parece um chiqueiro) e é mantido preso por decisão política e contra a Constituição (uma das ministras do STF, suprema corte do Estado Burguês, disse que votava contra o habeas corpus mesmo sendo inconstitucional, após pressão do comandante do exército, uma vergonha) só para não concorrer. O outro candidato (criado pela direita e hoje rejeitado por ela pois virou uma ameaça em potencial) é um fascista acusado de homofobia, machismo e outros crimes, e sofre processo para ter mandato e candidatura cassados. Golpe contra a vontade da maioria dxs eleitorxs, que o sistema diz obedecer! As corporações e seus lacaios da mídia empresarial e do podre judiciário não querem que povo eleja presidentx, querem impor um gerente de seus negócios que lhes seja totalmente confiável.
E o pior é que
ninguém faz nada para mudar isso.
Até agora.
Não somos políticxs, não somos ligadxs a partidos, não acreditamos em eleições, não obedecemos leis, não seguimos calendários: somos anarquistas, agimos pelo que é certo e só obedecemos ao tribunal de nossa consciência. Fazemos “ação direta”, atacando o sistema via seus pilares de sustentação em guerra de baixa escala.
E já começamos a
agir. Para nossa estreia, escolhemos o bairro burguês de Perdizes, zona oeste
da cidade de São Paulo em 08.04.2018, horas após a prisão do ex-presidente
Lula. Na madrugada, acordamos xs burguesxs de um quarteirão de Perdizes de seu
sono tranquilo com artefato explosivo sonoro e nos retiramos pelas sombras sem
sermos vistos por câmeras de segurança ou testemunhas.
Não somos
seguidorxs de Lula nem cremos em eleição, mas vemos sua prisão como precedente
para perseguir todxs que enfrentam o sistema, inclusive nós. E a podre
burguesia desse bairro bateu panela e tocou vuvuzela tanto para entregar o
Brasil nas mãos da quadrilha de Temer quanto para comemorar a prisão de Lula.
Por isso receberam nossa incômoda visita.
Mais ataques
virão. Sem-terra, sem-teto, sindicalistas e militantes de esquerda honestxs,
anarquistas, antifas, nihilistas, eco-extremistas… chamamos todxs a esquecer
diferenças, organizar-se e lutar contra o sistema! A HORA É AGORA!
FOGO AO ESTADO,
ÀS CORPORAÇÕES E SEUS LACAIOS!
NOS
– Núcleo de Oposição ao Sistema
agência de notícias
anarquistas-ana
Nos olhos da libélula
refletem se
montanhas distantes.
montanhas distantes.
Issa
Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/07/07/nos-comunicado-1/
segunda-feira, 9 de julho de 2018
quarta-feira, 4 de julho de 2018
terça-feira, 3 de julho de 2018
Chomsky vê a decadência dos EUA além de Trump - Entrevista a C.J. Polychroniou
Chomsky vê a
decadência dos EUA além de Trump
Bufão e desastrado,
presidente é apenas um sintoma. Poder geopolítico de Washington declina,
sistema político está em frangalhos e democratas investem em tola perseguição
aos russos…
Depois de 18 meses com
Trump na Casa Branca, a política norte-americana encontra-se numa encruzilhada.
Os Estados Unidos adotaram, inequivocamente, uma nova forma de fascismo que
serve aos militares e aos interesses corporativos, enquanto promovem, ao mesmo
tempo, uma agenda social altamente reacionária, impregnada de conotações nacionalistas
violentas e religiosas, tudo com um sinistro toque de encenação política. Nesta
entrevista exclusiva à Truthout, o intelectual e linguista mundialmente
renomado Noam Comsky analisa alguns dos últimos acontecimentos nos EUA e suas
consequências para a democracia e a ordem mundial.
Gostaria de começar
perguntando qual é a sua leitura do que aconteceu no encontro entre Trump e Kim
Jong-Un, em Singapura, e o modo como esse evento foi coberto pela mídia dos EUA
Faz lembrar Sherlock
Holmes e o cachorro que não latia. O importante foi o que não aconteceu. Ao
contrário de seus antecessores, Trump não minou as perspectivas de avançar.
Especificamente, não interrompeu o processo iniciado pelas duas Coreias em sua
histórica Declaração de 27 de abril [Panmunjom], na qual elas “afirmaram o
princípio de determinação do destino da nação coreana conforme seu próprio
acordo” (repito: conforme seu próprio acordo), e pela primeira vez apresentaram
um programa detalhado sobre como proceder. Trump tem um crédito por não minar
esses esforços, e na verdade ele fez um movimento para facilitá-los ao cancelar
as manobras militares EUA-Coreia do Sul, as quais, como disse ele com razão,
são “muito provocadoras”. Nós com certeza não toleraríamos nada semelhante em
nossas fronteiras – e em lugar algum do planeta – mesmo que eles não fossem
feitos por uma superpotência que há não muito tempo tivesse devastado
completamente nosso país com os pretextos mais frágeis, depois da guerra já ter
efetivamente terminado, orgulhando-se dos grandes crimes de guerra que cometeu,
como o bombardeio de grandes barragens, quando que não havia mais nada para
bombardear.
Além do mérito de deixar
as coisas prosseguirem, que não foi pequeno, nenhuma “habilidade diplomática”
esteve envolvida no triunfo de Trump. A cobertura foi bastante instrutiva, em
parte por causa dos esforços do Partido Democratas, para atacar Trump pela
direita.
Depois de meses de
retórica dura contra as práticas comerciais chinesas, Trump decidiu impor
tarifas de 50 bilhões de dólares nas importações da China, levando Pequim a
declarar que os EUA embarcaram numa guerra comercial e a anunciar que fará uma
retaliação contra as importações norte-americanas. Primeiro, não é verdade que
a China está hoje meramente praticando o mesmo tipo de políticas mercantis que
os EUA e a Grã Bretanha praticaram no passado, no seu caminho para a
ascendência global? Segundo, há expectativa de que mirar nas tarifas terá algum
impacto na economia chinesa ou no tamanho do déficit comercial dos EUA?
Finalmente, se uma nova era de protecionismo está para começar, quais poderiam
ser as consequências desse fato para o reino do neoliberalismo global?
Quanto às políticas
econômicas da China, sim, elas são semelhantes àquelas que foram usadas pelas
sociedades desenvolvidas em geral, a começar pela Grã Bretanha e depois por sua
ex-colônia norte-americana. Semelhante, porém mais limitada. A China não tem
disponíveis os meios de seus predecessores. A Grã Bretanha roubou tecnologia superior
à sua da Índia, Países Baixos, Irlanda e, por força de severo protecionismo,
minou a economia indiana — então, a mais avançada do mundo, junto com a da
China. Os Estados Unidos, sob o sistema hamiltoniano,
recorreram a altas tarifas para barrar os produtos britânicos, e também
apropriaram-se de tecnologia britânica de formas proibidas pelo atual sistema
de comércio global liderado pelos EUA. O historiador de economia Paul Bairoch
descreve os EUA como “o país-mãe e bastião do protecionismo” nos anos 1920 —
bem depois de se tornarem, de longe, o país mais rico do mundo.
A prática é em geral
chamada “chutar a escada” pelos historiadores de economia. Primeiro, os países
usam ceras práticas para desenvolver-se; depois, impedem que os outros façam o
mesmo.
(…)
Como fez, antes deles, a
Grã Bretanha, os EUA passaram a reivindicar “livre comércio”, mais tarde,
quando observaram que a tendência natural era tornarem-se predominantes. Depois
da Segunda Guerra Mundial, quando os EUA tinham um poder incomparável, eles
promoveram a “ordem mundial liberal”, a qual tem sido de enorme vantagem para o
sistema corporativo dos EUA, que agora possui cerca de metade da economia
global – um sucesso político espantoso.
De novo seguindo o modelo
britânico, os EUA firmaram seu compromisso com o “livre comércio” em favor do
poder privado doméstico. O “livre comércio” dominado pela Grã Bretanha manteve
a Índia como um protetorado em grande parte fechado. Os sistema dominado pelos
EUA impõe um mecanismo de patentes radical (“propriedade intelectual”), que
proporciona um poder virtualmente monopolista às maiores empresas
norte-americanas. O governo dos EUA fornece também enormes subsídios a
indústrias de energia, ao agronegócio e a instituições financeiras. Embora os
EUA reclamem da política industrial chinesa, foi crucial para a indústria
moderna de alta tecnologia contar com pesquisa e desenvolvimento feitos com
subsídios públicos, a tal ponto que a economia pode ser considerada como um
sistema de subsídios públicos e lucros privados. E há muitos outros mecanismos
para subsidiar a indústria. As compras governamentais, por exemplo, têm se
mostrado poderosas. Na verdade, só o enorme sistema militar, através de
aquisições, oferece um gigantesco subsídio estatal à indústria. Esses
comentários apenas tocam a superfície do problema.
(…)
O governo Trump está
agindo muito rápido para reprimir a imigração não autorizada no país, ao
separar crianças imigrantes de seus pais. Mais de duas mil crianças viveram
este drama nas últimas sete semanas, e o Procurador Geral Jeff Sessions tentou
justificar esta política citando um verso da Bíblia. O que se pode dizer de uma
sociedade ocidental avançada em que a religião continua a banir a razão na
construção de políticas e atitudes públicas? E não é verdade que os nazistas,
embora não fossem crentes, também usaram o cristianismo para justificar seus
atos criminosos e imorais?
A política migratória dos
EUA, sempre grotesca, desceu a níveis tão revoltantes que até mesmo muitos
daqueles que promovem e exploram a xenofobia estão correndo para se proteger –
como Trump, que está tentando desesperadamente culpar os democratas por ela, e
a primeira-dama, que está apelando para que “ambos os lados” se unam para
acabar com a obscenidade. Não deveríamos, contudo, negligenciar o fato de que a
Europa está rastejando na mesma sarjeta.
Pode-se citar as
escrituras para quase qualquer coisa que se queira. Sabe-se, sem dúvida, que
“toda a lei” se baseia em dois mandamentos: amar a Deus e “amar ao próximo como
a si mesmo”. Mas esse não é o pensamento apropriado à ocasião. É verdade,
contudo, que, desde que os puritanos desembarcaram, os EUA são únicos, entre as
sociedades desenvolvidas, no papel desempenhado pela religião na vida social.
Embora esteja claro que
os EUA estão a caminho de se tornar uma nação pária, os democratas continuam a
concentrar sua atenção principalmente no suposto conluio de Trump com a Rússia
e comportamento antiético. Ao mesmo tempo, tentam ultrapassar o presidente na
agenda chauvinista, adotando novas restrições para as eleições de 2020 de modo
a sabotar o apoio a Bernie Sanders. Diante disso, como você descreveria a
natureza da política contemporânea dos EUA?
Assim como na Europa, nos
Estados Unidos as políticas de centro, que predominam há muito, estão em
decadência. As razões não são obscuras. As pessoas que enfrentaram os rigores
do assalto neoliberal – austeridade, na recente versão europeia – percebem que
as instituições estão trabalhando para poucos, não para si. Nos EUA, as pessoas
não precisam ler ciência política acadêmica para saber que uma grande maioria,
aqueles que não estão próximos do alto da pirâmide de renda, estão efetivamente
marginalizados, no sentido de que seus próprios representantes prestam pouca
atenção às suas opiniões, dando ouvidos, ao contrário, às vozes dos ricos, à
classe dos doadores. Na Europa, qualquer um pode ver que as decisões básicas
são tomadas pela não eleita Troika, em Bruxelas, com os bancos do Norte espreitando
por cima de seus ombros.
Nos EUA, há muito tempo o
respeito pelo Congresso está num só dígito. Nas recentes primárias
republicanas, quando os candidatos emergiram da base, o establishment conseguiu
derrotá-los e nomear seu próprio candidato. Em 2016, isso falhou pela primeira
vez. É verdade que não escapa muito da norma um bilionário com enorme apoio da
mídia e fundos de campanha de quase um bilhão de dólares vencer uma eleição,
mas Trump dificilmente seria a escolha das elites republicanas. O resultado
mais espetacular dessas eleições não foi o fenômeno Trump. Foi, sim, o
extraordinário sucesso de Bernie Sanders, rompendo drasticamente com a história
política dos EUA. Sem o apoio das grandes corporações ou da mídia, Sanders bem
poderia ter vencido a nomeação democrata, não fosse pelas maquinações dos
dirigentes do partido de Obama-Clinton. Processos similares são visíveis nas
recentes eleições europeias.
Goste-se ou não, Trump
está indo bastante bem. Tem o apoio de 83% dos republicanos, algo sem
precedentes a não ser em raros momentos. Quaisquer que sejam seus sentimentos,
os republicanos não ousam contrariá-lo abertamente. Seu apoio geral de
aproximadamente 40% não está longe da norma, mais ou menos como o de Obama em
seu primeiro mandato. Ele tem sido pródigo em presentear o mundo dos negócios e
os super-ricos, o autêntico eleitorado republicano (a liderança democrata não
fica muito atrás). Jogou migalhas suficientes para manter os evangélicos
felizes e tocou os acordes certos para os partidários do supremacismo branco.
Até agora tem conseguido convencer os mineiros do carvão e os trabalhadores do
aço de que é um deles. Na verdade, seu apoio entre trabalhadores sindicalizados
aumentou para 51%.
Quase não há dúvidas de
que Trump não dá a mínima importância ao destino do país ou do mundo. “O que
importa sou eu”. Isso fica suficientemente claro por sua atitude em relação ao
aquecimento global. Ele está perfeitamente consciente da terrível ameaça – às
suas propriedades. Seu pedido de um paredão para proteger seu campo de golfe
irlandês baseia-se explicitamente na ameaça do aquecimento global. Mas a busca
pelo poder o impele a conduzir a corrida à destruição, bastante feliz, como
fica evidente em suas aparições. O mesmo acontece com outras ameaças sérias,
embora menores, entre elas a de que o país possa ficar isolado, desprezado,
decadente – com dívidas a pagar que não serão mais de sua conta.
Os democratas estão agora
divididos entre uma base popular de maioria social democrata e uma liderança
dos Novos Democratas, que cede à classe dos doadores. Sob Obama, o partido foi
reduzido a ruínas nos níveis local e estadual, uma questão particularmente
séria porque as eleições de 2020 determinarão o redistritamento, oferecendo
oportunidade ainda além da escandalosa situação de hoje para manipulações.
A falência da elite
democrata é bem ilustrada pela obsessão com a suposta intromissão russa em
nossas sagradas eleições. Qualquer que tenha sido – aparentemente muito pequena
–, ela não pode ser comparada a “intromissão” dos fundos de campanha, que
determinam os resultados eleitorais amplamente, de modo tão extenso quanto
demonstraram as pesquisas, particularmente o cuidadoso trabalho de Thomas
Ferguson – que ele e seus colegas estenderam agora para as eleições de 2016.
Como aponta Ferguson, quando as elites republicanas se deram conta de que ia
dar Trump ou Hillary, elas responderam com uma enorme onda de dinheiro de
última hora, o que não só levou Hillary a cair no fim de outubro como teve
também o mesmo efeito nos candidatos democratas para o Senado, numa “manobra de
bloqueio”, virtualmente. É “estranho”, observa Ferguson, que o ex-diretor do
FBI James Comey ou os russos “pudessem ser responsabilizados por ambos os
colapsos” nos estágios finais da campanha: “Pela primeira vez em toda a
história dos Estados Unidos, o resultado partidário das eleições para o Senado
coincidiu perfeitamente com os resultados da votação presidencial em todos os
estados.” O resultado está exatamente conforme a bem fundamentada “teoria do
investimento da competição partidária” de Ferguson.
Mas fatos e lógica pouco
importam. Os democratas estão empenhados em vingar-se pela derrota de 2016,
tendo executado uma campanha tão podre que uma vitória que parecia “certa”
escorreu entre os dedos. Evidentemente, o implacável ataque de Trump contra o
bem comum é de interesse secundário, ao menos para a elite do partido.
Às vezes observa-se que
os EUA não somente se intrometem, com regularidade, em eleições estrangeiras,
inclusive russas, como também agem para subverter, e às vezes derrubar governos
de que não gostam. Não faltam até agora consequências terríveis, da América
Central ao Oriente Médio. A Guatemala tem sido uma história de horror desde que
o golpe apoiado pelos EUA derrubou um governo reformista eleito em 1954. Gaza,
mergulhada na miséria, pode tornar-se inviável para viver em 2020, prevê a ONU
— e não pela mão de Deus.. Em 2006, os palestinos cometeram um crime grave:
promoveram as primeiras eleições livres no mundo árabe, e fizeram a escolha
“errada”, entregando o poder ao Hamas. Israel reagiu com a escalada da
violência e um cerco brutal. Os EUA retrocederam a uma operação de
procedimentos padão e prepararam um golpe militar, programado para derrubar o
Hamas. Em punição por mais este crime, aumentou muito a tortura de Gaza
perpetrada por Israel-EUA, não apenas pelo estrangulamento como também pelos
assassinatos regulares e invasões destruidoras feitas por Israel com o apoio
dos EUA, sob pretextos que não resistem a qualquer exame. Eleições com
resultado errado não podem obviamente ser toleradas sob nossa política de
“promoção da democracia”.
Nas recentes eleições
europeias houve muita preocupação com a possível intromissão russa. Isso foi particularmente
verdadeiro nas eleições alemãs de 2017, quando o partido de extrema direita
Alternative für Deutschland (AfD) saiu-se surpreendemente bem, ao conquistar,
pela primeira vez na História 94 assentos no Parlamento (Bundestag). Pode-se
imaginar facilmente a reação, no caso de descobrir-se intromissão russa por
trás desses resultados assustadores. Ocorre que foi, sim, descoberta
intromissão estrangeira, mas não da Rússia. A AfD contratou uma empresa de
mídia texana (Harris Media), conhecida pelo apoio a candidatos nacionalistas de
direita (Trump, Le Pen, Netanyahu). A empresa está entre as que cooperam com o
escritório de Berlim do Facebook, oferecendo informação detalhada sobre
eleitores potenciais para uso em microabordagem daqueles que poderiam ser
receptivos à mensagem da AfD. Pode ter funcionado. A história parece ter sido
ignorada fora da imprensa econômica.
Se o Partido Democrata não puder superar seus profundos problemas internos e a lenta expansão da economia sob os governos Obama e Trump continuar sem interrupção ou desastre, um bola de demolição republicana pode estar balançando as fundações de uma sociedade decente, e as perspectivas de sobrevivência, por um longo tempo.
Se o Partido Democrata não puder superar seus profundos problemas internos e a lenta expansão da economia sob os governos Obama e Trump continuar sem interrupção ou desastre, um bola de demolição republicana pode estar balançando as fundações de uma sociedade decente, e as perspectivas de sobrevivência, por um longo tempo.
Entrevista a C.J.
Polychroniou, no Truthout | Tradução: Inês Castilho
Fonte: https://outraspalavras.net/capa/chomsky-ve-a-decadencia-dos-eua-alem-de-trump/
sexta-feira, 29 de junho de 2018
Para compreender Karl Marx por meio de suas obras – por Eduardo Mancuso
Para compreender
Karl Marx por meio de suas obras
Nos duzentos anos do filósofo, vale ler diretamente seus livros — ao invés de conhecê-los por outros autores. Aqui, um roteiro sucinto e provocador
Nos duzentos anos do filósofo, vale ler diretamente seus livros — ao invés de conhecê-los por outros autores. Aqui, um roteiro sucinto e provocador
“transformar o mundo”, disse Marx, “mudar a
vida”, disse Rimbaud
– para nós essas duas palavras de ordem são apenas uma. André Breton
– para nós essas duas palavras de ordem são apenas uma. André Breton
Karl Marx nasce
em 5 de maio de 1818, em Trier, na Renânia, filho de judeus alemães convertidos
ao cristianismo. Seu pai era um liberal admirador do Iluminismo e a família
Marx tinha como vizinho um alto funcionário do governo da Prússia, barão Ludwig
Von Westphalen, culto aristocrata, pai de Jenny, futura esposa do jovem Marx.
Em 1841, após
alguns anos na universidade – em Bonn e Berlim – onde conhece a obra filosófica
de Hegel, Marx aprova sua tese de doutorado sobre os pensadores gregos
Demócrito e Epicuro, mas o reacionário governo prussiano recusa uma cátedra ao
jovem doutor. Ele assume então a direção do jornal A Gazeta Renana, mas
sua linha editorial democrático radical leva o governo a fechá-lo. Em 1843,
casa-se com Jenny e emigra para Paris, onde conhece Engels, mergulha na
história da Revolução Francesa e do socialismo e na efervescência das
sociedades e dos clubes operários.
Em 1844, Marx
colabora na publicação dos Anais Franco-Alemães e redige os Manuscritos
econômico-filosóficos, também conhecidos como Manuscritos de Paris.
Nessa obra de juventude, Marx define o comunismo como a superação da
“pré-história” humana, e faz uma lúcida previsão:
Para superar
o pensamento da propriedade privada, basta o comunismo pensado. Para suprimir a
propriedade privada efetiva, é necessária uma ação comunista efetiva. A
história virá trazê-la, e aquele movimento que já conhecemos em pensamento como
um movimento que se supera a si mesmo percorrerá na realidade um processo muito
duro e muito extenso.
Em 1845, Marx e
Friederich Engels já haviam estabelecido uma sólida amizade e uma parceria
política e intelectual que duraria décadas, e que se inicia com a elaboração a
quatro mãos de A sagrada família, cujo subtítulo era Crítica de uma
crítica crítica (apresentação sarcástica das idéias metafísicas de alguns
filósofos idealistas alemães), em que definem a essência da sua concepção
humanista e materialista da história:
A história
nada faz, ela “não possui nenhuma riqueza imensa”, “não trava nenhuma batalha”.
É o homem, o homem vivo, real, que faz tudo isto, que possui e luta; a
“história” não é uma pessoa à parte, que usa o homem para seus próprios fins
particulares; a história nada é senão a atividade do homem que persegue seu
objetivo…
Nesse mesmo ano,
expulso da França, Marx vai para Bruxelas, Bélgica. Ele escreve, então, as
geniais e concisas Teses sobre Feuerbach, breves anotações feitas pelo
jovem de 27 anos em seu caderno, marcadas por um humanismo radical e
revolucionário que inaugura a filosofia da práxis. Engels as chamou de “germe
genial de uma nova concepção do mundo”. Com as Teses sobre Feuerbach,
Marx lança as bases de “um novo materialismo”, profundamente dialético e
distinto do materialismo vulgar existente até então. Na tese 2, Marx afirma a
prática como critério de verdade:
A questão de
saber se é preciso conceder ao pensamento humano uma verdade objetiva não é uma
questão de teoria, porém uma questão prática. É na prática que o homem deve
comprovar a verdade, isto é, a realidade efetiva e a força, o caráter terrestre
de seu pensamento.
Na tese 3, a
prática revolucionária aparece como síntese da mudança do mundo e da
autotransformação:
A doutrina
materialista da mudança das circunstâncias e da educação se esquece de que as
circunstâncias são mudadas pelos homens e que o próprio educador deve ser
educado. (…) A coincidência da mudança das circunstâncias e da atividade humana
ou autotransformação só pode ser interpretada e racionalmente compreendida como
prática revolucionária.
E conclui suas
anotações com a célebre tese 11:
Os filósofos
apenas interpretaram o mundo de forma diferente, o que importa é mudá-lo.
Em 1846, Marx e
Engels concluem mais um trabalho conjunto, os dois volumes de A ideologia
alemã. O manuscrito não foi publicado e ficou entregue “à crítica roedora
dos ratos” segundo os próprios autores (sua primeira edição vem a público
apenas no século XX). A ideologia alemã apresenta a definição clássica
sobre a dominação ideológica:
As ideias da
classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes; isto é, a classe que
é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força
espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios de produção
material dispõe, ao mesmo tempo, dos meios de produção espiritual, o que faz
com que a ela sejam submetidas, ao mesmo tempo e em média, as ideias daqueles
aos quais faltam os meios de produção espiritual.
Em 1847, Marx
publica A miséria da filosofia, uma crítica da doutrina contida na
“filosofia da miséria” do pensador anarquista Proudhon. Segundo Engels, A
miséria da filosofia também apresenta “os princípios fundamentais de suas
novas concepções históricas e econômicas”; esboça também a teoria sobre o
sujeito revolucionário:
De todos os
instrumentos de produção, a maior força produtiva é a própria classe
revolucionária. (…) A condição de emancipação da classe operária é a abolição
de todas as classes (…). No transcurso de seu desenvolvimento, a classe
operária substituirá a antiga sociedade civil por uma associação que exclua as
classes e seu antagonismo; e não existirá já em poder político propriamente
dito, pois o poder político é, precisamente, a expressão oficial do antagonismo
de classe, dentro da sociedade civil. Enquanto isso, o antagonismo entre o
proletariado e a burguesia é a luta de uma classe inteira contra outra classe,
luta que, levada a sua mais alta expressão, implica numa revolução total.
Marx e Engels
ingressam na Liga dos Comunistas (antiga Liga dos Justos, organização de
trabalhadores alemães emigrados) e redigem o programa do movimento. O Manifesto
do Partido Comunista fica pronto e é editado no início de 1848, pouco antes
de explodirem as revoluções europeias, a Primavera dos Povos, que apesar da
derrota abre um novo período da luta de classes em escala internacional. Um
espectro ronda a Europa, o espectro do comunismo: assim inicia-se o mais
famoso panfleto político de todos os tempos, que apresenta como pressuposto que
a história de todas as sociedades até o presente é a história das lutas de
classes, resume a dialética da modernidade com a metáfora tudo que é
sólido desmancha no ar, e conclui com a palavra de ordem: Proletários de
todos os países, uni-vos!
Antevisão genial
da globalização capitalista, o Manifesto é mais atual hoje do que há 150
anos. Para o sociólogo Michael Lowy, a atualidade do Manifesto Comunista se
origina de suas qualidades ao mesmo tempo críticas e emancipadoras, isto é, da
unidade indissolúvel entre a análise do capitalismo e o chamado à sua
destruição, entre o exame lúcido das contradições da sociedade burguesa e a
utopia revolucionária de uma sociedade solidária e igualitária.
Ainda em 1848,
Marx e Engels voltam para a Alemanha e se instalam em Colônia, onde lançam o
jornal Nova Gazeta Renana, mas o processo revolucionário reflui e Marx
faz o balanço político do movimento em As lutas de classes na França, no
qual conclui que o fim do ciclo das revoluções burguesas abriria a época das
revoluções proletárias. Em março de 1850, na Mensagem ao Comitê Central da
Liga dos Comunistas, Marx utiliza pela primeira vez o conceito de
“revolução permanente” como o processo que levaria “até a conquista do poder
estatal pelo proletariado” e “não em um único país, mas em todos os países
dominantes do mundo inteiro”.
A partir daí,
Marx fixa residência em Londres, onde passa anos na completa miséria, a ponto
de algumas vezes não poder ir ao Museu Britânico, onde realiza suas pesquisas,
em razão de ser obrigado a penhorar seu casaco de inverno para poder comprar
papel e continuar escrevendo. Em 1852, ele escreve outra obra-prima, O
dezoito brumário de Luis Bonaparte, sobre o golpe de estado de Napoleão III
na França. As suas primeiras linhas são célebres:
Hegel
observa, em uma de suas obras, que todos os fatos e personagens de grande
importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E
esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.
(…) Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a
fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam
diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.
Entre 1857-58,
Marx redige vários manuscritos que dão origem aos chamados Grundrisse
(Esboços da Crítica da Economia Política), que só serão conhecidos um pouco
antes da Segunda Guerra Mundial, publicados pelo Instituto Marx-Engels –Lenin
de Moscou, sem maior divulgação. Devido à sua importância na evolução
intelectual da obra teórica de Marx, os Grundrisse são considerados por
alguns analistas como uma espécie de “elo perdido” entre o “jovem Marx” e a sua
obra da maturidade.
Em 1859, Marx
publica Contribuição à Crítica da Economia Política, e no seu famoso
prefácio resume as linhas gerais da sua concepção materialista da história:
Nas minhas
pesquisas, cheguei à conclusão de que as relações jurídicas – assim como as
formas de Estado – não podem ser compreendidas por si mesmas, nem pela dita
evolução geral do espírito humano, inserindo-se, pelo contrário, nas condições
materiais de existência… A conclusão geral a que cheguei e que, uma vez
adquirida, serviu de fio condutor dos meus estudos, pode formular-se
resumidamente assim: na produção social da sua existência, os homens estabelecem
relações determinadas necessárias, independentes da sua vontade, relações de
produção que correspondem a um determinado grau de desenvolvimento das forças
produtivas materiais. O conjunto dessas relações de produção constitui a
estrutura econômica da sociedade, a base concreta sobre a qual se eleva uma
superestrutura jurídica e política e a qual correspondem determinadas formas de
consciência social. O modo de produção da vida material condiciona o
desenvolvimento da vida social, política e intelectual em geral. Não é a
consciência dos homens que determina o seu ser; é o seu ser social que,
inversamente, determina a sua consciência. Em certo estágio de desenvolvimento,
as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as
relações de produção existentes ou, o que é a sua expressão jurídica, com as
relações de propriedade no seio das quais se tinham movido até então. De formas
de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações transformam-se no seu
entrave. Surge então uma época de revolução social.
Durante sua
primeira década em Londres, o único rendimento de Marx era como colaborador do
jornal Tribuna de Nova York, mas após esse período dificílimo, Engels
garante a ele uma ajuda financeira regular, e um grande amigo, o militante
comunista Wilhelm Wolf, deixa-lhe uma pequena herança. Marx dedica a ele o
primeiro volume de O Capital (1867), que não consegue concluir em vida
(Engels edita o volume II em 1885 e o volume III em 1894). Antes de publicar O
Capital, Marx termina os três volumes intitulados Teorias da mais-valia,
em que analisa criticamente o pensamento teórico sobre a economia política,
particularmente o de Adam Smith e David Ricardo.
Em 1864, um
congresso realizado em Londres funda a Associação Internacional dos Trabalhadores
(Primeira Internacional) e Marx redige o seu Manifesto Inaugural, onde assinala
que a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores.
Durante o breve período de existência da Internacional, Marx se dedica a sua
organização e assume a condição de principal dirigente do Conselho Geral. A
derrota da Comuna de Paris, em 1871, quando o povo parisiense toma o poder na
capital durante mais de dois meses e implanta um governo democrático
revolucionário, mas é esmagado pelo exército francês em um banho de sangue,
sela o destino da Internacional. Para Marx, a Comuna é a primeira “ditadura do
proletariado” da história (baseada no armamento do povo e no voto direto e
universal), e mostra que o governo dos trabalhadores precisa destruir o Estado
burguês e erguer um Estado controlado democraticamente pelos produtores
associados, destinado a desaparecer historicamente junto com a divisão da
sociedade em classes sociais.
Marx presta
homenagem à Comuna de Paris publicando A guerra civil em França, e
propõe ao Congresso da Internacional de 1872, realizado na Holanda, a
transferência da sede da organização para os Estados Unidos, em razão da
repressão generalizada que se segue ao massacre da Comuna; porém, a Primeira
Internacional deixa de funcionar em 1876.
A partir da
década de 1870, declina a capacidade de trabalho de Marx, em face do
agravamento do seu estado de saúde, mas, preocupado com o programa adotado
pelos socialistas alemães, em 1875 escreve a Crítica ao Programa de Gotha:
Entre a
sociedade capitalista e a sociedade comunista media o período da transformação
revolucionária da primeira na segunda. A este período, corresponde também um
período político de transição, cujo Estado não pode ser outro que a ditadura
revolucionária do proletariado.
Em 1882, no
prefácio da edição russa do Manifesto Comunista, Marx realiza uma
previsão ao mesmo tempo heterodoxa (para os padrões do socialismo até então) e
genial: que uma revolução na Rússia pode constituir-se no sinal para a
revolução proletária no Ocidente, de modo que uma complemente a outra. Em
1883, após a morte de sua esposa e de sua filha mais velha, Marx falece e é
enterrado no cemitério de Highgate.
Dois séculos
depois do desaparecimento do “pensador socialista que maior influência exerceu
sobre o pensamento filosófico e social e sobre a própria história da
humanidade”, conforme ressalta verbete do Dicionário do Pensamento Marxista;
após a social-democracia e o stalinismo terem sido remetidos para a “lata do
lixo da história”; e em plena crise sistêmica do capitalismo globalizado, que
já ameaça a continuidade da vida humana no planeta; podemos seguramente
concordar com o marxista norte-americano Marshall Berman: “Marx está vivo. E
vai bem de saúde”.
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