Onde está à esquerda? Por José Saramago
No dia 1° de outubro, o escritor português provocou: "Imaginei, quando há um ano rebentou a burla cancerosa das hipotecas nos Estados Unidos, que a esquerda, onde quer que estivesse, se ainda era viva, iria abrir enfim a boca para dizer o que pensava do caso. Passou-se o que se passou depois, até hoje, e a esquerda, covardemente, continua a não pensar, a não agir, a não arriscar um passo". Segue aguardando resposta.
José Saramago
Texto publicado pelo escritor português em seu site, O Caderno de Saramago, no dia 1° de outubro de 2008.
"Ausento-me deste espaço por vinte e quatro horas, não por necessidade de descanso ou falta de assunto, somente para que a última crónica se mantenha um dia mais no lugar em que está. Não tenho a certeza de que o mereça pela forma como disse o que pretendia, mas para lhe dar um pouco mais de tempo enquanto espero que alguém me informe onde está a esquerda…
Vai para três ou quatro anos, numa entrevista a um jornal sul-americano, creio que argentino, saiu-me na sucessão das perguntas e respostas uma declaração que depois imaginei iria causar agitação, debate, escândalo (a este ponto chegava a minha ingenuidade), começando pelas hostes locais da esquerda e logo, quem sabe, como uma onda que em círculos se expandisse, nos meios internacionais, fossem eles políticos, sindicais ou culturais que da dita esquerda são tributários. Em toda a sua crueza, não recuando perante a própria obscenidade, a frase, pontualmente reproduzida pelo jornal, foi a seguinte: “A esquerda não tem nem uma puta ideia do mundo em que vive”.
À minha intenção, deliberadamente provocadora, a esquerda, assim interpelada, respondeu com o mais gélido dos silêncios. Nenhum partido comunista, por exemplo, a principiar por aquele de que sou membro, saiu à estacada para rebater ou simplesmente argumentar sobre a propriedade ou a falta de propriedade das palavras que proferi. Por maioria de razão, também nenhum dos partidos socialistas que se encontram no governo dos seus respectivos países, penso, sobretudo, nos de Portugal e Espanha, considerou necessário exigir uma aclaração ao atrevido escritor que tinha ousado lançar uma pedra ao putrefacto charco da indiferença.
Nada de nada, silêncio total, como se nos túmulos ideológicos onde se refugiaram nada mais houvesse que pó e aranhas, quando muito um osso arcaico que já nem para relíquia servia. Durante alguns dias senti-me excluído da sociedade humana como se fosse um pestífero, vítima de uma espécie de cirrose mental que já não dissesse coisa com coisa. Cheguei até a pensar que a frase compassiva que andaria circulando entre os que assim calavam seria mais ou menos esta: “Coitado, que se poderia esperar com aquela idade?” Estava claro que não me achavam opinante à altura.
O tempo foi passando, passando, a situação do mundo complicando-se cada vez mais, e a esquerda, impávida, continuava a desempenhar os papéis que, no poder ou na oposição, lhes haviam sido distribuídos. Eu, que entretanto tinha feito outra descoberta, a de que Marx nunca havia tido tanta razão como hoje, imaginei, quando há um ano rebentou a burla cancerosa das hipotecas nos Estados Unidos, que a esquerda, onde quer que estivesse, se ainda era viva, iria abrir enfim a boca para dizer o que pensava do caso.
Já tenho a explicação: a esquerda não pensa, não age, não arrisca um passo. Passou-se o que se passou depois, até hoje, e a esquerda, cobardemente, continua a não pensar, a não agir, a não arriscar um passo. Por isso não se estranhe a insolente pergunta do título: “Onde está a esquerda?” Não dou alvíssaras, já paguei demasiado caras as minhas ilusões.
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
O fim de uma era do capitalismo financeiro – Por Ignácio Ramonet
O fim de uma era do capitalismo financeiro – Por Ignácio Ramonet
A arquitetura financeira internacional cambaleou. E o risco sistêmico permanece. Nada voltará a ser como antes. E essa crise ocorre num momento de vazio teórico das esquerdas, que não têm um “plano B” para tirar proveito do descalabro. Em particular as da Europa, asfixiadas pelo choque da crise, quando seria tempo de refundação e de audácia.
Ignacio Ramonet
Os terremotos que sacudiram as bolsas no “setembro negro” que passou precipitaram o fim de uma era do capitalismo. A arquitetura financeira internacional cambaleou. E o risco sistêmico permanece. Nada voltará a ser como antes. O Estado retorna.
O desmoronamento de Wall Street é comparável, no âmbito financeiro, ao que representou, no geopolítico, a queda do muro de Berlim. Uma mudança de mundo e um giro copernicano. Quem o afirma é o Nobel de Economia, Paul Samuelson: “Esta débâcle é para o capitalismo o que a queda da URSS foi para o comunismo”. Termina o período aberto em 1981 com a fórmula de Ronald Reagan: “O estado não é a solução, é o problema.” Durante trinta anos, os fundamentalistas do mecado repitiram que este tinha razão, que a globalização era sinônimo de felicidade, e que o capitalismo financeiro edificava o paraíso terreno para todos.
Equivocaram-se. A “idade de ouro” de Wall Street acabou. E também acabou um período de exuberância e esbanjamento representada por uma aristocracia de banqueiros de investimento, “amos do universo” denunciados por Tom Wolfe em “A Fogueira das Vaidades” (1987). Possuídos pela lógica da rentabilidade de curto prazo. Pela busca dos lucros exorbitantes.
Dispostos a tudo para obter mais lucros: vendas abusivas no curto prazo, manipulações, invenção de instrumentos opacos, titulação de ativos, contratos de cobertura de riscos, fundos Hedge. A febre do proveito fácil contagiou a todo o planeta. Os mercados se sobreaqueceram, alimentados pelo excesso de de financeirização que facilitou a alta dos preços.A globalização conduziu a economia mundial a tomar a forma de uma economia de papel, virtual, imaterial. A esfera financeira chegou a representar mais de 250 trilhões de euros, ou seja, seis vezes o montante de riqueza real mundial. E, de chofre, essa gigantesca “bolha” explodiu. O desastre é de proporções apocalípticas. Mais de 200 bilhões de euros derreteram. A banca de investimento foi varrida do mapa. As cinco maiores entidades desmoronaram: Lehman Brothers na bancarrota; Bear Stears foi comprado com a ajuda do Federal Reserve, por Morgan Chase; Merril Lynch foi adquirido pelo Bank of America; e dois dos últimos, Goldman Sachs e Morgan Stanley (em parte comprado pelo japonês Mitsubishi UFJ), reconvertidos em bancos comerciais.
Toda a cadeia de funcionamento do aparato financeiro colapsou. Não só a banca de investimento, mas os bancos centrais, os sistemas de regulação, os bancos comerciais, as caixas econômicas, as companhias de seguros, as agências de qualificação de risco (Standard&Poors, Moody's, Fitch) e até as auditorias contábeis (Deloitte, Ernst&Young, PwC).
O naufrágio não pode surpreender a ninguém. O escândalo das “hipotecas lixo” era conhecido de todos. Assim como o excesso de liquidez orientado para a especulação, e a explosão delirante dos preços do custo de vida. Tudos isso foi denunciado – nestas colunas – há tempo. Sem que ninguém se mexesse. Porque o crime beneficiava a muitos. E se seguiu afirmando que a empresa privada e o mercado solucionavam tudo.
A administração do presidente George W. Bush teve de renegar esse princípio e recorrer, maciçamente, à intervenção do Estado. As principais entidades de crédito imobiliário, Fannie Mae y Freddy Mac, foram nacionalizadas. Também o foi o American International Group (AIG), a maior companhia de seguros do mundo. E o secretário do tesouro, Henry Paulson (ex-presidente do banco Goldman Sachs) propôs um plano de resgate de ações “tóxicas” procedentes das “hipotecas lixo” (subprime) por um valor de uns 500 bilhões de euros, que o Estado também adiantará, quer dizer, os contribuintes.
Prova do fracasso do sistema, essas intervenções do Estado – as maiores, em volume, da história econômica – demonstram que os mercados não são capazes de se regularem por si mesmos. Se autodestruíram por sua própria voracidade. Ademais, confirma-se uma lei do cinismo neoliberal: privatizaram os lucros mas se socializaram as perdas. Os pobres têm de arcar com as excentricidades irracionais dos banqueiros, e se lhes ameaça, em caso de não quererem pagar, com o seu maior empobrecimento.
As autoridades norte-americanas dedicam-se ao resgate dos “banksters” (“banqueiro gângster”), às expensas dos cidadãos. Há algums meses o presidente Bush se negou a assinar uma lei que oferecia uma cobertura médica a nove milhões de crianças pobres por um custo de 4 bilhões de euros. Considerou um gasto inútil. Agora, para salvar aos rufiões de Wall Street, nada lhe parece suficiente. Socialismo para os ricos e capitalismo selvagem para os pobres. Este desastre ocorre num momento de vazio teórico das esquerdas, que não têm um “plano B” para tirar proveito do descalabro. Em particular as da Europa, asfixiadas pelo choque da crise, quando seria tempo de refundação e de audácia.
Quanto durará a crise? “Vinte anos se tivermos sorte, ou menos de dez se as autoridades agirem com mão firme”, vaticina o editorialista neoliberal Martin Wolf (1). Se houvesse alguma lógica política, este contexto deveria favorecer a eleição do democrata Barack Obama (em não sendo assassinado) para a presidência dos Estados Unidos no 4 de novembro próximo. É provável que, como D. Roosevelt, em 1930, o jovem presidente lance um novo “New Deal”, baseado no neokeynesianismo que confirmará o retorno do Estado à esfera econômica. E que trará, por fim, mais justiça social aos cidadãos. Vai se caminhar para um novo Bretton Woods. A etapa mais selvagem e irracional da globalização terá terminado. (1) Financial Times, Londres, 23 de setembro de 2008
Tradução: Katarina Peixoto
Ignacio Ramonet é jornalista.
Fonte: Carta Maior
A arquitetura financeira internacional cambaleou. E o risco sistêmico permanece. Nada voltará a ser como antes. E essa crise ocorre num momento de vazio teórico das esquerdas, que não têm um “plano B” para tirar proveito do descalabro. Em particular as da Europa, asfixiadas pelo choque da crise, quando seria tempo de refundação e de audácia.
Ignacio Ramonet
Os terremotos que sacudiram as bolsas no “setembro negro” que passou precipitaram o fim de uma era do capitalismo. A arquitetura financeira internacional cambaleou. E o risco sistêmico permanece. Nada voltará a ser como antes. O Estado retorna.
O desmoronamento de Wall Street é comparável, no âmbito financeiro, ao que representou, no geopolítico, a queda do muro de Berlim. Uma mudança de mundo e um giro copernicano. Quem o afirma é o Nobel de Economia, Paul Samuelson: “Esta débâcle é para o capitalismo o que a queda da URSS foi para o comunismo”. Termina o período aberto em 1981 com a fórmula de Ronald Reagan: “O estado não é a solução, é o problema.” Durante trinta anos, os fundamentalistas do mecado repitiram que este tinha razão, que a globalização era sinônimo de felicidade, e que o capitalismo financeiro edificava o paraíso terreno para todos.
Equivocaram-se. A “idade de ouro” de Wall Street acabou. E também acabou um período de exuberância e esbanjamento representada por uma aristocracia de banqueiros de investimento, “amos do universo” denunciados por Tom Wolfe em “A Fogueira das Vaidades” (1987). Possuídos pela lógica da rentabilidade de curto prazo. Pela busca dos lucros exorbitantes.
Dispostos a tudo para obter mais lucros: vendas abusivas no curto prazo, manipulações, invenção de instrumentos opacos, titulação de ativos, contratos de cobertura de riscos, fundos Hedge. A febre do proveito fácil contagiou a todo o planeta. Os mercados se sobreaqueceram, alimentados pelo excesso de de financeirização que facilitou a alta dos preços.A globalização conduziu a economia mundial a tomar a forma de uma economia de papel, virtual, imaterial. A esfera financeira chegou a representar mais de 250 trilhões de euros, ou seja, seis vezes o montante de riqueza real mundial. E, de chofre, essa gigantesca “bolha” explodiu. O desastre é de proporções apocalípticas. Mais de 200 bilhões de euros derreteram. A banca de investimento foi varrida do mapa. As cinco maiores entidades desmoronaram: Lehman Brothers na bancarrota; Bear Stears foi comprado com a ajuda do Federal Reserve, por Morgan Chase; Merril Lynch foi adquirido pelo Bank of America; e dois dos últimos, Goldman Sachs e Morgan Stanley (em parte comprado pelo japonês Mitsubishi UFJ), reconvertidos em bancos comerciais.
Toda a cadeia de funcionamento do aparato financeiro colapsou. Não só a banca de investimento, mas os bancos centrais, os sistemas de regulação, os bancos comerciais, as caixas econômicas, as companhias de seguros, as agências de qualificação de risco (Standard&Poors, Moody's, Fitch) e até as auditorias contábeis (Deloitte, Ernst&Young, PwC).
O naufrágio não pode surpreender a ninguém. O escândalo das “hipotecas lixo” era conhecido de todos. Assim como o excesso de liquidez orientado para a especulação, e a explosão delirante dos preços do custo de vida. Tudos isso foi denunciado – nestas colunas – há tempo. Sem que ninguém se mexesse. Porque o crime beneficiava a muitos. E se seguiu afirmando que a empresa privada e o mercado solucionavam tudo.
A administração do presidente George W. Bush teve de renegar esse princípio e recorrer, maciçamente, à intervenção do Estado. As principais entidades de crédito imobiliário, Fannie Mae y Freddy Mac, foram nacionalizadas. Também o foi o American International Group (AIG), a maior companhia de seguros do mundo. E o secretário do tesouro, Henry Paulson (ex-presidente do banco Goldman Sachs) propôs um plano de resgate de ações “tóxicas” procedentes das “hipotecas lixo” (subprime) por um valor de uns 500 bilhões de euros, que o Estado também adiantará, quer dizer, os contribuintes.
Prova do fracasso do sistema, essas intervenções do Estado – as maiores, em volume, da história econômica – demonstram que os mercados não são capazes de se regularem por si mesmos. Se autodestruíram por sua própria voracidade. Ademais, confirma-se uma lei do cinismo neoliberal: privatizaram os lucros mas se socializaram as perdas. Os pobres têm de arcar com as excentricidades irracionais dos banqueiros, e se lhes ameaça, em caso de não quererem pagar, com o seu maior empobrecimento.
As autoridades norte-americanas dedicam-se ao resgate dos “banksters” (“banqueiro gângster”), às expensas dos cidadãos. Há algums meses o presidente Bush se negou a assinar uma lei que oferecia uma cobertura médica a nove milhões de crianças pobres por um custo de 4 bilhões de euros. Considerou um gasto inútil. Agora, para salvar aos rufiões de Wall Street, nada lhe parece suficiente. Socialismo para os ricos e capitalismo selvagem para os pobres. Este desastre ocorre num momento de vazio teórico das esquerdas, que não têm um “plano B” para tirar proveito do descalabro. Em particular as da Europa, asfixiadas pelo choque da crise, quando seria tempo de refundação e de audácia.
Quanto durará a crise? “Vinte anos se tivermos sorte, ou menos de dez se as autoridades agirem com mão firme”, vaticina o editorialista neoliberal Martin Wolf (1). Se houvesse alguma lógica política, este contexto deveria favorecer a eleição do democrata Barack Obama (em não sendo assassinado) para a presidência dos Estados Unidos no 4 de novembro próximo. É provável que, como D. Roosevelt, em 1930, o jovem presidente lance um novo “New Deal”, baseado no neokeynesianismo que confirmará o retorno do Estado à esfera econômica. E que trará, por fim, mais justiça social aos cidadãos. Vai se caminhar para um novo Bretton Woods. A etapa mais selvagem e irracional da globalização terá terminado. (1) Financial Times, Londres, 23 de setembro de 2008
Tradução: Katarina Peixoto
Ignacio Ramonet é jornalista.
Fonte: Carta Maior
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Suprema Corte americana rejeita recurso de Mumia Abu-Jamal
Suprema Corte americana rejeita recurso de Mumia Abu-Jamal
A Suprema Corte dos Estados Unidos recusou-se nesta segunda-feira, 06 de outubro, a examinar o recurso apresentado por Mumia Abu-Jamal, pela realização de um novo julgamento.
O advogado desse ex-jornalista de rádio e militante dos "black panthers", hoje com 54 anos e que clama sua inocência no caso da morte em 1981 do policial Daniel Faulkner, já anunciou que impetraria um segundo recurso na Suprema Corte, por racismo.
"Não descansarei enquanto Mumia não for colocado em liberdade. Mantê-lo na prisão e no corredor da morte é uma paródia da justiça e uma afronta às normas civilizadas", reiterou em setembro Robert Bryan.
Seu recurso impetrado em julho na mais alta jurisdição do país pede aos nove juízes que um novo processo seja autorizado "quando existem provas de que a Polícia convenceu uma testemunha de identificar a pessoa errada como autor do assassinato de um policial".
No final de março, por 2 votos a 1, a Corte de Apelação Federal da Filadélfia anulou a sua condenação à morte, mas reafirmou sua culpabilidade.
A condenação à morte será comutada automaticamente por prisão perpétua, a menos que a acusação se apresente novamente diante de um júri para tentar obter a pena de morte.
Mumia Abu-Jamal contestava principalmente o fato de dez dos 15 jurados potenciais terem sido recusados pela acusação serem negros. O Código Penal proíbe que um jurado potencial seja recusado em razão da cor da sua pele. O júri final teve dez brancos e dois negros.
Para a Corte de Apelação, a defesa não tinha apresentado elementos suficientes que levassem a crer que as recusas deveram-se à raça dos jurados potenciais.
Mumia Abu-Jamal é jornalista há anos dedicado à luta pelos direitos civis. Na prisão escreveu o livro Live from Death Row (Ao vivo do corredor da morte), cujo texto, traduzido para várias línguas e em vários países, se transformou num libelo anti-racista. Em texto de 1995, Jamal reafirmou sua combatividade: "Continuo escrevendo. Continuo lutando. Continuo combatendo o sistema com a verdade. Continuo me rebelando contra o sistema que quis me matar há 13 anos e que ainda quer fazê-lo hoje." Quando estudante secundarista, Jamal foi assessor de imprensa do Partido Panteras Negras. Trabalhou em rádio, dirigiu seu próprio programa na WUHY-FM, na Filadélfia, e aos 26 anos foi eleito presidente da Associação dos Jornalistas Negros da Filadélfia. É militante do Move, uma organização de negros radicais utópicos da Filadélfia que rechaça os valores da sociedade capitalista, desafia abertamente o poder oficial e promulga que o sistema é totalmente corrupto e destrói a vida no planeta. O Move vem sendo perseguido pela polícia norte-americana de forma brutal desde 1977.
Mais infos: www.mumia.org ou www.freemumia.org
Fonte: France Press
A Suprema Corte dos Estados Unidos recusou-se nesta segunda-feira, 06 de outubro, a examinar o recurso apresentado por Mumia Abu-Jamal, pela realização de um novo julgamento.
O advogado desse ex-jornalista de rádio e militante dos "black panthers", hoje com 54 anos e que clama sua inocência no caso da morte em 1981 do policial Daniel Faulkner, já anunciou que impetraria um segundo recurso na Suprema Corte, por racismo.
"Não descansarei enquanto Mumia não for colocado em liberdade. Mantê-lo na prisão e no corredor da morte é uma paródia da justiça e uma afronta às normas civilizadas", reiterou em setembro Robert Bryan.
Seu recurso impetrado em julho na mais alta jurisdição do país pede aos nove juízes que um novo processo seja autorizado "quando existem provas de que a Polícia convenceu uma testemunha de identificar a pessoa errada como autor do assassinato de um policial".
No final de março, por 2 votos a 1, a Corte de Apelação Federal da Filadélfia anulou a sua condenação à morte, mas reafirmou sua culpabilidade.
A condenação à morte será comutada automaticamente por prisão perpétua, a menos que a acusação se apresente novamente diante de um júri para tentar obter a pena de morte.
Mumia Abu-Jamal contestava principalmente o fato de dez dos 15 jurados potenciais terem sido recusados pela acusação serem negros. O Código Penal proíbe que um jurado potencial seja recusado em razão da cor da sua pele. O júri final teve dez brancos e dois negros.
Para a Corte de Apelação, a defesa não tinha apresentado elementos suficientes que levassem a crer que as recusas deveram-se à raça dos jurados potenciais.
Mumia Abu-Jamal é jornalista há anos dedicado à luta pelos direitos civis. Na prisão escreveu o livro Live from Death Row (Ao vivo do corredor da morte), cujo texto, traduzido para várias línguas e em vários países, se transformou num libelo anti-racista. Em texto de 1995, Jamal reafirmou sua combatividade: "Continuo escrevendo. Continuo lutando. Continuo combatendo o sistema com a verdade. Continuo me rebelando contra o sistema que quis me matar há 13 anos e que ainda quer fazê-lo hoje." Quando estudante secundarista, Jamal foi assessor de imprensa do Partido Panteras Negras. Trabalhou em rádio, dirigiu seu próprio programa na WUHY-FM, na Filadélfia, e aos 26 anos foi eleito presidente da Associação dos Jornalistas Negros da Filadélfia. É militante do Move, uma organização de negros radicais utópicos da Filadélfia que rechaça os valores da sociedade capitalista, desafia abertamente o poder oficial e promulga que o sistema é totalmente corrupto e destrói a vida no planeta. O Move vem sendo perseguido pela polícia norte-americana de forma brutal desde 1977.
Mais infos: www.mumia.org ou www.freemumia.org
Fonte: France Press
A FARRA FINANCEIRA CONSENSUADA PELAS ELITES
A FARRA FINANCEIRA CONSENSUADA PELAS ELITES
Enquanto a mídia corporativa brasileira fala em crise, há décadas ativistas e intelectuais denunciam o caráter explorador do sistema financeiro. De um lado, especuladores e banqueiros alimentam-se da desordem mundial da globalização financeira. Do outro, trabalhadores em todo o planeta arcam com custos da “economia de cassino” dos EUA...
Por Gustavo Barreto, da redação
Como resultado de um intenso bombardeio midiático, me peguei diversas vezes classificando os recentes acontecimentos no sistema financeiro global como uma “crise”. Trata-se, no entanto – de forma muito evidente, inclusive –, de um conhecido processo estudado e identificado há décadas por gente como o economista brasileiro Celso Furtado.
O noticiário econômico acerca deste processo de falências e estatizações que ora ocorre nos EUA segue um padrão jornalístico já há algum tempo observado. As estatísticas são lançadas em função de uma dominação das elites sobre o aparelho de Estado, realidade que é presente no Brasil, de fato, porém de forma muito mais evidente nos Estados Unidos, como veremos a seguir.
Conforme destacou o jornalista Bernardo Kucinski [01] analisando o cenário brasileiro, “divulgam quanto cresceu o PIB (Produto Interno Bruto), porque esse dado é importante para o empresariado. Mas a participação do salário na renda nacional parou de ser divulgada há anos, desde que caiu abaixo de níveis civilizados (...) Divulgam-se detalhadamente os itens de pauta das exportações, mas não os detalhes de gastos com royalties e patentes. Seu conhecimento geraria uma atitude crítica em relação à renumeração dos capitais financeiros”. E alerta: “Quase tudo pode ser provado em economia, manipulando-se estatísticas”. O sociólogo Luiz Gonzaga Belluzzo tratou de lembrar que o neoliberalismo, ao contrário do que diz a propaganda oficial, nunca desejou o “Estado mínimo”, pois precisa de Estados nacionais fortes para utilizar o poder político e fiscal destes, com o objetivo de fortalecer os respectivos sistemas empresariais (incluindo os mercados financeiros e de capitais). O propósito é o de ganhar espaço na arena global. “Nessa toada, as reformas [ditas neoliberais, dos anos 70] atropelaram as instituições destinadas a garantir a segurança econômica e social da maioria assalariada ou dependente”,avalia Belluzzo. E conclui: “O Estado não saiu de cena, apenas mudou de agenda” [02]. Até mesmo no Brasil, durante a onda de privatizações e entreguismo dos oito anos do Governo FHC, foi observado durante o seminário da Rede de Economia Global (REGGEN) de 2003 que, ao contrário do que muitos propunham, os dados mostravam que o investimento público cresceu, porém foi – conforme denuncia Belluzzo – direcionado para a “iniciativa privada” [03]. O próprio termo “iniciativa privada” é contraditório, pois, como veremos, muitas vezes a iniciativa é do Estado, com dinheiro público, e o setor privado se apropria destes recursos por meio de ações fraudulentas e lesivas aos cofres públicos. Vide, entre outros inúmeros casos, a privatização da ex-estatal brasileira Vale do Rio Doce, que opera no setor de extração de recursos naturais, centralmente estratégico para o país.
Contradições negligenciadas
O noticiário da mídia corporativa procura fixar os atuais acontecimentos a poucos tópicos, sem discutir a seriedade e complexidade do problema, como, por exemplo, a falta de controle do sistema financeiro. O analista político Noam Chomsky aponta há décadas as contradições de um sistema fadado ao fracasso: “Uma instituição privada tem um objetivo: maximizar os lucros e minimizar as condições humanas. Porque isso maximiza os lucros. Isso é o que eles perseguem. Eles não poderiam perseguir nada além disso. Se o sistema é minimamente competitivo, eles precisam fazer isso. É a natureza do sistema (...) Haverá bastante dinheiro do contribuinte entrando nos fundos para não deixar que seus lucros caiam” [04]. É preciso um esforço para não considerar como custos apenas os gastos feitos diretamente pelo governo num contexto de “crise” – tal como a proposta de gastar US$ 700 bilhões na compra de títulos “podres”. Há muitos outros custos que são vendidos como grandes benefícios do capitalismo moderno. Um dos exemplos utilizados por Chomsky é comum a todos os brasileiros: “Digamos que você telefone para conseguir uma passagem aérea [ou outro serviço que dependa desta forma de atendimento]. As empresas aéreas são automatizadas, o que lhes economiza um monte de dinheiro. Os economistas podem constatar que isto é muito eficiente. Por outro lado, quando você dá o telefonema. Isso está lhe custando dinheiro, você fica sentado lá, por meia hora, enquanto você fica ouvindo aquelas mensagens, ‘Obrigado por nos ligar’, ‘Agradecemos sua ligação’, ‘Nós o amamos’, ‘Espere um momento’, ‘O próximo operador lhe atenderá em seguida’... e aí entra a música. Todo esse tempo tem um custo para você. Mas não é um custo que alguém meça”. Até o momento, nem um único economista distinto ou jornalista venerável, com espaço e destaque na televisão, questionou qual é o custo de não gastar este dinheiro – R$ 700 bilhões! – no sistema de saúde ou educacional.
Ressalta-se que os “custos” são gerados por decisões tomadas e por decisões não tomadas – a inércia política. O caos no sistema de saúde americano – conforme denunciou o documentarista Michael Moore – ou o aumento da fome no mundo entre 2006 e 2007 – denunciado há poucos dias pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) – não geram manchetes de “crise”. Chomsky conclui, ainda dentro do exemplo acima referido: “O custo é multiplicado pelo número de usuários. É uma grande soma. Pegue o custo do indivíduo, multiplique pelo número de pessoas usando o serviço, compare isso com a eficiência da automação e você talvez venha a descobrir que a automação é uma total perda para a economia. Mas é um ganho da maneira como é calculada”.
Caça aos “culpados”
O discurso oficial da mídia (TV Globo, GloboNews, Record, Bandeirantes e grandes jornais do Rio e São Paulo, avaliados nesta segunda 22) tenta sutilmente culpar um punhado de CEOs [chief executive officer], os diretores de grandes transnacionais financeiras, pela debandada do sistema financeiro americano. A âncora da GloboNews chegou a perguntar a um ex-ministro da Fazenda se eles [os CEOs] não deveriam ser penalizados. O “comentarista” disse que sim, que eles deveriam ser punidos. “Os executivos deveriam não receber seus benefícios e até mesmo devolver alguns que já receberam”, disse. O falso debate – com esta gravíssima punição sugerida, destaca-se! – está formado. É preciso ser muito astuto para imaginar que, por conta de erros pessoais, individuais, o Banco Central americano (FED) tenha decidido injetar outros 95 bilhões de dólares nos bancos em chamadas “operações de refinanciamento de rotina”. Prestem atenção: esta medida foi anunciada nesta segunda (22), para além da proposta da Casa Branca enviada ao Congresso e dos 315 bilhões da semana passada. Não coube a esta emissora questionar se não estaria havendo uma falência deste sistema, proclamado por especialistas de plantão como liberal, o mesmo sistema que agora se vê obrigado a recorrer ao dinheiro do contribuinte para supostamente não afundar. Como estão envergonhados, digamos objetivamente aqui o que está se salvando: a barra dos “investidores”, os acionistas, gente que tem dinheiro o suficiente para injetar milhares de dólares nesses bancos. A população, conforme denunciaram parlamentares nos EUA, não vão receber nenhum apoio, segundo a proposta do governo. Apesar manter suas crescentes dívidas no “crédito” imobiliário que, no final das contas, era mais uma bolha. Alguns congressistas, a despeito da pressão política do sistema financeiro, pediram no “ato” administrativo proposto pela Casa Branca o mais básico de todos os principais governamentais: regras! É curioso que nenhum telejornal tenha citado alguns dos trechos do pequenino documento (de apenas 3 páginas) que a secretaria do Tesouro dos EUA criou para abocanhar 700 bilhões de dólares. A Casa Branca determina, por exemplo, que “a secretaria está autorizada a tomar tais ações à medida que a secretaria considerar necessárias para realizar os poderes deste ato, inclusive, sem limitação (...)”. Em outro trecho define: “Quaisquer verbas usadas para ações autorizadas por este ato, incluindo o pagamento de despesas administrativas, devem ser consideradas apropriadas no momento de tais gastos” [05]. A imprensa manteve o velho estilo parcial de sempre – o secretário de Tesouro dos EUA era o único que aparecia durante a primeira semana de crise. “Os investidores do mundo inteiro estão com a atenção voltada para o Congresso americano”, repetia a GloboNews na própria segunda-feira (22). “A Globalização não deve ser responsabilizada”, ecoa outro correspondente da Globo, reproduzindo – é claro – voz oficial. Para falarem da ‘crise’, convocaram apenas ex-diretores do Banco Central e banqueiros.
“Cadê a tal independência?”
A jornalista e apresentadora Lilian White Fibe, no último programa ‘Roda Viva’ (TV Cultura) da segunda (22), fez uma pergunta franca e direta ao entrevistado, o economista Ilan Goldfajn, que já foi diretor de política econômica do Banco Central (BC) brasileiro e atualmente é pesquisador da PUC Rio. Ela questionou firmemente: “Então, professor, cadê a tal independência do Banco Central americano, o tal Banco Central mais independente do mundo?” A resposta não poderia ter sido mais risível, porém esclarecedora. Ilan disse que o FED – o BC americano – continuava independente, na opinião dele, e que o fato de o anúncio ter sido eminentemente político não mudava esta posição. O governo americano, argumentou Ilan, foi até o FED e este, por sua vez, colocou as opções mais “razoáveis” na mesa. O governo americano, então, acatou... Em suma: quem manda nas finanças do mundo – o que inclui deter a chave dos cofres do governo mais rico do mundo – são os financistas de Wall Street. Ou seja, os responsáveis pelo caos que a presidente argentina classificou como “economia de cassino dos EUA”. Já Giuliano Guandalini, editor de economia da revista Veja, procurou – a serviço do tipo de imprensa mais vendida que existe no Brasil – defender os “mercados”, que estão inevitavelmente sofrendo ataques até mesmo de grupos conservadores. Giuliano argumentou – em formato de “pergunta” para Ilan – que o sistema não era falho, já que havia proporcionado ganhos consideráveis durante muitos anos. Aqui, novamente, faz-se uma observação risível e reveladora. Se os investidores se beneficiaram enormemente deste sistema que, como muitos agora lembram, privatiza os lucros e socializa os prejuízos, por que o governo não utiliza parte destes lucros e paga a “conta” da farra? Por que, afinal, o dinheiro tem que vir do bolso do contribuinte, e não destas empresas de “investimento de risco”? A resposta é simples. A saída, para o esquema neoliberal, não admite outra coisa senão socializar os prejuízos. Fazer os capitalistas pagarem a conta – até Arnaldo Jabor anda falando mal deles! – é muito perigoso. Seria como, digamos, “confiscar bens”! Confiscar bens de capitalistas não é permitido.
Farra com dinheiro (do) público
Os meios de comunicação evitam passear por este debate e, inclusive, se negam a falar em estatização. Até porque estatizar é coisa de gente como Hugo Chávez, Rafael Correa e Evo Morales. Trata-se, no linguajar da mídia corporativa, de uma “intervenção” – mesmo que o governo tenha confiscado, por meio de cláusula contratual, 80% das ações da AIG, por exemplo. Emir Sader, num artigo de 2004, explica como funciona um dos instrumentos correntes de privatização dos lucros e socialização dos riscos: “Entre em um banco e deposite 100 reais em uma caderneta de poupança. O funcionário lhe dirá para retornar daqui a um mês, para receber seus polpudos dividendos, algo como R$ 100,60. Em seguida, ao mesmo funcionário, no mesmo balcão, você pede 100 reais emprestados. Receberá a resposta de que – além de todos os trâmites de cadastro, garantia, ficha pregressa etc. –, deverá pagar, daqui a um mês, algo como 109 reais. Essa ‘pequena’ diferença - algo como 15 vezes mais - é o que os bancos e os economistas, ministros, presidentes de bancos centrais, e todos os que funcionam como seus ventríloquos, chamam de spread. Em inglês, para melhor disfarçar, como convêm ao economês”. Mas o que é o spread? “Os dicionários falam sempre de algo como ''extensão'', ''propagação'', ''expansão'', no máximo ''pasta para passar no pão''. Nada que possa esclarecer essa estranha mágica de pagar 0,6% e cobrar 9% ao mês e que faz a felicidade dos bancos e propicia os recordes de lucratividade do sistema financeiro – batidos novamente esta semana – à custa de quem não vive da especulação. Os dicionários de economia esclarecem que spread é a diferença entre o quanto os bancos pagam e o quanto recebem; em outras palavras, o lucro dos bancos. Nenhum investimento permite ganhar tanto, em prazo tão curto, com tanta liquidez e pouco ou nada de imposto - recordemos que investimentos estrangeiros na Bovespa não pagam imposto, ao contrário da cesta básica, de livros etc” [06] [leia mais sobre este mecanismo brutal de exploração do trabalhador na referência do artigo]. O Jornal Nacional da quarta-feira (17), ainda assustado com a derrocada de um projeto que defende diariamente, abriu falando sobre “a maior intervenção dos EUA” no setor privado. Já naquele dia, o governo havia comprometido mais de 300 bilhões de dólares nas empresas falidas. E, como sempre, deram voz ao Ser Supremo, Vossa Divindade: “Mesmo assim, o mercado não se acalmou”. O apresentador William Bonner falou em “crise de confiança que atinge o mercado financeiro”. Não pretende explicar que a crise não é de confiança, porque seria muito perigoso que o telespectador que o vê e o ouve – aquele que é metade Homer Simpson metade Lineu, lembra? [07] – fique sabendo que não são apenas os títulos que o governo comprará que são podres, e sim o próprio sistema de jogatina que diversos ativistas denunciam há décadas. Insistem no discurso vazio: “E mais um sinal da crise de confiança que atinge o mercado financeiro: um outro banco americano, o Washington Mutual, anunciou que está à venda. Procura um comprador para salvá-lo da crise” [08].
Lula faz discurso duro sobre crise e é ignorado pela mídia
O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva fez, na abertura do debate geral da 63ª Assembléia Geral das Nações Unidas, um dos discursos mais importantes de seu mandato, agregando elementos como conhecimento histórico, síntese política, momento oportuno e amplitude de temas. Destaca-se que o Brasil sempre abre os debates, por tradição, o que se configura em um importante aspecto de prestígio. O Jornal da Globo (TV Globo) desta terça-feira (23), dia do discurso, procurou esconder a fala de Lula, ao citar apenas um trecho insignificante e, ainda por cima, dizer que o “discurso mais esperado” era o do presidente Bush. Como sempre, o mandatário estadunidense teve uma participação pífia, ordinária e mentirosa, que nem sequer vale nota de rodapé. Lula, no entanto, sem nenhum sentimento de nacionalismo ou partidarismo, falou o que poucos têm condição ou coragem de pôr em pauta. Logo no início, o brasileiro registra: “A euforia dos especuladores transformou-se em angústia dos povos após a sucessão de naufrágios financeiros que ameaçam a economia mundial.
As indispensáveis intervenções do Estado, contrariando os fundamentalistas do mercado, mostram que é chegada a hora da política”. Evidentemente que o povo brasileiro não terá acesso, nos jornais e telejornais populares, a uma explicação detalhada sobre o que Lula quis dizer com “fundamentalistas de mercado”. “A ausência de regras”, completa o presidente, favorece os “aventureiros e oportunistas” (sic), em prejuízo das verdadeiras empresas e dos trabalhadores. “É inadmissível, dizia o grande economista brasileiro Celso Furtado, que os lucros dos especuladores sejam sempre privatizados e suas perdas, invariavelmente socializadas. O ônus da cobiça desenfreada de alguns não pode recair impunemente sobre os ombros de todos. A economia é séria demais para ficar nas mãos dos especuladores”. Novamente, seria perigoso demais que os Willians da TV Globo (Bonner ou Waack) retomassem o pensamento de Celso Furtado. Seria perigoso, pois poderia desencadear questionamentos sobre o funcionamento da própria lógica de privatização dos lucros e socialização dos riscos que ora ocorre no Brasil, tal como a lógica que permite o spread bancário. Eles poderiam explicar, por exemplo, que a globalização financeira alimenta-se da desordem monetária causada pelo fim das paridades fixas entre moedas fortes. As regras, neste caso, são parecidas com as regras de um grande cassino em Las Vegas. O pano de fundo, comenta o jornalista Bernardo Kucinski [09], é a lenta agonia da cultura monetária baseada no dólar. Enquanto o Japão acumula, por exemplo, grandes saldos em seu comércio exterior, os Estados Unidos tentam manter a hegemonia do dólar, numa espécie de “fuga para o futuro”, na expressão de Furtado. Nesta tentativa, arrastaram para uma crise estrutural nos anos 90 países que têm dívidas em dólar – incluindo o Brasil. Kucinski demonstra como funciona este “novo sistema de dominação” baseado no endividamento, igualmente registrado no balanço de pagamentos e consolidado em grandes tábuas mundiais da dívida externa, compiladas pelo Banco Mundial: “Essas tábuas mostram que, entre 1980 e 1991, os países da periferia pagaram US$ 607 bilhões de juros, mais do que o valor original da dívida, que, no entanto, nesse mesmo período saltou de US$ 573 bilhões para US$ 1281 bilhões”. Em outras palavras: quantas mais estes países pagam, mais devem. No Brasil, o pagamento dos juros é a rubrica que consome a maior quantidade de recursos públicos. Só nos primeiros meses de 2008, o governo gastou com juros R$ 106,8 bilhões, ou 6,7% do PIB. É possível imaginar, diante de tão obscuros números, que nem todo o dinheiro da “ajuda” financeira que os EUA deram e pretendem dar às instituições financeiras são de contribuintes americanos. Há também brasileiros, argentinos, bolivianos, venezuelanos, chilenos... [10]
“Fuga para o futuro”
Esta mesma lógica especulativa de fuga para o futuro, com a política de redução da taxa de juros sem controle sobre o crédito, é um fator essencial para o estouro da bolha especulativa nos mercados de hipotecas. Agora, os neoliberais de plantão, com amplo suporte dos amigos jornalistas da mídia corporativa, tratam de tentar transferir os riscos para os indivíduos dispersos.
Em vez de abordar estes temas, a TV Globo preferiu exibir uma charge em que sugere Lula e seus assessores vão à ONU, na verdade, para vender biocombustíveis ele próprio, como se fosse um mercador querendo vender a matéria prima de seu país. Este é o “humor” praticado na Rede Globo [11]. Lula defendeu o papel da ONU na criação de “mecanismos de prevenção e controle, e total transparência das atividades financeiras” contra o que classificou como “anarquia especulativa”.
Muros da globalização
Mantendo a coesão entre os temas, em um dos mais importantes trechos, Lula criticou duramente o caráter totalitário da globalização financeira: “O Muro de Berlim caiu. Sua queda foi entendida como a possibilidade de construir um mundo de paz, livre dos estigmas da Guerra Fria. Mas é triste constatar que outros muros foram se construindo, e com enorme velocidade. Muitos dos que pregam a livre circulação de mercadorias e capitais são os mesmos que impedem a livre circulação de homens e mulheres, com argumentos nacionalistas, e até fascistas, que nos fazem evocar, temerosos, tempos que pensávamos superados”. E partiu objetivamente para a defesa de governos como o da Venezuela e da Bolívia: “Um suposto ‘nacionalismo populista’, que alguns pretendem identificar e criticar no Sul do mundo, é praticado sem constrangimento em países ricos”, complementando com algumas considerações sobre a importância da aliança dos países do sul, em particular da América Latina. “Em meu continente, a Unasul, criada em maio deste ano, é o primeiro tratado – em 200 anos de vida independente – que congrega todos os países sul-americanos. Com essa nova união política vamos articular os países da região em termos de infra-estrutura, energia, políticas sociais, complementaridade produtiva, finanças e defesa” [12]. Na mídia corporativa brasileira, ao que tudo indica, a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) nem sequer existe – apesar dos seus inúmeros êxitos políticos. O motivo dos neoliberais da mídia brasileira (hoje envergonhados) para esconder esta iniciativa é justamente o seu sucesso.
E um outro detalhe: a sede da União será localizada em Quito, capital do Equador, o Banco do Sul será na capital da Venezuela, Caracas, e o seu parlamento será localizado em Cochabamba, na Bolívia.
REFERÊNCIAS
01 Kucinski, Bernardo. Jornalismo Econômico. SP: EDUSP, 2000.
02 Belluzo, Luiz Gonzaga. “A turma do ‘Veja Bem’...”. Revista Carta Capital. 17 set. 2008. No 513.
03 A Revista Consciência.Net realizou a cobertura do REGGEN 2003. Disponível em http://www.consciencia.net/reggen/reggen2003.html0
4 Chomsky, Noam; Barsamian, David. Propaganda e consciência popular. Bauru, SP: EDUSC, 2003. Págs 166-167.
05 “Leia o projeto de socorro do Tesouro”. Folha de S. Paulo. 22 set. 2008.
06 Sader, Emir. 'Spread' ou a farra especulativa. Jornal do Brasil. 22 fev. 2004.
07 “William Bonner: meio Homer, meio Lineu”. Revista Consciência.Net. Dez. 2005.
08 “Crise de confiança na economia dos EUA se acentua”. Jornal Nacional (TV Globo). 17 set. 2008.
09 Kucinski, Bernardo. Jornalismo Econômico. SP: Edusp, 2000.
10 Para dados recentes, visitar http://www.jubileubrasil.org.br/
11 Charge animada do Jornal da Globo, TV Globo. 23 set. 2008.
12 Discurso do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na abertura do debate geral da 63ª Assembléia Geral das Nações Unidas (Nova Iorque - EUA). Presidência da República. 23 set. 2008. – 03.10.2008
Fonte: http://www.fazendomedia.com/
Enquanto a mídia corporativa brasileira fala em crise, há décadas ativistas e intelectuais denunciam o caráter explorador do sistema financeiro. De um lado, especuladores e banqueiros alimentam-se da desordem mundial da globalização financeira. Do outro, trabalhadores em todo o planeta arcam com custos da “economia de cassino” dos EUA...
Por Gustavo Barreto, da redação
Como resultado de um intenso bombardeio midiático, me peguei diversas vezes classificando os recentes acontecimentos no sistema financeiro global como uma “crise”. Trata-se, no entanto – de forma muito evidente, inclusive –, de um conhecido processo estudado e identificado há décadas por gente como o economista brasileiro Celso Furtado.
O noticiário econômico acerca deste processo de falências e estatizações que ora ocorre nos EUA segue um padrão jornalístico já há algum tempo observado. As estatísticas são lançadas em função de uma dominação das elites sobre o aparelho de Estado, realidade que é presente no Brasil, de fato, porém de forma muito mais evidente nos Estados Unidos, como veremos a seguir.
Conforme destacou o jornalista Bernardo Kucinski [01] analisando o cenário brasileiro, “divulgam quanto cresceu o PIB (Produto Interno Bruto), porque esse dado é importante para o empresariado. Mas a participação do salário na renda nacional parou de ser divulgada há anos, desde que caiu abaixo de níveis civilizados (...) Divulgam-se detalhadamente os itens de pauta das exportações, mas não os detalhes de gastos com royalties e patentes. Seu conhecimento geraria uma atitude crítica em relação à renumeração dos capitais financeiros”. E alerta: “Quase tudo pode ser provado em economia, manipulando-se estatísticas”. O sociólogo Luiz Gonzaga Belluzzo tratou de lembrar que o neoliberalismo, ao contrário do que diz a propaganda oficial, nunca desejou o “Estado mínimo”, pois precisa de Estados nacionais fortes para utilizar o poder político e fiscal destes, com o objetivo de fortalecer os respectivos sistemas empresariais (incluindo os mercados financeiros e de capitais). O propósito é o de ganhar espaço na arena global. “Nessa toada, as reformas [ditas neoliberais, dos anos 70] atropelaram as instituições destinadas a garantir a segurança econômica e social da maioria assalariada ou dependente”,avalia Belluzzo. E conclui: “O Estado não saiu de cena, apenas mudou de agenda” [02]. Até mesmo no Brasil, durante a onda de privatizações e entreguismo dos oito anos do Governo FHC, foi observado durante o seminário da Rede de Economia Global (REGGEN) de 2003 que, ao contrário do que muitos propunham, os dados mostravam que o investimento público cresceu, porém foi – conforme denuncia Belluzzo – direcionado para a “iniciativa privada” [03]. O próprio termo “iniciativa privada” é contraditório, pois, como veremos, muitas vezes a iniciativa é do Estado, com dinheiro público, e o setor privado se apropria destes recursos por meio de ações fraudulentas e lesivas aos cofres públicos. Vide, entre outros inúmeros casos, a privatização da ex-estatal brasileira Vale do Rio Doce, que opera no setor de extração de recursos naturais, centralmente estratégico para o país.
Contradições negligenciadas
O noticiário da mídia corporativa procura fixar os atuais acontecimentos a poucos tópicos, sem discutir a seriedade e complexidade do problema, como, por exemplo, a falta de controle do sistema financeiro. O analista político Noam Chomsky aponta há décadas as contradições de um sistema fadado ao fracasso: “Uma instituição privada tem um objetivo: maximizar os lucros e minimizar as condições humanas. Porque isso maximiza os lucros. Isso é o que eles perseguem. Eles não poderiam perseguir nada além disso. Se o sistema é minimamente competitivo, eles precisam fazer isso. É a natureza do sistema (...) Haverá bastante dinheiro do contribuinte entrando nos fundos para não deixar que seus lucros caiam” [04]. É preciso um esforço para não considerar como custos apenas os gastos feitos diretamente pelo governo num contexto de “crise” – tal como a proposta de gastar US$ 700 bilhões na compra de títulos “podres”. Há muitos outros custos que são vendidos como grandes benefícios do capitalismo moderno. Um dos exemplos utilizados por Chomsky é comum a todos os brasileiros: “Digamos que você telefone para conseguir uma passagem aérea [ou outro serviço que dependa desta forma de atendimento]. As empresas aéreas são automatizadas, o que lhes economiza um monte de dinheiro. Os economistas podem constatar que isto é muito eficiente. Por outro lado, quando você dá o telefonema. Isso está lhe custando dinheiro, você fica sentado lá, por meia hora, enquanto você fica ouvindo aquelas mensagens, ‘Obrigado por nos ligar’, ‘Agradecemos sua ligação’, ‘Nós o amamos’, ‘Espere um momento’, ‘O próximo operador lhe atenderá em seguida’... e aí entra a música. Todo esse tempo tem um custo para você. Mas não é um custo que alguém meça”. Até o momento, nem um único economista distinto ou jornalista venerável, com espaço e destaque na televisão, questionou qual é o custo de não gastar este dinheiro – R$ 700 bilhões! – no sistema de saúde ou educacional.
Ressalta-se que os “custos” são gerados por decisões tomadas e por decisões não tomadas – a inércia política. O caos no sistema de saúde americano – conforme denunciou o documentarista Michael Moore – ou o aumento da fome no mundo entre 2006 e 2007 – denunciado há poucos dias pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) – não geram manchetes de “crise”. Chomsky conclui, ainda dentro do exemplo acima referido: “O custo é multiplicado pelo número de usuários. É uma grande soma. Pegue o custo do indivíduo, multiplique pelo número de pessoas usando o serviço, compare isso com a eficiência da automação e você talvez venha a descobrir que a automação é uma total perda para a economia. Mas é um ganho da maneira como é calculada”.
Caça aos “culpados”
O discurso oficial da mídia (TV Globo, GloboNews, Record, Bandeirantes e grandes jornais do Rio e São Paulo, avaliados nesta segunda 22) tenta sutilmente culpar um punhado de CEOs [chief executive officer], os diretores de grandes transnacionais financeiras, pela debandada do sistema financeiro americano. A âncora da GloboNews chegou a perguntar a um ex-ministro da Fazenda se eles [os CEOs] não deveriam ser penalizados. O “comentarista” disse que sim, que eles deveriam ser punidos. “Os executivos deveriam não receber seus benefícios e até mesmo devolver alguns que já receberam”, disse. O falso debate – com esta gravíssima punição sugerida, destaca-se! – está formado. É preciso ser muito astuto para imaginar que, por conta de erros pessoais, individuais, o Banco Central americano (FED) tenha decidido injetar outros 95 bilhões de dólares nos bancos em chamadas “operações de refinanciamento de rotina”. Prestem atenção: esta medida foi anunciada nesta segunda (22), para além da proposta da Casa Branca enviada ao Congresso e dos 315 bilhões da semana passada. Não coube a esta emissora questionar se não estaria havendo uma falência deste sistema, proclamado por especialistas de plantão como liberal, o mesmo sistema que agora se vê obrigado a recorrer ao dinheiro do contribuinte para supostamente não afundar. Como estão envergonhados, digamos objetivamente aqui o que está se salvando: a barra dos “investidores”, os acionistas, gente que tem dinheiro o suficiente para injetar milhares de dólares nesses bancos. A população, conforme denunciaram parlamentares nos EUA, não vão receber nenhum apoio, segundo a proposta do governo. Apesar manter suas crescentes dívidas no “crédito” imobiliário que, no final das contas, era mais uma bolha. Alguns congressistas, a despeito da pressão política do sistema financeiro, pediram no “ato” administrativo proposto pela Casa Branca o mais básico de todos os principais governamentais: regras! É curioso que nenhum telejornal tenha citado alguns dos trechos do pequenino documento (de apenas 3 páginas) que a secretaria do Tesouro dos EUA criou para abocanhar 700 bilhões de dólares. A Casa Branca determina, por exemplo, que “a secretaria está autorizada a tomar tais ações à medida que a secretaria considerar necessárias para realizar os poderes deste ato, inclusive, sem limitação (...)”. Em outro trecho define: “Quaisquer verbas usadas para ações autorizadas por este ato, incluindo o pagamento de despesas administrativas, devem ser consideradas apropriadas no momento de tais gastos” [05]. A imprensa manteve o velho estilo parcial de sempre – o secretário de Tesouro dos EUA era o único que aparecia durante a primeira semana de crise. “Os investidores do mundo inteiro estão com a atenção voltada para o Congresso americano”, repetia a GloboNews na própria segunda-feira (22). “A Globalização não deve ser responsabilizada”, ecoa outro correspondente da Globo, reproduzindo – é claro – voz oficial. Para falarem da ‘crise’, convocaram apenas ex-diretores do Banco Central e banqueiros.
“Cadê a tal independência?”
A jornalista e apresentadora Lilian White Fibe, no último programa ‘Roda Viva’ (TV Cultura) da segunda (22), fez uma pergunta franca e direta ao entrevistado, o economista Ilan Goldfajn, que já foi diretor de política econômica do Banco Central (BC) brasileiro e atualmente é pesquisador da PUC Rio. Ela questionou firmemente: “Então, professor, cadê a tal independência do Banco Central americano, o tal Banco Central mais independente do mundo?” A resposta não poderia ter sido mais risível, porém esclarecedora. Ilan disse que o FED – o BC americano – continuava independente, na opinião dele, e que o fato de o anúncio ter sido eminentemente político não mudava esta posição. O governo americano, argumentou Ilan, foi até o FED e este, por sua vez, colocou as opções mais “razoáveis” na mesa. O governo americano, então, acatou... Em suma: quem manda nas finanças do mundo – o que inclui deter a chave dos cofres do governo mais rico do mundo – são os financistas de Wall Street. Ou seja, os responsáveis pelo caos que a presidente argentina classificou como “economia de cassino dos EUA”. Já Giuliano Guandalini, editor de economia da revista Veja, procurou – a serviço do tipo de imprensa mais vendida que existe no Brasil – defender os “mercados”, que estão inevitavelmente sofrendo ataques até mesmo de grupos conservadores. Giuliano argumentou – em formato de “pergunta” para Ilan – que o sistema não era falho, já que havia proporcionado ganhos consideráveis durante muitos anos. Aqui, novamente, faz-se uma observação risível e reveladora. Se os investidores se beneficiaram enormemente deste sistema que, como muitos agora lembram, privatiza os lucros e socializa os prejuízos, por que o governo não utiliza parte destes lucros e paga a “conta” da farra? Por que, afinal, o dinheiro tem que vir do bolso do contribuinte, e não destas empresas de “investimento de risco”? A resposta é simples. A saída, para o esquema neoliberal, não admite outra coisa senão socializar os prejuízos. Fazer os capitalistas pagarem a conta – até Arnaldo Jabor anda falando mal deles! – é muito perigoso. Seria como, digamos, “confiscar bens”! Confiscar bens de capitalistas não é permitido.
Farra com dinheiro (do) público
Os meios de comunicação evitam passear por este debate e, inclusive, se negam a falar em estatização. Até porque estatizar é coisa de gente como Hugo Chávez, Rafael Correa e Evo Morales. Trata-se, no linguajar da mídia corporativa, de uma “intervenção” – mesmo que o governo tenha confiscado, por meio de cláusula contratual, 80% das ações da AIG, por exemplo. Emir Sader, num artigo de 2004, explica como funciona um dos instrumentos correntes de privatização dos lucros e socialização dos riscos: “Entre em um banco e deposite 100 reais em uma caderneta de poupança. O funcionário lhe dirá para retornar daqui a um mês, para receber seus polpudos dividendos, algo como R$ 100,60. Em seguida, ao mesmo funcionário, no mesmo balcão, você pede 100 reais emprestados. Receberá a resposta de que – além de todos os trâmites de cadastro, garantia, ficha pregressa etc. –, deverá pagar, daqui a um mês, algo como 109 reais. Essa ‘pequena’ diferença - algo como 15 vezes mais - é o que os bancos e os economistas, ministros, presidentes de bancos centrais, e todos os que funcionam como seus ventríloquos, chamam de spread. Em inglês, para melhor disfarçar, como convêm ao economês”. Mas o que é o spread? “Os dicionários falam sempre de algo como ''extensão'', ''propagação'', ''expansão'', no máximo ''pasta para passar no pão''. Nada que possa esclarecer essa estranha mágica de pagar 0,6% e cobrar 9% ao mês e que faz a felicidade dos bancos e propicia os recordes de lucratividade do sistema financeiro – batidos novamente esta semana – à custa de quem não vive da especulação. Os dicionários de economia esclarecem que spread é a diferença entre o quanto os bancos pagam e o quanto recebem; em outras palavras, o lucro dos bancos. Nenhum investimento permite ganhar tanto, em prazo tão curto, com tanta liquidez e pouco ou nada de imposto - recordemos que investimentos estrangeiros na Bovespa não pagam imposto, ao contrário da cesta básica, de livros etc” [06] [leia mais sobre este mecanismo brutal de exploração do trabalhador na referência do artigo]. O Jornal Nacional da quarta-feira (17), ainda assustado com a derrocada de um projeto que defende diariamente, abriu falando sobre “a maior intervenção dos EUA” no setor privado. Já naquele dia, o governo havia comprometido mais de 300 bilhões de dólares nas empresas falidas. E, como sempre, deram voz ao Ser Supremo, Vossa Divindade: “Mesmo assim, o mercado não se acalmou”. O apresentador William Bonner falou em “crise de confiança que atinge o mercado financeiro”. Não pretende explicar que a crise não é de confiança, porque seria muito perigoso que o telespectador que o vê e o ouve – aquele que é metade Homer Simpson metade Lineu, lembra? [07] – fique sabendo que não são apenas os títulos que o governo comprará que são podres, e sim o próprio sistema de jogatina que diversos ativistas denunciam há décadas. Insistem no discurso vazio: “E mais um sinal da crise de confiança que atinge o mercado financeiro: um outro banco americano, o Washington Mutual, anunciou que está à venda. Procura um comprador para salvá-lo da crise” [08].
Lula faz discurso duro sobre crise e é ignorado pela mídia
O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva fez, na abertura do debate geral da 63ª Assembléia Geral das Nações Unidas, um dos discursos mais importantes de seu mandato, agregando elementos como conhecimento histórico, síntese política, momento oportuno e amplitude de temas. Destaca-se que o Brasil sempre abre os debates, por tradição, o que se configura em um importante aspecto de prestígio. O Jornal da Globo (TV Globo) desta terça-feira (23), dia do discurso, procurou esconder a fala de Lula, ao citar apenas um trecho insignificante e, ainda por cima, dizer que o “discurso mais esperado” era o do presidente Bush. Como sempre, o mandatário estadunidense teve uma participação pífia, ordinária e mentirosa, que nem sequer vale nota de rodapé. Lula, no entanto, sem nenhum sentimento de nacionalismo ou partidarismo, falou o que poucos têm condição ou coragem de pôr em pauta. Logo no início, o brasileiro registra: “A euforia dos especuladores transformou-se em angústia dos povos após a sucessão de naufrágios financeiros que ameaçam a economia mundial.
As indispensáveis intervenções do Estado, contrariando os fundamentalistas do mercado, mostram que é chegada a hora da política”. Evidentemente que o povo brasileiro não terá acesso, nos jornais e telejornais populares, a uma explicação detalhada sobre o que Lula quis dizer com “fundamentalistas de mercado”. “A ausência de regras”, completa o presidente, favorece os “aventureiros e oportunistas” (sic), em prejuízo das verdadeiras empresas e dos trabalhadores. “É inadmissível, dizia o grande economista brasileiro Celso Furtado, que os lucros dos especuladores sejam sempre privatizados e suas perdas, invariavelmente socializadas. O ônus da cobiça desenfreada de alguns não pode recair impunemente sobre os ombros de todos. A economia é séria demais para ficar nas mãos dos especuladores”. Novamente, seria perigoso demais que os Willians da TV Globo (Bonner ou Waack) retomassem o pensamento de Celso Furtado. Seria perigoso, pois poderia desencadear questionamentos sobre o funcionamento da própria lógica de privatização dos lucros e socialização dos riscos que ora ocorre no Brasil, tal como a lógica que permite o spread bancário. Eles poderiam explicar, por exemplo, que a globalização financeira alimenta-se da desordem monetária causada pelo fim das paridades fixas entre moedas fortes. As regras, neste caso, são parecidas com as regras de um grande cassino em Las Vegas. O pano de fundo, comenta o jornalista Bernardo Kucinski [09], é a lenta agonia da cultura monetária baseada no dólar. Enquanto o Japão acumula, por exemplo, grandes saldos em seu comércio exterior, os Estados Unidos tentam manter a hegemonia do dólar, numa espécie de “fuga para o futuro”, na expressão de Furtado. Nesta tentativa, arrastaram para uma crise estrutural nos anos 90 países que têm dívidas em dólar – incluindo o Brasil. Kucinski demonstra como funciona este “novo sistema de dominação” baseado no endividamento, igualmente registrado no balanço de pagamentos e consolidado em grandes tábuas mundiais da dívida externa, compiladas pelo Banco Mundial: “Essas tábuas mostram que, entre 1980 e 1991, os países da periferia pagaram US$ 607 bilhões de juros, mais do que o valor original da dívida, que, no entanto, nesse mesmo período saltou de US$ 573 bilhões para US$ 1281 bilhões”. Em outras palavras: quantas mais estes países pagam, mais devem. No Brasil, o pagamento dos juros é a rubrica que consome a maior quantidade de recursos públicos. Só nos primeiros meses de 2008, o governo gastou com juros R$ 106,8 bilhões, ou 6,7% do PIB. É possível imaginar, diante de tão obscuros números, que nem todo o dinheiro da “ajuda” financeira que os EUA deram e pretendem dar às instituições financeiras são de contribuintes americanos. Há também brasileiros, argentinos, bolivianos, venezuelanos, chilenos... [10]
“Fuga para o futuro”
Esta mesma lógica especulativa de fuga para o futuro, com a política de redução da taxa de juros sem controle sobre o crédito, é um fator essencial para o estouro da bolha especulativa nos mercados de hipotecas. Agora, os neoliberais de plantão, com amplo suporte dos amigos jornalistas da mídia corporativa, tratam de tentar transferir os riscos para os indivíduos dispersos.
Em vez de abordar estes temas, a TV Globo preferiu exibir uma charge em que sugere Lula e seus assessores vão à ONU, na verdade, para vender biocombustíveis ele próprio, como se fosse um mercador querendo vender a matéria prima de seu país. Este é o “humor” praticado na Rede Globo [11]. Lula defendeu o papel da ONU na criação de “mecanismos de prevenção e controle, e total transparência das atividades financeiras” contra o que classificou como “anarquia especulativa”.
Muros da globalização
Mantendo a coesão entre os temas, em um dos mais importantes trechos, Lula criticou duramente o caráter totalitário da globalização financeira: “O Muro de Berlim caiu. Sua queda foi entendida como a possibilidade de construir um mundo de paz, livre dos estigmas da Guerra Fria. Mas é triste constatar que outros muros foram se construindo, e com enorme velocidade. Muitos dos que pregam a livre circulação de mercadorias e capitais são os mesmos que impedem a livre circulação de homens e mulheres, com argumentos nacionalistas, e até fascistas, que nos fazem evocar, temerosos, tempos que pensávamos superados”. E partiu objetivamente para a defesa de governos como o da Venezuela e da Bolívia: “Um suposto ‘nacionalismo populista’, que alguns pretendem identificar e criticar no Sul do mundo, é praticado sem constrangimento em países ricos”, complementando com algumas considerações sobre a importância da aliança dos países do sul, em particular da América Latina. “Em meu continente, a Unasul, criada em maio deste ano, é o primeiro tratado – em 200 anos de vida independente – que congrega todos os países sul-americanos. Com essa nova união política vamos articular os países da região em termos de infra-estrutura, energia, políticas sociais, complementaridade produtiva, finanças e defesa” [12]. Na mídia corporativa brasileira, ao que tudo indica, a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) nem sequer existe – apesar dos seus inúmeros êxitos políticos. O motivo dos neoliberais da mídia brasileira (hoje envergonhados) para esconder esta iniciativa é justamente o seu sucesso.
E um outro detalhe: a sede da União será localizada em Quito, capital do Equador, o Banco do Sul será na capital da Venezuela, Caracas, e o seu parlamento será localizado em Cochabamba, na Bolívia.
REFERÊNCIAS
01 Kucinski, Bernardo. Jornalismo Econômico. SP: EDUSP, 2000.
02 Belluzo, Luiz Gonzaga. “A turma do ‘Veja Bem’...”. Revista Carta Capital. 17 set. 2008. No 513.
03 A Revista Consciência.Net realizou a cobertura do REGGEN 2003. Disponível em http://www.consciencia.net/reggen/reggen2003.html0
4 Chomsky, Noam; Barsamian, David. Propaganda e consciência popular. Bauru, SP: EDUSC, 2003. Págs 166-167.
05 “Leia o projeto de socorro do Tesouro”. Folha de S. Paulo. 22 set. 2008.
06 Sader, Emir. 'Spread' ou a farra especulativa. Jornal do Brasil. 22 fev. 2004.
07 “William Bonner: meio Homer, meio Lineu”. Revista Consciência.Net. Dez. 2005.
08 “Crise de confiança na economia dos EUA se acentua”. Jornal Nacional (TV Globo). 17 set. 2008.
09 Kucinski, Bernardo. Jornalismo Econômico. SP: Edusp, 2000.
10 Para dados recentes, visitar http://www.jubileubrasil.org.br/
11 Charge animada do Jornal da Globo, TV Globo. 23 set. 2008.
12 Discurso do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na abertura do debate geral da 63ª Assembléia Geral das Nações Unidas (Nova Iorque - EUA). Presidência da República. 23 set. 2008. – 03.10.2008
Fonte: http://www.fazendomedia.com/
terça-feira, 7 de outubro de 2008
África do Sul: a libertação traída
África do Sul: a libertação traída
por John Pilger [*]
A ruptura política na África do Sul está a ser apresentada ao mundo exterior como a tragédia pessoal e a humilhação de um homem, Thabo Mbeki . Isto lembra a beatificação de Nelson Mandela no momento da morte do apartheid. Não se trata de reduzir o poder das personalidades, mas a importância das mesmas muitas vezes serve desviar a atenção das forças históricas que elas servem e administram. Frantz Fanon tinha isto em mente quando, em Os condenados da Terra, descreveu a "missão histórica" de grande parte da classe dominante pós colonial como "a de intermediário [cuja] missão nada tem a ver com a transformação da nação: ela consiste, prosaicamente, de ser a linha de transmissão entre a nação e um capitalismo, desenfreado embora camuflado".
A queda de Mbeki e o colapso da Wall Street são acontecimentos concorrentes e relacionados, assim como previsíveis. Remontemos a 1985 quando o mercado de acções de Johannesburg entrou em crash, o regime do apartheid incumpriu sua dívida crescente e os chefes do capital sul-africano ganharam medo. Em Setembro daquele ano um grupo conduzido por Gavin Relly, presidente da Anglo American Corporation, encontrou-se com Oliver Tambo , o presidente do ANC, e outros responsáveis da resistência, na Zâmbia. A sua mensagem urgente era ser possível uma "transição" do apartheid para uma democracia liberal governada por negros apenas se a "ordem" e a "estabilidade" fossem garantidas. Tratava-se de eufemismos para um estado de "mercado livre" em que a justiça social não seria prioritária.
Reuniões secretas entre o ANC e membros eminentes da elite afrikaner seguiram-se numa mansão, Mells Park House, na Inglaterra. As motivações primárias eram daqueles que haviam apoiado e lucrado com o apartheid – tais como o gigante mineiro britânico Consolidated Goldfields, o qual pagou a conta dos vinhos finos e do malt whisky deglutido junto à lareira da Mells Park House. Seu objectivo era que o regime de Pretória – para dividir o ANC entre os "moderados", na maior parte exilados, com quem podiam "negociar" (Tambo, Mbeki e Mandela) e a maioria que consistia naqueles que resistiam nas cidades, conhecidos como os UDF.
O assunto era urgente. Quando F.W. De Klerk chegou ao poder em 1989, o capital estava numa tal hemorragia que as reservas externas do país mal cobririam cinco semanas de importações. Ficheiros desclassificados que vi em Washington deixavam pouca dúvida de que De Klerk estava em vias de salvar o capitalismo na África do Sul. Ele não poderia conseguir isto sem um ANC acomodatício.
Nelson Mandela criticou isto. Tendo apoiado a promessa do ANC de assumir o comando das minas e outras indústrias monopolistas – "uma mudança ou modificação das nossas opiniões a este respeito é inconcebível" – Mandela falou com uma voz diferente nas sua primeiras viagens triunfais ao exterior. "O ANC", disse ele em Nova York, "reintroduzirá o mercado na África do Sul". O acordo, com efeito, era que brancos retivessem o controle económico em troca do governo da maioria negra: a "coroa do poder político" para a "jóia da economia sul africana", como disse Ali Mazrui . Quando, em 1997, contei a Mbeki que um homem de negócios negro descrevera-se como "o fiambre num sanduíche branco", ele riu em concordância, chamando a isto o "compromisso histórico", que outros consideraram traição. Contudo, De Klerk é que foi mais directamente ao ponto. Eu lhe disse que ele e os seus amigos brancos haviam obtido o que queriam e que para a maioria a pobreza não havia mudado. "Não será isto a continuação do apartheid por outros meios?", perguntei. A sorrir através de uma nuvem de fumo do cigarro, ele respondeu: "Você deve entender, já alcançámos um vasto consenso sobre muitas coisas".
A queda de Thabo Mbeki não é senão a queda de um sistema económico fracassado que enriqueceu os poucos e rejeitou os pobres. Os "neoliberais" do ANC por vezes pareciam envergonhados de que a África do Sul, sob muitos aspectos, fosse um país do terceiro mundo. "Procuramos estabelecer", disse Trevor Manuel , "um ambiente no qual floresçam vencedores". Jactando-se de um défice tão baixo que havia caído ao nível de economias europeias, ele e seus amigos "moderados" distanciaram-se da economia pública que a maioria dos sul africanos queria e necessitava desesperadamente. Eles aspiraram o ar quente do discurso corporativo. Ouviram o Banco Mundial e o FMI, e logo estavam a ser convidados para a mesa principal do Fórum Económico de Davos e para reuniões do G-8, onde as "proezas macroeconómicas" eram louvadas como um modelo. Em 2001, George Soros colocou isto um tanto mais directamente. "A África do Sul", disse ele, "agora está nas mãos do capital internacional".
Serviços públicos caíram atrás das privatizações, e a baixa inflação predominou sobre os baixos salários e o alto desemprego, conhecido como "flexibilidade laboral". Segundo o ANC, a riqueza gerada por uma nova classe negra de negócios "gotejaria" para baixo. Aconteceu o oposto. Conhecidos sardonicamentes como os wabenzi porque os seus veículos preferidos são Mercedes Benz cor de prata, os capitalistas negros demonstraram que podiam ser tão brutais quanto os seus antigos mestres brancos nas relações laborais, no compadrio e na busca do lucro. Centenas de milhares de empregos foram perdidos em fusões e "reestruturações" e pessoas comuns repelidas para a "economia informal". Entre 1995 e 2000, a maioria dos sul africanos caiu ainda mais profundamente na pobreza. Quando o fosso entre brancos ricos e negros recém enriquecidos começou a fechar, o abismo entre a "classe média" negra e a maioria aprofundou-se mais do que nunca.
Em 1996, o gabinete do Programa de Reconstrução e Desenvolvimento (RDP) foi tranquilamente encerrado, marcando o fim dos "compromisso solene" do ANC e da "promessa inquebrantável" de colocar a maioria em primeiro lugar. Dois anos depois, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento descreveu o substitutivo, GEAR, basicamente como "não diferente" da estratégia económica do regime do apartheid na década de 1980.
Isto parecia surrealista. Seria a África do Sul um país de tecnocratas treinados em Harvard a abrir os espumantes diante das mais recentes classificações de crédito da Duff & Phelps em Nova York? Ou era um país de homens, mulheres e crianças profundamente empobrecidos sem água limpa e saneamento básico, cujos recursos infinitos estavam a ser reprimidos e desperdiçados, mais uma vez? As perguntas constituíam um embaraço quando o governo do NAC endossou o acordo do regime do apartheid para aderir ao General Agreement on Tariffs and Trade (GATT), o qual efectivamente submeteu a sua independência económica, reembolsou os US$25 mil milhões de dívida externa herdada da era do apartheid. Incrivelmente, Manuel permitiu mesmo que as maiores companhias da África do Sul transferissem suas finanças para fora e se estabelecessem em Londres.
Thabo Mbeki certamente acelerou a sua morte política com suas estranhas censuras sobre o HIV/Sida, sua famosa indiferença e isolamento e os negócios corruptos que pareciam nunca dele se afastar. Foi a premeditada catástrofe económica e social do ANC que ele viu incorrectamente. Para mais provas, vejam-se os Estados Unidos de hoje e os fumos ruinosos do modelo "neoliberal" tão acarinhado pelos líderes do ANC. E cuidado com aqueles sucessores de Mbeki agora a afirmar que, ao contrário dele, eles têm os interesses do povo no coração enquanto continuam as mesmas políticas desagregadoras. A África do Sul merece melhor.
02/Outubro/2008
Primeira publicação no Mail & Guardian, de Johannesburg. O original encontra-se em http://www.johnpilger.com/page.asp?partid=505 Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
06/Out/08
por John Pilger [*]
A ruptura política na África do Sul está a ser apresentada ao mundo exterior como a tragédia pessoal e a humilhação de um homem, Thabo Mbeki . Isto lembra a beatificação de Nelson Mandela no momento da morte do apartheid. Não se trata de reduzir o poder das personalidades, mas a importância das mesmas muitas vezes serve desviar a atenção das forças históricas que elas servem e administram. Frantz Fanon tinha isto em mente quando, em Os condenados da Terra, descreveu a "missão histórica" de grande parte da classe dominante pós colonial como "a de intermediário [cuja] missão nada tem a ver com a transformação da nação: ela consiste, prosaicamente, de ser a linha de transmissão entre a nação e um capitalismo, desenfreado embora camuflado".
A queda de Mbeki e o colapso da Wall Street são acontecimentos concorrentes e relacionados, assim como previsíveis. Remontemos a 1985 quando o mercado de acções de Johannesburg entrou em crash, o regime do apartheid incumpriu sua dívida crescente e os chefes do capital sul-africano ganharam medo. Em Setembro daquele ano um grupo conduzido por Gavin Relly, presidente da Anglo American Corporation, encontrou-se com Oliver Tambo , o presidente do ANC, e outros responsáveis da resistência, na Zâmbia. A sua mensagem urgente era ser possível uma "transição" do apartheid para uma democracia liberal governada por negros apenas se a "ordem" e a "estabilidade" fossem garantidas. Tratava-se de eufemismos para um estado de "mercado livre" em que a justiça social não seria prioritária.
Reuniões secretas entre o ANC e membros eminentes da elite afrikaner seguiram-se numa mansão, Mells Park House, na Inglaterra. As motivações primárias eram daqueles que haviam apoiado e lucrado com o apartheid – tais como o gigante mineiro britânico Consolidated Goldfields, o qual pagou a conta dos vinhos finos e do malt whisky deglutido junto à lareira da Mells Park House. Seu objectivo era que o regime de Pretória – para dividir o ANC entre os "moderados", na maior parte exilados, com quem podiam "negociar" (Tambo, Mbeki e Mandela) e a maioria que consistia naqueles que resistiam nas cidades, conhecidos como os UDF.
O assunto era urgente. Quando F.W. De Klerk chegou ao poder em 1989, o capital estava numa tal hemorragia que as reservas externas do país mal cobririam cinco semanas de importações. Ficheiros desclassificados que vi em Washington deixavam pouca dúvida de que De Klerk estava em vias de salvar o capitalismo na África do Sul. Ele não poderia conseguir isto sem um ANC acomodatício.
Nelson Mandela criticou isto. Tendo apoiado a promessa do ANC de assumir o comando das minas e outras indústrias monopolistas – "uma mudança ou modificação das nossas opiniões a este respeito é inconcebível" – Mandela falou com uma voz diferente nas sua primeiras viagens triunfais ao exterior. "O ANC", disse ele em Nova York, "reintroduzirá o mercado na África do Sul". O acordo, com efeito, era que brancos retivessem o controle económico em troca do governo da maioria negra: a "coroa do poder político" para a "jóia da economia sul africana", como disse Ali Mazrui . Quando, em 1997, contei a Mbeki que um homem de negócios negro descrevera-se como "o fiambre num sanduíche branco", ele riu em concordância, chamando a isto o "compromisso histórico", que outros consideraram traição. Contudo, De Klerk é que foi mais directamente ao ponto. Eu lhe disse que ele e os seus amigos brancos haviam obtido o que queriam e que para a maioria a pobreza não havia mudado. "Não será isto a continuação do apartheid por outros meios?", perguntei. A sorrir através de uma nuvem de fumo do cigarro, ele respondeu: "Você deve entender, já alcançámos um vasto consenso sobre muitas coisas".
A queda de Thabo Mbeki não é senão a queda de um sistema económico fracassado que enriqueceu os poucos e rejeitou os pobres. Os "neoliberais" do ANC por vezes pareciam envergonhados de que a África do Sul, sob muitos aspectos, fosse um país do terceiro mundo. "Procuramos estabelecer", disse Trevor Manuel , "um ambiente no qual floresçam vencedores". Jactando-se de um défice tão baixo que havia caído ao nível de economias europeias, ele e seus amigos "moderados" distanciaram-se da economia pública que a maioria dos sul africanos queria e necessitava desesperadamente. Eles aspiraram o ar quente do discurso corporativo. Ouviram o Banco Mundial e o FMI, e logo estavam a ser convidados para a mesa principal do Fórum Económico de Davos e para reuniões do G-8, onde as "proezas macroeconómicas" eram louvadas como um modelo. Em 2001, George Soros colocou isto um tanto mais directamente. "A África do Sul", disse ele, "agora está nas mãos do capital internacional".
Serviços públicos caíram atrás das privatizações, e a baixa inflação predominou sobre os baixos salários e o alto desemprego, conhecido como "flexibilidade laboral". Segundo o ANC, a riqueza gerada por uma nova classe negra de negócios "gotejaria" para baixo. Aconteceu o oposto. Conhecidos sardonicamentes como os wabenzi porque os seus veículos preferidos são Mercedes Benz cor de prata, os capitalistas negros demonstraram que podiam ser tão brutais quanto os seus antigos mestres brancos nas relações laborais, no compadrio e na busca do lucro. Centenas de milhares de empregos foram perdidos em fusões e "reestruturações" e pessoas comuns repelidas para a "economia informal". Entre 1995 e 2000, a maioria dos sul africanos caiu ainda mais profundamente na pobreza. Quando o fosso entre brancos ricos e negros recém enriquecidos começou a fechar, o abismo entre a "classe média" negra e a maioria aprofundou-se mais do que nunca.
Em 1996, o gabinete do Programa de Reconstrução e Desenvolvimento (RDP) foi tranquilamente encerrado, marcando o fim dos "compromisso solene" do ANC e da "promessa inquebrantável" de colocar a maioria em primeiro lugar. Dois anos depois, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento descreveu o substitutivo, GEAR, basicamente como "não diferente" da estratégia económica do regime do apartheid na década de 1980.
Isto parecia surrealista. Seria a África do Sul um país de tecnocratas treinados em Harvard a abrir os espumantes diante das mais recentes classificações de crédito da Duff & Phelps em Nova York? Ou era um país de homens, mulheres e crianças profundamente empobrecidos sem água limpa e saneamento básico, cujos recursos infinitos estavam a ser reprimidos e desperdiçados, mais uma vez? As perguntas constituíam um embaraço quando o governo do NAC endossou o acordo do regime do apartheid para aderir ao General Agreement on Tariffs and Trade (GATT), o qual efectivamente submeteu a sua independência económica, reembolsou os US$25 mil milhões de dívida externa herdada da era do apartheid. Incrivelmente, Manuel permitiu mesmo que as maiores companhias da África do Sul transferissem suas finanças para fora e se estabelecessem em Londres.
Thabo Mbeki certamente acelerou a sua morte política com suas estranhas censuras sobre o HIV/Sida, sua famosa indiferença e isolamento e os negócios corruptos que pareciam nunca dele se afastar. Foi a premeditada catástrofe económica e social do ANC que ele viu incorrectamente. Para mais provas, vejam-se os Estados Unidos de hoje e os fumos ruinosos do modelo "neoliberal" tão acarinhado pelos líderes do ANC. E cuidado com aqueles sucessores de Mbeki agora a afirmar que, ao contrário dele, eles têm os interesses do povo no coração enquanto continuam as mesmas políticas desagregadoras. A África do Sul merece melhor.
02/Outubro/2008
Primeira publicação no Mail & Guardian, de Johannesburg. O original encontra-se em http://www.johnpilger.com/page.asp?partid=505 Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
06/Out/08
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Doutrina do Choque por Naomi Klein
DOUTRINA DO CHOQUE por Naomi Klein
Capitalismo de desastre: estado de extorsão
Invadir países para apoderar-se de seus recursos naturais é ilegal, segundo a Convenção de Genebra. Isto significa que a gigantesca tarefa de reconstruir a infra-estrutura do Iraque é responsabilidade financeira dos invasores. Em vez disso, o Iraque está obrigado a vender 75% de seu patrimônio nacional para pagar as contas de sua própria invasão e ocupação ilegais. Os capitalistas do desastre têm estado ocupados. A análise é da Naomi Klein.
Desde que o barril de petróleo ultrapassou os 140 dólares, até os interlocutores de direita mais furibundos são forçados a demonstrar seu credo populista dedicando uma parte de seus programas a massacrar as companhias petrolíferas. Alguns foram tão longe a ponto de convidar-me para uma conversa amigável sobre um insidioso novo fenômeno: “o capitalismo do desastre”. A coisa marcha bem... até que começa a se torcer. Por exemplo, o interlocutor “conservador independente” Jerry Doyle e eu mantínhamos uma conversa perfeitamente amigável sobre as turvas companhias seguradoras e a inépcia dos políticos, quando ocorreu o seguinte: “Acho que há um sistema para baratear rapidamente os preços”, anunciou Doyle. “Investimos 650 bilhões de dólares para libertar uma nação de 25 milhões de pessoas. Será que já não é hora de reclamarmos um pouco de petróleo em troca? Deveria haver uma fila de caminhões-tanque, um atrás do outro, formando um congestionamento em direção ao Túnel Lincoln, o malcheiroso Túnel Lincoln, bem na hora do rush, cada um deles com um bilhete de agradecimento do governo iraquiano... Por que não vamos e simplesmente pegamos o petróleo? Nós o ganhamos libertando um país. Posso resolver o problema do preço do petróleo em dez dias em vez de em dez anos.” O plano de Doyle tinha alguns problemas, é claro. O primeiro é que estava descrevendo o maior latrocínio da história mundial. O segundo é que chegava tarde demais: “nós” já estamos roubando o petróleo do Iraque, ou pelo menos estamos na iminência de fazê-lo. Já se passaram dez meses da publicação do meu livro, Doutrina do Choque: a ascensão do capitalismo de desastre, no qual argumento que o método preferido para reformar o mundo de acordo com os interesses das corporações multinacionais é, atualmente, o de explorar sistematicamente o estado de medo e desorientação que acompanha a população em momentos de choque e crise. Agora que o mundo está sendo sacudido por múltiplos choques, parece um bom momento para ver como está sendo aplicada essa estratégia. Os capitalistas do desastre têm estado ocupados: dos bombeiros privados que atuaram nos incêndios do norte da Califórnia, passando pelos grileiros após o ciclone Burma, à nova lei sobre moradia abrindo caminho no Congresso. A lei diz pouco no que se refere às moradias acessíveis, desloca o peso do pagamento das hipotecas para os contribuintes e garante que os bancos que fizeram maus empréstimos recebam alguma coisa por eles. Não é de admirar que nos corredores do Congresso seja conhecida como “plano Credit Suisse”, em homenagem a um dos bancos que, generosamente, propôs essa lei.
Capitalismo de desastre: estado de extorsão
Invadir países para apoderar-se de seus recursos naturais é ilegal, segundo a Convenção de Genebra. Isto significa que a gigantesca tarefa de reconstruir a infra-estrutura do Iraque é responsabilidade financeira dos invasores. Em vez disso, o Iraque está obrigado a vender 75% de seu patrimônio nacional para pagar as contas de sua própria invasão e ocupação ilegais. Os capitalistas do desastre têm estado ocupados. A análise é da Naomi Klein.
Desde que o barril de petróleo ultrapassou os 140 dólares, até os interlocutores de direita mais furibundos são forçados a demonstrar seu credo populista dedicando uma parte de seus programas a massacrar as companhias petrolíferas. Alguns foram tão longe a ponto de convidar-me para uma conversa amigável sobre um insidioso novo fenômeno: “o capitalismo do desastre”. A coisa marcha bem... até que começa a se torcer. Por exemplo, o interlocutor “conservador independente” Jerry Doyle e eu mantínhamos uma conversa perfeitamente amigável sobre as turvas companhias seguradoras e a inépcia dos políticos, quando ocorreu o seguinte: “Acho que há um sistema para baratear rapidamente os preços”, anunciou Doyle. “Investimos 650 bilhões de dólares para libertar uma nação de 25 milhões de pessoas. Será que já não é hora de reclamarmos um pouco de petróleo em troca? Deveria haver uma fila de caminhões-tanque, um atrás do outro, formando um congestionamento em direção ao Túnel Lincoln, o malcheiroso Túnel Lincoln, bem na hora do rush, cada um deles com um bilhete de agradecimento do governo iraquiano... Por que não vamos e simplesmente pegamos o petróleo? Nós o ganhamos libertando um país. Posso resolver o problema do preço do petróleo em dez dias em vez de em dez anos.” O plano de Doyle tinha alguns problemas, é claro. O primeiro é que estava descrevendo o maior latrocínio da história mundial. O segundo é que chegava tarde demais: “nós” já estamos roubando o petróleo do Iraque, ou pelo menos estamos na iminência de fazê-lo. Já se passaram dez meses da publicação do meu livro, Doutrina do Choque: a ascensão do capitalismo de desastre, no qual argumento que o método preferido para reformar o mundo de acordo com os interesses das corporações multinacionais é, atualmente, o de explorar sistematicamente o estado de medo e desorientação que acompanha a população em momentos de choque e crise. Agora que o mundo está sendo sacudido por múltiplos choques, parece um bom momento para ver como está sendo aplicada essa estratégia. Os capitalistas do desastre têm estado ocupados: dos bombeiros privados que atuaram nos incêndios do norte da Califórnia, passando pelos grileiros após o ciclone Burma, à nova lei sobre moradia abrindo caminho no Congresso. A lei diz pouco no que se refere às moradias acessíveis, desloca o peso do pagamento das hipotecas para os contribuintes e garante que os bancos que fizeram maus empréstimos recebam alguma coisa por eles. Não é de admirar que nos corredores do Congresso seja conhecida como “plano Credit Suisse”, em homenagem a um dos bancos que, generosamente, propôs essa lei.
O desastre do Iraque: “se quebrar, paga”
Mas estes casos de capitalismo do desastre são bastante amadores se comparados ao que está sendo feito no Ministério do Petróleo iraquiano. Começou com a adjudicação de contratos fora de leilão à ExxonMobil, Chevron, Shell, BP e Total (ainda não foram assinados, mas já estão valendo). Pagar às multinacionais pela sua bagagem técnica não é algo raro. O que é estranho é que tais contratos quase invariavelmente sejam destinados às empresas petrolíferas de serviço e não às grandes empresas petrolíferas cujo trabalho é a exploração e destes recursos combustíveis e liberadores de dióxido de carbono. Como aponta o especialista em petróleo londrino Greg Muttitt, os contratos só têm sentido no contexto das informações de que as grandes companhias petrolíferas insistiram no direito de poder recusar contratos subseqüentes outorgados para gerenciar e produzir nos campos de petróleo iraquianos. Em outras palavras, embora outras companhias poderão fazer lances pelos contratos futuros, aquelas sempre vão vencer. Uma semana depois que os acordos de serviços fora de leilão foram anunciados, o mundo pôde ver o preço real do petróleo. Depois de anos pressionando o Iraque pelas costas da opinião pública, o país repentinamente abriu aos investidores seis de seus maiores campos petrolíferos, que reúnem em conjunto quase metade de suas reservas. De acordo com o ministro do Petróleo iraquiano, contratos a longo prazo começarão a ser assinados durante este ano. Apesar de que ostensivamente estarão sob controle da Companhia Nacional de Petróleo Iraquiana (CNPI), as empresas estrangeiras manterão 75% do valor dos contratos, deixando os 25% restantes para seus sócios iraquianos. Este tipo de porcentagem não tem precedentes nos estados árabes e persas ricos em petróleo, nos quais o controle majoritariamente nacional do petróleo foi uma vitória decisiva nas lutas anticolonialistas. Segundo Muttitt, a suposição até agora era que as multinacionais estrangeiras trariam desenvolvimento aos novos campos petrolíferos do Iraque, e não que tomariam para si aqueles cuja produção já está em marcha e, conseqüentemente, requerem um suporte técnico mínimo. “A política era a de destinar esses campos em sua totalidade à Companhia Nacional de Petróleo Iraquiana”, explicou-me. Esta mudança supõe uma inversão daquela política, uma vez que dá à CNPI apenas 25%, em vez dos 100% planejados. Assim, o que faz com que contratos péssimos como esses sejam possíveis no Iraque, um país que tanto sofreu? Ironicamente, o sofrimento do Iraque —sua crise sem fim— é a base para um acordo que ameaça drenar de seu tesouro nacional sua principal fonte de recursos. A lógica é como segue: a indústria petrolífera do Iraque precisa de especialistas estrangeiros porque os anos de sanções punitivas privaram-na de nova tecnologia e a invasão, assim como a violência que a seguiu, degradaram-na ainda mais. E o Iraque precisa com urgência produzir mais petróleo. Por que? Por causa da guerra, mais uma vez.
O país está em ruínas e os milhares de milhões repartidos em contratos fora de leilão entre as companhias ocidentais não conseguiram reconstruir o país. Aí é onde entram os novos contratos fora de leilão: por essa via conseguirão arrecadar mais dinheiro, mas o Iraque tornou-se um lugar tão traiçoeiro que as grande companhias petrolíferas precisam ser induzidas a assumir o risco de investir. Assim, a invasão do Iraque cria, limpamente, o argumento para o seu saque subseqüente. Muitos dos arquitetos da guerra do Iraque nem sequer se preocupam mais em negar que o petróleo foi o motivo principal da invasão. No programa To the Point, da National Public Radio (Radio Nacional Pública), Fadhil Chalabi, um dos principais conselheiros iraquianos da administração Bush antes da invasão, descreveu recentemente a guerra como um “movimento estratégico dos EUA e do Reino Unido para ter uma presença militar no Golfo com a qual possam garantir, no futuro, as reservas (de petróleo).” Chalabi, que exerceu como vice-ministro do Petróleo e reuniu-se com as companhias petrolíferas antes da invasão, descreveu este movimento como “um objetivo fundamental.” Invadir países para apoderar-se de seus recursos naturais é ilegal, segundo a Convenção de Genebra. Isto significa que a gigantesca tarefa de reconstruir a infra-estrutura do Iraque —incluindo sua infra-estrutura petrolífera— é responsabilidade financeira dos invasores. São eles que deveriam ser forçados a pagar pelos consertos. (É preciso lembrar que o regime de Saddam Hussein pagou 9 bilhões de dólares ao Kuwait como reparações pela invasão do país em 1990.) Em vez disso, o Iraque está obrigado a vender 75% de seu patrimônio nacional para pagar as contas de sua própria invasão e ocupação ilegais.
O choque do preço do petróleo: ou vocês nos dão o Ártico ou nunca voltarão a dirigir.
O Iraque não é o único país envolvido em um assalto petrolífero. A administração Bush está atarefada no trabalho de usar uma crise relacionada —a do aumento do preço do combustível— para reavivar seu velho sonho de perfurar o Refúgio Natural Ártico (Arit. National Wildlife Refuge, ANWR em suas iniciais em inglês). E de perfurar a costa. E também de explorar as reservas de petróleo de esquisto bituminoso da bacia de Green River. “O Congresso tem que enfrentar a dura realidade”, disse George W. Bush em 18 de junho. “A menos que os membros do Congresso estejam dispostos a aceitar os dolorosos preços atuais do combustível, ou talvez ainda mais altos, nossa nação precisa produzir mais petróleo.” Fala o Presidente como Extorquidor-em-Chefe, apontando a cabeça de seu refém (nada menos que o país inteiro) com a bomba de gasolina: ou vocês me dão a ANWR ou todo o mundo terá que passar suas férias no pátio traseiro de casa. O último roubo do presidente-cowboy. Apesar dos adesivos de “Perfure aqui e agora e pague menos”, perfurar na ANWR teria um impacto apenas perceptível nas atuais reservas petrolíferas mundiais, como seus defensores bem sabem. O argumento de que poderia provocar uma redução dos preços do petróleo não está baseado na economia pura e dura, mas na psicanálise de mercado: perfurar “enviaria uma mensagem” aos empresários do petróleo de que ainda resta mais petróleo, e isto faria com que os preços começassem a cair. Seguem dois pontos deste raciocínio. O primeiro é a tentativa de mentalizar os hiperativos empresários sobre o que ocorre realmente no governo da era Bush, inclusive no meio de uma emergência nacional. O segundo, é que nunca vai funcionar. Se há alguma coisa que podemos predizer do recente comportamento do mercado petrolífero é que o preço vai continuar subindo, não importa quantas novas reservas forem anunciadas. Tomem, por exemplo, o enorme boom que está ocorrendo com as famosas reservas de petróleo de esquisto bituminoso de Alberta. Com essas reservas de petróleo bituminoso, conhecidas também como “areias petrolíferas”, ocorre a mesma coisa que com as outras áreas propostas por Bush para perfuração: são próximas e seguras, pois o Tratado para o Livre Comércio na América do Norte (NAFTA) contém uma cláusula que impede o Canadá de cortar o fornecimento para os Estados Unidos. Sem fazer muito barulho, o petróleo destas fontes em grande medida sem explorar tem estado fluindo para o mercado em tal quantidade que agora o Canadá é o maior provedor de petróleo dos Estados Unidos, acima da Arábia Saudita. Entre 2005 e 2007, o Canadá aumentou suas exportações para os Estados Unidos em quase 100 milhões de barris. Apesar do significativo crescimento destas reservas seguras, os preços do petróleo aumentaram durante todo este tempo. O que se esconde por trás da campanha de perfuração da ANWR não é, de fato, senão pura estratégia do choque: a crise do petróleo criou as condições que tornam possível vender uma política antes invendável, mas, evidentemente, altamente lucrativa.
O choque do preço dos alimentos: ou modificação genética ou fome
Estreitamente ligada ao preço do petróleo encontramos a crise alimentar global. Não são apenas os altos preços do petróleo que fazem subir os preços dos alimentos, senão que o boom dos biocombustíveis tornou difusa a fronteira entre comida e combustível, expulsou os agricultores de suas terras e alentou uma especulação desatada. Muitos países latino-americanos têm insistindo em que seja reexaminada a importância dos biocombustíveis como alternativa aos combustíveis fósseis e em que os alimentos sejam reconhecidos como um direito humano e não como uma mercadoria. O subsecretário de Estado dos Estados Unidos, John Negroponte, tem, contudo, outras idéias a esse respeito. No mesmo discurso em que tentava vender o compromisso dos EUA para uma ajuda alimentar de emergência pediu aos países que baixassem suas “restrições à exportação e suas altas tarifas” e que eliminassem “as barreiras para o uso das inovações tecnológicas na produção animal e vegetal, incluindo a biotecnologia.” É preciso reconhecer que esta ameaça era mais sutil que as anteriores, mas a mensagem era clara: os países pobres fariam bem em abrir seus mercados agrícolas aos produtos norte-americanos e às suas sementes geneticamente modificadas. Caso contrário, arriscam-se a perder sua ajuda.
Os cultivos geneticamente modificados apareceram de repente como a panacéia para a crise alimentar, pelo menos segundo o Banco Mundial, o presidente da Comissão Européia —“coragem e vamos ao touro”, disse— e o Primeiro Ministro britânico, Gordon Brown. E, é claro, segundo as empresas do agrobusiness. “Não é possível alimentar o mundo, hoje, sem organismos geneticamente modificados”, declarou recentemente Peter Brabec, presidente da Nestlé, ao Financial Times. O problema com este argumento, pelo menos por enquanto, é que não há provas de que os organismos geneticamente modificados vão aumentar a produção dos cultivos, pelo contrário, parece que a diminuem. Mas se houvesse uma varinha mágica com a qual resolver a crise alimentar global, iríamos querer que estivesse em mãos das Nestlés e Monsantos? Qual seria o preço a pagar para que a usassem? Nos últimos meses, Monsanto, Syngenta e BASF estiveram comprando freneticamente patentes das chamadas sementes “todo-terreno”, um tipo de plantas que podem crescer inclusive na terra castigada pela seca ou salgada pelas inundações. Em outras palavras: plantas modificadas para sobreviver a um futuro de caos climático. Já sabemos até que ponto está disposta a chegar a Monsanto na hora de proteger sua propriedade intelectual, espionando e processando os granjeiros que ousem guardar suas sementes de um ano para o outro. Temos visto como os medicamentos patenteados contra o HIV impedem salvar milhões de pessoas na África subsaariana. Por que os cultivos “todo-terreno” patenteados seriam diferentes? Enquanto isso, entre tanta charlatanice excitante sobre novas tecnologias perfuradoras e genéticas, a administração Bush anunciou uma moratória de até dois anos nos projetos federais de pesquisa em energia solar, devido a, aparentemente, preocupações com o meio ambiente. Estamos chegando perto da fronteira final do capitalismo de desastre. Nossos dirigentes não investem em tecnologias que nos previnam de maneira efetiva de um futuro climaticamente caótico e, em vez disso, decidem trabalhar ombro com ombro justamente com aqueles que maquinam planos cada vez mais endiabrados para aproveitar-se das desgraças alheias. A privatização do petróleo iraquiano, a garantia de um domínio global para plantações modificadas geneticamente, a redução das últimas barreiras comerciais e a abertura das últimas reservas naturais... não faz muito tempo que estes objetivos eram conseguidos um atrás do outro por meio de cordiais acordos comerciais apresentados com o pseudônimo de “globalização”. Agora, essa agenda completamente desacreditada está obrigada a cavalgar sobre as costas de crises cíclicas, vendendo a si mesma como a medicina que curará, de uma vez por todas, a dor do mundo.
* Naomi Klein é autora de numerosos livros, sendo o mais recente The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism. Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores
Fonte: Carta Maior
Quem cala… consente? Por Moésio Rebouças
Quem cala… consente?
Pouco importa as nossas opiniões, as nossas idéias políticas e religiosas, pois a verdade é que o sistema social e econômico em que vivemos se assenta numa espécie de contrato social que nos ultrapassa, e que supostamente, os seus destinatários (todos nós) aceitam.
Mas será mesmo assim?
Será que estamos conscientes das regras do sistema em que vivemos, e que nos são impostas, supostamente com o nosso “consentimento” silencioso?
- Tenho eu consciência que a concorrência e a competição estão na base do nosso sistema social e econômico, e que advêm daí a maior parte dos desesperos e das frustrações para a imensa maioria dos perdedores?
- Tenho eu consciência que sou eu que estou a remunerar os bancos para que eles possam investir os meus salários neles depositados segundo as suas próprias conveniências, e que, por isso, não recebo dividendo algum pelos seus enormes lucros?
- Tenho eu consciência que os bancos me exigem uma pesada taxa de juros ao concederem-me empréstimos, dinheiro esse que, no entanto, pertence aos outros clientes que tinham feito os seus depósitos nesse banco?
- Tenho eu consciência que se usurpa, ou então que se destrói, toneladas de alimentos para que os preços não baixem, em vez de os oferecer às pessoas carentes, ajudando a combater a fome de milhares de indivíduos?
- Tenho eu consciência que é proibida a eutanásia, mas que ao mesmo tempo é admissível a morte lenta das pessoas através da inalação ou ingestão de substâncias tóxicas autorizadas pelos Estados?
- Tenho eu consciência que atualmente no nosso planeta faz-se a guerra para fazer reinar a paz?
- Tenho eu consciência que em nome da paz, os Estados gastam bilhões em armamentos, constituindo, em muitos deles, as despesas do orçamento militar a maior fatia da despesa pública?
- Tenho eu consciência que há conflitos que são artificialmente criados a fim de escoar mais facilmente os stocks de armas e de armamento para assim manter em funcionamento as empresas do complexo militar-industrial?
- Tenho eu consciência da hegemonia do petróleo e do nuclear nas nossas economias contemporâneas, apesar de serem energias extremamente poluidoras?
- Tenho eu consciência de que se divide artificialmente a opinião pública por meio da ilusão de que a luta entre os partidos de direita, do centro e de esquerda é indispensável para o funcionamento do sistema social e econômico em que vivemos?
- Tenho eu consciência que o poder de moldar e formatar a opinião pública, outrora nas mãos das religiões, encontra-se agora entregue aos homens de negócios, não eleitos democraticamente, e predispostos a controlar o poder do Estado em seu benefício?
- Tenho eu consciência que a idéia de felicidade se resume às mensagens que são por toda a parte e constantemente debitadas pela publicidade nos nossos cérebros?
- Tenho eu consciência que nas nossas sociedades atuais, em que vivemos, o valor de uma pessoa se mede pelo tamanho da sua conta bancária, bem assim a sua utilidade estar em função da produtividade que revelar, em vez das suas qualidades pessoais?
- Tenho eu consciência que se paga prodigiosamente aos jogadores de futebol, aos atores, e comparativamente muito menos a outros profissionais que, no entanto, exercem as suas atividades em profissões sociais fundamentais, como sejam, os professores, os educadores sociais, etc?
- Tenho eu consciência que se marginaliza e se lança para a sombra inúmeras pessoas de idade cuja experiência poderia ser, todavia, bem útil para todos?
- Tenho eu consciência que me são apresentadas diariamente notícias negativas e aterradoras de forma a poder apreciar melhor até que ponto a minha situação é vantajosa, e de quanto eu tenho a ganhar só pelo fato de viver numa sociedade ocidental?
- Tenho eu consciência que os banqueiros, os industriais, os militares e os políticos se reúnem amiúde para tomar decisões que têm importantes implicações para o planeta e para todos nós?
- Tenho eu consciência de consumir produtos tratados com hormônios sem que me seja facultada informação a esse respeito?
- Tenho eu consciência que os cultivos de produtos transgênicos se expandem pelo mundo a fora, permitindo que os grandes grupos econômicos registrem como sua propriedade as características dos seres vivos, apoderando-se quer da atividades produtivas quer mesmo das condições em que vivemos?
- Tenho eu consciência que as empresas multinacionais se abstêm de aplicar os progressos técnicos e sociais próprios dos países ocidentais nos países periféricos, ditos subdesenvolvidos?
- Tenho eu consciência que numerosas empresas farmacêuticas e indústrias do sector agro-alimentar vendem para os países ditos subdesenvolvidos bens e produtos impróprios, ou seja, em condições e com substâncias proibidas nos países capitalistas desenvolvidos?
- Tenho eu consciência que a Natureza tenha demorado milhões de anos para criar um ser humano, e que hoje os indivíduos se entreguem a passatempos destruidores do planeta?
- Tenho eu consciência da destruição de numerosas florestas e da rápida extinção de espécies de peixes nos oceanos?
- Tenho eu consciência do aumento da poluição industrial, da dispersão de peixes contendo elementos químicos e radioativos na natureza?
- Tenho eu consciência da utilização de toda a espécie de aditivos químicos na alimentação?
- Tenho eu consciência que na maior parte das vezes não levanto nenhuma questão, que fecho os olhos para tudo isso, e que não penso sequer em nenhuma solução concreta para qualquer um destes problemas?
- Tenho eu consciência da viseira e das ilusões que colocam à minha frente para me impedirem de ver a simples realidade do mundo?
- Tenho eu finalmente consciência que o mundo se constrói à minha imagem e semelhança, e que ao tratar de mim, eu estou, por via das minhas opções, a agir automaticamente sobre o mundo e a sociedade?
Se, de fato, eu tiver consciência de tudo isso, e não fizer nada para mudar o atual estado de coisas, então é sinal que não sou mais que um pateta inconsciente numa sociedade em clara derrapagem…
Moésio Rebouças 27 de setembro de 2008
moesioreboucas@yahoo.com.br
Pouco importa as nossas opiniões, as nossas idéias políticas e religiosas, pois a verdade é que o sistema social e econômico em que vivemos se assenta numa espécie de contrato social que nos ultrapassa, e que supostamente, os seus destinatários (todos nós) aceitam.
Mas será mesmo assim?
Será que estamos conscientes das regras do sistema em que vivemos, e que nos são impostas, supostamente com o nosso “consentimento” silencioso?
- Tenho eu consciência que a concorrência e a competição estão na base do nosso sistema social e econômico, e que advêm daí a maior parte dos desesperos e das frustrações para a imensa maioria dos perdedores?
- Tenho eu consciência que sou eu que estou a remunerar os bancos para que eles possam investir os meus salários neles depositados segundo as suas próprias conveniências, e que, por isso, não recebo dividendo algum pelos seus enormes lucros?
- Tenho eu consciência que os bancos me exigem uma pesada taxa de juros ao concederem-me empréstimos, dinheiro esse que, no entanto, pertence aos outros clientes que tinham feito os seus depósitos nesse banco?
- Tenho eu consciência que se usurpa, ou então que se destrói, toneladas de alimentos para que os preços não baixem, em vez de os oferecer às pessoas carentes, ajudando a combater a fome de milhares de indivíduos?
- Tenho eu consciência que é proibida a eutanásia, mas que ao mesmo tempo é admissível a morte lenta das pessoas através da inalação ou ingestão de substâncias tóxicas autorizadas pelos Estados?
- Tenho eu consciência que atualmente no nosso planeta faz-se a guerra para fazer reinar a paz?
- Tenho eu consciência que em nome da paz, os Estados gastam bilhões em armamentos, constituindo, em muitos deles, as despesas do orçamento militar a maior fatia da despesa pública?
- Tenho eu consciência que há conflitos que são artificialmente criados a fim de escoar mais facilmente os stocks de armas e de armamento para assim manter em funcionamento as empresas do complexo militar-industrial?
- Tenho eu consciência da hegemonia do petróleo e do nuclear nas nossas economias contemporâneas, apesar de serem energias extremamente poluidoras?
- Tenho eu consciência de que se divide artificialmente a opinião pública por meio da ilusão de que a luta entre os partidos de direita, do centro e de esquerda é indispensável para o funcionamento do sistema social e econômico em que vivemos?
- Tenho eu consciência que o poder de moldar e formatar a opinião pública, outrora nas mãos das religiões, encontra-se agora entregue aos homens de negócios, não eleitos democraticamente, e predispostos a controlar o poder do Estado em seu benefício?
- Tenho eu consciência que a idéia de felicidade se resume às mensagens que são por toda a parte e constantemente debitadas pela publicidade nos nossos cérebros?
- Tenho eu consciência que nas nossas sociedades atuais, em que vivemos, o valor de uma pessoa se mede pelo tamanho da sua conta bancária, bem assim a sua utilidade estar em função da produtividade que revelar, em vez das suas qualidades pessoais?
- Tenho eu consciência que se paga prodigiosamente aos jogadores de futebol, aos atores, e comparativamente muito menos a outros profissionais que, no entanto, exercem as suas atividades em profissões sociais fundamentais, como sejam, os professores, os educadores sociais, etc?
- Tenho eu consciência que se marginaliza e se lança para a sombra inúmeras pessoas de idade cuja experiência poderia ser, todavia, bem útil para todos?
- Tenho eu consciência que me são apresentadas diariamente notícias negativas e aterradoras de forma a poder apreciar melhor até que ponto a minha situação é vantajosa, e de quanto eu tenho a ganhar só pelo fato de viver numa sociedade ocidental?
- Tenho eu consciência que os banqueiros, os industriais, os militares e os políticos se reúnem amiúde para tomar decisões que têm importantes implicações para o planeta e para todos nós?
- Tenho eu consciência de consumir produtos tratados com hormônios sem que me seja facultada informação a esse respeito?
- Tenho eu consciência que os cultivos de produtos transgênicos se expandem pelo mundo a fora, permitindo que os grandes grupos econômicos registrem como sua propriedade as características dos seres vivos, apoderando-se quer da atividades produtivas quer mesmo das condições em que vivemos?
- Tenho eu consciência que as empresas multinacionais se abstêm de aplicar os progressos técnicos e sociais próprios dos países ocidentais nos países periféricos, ditos subdesenvolvidos?
- Tenho eu consciência que numerosas empresas farmacêuticas e indústrias do sector agro-alimentar vendem para os países ditos subdesenvolvidos bens e produtos impróprios, ou seja, em condições e com substâncias proibidas nos países capitalistas desenvolvidos?
- Tenho eu consciência que a Natureza tenha demorado milhões de anos para criar um ser humano, e que hoje os indivíduos se entreguem a passatempos destruidores do planeta?
- Tenho eu consciência da destruição de numerosas florestas e da rápida extinção de espécies de peixes nos oceanos?
- Tenho eu consciência do aumento da poluição industrial, da dispersão de peixes contendo elementos químicos e radioativos na natureza?
- Tenho eu consciência da utilização de toda a espécie de aditivos químicos na alimentação?
- Tenho eu consciência que na maior parte das vezes não levanto nenhuma questão, que fecho os olhos para tudo isso, e que não penso sequer em nenhuma solução concreta para qualquer um destes problemas?
- Tenho eu consciência da viseira e das ilusões que colocam à minha frente para me impedirem de ver a simples realidade do mundo?
- Tenho eu finalmente consciência que o mundo se constrói à minha imagem e semelhança, e que ao tratar de mim, eu estou, por via das minhas opções, a agir automaticamente sobre o mundo e a sociedade?
Se, de fato, eu tiver consciência de tudo isso, e não fizer nada para mudar o atual estado de coisas, então é sinal que não sou mais que um pateta inconsciente numa sociedade em clara derrapagem…
Moésio Rebouças 27 de setembro de 2008
moesioreboucas@yahoo.com.br
Entrevista: Eric Hobsbawn
A crise do capitalismo e a importância atual de Marx
Em entrevista a Marcello Musto, o historiador Eric Hobsbawm analisa a atualidade da obra de Marx e o renovado interesse que vem despertando nos últimos anos, mais ainda agora após a nova crise de Wall Street. E fala sobre a necessidade de voltar a ler o pensador alemão: “Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista”.
Marcello Musto - Sin Permiso
Em entrevista a Marcello Musto, o historiador Eric Hobsbawm analisa a atualidade da obra de Marx e o renovado interesse que vem despertando nos últimos anos, mais ainda agora após a nova crise de Wall Street. E fala sobre a necessidade de voltar a ler o pensador alemão: “Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista”.
Eric Hobsbawm é considerado um dos maiores historiadores vivos. É presidente do Birbeck College (London University) e professor emérito da New School for Social Research (Nova Iorque). Entre suas muitas obras, encontra-se a trilogia acerca do “longo século XIX”: “A Era da Revolução: Europa 1789-1848” (1962); “A Era do Capital: 1848-1874” (1975); “A Era do Império: 1875-1914 (1987) e o livro “A Era dos Extremos: o breve século XX, 1914-1991 (1994), todos traduzidos em vários idiomas.
Entrevistamos o historiador por ocasião da publicação do livro “Karl Marx’s Grundrisse. Foundations of the Critique of Political Economy 150 Years Later” (Os Manuscritos de Karl Marx. Elementos fundamentais para a Crítica da Economia Política, 150 anos depois).
Nesta conversa, abordamos o renovado interesse que os escritos de Marx vêm despertando nos últimos anos e mais ainda agora após a nova crise de Wall Street. Nosso colaborador Marcello Musto entrevistou Hobsbawm para Sin Permiso.
Marcello Musto: Professor Hobsbawm, duas décadas depois de 1989, quando foi apressadamente relegado ao esquecimento, Karl Marx regressou ao centro das atenções. Livre do papel de intrumentum regni que lhe foi atribuído na União Soviética e das ataduras do “marxismo-leninismo”, não só tem recebido atenção intelectual pela nova publicação de sua obra, como também tem sido objeto de crescente interesse. Em 2003, a revista francesa Nouvel Observateur dedicou um número especial a Marx, com um título provocador: “O pensador do terceiro milênio?”. Um ano depois, na Alemanha, em uma pesquisa organizada pela companhia de televisão ZDF para estabelecer quem eram os alemães mais importantes de todos os tempos, mais de 500 mil espectadores votaram em Karl Marx, que obteve o terceiro lugar na classificação geral e o primeiro na categoria de “relevância atual”.
Em 2005, o semanário alemão Der Spiegel publicou uma matéria especial que tinha como título “Ein Gespenst Kehrt zurük” (A volta de um espectro), enquanto os ouvintes do programa “In Our Time” da rádio 4, da BBC, votavam em Marx como o maior filósofo de todos os tempos. Em uma conversa com Jacques Attali, recentemente publicada, você disse que, paradoxalmente, “são os capitalistas, mais que outros, que estão redescobrindo Marx” e falou também de seu assombro ao ouvir da boca do homem de negócios e político liberal, George Soros, a seguinte frase: “Ando lendo Marx e há muitas coisas interessantes no que ele diz”. Ainda que seja débil e mesmo vago, quais são as razões para esse renascimento de Marx? É possível que sua obra seja considerada como de interesse só de especialistas e intelectuais, para ser apresentada em cursos universitários como um grande clássico do pensamento moderno que não deveria ser esquecido? Ou poderá surgir no futuro uma nova “demanda de Marx”, do ponto de vista político?
Eric Hobsbawm: Há um indiscutível renascimento do interesse público por Marx no mundo capitalista, com exceção, provavelmente, dos novos membros da União Européia, do leste europeu. Este renascimento foi provavelmente acelerado pelo fato de que o 150° aniversário da publicação do Manifesto Comunista coincidiu com uma crise econômica internacional particularmente dramática em um período de uma ultra-rápida globalização do livre-mercado.
Marx previu a natureza da economia mundial no início do século XXI, com base na análise da “sociedade burguesa”, cento e cinqüenta anos antes. Não é surpreendente que os capitalistas inteligentes, especialmente no setor financeiro globalizado, fiquem impressionados com Marx, já que eles são necessariamente mais conscientes que outros sobre a natureza e as instabilidades da economia capitalista na qual eles operam.
A maioria da esquerda intelectual já não sabe o que fazer com Marx. Ela foi desmoralizada pelo colapso do projeto social-democrata na maioria dos estados do Atlântico Norte, nos anos 1980, e pela conversão massiva dos governos nacionais à ideologia do livre mercado, assim como pelo colapso dos sistemas políticos e econômicos que afirmavam ser inspirados por Marx e Lênin. Os assim chamados “novos movimentos sociais”, como o feminismo, tampouco tiveram uma conexão lógica com o anti-capitalismpo (ainda que, individualmente, muitos de seus membros possam estar alinhados com ele) ou questionaram a crença no progresso sem fim do controle humano sobre a natureza que tanto o capitalismo como o socialismo tradicional compartilharam. Ao mesmo tempo, o “proletariado”, dividido e diminuído, deixou de ser crível como agente histórico da transformação social preconizada por Marx. Devemos levar em conta também que, desde 1968, os mais proeminentes movimentos radicais preferiram a ação direta não necessariamente baseada em muitas leituras e análises teóricas. Claro, isso não significa que Marx tenha deixado de ser considerado como um grande clássico e pensador, ainda que, por razões políticas, especialmente em países como França e Itália, que já tiveram poderosos Partidos Comunistas, tenha havido uma apaixonada ofensiva intelectual contra Marx e as análises marxistas, que provavelmente atingiu seu ápice nos anos oitenta e noventa. Há sinais agora de que a água retomará seu nível.
Marcello Musto: Ao longo de sua vida, Marx foi um agudo e incansável investigador, que percebeu e analisou melhor do que ninguém em seu tempo o desenvolvimento do capitalismo em escala mundial. Ele entendeu que o nascimento de uma economia internacional globalizada era inerente ao modo capitalista de produção e previu que este processo geraria não somente o crescimento e prosperidade alardeados por políticos e teóricos liberais, mas também violentos conflitos, crises econômicas e injustiça social generalizada. Na última década, vimos a crise financeira do leste asiático, que começou no verão de 1997; a crise econômica Argentina de 1999-2002 e, sobretudo, a crise dos empréstimos hipotecários que começou nos Estados Unidos em 2006 e agora tornou-se a maior crise financeira do pós-guerra. É correto dizer, então, que o retorno do interesse pela obra de Marx está baseado na crise da sociedade capitalista e na capacidade dele ajudar a explicar as profundas contradições do mundo atual?
Eric Hobsbawm: Se a política da esquerda no futuro será inspirada uma vez mais nas análises de Marx, como ocorreu com os velhos movimentos socialistas e comunistas, isso dependerá do que vai acontecer no mundo capitalista. Isso se aplica não somente a Marx, mas à esquerda considerada como um projeto e uma ideologia política coerente. Posto que, como você diz corretamente, a recuperação do interesse por Marx está consideravelmente – eu diria, principalmente – baseado na atual crise da sociedade capitalista, a perspectiva é mais promissora do que foi nos anos noventa. A atual crise financeira mundial, que pode transformar-se em uma grande depressão econômica nos EUA, dramatiza o fracasso da teologia do livre mercado global descontrolado e obriga, inclusive o governo norte-americano, a escolher ações públicas esquecidas desde os anos trinta. As pressões políticas já estão debilitando o compromisso dos governos neoliberais em torno de uma globalização descontrolada, ilimitada e desregulada. Em alguns casos, como a China, as vastas desigualdades e injustiças causadas por uma transição geral a uma economia de livre mercado, já coloca problemas importantes para a estabilidade social e mesmo dúvidas nos altos escalões de governo. É claro que qualquer “retorno a Marx” será essencialmente um retorno à análise de Marx sobre o capitalismo e seu lugar na evolução histórica da humanidade – incluindo, sobretudo, suas análises sobre a instabilidade central do desenvolvimento capitalista que procede por meio de crises econômicas auto-geradas com dimensões políticas e sociais. Nenhum marxista poderia acreditar que, como argumentaram os ideólogos neoliberais em 1989, o capitalismo liberal havia triunfado para sempre, que a história tinha chegado ao fim ou que qualquer sistema de relações humanas possa ser definitivo para todo o sempre.
Marcello Musto: Você não acha que, se as forças políticas e intelectuais da esquerda internacional, que se questionam sobre o que poderia ser o socialismo do século XXI, renunciarem às idéias de Marx, estarão perdendo um guia fundamental para o exame e a transformação da realidade atual?
Eric Hobsbawm: Nenhum socialista pode renunciar às idéias de Marx, na medida que sua crença em que o capitalismo deve ser sucedido por outra forma de sociedade está baseada, não na esperança ou na vontade, mas sim em uma análise séria do desenvolvimento histórico, particularmente da era capitalista. Sua previsão de que o capitalismo seria substituído por um sistema administrado ou planejado socialmente parece razoável, ainda que certamente ele tenha subestimado os elementos de mercado que sobreviveriam em algum sistema pós-capitalista. Considerando que Marx, deliberadamente, absteve-se de especular acerca do futuro, não pode ser responsabilizado pelas formas específicas em que as economias “socialistas” foram organizadas sob o chamado “socialismo realmente existente”. Quanto aos objetivos do socialismo, Marx não foi o único pensador que queria uma sociedade sem exploração e alienação, em que os seres humanos pudessem realizar plenamente suas potencialidades, mas foi o que expressou essa idéia com maior força e suas palavras mantêm seu poder de inspiração.No entanto, Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, autoritariamente ou de outra maneira, nem como descrições de uma situação real do mundo capitalista de hoje, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista. Tampouco podemos ou devemos esquecer que ele não conseguiu realizar uma apresentação bem planejada, coerente e completa de suas idéias, apesar das tentativas de Engels e outros de construir, a partir dos manuscritos de Marx, um volume II e III de “O Capital”. Como mostram os “Grundrisse”, aliás. Inclusive, um Capital completo teria conformado apenas uma parte do próprio plano original de Marx, talvez excessivamente ambicioso. Por outro lado, Marx não regressará à esquerda até que a tendência atual entre os ativistas radicais de converter o anti-capitalismo em anti-globalização seja abandonada. A globalização existe e, salvo um colapso da sociedade humana, é irreversível. Marx reconheceu isso como um fato e, como um internacionalista, deu as boas vindas, teoricamente. O que ele criticou e o que nós devemos criticar é o tipo de globalização produzida pelo capitalismo.
Marcello Musto: Um dos escritos de Marx que suscitaram o maior interesse entre os novos leitores e comentadores são os “Grundrisse”. Escritos entre 1857 e 1858, os “Grundrisse” são o primeiro rascunho da crítica da economia política de Marx e, portanto, também o trabalho inicial preparatório do Capital, contendo numerosas reflexões sobre temas que Marx não desenvolveu em nenhuma outra parte de sua criação inacabada. Por que, em sua opinião, estes manuscritos da obra de Marx, continuam provocando mais debate que qualquer outro texto, apesar do fato dele tê-los escrito somente para resumir os fundamentos de sua crítica da economia política? Qual é a razão de seu persistente interesse?
Eric Hobsbawm: Desde o meu ponto de vista, os "Grundrisse" provocaram um impacto internacional tão grande na cena marxista intelectual por duas razões relacionadas. Eles permaneceram virtualmente não publicados antes dos anos cinqüenta e, como você diz, contendo uma massa de reflexões sobre assuntos que Marx não desenvolveu em nenhuma outra parte. Não fizeram parte do largamente dogmatizado corpus do marxismo ortodoxo no mundo do socialismo soviético. Mas não podiam simplesmente ser descartados. Puderam, portanto, ser usados por marxistas que queriam criticar ortodoxamente ou ampliar o alcance da análise marxista mediante o apelo a um texto que não podia ser acusado de herético ou anti-marxista. Assim, as edições dos anos setenta e oitenta, antes da queda do Muro de Berlim, seguiram provocando debate, fundamentalmente porque nestes escritos Marx coloca problemas importantes que não foram considerados no “Capital”, como por exemplo as questões assinaladas em meu prefácio ao volume de ensaios que você organizou (Karl Marx's Grundrisse. Foundations of the Critique of Political Economy 150 Years Later, editado por M. Musto, Londres-Nueva York, Routledge, 2008).
Marcello Musto: No prefácio deste livro, escrito por vários especialistas internacionais para comemorar o 150° aniversário de sua composição, você escreveu: “Talvez este seja o momento correto para retornar ao estudo dos “Grundrisse”, menos constrangidos pelas considerações temporais das políticas de esquerda entre a denúncia de Stalin, feita por Nikita Khruschev, e a queda de Mikhail Gorbachev”. Além disso, para destacar o enorme valor deste texto, você diz que os “Grundrisse” “trazem análise e compreensão, por exemplo, da tecnologia, o que leva o tratamento de Marx do capitalismo para além do século XIX, para a era de uma sociedade onde a produção não requer já mão-de-obra massiva, para a era da automatização, do potencial de tempo livre e das transformações do fenômeno da alienação sob tais circunstâncias. Este é o único texto que vai, de alguma maneira, mais além dos próprios indícios do futuro comunista apontados por Marx na “Ideologia Alemã”. Em poucas palavras, esse texto tem sido descrito corretamente como o pensamento de Marx em toda sua riqueza. Assim, qual poderia ser o resultado da releitura dos “Grundrisse” hoje?
Eric Hobsbawm: Não há, provavelmente, mais do que um punhado de editores e tradutores que tenham tido um pleno conhecimento desta grande e notoriamente difícil massa de textos. Mas uma releitura ou leitura deles hoje pode ajudar-nos a repensar Marx: a distinguir o geral na análise do capitalismo de Marx daquilo que foi específico da situação da sociedade burguesa na metade do século XIX. Não podemos prever que conclusões podem surgir desta análise. Provavelmente, somente podemos dizer que certamente não levarão a acordos unânimes.
Marcello Musto: Para terminar, uma pergunta final. Por que é importante ler Marx hoje?
Eric Hobsbawm: Para qualquer interessado nas idéias, seja um estudante universitário ou não, é patentemente claro que Marx é e permanecerá sendo uma das grandes mentes filosóficas, um dos grandes analistas econômicos do século XIX e, em sua máxima expressão, um mestre de uma prosa apaixonada. Também é importante ler Marx porque o mundo no qual vivemos hoje não pode ser entendido sem levar em conta a influência que os escritos deste homem tiveram sobre o século XX. E, finalmente, deveria ser lido porque, como ele mesmo escreveu, o mundo não pode ser transformado de maneira efetiva se não for entendido. Marx permanece sendo um soberbo pensador para a compreensão do mundo e dos problemas que devemos enfrentar.
Tradução para Sin Permiso (inglês-espanhol): Gabriel Vargas Lozano
Fonte: Tradução para Carta Maior (espanhol-português): Marco Aurélio Weissheimer
Em entrevista a Marcello Musto, o historiador Eric Hobsbawm analisa a atualidade da obra de Marx e o renovado interesse que vem despertando nos últimos anos, mais ainda agora após a nova crise de Wall Street. E fala sobre a necessidade de voltar a ler o pensador alemão: “Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista”.
Marcello Musto - Sin Permiso
Em entrevista a Marcello Musto, o historiador Eric Hobsbawm analisa a atualidade da obra de Marx e o renovado interesse que vem despertando nos últimos anos, mais ainda agora após a nova crise de Wall Street. E fala sobre a necessidade de voltar a ler o pensador alemão: “Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista”.
Eric Hobsbawm é considerado um dos maiores historiadores vivos. É presidente do Birbeck College (London University) e professor emérito da New School for Social Research (Nova Iorque). Entre suas muitas obras, encontra-se a trilogia acerca do “longo século XIX”: “A Era da Revolução: Europa 1789-1848” (1962); “A Era do Capital: 1848-1874” (1975); “A Era do Império: 1875-1914 (1987) e o livro “A Era dos Extremos: o breve século XX, 1914-1991 (1994), todos traduzidos em vários idiomas.
Entrevistamos o historiador por ocasião da publicação do livro “Karl Marx’s Grundrisse. Foundations of the Critique of Political Economy 150 Years Later” (Os Manuscritos de Karl Marx. Elementos fundamentais para a Crítica da Economia Política, 150 anos depois).
Nesta conversa, abordamos o renovado interesse que os escritos de Marx vêm despertando nos últimos anos e mais ainda agora após a nova crise de Wall Street. Nosso colaborador Marcello Musto entrevistou Hobsbawm para Sin Permiso.
Marcello Musto: Professor Hobsbawm, duas décadas depois de 1989, quando foi apressadamente relegado ao esquecimento, Karl Marx regressou ao centro das atenções. Livre do papel de intrumentum regni que lhe foi atribuído na União Soviética e das ataduras do “marxismo-leninismo”, não só tem recebido atenção intelectual pela nova publicação de sua obra, como também tem sido objeto de crescente interesse. Em 2003, a revista francesa Nouvel Observateur dedicou um número especial a Marx, com um título provocador: “O pensador do terceiro milênio?”. Um ano depois, na Alemanha, em uma pesquisa organizada pela companhia de televisão ZDF para estabelecer quem eram os alemães mais importantes de todos os tempos, mais de 500 mil espectadores votaram em Karl Marx, que obteve o terceiro lugar na classificação geral e o primeiro na categoria de “relevância atual”.
Em 2005, o semanário alemão Der Spiegel publicou uma matéria especial que tinha como título “Ein Gespenst Kehrt zurük” (A volta de um espectro), enquanto os ouvintes do programa “In Our Time” da rádio 4, da BBC, votavam em Marx como o maior filósofo de todos os tempos. Em uma conversa com Jacques Attali, recentemente publicada, você disse que, paradoxalmente, “são os capitalistas, mais que outros, que estão redescobrindo Marx” e falou também de seu assombro ao ouvir da boca do homem de negócios e político liberal, George Soros, a seguinte frase: “Ando lendo Marx e há muitas coisas interessantes no que ele diz”. Ainda que seja débil e mesmo vago, quais são as razões para esse renascimento de Marx? É possível que sua obra seja considerada como de interesse só de especialistas e intelectuais, para ser apresentada em cursos universitários como um grande clássico do pensamento moderno que não deveria ser esquecido? Ou poderá surgir no futuro uma nova “demanda de Marx”, do ponto de vista político?
Eric Hobsbawm: Há um indiscutível renascimento do interesse público por Marx no mundo capitalista, com exceção, provavelmente, dos novos membros da União Européia, do leste europeu. Este renascimento foi provavelmente acelerado pelo fato de que o 150° aniversário da publicação do Manifesto Comunista coincidiu com uma crise econômica internacional particularmente dramática em um período de uma ultra-rápida globalização do livre-mercado.
Marx previu a natureza da economia mundial no início do século XXI, com base na análise da “sociedade burguesa”, cento e cinqüenta anos antes. Não é surpreendente que os capitalistas inteligentes, especialmente no setor financeiro globalizado, fiquem impressionados com Marx, já que eles são necessariamente mais conscientes que outros sobre a natureza e as instabilidades da economia capitalista na qual eles operam.
A maioria da esquerda intelectual já não sabe o que fazer com Marx. Ela foi desmoralizada pelo colapso do projeto social-democrata na maioria dos estados do Atlântico Norte, nos anos 1980, e pela conversão massiva dos governos nacionais à ideologia do livre mercado, assim como pelo colapso dos sistemas políticos e econômicos que afirmavam ser inspirados por Marx e Lênin. Os assim chamados “novos movimentos sociais”, como o feminismo, tampouco tiveram uma conexão lógica com o anti-capitalismpo (ainda que, individualmente, muitos de seus membros possam estar alinhados com ele) ou questionaram a crença no progresso sem fim do controle humano sobre a natureza que tanto o capitalismo como o socialismo tradicional compartilharam. Ao mesmo tempo, o “proletariado”, dividido e diminuído, deixou de ser crível como agente histórico da transformação social preconizada por Marx. Devemos levar em conta também que, desde 1968, os mais proeminentes movimentos radicais preferiram a ação direta não necessariamente baseada em muitas leituras e análises teóricas. Claro, isso não significa que Marx tenha deixado de ser considerado como um grande clássico e pensador, ainda que, por razões políticas, especialmente em países como França e Itália, que já tiveram poderosos Partidos Comunistas, tenha havido uma apaixonada ofensiva intelectual contra Marx e as análises marxistas, que provavelmente atingiu seu ápice nos anos oitenta e noventa. Há sinais agora de que a água retomará seu nível.
Marcello Musto: Ao longo de sua vida, Marx foi um agudo e incansável investigador, que percebeu e analisou melhor do que ninguém em seu tempo o desenvolvimento do capitalismo em escala mundial. Ele entendeu que o nascimento de uma economia internacional globalizada era inerente ao modo capitalista de produção e previu que este processo geraria não somente o crescimento e prosperidade alardeados por políticos e teóricos liberais, mas também violentos conflitos, crises econômicas e injustiça social generalizada. Na última década, vimos a crise financeira do leste asiático, que começou no verão de 1997; a crise econômica Argentina de 1999-2002 e, sobretudo, a crise dos empréstimos hipotecários que começou nos Estados Unidos em 2006 e agora tornou-se a maior crise financeira do pós-guerra. É correto dizer, então, que o retorno do interesse pela obra de Marx está baseado na crise da sociedade capitalista e na capacidade dele ajudar a explicar as profundas contradições do mundo atual?
Eric Hobsbawm: Se a política da esquerda no futuro será inspirada uma vez mais nas análises de Marx, como ocorreu com os velhos movimentos socialistas e comunistas, isso dependerá do que vai acontecer no mundo capitalista. Isso se aplica não somente a Marx, mas à esquerda considerada como um projeto e uma ideologia política coerente. Posto que, como você diz corretamente, a recuperação do interesse por Marx está consideravelmente – eu diria, principalmente – baseado na atual crise da sociedade capitalista, a perspectiva é mais promissora do que foi nos anos noventa. A atual crise financeira mundial, que pode transformar-se em uma grande depressão econômica nos EUA, dramatiza o fracasso da teologia do livre mercado global descontrolado e obriga, inclusive o governo norte-americano, a escolher ações públicas esquecidas desde os anos trinta. As pressões políticas já estão debilitando o compromisso dos governos neoliberais em torno de uma globalização descontrolada, ilimitada e desregulada. Em alguns casos, como a China, as vastas desigualdades e injustiças causadas por uma transição geral a uma economia de livre mercado, já coloca problemas importantes para a estabilidade social e mesmo dúvidas nos altos escalões de governo. É claro que qualquer “retorno a Marx” será essencialmente um retorno à análise de Marx sobre o capitalismo e seu lugar na evolução histórica da humanidade – incluindo, sobretudo, suas análises sobre a instabilidade central do desenvolvimento capitalista que procede por meio de crises econômicas auto-geradas com dimensões políticas e sociais. Nenhum marxista poderia acreditar que, como argumentaram os ideólogos neoliberais em 1989, o capitalismo liberal havia triunfado para sempre, que a história tinha chegado ao fim ou que qualquer sistema de relações humanas possa ser definitivo para todo o sempre.
Marcello Musto: Você não acha que, se as forças políticas e intelectuais da esquerda internacional, que se questionam sobre o que poderia ser o socialismo do século XXI, renunciarem às idéias de Marx, estarão perdendo um guia fundamental para o exame e a transformação da realidade atual?
Eric Hobsbawm: Nenhum socialista pode renunciar às idéias de Marx, na medida que sua crença em que o capitalismo deve ser sucedido por outra forma de sociedade está baseada, não na esperança ou na vontade, mas sim em uma análise séria do desenvolvimento histórico, particularmente da era capitalista. Sua previsão de que o capitalismo seria substituído por um sistema administrado ou planejado socialmente parece razoável, ainda que certamente ele tenha subestimado os elementos de mercado que sobreviveriam em algum sistema pós-capitalista. Considerando que Marx, deliberadamente, absteve-se de especular acerca do futuro, não pode ser responsabilizado pelas formas específicas em que as economias “socialistas” foram organizadas sob o chamado “socialismo realmente existente”. Quanto aos objetivos do socialismo, Marx não foi o único pensador que queria uma sociedade sem exploração e alienação, em que os seres humanos pudessem realizar plenamente suas potencialidades, mas foi o que expressou essa idéia com maior força e suas palavras mantêm seu poder de inspiração.No entanto, Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, autoritariamente ou de outra maneira, nem como descrições de uma situação real do mundo capitalista de hoje, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista. Tampouco podemos ou devemos esquecer que ele não conseguiu realizar uma apresentação bem planejada, coerente e completa de suas idéias, apesar das tentativas de Engels e outros de construir, a partir dos manuscritos de Marx, um volume II e III de “O Capital”. Como mostram os “Grundrisse”, aliás. Inclusive, um Capital completo teria conformado apenas uma parte do próprio plano original de Marx, talvez excessivamente ambicioso. Por outro lado, Marx não regressará à esquerda até que a tendência atual entre os ativistas radicais de converter o anti-capitalismo em anti-globalização seja abandonada. A globalização existe e, salvo um colapso da sociedade humana, é irreversível. Marx reconheceu isso como um fato e, como um internacionalista, deu as boas vindas, teoricamente. O que ele criticou e o que nós devemos criticar é o tipo de globalização produzida pelo capitalismo.
Marcello Musto: Um dos escritos de Marx que suscitaram o maior interesse entre os novos leitores e comentadores são os “Grundrisse”. Escritos entre 1857 e 1858, os “Grundrisse” são o primeiro rascunho da crítica da economia política de Marx e, portanto, também o trabalho inicial preparatório do Capital, contendo numerosas reflexões sobre temas que Marx não desenvolveu em nenhuma outra parte de sua criação inacabada. Por que, em sua opinião, estes manuscritos da obra de Marx, continuam provocando mais debate que qualquer outro texto, apesar do fato dele tê-los escrito somente para resumir os fundamentos de sua crítica da economia política? Qual é a razão de seu persistente interesse?
Eric Hobsbawm: Desde o meu ponto de vista, os "Grundrisse" provocaram um impacto internacional tão grande na cena marxista intelectual por duas razões relacionadas. Eles permaneceram virtualmente não publicados antes dos anos cinqüenta e, como você diz, contendo uma massa de reflexões sobre assuntos que Marx não desenvolveu em nenhuma outra parte. Não fizeram parte do largamente dogmatizado corpus do marxismo ortodoxo no mundo do socialismo soviético. Mas não podiam simplesmente ser descartados. Puderam, portanto, ser usados por marxistas que queriam criticar ortodoxamente ou ampliar o alcance da análise marxista mediante o apelo a um texto que não podia ser acusado de herético ou anti-marxista. Assim, as edições dos anos setenta e oitenta, antes da queda do Muro de Berlim, seguiram provocando debate, fundamentalmente porque nestes escritos Marx coloca problemas importantes que não foram considerados no “Capital”, como por exemplo as questões assinaladas em meu prefácio ao volume de ensaios que você organizou (Karl Marx's Grundrisse. Foundations of the Critique of Political Economy 150 Years Later, editado por M. Musto, Londres-Nueva York, Routledge, 2008).
Marcello Musto: No prefácio deste livro, escrito por vários especialistas internacionais para comemorar o 150° aniversário de sua composição, você escreveu: “Talvez este seja o momento correto para retornar ao estudo dos “Grundrisse”, menos constrangidos pelas considerações temporais das políticas de esquerda entre a denúncia de Stalin, feita por Nikita Khruschev, e a queda de Mikhail Gorbachev”. Além disso, para destacar o enorme valor deste texto, você diz que os “Grundrisse” “trazem análise e compreensão, por exemplo, da tecnologia, o que leva o tratamento de Marx do capitalismo para além do século XIX, para a era de uma sociedade onde a produção não requer já mão-de-obra massiva, para a era da automatização, do potencial de tempo livre e das transformações do fenômeno da alienação sob tais circunstâncias. Este é o único texto que vai, de alguma maneira, mais além dos próprios indícios do futuro comunista apontados por Marx na “Ideologia Alemã”. Em poucas palavras, esse texto tem sido descrito corretamente como o pensamento de Marx em toda sua riqueza. Assim, qual poderia ser o resultado da releitura dos “Grundrisse” hoje?
Eric Hobsbawm: Não há, provavelmente, mais do que um punhado de editores e tradutores que tenham tido um pleno conhecimento desta grande e notoriamente difícil massa de textos. Mas uma releitura ou leitura deles hoje pode ajudar-nos a repensar Marx: a distinguir o geral na análise do capitalismo de Marx daquilo que foi específico da situação da sociedade burguesa na metade do século XIX. Não podemos prever que conclusões podem surgir desta análise. Provavelmente, somente podemos dizer que certamente não levarão a acordos unânimes.
Marcello Musto: Para terminar, uma pergunta final. Por que é importante ler Marx hoje?
Eric Hobsbawm: Para qualquer interessado nas idéias, seja um estudante universitário ou não, é patentemente claro que Marx é e permanecerá sendo uma das grandes mentes filosóficas, um dos grandes analistas econômicos do século XIX e, em sua máxima expressão, um mestre de uma prosa apaixonada. Também é importante ler Marx porque o mundo no qual vivemos hoje não pode ser entendido sem levar em conta a influência que os escritos deste homem tiveram sobre o século XX. E, finalmente, deveria ser lido porque, como ele mesmo escreveu, o mundo não pode ser transformado de maneira efetiva se não for entendido. Marx permanece sendo um soberbo pensador para a compreensão do mundo e dos problemas que devemos enfrentar.
Tradução para Sin Permiso (inglês-espanhol): Gabriel Vargas Lozano
Fonte: Tradução para Carta Maior (espanhol-português): Marco Aurélio Weissheimer
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