quarta-feira, 15 de julho de 2020

Uma breve história do antifascismo – por James Stout – A.N.A.

Uma breve história do antifascismo
Enquanto a ideologia ameaçar as comunidades marginalizadas, grupos de esquerda reagem com força

Eluard Luchell McDaniels atravessou o Atlântico em 1937 para enfrentar fascistas na Guerra Civil Espanhola, onde ficou conhecido como “El Fantastico” por conta de sua habilidade com uma granada. Como sargento de pelotão junto ao Batalhão Mackenzie-Papineau das Brigadas Internacionais, o afro-americano de 25 anos, oriundo do Mississippi, comandou tropas brancas e as liderou numa batalha contra as forças do General Franco, homens que o viam como menos que humano. Pode parecer estranho para um negro ir a tais limites pela chance de lutar numa guerra de homem branco, tão longe de casa – já não havia bastante racismo para confrontar nos Estados Unidos? – mas McDaniels estava convencido de que antifascismo e antirracismo eram uma coisa só. “Vi que os invasores da Espanha eram as mesmas pessoas contra as quais lutei em toda minha vida”, disse McDaniels, em citação reproduzida pelo historiador Peter Carroll. “Vi linchamento e fome, e eu conheço os inimigos de meu povo”.

McDaniels não estava sozinho ao ver o antifascismo e o antirracismo como intrinsecamente conectados; os antifascistas de hoje são herdeiros de quase um século de luta contra o racismo. Embora os métodos do Antifa tenham se tornado objeto de muito discurso político acalorado, as ideologias do grupo, particularmente sua insistência na ação física direta para evitar a opressão violenta, são muito melhor compreendidas quando vistas no quadro de uma luta iniciada há quase um século contra a discriminação violenta e a perseguição.

Em Anatomy of Fascism [edição em português: “A Anatomia do Fascismo”] – um dos trabalhos definitivos sobre o tema – o historiador Robert Paxton expõe as paixões motivacionais do fascismo, que incluem “o direito de um grupo escolhido dominar os outros, sem restrição de qualquer lei humana ou divina”. Em sua essência, o fascismo busca estabelecer como premissa as necessidades de um grupo – frequentemente definido pela raça ou etnicidade – sobre o resto da humanidade; antifascistas sempre se opuseram a isso.

O antifascismo começou onde o fascismo começou, na Itália. O grupo Arditi del Popolo – “Os Corajosos do Povo” – foi fundado em 1921, sendo assim chamado em homenagem às tropas de choque do exército italiano na Primeira Guerra que nadavam através do Rio Piave com punhais nos dentes. Eles se comprometeram a lutar contra a facção cada vez mais violenta dos camisas-pretas, forças encorajadas por Benito Mussolini, que estava prestes a se tornar ditador fascista na Itália. Os Arditi del Popolo reuniram sindicalistas, anarquistas, socialistas, republicanos e ex-oficiais do exército. Desde o início, os antifascistas começaram a construir pontes onde os grupos políticos tradicionais enxergavam muros.

Essas pontes se estenderiam rapidamente às raças perseguidas pelos fascistas.

Uma vez no governo, Mussolini deu início a uma política de “italianização” que levou ao genocídio cultural de eslovenos e croatas que viviam na parte nordeste do país. Mussolini baniu seus idiomas, fechou suas escolas e até os fez mudarem seus nomes para que soassem mais italianos. Como resultado, eslovenos e croatas foram forçados a se organizar fora do Estado para se protegerem da italianização, e se aliaram às forças antifascistas em 1927. O Estado respondeu formando uma polícia secreta, a Organizzazione per la Vigilanza e la Repressione dell’Antifascismo (OVRA), que vigiou cidadãos italianos, atacou organizações oposicionistas, assassinou suspeitos de antifascismo e até mesmo espionou e chantageou a Igreja Católica. Os antifascistas enfrentariam a OVRA por 18 anos, até que um militante antifascista, que usava o codinome Colonnello Valerio, fuzilou Mussolini e sua amante com uma submetralhadora em 1945.

Dinâmicas semelhantes se apresentaram quando o fascismo se espalhava pela Europa do pré-Guerra.
Os esquerdistas da Roter Frontkämpferbund (RFB) da Alemanha usaram pela primeira vez a famosa saudação do punho cerrado como símbolo de sua luta contra a intolerância; quando, em 1932, eles se tornaram Antifaschistische Aktion – ou “antifa”, por abreviação – eles combateram o antissemitismo e a homofobia nazistas sob bandeiras com o logotipo vermelho-e-preto, como o fazem os grupos antifa da atualidade. Aquele punho foi erguido pela primeira vez por trabalhadores alemães, mas continuaria a ser levantado pelos Panteras Negras; pelos velocistas estadunidenses Tommy Smith e John Carlos nas Olimpíadas de 1968; por Nelson Mandela, entre muitos outros.

Na Espanha, as táticas antifascistas e a solidariedade foram testadas em 1936, quando um golpe militar pôs à prova a solidariedade entre trabalhadores e grupos de classe média, que se organizaram como um conselho baseado numa frente popular contra o fascismo. Os antifascistas se mantiveram fortes e se tornaram um exemplo do poder do povo unido contra a opressão. Nos primeiros dias da Guerra Civil Espanhola, a milícia popular republicana foi organizada de modo muito semelhante aos modernos grupos antifa: eles votavam sobre decisões importantes, permitiam que mulheres lutassem ao lado dos homens e ficaram ombro a ombro com adversários políticos para enfrentar um inimigo comum.

Negros norte-americanos como McDaniels, ainda excluídos de um tratamento igualitário no exército dos EUA, serviram como oficiais nas brigadas estadunidenses que chegaram à Espanha, prontas para lutar contra fascistas. No total, 40 mil voluntários da Europa, África, Américas e China ficaram lado a lado como camaradas antifascistas contra o golpe de Franco na Espanha. Em 1936 não havia pilotos de caça negros nos Estados Unidos; contudo, três pilotos negros – James Peck, Patrick Roosevelt e Paul Williams – apresentaram-se como voluntários para enfrentar os fascistas nos céus da Espanha. Em seu país, a segregação os impedira de alcançar seus objetivos no combate aéreo, mas na Espanha eles encontraram igualdade nas fileiras antifascistas. Canute Frankson, um negro americano voluntário que serviu como mecânico-chefe na Garagem Internacional em Albacete, onde ele trabalhou, resumiu suas razões para lutar numa carta para casa:

Nós não somos mais um grupo minoritário isolado, lutando sem esperança contra um gigante imenso. Porque, minha querida, nos juntamos e nos tornamos parte ativa de uma grande força progressista, em cujos ombros repousa a responsabilidade de salvar a civilização humana da destruição planejada por um pequeno grupo de degenerados, enlouquecidos por seu desejo de poder. Porque se nós esmagarmos o fascismo aqui, salvaremos nosso povo na América e em outras partes do mundo da perseguição cruel, do aprisionamento em massa e do genocídio que o povo judeu sofreu e está sofrendo sob os calcanhares fascistas de Hitler.

No Reino Unido, os antifascistas se tornaram um importante movimento na medida em que o antissemitismo emergia como uma força de destaque. Em outubro de 1936, Oswald Mosley e a British Union of Fascists tentaram marchar pelos bairros judeus de Londres. Os 3 mil fascistas de Mosley e os 6 mil policiais que os acompanharam viram-se superados numericamente pelos antifascistas londrinos, que conseguiram detê-los. Estimativas sobre a multidão variam de 20 mil a 100 mil pessoas. Crianças locais foram recrutadas para jogar suas bolinhas de gude sob os cascos dos cavalos da polícia, enquanto que estivadores irlandeses, judeus da Europa Oriental e trabalhadores de esquerda ficaram lado a lado para bloquear o avanço da marcha. Eles ergueram seus punhos – assim como os antifascistas alemães – e entoaram “No pasarán” (slogan da milícia espanhola), e cantaram em italiano, alemão e polonês. Eles tiveram sucesso: os fascistas não passaram e a Cable Street se tornou um símbolo de uma ampla aliança antifascista calando a boca do discurso de ódio fascista nas ruas.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o antifascismo passou para o segundo estágio, saindo das ruas para ficar ao lado dos que estavam nos lugares de poder. Winston Churchill e outros imperialistas se colocaram contra o fascismo, mesmo enquanto mantinham o colonialismo que deixava o povo indiano passar fome para apoiar seu esforço de guerra. Uma aliança entre antifascistas comprometidos e antinazistas de ocasião foi formada. Tornou-se um tipo de meme de rede social que aqueles que lutaram na Segunda Guerra Mundial eram antifascistas, mas há tensões no cerne da crença antifascista. As Forças Armadas dos EUA que derrotaram os nazis ao lado dos Aliados eram segregadas, tropas de negros eram relegadas a papéis de segunda classe e não podiam servir ao lado de tropas brancas na mesma unidade. O antifascismo se opôs à primazia de qualquer grupo; soldados antifascistas na Espanha estiveram ao lado de camaradas negros como iguais, mas isso não aconteceu nas tropas americanas da Segunda Guerra.

Depois da guerra, o antifascismo saiu dos corredores do poder e retornou às ruas. Os britânicos confrontaram o fascismo, mas jamais exorcizaram seu ódio interno e rapidamente libertaram os simpatizantes fascistas detidos depois da guerra. Ex-militares judeus britânicos, que combateram o fascismo nos campos de batalha da Europa, retornaram para casa e viram homens como Mosley continuando a despejar nos espaços públicos uma retórica antissemita e anti-imigrante. Por meio de novas organizações que fundaram, eles se infiltrariam nos discursos de Mosley e, literalmente, o jogariam para fora do palco.

A mesma lógica anti-imigrante que sustentava o fascismo de Mosley no Reino Unido apareceu mais tarde na Alemanha, nos anos 1980, e novamente os antifascistas se reinventaram para enfrentar o ódio e o racismo encarnados pelos nazis skinheads, que estavam começando a se infiltrar na cena punk. Esta chamada terceira onda de antifascismo incorporou táticas como a das ocupações, ao mesmo tempo em que reviviam o punho erguido e os logos em preto-e-vermelho usados por seus avôs nos anos 1930.

Os mais radicais e numerosos squats foram fundados em Hamburgo, onde diversos grupos de jovens ocupavam prédios vazios como parte de uma contracultura urbana que rejeitava tanto a Guerra Fria quanto o legado do fascismo. Quando o clube alemão de futebol FC St Pauli mudou seu estádio para as proximidades, a cultura antirracista e antifascista dos squats tornou-se o princípio orientador do time. Mesmo com o retorno do entusiasmo anti-imigrante na política alemã dos anos 80, e com a cultura dos fãs de futebol se tornando racista e violenta, alguns alemães apreciadores do esporte – notadamente aqueles do clube St. Pauli – puseram-se de pé contra o racismo. Essa cultura de fã tornou-se lendária entre a esquerda global e o próprio clube adotou isso: hoje, o estádio do St. Pauli é pintado com slogans como “sem futebol para fascistas”, “futebol não tem gênero” e “nenhum ser humano é ilegal”. Eles até formaram uma equipe para refugiados.

O time, com seu logotipo de caveira e ossos cruzados – tomados de empréstimo do herói pirata antiautoritário Niolaus Stoertebeker, da Hamburgo do século 14 – talvez represente o antifascismo mais bacana visto até hoje. Vi seus adesivos nos banheiros imundos de shows punk em três continentes e identifiquei aquela bandeira de caveira e ossos cruzados num comício do Black Lives Matter esta semana.

Mas o antifascismo hoje não se trata de agitar bandeiras em partidas de futebol; trata-se de enfrentar, por meio da ação direta, racistas e genocidas onde quer que eles possam ser encontrados. Voluntários antifascistas, inspirados na experiência de seus predecessores na Espanha, têm silenciosamente deslizado pelos cordões internacionais até o nordeste da Síria, desde 2015, para lutar contra o Isis [Estado Islâmico] e recrutas turcos. Na região da Síria conhecida como Rojava, exatamente como na Espanha Republicana, homens e mulheres lutam lado a lado, levantam seus punhos para fotografias e orgulhosamente exibem a bandeira com o logo preto-e-vermelho enquanto defendem o povo curdo abandonado pelo mundo.

Quando o voluntário italiano Lorenzo Orzetti foi morto pelo Isis em 2019, os homens e mulheres de Rojava cantaram “Bella Ciao”, uma cantiga antifascista da Itália dos anos 1920. A canção se tornou popular nas montanhas da Síria quase 90 anos depois, e hoje há dezenas de gravações curdas disponíveis. Assim como o antifascismo protegeu eslovenos e croatas perseguidos, ele levanta as armas hoje para defender a autonomia curda. De volta à Alemanha, o St. Pauli acompanha as notícias de seus confederados na Síria e seus torcedores frequentemente seguram cartões coloridos para formar a bandeira de Rojava nos jogos.

E, claro, o antifascismo ressurgiu nos Estados Unidos. Em 1988 foi formada a Anti-Racist Action, com base no fato de que antirracismo e antifascismo são a mesma coisa, e que o nome ARR pode ser mais óbvio às pessoas nos EUA. Na Califórnia, Portland, Pensilvânia, Filadélfia, Nova Iorque e por todo o país, grupos autônomos surgem para lutar contra a ascensão do discurso de ódio, apoiar pessoas LGBTQIA e BIPOC [Black, Indigenous, and People of Color] e combater crimes de ódio. Em Virgínia, o clero local confiou no Antifa para manter as pessoas em segurança durante a manifestação “Untie the Right”, em 2017. Usando o logo antifa alemão dos anos 1930, o punho erguido do RFB e o slogan ‘No pasarán’, estes grupos têm se colocado à frente de racistas e fascistas em Los Angeles, Milwaukee e Nova Iorque – assim como seus predecessores fizeram na Cable Street. Embora acusações tenham sido levantadas contra o Antifa, por tornar violentos os recentes protestos, há poucas evidências de que os partidários da causa antifascista estivessem por trás de qualquer violência.

O antifascismo mudou muito desde 1921. Os ativistas antifascistas da atualidade investem seu tempo tanto usando inteligência de código-aberto para expor supremacistas brancos na internet quanto construindo barricadas nas ruas. Da mesma forma que seus antecessores na Europa, os antifascistas usam violência para combater violência. Isso lhes rendeu a fama de “bandidos de rua” em algumas partes da mídia, exatamente como foi no caso da Cable Street. O Daily Mail publicou a manchete “Vermelhos atacam os camisas-pretas, garotas entre os feridos” no dia depois da batalha, que agora é amplamente vista como um símbolo de identidade interseccional compartilhada entre a classe trabalhadora de Londres.

Quando Eluard McDaniels retornou da Espanha, ele foi barrado de seu emprego de marinheiro mercante, e seus colegas foram rotulados como “antifascistas prematuros” pelo FBI, mesmo que os Estados Unidos acabassem lutando contra os mesmos pilotos nazistas apenas três anos depois. O último americano voluntário da Guerra Civil Espanhola, um judeu branco chamado Delmer Berg, morreu em 2016, aos 100 anos. Berg, que foi perseguido pelo FBI e posto na lista negra durante a Era McCarthy, foi vice-presidente da filial da NAACP [National Association for the Advancement of Colored People] em seu condado, organizado com a United Farm Workers e Mexican-American Political Association, e considerou seu ativismo interseccional como a chave para sua longevidade.

Por ocasião da morte de Berg, o senador John McCain escreveu um artigo saudando esse bravo “comunista inveterado”. Politicamente, Mccain e Berg teriam concordado muito pouco, e McCain claramente evitou falar sobre a perseguição sofrida por Berg e seus camaradas quando eles retornaram à América; mas Mccain citou um poema de John Donne – o mesmo poema que deu título ao romance de Hemingway sobre a Guerra Civil Espanhola [1]. Ao citar Donne, McCain sugere que o antifascismo é um impulso humano básico; e o poema de Donne captura a ampla visão humanitária que motivaria os antifascistas 300 anos depois:

Each man’s death diminishes me,
For I am involved in mankind.
Therefore, send not to know
For whom the bell tolls,
It tolls for thee. [2]

Notas do tradutor:
[1] “For Whom the Bell Tolls” (“Por Quem os Sinos Dobram”), publicado em 1940.
[2] “…a morte de um único homem me diminui, porque Eu pertenço à Humanidade. Portanto, nunca procures saber por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti.” (assim traduzido na edição da Betrand Brasil de “Por quem os sinos dobram”, 2013).
Tradução > Erico Liberatti

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Alexandre Brito

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Leonard Peltier, 75 anos, 44 na prisão. A vida indígena importa? – por A.N.A.

Leonard Peltier, 75 anos, 44 na prisão. A vida indígena importa?
Estados Unidos, uma reserva de nativos americanos no sul de Dacota, em Oglala.

É um período de enorme tensão nessa área, se produziram frequentes ataques às comunidades indígenas por parte de grupos armados, os GOONS, formados em parte por nativos. Estes são homens comprados pelo governo dos Estados Unidos para reprimir as lutas do Movimento Indígena Americano (AIM) que durante alguns anos esteve reclamando uma vez mais os direitos dos nativos estadunidenses.

Esse dia chegou um automóvel de surpresa a esta pequena e empobrecida reserva, sem sinais de identificação, com dois homens dentro, se detêm a uma distância segura, se produz um tiroteio. Em retrospectiva, se descobrirá que os dois homens eram dois agentes do FBI que buscavam um índio acusado de roubar um par de botas. Vocês acreditam?

Provavelmente fosse uma armadilha preparada pelo próprio FBI, já que centenas de agentes chegaram em questão de minutos e o tiroteio foi uma loucura. Os dois brancos que chegaram primeiro e um nativo morrem. Dos nativos, quanto às centenas que morreram nesses anos, assassinados sabe-se lá por quem, ninguém investigou, mas por essas duas mortes de agentes alguém teria que pagar e caro.

Leonard Peltier, tinha 31 anos, era um ativista do AIM, esteve presente esse dia, e isto foi suficiente para converter-se no bode expiatório, foi preso no Canadá em 6 de fevereiro seguinte, a extradição se obteve com evidência tão falsa que posteriormente o governo canadense protestou formalmente pela forma como se obteve. O FBI se vingou: através de um julgamento manipulado, Leonard Peltier foi sentenciado a duas prisões perpétuas.

Se desejas saber mais, explora os numerosos artigos na Internet que acompanharam às numerosas campanhas para a liberdade de Leonard Peltier.

2020: digamos que é o momento adequado para recordar que os Estados Unidos (como os demais países do continente americano) se formaram sobre a base do maior massacre da história. 80 milhões de indígenas. Um exemplo que o próprio Hitler apreciava.

Ao contrário, só hoje as palavras destes povos, destas culturas, podem ser fundamentais dado o grande risco que corre a humanidade neste planeta.

Que Leonard Peltier finalmente saia do cárcere, possa reunir-se com sua gente, é este o símbolo de um povo resistente que ocupa o lugar, AO VIVO, das estátuas que são demolidas.

Liberdade para Leonard Peltier, assim como para Mumia Abu-Jamal, irmão de luta e resistência, também um símbolo, desta vez do povo negro da América.

Se a polícia estadunidense os mata com armas e com o peso de seus corpos nas ruas, morrem ainda mais lentamente nos cárceres estadunidenses, onde todas as “minorias” se convertem em “maiorias”.

Liberdade para Leonard Peltier, para Mumia Abu Jamal e para todos os presos políticos do mundo.

Divulgue esta história, um homem confinado em prisões de máxima segurança durante 16.195 dias e noites, te agradecerá.

No espírito de Crazy Horse (“Cavalo Louco”).

A. / Junho 2020

Fonte: https://cslpbarcelona.wordpress.com/peltier/leonard-peltier-la-vida-indigena-importa/

Tradução > Sol de Abril

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/12/04/eua-mensagem-de-leonard-peltier-no-dia-de-acao-de-gracas-2019-caminhando-sobre-terra-roubada/

agência de notícias anarquistas-ana

não tenho país
nem casa nem riqueza
e como me sinto bem!

Rogério Martins

Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/06/30/espanha-leonard-peltier-a-vida-indigena-importa/

Mateus 4:8 - por Jota Camelo

Fonte: https://twitter.com/ojotacamelo

Batalha da Praça da Sé – Aversão dos anarquistas sobre a “revoadas dos galinhas verdes” e o movimento antifascista em São Paulo – por A.N.A.

Batalha da Praça da Sé – Aversão dos anarquistas sobre a “revoadas dos galinhas verdes” e o movimento antifascista em São Paulo
Em 7 de outubro de 1934 os antifascistas de São Paulo infligiram uma grande derrota para os integralistas, naquela que ficou conhecida como a “batalha da praça da Sé” ou “revoada dos galinhas verdes”. Nesta data os integralistas haviam dito que fariam uma grande manifestação, a “marcha sobre São Paulo”, parafraseando Mussolini. Sete pessoas morreram e mais de trinta ficaram gravemente feridas.

Com a debandada dos “camisas verdes” e o sucesso da contramanifestação entretanto, surgiram e continuam a serem reproduzidas versões polêmicas. Este artigo busca, através de documentos da época e registros de depoimentos posteriores, resgatar a versão dos anarquistas sobre os fatos.

Precedentes:

A imigração italiana para o Brasil era massiva no final do século XIX e início do XX, sendo a Itália o país de origem que mais imigrantes trouxera naquelas décadas. O próprio movimento anarquista e o sindicalismo eram muito marcados pela presença de italianos, além de outros imigrantes e de brasileiros. Apesar do problema secular do racismo no Brasil, o fenômeno internacional do fascismo, propriamente dito, corporificando-se inicialmente na Itália e na Alemanha, naturalmente teve no operário imigrante suas primeiras repercussões.

A partir de 1922, Mussolini já havia assassinado muitos opositores, ninguém lembrava seus discursos socialistas e havia criado uma poderosa aviação – a grande propaganda fascista.

O fascismo se volta para o Brasil onde muitas entidades italianas são cooptadas para a propaganda. Um discurso do cônsul italiano Mazzolini, chefe dos “camisas pretas” diz: “A pátria tem aqui sua décima legião, o regime tem aqui sua velha guarda, a nação fascista tem aqui uma parte de si mesma”. O estribilho é Deus, Pátria e Família, é de data antiga.

(…) A cartilha fazia a cabeça das pessoas e crianças, dizendo que os caboclos, mestiços, índios, gaúchos etc… eram de raça inferior. Comícios, passeatas, manifestações eram feitas quase que diariamente. (CUBEROS, Jaime, 2015. p. 204)

Mussolini enviou à São Paulo o deputado Luigi Freddi, que assumiu a direção do jornal Il Piccolo. O jornal era do empresário fascista Rodolfo Crespi, fundador do colégio Dante Alighieri. Poucos conhecem o desconcertante passado do tradicional colégio paulista, de mesmo nome, conhecido pelo seu caráter rígido. Neste colégio era muito presente a saudação típica da mão estendida e professores italianos foram enviados e subsidiados pelo governo de Mussolini. (MALIN, Mauro. 2011)

Em 1928 dois aviadores fascistas atravessaram o Atlântico e um evento foi organizado em sua homenagem. Alcoolizado e empolgado, um aviador morreu ao resolver voar novamente e derrubar o seu avião no mar. Seu colega sobreviveu sem muitos ferimentos. Um artigo de Maria Lacerda de Moura no jornal O Combate viria a enfurecer os fascistas de São Paulo, o Il Piccolo e outro jornal chamado Fanfulla. A educadora e escritora anarquista escreveu “um artigo corajoso, honesto, irreverente, comparando o delírio aviatório-militarista de um Del Prete alcoolizado ao humanismo e à ciência de um Amundsen” (CUBERO, Jaime. 2015, p.204)

Os debates nos jornais durariam dias e levariam as vias de fato quando Il Piccolo faz ameaças a libertária. Estudantes revoltados saíram às ruas em protesto contra o fascismo e se dirigiram a sede do jornal. Apesar dos tiros de revólver, vindos do segundo andar, quebraram a fachada do edifício, os móveis e as instalações, mas a polícia conseguiu agir a tempo de proteger as oficinas.

Em seguida a multidão fez um comício de protesto na Praça Patriarca, onde foi aumentando de número. Durante esse comício, a polícia se concentrou junto ao Fanfulla. A multidão voltou, em seguida, ao Il Piccolo onde, vencendo a proteção da polícia, destruíram tudo, jogando as máquinas e arquivos na rua e incendiando também o edifício. “O grupo enchia a Praça dos Correios, o viaduto Santa Ifigênia e o parque do Anhangabaú, assistindo ao incêndio.” (CUBERO, Jaime. 2015, p.206)

Uma grande estátua em homenagem aos aviadores, enviada por Mussolini e inaugurada em 1929 pela Sociedade Dante Alighieri, ostenta até hoje símbolos fascistas na cidade de São Paulo. A escultura “Heróis da travessia do Atlântico” ficou entre 1987 a 2009 na praça Nossa Senhora do Brasil, no lado oposto ao da paróquia, no cruzamento entre a Av. Brasil e a Av. Europa. Em 2009 a estátua voltou ao seu local original, junto a represa Guarapiranga. A estátua possui dois grandes fascios, machados romanos que deram origem ao nome e ao símbolo do fascismo.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://novohorizonteanarquista.noblogs.org/batalhadapracadaseanarquista/

agência de notícias anarquistas-ana

Na palma da mão,
Um vaga-lume —
Sua luz é fria!

Shiki

Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/06/30/batalha-da-praca-da-se-a-versao-dos-anarquistas-sobre-a-revoadas-dos-galinhas-verdes-e-o-movimento-antifascista-em-sao-paulo/

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Naomi Klein: recuperando os bens comuns

Naomi Klein: recuperando os bens comuns
O que é o "movimento antiglobalização"? (1) Coloco a frase entre aspas porque tenho, imediatamente, duas dúvidas sobre isso. É realmente um movimento? Se é um movimento, é antiglobalização? Deixe-me começar com a primeira questão. Podemos facilmente nos convencer de que é um movimento, ao trazê-lo à existência por falar dele em um fórum como esse - passo muito tempo neles - agindo como se pudéssemos vê-lo, segurá-lo em nossas mãos. É claro que já vimos isso - e sabemos que o movimento voltou ao Quebec e à fronteira EUA-México durante a Cúpula das Américas e a discussão para uma Área de Livre Comércio hemisférica. Mas então saímos de salas como essa, vamos para casa, assistimos TV, fazemos algumas compras e qualquer sensação de que o movimento existe desaparece e sentimos que talvez estamos ficando loucos. Seattle… foi um movimento ou uma alucinação coletiva? Para a maioria de nós aqui, Seattle significava uma espécie de festa de lançamento de um movimento de resistência global, ou a 'globalização da esperança', como alguém descreveu durante o Fórum Social Mundial em Porto Alegre. Mas para todos os outros, Seattle ainda significa café espumoso ilimitado, culinária de fusão asiática, bilionários de comércio eletrônico e filmes bobos de Meg Ryan. Ou talvez sejam ambos, e uma Seattle criou a outra Seattle - e agora elas coexistem desajeitadamente.

Esse movimento que às vezes invocamos tem muitos nomes: anticorporativo, anticapitalista, antilivre-comércio, anti-imperialista. Muitos dizem que começou em Seattle. Outros afirmam que isso começou quinhentos anos atrás - quando os colonizadores disseram pela primeira vez aos povos indígenas que teriam que fazer as coisas de maneira diferente se quisessem se "desenvolver" ou se qualificar para o "comércio". Outros ainda dizem que começou em 1 de janeiro de 1994, quando os zapatistas lançaram seu levante com as palavras Ya Basta! na noite em que o NAFTA se tornou lei no México. Tudo depende de a quem você pergunta. Mas acho que é mais preciso imaginar um movimento de muitos movimentos - coalizões de coalizões. Hoje, milhares de grupos estão trabalhando contra forças cujo fio comum é o que pode ser descrito amplamente como a privatização de todos os aspectos da vida e a transformação de todas as atividades e valores em mercadorias. Costumamos falar da privatização da educação, da saúde e dos recursos naturais. Mas o processo é muito mais vasto. Inclui a maneira como ideias poderosas são transformadas em slogans publicitários e ruas públicas são transformadas em shopping centers; novas gerações sendo alvo de propaganda desde o nascimento; escolas sendo invadidas por anúncios; necessidades humanas básicas, como a água, sendo vendidas como mercadoria; direitos trabalhistas básicos sendo revertidos; genes patenteados e o surgimento de bebês projetados geneticamente: sementes são geneticamente alteradas e compradas; políticos são comprados e modificados.

Ao mesmo tempo, existem linhas de oposição, que se formam em muitas campanhas e movimentos diferentes. O espírito que eles compartilham é uma recuperação radical dos bens comuns. À medida que nossos espaços comuns - praças, ruas, escolas, fazendas, fábricas - são substituídos pelo mercado em expansão, um espírito de resistência está se firmando em todo o mundo. As pessoas estão reivindicando pedaços da natureza e da cultura e dizendo 'isso vai ser um espaço público'. Estudantes norte-americanos estão expulsando anúncios das salas de aula. Ambientalistas e ravers europeus estão dando festas em cruzamentos movimentados. Camponeses tailandeses sem terra estão plantando vegetais orgânicos em campos de golfe super irrigados. Trabalhadores bolivianos estão revertendo a privatização de seu abastecimento de água. Serviços como o Napster estão criando uma espécie de bem comum na internet, onde as crianças podem trocar músicas umas com as outras, em vez de comprá-las de gravadoras multinacionais. Outdoors foram liberados e redes independentes de mídia foram criadas. Os protestos estão se multiplicando. Em Porto Alegre, durante o Fórum Social Mundial, José Bové, muitas vezes caricaturado como o martelo do McDonald's, viajou com ativistas locais do Movimento Sem Terra para um lugar de teste da Monsanto, nas proximidades, onde destruíram três hectares de soja geneticamente modificada. Mas o protesto não parou por aí. O MST ocupou a terra e agora os membros estão plantando suas próprias colheitas orgânicas, prometendo transformar a fazenda em um modelo de agricultura sustentável. Em resumo, os ativistas não estão esperando a revolução, estão agindo agora, onde vivem, onde estudam, onde trabalham, onde cultivam.

Mas algumas propostas formais também estão surgindo, cujo objetivo é transformar essas reivindicações radicais dos bens comuns em lei. Quando o NAFTA e acordos similares foram elaborados, houve muita conversa sobre a adição de "acordos paralelos" à agenda de livre comércio, que deveria abranger o meio ambiente, o trabalho e os direitos humanos. Agora, o contra-ataque trata de eliminá-los. José Bové - juntamente com a Via Campesina, uma associação global de pequenos agricultores - lançou uma campanha para remover a segurança alimentar e produtos agrícolas de todos os acordos comerciais, sob o lema 'O mundo não está à venda'. Eles querem desenhar uma linha em torno dos bens comuns. Maude Barlow, diretora do Conselho dos Canadenses, que tem mais membros do que a maioria dos partidos políticos no Canadá, argumentou que a água não é um bem privado e não deveria estar em nenhum acordo comercial. Há muito apoio para essa ideia, especialmente na Europa, desde os recentes sustos com alimentos. Normalmente, essas campanhas antiprivatização são iniciadas isoladamente. Mas elas também convergem periodicamente - foi o que aconteceu em Seattle, Praga, Washington, Davos, Porto Alegre e Quebec.

Além das fronteiras
O que isso significa é que o discurso mudou. Durante as batalhas contra o NAFTA, surgiram os primeiros sinais de uma coalizão entre trabalho organizado, ambientalistas, agricultores e grupos de consumidores nos países em questão. No Canadá, muitos de nós sentimos que estávamos lutando para manter algo distinto da "americanização" da nossa nação. Nos Estados Unidos, a conversa foi muito protecionista: os trabalhadores estavam preocupados com o fato de os mexicanos "roubarem" “nossos” empregos e reduzirem “nossos” padrões ambientais. Durante todo o tempo, as vozes dos mexicanos que se opunham ao acordo estavam praticamente fora do radar público - mas essas eram as vozes mais fortes de todas. Mas apenas alguns anos depois, o debate sobre o comércio foi transformado. A luta contra a globalização se transformou em uma luta contra a ‘corporatização’ e, para alguns, contra o próprio capitalismo. Também se tornou uma luta pela democracia. Maude Barlow liderou a campanha contra o NAFTA no Canadá há doze anos. Desde que o NAFTA se tornou lei, ela trabalha com organizadores e ativistas de outros países e anarquistas desconfiados do Estado em seu próprio país. Ela já foi vista como o rosto de um nacionalismo canadense. Hoje ela se afastou desse discurso. "Eu mudei", ela diz, "eu costumava achar que essa luta era para salvar a nação. Agora eu vejo que é para salvar a democracia”. Essa é uma causa que transcende a nacionalidade e as fronteiras do Estado. A verdadeira notícia de Seattle é que os organizadores de todo o mundo estão começando a ver suas lutas locais e nacionais - por escolas públicas mais bem financiadas, contra a destruição dos sindicatos e a precarização do trabalho, por fazendas familiares e contra a crescente lacuna entre ricos e pobres - através de uma lente global. Essa é a mudança mais significativa que vimos em anos.

Como isso aconteceu? Quem ou o que convocou esse novo movimento internacional de pessoas? Quem enviou os memorandos? Quem construiu essas coalizões complexas? É tentador fingir que alguém planejou um plano mestre de mobilização em Seattle. Mas acho que foi muito mais uma questão de coincidência em larga escala. Muitos grupos menores se organizaram para chegar lá e, para surpresa deles, descobriram quão ampla e diversa era a coalizão da qual eles haviam se tornado parte. Ainda assim, se há uma força que podemos agradecer por criar essa frente, são as empresas multinacionais. Como observou um dos organizadores do Reclaim the Streets, devemos agradecer aos CEOs por nos ajudarem a ver os problemas mais rapidamente. Graças à pura ambição imperialista do projeto corporativo neste momento da história - a busca ilimitada pelo lucro, liberada pela desregulamentação comercial, e a onda de fusões e aquisições, liberada pelas enfraquecidas leis antitruste - as multinacionais ficaram ricas de forma tão ofuscante, sua propriedades são tão vastas, seu alcance é tão global, que criaram nossas coalizões para nós.

Em todo o mundo, os ativistas estão carregando em seus ombros as infraestruturas pré-montadas fornecidas pelas empresas globais. Isso pode significar sindicalização transfronteiriça, mas também organização intersetorial - entre trabalhadores, ambientalistas, consumidores e até prisioneiros, que podem todos ter relações diferentes com uma multinacional. Assim, você pode criar uma única campanha ou coalizão em torno de uma única marca como a General Electric. Graças à Monsanto, os agricultores da Índia estão trabalhando com ambientalistas e consumidores de todo o mundo para desenvolver estratégias de ação direta que eliminam alimentos geneticamente modificados nos campos e nos supermercados. Graças a Shell Oil e Chevron, ativistas de direitos humanos na Nigéria, democratas na Europa, ambientalistas na América do Norte se uniram em uma luta contra a insustentabilidade da indústria petrolífera. Graças à decisão da gigante do setor de refeições, Sodexho-Marriott, de investir na Corrections Corporation of America, [uma empresa privada de administração de presídios], os estudantes universitários podem protestar contra a crescente indústria prisional norte-americana com fins lucrativos simplesmente boicotando a comida do restaurante do campus. Outros alvos incluem empresas farmacêuticas que estão tentando inibir a produção e distribuição de medicamentos de baixo custo para a Aids e cadeias de fast-food. Recentemente, estudantes e trabalhadores rurais da Flórida uniram forças em torno da Taco Bell. Na área de São Petersburgo [Flórida], trabalhadores rurais - muitos deles imigrantes do México - recebem em média US$ 7.500 por ano para colher tomates e cebolas. Devido a uma brecha na lei, eles não têm poder de barganha: os chefes das fazendas se recusam a conversar com eles sobre salários. Quando começaram a investigar quem comprava o que eles colhiam, descobriram que a Taco Bell era o maior compradora dos tomates locais. Então eles lançaram a campanha Yo No Quiero Taco Bell, juntamente com os alunos, para boicotar a Taco Bell nos campi das universidades.

É a Nike, é claro, que mais ajudou no desenvolvimento dessa nova marca de sinergia ativista. Os estudantes, que enfrentam o controle corporativo de seus campi pelo logotipo da Nike, se associaram aos trabalhadores que confeccionam suas roupas de marca, bem como aos pais preocupados com comercialização da juventude e grupos de igrejas que fazem campanha contra o trabalho infantil - todos unidos por seus diferentes relacionamentos com um inimigo global comum. Expor o ponto fraco das marcas de consumo de alto brilho municiou as narrativas iniciais desse movimento, uma espécie de chamada e resposta às narrativas muito diferentes que essas empresas contam todos os dias sobre si mesmas, por meio de publicidade e relações públicas. O Citigroup oferece outro alvo principal, como a maior instituição financeira da América do Norte, com inúmeras holdings, que lidam com alguns dos piores malfeitores corporativos do mundo. A campanha contra ele reúne com facilidade dezenas de questões - desde extração de madeira na Califórnia até esquemas de oleoduto e petróleo no Chade e Camarões. Esses projetos são apenas o começo. Mas eles estão criando um novo tipo de ativista: 'Nike é uma droga de entrada' [que leva ao consumo de outras drogas mais pesadas], nas palavras da estudante ativista do Oregon Sarah Jacobson.

Ao se concentrarem nas empresas, os organizadores podem demonstrar com clareza quantas questões de justiça social, ecológica e econômica estão interconectadas. Nenhum ativista que conheci acredita que a economia mundial pode ser mudada gradualmente, uma corporação de cada vez, mas as campanhas abriram uma porta para o mundo secreto do comércio e finanças internacionais. Onde elas estão levando é para as instituições centrais que escrevem as regras do comércio global: a OMC, o FMI, a ALCA e, para alguns, o próprio mercado. Aqui também a ameaça unificadora é a privatização - a perda dos bens comuns. A próxima rodada de negociações da OMC está projetada para ampliar ainda mais o alcance da mercantilização. Por meio de acordos paralelos como o GATS (Acordo Geral de Comércio e Serviços) e o TRIPS (Aspectos Relacionados ao Comércio dos Direitos de Propriedade Intelectual), o objetivo é obter ainda mais proteção dos direitos de propriedade sobre sementes e patentes de medicamentos e comercializar serviços como assistência médica , educação e abastecimento de água.

O maior desafio que enfrentamos é destilar tudo isso em uma mensagem amplamente acessível. Muitos ativistas entendem as conexões, que unem as várias questões, de maneira quase intuitiva - como o subcomandante Marcos diz: 'Zapatismo não é uma ideologia, é uma intuição'. Mas, para quem está de fora, o mero escopo dos protestos modernos pode ser um pouco confuso. Se você investigar o movimento pelo lado de fora, que é o que a maioria das pessoas faz, é provável que ouça o que parece ser uma cacofonia de slogans desarticulados, uma lista confusa de demandas díspares sem objetivos claros. Na Convenção Nacional Democrata de Los Angeles, no ano passado, lembro-me de estar do lado de fora do Staples Center durante o concerto Rage Against the Machine [Fúria Contra a Máquina], pouco antes de quase levar um tiro, e pensar que havia slogans para tudo e em todo lugar, ao ponto de absurdo.

Falhas da ideologia dominante
Esse tipo de impressão é reforçado pela estrutura descentralizada e não hierárquica do movimento, que sempre desconcerta a mídia tradicional. Conferências de imprensa bem organizadas são raras, não há liderança carismática, os protestos tendem a se sobrepor uns aos outros. Em vez de formar uma pirâmide, como faz a maioria dos movimentos, com líderes no topo e seguidores abaixo, parece mais uma teia elaborada. Em parte, essa estrutura semelhante à um teia é o resultado da organização baseada na Internet. Mas é também uma resposta às realidades políticas que provocaram os protestos em primeiro lugar: o fracasso total da política partidária tradicional. Em todo o mundo, os cidadãos têm trabalhado para eleger os partidos social-democratas e dos trabalhadores, apenas para vê-los assumir sua impotência diante das forças do mercado e das ordens do FMI. Nessas condições, os ativistas modernos não são tão ingênuos a ponto de acreditar que a mudança virá da política eleitoral. É por isso que eles estão mais interessados em desafiar as estruturas que tornam a democracia ineficaz, como as políticas de ajuste estrutural do FMI, a capacidade da OMC de substituir a soberania nacional, o financiamento de campanhas corruptas e assim por diante. Isso não é apenas transformar uma virtude em necessidade. Mas responde, no nível ideológico, a um entendimento de que a globalização é essencialmente uma crise da democracia representativa. O que causou essa crise? Uma das razões básicas para isso é a maneira como o poder e a tomada de decisões foram levados a pontos cada vez mais distantes dos cidadãos: de local a provincial, de provincial a nacional, de instituições nacionais a internacionais, que carecem de toda transparência ou responsabilização. Qual é a solução? Articular uma democracia participativa alternativa.

Se você pensa sobre a natureza das reclamações feitas contra a Organização Mundial do Comércio, é que os governos de todo o mundo adotaram um modelo econômico que envolve muito mais do que abrir fronteiras para bens e serviços. É por isso que não é útil usar a linguagem da antiglobalização. A maioria das pessoas realmente não sabe o que é globalização, e o termo torna o movimento extremamente vulnerável a desqualificações das ações, como: 'Se você é contra o comércio e a globalização, por que você bebe café?' Enquanto, na realidade, o movimento é uma rejeição ao que está sendo amarrado junto com o comércio e a chamada globalização - contra o conjunto de políticas políticas transformadoras que todos os países do mundo são instados a aceitar para se tornarem hospitaleiros ao investimento. Eu chamo este pacote de 'McGoverno'. Essa feliz refeição de cortar impostos, privatizar serviços, liberalizar regulamentações, exterminar sindicatos – para que serve essa dieta? Para remover qualquer coisa que esteja no caminho do mercado. Deixe o mercado livre rolar, e todos os outros problemas serão aparentemente resolvidos com os benefícios que transbordarão para o resto da sociedade. Não se trata de comércio. Trata-se de usar o comércio para aplicar a receita do McGoverno.

Portanto, a pergunta que estamos fazendo hoje, antes da ALCA, não é: você é a favor ou contra o comércio? A questão é: temos o direito de negociar os termos de nosso relacionamento com o capital e o investimento estrangeiros? Podemos decidir como queremos nos proteger dos perigos inerentes aos mercados desregulados - ou precisamos terceirizar essas decisões? Esses problemas se tornarão muito mais agudos quando estivermos em recessão, porque durante o crescimento econômico muito do que restava de nossa rede de segurança social foi destruído. Durante um período de baixo desemprego, as pessoas não se preocuparam muito com isso. É provável que eles fiquem muito mais preocupados em um futuro muito próximo.

As questões mais controversas que a OMC enfrenta são essas questões sobre autodeterminação. Por exemplo, o Canadá tem o direito de proibir um aditivo nocivo da gasolina sem ser processado por uma empresa química estrangeira? Não de acordo com a decisão da OMC em favor da Ethyl Corporation. O México tem o direito de negar uma licença para um local perigoso de eliminação de resíduos tóxicos? Não de acordo com a Metalclad, a empresa norte-americana está processando o governo mexicano por danos de US$ 16,7 milhões sob o NAFTA. A França tem o direito de proibir a entrada de carne bovina tratada com hormônios no país? Não de acordo com os Estados Unidos, que revidaram proibindo importações francesas como o queijo Roquefort - levando um fabricante de queijos chamado Bové a destruir um McDonald's. Os norte-americanos pensaram que ele simplesmente não gostava de hambúrgueres. A Argentina precisa cortar seu setor público para se qualificar para empréstimos estrangeiros? Sim, de acordo com o FMI - provocando greves gerais contra as consequências sociais. É o mesmo problema em todos os lugares: trocar a democracia pelo capital estrangeiro.

Em escalas menores, as mesmas lutas pela autodeterminação e sustentabilidade estão sendo travadas contra barragens do Banco Mundial, exploração madeireira, pecuária e agricultura comerciais industriais e extração de recursos em disputadas terras indígenas. A maioria das pessoas nesses movimentos não é contra o comércio ou o desenvolvimento industrial. Eles estão lutando pelo direito das comunidades locais de opinar sobre como seus recursos são usados, para garantir que as pessoas que vivem na terra se beneficiem diretamente de seu desenvolvimento. Essas campanhas são uma resposta não ao comércio, mas a um compromisso que já tem quinhentos anos: o sacrifício do controle democrático e a autodeterminação do investimento estrangeiro e a panaceia do crescimento econômico. O desafio que eles enfrentam agora é mudar um discurso em torno da vaga noção de globalização para um debate específico sobre democracia. Em um período de 'prosperidade sem precedentes', foi dito às pessoas que elas não tinham escolha a não ser cortar gastos públicos, revogar leis trabalhistas, rescindir proteções ambientais - consideradas barreiras comerciais ilegais – retirar os recursos de escolas, não construir moradias populares. Tudo isso foi necessário para nos tornar prontos para o comércio, favoráveis ao investimento e competitivos mundialmente. Imagine que alegrias nos esperam durante uma recessão.

Precisamos ser capazes de mostrar que a globalização - essa versão da globalização - foi construída às custas do bem-estar humano local. Muitas vezes, essas conexões entre global e local não são feitas. Em vez disso, às vezes parecemos ter dois ativismos isolados. Por um lado, há os ativistas internacionais contra a globalização que podem estar desfrutando de um humor triunfante, mas parecem estar lutando contra questões distantes, desconectadas das lutas cotidianas das pessoas. Eles são frequentemente vistos como elitistas: crianças brancas de classe média com dreadlocks. Por outro lado, há ativistas comunitários que se ocupam diariamente das lutas pela sobrevivência ou pela preservação dos serviços públicos mais elementares, que frequentemente se sentem esgotados e desmoralizados. Eles estão dizendo: por que diabos vocês estão tão animados?

O único caminho claro a seguir é que essas duas forças se fundam. O que é agora o movimento antiglobalização deve se transformar em milhares de movimentos locais, combatendo a maneira como a política neoliberal está se desenvolvendo: sem-teto, estagnação salarial, escalada de aluguel, violência policial, explosão de prisões, criminalização de trabalhadores migrantes e assim por diante. São também lutas sobre todos os tipos de questões prosaicas: o direito de decidir para onde vai o lixo local, de ter boas escolas públicas, de ser abastecido com água limpa. Ao mesmo tempo, os movimentos locais que lutam contra a privatização e a desregulamentação no local precisam vincular suas campanhas a um grande movimento global, o que pode mostrar onde seus problemas específicos se encaixam em uma agenda econômica internacional aplicada em todo o mundo. Se essa conexão não for feita, as pessoas continuarão desmoralizadas. O que precisamos é formular uma estrutura política que possa assumir o poder e o controle corporativos e capacitar a organização e a autodeterminação locais. Essa deve ser uma estrutura que incentive, celebre e proteja ferozmente o direito à diversidade: diversidade cultural, diversidade ecológica, diversidade agrícola - e sim, diversidade política também: diferentes maneiras de fazer política. As comunidades devem ter o direito de planejar e gerenciar suas escolas, seus serviços, seus ambientes naturais, de acordo com suas próprias ideias. Obviamente, isso só é possível dentro de uma estrutura de padrões nacionais e internacionais - educação pública, emissões de combustíveis fósseis e assim por diante. Mas o objetivo não deve ser melhores regras e governantes distantes, deve ser uma democracia próxima, no próprio local. Os zapatistas têm uma frase para isso. Eles chamam de "um mundo com muitos mundos". Alguns criticaram isso como uma ‘não resposta’ da Nova Era. Eles querem um plano. ‘Sabemos o que o mercado quer fazer com esses espaços, o que você quer fazer? Onde está o seu plano? 'Acho que não devemos ter medo de dizer: “Isso não depende de nós”. Precisamos ter alguma confiança na capacidade das pessoas de se governarem, de tomar as decisões que são melhores para elas. Precisamos mostrar um pouco de humildade, onde agora há tanta arrogância e paternalismo. Acreditar na diversidade humana e na democracia local pode ser tudo menos insosso. Tudo no McGoverno conspira contra elas. A economia neoliberal é tendenciosa em todos os níveis em direção à centralização, consolidação e homogeneização. É uma guerra travada contra a diversidade. Contra isso, precisamos de um movimento de mudança radical, comprometido com um mundo único com muitos mundos, que se posicione por aquele um ‘não’ e muitos ‘sim'.

*Esta é uma transcrição de uma palestra proferida no Centro de Teoria Social e História Comparada da UCLA em abril de 2001.

**Publicado originalmente em 'New Left Review' | Tradução de César Locatelli

Fonte: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Direitos-Humanos/Naomi-Klein-recuperando-os-bens-comuns/5/47963

Capitalismo e crise: o que o racismo tem a ver com isso? - Por Silvio Luiz de Almeida.

Capitalismo e crise: o que o racismo tem a ver com isso?

A história do racismo moderno se entrelaça com a história das crises estruturais do capitalismo.

Há dois fatores sistematicamente negligenciados pelas analistas da atual crise econômica. O primeiro é o caráter estrutural e sistêmico da crise. Em geral, são destacados como motivos determinantes da crise os erros e ou excessos cometidos pelos agentes de mercado ou pelos governantes da vez. O caminho intelectual dessa explicação é o individualismo, o que reduz a crise a um problema moral e/ou jurídico. Desse modo, a avaliação da crise e suas graves conseqüências sociais – fome, desemprego, violência, encarceramento, mortes – convertem-se em libelos pela reforma dos sistemas jurídicos, pela imposição de mecanismos contra a corrupção ou ainda, por campanhas pela conscientização acerca dos males provocados pela “ganância” ou pela sede de lucro. Enfim, tanto causas como efeitos recaem apenas sobre os sujeitos e nunca são questionadas as estruturas sociais que permitem a repetição dos comportamentos e das relações que desencadeiam as crises.

O segundo fator esquecido pelos estudiosos da crise – intimamente ligado ao primeiro – é a especificidade que a crise assume no tocante aos grupos sociais que a sociologia denomina de minorias. Minorias caracterizam-se pelos processos de discriminação direta ou indireta a que são submetidas pessoas socialmente identificadas como pertencentes a determinados grupos sociais (negros, judeus, mulheres, pessoas LGBT etc.). A discriminação sistemática, processual e histórica cria uma estratificação social que se reverte em inúmeras desvantagens políticas e econômicas aos grupos minoritários, vivenciadas na forma de pobreza, salários mais baixos, menor acesso aos sistemas de saúde e educação, maiores chances de encarceramento e morte.

São duas as conclusões até este momento: 1) a identificação de um grupo social minoritário deve levar em conta as peculiaridades de cada formação social, vez que a dinâmica do processo discriminatório vincula-se à lógica da econômica e da política; 2) a discriminação só se torna sistêmica se forem reproduzidas as condições sócio-políticas que naturalizem a desigualdade de tratamento oferecido a indivíduos pertencentes a grupos minoritários. Por isso, em face da estrutura política e econômica da sociedade contemporânea, formas de discriminação como o racismo só se estabelecem se houver a participação do Estado, que pode atuar diretamente na classificação de pessoas e nos processos discriminatórios (escravidão, apartheid e nazismo) ou indiretamente, quando há omissão diante da discriminação, permitindo-se que preconceitos historicamente arraigados contra negros, mulheres e gays se transformem em critérios “ocultos” ou regras “não inscritas” que operam no funcionamento das instituições, na distribuição econômica (emprego e renda, por exemplo) e na ocupação de espaços de poder e decisão.

Crise como crise do capitalismo 
Em primeiro lugar, o que chamamos de capitalismo é uma relação social, em que detentores de dinheiro e dos meios de produção (máquinas, terra, escritórios, ferramentas, computadores etc.) e trabalhadores assalariados relacionam-se com o fim de produzir mercadorias. O objetivo fundamental da produção de mercadorias é gerar mais dinheiro do que o investido na produção, e não satisfazer necessidades humanas. Portanto, além de cobrir os custos da produção, a venda de mercadorias deve gerar um excedente que será revertido para a aquisição de mais capital, ou seja, na ampliação dos fatores de produção. O capitalismo se define como um processo socialmente orientado para o acúmulo de capital. Mas ainda que a base da relação mantenha-se a mesma, a produção capitalista será organizada das mais diferentes maneiras, e isso irá variar de acordo com o local, com o desenvolvimento tecnológico, com as condições dos trabalhadores, com as condições políticas etc. Em suma: as formas de acumulação podem variar a fim de garantir a expansão do capital, o aumento da produtividade e a obtenção do lucro.

Uma sociedade de troca mercantil não é um dado natural, mas uma construção histórica. O mercado ou sociedade civil não seria possível sem instituições, direito e política. Como nos adverte Robert Boyer “as instituições básicas de uma economia mercantil pressupõem atores e estratégias para além dos atores e estratégias meramente econômicos”1. Para demonstrar como o mercado é de fato uma construção social, Boyer conta-nos como a intervenção estatal direta ou indireta foi imprescindível para: 1) tornar possível a concorrência, estipulando regras e limites à atuação das empresas. A concorrência que muitos consideram como da “natureza” do capitalismo só é possível pela mediação entre as esferas pública e privada; 2) liberar as forças de concorrência do trabalho, o que historicamente implicou na regulação das relações salariais, ora pelo direito privado (privilegiando regras pactuadas pela negociação entre capital e trabalho), ora ao denominado direito social (com imposição de certos limites ao contrato). Nesse sentido, a intervenção estatal “é mais evidente ainda quando referente à cobertura social: as lutas dos assalariados pelo reconhecimento dos acidentes de trabalho, dos direitos à aposentadoria e à saúde resultaram em casos de avanço em matéria de direitos sociais – avanços que dizem respeito tanto à natureza da cidadania quanto ao modo de regulação”2. A relação salarial, independentemente de quais mecanismos jurídico-políticos atuam na fixação de seus parâmetros, é decorrente de uma mediação estatal.

É nesse sentido que além das condições objetivas – e aqui referimo-nos às possibilidades materiais para o desenvolvimento das relações sociais capitalistas – o capitalismo necessita de condições subjetivas. Com efeito, os indivíduos precisam ser formados, subjetivamente constituídos, para reproduzir em seus atos concretos as relações sociais, cuja forma básica é a troca mercantil. Nisso, resulta o fato de que um indivíduo precisa tornar-se um trabalhador ou um capitalista, ou seja, precisa “naturalizar” a separação entre “Estado” e “sociedade civil”, sua condição social e seu pertencimento a determinada classe ou grupo. Esse processo, muitas vezes, passa pela incorporação de preconceitos e discriminação que serão “atualizadas” para funcionar como modos de subjetivação no interior do capitalismo. Este processo não é “espontâneo”; os sistemas de educação e meios de comunicação de massa são aparelhos funcionam justamente produzindo subjetividades culturalmente adaptadas em seu interior. Não é por outro motivo que parte da sociedade entende como um mero aspecto “cultural” o fato de negros e mulheres receberem os piores salários e trabalharem mais horas mesmo que isso contrarie disposições legais3.

Estado e crise
Mas o que é o Estado? Como define Joachim Hirsch4, o Estado é a “condensação material de uma relação social de força”. Está longe de ser, portanto, o resultado de um contrato social, a corporificação da vontade popular democrática, o ápice da racionalidade ou o instrumento de opressão da classe dominante. Essas definições que passeiam entre o idealismo e a simplificação abstrata, não revelam a materialidade do Estado, enquanto um complexo de relações sociais indissociável do movimento da economia.

“Ele é bem mais uma relação social entre indivíduos, grupos e classes, a ‘condensação material de uma relação social de força’. Material, porque essa relação assume uma forma marcada por mecanismos burocráticos e políticos próprios no sistema das instituições, organizações e aparelhos políticos. A aparelhagem do Estado tem uma consistência e uma estabilidade e por isso é mais do que a expressão direta de uma relação social de força. Mudanças nas relações de força sempre produzem efeitos no interior do Estado, mas ao mesmo tempo a estrutura existente do aparelho estatal reage sobre eles. O Estado expressa em sua concreta estrutura organizativa relações sociais de força, mas também simultaneamente as forma e as estabiliza” 5.

O Estado é a forma política do capitalismo, e não um mero instrumento dos capitalistas. Pode-se dizer que o Estado é de classe, mas não de uma classe, salvo em condições excepcionais e de profunda anormalidade. Em uma sociedade dividida em classes e grupos sociais, o Estado aparece como a unidade possível, em uma vinculação que se vale de mecanismos repressivos e material-ideológicos6. A manutenção desse modo de vida conflituoso depende da internalização, pelos indivíduos, das condições de funcionamento da sociedade capitalista como parte da “cultura”. A ideologia – e quando esta não for suficiente, a violência física – fornece o remendo para uma sociedade estruturalmente marcada por contradições, conflitos e antagonismos insuperáveis. Esses fatores explicam a importância da construção de um discurso ideológico calcado na meritocracia, no sucesso individual e no racismo a fim de “naturalizar” a desigualdade.

Ressalte-se que alterações das relações de força e dos conflitos sociais pressupõem a capacidade do Estado de manter “as estruturas socioeconômicas fundamentais” e a adaptação do Estado às transformações sociais sem comprometer sua unidade relativa e sua capacidade de garantir a estabilidade política e econômica7.

O conflito social entre capital e trabalho assalariado não é único conflito existente na sociedade capitalista. Há outros conflitos que se articulam com as relações de dominação e exploração, que não se originam nas relações de classe e tampouco “desapareceriam com ela”8: são conflitos raciais, sexuais, religiosos, culturais e regionais que remontam a períodos anteriores ao capitalismo, mas que nele tomam uma forma especificamente capitalista. Portanto, entender a dinâmica dos conflitos raciais e sexuais é absolutamente essencial à compreensão do capitalismo, visto que a dominação de classe se realiza nas mais variadas formas de opressão racial e sexual. A relação entre Estado e sociedade não se resume à troca e produção de mercadorias; as relações de opressão e de exploração sexuais e raciais são importantes na definição do modo de intervenção do Estado e na organização dos aspectos gerais da sociedade9.

“O racismo, tal como a moderna construção das relações de gênero, é um meio da divisão social e da desorganização das classes dominadas, seja no interior como no exterior das fronteiras estatais. Através desses mecanismos de opressão e de dominação funda-se o povo enquanto nação. Como as fronteiras estatais são sempre permeáveis e a unidade ‘étnica’ deve permanecer basicamente indefinida e instável, o racismo adquire sua contínua eficácia e dinâmica”10.

Há, portanto, um nexo estrutural entre as relações de classe e a constituição social de grupos raciais e sexuais que não pode ser ignorado11. Como afirmei no artigo “Estado, direito e análise materialista do racismo”, “as classes quando materialmente consideradas também são compostas de mulheres, pessoas negras, indígenas, gays, imigrantes, pessoas com deficiência, que não podem ser definidas tão somente pelo fato de não serem proprietários dos meios de produção. “Para entender as classes em seu sentido material, portanto, é preciso, antes de tudo, dirigir o olhar para a situação real das minorias”12.

O que é a crise afinal?
A crise é um elemento estrutural, inscrito na lógica da sociabilidade capitalista13. Deste modo, em sendo a crise parte do capitalismo, defini-la é, de certo modo, determinar o funcionamento não apenas da economia, mas das instituições políticas que devem manter a estabilidade14. O processo de produção capitalista depende de uma expansão permanente da produção e de uma acumulação incessante de capital. Entretanto, a acumulação incessante de capital e a necessidade de aumento da produção encontram limites históricos que se chocam com as características conflituosas da sociedade. A crise se dá justamente quando o processo econômico capitalista não encontra compatibilidade com as instituições e as normas que deveriam manter a instabilidade. As crises revelam-se, portanto, como a incapacidade do sistema capitalista em determinados momentos da história de promover a integração social por meio das regras sociais vigentes. Em outras palavras, o modo de regulação, constituído por normas jurídicas, valores, mecanismos de conciliação e integração institucionais entra em conflito com o regime de acumulação. A consequência disso é que a ligação entre Estado e sociedade civil, mantida, como foi visto, mediante a utilização de mecanismos repressivos e de inculcação ideológica, começa ruir. O sistema de regulação entra em colapso, o que resulta em conflitos entre instituições estatais, independência de órgãos governamentais que passam a se voltar uns contra os outros e funcionar para além de qualquer previsibilidade, falta de direção governamental e instabilidade política15. Não se torna mais possível convencer as pessoas de que viver debaixo de certas regras é normal e, a violência estatal passa a ser recorrente como meio de controle social.

O racismo e as crises
A crise de 1873, o imperialismo e o neocolonialismo

A história do racismo moderno se entrelaça com a história das crises estruturais do capitalismo. A necessidade de alteração dos parâmetros de intervenção estatal a fim de retomar a estabilidade econômica e política – e aqui entenda-se estabilidade como o funcionamento regular do processo de valorização capitalista – sempre resultou em formas renovadas de violência e estratégias de subjugação da população negra.

A primeira grande crise do capital, de 1873, resultou na alteração brutal das relações capitalistas. Além de alterar toda a produção industrial do mundo, redefinir o equilíbrio político e militar e alterar todo o sistema financeiro e monetário internacional, a crise de 1873 foi o ponto de partida para o imperialismo e, mais tarde, para a primeira grande guerra16.

O imperialismo marcou o início da dominação colonial e da transferência das disputas capitalistas do plano interno para o plano internacional. Isso porque a crise de superacumulação de capital obrigou o capitalismo a expandir-se além das fronteiras nacionais. Essa é a explicação econômica do imperialismo, mas que também teve como base um argumento ideológico preponderante: o racismo.

A ideologia imperialista baseou-se no racismo e na ideia eurocêntrica do progresso. Os povos da África, por exemplo, precisavam ser “salvos” pelo conquistador europeu de seu atraso natural. Essa ideologia racista, somada ao discurso pseudocientífico do “darwinismo social” – que afirmava a superioridade “natural” do homem branco –, foram o elemento legitimador da pilhagem, assassinatos e destruição promovida pelos europeus no continente africano17.

“A fúria da conquista colonial, que teve em considerações racistas de ‘superioridade civilizacional’ seu principal alicerce ideológico (até setores da Internacional Socialista, confinada basicamente à Europa, admitiam a expansão colonial em nome da ‘obra civilizadora’ e seus países, e se definiam, como o alemão Eduard David, ‘socialimperialistas’) produziu vítimas em número maior aos holocaustos europeus do século XX, e fez também nascerem movimentos de resistência, que, finalmente, incorporaram os povos coloniais à luta política mundial contemporânea.”18

Achille Mbembe, em Crítica da razão negra, apresenta os laços inextricáveis entre “morte” e “negócio” na esteira da relação entre imperialismo, colonialismo e racismo:

“Esta brutal investida fora da Europa ficará conhecida pelo termo “colonização” ou “imperialismo”. Sendo uma das maneiras de a pretensão européia ao domínio universal se manifestar, a colonização é uma forma de poder constituinte, na qual a relação com a terra, as populações e o território associa, de modo inédito na história da Humanidade, as três lógicas da raça, da burocracia e do negócio (commercium). Na ordem colonial, a raça opera enquanto princípio do corpo político. A raça permite classificar os seres humanos em categorias físicas e mentais específicas. A burocracia emerge como um dispositivo de dominação; já a rede que liga a morte e o negócio opera como matriz fulcral do poder. A força passa a ser lei, e alei tem por conteúdo a própria força.19

A bolsa de valores, o empreendimento colonial e o desenvolvimento do capital financeiro são, ao fim e ao cabo, os fundamentos econômicos que permitiram a constituição do racismo e do nacionalismo como a manifestação da ideologia do capitalismo após a grande crise do século XIX.

A crise de 1929, o Welfare State e a nova forma do racismo
Após a grande de depressão de 1929 e a segunda grande guerra, o arranjo social estabilizador resultou no regime fordista de acumulação e no Welfare State. A produção industrial em larga escala e o consumo de massa foram articulados com a ampliação de direitos sociais e políticas de integração de grupos sociais ao mercado consumidor. Entretanto, mesmo o Estado Social keynesiano ou Welfare State foi incapaz de lidar com os problemas sociais que estruturam o capitalismo. A desigualdade é um dado permanente do capitalismo, que pode ser, a depender de circunstâncias históricas e arranjos politicos específicos, no máximo, maior ou menor.

Mas como lembra David Harvey, mesmo na “Era de ouro do capitalismo”, o acesso aos direitos sociais pelos trabalhadores não foi simétrico e variava de acordo com a capacidade produtiva do país, o setor da economia e o grupo social a que pertencia o trabalhador. Setores de alto risco da economia e países de fraca demanda interna e com baixa capacidade de inovação tecnológica possuíam fracas redes de proteção social, com baixa permeabilidade às reivindicações da classe trabalhadora. Havia setores fordistas que se serviam de bases não fordistas de contratação, o que significa que alguns trabalhadores eram submetidos à superexploração ou mesmo ao trabalho compulsório, ainda que sob a égide de um Estado social e democrático20.

Outra importante distinção feita por Harvey para se compreender as limitações do Welfare State é entre os setores “monopolista” e “competitivo” da indústria. O setor monopolista caracteriza-se por alta demanda, em que os conflitos encontravam lugar para converter-se em “direitos”. Já o “setor competitivo” é de alto risco, baixos salários e subcontratação e é nele que mulheres, negros e imigrantes estão alocados, longe da proteção de sindicatos fortes e da incidência de direitos sociais. Assim que racismo e sexismo colocam determinadas pessoas em seu “devido lugar”, ou seja, nos setores menos protegidos e mais precarizados da economia.

A enorme contradição de uma sociedade em que se pregava a universalidade de direitos e que, ao mesmo tempo, negros, mulheres e imigrantes eram tratados como caso de polícia, gerou movimentos de contestação social que colocavam em xeque a coerência ideológica e a estabilidade política do arranjo socioeconômico do pós-guerra. Ressalte-se que até mesmo o movimento sindical e as organizações de esquerda mostraram profundas limitações – assim como ocorre ainda hoje -, para a realização de uma crítica e até uma autocrítica que expusesse o racismo e o machismo que impregnavam suas próprias estruturas. A única forma de lidar com a denúncia dos movimentos sociais às contradições do Welfare State foi a criminalização e a perseguição aos “radicais”, “criminosos” e “comunistas” que ameaçavam as bases de uma sociedade livre21.

Neoliberalismo e racismo
A crise do Estado de Bem Estar social e do modelo fordista de produção dá ao racismo uma nova forma. O fim do consumo de massa como padrão produtivo predominante, o enfraquecimento dos sindicatos, a produção baseada em alta tecnologia e a supressão dos direitos sociais em nome da austeridade fiscal tornaram populações inteiras submetidas às mais precárias condições ou simplesmente abandonadas à própria sorte, anunciando o que muito consideram o esgotamento do modelo expansivo do capital.

Chama-se por austeridade fiscal o corte das fontes de financiamento dos “direitos sociais” a fim de transferir parte do orçamento público para o setor financeiro privado por meio dos juros da dívida pública. Em nome de uma pretensa “responsabilidade fiscal” segue-se a onda de privatizações, precarização do trabalho e desregulamentação de setores da economia. Do ponto de vista ideológico, a produção de um discurso justificador da destruição de um sistema histórico de proteção social revela a associação entre parte dos proprietários dos meios de comunicação de massa e o capital financeiro: o discurso do empreendedorismo, da meritocracia, do fim do emprego e da liberdade econômica como liberdade política são diuturnamente martelados nos telejornais e até nos programas de entretenimento. Ao mesmo tempo, naturalizase a figura do inimigo, do “bandido” que ameaça a integração social, distraindo a sociedade que, amedrontada pelos programas policiais e pelo noticiário, aceita a intervenção repressiva do Estado em nome da segurança, mas que, na verdade, servirá para conter o inconformismo social diante do esgarçamento provocado pela da gestão neoliberal do capitalismo. Mais do que isso, o regime de acumulação que alguns denominam de pós-fordista dependerá cada vez mais da supressão da democracia22. A captura do orçamento pelo capital financeiro envolve a formulação de um discurso que transforma decisões políticas, em especial as que envolvem finanças públicas e macroeconomia, em decisões “técnicas”, de “especialistas”, infensas à participação popular.

O esfacelamento da sociabilidade regida pelo trabalho abstrato e pela “valorização do valor” resulta em terríveis tragédias sociais, haja vista que o movimento da economia e da política não é mais de integração ao mercado (há que se lembrar que na lógica liberal o “mercado” é a sociedade civil). Como não serão integrados ao mercado, seja como consumidores ou como trabalhadores, jovens negros, pobres, moradores de periferia e minorias sexuais serão vitimados por fome, epidemias ou pela eliminação física promovida direta ou indiretamente (e.g. corte nos direitos sociais) pelo Estado. Enfim, no contexto da crise, o racismo é um elemento de racionalidade, de “normalidade” e que se apresenta como modo de integração possível de uma sociedade em que os conflitos tornam-se cada vez mais agudos.

A superação do racismo passa pela reflexão sobre formas de sociabilidade que não se alimentem de uma lógica de conflitos, contradições e antagonismos sociais que não podem ser resolvidos, no máximo mantidos sob controle. Todavia, a busca por uma nova economia e por formas alternativas de organização é tarefa impossível sem que o racismo e outras formas de discriminação sejam compreendidas como parte essencial dos processos de exploração e de opressão de uma sociedade que se quer transformar.

* * *

Silvio Luiz de Almeida é natural de São Paulo, capital. Jurista e filósofo, doutor em filosofia e teoria geral do direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco).

NOTAS
1 BOYER, Robert. Teoria da regulação: os fundamentos. São Paulo: Estação Liberdade, 2009, p. 48.
2 BOYER, Robert. Teoria da regulação: os fundamentos. São Paulo: Estação Liberdade, 2009, p. 51. No mesmo sentido ver BRUNHOFF, Simone de. Estado e capital: uma análise da política econômica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1985, p. 17.
3 É interessante notar que os discursos racistas assumem diferentes modulações a depender do contexto social, cultural e econômico. Como nota Van Dijk, uma das características centrais do racismo contemporâneo é a sua negação, “ilustrada de modo típico nas conhecidas ressalvas do tipo ‘não tenho nada contra negros, mas…”. VAN DIJK, Teun A. Discurso e poder. São Paulo: Contexto, 2015, p. 155.
4 HIRSCH, Joachim. Teoria materialista do Estado. Rio de Janeiro: Revan, 2010, p. 37
5 Idem, Ibidem, p. 37-38
6 Idem, Ibidem, p. 37
7 Idem, Ibidem, p. 39-40
8 Idem, Ibidem, p. 40.
9 Idem, Ibidem, p. 40
10 Idem, Ibidem, p. 86
11 “colocar a forma de socialização capitalista como ponto de partida de uma análise do Estado não quer dizer que tais antagonismos não sejam essenciais, ou que apresentem “contradições secundárias” subordinadas. Ao contrário, a relação com a natureza, de gênero, a opressão sexual e a racista estão inseparavelmente unidas com a relação de capital, e não poderiam existir sem ela. No entanto, o decisivo é que o modo de socialização capitalista, enquanto relação de reprodução material, é determinante na medida em que impregna as estruturas e as instituições sociais – as formas sociais determinadas por ele – nas quais todos essas antagonismos sociais ganham expressão e ligam-se uns aos outros. HIRSCH, Joachim. Teoria materialista do Estado. Rio de Janeiro: Revan, 2010, p. 134
12 ALMEIDA, Silvio Luiz de. “Estado, direito e análise materialista do racismo”. In: Celso Naoto Kashiura Junior; Oswaldo Akamine Junior, Tarso de Melo. (Org.). Para a crítica do direito: reflexões sobre teorias e práticas jurídicas. São Paulo: Outras Expressões; Dobra universitário, 2015, p. 747-767.
13 A sociedade capitalista é, em razão de seus antagonismos e conflitos estruturais, fundamentalmente portadora de crise, e por isso, só pode ser estável em suas respectivas estruturais sociais, políticas e institucionais por períodos limitados. Seu desenvolvimento não transcorre nem linear, nem continuamente; as fases de relativa estabilidade são sempre interrompidas por grandes crises. …” Idem, Ibidem, p. 131.
14 HIRSCH, Joachim. Teoria materialista do Estado. Rio de Janeiro: Revan, 2010, p. 134.
15 Idem, Ibidem, p. 134.
16 COGGIOLA, Osvaldo. As grandes depressões (1873-1896 e 1929-1939): fundamentos econômicos, consequencias geopolíticas e lições para o presente. São Paulo: Alameda, 2009, p. 104.
17 A população da ‘Africa negra’ era, no século XIX, de três a quatro vezes menor do que no século XVI. A conquista colonial capitalista (com uso de artilharia contra, no máximo, fuzis coloniais), o trabalho forçado multiforme e generalizado, a repressão das numerosas revoltas por meio do ferro e do fogo, a subalimentação, as diversas doenças locais, as doenças importadas e a continuação do tráfico negreiro oriental, reduziram ainda mais a população que baixou para quase um terço. Idem, Ibidem, p. 118.
18 Idem, Ibidem, p. 120.
19 MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. Lisboa: Antígona, 2014, p. 105.
20 HARVEY, David. Condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 2011, p. 132.
21 MARCUSE, Herbert. A ideologia da sociedade industrial: o homem unidimensional. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.
22 DARDOT, Pierre; LAVAL, Cristian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.

REFERÊNCIAS
AGLIETTA, Michel. A theory of capitalist regulation: the US experience. London: Verso, 2000. _______. Régulation et crises du capitalism. Paris: Odile Jacob, 1997.
ALMEIDA, Silvio Luiz de. “Estado, direito e análise materialista do racismo”. In: Celso Naoto Kashiura Junior; Oswaldo Akamine Junior, Tarso de Melo. (Org.). Para a crítica do direito: reflexões sobre teorias e práticas jurídicas. São Paulo: Outras Expressões; Dobra universitário, 2015, p. 747-767.
BALIBAR, Etienne; WALLERSTEIN, Immanuel. Race, Class and Nation: ambiguous identity. Londres, Reino Unido: Verso, 2010.
BOYER, Robert. La flexibilité du travail en Europe. Paris: La découverte, 1986.
BRAVERMAN, Harry. Trabalho e capital monopolista: a degradação do trabalho no século XX. Rio de Janeiro, LTC, 1987.
BRUNHOFF, Simone de. Estado e capital: uma análise da política econômica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1985
CALDAS, Camilo Onoda. A teoria da derivação do Estado e do Direito. São Paulo: Dobra; Outras Expressões, 2015.
COGGIOLA, Osvaldo. As grandes depressões (1873-1896 e 1929-1939): fundamentos econômicos, consequencias geopolíticas e lições para o presente. São Paulo: Alameda, 2009, p. 104
DARDOT, Pierre; LAVAL, Cristian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.
HARVEY, David. Condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 2011.
HIRSCH, Joachim. Teoria Materialista do Estado. Rio de Janeiro: Revan, 2010.
HOLLOWAY, John. Keynesianismo, uma peligrosa ilusión. Buenos Aires, Argentina: Herramienta, 2003.
JESSOP, Bob; SUM, Ngai-Ling. Beyond the regulation approach. Cheltenham, UK; Northhampton, MA, EUA: Edward Elgar, 2006.
MARCUSE, Herbert. A ideologia da sociedade industrial: o homem unidimensional. Rio de Janeiro: Zahar, 1982
MASCARO, Alysson Leandro. Estado e forma política. São Paulo: Boitempo, 2013.
MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. Lisboa: Antígona, 2014.
TIZESCU, Alessandra Devulsky da Silva. Aglietta e a teoria da regulação: direito e capitalismo. Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo: tese de doutorado, 2014. VAN DIJK, Teun A. Discurso e poder. São Paulo: Contexto, 2015

Fonte: https://blogdaboitempo.com.br/2020/06/23/capitalismo-e-crise-o-que-o-racismo-tem-a-ver-com-isso/

Erro de digitação: Fôia - por Jota Camelo

Fonte: https://twitter.com/ojotacamelo

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Delbert Africa, Revolucionário! – por Mumia Abu-Jamal (A.N.A.)

Delbert Africa, Revolucionário!
Nasceu com o nome de Delbert Orr, mas é conhecido no mundo como Delbert Africa, um proeminente integrante da Organização MOVE.

Nos anos 70 na Filadélfia ele era, talvez, seu integrante mais conhecido e citado com mais frequência. Com mais anos que a maioria, era adepto de usar os meios de comunicação para difundir informação e promover os propósitos do MOVE.

Seu sotaque campestre dos arredores de Chicago e seu engenhoso jogo de palavras fizeram seus comentários interessantes e lhes deu valor jornalístico.

Lamento informar-lhes que Delbert Africa, que ganhou sua liberdade em janeiro de 2020 depois de 41 anos encarcerado, perdeu sua vida faz uns dias pelos estragos do câncer.

Mas esta não é toda a história. No final do ano passado, Delbert foi levado com urgência a um hospital próximo devido a um transtorno não divulgado.

Ao sair da prisão, Delbert consultou com alguns médicos que estavam horrorizados ao saber das drogas que lhe deram enquanto estava na prisão Dallas no estado da Pensilvânia. Um médico disse: “Os medicamentos que usavam nessa prisão eram veneno”.

Ainda assim, Delbert terminou sua estada na prisão forte em espírito. Amava a Organização MOVE e odiava o sistema podre.

Delbert criticou as pessoas negras que apoiavam o sistema e se opunham à revolução. Costumava chamá-los “niggapeans”, uma palavra que eu nunca escutei da boca de alguém mais.

Mais de uma década antes do golpe policial desferido em Rodney King e gravado em vídeo em Los Angeles, Delbert foi golpeado por quatro policiais da Filadélfia em 8 de agosto de 1978, e o golpe foi gravado por uma emissora local.

O vídeo mostra que Delbert saiu sem armas de uma janela do porão de sua casa depois de um enfrentamento com a polícia. Com seu torso desnudo, havia levantado os braços em um gesto de aceitar a detenção.

Imediatamente quatro policiais o rodearam e o golpearam selvagemente, batendo com o cabo de seus rifles, esmagando sua cabeça com um capacete de motocicleta, e chutando-o até que perdeu a consciência.

Sim, é o que fizeram.

Delbert sofreu uma fratura de mandíbula e um olho inchado do tamanho de um ovo de Páscoa.

Houve um julgamento branqueado de três dos policiais, no qual o juiz pôs o caso abaixo ao destituir o jurado composto de pessoas de áreas rurais da Pensilvânia, para logo declarar uma absolvição dos policiais apesar da evidência gravada em vídeo da brutalidade do Estado.

E essa brutalidade não se limitou às ruas do Oeste da Filadélfia, tampouco ao injusto julgamento e condenação de Delbert e outros integrantes do MOVE.

Continuou durante 41 anos em uma clausura esgota almas e de uma atenção médica vergonhosa. Delbert aguentou tudo e saiu livre com sua alma de revolucionário negro intacta.

Como um integrante do MOVE até o final, seguiu sendo seguidor dos ensinamentos de John Africa, e viveu abraçado pelo amor de sua família MOVE e de sua filha Yvonne Orr-El.

No fim das contas, o amor é o mais próximo que chegamos da liberdade.

Delbert Africa, depois de 72 verões, voltou para seus antepassados.

Desde a nação encarcerada, sou Mumia Abu-Jamal.

Tradução > Sol de Abril

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/02/05/eua-delbert-africa-livre/

agência de notícias anarquistas-ana

Partida, hora amarga
Enche-se alma de saudades
E os olhos de lágrimas…

Ulisses Cuiabano

Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/06/25/eua-delbert-africa-revolucionario/

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Noam Chomsky classifica Donald Trump como ''o pior criminoso da história''

Noam Chomsky classifica Donald Trump como ''o pior criminoso da história'' 
O filósofo estadunidense reforçou suas críticas ao presidente: ''por mais forte que seja dizer isso, o fato é que é verdade: ele é o pior criminoso da história, sem dúvida. Nunca houve uma figura na história política que se dedique tão apaixonadamente a destruir projetos para a vida humana organizada na Terra no futuro próximo'' 

Em entrevista para a revista trimestral Jacobin, o renomado linguista e filósofo estadunidense Noam Chomsky atualizou suas definições a respeito da importância histórica do atual presidente dos Estados Unidos, o magnata Donaldo Trump.

“Por mais forte que seja dizer isso, o fato é que é verdade: ele é o pior criminoso da história, sem dúvida. Nunca houve uma figura na história política que se dedique tão apaixonadamente a destruir projetos para a vida humana organizada na Terra no futuro próximo”, afirmou o intelectual.

Em outra passagem da entrevista, Chomsky chamou Trump de “ditador de estanho”, e completou dizendo que “não é um exagero”.

Na lista de criminosos notórios, Chomsky disse que colocaria Trump à frente de figuras icônicas nos Estados Unidos, como o estelionatário Bernie Madoff, o controverso Lee Harvey Oswald, envolvido no assassinato de John F. Kennedy, o gangster Al Capone, o empresário pedófilo Jeffrey Epstein, o terrorista Ted “Unabomber” Kaczynski, pistoleiro Jesse James, entre outras figuras.

O cientista político tem endurecido suas críticas a Trump há alguns meses. Em uma entrevista ao jornal britânico The Guardian, em maio deste ano, ele já havia apontado o presidente dos Estados Unidos como “responsável pela morte de milhares de pessoas nesta pandemia”, com os cortes no financiamento da saúde pública, que levaram ao colapso dos hospitais no país, tornando-o líder mundial em número de óbitos até o momento, com quase o dobro do segundo lugar – o Brasil do seu aliado Jair Bolsonaro, também de extrema direita.

“A política de Trump (na pandemia) é uma ótima estratégia para matar muitas pessoas e melhorar suas chances eleitorais”, analisou Chomsky, que também é crítico da medida de Trump de atacar a China e a OMS (Organização Mundial da Saúde), para desviar a atenção da sua responsabilidade na atual crise.

Em sua última entrevista, Chomsky analisou que o mundo se recuperará da pandemia a um custo terrível. “O custo é bastante ampliado pelo gangster da Casa Branca, que matou dezenas de milhares de americanos, tornando os Estados Unidos o pior lugar do mundo para as pessoas, e o melhor para o coronavírus”, disse ele.

Chomsky também alertou que o mundo sairá da pandemia, mas não “do outro crime que Trump fortaleceu, que é o aquecimento global. O pior ainda está por vir, e temo que, deste segundo, não poderemos escapar”.

O professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts também se dirigiu ao Partido Republicano, dizendo que “desapareceram como partido, o que vemos em seu silêncio diante de algumas das ações de Trump, como a demissão dos inspetores gerais para monitorar a corrupção”.

*Publicado originalmente em 'Página/12' | Tradução de Victor Farinelli

Fonte: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Pelo-Mundo/Noam-Chomsky-classifica-Donald-Trump-como-o-pior-criminoso-da-historia-/6/47939

Por @LatuffCartoons

Fonte: https://twitter.com/LatuffCartoons

MDC | John Wayne Was a Nazi (Do$age antifa breakcore ReMix) – por A.N.A.

MDC | John Wayne Was a Nazi (Do$age antifa breakcore ReMix)
MDC é uma banda de punk rock americana formada em 1979 na cidade de Austin, Texas, sempre alinhando sua sonoridade e letras com visões políticas radicais à esquerda.

Após entrar num hiato em 1995, o fundador/vocalista Dave Dictor retornou em 2000 com uma banda rotativa.

A eH se orgulha de colaborar com o MDC, lançando techno remixes atualizados de alguns de seus materiais clássicos.

Novidades da MDC: www.mdcpunkofficial.com

Declaração de Do$age sobre o porquê ela remixou esse clássico: a situação política atual.

“A pouco tempo um amigo veio me procurar em nome da banda MDC (Millions of Dead Cops) para que eu fizesse um remix da faixa John Wayne Was a Nazi (John Wayne era um nazista). Como um amante de longa data de hardcore punk, e anarquista, eu topei. Eu não fazia ideia de quão politicamente relevante viria a ser. Esperei para fazer uma declaração quando a track estivesse pronta, então poderia anunciar que qualquer lucro que ela gerar será revertido para apoiar o movimento Black Lives Matter, e outros do gênero. Continuem lutando, continuem protestante, continuem pressionando por mudanças. O mundo está assistindo agora, tenha cuidado, fiquem atentos. Estou tão orgulhosa de como comunidade de todo os Estados Unidos se uniram para lutar contra as sistemáticas injustiças cometidas pela polícia, e também estou tão feliz em contribuir de qualquer modo ao meu alcance” – Do$age 2o2o

Todos os lucros irão para o Black Lives Matter.

>> Escute o remix da faixa John Wayne Was a Nazi aqui:

https://mdcaustin.bandcamp.com/album/john-wayne-was-a-nazi-do-age-antifa-breakcore-remix

emergencyhearts.com

Tradução > AnarcoSSA

agência de notícias anarquistas-ana

um tufo de algodão
flutuando na água
uma nuvem

Rogério Martins

Fonte: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/06/23/eua-mdc-john-wayne-was-a-nazi-doage-antifa-breakcore-remix/

terça-feira, 23 de junho de 2020