terça-feira, 31 de março de 2020

Coronavírus, por Raoul Vaneigem

Coronavírus, por Raoul Vaneigem
Questionar o perigo do coronavírus é certamente absurdo. Por outro lado, não seria igualmente absurdo o fato de que a interrupção da disseminação das infecções e doenças leve a uma exploração emocional das pessoas e desperte ainda mais a incompetência e a arrogância que já aconteceu nos tempos de guerra nuclear na Europa que se dizia que a nuvem vinda de Chernobyl tinha sido “barrada” na fronteira da França? Certamente, sabemos com que facilidade o fantasma do apocalipse sai de seu esconderijo para capturar o primeiro cataclismo que ocorre e para brincar com as imagens do dilúvio universal e para levar à culpa ao solo estéril de Sodoma e Gomorra.

A maldição divina foi um complemento útil ao poder. Pelo menos até o terremoto de Lisboa de 1755, quando o marquês de Pombal, amigo de Voltaire, aproveitou o terremoto para massacrar os jesuítas, reconstruir a cidade de acordo com suas ideias e liquidar com alegria seus rivais políticos através de testes “proto-estalinistas”. Não vamos a insultar Pombal, por mais odioso que seja, ao comparar seu golpe de estado ditatorial com as miseráveis medidas que o totalitarismo democrático atual aplica em todo o mundo à epidemia de coronavírus.

É muito cinismo culpar a disseminação da pandemia pela deplorável insuficiência dos recursos médicos utilizados! Durante décadas, o bem público foi esquecido e o setor hospitalar foi vítima de uma política que favorece interesses financeiros em detrimento à saúde dos cidadãos. Sempre há mais dinheiro para bancos e muito menos leitos e profissionais da saúde nos hospitais. Quais palhaçadas esconderão ainda mais sob o fato de que a gestão catastrófica, do que já é catastrofismo, é inerente ao capitalismo financeiro que é globalmente dominante; e que hoje luta globalmente em nome da vida, do planeta e das espécies a serem salvas.

Sem cair no ressurgimento do castigo divino, que é a ideia de que a Natureza se livra do Homem como um verme indesejável e prejudicial, não é inútil se lembrar que, por milênios, a exploração da natureza humana e da natureza terrestre impôs o dogma do  anti-físico, da anti-natureza. O livro de Éric Postaire ‘Les Épidémies Du XXIe siècle’, publicado em 1997, confirma os efeitos desastrosos da desnaturalizão persistente, que venho denunciando há décadas. Referindo-se ao drama das “vacas loucas” (previsto por Rudolf Steiner já em 1920), o autor nos lembra que, além de estarmos indefesos contra certas doenças, percebemos que o próprio progresso científico pode causá-las. Em seu apelo por uma abordagem responsável das epidemias e seu tratamento, ele incrimina o que o prefeito Claude Gudin chama de “filosofia da caixa registrado”. Faz a seguinte pergunta: “Se subordinarmos a saúde da população às leis de benefício, a ponto de transformar animais herbívoros em carnívoros, não correremos o risco de causar catástrofes que seriam fatais para a Natureza e a Humanidade? Os governos, como sabemos, já responderam com um SIM unânime. Qual a importância disso já que o NÃO dos interesses financeiros continua a triunfar cinicamente?

O coronavírus foi necessário para demonstrar de maneira mais estreita que a desnaturalizão por razões de lucratividade tem consequências desastrosas para a saúde de todas as pessoas, saúde gerenciada sem desarmar a uma Organização Mundial cujas preciosas estatísticas explicam o desaparecimento de hospitais públicos? Existe uma clara correlação entre o coronavírus e o colapso do capitalismo global. Ao mesmo tempo, não é menos óbvio que o que está encobrindo e esmagando a epidemia de coronavírus é uma praga emocional, um medo histérico, um pânico que esconde a falta de tratamento e perpetua o mal ao assustar o paciente. Durante as grandes epidemias de pestes do passado, as pessoas faziam penitencia e se autoflagelavam para retirarem suas culpas.  Não interessam aos gestores da desumanização global convencer as pessoas de que não há como escapar do destino miserável que lhes é imposto? Que tudo o que resta é o flagelo da servidão voluntária? A formidável máquina da mídia repete apenas repete a velha mentira do impenetrável e inescapável decreto celestial, no qual o dinheiro louco substituiu os Deuses do passado, os quais eram sedentos de sangue, instáveis e teimosos.

O desencadeamento da barbárie policial contra manifestantes pacíficos demonstrou amplamente que a lei militar é a única coisa que funciona efetivamente. Agora ela confina mulheres, homens e crianças à quarentena. Lá fora, o caixão; dentro da televisão, a janela aberta em um mundo fechado! É um condicionamento capaz de agravar o desconforto existencial, apoiando-se nas emoções desgastadas pela angústia, exacerbando a cegueira de uma raiva impotente.

Porém, mesmo a mentira dá lugar ao colapso geral. A cretinice estatal e populista atingiu seus limites. Não se pode negar que um experimento está sendo realizado. A desobediência civil está se espalhando e sonhando com sociedades radicalmente novas porque são radicalmente humanas. A solidariedade liberta a pele de ovelha individualista que cobria aos indivíduos, os quais não têm mais medo de pensar por conta própria.

O coronavírus se tornou o sinal revelador da falência do Estado. Pelo menos é algo que as vítimas de confinamento forçado devem pensar. Quando publiquei minhas “Modestes propositions aux grévistes”, alguns amigos me disseram como era difícil recorrer à recusa coletiva, que sugeri, para pagar impostos e taxas. Agora, no entanto, a comprovada falência do Estado corrupto é prova de um declínio econômico e social que está fazendo com que as pequenas e médias empresas, o comércio local, os pequenos proprietários, os agricultores familiares e até as chamadas profissões liberais absolutamente inadimplentes. O colapso do Leviatã conseguiu nos convencer mais rápido do que nossas resoluções para derrubá-lo.

O coronavírus fez ainda melhor. A cessação das atividades produtivas reduziu a poluição do mundo, salva milhões de pessoas da morte programada, a natureza respira, os golfinhos se divertem novamente na Sardenha, os canais de Veneza purificados do turismo de massa encontram água limpa, a bolsa de valores cai. A Espanha decide nacionalizar hospitais privados, como se redescobrisse a seguridade social, como se o Estado se lembrasse do Estado de bem-estar que ele mesmo destruiu.

Nada é dado como certo, tudo recomeça. A utopia continua caminhando por quatro patas. Vamos abandonar à sua inanidade celestial os bilhões de bilhetes e idéias vazias que circulam em nossas cabeças. O importante é “fazer nosso próprio negócio”, deixando que a bolha dos negócios se desfaça e imploda. Vamos tomar cuidado com a falta de ousadia e autoconfiança em nós mesmos!

Nosso presente não é o confinamento que a sobrevivência nos impõe, é a abertura a todas as possibilidades. É sob o efeito do pânico que o Estado oligárquico é forçado a adotar medidas que ontem declarou serem impossíveis. É o chamado da vida e da terra a serem restaurados que queremos responder. Quarentena incentiva a reflexão. O confinamento não suprime a presença da rua, ela a reinventa. Deixe-me pensar, com alguma ressalva, que a insurreição da vida cotidiana tem insuspeitas virtudes terapêuticas.

Terça-feira, 17 de março de 2020

Raoul Vaneigem

Tradução > Uma Mulher Anarquista

Fonte: https://lundi.am/Coronavirus-Raoul-Vaneigem

agência de notícias anarquistas-ana

Borboleta grande
Balançando comigo
Na rede do quintal.


Letícia Carlim de Oliveira – 9 anos

Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/03/31/franca-coronavirus-por-raoul-vaneigem/

quarta-feira, 18 de março de 2020

Jota Camelo

Fonte: https://twitter.com/ojotacamelo

domingo, 15 de março de 2020

segunda-feira, 9 de março de 2020

Latuff o legítimo !!!!

Fonte: https://twitter.com/LatuffCartoons

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Deixaram agora segura ...

Fonte: https://twitter.com/LatuffCartoons

ALERTA! Um novo golpe contra Mumia Abu-Jamal – por A.N.A.

ALERTA! Um novo golpe contra Mumia Abu-Jamal
A Suprema Corte da Pensilvânia assume o controle do caso de Mumia Abu-Jamal.

Esta é sua resposta à petição para “alívio extraordinário” apresentada por Maureen Faulkner e a Ordem Fraternal da Polícia (FOP) o ano passado para bloquear as apelações de Mumia.

Nesta segunda-feira (27/02), a Suprema Corte do estado da Pensilvânia, um bastião direitista de racismo e corrupção, anunciou que designaria um ‘mestre especial’ para investigar se o Promotor progressista Larry Krasner tem um conflito de interesses no exercício do caso. Um porta-voz disse que a decisão final sobre o fundo da petição seria deferida até receber as recomendações do mestre.

Esclarecemos que Maureen é a viúva do policial branco Daniel Faulkner, assassinado em 9 de dezembro de 1981. Mumia foi injustamente condenado à morte por isto apesar de sua inocência. Passou quase três décadas no isolamento do corredor da morte.

Desde outubro de 2011, viveu em população geral com a sentença de prisão perpétua, lutando desde sua cela com suas palavras de resistência e solidariedade.

Cabe assinalar que Krasner originalmente havia rechaçado as apelações de Mumia, mas em setembro do ano passado deixou sua oposição e sua Promotoria aprovou uma audiência de provas para apresentar evidência favorável a Mumia que havia sido suprimida. Com isto, Faulkner e a FOP começaram a atacá-lo.

Em apoio a sua solicitação, os inimigos principais de Mumia fizeram o ridículo argumento que Krasner era um advogado que representava os movimentos sociais e que defendeu os manifestantes detidos por agressão à polícia e vandalismo durante a Convenção Nacional Republicana de 2000 na Filadélfia. Os manifestantes no momento também mostraram seu apoio para Mumia, pedindo sua liberdade da prisão.

Por isso, disseram Maureen e a FOP, Krasner mostrava um conflito de interesses no caso de Mumia.

Um porta-voz da Promotoria respondeu que estes argumentos não tem sentido e contêm falácias na lógica.

Os inimigos de Mumia sempre fizeram todo o possível para assassiná-lo de uma maneira ou de outra. Perderam todas as suas apelações recentes e esta nova manobra é um esforço a mais para assegurar que morra na prisão.

Para nós, Mumia é uma inspiração – mestre, jornalista, historiador, analista, companheiro e irmão amado. Agora redobraremos nossos esforços para ganhar sua liberdade!

FREE MUMIA NOW!
MUMIA LIVRE JÁ!

Tradução > Sol de Abril

Conteúdo relacionado:
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/02/11/eua-mumia-abu-jamal/

agência de notícias anarquistas-ana

tomando banho só
no riacho escondido –
cantos de bem-te-vis

Rosa Clement

Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/02/27/eua-alerta-um-novo-golpe-contra-mumia-abu-jamal/

A luta pelo poder ...

Fonte: https://twitter.com/JSCCounterPunch/status/1232859591345491969

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Delbert Africa Livre! – por Mumia Abu-Jamal

Delbert Africa Livre!
O membro do MOVE Delbert Africa, encarcerado desde o confronto do 8 de agosto de 1978, saiu de uma prisão no estado da Pensilvânia após 42 anos.
Assim que saiu, Delbert, aos 69 anos, encontrou-se com outros membros da Organização MOVE: Ramona, Pam, Janet, Janine, Mo, Mary, Carlos e Consuelo Africa, que o receberam com um coro forte de ‘Viva John Africa” e saudações do MOVE. Del estava animado e de bom humor, contando piadas e comendo bolos.
O 8 de agosto de 1978 foi um dia infame pelo ataque à casa coletiva do MOVE na comunidade Powelton Village, no oeste da Filadélfia. Centenas de policiais dispararam milhares de balas contra a casa onde homens, mulheres, meninas e meninos estavam no porão. Então eles jogaram canhões de jatos de água, e o pessoal do MOVE teve que lutar para permanecer vivo naquele lugar e não morrer afogado.
Ao sair da casa, Delbert foi espancado com fuzis por vários policiais, pisoteado e brutalmente chutado.
Quando alguns dos policiais foram acusados de agredir Del, eles não tinham com o que se preocupar. O juiz Stanley Kubacki ignorou os vídeos do ataque e os livrou, mencionando, entre outras coisas, os músculos de Delbert para justificar o espancamento.
Ironicamente, um dos policiais poderia ter tido mais sorte se ele fosse mandado para a prisão, porque várias semanas após o julgamento, sua própria esposa, também policial, atirou nele, deixando-o paralítico.
Delbert Africa, membro do MOVE, agora caminha livre após passar 42 anos na prisão.
Desde a nação encarcerada, sou Mumia Abu-Jamal.
Segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

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agência de notícias anarquistas-ana

Luz do luar –
As águas brilhando
no véu da cachoeira!
Bruno Mateus da Silva Castanheira – 10 anos

Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/02/05/eua-delbert-africa-livre/

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Feliz 2020 !!!

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domingo, 22 de dezembro de 2019

O ovo da serpente - por Jota Camelo

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Boas Festas com o chocolate da famiglia: RACHADINHA! - por Latuff

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Os 10 anarquistas mais marcantes da história e seus pensamentos – por André Nogueira

Os 10 anarquistas mais marcantes da história e seus pensamentos
De Bakunin a Nechayev, o movimento anarquista possui correntes diferentes e até opostas, mas o objetivo ainda é uma sociedade sem Estado e desigualdades.

Uma das mais radicais ideologias de esquerda, o anarquismo visa, principalmente, o fim de todo e qualquer tipo de dominação. Críticos ferrenhos do capitalismo e do próprio Estado, os anarquistas tem como horizonte uma sociedade baseada na auto-gestão e na cooperação entre seus integrantes. Para alcançá-la, porém, teóricos do movimento discordam e concordam entre si, criando diferentes vertentes dentro da ideologia revolucionária.

Conheça alguns dos principais nomes do anarquismo no mundo.

1. Piotr Kropotkin – Anarco-comunismo
Nascido numa abastada família nobre da Rússia, Kropotkin (1842-1921) é considerado por muitos o fundador do anarco-comunismo pacifista. Geógrafo, tinha uma visão racionalista e organizada do anarquismo, em que a violência e os símbolos do anarquismo, como a bandeira negra e a caveira, deveriam ser deixados de lado.

De tendências mutualistas, o anarquista russo abominava a violência e acreditava num mundo sem desigualdades baseado na dissolução do Estado e na cooperação voluntária e mútua entre homens livres, onde o salário não seria relevante e as ações sociais se pautassem na necessidade popular.

2. Pierre-Joseph Proudhon – Mutualismo
Também ligado ao pacifismo, Proudhon (1809-1865) foi economista e teórico político que carregava uma descrença na revolução violenta, creditando a desobediência civil como método correto. Como um dos fundamentadores de termos básicos do anarquismo, (mutualismo, cooperativas de crédito e federalismo) ele foi um dos primeiros a se autodeclarar anarquista, sendo chamado de socialista utópico por Marx, de quem foi próximo.

Proudhon escreveu diversos textos sobre a propriedade privada, chegando à famosa frase “A propriedade é um roubo!”. De tendências pragmáticas, sua ideologia seguiu o objetivo de encontrar alternativas cabíveis à realidade capitalista, defendendo a criação de cooperativas e um banco operário. Entretanto, suas obras não sobreviveram as oposições do próprio movimento.

3. Mikhail Bakunin – Coletivismo
Um dos maiores nomes do anarquismo, o revolucionário russo tinha como principio norteador a noção de liberdade, onde os militantes de esquerda deveriam lutar sem cair na armadilha de se tornarem os próximos tiranos. Assim, teve uma forte desavença com Marx, seu amigo pessoal, criticando o autoritarismo da proposta socialista.

Sua principal contribuição foi a conceitualização de coletividade, que é vista por ele como elemento essencial da liberdade. Na visão coletivista, que é bastante crítica a Proudhon, indivíduo e a sociedade são categorias defensáveis e com relações, e Bakunin (1814-1876) propõe uma análise dialética que permita o entendimento da sociedade capitalista com o objetivo de destruir o Estado e a propriedade privada.

4. Lev Tolstoi – Anarquismo cristão
Entrando para a História como um dos maiores escritores da Rússia e do mundo, Tolstói (1828-1910) foi também um teórico do anarquismo. Partindo de uma teologia política, ele acreditava que a corrente, como realidade social sem desigualdades e baseada na humanização das relações, era um elemento básico para a leitura dos Evangelhos.

A singularidade do russo está na superação da esquerda cristã do século 19, que defendia o fim das estruturas sem citar alternativas, enquanto Tolstói era a favor do fim da sociedade ortodoxa com o objetivo de atingir um Governo Soberano de Deus, com princípios anarquistas. Pacifista vegano, ele entendia que um dos principais problemas da Rússia era a dominação da população civil por um Estado fundido à Igreja.

5. Errico Malatesta – Voluntarismo
Com mais de 60 anos de militância anarquista, é difícil estabelecer o pensamento conciso do autor. Um dos principais elementos necessários é: Malatesta, que era essencialmente pragmático. Não tinha o objetivo de ser um teórico da política, ele foi um importante agente político em favor de greves e insurgências na Itália.

Defensor da noção pura de anarquismo, ele defendia não só o fim do Estado, mas o fim dos governos e, portanto, da ordem padronizada. A sociedade anarquista seria baseada na ação voluntária.

Negando as correntes hiper-racionalistas e futuristas no anarquismo, Malatesta defendia que é impossível se fundamentar uma sociedade sem moral, e que ela não deveria ser um alvo em si dos anarquistas. Ou seja, mais do que querer um mundo sem moral, era necessário extinguir a moral burguesa e fundamentar uma comunidade em que todos seriam legitimados pela cooperação interna dela.

6. José Oiticica – Anarquismo no Brasil
Mais conhecido como um profissional das letras do que teórico do anarquismo, Oiticica (1882-1957) entrou para a História do Brasil por suas atuações em São Paulo em nome da melhoria da vida dos trabalhadores e a criação de uma comunidade autônoma e igualitária.

Deixou sua marca durante a Greve Geral de 1918, inspirada na Revolução Russa. Além disso, foi jornalista, dramaturgo e poeta, criando e mantendo veículos que difundiam arte e discussões políticas do anarquismo.

Oiticica também tem relevância na História da Educação, pois foi um dos principais nomes da organização das Escolas Anarquistas do ABC, em que uniu as necessidades populares dos operários a quem ensinava com os princípios da sociabilidade anticapitalista, desenvolvendo um projeto de ensino e alfabetização verdadeiramente revolucionário.

7. Sergey Nechayev – Anarquismo Niilista
Um dos nomes mais renegados do anarquismo, Nechayev (1847-1882) integrou a uma espécie de escola conhecida como Anarquismo Niilista, que ao mesmo tempo em que não via sentido inexorável em nenhuma instância da vida, também negava uma forma única e funcional de realizar uma revolução. Para ele, a ordem era: fomentar a mudança utilizando qualquer meio necessário. Ou seja, violência política e terrorismo eram opções.

8. Emma Goldman – Anarcafeminismo
Nascida na Lituânia, Goldman (1869-1940) foi uma importante fomentadora de movimentos trabalhistas na América do Norte e creditada pela relevante união entre anarquismo e feminismo. Escreveu sobre temas diversos, como o capitalismo, as prisões, liberdade de expressão, aborto e contracepção, militarismo, casamento, amor livre, educação e homossexualidade. Sempre carregava um livro consigo, sabendo da possibilidade de ser injustamente presa.

Uma das pioneiras da luta pela emancipação das mulheres nos EUA e Canadá, ela é responsável por diversos ensaios e conferências que reuniam milhares de pessoas. Nunca separou a questão de gênero da questão de classe, associando sua luta de emancipação às questões sindicais, laborais e legais.

9. Buenaventura Durruti – Anarco-sindicalismo
Esse importante sindicalista espanhol foi um dos principais líderes da esquerda durante a resistência contra Franco na Guerra Civil Espanhola, comandando milhares de pessoas numa coluna que foi o maior agrupamento militar do período.

Um exímio crítico às estruturas engessadas da esquerda e ao pistoleirismo patronal das centrais sindicais espanholas, Durruti (1896-1936) destacando-se na Confederación Nacional del Trabajo, de caráter anarquista.

Seu papel operacional ganhou destaque na formação das milícias anarquistas que colaboraram com os republicanos no combate ao fascismo. Nunca escreveu nenhum tratado sobre o anarquismo e não se dedicou a uma teoria, mas sua atuação e seu legado são reconhecidos pelos grandes anarquistas, principalmente por ser de origem humilde, trabalhar como operário e organizar a insurgência armada.

10. Nestor Makhno – Plataformismo
O importante organizador militar da Ucrânia marcou a historia do anarquismo por seu confronto direto não apenas com os czaristas e conservadores, mas também com os antigos aliados comunistas durante a Guerra Civil Russa. Contra o autoritarismo de Lenin, comandou a Revolução Ucraniana, onde, a partir dos ideais anarco-comunistas, desenvolveu uma comunidade com pretensões igualitárias.

Quando foi exilado da Rússia, durante os expurgos bolcheviques, se deu conta do nível de desorganização de sua unidade, fazendo-o refletir e estabelecer a doutrina plataformista.

Segundo Makhno (1888-1934), faz-se necessário um nível organizativo e disciplinar sério para o sucesso do projeto anarquista, ou seja, a estruturação prática militar faz parte do projeto de emancipação, em que a unidade de libertação possui coesões ideológicas e de projeto, mas alguém dita as ordens táticas. “Fazer do anarquismo na luta de classes não uma questão episódica, mas um fator relevante”.

Saiba mais sobre anarquismo pelas obras abaixo:

1. Notas sobre o anarquismo, de Noam Chomsky – https://amzn.to/37LeH1V

2. Os Grandes escritos anarquistas, de George Woodcock – https://amzn.to/37KDB1C

3. História do Anarquismo, de Jean Préposiet – https://amzn.to/37IsshV

4. Anarquismo: O que significa?, de Emma Goldman – https://amzn.to/2qTyQ5g


Fonte: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/conheca-os-10-anarquistas-mais-marcantes-da-historia-e-seus-pensamentos.phtml

agência de notícias anarquistas-ana

Som do vento, apenas…
E, na árvore, uma coruja —
Início de noite.


Marco Aurélio Goulart

Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/12/19/os-10-anarquistas-mais-marcantes-da-historia-e-seus-pensamentos/

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

domingo, 24 de novembro de 2019

Notas sobre um país em dissolução – por A.N.A.

Notas sobre um país em dissolução
1. Quatro moradores de rua mortos por ENVENENAMENTO em Barueri (SP).

2. Uma moradora de rua EXECUTADA a tiros em Niterói (RJ) por ter pedido R$ 1.

3. Um morador de rua ESPANCADO por moradores do Belém, Zona Leste de São Paulo (SP), apenas por estar deitado na rua.

4. Um morador de rua EXECUTADO por um PM (Polícia Militar) em uma suposta tentativa de assalto em São José dos Campos (SP).

5. Prefeitura de São Paulo cria 100 novas equipes do RAPA, que não passa do ROUBO diário e sistemático dos pertences (roupas, cobertores, alimentos, documentos, medicamentos e instrumentos de trabalho) dos mais pobres entre os pobres.

TODOS os casos ocorreram nos últimos TRÊS dias.

Observatório do Povo da Rua

agência de notícias anarquistas-ana

As tartarugas do lago
Ora comem, ora não comem,
Nestes longos dias de primavera.


Issa

Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/11/22/notas-sobre-um-pais-em-dissolucao/

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

A X Feira Anarquista de São Paulo está chegando! – by A.N.A.

A X Feira Anarquista de São Paulo está chegando!
Os coletivos Ativismo ABC, Biblioteca Terra Livre, CCS e Nelca organizam a X Feira Anarquista de São Paulo, dando continuidade ao já tradicional encontro anual de anarquistas e simpatizantes do mundo inteiro.

Na edição deste ano, assim como nas anteriores, acontecerá mostra editorial e venda de livros, jornais, revistas, fanzines e outros materiais libertários. A Feira de São Paulo pretende reunir editoras libertárias do país e do exterior.

Paralelamente à mostra editorial haverá palestras e debates, assim como diversas atividades culturais, como exposições, poesias, apresentações teatrais, musicais e outras atividades.

Todas e todos estão convidados!

> Data: Domingo – 17 de novembro de 2019

> Horário: das 10h às 20h

> Local: Espaço Cultural Tendal da Lapa

Rua Constança, 72 – Lapa, São Paulo/SP.
Próximo à estação de trem e terminal de ônibus Lapa.

Entrada Gratuita.

Organização:
Ativismo ABC | Biblioteca Terra Livre | Centro de Cultura Social | Nelca

feiranarquistasp.wordpress.com

agência de notícias anarquistas-ana

Nem uma brisa:
o gosto de sol quente
nas framboesas



Betty Drevniok

Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/page/2/

terça-feira, 11 de junho de 2019

Nesta sexta-feira, dia 14 de Junho, o #Brasil vai PARAR contra os ataques do (des)governo Bolsonaro! - por Latuff

Fonte: https://twitter.com/LatuffCartoons

Um chamado anarquista à Greve Geral de 14 de Julho de 2019 – por A.N.A.

Um chamado anarquista à Greve Geral de 14 de Julho de 2019
Às Barricadas!
“(…)Os trabalhadores são explorados e oprimidos porque, estando desorganizados em tudo que concerne à proteção de seus interesses, são coagidos, pela fome ou pela violência brutal, a fazer o que os dominadores, em proveito dos quais a sociedade atual está organizada, querem. Os trabalhadores se oferecem, eles próprios (enquanto soldado e capital), à força que os subjuga. Nunca poderão se emancipar enquanto não tiverem encontrado na união a força moral, a força econômica e a força física que são necessárias para abater a força organizada dos opressores.”
A ORGANIZAÇÃO DAS MASSAS OPERÁRIAS CONTRA O GOVERNO E OS PATRÕES
Agitazione d’Ancone, 1897
Errico Malatesta
O mundo assiste a crescente ascensão da extrema-direita ao poder com olhares perdidos em meio à tanta desinformação. Não poderia ser diferente no Brasil, onde ainda vivemos um período pós-colonial com forças dominantes afins aos discursos de ódio que atacam as liberdades e o pensamento libertário como um todo. Este país sofre com o apagar de suas muitas identidades culturas há séculos, portanto não trata-se aqui de apontar alguma novidade. Porém, é necessário compreendermos que a imposição das classes dominantes nunca foi silenciosa ou permissiva, como muitos parecem acreditar em meio à tanta incredulidade e paralisia.
A pólvora acesa em 2013 deve seu rastilho às muitas revoltas sangrentas que nós, exploradas e explorados, enfrentamos desde a chegada dos colonizadores, e diferentemente do que argumenta a esquerda reformista institucional, a semente protofascista vem sendo cultivada por décadas e décadas com políticas vindas de governos da social democracia e ditos de esquerda e não pela insurreição nas ruas em 2013, como assim acusam os partidários da esquerda que insistem em dizer que a culpa da queda dos seus líderes foi a massiva organização popular nesse período assim como o surgimento do fascismo no país. E se a memória recente nos trás este ano emblemático, talvez seja porque nas ruas, nas avenidas e noites de barricada, conseguimos entrever uma possibilidade, uma alternativa de luta contra o que está posto enquanto status quo. Nunca começou naquele ano, mas também nunca terminou após o mesmo. Vemos companheiras e companheiros entregues ao conformismo dos tempos de Bolsonaro na presidência da república e os novos (e velhos) fascistas desfilando abertamente suas práticas de terror em toda a sociedade. De fato, mesmo nos espaços mais periféricos das capitais e cidades mais industrializadas, nunca vimos uma explosão de violência, ódio e disputas tão expressivas como vemos agora. Essa barbárie, tão bem profetizada por Rosa Luxemburgo em seus escritos, não acontece sem motivo ou por simples erros de gestão pública. A barbárie é fruto do sistema de classes que, ano após ano, cria raízes cada vez mais profundas na mentalidade do povo brasileiro. É necessário o ódio a si mesmo, ao produto que nos tornamos graças ao processo de exploração e destituição permanente de uma sociedade refém do capital global. Tal ódio estimula o afastamento, a individualização acentuada, a falsa ideia da ineficácia de tudo que se diz social. Inclusive, neste sentido, o governo de Jair Bolsonaro expõe publicamente, todos os dias, sua completa negação às ideologias de cunho social.
Na esteira do projeto de destruir o Brasil enquanto país independente dos jogos econômicos de agendas dominantes, encontramos mais um ataque ao povo: a reforma da previdência. Não é mero acaso que assistimos o desmonte da educação pública alcançar níveis alarmantes enquanto nos aproximamos da derradeira votação acerca da reforma da previdência. O governo que defende um projeto de país que seja apenas colônia de países desenvolvidos precisa atacar a educação pública, sobretudo as universidades públicas, pois é neste espaço que o pensamento livre encontra meios de fortalecimento e criação de alternativas aos discursos totalizantes que hoje espalham-se como pólen por todo o território brasileiro. A perversão está em transformar um debate tão sério em cortina de fumaça para manter as amarras acerca da reforma da previdência sobre total controle nos bastidores do poder. E não devemos nos enganar em acreditar que a imprensa empresarial está ao lado dos explorados, muito pelo contrário. Se hoje, empresas como a Rede Globo mantém um ataque sistemático ao governo e demonstram dúvida da capacidade de articulação para forçar a aprovação da reforma da previdência, é justamente porque a audiência desse conflito é de interesse destas empresas de comunicação. É óbvio que as mesmas defendem uma reforma que beneficiará grandes corporações em detrimento da sociedade. Porém, estas mesmas corporações entendem que podem lucrar tanto na via da aprovação quanto na via do falso destaque às oposições. À Rede Globo não importa se a extrema-direita ou a esquerda institucional estão brigando, o importante é a briga. E nisso, a população explorada segue perdida em nuvens de informação e falsas afirmativas, aumentando seu ódio pelas coletividades e seu afastamento das lutas sociais.
Exatamente pelas questões resumidamente apresentadas é que acreditamos na necessidade dos anarquistas apostarem na constante inserção nos meios sociais de luta contra a exploração dos governos e o fascismo latente da extrema-direita brasileira. Não é no isolamento ou em algum exílio autoimposto que conseguiremos romper a bolha criada pela mídia capitalista e pelo bombardeio de fake news dos grupos pró-Bolsonaro. A compreensão sobre os fatos e o apoio popular não se refletem em likes ou demonstração de interesse em eventos de facebook. É preciso reinventar a militância anarquista no Brasil e retomarmos a compreensão de que o anarquismo se constrói no cotidiano da vida dos trabalhadores. É preciso refazer o caminho rumo aos trabalhos de base, mas não com as falsas fantasias das organizações fantasmas. Ter uma base significa pertencimento. É preciso entender que o anarquista só exercita suas práticas se está em constante diálogo com a população, ainda que isso signifique estar só no meio de tantas opiniões e discursos diferentes. E que fique bem claro: isso não é o mesmo que abrir canal de diálogo com fascistas, pois subentende-se aqui que o diálogo defendido é com o povo explorado, exausto de tanta opressão e que almeja a luta contra o sistema dominante.
Eis aqui um chamado anarquista para a construção da greve geral. Compreendemos que esse processo não é feito de forma imediatista, tampouco acreditamos que algumas semanas sejam o suficiente para uma greve expressiva. Entretanto, o silêncio não é uma opção para os que acreditam em tudo o que dissemos até aqui. E se o dia 14 de Julho já está posto como mais uma chance, então devemos abraçar tal chamado e nos organizarmos para além dele. Fazemos aqui um chamado para as barricadas, para a sabotagem, para a construção da guerra social contra as classes que dominam e  corroem as estruturas da sociedade brasileira. Convocamos aqui os anarquistas à luta, ao trabalho permanente pela libertação dos explorados!
Esmaguemos o fascismo!
Que os governos voltem a temer a anarquia!
“Hoje se exige imperiosamente uma decisão de nossa parte: ir para as massas e criar a revolução com elas, ou então abster-se e renunciar à revolução social”
Nestor Makhno
Liberdade para Rafael Braga!
“Que as chamas da insurreição iluminem o caminho para a liberdade”
R.I.A
Conteúdo relacionado:
agência de notícias anarquistas-ana
Limpo e lavo o túmulo,
mas no fundo de minha alma,
meus íntimos vivem…
H. Masuda Goga
Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Latuff e a máquina de fake news de Bolsonaro ...

Fonte: https://twitter.com/LatuffCartoons

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Esse é o Brasil que os acéfalos querem ... ódio... preconceito ... intolerância ... discriminação ... e mortes!!! Acorda Brasil!!!

Aos gritos de “Bolsonaro”, travesti é morta a facadas no centro de SP

Testemunhas relatam que quatro homens, aos gritos de "Bolsonaro" e "Ele sim", entraram em discussão com uma travesti em um bar no centro de São Paulo e a esfaquearam antes de fugir; vítima não resistiu e morreu a caminho do hospital
https://www.revistaforum.com.br/aos-gritos-de-bolsonaro-travesti-e-morta-a-facadas-no-centro-de-sp/


Candidato fascista à presidência do Brasil é elogiado por @DrDavidDuke , líder da gangue racista Ku Klux Klan. Não entendeu? Tá bem, eu desenho - por Latuff

Fonte: https://twitter.com/LatuffCartoons

Olavo de Carvalho, o “ideólogo de Bolsonaro”, contra o professor Haddad - Por Christian Ingo Lenz Dunker.

Olavo de Carvalho, o “ideólogo de Bolsonaro”, contra o professor Haddad

Olavo critica o pós-modernismo, o multiculturalismo e o politicamente correto porque ele é seu maior praticante, no sentido corrompido do termo. É assim que opera um fake thinker, um falso pensador caçador de patos: não é só falta de rigor ou pirotecnia retórica, é a corrupção como irresponsabilidade intelectual.
Todos os regimes, piores ou melhores, têm o seu ideólogo. Em geral ele não é alguém muito respeitado em sua área ou situa-se perifericamente em relação aos seus pares. Sua função é dupla: justificar as arbitrariedades de quem ele se aproveita para criar projeção e traduzir as mensagens do líder de modo a criar vantagens estratégicas para seus adeptos no exercício do pequeno poder cotidiano. Em geral, o ideólogo não se forma nas fileiras no partido ou nas ideias diretas de seu mestre, mas se aproveita da flutuação de seus pontos de vista para encaixar uma afinidade de circunstâncias. Isso é possível porque a função do ideólogo é sobretudo suspender ou desestabilizar os sistemas que garantem a legitimidade e a autoridade que atribuímos a certas formas de saber.

Por exemplo: o saber jurídico da República de Weimar foi neutralizado por um ideólogo como Roland Freisler, durante a ascensão do nazismo1; o saber universitário americano foi controlado por um ideólogo como Joseph McCarthy, no início da guerra fria; o saber artístico e intelectual soviético foi destroçado por Andrei Jdanov, durante a ascensão do stalinismo. Todos eles eram pensadores medíocres, mas que sabiam usar uma oscilação de tom que os permitia fazer alusões impressivas ao lado de palavras chulas gerando um efeito de autenticidade. Podiam ser também eruditos e especialistas em apenas uma área, mas que transferiam sua autoridade para problemas nos quais não eram realmente estudiosos.
Bolsonaro possui alguém que se comporta dessa maneira e que age conforme os requisitos para o cargo – tanto que foi devidamente reconhecido pelo filho do deputado pelos serviços prestados à candidatura do pai. Olavo de Carvalho possui uma longa ficha de desmascaramentos e refutações marcada pelo exercício continuado da improbidade filosófica. O fato de que ele não tem nenhuma formação regular, como uma graduação em ciências humanas, nem mestrado nem doutorado, não deveria ser um empecilho, afinal existiram muitos bons pensadores que vieram de fora do sistema universitário ou permaneceram em sua periferia. É por isso que o fato de que seus primeiros trabalhos foram sobre astrologia2, que ele tenha sido militante comunista e adepto da seita islâmica Tariqa, que hoje viva refugiado nos Estados Unidos, não o desabonam, mas criam os traços ideais para representar o papel de alguém antissistema, independente e fora da academia. Ele tem o que parece ser suficiente para que acreditemos nele: passagens pelas grandes redações de jornais e revistas, a partir da qual criou-se um grupo de pessoas que gostam de suas ideias. Isso confere uma vantagem grande ao personagem, pois ele poderá desfazer de saberes eruditos, complexos e sempre em controvérsia relativa, como a ciência e a filosofia profissional, representando a sabedoria do homem comum, confirmando seus preconceitos e transferindo convicção e autoridade para aquilo que as pessoas já pensam.

Um ideólogo alimenta-se de oposições, controvérsias e ofensas porque isso cria inimigos necessários para manter uma crença viva, instala uma solidariedade composta pelo ódio e aproveita-se do sentimento de inferioridade intelectual que habita muitas pessoas. Qualquer ataque à sua obra apenas confirma sua situação de pária e injustiçado intelectual e apenas aumenta a aura de perseguido, com a qual se afiniza com as massas. O truque do piques funciona assim: para influenciar meus adeptos uso palavras difíceis, citações e títulos extravagantes ou valho-me da participação em eventos semi-científicos como o Congresso Brasil Paralelo, que contou com mais de sessenta influentes participantes, entre eles nomes como Ronaldo Caiado, Onyx Lorenzoni e Gilmar Mendes que explanaram sobre a realidade do Brasil pelo ponto de vista liberal-conservador3. Repare que a palavra chave é influência, ainda que esta venha pela associação com a notabilidade suspeita do rol elencado. A ideia aqui é que você pode tornar-se sábio por contágio, como se a cultura e o pensamento funcionassem ao modo da revista Caras. Toda vez que alguém acusar a inconsistência de suas ideias, recorra à sua pessoa, ou à do seu crítico. Toda a vez que se aponta a inconsistência de sua pessoa, recorra às suas obscuras ideias incompreendidas. Se nenhuma das duas anteriores der certo, apele para palavrões. “Cu”, “buceta” e “cagada” são expressões recorrentes de nosso autor para exprimir seus conceitos e qualificar seus adversários4.
Mas então como mostrar que Olavo de Carvalho é um fake thinker? Qualquer crítica desse tipo será neutralizada pelo argumento de que eu mesmo sou um professor titular da USP, esse antro de esquerdistas incultos e comprados pelo sistema petista. Se digo o que digo só pode ser por interesse pessoal em preservar meus privilégios, de perpetuar a hegemonia cultural, “tal como Marx e Gramsci propunham”. Ou seja, vale tudo. De um lado, critico o relativismo e a pós-modernidade, de outro me autorizo a falar qualquer coisa porque a verdade virou uma questão de maioria de opinião e de número de adeptos. As ciências humanas comportam uma variedade de tradições e entendimentos, o que dá margem para as posições mais heterodoxas.

Examinemos o problema de um ponto de vista muito tosco e elementar, mas não obstante objetivo. Há um sistema imparcial que agrega e compara essa variedade de posições própria ao campo da ciência, validando o valor e a legitimidade do conhecimento que se produz, a partir da própria comunidade de cientistas. Este sistema vale para qualquer um que publique qualquer coisa em ciência, em qualquer lugar do mundo. Trata-se do Google Scholar (“Google Acadêmico”, no Brasil), ou seja, uma forma de quantificar quantas vezes e por que qualidade de revista científica seus livros ou artigos são citados por outros autores. Todo pesquisador tem um i-10 que é o índice de citações que seus textos têm na comunidade internacional e que vale como medida de reconhecimento da relevância de seu trabalho. Portanto, não vale dizer que o sistema universitário ou que a filosofia brasileira não reconheceu ou persegue as ideias inovadoras e incompreendidas de nosso autor.

O sistema tem várias críticas, mas ele serve como uma espécie de peneira genérica para falar sobre quem é quem quando se trata de ciência. A vantagem é que qualquer um pode entrar neste sistema e verificar a quantidade e qualidade de citações que um autor tem5. Por exemplo, um pesquisador de esquerda como Vladimir Safatle, com 45 anos, tem um i-10 de 40, que corresponde a 282 citações de sua principal obra6. Um reconhecido autor de direita, como José Guilherme Merquior, tem 331 citações em sua obra mais conhecida. Olavo de Carvalho tem 30 em sua obra magna O que você precisa saber para não ser um idiota, sendo que, destas, 28 são referências de pesquisas sobre a emergência do pensamento conservador no Brasil, discursos contra a corrupção e pesquisas sobre jornalismo político. Ou seja, citam o texto como índice de fenômeno social, a emergência de uma nova direita, e não por suas ideias em si. Sua obra mais “técnica”, Teoria dos discursos em Aristóteles, tem apenas três citações na área da filosofia, todas desabonando seu trabalho.

Isso significa que não é que suas ideias são rejeitadas, mas que seu pensamento é irrelevante para a área na qual ele se situa. Mostrar seus erros técnicos, suas ilações inconsequentes e outras fragilidades de alguém que não sabe pensar com rigor é como colocar um time amador em comparação com um profissional. Uma seleta das afirmações erráticas de Olavo de Carvalho incluem: a ONU apoia o terrorismo, Pepsi é feita com fetos abortados, há uma conspiração comunista global e o movimento gay é parte dela, a Lei da Inércia é falsa e Isaac Newton era burro, há livros ensinando crianças fazer sexo oral com elefantes, o Brasil hoje é uma ditadura comunista, a mídia apoia os gays para promover o controle populacional, o marxismo nasceu do satanismo, Darwin é o pai do nazismo, a web foi criada para combater o ateísmo, o ser humano não precisa de cérebro pra viver, o nazismo e FMI são de esquerda, Bill Clinton era um agente de Pequim, os EUA entraram no Vietnã para perder, há 40 milhões de comunistas no Brasil, cigarro não dá câncer (ele é um fumante inveterado), não há diferença genética entre humanos e chimpanzés na gestação, o empresariado nunca se organizou politicamente, a ditadura foi branda e tinha eleições democráticas, o General Geisel era comunista.

Os títulos de seus livros incluem coisas como O dever de insultar e O imbecil coletivo II. Sua Teoria das doze camadas da personalidade é um resumo ridículo e pretensioso das concepções psicológicas mais correntes em psicologia. Algo assim como se eu pedisse a um aluno de terceiro ano que me contasse em 19 páginas tudo o que se disse até aqui sobre o conceito de personalidade. Tipo: conheça 13 capitais da Europa em quatro dias e descubra a verdade da milenar cultura ocidental, rápido e barato. São textos que fazem vergonha alheia e denunciam o provincianismo indefeso do brasileiro médio em matérias não escolares.

Como vimos, ideólogos servem principalmente para serem usados na desqualificação de saberes e autoridades simbólicas ou estrategicamente importantes. Por isso, não adianta dizer que eles não são sérios, pois isso só confirma, na língua da alienação, que eles são outsiders e “antissistema”. Fernando Haddad, pode ser criticado como um mal prefeito, como membro de um partido corrupto ou como alguém que toca violão muito mal, mas o seu i-10 é de 15, contra “nem entra em campo” de Olavo de Carvalho. Sua obra Plano de desenvolvimento da educação7 foi citada 127 vezes, sempre em contexto técnico ou científico. Haddad conclui o curso de direito na USP, depois fez mestrado em economia e doutorado em filosofia na mesma universidade.

Mas o que são títulos? Tantas pessoas têm títulos e não sabem nada, não é mesmo? Haddad estudou em McGill, a melhor universidade canadense, o Carvalhão não terminou seu mestrado, mas para quê estudar fora? Durante mais de dez anos Haddad fez o que faltou decisivamente na formação de Olavo de Carvalho: deu aulas para alunos reais de um curso de graduação. Mas qual é o valor disso? Afinal a USP nunca teve um filósofo que se preze (afirmação textual do próprio). Haddad deu aulas com notas, frequência, alunos inquietos ou indolentes, aulas de verdade. Aulas públicas, abertas e gratuitas e não cursos pagos pela internet. É neste contexto de desigualdade maiúscula, que testemunha a ignorância de muitos em reconhecer a diferença entre um verdadeiro professor e pesquisador e um “bundão” que fica atrás da mesa falando e caçando patos nos EUA (no sentido literal e metafórico), que podemos examinar as afirmações de Olavo de Carvalho sobre o livro de Haddad8:
1. “O PT quebra imagens, esfrega o crucifixo nos órgãos genitais, urinam [sic] na Bíblia e agora quer apoio católico”. A afirmação é grotescamente falsa. A pergunta de fundo é: para quem esta mensagem pode ser persuasiva, a ponto de ser retuitada pelo filho do deputado Jair Bolsonaro? Para alguém que jamais lerá este texto, que não compreende o que é pesquisa, que só entende que devemos dar crédito a pessoas famosas. Quanto mais espetacular a chamada mais ela tem efeito. Realmente, qual é a diferença disto e de mentir para ser eleito?
2. Como disse Caetano Veloso: “Considero o texto de Olavo incitação à violência. Convoco meus concidadãos a repudiá-lo. Ou vamos fingir que o candidato dele já venceu a eleição e, por isso, pode mandar matar quem não votou nele?”9 Ou seja, a conspiração comunista, a hegemonia cultural da esquerda universitária e tudo o mais que o caçador de patos denuncia é exatamente o que ele está imediatamente disposto a praticar. Um intelectual que defende a violência como método perde imediatamente o direito ao uso desta qualificação, tornando-se imediatamente um “idiota”, cumprindo assim o lema de que as pessoas transformam-se naquilo que elas mais odeiam.
3. Todavia, o campeão da inconsequência e o prêmio maior de Tolice do Ano, e que me leva a escrever este texto, vai para sua afirmação de que Haddad queria vencer o “tabu do incesto” para implantar o socialismo no Brasil. Haddad faria “apologia do incesto”, provavelmente como extensão do “kit gay” (que nunca existiu) e da “ideologia de gênero” (que é outra invenção brasileira para traduzir, em idioma de má fé, os “estudos de gênero”, disciplina universitária presente em Harvard, Cambridge e Yale). Depois da repercussão imediata de tamanho erro, facilmente verificado pela imprensa, Olavo de Carvalho retirou o post e o substituiu por outro dizendo que Haddad “subscrevia integralmente a sociedade erótica, advogado pela Escola de Frankfurt que advoga a erotização da relação entre mães e filhos”10.
Ora, o tabu do incesto é uma expressão usada por Freud em seu texto de 1913, Totem e tabu, para designar o fato de que em todas as culturas humanas conhecidas há uma restrição para o casamento dentro da própria família. Desta regularidade Freud inferiu a existência de um potencial desejo da criança pela mãe, que deu origem à hipótese do complexo de Édipo. Este desejo é reprimido dando origem ao processo de socialização como reconhecimento de uma lei maior que nos impede de realizar tudo o que queremos. Muitas culturas e alguns padrões de família exageram essa repressão, criando crianças demasiadamente proibidas em seus desejos e em suas vidas eróticas. Por isso uma transformação social deveria atentar para padrões menos rígidos de repressão e de implantação da lei. Ora, essa tese simples e difundida amplamente, tanto entre pensadores de direita quanto de esquerda, foi deformada para justificar a “erotização da infância” e a “apologia do incesto”. É assim que opera um fake thinker, um falso pensador caçador de patos. Ele toma uma ideia, a deforma sem rigor, e depois a usa para causar medo nas pessoas. Isso não é uma questão de “interpretação” ou “ponto de vista”, as ciências humanas podem admitir variações e variedades, mas elas têm um critério, que é o do rigor. Neste caso é claro e cristalino que nem a psicanálise, nem a Escola de Frankfurt, nem Haddad defendem a “apologia do incesto” ou a “erotização da infância”.
Essa inconsequência com os conceitos está longe de ser apenas um vale tudo acadêmico, ela é uma prática específica de relação com a palavra. Olavo critica o pós-modernismo, o multiculturalismo e o politicamente correto porque ele é seu maior praticante, no sentido corrompido do termo. Chegamos assim ao termo correto para o tipo de pensamento cultivado por Olavo de Carvalho: não é só falta de rigor ou pirotecnia retórica, é a corrupção como irresponsabilidade intelectual. Neste dia do professor é preciso agradecer e saudar os docentes, mas também perceber que há os traidores da classe. Não são aqueles que informal mal, ou que transmitem no limite de suas possibilidades e de sua formação, mas os que propositalmente dizem mentiras. Desinformar as pessoas em um país tão carente de professores e de ensino, fazê-lo de forma proposital e com fins políticos (lembremos das adesões diretas de Bolsonaro e seus filhos à Olavo de Carvalho), usar palavrões e praticar falta de decoro acadêmico só merece um juízo, como diria o Capitão Nascimento: pede para sair!
Notas
1 Christian Ingrao, Crer e destruir: os intelectuais na máquina de guerra nazista da SS (Rio de Janeiro, Zahar: 2017).
2 Olavo de Carvalho, A imagem do homem na astrologia (1980).
3 https://pt.wikipedia.org/wiki/Olavo_de_Carvalho 4 Exemplo de um tuite de 17 de setembro de 2018: “Quer o chamem de ‘Bolsominion’ por ser eleito do Bolsonaro, ou de ‘falso direitista’ por preferir outro candidato, a resposta oficial, nós dois casos, deve ser: — É o cu da mãe.”
5 https://scholar.google.com.br/scholar?hl=pt-BR&as_sdt=0%2C5&q=fernando+haddad+&btnG= 6 https://scholar.google.com.br/citations?user=fw3hwBYAAAAJ&hl=pt-BR
7 Fernando Haddad, O Plano de Desenvolvimento da Educação: razões, princípios e programas, Brasília, Inep/MEC: 2008.
8 Fernando Haddad, Em Defesa do Socialismo. Petrópolis, Vozes: 1998.
9 Caetano Veloso, “Olavo faz incitação à violência; convoco meus concidadãos a repudiá-lo“, Folha de S.Paulo, 14 de outubro de 2018.
10 Gilmar Lopes, “FALSO: Fernando Haddad defende incesto entre pais e filhos em seu livro?“, E-farsas, 14 de outubro de 2018.
Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor Livre-Docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano e fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP.
Fonte: https://blogdaboitempo.com.br/2018/10/15/olavo-de-carvalho-o-ideologo-de-bolsonaro-contra-o-professor-haddad/