sexta-feira, 18 de julho de 2014

Arrancados da natureza: Comércio de guepardos está levando espécie à extinção – por ANDA


Arrancados da natureza: Comércio de guepardos está levando espécie à extinção
Guepardos são vendidos como símbolo de status no Oriente Médio (Foto: Piroschka Van De Wouw/EPA)

O crescente comércio de guepardos para serem explorados como animais domésticos “de luxo” no Oriente Médio está levando à extinção as populações que já eram ameaçadas, de acordo com estudo recente. O relatório do estudo também revela números horríveis desse comércio, com mais de dois terços dos filhotes que são contrabandeados em uma rota pela África morrendo no caminho. Finalmente, as nações dos dois lados do comércio concordaram que é necessária uma ação urgente. As informações são do The Guardian.

Os guepardos, famosos como os animais terrestres mais ágeis do mundo, perderam cerca de 90% de sua população no último século quando suas imensas faixas de habitat na África e Ásia foram tomadas por fazendeiros. Restaram menos de 10 mil animais, e os números estão decrescendo. Há uma tradição antiga de uso de guepardos treinados como animais de caça na África mas, mais recentemente, uma demanda por eles como animais de companhia por serem símbolo de “status” nos estados do Golfo reduziu ainda mais as populações.

Guepardos são extraordinariamente fáceis de serem domesticados, especialmente quando filhotes, e o relatório descobriu casos nos estados do Golfo desses felinos dentro de carros como passageiros, sendo levados para passear com guias como cães e até mesmo colocados para se exercitar sobre esteiras. Outras evidências mostraram guepardos andando por salas de estar e se atracando com seus tutores, incluindo crianças pequenas.

“Todo esse comércio não foi apreciado pelo público ou pelo meio conservacionista”, disse Nick Mitchell, que contribuiu com o relatório para a Cites (Convenção sobre o Comércio de Espécies Ameaçadas), em uma primeira visão abrangente sobre o comércio de guepardos. “Se nós não agirmos agora sobre esse mercado e sobre o uso da terra, poderemos certamente perder sub populações em poucos anos”.

Os guepardos não se reproduzem facilmente em cativeiro, e o comércio no Golfo é suprido por animais arrancados da natureza na África. Entre as distintas sub espécies que vivem na região, os números de indivíduos somam aproximadamente 2.500. Os animais são traficados por barcos da Somália para o Yemen, e então levados por estradas para dentro dos estados do Golfo, incluindo a Arábia Saudita. “Números imensos de guepardos morrem durante o percurso”, afirmou Mitchell, que é coordenador do Programa de Conservação Ampla para Guepardos e Cães Selvagens Africanos, um projeto de parceria entre a Zoological Society of London e a Wildlife Conservation Society. “Com certeza, nós estamos falando de uma população pobre do Nordeste africano e eles não estão muito preocupados com o bem estar dos animais”. Apreensões de filhotes de guepardos geralmente contabilizam 30 animais, com 50 a 70% morrendo no caminho. Há também uma demanda por sapatos feitos de pele de guepardo no Sudão, onde são considerados objetos de alto status social.
Ainda mais ameaçadas são as sub espécies de guepardos no Irã, onde apenas 40% sobreviveram à perda de território e agora enfrentam o contrabando. Outras sub espécies seriamente ameaçadas vivem no norte e no oeste africanos, com menos de 250 indivíduos. No local, a ameaça principal é a demanda por suas peles para vestuário, e ossos e partes do corpo, usadas na medicina tradicional e em rituais de magia.

A maior população sobrevivente dos guepardos – com cerca de 6.200 animais – está na África do Sul. A caça de troféus, que paga entre 10 mil e 20 mil dólares por animal, é permitida na Namíbia, em Botsuana e no Zimbábue, totalizando mais de 200 mortes por ano. Na África do Sul, aproximadamente 90 guepardos criados em cativeiro são exportados para zoológicos a cada ano, e os conservacionistas temem que também haja animais “ilegais” dentro desses números.

Mitchell diz que está “cautelosamente otimista” de que um novo grupo de trabalho da Cites, formado em reposta às revelações do relatório, deverá coibir o comércio ilegal de guepardos com melhor aplicação da lei. “Foi dito aos países que não se pode ignorar o fato de que isso está sendo monitorado”, disse ele.

David Morgan, chefe de Ciência da Cites, declarou: “Países do Oriente Médio posicionaram-se muito claramente e esse é um sinal de progresso. O Catar, os Emirados, o Kuait, todos reconheceram o problema”.

Morgan disse que a demanda por espécies ameaçadas, incluindo os grandes felinos, vem mostrando uma tendência “da saúde à prosperidade”, ou seja, uma ênfase crescente nesses animais como símbolo de status, mais do que a exploração para supostos usos medicinais. “Muitos países asiáticos ainda praticam o comércio de partes dos animais para fins medicinais, mas a procura deles por motivo de exibição parece estar crescendo”, explicou ele. “Isso vem com o crescimento das economias desses países, o que impulsiona a demanda. Mas os pequenos números de animais deixados na natureza não poderão suportar isso”.

A recente cúpula da Cites, que terminou na semana passada na Suíça, também abordou o assunto da crise da caça aos elefantes. “A Tailândia recebeu um último aviso”, disse Morgan. “Foi feita uma nota de que eles têm que colocar a casa em  ordem, ou haverá consequências”. A menos que atue em seu comércio de marfim, parte chave da cadeia de marfim da África para a China, a Tailândia será barrada do comércio de toda a vida selvagem coberto pelo acordo internacional da Cites, incluindo o comércio lucrativo de orquídeas e cactos.

A Interpol estima que o comércio ilegal de vida selvagem movimente de 10 a 20 bilhões de dólares por ano, o quarto comércio negro mais lucrativo depois do tráfico de drogas, pessoas e armas. A situação já encontra-se em uma escala em que prejudica pessoas e nações, especialmente na África, conforme John Scanlon, secretário geral da Cites, disse ao The Guardian em 2013: “Envolve cada vez mais sindicatos de crime organizado e, em alguns casos, milícia rebelde. Isso representa uma séria ameaça à estabilidade e à economia dos países afetados e rouba-lhes os seus recursos naturais. É preciso que isso pare”.

Ele acrescentou: “O Conselho de Segurança das Nações Unidas relacionou o grupo armado Exército de Resistência do Senhor ao contrabando de marfim na República Democratica do Congo, enquanto o grupo al-Shabaab da al-Qaida foi ligado ao comércio ilegal de marfim na Somália”.

Fonte: http://www.anda.jor.br/

Quatro crianças palestinas mortas por Israel enquanto jogavam futebol na praia – por Latuff

Fonte: http://latuffcartoons.wordpress.com/

quinta-feira, 17 de julho de 2014

A história de Gaza que os israelenses não contam – por Robert Fisk


A história de Gaza que os israelenses não contam. 
A história do direito de autodefesa de Israel é a de sempre. Mas como e por que, para início de conversa, há 1,5 milhão de palestinos apertados em Gaza?

Pois bem, na tarde da última sexta-feira o saldo de mortos estava 110 a 0 a favor de Israel. Mas passemos para a história de Gaza que, a esta altura, ninguém vai contar. Trata-se da terra. Os israelenses de Sderot estão recebendo tiros de rojões dos palestinos de Gaza, e agora os palestinos estão sendo bombardeados com bombas de fósforo e bombas de fragmentação pelos israelenses. É. Mas e como e por que, para início de conversa, há, atualmente, um milhão e meio de palestinos apertados naquela estreita Faixa de Gaza?

As famílias deles, sim, viveram ali, não eles, no que hoje há quem chame de Israel. E foram expulsas – e tiveram de fugir para não serem todos mortos – quando foi criado o Estado de Israel.

E – aqui, talvez, melhor respirar fundo antes de ler – o povo que vivia em Sederot, no início de 1948, não era israelense, mas árabe palestino. A vila palestina chamava-se Huj. Nunca foram inimigos de Israel. Dois anos antes de 1948, os árabes de Huj até deram abrigo e esconderam ali terroristas judeus do Haganah, perseguidos pelo exército britânico. Mas, quando o exército israelense voltou a Huj, em 31 de maio de 1948, expulsaram todos os árabes das vilas... para a Faixa de Gaza! Tornaram-se refugiados. David Ben Gurion (primeiro premiê de Israel) chamou a expulsão de “ação injusta e injustificada”. Pior, impossível. Os palestinos de Huj, hoje Sderot, nunca mais puderam voltar à terra deles.

E hoje, bem mais de 6 mil descendentes dos palestinos de Huj – atual Sderot – vivem na miséria de Gaza, entre os “terroristas” que Israel mente que estaria caçando, e os quais continuam a atirar contra o que foi Huj.

A história do direito de autodefesa de Israel é a história de sempre. Hoje, foi repetida e a ouvimos mais uma vez. E se a população de Londres estivesse sendo atacada como o povo de Israel? Não responderia? Ora, sim. Mas não há mais de um milhão de ex-moradores de Londres expulsos de suas casas e metidos em campos de refugiados, logo ali, numas poucas milhas quadradas cercadas, perto de Hastings!

A última vez em que se usou esse falso argumento foi em 2008, quando Israel invadiu Gaza e assassinou pelo menos 1.100 palestinos (1.100 mortos palestinos, 13 mortos israelenses). E se Dublin fosse atacada por foguetes – perguntou então o embaixador israelense? Mas, nos anos 1970, a cidade britânica de Crossmaglen, no norte da Irlanda, estava sendo atacada por foguetes da República da Irlanda – e nem por isso a Real Força Aérea britânica começou a bombardear Dublin em retaliação, matando mulheres e crianças irlandesas.

No Canadá em 2008, apoiadores de Israel repetiram esse argumento fraudulento: e se o povo de Vancouver ou Toronto ou Montreal fosse atacado com foguetes lançados dos subúrbios de suas próprias cidades? Como se sentiriam? Não. Os canadenses nunca expulsaram para campos de refugiados os habitantes originais dos bairros onde hoje vivem.

Passemos então para a Cisjordânia. Primeiro, Benjamin Netanyahu disse que não negociaria com o ‘presidente’ palestino Mahmoud Abbas, porque Abbas não representava também o Hamas. Depois, quando Abbas formou um governo de unidade, Netanyahu disse que não negociaria com Abbas, porque ‘unificara’ seu governo com o “terrorista” Hamas. Agora, está dizendo que só falará com Abbas se romper com o Hamas – quando, então, rompido, Abbas não representará o Hamas...

Enquanto isto, o grande filósofo da esquerda israelense, Uri Avnery – 90 anos e, felizmente, cheio de energia – ataca a mais recente obsessão de seu país: a ameaça de que o ISIS se mova para oeste, lá do seu ‘califato’ iraquiano-sírio, e aporte à margem leste do rio Jordão.

“E Netanyahu disse”, segundo Avnery, que “se não forem detidos por uma guarnição permanente de Israel no local (no rio Jordão), logo mostrarão a cara nos portões de Tel Aviv”. A verdade, claro, é que a força aérea de Israel esmagaria qualquer ‘ISIS’, no momento em que começasse a cruzar a fronteira da Jordânia, vindo do Iraque ou da Síria.

A importância da “guarnição permanente”, contudo, é que se Israel mantém seu exército na Jordânia (para proteger Israel contra o ISIS), um futuro estado “palestino” não terá fronteiras e ficará como enclave dentro de Israel, cercado por território israelense por todos os lados. “Em tudo semelhante aos bantustões sul-africanos” – diz Avnery.

Em outras palavras: nenhum estado “viável” da Palestina jamais existirá. Afinal, o ISIS não é a mesma coisa que o Hamas? É claro que não é.

Mas Mark Regev, porta-voz de Netanyahu, diz que é! Regev disse à Al Jazeera que o Hamas seria uma “organização terrorista extremista não muito diferente do ISIS no Iraque, do Hezbollah no Líbano, do Boko Haram…” Sandices. O Hezbollah é exército xiita que está lutando dentro da Síria contra os terroristas do ISIS. E Boko Haram – a milhares de quilômetros de Israel – não ameaça Tel Aviv.

Vocês entenderam o ‘espírito’ da fala de Regev. Os palestinos de Gaza – e esqueçam as 6 mil famílias palestinas cujas famílias foram expulsas pelos sionistas das terras onde hoje está Sederot – são aliados das dezenas de milhares de islamistas que ameaçam Maliki de Bagdá, Assad de Damasco ou o presidente Goodluck Jonathan em Abuja.

Sim, mas... Se o ISIS está a caminho para tomar a Cisjordânia, por que o governo sionista de Israel continua a construir colônias ali?! Colônias ilegais, em terra árabe, para civis israelenses... na trilha do ISIS?! Como assim?!

Nada do que se vê hoje na Palestina tem a ver com o assassinato de três israelenses na Cisjordânia ocupada, nem com o assassinato de um palestino na Jerusalém Leste ocupada. Tampouco tem algo a ver com a prisão de militantes e políticos do Hamas na Cisjordânia. E nem o que se vê hoje na Palestina tem algo a ver com foguetes. Tudo, ali, sempre, é disputa por terra dos árabes.

Robert Fisk é jornalista e escritor britânico premiado diversas vezes com textos sobre o Oriente Médio. É um dos poucos repórteres ocidentais que fala árabe fluentemente. 

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/

A luta contra o Estrado Assassino de Israel – por Latuff

Fonte: http://latuffcartoons.wordpress.com/

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Os campeões mundiais - por Latuff

Fonte: http://latuffcartoons.wordpress.com/

A Copa e a Democradura II: Para xs “esquerdistas” entregadxs ao sistema – por Vantiê Clínio Carvalho de Oliveira


A Copa e a Democradura II: Para xs “esquerdistas” entregadxs ao sistema
Iniciemos por um evento histórico recente, que é apontado por muitos historiadores como o marco do início de uma nova época: o atentado contra as Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova Iorque, em 11 de Setembro de 2001. Sem negar que o fanatismo religioso causa muitos males, pergunto: vocês não têm a menor dúvida de que o atentado contra as Torres Gêmeas foi cometido por ordem de Bin Laden?! Vocês sabem que a família de Bin Laden tinha altos negócios com o governo Bush e que este – o presidente – ficou “impassível” durante algum tempo (conforme registros em vídeo) após receber a notícia do atentado, durante uma palestra para estudantes…?! Será que o título do texto que Noam Chomsky publicou logo após o atentado – que é: “O Atentado de 11 de Setembro é Um Presente Para os Conservadores” -, não poderia apontar para algo mais do que o seu “valor facial” (ou seja: algo mais do que a primeira leitura sugere)? Afinal, não foi esse atentado que deu a justificativa “moral” para os E.U.A. invadirem o Iraque, como também para recrudescerem as legislações e os expedientes de controle interno – e externo – sobre as vidas dos cidadãos, com expedientes como esse controle virtualmente universal da internet, denunciado por Edward Snowden? E qual é a linha de intervenção externa que os U.S.A. têm adotado, no período pós-ditaduras da América Latina..? A DEMOCRATIZAÇÃO de países politicamente “atrasados”…! Para mim, nenhuma destas forças – nem seus modos de luta – me interessam.

Como penso que vocês devem saber: anarquistas não são comunistas marxistas, que sonham com uma “ditadura do proletariado”. Essa tradição de pensamento ditatorial, como vocês mesmos admitem, é a formação da “esquerda” partidária (daí serem muito hábeis na utilização dos expedientes autoritários, mesmo nas DEMOCRADURAS)! Aliás, para mim, bem entendido, anarquismos nem sequer são “esquerda”, porque “direita” e “esquerda” referem-se a dois lados em luta pelo poder do Estado! Talvez, seja isto mesmo que os “States” queiram que se torne pensamento único: a ideia de que em política só existem duas opções, ou as ditaduras (“clássicas”), ou as democracias representativas, ou seja, a ideia de que fora do Estado não há “salvação” e de que, dentro do Estado existe uma promessa de paraíso: a “liberdade política” meramente estatística, ritualística e sazonal do sufrágio universal e seus corolários de formalismos legislativos promotores da “equitatividade social”!

Se vocês são otimistas e acham que estamos caminhando cada vez mais para um mundo melhor (“um mundo onde todos tenham a mesma oportunidade, de fato e de direito”), eu lhes digo que penso que estamos sim caminhando para um mundo das melhores utopias… NEGATIVAS, tais como “pintados” nas obras “1984″ e “Admirável Mundo Novo”. Ali, se vê populações felizes, com todas as suas necessidades básicas garantidas, se sentindo espontâneas e confortáveis como… peixes em aquários, que de tão acostumados com os vidros transparentes das estruturas que os contêm (faço aqui uma analogia com as estruturas políticas, econômicas e sociais altamente hierarquizadas e burocráticas dos Estados Modernos), nem sequer “sonham” com a possibilidade da existência do mar… Poético demais? Então, vamos aos duros fatos:

Vocês sabem que, neste momento, governos “democráticos” – inclusive de “esquerda” – de todos os países ricos estão “tratando” imigrantes pobres com confinamentos em campos de segregação (Alemanha e Itália), suas polícias (que nem são militarizadas como a do Brasil) estão “tocando o terror” contra populações de imigrantes (isso em países com governos social democratas, como a França, onde se multiplicam casos de agressões policiais a imigrantes pobres), suas políticas – dos países “democráticos” – concentram-se basicamente em impedir a qualquer custo – inclusive atirando – a entrada de imigrantes pobres em seus territórios e que, para os que conseguem entrar, a ordem é deportar maciçamente…?! Vocês sabem que, também no Brasil, o Governo Federal formou uma força tarefa para “despachar” (para fora do país), rapidamente, imigrantes Haitianos ilegais?

Vocês sabem que, em vários países “democráticos”, as manifestações que REALMENTE incomodam o Status Quo (ou seja, aquelas que denunciam todos os que fazem o jogo do poder) vêm sendo duramente reprimidas?! Por exemplo: Na Espanha, foram divulgadas imagens na internet de policiais algemando manifestantes em postes na rua e lhes dando longos banhos com os caminhões de água; nos E.U.A. a polícia já tinha iniciado essa moda que chegou esses dias em São Paulo, de borrifar gás de pimenta nos olhos de manifestantes já contidos por vários homens (aliás, a “versão quebra bancos” dos black blocks surgiu lá, devido ao descaso com que a grande mídia trata estes crimes “oficiais”); aqui no Brasil, para além da repressão contra as manifestações urbanas, operários grevistas na “insuspeita” construção da Megausina Hidrelétrica de Belo Monte (na região do Rio Xingu) receberam a “visita” da Força Nacional que não foi nada “cordial” com os trabalhadores no exercício do seu “legítimo direito de greve”! Então, como se vê, o problema da polícia não é ser ou não militarizada, como a do Brasil: isso é uma questão ilusória! O problema da polícia é SER POLÍCIA! A polícia – militar ou não – é uma das instituições destinadas a fazer o uso da força para manter o Status Quo (manter o sistema e os grupos que fazem seu jogo), e ai da Polícia que não possa fazer uso da força quando isso interessa à manutenção do sistema!

Vocês já se questionaram “por que”, justamente num momento em que a internet está servindo para mobilizar, mundialmente, tantos movimentos de protestos com uma tendência declarada à reivindicação de uma VERDADEIRA DEMOCRACIA (como foi o lema dos “Indignados”, na Espanha de 2011) – ou seja, reivindicações de Democracia Direta -, “por que”, justamente nesse momento, surgem propostas de regulação governamental da internet, como a do Marco Civil e a da Netmundial? Sei, o papo é que as grandes corporações de transmissão de dados já estão privatizando os dados dos usuários… Mas, então, a única escolha aí é entre ter seus dados virtuais controlados pelas corporações ou controlados pelos governos?! Aliás, para quem tem olhos para ver, a maioria dos governos mundiais são eleitos com megacampanhas eleitorais, cada vez mais caras e financiadas por grupos de grandes interesses econômicos, configurando-se, de fato, em mandatários destes grupos corporativos. Então, há alguma escolha aí, entre “a cruz” – das ilusões da religião dos nacionalismos – ou “a espada” – do mercado que fere as dignidades pessoais em nome do lucro?! Ou seja, parafraseando – não por acaso -, a música do polêmico Ney Matogrosso: “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, porque isso vai longe, meninxs isso vai longe…” Vai sofisticar mais ainda os já tão refinados mecanismos de controle existentes sobre as vidas das pessoas nas sociedades contemporâneas: e qualquer prática que seja REALMENTE crítica com relação ao Status Quo, já será detectada e anulada desde o seu nascedouro, pelo BIG BROTHER! Não é à toa que um dos grandes conhecedores do mundo da internet, Julian Assange (do WikiLeaks), declarou que a internet está se tornando uma das maiores ameaças à civilização (ou seja, ao desenvolvimento do livre pensamento)… E também não é à toa que ele – Assange – está sendo vítima de uma campanha de difamação e de incriminação… A tal liberdade de pensamento nas democracias representativas só vai até onde se pensa O QUE SE PERMITE QUE SEJA PENSADO, ou seja, que a democracia representativa é o único e o melhor dos mundos políticos! Quem enxerga para além dos vidros do aquário, “mija fora do balde”, “joga água fora da bacia” – melhor, “do aquário”, porque perceber que existe o mar e querer se agitar para sair do aquário em direção à amplitude do horizonte, é crime contra o Estado – ou melhor, é um dano contra os vidros de contenção (qualquer alusão à estratégia black block não será mera coincidência?)!

E, vejam que eu me limitei aqui apenas às questões dos imigrantes pobres, dos manifestantes pró Democracia Direta, das ameaças à liberdade na internet como consequência da intensificação dos seus usos para fins de mobilizações realmente críticas… Eu poderia me estender mais tratando, p. ex, da questão dos estreitos vínculos das indústrias farmacêutica e bélica com a maior parte dos Estados “democráticos”, de modo que esses Estados submetem suas populações a políticas de vacinações massivas com substâncias cuja eficácia – e efeitos colaterais – ainda não são ponto passivo entre a comunidade científica, bem como estes Estados também são cúmplices – direta ou indiretamente – de boa parte das guerras do mundo moderno, pelo fato de serem alguns dos maiores clientes das indústrias armamentistas…

Mas, como eu já lhes disse, acho sim que estamos caminhando para um mundo digno das melhores utopias NEGATIVAS: um “Admirável Mundo Novo”, onde os cidadãos cada vez mais condicionados a viverem em harmonia com as leis e regras sociais – a se sentirem felizes dentro do aquário – têm as suas capacidades perceptivas e críticas cada vez mais entorpecidas por uma droga chamada… O acesso ao consumo em massa de produtos/bugigangas descartáveis, como também ao consumo de produtos da indústria de entretenimento como o… FUTEBOL!

Se depois de sabermos de tudo isto, vocês ainda acham que os Estados democráticos modernos são “racionais”, ou seja, que por dentro de suas instituições se pode garantir um mundo sem violência nem derramamento de sangue, um mundo melhor, onde todos tenham a mesma oportunidade de fato e de direito, eu precisarei ir mais além na minha demonstração e sintetizar todo o quadro apresentado em uma frase bastante didática: O MUNDO DOS ESTADOS NACIONAIS É UMA GRANDE MÁFIA! E se mesmo assim vocês continuam acreditando que é interessante brigarmos com o autoritarismo da FIFA, mas também por melhores sistemas de saúde, educação etc, sem questionarem a natureza do Estado e da grande propriedade do Capital, enquanto instrumentos alienadores do poder EFETIVO dos cidadãos “comuns” sobre a sua vida em coletividade, então, nem conversemos sobre “luta”, porque para mim, assim como já denunciava Ivan Illich (ainda nos anos setenta) muitos desses programas de expansão das redes de atendimentos de modernos serviços estatais e/ou empresariais, são na verdade parte de uma grande estratégia de apagamento dos modos de vida comunitários tradicionais (de convivialidades não prioritariamente mediadas por valores monetários), em substituição pelo modo de vida capitalista moderno (da dominância dos valores do mercado, concorrencial, produtivista e consumista), sob o argumento de que a “falta de acesso” a esses serviços modernos configura “pobreza” (quando pode ser apenas um outro modo de produção e consumo, tal como nos casos de tribos indígenas e comunidades caboclas e de pescadores). E ainda mais: as Comunidades Zapatistas no México – onde milhares de pessoas experimentam um modo de vida autogestionário, sem Estado, sem patrões, mais próxima à natureza e sem miséria – têm denunciado que o Estado Mexicano tem seduzido muitos dos seus integrantes para saírem das comunidades, atraídos pelo modo de vida consumista, propiciado por… “Programas sociais”!

Então, o que se vê é que os Estados Modernos têm exercido, majoritariamente, um papel histórico de promover a ampliação da dominação das formas de sociedades de mercado – um processo de arruinamento dos modos de vida que diferem do moderno modo de vida ocidental, industrial, produtivista e consumista. Em outras palavras: uma homogeneização, em escala planetária, das formas humanas de viver! Então, no âmbito deste modelo civilizatório, não se pode falar em respeito a tradições e/ou à diversidade! Exemplo disto é o fato de que entre os jovens de países orientais como o Japão e a China, onde a “moderna economia de mercado” foi desenvolvida e/ou estimulada (com a adoção de políticas governamentais específicas, claro), os modos de vestir se assemelham cada vez mais aos do Ocidente (com a universalização do uso do jeans, p. ex.), os gostos musicais também (verificando-se uma tendência ao crescimento do gosto pela música difundida na moderna indústria cultural ocidental, diga-se, estilos como o rock, o pop, o tecno etc), os hábitos alimentares idem (com a dominância cada vez maior do estilo alimentar dos “fast foods”) e até os tradicionais jogos locais tendem a ser secundarizados cada vez mais em favor do… FUTEBOL! E o futebol é um ótimo fenômeno para exemplificar este processo de homogeneização universal dos modos humanos de viver, sob a ação dos Estados Nacionais e das modernas sociedades de mercado:
Vocês sabem que entre os critérios que compõem o chamado “padrão” FIFA nas “arenas” – este é o nome, pois agora são europeizadas -, além da expulsão de comunidades pobres do entorno dos antigos estádios, consta também o da abolição das “gerais” – aquelas áreas dos estádios onde os ingressos eram mais baratos e que por isso eram frequentadas pelos torcedores pobres -? Sem falar, no impedimento à entrada de “fanfarras”, no impedimento ao uso de suportes de bandeiras (mastros), como também na abolição de cabines de vendas de ingressos no local etc. Ou seja, a FIFA homogeneiza – “padroniza” – o perfil dos torcedores nos estádios, configurando assim uma situação em que os grupos que aparecem nas telas das transmissões mundiais dos jogos são majoritariamente grupos de classe média (ou seja, os representantes da excrescência chamada “opinião pública mediana”)… Qualquer semelhança com o projeto de estratificação social sonhado pelo Governo Federal para a sociedade brasileira, será mera coincidência?! Aliás, quem diz ser crítico do autoritarismo da FIFA, para ser coerente, deve ser crítico do Governo Federal também, porque a FIFA não impôs unilateralmente suas regras ao Brasil, ao contrário, o Governo Federal ACEITOU SEDIAR A COPA, ou seja, é parceiro da FIFA, tendo o governo, inclusive, oferecido a este Pool de grandes corporações “agrados” tais como uma completa isenção fiscal para o megaevento! Em tempo: gosto da arte do futebol, mas rechaço veementemente a INDÚSTRIA DO ENTRETENIMENTO, que é um dos ramos de negócios mais criminosos do mundo, posto que é um dos que mais se prestam para a lavagem internacional de dinheiro oriundo de atividades criminosas (não é à toa a tradição de ligação entre bicheiros e times de futebol no Brasil).

Então, se, como vocês mesmos devem admitir e deduzir, só há uma classe de regimes sócio-políticos onde todos são levados a ver o mundo de forma igual, o que dizer de um modelo civilizatório como este, dos Estados Nacionais e das Modernas Sociedades de Mercado, onde domina todo este processo de homogeneização global dos modos de vida humanos?! Claro que a resposta já foi antecipada pelo seu próprio raciocínio: DITADURA, aliás, DEMOCRADURA (visto a existência dos RITUAIS FORMAIS de legitimação – pelo uso do sufrágio universal – das trocas sazonais de grupos administradores do sistema, bem como a existência FORMAL de ordenamentos jurídicos que garantem direitos individuais básicos como a liberdade de expressão e o direito inalienável à vida – que o digam os manifestantes libertários sistematicamente presos no Brasil e ao redor do mundo, bem como os imigrantes de países pobres, quando – e se – conseguem aportar em países democráticos ricos).

Nós, “progressistas”, subestimamos muito a inteligência dos grandes estrategistas a serviço da manutenção do sistema: nos achamos tão bons que não conseguimos ver nada a nossa frente, a não ser os nossos “anseios”, e esquecemos de coisas simples, tais como o fato de que felicidade e liberdade são duas situações que não mantêm nenhuma relação de vínculo necessário entre si e que, portanto, um povo pode ser feliz, mesmo nas mais sofisticadas das servidões (aliás, principalmente nestas, pois aqui a servidão é mais difícil de ser percebida do que em autoritarismos clássicos),como os habitantes das utopias negativas de George Orwell e Aldous Huxley,  como o peixe que vive no aquário sem nem sequer “sonhar” que existe mar.

E é por compreender que o fundamentalismo da moderna sociedade de mercado é a religião universal cada vez mais dominante hoje e que, como em toda e qualquer religião, seus adeptos cada vez mais numerosos se sentem felizes apenas por co-participarem de seus rituais sagrados – o produtivismo e o consumismo em massa, inclusive de entretenimento -, e por compreender também, por outro lado, que existem outras possibilidades de vida humana mais autônomas e que, como diz Cornelius Castoriadis, “existe sempre a possibilidade dos sujeitos desviarem o olhar em relação à sua cultura” (e enxergarem diferentemente das visões dominantes), é por tudo isto que eu não penso mais em termos de revolução (pois, antes que “outros” a façam, o sistema já “faz”… com a ajuda de vocês) mas sim em termos de REVOLTA, e ao contrário do que vocês pensam, eu acho que isso deve ser feito o tempo todo (e não apenas quando não se concorda com o governo da vez), porque, através disso, se poderia encontrar alguma ORIGINALIDADE (ao invés de apenas reproduzir modos “enlatados” de vida)!

Quando vejo que boa parte dos que estão se dispondo a enfrentar o grande império atual – das modernas sociedades de mercado e dos Estados Nacionais – são muito jovens, quero me afastar da “razoabilidade” e “maturidade” dos velhos (independentemente da idade cronológica) que antes eram “críticos” e hoje são colaboradores do projeto de mundialização deste modelo civilizatório que está transformando todos em meros cidadãos produtores/consumidores em massa (como também transformando tudo em mero produto de consumo em massa), e me pego a repetir o seguinte trecho de uma letra do – agora “outsider” – cantor e compositor cearense, Belchior (que, também não por acaso, eu lembro aqui): “Mamãe quando eu crescer eu quero ser adolescente, no planeta juventude haverá vida inteligente…”

Sim, sejamos tranquilos, porque existem todos os tipos de vida, mas nem todxs os seres vivem dispostxs a roubar o fogo da liberdade dxs deusxs, como Prometheus!

Nos vemos por aí, amigxs.

Vantiê Clínio Carvalho de Oliveira

Notícia relacionada:

agência de notícias anarquistas-ana

noite gelada –
a criança ajeita o gato
nos pés descalços
Rosa Clement

terça-feira, 15 de julho de 2014

O amor que sentem Netanyahu e Abbas pelo “filme” de Terror na Palestina – por Latuff

Fonte: http://latuffcartoons.wordpress.com/

Por que a mídia não divulga essas informações? – por Georges Bourdoukan


Por que a mídia não divulga essas informações?
                       Crianças palestinas pedem apoio da humanidade contra Israel

Você trabalharia  numa empresa que utilizou seus veículos para ajudar a  ditadura a prender, transportar e assassinar jovens idealistas que lutavam por um Brasil melhor?

Ou numa empresa que utilizava parte de seus lucros para ajudar a repressão a adquirir material sofisticado para localizar, prender e assassinar qualquer um que fosse contra a ditadura?

Você acha natural trabalhar numa empresa que defendia o general do “ prendo e arrebento”, ou que proclamava preferir “o cheiro de cavalos ao cheiro do povo?

Você acha natural trabalhar numa empresa que manipulava as informações em favor de determinado candidato a presidente da república?

Antes de você responder, saiba que essa gente é que decide o que você vai ler e como vai se divertir.

E essa gente é que ofende o islamismo impunemente.

Pense e reflita porque os números abaixo jamais serão publicados por essa mídia sicofanta.

Atualização dos dados oficiais da ONU sobre a crise no território palestino da Faixa de Gaza frente aos ataques militares israelenses desde o dia 7 de julho:
1,8 milhão de pessoas afetadas pelo ataque


5.600 pessoas (940 famílias) deslocadas pelo conflito


16.000 pessoas abrigadas nas escolas da UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina)


60.000 pessoas com necessidades alimentares emergenciais


400.000 pessoas sem eletricidade


75% da cidade de Gaza sem eletricidade


395.000 pessoas afetadas pelos danos causados às instalações de fornecimento de água


1/3 da população, cerca de 600.000 pessoas, com acesso restrito a água potável


168 pessoas mortas, sendo ao menos 133 civis, dentre os quais 36 crianças


1.140 pessoas feridas, dentre as quais 296 crianças e 233 mulheres


25.300 crianças necessitando de atendimento psicológico, devido ao trauma vivenciado pelos ataques


8 unidades de saúde e 4 ambulâncias danificadas; 1 médico morto e outros 19 agentes de saúde feridos


36 escolas danificadas


66 escolas consideradas suscetíveis a danos


940 unidades residências destruídas


2.500 casas danificadas


32 barcos pesqueiros incendiados, destruídos ou danificados e cerca de 1.000 redes de pesca queimados


3.600 pescadores estão sem acesso ao mar
Número ainda não especificado de agricultores sem acesso a terra e relatos de perdas importantes, como morte de animais


Mais de 700 ataques aéreos, mais de 1.100 mísseis israelenses disparados contra a Faixa de Gaza, mais de 100 disparos de tanques de guerra e cerca de 330 bombardeios navais (dados do dia 11, sem atualização desde então)


Aproximadamente 100 bombas não estouradas (e que ainda podem explodir) foram encontradas


Em território israelense, foram contabilizados:


1.500 mísseis atirados, quase todos interceptados no ar pelo sistema israelense anti-mísseis


2 casas destruídas


9 pessoas feridas



Por que a mídia não divulga essas informações?

Pense e reflita...

                                              Bombas de fósforo israelenses sobra escolas palestinas

Fonte: http://blogdobourdoukan.blogspot.com.br/

Palestina, dignidade rebelde – Outras Palavras...


Palestina, dignidade rebelde
“A Cicatriz”

Fotógrafa-ativista francesa cobriu vinte anos de conflito sem imagens pirotécnicas de fumaça e explosões. Ela retrata vida e quotidiano dos que resistem sob ocupação

Gaza está outra vez sob bombardeio. Mas a imagem que recebemos novamente hoje – de uma população civil sitiada, aterrorizada, à mercê das violentas ofensivas militares israelenses – não é a que encontramos nos arquivos de Joss Dray, fotógrafa e militante da causa palestina desde os anos 1980. Suas fotos afirmam, ao contrário, a humanidade de um povo em resistência, “legítimo em sua terra”.

Inúmeras imagens circulam agora na internet, reproduzindo à exaustão as nuvens de fumaça que se elevam por trás das casas da cidade. Gaza de longe – como em janeiro de 2009, quando os israelenses e fotógrafos do mundo inteiro iam à fronteira, observar o espetáculo que produziam, ao cair, os mísseis da operação “Chumbo Endurecido”.

Seria inútil procurar este tipo de imagem entre as fotos de Joss Dray sobre a Palestina. Desde o início da primeira Intifada (dezembro de 1987), a militante que ela sempre foi quis enxergar e apresentar o povo palestino “de seu interior”. “Não sou fotógrafa de guerra”, diz ela como preâmbulo. “Tenho necessidade de encontrar as pessoas, sua humanidade, seu jeito de viver, sua cultura”.

Como Joss chegou à Palestina? Ela militava contra a guerra no Vietnã e, em posição terceiro-mundista, contra o imperialismo e a colonização. “Era natural que viesse à Palestina, era lógico”. A fotografia foi, antes de tudo, uma forma de testemunhar as lutas dos anos 1970 em que ela se envolveu.

Um dia, em 1983, Joss telefona ao jornal palestino Al Yom Assabe’, que acabara de ser criado em Paris. Engaja-se imediatamente como fotógrafa e editora de imagens. É a época da guerra do Líbano, mas ela não é enviada em reportagem. “Não faltam fotos de agência. Não vamos te enviar para lá. Vire-se”, dizem-lhe no jornal quando, em 1987, no momento da comemoração dos quarenta anos do Estado de Israel e do aniversário da Declaração de Balfour, ela decide que é tempo de ir à Palestina.
“Rota entre Ramallah e Naplus, 2001″
Um povo em sua terra
Ela parte só, levando na mente a imagem gloriosa dos fedayin. Mas não é o que encontra por lá. Chega a um país que não parece estar em guerra, onde se circula com relativa facilidade. “Chegava-se ao aeroporto de Telaviv e se entrava em Jerusalém sem problemas. O espaço entre Israel e a Cisjordânia estava completamente aberto”.

Perturbada pela distância entre a imagem idealizada dos combatentes, que ela guardava, e a realidade, Joss descobre “um povo completamente legítimo em sua terra, que vive numa espécie de quietude, de doçura, apesar da ocupação”. “Eram meados de junho. Volto em outubro e percebo uma tensão crescente. Não compreendo bem o que se passa, ainda. Ao regressar a Paris, percebo: é a primeira Intifada”.

Ser fotógrafa é encontrar-se “no interior” com as pessoas, numa relação muito estreita, para enxergar o que elas veem e olhá-las verdadeiramente. “Durante a primeira Intifada, havia às vezes duzentos fotógrafos. Mas estavam todos por trás do exército israelense. Eu era uma das raras do outro lado. Não havia viajado para ‘testemunhar’ a situação, mas para narrar a resistência do povo palestino.”

Joss Dray fotografa o ambiente quase eufórico dos primeiros tempos da Intifada, o levante de toda a Palestina no campo, nas cidades e vilarejos. Fotos de mulheres que partem com alegria para a manifestação de sexta-feira. “Então, o exército israelense passa a atirar sobre todos, ao azar, e todo o mundo começa a recolher pedras. Você vê a passagem desta fase alegre ao sofrimento. Cada morto é filho de todo mundo. Por exemplo, fotografo um homem assassinado, vindo de um vilarejo para manifestar-se em Ramallah. Descobre-se de imediato quem é ele, viaja-se ao local, organizam-se as homenagens, volta-se quarenta dias depois. São um só: toda a cidade de Ramallah, todos os vilarejos”. Suas primeiras fotos boas são feitas lá. Ela considera que só então torna-se fotógrafa.
“Campo de Jenin, 2003″
Resistir é Existir
A resistência está em todos os lugares, especialmente na sombra, no coração das famílias que ela retrata. “Os meninos vinham beijar sua mãe, à noite, e partiam novamente para se esconder nas montanhas de madrugada. Eu fotografo a mãe que sofre, que teme por seu filho, e também fotografo suas irmãs. Esse povo palestino em toda a sua dimensão cultural, humana. Sua beleza”, acrescenta.

Era, naquele tempo, “um povo sobrefotografado”. “A dança das pedras”1, muito fotogênica, estava em todos os jornais. Mas não dava a verdadeira dimensão do que representou esse levante. Fotografavam-se “os keffiehs e algumas bandeiras, mas não se contava o significado de agitar uma bandeira: um crime, pelo qual arriscava-se à prisão. Por isso, eles ficavam escondidos nas casas; não saiam senão para as manifestações. Tenho uma série muito divertida, na qual as mulheres, em grupo, tiram de trás de si uma bandeira e a desdobram para mim… Havia até mesmo bandeiras que as crianças faziam com papelão, enfiadas num pedaço de pau e desenhadas com lápis coloridos.”

Joss Dray parou entre 1991 e 1993. “A Intifada se desgastava, minhas fotos também. Houve um vácuo.” Ela voltaria após os Acordos de Oslo, em 1994, para ver a chegada de policiais palestinos que vinham de Shatila, do Líbano, da Tunísia, e eram acolhidos pela população.

Gaza se transformava. Construíram-se grandes hotéis, as calçadas foram repintadas… “Achei aquilo um pouco triste, mas pensei que era preciso, de qualquer maneira, mostrar.” Pouco a pouco, a separação foi se instalando: grades, fronteiras, as passagens tornaram-se cada vez mais estreitas, violentas e marcadas. “Ninguém mais fotografava realmente, fiquei um pouco solitária.”

A segunda Intifada
Nos campos de refugiados no Líbano, Joss fotograva o empobrecimento terrível, a reclusão e o abandono. Depois, vem a segunda Intifada, que começa em setembro de 2002. Ela terá de se resignar a tornar-se fotógrafa de guerra? A solução escolhida é continuar a testemunhar a experiência de vida dos palestinos, “em sua dignidade e com o sentimento de estar em coerência consigo mesma. Tudo o que até então estivera bem, apesar especialmente dos Acordos de Oslo – que serviram acima de tudo para desumanizar a visão sobre o outro. Inclusive o olhar dos palestinos sobre os israelenses.”
Joss Dray, fotógrafa

A separação entre palestinos e israelenses torna-se total. Como agir? Ela escolhe trabalhar com as missões civis para a proteção do povo palestino, conduzindo pessoas, procurando enxergar a Palestina com os olhos delas. “Evidentemente, era uma Intifada armada. Porém, continuei a fotografar os que resistiam de outros modos, em ações militantes. Em Jenin, por exemplo, revi as fotos que havia feito durante a primeira Intifada. Tentei mostrar a força de resistência incalculável de um povo que luta contra o esquecimento, além da destruição da sociedade, das pessoas, que mantinham a mesma vontade de expressar sua dignidade e energia.”

– E hoje, como ela enxerga o prosseguimento de seu trabalho? Se retornasse a Gaza ou aos campos, o que Joss faria?
 “Mezraa Sharquie 1988. O orgulho”
Gaza, a maior ferida
“Meu filho diz: ‘cresci com duas imagens da Palestina: a cicatriz e o orgulho’. A cicatriz é a foto de uma jovem mulher com um olho ferido, exposta no Instituto do Mundo Árabe, em Paris. O orgulho é a foto – muito publicada – de uma manifestação de crianças, uma delas vestida de paletó”. Com este filho, produtor de cinema, ela tem hoje o projeto de fazer um webdocumentário para apresentar uma geografia da Palestina bem mais vasta (porque mental) que o território confinado em que os palestinos estão hoje aprisionados. “Gostaria, é claro, de utilizar meus arquivos, mas também de filmar, para que nos digam o que é, hoje, fazer parte do povo palestino”. A primeira viagem que ela fará, assim que possa, será para encontrar os refugiados palestinos da Síria no Líbano.

“Dizia-se, de Gaza, que lá as pessoas sempre se levantavam, em primeiro lugar e sobretudo, por serem as que mais sofrem. É la que continuam a sofrer, e o trabalho a partir de meus arquivos remete novamente à sua história – a dos refugiados e a das feridas de hoje”.
_____
1 Jean-Claude Coutausse, La danse des pierres, edições Denoël, 1990.
Imagens: Joss Dray | Texto: Françoise Feugas | Tradução: Antonio Martins e Inês Castilho

Fonte: http://outraspalavras.net/ 

Convocatória para o envio de filmes: “III Festival do Filme Anarquista e Punk de São Paulo” – por ANA


Convocatória para o envio de filmes: “III Festival do Filme Anarquista e Punk de São Paulo”
É com muita alegria que anunciamos a terceira edição do Festival do Filme Anarquista e Punk de São Paulo, que acontecerá nos dias 5, 6 e 7 de dezembro de 2014 no Tendal da Lapa (Rua Constança, 72 – Lapa). As duas edições passadas reuniram dezenas de filmes de diversas partes do mundo, junto a debates, palestras, oficinas, exposições, teatro e outras atividades. Para a edição deste ano, convidamos desde já todas as pessoas e coletivos envolvidos com produção audiovisual libertária para que enviem suas propostas de filmes e atividades para a mostra. Estaremos recebendo inscrições até o dia 31 de agosto pelo blog www.anarcopunk.org/festival. Basta preencher o formulário (disponível em português, espanhol e inglês) e enviar para que possamos começar um contato direto!

Aguardamos suas ideias para que possamos construir coletivamente mais este Festival!


• English
III Anarchist and Punk Film Festival – São Paulo, Brasil: Call for submissions
It´s with great joy that we announce the third edition of the Anarchist and Punk Film Festival, in São Paulo – Brasil, which will be held on 5, 6 and 7 December 2014 in Tendal da Lapa (Constance Street, 72 – Lapa). The two previous editions gathered dozens of films from different parts of the world, along with discussions, lectures, workshops, expos, theater and other activities. For this year’s edition, we invite all the people involved with anarchist collectives and libertarian audiovisual productions to send their proposals for films and activities. We will be receiving submissions until the Aug. 31 in www.anarcopunk.org / festival. Simply fill out the form (available in Portuguese, Spanish and English) and send so we can start a direct contact!
We´re waiting your ideas so that we can collectively build more this Festival!

• Español
III Festival de Cine Anarquista y Punk de São Paulo, Brasil: Convocatoria de presentación de películas
Es con gran alegría que anunciamos la tercera edición del Festival de Cine Anarquista y Punk de São Paulo, que se celebrará en los días 5, 6 y 7 de diciembre de 2014 en Tendal da Lapa (Calle Constança, 72 – Lapa). En las dos ediciones anteriores se reunieron decenas de películas de diferentes partes del mundo, también con debates, charlas, talleres, exposiciones, teatro y otras actividades. Para la edición de este año, invitamos a todas las personas que están involucradas con los colectivos libertarios y de producción audiovisual anarquista a enviar sus propuestas de películas y actividades. Estaremos recibiendo envíos hasta el 31 de agosto en el blog www.anarcopunk.org/festival. Sólo hay que rellenar el formulario (disponible en portugués, español e Inglés) y enviar para que podamos comenzar un contacto directo!

Aguardamos sus ideas para que, colectivamente, podamos construir más este Festival!


Notícia relacionada:

agência de notícias anarquistas-ana

um gatinho
um pulo
a borboleta!
Rogério Martins

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Chomsky: Barbárie em Gaza!!!


Chomsky: Barbárie em Gaza
“Tudo isso vai continuar, enquanto for apoiado por Washington e tolerado pelo Ocidente – para nossa vergonha infinita”

Às três da madrugada (horário de Gaza), de 9 de julho, em meio ao último exercício de selvageria de Israel, recebi um telefonema de um jovem jornalista palestino em Gaza. Ao fundo, podia ouvir o lamúrio de seu filho pequeno, entre sons de explosões de jatos, atirando sobre qualquer civil que se mova e sobre casas. Ele acabava de ver um amigo, num carro claramente identificado como “imprensa”, voar pelos ares. E ouvia gritos ao lado de sua casa, após uma explosão — mas não podia sair, ou seria um alvo provável. É um bairro calma, sem alvos militares – exceto palestinos, que são presa fácil para a máquina militar de alta tecnologia de Israel, abastecida pelos Estados Unidos. Ele contou que 70% das ambulâncias haviam sido destruídas e, até aquele momento, mais de 70 pessoas [o número subiu para 120 na sexta, 11/7, segundo o Guardian] haviam sido mortas e 300 feridas – cerca de 2/3, mulheres e crianças. Poucos ativistas do Hamas, ou instalações para lançamento de foguetes, haviam sido atingidas. Apenas as vítimas de sempre.

É importante entender como se vive em Gaza, mesmo quando o comportamento de Israel é “moderado”, no intervalo entre crises fabricadas, como esta. Um bom retrato está disponível num relatório da UNRWA (a agência da ONU para refugiados palestinos) preparado por Mads Gilbert, o corajoso médico norueguês que trabalhou extensivamente em Gaza, mesmo durante os ataques mortíferos de Israel. A situação é desastrosa, por todos os ângulos. Gilbert narra: “As crianças palestinas em Gaza sofrem imensamente. Uma vasta proporção é afetada pelo regime de desnutrição imposto pelo bloqueio israelense. A prevalência de anemia entre menores de dois anos é de 72,8%; os índices registrados de síndrome consuptiva, nanismo e subpeso são de 34,3%, 31,4% e 31,45%, respectivamente”. E estão piorando. 

Quando Israel está em fase de “bom comportamento”, mais de duas crianças palestinas são mortas por semana – um padrão que se repete há 14 anos. As causas de fundo são a ocupação criminosa e os programas para reduzir a vida palestina a mera sobrevivência em Gaza. Enquanto isso, na Cisjordânia os palestinos são confinados em regiões inviáveis e Israel tomas as terras que quer, em completa violação do direito internacional e de resoluções explícitas do Conselho de Segurança da ONU – para não falar de decência.

E tudo isso vai continuar, enquanto for apoiado por Washington e tolerado pela Europa – para nossa vergonha infinita.

Tradução: Antonio Martins
Fonte: http://outraspalavras.net/