segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A “geração Seattle” e a “geração de acampantes” - Por Manolo

A “geração Seattle” e a “geração de acampantes”

A análise do passado e do presente é imprescindível, e tem como objetivo não apenas saber do futuro, mas sabê-lo para, conhecendo suas tendências, agir imediatamente para que o indesejável não venha. Por Manolo

Com muita frequência, entre um período histórico e outro dez anos podem decerto ser tempo suficiente para revelar as contradições de um século inteiro. Portanto, às vezes temos que compreender que nossos julgamentos, nossa interpretação e mesmo nossas esperanças podem ter sido completamente equivocadas – equivocadas, e só.

Marlon Brando, na pele do economic hitman inglês Willam Walker, no filme Queimada!, de Gillo Pontecorvo (1969)

Com o recente movimento dos acampamentos, muitos da assim chamada “geração Seattle” voltaram não apenas a manifestar-se publicamente em defesa das mobilizações, mas a sentir-se novamente em casa nas ruas junto com outros mais novos que constroem espaços de militância nas praças e espaços públicos de todo o mundo.Sou, eu mesmo, integrante da dita “geração Seattle”. Mais de dez anos se passaram desde os primeiros Dias de Ação Global em 1998 e 1999, quando achávamos – todos nós – que era agora ou nunca. As esperanças daqueles anos de mobilização intensa entre 1999 e 2001 foram abafadas à força de muita porrada, gás pimenta, prisões e mortes. Alguns recolheram-se às suas memórias, outros tantos debandaram sabe-se lá para onde, mas considerável quantidade segue nas lutas de hoje e participa como pode.

“Mas”, perguntaria um leitor intrigado, “por que ser tão rancoroso lembrando dessas coisas logo no começo de um artigo sobre um movimento tão jovem, alegre e vibrante quanto o dos acampamentos e ocupações de praças e espaços públicos?”

Até o momento, os acampamentos são, para uma geração que começa agora a envolver-se em atividades coletivas, de um lado, e na luta anticapitalista, de outro, algo que para nós da “geração Seattle” representaram tanto o levante zapatista em 1994 quanto a manifestação contra a Rodada do Milênio da OMC em 1999: um ponto de viragem, um marco histórico, um chamado à ação – chamem-no como quiserem, mas para as jovens mentes ativistas de então aquilo nos marcou como ferro em brasa. Alguns tomam esta semelhança como conclusão a ser defendida como posição política séria, quando não é nada além do ponto de partida para a reflexão e intervenção sobre o presente. Pululam artigos sobre a maravilha dos debates, sobre o inusitado das ocupações de espaços públicos, sobre o charme de um ou outro participante, sobre a retomada da “cidadania” por parte dos que lá estão, sobre a existencialmente refrescante experiência da construção destes espaços políticos…Qualquer de nós presentes nas lutas de 1999/2001 deve lembrar-se do quanto fomos elogiados por retomarmos ações militantes, até que por volta de 2001 começaram a cobrar-nos “maturidade” (como se fossemos crianças brincando com fogo), “foco” (como se nossas lutas não o apontassem), “pauta” (como se não a conhecessem) e coisas do tipo. Construíram o Fórum Social Mundial por sobre a história de nossos corpos marcados, e o recrudescimento da repressão em nível global após os eventos do 11 de setembro dilacerou o que restava de nossos esforços. Para muitos, foi preciso começar tudo de novo.

A reflexão sobre aqueles dias tumultuosos de dez anos atrás, os rumos posteriores daqueles companheiros (e ex-companheiros) e a vivência destes dez anos de aparente marasmo impõem mudar o eixo dos debates sobre os acampamentos. (Digo “aparente” marasmo porque as lutas de lá para cá fragmentaram-se tanto que sequer se podia imaginar as ligações, reais ou virtuais, que seguiram existindo sob a aparência da calmaria e impulsionaram tantas lutas locais.) As razões dos manifestantes ou o elogio de sua iniciativa, aqui, saem de cena; entram algumas perguntas sobre o fazer-se das ocupações, tentando encontrar aí diferenças e pontos comuns com aquilo que vivemos há tanto e tão pouco tempo.

Os acampamentos pretendem-se permanentes, transitórios, ou não pautam esta questão? Para a “geração Seattle” a mesma questão talvez tenha sido pautada de outra maneira. Dada a forma de mobilização eminentemente transitória que escolheu (manifestações e assembleias paralelas, no tempo e às vezes no espaço, as cúpulas gestoriais mundiais), o que precisava ser permanente não era a presença nos territórios de luta, mas a mobilização em rede, para que pudéssemos deliberar, mesmo precariamente, sobre os próximos passos. Os debates sobre as formas de protesto que cada grupo pretendia empregar naqueles dias – marchas, ações contra alvos específicos (bancos, lojas, lanchonetes etc.) – tentavam garantir a segurança de cada grupo segundo a tática escolhida, mas, finalizadas as grandes manifestações, cada qual retornava a seu espaço de ação (coletivo, movimento social, rede, sindicato, partido, entidade estudantil, grupo de afinidade etc.) para retomar as atividades, embora com novo impulso e conhecendo incontáveis outros com quem buscar construir relações de solidariedade militante. Nos acampamentos de hoje, e até o momento, a permanência em determinado espaço físico, mesmo com curtos hiatos, é a forma adotada pelas mobilizações, o que impõe debater questões como a permanência e/ou revezamento de pessoas, alimentação, limpeza, resistência contra investidas policiais, proteção contra clima adverso etc.. Não estaria também gravitando sobre a cabeça dos acampantes, mesmo à sua revelia, a dificílima decisão sobre o tempo do protesto, e consequentemente de sua sustentação material e política? Ou o que se pretende, de fato, é fazer da praça pública uma ágora grega rediviva, conectada virtualmente com outras tantas enquanto for possível?

Qual a relação dos acampamentos com aqueles que já ocupavam o território onde se constroem? Para a “geração Seattle”, a questão era, de certa forma, simples. Salvo se já se tratasse de ativistas residentes na própria cidade onde se dariam os protestos – e foram centenas pelo mundo inteiro – ao definirmos uma zona de protestos e ao ocupá-la com ações diversas, das mais “militantes” às mais “bem-humoradas”, sabíamos que as relações com as pessoas que lá estavam seriam transitórias, existentes apenas enquanto se desse a reunião de cúpula que pretendíamos inviabilizar. Em alguns casos, as manifestações ocorriam em trajetos já tradicionalmente marcados por ações políticas diversas, o que terminava diluindo a potência do protesto; noutros lugares, pouco experimentados, vivemos situações inusitadas. No caso dos acampamentos, entretanto, é impossível pensar na construção de um espaço político sem perguntar-se algo neste nível e lançar esta pergunta tanto a fatos aparentemente incontroversos – como as razões para a escolha do local – quanto ao cotidiano do acampamento. Lá já estavam não apenas os vizinhos formais – lojas, restaurantes, lanchonetes, prédios comerciais ou residenciais, oficinas, fotocopiadoras, igrejas, museus, terminais ou pontos de ônibus etc. – mas sobretudo aqueles para quem a rua é espaço de sobrevivência e existência: catadores de material reciclável, artistas de rua, ambulantes, camelôs e especialmente aqueles que sequer existem oficialmente, a julgar pela forma como são tratados pelos Censos: os moradores de rua. Pelo que tenho visto em relatos, há interessantes relações estabelecendo-se, mas irão elas além do compartilhar um prato de comida, do convite à participação ou da solidariedade a casos emergenciais? De que forma, por exemplo, as defesas jurídicas à permanência nos espaços públicos pode estender-se aos moradores de rua, ou aos camelôs que em todas as cidades são perseguidos como a própria peste, ou aos tantos outros que são obrigados a submeter-se a toques de recolher oficiais ou oficiosos mundo afora?Qual a relação dos acampamentos com movimentos sociais formalmente organizados (sem-teto, sem-terra, sindicatos, pastorais, coletivos artísticos etc.)? A “geração Seattle” não apenas organizou-se em formas próprias como também lançou-se abertamente à colaboração com movimentos sociais vários, e mesmo muitos dentre nós já os integravam anteriormente. Com a radicalização, inclusive, foi possível construir pontes antes inimagináveis, como entre o movimento do software livre (em suas várias vertentes) e os movimentos de luta pela reforma agrária, entre o movimento das rádios livres e o movimento anti-manicomial, entre coletivos ativistas e moradores de rua… Houve tensões de parte a parte, assim como muita ingenuidade; houve dentre nós quem pensou – e o disse em artigos públicos – que os movimentos correriam às ferramentas que criávamos como algo imprescindível às suas lutas. Vistas as coisas após dez anos, a tônica destas relações foi a de irmos até os movimentos como quem vai prestar-lhes serviços – serviços militantes, mas nem por isto menos serviços. (Não é de estranhar que muitos dentre nós – eu inclusive – trabalhem hoje no assim chamado “terceiro setor”, com variados graus tanto de compromisso militante quanto de picaretagem.) Hoje parece que o sentido foi invertido, pois sabe-se que em alguns lugares estão se desenvolvendo relações bastante solidárias dos movimentos para com os acampados, materializadas no empréstimo de materiais e na presença em certos eventos mutuamente acordados. É feliz que alguns acampamentos – não todos – estejam buscando este apoio e que o encontrem, mas isto é uma solidariedade “de fora para dentro” do acampamento; que formas de solidariedade “de dentro para fora” do acampamento podem ser articuladas sem degenerar apenas em “prestação de serviços”? O que se pretende com estes movimentos além da solidariedade material e de algumas falas críticas nas assembleias?Os acampados têm algum tipo de crítica à dependência excessiva da informática que tem sido sua tônica? A “geração Seattle” foi talvez a primeira a empregar a internet como instrumento de mobilização, embora naquela época pouco se dispusesse além de correios eletrônicos, pequenos sites e grupos. A grande invenção daquele momento foi a estrutura colaborativa inaugurada pelo Indymedia/Centro de Mídia Independente, precursora em muitos aspectos das redes sociais hoje empregues como ferramenta de mobilização: um site aberto à publicação de relatos por qualquer pessoa que quisesse relatar o que quer que fosse a respeito dos protestos em que houvesse participado, ou publicar convocatórias, ou enviar fotos e vídeos etc.. (A rede Indymedia/Centro de Mídia Independente depois expandiu-se, adquiriu vida própria e segue com suas atividades.) Esta grande inovação, entretanto, tinha seus limites; em seus primeiros anos, por sinal exatamente aqueles de mais forte mobilização, era acessada quase somente por militantes e ativistas envolvidos com os protestos – com as “nobres” exceções de jornalistas atrás de fontes fáceis e dos onipresentes serviços de inteligência policial e militar. Para piorar, a crescente dependência de alguma técnica de comunicação – internet principalmente – por parte dos inúmeros grupos, coletivos e outras organizações gerou o fenômeno da “adhocracia geek”, ou seja, de uma “camada” social detentora de conhecimento técnico em informática difusa por toda a “geração Seattle”. Mesmo involuntariamente, a “adhocracia geek” transformou o conhecimento destas técnicas em meio de concentrar poder, ainda que por pouco tempo. Hoje, não é novidade para ninguém que a internet tem papel fundamental para a articulação dos acampantes; mas até que ponto a internet e a informática serve-lhes de limitação? A dependência de certa “militância virtual” que “curte” ou “confirma” participação nos acampamentos sem prestar-lhes qualquer outro apoio prático não arriscaria criar entre os acampantes expectativas de participação muito mais altas do que aquelas que são capazes de mobilizar? Não estaria sendo gestada aí, tal como na “geração Seattle”, uma nova “adhocracia geek”?

Como os acampados têm lidado com as diversas tentativas de cooptação de sua luta? A “geração Seattle” tentou conscientemente abandonar qualquer tutela sobre movimentos sociais e qualquer iniciativa que lhes impusesse uma pauta externa, mas foi rasgada internamente por questões semelhantes àquelas que tanto criticou – em especial se considerarmos sua forma preferida de organização, os grupos de afinidade, calcados explicitamente na extrema proximidade política e pessoal entre seus integrantes. Eles serviram muito bem como defesa contra o aparelhamento externo típico das organizações calcadas sobre o leninismo, mas ao mesmo tempo instauraram novas formas de conflito entre si próprios e outros grupos de afinidade presentes num espaço de decisão. Da mesma forma, grupos diferentes podiam articular-se previamente quanto a determinada pauta e comparecer às assembleias para agir como bloco; em se tratando de grupos diferentes (embora unidos por um propósito oculto comum), seria impossível a um participante desavisado percebê-los como tal. Graças a este artifício, o que antes era uma deliberação prévia por parte de certos grupos para orientar a assembleia em tal ou qual rumo poderia passar tranquilamente como uma deliberação democrática, surgida no calor da hora e tecida em longos debates tendentes ao consenso. Nisto, os grupos de afinidade diferiram pouco do mal senil do leninismo de que tanto quiseram se livrar. Hoje, já se tentou de tudo para dobrar os acampamentos a vontades externas, desde as recorrentes discussões sobre bandeiras de partidos até o mais simples domínio pessoal, como se dá em cidades onde os acampantes são poucos, mas os riscos em espaços “autônomos” seguem os mesmos: tem sido possível aos acampantes identificar os grupos e os blocos que se formam? Ou seria esta desconfiança causa de verdadeira paranoia num lugar onde tão poucos se conhecem previamente e há tantos desejos em jogo? E quanto às tentativas de cooptação vindas “de fora”, como os acampantes têm lidado com elas? Como lidar com as tentativas de cooptação vindas da imprensa que tenta impor, de fora, uma pauta aos acampantes, sob pena de anátema? Como lidar com as ofertas aparentemente “desinteressadas” de recursos e infraestrutura vindas do terceiro setor, cuja rejeição decerto fomentará acusações de “sectarismo” e “inabilidade de diálogo”? Como lidar com grupos empresariais ligados à economia da criatividade que tentam capitalizar para si a mobilização tão dificilmente construída?Os acampamentos pretendem atrair mais pessoas, ou pretendem manter-se com a quantidade de pessoas que hoje os frequentam? A “geração Seattle”, na corda bamba entre a ação militante (que pedia linguagem e prática radicais) e a demonstração mais ampla de suas razões (que pedia linguagem e prática com maior capacidade de diálogo), viveu angustiadamente a tensão entre querer a mais ampla participação de todos nas lutas e o temor causado por certos tipos de ação direta demonizada pelos meios corporativos de comunicação. Embora houvesse grupos de afinidade decididamente voltados para qualquer destas alternativas, não foram poucos os que viveram esta contradição por dentro. Como em meios ditos “autônomos” a proximidade pessoal tem o efeito adverso de pressupor como certa a afinidade política, isto foi causa de um sem-número de “rachas”, brigas, anátemas e mesmo de perseguições, tudo somando para o esfacelamento das relações coletivas, mesmo quando algumas relações pessoais sobreviviam ao furacão. Vencemos ao atrasarmos certas deliberações de cúpula e ao pautarmos novamente, quando não a derrubada do capitalismo – e é preciso admitir que nem todos da “geração Seattle” desejavam-na – os efeitos perversos de seu funcionamento àquela altura; mas fomos derrotados em nossas tentativas de trazer mais pessoas para a construção de novas relações sociais capazes de subverter em definitivo o status quo. (Fosse o contrário, se houvéssemos conseguido construir estas novas relações com amplitude e força suficientes para derrubar o capitalismo, os acampamentos de hoje talvez nem existissem.) É curioso como os acampamentos vivem o mesmo problema sob outra forma. Embora muitos passem por perto, poucos param sequer para dar uma espiadinha; dentre estes últimos, poucos ficam para conhecer melhor; e dentre estes, poucos integram-se realmente à dinâmica do acampamento. Embora pareçam infinitamente menos radicais que os Dias de Ação Global, sua presença e permanência traz para alguns um misto de estranhamento, esperança, dúvida e ceticismo com o qual os acampantes ainda não deram mostras de saber lidar. Mas seriam estas pessoas ditas “comuns” quem os acampamentos pretendem atrair? Ou os acampamentos são um esforço conjunto para visibilizar a pauta de movimentos já existentes? Em qualquer dos casos, como conciliar a linguagem semi-técnica do ativismo – e quem pensa que o ativismo não cria seu próprio jargão vive na inocência útil – com aquela destas pessoas ditas “comuns”? Isto é realmente desejado pelos acampantes?Como os acampamentos pretendem encaminhar suas reivindicações? A “geração Seattle” foi muitas vezes acusada de ter apenas uma “pauta negativa” sem apresentar uma “pauta positiva” – ou seja, de dizer o que quer destruir ao invés de dizer o que quer construir. A construção coletiva das mobilizações, o diálogo entre movimentos tão diversos quanto o dos anarcopunks e o dos camponeses bolivianos, as incontáveis formas de solidariedade prática, tudo isto era apagado para fazer dos dias de mobilização um raio no céu azul. Era mais uma tentativa de medir as mobilizações não pelo que apresentavam de novo, mas pela sua adaptação a um padrão segundo o qual toda mobilização deve apresentar um conjunto de reivindicações e negociá-la, paulatinamente, até alcançar seus resultados – em geral quando já são inócuos. O grupo que fundou o Fórum Social Mundial não apenas aproveitou-se desta crítica para criá-lo, como em grande parte foi ele mesmo a veiculá-la e disseminá-la. E aquilo que foi efetivamente construído pela “geração Seattle” – um grande esforço pela igualdade, coletivismo e solidariedade entre a militância – foi desqualificado sistematicamente como “baderna”. Hoje, o traço marcante de todos os acampamentos é o questionamento crítico a qualquer rotina que se pretenda estabelecer sem prévia deliberação coletiva. Ponto para este princípio básico da autogestão – palavra mágica que circula de boca a ouvido e de teclado a tela entre acampantes e suas redes de apoio. Segundo as informações que tenho recebido, alguns querem tirar uma pauta de reivindicações, seja trazendo-as prontas “de fora” e tentando impô-las aos acampados, seja tecendo-as ponto a ponto nas próprias assembleias. Outros pretendem que não haja pauta coletiva alguma, que não haja nenhuma deliberação “em nome” do acampamento. Todavia, enquanto algumas propostas podem ser imediatamente implementadas pelos acampantes e seus grupos de apoio, outras, talvez de construção ainda embrionária nas assembleias, precisam necessariamente da construção de formas de ação que ultrapassem os limites territoriais e virtuais dos acampamentos. Talvez seja este o problema mais duro a ser enfrentado: agora que nos juntamos e chegamos a alguns acordos, como fazer para tornar real aquilo que projetamos?

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Há outras perguntas, muitas, tantas quantos são os possíveis problemas. Algumas sequer são esboçadas nos acampamentos, outras são suas angústias mais dilacerantes. Não as apresento para fazer qualquer tipo de interrogatório ou acusação; são tentativas de ver o que temos de semelhante, nós da “geração Seattle” e estes que ocupam as ruas, para assim nos apoiarmos melhor, onde quer que estejamos. Digo isto por princípio político. Para quem se lança à luta anticapitalista, não importa com que corrente ideológica simpatize ou a qual tradição de lutas se integre; a análise do passado e do presente é imprescindível, e tem como objetivo não apenas saber do futuro, mas sabê-lo para, conhecendo suas tendências, agir imediatamente para que o indesejável não venha. Estas tentativas de antecipar o indesejável, para serem eficazes, precisam evitar as generalidades e lançar-se, sem temores ou expectativas, nos problemas e aparentes questiúnculas que atravessaram as lutas passadas, formadoras do presente, pois estes problemas e questões “menores”, tal como o diabo, moram nos detalhes. Mesmo estas precauções podem mostrar-se infelizmente inúteis, e o esforço de uma geração inteira de militantes pode terminar mais uma vez indo pelo ralo das derrotas. Por isto mesmo, analisá-las é tão importante quanto divulgar as vitórias.

Fonte: http://passapalavra.info/

Estado Assassino: Israel não atacará o Irã, não mesmo - Por Uri Avnery*

Israel não atacará o Irã, não mesmoConflito mataria muitos judeus inocentes, reavivaria o pan-arabismo e isolaria Telavive; ameaças são usadas internamente contra opositores do governo israelense

Todos conhecem a cena dos tempos de escola: o menino baixinho briga com o menino muito maior e grita para os companheiros: “Me segurem! Me segurem… Ou eu quebro a cara dele!”

O governo de Israel está fazendo exatamente isso. Todos os dias, em todos os canais de televisão, algum figurão do governo israelense grita que, agora sim, agora sim, Israel vai quebrar a cara do Irã. O Irã está próximo de produzir a bomba nuclear. Israel não pode permitir. Então… Israel vai detonar o Irã, reduzir o Irã a cacos.

O primeiro-ministro Binyamin Netanyahu repete isso em todos os seus incontáveis discursos, inclusive no discurso de abertura da sessão de inverno do Parlamento israelense. Ehud Barak, ministro da Defesa, também. Todos os comentaristas falam do assunto. E a imprensa amplifica o som e a fúria. Mas o jornal Haaretz publicou na primeira página uma grande foto dos sete ministros mais importantes de Israel — o “septeto da segurança”: três a favor do ataque, quatro contra.

Há um ditado alemão que diz: “Revolução muito alardeada não quer acontecer”. Vale também para guerras. Artefatos nucleares vivem sob estrito controle militar. Muito, muito estrito. Recentemente, o controlador militar das bombas atômicas israelenses apareceu sorrindo, deixando a coisa andar. Os meninos — o primeiro-ministro e o ministro da Defesa de Israel, exatamente os dois patrões do controlador militar das bombas israelenses — estão só brincando de atacar o Irã.

O respeitado ex-chefe, por muitos anos, do Mossad, Meir Dagan, falou publicamente contra qualquer ideia de Israel atacar o Irã. “Nunca ouvi ideia mais estúpida em toda a minha vida”, disse. Explicou que entende como seu dever alertar Israel contra a ideia de atacar o Irã… desde que ouviu falar dos planos de Netanyahu e Barak.

Na quarta-feira, Israel enfrentou um tsunami de “notícias vazadas”: Israel testara um míssil capaz de transportar uma bomba atômica e “entregá-la” a mais de 5 mil km de distância, adiante, até, daquele país… vocês sabem qual. E a Força Aérea de Israel acabara de encerrar manobras na Sardenha, distância de voo maior, até, da que nos separa daquele país… aquele, vocês sabem qual. E na quinta-feira, o Comando Doméstico fez exercícios por toda a cidade e arredores, na Grande Telavive, com sirenes berrando por todos os lados.

São movimentos que sugerem fortemente que tudo não passa de encenação. Talvez para assustar os iranianos. Talvez para empurrar os EUA a tomar ações mais extremas. Talvez, sim, toda a encenação tenha sido previamente combinada com os EUA. (Vazamentos britânicos também diziam que a Marinha Real britânica está em treinamento, preparando-se para apoiar um ataque dos EUA ao Irã.)

Vez ou outra, Israel usa a tática de agir como se os israelenses fôssemos doidos de hospício (“O dono da banca enlouqueceu” — como se ouve pelos mercados e feiras, sobre preços baixos demais). Israel cansou de ouvir conselhos dos EUA. O que temos de fazer é bombardear, bombardear, bombardear, bombardear.

Calma. Falemos sério, por favor. Israel não atacará o Irã. É isso. Ponto final.

Muitos dirão que me arrisco demais. Não seria melhor acrescentar “provavelmente”, ou “quase com certeza”? Não. Não acrescento coisa alguma. Repito e repito: Israel não atacará o Irã.

Depois da aventura de 1956 em Suez — que acabou por ordem do presidente Dwight D. Eisenhower — Israel nunca mais se envolveu em nenhum tipo de operação militar importante, sem a expressa autorização dos EUA. Os EUA são hoje o mais confiável apoiador com que Israel ainda conta (além das ilhas Fiji, da Micronesia, das ilhas Marshall e de Palau). Destruir essas relações será como cortar a mangueira de ar do escafandro. Para chegar a esse ponto, é preciso ser mais do que meio maluco: é preciso ser doido furioso.

Além do mais, Israel não pode entrar em guerras sem o apoio dos EUA, porque todas as bombas e todos os aviões de Israel vêm dos EUA. Em guerra, é preciso receber suprimentos, peças de reposição, todos os tipos de materiais. Durante a guerra do Yom Kippur, Henry Kissinger manteve uma linha de suprimentos, por avião, que operava 24 horas por dia. E a guerra do Yom Kippur foi piquenique comparada com o que seria uma guerra contra o Irã.

Examinemos o mapa — providência que se recomenda sempre, antes de guerras.

A primeira coisa que chama a atenção é o muito estreito Estreito de Ormuz, por onde passa 1/3 de todo o suprimento de petróleo transportado por petroleiros, para todo o mundo. Passa por aquela garganta praticamente todo o petróleo produzido na Arábia Saudita, Estados do Golfo, Iraque e Irã.

De ponta a ponta, o estreito mede cerca de 35 km. É a mesma distância de Gaza a Beer Sheva que, semana passada, os rojões de fabricação caseira da Jihad Islâmica cruzaram sem problema algum. No instante em que o primeiro avião israelense entrar no espaço aéreo do Irã, o estreito será fechado. A Marinha do Irã tem mísseis em navios, no mar. Mas nem serão necessários. Para fechar Ormuz, bastam os mísseis em terra.

O mundo já está balançando à beira do abismo. A pequena Grécia oscila, ameaçando cair e levar com ela grossas fatias da economia mundial. Ormuz fechado, e cortado o suprimento de quase 1/5 de todo o petróleo que as nações industriais do planeta consomem, é catástrofe difícil de imaginar.

Para reabrir o estreito à força, seria necessária grande operação militar (com muitos coturnos no solo, inclusive), maior que todas as dificuldades que os EUA enfrentam hoje no Iraque e no Afeganistão. Os EUA têm dinheiro para tudo isso? Ou a OTAN? Israel não compete nessa liga “de cima”. Mas, mesmo assim, estará terrivelmente envolvido na ação, no mínimo, na condição de alvo.

Em manifestação de unidade que só se vê muito raramente, todos os chefes dos serviços secretos israelenses, inclusive os principais diretores do Mossad e do Shin Bet, já se manifestaram publicamente, todos contrários à ideia de atacar o Irã. É fácil entender por quê.

Não sei, sequer, se a operação seria possível. O Irã é país de grande território, quase do tamanho do Alasca; as instalações nucleares estão dispersas por todo o território e, muitas delas, são subterrâneas. Ainda que se usassem bombas de penetração profunda, que explodem sob o chão, fornecidas pelos EUA, toda essa gigantesca operação só conseguiria conter os esforços iranianos por alguns poucos meses. Israel pagaria preço altíssimo, por resultados magros.

Claro também que, se a guerra começar por ação de Israel, imediatamente choverão mísseis sobre Israel — não só do Irã, mas também do Hezbollah e, talvez, também do Hamás. As cidades israelenses não são adequadamente defendidas contra ataques dessa magnitude. Morreriam muitos israelenses. As mortes e a destruição em solo israelense tornam totalmente proibitivo qualquer movimento de guerra contra o Irã.

Repentinamente, a mídia israelense só fala dos três submarinos israelenses, que logo serão cinco, talvez seis, se os alemães forem compreensivos e generosos. Os jornais dizem, abertamente, que esses submarinos garantem a Israel a possibilidade de “um segundo ataque nuclear” (?!), caso o Irã use ogivas nucleares (que o Irã não tem!) contra Israel. Mas o Irã pode usar armas químicas, claro, dentre outras armas de destruição em massa.

E há também o preço político. O mundo islâmico fervilha. O Irã não é exatamente muito popular em parte do mundo islâmico. Mas, se Israel atacar o Irã, o ataque contra um dos principais países do mundo muçulmano unirá instantaneamente sunitas e xiitas, do Egito e Turquia ao Paquistão e mais. Israel estaria correndo o risco de converter-se em mansão de luxo, numa selva em fogo.

O fato é que toda essa conversa sobre guerra ao Irã, em Israel, serve a vários objetivos políticos, da política interna de Israel. Sábado passado, os movimentos sociais de protesto voltaram às ruas. Depois de pausa de dois meses, grande número de manifestantes reuniram-se em Telavive, na Praça Rabin. Foi caso excepcional porque, no mesmo dia, vários rojões do Hamás estavam sendo disparados contra cidades próximas da Faixa de Gaza. Até agora, em situação semelhante, as manifestações sempre foram canceladas. Os problemas de segurança sempre foram vistos como maiores que quaisquer outros. Dessa vez, não. E as ruas encheram-se de manifestantes e protestos.

Havia também quem acreditasse que a euforia do festival Gilad Shalit teria apagado da opinião pública israelense a ideia de protestar contra o governo de Netanyahu. Não apagou. Outro fenômeno curiosíssimo: a mídia, depois de vários meses aliada aos manifestantes que enchiam as ruas, acaba de mudar de lado. Repentinamente, todos os jornais, inclusive o Haaretz, opõem-se às manifestações populares. Como que obedecendo a uma só voz, todos os jornais de Israel escreveram, na manhã seguinte aos protestos, que lá se reuniram “mais de 20 mil” pessoas. Bem. Estive lá e tenho alguma experiência com essas coisas. Havia naquela praça, no mínimo, 100 mil pessoas, a maioria, jovens. Mal se conseguia andar.

Os protestos tampouco acabaram, como dizem os jornais. Longe disso. Mas… que ideia melhor, para fazer calar os que clamam por justiça social, do que pôr-se a falar sobre a “ameaça existencial”?

Além do mais, para fazer as reformas que a sociedade exige, é preciso dinheiro. Ante a crise das finanças mundiais, o governo luta para reduzir o déficit do orçamento, temeroso de pôr em risco a posição de Israel no ranking dos países confiáveis para investimento externo. Assim sendo… de onde sairia o dinheiro para as tais reformas? Só há três fontes plausíveis: das colônias exclusivas para judeus nos territórios palestinos ocupados (mas… que Estado judeu atrever-se-ia a pedir dinheiro aos colonos?); os judeus israelenses ortodoxos (idem); e o gigantesco orçamento militar.

Criada a possibilidade de guerra contra o Irã, a guerra mais crucial da história de Israel, quem sugeriria que se tocasse no sacrossanto orçamento militar? O país precisa de cada shekel para comprar mais aviões, mais bombas, mais submarinos. Escolas e hospitais, é claro, que esperem.

Por isso, do ponto de vista de Netanyahu, Mahmoud Ahmadinejad é a salvação. Onde estaria Netanyahu, hoje, se não houvesse Ahmadinejad?

(*) Uri Avnery, escritor e jornalista, é fundador do movimento pacifista israelense Gush Shalom (Coalizão da Paz)
Tradução: Vila Vudu
Fonte: www.outraspalavras.net

Breve perfil dos que atacam os estudantes da USP, acampados na reitoria - por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

Tariq Ali: precisamos de novas formações políticas - por Firas Khatib - Al-Akhbar

Tariq Ali: precisamos de novas formações políticas
Lênin disse nunca haverá uma crise final do capitalismo a menos que surja uma alternativa. É absolutamente verdade. O capitalismo já passou antes por numerosas crises e as resolve, de um jeito ou de outro, com repressão. Mas passará por elas a menos que surja uma alternativa no âmbito nacional e global. Os movimentos dos jovens indignados são importantes, mas precisam dar um salto, que é a criação de novas formações políticas. A análise é de Tariq Ali, em entrevista a Al-Akhbar.

O historiador, novelista e ativista Tariq Ali, membro do Conselho Editorial de Sin Permiso, falou com Firas Khatib para a revista al-Akhbar sobre os desafios que enfrentam as Revoltas Árabes, o futuro da política dos EUA no Oriente Médio depois da "retirada de tropas" do Iraque, e a importância da tomada de ruas e praças de cidades no mundo todo pelo atual movimento de dissenso.

As revoltas árabes

Firas Khatib: Você concorda com o argumento de que a mudança no mundo árabe foi incompleta?
Tariq Ali: Estou a favor dos levantes massivos no mundo árabe. Quando recém surgiram os comparei com a Europa de 1848. [Então] houve imensos levantes que estabeleceram o quadro geral dos cem anos seguintes. Mas quando ocorreram estes levantes na Europa houve muitas derrotas e reveses, e penso que é o que provavelmente vamos presenciar e viver. Espero que não seja assim, mas até agora parece que as autoridades recuperarão a situação prometendo umas poucas reformas por aqui e por ali, enquanto mantém em seu lugar o sistema. É o que está acontecendo na Tunísia e no Egito.

Líbia é outra história totalmente diferente, onde intervém o Ocidente, supostamente pelos direitos humanos e para evitar que Bengasi fosse tomada por Kadafi, e termina por combater na guerra, e a OTAN vem bombardeando este país durante mais de seis meses. E os resultados, a meu ver, serão uma bagunça. Argumentei que, quem quer que ganhe na Líbia, o povo líbio vai a perder em virtude do que está acontecendo. A Líbia é importante para eles não pela sua geografia, mas pela sua geologia: contém imensas reservas de petróleo e gás natural e não permitirão que lhes fuja do controle.

FK: Se passaram meses desde a explosão da "Primavera Árabe". Como avalia a reação de Obama?
TA: A reação inicial dos EUA foi de surpresa e medo. Surpresa porque isso havia acontecido e estava aumentando, e temor de que pudesse derrubar toda a fachada na região com conseqüências imprevistas e imprevisíveis. Na Tunísia, os estadunidenses trataram tardiamente, a través dos franceses, de manter Ben Ali no poder. O governo francês, Sarkozy e seu ministro de Defesa, ofereceram enviar soldados franceses para manter Ben Ali no poder, mas era tarde demais. Ben Ali já ia de avião à Arábia Saudita.

No Egito, trataram de controlar a situação, primeiro com a esperança de manter Mubarak no poder. Logo começaram numerosas negociações nos bastidores e, finalmente, notando que a situação podia ficar fora de controle e possivelmente levar a disputas no exército, os EUA aceitaram que Mubarak devia ir embora, portanto lhe colocaram uma camisa de força e o arrastaram, gritando e lutando, fora da cena política. E depois temos uma situação na qual sacrificaram Mubarak, mas querem ficar, persistir, como fazem no Paquistão, na Tunísia e em outros países onde as forças da morte e os ditadores foram removidos. E permitiram que se estabelecesse uma fachada civil, mas foi muito cuidadosamente negociada e coreografada. Não está dando muito bons resultados, porque o ataque de forças de segurança aos manifestantes cristãos na cidade do Cairo na semana passada mostra até que ponto a situação é frágil.

FK: Por que, depois de uma vitória similar para o povo do Egito, houve tantos reveses?
TA: Os levantes de massas são absolutamente vitais para derrubar um ditador, mas o que se coloca depois no lugar se dá com verdadeiros meios políticos. E a respeito disso, é de grande importância o fato de que estes novos movimentos no mundo árabe não tenham produzido novas formações políticas. Nesse aspecto, o contraste com a América do Sul é muito visível. Na América do Sul, durante todos os anos noventa e no Século XXI, estamos diante de uma combinação de massivos movimentos sociais, que produzem novas formas de organizações políticas. Essas organizações participaram de eleições e chegaram ao poder democrática e eleitoralmente e depois implementaram reformas estruturais, desafiando o controle do capitalismo neoliberal. Não ao capitalismo em seu conjunto, mas esta forma particular de capitalismo. Sem novas formas de organizações políticas, as estruturas políticas existentes como a Irmandade Muçulmana, especialmente no Egito, têm uma imensa vantagem.

FK: Qual é o futuro da relação entre o exército egípcio e os EUA?
TA: Isso depende em boa parte do que aconteça durante o próximo ano. Assim que houver um governo civil eleito no Egito, seja qual for, modifica a relação de forças [em jogo] no sentido de produzir um governo que tenha uma legitimidade que os militares não têm. Mas penso que o poder dos militares egípcios diminui, e o sistema que tentam instalar no Egito será como no Paquistão e na Indonésia, onde os militares eram a principal força que trabalhava com os EUA. Durante a última década, os EUA deixaram de utilizar os militares nesses países porque consideram que fazê-lo é contraproducente e estiveram trabalhando com outras formas de regimes. Penso que é o que provavelmente acontecerá no Egito, de modo que existem muitas negociações.

FK: Por que continuam sendo tão controversos os eventos no levante sírio, apesar da quantidade de mortos?
TA: Há uma série de motivos pelos quais o mundo árabe está dividido com respeito à Síria. A primeira razão é que a Síria se considera como o único regime da região que mantinha um certo grau de independência e mostrou firmeza com respeito a certos temas. Seja exato ou não, penso que é mais complicado que [isso]. O regime de Assad foi um regime muito oportunista. Como sabemos, participou na primeira Guerra do Golfo. Onde ficou então o chamado anti-imperialismo? Por outra parte, é um regime que respaldou definitivamente o Hezbolláh no Líbano e as forças que combatiam efetivamente Israel, o que produz outra contradição. Em terceiro lugar, é um regime que mantém sua hostilidade com o imperialismo. Isso cria confusão.

O quarto motivo é, a meu ver, que o bombardeio da Líbia pela OTAN durante seis ou sete meses fez com que muita gente no mundo árabe esteja extremamente sensível ao tema da intervenção imperialista, e não quer ver isso na Síria. E muitos na oposição síria disseram que também não querem vê-lo. De modo que uma combinação destes fatores significa que a atitude em relação à Síria seja confusa. Não confusa para mim, quero deixar claro. Penso que o regime de Assad é uma ditadura familiar imposta aos sírios, primeiro sob Hafez Assad, chegado ao poder mediante um brutal golpe contra a ala civil do partido Baaz, dirigida por algumas pessoas excelentes que foram eliminadas na Síria, tal como havia feito Sadam no Iraque.

Eliminaram, pressionaram, exilaram e prenderam muita gente. Assim chegaram ao poder, e desde então vem manobrando efetivamente na Síria e na região para manter-se nele; e agora se negam a aceitar o fato de que seu tempo acabou. É absolutamente surpreendente que Assad Junior não tenha conseguido impor as reformas na Síria, quando vê o que vem por aí. Viu o que aconteceu na Tunísia e no Egito e sente que de alguma maneira pode se aferrar ao poder. Penso que seus dias passaram e que mais cedo ou mais tarde cairá.

Outro ponto que vale a pena considerar agora é que a Arábia Saudita decidiu que essencialmente quer um governo sunita na Síria, que seja seu aliado e que possa controlar. Portanto, sua atitude em relação à Síria girou 180 graus. Estava disposta a tolerar [o regime de Assad]. Estava disposta a tratar com ele, especialmente depois da retirada do Líbano, que foi considerada como uma grande vitória pelos sauditas. Mas agora a tiveram, e a grande pressão sobre os sírios provém do eixo saudita na região. [Os sauditas] querem se livrar deles, o que é outro motivo para sua hostilidade com o Irã, que respalda o regime de Assad. É um quadro confuso, mas não devemos esquecer que o povo da Síria disse basta: não queremos vocês, vão em paz, mas as mortes e as matanças que ocorrem na Síria chegaram agora a um nível que faz com que a partida em paz seja difícil.

FK: Como vê uma Síria pós-Assad? Que papéis cumprem os EUA e Israel no que acontece na Síria?
TA: Penso que os israelenses não querem mudança. Certamente os israelenses não querem que o regime de Assad seja derrubado, porque tratam com ele de vez em quando e não sabem quem poderia vir depois. O grande temor dos israelenses são os governos democráticos, porque uma vez que se tem um governo democrático na região, mesmo quando não sejam grandes em muitos sentidos, são governos por defeito. Não obstante, têm que responder em parte ao humor de sua base, e a base árabe, as ruas árabes, são hostis ao que os israelenses vêm fazendo na região há três décadas. Não gostam, de forma que haverá muita pressão. Os israelenses preferem tratar com déspotas porque podem chegar a acordos com déspotas, e não há nenhum sinal de que queiram destituir o regime de Assad.

FK: A reação ambígua das potências ocidentais com a Primavera Árabe é resultado de seu "temor" à Irmandade Muçulmana?
TA: Por que a Irmandade Muçulmana seria uma ameaça para eles? É uma força socialmente conservadora, mas o Ocidente adora trabalhar com forças conservadoras no mundo todo. Por que iria mudar isso? Só porque acontece que são muçulmanos? Minha própria política é que não os apoio, mas se as pessoas querem levar eles ao poder tal como elege a democracia cristã na Alemanha, Itália ou em qualquer outra parte. Por que detê-los? Não se trata essencialmente de hostilidade para com a Irmandade Muçulmana, é essencialmente hostilidade para com a democracia no mundo árabe. Se as pessoas os temem, a única maneira é deixar que os eleja e as pessoas poderão julgá-los; é o caminho para frente, e deve ser o caminho para frente. Mas o ataque à Irmandade é essencialmente um ataque à idéia de que o povo árabe é suficientemente maduro para escolher seus próprios governos. E isso tem muito a ver com a importância estratégica da região. Onde quer que tenha petróleo, o Ocidente sempre preferiu trabalhar com déspotas que com governos democráticos.

Irã, EUA e Israel

FK: Qual foi sua reação ao suposto complô iraniano para matar o embaixador saudita nos EUA?
TA: Penso que é tão incrível que não é possível que seja verdade. É basicamente uma tentativa de ajudar os sauditas da região, porque se fala de muita turbulência nas áreas xiitas da Arábia Saudita. Em virtude do papel que jogaram em Bahrein, estão nervosos. E penso que a afirmação das agências norte-americanas de inteligência tem o propósito de ajudar os sauditas. Agora resulta que o sujeito supostamente acusado do complô está louco, e por demenciais que possam ser os iranianos, não chegam a esse ponto. Minha primeira reação é que foi um assunto fabricado.

FK: Qual é a política planejada dos EUA com relação ao Irã? Busca sanções, guerra, um ataque militar limitado ou diplomacia?
TA: Há algum tempo a minha opinião sobre a política dos EUA com relação ao Irã tem sido que convém só aos interesses norte-americanos desestabilizar o Irã. É pouco provável que a sua tentativa de realizar bombardeios ou de impor duras sanções com a aprovação da Rússia e da China tenha êxito. Qualquer pressão para realizar um ataque militar ao Irã enfrentará a resistência dos generais norte-americanos e do Pentágono por una série de razões: uma é a sobre-extensão de suas forças armadas; em segundo lugar, o perigo de que, se atacar o Irã, os iranianos possam responder no Iraque, no Líbano ou no Afeganistão.

Nos deixamos levar pelo que os EUA fazem frente o Irã e tendemos esquecer que no Iraque e no Afeganistão o regime clerical iraniano respaldou essencialmente as guerras e a ocupação do Iraque pelos EUA. Apoiou a ocupação do Afeganistão pela OTAN, que é muito importante para os EUA.

Portanto, o fato de que se atire aos montes contra o Irã fará com que se corra o risco de desestabilizar a ocupação nesses dois países e é pouco provável que o faça. A pressão de fazer algo no Irã provém de una fonte: Israel. E o motivo é o temor de que se rompa o monopólio nuclear israelense na região. Não há outra razão.

FK: Em vista da complicada situação mencionada, acha que existe uma possibilidade de que Israel empreenda uma ação concreta contra o Irã?
TA: Os israelenses não podem atacar sem aprovação dos EUA, o que é impossível porque o caos resultante poderia derrubar o regime saudita.
Se o Irã é atacado com meios militares pelos israelenses, haverá caos no Oriente Médio e em diferentes partes do mundo. Não será algo popular. E então a grande pergunta será: o que fará a oposição na Arábia Saudita? Não é uma oposição bem organizada, mas sabemos que existe. E é um problema sério para os EUA, porque se existe uma coisa inaceitável para eles no Oriente Médio é que aconteça algo com o regime saudita, o qual respalda solidamente.

Todo o palavreado sobre democracia, direitos humanos e liberdade, se esquece quando se trata da Arábia Saudita. É uma posição muito clara dos EUA. Portanto, seria muito contraproducente permitir uma incursão israelense contra o Irã. Mas às vezes os políticos fazem coisas irracionais e demenciais.

Iraque, Afeganistão e Palestina

FK: Washington prometeu se retirar do Iraque no final deste ano. O que significará no atual contexto político do Oriente Médio?
TA: Esperemos para ver se tem lugar a retirada. As imensas bases militares que já construíram no Iraque e que atualmente constroem no Afeganistão não me indicam uma retirada rápida. Essa retirada é, sobretudo, um show como o que aconteceu quando os britânicos ocuparam
o Iraque. Retiraram-se a bases militares das que não foram expulsos até a revolução de 1958.

Os norte-americanos estão copiando, neste caso, o modelo britânico: imensas bases militares, como cidades norte-americanas, construídas em seis lugares diferentes no Iraque, nas quais vão manter 15.000, 20.000 ou 30.000. De modo que é muito prematuro falar em retirada. E se
o regime iraquiano pede que todos os soldados norte-americanos fossem embora, haverá um momento interessante na política do Oriente Médio. Esperemos para ver o que acontece.

FK: A situação vai se complicar no Afeganistão e, inclusive, os EUA não oferece nada de novo. Isso debilitaria Obama ou os EUA?
TA: Já fez. Obama fez sua grande glória na política exterior; a diferença com o Bush é que o Bush não enviou suficientes tropas para ganhar a guerra no Afeganistão e que o Obama ia enviar mais tropas. E as enviou e fracassaram. A ocupação norte-americana do Afeganistão levou essencialmente à criação de uma resistência que não está formada simplesmente pelos velhos talibãs, que continuam presentes, mas há muitos elementos novos. Converteu-se, como venho argumentando, em uma resistência pastuna, com uma direção política que é talibã e de novos talibãs e não sabemos mais o que.

Mas uma coisa na qual estão de acordo esses grupos é que não negociarão com Karzai enquanto existam tropas estrangeiras no país. Porém, nos bastidores houve negociações com a resistência. E os norte-americanos lhes imploram para que venham e se unam ao governo nacional e eles dizem que o farão, mas não enquanto existam tropas estrangeiras no solo afegão.

Os norte-americanos e os da OTAN vivem numa bolha, inclusive eles só podem visitar algumas partes do país se pagam imensas somas de dinheiro aos insurgentes, tal como costumavam fazer os russos.

Fracassou então e fracassará de novo. Não sei se ainda é possível, mas há cinco anos argumentei que a única forma seria que eles fossem embora e dessem aos países da região a autoridade para estabelecer seus governos nacionais. Mas o Ocidente não opera dessa forma.

FK: Por quais motivos você pensa que Obama se opôs à recente solicitação palestina de reconhecimento como Estado depois de declarar, há alguns meses, que reconheceria um Estado palestino dentro das fronteiras de 1967?
TA: Obama não é diferente de qualquer outro presidente dos EUA. Em um determinado momento Bush inclusive tomou iniciativas mais fortes no caso de um Estado palestino. E Bush pai foi ainda mais decidido na questão de um Estado palestino. Até mesmo o Clinton falou de um Estado palestino independente. Mas, na maioria dos casos, queriam que se tratasse de um Estado palestino independente que fosse aceitável para os israelenses, e os israelenses inclusive se negaram a permitir uma independência palestina nominal. Tudo o que estava sendo pedido às Nações Unidas era que reconhecessem o atual status quo como Estado palestino independente. E sequer puderam aceitar isso.

Chutaram os palestinos no rosto, e é o que a OLP obtém por ter capitulado total e completamente diante do Ocidente depois dos acordos de Oslo. É a tragédia: que os deixaram na paralisia e não sabem o que fazer. Em todo caso, não cabe a menor dúvida de que o Conselho de Segurança não o aceitaria porque os europeus e os norte-americanos não farão nada que os israelenses não queiram. E a declaração de Abu Mazen [Mahmud Abbas] foi patética. Nunca tinha visto um dirigente palestino tão horrivelmente patético. Sua declaração foi: "Isto revela que os EUA não é imparcial". Quando foi imparcial, equilibrado, racional os EUA, ou apoiou ambas as partes?

Dissenso global e justiça social

FK: Há um movimento para ocupar Wall Street que exige justiça social. Qual é a relação dos movimentos esquerdistas com o que está acontecendo, e quanta esperança causa a pressão pelas mudanças?
TA: Penso que a atual geração no mundo todo, não só no mundo árabe, mas na América do Sul e agora no Ocidente, que cresce sob a tutela da crise capitalista, está saturada. Está saturada porque vive em países sem nenhuma oposição séria dos partidos políticos. A situação aumenta agora no Ocidente, onde a forma de capitalismo que prevalece estrangula a democracia e a responsabilidade democrática. E por isso não tem oposição na Grã Bretanha. Não tem oposição nos EUA. Não tem oposição na França, Espanha ou Grécia. E são os partidos de centro esquerda na Espanha e na Grécia que estão impondo políticas hostis como as que o Novo Trabalhismo estava preparando para impor antes que o substituísse uma coalizão na Grã Bretanha. E as políticas de Obama e Bush, políticas econômicas e políticas exteriores, mostram a continuidade da elite imperial, nada de novo.

Nesta situação na qual padecemos de uma imensa crise e na qual os governos atuais continuam como se nada acontecesse, os jovens sentem que ninguém vai ajudá-los a menos que façam algo eles mesmos. Por isso estão fazendo o que sabem fazer: marchar, manifestar-se e ocupar. É um primeiro passo muito importante, que mostra uma mudança na consciência política. Mas desse ponto se requer um salto, que é a criação de novas formações políticas. Não digo que seja fácil, mas ao menos que aconteça, esses movimentos crescerão e cairão, sem poder atingir o que querem.

FK: Você vê uma probabilidade de se criarem novas formações políticas no Ocidente?
TA: Penso que necessitará outros 20 anos. Embora pense que as pessoas aprenderam com as suas próprias experiências. As pessoas aprendem com a experiência; assim foi no Egito, sua experiência lhes ensinou que é uma situação de viver ou morrer: estamos dispostos a morrer, mas nos livraremos de Mubarak. Quando cheguem nessa etapa nos EUA e partes da Europa, vão ver diferentes perspectivas e diferentes resultados, mas não aconteceu até agora. O sistema já conseguiu se recuperar antes de protestos, e pode voltar a fazê-lo. Não se sente seriamente ameaçado por eles. O que não significa que não sejam importantes. São muito importantes, mas tem que ser visto em longo prazo.

FK: A ocupação de Wall Street e as manifestações em toda a Europa levarão a uma nova era econômica para além do capitalismo?
TA: Lênin disse muitas coisas que as pessoas tinham esquecido, uma delas é muito importante. Disse que nunca haverá uma crise final do capitalismo a menos que surja uma alternativa. E penso que é absolutamente verdade. O capitalismo já passou antes por numerosas crises e as resolve, bem, mal, com repressão. Mas passará por elas a menos que surja uma alternativa no âmbito nacional e global. É um fato deplorável da história. Não se pode evitar esse fato, porque o sistema tem o poder. Não vê estas coisas como um desafio. Esses levantes e ocupações são extremamente importantes, e os apóio totalmente; mas sozinhos não bastam. Penso que a gente tem a responsabilidade de assinalar. Não bastam. O que mostram é muita intranqüilidade no mundo. Mostram uma nova geração que viu para além das mentiras do neoliberalismo ou da privatização, da cobiça capitalista.

Viram para além de tudo isso e, de alguma maneira, Marx é repentinamente popular, porque é a pessoa que analisou melhor o capitalismo. Inclusive seus inimigos o admitem. Têm que voltar a Marx para ver como funciona o sistema. É muito bom que as pessoas estejam lendo de novo, as pessoas começam a pensar de novo, porém, em última instância, as palavras de Lênin não se equivocam. Até que as pessoas vejam um sistema alternativo [o sistema prevalecente] sempre vencerá.

FK: Como se pode descrever o que presenciamos atualmente no mundo?
TA: Penso que agora vivemos em uma transição psicológica, política, social e cultural. Mas não é uma transição que possa se completar a menos que apareça algo novo. A noção que o capitalismo neoliberal propagou pelo mundo todo diz: pede emprestado, compra, assiste pornografia, faz o que te dê vontade, seja feliz… No entanto, todas as cifras mostram que durante os últimos 20 ou 30 anos, a doença que infecta ao máximo as pessoas no coração do capitalismo é a depressão mental. De fato, o capitalismo produz uma profunda insegurança e infelicidade, que se apresenta como depressão. Está demonstrado com estatísticas. Chega ao mais profundo desta sociedade, de modo que não resta dúvida na minha mente de que estas sociedades são corruptas e malignas, mas isso não significa que vão se desmoronar.

O século XXI vai ser, espero, um século de transição, de algo que sabemos que não funciona para algo que poderia funcionar. Não podemos predizer com segurança agora mesmo o que será, porque não há certeza neste mundo. No entanto, não penso que tenha se dado a resposta final a estas perguntas.

FK: Em vista das mudanças que vemos no mundo árabe e na economia global, os EUA estão declinando?
TA: Não. Devo ser muito franco. Temos uma frase na nossa língua no Paquistão "cozinhar um arroz imaginário". Podemos cozinhar muitos pratos lindos em nossa imaginação, mas a realidade é que os EUA sofreram piores reveses que este em sua história imperial, e não tem rival. Ironicamente, a ocupação do Iraque pode ter convertido o Irã em protagonista central nesta região. É uma conseqüência direta da ocupação norte-americana do Iraque, e o fato de que respaldaram os partidos clericais xiitas que são muito leais ao Teerã, ou próximos ao Teerã, quando não 100% leais.

Portanto, isso significou que a relação entre o governo iraquiano sob a ocupação e os iranianos é muito próxima, e é um resultado direto da intervenção dos EUA.

Pois bem, se os norte-americanos fossem totalmente racionais, o que teria acontecido é o que aconteceu com a viagem de Nixon a Pequim. Obama deveria ter voado a Teerã e ter chegado a um acordo, os iranianos estavam dispostos. Dariam-lhe as boas vindas, mas ele não fez. E o motivo é a oposição e resistência israelense. Houve forças inteligentes no governo norte-americano que disseram que podiam chegar a um acordo, mas o peso de Israel na elite governante dos EUA é muito forte, e não puderam respaldá-lo abertamente.

O Congresso e o Senado deram um cheque em branco a Israel depois do 11-S: “É nosso principal e único amigo”, de modo que se fez difícil dar esse passo, mas teria sido possível se fossem pressionados. Penso que é prematuro falar em uma retirada norte-americana ou de uma derrota norte-americana. Penso que sofreram alguns reveses, mas que se recuperarão muito rápido. São um poder imperial com uma enorme força militar, o que vimos quando a utilizaram na Líbia. Seis meses de bombardeio, quanta gente morreu? Ninguém nos diz. As cifras que alguns disseram são entre 50.000 e 60.000, alguns disseram 30.000. Mas é uma cifra imensa, supostamente a fim de impedir um massacre, chegaram e massacraram dezenas de milhares de pessoas. É uma realidade, mas também uma demonstração de poder real: Isto é o que podemos fazer do ar, inclusive sem tropas no terreno. É um tiro de advertência para toda a região de que seguimos estando aqui e não iremos embora.
(*) Tariq Ali é membro do conselho editorial de SIN PERMISO. Seu último
livro publicado é The Duel: Pakistan on the Flight Path of American Power [existe tradução espanhola na Alianza Editorial, Madrid, 2008: Pakistán en el punto de mira de Estados Unidos: el duelo].

Tradução para www.rebelión.org: Germán Layens
Tradução & Fonte para Carta Maior: Libório Júnior

Em apoio aos estudantes da USP que ocupam a reitoria - por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O que o Estado Assassino de Israel quer? Ocupar o mundo? – por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

Cultura de crise ou crise da cultura? - Por Rafael Azzi*

Cultura de crise ou crise da cultura?A saída para alguns impasses atuais não está tanto na mudança do modelo econômico, mas na transformação de padrões culturais

É consenso que vivemos atualmente uma crise do capitalismo e de seus valores. Então, é preciso entender melhor como funciona esse sistema, suas vantagens, suas desvantagens e sua história, a fim de buscar possíveis saídas para os problemas surgidos.

O sistema capitalista nasce em oposição ao antigo sistema aristocrático no qual as pessoas eram diferenciadas por seu nascimento. No sistema antigo, poderia-se nascer nobre, rico e cheio de privilégios ou nascer plebeu e sem direitos. Dificilmente essa situação mudaria ao longo de sua vida ou na de seus descendentes.

O sistema capitalista surgiu em oposição a esse velho modelo e trouxe à tona duas noções admiráveis: o trabalho e o mérito.

Teoricamente, no sistema capitalista todos nascem com iguais condições de serem bem sucedidos. Aquele que trabalhar e produzir mais pode subir na escala social e se tornar um vencedor. O mérito é o que diferencia quem sobe e quem desce. “Vence quem trabalha duro” é um dos pilares do pensamento capitalista.

Se isso já foi verdade algum dia, hoje não é mais, e este é o principal problema da crise. O sistema se transformou, e hoje o capital conseguiu se desvincular justamente dos dois formidáveis conceitos que o sustentavam, o trabalho e o mérito.

O problema da crise pode ser resumido em um simples lema: “faça o seu dinheiro trabalhar por você”. Na verdade, esse princípio retira o trabalho da equação do capital. Só os seres humanos podem trabalhar e produzir coisas ou ideias; o dinheiro não pode trabalhar nem produzir nada. Quando você faz o dinheiro “trabalhar”, na verdade está subtraindo da equação elementos como o trabalho, o esforço, a produção e o mérito. O dinheiro não se encontra mais no final da equação (trabalho + mérito = dinheiro), ele toma toda a equação (dinheiro = + dinheiro).

No entanto, isso se mostra falso, pois, como o dinheiro não é capaz de produzir nada sozinho, ele só se reproduz num sistema que tem por base uma única noção: a especulação. Criou-se um mercado bastante complexo no qual dívidas e promessas de lucro são vendidas e revendidas num ritmo alucinante, visando apenas à multiplicação do dinheiro através da multiplicação do risco envolvido. Assim, chegamos a um ponto em que 40% do PIB da maior economia do mundo é representado por um mercado baseado em nada, a não ser na pura especulação. As dívidas são roladas e especuladas com o simples objetivo de multiplicar o dinheiro, sem ter por lastro nenhum aumento de trabalho ou de produção. Mesmo um leigo em economia pode perceber que um sistema que não produz nada não pode se sustentar em longo prazo. Um dia, descobre-se que as fortunas foram construídas baseadas apenas em ar e então as bolhas estouram.

A questão central, portanto, não é a ganância desmedida dos envolvidos, mas o fato de o capital ter se desvinculado totalmente de princípios que lhe davam legitimidade e o sustentavam, como trabalho e produção. No novo sistema, o dinheiro gera mais dinheiro. Mas, como não há aumento da produção ou do trabalho, trata-se de ganho apenas virtual.

Atualmente, o dinheiro parece ser o único valor inquestionável da sociedade, seu único padrão. A melhor medida para dizer se uma sociedade vai bem ou vai mal é o desenvolvimento econômico. Basta que um país tenha dinheiro, não entram em cena questões como a felicidade da população, o respeito ao meio ambiente, os valores democráticos, os direitos humanos ou a possibilidade do desenvolvimento humano dos seus indivíduos.

Observa-se que o que vale para os países parece valer também para as pessoas. Não importa se o sujeito é mau caráter ou não, o importante para a sociedade atual é apenas o valor de sua conta bancária. Nosso único “valor” parece ser o financeiro.

Assim como as pessoas, os governos foram desviados do que é importante e passaram a ser guiados apenas pelo mercado financeiro. A lógica que realmente importa ao governo é a do crescimento econômico. Tal fato gerou uma relação de subserviência entre o poder político e o poder econômico. Desse modo, a democracia deixou de ser o governo do povo, para o povo e pelo povo e passou a ser o governo do dinheiro, para o dinheiro e pelo dinheiro.

Com o sistema financeiro ganhando autonomia e se distanciando das noções de trabalho e mérito, ele se distanciou também dos demais valores humanos. Eis o problema: o sistema se tornou desumano; a nossa sociedade se tornou desumana. Deixamos de nos importar com coisas que são relevantes para o ser humano e só conseguimos enxergar um valor: o monetário.

Surgem as indagações: Como podemos mudar isso? Quais as nossas alternativas?

Alguns afirmam que será preciso mudar o sistema econômico. Eu defendo a ideia de que é preciso mudar a nossa cultura.

Quanto a esse ponto, é preciso que saibamos muito bem o que queremos. A sociedade de hoje é voltada para o dinheiro. Para o que se voltará a cultura que pretendemos construir amanhã?

Há uma boa alternativa que já começa a surgir nas ruas como um novo lema: “as pessoas importam”. Mas o que significa voltar-se em direção às pessoas, ou melhor, como podemos estabelecer uma cultura que esteja direcionada de maneira integral para o ser humano? Como construir uma sociedade onde o mérito esteja associado à capacidade real de um ser humano atingir todo o seu potencial e não apenas à capacidade de gerar lucro ou não? Como uma cultura pode permitir e estimular seus indivíduos a fim de que estes atinjam todo seu potencial como ser humano?

Atenas e Florença
Outros, antes de nós, se mostraram verdadeiramente capazes de responder a essas perguntas. Em outros tempos, existiram sociedades nas quais floresceram, de maneira bastante fértil, grandes seres humanos e grandes ideias. Se formos capazes de observar a especificidade dessas sociedades, talvez possamos entender quais valores eram então priorizados e como isso estimulou o desenvolvimento dos seres humanos. Se formos capazes de entender o tipo de solo mais fértil para favorecer o desenvolvimento integral da cultura humana, poderemos estimular esse crescimento entre nós.

No entorno da cidade de Atenas no século V antes de Cristo, surgiram conceitos-chave que permeiam a nossa cultura até a atualidade, tais como a democracia, a filosofia, a retórica, a experimentação científica, a competição esportiva e o espetáculo teatral. Praticamente conviveram nessa cidade, de cerca de 40.000 habitantes à época, nomes como Sócrates, Platão, Aristóteles, Hipocrates, Ésquilo, Sófocles, Eurípides, Pitágoras.

Como é possível que uma pequena cidade no decorrer de um ou dois séculos tenha gerado conhecimento suficiente para que seja referência para praticamente todas as áreas da nossa cultura de hoje?

Na cultura Grega, o homem era a medida de todas as coisas. Os ideais de superação e excelência e a busca do eterno aperfeiçoamento físico e intelectual constituíam a base dessa sociedade. A educação integral e cultural dos cidadãos foi desenvolvida e incentivada de uma forma inédita. Nessa pequena cidade, os homens livres eram tidos como iguais e discutiam aberta e cotidianamente temas como política, filosofia, ciência e artes. Do mesmo modo como hoje, em nossa sociedade baseada em entretenimento, discutimos sobre futebol ou sobre o último reality show. Essa parece ser a principal diferença entre a nossa sociedade e a dos gregos antigos. Enquanto em Atenas a cultura estava focada no aprimoramento integral do ser humano, a nossa sociedade é centrada no consumo e no entretenimento.

Cerca de 2000 anos depois de Atenas, outra sociedade se destaca pelo surgimento de grandes nomes e grandes ideias: Florença, cidade italiana do século XV, onde ocorre o ponto de partida para a grande revolução cultural que será posteriormente denominada Renascimento, e que deu fim a séculos de obscurantismo e superstições.

Novamente, no espaço de poucas gerações e num mesmo local aparecem grandes nomes como Botticelli, Brunelleschi, Michelangelo, Leonardo da Vinci e Galileu Galilei. Além da retomada dos valores clássicos e do humanismo, existe um novo conceito que tomou força nesta sociedade: a magnificência.

Magnificência consiste na capacidade de as pessoas gastarem dinheiro com bens que são importantes para a sociedade, ou seja, financiando a cultura, as artes e a ciência. Ao contrário de hoje, quando valorizamos o acúmulo de dinheiro, os florentinos se preocupavam com a forma utilizada para seu gasto, gerando uma prática conhecida como mecenato. A família Médici baseava suas ações nessa prática; e, não por acaso, todos os nomes citados, de artistas e/ou homens da ciência, eram envolvidos diretamente com membros dessa família. Sua fortuna, ao se tornar fonte de financiamento para as artes e a cultura, gerou um conhecimento no campo artístico e científico que impulsionou toda a nossa civilização.

É interessante notar que tanto Atenas no século V a.C. quanto Florença no século XV eram sociedades de grande êxito comercial e de relativa fartura econômica. O que as difere das outras sociedades é o fato de que, para os florentinos e atenienses, o dinheiro não se tornou o único e último objetivo. Para tais sociedades, o dinheiro era um meio para alcançar o verdadeiro fim da sociedade: o desenvolvimento integral do homem.

Humanismo, tal como o nome indica, significa simplesmente pensar no ser humano como o fator mais importante da sociedade; ou, como bradam hoje os povos do mundo, pensar nas pessoas primeiro lugar.

Para isso acontecer, a sociedade deve dar maior significância aos valores humanos, isto é, deve-se dar importância à cultura, às artes, à literatura, à ciência, incentivando tanto a produção quanto o consumo de conhecimento e de cultura.

Cultura e capital
Priorizar a produção e o consumo de cultura mostra-se um processo muito mais vantajoso do que o que corresponde ao modelo atual de produção e consumo de bens materiais. O modelo econômico baseado acúmulo de bens gera um imenso desgaste ambiental sobre o planeta, pois para produzir bens materiais cada vez mais recursos naturais são necessários.

A produção de cultura e de conhecimento mostra-se focada sobretudo nos recursos humanos, no ser humano. Ao contrário dos recursos naturais, os recursos humanos não se esgotam e podem até mesmo ser aprimorados ao produzir cultura. Quanto mais cultura e conhecimento produzimos, mais cultura e conhecimento consumiremos. Nesse cenário ideal, o dinheiro e a energia da sociedade são direcionados diretamente de uma pessoa a outra, pois todos podem se envolver no processo de produção de cultura, gerando um círculo virtuoso.

Outro sério problema da lógica de produção baseada nas coisas é que ela gera um pensamento egoísta. Os recursos são limitados, e por isso, na divisão de bens da sociedade, para um indivíduo ter mais, outro necessariamente deverá ter menos. A lógica consiste em: “quanto mais eu tenho, menos você tem”. Trata-se de um jogo chamado perde-ganha, no qual para que eu ganhe é preciso que alguém perca.

Por outro lado, no modelo baseado na cultura, quanto mais eu acumular cultura e conhecimento, mais terei a oferecer ao próximo. No caso da produção de cultura, pode-se afirmar que acontece um milagre da multiplicação: quanto mais eu dividir a minha cultura com outros, mais a cultura se multiplicará.

A lógica de uma sociedade baseada na cultura favorece a discussão e constrói uma sociedade mais participativa. Dessa forma, desestimula o egoísmo que, na sociedade atual, parece atuar como um vírus, tornando os indivíduos cada vez mais mesquinhos e interessados apenas nos próprios problemas

A mudança do capital para o cultural só depende de nós, pois para uma cultura mudar é preciso que cada um mude. É preciso (re)pensar e valorizar a cultura e o conhecimento humano. Deixar de priorizar o capital material e começar a perceber o valor do capital humano que existe à volta. É preciso voltar a prestar atenção às pessoas.

Hoje, há todos os recursos para que isso seja possível, pois com o desenvolvimento da tecnologia o conhecimento e a cultura humana estão cada vez mais acessíveis. Na história da humanidade, em nenhum outro momento foi tão fácil produzir e compartilhar cultura e conhecimento. Porém, é preciso ter cuidado: se não ficarmos atentos para o curso da história, poderemos nos perder no mar de irrelevâncias que existe à volta e deixar passar a chance de tornar o nosso tempo luminoso, tal qual Atenas ou Florença um dia foram.

Que a crise configura uma oportunidade é uma frase batida. Então que a crise mundial seja uma oportunidade, não no sentido apenas de ser apenas uma janela de novos negócios, mas também uma razão para revermos valores e repensar a sociedade.
(*) Doutorando em Filosofia na PUC-RJ
Fonte: http://www.outraspalavras.net/

UNESCO concede adesão a Palestina – por Latuff



Apesar do Império do Mal e o Estado Assassino de Israel!

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Vitória dos animais: União Europeia proíbe corte de orelha e rabo dos cães - por ANDA

Vitória dos animais: União Europeia proíbe corte de orelha e rabo dos cães
Por Natalia Cesana (da Redação)Foto: Reprodução/Lastampa

Nesta semana, entrou oficialmente em vigor em toda União Europeia a normativa que proíbe o corte das orelhas e rabo dos cachorros, presente na Convenção Europeia para a Proteção dos Animais Domésticos, segundo informou o jornal italiano Lastampa. A notícia chega depois de um longo e tortuoso percurso legislativo, após a confirmação da lei nacional nº 210 de novembro de 2010 que cancelava a pena a quem submete um animal ao corte ou à amputação do rabo ou das orelhas, à retirada das cordas vocais, à extração das unhas ou dos dentes ou a outras intervenções cirúrgicas destinadas a modificar o aspecto ou com motivos não terapêuticos.

A Convenção Europeia para a Proteção dos Animais Domésticos foi assinada em Estrasburgo, em 13 de novembro de 1987, e proíbe os tutores de cometer qualquer ato que possa causar dor ou angústia ao animal. Suas características principais, já aprovadas pelo parlamento, são o dever de prestar cuidados em todas as necessidades, oferecer atenção e afeto, além de proibir o abandono.

De agora em diante ninguém poderá submeter o próprio cachorro à mutilação de orelhas e rabo por questões estéticas ou para expô-los em concursos de beleza canina. As diversas associações em defesa dos animais esperavam há tempos esta confirmação e provavelmente também os “quatro patas” respirarão aliviados.
Fonte: www.anda.jor.br/

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Ciberativismo do Egito à Ocupação de Wall Street

A luta pela liberdade de expressão e ação online se tornou uma coisa só com a luta offline pela liberdade de ir e vir e de idéias. Por Laurie Penny

O guri [rapaz] no banco de réus poderia estar fazendo teste para um papel principal no psicodrama global O Rapazinho Versus O Estado. Pálido, magro e diminuído por dois enormes seguranças no Tribunal Westminster de Magistrados de Londres, Jake Davis fala sussurrando, e somente para confirmar seu nome. Ele tem 18 anos, é do remoto arquipélago escocês de Shetland, e é acusado de ser um agente chave em um coletivo internacional de ciberativismo chamado LulzSec, o qual atacou as operações na web de entidades que vão desde a CIA ao império midiático [de meios de comunicação] de Murdoch [1]. Davis está sendo acusado por cinco delitos relacionados a computador, incluindo um ataque a um dos principais websites da polícia britânica e três acusações de conspiração. Ele parece se encolher dentro da sua camisa xadrez, agarrando uma brochura intitulada Free Radicals: The Secret Anarchy of Science (Radicais Livres: A Anarquia Secreta da Ciência).

Os hackers se apresentam de muitas formas, desde criminosos que roubam detalhes de cartão de crédito a sombrias organizações governamentais que atacam instalações nucleares inimigas; mas hoje os mais proeminentes e controversos são os ciberativistas – ou “hacktivistas”, como alega-se que Davis seja. Afiliados de maneira solta e em rápida expansão, estes grupos têm milhares de membros ao redor do mundo e nomes como AntiSec [2] e, o mais famoso, Anonymous. Estes grupos representam um novo front no que tem sido rotulado de “guerra global da informação”: a crescente batalha a respeito de quem controla a informação no ciberespaço.Operando anonimamente, principalmente através de canais de IRC, grupos de hacktivistas derrubam websites, invadem servidores e roubam senhas. O seu movimento de assinatura é o ataque DDoS (Distributed Denial of Service – algo como Negação de Serviço Distribuída), que envolve a coordenação de milhares de computadores para enviar tráfego para um website até que ele se sobrecarregue, colapse e seja derrubado – o equivalente digital de uma ocupação, exceto que a coordenação de uma ocupação não costuma resultar em uma pena de dez anos, que é a qual recairá sobre Davis se ele for considerado culpado.
Hackers tradicionalmente são arruaceiros de bate-papos; uma das acusações contra Davis é o seu alegado papel na invasão da página do jornal Sun, redirecionando leitores para uma notícia falsa declarando ao mundo que Rupert Murdoch estava morto. Risos abafados vêm do banco da imprensa conforme a promotoria lê a acusação, e para Davis é impossível impedir o menor dos sorrisos de se estampar em seu rosto. Para ciberativistas, isto sempre teve a ver com causar diversão: uma colisão anárquica de sátira e ação direta que faz zombaria dos poderosos e presunçosos. Eles fazem isso “pelo lulz” [2], em ciberdialeto.

Nos últimos anos, o trabalho destes grupos se tornou cada vez mais ligado a uma missão mais séria, uma que combate a censura na Internet, seja por parte de empresas ou de governos. O Anonymous, em particular, se tornou um coletivo poderoso. Nos protestos de Occupy Wall Street em Nova York, os quais o Anonymous ajudou a promover, pessoas jovens andavam pra lá e pra cá entre a multidão com máscaras de Guy Fawkes – um símbolo de resistência popular coletiva e inominada tirado do filme e do romance gráfico V de Vingança, que foi adotado pelo grupo [3]. Em apoio aos protestos, que têm como alvo a ganância empresarial e a desigualdade econômica, o Anonymous postou um vídeo na rede ameaçando apagar o New York Stock Exchange (a bolsa de NY) “da Internet”. Em outro lugar da Liberty Plaza jovens ativistas de tecnologia davam palestras sobre liberdade digital e forneciam cópias de softwares de código aberto gratuitos para qualquer um que trouxesse um laptop consigo. A tecnologia representa um papel essencial nos novos movimentos de pessoas conectadas que têm surgido em toda a Europa, América e Oriente Médio – e estes movimentos trouxeram o ciberativismo consigo. A geração que deveria ter sido transformada em indiferente e apática pela tecnologia – as crianças que supostamente deveriam ficar olhando sem expressão para mundos virtuais sozinhas em seus quartos – estão, ao invés disso, usando tecnologia para se reengajar com eventos atuais numa era em que os próprios princípios do poder estão sendo reescritos em termos que não estão completamente sob o controle dos Estados-nações.“Não há muito precedente histórico” para o ciberativismo nesta escala, diz Gabriela Coleman, que dá aulas sobre tecnologia e antropologia na Universidade de Nova York. “É difícil dizer o que vai acontecer, exceto que os Estados cairão em cima disso rapidinho.”

A maioria dos especialistas em segurança concorda que os ciberataques sofisticados perpetrados por Estados-nações, como o ataque da Stuxnet a uma instalação nuclear iraniana no ano passado, representam uma ameaça muito maior à segurança global do que os coletivos de hackers autônomos que derrubam sites de empresas. O primeiro é o equivalente digital de espionagem entre Estados; o último, o equivalente de um protesto com bloqueio de estrada ou com cartazes. Apesar disso, o FBI e outros órgãos para o cumprimento da lei estão concentrando um grande esforço sobre estes ciberprotestos. Os Estados Unidos passaram o ano passado recrutando centenas de hackers “de chapéu branco” para combater o ciberativismo e os crimes virtuais (e-crime) e lançaram uma caçada global aos membros do Anonymous, Lulzsec e outros grupos. E estão também contando com a ajuda de outros países para tomar medidas similares: sob pressão dos E.U.A, o Japão está considerando exigir que empresas compartilhem informação sobre hackers com o governo.

Como os ataques adquiriram caráter mais político – com mais agências para o cumprimento da lei e grandes empresas sendo alvo de hackeamentos de protesto –, a reação também o fez. Desde o verão passado, diversos membros suspeitos do Anonymous, Lulzsec e outros grupos, alguns deles de até 16 anos, foram presos na Europa e na América do Norte em uma série de operações de trapaça. Ainda assim os ataques continuaram, tendo como alvo, entre outros, mais de setenta websites da polícia ao redor dos Estados Unidos e o website do Ministério de Defesa da Síria, onde o grupo postou uma mensagem de solidariedade para com o povo sírio. A resposta de pulso de ferro para um ciberativismo relativamente benigno parece apenas gerar mais do mesmo enquanto desvia recursos que poderiam ser usados para perseguir o tipo de cibercrime que verdadeiramente representa uma ameaça pública.
* * *

Como tantas coisas na internet, de certo modo, o hacktivismo contemporâneo começou com pornografia. Anonymous, por exemplo, se originou no site de bate-papo 4chan, cujos quadros de mensagem são canais obscenos cheios de piadas internas sujas.

Alguns dos primeiros ataques DDoS, começando em fevereiro de 2010, tiveram como alvo autoridades australianas que tentaram censurar a distribuição de pornografia virtual – um projeto sob o codinome Operation Titstorm (algo como Operação Tempestetas) – assim como uma empresa de Proxy que tentou derrubar o The Pirate Bay, um site de compartilhamento de arquivos para download de música e vídeo. O que estava em jogo não eram tanto fotos de nus ou MP3 gratuito, mas o próprio princípio da livre troca de informação gratuita. Neste sentido, a trajetória do hacktivismo, partindo da defesa do livre compartilhamento de arquivos para a defesa da liberdade em si mesma pode ter sido inevitável. “Tudo começou com expor vídeos com peitinhos para os amigos”, explica um membro do coletivo militante “dissidente tecnológico” DSG (Deterritorial Support Group – Grupo de Suporte Desterritorial), que se identifica como Zardoz. “E terminou com a derrubada de [um] regime autocrático”.Ele (ou ela) está se referindo à revolução do Egito, um momento chave de politização para os ciberativistas, que se prontificaram para ajudar os rebeldes com comunicação após Hosni Mubarak haver derrubado a internet. Conforme a Primavera Árabe e o subseqüente levante global do verão demonstraram, a luta pela liberdade de expressão e ação online se tornou uma coisa só com a luta offline pela liberdade de ir e vir e de idéias. A “politização do 4chan”, como esta trajetória é parcialmente conhecida entre os hacktivistas, pode ser remontada ao WikiLeaks. Depois que o site de denúncias publicou milhares de documentos e comunicações diplomáticos secretas no último outono, a MasterCard e o PayPal anunciaram que suspenderiam pagamentos ao WikiLeaks, estimulando os membros do Anonymous a derrubar os websites das empresas. Intitulado Operation Payback (Operação Troco), o projeto mudou as regras de combate para aqueles ciberativistas que haviam anteriormente visto as suas atividades anticensura como separadas da geopolítica. Neste sentido, o grande triunfo do WikiLeaks foi fazer com o que mundo pensasse novamente sobre se os governos devem ter o direito de reter informação de cidadãos e obstruir a livre troca de idéias online.

Para os jovens em todo o mundo que cresceram com a internet – “nativos digitais” – a questão é tanto profunda quanto profundamente descomplicada. Defender a liberdade de troca de informações online é mais importante do que política individual ou moralidade. “É por isso que o Anonymous interveio no caso WikiLeaks”, explica Zardoz. “É por isso que eles intervieram na Tunísia. E é por isso que eles intervieram no Egito.” Na Operação Egito e na Operação Tunísia, o Anonymous e outros grupos se coordenaram para restaurar o acesso dos cidadãos a websites bloqueados pelo governo. Os esforços se estenderam além da internet, com faxes utilizados para comunicar informação vital como um meio de último recurso. (No clássico estilo “lulzy”, ciberativistas também causaram caos ao pedir enormes quantidades de pizza para serem entregues nas embaixadas do Egito e da Tunísia).

Depois do Egito, ficou claro que a luta contra a censura e a luta contra a opressão do Estado estavam caminhando bem próximas. “Não se trata de uma luta de pouca importância entre nerds estatais e nerds vagabundos”, escreveram membros do coletivo DSG em junho, em um post de blog influente intitulado “Vinte razões porque o bicho tá pegando no ciberespaço (Twenty reasons why it’s kicking off in the cyberspace)”. “Trata-se do campo de guerra do Século 21, com os termos e as condições de guerra sendo configurados bem diante dos nossos olhos”.

Neste ponto, hacktivistas e especialistas em segurança concordam. “O LulzSec e o Anonymous estão expondo um enorme número de vulnerabilidades que estão por aí esperando para serem exploradas por alguém que tenha as habilidades e a motivação”, diz Chris Wysopal, co-fundador do Veracode, uma empresa de segurança com sede em Massachusetts. “Os dados têm um isolamento tão ruim,” diz Coleman da NYU, “e se tudo o que você precisa para invadir uma instalação do governo é um pendrive, será que nós podemos mesmo impedir que isso aconteça?”.

Esta é precisamente a pergunta que causa pavor nos poderes estatais. Nestes tempos instáveis, umas das poucas coisas que nós podemos saber com alguma certeza é que o futuro é digital; a internet – e as possibilidades para o enfrentamento e o rompimento coletivo que ela oferece – não vai embora. Seria necessário um programa massivo de censura e vigilância em todo o mundo tanto online quanto offline para desmantelar esta possibilidade, e é justamente isso que os “dissidentes tecnológicos” esperam conseguir evitar.
* * *
A ligação entre a dissidência pela tecnologia e a dissidência nas ruas está se tornando cada vez mais forte. O fato de que cidadãos ordinários podem obter e compartilhar informação instantaneamente não apenas fornece a eles as ferramentas para resistir à autoridade e evitar a prisão; ele também deslegitima aquela autoridade em níveis práticos e filosóficos. Controlar a informação, afinal de contas, é uma das mais importantes maneiras pelas quais um Estado exerce seu poder. Ao longo de mais de dezenove meses que viram a natureza e a estrutura do poder questionadas ao redor do globo, a natureza e a estrutura da dissidência tecnológica cresceram e amadureceram. Para a polícia, a imprensa e os poderosos, esta ligação crescente entre tecnologia e dissidência é uma causa de alarme: ninguém sabe o que os ciberativistas podem ser capazes de fazer a seguir.

No final das contas, o ciberterrorista para uns é o defensor da liberdade digital para outros, e para muitos é exatamente isso que os hacktivistas são. Em Liberty Plaza, o centro nervoso do protesto de Occupy Wall Street é um barracão provisório de mídia cheio de jovens sérios fazendo barulho em laptops sobre um emaranhado de cabos. Nem todos os ciberativistas são jovens – estereotipar os hacktivistas como adolescentes reclusos é uma maneira fácil de descartar suas idéias – mas há uma coisa que adolescentes e tecnologias conseguem fazer mais rápido do que adultos e governos: se adaptar.

Notas do tradutor:
[1] Rupert Murdoch fundador e presidente da News Corporation, o segundo maior conglomerado de mídia no mundo.
[2] AntiSec é acrônimo de Anti-Security, ou Anti-Segurança, assim como LulzSec é acrônimo para Lulz Security (Lulz é uma corruptela de , expressão de internet indicando divertimento que significa literalmente Laughing Out Loud ou Rindo Alto). Vale notar que tanto “safety” quanto “security” se traduzem em português como segurança; no entanto, a primeira diz respeito, de maneira geral, a segurança pessoal e a última diz respeito, de maneira geral de novo, a segurança da informação ou patrimonial.
[3] Guy Fawkes foi um militar inglês que participou numa conspiração católica, em 1605, na qual se pretendia assassinar o rei e todos os membros do parlamento. Foi condenado à morte e executado em 1606. Pese o anacronismo, o nome de Guy Fawkes é muitas vezes evocado por aqueles que se opõem ao parlamento e às instituições da democracia representativa (Nota do Passa Palavra).
Original em inglês publicado em http://www.thenation.com/article/163922/cyberactivism-egypt-occupy-wall-street.
Tradução de Sara Santedicola
Fonte: http://passapalavra.info/

O incrível trabalho do cartunista Mohamed El Zawawi (1936-2011) por Latuff


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[Itália] Comunicado sobre os acontecimentos de 15 de outubro, em Roma - por ANA

[Itália] Comunicado sobre os acontecimentos de 15 de outubro, em RomaRoma, Itália, 15 de outubro de 2011: estoura uma ira incontrolável durante uma manifestação contra as medidas de austeridade impostas pelo governo para enfrentar à crise econômica.

Organizadores oficiais, inspirados no movimento espanhol dos “Indignados”, havia feito um chamado para uma “manifestação pacífica” para democraticamente expressarem seu desacordo. Mas tal convite não pode ser aceito: centenas de pessoas furiosas, a maioria delas crianças na adolescência, sem relação alguma com grupos ou organizações políticas, apenas tomaram as ruas de Roma para destruir a miséria existente, atacar bancos e lojas e, finalmente, envolver-se em uma batalha contra a polícia na praça de San Giovanni.

Pelo que sabemos, 12 meninos foram presos naquele dia, a maioria deles menores de idade. Dois dias depois, em 17 de outubro, a polícia invadiu as casas de dezenas de anarquistas por toda a Itália, em busca de “armas”, supostamente utilizadas durante a manifestação. A busca, conduzida sem um mandado, mas contando com os poderes especiais concedidos pelo artigo 41 TULPS (suposta posse de armas e explosivos), foi em vão.

Este comunicado do Asilo Occupato de Turim, coletado entre muitos outros, oferece uma boa visão do evento.

Comunicado:
Uma marcha foi realizada em Roma em 15 de outubro contra as novas medidas financeiras do governo e as medidas de austeridade adotadas para enfrentar o fantasma desgastado da crise. Na prática, as pessoas tomaram as ruas para reagir à ameaça de mais uma temporada de lágrimas e sangue, em detrimento dos mais pobres, sempre forçados a apertar o cinto e suportar o sacrifício diário e a exploração em um mundo cheio de mercadoria e regido pelos interesses de uns poucos que têm condições de consumir.

Para os organizadores, a sinistra caravana de cidadãos e “indignados” italianos estava destinada a ser uma marcha pacífica, uma caminhada animada, porém respeitosa, “para dar nossa opinião”, para expressar o inofensivo zumbido de opiniões timidamente e de dentro das linhas. Um pacote preparado com antecedência, um filme já visto e cujo fim era previsível, tudo dentro do equilíbrio de uma normalidade bem gerida. O jogo limpo entre o poder e os recuperadores da ira permite o funcionamento do deserto da democracia real asfixiando o assalto das paixões hostis.

Mas desta vez não houve drama, a marcha rompeu com as primeiras janelas quebradas, e o espetáculo virou fumaça entre as nuvens de gás lacrimogêneo e chuva de pedras.

Um ritmo caótico da destruição de caixas eletrônicos e lojas ressoam na Via Cavour, um mercado saqueado e carros destruídos, ou seja, a expressão de uma ira que aponta à esquerda e a direita.

Organizar-se para golpear os bancos e provocações de luxo é o primeiro passo para invadir as ruas e derrubar os lugares físicos da exploração, um por um. Saber como e quando fazê-lo é uma questão de tempo, espaço e uma grande quantidade de métodos a serem aprendidos na prática: por fogo em um carro, a fim de erguer uma barricada, é uma coisa diferente para fazer no meio de uma marcha que põe em risco o resto dos manifestantes e aqueles que vivem no edifício em frente, o que também afasta os eventuais cúmplices. Capuzes e capacetes pretos são ferramentas úteis para se proteger e manter o anonimato, mas não é um uniforme para mostrar. Vamos sair da lógica dos blocos militares para pressionar o regime e dos relatórios da polícia, somos proletários furiosos. Hoje em dia, o ódio dos chefes e da polícia não é exclusivo dos setores militantes, esgotados por anos de isolamento e a busca de pureza, mas uma realidade que está explodindo nas vidas de muitas pessoas.

14 de dezembro de 2010, em Roma, as batalhas de Val Susa contra o TAV (Trem de Alta Velocidade), as revoltas na Grécia e as expropriações massivas em Londres, nos dizem algo sobre a temperatura social do presente em que vivemos, de como a resistência deixou de ser moda. Não nos importa os gestos demonstrativos e alusões à revolta. Como um inverno muito longo de pacificação que parece finalmente acabar, a rebelião não passa através de símbolos, embora estes sejam mais belos e sugestivos que os zumbis da política, mas passa através de ações e instrumentos práticos e eficientes. Identidades e fetiches ideológicos impõem-se exatamente devido à falta histórica de insurreição, enquanto hoje prever a possibilidade de uma insurreição significa assumir a responsabilidade de olhar para cima.

A batalha da praça San Giovanni foi uma oportunidade para medir-se contra o poder de polícia, e naquele dia tomou o fôlego de massas. Havia pessoas de todas as origens e idades para enfrentar as ordens policiais, muitas sem máscaras e em sua primeira experiência nas ruas... nada estava arranjado e determinado de antemão. O momento mais forte e mais explosivo da manifestação - que derrubou todos os planos, agitou o sangue e pôs a atmosfera calorosa - teve, como protagonista único, a determinação de apoderar-se de uma praça e defendê-la, com uma ira descontrolada e generalizada.

Há muito a aprender com esta demonstração de valor, exposta especialmente por crianças fartas sem bandeiras, como muitos de seus companheiros em muitas outras cidades do mundo. O que é Black Bloc? O instinto, a inteligência prática e a reciprocidade repentina de intenções: atacar um carro da polícia, re-lançar o gás lacrimogêneo e enfrentar a polícia. O grito é Roma Livre. Os vândalos podem fazê-lo por si mesmos.

A organização de pequenos grupos, afinidades e amizades, precisão de objetivos e agilidade são as características comuns que nos faz quase invisíveis aos olhos do inimigo. O cenário de guerra civil que ecoa em muitas partes do mundo se paralisou com a apagada imagem do protesto espanhol... a parte dos cidadãos perdeu. A chamada de rebelião é muito mais forte. Não vamos voltar sempre... Vão à merda!

Asilo Occupato de Via Alessandria 12, Turim.

Quarta-feira, 19 de outubro de 2011

agência de notícias anarquistas-ana
jardim da minha amiga
todo mundo feliz
até a formiga
Paulo Leminski

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Fanzinada no MASP - dia 05/11/2011 - Com nossa grande inspiradora Thina Curtis


Programação:
Exposição de desenhos: Cledson Bauhaus
14:00 hs – Oficina de HQ – Wendell Sacramento
14:00 hs – Instalação EXINTER – com Gabriela Iasi
15:00 hs – Graffiti – Live Paint com Daniel Melim, Dedot e Patricia Rizka
16:00 hs – Documentários
Fanzineiros do Século Passado – Márcio Sno e Punk SA – Thina Curtis
17:00 hs – Debate – Zines, Produção Cultural e Mídias Alternativas
Márcio Sno, Fernanda de Aragão, Thina Curtis, Ugra Press, Renato Donizete, Flávio Grão e Job Fernando (The Katz).
17:00 hs – Oficina de fanzines e oficinas paralelas
18:00 hs – DILL – perfomance teatral
18:30 hs – Glassbox – Show de Rock Alternativo

Zines Participantes:
Aviso Final, Vestindo Outubros, Introspecção, Anuário de Fanzines, UGRA press, Blog Zinismo, Spell Work, Karta Bomba, Oficinativa, Subsolo – ruas do ABC, Aisthésis.

Free Alaa Abd El-Fatah - por Latuff


Fonte: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff

[Reino Unido] Rebeldes com Causa - por ANA

[Reino Unido] Rebeldes com CausaNos dias 8 e 9 de outubro aconteceu a Rebellious Media Conference [Conferência de Mídia Rebelde] em Londres, trazendo ativistas, organizações de imprensa independente e acadêmicos mundialmente conhecidos para discussões sobre como a mídia radical e independente pode fazer sua voz ser ouvida em uma indústria dominada pelo mainstream, meios de comunicação corporativa. A conferência - organizada pela Peace News, Ceasefire, NUJ, Red Pepper, Undercurrents e visionOntv - atraiu palestrantes como Noam Chomsky, John Pilger, Michael Albert e Greg Philo.

Junto a numerosas palestras e fóruns que ocorreram durante dois dias, as pessoas presentes tiveram a oportunidade de ter acesso a diversas publicações anarquistas com barracas da Freedom Press, SchNews e New Internationalist, e aprender mais sobre o trabalho de organizações como a Corporate Watch e Ceasefire, dentre muitos, muitos outros.

O primeiro dia da conferência aconteceu no Instituto de Educação (UCL), iniciando-se com uma fala de Chomsky com um Logan Hall lotado. Chosmky falou longamente sobre o movimento Occupy Wall Street que estava no momento se espalhando pelos Estados Unidos, criticando sua natureza reformista e chamando os manifestantes para radicalizar suas demandas com uma profunda análise das estruturas do poder que a elite utiliza para manter sua dominação. As palestras foram programadas para o dia inteiro no instituto, sobre uma variedade de temas fundamentais e curtas radicais sendo projetados nos intervalos de lanche.

No segundo dia, a conferência foi para a Friends House, com uma mudança de foco para os aspectos mais práticos da produção de mídia radical com seminários sobre fotografia, composição de notícias de imprensa, tradução e como fazer a maioria das redes de mídia social. Isto propiciou às pessoas presentes a oportunidade de conhecer outros produtores de mídia radical e compartilhar idéias e experiências em fóruns abertos.

A conferência teve continuidade com discursos de encerramento num painel que incluiu Noam Chomsky e Michael Albert com um chamado posterior para maior apoio mútuo entre as organizações de mídia radical. A conferência foi muito bem resumida, ainda, por Becky Hogge, que após ser questionada sobre como a conferência poderia ser "mais radical", declarou que o que importava não era o que foi dito no decorrer do fim de semana, mas o que cada um dos presentes faria quando a conferência tivesse terminado.

Anarchist Federation

http://www.afed.org.uk/

Tradução > Marina Knup

agência de notícias anarquistas-ana
Mesmo o velho eucalipto
Parece feliz –
Névoa da manhã.
Paulo Franchetti

VERGONHA! Após ameaças de morte, deputado estadual Marcelo Freixo do Rio deixará o Brasil - IG

Após ameaças de morte, deputado estadual do Rio deixará o Brasil

Marcelo Freixo (PSOL) presidiu a CPI das Milícias e recebeu convite da Anistia Internacional para deixar o País com sua famíliaO deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) vai deixar o Brasil nesta terça-feira (1) a convite da Anistia Internacional. A medida será tomada após o parlamentar ter recebido diversas ameaças de morte. Freixo presidiu em 2008 a CPI das Milícias na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Por causa da comissão, 225 pessoas, entre policiais militares e civis, bombeiros e políticos, foram indiciadas.

O deputado irá para a Europa com a família. O país de destino, no entanto, não foi divulgado por questões de segurança. Neste período, ele vai ficar de licença na Alerj. Pelo twitter, Freixo informou que retornará ao Brasil até o final de novembro. “Eles (milicianos) não venceram e nem vão vencer, estarei de volta em breve”, declarou. “Preciso preservar um pouco minha família e ajustar minha segurança”.

Um documento preparado pela Coordenadoria de Inteligência da Polícia Militar indica que o ex-PM Carlos Ari Ribeiro, conhecido como Carlão, planejava o assassinato de Freixo. O suspeito integra uma milícia e o crime teria sido arquitetado quando ele estava detido do Batalhão Especial Prisional (BEP) da PM. Pelo assassinato, Carlão receberia R$ 400 mil do miliciano Toni Ângelo Souza Aguiar.

Além dessa ameaça, a Coordenadoria de Inteligência da Polícia Militar, o Ministério Público e o Disque-Denúncia registraram, em pouco mais de um mês, outras seis denúncias de atentados contra o deputado estadual. “Sobre as ameaças, nunca recebi retorno das providências tomadas. Esse não é um problema meu. Não é particular”, escreveu Freixo no twitter. “(A juíza) Patrícia Acioli recebeu várias ameaças e nada foi feito. O poder público é reativo e inoperante”, criticou.

Proteção para a família
O secretário estadual de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, enviou nesta segunda-feira (31) um ofício à presidência da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) informando que o Estado já oferece segurança ao deputado estadual Marcelo Freixo. O ofício é uma resposta ao anúncio feito por Freixo de que vai deixar o país em virtude das ameaças de morte que está recebendo.

No ofício, a secretaria também informou que está pronta para garantir a segurança do filho de Freixo, a partir de novembro, conforme pedido feito no dia 26 pelo parlamentar. Beltrame destacou que o governo fluminense está combatendo as milícias no Estado do Rio e citou, como exemplo desse esforço, a prisão de 598 milicianos desde 2007.

“A Secretaria de Segurança tem como estratégia focar a repressão nos líderes dessas quadrilhas, de maneira a enfraquecer essas ações criminosas”, informou Beltrame. Segundo ele, a secretaria investigou todas as ameaças feitas ao deputado.

*com informações da Agência Brasil
Fonte: www.ig.com.br