quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
Cartão de Natal de Banksy mostra muro de Israel no caminho da Sagrada Família – por Marina Mattar
Cartão de Natal de Banksy mostra muro de Israel no caminho da Sagrada Família
No desenho, Jesus não poderia ter nascido na cidade palestina de Belém nos dias atuais por conta de bloqueio israelense
Um cartão de Natal pouco convencional está sendo compartilhado ao redor do mundo por milhares de pessoas nas redes sociais. A paisagem tradicional bíblica de José e Maria – que aparece montada em um burro – caminhando em direção à estrela de Belém, onde Jesus nasceria, não seria nada estranha se não fosse pelo extenso e alto muro que interrompe o seu caminho.
O artista britânico Banksy dá o seu toque à data religiosa, lembrando que Cristo não poderia ter nascido no estábulo na cidade palestina nos dias atuais. José e Maria, assim como milhares de palestinos residentes de Nazaré (nome atual de Galileia), não poderiam sair de sua cidade e caminhar até Belém, na Cisjordânia, que está, totalmente, cercada pelo muro construído por Israel.
O artista britânico Banksy dá o seu toque à data religiosa, lembrando que Cristo não poderia ter nascido no estábulo na cidade palestina nos dias atuais. José e Maria, assim como milhares de palestinos residentes de Nazaré (nome atual de Galileia), não poderiam sair de sua cidade e caminhar até Belém, na Cisjordânia, que está, totalmente, cercada pelo muro construído por Israel.
Grafite do artista britânico no "muro da vergonha" em Belém, cidade palestina onde nasceu Jesus
O muro de concreto, de 760 quilômetros de extensão e cerca de 8 metros de altura, começou a ser construído pelo governo israelense em 2002 e já está quase concluído. Com o suposto propósito de evitar a passagem de terroristas nas áreas de Israel, a “barreira da separação” coincide em apenas 20% com a Linha do Armistício de 1949. O restante, está situado em território, por lei, palestino.
Classificado como “muro do apartheid”, essa construção foi criticada por autoridades e entidades internacionais, como as Nações Unidas e a Corte Internacional de Justiça, além de receber a atenção de artistas como Banksy.
Por meio de grafites e stencils, o britânico imprimiu o seu tom irônico e sarcástico no muro do lado palestino. Uma janela, uma cortina, uma vidraça quebrada e balões furam o bloqueio israelense e levam o povo palestino a enxergar o “outro lado” que aparece como praia, céu ou rio.
O muro de concreto, de 760 quilômetros de extensão e cerca de 8 metros de altura, começou a ser construído pelo governo israelense em 2002 e já está quase concluído. Com o suposto propósito de evitar a passagem de terroristas nas áreas de Israel, a “barreira da separação” coincide em apenas 20% com a Linha do Armistício de 1949. O restante, está situado em território, por lei, palestino.
Classificado como “muro do apartheid”, essa construção foi criticada por autoridades e entidades internacionais, como as Nações Unidas e a Corte Internacional de Justiça, além de receber a atenção de artistas como Banksy.
Por meio de grafites e stencils, o britânico imprimiu o seu tom irônico e sarcástico no muro do lado palestino. Uma janela, uma cortina, uma vidraça quebrada e balões furam o bloqueio israelense e levam o povo palestino a enxergar o “outro lado” que aparece como praia, céu ou rio.
(Grafite de Banksy no muro israelense na Cisjordânia mostra garota voando para o outro lado do muro por meio de balões)
Agora, o artista britânico, de identidade real desconhecida, faz com que a Sagrada Família enfrente o apartheid.
São Paulo: as origens da violência - Por Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá
São Paulo: as origens da violência
Nossa investigação revela: brutalidade inaugurada no Carandiru alastra-se há vinte anos pela PM. Para ter paz, Estado terá de enfrentá-la
Outubro de 2012 registrou o recorde de homicídios e latrocínios na Grande São Paulo no ano: 345. Na capital, o aumento foi de quase 110% em relação ao ano anterior. O número só pode ser comparado aos 493 mortos entre os dias 12 e 20 de maio de 2006, cuja macabra contagem diária (média de 55 por dia) somente tem paralelo nos 111 detentos executados pela PM no Massacre do Carandiru, em 2 de outubro de 1992. Mesmo assim, a atual crise na segurança teve destaque nos jornais e TVs apenas após as eleições. Até então, as quase cem vítimas entre policiais, principalmente PMs de baixa patente e fora do horário de serviço, e as centenas de casos de pessoas baleadas nas proximidades desses assassinatos nas horas seguintes, estavam sendo tratadas, todas, como “casos isolados”. Sem o fator eleitoral, a culpa pela violência recai agora sobre o suspeito usual: o Primeiro Comando da Capital ou, como é chamado nos telejornais, “a facção criminosa que age dentro e fora dos presídios”. Mas será assim tão simples?
Várias linhas ligam os sangrentos eventos de 1992, 2006 e 2012. No primeiro, não há dúvidas sobre quem atirou. Ainda assim, o único condenado pela chacina de presos desarmados foi o Coronel Ubiratan Guimarães, que comandou a invasão do presídio. Sua pena de 632 anos de reclusão, porém, foi derrubada pelo Órgão Especial do Tribunal de Justiça de São Paulo, em fevereiro de 2006, quando ele já tinha sido eleito deputado estadual com o sugestivo número 14.111. Em setembro do mesmo ano, o político/coronel foi morto com um tiro no peito em seu apartamento. A única indiciada foi sua então namorada, Carla Cepollina, julgada e absolvida na primeira semana de novembro desse ano. Foi na esteira do Massacre do Carandiru que nasceu o PCC, inicialmente para impedir futuras mortandades em massa dentro das cadeias. Com o crescimento do “partido”, realmente despencaram os índices de assassinatos e estupros nas penitenciárias, além de praticamente não haver uso de crack.
O caso de 2006 é bem mais emblemático. Logo depois de o governo estadual transferir cerca de 700 prisioneiros tidos como líderes do PCC para os presídios de Presidente Bernardes e de Presidente Prudente, considerados de maior segurança, policiais civis e militares passaram a ser mortos nas ruas das principais cidades do estado. Ao todo, 59 foram assassinados, incluídos guardas civis e bombeiros, principalmente entre os dias 12 e 13 de maio. Ato contínuo, a “tropa de elite” da PM paulista, a Rota, saiu às ruas “trocando tiros” com “criminosos” e elevando como nunca as “resistências seguidas de morte”. Ao mesmo tempo, assassinos mascarados passaram a atirar em pessoas nas periferias.
Crimes de maio
O saldo de mortos oficialmente registrados entre maio e junho de 2006 passa de 600, fora os desaparecidos. Dos “confrontos” entre polícia e “bandidos”, 60% a 70% tinham claros indícios de execução (tiros à queima roupa, de cima para baixo, na região do tórax e/ou da cabeça como confirmou o perito Ricardo Molina a respeito de 124 mortos), segundo uma comissão formada pelo Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, Defensoria Pública, Ouvidoria da Polícia, Ministério Público (Estadual e Federal), Ordem dos Advogados do Brasil, Conselho Regional de Medicina e Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, entre outras entidades. As mortes jamais foram investigadas e até hoje ninguém está preso pelos assassinatos de civis durante esse período. A “I Guerra do PCC” teria acabado devido a um acordo, nunca admitido, firmado entre o grupo e o governo. É inegável, no entanto, o fortalecimento da facção criminosa, que extrapolou os muros das cadeias. Sem a concorrência de outro grande grupo, diminuíram também os confrontos entre traficantes rivais e as mortes por dívida de drogas, ajudando a derrubar significativamente as taxas de homicídios nas ruas (72% entre 1999 e 2011)*.
A nova onda
A trégua, contudo, parece ter chegado ao fim em 29 de maio de 2012, quando policiais da Rota cercaram supostos integrantes do PCC em um lava-rápido na Zona Leste matando seis pessoas e prendendo outras três. Ao menos um dos mortos teria sido levado vivo para a beira da rodovia Ayrton Senna e torturado antes de ser executado, conforme relatou uma testemunha. Três oficiais chegaram a ser presos mas foram absolvidos em novembro, porque a testemunha teria “entrado em contradição”. Nos dias seguintes ao confronto, PMs começaram a ser assassinados em dezenas de emboscadas. A cada morte de policial, em média mais dez pessoas são mortas, a maior parte na mesma região do assassinato, poucas horas depois do evento e por meio de homens encapuzados, em motos sem placas ou carros de vidros escuros, que atiram aleatoriamente em grupos de pessoas nas periferias (93% das mortes são registradas fora do centro expandido da capital).
Apesar do padrão óbvio, somente com a queda do secretário de Segurança Pública de São Paulo, Antonio Ferreira Pinto, em 21 de novembro, a imprensa realizou um levantamento apontando que pelo menos 16 chacinas (com 28 mortes) entre junho e novembro ocorreram a menos de cinco quilômetros de onde foram executados sete policiais. E mais, o ex-chefe da Polícia Civil Paulista, Marcos Carneiro de Lima, admitiu publicamente que várias das vítimas civis fora das chacinas tiveram suas fichas criminais levantadas em delegacias distantes de suas regiões antes de serem mortas, o que leva a suspeitas de execuções premeditadas. A apuração rigorosa desses crimes, no entanto, não deve ser motivo de grandes esperanças.
Policiais bandidos
De fato, a maior probabilidade é que aconteça exatamente o contrário. Um exemplo é o aumento de 100% sobre a indenização a familiares de policiais mortos e sua extensão para oficiais vitimados fora do horário de serviço, anunciada recentemente pelo governador Geraldo Alckmin. Com isso é bem possível que as famílias dos dois policiais executados em 1º de novembro em Heliópolis recebam R$ 200 mil cada. A polícia não parece muito interessada em averiguar a fundo o que os dois, considerados “linha dura” pelos colegas, faziam juntos numa moto, à meia noite no meio da favela. Uma boa resposta pode estar na excelente matéria da repórter Tatiana Merlino, “Em cada batalhão da PM tem um grupo de extermínio”, publicada em setembro, em Caros Amigos.
Pior, para alguns analistas, muitos policiais estão sendo executados por colegas de farda, aproveitando a onda de violência como cortina de fumaça. É o que pode ter acontecido com o sargento da PM Marcelo Fukuhara, assassinado na Baixada Santista no início de outubro. Conhecido como “ninja” ou “japonês”, ele seria o chefe de um dos mais temidos grupos de extermínio da região. Logo após sua morte, um outro oficial não identificado pelo comando da PM foi preso suspeito de ser o executor, o que não impediu que oito pessoas fossem mortas em duas chacinas na mesma área, nas duas horas seguintes à morte do sargento. Segundo testemunhas, os executores foram homens encapuzados saídos de um carro preto. Fontes de dentro da polícia também afirmam que a única oficial mulher assassinada esse ano, a soldado Marta Umbelina da Silva, teria sido vítima de seu ex-marido, um ex-policial. A informação, contudo, não pode ser confirmada, já que todas as investigações seguem sob sigilo.
BOX
Palavra de mãe
Débora Maria da Silva, coordenadora e fundadora o Mães de Maio, grupo de parentes e amigos de civis mortos em 2006 conta sua versão sobre os fatos
“O que mais nos revolta é a impunidade dos policiais matadores. A explosão das mortes na periferia de São Paulo está ocorrendo há pelo menos três anos na Baixada Santista. E quem mais mata são os policiais e ex-policiais. Pra mim, essa coisa de PCC é balela pra justificar a morte de civis. Eles entram em favela, mostram listas de policiais marcados pra morrer, mas não mostram as listas de civis. O próprio antigo secretário tinha falado que todos os que morreram tinham ficha suja, mas como é que ele sabe? A verdade é que desde 2006 tem uma máfia de extermínio, com os policiais ganhando mais com bicos do que registrado na carteira. Com isso, ficam disputando os bicos e estão totalmente fora do controle do comando. Diferente do que disse o governador, quem não reage é que tá morto! Por isso a gente cobra investigação, intervenção federal e federalização dos Crimes de Maio. Porque esse estado não tem mais remendo. Tem que trocar tudo, não só a cúpula da segurança!”
Com a nova onda de violência, as Mães de Maio estão se organizando com dezenas de outros movimentos e grupos para reagir, formando o Comitê Ampliado Contra o Genocídio (veja a carta-manifesto exigindo, entre outras coisas, o fim dos “autos de resistência” em http://bit.ly/SkE9QZ). Já solicitaram uma audiência pública com o governador e com o Ministro da Justiça. Também estão promovendo atividades de divulgação de suas lutas, como marchas periódicas pela paz. A repercussão midiática, contudo, ainda é frágil. “A primeira vez que nosso nome saiu na TV esse ano foi no programa da Sonia Abraão, com o Coronel Telhada, o Comandante Camilo e o Capitão Conte Lopes nos chamando de ‘amigas de bandidos’, como fizeram com o jornalista André Caramante, que teve de sair do Brasil com medo”, diz.
* Para uma visão mais profunda e séria sobre o “crime organizado” em SP, vale a pena ler o documento 16 Perguntas sobre o PCC, em http://bit.ly/SnVgzQ
Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá, editores do MediaQuatro
Prevista para 2013: Cresce pressão pela proibição da venda de cosméticos testados em animais - Por Bethania Malmberg
Prevista para 2013: Cresce pressão pela proibição da venda de cosméticos testados em animais.
Foto: Reprodução
Desde 11 de março de 2009 a experimentação animal em produtos e ingredientes cosméticos produzidos na União Europeia (UE) é proibida, mas os produtos testados desta forma fora da UE ainda podem ser vendidos. Uma boa notícia publicada recentemente é que uma proibição total, que vinha sendo previamente ameaçada, pode estar a caminho.
Testes em animais para produtos e ingredientes cosméticos são proibidos na UE desde 11 de março de 2009. Três tipos de experimentos em animais foram isentos da proibição, e empresas têm a possibilidade de realizar os seus testes em animais em países fora da UE. Uma proibição total da importação e da venda de cosméticos testados em animais foi agendada para março de 2013, mas a proibição tem sido ameaçada de ser adiada e de continuar a conter uma variedade de exceções.
A Coligação Europeia para o Fim da Experimentação Animal (ECEAE) tem trabalhado contra tal adiamento e contra possíveis exceções na legislação. No dia 18 de outubro deste ano, representantes de diversas organizações de proteção animal em toda a Europa entregaram mais de 240 000 assinaturas contra testes de cosméticos em animais para o Parlamento da UE em Bruxelas, para que não haja mais exceções e atraso e que testes de cosméticos em animais acabe. Parece que tal movimento trouxe boas notícias para o futuro.
O novo Comissário Europeu para a Saúde e Defesa do Consumidor Tonio Borg, tanto em sua admissão como comissário quanto em recente carta à PETA, declarou que vai trabalhar para que a proibição entre em vigor como previsto, em março de 2013, e que nenhuma exceção seja admitida.
Se o Comissário Borg mantiver a sua declaração, isso significa que nenhum produto cosmético ou de higiene pessoal testado em animais poderá ser vendido na UE a partir de março do próximo ano.
Milhares de coelhos, cobaias e ratos serão isentos de serem submetidos à injeções e gases, de serem alimentados à força e mortos devido aos cosméticos vendidos na UE. Mas não seria a primeira vez que uma promessa política não seria mantida, por isso a ECEAE pede para que cidadãos interessados continuem assinando a petição. A petição em português pode ser vista aqui (cidadãos não europeus, incluindo brasileiros, podem assinar).
As informações são da organização sueca de direito e proteção Animal Djurens Rätt.
Fonte: http://www.anda.jor.br/
O segundo governo Obama: e agora, o que acontece? – por Immanuel Wallerstein
O segundo governo Obama: e agora, o que acontece?
A reeleição de Obama fez alguma diferença, mas muito menos do que o próprio afirmava ou do que os republicanos temiam. O governo dos EUA ainda deseja levar a cabo uma política imperial em todo o mundo. O problema que enfrenta é muito simples. A sua capacidade para fazê-lo declinou drasticamente, mas as elites (incluindo Obama) não querem reconhecê-lo. Ainda falam dos EUA como a nação “indispensável”. Trata-se de uma contradição com a qual não sabem lidar.
Obama venceu as eleições com uma margem significativa tanto no voto popular quanto no Colégio Eleitoral. Os democratas venceram cada vaga verdadeiramente em disputa no Senado, exceto uma. Isto aliviou os democratas, que andavam preocupados, e espantou os republicanos, que consideravam certa a vitória. Agora, o mundo inteiro quer saber o que este resultado significa para o futuro imediato dos Estados Unidos e do mundo. A resposta não é simples.
Deixem-me começar pela política externa. O governo dos EUA ainda deseja levar a cabo uma política imperial em todo o mundo. O problema que enfrenta é muito simples. A sua capacidade para fazê-lo declinou drasticamente, mas as elites (incluindo Obama) não querem reconhecê-lo. Ainda falam dos Estados Unidos como a nação “indispensável” e o “maior país” jamais conhecido. Trata-se de uma contradição com a qual não sabem lidar. Quanto ao cidadão comum dos EUA, uma sondagem que procurava saber o que motivara o seu voto revelou que apenas 4% responderam que fora a política externa. Apesar disso, a maioria dos cidadãos comuns continua a acreditar no mantra de que os Estados Unidos são o exemplo dourado do mundo.
Podemos, assim, esperar que Obama vá continuar a fazer o mesmo que tem feito: falar duramente, mas de fato atuar prudentemente em relação ao Irã, à Síria, ao Egito, ao Paquistão, à China, ao México e a muitos outros países. Isto evidentemente exaspera a maioria dos outros países e toda a espécie de atores políticos pelo mundo afora. Não é certo que ele possa continuar a andar sobre esta corda bamba sem cair, especialmente porque os Estados Unidos já não podem controlar realmente o que fará a maioria dos outros atores.
Obama está quase tão desamparado em relação à economia – a economia dos EUA e a economia-mundo. Duvido que possa reduzir seriamente o desemprego e, em 2014 e 2016, isto permitirá a recuperação dos republicanos. A questão crucial no momento é a chamada (erradamente) ribanceira fiscal. A questão é saber quem vai suportar o maior peso do declínio econômico dos EUA.
Sobre estes assuntos, Obama foi eleito com promessas ditas "populistas" mas hoje está seguindo uma posição à direita do centro. Propõe um acordo aos republicanos: impostos mais altos para os ricos, junto com cortes significativos na saúde e talvez nas pensões para a maioria da população. Esta é a versão norte-americana da austeridade.
Trata-se de um mau negócio para a vasta maioria dos americanos, mas Obama persegue-o com vigor. O acordo pode, porém, não vir a ser firmado, se a direita republicana estupidamente se recusar a alinhar. As elites empresariais dos Estados Unidos estão a pressionar os republicanos para aceitarem o acordo. Mas, até agora, o impulso de esquerda anti-acordo tem sido muito mais fraco que o impulso da elite empresarial a favor do acordo. Isto é na essência uma luta de classes de tipo muito tradicional, e os 99% nem sempre vencem estas lutas.
Nas chamadas questões sociais, que foram uma verdadeira linha divisória entre republicanos e democratas nesta eleição, os eleitores dos EUA derrotaram os trogloditas. O casamento gay venceu a consulta em quatro estados, e a tendência da opinião pública indica que vai continuar.
Ainda mais importante foi a votação absolutamente assimétrica a favor de Obama e dos democratas por parte dos afro-americanos e dos latinos. Parece que as tentativas ferozes dos governadores republicanos de impedir a sua votação sofreu uma enorme desfeita, e mais eleitores destes grupos votaram que nas eleições anteriores. Para os latinos, a questão-chave foi a reforma da imigração. E importantes figuras do Partido Republicano (incluindo Jeb Bush, ele próprio um potencial futuro candidato presidencial) dizem agora que, a menos que os republicanos cooperem com a reforma da imigração, jamais poderão ganhar eleições nacionais e em muitos estados. O meu palpite é que alguma legislação vai de fato agora passar no Congresso.
Obama foi uma grande desilusão para um grande grupo de apoiadores que são motivados por preocupações ambientais e ecológicas. Disse coisas boas mas fez muito pouco. O motivo disto é que outro grupo de apoio – os sindicatos – têm vindo a argumentar noutra direção devido ao risco de perda de empregos. Obama tem sido evasivo e provavelmente vai continuar a sê-lo. Isto é apenas marginalmente melhor que Romney, que teria encerrado agências que ainda tentam proteger o meio ambiente.
O registo de Obama foi mau em matéria de liberdades civis, na verdade pior, nalguns aspetos, que o de George W. Bush. Atuou agressivamente contra as pessoas que promovem fugas de informação (whistle-blowers). Não fechou Guantánamo e apoiou ativamente o Patriot Act. Usou drones para assassinar inimigos presumíveis dos Estados Unidos. Nestas ações, foi apoiado pela maioria dos parlamentares e pelos tribunais em geral. Não há motivo para assumir que vá mudar de comportamento neste aspecto.
Uma das principais razões, evocadas de quatro em quatro anos, para apoiar os candidatos democratas à Presidência tem sido as nomeações para o Supremo Tribunal. É verdade que se Romney tivesse sido eleito e um juiz não-conservador morresse ou renunciasse, o Tribunal teria virado muito à direita por uma geração.
O que vai acontecer agora que Obama foi reeleito? Há quatro juízes com mais de 70 anos de idade. Não há idade de reforma compulsória. Nenhum dos quatro parece prestes a renunciar, nem mesmo o juiz Ginsburg que tem estado doente. A oportunidade de Obama fazer a diferença depende de o juiz Kennedy renunciar ou morrer e de o juiz Scalia morrer (é certo de que não vai renunciar). Ora isto é completamente imprevisível. Mas se acontecer, a reeleição de Obama terá realmente feito diferença.
Finalmente, qual é o futuro da política dos EUA? Este é o elemento mais incerto de todos. O Partido Republicano parece estar começando uma guerra civil interna entre os conservadores do tea party e todos os outros. Os outros observam que os republicanos perderam as hipóteses de vencer o Senado devido às derrotas nas primárias de “vencedores seguros” para candidatos extremistas apoiados pelo tea party. Apenas 11% dos votos em Romney vieram de não-brancos. E as percentagens de eleitores latinos estão subindo, mesmo em estados atualmente seguros para os republicanos como Texas e Georgia. Mas se os republicanos começarem a seguir uma linha mais centrista, será que vão perder uma parte significativa da sua base para a abstenção?
Os democratas têm um problema semelhante, apesar de não ser tão sério. Os seus votos vêm de uma “coligação arco-íris” – mulheres (especialmente mães solteiras e mulheres trabalhadoras), afro-americanos, latinos, judeus, muçulmanos, budistas, hindus, sindicalistas, jovens, pobres, e pessoas de alta formação. As suas reivindicações chocam-se com as preferências dos que controlam o partido, incluindo Obama. Desta vez, a base manteve-se leal. Mesmo os que apoiaram candidatos de terceiros partidos, fizeram-no apenas em estados onde os democratas não podiam perder. Não houve estados indecisos (swing states) onde candidatos de terceiros partidos pudessem pôr em causa a eleição.
Será que os liberais do partido sairão agora para terceiros partidos? Parece, no momento, improvável, mas não é impossível. Depende em parte de quão dramática for a queda dos Estados Unidos nos próximos quatro anos. Depende de até que ponto Obama vai ceder em questões “populistas”.
A questão de fundo é que a reeleição de Obama fez alguma diferença, mas muito menos do que o próprio afirmava ou do que os republicanos temiam. Uma vez mais, recordo a todos que estamos a viver num mundo caótico em transição, no qual grandes mudanças de todos os tipos são parte da nossa realidade corrente, incluindo em matéria de lealdades políticas.
(*) Tradução, revista pelo autor, de Luis Leiria para o Esquerda.net
Deixem-me começar pela política externa. O governo dos EUA ainda deseja levar a cabo uma política imperial em todo o mundo. O problema que enfrenta é muito simples. A sua capacidade para fazê-lo declinou drasticamente, mas as elites (incluindo Obama) não querem reconhecê-lo. Ainda falam dos Estados Unidos como a nação “indispensável” e o “maior país” jamais conhecido. Trata-se de uma contradição com a qual não sabem lidar. Quanto ao cidadão comum dos EUA, uma sondagem que procurava saber o que motivara o seu voto revelou que apenas 4% responderam que fora a política externa. Apesar disso, a maioria dos cidadãos comuns continua a acreditar no mantra de que os Estados Unidos são o exemplo dourado do mundo.
Podemos, assim, esperar que Obama vá continuar a fazer o mesmo que tem feito: falar duramente, mas de fato atuar prudentemente em relação ao Irã, à Síria, ao Egito, ao Paquistão, à China, ao México e a muitos outros países. Isto evidentemente exaspera a maioria dos outros países e toda a espécie de atores políticos pelo mundo afora. Não é certo que ele possa continuar a andar sobre esta corda bamba sem cair, especialmente porque os Estados Unidos já não podem controlar realmente o que fará a maioria dos outros atores.
Obama está quase tão desamparado em relação à economia – a economia dos EUA e a economia-mundo. Duvido que possa reduzir seriamente o desemprego e, em 2014 e 2016, isto permitirá a recuperação dos republicanos. A questão crucial no momento é a chamada (erradamente) ribanceira fiscal. A questão é saber quem vai suportar o maior peso do declínio econômico dos EUA.
Sobre estes assuntos, Obama foi eleito com promessas ditas "populistas" mas hoje está seguindo uma posição à direita do centro. Propõe um acordo aos republicanos: impostos mais altos para os ricos, junto com cortes significativos na saúde e talvez nas pensões para a maioria da população. Esta é a versão norte-americana da austeridade.
Trata-se de um mau negócio para a vasta maioria dos americanos, mas Obama persegue-o com vigor. O acordo pode, porém, não vir a ser firmado, se a direita republicana estupidamente se recusar a alinhar. As elites empresariais dos Estados Unidos estão a pressionar os republicanos para aceitarem o acordo. Mas, até agora, o impulso de esquerda anti-acordo tem sido muito mais fraco que o impulso da elite empresarial a favor do acordo. Isto é na essência uma luta de classes de tipo muito tradicional, e os 99% nem sempre vencem estas lutas.
Nas chamadas questões sociais, que foram uma verdadeira linha divisória entre republicanos e democratas nesta eleição, os eleitores dos EUA derrotaram os trogloditas. O casamento gay venceu a consulta em quatro estados, e a tendência da opinião pública indica que vai continuar.
Ainda mais importante foi a votação absolutamente assimétrica a favor de Obama e dos democratas por parte dos afro-americanos e dos latinos. Parece que as tentativas ferozes dos governadores republicanos de impedir a sua votação sofreu uma enorme desfeita, e mais eleitores destes grupos votaram que nas eleições anteriores. Para os latinos, a questão-chave foi a reforma da imigração. E importantes figuras do Partido Republicano (incluindo Jeb Bush, ele próprio um potencial futuro candidato presidencial) dizem agora que, a menos que os republicanos cooperem com a reforma da imigração, jamais poderão ganhar eleições nacionais e em muitos estados. O meu palpite é que alguma legislação vai de fato agora passar no Congresso.
Obama foi uma grande desilusão para um grande grupo de apoiadores que são motivados por preocupações ambientais e ecológicas. Disse coisas boas mas fez muito pouco. O motivo disto é que outro grupo de apoio – os sindicatos – têm vindo a argumentar noutra direção devido ao risco de perda de empregos. Obama tem sido evasivo e provavelmente vai continuar a sê-lo. Isto é apenas marginalmente melhor que Romney, que teria encerrado agências que ainda tentam proteger o meio ambiente.
O registo de Obama foi mau em matéria de liberdades civis, na verdade pior, nalguns aspetos, que o de George W. Bush. Atuou agressivamente contra as pessoas que promovem fugas de informação (whistle-blowers). Não fechou Guantánamo e apoiou ativamente o Patriot Act. Usou drones para assassinar inimigos presumíveis dos Estados Unidos. Nestas ações, foi apoiado pela maioria dos parlamentares e pelos tribunais em geral. Não há motivo para assumir que vá mudar de comportamento neste aspecto.
Uma das principais razões, evocadas de quatro em quatro anos, para apoiar os candidatos democratas à Presidência tem sido as nomeações para o Supremo Tribunal. É verdade que se Romney tivesse sido eleito e um juiz não-conservador morresse ou renunciasse, o Tribunal teria virado muito à direita por uma geração.
O que vai acontecer agora que Obama foi reeleito? Há quatro juízes com mais de 70 anos de idade. Não há idade de reforma compulsória. Nenhum dos quatro parece prestes a renunciar, nem mesmo o juiz Ginsburg que tem estado doente. A oportunidade de Obama fazer a diferença depende de o juiz Kennedy renunciar ou morrer e de o juiz Scalia morrer (é certo de que não vai renunciar). Ora isto é completamente imprevisível. Mas se acontecer, a reeleição de Obama terá realmente feito diferença.
Finalmente, qual é o futuro da política dos EUA? Este é o elemento mais incerto de todos. O Partido Republicano parece estar começando uma guerra civil interna entre os conservadores do tea party e todos os outros. Os outros observam que os republicanos perderam as hipóteses de vencer o Senado devido às derrotas nas primárias de “vencedores seguros” para candidatos extremistas apoiados pelo tea party. Apenas 11% dos votos em Romney vieram de não-brancos. E as percentagens de eleitores latinos estão subindo, mesmo em estados atualmente seguros para os republicanos como Texas e Georgia. Mas se os republicanos começarem a seguir uma linha mais centrista, será que vão perder uma parte significativa da sua base para a abstenção?
Os democratas têm um problema semelhante, apesar de não ser tão sério. Os seus votos vêm de uma “coligação arco-íris” – mulheres (especialmente mães solteiras e mulheres trabalhadoras), afro-americanos, latinos, judeus, muçulmanos, budistas, hindus, sindicalistas, jovens, pobres, e pessoas de alta formação. As suas reivindicações chocam-se com as preferências dos que controlam o partido, incluindo Obama. Desta vez, a base manteve-se leal. Mesmo os que apoiaram candidatos de terceiros partidos, fizeram-no apenas em estados onde os democratas não podiam perder. Não houve estados indecisos (swing states) onde candidatos de terceiros partidos pudessem pôr em causa a eleição.
Será que os liberais do partido sairão agora para terceiros partidos? Parece, no momento, improvável, mas não é impossível. Depende em parte de quão dramática for a queda dos Estados Unidos nos próximos quatro anos. Depende de até que ponto Obama vai ceder em questões “populistas”.
A questão de fundo é que a reeleição de Obama fez alguma diferença, mas muito menos do que o próprio afirmava ou do que os republicanos temiam. Uma vez mais, recordo a todos que estamos a viver num mundo caótico em transição, no qual grandes mudanças de todos os tipos são parte da nossa realidade corrente, incluindo em matéria de lealdades políticas.
(*) Tradução, revista pelo autor, de Luis Leiria para o Esquerda.net
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
Carta aberta aos apoiadores do assentamento Milton Santos - por Passa Palavra
Carta aberta aos apoiadores do assentamento Milton Santos
O Assentamento Milton Santos está em perigo. Será que a militância do MST consegue dimensionar os impactos do possível precedente diante do qual está colocada? Por Passa Palavra
São sessenta e oito famílias assentadas no Milton Santos. Não se trata de um debate teórico nem uma disputa por espaços políticos. Trata-se de sessenta e oito famílias em luta pela terra. E se essa luta não for vitoriosa, ficará pendente uma grave ameaça sobre todos os assentamentos já constituídos.
O Assentamento Milton Santos só pode ser defendido graças ao apoio de todos. Mas esse apoio de todos significa, pela proporção de forças hoje existente, antes de mais — o apoio do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Ora, qual é a atitude da direção do MST?
Sobre a ação organizada na segunda-feira, dia 10 de dezembro, o site do MST declarou que ela se devera a “um grupo de famílias do Milton Santos, que não faz parte do MST”. Seria esse o momento oportuno para demarcar um distanciamento público? No entanto, aquela ação de segunda-feira, que lotou dois ônibus desde o Assentamento até ao escritório da Presidência da República na Avenida Paulista, não resultou da decisão de um ou dois dissidentes, mas de uma deliberação unânime tomada pela base assentada. Assim como todos os assentados do Milton Santos, sejam ou não dissidentes do MST, consideraram importante a realização também do ato conjunto na terça-feira, dia 11. Ora, na quarta-feira, dia 12, apesar de na véspera ter anunciado que a superintendência do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) em São Paulo fora ocupada “pela desapropriação definitiva de área do assentamento” e que iria “cobrar medidas concretas”, acrescentando que “permanecerão no local até que o Incra apresente um plano de trabalho contra o despejo do assentamento Milton Santos e de outras áreas ameaçadas pelo Poder Judiciário”, apesar disso o site do MST, ao dar a notícia de que saíram da superintendência em direção ao Assentamento Milton Santos, nada indicou sobre as “medidas concretas” nem sobre o “plano de trabalho contra o despejo”. Pior, a reportagem do Movimento alegou que, devido a um “imbróglio jurídico”, a presidente Dilma nada poderia fazer enquanto a Justiça não passasse as terras à família Abdalla. E assim vemos a direção do MST delegar ao Poder Judiciário a solução do problema. Com efeito, Delwek Mateus, membro da direção estadual do MST, declarou no site do Movimento: “Esperamos que o Poder Judiciário encontre uma alternativa para evitar um ‘novo Pinheirinho‘”. E isto apesar de Gilmar Mauro, membro da Direção Nacional do MST, ter afirmado, também no site do Movimento: “Estamos enfrentando essa ofensiva muito grande do Judiciário em relação às áreas de assentamento”. Quais são os interesses que levam a direção do MST, num momento em que seria necessária uma atitude firme e sem equívocos, a fazer declarações tão contraditórias?
Batalhas judiciais, como a que coloca sob ameaça o Assentamento Milton Santos, indicam estar havendo uma ação articulada entre o Poder Judiciário e empresas do agronegócio, que pretende avançar com força sobre assentamentos rurais consolidados proximamente aos centros urbanos. É o que acontece hoje, por exemplo, no Vale do Paraíba, no estado de São Paulo, mas também em regiões de Pernambuco e Minas Gerais. Um eventual revés sofrido pelo pequeno assentamento de Americana poderia dar impulso a uma dura etapa na história recente da luta pela terra no Brasil. Portanto, é indispensável o esforço tanto do MST como dos militantes que se separaram desse Movimento, e ainda dos núcleos de apoio ao assentamento e dos demais movimentos sociais, das fábricas ocupadas e dos sindicatos que despertem agora para a peleja. Mas quando observamos as persistentes ambiguidades do MST, será que a militância do Movimento — não a direção, mas a militância — consegue dimensionar os impactos do possível precedente diante do qual está colocada?
Será que a direção do MST se satisfaz com as promessas de Gilberto Carvalho de que o governo federal irá impor uma solução favorável às famílias assentadas no Milton Santos, considerando que não é necessária uma luta no terreno para que as promessas governamentais passem à prática?
Será que a direção do MST conta que o Incra indenize as famílias assentadas e as coloque em outro lugar, longe dos núcleos de apoio que até agora as têm ajudado na luta? Será que a direção do MST conta que o Incra disperse as famílias, desintegrando assim o possível ressurgimento de um foco de luta pela terra?
Ou será que o Assentamento Milton Santos se tornou incômodo para a direção do MST, porque contém elementos críticos e porque está insistindo em lutar na prática por meios que aparentemente já não são os do Movimento?
Estas questões são incômodas, mas são reais. São estas as questões que preocupam todos aqueles que se interessam em defender o Assentamento Milton Santos. Por isso o Passa Palavra as formula aqui claramente. Talvez não obtenhamos uma resposta. Mas, pelo menos, deixamos as perguntas.
Fotografias de Ana Bel.
Fonte: http://passapalavra.info/
A suprema justiça do espetáculo: o mensalão, o circo e nenhum pão - Por Mauro Iasi
A surprema justiça do espetáculo: o mensalão, o circo e nenhum pão.
Sem dúvida o nosso tempo… prefere a imagem à coisa (…)
Ele considera que a ilusão é sagrada, e a verdade é profana.
Guy Debord
Ele considera que a ilusão é sagrada, e a verdade é profana.
Guy Debord
Desde tempos imemoriais os seres humanos representam, isto é, transpõem a vida ao ritual, ao símbolo, à imagem, para olhá-la como num espelho e tentar reconhecer-se. No entanto, como nos explica Bakhtin, o signo não é uma simples reapresentação do real, ele reflete e refrata o real representado. No caso do ritual da justiça, o espetáculo não é mera expiação social do dano causado, ela é mais que isso, é catarse.
Os meios de comunicação transmitiram o espetáculo do julgamento do mensalão com o rigor do rito jurídico e com as sutilezas da performance circense, com direito a mágicos e suas capas e uma profusão de coelhos que saltavam de cartolas/pastas, equilibristas navegando de maneira instável em uma tênue linha que separa a verdade da ficção. Malabaristas jogavam suas palavras, termos jurídicos, citações filosóficas, tipificações do ato delituoso, atenuantes, impropérios e, lógico, os palhaços, esses artistas incompreendidos e adorados, com suas roupas extravagantes e enormes sapatos que distraem a atenção do público enquanto os funcionários trocam os cenários.
Inútil procurar os fatos, a sagrada verdade, sobre os entulhos de processos e recursos. Ela é o que menos importa, pois no espetáculo “tudo que era vivido diretamente tornou-se uma representação”, nos diz Debord (A sociedade do Espetáculo, Rio de Janeiro, Contraponto: 1997, 13).
O espetáculo é a afirmação da aparência, mas aparência não é falsidade que encobre um real, é a forma necessária de expressão deste real, nos termos de Marx a expressão invertida de um mundo invertido. O fato que origina a ação jurídica tem que se tornar abstrato para ser julgado, ele deixa de ser um ato que fere uma ou outra pessoa, ou as pessoas em seu conjunto como sociedade, mas deve ser tipificado como ação contrária a determinado preceito legal. Na abstração da norma positivada, o fato se vê e se reconhece, ou não, mas não pelo que é em si mesmo, mas pela habilidade dos advogados em reconstruí-lo para que se encontre nos termos abstratos da lei, ou dela destoe.
Desta maneira, o espetáculo jurídico, assim como todo espetáculo, assume uma forma tautológica, uma vez que “seus meios (são), ao mesmo tempo, seu fim” (idem, 17). Quando se chega ao fim do julgamento, a sentença proferida, a justiça é feita. Realiza-se lá, no espaço jurídico, o que deixou de se realizar no campo social onde se deu o fato. Este é o mecanismo primordial da catarse. Na vida tudo é muito complicado, as contas não fecham, nossos amores viram desamores, nossos carros não sobem montanhas, ficam presos no engarrafamento, nosso cigarro vira câncer de laringe; mas, na novela os casais se encontram, normalmente no último capítulo, e, no que nos interessa, os culpados são punidos e a justiça é feita.
É, no entanto, inegável que ao projetarmos a realização do desejo no outro sentimos em nós uma realização indireta. Pulamos de aviões, enfrentamos batalhas, vivemos grandes e avassaladoras paixões, voltamos no tempo e desvendamos os rincões mais distantes do espaço. Talvez, seja esse um elemento do ser social que em si mesmo não é um problema. Nossa projeção nos outros e mesmo a realização de nossos desejos na realização do outro, é próprio da sociabilidade humana, mas não é disso que se trata, mas de uma projeção na qual uma relação entre seres humanos assume a forma de uma relação entre coisas.
O fundamento da catarse é que projetamos para outro a realização de algo que por esse meio deixa de se realizar em nós, assim se aproxima do fenômeno da alienação e do estranhamento. No campo da política tal fenômeno está presente no mito fundador do Estado, tal como descrito pelas mãos de seus precursores contratualistas. Dizia Hobbes:
“Diz-se que um Estado foi instituído quando uma multidão de homens concordam e pactuam, cada um com cada um dos outros, que qualquer homem ou assembleia de homens a que sejam atribuídos pela maioria o direito de representar a pessoa de todos eles (ou seja, de ser seus representante), todos, sem exceção (…) deverão autorizar todos os atos e decisões desse homem ou assembleia de homens, tal como se fossem seus atos e decisões” (Hobbes, Leviatã, cap.XVIII).
Vejam, aqueles que “representam” decidem por nós, em nosso lugar. Os mais otimistas diriam: sim, mas e daí? É um ato legítimo de representação, em nosso nome, portanto, salvaguardando nossos interesses. O que os otimistas (ou ingênuos) não percebem é que a transposição para o universo simbólico e espetacular onde se dá a representação não é apenas a expressão refletida de nossa vontade como vontade geral, a refração que distorce toda representação é que os interesses particulares se apresentam como se fossem universais.
Vamos aos fatos. Vivemos em um presidencialismo de coalizão, isto é, o presidente governa construindo uma sustentação no Congresso (Senado e Câmara de Deputados). A sistemática política funciona no sentido de impor a necessidade de formar bancadas de sustentação entre forças distintas que ocupam, supostamente de maneira proporcional, os postos no legislativo. O meio consagrado de manter estas bancadas, condição essencial à governabilidade, é a troca de favores entre o executivo e o legislativo que pode se dar na divisão de cargos no governo, na aprovação de emendas ao orçamento, no direcionamento das ações públicas para áreas de interesse dos lobbies que os parlamentares representam.
Até aqui, a consciência condescendente de nossa época e a legislação considera legitimo e legal. O ato do espetáculo exige não apenas que os atores que representam atuem como se aquilo fosse o real, mas há a exigência de outra atuação complementar, aquela que impõe ao público que suponha real a atuação dos atores (a menos que estivéssemos diante do distanciamento brechitiano, que não cabe aqui). Assim, os governantes atuam desta forma como se fosse pelo interesse geral e o bom público finge acreditar.
O que os governantes sabem e o bom público também, é que este campo restrito de legalidade é constantemente subvertido por iniciativas que vão além do legal e do legítimo e a troca de favores inclui práticas diretas ou indiretas de corrupção. Longe de ser um desvio ou mau funcionamento de um sistema em si virtuoso, a corrupção é parte integrante e incontornável da forma de governo estabelecida. Mas para o bom andamento do espetáculo, todos temos que fingir que não sabíamos e, público e governantes, se mostrar surpresos (normalmente como mau atores) quando as práticas ilícitas se tornam visíveis.
As campanhas eleitorais, que são o ritual espetaculoso pelo qual se montam as representações governamentais e parlamentares, são fundamentalmente um ato explícito de corrupção e chantagem. Não importa que fira os mais elementares princípios da própria jurídicialidade burguesa. Vejam a distribuição do tempo de televisão (meio que, hoje, se tornou decisivo). Pela lei, ele é distribuído pelo tamanho das bancadas existentes, o que é absurdo uma vez que define uma proporção fundada nas eleições anteriores para um pleito aberto ao futuro e quebra a igualdade como condição da disputa. Tal procedimento abre a negociação pelo tempo em um verdadeiro balcão de negócios onde o que menos vale são programas e compromissos políticos fundados em interesses reais em disputa na sociedade (leia-se “de classes”).
Não se proíbe a mercantilização da política, mas a consciência piedosa de nossa época parece se espantar na hora de pagar pela compra realizada, como o desavisado no bordel se mostrando surpreso por não ter sido por amor. Não é menos corrupção, no exato sentido da palavra, um governo que mantêm as taxas de juros em patamares exorbitantes para atender as promessas de campanha ao setor bancário, ou que dirige as obras públicas em favor das grandes empreiteiras. Ele está pagando favores advindos do financiamento de campanha. Da mesma maneira os recursos oriundos destes financiamentos, sejam registrados e legalizados ou contabilizados no famoso caixa dois, são partilhados entre aqueles partidos e políticos que disciplinadamente mantiveram-se na sustentação do governo.
O PT tem razão em se mostrar indignado. Ele apenas atuou pelas mesmas regras que sempre se atuou no presidencialismo de coalizão, da mesma forma que os governos do PSDB, DEM e PPS, assim como o histórico fisiologismo do PMDB, sempre governaram. Seu engano, entre tantos, foi supor que tinha sido aceito no clube e receberia as mesmas prerrogativas que seus pares mais tradicionais. Acreditou que pelo fato de não abrir a caixa preta do governo FHC e expor as entranhas dos atos ilícitos ali praticados, não diferentes daqueles pelos quais foi julgado, ele seria poupado, numa espécie de crença ingênua de “amor, com amor se paga”, tendo que cantar, ao final, um samba amargurado: “você pagou com traição, a quem sempre lhe deu a mão”.
Havia outro caminho? Esta é uma pergunta difícil. Para aqueles que acreditam que a estratégia política passa pelo suposto controle de governo tal com está definido nos marcos do Estado Burguês, ou seja, aboliram de sua concepção política a noção de ruptura, infelizmente, não. Mas não há inevitabilidade na política. O equívoco maior do PT e de sua estratégia é se prender aos limites da governabilidade burguesa e das amarras do presidencialismos de coalizão. Havia sim oura sustentação política, mas esta se localizava fora do parlamento e dos marcos da institucionalidade burguesa: os movimentos sociais e a organização autônoma da classe trabalhadora.
Essa opção levaria a um governo de tensões e intensificação da luta de classes, opção descartada pelos estrategistas petistas. A opção pela governabilidade com base na adesão (compra) de partidos implicou na aceitação tácita e explícita dos meios necessários para isso que agora são julgados como imorais e ilegais (e são).
Por isso, há uma ironia na última reunião do diretório nacional do PT que aventou a possibilidade de chamar as massas e a militância em defesa do PT contra o STF. Não se pensou em mobilizar as energias militantes e a capacidade de luta da classe trabalhadora quando podia e devia, para impor uma governabilidade que se dirigisse contra os limites da ordem, para sustentar uma reforma política que supera-se as armadilhas da governabilidade viciada estabelecida, para garantir uma reforma agrária, para barrar o desmonte das políticas públicas, para defender a previdência, para barrar os transgênicos e a supremacia do agronegócio. Agora querem que os trabalhadores saiam em defesa do governo contra uma decisão da justiça, da representação suprema de uma ordem política e jurídica a qual o PT se rendeu como limite intransponível. É mais que irônico, é ridículo.
Neste ponto o PT, mais uma vez, se mostrou coerente. Acatou a decisão da justiça e desautorizou as manifestações de massa.
Diz, mais uma vez Debord:
“A alienação do espectador em favor do objeto contemplado (o que resulta de sua própria atividade inconsciente) se expressa assim: quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos compreende sua própria existência e seu próprio desejo” (Debord, op. cit. 24)
Quem produziu espectadores não pode esperar agora que hajam como atores.
Quando morre um palhaço, triste e solitário, com cirrose de tanto beber para enganar a tristeza da vida, o público nem percebe. No picadeiro há outro, com uma grossa camada de maquiagem, com suas roupas coloridas e um sorriso desenhado na cara.
O espetáculo não pode parar! Respeitável público…
Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
O fim dos paraísos fiscais segue uma promessa não cumprida – por Marcelo Justo - Londres
O fim dos paraísos fiscais segue uma promessa não cumprida
Em 2009, a cúpula do G20, que constitui cerca de 90% do PIB mundial anunciou “o fim da era dos paraísos fiscais”. O estouro financeiro e a crise mundial tinham feito disparar o alarme: era preciso curar um sistema cheio de buracos. Ao invés de terminar, a crise entrou em uma nova fase, a da dívida soberana. Enquanto isso – seis cúpulas do G20 mais tarde – os paraísos fiscais não ficaram sabendo que sua era havia acabado. Em 2010, só o Brasil tinha 520 bilhões de dólares em paraísos fiscais.
Londres - Em 2009, a segunda cúpula do G20, que constitui cerca de 90% do PIB mundial anunciou “o fim da era dos paraísos fiscais”. O estouro financeiro e a crise mundial tinham feito disparar o alarme: era preciso curar um sistema cheio de buracos. Ao invés de terminar, a crise entrou em uma nova fase, a da dívida soberana. Enquanto isso – seis cúpulas do G20 mais tarde – os paraísos fiscais não ficaram sabendo que sua era havia acabado.
Apesar dos discursos grandiloquentes, interesse criado e questionável vontade política para a erradicação dos paraísos fiscais há um crescente otimismo entre as organizações que lutam contra a evasão global. “Pela primeira vez vemos sinais que apontam para a criação de uma nova arquitetura global baseada na transparência fiscal e numa luta mais genuína contra os paraísos fiscais”, disse à Carta Maior, Nicholas Shaxon, autor de “Treausure Islands”, uma exaustiva análise sobre os paraísos fiscais.
A razão do otimismo de Shaxon e organizações como Tax Justice International reside em um princípio tão simples que custa crer que toda a suposta massa cinzenta do G20 ou da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) não a tenham concebido antes: o intercâmbio automático de informação. Sob este princípio os governos estão obrigados por lei a informar sobre o dinheiro e bens dos cidadãos estrangeiros a seus países de origem.
“O sistema proposto pelo G20 em 2009 se baseava na obrigação de informar ante um pedido concreto de um país. Isso obrigava o governo a ter o dado de antemão da pessoa em questão para fazer o correspondente pedido de informação. Os paraísos fiscais assinaram em seguida seu acordo com essa medida porque ela tinha um impacto nulo.
Com o princípio de intercâmbio automático, isso muda por completo porque os governos têm a obrigação legal de fornecer a informação, haja ou não um pedido a respeito”, explica Shaxon.
Este novo princípio é a base de uma lei europeia e outra que entrará em vigor nos Estados Unidos no próximo ano para as instituições financeiras.
Segundo publicou no final de novembro o jornal dominical britânico “The Observer”, o Reino Unido – país líder na evasão fiscal internacional, segundo a Tax Justice International – planeja uma lei similar para os estadunidenses para obrigar os paraísos fiscais a revelar os nomes que escondem por trás de empresas e colônias que tem como endereço uma caixa postal ou um correio eletrônico.
O imperativo econômico e político destas iniciativas é evidente. A União Europeia e os Estados Unidos têm sérios problemas fiscais que não podem ser resolvidos com o simples e expeditivo recurso de cortar “ad eternum” o gasto em programas sociais. Mas as próprias ONGs reconhecem que as atuais iniciativas estão cheias de brechas legais. No caso europeu, a UE está debatendo uma série de emendas que permitiram tapar esses furos que facilitam a elisão fiscal (espécie de evasão amparada pela lei). Essas emendas desataram uma contraofensiva liderada pela Suíça com apoio da Áustria, Luxemburgo e o principado de Liechtenstein para forçar acordo bilaterais que permitam conservar o sigilo fiscal com os países mais poderosos, em especial a Alemanha e o Reino Unido,
Essa queda de braço diplomática será chave na luta contra a evasão. “No dia 23 de novembro, a Câmara baixa alemã rechaçou um acordo bilateral com a Suíça, desferindo um virtual tiro de misericórdia. A posição do Reino Unido é mais ambivalente. Por um lado está pressionado por seus problemas fiscais e uma economia que acaba de sair de uma dupla recessão, mas não da estagnação. Por outro, é um centro financeiro que se beneficia da existência dos paraísos fiscais”, assinala Shaxon.
Se na Europa e no mundo desenvolvido as contradições entre distintos setores sociais e países começam a se tornar evidentes, na América Latina apenas está se falando de um tema que deveria ser central na agenda. Em junho, a Rede de Justiça Fiscal publicou um denso informe, “The Price of Offschore revisited”, no qual mostrava que quatro países latino-americanos se encontravam entre as 20 nações que mais tem dinheiro depositado em paraísos fiscais. O Brasil encabeçava a lista regional com cerca de 520 bilhões de dólares em paraísos fiscais em 2010, seguido pelo México com 417 bilhões, a Venezuela com 406 bilhões e a Argentina com 399 bilhões.
Segundo Jorge Gaggero, membro da Rede de Justiça Fiscal da América Latina (associada à Tax Justice International), a região avançou muito pouco neste capítulo. “Estamos muito longe da aplicação deste princípio. A isso se agrega outro problema. O primeiro mundo está começando a aplicá-lo, mas de uma maneira assimétrica. Uma coisa é o que fazem com seus próprios capitais fora de seus países. Outra é a conduta que seguem com os capitais de outros países que terminam fugindo de seu controle”, indicou Gaggero à Carta Maior.
Os Estados Unidos são um claro exemplo dessa assimetria. A lei para que as instituições financeiras revelem as contas de seus cidadãos no estrangeiro é contraditória com a absoluta confidencialidade que lhe outorgam ao cliente ou investidor estrangeiro quando deposita seu dinheiro nos EUA.
A presidenta Cristina Kirchner se referiu a essa contradição na cúpula do Mercosul que celebrou a incorporação da Venezuela ao bloco em julho quando exigiu dos países centrais mais segurança financeira. “Basta de paraísos fiscais e duplo discurso”, disse a presidenta. Neste sentido, o Mercosul poderia ser um ponto de partida para uma ação conjunta, mas - como uma clara mostra da complexidade das coisas – conta com o obstáculo representado por um de seus membros, o Uruguai, qualificado de paraíso fiscal pelo G20 em 2009 e com algumas queixas próprias sobre as assimetrias que existem no bloco.
Tradução: Katarina Peixoto
Apesar dos discursos grandiloquentes, interesse criado e questionável vontade política para a erradicação dos paraísos fiscais há um crescente otimismo entre as organizações que lutam contra a evasão global. “Pela primeira vez vemos sinais que apontam para a criação de uma nova arquitetura global baseada na transparência fiscal e numa luta mais genuína contra os paraísos fiscais”, disse à Carta Maior, Nicholas Shaxon, autor de “Treausure Islands”, uma exaustiva análise sobre os paraísos fiscais.
A razão do otimismo de Shaxon e organizações como Tax Justice International reside em um princípio tão simples que custa crer que toda a suposta massa cinzenta do G20 ou da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) não a tenham concebido antes: o intercâmbio automático de informação. Sob este princípio os governos estão obrigados por lei a informar sobre o dinheiro e bens dos cidadãos estrangeiros a seus países de origem.
“O sistema proposto pelo G20 em 2009 se baseava na obrigação de informar ante um pedido concreto de um país. Isso obrigava o governo a ter o dado de antemão da pessoa em questão para fazer o correspondente pedido de informação. Os paraísos fiscais assinaram em seguida seu acordo com essa medida porque ela tinha um impacto nulo.
Com o princípio de intercâmbio automático, isso muda por completo porque os governos têm a obrigação legal de fornecer a informação, haja ou não um pedido a respeito”, explica Shaxon.
Este novo princípio é a base de uma lei europeia e outra que entrará em vigor nos Estados Unidos no próximo ano para as instituições financeiras.
Segundo publicou no final de novembro o jornal dominical britânico “The Observer”, o Reino Unido – país líder na evasão fiscal internacional, segundo a Tax Justice International – planeja uma lei similar para os estadunidenses para obrigar os paraísos fiscais a revelar os nomes que escondem por trás de empresas e colônias que tem como endereço uma caixa postal ou um correio eletrônico.
O imperativo econômico e político destas iniciativas é evidente. A União Europeia e os Estados Unidos têm sérios problemas fiscais que não podem ser resolvidos com o simples e expeditivo recurso de cortar “ad eternum” o gasto em programas sociais. Mas as próprias ONGs reconhecem que as atuais iniciativas estão cheias de brechas legais. No caso europeu, a UE está debatendo uma série de emendas que permitiram tapar esses furos que facilitam a elisão fiscal (espécie de evasão amparada pela lei). Essas emendas desataram uma contraofensiva liderada pela Suíça com apoio da Áustria, Luxemburgo e o principado de Liechtenstein para forçar acordo bilaterais que permitam conservar o sigilo fiscal com os países mais poderosos, em especial a Alemanha e o Reino Unido,
Essa queda de braço diplomática será chave na luta contra a evasão. “No dia 23 de novembro, a Câmara baixa alemã rechaçou um acordo bilateral com a Suíça, desferindo um virtual tiro de misericórdia. A posição do Reino Unido é mais ambivalente. Por um lado está pressionado por seus problemas fiscais e uma economia que acaba de sair de uma dupla recessão, mas não da estagnação. Por outro, é um centro financeiro que se beneficia da existência dos paraísos fiscais”, assinala Shaxon.
Se na Europa e no mundo desenvolvido as contradições entre distintos setores sociais e países começam a se tornar evidentes, na América Latina apenas está se falando de um tema que deveria ser central na agenda. Em junho, a Rede de Justiça Fiscal publicou um denso informe, “The Price of Offschore revisited”, no qual mostrava que quatro países latino-americanos se encontravam entre as 20 nações que mais tem dinheiro depositado em paraísos fiscais. O Brasil encabeçava a lista regional com cerca de 520 bilhões de dólares em paraísos fiscais em 2010, seguido pelo México com 417 bilhões, a Venezuela com 406 bilhões e a Argentina com 399 bilhões.
Segundo Jorge Gaggero, membro da Rede de Justiça Fiscal da América Latina (associada à Tax Justice International), a região avançou muito pouco neste capítulo. “Estamos muito longe da aplicação deste princípio. A isso se agrega outro problema. O primeiro mundo está começando a aplicá-lo, mas de uma maneira assimétrica. Uma coisa é o que fazem com seus próprios capitais fora de seus países. Outra é a conduta que seguem com os capitais de outros países que terminam fugindo de seu controle”, indicou Gaggero à Carta Maior.
Os Estados Unidos são um claro exemplo dessa assimetria. A lei para que as instituições financeiras revelem as contas de seus cidadãos no estrangeiro é contraditória com a absoluta confidencialidade que lhe outorgam ao cliente ou investidor estrangeiro quando deposita seu dinheiro nos EUA.
A presidenta Cristina Kirchner se referiu a essa contradição na cúpula do Mercosul que celebrou a incorporação da Venezuela ao bloco em julho quando exigiu dos países centrais mais segurança financeira. “Basta de paraísos fiscais e duplo discurso”, disse a presidenta. Neste sentido, o Mercosul poderia ser um ponto de partida para uma ação conjunta, mas - como uma clara mostra da complexidade das coisas – conta com o obstáculo representado por um de seus membros, o Uruguai, qualificado de paraíso fiscal pelo G20 em 2009 e com algumas queixas próprias sobre as assimetrias que existem no bloco.
Tradução: Katarina Peixoto
Fonte: http://www.cartamaior.com.br
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
Noam Chomsky e Tariq Ali debatem as novas revoluções no Oriente Médio - por Julian Assange/Agênca Pública
Noam Chomsky e Tariq Ali debatem as novas revoluções no Oriente Médio
Ícones da esquerda mundial olham a América latina progressista como inspiração para novos modelos de sociedade
Ninguém poderia tê-las previsto. Mas ainda com o mundo sob o efeito das revoluções no Oriente Médio, o jornalista australiano Julian Assange se reuniu com dois pensadores de peso para saber o que eles pensam sobre o futuro.
Noam Chomsky, renomado linguista e pensador rebelde, e Tariq Ali, romancista de revoluções e historiador militar, encontram na Primavera Árabe questões sobre a independência das nações, a crise da democracia, sistemas políticos eficientes (ou não) e a legião de jovens ativistas que tem se levantado para protestar no mundo todo. ”A democracia é como uma concha vazia, e é isso que está revoltando a juventude, ela sente que faça o que fizer, vote em quem votar, nada vai mudar. Daí todos esses protestos”, explica Ali.
Noam Chomsky, renomado linguista e pensador rebelde, e Tariq Ali, romancista de revoluções e historiador militar, encontram na Primavera Árabe questões sobre a independência das nações, a crise da democracia, sistemas políticos eficientes (ou não) e a legião de jovens ativistas que tem se levantado para protestar no mundo todo. ”A democracia é como uma concha vazia, e é isso que está revoltando a juventude, ela sente que faça o que fizer, vote em quem votar, nada vai mudar. Daí todos esses protestos”, explica Ali.
“O que temos na política ocidental não é a extrema esquerda e nem a extrema-direita, mas um extremo-centro”, continua ele. “E esse extremo centro engloba tanto a centro-direita quanto a centro-esquerda, que concordam em fundamentos: travando guerras no exterior, ocupando países e punindo os pobres, punindo por meio de medidas de austeridade. Não importa qual o partido no poder, seja nos Estados Unidos ou no mundo ocidental”.
Segundo o próprio Ali, a grande crise da democracia está pulsando nas mãos das corporações. “Quando você tem dois países europeus, como a Grécia e a Itália, e os políticos abdicando e dizendo ‘deixem os banqueiros comandar’… Para onde isso está indo? O que nós estamos testemunhando é a democracia se tornando cada vez mais despida de conteúdo”, critica o ativista.
Mas após as revoluções, as conquistas vêm da construção de novos modelos políticos, inventados. Chomsky cita a Bolívia como exemplo. “Eu não acho que as potências populares preocupadas em mudar suas próprias sociedades deveriam procurar modelos. Deveriam criar os modelos”. Para ele, a chegada da população indígena ao poder político através da figura de Evo Morales está se replicando no Equador e no Peru. “É melhor o Ocidente captar rápido alguns aspectos desses modelos, ou então ele vai se acabar”, alerta Chomsky.
Por outro lado, está na mãos dos jovens perceber a necessidade de agir, segundo Tariq Ali. “Não desistam. Tenham esperança. Permaneçam céticos. Sejam críticos com o sistema que tem nos dominado. E mais cedo ou mais tarde, se não essa geração, então nas próximas, as coisas vão mudar”.
O projeto “O Mundo Amanhã” foi produzido pelo WikiLeaks em parceria com o canal RT, da Rússia. A publicação foi autorizada pela Agência Pública.
Assista a entrevista a seguir, ou clique aqui para baixar o texto na íntegra.
Mas após as revoluções, as conquistas vêm da construção de novos modelos políticos, inventados. Chomsky cita a Bolívia como exemplo. “Eu não acho que as potências populares preocupadas em mudar suas próprias sociedades deveriam procurar modelos. Deveriam criar os modelos”. Para ele, a chegada da população indígena ao poder político através da figura de Evo Morales está se replicando no Equador e no Peru. “É melhor o Ocidente captar rápido alguns aspectos desses modelos, ou então ele vai se acabar”, alerta Chomsky.
Por outro lado, está na mãos dos jovens perceber a necessidade de agir, segundo Tariq Ali. “Não desistam. Tenham esperança. Permaneçam céticos. Sejam críticos com o sistema que tem nos dominado. E mais cedo ou mais tarde, se não essa geração, então nas próximas, as coisas vão mudar”.
O projeto “O Mundo Amanhã” foi produzido pelo WikiLeaks em parceria com o canal RT, da Rússia. A publicação foi autorizada pela Agência Pública.
Assista a entrevista a seguir, ou clique aqui para baixar o texto na íntegra.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
sábado, 8 de dezembro de 2012
O comunismo ético de Oscar Niemeyer - Por Leonardo Boff
O comunismo ético de Oscar Niemeyer
Sua grandeza não reside apenas na sua genialidade, reconhecida e louvada no mundo inteiro. Mas na sua concepção da vida e da profundidade de seu comunismo
Não tive muitos encontros com Oscar Niemeyer. Mas os que tive foram longos e densos. Que falaria um arquiteto com um teólogo senão sobre Deus, sobre religião, sobre a injustiça dos pobres e sobre o sentido da vida?
Nas nossas conversas, sentia alguém com uma profunda saudade de Deus. Invejava-me que, me tendo por inteligente (na opinião dele) ainda assim acreditava em Deus, coisa que ele não conseguia. Mas eu o tranquilizava ao dizer: o importante não é crer ou não crer em Deus. Mas viver com ética, amor, solidariedade e compaixão pelos que mais sofrem. Pois, na tarde da vida, o que conta mesmo são tais coisas. E nesse ponto ele estava muito bem colocado. Seu olhar se perdia ao longe, com leve brilho.
Impressionou-se sobremaneira, certa feita, quando lhe disse a frase de um teólogo medieval: “Se Deus existe como as coisas existem, então Deus não existe”. E ele retrucou: “mas que significa isso?” Eu respondi: “Deus não é um objeto que pode ser encontrado por ai; se assim fosse, ele seria uma parte do mundo e não Deus”. Mas então, perguntou ele: “que raio é esse Deus?” E eu, quase sussurrando, disse-lhe: “É uma espécie de Energia poderosa e amorosa que cria as condições para que as coisas possam existir; é mais ou menos como o olho: ele vê tudo mas não pode ver a si mesmo; ou como o pensamento: a força pela qual o pensamento pensa, não pode ser pensada”. E ele ficou pensativo. Mas continuou: “a teologia cristã diz isso?” Eu respondi: “diz mas tem vergonha de dizê-lo, porque então deveria antes calar que falar; e vive falando, especialmente os Papas”. Mas consolei-o com uma frase atribuída a Jorge Luis Borges, o grande argentino:”A teologia é uma ciência curiosa: nela tudo é verdadeiro, porque tudo é inventado”. Achou muita graça. Mais graça achou com uma bela trouvaille de um gari do Rio, o famoso “Gari Sorriso: “Deus é o vento e a lua; é a dinâmica do crescer; é aplaudir quem sobe e aparar quem desce”. Desconfio que Oscar não teria dificuldade de aceitar esse Deus tão humano e tão próximo a nós.
Mas sorriu com suavidade. E eu aproveitei para dizer: “Não é a mesma coisa com sua arquitetura? Nela tudo é bonito e simples, não porque é racional mas porque tudo é inventado e fruto da imaginação”. Nisso ele concordou adiantando que na arquitetura se inspira mais lendo poesia, romance e ficção do que se entregando a elucubrações intelectuais. E eu ponderei: “na religião é mais ou menos a mesma coisa: a grandeza da religião é a fantasia, a capacidade utópica de projetar reinos de justiça e céus de felicidade. E grande pensadores modernos da religião como Bloch, Goldman, Durkheim, Rubem Alves e outros não dizem outra coisa: o nosso equívoco foi colocar a religião na razão quando o seu nicho natural se encontra no imaginário e no princípio esperança. Ai ela mostra a sua verdade. E nos pode inspirar um sentido de vida.”
Para mim a grandeza de Oscar Niemeyer não reside apenas na sua genialidade, reconhecida e louvada no mundo inteiro. Mas na sua concepção da vida e da profundidade de seu comunismo. Para ele “a vida é um sopro”, leve e passageiro. Mas um sopro vivido com plena inteireza. Antes de mais nada, a vida para ele não era puro desfrute, mas criatividade e trabalho. Trabalhou até o fim, como Picazzo, produzindo mais de 600 obras. Mas como era inteiro, cultivava as artes, a literatura e as ciências. Ultimamente se pôs a estudar cosmologia e física quântica. Enchia-se de admiração e de espanto diante da grandeur do universo.
Mas mais que tudo cultivou a amizade, a solidariedade e a benquerença para com todos. “O importante não é a arquitetura” repetia muitas vezes, “o importante é a vida”. Mas não qualquer vida; a vida vivida na busca da transformação necessária que supere as injustiças contra os pobres, que melhore esse mundo perverso, vida que se traduza em solidariedade e amizade. No JB de 21/04/2007 confessou: ”O fundamental é reconhecer que a vida é injusta e só de mãos dadas, como irmãos e irmãs, podemos vive-la melhor”.
Seu comunismo está muito próximo daquele dos primeiros cristãos, referido nos Atos dos Apóstolos nos capítulos 2 e 4. Ai se diz que “os cristãos colocavam tudo em comum e que não havia pobres entre eles”. Portanto, não era um comunismo ideológico mas ético e humanitário: compartilhar, viver com sobriedade, como sempre viveu, despojar-se do dinheiro e ajudar a quem precisasse. Tudo deveria ser comum. Perguntado por um jornalista se aceitaria a pílula da eterna juventude, respondeu coerentemente: “aceitaria se fosse para todo mundo; não quero a imortalidade só para mim”.
Um fato ficou-me inesquecível. Ocorreu nos inícios dos anos 80 do século passado. Estando Oscar em Petrópolis, me convidou para almoçar com ele. Eu havia chegado naquele dia de Cuba, onde, com Frei Betto, durante anos dialogávamos com os vários escalões do governo (sempre vigiados pelo SNI), a pedido de Fidel Castro, para ver se os tirávamos da concepção dogmática e rígida do marxismo soviético. Eram tempos tranquilos em Cuba que, com o apoio da União Soviética, podia levar avante seus esplêndidos projetos de saúde, de educação e de cultura. Contei que, por todos os lados que tinha ido em Cuba, nunca encontrei favelas mas uma pobreza digna e operosa. Contei mil coisas de Cuba que, segundo Frei Betto, na época era “uma Bahia que deu certo”. Seus olhos brilhavam. Quase não comia. Enchia-se de entusiasmo ao ver que, em algum lugar do mundo, seu sonho de comunismo poderia, pelo menos em parte, ganhar corpo e ser bom para as maiorias.
Qual não foi o meu espanto quando, dois dias após, apareceu na Folha de S. Paulo, um artigo dele com um belo desenho de três montanhas, com uma cruz em cima. Em certa altura dizia: “Descendo a serra de Petrópolis ao Rio, eu que sou ateu, rezava para o Deus de Frei Boff para que aquela situação do povo cubano pudesse um dia se realizar no Brasil”. Essa era a generosidade cálida, suave e radicalmente humana de Oscar Niemeyer.
Guardo uma memória perene dele. Adquiri de Darcy Ribeiro, de quem Oscar era amigo-irmão, uma pequeno apartamento no bairro do Alto da Boa-Vista, no Vale Encantado. De lá se avista toda a Barra da Tijuca até o fim do Recreio dos Bandeirantes. Oscar reformou aquele apartamento para o seu amigo, de tal forma que de qualquer lugar que estivesse, Darcy (que era pequeno de estatura), pudesse ver sempre o mar. Fez um estrado de uns 50 centrímetros de altura e, como não podia deixar de ser, com uma bela curva de canto, qual onda do mar ou corpo da mulher amada. Ai me recolho quando quero escrever e meditar um pouco, pois um teólogo deve cuidar também de salvar a sua alma.
Por duas vezes se ofereceu para fazer uma maquete de igrejinha para o sítio onde moro em Araras, em Petrópolis. Relutei, pois considerava injusto valorizar minha propriedade com uma peça de um gênio como Oscar. Finalmente, Deus não está nem no céu nem na terra, está lá onde as portas da casa estão abertas.
A vida não está destinada a desaparecer na morte mas a se transfigurar alquimicamente através da morte. Oscar Niemeyer apenas passou para o outro lado da vida, para o lado invisível. Mas o invisível faz parte do visível. Por isso ele não está ausente, mas está presente, apenas invisível. Mas sempre com a mesma doçura, suavidade, amizade, solidariedade e amorosidade que permanentemente o caracterizou. E de lá onde estiver, estará fantasiando, projetando e criando mundos belos, curvos e cheios de leveza.

- Leonardo Boff é Teólogo e filósofo

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Fonte: http://revistaforum.com.br/
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Latuff volta a ser voz pela Palestina - por Marta Molina
Em entrevista a nossa correspondente no México, cartunista brasileiro cuja arte corre o mundo sustenta: “comunicador precisa escolher seu lado”
As caricaturas em forma de história em quadrinhos do desenhista brasileiro Carlos Latuff conseguiram transpor fronteiras. Fizeram isso durante o ataque de Israel à Faixa de Gaza, no Território Ocupado Palestino; durante a Primavera Árabe, no Egito; e até mesmo nas últimas eleições mexicanas, para evidenciar a fraude eleitoral. Ele tem trabalhos sobre o movimento das Mães de Maio de São Paulo, sobre a guerra na Síria, sobre a luta da APPO (Assembleia Popular dos Povos em Oaxaca) e sobre o duopólio da mídia composto pela Televisa e pela TV Azteca, recentemente denunciado pelo movimento Yosoy132.
Latuff maneja sua indignação com a arma que melhor sabe usar: seus desenhos, sua arte. Na semana passada esteve novamente expressando sua opinião sobre a guerra que acontece no Território Palestino Ocupado e que, segundo ele, é quase um déjà vu do que ocorreu em outros momentos eleitorais: “Quando se aproximam as eleições, Israel decide atacar Gaza. É mais ou menos assim: se você tem problemas ou se sente inseguro diante de uma eleição, inventa uma guerra e assim sua popularidade aumenta. Até mesmo os candidatos de oposição em Israel apoiaram o ataque a Gaza”.
Entramos em conexão com Carlos Latuff por meio de uma videoconferência, de casa para casa, de mesa para mesa, de laptop para laptop, da Cidade do México ao Rio de Janeiro, e recordando um português um pouco oxidado, mas ainda decente. Depois de repassar os movimentos de resistência indígena contra os megaprojetos no Brasil, os indignados da Espanha e a crise, os Ocuppy de Wall Street, os Zapatistas e os YoSoy132, aterrizamos no Oriente Médio, mais concretamente na guerra de Gaza.
Durante aproximadamente uma hora e meia conversamos sobre a importância da criatividade e da arte como formas de resistência. Sobretudo, debatemos a necessidade de que existam artistas, desenhistas e jornalistas independentes, que reportem com liberdade movimentos de resistência ou situações de conflito no mundo. Como ele diz, “fazendo o que a mídia comercial não faz” para viralizar a mensagem com a autonomia – e ao mesmo tempo a responsabilidade – que as redes sociais e a internet, em geral, possibilitam. “Seu trabalho também pode inspirar movimentos”, diz ele. De sua casa no Rio de Janeiro, com uma conta de Twitter (@CarlosLatuf) e seu blog, conseguiu fazer com que seus desenhos fossem impressos em banners durante a Primavera Árabe ou reproduzidos em forma de grafite nas paredes do Bahrein. Semana passada, suas imagens sobre a guerra em Gaza deram novamente a volta ao mundo, levando sua opinião que, como ele diz, “não saiam nunca na mídia mainstream do Ocidente”.
O que você tenta dizer, por meio das suas criações, a respeito do que acontece em Gaza?
Meus desenhos refletem a indignação de alguém que não consegue ver a realidade através dos meios tradicionais de comunicação. Creio que a mídia mainstream toma partido, quando fala sobre o que acontece em Gaza. Todos tomamos partido, mas o lado da mídia comercial é sem dúvida pró-Israel, o lado dos Estados Unidos, do pensamento ocidental. O que tento fazer com meus desenhos é expressar minha opinião e mostrar o outro lado, o dos palestinos, que é o que não se mostra. Quando você assiste televisão, percebe que existe uma tendência para justificar os crimes cometidos pelo estado de Israel em nome de uma pretensa “autodefesa” ou “segurança”. O que tento fazer com as minhas vinhetas é expor essas contradições do discurso da imprensa, do discurso do governo de Israel.
Você vê seu trabalho como um instrumento de resistência?
Sem dúvida. Todo o mundo tem um lado e você, como jornalista independente, também tem o seu. A questão é saber a serviço de quem coloca a sua força de trabalho. Se está trabalhando para uma causa popular ou a serviço de um editor, uma editora ou uma publicação que tem interesses corporativos. Quando se é um jornalista independente, assume-se um lado, claro, mas geralmente é a parte mais desfavorecida, o lado mais fraco da corda e que precisa ser reforçado. Você como jornalista independente e eu como caricaturista devemos fazer o contraponto.
Então existe uma tendência que leva a gente a olhar somente para um lado? Uma espécie de consenso, de todos irem na mesma direção, sem discutir a versão apresentada pela mídia comercial?
A imprensa leva as pessoas a se posicionar do seu lado e nós fazemos exatamente o contrário. Não seguimos a massa, não somos peões nem cordeiros, pensamos por nós mesmos, não temos “o rabo preso”, não nos sentimos amarrados nem obrigados a seguir a posição de alguém. Temos a mente e o coração livres para pensar livremente e trabalhar nossas opiniões sem pressões, de forma independente.
Não seria o momento de começar a construir um movimento de jornalistas e comunicadores organizados para mostrar esse outro ponto de vista, independente e necessário?
Sim. Penso mesmo que a internet chegou para ajudar muito nesse sentido. Nos anos 1980, por exemplo, a única forma que havia de publicar minhas vinhetas era por intermédio de um grande jornal. A única maneira de fazer com que meus desenhos chegassem a um público estrangeiro era publicando-os em revistas como Time e Newsweek, a mídia mainstream internacional. E era bem difícil. Agora, a internet ajuda a viralizar o trabalho e a fazer com que chegue a lugares recônditos do mundo. Sem essa ferramenta, meus desenhos estariam restritos ao Rio de Janeiro ou à imprensa sindical em que trabalho e que, infelizmente, não tem muito alcance. Definitivamente, se não fosse pela internet, pela mídia independente, pelos muitos blogs, pelo Twitter ou pelo Facebook, muitos não me conheceriam.
Que lições nos legou a Primavera Árabe quanto a isso?
Legou muitas lições sobre comunicação. Por exemplo, acompanhei a revolta egípcia do começo ao fim através do Twitter. E posso dizer que as coisas que os egípcios não conseguiam ler nos jornais ou ver nas tevês egípcias – seja porque não era permitido ou porque não queriam divulgar – podiam ler no Twitter. Os desenhos que fiz sobre o início da revolução no Egito não foram publicados nos jornais egípcios – com exceção de alguns. Inclusive, quando a junta militar assumiu, o desenho que fiz dos generais egípcios não foi publicado, mas ainda assim as pessoas tiveram acesso a ele graças à internet.
A internet estimulou a criação de redes de jornalistas independentes?
Sim. Existe hoje a possibilidade de trabalhar por internet um conteúdo que não seja associado a grandes jornais, a grandes redes de tevê. Além disso, precisamos de uma comunicação independente que não esteja vinculada a meios corporativos e creio que a internet ajudou muito nesse sentido.
Seu material, seus desenhos, se viralizaram inclusive fora da rede. As pessoas os imprimiam, faziam banners e iam com eles para as manifestações. Criações como as suas ajudam a fortalecer um movimento social?
Creio que o forte dos meus desenhos é que são utilizados para além da função editorial. As pessoas que vêm meus desenhos não apenas os guardam em um livro, uma revista, um jornal. Levam-nos para protestos, manifestações. As caricaturas têm uma importância chave. Para o militante, passaram a ser um instrumento de luta. O desenho é sua voz e expressa, sem palavras, o que está sentindo. Foi o que aconteceu durante a Primavera Árabe: as pessoas imprimiam o desenho e o levavam para as ruas porque se sentiam identificadas com aquelas imagens.
É importante que se produza uma arte que não seja apenas para ser publicada em um jornal, mas que possa ser reproduzida em qualquer espaço. Seja em um estêncil, uma camiseta ou um grafite, como fizeram no Bahrein. Muitos de meus trabalhos transformaram-se em grafites nas paredes do Bahrein e do Egito. Quando você coloca seu trabalho a serviço das causas sociais populares e os militantes, os manifestantes, os ativistas e organizadores o utilizam para essa luta, então a arte se torna um instrumento de resistência. Assim também com o jornalismo independente.
Você fez alguns desenhos sobre o Occupy Wall Street. Como vê agora esse movimento?
O problema do Occupy Wall Street é que agora não tem um objetivo concreto. Se quer canalizar sua indignação, tudo bem, mas precisa ter um objetivo. Então, ocupamos Wall Street – e o que fazemos agora? Enfim, continuaremos, como se diz em português, “pisando no calo”, isto é, perturbando, incomodando, mas também expressando nossa indignação com a arma de resistência que manejamos melhor – no meu caso, a caricatura.
Tradução: Inês Castilho | Imagens: Carlos Latuff
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